Raimundo JosĂŠ Guedes 2010
verso da capa Pรกgina em Branco
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Guedes, Raimundo Minha História Minha Vida – 1ª ed. / Raimundo José Guedes – Itabira: Gráfica Vip, 2010. 89 p.: Bibliografia
1. Histórias pessoais. 2. Autobiografia
“As coisas findas, Muito mais que lindas, Estas ficarão”. Carlos Drummond de Andrade “Memória”
Agradecimentos Nesta trajetória de vida, contada neste livro, quero prestar uma homenagem especial a duas pessoas que foram muito importantes na minha caminhada, pois sem eles talvez, não estivesse aqui. Mesmo não sendo meus pais biológicos, me ensinaram os primeiros passos, deram-me uma boa educação e muito carinho. Enfim, prepararam-me para enfrentar este mundo com muita sabedoria. São eles Armando Lage e Guida da Costa Lage. Agradeço a DEUS por ter colocado estas pessoas tão carismáticas no meu caminho. Presto homenagem também à minha família, minha razão de ser. À minha mãe no céu Maria Augusta, minha amada esposa Laís e a todos que surgiram daí. À professora Tânia Ramos, da UFSC, a gratidão pela primeira leitura. Muito obrigado!
- Joaquina, corre, chame o médico!!!! A Maria tá morrendo! Eu tinha acabado de sair da barriga da minha mãe e não entendia aquela correria toda. Não sabia por que gritavam. E o médico que não chegava? Ele estava a várias horas a cavalo da fazenda onde eu nasci e não chegaria com facilidade. O tempo conspirava contra minha mãe, que sofria muito. Minha mãe Maria sobreviveu apenas três dias após meu nascimento. A patroa, preocupada, pensava no futuro daquelas três crianças... Sá Guida tinha prometido a minha mãe, enquanto lutava para salvar sua vida, que cuidaria dos meninos - em especial de Raimundo (eu!) que era o mais novo e mais indefeso. Mas ela sabia que não seria uma tarefa fácil.
Prefácio Esta é uma história de superação, vida, de amor. Conta a vida de um homem simples, mas guerreiro e apaixonado, que se casou com o amor de sua vida, vencendo muitos obstáculos e construindo uma linda família - como toda família, tem seus problemas. Mas é essencialmente uma família linda, unida e trabalhadora. É também uma história de sucesso - não o sucesso que vemos propagado por aí. É o sucesso da vitória do amor, do trabalho, da honestidade e da perseverança. É a prova concreta de que o bem faz bem! Que os bons exemplos, o trabalho e o amor prosperam! É, assim, um testemunho de vida. Um exemplo que vale a pena ser seguido. Raimundo José Guedes, um homem comum, mas incomum! Sempre a frente do seu tempo, de alma pura – sem debates, sem comícios, nunca se rendeu aos preconceitos de sua época. E enxergava longe. Sabia que sua pouca instrução o limitava e, assim, lutava com todas as forças para que seus oito filhos frequentassem e brilhassem na escola. Não acumulou dinheiro, pois a luta foi muito árdua. Mas vive dignamente, na permanente luta. E tem um patrimônio invejável: uma família consolidada, unida, honesta e dedicada. E uma vida ao lado do seu amor de adolescência, Laís. E comemoram agora 50 anos de casados! Erivelton
Índice Capítulo I -
Década de 1930.............................................................. 8
Capítulo II -
Década de 1940............................................................ 19
Capítulo III - Década de 1950............................................................ 23 Capítulo IV - Década de 1960............................................................ 36 Capítulo V -
Conhecendo os irmãos ................................................. 44
Capítulo VI - Itabira - 1964 ................................................................ 46 Capítulo VII - Década de 1970 – a obra............................................. 56 Capítulo VIII - Alternativas diferentes................................................. 70 Capítulo IX - Década de 1980............................................................ 74 O Aniversário de tia Alzira na roça....................................................77
Capítulo X -
Novos tempos............................................................... 82
Anexo - resumo dos personagens ...................................................... 85
Minha História Minha Vida
Capítulo I -
Década de 1930
P
or volta de 1930, o país era predominantemente rural. O mundo ainda estava de ressaca da grande crise econômica de 1929. Lá fora Hitler, ainda pouco conhecido, crescia em poder na Alemanha. Aqui vivíamos a Revolução de 30, movimento que leva ao poder Getúlio Vargas. No meio deste turbilhão, meus pais viviam em trabalho itinerante. Com as idas e vindas, vi eram parar em Santa Maria de Itabira, Minas Gerais, para trabalhar na Fazenda da Cachoeira, cujos proprietários eram o senhor Armando da Costa Lage e Guida da Costa Lage. Minha mãe chamava-se Maria Augusta Gomes e meu pai Andrelino Guedes. Não sei ao certo o passado deles: ouvi dizer que eram descendentes de portugueses com índios. Desta união nasceram três filhos. O primeiro filho de meus pais foi José André Gomes e o segundo recebeu o nome de Osório Guedes. No dia 19 de março de 1935 minha mãe começou a sentir as dores de parto. O José, que era o mais 8
velho, estava, então, com 5 anos. Dizem que saiu correndo no alto do morro, pedindo ajuda: − Ô, homem, minha mãe está doente! Veio em socorro a esposa do Sr. Armando, proprietário da fazenda, Sá Guida -- assim a chamavam -- parteira famosa na região. Aqui começa a minha história. Nasci em 1935 desse parto muito complicado. Naquela época quase todos os nascimentos eram assistidos por parteiras. A Sá Guida, com sua experiência de longos anos, conseguiu que eu viesse ao mundo com saúde, apesar da dificuldade do parto. Em Santa Maria, nesta época, tinha um médico, cujo nome era Dr. Costa. Ele era muito respeitado pela população. Inclusive foi Prefeito por diversos mandatos. Dr. Costa confiava muito no trabalho de Sá Guida, como parteira. Mas voltemos ao meu nascimento. O fluxo da minha memória leva-me a percorrer esses caminhos das coisas para mim contadas. Minha mãe naquele momento de muito sofrimento, disse para Sá Guida: − Comadre, a senhora vai criar esse menino, porque eu vou morrer! Sá Guida falou para ela: – Calma, Maria, eu estou rezando por você, tenha fé, tudo vai sair bem. 9
Minha História Minha Vida
Mas Deus tinha outros planos para ela e não tardou a chamála. Três dias depois de meu nascimento minha mãe faleceu (algumas pessoas dizem que foram 15 dias depois). Meus dois irmãos José e Osório foram levados para serem criados pelos avós maternos na região do Rio do Peixe, nas proximidades de Itabira. Hoje parece perto – uns 50 km -, mas naquela época era uma distância considerável, a comunicação era muito difícil e as famílias se omitiam em permitir que se tivesse mais entrosamento.
Andrelino Guedes – meu pai (do original 3x4 do meu irmão José André)
Voltemos, então, aos primeiros passos da minha história. A minha mãe, na agonia do parto, pressentindo, então, que não iria sobreviver, pediu à Sá Guida para me criar. Sá Guida, sem se preocupar com a responsabilidade de criar mais uma 10
criança - pois ela tinha sete filhos já quase criados - iria começar tudo de novo. Dizem que tomou essa decisão sem consultar o marido. Vejam como ela era decidida! Não dependia do marido para tomar certas decisões. Era uma mulher avançada para seu tempo – naquele tempo as mulheres não tinham direitos, imaginem decidir algo assim, sozinha! Muitas vezes ela era criticada pelos parentes por ser uma pessoa franca. As suas respostas sempre eram no ato. Nunca deixava nada para o outro dia.
Transporte de cargas em tropas de burros
O Sr. Armando, marido de Sá Guida, era tropeiro. Naquela época ele tinha um lote de burros, isto é, doze animais treinados para viagens longas. Esse lote de burros seria equivalente, hoje, a ter um caminhão para transportar mercadorias. Ele transportava de Santa Maria para Santa Bárbara: toucinho, feijão e também café em grão. Na volta ele trazia macarrão, sal, açúcar e cerveja para o comércio de Santa Maria. Na fazenda fabricava-se rapadura, plantava-se arroz, 11
Minha História Minha Vida
feijão, milho e bananas. Havia umas dez vaquinhas de leite, engordavam-se porcos. Havia um moinho e uma grande chácara com muitas qualidades de frutas e alguns animais para montaria do dia-a-dia. Para os moradores daquela Santa Maria de Itabira, vila recémcriada, ele era um homem poderoso e respeitado. Não que tudo isto significasse um grande patrimônio, mas lhe permitia criar com dignidade a família. O trabalho, no entanto, era árduo e intenso. Eu perdi a minha mãe e ganhei uma nova família.
Família de Armando e Guida - final da década de 1920 José da Natividade, Amerquina, Guida, Armando, Maria Rita (Lica), Maria do Carmo (esposa do Lauro), Lauro e à frente Eni, Domingos e Sílvio
Porém, quando eu estava com quinze dias, meu pai tomou uma decisão inesperada. Tirou-me das mãos de Sá Guida e me levou para sua madrasta cuidar de mim. Havia na região, um 12
fazendeiro chamado Tonico Alves que me fornecia de graça um litro de leite todos os dias. A madrasta de meu pai tinha outros filhos menores e esse leite ela dava para os filhos dela. Contam-me que para mim, que era um recém-nascido, ela dava fubá suado (mistura de fubá torrado na panela com um pouquinho de sal e um pingo d’água) só para eu não morrer de fome. Quando eu estava com 9 meses eu parecia uma bola de futebol... Estava bastante gordinho, mas não era saúde. Era inchaço mesmo, com uma barriga muito grande. Isso deve ter acontecido com muitas crianças de meu tempo.
Armando e Guida - final da década de 1920
Nessa ocasião alguém comunicou para Sá Guida, que era a minha madrinha de batismo, o que estava acontecendo comigo. Ela foi me visitar e ver de perto como eu estava. Sentiu uma grande revolta e uma tristeza em me encontrar nesse estado de saúde tão precário. Tirou-me das mãos destas pessoas e levou-me direto para o médico, o Dr. Costa, em Santa Maria. 13
Minha História Minha Vida
O seu diagnóstico era que eu estava com muitos tipos de vermes e muita anemia. Receitou-me alguns medicamentos e Sá Guida iniciou o tratamento. Sá Guida levou-me para sua casa. Vou ter coragem aqui de relatar - e até achando graça - o que me aconteceu: na primeira dose, eu expeli umas 500 lombrigas...
Fazenda semelhante a Fazenda da Cachoeira (atualmente ela não existe)
Daí em diante eu comecei a recuperar a saúde. Sá Guida falou que meu pai não gostou muito da atitude dela, mas se tivesse ficado lá não teria sobrevivido. Foi a minha salvação. Por isso ele, o meu pai, passou alguns anos sem me visitar. E eu voltei a morar com Sá Guida e o Sr. Armando. Como vêem tive um passado de muito sofrimento. Fui crescendo com preconceitos e mágoas sobre a minha própria família. Eu tinha pavor, quando alguém falava: “Fulano é seu parente”. Eu o olhava desconfiado. Achava que ninguém prestava. Mas com o passar tempo eu fui vendo a vida por outro ângulo. Fui percebendo que existiam pessoas boas, inteligentes, cultas, dignas de respeito. Fui clareando a minha 14
mente e comecei a conversar com essas pessoas e me informar sobre meus mais próximos parentes de sangue. Mas continuemos com a narração de minha vida. Quando estava com 3 anos, um moço, que tratávamos cerimoniosamente de Sr. Avelar, começou a namorar (e logo noivou) com Maria Rita, a “Lica”, que era filha de Sá Guida. Nós morávamos na fazenda da Cachoeira distante 3 quilômetros de Santa Maria. Aos domingos, Sá Guida juntava toda família para ir à missa na cidade e voltava lá pelas tantas da noite. Eu era pequeno para a longa caminhada, precisava ser carregado pelo Sr. Avelar. O noivo de Lica, para mostrar serviço e agradar a futura sogra, me carregava os 3 quilômetros sem reclamar cansaço... Eu adorava! Maria Rita e Avelar casaram-se e tiveram 5 filhos. Destes, uma era a Miraci, que mais tarde seria minha vizinha consogra e entraria mais ainda em minha família. Aos 7 anos, Sá Guida fez meu registro no cartório e me matriculou no Grupo Escolar Trajano Procópio, que fica em Santa Maria de Itabira. É, registros não eram tão importantes naquele tempo e muitas pessoas eram registradas depois de um ou vários anos. Nessa época, eu já prestava muitos serviços de casa, como tratar dos porcos, das galinhas, cozinhar banana verde para engorda dos porcos. À tarde eu separava as vacas dos bezerros novos; às vezes buscava animais no pasto para suas viagens. Lembro-me de um dia em que o senhor Armando deu-me uma surra, de chapéu de lebre, porque ele mandou que eu 15
Minha História Minha Vida
abrisse a porteira do curral para que a vaca de bezerro recém nascido, entrasse aonde eu estava. Tive medo e recusei a ordem, porque a vaca estava muito furiosa. Ela detestava crianças e eu pensei: - Antes a surra do que o chifre da vaca!!! Nesta época Eni, a caçula de Sá Guida, já tinha uns quinze anos. Ela tinha um cavalinho russo muito esperto. Quando ela ia sair me colocava na garupa e saia para passear nas redondezas, como na casa de sua irmã Amerquina, que morava na fazenda das Piteiras, a dois quilômetros de distância da Fazenda da Cachoeira, onde morávamos. Mas, o importante desta história é que esse animalzinho era muito veloz e eu não parava na garupa. Eni precisava me segurar para que eu não caísse. Na subida dos morros eu ficava para trás, ela ficava furiosa. Teve uma vez que eu quase quebrei as costelas, mas era divertido. Gostava dessas aventuras. Falando em aventura, voltemos aos tempos do Grupo Escolar: eu saia às dez horas com algumas crianças vizinhas e andava uns três a quatro quilômetros até o Grupo. Nesse primeiro ano eu fui reprovado. Nesse período o senhor Armando comprou uma casa em Santa Maria. Mudamos pra cidade. Nessa época, morre o meu pai em Nova Era, deixando uma herança no valor de trezentos cruzeiros. Sá Guida comprou uma novilha com esse dinheiro para mim. Após um ano o Sr. Armando vendeu a fazenda e Sá Guida vendeu a novilha por seiscentos cruzeiros. Esse 16
dinheiro foi depositado no Banco Financial da Produção de Minas Gerais. Alguns anos depois esse Banco deu um calote na praça de milhões de cruzeiros. Eu também ajudei a pagar a conta... O Banco do Brasil pagou aos correntistas uma pequena parcela desse prejuízo, mas eu só tinha uns oito anos e não pude retirar o que me restou. Quando completei dezoito anos o dinheiro era tão pouco que não dava nem para a passagem para Belo Horizonte. Dei como perdida minha herança... Não posso deixar de falar que tenho algumas boas lembranças da minha infância: brincava, nadava, jogava bola, e também fazia serviços domésticos. A casa da cidade ficava no final da rua e tinha um quintal muito grande. Além do quintal tinha um pasto pequeno, dava para alguns animais passarem a noite. Naquela época era comum alugar pastos para os viajantes, que iam para Belo Horizonte. Eu fiquei responsável por este trabalho. Uma noite choveu muito, o rio encheu e os animais ficaram ilhados do outro lado, bem longe da porteira. Os donos dos animais ficaram nervosos com a situação. Eu os acalmei dizendo que entregaria os animais na porteira. Eles duvidaram, pois o rio estava transbordando. Eu nadei até onde estavam os animais e os encaminhei até a porteira. Eles ficaram tão satisfeitos que me deram uma gorjeta. Dando sequência à minha história, vamos falar dos estudos: como já disse fui reprovado no primeiro ano. Isto aconteceu de novo no terceiro ano, mas terminei o quarto ano com uma boa nota. E parei por aí: não tinha como estudar mais e isto nem 17
Minha História Minha Vida
era visto como algo tão importante na época – mas eu pressentia que faria falta.
Foto antiga de Santa Maria de Itabira
No final da década Hitler invade a Polônia, iniciando assim a II Guerra Mundial. Era algo muito distante para uma criança em Santa Maria, mas isto teria impacto em várias etapas da minha vida – mesmo sem eu saber direito. Havia um santamariense que lutou nesta guerra, ele chamavase Lintiz Procópio, e mais dois outros que ficaram esperando a ordem de embarcar para a Itália, porém a guerra terminou antes. Eram eles: Sílvio, um dos filhos de Sá Guida, e o outro era nosso vizinho, José Adão, uma pessoa muito conhecida em Santa Maria. 18
Capítulo II - Década de 1940
E
m 1943 a freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Santa Maria de Itabira torna-se município de Santa Maria de Itabira.
Em 1944 morre o Sr. Armando, marido de Sá Guida e que me acolheu em sua casa. Em 1945 Eni casa-se. Sá Guida, agora viúva, passou a morar uns tempos com um filho e outro. Nesse vai e vem ela vendeu a casa com o pastinho para J. Magalhães, e repartiu o dinheiro com os seus sete filhos. Nessa época eu já trabalhava em Itabira de caixeiro no armazém de senhor José de Assis e Dona Clara, que era irmã de Sá Guida. Eu trabalhava de seis horas da manhã até às dezoito horas e morava com eles, os proprietários do armazém. O meu quarto era um depósito de açúcar. Ás vezes esse açúcar chegava às duas ou três horas da madrugada, pois quando chovia as estradas ficavam intransitáveis, atrasando assim a chegada da mercadoria, então a gente tinha que descarregar o caminhão. Cada saco de açúcar continha 50 19
Minha História Minha Vida
quilos; a sorte era que os caminhões só carregavam 50 sacos.... Imaginem, eu e outro colega, acordando na madrugada, cansados, sozinhos para descarregar tudo isto. E no dia seguinte levantar e trabalhar normalmente, como se nada tivesse acontecido! Esse armazém existe até hoje. Pertence a um dos filhos deles, Erodites. Só que o seu pai era uma pessoa muito enérgica, em especial quando bebia. E eu não gostava disto. Diga-se passagem, para entendermos a pessoa de que falo, o Sô Zé só tinha uma perna. Ele a perdeu aproximadamente nos seus doze anos, quando ele estava nadando no rio e entrou uma farpa de um galho. E, como toda criança, com medo de mostrar aos pais, o tempo foi passando e quando perceberam, tinha infeccionado. Naquela época era muito comum amputar os membros quando o problema era maior do que poderiam resolver. Com isso, aos doze anos foi amputada sua perna. Porém, mesmo assim ele era muito esperto, montava no animal só com um pulo! Ele trabalhou muito e conseguiu um bom patrimônio. Mas sua bebida era difícil para mim. Um certo dia, nós nos desentendemos e eu deixei o emprego. Sá Guida morava com Avelar e Lica, pais de Miraci. Com eles, morei pouco tempo. Trabalhei no armazém do Sr. Bento Damásio, que ficava na Rua Santana. Depois trabalhei com Sr. Raul Alvarenga, bisavô de nosso amigo Valdir Alvarenga. Em seguida com Juquinha Cabral, também em um armazém. Esse foi o grande homem que me ensinou a ser gente. Era uma pessoa muito honesta, um homem exemplar. Os meus colegas 20
de trabalho eram Olímpio Pires Guerra (Li) e Jairo de Oliveira e ambos tornaram-se grandes empresários. Eu já tinha 16 anos. O cunhado de Juquinha Cabral, Marinho Pires que era um empreiteiro que com sua frota de caminhões prestava serviço para a Vale, que explorava o minério. Na época falava-se minério de rolamento. Era um material que ficava sobre o solo, fácil de ser carregado. Posteriormente, passou a explorar o minério dentro das rochas.
Abertura na rocha. Itabira, 1944
Eu fui depois trabalhar na bomba de gasolina. Abastecia uma média de sessenta carros por dia. Já tinha uns quarenta 21
Minha História Minha Vida
Mercedes, eram os primeiros carros a óleo da época. Esses carros eram abastecidos no balde de vinte litros. Esse combustível era transportado em tambores de duzentos litros, colocado numa rampa de um metro de altura e depois empurrado, na unha seca - o que vale dizer, sem máquinas, sem ajuda de equipamentos. Neste posto de gasolina eu completei 18 anos.
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Capítulo III - Década de 1950
M
aioridade adquirida, arrumei os documentos e saí pelo mundo, em busca de emprego. Sá Guida ficou na casa de Eni, em Itabira, onde Almir Pessoa Magalhães, o Nhonhô, seu marido, trabalhava de motorista transportando minério para Mário Pires. A II Guerra tinha acabado, mas deixava seus reflexos. Um deles foi a necessidade de ferro, que servia para construir carros, armas, aviões, etc. Foi na carona desta necessidade que surgiu a Companhia Siderúrgica Nacional, que produzia aço. E para produzir aço é necessário minério de ferro. Isto deu um impulso para a Companhia Vale do Rio Doce, nascida em Itabira, que iniciou um grande crescimento. E era um dos grandes empregos da região. Assim, antes de viajar tentei entrar na Vale como ajudante de mecânico, mas não consegui. Viajei para Acesita onde morava Sílvio, filho de Sá Guida, isto é, um de meus irmãos de criação. Ele trabalhava na Companhia Aços Especiais de Itabira - ACESITA 23
Minha História Minha Vida
e tentou me colocar nela, mas não teve sucesso. Joanita, sua esposa, ficou muito angustiada com essa situação, porque ela se preocupava muito com as despesas que poderiam crescer com a minha estada em sua casa e sem emprego.
Linha de ônibus de Acesita
Havia uma vizinha de Sílvio e Joanita, que tinha um namorado que trabalhava em Salto Grande, onde se estava construindo uma hidrelétrica, próxima ao município de Joanésia-MG, na região do vale do aço. Ele era encarregado do setor de mecânica da obra. Dona Joanita conversou com ele, que se prontificou a me colocar na empresa. Eu fui para Salto Grande, onde eu já disse, estavam construindo uma usina, isto é, uma hidrelétrica. Apresentei-me ao Toninho, com quem Joanita tinha conversado em Acesita. Ele, para mostrar que tinha muita influência na firma mandou logo me fichar. Lá eu tive de cozinhar e lavar a roupa. O salário era tão pouco que, se eu não fizesse muita economia, não sobraria nada.
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Fiquei lá quase um ano. Eu trabalhava numa bomba de tirar água num grande buraco. Trabalhava sempre à noite. Numa dessas noites, a bomba parou de sugar a água e o buraco amanheceu transbordando, o que atrasou todo serviço da firma. A chefia ficou muito irritada e me dispensou. Tudo isso foi no ano de 1953. Retornei, mais uma vez, à Acesita. Consegui me fichar na Companhia Aços Especiais de Itabira. Fui morar novamente, na casa de Joanita, esposa de Sílvio. Trabalhando na companhia especializei-me em serviço de solda elétrica, oxigênio e corte a maçarico. Com seis meses de ajudante fui classificado como soldador. Ali trabalhei quatro anos. Um dos meus chefes foi trabalhar no Estado do Rio de Janeiro, numa fábrica de caldeiras. Esse companheiro me convidou para ir trabalhar com ele nesta dita fábrica, com um bom salário. Nesta época eu já namorava a senhorita Laís. Um dia nos encontramos na formatura de Romildo, filho de Eni, e começamos o namoro! Daquele jeito da época! Só de flertes é claro! Nem mesmo peguei na mão dela; isto só seria permitido após o casamento. Ouvíamos rádio – não tinha televisão no Brasil, nesta época. Muita música sertaneja e até um pouco de Adoniran Barbosa, que começava a fazer sucesso. Seu pai era muito severo e vigiava muito as suas filhas, ainda mais sem a companheira para ajudar. Mas não ficou muito tempo sozinho depois que ficou viúvo. Após 7 anos de viuvez 25
Minha História Minha Vida
se casa novamente com Clarice de Assis Lage e teve mais 7 filhos.
Mapa da EFVM - Estrada de Ferro Vitória a Minas - 1920
Até ai tudo bem. Viajei para o Rio, me instalei na cidade de Rezende no hotel chamado Estoril. Lembro que esse hotel era de um português. Fiquei em Rezende mais ou menos sete a oito meses. Nesse tempo que lá estava, recebi uma carta da senhorita Laís terminando o nosso namoro. Fiquei um pouco triste com a notícia, mas guardei a carta e, como se costuma dizer, toquei o bonde para frente... Depois morei uns tempos em Barra Mansa, numa república familiar. De lá fui transferido para a capital, a Cidade Maravilhosa. Lá trabalhava como soldador na refinaria da Petrobrás. Morava na Av. Rio Branco, em uma casa próxima à Praça Mauá. Nessa época me encontro com Edésio Alvarenga, meu primo do coração. Foi assim que nos tornamos mais amigos. Frequentávamos a praia de Copacabana, quando 26
tínhamos tempo e íamos ao recém-inaugurado Maracanã, onde eu torcia pelo Vasco e ele pelo Fluminense. Íamos a pé e às vezes de bonde. Hoje parece loucura, longe, mas na época não era raro. Tive algumas namoradas, mas todas passageiras, sem muito compromisso. Só para matar o tempo, pois o meu projeto era voltar para Minas e trabalhar mais perto de casa. Sentia muita saudade da família. Eu não conseguia acostumar em cidades grandes, gostava mesmo de lugares com menos movimento. A vida na cidade do interior é mais tranquila e menos agitada. Retornei para Acesita onde eu deixei muitos amigos. Consegui me colocar novamente na companhia, onde eu já tinha trabalhado quatro anos. Fui morar numa república bem pertinho do serviço, chamada Vila dos Técnicos. Nesta época, Sá Guida ainda morava com Eni, em Santa Maria. Eu pegava carona com alguns conterrâneos, que também moravam em Acesita. Eu vinha visitar Sá Guida, por quem sempre tive muito carinho. Em uma dessas idas e vindas por acaso, sem querer querendo, para usar uma expressão de hoje, encontrei a senhorita Laís e, conversa vai conversa vem, eu perguntei a ela como estava de namorado. Ela, meio desconcertada, disse que até aquele momento não tinha compromisso com ninguém. Pensei: o caminho está livre. Eu removi as cinzas e percebi que ainda havia fogo. Senti que ali nascia um grande romance. Voltei para Acesita com grande esperança, com novos projetos, dessa vez, de uma vida a dois. Só não sabia que desta 27
Minha História Minha Vida
vez eu ia ter um grande adversário que era o seu próprio pai e que viria a ser meu sogro. Eu via no seu modo de agir, que o nosso sofrimento seria igual, que a luta era dois contra um. Então decidi ir até o fim. Não sabíamos exatamente o que se passava com o Sr. Ademar em relação à nossa união. Quando algum parente tocava no assunto e perguntava para ele qual o meu defeito, ele respondia que eu não tinha defeito... Só que não gostava de mim, como seu genro. Esse era seu argumento. Ele tinha um gênio muito forte, não gostava de ser contrariado. Isso causou muito aborrecimento tanto para mim como para a senhorita Laís. Afinal estávamos apaixonados e gostaríamos de ter sua aprovação, para completar a nossa felicidade. Nunca soubemos ao certo o porquê de sua reprovação, pois antes ele sempre me elogiava. Eu não queria que as coisas acontecessem desta forma, mas já que não tinha alternativa, entramos juntos nesta “guerra”. Poderia dizer que aí o pau quebrou. Ele montou um esquema de segurança total. Para vocês terem uma visão do que aconteceu ele colocou duas das filhas, uma de cada lado em nossos encontros para nos vigiar o tempo todo... Foi marcação cerrada! Tudo isso só serviu para nos deixar mais nervosos. Eu morava em Acesita e só podia vir a Santa Maria poucas vezes durante o ano. Durante o resto do tempo, nos correspondíamos por carta - que levava vários dias entre uma cidade e outra! Lembro muito bem que, em uma destas vindas, era tempo de chuva. Eu estava na fazenda e caiu uma grande tempestade. 28
Lá pelas oito horas da noite, chovia muito, e o horário já estava vencido. Então, para respeitar o “regulamento”, eu saí e enfrentei aquele toró, passando por uma trilha escorregadia. Era uma subida muito forte e depois uma descida mais forte ainda. Levei alguns tombos, mas Deus me ajudou e eu cheguei inteiro em casa, com barro até a cabeça. O guarda-chuva se espatifou de um jeito que não teve nem mais conserto, mas tudo por uma boa causa: o amor. O senhor Ademar, pai de Laís, sempre falava que casamento na casa dele era com trinta dias de prazo. Era o prazo que o cartório tinha para arrumar os papéis. Era um homem muito severo. Com ele não tinha meio termo. Vejam bem: Laís não tinha permissão para falar direto com ele assunto de casamento. Tinha que falar com uma das irmãs, que se chamava Niobel e que, por seguir as ordens do pai, era por vezes bastante severa. Também, com uma casa cheia de moças, ele não podia mesmo gostar que rapazes se aproximassem da casa dele, principalmente aqueles que ele achava que não eram adequados. Voltei para Acesita com o pensamento de resolver o mais rápido possível essa situação. Para vocês entenderem um pouco melhor essa história vou fazer aqui um breve relato da vida de Laís: Laís Pires Lage nasceu em 11/05/1939, filha do casal de fazendeiros, Sr. Ademar Pires Lage (43 anos) e D. Maria Piedade Martins da Costa (33 anos).
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Minha História Minha Vida
Ela nasceu na Fazenda do Turvo no vilarejo de São José do Turvo, zona rural de Itabira. Tinha 7 irmãos ainda jovens: Alzira (17 anos), Aeir (16 anos), Niobel (15 anos), Gercino (11 anos), Dulce (10 anos), Aurora (7 anos) e Geralda (3 anos). Ela só foi registrada em cartório um ano depois, em 11/05/1940. Depois, com dois anos de idade, em 1941, ganhou uma irmãzinha, a Evarista e depois, com quatro anos de idade ganha mais um irmãozinho, o Célio. Este já em Senhora do Carmo. Quando tinha três anos de idade, seus pais se mudam para o Distrito de Senhora do Carmo pertencente a Itabira, em 1945 mudam-se novamente. Dessa vez para a Fazenda do Funil em Santa Maria de Itabira. Iniciava-se, assim, uma nova vida! Como eu, ela morava na fazenda e estudava na cidade, com muita dificuldade de transportes. Mesmo assim, formara-se na 4ª série. Um ponto alto naquela época.
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Fazenda do Funil – Santa Maria de Itabira
O seu pai, Sr. Ademar, era fazendeiro fabricante de cachaça. Morando na mesma região, pequena, e passando por várias situações semelhantes, acabamos nos conhecendo. O Sr. Ademar simpatizava comigo, pois via a luta em que eu vivia e respeitava muito a família do Sr. Armando. Quando Laís tinha 10 anos, no entanto, ele perde sua esposa, mãe da menina Laís. Assim, Laís, além de estudar, tinha também de ajudar a cuidar da casa e dos irmãos mais novos. E para cursar o colegial era preciso prestar um teste de admissão! Sendo até então a única a passar, começa um curso colegial no internato de Ibirité, Fazenda do Rosário, próxima a Belo Horizonte. Assim, passou quatro anos longe de casa, com muitas saudades e se transformando numa professora!
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Minha História Minha Vida
A escola que Laís estudou era diferente. Fora criada por Helena Wladimirna Antipoff. Helena era filha de um general do exército imperial russo. Devido ao ambiente da revolução russa de 1917 acabou exilada em 1923 e em 1929 muda-se para o Brasil. Aqui interessa-se pela situação dos alunos e docentes da zonas rurais, estabelecendo como objetivo a fixação do homem no campo, em melhores condições de vida. Realiza uma campanha de recolhimento de fundos e consegue adquirir a Fazenda do Rosário, uma exploração agrícola com cerca de 220 ha (45 alqueires de terra) em Ibirité, a 26 km de Belo Horizonte. Nessa quinta abriu, em 1940, um internato. E foi aí que Laís foi morar, pouco depois, em fevereiro de 1954, onde durante seus estudos fez grandes amigas. Quando retornou de lá, a senhorita Laís passou a lecionar na escola da Pedreira - um lugarejo entre Itabira e Santa Maria do Itabira - e morava na casa do Sr. Joaquim Meireles e sua esposa Maria Madureira (Neném). Encontramo-nos algumas vezes na casa deles no local onde hoje fica a barragem de Santana e que antes havia uma vila ao lado da fábrica de tecidos. Ficamos algum tempo namorando por correspondência. Assim a fumaça baixou, o clima ficou tranquilo. O Sr. Ademar tinha em Acesita um irmão, o Sr. Gil Pires Lage, que também trabalhava na mesma firma que eu, que tinha uma visão muito boa sobre o casamento de sua sobrinha. Convidei-o para ir à Santa Maria pedir o meu casamento com a Senhorita Laís. Fiquei na rua na casa de Sá Guida aguardando a resposta. Lá pelas seis horas da tarde, saiu a 32
resposta: o casamento aconteceria no prazo de sessenta dias com as mesmas honras que deu à primeira filha, com apenas uma condição: ele não estaria no ato do casamento. Viajaria três dias antes. Laís ficou muito triste por não ter a presença do pai, nesse momento tão importante na sua vida, mas o amor que ela sentia por mim estava acima de todas essas decepções. Passamos por cima de tudo. Ah, não posso deixar de dizer que diante da resposta, fui até a fazenda para concretizar o noivado. Levei Sá Guida, Eni e os meninos. Lá chegando, o Sr. Ademar saiu para o quintal. Então para resolver aquela situação, o Sr. Gil, irmão do Sr. Ademar, tomou a iniciativa de colocar as alianças nos nossos dedos. E assim ficamos noivos. Foram servidos uns docinhos para as poucas pessoas e voltamos logo para casa. Tudo isso aconteceu em novembro de 1960. Ficou marcado o casamento para janeiro de 1961. Fui para Acesita trabalhar. O casamento ficou marcado para o dia cinco de janeiro. Nesse espaço de tempo ele mudou a data do casamento para o dia sete. Até aí tudo bem... Só que eu não fiquei sabendo da mudança. A senhorita Laís passou um telegrama para mim avisando da nova data. Até hoje não recebi esta correspondência. Eu tinha um amigo em Acesita, que morava em Passabém. Ele foi passar o Natal com sua família. Para chegar em Passabém o seu ônibus, parava na porta da casa de Sá Guida, em Santa Maria. Eu aproveitei a oportunidade e mandei uma carta para a Senhorita Laís. 33
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Esse amigo passaria numa sexta-feira e retornaria na segundafeira. Como eu sabia que Laís viria toda semana para Santa Maria, no mesmo ônibus que parava na porta de Sá Guida, onde ela sempre entrava antes de ir para a roça (a condução era uma só) havia a certeza do encontro. Meu amigo também estaria naquela mesma condução. Quando ele entregou minha carta à Sá Guida, Laís estava junto, só que ele não a conhecia. Sá Guida passou de imediato a carta para ela. Laís a leu e logo notou que eu não tinha recebido o telegrama. Ali mesmo ela respondeu, dizendo que o casamento estava marcado para o dia sete de janeiro e não para o dia cinco como havia combinado. Foi mais uma das exigências de seu querido pai, sempre querendo complicar mais ainda a nossa situação... Mas para quem tem Deus no coração as coisas sempre acontecem na hora certa. Na segunda- feira seguinte o amigo retornou com a resposta. Nesta carta é que eu fiquei sabendo o exato dia do casamento. Como já disse, morava na república, onde também moravam uns trinta rapazes, todos funcionários da Companhia Aços Especiais de Itabira. Ali já moravam alguns casais e o responsável pela república também morava com sua família e ele fornecia refeição para todos os moradores. Eu morava em um dos quartos com um companheiro. Ele mudou para outro quarto. Eu comprei um guarda-roupa, uma cama de casal, pois no quarto não cabiam mais moveis. A casa já estava arrumada. Comprei um terno, um sapato, uma camisa e uma gravata. Desde a data do noivado, eu só retornei a Santa Maria no dia do casamento para não causar mais aborrecimento. Eu 34
convidei alguns amigos em Acesita e o Sr. Enio Cabral. Para meus padrinhos convidei Alzira Pires Lage, irmã mais velha de Laís, e Amerquina, minha irmã do coração e seu marido Zico Lage. Laís convidou o Sr. Joaquim Meireles e sua esposa Maria Madureira de Meireles, a Dona Neném; e o seu tio Levi e Eni Lage Magalhães. O Sr. Joaquim ficou responsável por conduzir a senhorita Laís até o altar. Assim ficou montada a cerimônia do nosso casamento.
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Capítulo IV - Década de 1960
E
u viajei para Santa Maria na véspera do casamento e em janeiro é mês de muita chuva. Como as coisas até aí aconteceram com tanta dificuldade, São Pedro também não ajudou em nada. Mandou aquele toró! Foi muita chuva mesmo. A noiva morava na roça. Eles tinham contratado um ônibus, mas o motorista não quis enfrentar a estrada da fazenda Funil. Tive que ir atrás dos jipes que tinham na cidade. Consegui três deles para transportar o pessoal da fazenda para a igreja. Não quero deixar de contar que na cerimônia o Padre Luís deu uma de espertinho... Havia um casamento antes do nosso de pessoas que nem eram tão nossos amigos. O padre colocou os dois casamentos para serem realizados juntos. Eu nunca tinha visto casamento sendo feito em dupla, a não ser que fossem combinados antes, casamentos “de parentes”, como se costumava dizer. Apesar de tantas adversidades foi realizado o matrimônio. Na segunda-feira de madrugada viajamos para 36
Acesita. O trem partiu de Itabira às cinco horas da manhã. Só voltei à Santa Maria doze anos depois.
Na porta da Igreja do Rosário em Santa Maria – 07/01/1961
Chegando em Acesita tive uma surpresa. O Sr. Edgar que administrava a república me deu uma não muito boa notícia: a companhia tinha o avisado que dentro de sessenta dias ia esvaziar a republica para fazer uma grande reforma. Ele foi o primeiro a mudar. Os rapazes mudaram para outro alojamento. Para os casais antigos na companhia foram liberadas casas para eles. Assim eu me deparo com uma nova realidade: eu havia ficado com vinte quartos à disposição. Eu 37
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pensei que não tinha onde morar com minha esposa e de repente tinha um casarão na minha frente. Passou uma semana e os operários da companhia vieram para começar a demolir algumas paredes.
Vista parcial da vila de Timóteo no início do Séc.XX, área hoje da Praça 29 de Abril - Fonte revista C. Gerais
Então começou a briga com a empresa. Eu falei para a eles que não podia iniciar o trabalho com a minha família dentro. O chefe destes funcionários era também o meu chefe. Eu falei para eles que estava recém casado e estava morando na república. Também falei para eles da possibilidade de arrumar uma casa para mim ou até me dispensar. Eles disseram que poderia aguardar e que eles iriam resolver o problema mais rápido possível. Mas conseguir uma casa na companhia era a mesma coisa que ganhar na loteria. Tinha gente que já trabalhava na firma há dez anos e não tinha uma casa para morar. Os colegas achavam que eles iriam me dispensar. 38
Passando dois dias eles me chamaram e mandaram que eu me apresentasse na seção de pessoal. Fui até o escritório. Ao chegar lá, eles me deram a chave de uma casa que ficava em um bairro simples, chamado Quitandinha na Rua 38. A casa era pequena. Tinha dois quartos, uma salinha pequena e uma cozinha menor ainda. Era rebocada por dentro. Por fora era caiada de branco. Ela não tinha instalação de água. Somente luz. O banheiro era uma fossa lá no fundo do quintal, a uns cinco metros da porta da cozinha. Não era muito cheirosa... Banho, só de bacia. Mas tinha conseguido a nossa casa! E eles ainda prometeram que mais tarde arranjariam uma melhor.
Vila dos caixotes - Funcionários - 1951 - (acervo Acesita)
Nesse tempo nasceu Erivelton, nosso primeiro filho. Alguns dias depois o menino foi levado para Santa Maria para ser batizado pelos avós, Sr. Ademar e D. Guida, mas aconteceu que o Sr. Ademar não aceitou o convite para batizar o menino. Porém, eu já havia orientado a D. Laís: se isso acontecesse, ela poderia dar para o Célio, seu irmão caçula (do primeiro 39
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matrimônio) para batizá-lo. Assim foi realizado o batizado de Erivelton. Também foi essa a última polêmica com o Sr. Ademar!
Erivelton aos 6 meses - 24-04-1962
No ano seguinte veio o segundo filho, Evenilton. Nessa época eu consegui colocar água dentro de casa. Improvisamos um chuveiro colocando uma latinha furada com prego na boca do cano, fazendo às vezes do chuveiro. Foi um grande sucesso: aposentamos a bacia. A bacia ficou para lavar a roupa dos dois sujões, que eram muito briguentos! Ali moramos durante três anos. Não posso deixar de contar que nesse espaço de tempo, em um belo dia, chegou lá em casa, o Célio já com seus dezessete anos... Não disse nada a respeito de sua vinda. Lá pelas quatro horas da tarde, chegaram à nossa casa, Sr. Levi, seu tio e o Sr. Ademar. Vieram buscá-lo, pois ele teria fugido de Santa Maria.
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Hospital de Acesita em 1946
O seu pai, muito nervoso com a situação, veio à sua procura. Como ele não combinava comigo e não me aceitava como genro, não quis nem descer do carro, que era um jipe pertencente ao Sr. Juquinha Pires, que era seu vizinho e amigo. D. Laís providenciou logo um jantar para eles. Sr. Ademar não quis participar da refeição dentro de nossa casa. D. Laís levou o seu prato lá no carro e ele aceitou... Seus companheiros jantaram tranquilos e depois retornaram para Santa Maria e com eles foi embora Maria da Piedade, filha do meu cunhado Gercino, que estava ajudando a cuidar do Erivelton. Ouvi dizer, depois, que o Sr. Ademar passou a me evitar, ainda na época do namoro com Laís, quando, mal informado, soube que meu pai biológico, Andrelino, havia sido preso. Ocorre que meu pai tomava conta de uma chácara em Nova Era e uma égua invadiu o terreno, causando um pequeno estrago, e por isso ele a espancou - não sei exatamente como. 41
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Ele foi denunciado por essa agressão ao animal e teve que se apresentar à delegacia de polícia. Esse fato causou o problema – o simples ato de comparecer a uma delegacia, naqueles tempos, era uma marca na vida de uma pessoa. O Sr. Ademar não sabia do real motivo pelo qual meu pai havia sido convocado. Depois de alguns anos de casado ele passou a me admirar, mas em silêncio. Ele via sempre sua filha, netos, todos bem cuidados e amorosos. Mas Ademar Pires era conhecido por sua teimosia (ou caráter?): palavra dada não volta atrás!
Erivelton (3a), Evenilton (2a) e Álvaro (1a) - maio de 1965
Mas voltando à nossa morada: a Companhia nos deu outra casa, como foi combinado. Essa era bem melhor. Tinha todas 42
as instalações necessárias para uma família viver com mais conforto. Essa casa ficava na avenida “N18” no mesmo bairro e nela nasceu nosso terceiro filho, Álvaro, em 1964. Ali permanecemos por apenas um ano. Nesse ano a Senhorita Eva, irmã de Laís, foi morar lá em casa para estudar na cidade de Coronel Fabriciano, no Colégio Angélica. Ela ficou em nossa companhia somente um ano.
Vila dos Técnicos - Timóteo - 1949 - Acervo Acesita
No final deste mesmo ano, eu completaria dez anos na firma. Naquela época existia uma lei prevendo que quem completasse dez anos na mesma firma estaria “estabilizado”. Nenhuma empresa gostava de manter um funcionário nessa condição, por isso fui dispensado.
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Capítulo V - Conhecendo os irmãos
H
á muitos anos, quando ainda morava na rua 38, eu tinha conversado com um caminhoneiro de Itabira, meu conhecido, que me contou que em uma de suas viagens à Acesita havia conhecido uma pessoa com o sobrenome Guedes, muito parecido comigo. Quem sabe não poderia ser um de meus irmãos? Naquela época deixei com ele o meu endereço para favorecer o possível encontro. Isto só foi acontecer em 1964, quando chegou lá em casa um moço ainda muito jovem, o Osório, com uma aparência semelhante a minha. Com um pequeno diálogo deu para reconhecê-lo como irmão. Ele contou sua história e eu contei a minha. Tudo confirmou que era realmente meu irmão. Trocamos um abraço de irmão para irmão, não precisando para descobrir o nosso sentimento fraterno de um exame que hoje seria o DNA. Na sua despedida deixou o endereço do José, o mais velho, em Nova Lima. Depois do nascimento de meu filho Álvaro fomos 44
até lá e ficamos conhecendo o irmão mais velho. Com isso fui reconstituindo minha família.
Osório Guedes – meu irmão
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Capítulo VI - Itabira - 1964
C
omo era final de ano, D. Laís, os meninos e a Senhorita Eva vieram passear em Santa Maria. Logo após a sua partida eu fui dispensado da Companhia. Tudo isso aconteceu no final de dezembro de 1964. Eu vim até Itabira, procurei a administração da Vale, por intermédio do Dr. Schettino[1], superintendente das Minas do Cauê, e fui admitido na firma Sosebel que prestava serviço para a Vale. O acordo com ele era para que eu trabalhasse uns seis meses apenas com o salário de duzentos mil cruzeiros, que era o teto máximo da Sosebel. Então ele mandou que me dessem trinta mil cruzeiros como prêmio extra e após um prazo de seis meses eu seria admitido na Companhia Vale do Rio Doce. O sonhado emprego de qualquer um na minha situação! Com o emprego garantido, retornei à Acesita com um caminhão para buscar a mudança. Chegamos à tarde e fizemos a carga. Retornamos à Itabira, chegando aqui às cinco horas da manhã do dia seguinte; isto em fevereiro de 1965. 46
Eu aluguei uma casa, mas ela era tão pequena que não couberam os móveis... Até aí D. Laís não sabia de nada que estava acontecendo... As comunicações eram só por cartas e bem demoradas para chegar nas mãos das pessoas. Por isso decidi tudo sozinho. Antes de iniciar o trabalho no novo emprego, voltei à Acesita para acertar as contas com a Companhia. Entreguei a chave da casa e foi feito o meu acerto. Deixei esse dinheiro com Sr. Enio Cabral, emprestado a juros de três por cento ao mês, pois ele era uma pessoa de confiança. Era meu padrinho de casamento. Esse dinheiro ficou com ele até eu comprar uma casa aqui em Itabira. Voltei para Itabira e iniciei os trabalhos na Companhia.
Pico do Cauê em 1945
À procura de outra casa, encontrei um barracão do Sr. Lauro Andrade na Rua Juca Machado. Hoje ela fica atrás do açougue do Sr. Celsinho. Arrumei alguns companheiros e fizemos outra 47
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mudança. Depois que tudo estava em ordem no lugar, eu procurei o motorista de ônibus de Santa Maria que era meu amigo de infância. Dei a ele uma carta endereçada à D. Laís, falando de toda reviravolta na nossa vida e colocando nosso novo endereço. Ela veio para Itabira, mas não gostou muito dessa mudança tão rápida, porque gostaria de se despedir das amigas. Perguntou se eu não tinha deixado os vasos de flores para trás. Eu respondi que até as mudas e um cacho de banana verde vieram... Durante o período que moramos nessa casa do Sr. Lauro Andrade, aconteceu um fato que quase foi uma tragédia em nossa vida. No terreno havia uma nascente d’água que formava um pequeno poço de pouca profundidade, que o dono usava para suas construções. Só que tínhamos crianças pequenas. E a meninada gostava de ficar brincando em volta. Num desses dias, Álvaro que estava com 9 meses e engatinhava por todo lado, saiu engatinhando rumo a esse poço e caiu dentro dele. Alguém na rua gritou: - “o menino caiu no poço...” D. Laís saiu correndo e o tirou já começando a se afogar. Graças a Deus conseguiu salvá-lo. Diante do ocorrido, D. Laís pediu ao proprietário que eliminasse aquele poço, pois as crianças estavam correndo o risco de se afogarem. O Sr. Lauro Andrade respondeu que não podia acabar com ele porque precisava daquela água para sua construção que era em frente ao barracão e não aceitou nossos argumentos. 48
Assim, decidimos procurar uma casa para comprar e encontramos uma na Vila Piedade e nos mudamos para lá. Era uma casa pequena, modesta, mas era nossa! E tinha um quintal ótimo para as crianças – Evenilton se esbaldava tanto que frequentemente tínhamos de correr com ele para o Pronto Socorro, por causa de algum ferimento. A casa era no pé do morro, numa esquina. Tirei então um pouco de terra da parte mais baixa, criando uma garagem. E comprei então um carro para a família! Um carro, naquela época, era algo muito raro, caro e desejado. O carro não era muito novo: tinha uns 20 ou 30 anos de uso. Mas era um belo Chevrolet 1939, americano, com 4 portas! Sim, americano, o Brasil ainda engatinhava na arte de produzir automóveis.
Chevrolet 39
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Esse carrão fez várias viagens a Santa Maria, em uma dessas, Dona Laís foi dirigindo do campestre até Santa Maria, foi dançando fazendo ziguezague até ponto final. Em relação à senhorita Eva, ela retornou à Acesita e continuou os seus estudos, morando na casa de uma amiga que era prima do seu futuro esposo, Sr. José Gonçalves. Dando sequência à minha história. Eu trabalhava em três horários na minha área de trabalho, que era muito desorganizada especialmente no que dizia respeito às instalações de solda. Como eu tinha grande experiência adquirida em outras firmas que passei, procurei melhorar o nosso trabalho, aumentando a produção da empresa. Por exemplo, os vibradores que eram colocados do lado de fora do chute onde ficam as peneiras. Esse equipamento, em época de chuva, não parava de cair. O minério ficava muito pesado quando estava molhado. A parada era de três a quatro horas de paralisação. A chefia ficava irritada, quase arrancando os cabelos, para usarmos uma expressão mais popular. Eu perguntei a eles o que estava acontecendo. Eles me disseram que os vibradores não vibravam o necessário e despencavam como mamão maduro. Garanti a eles que eu iria soldar e nunca mais cairia; e disse a eles que se os que eu soldasse caíssem poderia me demitir a partir daquele momento. Eu pedi a eles que comprassem eletrodos especiais, ou seja, OK 48 da ESAB. Essa fábrica fica localizada na cidade de Contagem, em Minas Gerais. Foi feita a compra e eu improvisei uma pequena estufa para aquecer os 50
eletrodos, porque as chapas seriam soldadas. Tinha uma grande porcentagem de aço e trinta por cento de carbono. Então iniciei o trabalho. Soldei o primeiro, o segundo, o terceiro e assim até chegar no britador primário. Nunca mais caíram os vibradores. Nunca mais a produção ficou prejudicada. Com a superação desse problema realizei muitos serviços para a melhoria da produção. Mas nem tudo são flores em meu caminho... Chegou um engenheiro novo que acabara de sair da faculdade, querendo mostrar serviço. Começou a passar por cima de todos, exigindo muito. Às vezes até perseguindo alguns meus companheiros. Os colegas falavam que ele não simpatizava comigo... Passado mais de um ano, a Companhia resolveu colocar no seu quadro todos os funcionários que estavam trabalhando na sua área. Mas, esse doutorzinho, cujo nome era Dr. Fúlvio, pegou logo a minha ficha para fazer a entrevista. Não deu outra... Ele me eliminou de vez. Depois eu fiquei sabendo e comentei com o Dr. Schettino, que disse que resolveria o problema da melhor forma possível. Passaram-se seis meses e nada foi resolvido. Tornei a falar com ele. Coloquei o cargo à disposição, pois eu já estava na firma há um ano e seis meses e nada de me colocar na Vale como havia sido combinado. Passados mais alguns meses eles me dispensaram. Foi melhor assim. Eu recebia duzentos e trinta mil cruzeiros por mês e os meus ajudantes ganhavam um
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milhão e duzentos mil cruzeiros por mês. A diferença era muito grande. Eu sabia que em outras firmas eu ganharia muitas vezes mais. Mas resolvi mudar de ramo. Passando na Rua dos Operários, encontrei um cômodo para alugar. Procurei o proprietário e combinei o aluguel. Aí montei um pequeno negócio - um pequeno comércio, com venda de bebidas, artigos alimentícios e bugigangas em geral. Mas com uns seis meses de comércio, perdi o estoque e ainda fiquei devendo muito na praça, porque vendi fiado e não recebi. Mas quando você toma uma topada e quase cai, muitas vezes isso ajuda a caminhar, seguir em frente, não desistir. Foi o que aconteceu comigo. Dei seguimento ao meu comércio, já com mais experiência e aos poucos fui evitando os maus pagadores. As coisas foram se ajeitando. Isto foi por volta de 1966 a 1967. Nesta época iniciou-se a construção do ginásio “EEMZA”- Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio. Alguns dos operários, uns vinte aproximadamente, foram morar pertinho do meu comércio. Eu fiz um compromisso de fornecer-lhes o café da manhã. Esse café às seis horas já estava pronto. O padeiro também chegava junto. Eu despachava o café para mais ou menos uns vinte e cinco pessoas todas as manhãs. Esses mesmos fregueses da manhã também gostavam de umas pinguinhas, outros de uma cervejinha e assim eu ia faturando... Eles me pagavam todo final de semana. Quem não acertasse no sábado, não tinha café na segunda-feira... 52
No fundo da Rua dos Operários passava o córrego da Penha. No final da rua tinha uma grande área verde. Do outro lado o córrego da Água Santa que hoje é a Avenida João Pinheiro. Nesta área sempre se instalavam alguns parques de diversão e, muitas vezes, também circos com touradas, circos com bicharadas... Eu conto isso tudo, porque foi pra mim de grande importância. Esses eventos traziam muita gente para meu comércio e eu passei a faturar mais. Eu pagava os compromissos financeiros com mais tranquilidade. A concorrência era pequena, pois o trabalho era duro. Terminaram as obras do ginásio. Vieram para Itabira dezesseis firmas para trabalhar na área da Vale. Foi quando deu aquela explosão na cidade, gente por todos os lados. As casas comerciais eram poucas. Casa para alugar não tinha. Itabira era carente de tudo, mas foi uma época de se ganhar muito dinheiro. Eu não tinha experiência e grande espírito comercial para aumentar a minha renda. Faltou amadurecimento, mas mesmo assim dei uma melhorada na casa da Vila Piedade; comprei uma Rural sessenta e três, com tração nas quatro rodas por cinco mil cruzeiros. Só tinha estradas de terra e com muita lama.
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Rural Willys 73
Em 1969, comprei essa Rural para levar a família à casa de minha cunhada Alzira no Turvo. No final de 1970, troquei-a por esse lote aqui no Bairro Alto Pereira, que tinha um pequeno barracão nos fundos e voltei dez mil cruzeiros. Ainda dei azar, pois parte do dinheiro que eu tinha guardado estava escondido num rádio, em casa. Mas não estava protegido dos ratos, que comeram boa parte das minhas economias. Já tínhamos mais dois filhos, a Cristina e o Alexandre.
Cristina com 1 ano – 20-01-1968
Alexandre com 2 anos – 05-12-1971
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O lote era até grande, mas o barracão que havia nos fundos era muito velho. O barracão tinha seis cômodos de telhas Brasilit, com piso em vermelhão. Eu não parava de reformá-lo, fazendo uma puxadinha aqui e outra ali, para permitir um mínimo de conforto para toda aquela gente maravilhosa que morava lá. Na época foi um bom negócio. O meu compadre Mundinho me criticou, falando que tinha feito um péssimo negócio. Já um amigo nosso, que estava perto ouvindo a conversa e era mais experiente em negócios de habitação, pois construía casas para Caixa Econômica Federal, no ato da conversa me ofereceu vinte e cinco mil cruzeiros. Pretendia construir um prédio para vender apartamentos para a Caixa Econômica Federal, que era o seu negócio. Mas eu estava muito entusiasmado com a compra e não aceitei a oferta.
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Capítulo VII - Década de 1970 – a obra
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esta época eu já tinha cinco filhos, Erivelton, Evenilton, Álvaro, Cristina, Alexandre. Ai veio a Maria Guida, que por obra do Senhor, ela só ficou no ventre de sua mãe quatro meses e meio. Deixou-nos muito tristes, mas conformados, porque ela tornou-se mais um anjo do senhor, iluminando as nossas vidas.
Voltando aos negócios, eu fiz um projeto, de construir um prédio para montar um comércio bem maior, pois a cidade estava crescendo muito nesta região. Eu e o desenhista projetamos o prédio, foi aprovado pela prefeitura logo em seguida. Contratei um construtor que era meu vizinho, o Sr. José Orcino. Mas apareceu no meu comércio o cunhado de José André, meu irmão, pedindo que eu cedesse a obra para ele construir, alegando que ele estava passando necessidade em casa e que precisava ajudá-lo. 56
Então eu conversei com José Orcino, para ver se ele concordava em deixar que o meu irmão pegasse a obra. Ele aceitou sem problema nenhum. Então veio o José para assumir a obra. Chegou sem ferramenta. Eu tive de comprá-las para que ele pudesse iniciar a obra. Eu fichei dois pedreiros, dois ajudantes e um carpinteiro para fazer as fôrmas e ele ficou trabalhando como autônomo. Coloquei um engenheiro para acompanhar a obra e um mestre de obra. Eu não tinha experiência de construção civil e também não tinha confiança na experiência do José, como construtor. Perguntei ao engenheiro quanto tempo levaria para construir o prédio com aqueles cinco operários e quanto eu gastaria em dinheiro. Ele me disse poderia gastar no máximo vinte e cinco mil cruzeiros. Quanto ao tempo que gastaria seria até no segundo piso um prazo máximo de seis meses, com acabamento simples. Até ai tudo bem... Eu tinha de dinheiro uma pequena reserva de trinta mil cruzeiros. Mas o tempo foi passando e a obra não saía da base. Eu fui ficando cada vez mais nervoso com a situação, pois tiramos quinze caminhões de terra para jogar fora e depois colocamos mais dez de terra que veio lá do lado do cemitério. Diziam os entendidos que essa terra não era própria para sustentar o prédio. O engenheiro era recém formado e ele estava com medo do prédio não aguentar a trepidação do trem e as dinamites da Vale. O trem, carregado de minério, passava muito próximo e todas as casas tremiam muito. As dinamites eram usadas nas detonações da mina. Na época escutávamos 57
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todos os dias estas detonações, que também faziam as casas tremer. Com a sua inexperiência em obra civil, a fundação foi muito exagerada, e os alicerces também. Até começar a levantar as paredes, a verba já estava pela metade. Zé não fazia economia e seguia tudo que o engenheiro e outros sugeriam. O material sumia e eu não via o meu prédio. Assim, quando cheguei ao acabamento “simples”, como disse o engenheiro, sessenta mil cruzeiros já tinham ido embora, sem levantar a parte de cima. Antes do acabamento eu tive de parar a obra e dispensei o Zé, pois não tinha mais dinheiro. Mas tinha de pagar dois mil cruzeiros ao Zé, de indenização – dinheiro que eu não tinha mais. Recorremos ao Luís Meireles. O Luís me aconselhou a fazer um acordo com o Zé. Assim, dei a ele um cheque de mil cruzeiros, à vista, e o outro para trinta dias depois. A construção ficou interrompida mais ou menos um ano por falta de dinheiro. No ano seguinte recomecei com outros pedreiros, terminando a parte comercial, no mês de julho de 1973. Neste tempo em Itabira faltava água em todos os bairros. Era um dos grandes problemas na cidade. Nesta época, em diversas casas tinham cisternas e D. Laís saía com as crianças, que já eram seis, pois tinha nascido o Marco Aurélio; para buscar água na vila São Joaquim onde havia uma cisterna que a dona da casa cedia com gosto. 58
Marco Aurélio com 7 meses 22-02-1972
Essa água que os meninos traziam só chegava a metade: a outra metade caía no meio do caminho. D. Laís com o balde na mão, carregando Marco Aurélio e levando esse líquido tão precioso que era para colocar no filtro e fazer comida. A pouca água que caía na caixa d’agua à noite mal dava para encher os tambores. E já era reservada, para fazer massa para a construção e para o banho das crianças na bacia. Essa água caía de três em três dias. Era uma vida bem difícil, mas mesmo assim sobrava tempo para dar umas pescadinhas[2] com o amigo Muzinho. D. Laís ficava brava com a pescaria, pois ela além de olhar seis meninos bem levadinhos, tinha de tomar conta do comércio.
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Pescando no pantanal (MT) em 2009 com Erivelton
Alguém do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Itabira) me falou que havia um cano de seis polegadas, passando aqui na porta e que levava água para o centro da cidade. Ela vinha de uma nova estação de água chamada Pureza. Eu levei o projeto da construção ao SAAE e pedi a eles que fizessem uma ligação para mim, alegando que a obra estava parada por falta da água. Foi uma briga, pois um dos chefes insistia que aquela água estava reservada para os moradores do Centro e do Hospital. Eu disse para ele que estava construindo um prédio e necessitava urgente da água. Quando o diálogo já estava quase 60
baixando o nível, o chefão tomou a frente, e então com mais calma, me escutou. Depois, ele olhou o projeto, pensou bem, e disse: - “Amanhã mesmo eu mandarei os meus homens fazerem a ligação. ” Eu o agradeci, e voltei mais alegre. O chefinho é que não gostou nem um pouco, porque ele morava no centro e tinha medo que faltasse água na sua casa. No outro dia, eles furaram um pequeno buraco na rua e descobriram o dito cano. Com uma furadeira abriu-se um pequeno orifício e a água jorrou uns 10 metros de altura. Foi um grande avanço. Nunca mais faltou água para nós e para o vizinho, que era o Zé Baixinho. Por isso o Zé tem, até hoje, uma grande amizade, com a nossa família. E mais: um dia ele me falou que a D. Aparecida, sua esposa, estava nervosa, pois a fossa tinha estourado na porta da cozinha, e o vizinho Sr. Geraldo Gomes não permitia que ele passasse com a rede de esgoto no seu terreno para chegar na rua de baixo. Esse Geraldo era um homem muito sistemático. Eu disse a ele: - Providencie um pedreiro e pode colocar a rede de esgoto da sua casa ligada à minha, pois fica bem pertinho. E assim ele resolveu o seu problema de uma vez. Enquanto eu terminava a construção, o Álvaro levava almoço para mim, na Rua dos Operários; e depois ele seguia para o grupo Coronel José Batista. Era muito cansativo para ele, pois tinha apenas oito anos.
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Caminhonete que tive em 1971
Em fevereiro de 1971 viajamos nesta caminhonete para Belo Horizonte para batizar o Alfredinho. Foi uma grande viagem, a meninada na carroceria fez a festa sem se preocupar com o vento forte, chegamos sem problemas, pois o motorista era um excelente profissional e buscava semanalmente verduras no CEASA em Contagem para revendê-los no armazém da Rua dos Operários. O comércio foi mudado para o Alto Pereira no ano de 1973. Até os dois primeiros anos o comércio estava estável, isto é, sob controle. Mas alegria do pobre dura pouco, os ventos começaram a soprar ao contrário... Depois que a parte comercial do prédio já estava funcionando, mais ou menos um ano, a Vale com a Prefeitura projetou a construção de um elevado, um viaduto sobre a estrada de ferro que passava por ali com uma composição com 160 vagões de minério, pois a passagem dos vagões sempre congestionava o trânsito, formando grandes filas de carros. Por isso decidiram construir o viaduto. 62
Quando os topógrafos começaram a marcação da obra, eu encaminhei à Prefeitura um abaixo assinado com umas 500 assinaturas pedindo a retirada da estrada de ferro daquela região. Fizemos um projeto para que mudasse a mesma, passando por outro lugar denominado Cambucal, onde já existia uma linha chegando lá perto. Foi uma briga longa, muitas idas e vindas à Prefeitura, sem sucesso. Diziam que a Prefeitura estava levando uma grande vantagem na construção desse viaduto. E assim prejudicou toda a área comercial da região. Após a construção, o movimento do meu comércio caiu 80%. As despesas foram sempre aumentando. Em 2 anos convivendo com essa situação, fiquei devendo na praça oitenta mil cruzeiros. Não havia saída fácil. Eu devia a três bancos e a alguns agiotas muito enjoados, intolerantes, insensíveis à minha situação. Devia água, luz, telefone e a alguns fornecedores. Eu não poderia deixar de pagar. Ao consultar o meu contador sobre minha situação, ele me sugeriu fazer um empréstimo na Caixa Econômica Federal, com o prazo mínimo de 10 anos, ficando o imóvel como garantia de pagamento. Então fui até a Caixa, conversei com o gerente e ele me fez uma proposta de financiamento: cem mil cruzeiros, o prédio ficaria hipotecado por dez anos, a partir do ano de 1976 para garantia da dívida. As prestações seriam reajustadas de 90 em 90 dias sobre o índice da inflação daquele período. Realizei o negócio com a Caixa. 63
Minha História Minha Vida
Paguei todas as dívidas. Restaram desse dinheiro dezesseis mil cruzeiros. Com eles comprei mercadorias, reforçando assim o estoque, pois era minha ferramenta de trabalho. Durante um ano tudo correu bem. Depois começou novamente a complicar. O comércio continuava vendendo pouco, as despesas aumentavam e as prestações também. Eu voltei a tomar dinheiro emprestado, com juros altíssimos. Era uma corrida para o abismo. As dívidas avolumavam-se, o comércio cada vez pior. Todos que me lêem sabem que quando a gente está nesta situação, não raciocina muito bem. O pessimismo toma conta de nossas esperanças. Só se pensa negativamente e nada dá certo. E nesse meio tempo, nasceram mais filhos, o Ademar e a Maria Guida. Isso mesmo, mais uma menina com o mesmo nome daquela que Deus levou para ele. Então eram oito filhos estudando...
Ademar com 1 ano e 8 meses – 17/12/1975
Maria Guida com 1 ano e11 meses – 23/08/1979
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Erivelton havia ido para BH fazer um cursinho de um mês no SENO para preparar o vestibular para a Escola Técnica Federal. Ele foi aprovado e foi morar em uma pensão com preço acessível, quase em frente à Escola. Hoje é o atual CEFET-MG, no Bairro Gameleira. A situação financeira piorou por causa da hipoteca. Não tinha como voltar atrás. Nesta época fui muito criticado por alguns membros da família. Mas eu tive um grande aliado e companheiro de todas as horas. Para ser mais justo, tive dois: o Sr. Alfredo e D. Dulce, que abriram as portas para Erivelton morar com eles. Para mim foi uma grande força, pois naquele momento, eu não tinha mais condição de mantê-lo em Belo Horizonte. Dulce é irmã de Laís, que se casou com o Sr. Alfredo, um homem de coração de ouro. O Sr. Alfredo preocupava-se muito com os problemas de toda família, mas Deus o tirou do nosso meio muito cedo, deixando entre nós uma lacuna muito grande. Ele sempre me dizia: “Esse menino vai longe! Ele é muito esforçado nos estudos. Precisamos ajudá-lo.” Muitas vezes somos criticados, mas as criticas muitas vezes ajudam a dobrar esforços em nossos projetos. Como popularmente se diz: Fé em Deus e pé na tábua! Para termos sucesso tem que haver muita luta e dedicação. A nossa vida é uma prova de que sem essas duas coisas, não se consegue nada.
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Nesta situação, colocamos o Erivelton na Escola Técnica para estudar. E então ele não parou mais. Fez curso superior em Engenharia Civil, mestrado e até doutorado. Mas eu não me preocupei com as críticas. Sabia que se as coisas não iam financeiramente muito bem, por outro lado, eu poderia dizer que tudo ia de vento em popa. O meu projeto principal era fazer estudar todos os filhos. O meu plano era formá-los em excelentes cursos superiores. Na minha história de vida, como quem me lê constata, eu tive muita dificuldade. Uma delas eu atribuía ao pouco estudo que tive. Se consegui realizar alguma coisa foi com muita luta, dedicação e garra, contando com o apoio de uma esposa muito dedicada em dar uma boa educação aos filhos. D. Laís foi a companheira de todas as horas e sempre me apoiou nos momentos difíceis. Esse é o lado muito positivo na vida a dois. Quando se faz o juramento no ato do casamento, se diz: Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Eu digo mais: Na riqueza e na pobreza. Muitas vezes o casal vive muito bem. Então aparecem as doenças, surge o desemprego, começa a faltar o dinheiro para as despesas do dia a dia, as mordomias vão se acabando... Aí, caros leitores, que me lêem: o amor que entrou pela porta da frente sai pela porta dos fundos... Mas comigo e com D. Laís isso não aconteceu! Ela sempre esteve ao meu lado, preocupada com a educação dos filhos. Eu sempre falo para ela que oitenta por cento da sabedoria dos meninos é dela. No seu tempo de estudante sempre tirou os primeiros lugares. Ela para mim é uma excelente esposa, uma 66
grande mãe, uma grande avó coruja, como diz a neta Camila. Ela viveu e vive sempre preocupada com as dificuldades dos filhos e feliz com suas conquistas. Feita a minha homenagem a esta a quem devo tanto, D. Laís, volto a falar de meus filhos. Agora vamos falar de Evenilton. Quando terminou a oitava série, também foi para Belo Horizonte fazer o cursinho no SENO a fim de se preparar para o vestibular da Escola Técnica Federal. O curso era cada vez mais concorrido e ele não conseguiu ser classificado para a vaga que a escola oferecia. No ano seguinte, Álvaro foi encaminhado para o mesmo curso e também não foi classificado. Evenilton se formou no curso Técnico em Administração de Empresas na FIDE. Ambos fizeram o curso técnico em Itabira e foram selecionados com boas notas. Acho que sabiam que não poderíamos sustentá-los em Belo Horizonte. Álvaro após ter sido aprovado no SENAI, já estava trabalhando na Vale. Ia todos os dias para João Monlevade estudar no curso técnico em eletrônica, com grande sacrifício, o que lhe valeu uma boa promoção na Vale, mas também não parou por ali. Formou-se em Ciências Exatas, na Funcesi, fez Pós-graduação em Administração Financeira e Análise de Sistemas pela UFMG em 1995. Cristina fez seu curso de normalista. E aos quarenta anos passa no vestibular da UFSC e faz educação à distância. Hoje ela está quase se formando em Letras-Português.
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O Alexandre foi reprovado na sexta série. Adolescente, ele não gostava muito de estudar, mas antes de terminar o ginásio, fez um curso do SENAI e foi trabalhar na Vale. Posteriormente, ele fez o primeiro ano na Escola Técnica Agronômica Federal de São João Evangelista e sempre vinha de lá com as maiores notas. No ano seguinte foi estudar em Ouro Preto. Ele foi obrigado a repetir o primeiro ano, apesar das excelentes notas e recomeçar o segundo grau de Técnico em Informática Industrial na ETFOP (Escola Técnica Federal de Ouro Preto). Mais tarde, prestou vestibular na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), passando com excelentes notas e hoje é Engenheiro Civil. O Marco Aurélio, assim como alguns de seus irmãos, também fez o curso do SENAI e chegou a trabalhar na Vale. Depois se formou no segundo grau e se tornou um empresário do ramo de móveis e eletrodomésticos. O Ademar durante a 1ª série do segundo grau iniciou no SENAI. Começou na área de eletricidade e terminou na área de informática, mais promissora e foi considerado um dos melhores alunos do SENAI na área. Com dezessete anos foi enviado pela Vale a São Paulo para ampliar os seus conhecimentos de Informática. Ele estava no SENAI e ao mesmo tempo concluiu o curso técnico de Processamento de Dados. Depois se formou em Matemática, Análise de Sistemas pela UFMG em 1995, e Pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas. Maria Guida terminou a oitava série e foi para o Colégio Nossa Senhora das Dores. Também concluiu o curso técnico 68
de Processamento de Dados, com meia bolsa de estudo que a mãe conseguiu, enfrentando uma enorme fila na Ação Social da Prefeitura Municipal de Itabira. Após isso se formou em Ciências Contábeis. Eu só tenho a agradecer a Deus por ter abençoado minha vida e ter me concedido uma família estruturada com oito maravilhosos filhos. E os filhos casaram. Alguns descasaram e dessas uniões vieram muitos netos saudáveis e muito inteligentes. Em 2005 perdemos a pequena Lais: aos dois anos e oito meses, foi levada por Deus ao céu para formar seu grupo de anjinhos, que hoje ilumina e protege toda a nossa família. Naquele mesmo ano, dois meses depois, D. Laís ficou internada doze dias, com diverticulite, que segundo os médicos é uma doença que pode ter uma origem emocional.
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Capítulo VIII - Alternativas diferentes
B
em, falei dos filhos e netos. Agora voltemos ao ano de 1976 quando do início da hipoteca de dez anos, de muita luta, muitas noites sem dormir, de pensar nas dívidas que aumentavam a cada dia, sem que eu pudesse fazer alguma coisa para diminuí-las. Era um buraco sem fundo... As despesas eram maiores do que a renda mensal. Nesse momento de minha vida um amigo me aconselhou a mudar o comércio para outro bairro. Consegui alugar um cômodo bem pequeno no bairro da Praia. Ali iniciei uma nova etapa de minha vida. Embora o cômodo fosse pequeno eu consegui uma boa freguesia. Aos poucos fui pagando as dívidas que, não contando com a da ”Caixa Federal“ já ultrapassavam a casa dos setenta mil cruzeiros. Na ocasião a inflação era de 40% a 60% ao mês. Para quem tinha dívidas altas como eu, era difícil acompanhar o ganho e os compromissos financeiros inadiáveis. Para vocês entenderem melhor o que significa a inflação de 40% ao mês: se eu devia R$ 100 num mês, no mês seguinte eu passava a dever R$ 140, e 70
no segundo mês R$ 196, ou seja, o dobro de 60 dias antes! E a inflação era perversa com quem tinha dívidas, pois enquanto estas cresciam velozmente, a renda nem de longe acompanhava... Pois pareceu até um milagre sair deste buraco! Com um comércio tão pequeno, eu consegui pagar uma dívida tão elevada. As vendas eram praticamente à vista. Dona Laís permaneceu aqui no Alto Pereira, tomando conta do resto do estoque que ficou, e com a meninada para esquentar sua cabeça... Isto aconteceu porque a documentação da firma estava nesse endereço. Depois que transferimos a documentação para o novo endereço, na rua João Camilo de Oliveira Torres, alugamos o cômodo para um depósito de doces. O inquilino morava em BH e vendia doces por atacado em Itabira. Mas ele deu um calote nos aluguéis, deixando aqui um resto de mercadorias e uma Kombi sem motor. Eu a vendi por preço de banana, para recuperar um pouco dos aluguéis atrasados. O porão foi alugado para um pessoal que vendia peças de gesso para decorações de casa. Nosso filho Marco Aurélio, ainda pequeno, vendia na rua algumas imagens para esses inquilinos. Mas como sempre e no final da história, esses também se foram e deixaram um resto de estoque para trás. Sumiram sem pagar o aluguel e sem pagar o Marco Aurélio... Então, presenteamos alguns amigos e vendemos algumas peças para assim recuperar o dinheiro do aluguel. Depois aluguei o cômodo comercial para um supermercado que 71
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chamava Varejão Carneirinhos. O proprietário também era de BH. Esse fez muitas exigências pedindo que eu tirasse a parede da garagem para aumentar o espaço do comércio. Ficamos até privados da entrada de nossa casa. Ficamos passando a partir dessa reforma pelo lote do vizinho, José Baixinho. Ele queria fazer um contrato de 5 anos, mas eu só aceitei 4 anos. Ele pagou o aluguel de 1 ano e entregou o cômodo antes de vencer o contrato. Ele acertou comigo, dando uma Kombi por conta dos aluguéis e da rescisão do contrato. Eu exigi esse veículo, porque com essa modificação, as reformas solicitadas, eu tive algumas despesas. O cômodo foi alugado posteriormente para uma capotaria. Esse local ficou 5 anos com o Sr. Custódio. Nesse período eu estava com o comércio na praia. O proprietário do imóvel, no entanto, resolveu trocar o imóvel que eu ocupava por uma propriedade na região do ribeirão São José, o que para mim seria um péssimo negócio, pois eu já estava estabelecido há quase cinco anos e tinha boa freguesia. Eu não poderia esquecer, porém, que, quando eu ali iniciei o meu comércio, o proprietário, o “Louro”, não me exigiu nada de garantia de pagamento, nem mesmo um avalista. Além disso sempre demonstrou ser muito meu amigo, sem deixar de mencionar que ele me tirou de um buraco... Por isso não questionei, não pedi nenhuma indenização do ponto comercial. Se o novo dono me comprasse as mercadorias e os móveis do comércio, seria muito bom para mim. Ele realizou sua troca e eu cedi o ponto para o novo proprietário. Iniciamos, então, uma nova luta para encontrar um local apropriado para recomeçar mais uma vez. 72
Então, D. Laís, minha incansável companheira, saiu de bairro a bairro procurando e perguntando às pessoas sobre as condições do aluguel de cada cômodo que encontrava fechado. Fazia essa busca a pé e com as crianças pequenas junto com ela. Enquanto isto, eu, no bairro Praia encerrava a contabilidade e as atividades daquela etapa comercial...
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Capítulo IX - Década de 1980
S
urgiu finalmente um ponto na Vila Paciência. O seu proprietário pretendia passá-lo para frente. Eu encontrei com ele e fizemos o negócio. Comprei o estoque e paguei quatrocentos cruzeiros pelo ponto. Foi uma das suas exigência para vender o comércio. O estoque foi pago por um mil e novecentos cruzeiros. O ponto era bom. Nessa época Álvaro terminou o Senai, e foi dispensado. Cuidamos de sua emancipação, pois assim ele poderia se tornar meu sócio. Ele se esforçou ao máximo. Com grande determinação e um especial tino comercial, conseguiu levantar as vendas e uma grande freguesia. Compramos uma mesa de sinuca à prestação. Com a sua renda a quitamos em uma semana. Compramos em Belo Horizonte, à vista, duas televisões a cores. Depois e com pouco do dinheiro que sobrou do Senai, somado a mais um pouco do lucro do bar ele comprou uma moto 0 km.
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O Evenilton trabalhou na Agência da Minas Caixa de 1980 a 1991. O Erivelton serviu o Exército, onde fez o curso de oficial, conseguindo o primeiro lugar. Ele foi contemplado com uma espada e uma medalha. O Álvaro frequentou o Senai até 1983 e em 84 retornou à Vale. Alexandre ficou me ajudando no comércio, às vezes era Marco Aurélio e Ademar, esse ainda bem pequeno. Como vocês podem ver, todos os meus filhos trabalharam junto comigo, nos vários comércios que tive. Desde pequenos! Claro, sempre estudando e dando seus jeitos para brincar também. Foi mais uma vez um tempo muito difícil para mim, pois alguns fregueses ainda jovens começaram a usar drogas, perturbavam o comércio e muitas vezes tornavam-se agressivos. Eu sempre precisava chamar a policia para controlar a situação. Alexandre foi agredido por um deles, que jogou um copo de vidro no seu rosto. Tudo isso me aborrecia muito. Passamos por momentos difíceis e dessa vez muito mais pelas transformações no comportamento de alguns frequentadores do que pelo comércio. O Sr. Valdir, proprietário do cômodo, decidiu não alugar mais o mesmo. Pediu que eu o entregasse no período de 90 dias. Nesta época o Sr. Custódio que era meu inquilino aqui no Alto Pereira há quase 5 anos, também me entregou o cômodo. Assim eu transferi o comércio novamente para a minha residência.
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Isso aconteceu no ano de 1986. Continuei o comércio até 1991. Nessa ocasião, Marco Aurélio, que também trabalhava na CVRD, foi surpreendido ao ser dispensado por causa de um decreto do Presidente Fernando Collor de Melo. As empresas estatais deveriam reduzir o quadro de funcionários. Infelizmente Marco Aurélio, por ser novato, foi um dos dispensados. Em 1983 eu consegui a aposentadoria já com quase 32 anos de contribuição. Sessenta e três por cento sobre o teto de 5 salários mínimos. Três anos depois termina o tempo de dez anos de contrato do financiamento do prédio, assinado com a Caixa Econômica Federal. A dívida estava finalmente quitada. Foi uma das grandes vitórias nessa minha caminhada. Assim sendo passei o comércio para Evenilton e seu amigo e sócio Jaime. Mas estes ficaram pouco tempo, não obtendo sucesso, indo quase à falência. Álvaro então colocou uma pequena loja no espaço em nome de Helândia, que também não deu certo. Foi muito desgastante, pois eles moravam no bairro Juca Batista, que era um pouco distante e isso também contribuiu para o fracasso e fechamos a loja. Eu decidi vender alguns fogões reformados e televisores preto e branco. Marco Aurélio começou a comprar usados, de tudo, montando uma loja com o nome de Mercatudo. Nesse comércio eu me afastei em definitivo e aluguei o cômodo para Marco Aurélio. E até hoje ele mantêm essa loja juntamente com sua esposa Elizeth, agora porém, somente com móveis e eletrodomésticos novos. 76
O Aniversário de tia Alzira na roça “Ir na casa da Tia Alzira” era sinônimo de ir ao paraíso. Era uma viagem e tanto: 30 minutos de carro até a Chapada, depois mais 1 hora de estrada de terra até a fazenda. Ou, em tempos anteriores, um bom tempo de ônibus e depois uma caminhada de 2 horas, pelo meio do mato. Mas toda a criançada da família não se importava: lá era o paraíso das férias de todos. Nas férias andavam por lá pelo menos umas 30 crianças, com várias idades. Todos eram carinhosamente cuidados por Alzira, Odil e filhos.
Tio Odil e tia Alzira – fotos de 1972
Odil era primo da Laís. Ficou viúvo ainda jovem e casou-se, depois, com Alzira (uma das irmãs de Laís) um pouco depois do meu casamento. Alzira era uma pessoa muito doce, amada por todos. Tinha a fala mansa, gestos calmos e muito trabalhadora. A paciência com a tropa de sobrinhos era impressionante! Odil era um gênio das ciências. Com pouca instrução na escola, sabia de tudo! Naquela fazenda, sem energia elétrica, ele tirava da natureza tudo que precisava. E moldava a 77
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natureza, transformando árvores em tábuas, cursos d’agua em energia mecânica para moer o milho, gerando energia elétrica através de um gerador e muitas outras artimanhas. Ah, era artista também: fazia muitos trabalhos em madeira, grandes e pequenos. Construía grandes rodas de engenho para os produtores da redondeza e fazia outros menores para enfeite. Quase todo mundo da família tem alguma obra dele. E no Museu do Ferro de Itabira também tem! Na fazenda não havia luz elétrica. Então a vida lá andava no ritmo do sol: a criançada levantava ao nascer do sol e dormia logo após o anoitecer. O banho era com água aquecida na serpentina pelo fogão a lenha, onde havia café quente o dia todo. Nos dias que antecediam ao onze de agosto, a meninada já vivia momentos de alegria, ansiosos a espera do dia “D”. Chegou o domingo, eram 6 horas da manhã, tirei o carrão da garagem que era nada mais, nada menos que um Fusca 69, fizemos a lotação, preparamos algumas coisas para completar o almoço e pé na estrada. Chegamos sem problema, fomos recebidos com muita alegria pelas pessoas da casa, aí já encontramos o Alfredo e a família, as Srtas. Aurora e Geralda, o Juliano e a família, a Beth e o Luiz, o Célio e a família, o Élcio e a Terezinha. Formamos um encontro de parte dos familiares. A meninada partiu logo para o ataque, uns foram tomar banho na cachoeira, e outros foram montar a cavalo, alguns diziam; depois nós fomos no “Salão”, uma caverna de pedra bem no 78
alto do morro próximo à sede fazenda, aí Maria José dizia em voz bem alta: “— as crianças não podem ir ao salão porque lá tem muito carrapato, eu estou cheia de coceiras, da cabeça aos pés porque apanhei muito carrapatinhos nesses matos.” Ah! Neste dia o curral estava cheio de gado alguns eram dos vizinhos, pois era dia de vacina, estavam prevenindo-os contra as doenças contagiosas. Lá estavam os filhos do Alfredo, Josemar e Denise, desses temos uma história pitoresca para contar. O Josemar carregava no ombro uma filmadora que naquela época ainda era novidade e a Denise uma máquina fotográfica, aí, empolgados, começaram as suas façanhas, mas nada dava certo para eles como repórteres. O tio Odil era um homem muito sistemático e disse para eles: “— Vocês não vão tirar meu retrato e nem me colocar nesta máquina que não conheço, não quero que tire meu retrato e nem me coloque nessa geringonça ai”. Ficaram um pouco constrangidos com a situação, saíram e foram lá para o quintal saborear algumas frutas e relaxar do mal estar que causou o tio, trocando ideias, traçaram um plano para pegar o velho de surpresa. Um ficava na varanda e o outro na cozinha e assim que terminaram a reunião foram para “guerra”. Mas o tio, dizia da varanda para a cozinha: “— eles não vão tirar meu retrato e nem me colocar naquela geringonça, eles acham que vão me enganar, coitados deles!” Eles ficaram horas e horas e, acho eu, não conseguiram nada. A Maria José andava da cozinha para varanda falando: “— apanhei muito carrapato lá no salão... os meninos não podem ir lá...” O Alfredo, Célio, Juliano, Élcio e eu conversamos sobre 79
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a situação da vida e sobrevivência daquelas pessoas com poucos recursos financeiros e pouco conforto. Voltamos para festa, a meninada, sempre nos matos, não escutaram a Maria José e voltaram cheios de carrapatos, as mães ficaram preocupadas com tanta coceira, a tia Alzira providenciou logo um remédio caseiro que combatia o veneno do carrapato, poucas horas depois já estavam todos brincando. Durante este tempo todo as mulheres esquentavam a barriga no fogão à lenha que a Margarida ainda bem pequena abastecia trazendo lá do alto dos morros, às vezes trazia um feixe de bambus secos para substituir a lenha. Camilo, Dimas e Geraldo sempre cuidando das crianças. Chegou a tão esperada hora - o almoço - a meninada, cada um pegou o seu prato invadiram o fogão, pois a fome era tanta que dava até briga para servir o rango. Os adultos de lado esperando a sua vez, e era até divertido ver tanto reboliço! O Odil muito carinhoso com as crianças e a tia Alzira sempre preocupada em agradar a todos, com aquela calma que era o seu jeito de viver transmitindo paz e tranquilidade a todos, era uma senhora com um grande carisma para tratar as crianças. Após o almoço vieram as sobremesas, foram servidos: docinho doce de leite, canudos recheados com queijo, doce de figo e um arroz doce muito gostoso. Terminado este momento, todos foram para a sala colocar as fofocas em dia com alegria total! Das quatro até às cinco horas preparamos a volta para casa, o Célio saiu na frente, o seu carro era um Corcel bem usado com alguns buracos na lataria e os quatro pneus bem carecas, depois saímos em comboio até o asfalto, nesse trajeto o Célio 80
furou os quatro pneus, precisamos rebocá-lo até Itabira, para o Élcio em sua borracharia remendar os pneus e devolve-los aos companheiros de viagem, e assim puderam retornar com muita alegria para Belo Horizonte. Foi um dia muito agradável para toda família. Como é bom lembrar os dias felizes do nosso passado, esses momentos nunca sairão de nossas memórias.
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Capítulo X - Novos tempos
J
á que o tempo me permitia, comecei a participar de atividades junto à comunidade. Não consigo ficar parado! Iniciei pela Pastoral familiar, participando de um encontro de casais em Santa Maria. Fiquei muito entusiasmado com o trabalho daquela pastoral, que passa para as famílias, através do diálogo, uma mensagem muito forte de harmonia na caminhada à dois, transmitindo a importância de muito amor entre os casais. Na Pastoral eu e D. Laís participamos por vários anos. Em um destes encontros coordenamos a parte externa, preparando casais para esse evento. Também na Pastoral foi formado o curso de noivos aqui em Itabira, do qual fizemos parte e preparamos muitos casais de noivos para o casamento. Deixamos depois a Pastoral e fomos para Igreja participar da liturgia. D. Laís ministrava a Eucaristia, distribuindo comunhão aos fiéis; e eu como ministro da palavra, fazendo celebrações e levando o Evangelho aos irmãos das comunidades rurais e dos bairros da cidade. Ficamos nesse 82
trabalho alguns anos enquanto permaneceu a passagem de Padre Ernesto na nossa Paróquia. Hoje estou cuidando do nosso bairro como presidente da Associação do Alto do Pereira e adjacências. Assim estamos completando uma etapa da vida, contando essa historinha às vezes até monótona, mas verdadeira, para todos os oito filhos com seus cônjuges e para os netos, que fazem parte desta caminhada, na esperança de que Deus me dê muitos anos de vida para contar muitas e muitas Histórias.
Família Guedes reunida – 29-05-1999
Quero agradecer a Deus por estes 75 anos de vida saudáveis. Quero agradecer a Ele pelas vitórias a partir do meu nascimento, pois como puderam ver Ele sempre enviou seus anjos para me socorrer nas horas difíceis, ao iluminar o meu caminho e colocar à minha frente pessoas iluminadas. Muito obrigado, Senhor!... 83
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Quero finalizar agradecendo também às pessoas que fizeram parte desta história, que começou nas primeiras décadas do século XX e termina no século XXI, e pedir que Deus dê a eles muitas bênçãos. Meus filhos, noras, netos e genro, são o meu tesouro mais precioso. Peço sempre que o Divino Espírito Santo ilumine seus caminhos.
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Anexo - resumo dos personagens Armando da Costa Lage e Guida da Costa Lage (Sá Guida): meus pais de coração. Seus filhos: Lauro, José da Natividade, Amerquina, Maria Rita (Lica), Domingos, Sílvio e Eni; Maria Augusta Gomes e Andrelino Guedes: meus pais biológicos. Seus filhos: José André Gomes, Osório Guedes e Raimundo José Guedes; Ademar Pires Lage e Maria da Piedade Martins da Costa Lage: tiveram três filhos e sete filhas - Alzira, Aeir, Niobel, Gercino, Dulce, Aurora, Geralda, Laís, Evarista e Célio; Ademar Pires Lage e Clarice de Assis Lage: tiveram cinco filhos e duas filhas: Elisabete, Élcio, Eugenio, Eduardo, Estevão, Eliane e Juliano; Nossos filhos, noras, genro, netos e bisneto: Erivelton e Renata (Maria Teresa, com Paula; Gabriel e Marina, da Renata), Evenilton (Lucas, com Carla), Álvaro e Helândia (Susan, Bruna e Vinícius), Cristina e Frederico (Tomas, Lais e Julia), Alexandre e Sávia (Mateus, com Liliane; Marco Aurélio, com Sávia), Marco Aurélio e Elizeth (Érick e Lorena), Ademar e Fabrícia (Felipe) e Maria Guida (Camila, com Tiago). E nosso primeiro bisneto, Arthur, filho do Lucas e da Bárbara; 85
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Nhonhô (Almir Pessoa Magalhães): casou-se com Eni; Amerquina: casou-se com Zico Lage; Maria Rita e Avelar: casaram-se e tiveram cinco filhos, entre eles Miraci, que se casou com Geraldo. Desse casamento nasceu Helândia, minha nora, casada com meu filho Álvaro; Padrinhos de casamento: eu convidei a Alzira, irmã mais velha de Laís, e Amerquina, minha irmã do coração e seu marido Zico Lage. Laís convidou o Sr. Joaquim Meireles e esposa Maria Madureira de Meireles, a Dona Neném e o seu tio Levi e Eni Lage Magalhães; Sr. Raul Alvarenga: bisavô e padrinho de batismo de nosso amigo Valdir Alvarenga Procópio; Olímpio Pires Guerra (Li): tornou-se um grande empresário, tendo sido Prefeito de Itabira e Deputado Federal por Minas Gerais; Fichar: termo usado para o registro formal de trabalho, com carteira assinada, em uma empresa; E.E.M.Z.A.: Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio; Companhia Aços Especiais de Itabira – ACESITA: empresa em que trabalhei como soldador; Companhia Vale do Rio Doce: fundada em 1942, durante o governo de Getúlio Vargas, como parte dos Acordos de Washington, a Vale tornou-se, em 64 anos, a maior 86
empresa de mineração diversificada das Américas e a segunda maior do mundo; [1] Fábrica de Tecidos da Pedreira: Laís morava na casa do Sr. Joaquim Meireles no lugarejo entre Itabira e Santa Maria do Itabira, que hoje é uma represa (Barragem de Santana) pertencente à Vale, usada para lavagem do minério de ferro extraído; [2] Francisco José Schettino: era o responsável pela área de trabalho; posteriormente, tornou-se o presidente da Cia. Vale do Rio Doce, hoje denominada Vale; [3] Pescadinhas: sempre gostei de pescar nos rios da região. Pescar com os amigos alivia a tensão e recupera as energias para enfrentar problemas.
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O autor Raimundo José Guedes, nascido em 19 de março de 1935, em Santa Maria de Itabira-MG, na Fazenda da Cachoeira, conta a história de sua vida, com muita garra, perseverança e alegria. Uma fascinante e bemhumorada jornada, um exemplo de superação e amor.