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Moranças

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VOZES DA GUINÉ-BISSAU - PROJETO DE HISTÓRIA ORAL

“MORANÇAS: HABITATS TRADICIONAIS DA GUINÉ-BISSAU" MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA NATURAL E DA CIÊNCIA


VOZES DA GUINÉ-BISSAU OBJETIVO “Vozes da Guiné-Bissau” é uma iniciativa que se enquadra na estratégia de inclusão social do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) da Universidade de Lisboa. O projeto pretende criar um espaço que simultaneamente inclua e dê destaque a diferentes vozes que, de alguma forma, se sintam conectadas com a exposição “Moranças: habitats tradicionais da Guiné-Bissau”. Ao incorporar as narrativas pessoais de quem viveu experiências em primeira-mão na Guiné-Bissau, esta iniciativa cria um elo de ligação entre a exposição, que apresenta imagens produzidas em 1959, e o presente. As histórias partilhadas transmitem um importante conhecimento que permanece vivo, entre gerações, através da oralidade, contribuindo também para destacar e contextualizar as imagens representadas nesta exposição. Esta iniciativa decorre também do recente debate sobre descolonizar os espaços dos museus. "Vozes da Guiné-Bissau" visa assim incorporar as narrativas de indivíduos que se possam sentir ligados a esta exposição através de experiências compartilhadas, quer sejam pessoais ou ancestrais. Caso tenha quaisquer comentários, perguntas ou preocupações, não hesite em entrar em contato com o Museu. A prática de descolonizar os espaços dos museus é um processo de aprendizagem contínua que deve envolver as comunidades. Neste sentido, convidamos a que seja crítico e empático neste caminho conjunto.


METODOLOGIA Este projeto é parte de uma colaboração entre o MUHNAC e o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS). Trabalhámos com um grupo de 16 mulheres imigrantes da Guiné-Bissau. Ao visitar a exposição, algumas delas foram atraídas pelas imagens que, pelas suas experiências vividas, consideraram mais relevantes. A partir daí, cinco mulheres voluntariaram-se para colaborar no projeto. De acordo com a disponibilidade e o tempo, realizámos quatro entrevistas em grupo. Ao mesmo tempo, apresentámoslhes as imagens que tinham considerado mais marcantes, estimulando-as a falarem sobre a sua ligação com as mesmas. De seguida, trabalhámos juntas para escolher as melhores falas das entrevistas para acompanharem as imagens da exposição. Neste folheto, encontramos os retratos e as biografias das entrevistadas, as imagens da exposição que elas escolheram e as falas mais exemplificativas das suas experiências. Quisemos incluir estes retratos e respetivas biografias para enfatizar a ideia de que estas mulheres têm uma vida ativa, trabalhando e morando atualmente em Portugal. Enquanto percorre a exposição e observa as imagens, propomos que se detenha num momento de reflexão sobre as seguintes perguntas: Como podemos usar o passado enquanto ferramenta para entender o presente? Como é que uma exposição como esta pode facilitar ou impedir a compreensão de uma realidade diferente da sua? Que papel desempenhamos enquanto observadores destas imagens? O que sente ao ver uma imagem acompanhada de discurso direto versus uma imagem sem esse discurso?


PARTICIPANTES ENTREVISTADAS

EPIFÂNIA JOÃO NABILIBA

HELENA PEREIRA DAS NEVES BIAGUÊ

Sou Epifânia João Nabiliba, tenho 31 anos de idade e sou solteira. Tenho uma filha de quatro anos de idade, estou aqui em Portugal no bairro de Queluz. Estou a fazer formação para trabalhar em Cantinas Escolares no JRS. Estudei até à 11ª classe em Bissau e trabalhava como caixeira numa empresa chamada Ponto Fresco. Vim para Portugal para fazer tratamento médico. Já estou cá há três meses. Espero que tudo corra bem comigo e com a minha filha para que eu possa voltar para a minha terra, Guiné-Bissau. Obrigada JRS pela oportunidade que nos dá.

Sou Helena Pereira das Neves Biaguê, tenho 46 anos e nasci na Guiné-Bissau. A minha mãe também nasceu na Guiné-Bissau e o meu pai também. Tenho dois irmãos mais novos. Tenho cinco filhos, três meninas e dois meninos, que estão na Guiné com o meu marido. Sou professora, formada na área de matemática, e colocada na escola pública e privada. Estou em Portugal já há 10 meses por Junta Médica.

Eu sou Maria Amélia Carvalho D`Alvarenga, guineense. Nasci em Bissau, Guiné-Bissau em 1985. Cheguei a Portugal no dia 29.03.2019. Sou técnica de contabilidade. Trabalhei na clínica Madrugada em Bissau desde 2011 a 2019, como recepcionista e em 2016 como contabilista. Tenho um filho de sete anos de idade, Alym, e vivemos juntos com o seu pai há nove anos. Por causa da saúde (Junta Médica) venho tratar da anemia que dura há mais de dois anos.

MARIA AMÉLIA CARVALHO D`ALVARENGA


PARTICIPANTES ENTREVISTADAS

NITA JULIO CABRI

TERESA CÁ

Chamo-me Nita Julia Cabri, nasci no dia 25 de Março de 1975 na Guiné-Bissau. Sou guineense. Tenho três filhos, duas meninas e um menino de 13 anos de idade. Vivem no Senegal (Ziguizar). Sou solteira, estou cá em Portugal por causa da saúde, já há seis meses. Estou a fazer formação na área dos cuidados aos idosos para poder ter o diploma e para melhor conseguir emprego em Portugal. Agora estou a fazer o estágio num lar e, depois de receber o diploma, vou procurar emprego e continuar a minha vida aqui em Portugal.

Eu sou Teresa Cá, nascida a 4 de abril de 1971, guineense. Vivo em Portugal há 26 anos. Vim com os meus patrões a fim de trabalhar como empregada doméstica interna. Já fui casada e agora sou viúva. Também já não estou a trabalhar como doméstica. Tenho a minha casa alugada e estou a tirar o curso de cuidadora de idosos na JRS para poder trabalhar em lares ou nos hospitais. Também já tinha tirado o curso de Hotelaria como empregada de bar e mesa na minha terra natal, Guiné-Bissau. Em Portugal, também já tinha o curso de Marketing - técnica de vendas, mas nunca exerci a profissão. Agora eu estou quase a terminar o curso de cuidadora de idosos e já estou no estágio num lar na zona de Graça. E eu não tenho filhos, por enquanto.

ENTREVISTADORA

ELISABETH RIOS-BROOKS

Meu nome é Elisabeth Rios-Brooks. Estudo Antropologia e Estudos Africanos na Universidade da Florida. Sou uma investigadora experiente com a paixão de servir comunidades sub-representadas. Como historiadora oral, pretendo esclarecer as experiências de indivíduos marginalizados, compartilhando histórias que importam, ferem e curam a nossa sociedade. O meu trabalho tem como objetivo desencadear conversas relacionadas com a justiça social, libertação e processos descoloniais, a fim de fornecer uma perspetiva alternativa na busca de uma sociedade mais justa e igualitária.


IMAGENS

Estas panelas [ficam] na casa do curandeiro, do vidente. Costuma ter essas panelas, vêem-se logo e sabe-se que nessa casa fazem sempre cerimónia. Vão pagar a promessa e então essas panelas ficam lá. Estas panelas são panelas onde são feitas as comidas das promessas. Ficam no telhado porque as pessoas deixam essas panelas lá [após a cerimónia ser bem sucedida]. TERESA


Essa panela a minha avó tem ao lado da cama. Dizem que é a panela do marido dela. Ela cozinha e põe comida. Coloca isso e depois põe água e cana [aguardente] e vinho. Depois fica ajoelhada assim, e fica a falar com o marido: “Isso é para você.” E depois ela come. EPIFANIA Fiquei doente por muito tempo até que perdi a fé, daí fui ao curandeiro. Porque também sou católica, eu gosto de ir à igreja. Tenho padre também que gosta de rezar por mim. MARIA AMÉLIA


IMAGENS

Antes de começaram a colocar os panos [no morto para a cerimónia fúnebre] têm que quebrar os ossos para poder dar mais movimento. Têm que quebrar tudo e depois começam a colocar os panos. Enrolam o corpo todo… enrolam uma perna, depois outra perna, [com] mais do que 10 pano[s]… no corpo todo. O corpo fica pesado... [é preciso] mais de 10 pessoas para o levar para a tumba. SATCHEL PAIGE

EPIFÂNIA


Quando uma pessoa organiza esse toca-choro [cerimónia fúnebre], então a alma daquela pessoa fica já tranquila, vai para o céu. Eu fiz tudo. Meu pai é protestante, quando ele morreu eu não fiz nada. Na igreja fez-se aquele funeral. Fizemos a comida, comprei sumo e dei para a gente. NITA

É como os Europeus que levam buquês de flores, nós levamos panos. TERESA


IMAGENS

Primeiramente, temos que falar da árvore que dá a canoa. A gente chama em crioulo de polon. Esta árvore é feita sobretudo com os escultores... Já tem X anos, dá para derrubar essa árvore para fazer polon. Não é qualquer pessoa que sabe fazer a canoa, há certas pessoas já determinadas para isso. É arte. TERESA

[Durante a guerra] a minha mãe meteu as cargas ali e ela agarrou-se por fora da canoa até que atravessou o rio porque ela sabe nadar. A canoa estava cheia, então para não ficar e ir juntamente connosco, ela agarrou ali na canoa e começou a nadar, nadar, nadar até que cruzámos o rio. SATCHEL PAIGE

NITA


A primeira vez que eu viajei aqui [na canoa] foi na guerra. A guerra que tivemos lá a 7 de julho de 1997. Fomos para outra ilha, saímos daqui. Passei mal, vomitei… [fiquei refugiada] mais de três meses... passámos fome. Às vezes, comíamos uma vez por dia. Às vezes nem tinha para comer... comíamos só arroz limpo, às vezes faroba, uma coisa amarela comprida… tem uma semente dentro, só colocamos água e pomos mel porque açúcar não temos onde comprar. Lá não tem feira… Só assim comemos. MARIA AMÉLIA

Eu estava no Safim. Por acaso, eu não fui tão longe. Só para ir até lá temos de ir a pé. Aquelas zonas que percorremos para ir lá, não posso explicar porque… colocaram-me no colo até chegar... Eu andava, andava, andava, chegava uma altura que eu não podia mais porque aqui [parte interna da coxa] estava toda cozida... Aqui saía toda a pele. O meu tio teve que me colocar nas costas para poder me ajudar... Chegámos num rio para atravessar e não podia. Muitas pessoas deixaram as crianças lá, elas estavam cansadas. Outros morreram lá no caminho, só andar. Não havia água, não havia nada… EPIFÂNIA


IMAGENS

Essa é a fotografia das nossas mães, primas, irmãs e tudo. É o meio que as mulheres têm para tratar dos peixes. São as mulheres que vão pescar. E essas mulheres também sabem nadar perfeitamente. Aqui elas conhecem logo a zona onde estão os peixes e conhecem a zona onde há caranguejos, camarões e cacres. TERESA A minha irmã construía casas à beira do rio. Ela sempre ficava ali todos os dias a procurar peixes... Então, ela fica ali com a faca a tirar as escamas. Tira tudo e faz ali um tanque que é cortado no meio... e põe o fogo embaixo e começa a fumar aquele peixe até ficar seco e depois leva no mercado e vende. NITA SATCHEL PAIGE


IMAGENS

Naquele dia no museu até fiquei emocionada porque recordei as coisas que eu passei quando era criança, mais nova. Eu pastava também as vacas. Como eu vi as crianças em cima da vaca. Eu fiz isso. Eu era uma dessas pessoas. Porque eu sou da aldeia… Fazíamos isso para poder levá-los para a pastagem… [tem que sentar] em cima, tipo cavalo. SATCHEL PAIGE

HELENA

Aquelas crianças de seis, sete e oito anos na pastagem. Eles é que ficam aqui em cima das vacas. São pastores… Eu fazia isso. E ali eu lutava com os colegas, controlava as vacas, brincava e aprendia logo a luta. NITA SATCHEL PAIGE


IMAGENS

Essa imagem está a mostrar que eles estão ali a praticar uma luta. A luta é tipo um desporto que eles costumam fazer no interior. É uma brincadeira. Cada um mostra qual é o seu talento, a sua capacidade, a experiência… qual o domínio que ele tem nessa área. Como a minha mãe quando era menina, quando era nova, era uma mulher gigante, com altura, bem forte, minha mãe tem essa história. A minha avó sempre dizia: “Olha, a sua mãe lutava bem”. Eu era mais fraca, mas tentava fazer sempre. NITA É luta livre. Em outros países também fazem. É tipo jogadores de karaté, de boxe, vão competir com outros países. É um desporto. TERESA SATCHEL PAIGE


EU TENHO ORGULHO DE SER GUINEENSE. APESAR DE TODAS AS COISAS E TODAS AS DIFICULDADES… É A MINHA TERRA.

EPIFÂNIA


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