Gui Menezes
#22 0 9/ 1 5 R $ 6,0 0
ANO 2 - EDIÇÃO 22 - SETEMBRO DE 2015
Jonatan Ortiz Borges: Editor de Conteúdo Não pode dizer que no princípio fez o céu e a terra. Pois um tal de Deus já tinha roubado a ideia. Faz desde então o que pode com seu ofício de poeta e vez em quando consegue construir e desconstruir, criar e recriar tudo o que há no mundo através do verbo. É um ser em constante busca e construção sem ser, e pelo que é não sabe se será... Amém.
Gui Menezes: Editor Gráfico Em busca de um lugar que nem sabe bem onde fica, faz essa procura através da arte. A inspiração para criar é a musica e o café. Além de viajar em um mundo próprio também viaja de moto sem um destino certo. Apaixonado por pessoas, inverno, quadrinhos, madrugada e desenhar, tudo isso sem moderação.
Odair Fonseca: Produtor Multimídia e Publicitário Ator, Fotógrafo, Videomaker, Produtor Cultural, Produtor Multimídia e Midialivrista. Quase um David Bowie, um camaleão da vida que se modifica e se adapta a ela cada dia. Viciado em trabalho, café, teatro, rock, jazz e literatura. Entre trabalho, arrumar e desarrumar as malas às vezes tiro uma soneca.
Lilian Monteiro: Relações Interpessoais Especialista em café e petiscos, apaixonada por vinho e abraços, pulsação por qualquer forma de arte, atriz, poeta e curiosa sobre quase todos os tipos de assuntos.
Conselho Editorial: Henrique Veber, Jonatan Ortiz Borges e Lilian Monteiro
Editorial Olá descobridores, recriadores e traidores do verbo. Traidores?! Sim, pois é necessário trair a linguagem acostumada e viciosa para recriar e transformar a realidade, é preciso trair a conformidade da linguagem e do mundo, quebrar as cadeias de mesmice. Silenciar dizendo… Dizer calando… Anunciar além do que é dito… Transformar a nós e a quem nos lê e quem sabe o mundo. Eis a magia da poesia! Por isso aqui estamos munidos do Verbo criador, externando sentimentos, evocando beleza, propiciando reflexão, ora provocativos e sarcásticos, ora ternos e carinhosos. São 29 poemas em nossa vigésima segunda edição, – Entreverbo #22 – entre poetas que mensalmente marcam sua presença e felizmente também com muitos estreantes em nosso singelo periódico, num trabalho de escolha que se torna a cada vez mais difícil com tantos poemas de qualidade recebidos. Contamos com o financiamento do PIC – Programa de Incentivo À Cultura da Prefeitura de Canoas a revista e sarau de lançamento, com isso podemos ofertar a publicação gratuita na revista aos poetas colaboradores, bem como recebimento de dois exemplares da mesma. Então venha espalhar a poesia conosco: Eis o convite: Entre. Eis o motivo: Verbo. Então permitamo-nos estar: Entreverbo(s).
Os editores
porra menina, não vê que eu tô em outra? eu sei que você sabe que eu sou fraco, que tenho esse seu gosto bem na minha boca mas agora já era a nossa dança vai pro mundo, ver gente diferente, sentir o que se sente quando estamos livres porra menina, sabe que eu te quero, vou te querer pra sempre:
Louco não, louco são Sou louco Sou alma Sou pouco Sou corpo Sou vazio Sou vil Sou o que sou Fui, irei e vou Soa bem Som do mal São…? Não. Aba Asè
esse seu gozo, esses seus seios, você é linda, homem não há de faltar no teu quarto, nem mulher, se for o caso mas agora já era a nossa dança eu vou embora, numa outra onda, mas não sem a nossa última transa por que você sabe que eu te amo Valter Junior
Labuta A João de Abreu Borges em sua própria vida o homem finca raízes atravessa árvores mata fungos sem olhar para trás e perceber: os frutos não mera consequência Luiz Otávio Oliani
Vai embora passarinho Não bica meus botão. Se come as flor das fruta De que vevi o meu sertão? Nossa terra de água pouca, Pé rachado e coração, Tem fartura de miséria E muito trabalho na mão. Antão diz cá, passarinho, Caus'de que não voa longe pras terra de farto pão? E deixa esse cadinho Que custa brotar do chão. Pega e vai, voa pros vento Se fica nesse relento Escolha não deixa não Se na fome lhe mato e como Quem canta no meu sertão? Maria Ritha Ferreira Paixão (Ritha Paixão)
...o que me encantava nela? aquele vestido cheio de barquinhos navegando pelo tecido vermelho... Morgana Carvalho
A reza do ser brincante que tem a peste na barriga e a fome na mão Candelária, Carandiru e Curupira na imaginação da criança bugiganga-fantasiosa apedrejada pela armada da pátria-multidão. enquanto a solidão da noite é prosa desnuda evapora uniforme absurda esmola consome o trabalho de Sísifo e a produção incansável do deus-menino-homem-sol em carrinhos de mão. meu amor, desde mil e quinhentos a nossa civilização é corpos, moinhos, tormentos, chacinas e destroços de homens armando negócios em seus campos Barbacena de futebol de botão. um beijo na boca do cão, ó sina. o apagão da rua é o sono do santo cruel onde o abandono da menina é ter a música da lua como luta, céu, busca e lençol contra o formol da burca dos adultos-servidão. somos miseráveis, mosqueteiros e Dom Quixotes esperando o pagode trilhado do último trem a diferença é que os atores vão embora quando acaba o xote e as bufas e bufões, casas não têm. são meninos, são crianças que moram na masmorra dos seus sonhos que morrem na gangorra dos seus sonhos são países, são nações, são felizes. São Ninguém. somos ninguéns. amém. William Fossati
Psicoterapia para mães
Face de Ébano Surgiu o teu rosto No negro da noite Gritavas o meu nome No meio do açoite. Minha pele rasgada Sangrava a história De desigualdades Impostas Em lutas sem glórias. Basta de violência E crenças De superioridade Aprenda Aqui e Agora Que o Racismo Já não tem mais vez Nesta história. Reconheça a importância De minha gente Na construção Deste Brasil Sem memória. E hoje Sou eu que grito Respeite minha Face de Ébano Símbolo da minha negritude Das minhas crenças, da minha força E do meu Axé! Lilian Rose M. da Rocha
Frieza de lâmina a rasgar a alma morri de vergonha quando ouvi a palavra - idiota! seguida de - imbecil! em menos de dois segundos A língua sendo objeto cortante e destruidor da autoestima da criança E quem disse estas palavras que ferem mais do que punhais foi uma mãe. Helena da Rosa
O andarilho O andarilho e sua gaita de boca no campo de milho a voz um tanto rouca. O espantalho seu parceiro crucificado com as vestes de retalhos e o corpo todo furado. O andarilho escorado no joelho encostado no espantalho do chapéu vermelho Pega sua gaita e faz um floreio. Tem sangue no olho e ouve os conselhos do boneco caolho sentado no orvalho na canção ele mergulha as notas saem parelhas com seu coração em frangalhos (como quem puxa o gatilho e só provoca fagulhas). E vai andando o andarilho numa busca sem atalhos o solitário maltrapilho do cabelo já grisalho Segue o rumo da direita e some na estrada escura. O andarilho sequer suspeita que é a si mesmo que procura. Júlio Freitas
Cusparadas uma cusparada ou o tempo que leva a evaporar e sumir na terra ou no cimento o contorno de saliva que ali se impregna se uma velha canta em cima e há no fundo o som do vento se ela blasfema a fonte d'água e faz fotossíntese convulsiva se o cuspe é cuspe de menina se a menina nunca menstruou e é mestre em contar mentiras pros namorados e pras amigas então é certo ficar marcado o contorno a silhueta o rastro do cuspe no chão impresso como fosse um outdoor na frente da tua casa a te lembrar daquele pacto toda manhã quando acordas o velho pacto de dar as mãos e lançar duas cusparadas para adiante com força sem acertar nenhuma formiga e as duas caírem em cima uma da outra abraçadas e não errávamos uma Marcus Groza
JK Desencanto Tempo Amigo do conhecimento Inimigo do amor Amar hoje E conhecer O seu verdadeiro eu Amanhã Em quem confiar Se o que te cerca É misto de perfídia E crueldade Este mundo lobo-leão Que te devora a pureza Que te faz refém Do desencanto Que te corta o pulsar da paixão Te deixa incrédulo E leva ao delírio angustiante Quiçá fosse um passarinho Que reverbera seu cantar Na pureza das horas Para despertar as manhãs Numa eufonia majestosa Ter suas asas Para livremente Determinar o voo E nem que por um instante Ter a liberdade de fugir Das armadilhas De seu predador..... Elizabeth Cirqueira Leite
Essas coisas ditas No silêncio da sala No cheiro do mogno No exalar do tabaco Essas coisas ditas No barulho no peito No aroma da alfazema No leito, depois do regozijo Essas coisas benditas Essas coisas malditas Essas coisas ditas Antes da lua partir Esse leito de carne Esse leite de pluma Essa ligação telúrica Entre o certo e o que nada sabe E ainda dá tempo De irmos até Brasília Matheus R. Gonçalves
Constelou Ele não falou nada demais, não saíram faíscas quando a mão dele tocou a minha sem querer, não houve uma música que tocou na hora certa para criar um beijo. Não foi sob a luz da lua em Paris que ele falou dos brilhos dos meus olhos, foi em um ônibus mesmo, falando sobre o quarteto fantástico que olhei para ele e eu disse para mim… Constelamos. Gabriel Silveira
O vazio Me pergunto se é possível Dar certeza aos ouvidos, àquilo que Os olhos internos vislumbram Sem nem cochichar aos benditos, O que tem dentro do abismo. Willian Barros
Na corda bamba alguns homens remexem nos lixos outros usam suspensórios incógnitos combatem as injustiças os mais jovens ainda acreditam eruditos preferem manuscritos é esquisito acusar corrupto em delito dar a mão ao trabalhador simplório sentir o hálito dos engolidores de pecados olhar o parasita amargurado ao lado alguns homens remoem saudades outros mais bizarros contam histórias e crianças transformam alegria em magia poucos sonhadores carregam nuvens nos olhos e a maioria com suas máscaras param ao sinal vermelho melancolia vira epidemia e lenda, toda a inocência
erodente
Benette Bacellar houve um tempo sem lume [terreno sáfaro] composto de juras rasas um lado [b] de males ditos miúdas palavras e seus avulsos desertos Cláudia Gonçalves
O fera e a bela Omar, dizem ter negro humor. Mara, passa o tempo na tela. Ele quer Mara namorar. Seu amor. Ela fica olhando Omar passar pela janela, E já amarga no amor, mas quer namorar. No mar, ele pescou. Quer jogar a rede nela. Já perdendo o rebolado, ele arma uma armadilha... Manda um robalo pra fera tendo um diamante dentro. Vem a noite e o presente. Ela abre e não entende. Joga o peixe na lixeira e não dentro da panela. O mar não está pra ele. Omar: qual é a dela? Mara ficou pra titia e ele ficou sem ela. Elton Manganelli
A olho nu Quem é o estranho que me olha tanto? Será um louco, assassino, santo? Quem é o estranho que me olha franco? Algum corcunda, vesgo, torto, manco? Quem é o estranho que me olha fundo? Vai ver, é bicho, alma do outro mundo. Quem é o estranho que me vê tão velho Ao me espiar do fundo desse espelho? Tony Saad
Fragilidades Desenho de giz sob a goteira do tempo. Coando-se em mim a morte constrói castelos e estalactites… Dente de leão que o destino bafeja a deriva dos ventos … e tufões! Nos tentáculos do deserto o Sol/criança gulosa lambe-me, escultura de gelo. Impetuosa corrente de vida arremessa-se em meu peito fraco/flácido papel de seda. Na mesa de deuses famintos o desjejum. Sou boneco de açúcar! Francisco Ferreira
Eu? Leviana… eu? Teu amor me fortalece, me consome, me anestesia. Tua energia me envolve e me ilumina feito o Sol em dia de frio. Tua pele me cobre feito manto que aquece e protege. Tua voz me cala! Teu ouvido me chama. Teus olhos me procuram, me desejando. Tuas mãos me tocam como se eu fosse um instrumento bem afinado. Teu sexo faz minha carne queimar e num arrepio infinito… Me entrego! Uma entrega verdadeira, apaixonada e proibida. Alba Valéria
Palavra, doce palavra! São eles os poetas que procuram incessantemente encontrar o teu segredo. São eles que roubam tuas vestes e transformam o teu ser transbordando a taça dos sentidos … Muitos querem desvendar o teu encanto, a tua sonoridade. Outros usam e abusam do teu poder. Se aproximam de ti. Te submetem a vilanias e despropósitos. E eu simplesmente quero brincar contigo. Palavra, doce palavra! Numa rima encomendada Nessa poesia desencontrada. Pois aprendi em minha jornada, Que já vens habitada. Palavra, doce palavra! Mari Regina Rigo
Recordações Chove lá fora E o barulho da chuva Vem trazer recordações. É a natureza que chora Um choro triste De quem sempre se enganou. E com esta certeza em minha mente Fico a pensar em um amor que foi embora. Chorar? Não choro Pois minhas lágrimas se confundiriam com a chuva. Ana Lúcia Gamino Ribeiro
De nervo e de aço Ou eu estou muito feliz, ou estou muito triste. Nunca soube ser o meio termo, sempre fui um exagero sob qualquer ponto de vista. E assim sigo me expondo no que faço, dando a impressão de ser ora louca, ora patética, ora sombria, ora sem graça. Pra que afinal me serve essa pilha de papel e lápis? Talvez sirva pra dizer que sou o que nunca escrevi que fui, talvez sirva pra criar o enigma e me deixar sendo a lacuna, a vírgula, o hífen, as aspas. Quem sabe eu já tenho anexado mais do que pistas dentro dos textos ou até mesmo me tornado um objeto de discurso iconográfico. São tantas as armadilhas do contexto que a minha poesia não poderia ser mais, nem menos do que essa linha estendida, que ora grita e confessa, que ora cala e desaparece. Talvez eu seja um advérbio de tempo ainda perdido no espaço, procurando um pedaço meu de nervo e de aço . Magda Duarte
Talvez Talvez a corda aprisione o gesto Talvez o gesto arrebente a corda Talvez a mordaça sufoque o grito Talvez o grito rasgue a mordaça Talvez a miséria alerte o olho Talvez o olho cegue a miséria Talvez a vida desperte o sonho Talvez o sonho adormeça a vida Talvez a morte estanque o talvez Talvez o talvez inaugure a morte. Evandro Marques de Souza Gomes
Excomungamento excomungo a dor do desamor eclesiástico o coração bailarino deixa para trás o compasso rego a carga amarga que traz esse girassol solitário repleto de semântica & nenhum resíduo metafísico intento fuga ditoso na perdulária insinuo sutilezas com a invenção tácita das rugas é certo que ainda não percebemos: a madrugada? é só um varal teimoso. Airton Souza
Princesa tão charmoso e a ajuda tão parceiro e a ama já íntimos desnuda já é hora e cama enjoo e medo positivo! desespero tão pequeno e encantos ele foge ela aos prantos. Lily Ribeiro
dizem que tudo é perigoso as ruas as pessoas dizem que é meticuloso o ladrão na esquina te pega da mão te tira uma vida dizem que faz mal andar por aí sozinha que a noite é vil que te agarram vazia dizem que tudo é temoroso não viva a vida menina fique trancada esqueça o canto dos pássaros não seja a errada esqueça o vento no rosto fique em casa o capitalismo tem custo não pegue carona não peça ajuda a estranhos não seja não ame se cuide não ande distante e a liberdade não tem momento nem hora e a natureza não bate na porta e a vida a beleza morreu lá fora. Inominada
Terra Mátria Acordei sonhando Isto mesmo Acordei sonhando Em meus devaneios Passeio por Uma Terra Mátria Uma Terra amplamente Fêmea Uma Terra Mais acolhedora Que abre suas pernas A todos e todas Uma Terra onde Não há necessidade De mártires Que ela, a Terra Supre-se Como um útero Por si só Sim, sonho acordada Com uma Terra Mátria Porque me enfada Esta desgastada Terra Pátria Neli Germano
Remoto Eu assistia ao longe as coisas acontecendo e não tomava atitude alguma Era muito fácil perder o controle Ele sempre desaparecia por entre o sofá Mauricio Lima
A equipe Entreverbo agradece a todos que participaram e que apoiaram nesta edição! Aguardamos a todos na edição 23...
Escritores da 22ª edição: Aba Asè Valter Junior Ritha Paixão Morgana Carvalho William Fossati Helena da Rosa Lilian Rose M. da Rocha Júlio Freitas Marcus Groza Elizabeth Cirqueira Leite Matheus R. Gonçalves Gabriel Silveira Willian Barros Benette Bacellar
Cláudia Gonçalves Elton Manganelli Tony Saad Francisco Ferreira Alba Valéria Mari Regina Rigo Ana Lúcia Gamino Ribeiro Magda Duarte Evandro Marques de Souza Gomes Airton Souza Lily Ribeiro Inominada Neli Germano Mauricio Lima
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