ÁGUA IMAGINADA : Entre o desejo e a produção da natureza na cidade de Belo Horizonte
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS | ESCOLA DE ARQUITETURA, URBANISMO E DESIGN TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – TCB | Orientador: Prof. Rogério Palhares Elisa Porto Marques
ÁGUA IMAGINADA: Entre o desejo e a produção da natureza na cidade de Belo Horizonte BELO HORIZONTE 2018
Ver as cousas até o fundo... E se as cousas não tiverem fundo? Álvaro de Campos
AGRADECIMENTOS Às pessoas que gentilmente participaram das entrevistas, pelas conversas com tantos ensinamentos, ao mesmo tempo de força e delicadeza, e pela sensação de que viver à beira d’água é o melhor a se fazer: Antônio Ruas, Daniel Pimenta, Ernesto da Conceição, Isaac de Medeiros, Ione de Oliveira, José Américo de Souza, Júlia Amaral, Majô Zeferino, Maria Soares, Márcia Trindade, Telma Gonzaga e Thiers Matos. À Luciana Gomes e à comunidade do bairro Jardim Felicidade, pela referência de luta. Aos professores da Escola de Arquitetura, em especial ao Rogério Palhares, pela orientação generosa e estimulante, que me possibilitou trabalhar ao mesmo tempo com liberdade e segurança; à Margarete Leta pela energia que transmite a tudo o que faz e a todos que encontra; à Rita Velloso pelo olhar extravagante, pelo estímulo ao ensaio; à Heloisa Soares pela leitura do trabalho e participação na banca. Muito me honra a convivência com vocês. Aos amigos Roberto Andrés e Isabela Izidoro, comparsas das águas, da cidade viva; pessoas que fazem brotar. À Emilia Mendes, pelo alegre encontro, de trabalho e de amizade. Ao meu tio Fernando Pimenta, primeiro arquiteto que conheci, pelo amor à casa. Ao VAGO coletivo, pelo amor à cidade. Ao Nian, meu amor de sol a sol; ao Lino, meu deslumbre. À minha mãe, Jandira, por me dar o mato; ao meu pai, Marcelo, por me dar o mundo. Dedico este trabalho ao Córrego do Tamboril, por me dar esperança.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO -‐ 5 CAPITULO 1: A NATUREZA COMO MIRAGEM -‐ 10 1.1: O estranhamento entre natureza e cidade 1.2: Ideias para um encontro CAPIÍTULO 2: ÁGUAS REFLEXIVAS -‐ 30 2.1: A imaginação da matéria 2.2: Conversas à beira d’água 2.3: Águas urbanas em Belo Horizonte, uma breve contextualização CAPÍTULO 3: ÁGUA IMAGINADA -‐ 48 3.1: Da escuta à escrita, preparando novelos 3.2: Paisagens desejadas CONSIDERAÇÕES FINAIS: NATUREZA VIVIDA -‐ 91 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS -‐ 103 ANEXO 1: Roteiro de entrevistas ANEXO 2: Transcrição integral das entrevistas
INTRODUÇÃO Esta pesquisa de conclusão de curso em Arquitetura e Urbanismo tem como ponto de partida a investigação sobre a natureza no contexto urbano. Em uma primeira etapa, ensaiei a caracterização de uma paisagem observada e vivida na metrópole, no que diz respeito às formas em que a natureza e o urbano se apresentam, ressaltando o estranhamento presente na relação entre esses dois elementos, geralmente tomados como duas categorias espaciais opostas. Na tentativa de compreender essa cisão, recorri a diferentes perspectivas conceituais, procurando aproximações entre os campos teóricos sobre o urbano e o meio ambiente. Em um segundo momento, tomei como foco de interesse as águas urbanas, como caminho para o pensamento sobre as diversas concepções de cidade e de meio ambiente que povoam o imaginário dos moradores de Belo Horizonte. *** Há algum tempo minha atenção tem um foco específico nas águas urbanas. Passei por uma importante transformação do olhar sobre o território, com as Oficinas de Problemas de Planejamento de Ocupação de Sub-‐bacias (OFIRUB) e de Assentamentos Precários (OFIAUP), que cursei respectivamente com os professores Rogério Palhares e Margarete Leta, durante a graduação, na Escola de Arquitetura. Com essas duas experiências, adquiri uma ferramenta nova, de entendimento do relevo e dos caminhos das águas e de suas implicações estruturais na organização da cidade, e pude compartilhar lógicas outras de produção do espaço -‐ informais e coletivas. Fora da faculdade desenvolvi trabalhos também ligados à agua, como a pesquisa sobre as bicas de Belo Horizonte, publicada no Guia Morador, em 2013, pela editora Piseagrama; o Caderno de Notas Interessadas – Águas de Belo Jardim, um inventário afetivo da relação entre as pessoas e as águas (história oral, usos cotidianos, etc), que produzi durante uma “expedição” no interior do Pernambuco, em 2017; e agora, ainda em andamento, a participação em um movimento pela recuperação do Córrego do Tamboril, junto à comunidade do bairro Jardim Felicidade, na região Norte de BH. *** Minha experiência de infância e juventude se deu em Belo Horizonte, uma cidade grande, onde fundos de quintal, praças arborizadas, lagos de parques e vias sem pavimentação sempre me pareceram verdadeiros oásis em um cotidiano de concreto, e, talvez por isso, minha motivação primeira para a realização dessa pesquisa tenha sido a de reconhecimento da existência de natureza na metrópole.
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Fui criança nas décadas de 1980 e 90, e tenho forte memória do marco ecologista da Eco-‐92. Cresci acreditando na categórica oposição entre natureza e cidade e, por isso mesmo, aceitando com normalidade a extinção de rios da paisagem urbana (ou pelo menos da imagem que sempre tive de “rio natural”, em oposição aos córregos encaixotados ou saturados de lixo). O meu espaço imaginário da natureza sempre foi localizado para além da área metropolitana. Depois de se percorrer largas rodovias, passar por distritos industriais e atravessar serras é que podia encontrar mata, cachoeira, flora, fauna -‐ verdadeiros ecossistemas, como aprendido na escola. Tenho como herança uma cultura antropocêntrica, em que a racionalidade humana é supervalorizada e o conhecimento técnico-‐científico acumulado ao longo de gerações deve possibilitar a nossa sobrevivência no planeta por meio do domínio da natureza. Este domínio pela cultura vai desde a representação teórica do mundo – sua compartimentação em áreas de saber que criam modelos e explicam os fenômenos por abstração – até a sua objetificação literal, por meio da qual os elementos naturais se transformam em recursos a serem explorados. As nossas cidades se desenvolvem nessa relação dualista com o ambiente, que é visto como uma espécie de plataforma exterior, que lhes dá sustentação. A produção e o consumo materiais intensificaram-‐se ao longo dos anos alcançando um nível extremo, que cria fragilidades ambientais e revela riscos para a continuidade da lógica desenvolvimentista. A exploração ilimitada começa a ser então colocada em cheque, mas não necessariamente o modelo em que se baseia. A pergunta sobre onde está a natureza revela a necessidade da reflexão sobre o que ela é, e quais os contextos de sua conceituação em nossa cultura. Que imaginário construímos? Vivo no Brasil, um país que, apesar de abrigar a maior floresta tropical e a maior biodiversidade do mundo, manifesta um desprezo à natureza e investe na corrida pela modernidade, por um propósito de superação de uma identidade selvagem (CANÇADO, 2018). O que sentimos como efeito, entretanto, são as mazelas cotidianas de uma urbanização incompleta. Somos um país originado da grande empreitada colonialista europeia, que marcou e continua marcando fortemente a constituição da nossa sociedade por uma lógica exploratória, não apenas dos recursos naturais, mas também de pessoas. É estabelecida uma espécie de gradação de humanidade, que justifica a distribuição injusta dos ônus e dos benefícios do sistema capitalista. A desigualdade econômica e social reflete-‐se na ordenação do território com a configuração de centros e periferias -‐ entre países, regiões, estados e no interior das cidades. Nessas periferias, o acesso a serviços comuns básicos (saneamento, saúde, educação e lazer), que deveria ser garantido pelas políticas públicas sociais, ainda está em disputa.
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Entre recursos naturais cada vez mais degradados e serviços urbanos ainda precários, como buscar um equilíbrio ambiental, em sua integralidade, no sentido da relação entre as pessoas e o território em que vivem? E na relação entre as próprias pessoas, na configuração de papeis sociais? Revelam-‐se questões sociopolíticas, que demandam o entendimento de ideias como representação, participação, cidadania.
Figura 1 -‐ Murais realizados pelo pintor francês Hugues Desmazières em fachadas de edifícios do centro de Belo Horizonte, em 1994. Fonte: acervo da família Desmazières. A série apresentava uma temática ecológica, na esteira da então recente convenção Eco-‐92, realizada no Rio de Janeiro, e reproduzia a visão de que a natureza, selvagem e pura, está sendo massacrada e substituída pela vida urbana, artificial e sombria. Apesar de contribuir para um sentimento geral de autorresponsabilização pela proteção ambiental, esse discurso inibe a relação das pessoas com a natureza na vida cotidiana.
Articulando conceitos e experiências, descobrindo a pesquisa As questões que acabo de apresentar foram as inquietações de partida deste trabalho, que, junto a uma incursão teórica, associada às minhas próprias experiências e observações do espaço urbano, buscou o encontro de outros olhares e vozes, por meio de uma pesquisa de percepção. A pesquisa abordou moradores de Belo Horizonte, com interesse na dimensão do imaginário que as pessoas elaboram em torno da água, na cidade: como se referem à água, como a percebem e a representam, como se apropriam dela em suas vidas, como a imaginam e a desejam? Não houve uma definição prévia do interesse por uma ou outra forma de manifestação da água urbana, fossem os córregos, as nascentes ou sistemas de drenagem; o que parece ser a potência dessa pesquisa é a abordagem da água enquanto um elemento relacional.
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A metodologia adotada neste processo foi a realização de entrevistas com habitantes de diferentes regiões da cidade, abrangendo as três principais bacias hidrográficas do território – dos ribeirões Arrudas, Onça e Izidora. Segundo as atividades em que os entrevistados se engajam em seus cotidianos, foram abordadas temáticas e contextos diversos, como as estruturas de gestão e os movimentos pela preservação ambiental (com cuidadores de nascentes, participantes do Projeto Manuelzão-‐UFMG, membros dos comitês de bacia hidrográfica e lideranças comunitárias); a água como produto urbano (com um ex-‐funcionário da COPASA e um consultor em águas subterrâneas); a água no manejo do território (com um profissional paisagista e um analista da Secretaria de Planejamento Urbano da Prefeitura); a água em diferentes lidas domésticas (com uma moradora do baixo Onça, que viveu a inundação de sua casa pelo Ribeirão e moradoras antigas do bairro Sagrada Família); a água enquanto elemento sagrado (com uma moradora do Quilombo de Mangueiras); entre outros. Foram entrevistados 12 moradores de Belo Horizonte. *** O texto resultante desta combinação de campos teóricos e empíricos toma um certo teor ensaístico, que segue a lógica e o tempo mesmo da pesquisa, com a formulação de perguntas que são respondidas de maneira um tanto quanto fragmentada; com temas que são apresentados no início do trabalho e ressurgem mais adiante, ganhando corpo com o passar do tempo (ou das linhas), à medida em que se associam com imagens e ideias recolhidas no percurso. As perspectivas pessoais, tanto minhas como das pessoas que convidei para falar junto comigo, são colocadas lado a lado às formulações teóricas e técnicas dos autores abordados, buscando apoiar um tipo de discurso no outro, respectivamente. O conteúdo final produzido se estrutura em três capítulos e um item de considerações finais, que descrevo a seguir. Capítulo 1. Natureza como Miragem – Caracterização do universo temático mais amplo em que a pesquisa se insere, de problematização da relação entre as ideias de natureza e cidade, a partir de duas estratégias: 1. Uma produção ensaística de observação e crítica da presença da natureza na cidade, a partir da minha própria experiência cotidiana, enquanto moradora da cidade de Belo Horizonte e estudante de arquitetura e urbanismo, permeada por uma coleção de imagens (composta por fotografias, anúncios publicitários e esquemas gráficos), associada a princípios da gestão ambiental e do planejamento urbano contemporâneos; 2. Uma breve revisão bibliográfica que: a) aborda o paradigma do pensamento moderno de dominação da natureza pelo homem e suas manifestações no contexto urbano. São tomadas como base as ideias de Marx, com o apoio das leituras de Silva (2013) e Euclydes (2016), que descreve uma condição de alienação do homem, caracterizada espacialmente por uma natureza apartada da sociedade; b) recorre a perspectivas teóricas que propõem formas de superação deste distanciamento, passando por Lefebvre (1968) e Harvey (2014), com a noção de
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direito à cidade; Tonucci e Costa (2017), que abordam o comum urbano como caminho para garantia dos direitos democráticos no contexto brasileiro; Acserald (2009) e Araújo (2009), que refletem sobre os matizes da ideia de sustentabilidade e os princípios de Justiça Ambiental; e Swingedouw (2009) com suas propostas de socionatureza e cidade como híbrido. Capítulo 2. Águas reflexivas – Justificativas tanto do recorte temático (imaginário das águas), quanto da metodologia (entrevistas de percepção), com o apoio do pensamento da fenomenologia encontrado em Merleau Ponty (1945), Illich (1985) e Bachelard (1993), sendo as ideias deste último, sobre a imaginação material, entendidas como a proposição de uma filosofia reflexiva da água. Integram também este capítulo uma breve contextualização histórica das águas urbanas em Belo Horizonte e uma apresentação de cada um dos entrevistados. Capítulo 3. Água imaginada – Junto às vozes das pessoas abordadas nas entrevistas, é proposta uma reflexão sobre a produção do espaço em Belo Horizonte, e sobre o lugar da água na composição dessa paisagem (física e simbólica). O conteúdo foi organizado por algumas temáticas recorrentes nas conversas, de maneira a propor associações entre os pensamentos apresentados, entremeando-‐os com comentários e análises, notadamente pela perspectiva do planejamento urbano. A inserção de imagens, principalmente fotográficas, complementam as narrativas. Foi proposto um recorte em 8 seções, assim nomeadas: 1. Água atravessada; 2. Água percebida; 3. Água lúdica; 4. Água herdada; 5. Água compartilhada; 6. Água material; 7. Água ameaça(da); 8. Água invisível. Considerações Finais: Natureza vivida – Argumentação em torno da hipótese de que, entre o público e o privado, um manejo da ordem do doméstico, em espaços comuns, seja uma possibilidade interessante de se perceber, conceber e viver (LEFEBVRE, 1991) a natureza na cidade. Os quintais compartilhados são apontados como uma espécie de referência de espaço-‐tempo para essa existência.
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CAPÍTULO 1: A NATUREZA COMO MIRAGEM 1.1 -‐ O estranhamento entre natureza e cidade
Figura 2 -‐ Imagens de satélite de Belo Horizonte. Fonte: Google Earth, 2018. Um sobrevoo do território de Belo Horizonte por fotografias de satélite compõe uma imagem bastante representativa do lugar da natureza na cidade. Polígonos verdes em meio a uma massa cinza-‐ alaranjada, com geometrias resultantes dos traçados viários de seus entornos, evidenciam a sobreposição da lógica de ordenamento da malha urbana a possíveis configurações próprias dos espaços considerados naturais, onde predomina a cobertura vegetal. São áreas circunscritas, literal e simbolicamente, por muros e por leis ambientais, na forma de parques e outras unidades de conservação. As áreas verdes ou áreas de proteção ambiental são espaços
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reservados no território para a experimentação da natureza; locais destinados ao lazer, à contemplação ou à preservação de determinado contexto ambiental notório (EUCLYDES, 2016). Para além de revelar a separação rígida que se mantém em nossas cidades entre elementos caracterizados como naturais e artificiais, estes mecanismos de proteção denunciam a ameaça a que estão constantemente sujeitos estes espaços com remanescentes de cobertura vegetal. Carolina Euclydes (2016) apresenta duas perspectivas na avaliação de um futuro iminente das áreas protegidas; uma pessimista e outra otimista. Uma perspectiva pessimista extremista considera que no atual cenário de pressão do capital sobre essas reservas de terra, a tendência seja a gradativa extinção dos instrumentos de tutela, com a remoção dos impedimentos à exploração direta destes espaços e a consequente homogeneização total do território, com diminuição drástica da biodiversidade mundial. Já um ponto de vista otimista aposta que o acirramento dessas mesmas tensões geradas pelas disputas da produção capitalista irá, ele próprio, engendrar novas dinâmicas sociais urbanas de resistência, como por exemplo as práticas agroecológicas, que poderão não apenas propiciar a conservação, mas também o incremento das qualidades ambientais e sociais dos territórios de forma que, no limite, todo o espaço se configuraria como área verde, levando também à extinção da necessidade de proteção de pequenas parcelas. “Mais que objetos materiais, áreas verdes e áreas protegidas são construções sociais, desenvolvidas a partir de uma perspectiva abstrata do espaço, que carregam em si as contradições de um conceito de natureza que pressupõe relações de dominação dos seres humanos entre si e deles com a natureza. Se há, portanto, um cenário otimista para os espaços abrangidos por essas construções sociais, ele deve compreender o desenvolvimento de outros tipos de relações entre os seres humanos, e deles com o espaço e com a natureza. Em outras palavras, o futuro só pode ser otimista para as áreas verdes e áreas protegidas se assim o for para as áreas não verdes e áreas desprotegidas” (EUCLYDES, 2016: 23). Margarete Silva (2013) também apresenta uma crítica aos instrumentos de proteção ambiental por estes gerarem uma “natureza apartada da sociedade” e aponta para a necessidade de se “abordar a natureza como parte do processo de produção da totalidade social e da vida cotidiana” (M. SILVA, 2013: 16). Silva questiona também a proteção restrita de algumas áreas em detrimento do restante do território, sendo que em consequência inerente ao ato de criação de uma área de proteção (APA) temos a delimitação imediata de uma área de não-‐proteção (ANPA) em seu entorno, para a qual são transferidos os danos das atividades predatórias não realizadas na APA (M. SILVA, 2013: 38).
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Nas duas argumentações vemos o apontamento da necessidade de revisão de um pensamento em torno da existência de áreas protegidas e não-‐protegidas, o que remete a uma ampla reavaliação de nossa relação com a natureza em nossa sociedade. Se em nosso passeio virtual por Belo Horizonte voarmos um pouco mais baixo, chegando a uma apreensão da organização interna dos quarteirões, temos uma pista de que a revisão de que estamos falando não se faz emergente apenas em um nível social mais amplo, mas também na escala doméstica. Um estudo de drenagem urbana realizado em Belo Horizonte (CAPUTO, 2013), que busca soluções para um aumento da capacidade de infiltração de água no solo em nossas cidades, revela um enorme descompasso entre o que é previsto na legislação e o que ocorre na prática, em termos de permeabilidade do solo.
Figura 3 -‐ Quadra do bairro Alípio de Melo, Zona Norte de Belo Horizonte, ADE – Pampulha. Área privada permeável: 2%, Área pública permeável: 1,2%. Fonte: CAPUTO, 2013: 44.
O Plano Diretor de Belo Horizonte e a respectiva Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS) de 1996 instituíram, de forma pioneira no Brasil, o parâmetro urbanístico de Taxa de Permeabilidade, que define um percentual mínimo do lote a ser mantido como área descoberta e permeável sobre terreno natural, em função do zoneamento previsto em diferentes situações do território municipal. Na ADE Pampulha (Área de Diretrizes Especiais da Bacia Hidrográfica da Pampulha), por exemplo, a taxa de permeabilidade mínima é de 30%. Em zoneamentos em que não há diretriz de preservação ambiental ou patrimonial, a taxa varia entre 10% e 20%. Nestas áreas, entretanto, a legislação, pode permitir impermeabilização de até 100% do terreno desde que nele seja implementado um sistema de captação que garanta o retardo equivalente do lançamento das águas pluviais no sistema de drenagem público – artifício cada vez mais utilizado por grandes empreendimentos imobiliários, mas que certamente não é o caso nestes terrenos que vemos na fig. 3.
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A questão a ser ressaltada é o fato de, além de se fazer necessária a criação de um instrumento legal que garanta uma área mínima para absorção de água de chuva pelo solo na cidade, na prática esta área mínima está longe de ser cumprida. É evidente que essa realidade construtiva se relaciona a uma série de fatores complexos combinados, como o valor da terra no mercado imobiliário, o déficit habitacional, a baixa renda média da população, etc, mas fato é que, por escolha ou não, as pessoas na cidade estão deixando completamente de conviver com áreas livres (jardins, quintais) sobre terreno natural. Se descermos agora ao nível do chão e observarmos a presença da natureza na cidade em nossas práticas cotidianas, em nossos modos de construir, de organizar e cuidar do espaço, de qualificar o belo e o feio, o bem o mal, percebemos a excentricidade que caracteriza essa relação. As tentativas de incorporação dos elementos naturais no espaço parecem mostrar que, na atual lógica de ordenamento das nossas cidades, a natureza é um elemento em excesso ou dispensável. E este elemento ora se coloca como entrave, um problema a ser resolvido, ora como um adereço, um artifício estético. A coletânea da Figura 4 traz imagens icônicas do contrassenso que permeia nosso modo contemporâneo de habitar. A exaltação da racionalidade humana perpetuada no mundo moderno, em que o conhecimento técnico-‐científico deve nos dar condições de sobrevivência por meio do domínio da natureza, parece ter-‐nos levado a um estágio crítico de desconhecimento de nossas próprias habilidades de convivência com o território. Vivemos um distanciamento cada vez maior do entendimento de processos básicos para nossa existência -‐ como os princípios do ciclo hidrológico, o cultivo de alimentos e a convivência responsável com os fenômenos climáticos, com a utilização das fontes de energia, o destino dos dejetos por nós produzidos, como o lixo e o esgoto. Da mesma forma, ignoramos as estruturas políticas, econômicas e sociais que determinam relações de consumo e resultam nessa produção espacial, as quais ficam delegadas a instâncias abstratas como Estado e mercado.
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Figura 4 -‐ Natureza fantástica em Belo Horizonte: Árvore tubo -‐ árvores têm sua copa mutilada para passagem de fiação elétrica. É muito comum que essa deformação afete o equilíbrio da árvore a ponto de causar quedas de galhos e sua consequente supressão; Mimetismo -‐ tronco de árvore é incorporado como superfície a ser pintada em fachada de edificação; Chovendo no molhado -‐ canteiro construído sobre o Ribeirão Arrudas, tamponado para construção do Boulevard Arrudas, é regado por água de caminhão pipa; Montanha de Concreto -‐ contenção de talude por concreto projetado devido a corte acentuado no terreno, para passagem da rodovia BR-‐040. Fonte: (alto) Elisa Marques; (baixo esq) Roberto Andrés; (baixo dir) Google Maps, 2018.
Silva (2013) traz de Marx o entendimento desta condição como o que ele chama de alienação do homem -‐ de si mesmo, do seu trabalho, dos outros homens e da natureza, consequente da expropriação dos meios de produção, própria do sistema capitalista. “[...] é a partir de Marx que esse processo de alienação é explicitado como um processo econômico, no qual o homem, subtraído do fruto de sua produção, torna-‐se estranho a si mesmo e ao ambiente que habita” (M. SILVA, 2013: 17). Marx entende a cisão moderna entre homem e natureza, mas os coloca em uma relação dialética, de intercâmbio material, em que ambos transformam e são transformados (DUARTE, 1995, apud M. SILVA, 2013)1. Esse intercâmbio é, portanto, um processo social situado historicamente, de modo que “a forma como se desenrola o processo de trabalho determina a natureza de que uma sociedade dispõe e essa, por sua vez, determina o processo de trabalho e a própria formação social” (M. SILVA, 2013:17).
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DUARTE, Rodrigo. A. de Paiva. Marx e a natureza em O Capital. São Paulo, Edições Loyola, 1995.
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Na sociedade moderna capitalista (em que os detentores da força de trabalho são explorados pelos detentores dos meios de produção), o trabalhador se apropria da natureza, do mundo físico externo, e a transforma por meio de seu trabalho. Mas quanto mais seu trabalho de transformação do mundo externo se desenvolve, mais o homem perde a capacidade de detê-‐lo, tanto como objeto de trabalho, quanto como meio de vida, para seus fins primeiros de sobrevivência. “O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz” (MARX, 2004: 80) e mais estranho à natureza quanto mais a transforma. “[...] o objeto que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, fez-‐se coisa, é a objetivação do trabalho. A efetivação do trabalho é a sua objetivação. Esta efetivação do trabalho aparece ao estado nacional-‐econômico como desefetivação do trabalhador, a objetivação como perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como estranhamento, como alienação” (MARX, 2004: 80).
Figura 5 -‐ Recortes de anúncios publicitários de condomínios habitacionais localizados na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Fonte: sites da construtora EMCCAMP e da corretora Buriti imóveis.
Nas peças publicitárias da figura 5, vemos a mesma representação geometrizada e isolada das “áreas verdes”, genericamente opostas às áreas construídas, que observamos nas imagens de satélite do espaço urbano da Figura 2. Já a nomeação desses espaços traz mais um elemento de caracterização da natureza em nossos tempos -‐ “Cidade Jardim, Avenida Ipê, Horta Ecológica” são fragmentos de uma ideia de natureza idealizada, ali inseridos como mercadoria, para agregar valor ao empreendimento anunciado. Não se pratica uma relação cotidiana com os elementos naturais de maneira efetiva ou estrutural, mas se associa a eles valores éticos, morais e estéticos positivos. Existe uma diferenciação entre uma natureza ordinária cotidiana, atualmente presente na cidade de maneira degradada (córregos poluídos, encostas erodidas, solos expostos e com presença de lixo...) e, por isso, indesejada e uma natureza que pode ser tão idealizada a ponto de se tornar abstrata e inalcançável. De um lado
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uma natureza que se apresenta como entrave a ser manejado e resolvido, de outro, uma natureza-‐ paisagem, difusa, externa, da qual estamos apartados (em nossos apartamentos), mas que podemos vislumbrar, de fora, através da moldura do blindex -‐ uma miragem.
Figura 6: Placas com nomes de torres de apartamento no bairro Vila da Serra, em Nova Lima, cuja ocupação se caracteriza pela verticalização radical. Os empreendimentos imobiliários deste local costumam divulgar como atributos de suas edificações a “vista definitiva”, geralmente voltada para o Vale do Sereno, loteamento vizinho, ainda predominantemente unifamiliar e com grandes áreas de reserva ambiental. Fonte: Elisa Marques, 2013.
1.2 -‐ Ideias para um encontro Neste item recorro a diferentes perspectivas conceituais que se dedicam à compreensão da cisão entre natureza e cidade. As formulações abordadas partem ora do campo de pensamento urbanístico, ora dos estudos ligados ao meio ambiente, sendo que estes se tornam cada vez mais interdisciplinares -‐ tarefa necessária ao se buscar romper com a divisão moderna do conhecimento, que é a própria fonte do problema aqui discutido. Retomando a base de pensamento marxista, que avalia a alienação do ser humano de si mesmo e do ambiente em que vive, busco a compreensão da noção de direito à cidade formulada por Henri Lefebvre (1968) como possibilidade de transição da passividade para uma potencialidade criativa. De uma ideia filosófica a um objetivo previsto por lei, vemos como este conceito se relaciona às lutas urbanas atuais, no mundo e no Brasil, e que caminhos se vislumbram para sua efetivação. No campo ambiental, parto para a distinção dos sentidos atribuídos à sustentabilidade, proposta por Acselrad (2009a, 2009b), revelando um caminho da cidade durável, vulgarizada e cooptada pelo modo de produção capitalista, e a via alternativa pelo pensamento socioambiental, também descrita por Swingedouw (2009).
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1.2.1 – O direito à cidade e o urbano como ideal criativo O filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, em sua extensa produção intelectual entre os anos 1920 e 1990, foi um dos mais importantes revisores da teoria marxista do século XX, principalmente no que diz respeito à incorporação da dimensão espacial na interpretação das relações sociais de produção, junto à dimensão temporal2. “O filósofo definiu uma ampla problemática espacial do capitalismo, elevando o espaço a uma posição central na luta de classes e afirmando que o êxito de uma revolução social depende de uma consciência espacial revolucionaria” (EUCLYDES, 2016: 34). Nessa perspectiva, para Lefebvre, o entendimento do fenômeno urbano tem caráter central. Observando os efeitos do desenvolvimento do sistema capitalista na precarização das relações de trabalho e na diluição do papel do Estado como mediador pela justiça social, Lefebvre reconhece a dimensão urbana dos movimentos revolucionários e concebe a noção de direito à cidade -‐ “entendido como o exercício coletivo do poder de mudar a sociedade (as relações sociais, a relação com a natureza, os estilos de vida, as tecnologias e os valores estéticos) por meio da transformação do espaço” (EUCLYDES, 2016: 34). O pensamento lefebvriano sobre o espaço e mais especificamente sua teoria acerca da sociedade urbana, passa pela formulação de uma relação dinâmica entre ser humano e natureza, que propõe uma inversão da lógica temporal/historicista de entendimento da urbanização como uma consequência da industrialização. Em sua concepção, a industrialização -‐ que é, para Marx, “um ideal, um bem supremo concebido pela sociedade moderna” (EUCLYDES, 2016:41) -‐ é, para Lefebvre, uma etapa necessária do processo de urbanização, que seria, esse sim, o projeto da “apropriação, pelo ser humano, do tempo e do espaço, modalidade superior da liberdade” (LEFEBVRE, 1999: 131 apud EUCLYDES, 2016:41)3. Segundo o filósofo, [...] qual é, em seu sentido moderno e correspondendo às aspirações da nossa época, o bem supremo? É o desenvolvimento completo do homem; e não do indivíduo tomado isoladamente, mas do homem social tomado como base e fundamento do desenvolvimento individual. O homem moderno pressente as virtualidades indefinidas contidas na técnica, na ciência, na consciência lúcida, numa vida conscientemente dirigida. Ele quer superar as atividades limitadas, parciais (profissões, ocupações, especialidades estreitas ou até agora fechadas em seus limites). Quer um
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Carolina Euclydes (2016) apresenta uma revisão da crítica teórica em torno das áreas naturais protegidas. Dentre os trabalhos dos campos da geografia urbana, arquitetura e urbanismo, onde se encontra a crítica das áreas protegidas, Euclydes destaca a base teórica de fundo marxista, representada principalmente pelo pensamento de Henri Lefebvre. É a partir de sua análise que acesso as ideias de Lefebvre para o intuito do presente trabalho. 3 LEFEBVRE, Henri. A revolução urbana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.
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florescimento, uma nova sabedoria (que não seja estreitamente prudente e limitada) e uma nova felicidade. (...) Mas, por outro lado, o bem consiste também na apropriação da natureza pelo homem. A natureza é o nosso bem. A posse cada vez mais completa, pelo homem, da natureza (do mundo exterior) e de sua própria natureza (de seu corpo, de seus instintos, de sua vida), essa posse é a segunda determinação essencial do bem, que é assim, simultaneamente, florescimento do homem e posse do mundo (LEFEBVRE, 1991: 234 (grifos do autor) apud EUCLYDES, 2016:42)4. A partir dessa concepção da urbanização como ideal de apropriação da natureza pelo homem, Lefebvre traça um eixo espaço-‐temporal de representação do processo de urbanização. Como ponto inicial (ou grau 0%), está a natureza em estado puro e como fim hipotético (ou grau 100%), a urbanização total. Neste eixo se sucedem, com sobreposições, como camadas, as eras rural, industrial e urbana. É interessante observar a distinção que se faz necessária entre cidade e urbano. Não se trata de um eixo de evolução do campo para a cidade (uma vez que a cidade está presente desde o grau 0, como espaço inerente à vida social organizada), mas de uma sucessão de configurações diferentes das tensões que permeiam a oposição cidade x campo.
Figura 7: Eixo espaço-‐temporal proposto por Lefebvre para elucidar o processo histórico de urbanização da sociedade. Fonte: EUCLYDES, 2016: 43.
Na era rural, toda a atividade produtiva ocorre no campo e este é dominado pela cidade política por meio de uma relação simbólica, de poder militar-‐ideológico. Na cidade mercantil, essa dominação se amplia e passa a se dar pela relação econômica, na medida que o campo se insere no interior da cidade voluntariamente, atraído pela capacidade de reunião e comercialização da praça do mercado. Na transição para a cidade industrial, as fábricas inicialmente se instalam nas periferias das cidades, junto às fontes de matéria-‐prima, mas gradualmente se infiltram nas cidades buscando aproximar-‐se
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LEFEBVRE, Henri. Lógica formal/lógica dialética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
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do capital e do mercado. A produção, portanto, se desloca do campo para a cidade e este perde sua autossuficiência e passa a depender da produção urbano-‐industrial. A cidade, por sua vez, também sofre mudanças radicais em seu interior, em sua configuração física para suportar a escala de produção industrial, mas também no que diz respeito ao ritmo cotidiano e à organização social: “Estendendo a divisão manufatureira do trabalho a todas as atividades e a todo o mundo, burguesia industrial e capital buscam imprimir a lógica da mercadoria no espaço, no tempo e na vida. Como resultado, a organização espaço-‐temporal da prática social adquire uma aparência homogênea, porque feita de ordens e de coações, e ao mesmo tempo fragmentada, produto da divisão social das atividades” (EUCLYDES, 2016:44). Na era industrial, a cidade passa por um processo duplo de implosão, que diz respeito à grande concentração de recursos, pessoas, atividades e fluxos em uma centralidade, e de explosão, que implica em uma extensão do tecido urbano, gerando as conurbações que caracterizam as regiões metropolitanas como conhecemos hoje. Esse sentido de extensão é considerado por Lefebvre em um limite virtual de alcance total. “Anuncia-‐se, assim, a transição para o urbano -‐ espaço-‐tempo em que a realidade urbana se impõe à escala mundial, modificando as relações de produção, e tornando-‐se, ela mesma, uma força produtiva” (EUCLYDES, 2016:46). Neste percurso, Lefebvre caracteriza nosso momento atual como zona crítica, de transição entre o declínio da era industrial e o desenvolvimento da era urbana. Este urbano, entretanto, não representa uma realidade concreta, mas um estado possível, uma virtualidade. Tal como concebe Lefebvre, o urbano representa uma operação dialética que sintetiza a contradição campo-‐cidade, sem que ocorra uma neutralização de um ou de outro. Ao contrário, trata-‐se da incorporação das incoerências na conformação de um espaço diferencial, que “envolve/envolverá transformações profundas na tecnologia, no conhecimento e na relação com a natureza, que conduzem/conduzirão à conformação de um novo modo de produção baseado na “gestão coletiva do espaço, [n]a gestão social da natureza, [n]a superação da contradição entre natureza e antinatureza” (LEFEBVRE, 1991: 102 apud EUCLYDES, 2016:48)5.
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LEFEBVRE, Henri. The production of space. Tradução de Donald Nicholson-‐Smith. Oxford: Blackwell Publishers, 1991.
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1.2.2 – Leitura contemporânea do direito à cidade O geógrafo britânico David Harvey, importante crítico da obra de Lefebvre, transporta a noção de direito à cidade ao atual estado do modo de produção capitalista e sua relação com a produção do espaço nas cidades contemporâneas (HARVEY, 2014). Harvey descreve a roda incessante da lógica capitalista de produção e reinvestimento sistemático de mais-‐valia e o papel dos processos de desenvolvimento urbano na absorção desses excedentes de capital. Desde as reformas urbanas realizadas na Paris de Haussmann, na segunda metade do século XIX, passando pela reestruturação dos subúrbios na região metropolitana de Nova York, nos anos 1940, até o boom de urbanização da China a partir da década 1990, Harvey analisa os processos de transformação das cidades em territórios propícios ao escoamento da produção capitalista, hoje propiciados por estruturas de governo neoliberais que não cumprem o papel de representação do interesse comum, mas sim o de particulares e corporações privadas. “Grande parte da corrupção que assola a política urbana relaciona-‐se ao modo como os investimentos públicos são alocados para produzir algo que se assemelhe a comum, mas que promove ganhos em valores patrimoniais privados de proprietários privilegiados de bens imóveis. A distinção entre bens públicos urbanos e comuns urbanos é ao mesmo tempo fluida e perigosamente porosa. Com que frequência os projetos de desenvolvimento urbano são subsidiados pelo Estado em nome do interesse comum, quando, na verdade, os verdadeiros beneficiários são alguns proprietários de terras, financistas e empreiteiras?“ (HARVEY, 2014:154). Se por um lado, a resposta a essa indagação é “sistematicamente” e os mecanismos da urbanização capitalista ofuscam o entendimento da cidade como um lugar de disputa política, por outro, a noção de direito à cidade passa nas últimas décadas por um ressurgimento como via de contraposição a essa lógica hegemônica, de contestação da sobreposição do direito à propriedade privada aos direitos sociais. Harvey não entende esse processo como uma adesão ao legado intelectual de Lefebvre, “por mais importante que esse legado possa ser”, mas sim como uma confluência de lutas de reinvindicação do controle democrático da produção do espaço. As minorias estão se articulando para resgatar a possibilidade de invenção e criação coletiva, conquistar a possibilidade de definir que tipo de cidade querem, e junto a isso, que pessoas querem ser, que relações sociais e com a natureza buscam estabelecer.
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O direito à cidade é, portanto, muito mais do que um direito de acesso individual ou grupal aos recursos que a cidade incorpora: é um direito de mudar e reinventar a cidade mais de acordo com nossos mais profundos desejos. Além disso, é um direito mais coletivo do que individual, uma vez que reinventar a cidade depende inevitavelmente do exercício de um poder coletivo sobre o processo de urbanização. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades (...) é um dos nossos direitos humanos mais preciosos, ainda que um dos mais menosprezados (HARVEY, 2014:28). 1.2.3 – Direito à cidade no Brasil: da participação cidadã ao comum urbano No início dos anos 1960, houve no Brasil o surgimento de uma centelha de movimento por uma reforma urbana progressista e democrática, motivada por uma crítica ao planejamento urbano de base modernista-‐funcionalista praticado naquele momento (estruturado de cima para baixo, de modo centralizado e tecnocrático), condizente à “fase de expansão do capitalismo no ocidente”, que atua na configuração de territórios propícios à lógica de acumulação de capital (TONUCCI; COSTA, 2016: 4). O golpe militar e a ditadura que se estendeu pelos 20 anos seguintes freou este movimento contestatório e seguiu na consolidação de uma prática de políticas urbanas cujas bases são descritas por Tonucci e Costa (2016) como: -‐ A proteção à propriedade fundiária individual, o que legitima e promove a estrutura social desenhada por Marx, de exploração dos detentores das forças de trabalho pelos detentores dos meios de produção; -‐ Uma visão parcelar de análise e intervenção sobre a cidade, gerando políticas setoriais (transporte, habitação, saneamento, meio ambiente), derivada da matriz moderna de organização do conhecimento em disciplinas. Isso gera lutas por reinvindicações de direitos também fragmentadas e inibe um entendimento socioterritorial que integre as diferentes esferas do viver, do habitar a cidade e o mundo, de se relacionar com os espaços; -‐ A contraposição conceitual entre sociedade e natureza, expressa em uma lógica de produção de infraestruturas urbanas que se interpõem contra as estruturas naturais do território e configuram os cenários que bem conhecemos de rios encaixotados, impermeabilização sistemática do solo, alteração radical do relevo natural para o assentamento de rodovias e edificações. Neste período ocorre também a acelerada modernização do campo que intensifica a migração da mão de obra para as metrópoles, que não têm estrutura para incorporar esse novo volume populacional com condições dignas de moradia, trabalho, educação, etc. Todos esses elementos geram uma situação de ampla desigualdade no acesso ao conjunto de serviços urbanos e de uma precarização da qualidade de vida dos mais pobres. Aumentam
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exponencialmente nesse momento as áreas de favelas e ocupações ditas informais, que, na lógica política vigente, são vistas como problema a ser eliminado, o que geralmente ocorre pelo seu deslocamento para as periferias das cidades, locais de menor interesse financeiro. Junto ao processo de abertura política e redemocratização do país ao longo da década de 1980, que ocorre em um contexto de crise econômica, fiscal e social, o espaço de contestação foi sendo reconquistado e movimentos sociais urbanos se reorganizam em torno da crítica a “esse modelo de planejamento, não democrático e apartado do cotidiano da maioria da população” (TONUCCI; COSTA, 2016: 6). Houve uma articulação entre movimentos populares, acadêmicos e de profissionais do planejamento que configurou o Movimento Nacional da Reforma Urbana (MNRU) e colocou em pauta tanto as demandas diretas de necessidades básicas de serviços e infraestrutura urbana, como a questão mais ampla da democratização do sistema de planejamento, com foco na participação popular. A Constituição de 1988 reflete esse espírito democrático, com incorporação de princípios de uma política descentralizada e participativa e de um entendimento do papel do Estado na compensação dos “não-‐proprietários, as camadas populares, as populações tradicionais, entre outras, pela perda de sua relação com a terra” (ROLNIK, 2015, apud (TONUCCI; COSTA, 2016: 5)6. No artigo 30 trata-‐se da atribuição de responsabilidade e poder regulatório aos municípios e nos artigos 182 e 183, das questões da política urbana. Nesse âmbito, as principais e importantes conquistas são a obrigatoriedade de plano diretor para municípios com mais de 20 mil habitantes, o reconhecimento da função social da propriedade e a possibilidade de regularização de assentamentos informais em áreas privadas, além de mecanismos contra a especulação imobiliária (IPTU progressivo e parcelamento, ocupação e uso compulsório). A regulamentação e descrição mais detalhada dos instrumentos de aplicação destes princípios, entretanto, apenas se efetivaram 13 anos mais tarde, com a promulgação do Estatuto das Cidades, em 2001. Esta Lei Federal significou uma importante conquista do movimento da reforma urbana e é ainda hoje reconhecida por seu caráter progressista na concepção do planejamento urbano. Os principais avanços conquistados pelo Estatuto estão nos mecanismos criados para combater a retenção especulativa de terra urbanas, melhorar a distribuição dos benefícios e dos ônus dos processos de urbanização e promover a regularização fundiária e urbanística, reconhecendo direitos das populações de ocupações informais, bem como nos princípios de gestão democrática da cidade, associados a variadas esferas de participação social.
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ROLNIK, Raquel. Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.
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Quase duas décadas depois de sua aprovação, entretanto, a efetiva aplicação de seus mecanismos continua encontrando fortes barreiras na cultura política e jurídica do país e na lógica econômica mundial. Conforme apontam Tonucci e Costa, “reverter este tipo de direito de propriedade considerado fundante na sociedade brasileira pela noção de função social instituída pela Constituição, requer mais do que ter os instrumentos gravados em planos diretores, requer questionar a natureza mesma do estatuto da propriedade como um elemento de extração de renda, requer mudar a cultura institucional dos executivos e legislativos municipais na direção de um enfrentamento com o proprietários fundiários e capitais investidos na produção do espaço” (TONUCCI; COSTA, 2016: 7). Se, como vimos em Harvey (2014), na prevalência da lógica econômica, a proteção da propriedade privada se sobrepõe aos interesses públicos e o Estado falha enquanto representante da sociedade como um todo, uma via que parece se delinear cada vez mais claramente para concretização desses direitos é o do entendimento de uma dimensão de gestão que não é da ordem do público ou do privado, mas do comum. “Referindo-‐se a bens e recursos abertos e compartilhados, como a riqueza material da natureza (o ar, a água, os frutos do solo etc.) ou a riqueza imaterial da produção social (conhecimentos, culturas, linguagens etc.), o comum delineia a construção de novas formas democráticas de produção e gestão de recursos compartilhados, contra sua apropriação privada ou pública” (TONUCCI; COSTA, 2016: 9). Cada vez mais, ao redor do mundo e, não coincidentemente, nos locais onde mais se sente os processos opressores do neoliberalismo, práticas e concepções do comum urbano estão se fortalecendo como alternativa e resistência ao Estado e ao mercado. Pode-‐se talvez dizer que nos lugares/espaços em que o público é precário, marginal ou inexistente e as relações mercantis plenas são inviabilizadas pela carência econômica, o âmbito do comum (res)surge e/ou permanece na forma de um saber fazer, de uma riqueza da experiência coletiva (TONUCCI; COSTA, 2016: 2016: 8).
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1.2.4 -‐ Sustentabilidade para quem quer No primeiro parágrafo do Estatuto da Cidade encontramos a referência à ideia de equilíbrio ambiental como um dos valores a serem garantidos pela regulação da propriedade urbana. Logo no primeiro parágrafo do artigo seguinte, a referência à noção de direito à cidade vem acompanhada do adjetivo sustentável: Art. 1o (...) Parágrafo único. Para todos os efeitos, esta Lei, denominada Estatuto da Cidade, estabelece normas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo, da segurança e do bem-‐estar dos cidadãos, bem como do equilíbrio ambiental. Art. 2o (...) I – garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações (BRASIL, 1988, grifos meus). Uma vez perseguido um rastro de entendimentos possíveis do direito à cidade, cabe-‐nos agora
adentrar as matrizes conceituais afinadas com as problemáticas de origem ambiental e entender as associações entre cidade e natureza possíveis por esse viés. Nas últimas décadas assistimos à emergência de um debate em torno do conceito de Sustentabilidade. Conforme a genealogia do termo traçada por Acselrad (2009a), o Relatório Brundtland7 lança em 1987 essa noção na arena internacional. Fruto de discussões iniciadas na década de 1960 (a criação do Clube de Roma8 se deu em 1966), a ideia de sustentabilidade representa um vasto campo simbólico, que foi desde o princípio estrategicamente apropriado por discursos variados. Cidade eficiente: ecologia e mercado O sentido dominante e mais difundido no senso comum até hoje é aquele que Acselrad chama de “matriz discursiva da eficiência” (ACSELRAD, 2009a, p. 43). Muito ao contrário de um rompimento do paradigma desenvolvimentista, trata-‐se da proposição de adequações das práticas de produção e consumo capitalistas para garantir sua continuidade. Os propósitos de acumulação e progresso persistem e para tal deve-‐se fazer um esforço de “modernização ecológica”, ou “ajuste ecológico dos
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O texto do relatório, intitulado “Our Common Future”, foi elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, formada em 1984 pela ONU. 8 O Clube de Roma é um grupo de personalidades ilustres no mundo da ciência e dos negócios, que se reúne para debater assuntos relacionados a política, economia internacional e, sobretudo, ao meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. (Fonte: Wikipedia, acesso em 2018).
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fluxos urbanos”, que torne os processos mais eficientes e, por isso, duráveis. No âmbito urbano, pensa-‐ se em cidades “mais econômicas”, o que quer dizer mais funcionais para o capital. “Busca-‐se aqui, economizar a cidade, adotar tecnologias que poupem espaço, matéria e energia, e reciclar materiais. De regra, o debate aponta na direção de minimizar a mobilidade intraurbana pela concepção de cidades mais compactas” (ACSELRAD, 2009a: 24). No plano simbólico, o ideal de cidade sustentável torna-‐se um lema unificador e com potencial apaziguador de conflitos entre as camadas sociais. Em uma lógica global de competitividade entre cidades, que implica em sua gestão de maneira mercantil (aos moldes de uma empresa que deve gerar lucro, construir uma imagem de venda, etc), o ideário da preservação do meio ambiente como meta comum é propício para o marketing da cidade. Como um time, os cidadãos “vestem a camisa” e se comprometem de maneira unívoca, em prol da “cidade-‐pátria”. Evoco aqui a lembrança do slogan “Eu amo BH Radicalmente”, emplacado junto à população nos anos 2000, na virada da gestão municipal para a lógica do planejamento estratégico9. A construção dessa imagem “ecologicamente correta” encobre, entretanto, uma finalidade que lhe é diretamente contraditória, uma vez que a atratividade aos investimentos multinacionais implica, via de regra, na flexibilização das leis ambientais, redução do controle pela regulação municipal e no desfavorecimento da população local, acentuando as desigualdades sociais e a degradação ambiental. O “urbanismo de resultados” praticado nesta lógica, além da mencionada eficiência na gestão dos fluxos e recursos, tem também como função a manutenção de um ordenamento urbano discriminatório, gerando espaços ainda mais excludentes. Justiça ambiental: ecologia e política Se os recursos naturais se mostram escassos e ganham status de raridade10, como denomina Lefebvre (ARAÚJO, 2009: 29), no contexto do capitalismo periférico, de urbanização incompleta e
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“O movimento Eu Amo BH Radicalmente foi criado em 2006, pelo Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau – A casa do turismo, entidade de fomento ao turismo e valorização da imagem da cidade, para valorizar a cidade de Belo Horizonte como um excelente destino turístico para a prática de esportes radicais e de aventura. O conceito ganhou expressão e aos poucos a população belo-‐horizontina o adotou como declaração de amor pela cidade.” – reproduzido do site da agência de publicidade responsável pela criação da campanha. – www.nutscomunicacao.com.br 10 Araújo aborda a discussão do conceito de escassez a partir de Lefebvre, que propõe que este “pode ser socialmente produzido, criando o que o autor denominou “novas raridades”, originárias da apropriação da natureza como mercadoria, dotadas, necessariamente, portanto, de valor econômico, valor de troca – como o solo urbano, mananciais de água para abastecimento, remanescentes florestais preservados, uma determinada paisagem, dentre outros atributos naturais, transformados, em renda diferencial, capturada pelo mercado imobiliário”(ARAÚJO, 2009: 29).
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marcadas segregação e desigualdade socioespacial, também o acesso aos serviços comuns básicos (saneamento, saúde, educação e lazer), que deveria ser garantido pelas políticas públicas sociais, não é igualitariamente distribuído. Uma outra linha de pensamento a respeito da sustentabilidade, caracterizada por Acselrad como “contra-‐cultural”, aborda esta perspectiva e propõe uma politização do movimento ecológico. Entende-‐se que o pensamento em torno do meio ambiente nas cidades deve partir, portanto, do desafio de reconhecimento das assimetrias de distribuição dos ônus e das amenidades ambientais e urbanas e da desigualdade de acesso à possibilidade de mudança dessa condição. Tais ideias dão corpo ao campo teórico, ainda em formação, da Ecologia Política, onde se situa a noção de “justiça ambiental” (ACSELRAD, 2009b), que surgiu como um movimento político e engendrou princípios e estratégias11 que atualmente orientam diversas lutas ao redor do mundo. Princípios: 1. Poluição tóxica para ninguém – este é um lema que se traduz no princípio de não exportação de danos ambientais para outras áreas, geralmente menos mobilizadas ou mais frágeis, por aspectos políticos, sociais, econômicos ou étnicos; 2. Por um outro modelo de desenvolvimento: derivam do primeiro princípio a resistência à degradação ambiental em geral e o questionamento de um modelo que sobrecarrega determinadas áreas e populações em favorecimento de outras; 3. Por uma transição justa: uma vez reivindicada a transformação do modelo de desenvolvimento dominante, é pressuposta uma transição gradual que não coloque em risco o emprego dos trabalhadores de usinas poluentes e as economias dos países que abrigam estas usinas; 4. Politização versus crença no mercado: prevalência dos princípios democráticos e contenção dos interesses dos grandes agentes econômicos. Estratégias: 1. Produção de conhecimento próprio: contrapor as alegações daqueles que pretendem reduzir as políticas ambientais por meio de argumentos técnicos restritos. Realização de análises (do tipo estudos de impacto ou “Avaliação de Equidade Ambiental; 2. Pressão pela aplicação universal das leis: mobilização frente ao descompasso entre a regulamentação e a prática, bem como à prática diferenciada de acordo com o grupo social impactado;
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Relação de princípios e estratégias sistematizada por Acselrad em “O que é Justiça Ambiental?” (ACSELRAD, 2009b), atribuídos ao Movimento de Justiça Ambiental, articulado a princípio nos EUA, na década de 1980, e amplamente globalizado nos anos seguintes.
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3. Pressão pelo aperfeiçoamento da legislação ambiental: luta pela atualização e ampliação dos instrumentos legais; 4. Pressão por novas racionalidades no exercício do poder estatal: alterar a “cultura” das entidades estatais que se caracterizam por um padrão tecnicista e generalista; 5. Introdução de procedimentos de Avaliação de Equidade Ambiental: aplicação de procedimentos alternativos mais sensíveis às variações e particularidades de cada contexto. 6. Ação direta: atos de manifestação, ocupações, greves, movimentos que questionem/impeçam a instalação de empreendimentos geradores de impacto. 7. Difusão espacial do movimento: ampliação da rede de resistência, solidariedade interlocal, internacionalização das bandeiras para, entre outros, fazer face à grande mobilidade espacial dos empreendimentos ligados a negócios transnacionais. 1.2.5 – A Socionatureza e a “cidade como um híbrido” Swingedouw (2009) chama atenção para o fato de uma certa linha teórica urbana, com foco em análises político-‐econômicas da cidade, nas décadas de 1980 e 1990, ter se associado a ativistas urbanos e movimentos sociais bem como à política urbana, mas passado ao largo dos movimentos ecológicos, que naquele mesmo momento se voltavam fortemente para o pensamento de uma ligação entre as perspectivas ambiental e política. Segundo ele, somente a partir da década de 2000 essa conexão passa a ser feita de maneira mais profícua na teoria crítica, e é nesse contexto que ele propõe sua formulação: (...) a cidade e o processo urbano são uma rede de processos entrelaçados a um só tempo humanos e naturais, reais e ficcionais, mecânicos e orgânicos. Não há nada “puramente” social ou natural na cidade, e ainda menos antissocial ou antinatural: a cidade é, ao mesmo tempo, natural e social, real e fictícia. Na cidade, sociedade e natureza, representação e ser são inseparáveis, mutuamente integrados, infinitamente ligados e simultâneos; essa “coisa” híbrida socionatural chamada “cidade” é cheia de contradições, tensões e conflitos (SWYNGEDOUW, 2009:100). Ao propor essa leitura da cidade como um híbrido socionatural, Swyngedouw entende que é preciso antes realizar uma crítica epistemológica. Desde a abordagem materialista marxista, fundante para toda a crítica de esquerda das relações socioespaciais, como já vimos, considera-‐se o caráter indissociável entre sociedade e natureza, onde “as relações sociais operam metabolizando o meio ambiente “natural”, por meio do qual tanto a sociedade quanto a natureza são transformadas e novas
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formas socionaturais são produzidas” (SWYNGEDOUW, 2009:102). Nesta visão, entretanto, natureza e sociedade são elementos inicialmente externos um ao outro, “puros” e estanques, com leis internas e metabolismos próprios.
Figura 8: A dialética da produção material da socionatureza: processo em que natureza e sociedade são entidades estanques, com leis e metabolismos próprios, que, na relação, produzem encontros-‐síntese. Fonte: SWYNGEDOUW, 2009: 106.
Para o autor é preciso, portanto, “insistir na necessidade de transcender as formações binárias de “natureza” e “sociedade” e desenvolver uma nova linguagem que mantenha a unidade dialética do processo relacional tal como encarnada na própria coisa, que são híbridos (...) desde o início” (SWYNGEDOUW, 2009:105).
Figura 9: Processo em rede de produção da socionatureza, em que múltiplos elementos estão em jogo, simultaneamente, e se entre-‐afetam. Trata-‐se de uma combinação de relações dialéticas “sempre de maneira transitória, dinâmica e transgressiva”. Os elementos em si não são distinguíveis entre naturais ou sociais a não ser por nossas práticas de representação. Fonte: SWYNGEDOUW, 2009: 109.
Nessa perspectiva, a Ecologia Política é vista como o campo possível de análise desses processos em rede, é “uma epistema de base processual em que nada é fixo, ou, mais exatamente, a fixidez é um breve momento que pode nunca ser apreendido em sua inteireza” (SWYNGEDOUW, 2009:110). E é na dimensão da vida cotidiana das cidades que melhor podemos vislumbrar
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empiricamente o funcionamento do metabolismo da socionatureza. Swingedouw recorre à agua e à complexidade de suas diversas formas de manifestação no espaço urbano, como exemplo emblemático para compreensão desses processos. Retomando a imagem proposta por Harvey (1996) de crianças brincando com hidrantes, em um verão quente no Bronx12, Swingedouw reconstrói uma espécie de caminho labiríntico percorrido pela água, de suas fontes até o hidrante, ao longo do qual submergem as materialidades e relações, simbolismos e propriedades físicas, temporalidades e espacialidades, dimensões históricas e afetivas, relações econômicas e de poder, saberes técnicos e tradições, paisagens e domesticidades – toda a complexa rede que a água afeta e pela qual é afetada, tornando impossível (e extremamente simplória) a distinção entre aspectos naturais e artificiais deste percurso. As imagens da pequena série “natureza fantástica” apresentadas no primeiro item deste capítulo (Figura 4), apesar de ilustrarem manifestações de uma relação destrutiva entre a nossa sociedade e a natureza, paradoxalmente, talvez também possam ser entendidas como uma representação conceitual da socionatureza. Se a socionatureza é histórica, diz dos paradigmas de cada época, o que fica evidenciado por essas imagens, tão próprias do nosso tempo, é a necessidade de se expor os metabolismos implicados em nossos processos de representação-‐produção do espaço e buscar maior equilíbrio entre os diversos elementos em jogo. Essa é a pergunta que faz Rogério Palhares Zschaber Araújo em sua tese de doutorado, quando apresenta a seguinte hipótese: “a problematização dos conceitos de natureza, meio ambiente urbano, sustentabilidade urbano-‐ambiental e qualidade de vida urbana, dentre outros, com base em abordagens da ecologia política da urbanização, podem fundamentar o desenho de novos instrumentos de gestão urbano-‐ambiental mais orientados para a explicitação e para o enfrentamento de conflitos socioambientais e para a redução de iniqüidades no acesso a amenidades urbanas e recursos naturais, e na distribuição de riscos ambientais (ARAÚJO, 2009: 22) Conceitualmente, a hipótese parece se confirmar, mas a efetivação dessas mudanças depende também da reinvenção dos processos e atores envolvidos na atividade de produção do espaço. O jogo entre Estado, mercado e sociedade civil (saídas pela auto-‐gestão, gestão compartilhada, instrumentalização da população); as escalas de atuação (maior poder local, dimensão mais favorável a práticas mais sensíveis e adequadas a cada situação e de maior participação possível das pessoas afetadas no manejo de seus próprios espaços de vida); os paradigmas de leitura e gestão espaciais (a bacia hidrográfica como unidade de planejamento, os assentamentos geossuportados) – são alguns caminhos possíveis.
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HARVEY, D. Justice, nature and the geography of difference. Oxford: Blackwell, 1996.
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CAPÍTULO 2: ÁGUAS REFLEXIVAS 2.1 -‐ A imaginação da matéria A metáfora da água no hidrante proposta por Swyngedouw, a partir da narrativa de Harvey, para entendimento da ideia de socionatureza, é uma formulação estimulante e aponta para um caminho que me parece pertinente para a continuidade dessa investigação sobre as relações entre natureza e cidade. É pelo curso das águas que escolhi perseguir os questionamentos levantados na primeira parte deste trabalho, conduzida pela dimensão do imaginário que os habitantes de Belo Horizonte elaboram em torno deste elemento. Como as pessoas se referem à água, como a percebem e a representam, como se apropriam dela em suas vidas, como a imaginam e a desejam? Não há, portanto, a definição prévia do interesse por uma ou outra forma de manifestação da água urbana, sejam os córregos, as nascentes ou sistemas de drenagem; o que parece ser a potência primeira dessa pesquisa é a abordagem da água enquanto um elemento relacional. Em a “A água e os sonhos”, Bachelard (1942) se dedica à análise daquilo que ele chama de “imaginação material” da água, que se refere a um levantamento das associações metafóricas mais recorrentes acerca da materialidade da água nos campos da filosofia, literatura e poesia. Dentre as categorias por ele estabelecidas e descritas, destaco as seguintes: -‐ Água infinita: a presença da água é uma denotação da passagem do tempo. É uma substância que corre sem cessar, já que vem de uma fonte também infinita. Em uma cidade, por exemplo, marcada pelos ritmos da vida urbana, a relação com um rio pode orientar os ciclos de um dia ou de uma temporada (estações do ano, cheias e secas), o que, no limite, remete aos ciclos eternos de morte e vida. -‐ Água pura: a transparência, o frescor e a unidade da água levam à sua associação a uma imagem de pureza, de acordo com uma certa moral natural, em contraposição, por exemplo, às águas impuras, poluídas pelos esgotos e dejetos humanos. -‐ Água transitória: a água é um elemento que tem a capacidade de dissolver substâncias sólidas. De acordo com Bachelard essa característica pode ser associada a uma capacidade da água de ajudar a imaginação em sua tarefa de “desobjetificação”, ou de assimilação. Além disso, em sua sintaxe de movimento, promove uma associação contínua de imagens, faz a mediação ou a transição de um estado a outro. -‐ Água reflexiva: por meio de sua propriedade de reflexão a água é também um suporte de imagens. Um rio gera, portanto, um eixo de simetria no espaço e o mundo é repetido em seu espelho. A cidade-‐imagem-‐reflexo pode ser um conjunto mais apreensível do que o objeto primeiro, uma vez que a paisagem está emoldurada pelas bordas das margens. É também um fenômeno de mise-‐en-‐abîme (efeito que ocorre quando colocamos dois espelhos frente a
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frente), uma vez que a imagem tinge a superfície da água e o reflexo por sua vez participa do “quadro” final observado, e assim sucessivamente. Bachelard celebra essa característica da água: Onde poderíamos pensar melhor do que nessas imagens? (...) No cristal das fontes, um gesto perturba as imagens, em repouso as restitui. O mundo refletido é a conquista da calma. Soberba criação que demanda nada mais do que a inação, que demanda nada mais do que uma atitude sonhadora, onde quanto mais imóveis permaneceremos, melhor veremos o mundo se desenhar (BACHELARD, 1993: 43 – minha tradução). Me propus, então, a aderir à filosofia da água, me assentar à borda do rio e pensar a cidade que ali se reflete. Para isso, e de modo a tornar a experiência mais abrangente e complexa, outras pessoas foram convidadas a mirar esse espelho junto comigo: a metodologia adotada neste processo foi a realização de uma pesquisa de percepção, por meio de entrevistas com habitantes de diferentes regiões da cidade, com diversos perfis e dimensões de relação com a água. A indagação de um fenômeno social mais amplo, como a relação natureza-‐cidade, a partir das vivências das pessoas, se insere no campo da Fenomenologia Social (Schutz & Wagner, 1979) onde campos simbólicos subjetivos se associam na compreensão de estruturas sociais. Também pelo pensamento de Merleau-‐Ponty temos que o estudo da percepção é uma forma de “reencontrar o contato ingênuo com o mundo, para dar-‐lhe estatuto filosófico” e que a fenomenologia é “uma filosofia que repõe as essências na existência, e não pensa que se possa compreender o homem e o mundo de outra maneira senão a partir de sua facticidade” (MERLEAU-‐PONTY, 1945:1).13 O objetivo desse processo é, portanto, pelos reflexos imaginativos/ reflexões dos habitantes da cidade, encontrar elementos sutis da experiência que nos possibilitem vislumbrar a cidade como espaço vivido (LEFEBVRE, 1991), ou lugar de morada (ILLICH, 2017), com a hipótese de que talvez esteja aí, nessa condição, a existência possível de uma socionatureza (SWYNGEDOUW, 2009).
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A ideia de facticidade está ligada ao conceito de “mundo da vida”, onde, para Husserl, a fenomenologia deve se assentar. Trata-‐se de um retorno às coisas mesmas, uma experiência anterior às operações discriminativas do pensamento científico (C. SILVA, 2012).
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2.2 -‐ Conversas à beira d’água As entrevistas foram realizadas de forma semiestruturada, com o apoio de um roteiro de perguntas (Anexo 1), divididas em blocos, que abordaram: a água no cotidiano doméstico; percepções qualitativas e quantitativas da água; a água no espaço público; formulações pessoais sobre os conceitos de natureza e de cidade. De acordo com a atividade principal exercida por cada pessoa, havia a previsão de mais um bloco de perguntas, sobre esta atividade. Apesar de algumas das perguntas terem sido sistematicamente repetidas a todos os entrevistados, as conversas eram encadeadas de maneira bem aberta e espontânea. Foram realizadas 12 entrevistas, sendo que 6 se deram em encontros individuais e 5 em duplas. As entrevistas em dupla foram interessantes para desconstruir a rigidez dos papeis de “entrevistador” e “entrevistado”, de modo que muitas vezes as conversas fluíram praticamente sem minha condução. Por outro lado, as conversas individuais foram mais concentradas e em alguns casos puderam alcançar maior profundidade de reflexão. Apesar da riqueza de informações dos espaços em que os encontros se deram – nas casas e jardins das pessoas, em beiras de rio ou de nascentes – escolhi fazer o registro apenas em áudio, por dois motivos: primeiro pelo fato da câmera ter um efeito muito impactante nas performances das pessoas; em algumas situações intimida, em outras pode provocar uma encenação mais acentuada. Segundo, para que eu própria pudesse focar minha atenção na escuta e no diálogo, uma vez que considerei relevante a observação da construção das narrativas pelas pessoas, as palavras utilizadas, suas entonações e ritmos de fala. O gravador era iniciado no começo da conversa e logo sua presença era esquecida. 2.2.1 Apresentação dos entrevistados Segue breve apresentação de cada um dos 12 entrevistados para a pesquisa de percepção. A escolha das pessoas levou em conta: a) A distribuição no território (dos 12 participantes, 5 estão na bacia do Arrudas, 4 na bacia do Onça e 3 do Izidora). b) A variedade de áreas de atuação (profissional ou pessoal), buscando formas diferentes de relação com a água. Foram abordados contextos como o engajamento pela preservação e gestão ambiental (cuidadores de nascentes, participantes do Projeto Manuelzão-‐UFMG, membros dos comitês de bacia hidrográfica, lideranças comunitárias); as estruturas de gestão da água como produto urbano (ex-‐funcionário da COPASA e consultor em águas subterrâneas), a água no manejo do território (um profissional paisagista e um técnico da Secretaria de Planejamento Urbano da Prefeitura); diferentes lidas domésticas com água (uma moradora do
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baixo onça, que viveu a inundação de sua casa pelo Ribeirão; moradoras antigas do bairro Sagrada Família), entre outros. c) A igualdade de gênero (dentre os entrevistados estão 6 mulheres e 6 homens). A idade média dos entrevistados é de 59 anos, sendo que a pessoa mais nova tem 35 e a mais velha 76. 1) Antônio Ruas, 58 anos. Localização: Córrego do Tamboril (bacia do Izidora) Cuidador da Nascente da Felicidade, no bairro Jardim Felicidade, contemplada pelo programa de Valorização de Nascentes do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça. Participa de movimentos comunitários por melhorias para o bairro desde sua origem, nos anos 1980. Envolve-‐se particularmente com as questões ambientais, com foco atualmente na luta pela recuperação do Córrego do Tamboril. 2) José Américo de Souza, 73 anos Localização: Córrego do Tamboril (bacia do Izidora) Conselheiro do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça, é da primeira geração de moradores do bairro Jardim Felicidade, que lutou pela conquista da terra e das melhorias em infraestrutura. Aposentado, ex-‐funcionário dos Correios e marceneiro, envolve-‐se ativamente nos movimentos comunitários, com foco atualmente na melhoria dos espaços públicos e na recuperação do Córrego do Tamboril. 3) Ione Maria de Oliveira, 50 anos Localização: Córrego Lajinha (Bacia do Izidora) Moradora do Quilombo de Mangueiras, localizado no território conhecido como Mata da Izidora, na região nordeste de BH. O local abriga várias nascentes e possui um curso d’água, o Córrego Lajinha, que, para além do emprego nos afazeres cotidianos da comunidade (a rede da COPASA só chegou ao local em 2007), tem um valor sagrado, nos rituais de matriz africana, em que a água representa a origem de tudo. Ione fala da dimensão espiritual da natureza e da importância imaterial da água, pelas sensações que proporciona e por seus atributos de cura e renovação. 4) Isaac de Medeiros, 35 anos Localização: Córrego do Marimbondo (Bacia do Onça) Geógrafo, professor do Centro Universitário UNA em cursos de graduação na área ambiental, atua como Analista de Políticas Públicas na Secretaria Municipal de Planejamento Urbano -‐ SMAPU/PBH, desenvolveu pesquisa de mestrado em Análise Ambiental na UFMG sobre o Programa DRENURBS. Passou a infância na região de Venda Nova, em forte relação com o Córrego do Marimbondo. 5) Júlia Machado Amaral (“Dona Julia”), 69 anos Localização: Córrego do Onça Cuidadora de uma nascente no bairro Ribeiro de Abreu, contemplada pelo programa de Valorização de Nascentes do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça, que foi qualificada como “Nascente Fundamental”, no projeto do Parque Ciliar do Onça. Dedica-‐se há 5 anos à gestão de uma horta agroecológica, no terreno da igreja católica do bairro. Vende seus produtos em feiras no próprio bairro e na Cidade Administrativa.
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6) Maria José Zeferino Vieira (Majô Zeferino), 60 anos. Localização: Córrego Nossa Senhora da Piedade (bacia do Onça) Moradora do bairro Guarani, foi professora de educação física e bibliotecária da Escola Municipal Hélio Pellegrino e esteve à frente na relação com a comunidade durante o processo de criação do Parque N. S. da Piedade, do programa DRENURBS, inaugurado em 2008. Foi coordenadora-‐geral e é hoje conselheira do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça. Atua ainda na diretoria do Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (COMUPRA), envolvida principalmente na militância pela efetivação do projeto do Parque Ciliar do Onça (articulado pelo movimento “Deixe o Onça Beber Água Limpa”). 7) Maria Soares de Almeida, 54 anos Localização: Ribeirão Onça Moradora do bairro Novo Aarão Reis há 19 anos, enfrenta as enchentes do Ribeirão Onça, que por três vezes inundaram sua casa. Hoje aguarda processo de remoção/indenização por parte da Prefeitura, que anuncia a execução de obras nas margens do Ribeirão. Trabalha como faxineira de um prédio e em casas de família, conversa sobre a presença da água em seu cotidiano particular e como “profissional da limpeza”. 8) Daniel da Silva Pimenta, 50 anos Localização: Córrego do Cercadinho (Bacia do Arrudas) Geólogo, ex-‐funcionário da COPASA, onde atuou como Analista de Recursos Hídricos, atua hoje em empresa de iniciativa privada, com enfoque em perfuração de poços tubulares profundos e de monitoramento ambiental para abastecimento público, industrial e mineração, com a exploração de águas subterrâneas. 9) Ernesto Soares da Conceição (“Seu Nonô”), 76 anos Localização: Córrego dos Joões/Navio-‐Baleia (Bacia do Arrudas) Militar reformado, realiza há 27 anos um reconhecido trabalho de recuperação do Córrego dos Joões, pequeno afluente do Córrego Navio-‐Baleia que passa nos fundos do seu terreno. Seu Nonô promoveu a interceptação de esgotos das 20 casas do seu quarteirão e criou um sistema de barragens e filtros que permite que a água brote limpa nas nascentes de seu terreno. Às margens do córrego realiza um trabalho paisagístico constante, com pedras, madeira e pneus reutilizados, auxiliando na recomposição de uma mata ciliar. 10) Telma das Graças Assis Gonzaga, 71 anos e 11) Márcia Trindade, 60 anos. Localização: Córrego Petrolina (bacia do Arrudas) Moradoras há mais de 50 anos da região conhecida como “Buracão”, no bairro Sagrada Família. Telma tem uma lagoinha no quintal da sua casa, assim como praticamente todos os seus vizinhos de quarteirão. Cláudia mora em um lote muito vegetado, que se assemelha a uma chácara. As duas contam juntas a história da sua vizinhança, que tem ainda hoje um modo de vida interiorano, com muito contato com a natureza, em uma relação que elas mesmas denominam “ecológica”. 12) Thiers Matos, 62 anos Localização: Córrego Taquaril (Bacia do Arrudas) Proprietário de um escritório de paisagismo que atende um público da elite econômica de Minas Gerais, morador do bairro Taquaril há 30 anos. Observa as mudanças ambientais na cidade, reflete sobre os processos estéticos, técnicos e sociais da criação paisagística, indica situações em que percebe interações interessantes com a natureza no espaço urbano de BH.
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2.3 -‐ Aguas urbanas em Belo Horizonte -‐ uma breve contextualização Como uma prévia à leitura do material de análise das entrevistas, proponho uma breve contextualização acerca da gestão das águas em Belo Horizonte, desde a inauguração da cidade até os dias de hoje. A intenção é situar temporalmente alguns dos contextos, políticas, programas e eventos que são mencionados nas falas dos entrevistados. As fontes das informações são diversas, provenientes principalmente de estudos dos campos da História Ambiental, História do Saneamento e Planejamento Urbano14. Finalizam este item uma linha do tempo e uma galeria de imagens, para os quais algumas das informações foram também recolhidas diretamente de matérias de jornais e sites institucionais. A cidade de Belo Horizonte já surge, ainda enquanto ideia, com um paradoxo instaurado no que diz respeito à sua relação com as águas. A escolha do sítio do Curral Del Rey para construção da nova capital de Minas se justificou em grande parte pela abundância e qualidade dos recursos hídricos disponíveis no local15, mas o plano urbano elaborado e executado pelo engenheiro Aarão Reis ignorou não somente as construções e os modos de vida existentes, mas também o relevo e os rios, ao sobrepor uma malha ortogonal rígida sobre o território. O racionalismo positivista e os valores higienistas que vigoravam no final do século XIX foram as bases do desenho da capital e de uma cultura de gestão da cidade que, podemos dizer, não se encontra superada até hoje. O crescimento populacional acelerado (muito maior do que o esperado, ou considerado, já no momento de inauguração da cidade), a ausência total de tratamento de esgotos (até o ano 2001!) e sua destinação in natura aos córregos, levou a uma história de batalha pela erradicação dos rios da paisagem urbana de Belo Horizonte. As águas se tornaram uma figura indesejada, contra a qual a técnica se debate, em um constante movimento que evolui, até hoje, em ciclos de retificação, canalização e fechamento dos rios. Duplamente associadas a esse movimento, ao mesmo tempo como sua causa e consequência, as tragédias de inundação, que anualmente geram mortes e graves acidentes, nunca deixaram de marcar o cotidiano da cidade.
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BARRETO, 1996; BORSAGLI, 2011a; 2016; BONTEMPO et al, 2012; MESQUITA, 2013; NASCIMENT0, 2013; WELTER, 2009. 15 O jornalista Alfredo Camarate, que acompanhava o trabalho dos engenheiros da Comissão Construtora da Nova Capital, assim descreve as águas do Curral Del-‐Rey, em crônica publicada em 1894 e reproduzida por Abílio Barreto: “Procuram-‐se e acham-‐se córregos importantes, nascentes que reluzem pela limpidez e boa qualidade das águas; e, nesta incansável peregrinação pelo Reino das Águas, encontram-‐se episódios de paisagem encantadores: a linfa deslizando, só, por entre pedras e pedroços de ferro; regatos borbulhando pelo meio de pitorescas moitas, córregos serpenteando por baixo de uma vegetação frondosa, fresca e luzente, com aquele aspecto limpo e asseado das crianças que vivem com pouca poeira na porta e muita água em casa (CAMARATE, A. Por Montes e Vales. Minas Gerais. Ouro Preto, p.5-‐6, 6 jun. 1894 apud BARRETO, 1996:164).
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A população de baixa renda, habitante das periferias, dos fundos de vale, das encostas e de outras áreas a princípio indesejadas pelo mercado imobiliário, é quem mais convive até hoje com as águas, em todos os seus aspectos; com a insalubridade e com o desastre, mas também com dimensões positivas que possam existir pela presença desse elemento. No mínimo, é quem de fato ainda se depara com o problema, no sentido de uma questão, de uma possibilidade, uma vez que para moradores das áreas onde a urbanização é dada como “resolvida”, os rios são um elemento oculto, invisível ou até inexistente. Em meio às práticas chamadas estruturantes, de controle dos cursos d’água por intervenções de grande porte, pautadas na substituição de mecanismos hídricos naturais por tecnologias hidráulicas, tivemos uma experiência alternativa importante, a ser destacada. Em consonância com princípios que veem se estabelecendo nas bases legais brasileiras desde a Constituição de 1988, onde a questão ambiental passa a ser tratada de maneira mais transversal às pautas urbanas, foram elaborados em Belo Horizonte, nos anos 2000 e 2001, respectivamente, o Plano Diretor de Drenagem Urbana e o Plano de Saneamento Urbano, dos quais derivou o Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte, conhecido como Projeto DRENURBS. Um processo que conciliou questões de saneamento ambiental, mobilidade, habitação e lazer, sustentado pela educação ambiental e participação popular. Nesse contexto, houve a criação de três parques ecológicos, Nossa Senhora da Piedade, Primeiro de Maio e Baleares e de outras estruturas de macro drenagem. Este programa, entretanto, não se instaurou como política pública predominante do Município por diversas razões, como a falta de continuidade de recursos, a mentalidade política e técnica, incongruências internas ao projeto, entre outras. Mas segue sendo uma importante referência e fonte de aprendizado, que nos mostra a possiblidade de mudança de relação com as águas, de sua integração ao ambiente urbano e de transformação da relação afetiva entre as águas e os habitantes da cidade. Temos também a importante atuação do Projeto Manuelzão, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais, e do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas e seus subcomitês, que atuam em consonância com a política de descentralização da gestão hídrica, presente na legislação federal desde a Constituição de 1988 e descrita pela Lei das Águas de 1997. Dentre as ações realizadas neste âmbito, destaco o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas das bacias do Arrudas e do Onça, iniciado em 2011 e ainda em atividade, que cadastra e descreve nascentes de relevante contribuição para as bacias e realizam intervenções de revitalização em algumas delas. Neste contexto, houve a criação da figura do Cuidador de Nascente, como reconhecimento às ações da população na preservação do meio ambiente urbano. À mesma época de execução dos projetos do DRENURBS e do início das atividades dos Subcomitês de bacia, entretanto, foram também iniciadas, em 2005, as operações da Linha Verde, um
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plano do Governo do Estado de melhoria viária para integração da Região Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) ao centro da cidade. Dentre as ações do projeto estava a execução do Boulevard Arrudas -‐ uma obra, dita de requalificação, que previu o recobrimento do canal do Ribeirão Arrudas em toda a área central da cidade, para alargamento das avenidas dos Andradas, do Contorno e Tereza Cristina. De forma incongruente aos preceitos do Plano Municipal de Saneamento e às diretrizes do Programa de Recuperação Ambiental, o Boulevard Arrudas se apresentou como uma ação setorial, restrita ao campo da mobilidade urbana, por sua vez também pautado em um modelo rodoviarista ultrapassado. As ações do Boulevard Arrudas e da Linha Verde relacionam-‐se a um contexto de interesses políticos e econômicos, associados aos grandes empreendimentos de construção da Cidade Administrativa do Governo do Estado e aos eventos da Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil (BONTEMPO et al, 2012:12). As obras do Boulevard Arrudas seguem em atividade e o Ribeirão Arrudas está em vias de desaparecer completamente da paisagem de Belo Horizonte. Linha do tempo 16 1894 – Descrição dos rios e nascentes do Curral Del-‐REy como um dos motivos de escolha do
sítio para a construção da nova Capital de Minas. Instalação da Comissão Construtora da nova capital no Curral Del-‐Rey e início das obras. 1895 – O engenheiro Saturnino de Brito, que dirigia os projetos de abastecimento de água para
a nova capital, deixa a equipe da Comissão Construtora por divergências quanto à rigidez do desenho urbano adotado por Aarão Reis. Em 1914 ele irá publicar um artigo crítico, com a proposição do que poderia ter sido um traçado viário que incorporasse os cursos d’água ao plano urbano de Belo Horizonte.17 1896 – Obras de rebaixamento geral do Canal do Arrudas. Retificação do Ribeirão na região
correspondente à Praça da Estação. 1897 – Em 12 de dezembro é Inaugurada a Cidade de Minas, que depois veio a se chamar Belo
Horizonte. 1922-‐1926 – Canalização do Ribeirão Arrudas e do Córrego do Leitão, entre as avenidas Olegário
Maciel e Augusto de Lima. 1926-‐1929 – Retificação do Córrego do Acaba Mundo; sequência à canalização do Arrudas;
construção de avenidas sanitárias ao longo dos córregos Lagoinha, da Mata (Av. Silviano
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Observação: Não se encontra, na literatura acadêmica, muitas referências às transformações ocorridas na bacia do Ribeirão Onça ao longo da história de Belo Horizonte, até pelo menos a década de 1990. A realização dessas entrevistas é também uma forma de iniciar um movimento pela cobertura dessa história, como veremos nas narrativas de Antônio Ruas, José Américo de Souza, Ione de Oliveira, Isaac de Medeiros, Júlia Amaral e Majô Zeferino. 17 BRITO, F. S. R. Urbanismo: a planta de Santos. 1914. In: Obras completas de Francisco Saturnino Rodrigues de Brito. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943 apud NASCIMENT0, 2013.
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Brandão) e do Pastinho (Av. Pedro II). Década de 1930 – Menos de 50% da população era atendida por abastecimento d’água e menos
de 30% por coleta de esgoto, gerando multiplicação de cisternas e fossas sépticas nos domicílios e lançamento de esgoto in natura nos cursos d’água. Ocupação cada vez mais intensa de encostas e margens de rios, eventos de inundações e desabamentos. 1933-‐36 – Atuação destacada de associações de bairros e de comitês partidários, reivindicando
melhores condições de saneamento. 1938 – Inauguração da Barragem da Pampulha. 1937-‐1940 – Intensificação das obras de saneamento, com canalizações para aberturas de vias
e disponibilização de terrenos edificáveis. São alguns dos córregos que passaram por canalizações parciais ou totais, nesse período: Ribeirão Arrudas, Córregos dos Pintos, do Leitão, Renascença, Lagoinha, Barroca, Serra, da Mata e Pastinho. Décadas de 1940-‐50 – Graves enchentes, construção de barragens nos córregos Acaba Mundo
e Leitão e continuidade da política de canalizações de córregos, que se encontravam cada vez mais poluídos. 1954 – Rompimento da Barragem da Pampulha. Década de 1960 – Início do encobrimento dos canais da área central e consequente eliminação
dos córregos da paisagem. As obras se relacionavam à melhoria do tráfego de veículos, que se intensificava rapidamente, e ao embelezamento da cidade, que havia perdido o título de cidade-‐jardim desde o corte dos fícus da Av. Afonso Pena, em 1963.18 1965 – Criação do Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DEMAE), uma autarquia, tendo
o município como principal acionista. Empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ao DEMAE para questões de abastecimento de água. 1969 – Plano Nacional de Saneamento (PLANASA) estipula prazo de 1 ano para cidades com
população acima de 10.000 habitantes passarem a realizar o tratamento dos esgotos. 1973 – Formalmente instituída a Região Metropolitana de Belo Horizonte. No contexto de
elaboração do Plano Metropolitano de Belo Horizonte (PLAMBEL), a gestão sanitária, antes atribuída ao DEMAE, passa a se dar em âmbito estadual, pela Companhia Mineira das Águas e Esgotos (COMAG). Inauguração da adutora do Rio das Velhas (divulgada pelo poder público como “Obra do Século”, ficou conhecida popularmente com a “Obra dos Cem Anos”, pela longa demora em sua execução)19. 1974 – COMAG é transformada em Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA), que
ganha caráter empresarial e passa a se ocupar apenas do abastecimento de água e coleta de esgotos e não mais das questões ligadas aos cursos d’águas (notadamente as canalizações). 1976 – Primeira Lei de Uso e Ocupação do solo de Belo Horizonte destaca a questão da proteção
dos cursos d’água, apesar de ainda prevalecer a concepção higienista que os toma como obstáculos ao crescimento urbano.
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BORSAGLI, 2011. MESQUITA, 2013
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1977-‐78 – Novas enchentes do Ribeirão Arrudas levam à retomada de intervenções
estruturantes, mas a ritmo lento, devido à falta de recursos, em contexto de crise econômica mundial.20 1979 – Lei Federal 6766, que dispõe sobre o parcelamento do solo urbano, torna obrigatória a
reserva de uma faixa não-‐edificável de 15 metros de largura às margens dos cursos d’água. 1983 – Famosa enchente do Ribeirão Arrudas que atingiu a Favela do Perrella, na região Leste
de BH. Publicação do decreto 4408/83 visando o cumprimento da lei 6766 com a remoção das famílias residentes às margens do Arrudas. Intensificação das obras de canalização e início da expansão da Via Leste-‐Oeste (Avenida dos Andradas, Contorno e Tereza Cristina). 1988 – Promulgação da Nova Constituição Brasileira. 1997 – Promulgação da “Lei das Águas”, que institui o Plano Nacional de Recursos Hídricos e
fundação do Projeto Manuelzão – UFMG. 1998 – Criação do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas. 2000 – Plano Diretor de Drenagem Urbana de Belo Horizonte. 2001 – Plano Municipal de Saneamento de Belo Horizonte. 2002 – Início do Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte – DRENURBS. 2001 – Início da operação da primeira Estação de Tratamento de Esgotos de Belo Horizonte, a
ETE Arrudas. 2005 – Início das obras do Boulevard Arrudas, de recobrimento do Ribeirão Arrudas em toda a
área central da cidade, como parte do programa de mobilidade Linha Verde. 2006 – Início da operação da ETE Onça. Criação dos Subcomitês de Bacia Hidrográfica do
Ribeirão Onça e do Ribeirão Arrudas 2008 – Inauguração dos três parques do programa DRENURBS: 1º de Maio, Nossa Senhora da
Piedade e Baleares. 2010 – O Governador e o Vice Governador de Minas, Aécio Neves e Antônio Anastasia, e o
Prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, nadam na Barra do Guaicuí, como parte da promessa feita ma campanha Meta 2010, de Revitalização do Rio das Velhas. 2011 – Início do Programa de Valorização de Nascentes Urbanas do Ribeirões Arrudas e Onça,
gerido pelo CBH Velhas e subcomitês, que concluiu em 2018 sua terceira etapa. 2012 – Finalização das obras de modernização do estádio Mineirão, realizadas para a Copa do
Mundo de 2014, sediada no Brasil. Declaração do Prefeito Márcio Lacerda, na ocasião da ocorrência de acidentes ligados a inundações durante o período chuvoso: “Nós falhamos, devíamos ter sido um pouco mais babás do cidadão para que eles não corressem risco”.21
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BONTEMPO et al, 2012:11. Jornal Hoje em Dia, 16/11/2012:
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2013 – Corte dos fícus da Av. Bernardo Monteiro. O evento deu início ao movimento Fica Ficus,
que reuniu ativistas pela causa ambiental, tematizando a natureza urbana, com foco específico nas políticas de poda e corte de árvores da cidade. As podas geralmente estão ligadas às operações de manutenção do cabeamento de energia elétrica, e de outras redes, e à falta de cuidado das condições de sobrevivência das espécies vegetais; ocorrem também em grande escala nos contextos de grandes obras estruturais, como para a introdução da pista do BRT, na Av. Cristiano Machado, ou para grandes eventos, como na reforma do Estádio Mineirão. 2014 – Movimento Deixe o Onça Beber Água Limpa culmina na elaboração do projeto Parque
Linear do Onça, com forte colaboração entre sociedade civil e Prefeitura. O projeto recebeu prêmios e encontra-‐se em fase de captação de recursos.22 2017 – Comunidade do bairro Jardim Felicidade nega proposta da Prefeitura de saneamento
do Córrego do Tamboril, nos moldes tradicionais de canalização e criação de avenida sanitária, e realiza, de maneira autônoma, um processo participativo para elaboração de diretrizes de projeto. É solicitada pela população uma maior conciliação de aspectos urbanísticos e ambientais. 2018 – “Nós vamos continuar rezando e trabalhando, porque isso é um trabalho contínuo que
tinha que ter durado 40 anos”, declara Prefeito Alexandre Kalil à Imprensa, após fortes chuvas em Belo Horizonte.23 Nova declaração do Prefeito, um mês depois: Não vamos resolver problema de chuva e morte com sirene, mas com máquinas e intervenção”24.
<www.hojeemdia.com.br/horizontes/lacerda-‐admite-‐n%C3%B3s-‐falhamos-‐dev%C3%ADamos-‐ter-‐sido-‐um-‐ pouco-‐mais-‐bab%C3%A1s-‐dos-‐cidad%C3%A3os-‐1.65607> 22 Memorial descritivo do projeto Parque do Onça: <www.prefeitura.pbh.gov.br/politica-‐urbana/planejamento-‐ urbano/projetos-‐urbanos/parque-‐do-‐onca> 23 Jornal Estado de Minas, 18/10/2018: <www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/10/18/interna_gerais,998271/vamos-‐rezando-‐e-‐trabalhando-‐diz-‐ kalil-‐sobre-‐chuvas-‐em-‐belo-‐horizont.shtml> 24 Jornal Estado de Minas, 20/11/2018: <www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/11/20/interna_gerais,1006799/u201cnao-‐vamos-‐resolver-‐ problema-‐de-‐chuva-‐e-‐morte-‐na-‐vilarinho-‐com-‐si.shtml>
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CAPÍTULO 3: ÁGUA IMAGINADA 3.1. Da escuta à escrita, preparando novelos As falas recolhidas com as entrevistas trazem uma variedade de questões e universos tocantes a cada pessoa abordada. Por essa razão, este conteúdo foi transcrito integralmente, de modo a constituir uma documentação, um registro das histórias de vida, das atuações, das perspectivas dos entrevistados, bem como do próprio momento da conversa (este material está disponível no Anexo 2). A transcrição buscou respeitar ao máximo a oralidade, de modo a tornar a experiência de leitura bem próxima à da escuta. Os encontros em si mesmos significaram parte importante da realização desta pesquisa. As pessoas, suas ideias, os lugares visitados, mencionados e imaginados ao longo desses diálogos povoaram meu imaginário de maneira muito intensa e perturbadora. Se na primeira parte desse trabalho (Capítulo 1), a linha guia é a minha experiência pessoal, meus caminhos e visões individuais da cidade, a segunda parte se baseia na assimilação dessas outras vozes. Poderia dizer que esse processo se configurou como uma terapia da água, por meio da qual parti da minha pequena microbacia, naveguei por outros cursos e pude vislumbrar o encontro de rios. “As águas são como as pessoas, crescem quando se encontram”.25 Com o procedimento de re-‐audição e transposição dessas conversas à linguagem textual, me propus então a fiar novas linhas. Busquei a identificação de temáticas e abordagens recorrentes, possíveis associações entre os pensamentos apresentados, entremeando-‐os com comentários e análises, notadamente pela perspectiva do planejamento urbano. Creio que este não seja ainda o momento de uma urdidura, mas de sua preparação, como se eu tivesse depositado um emaranhado de linhas em um cesto e as fosse organizar em novelos. Algumas dessas linhas têm diferenças de tonalidade muito sutis, mas foi preciso escolher o que eu chamaria de azul, o que se enrolava com os verdes ou com os amarelos, e eis que propus a sua separação em 8 novelos, assim nomeados: 1. Água atravessada; 2. Água percebida; 3. Água lúdica; 4. Água herdada; 5. Água compartilhada; 6. Água material; 7. Água ameaça(da); 8. Água invisível. O exercício a que me proponho neste momento é deixa-‐los assim organizados, à espera do momento, que pretendo que seja breve, em que eu possa com eles produzir um tecido. Ao final deste item, estão ainda agrupadas algumas das respostas das pessoas entrevistadas às perguntas “O que é Natureza?” e “O que é cidade?”. Finaliza o capítulo uma série de fragmentos de falas dos entrevistados que expressam utopias e distopias, paisagens que as pessoas desejam e que não desejam, em suas vidas na cidade.
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Frase atribuída ao engenheiro ambiental e escritor Claúdio Bueno Guerra, data desconhecida.
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Figura 35 -‐ Ribeirão Onça, 2017. Fonte: Roberto Andrés; Ribeirão Arrudas, 2015; Fonte: Daniel Iglesias; Córrego Maria Brasilina, bairro Sagrada Família, 1978; Fonte: SUDECAP/PBH.
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Figura 36 – Quintal de Telma Gonzaga, bairro Sag. Família; Quintal de Ernesto da Conceição, “Seu Nonô”, bairro da Saudade; Horta de Dona Júlia Amaral, bairro Rib. de Abreu. 2018. Fonte: Elisa Marques.
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Figura 37 -‐ Esplanada do Mineirão 2009/2018; Região do “Baixo Onça”, onde se vê (esq.) o encontro do bairro Lajedo com o Quilombo de Mangueiras e (dir.) o bairro Ribeiro de Abreu e a ETE Onça; Divisa bairros Sagrada Família e Horto, onde se vê (esq.) a Rua Volta Grande, em seu formato “de ferradura”, e (dir.) o encontro das Av. Petrolina e Silviano Brandão, que cobrem os córregos Maria Brasilina e da Mata. 2018. Fonte: Google Earth.
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Figura 38 -‐ Fícus do estacionamento da Escola de Medicina – UFMG; Fícus e Paus-‐Ferro da Avenida Barbacena. 2018. Fonte: Elisa Marques.
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1 ∞ Água atravessada ∞ território / acesso Os relatos de convivência com a água, em cidades do interior ou em Belo Horizonte, quando esta ainda era mais presente na paisagem da cidade, na maioria das vezes explicitam o papel dos rios na conformação do território. Menciona-‐se a travessia do curso d’água como ação cotidiana, para ir à escola, à igreja, ao trabalho. ANTÔNIO -‐ Eu nasci na roça, vivi em abundância de água, morava num local no norte de Minas que tinha um rio. Hoje ainda tem parte dele, chama Riachão. No período que eu morei lá, principalmente nos meses de chuva, que tinha que atravessar o rio, atravessávamos com a água no pescoço. Se ia em festa, quando era do outro lado rio, atravessava de short, com as roupas na cabeça, chegava lá do outro lado, trocava de roupa e ia. Hoje isso não existe mais [porque o rio já não é mais tão volumoso quanto nessa época]. TELMA -‐ Tinha só uma ponte, ali na rua Jacques Luciano com Av. Petrolina. Eu passava para ir pra escola, muitas vezes a água tava cá em cima e a gente tinha medo de atravessar. Mas a gente era muito atrevido, então ia pelo barranco, entrava na água e pulava pra sair do outro lado. MAJÔ -‐ A minha convivência com o Ribeirão Onça era muito grande. Não tinha nada no bairro São Gabriel, era um bairro muito novo. E eu estudava, ia para a igreja, tudo da minha vida, desde os 3 anos de idade, era no bairro Aarão Reis. Então eu tinha que atravessar o Onça. Eu morava bem acima, no São Gabriel, onde não ia a enchente, mas para chegar na escola e na igreja eu tinha que passar pelas enchentes. O rio tinha uma ponte de balanço de um lado para o outro e, quando chovia, a água passava por cima dessa ponte. E a gente tinha pessoas que olhavam a gente, “pode ir, pode atravessar, seu pai pediu para eu ficar te olhando”. Então são aquelas histórias antigas que fazem a gente não esquecer do contato que a gente tem com o rio. MAJÔ -‐ Quando me mudei para o bairro Guarani, fui trabalhar nessa escola, que ficava numa rua sem saída. Ela dava no brejo. “Onde você mora?”, “Ah, moro lá no brejo”. O pessoal brincava: “Uai, virou sapo”. Justamente porque as ruas do bairro Guarani não tinham saída, davam no córrego [Nossa Senhora da Piedade]. THIERS -‐ Eu ia com meu pai comprar carne no Perrella e ali, ao lado daquela fábrica de pregos, tinha um grande abatedouro. Ao lado do Hospital Militar, onde é a Andradas hoje, que não existia, a gente atravessava uma ponte de madeira, grande. Essa ponte era em péssimo estado, com muitas tábuas faltando e eu via lá embaixo o rio. Era alto! Eu via a água e o entorno era coalhado de urubus, por causa do abatedouro. Era muito impressionante.
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Governança das águas A compreensão do rio no território -‐ sua presença ora enquanto referencial, elemento agregador e identitário de um lugar, ora enquanto barreira ou limite -‐ remete à pertinência de um pensamento sobre a gestão das águas que propõe a bacia hidrográfica como unidade de planejamento territorial. No Brasil, desde a Constituição de 1988 se expande a importância dada à proteção dos bens ambientais, inclusive nas áreas urbanas, que passam a ser tomados como bens de interesse público, o que deve implicar na abertura à participação da população na definição de políticas públicas de cunho urbano e ambiental (WELTER, 2009). Nesse sentido, a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), implementada pela Lei Federal 9.433, popularmente conhecida como Lei das Águas, promulgada em 1997, traz a descrição e a ordenação de um sistema por bacias e sub-‐bacias, geridas por comitês e sub-‐ comitês, junto ao Ministério e às Secretarias Estaduais do Meio Ambiente e à Agência Nacional das Águas (ANA). Trata-‐se de um esforço pela incorporação dos princípios da Carta Magna de descentralização e participação popular, uma vez que a ramificação do sistema visa a aproximação de questões e contextos de forma mais localizada e a composição dos comitês por entidades não-‐ governamentais e membros da sociedade civil visa garantir uma heterogeneidade dos interesses e pontos de vista representados. A efetivação dessa política, entretanto, se dá de maneira lenta, gradual e permeada de paradoxos. T.SILVA (2013) propõe uma análise do Sistema Nacional de Monitoramento de Recursos Hídricos, tendo como bases: a) as ideias de Molle (2008)26, que questiona a importação dos conceitos estruturantes dessa política, notadamente de modelos de governança europeus, “quando na verdade, eles deveriam ser cuidadosamente adaptados para melhor se adequarem à realidade de onde estão sendo aplicados” (T.SILVA, 2013: 239). Além disso, os modelos se baseiam no que Molle chama de “conceitos nirvana”, tais como como sustentabilidade, desenvolvimento e modernização, cujas definições são pouco claras e se tornam objetivos impossíveis de serem alcançados. Por outro lado, Silva destaca que a compatibilização com a lógica global de governança hídrica, por bacias, favorece os financiamentos internacionais, como pelo Banco Mundial. b) a crítica dos pressupostos que sustentam as abordagens participativas, feita por Cleaver (1999)27, dentre os quais destaco:
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MOLLE, F. Nirvana Concepts, Narratives and Policy Models: Insights from the Water Sector. Water Alternatives, 1(1), p. 131-‐156, 2008. 27 CLEAVER, F. Paradoxes of Participation: Questioning Participatory Approaches to Development. Journal of International Development, 11(4), p. 597-‐612, 1999.
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-‐ A população considerada como um grupo homogêneo e harmônico e não como entidades dinâmicas, marcadas por relação de poder; -‐ Pouca independência institucional do Governo. Os comitês “acabam sendo um braço governamental”. -‐ Desigualdade regional. Na escala do país, as regiões Sul e Sudeste, mais desenvolvidas e urbanizadas, continuam sendo as mais atendidas. “Como as áreas urbanas têm maior contribuição para a economia nacional, elas gozam também de maior poder nos processos de tomada de decisões sobre a gestão das águas” (T. SILVA, 2013: 247). -‐ A prevalência de um discurso técnico-‐científico. A simples inclusão não implica necessariamente em uma gestão democrática, se “os atores não contam com a mesma habilidade de influenciar a decisão, o mesmo conhecimento sobre os processos em discussão e o mesmo interesse” (T.SILVA, 2013: 248). Silva ressalta ainda que a maior ou menor capacidade de atuação de determinada comunidade e a efetivação dos princípios da lei em um comitê de bacia, dependem das realidades socioculturais de cada local e de contextos específicos como, por exemplo, do histórico de movimentos previamente existentes que tenham sido incorporados a essa nova estrutura. É o caso do comitê de bacia do Rio das Velhas, instituído em 1998, e dos subcomitês do ribeirões Onça e Arrudas, ambos criados em 2006, que tiveram como importante lastro a atuação do Projeto Manuelzão, ligado à Faculdade de Medicina da UFMG, criado em 1997.28 Vemos essa ligação direta no relato de Majô Zeferino: MAJÔ – Depois dos núcleos do Manuelzão, nós nos reunimos e conseguimos fazer o subcomitê de bacia do Onça – foi o primeiro subcomitê de bacia no Estado, que se efetivou. A gente começou, naquela luta, junto com o Projeto Manuelzão. Então a gente fala que ele é nosso pai. (...) Com o Manuelzão, reunido com Prefeitura, órgão público, sociedade civil e usuários maiores, montamos os subcomitês para pegar as demandas das diferentes regiões, da população. Porque para rodar o Rio das Velhas, desde a Cachoeira das Andorinhas até lá na Barra do Guaicuí, é muito extenso. Então falamos “vamos fazer subcomitês por bacias de ribeirão, que é menor”. Nas diferentes escalas, a organização do território por bacias hidrográficas ainda é muito conflitante com a lógica administrativa burocrática, como as regionais ou bairros, no caso municipal.
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“As atividades do Manuelzão se iniciaram em 1997, mesmo ano de aprovação da Lei das Águas, com objetivo de chamar a atenção de populações ribeirinhas ao Rio das Velhas, no contexto urbano e rural, para as causas de muitas das doenças que as acometiam: a degradação das águas do Rio. Hoje, o Manuelzão conta com núcleos ao longo da bacia formados por membros da sociedade civil, atores governamentais e usuários de água para discutir questões relacionadas à governança das águas. Membros do Manuelzão integram o comitê formal da bacia hidrográfica do Rio das Velhas criado posteriormente, mas o projeto permanece como iniciativa paralela que demanda do governo estadual ações contínuas para solucionar os problemas de degradação ambiental da bacia” (T. SILVA, 2013: 250).
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Ione de Oliveira narra os problemas que a população do Quilombo de Mangueiras, localizado na região nordeste de Belo Horizonte, enfrenta pelo fato da demarcação de seu território não incluir toda a microbacia de drenagem do córrego Laginha. Apesar das principais nascentes estarem inseridas na área protegida, o topo de morro é ocupado pelo bairro Lagedo [Fig. 37]. IONE -‐ Existe uma questão muito séria, muito grave aqui dentro do Quilombo que é o Lagedo, um bairro que tem aqui acima. O começo de tudo é na rua Pintor Pablo Picasso. Ela termina bem na cerca do Quilombo e, quando chove muito forte, a água vem trazendo o lixo todo do Lagedo e cai no rio. Assim como ocorre a definição de limites entre porções de território pelas linhas dispersoras do relevo, também a concentração das águas pode promover a concentração de pessoas, o envolvimento coletivo, com o surgimento de uma “identidade vinculada à bacia hidrográfica” (T.SILVA, 2013: 249). A rede de militância estabelecida entre os cuidadores de nascentes -‐ agentes do Programa de Valorização de Nascentes do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Velhas (CBH Velhas), é um claro exemplo disso, como também ressaltado por Ione em dois outros trechos de sua entrevista: IONE -‐ As pessoas do entorno estão engajadas, muito preocupadas com o Ribeirão Onça. Queremos construir um parque linear ao longo do Onça, então as pessoas estão muito envolvidas com a questão da despoluição, com a retirada dos moradores das margens, das áreas de risco. IONE -‐ A gente teve interagindo com o pessoal que cuida de uma nascente no bairro Jardim Felicidade. Nós fizemos conhecimento com vários cuidadores de nascente. Raramente a gente se desprende agora, nós fizemos um grupo de Whatsapp. A gente troca novidades, o que cada um está fazendo.
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2 ∞ Água percebida ∞ corpo / sentidos / conhecimento / desejo É interessante observar que, apesar da barreira que o rio muitas vezes possa representar ao deslocamento, a maioria dos entrevistados não ressalta inicialmente esse fato como um problema. Se o tema da travessia das águas é um dos primeiros evocados nas entrevistas, logo se passa para a sensações que as pessoas associavam ou ainda associam ao contato com a água. MARIA -‐ Eu atravesso, pela passarela, do bairro Novo Aarão Reis para o Ribeiro de Abreu. Todo dia eu pego o ônibus do lado de lá, o Ribeiro A. É facinho. Eu não tenho medo não. Quer ver quando o rio tá revirando assim, em tempo de chuva, a água passando pertinho. Fica amontoado de gente em cima da passarela olhando a água. Eu não tenho medo. A passarela é bem reforçada. E cada dia o rio tá de uma cor. Um dia tá verde, um dia tá vermelho, outro tá amarelo. Tem dia que tá meio roxo! Cada dia uma água diferente. Tem dia que está espumando, dá aquela espumeira. Isso é fora da época de chuva. Quando é época de chuva, ele lava. A água fica mais limpa e mais amarelada. Ele fica bem mais bonito. MAJÔ -‐ Perigo, não... a gente gostava muito de passar na água. ANTÔNIO -‐ Eu não consigo nem explicar. Eu tenho esse envolvimento com a água. O tempo formou para chuva eu fico feliz, fico vibrando. (...) O ano passado fiz uma viagem para Jaíba e queria conhecer o rio são Francisco. Eu já tinha visto, nas margens, mas queria estar no meio mesmo do rio. Então eu atravessei de Jaíba para Itacarambi, de barco. Gastei 5 minutos para atravessar. Quando cheguei no meio do rio, que eu pude olhar de um lado e outro, e senti que eu estava no meio do rio, que sensação gostosa. Eu até me emocionei. TELMA -‐ Eu sou de Inhaúma, sempre convivi com água. Então eu faço questão de manter essa lagoinha aqui [nos fundos do lote – Fig. 36]. Água para mim é a melhor coisa do mundo. Eu sou igual peixe, é água que me mantém viva. MARIA -‐ Com certeza. Eu gosto muito de arrumar a casa lavando com água. Fica bem melhor. Fica mais fresquinho, acaba com a poeira. Mas eu não desperdiço não, tenho dó. Você já pensou, ficar sem água? É muito pior do que ficar sem luz. SEU NONÔ -‐ O movimento da água é importante. Às vezes tem um problema grave, as pessoas vão pra uma piscina e resolve. O movimento da água é bom. (...) A água me dá uma sensação de prazer e alegria, “vai chover, tá chovendo”. As cascatas... Tem uma música de um cara que se chama Vicente de Paiva. Ele diz: “As cascatas.... e as borboletas que enfeitam as matas”. A natureza, o céu de manhã, à noite, isso aí tem uma importância grande pra nós. MÁRCIA -‐ Aqui era muito arborizado, muita água, um paraíso, uma benção, né? A gente escutava a água à noite, daqui de casa. Igual eles inventaram essas fontes artificiais que ligam na tomada, para relaxar. O ser humano tem que ter contato com a natureza.
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MAJÔ -‐ Me pergunta se eu voltei ao Mineirão depois que tiraram as árvores todas e deixaram só aquele cimento? Eu passo, me dói, me esquenta, me seca, parece que eu sou um concreto também [Fig. 37]. MÁRCIA -‐ Você já viu como é frio ali à noite? É onde a água passa [por baixo do asfalto]. Ali é o ponto gelado, bem no pé de manga. A água passa ali e desce lá para a [Avenida] Petrolina. MARIA -‐ Na beirada do rio a gente nunca vai não, porque fede demais. A água é muito suja. IONE -‐ Porque a água fria traz você de volta pra sua realidade. Ela não deixa você viver a vida dos outros. Naquele momento você vive a sua vida, porque é seu corpo que está ali, debaixo da água fria. A gente fez vários levantamentos sobre a água fria. O tanto que ela traz você jovem, porque ela fecha seus poros. Além de tudo o que eu não vejo, não toco, mas sinto dentro da água. As relações com a água descritas pelos entrevistados se dão mediadas pelo corpo, pelas sensações evocadas por todo o aparelho perceptivo, passando pela visão, temperatura, tato, olfato e audição. Mas vemos também algumas metonímias de parte-‐todo nas falas “sou como peixe”, “parece que sou um concreto também”, “senti que eu estava no meio do rio” e na universalização evocada por Márcia quando diz que “o ser humano tem que ter contato com a natureza”. A referência à água em algumas falas se expande à percepção de toda a natureza, incluindo as plantas, os animais, o ambiente. Parece que o engajamento do corpo com o ambiente se intensifica ao ponto da pessoa se fundir com ele, se tornar a própria paisagem. Na última fala selecionada, de Ione, a percepção passa a não mais se conter nos sentidos e evocar uma dimensão que ela mesma irá chamar de “imaterial”, como veremos mais adiante [novelo 8]. Em conversas em que surgem descrições e qualificações da água, como limpa ou suja, boa ou ruim, em suas variadas aplicações e usos, vemos os contrastes entre os discursos técnico-‐científico e da experiência empírica, ou da tradição cultural. IONE -‐ A COPASA trata como se nossa água fosse puro coliformes fecais. Se fosse isso mesmo, a gente teria indícios ali, não teria a mata ciliar, alguns tipos de samambaia não nasceriam. Mas ela não é “pura e cristalina”. Ela não é “límpida, inodora e incolor”. Mas a gente está o tempo todo ligado para não cair nessas armadilhas. Porque quando a nossa água estava contaminada mesmo, que era visível o coliforme, a mata ciliar começou a morrer. O bambu, é visível a moita de bambu. Se tiver bambu em uma nascente, quer dizer que aquela água não é poluída. Você vê os aspectos do bambu e da nascente. A gente observou que perto do Ribeirão do Onça tem uma moita de bambu exemplar, maravilhosa. Mas ela não alcança o leito do rio. Ela não faz uso daquela água. Logo acima dela tem uma nascente maravilhosa, que é a Santinha [próximo ao bairro Ribeiro de Abreu]. A moita de bambu se alimenta é dessa água limpinha.
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IONE -‐ Eu fico o tempo inteiro observando essa ação [da água]. Qual ação está agindo mais nas plantas, e qual água está tendo qual efeito. A água da mina age de uma forma nas plantas, a de chuva de outra e a da COPASA de outra forma ainda. A água da mina você joga, ela fica bem, mas não tem tanto crescimento. O desenvolvimento maior é com água da chuva. MAJÔ -‐ Achar água boa agora está tão difícil, né? Porque temos certeza que a água que chega até nossas torneiras está sendo tratada. Onde encontrar? Para mim a classe boa é 1. Você considerar uma água 1, só mesmo a que está chegando lá em casa, mesmo assim porque são feitos exames nela sempre, mostra o tanto de coisas que tem que colocar para conseguir que ela fique na classe 1, que é para beber. A 2 eu ainda posso nadar. 3, falam que pode navegar, mas vai me respingar. Na Pampulha e eles falaram que chegou na classe 2, é mentira. A classe 2 eu posso até nadar, mas a Pampulha acho que é de 4 para cima, se existir. No Rio das Velhas, em Santo Hipólito, nós nadamos e o próprio pessoal da COPASA falou “Você é doida, porque esse povo tem dinheiro”. Porque eu nadei lá com as figurinhas, junto com o professor Apolo [Apolo Heringer, um dos fundadores do Projeto Manuelzão], só figura. Eles tinham condições. Porque lá ainda eram encontrados coliformes fecais. DANIEL -‐ Se é para uma população humana, é bem mais criterioso. O Ministério da saúde tem uma lei extremamente, excessivamente, rigorosa. O Brasil copia muito da legislação de outros países e não adequa para nossas necessidades e realidades sociais. Por exemplo, o Ferro, a exigência do valor máximo permitido é 0,3 mg/L . Na prática, 1mg/L já seria aceitável. A quantidade máxima de Manganês exigida é 0,1 mg/L , mas 0,3 já estaria ótimo. Existe um copiou-‐colou que não faz nenhum sentido. Já o PH, realmente tem que ser muito regulado. Um PH muito ácido ou muito básico pode trazer problemas de saúde ou mesmo dificultar o tratamento da água. Mas então, de forma geral, a qualidade da água é muito relativa, depende totalmente da necessidade, do uso. A fala de Majô, em um primeiro momento, remete à classificação dos corpos d’água, de acordo com o estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) na Resolução 20/1986. Pela Resolução, as águas doces são classificadas em relação à sua potabilidade, balneabilidade, navegabilidade e outros usos. Em seguida, na mesma fala, Majô menciona o caráter social embutido nestas distinções. O que é balneável para uns, pode não ser para outros. Nesse caso, ela se refere ao fato das “figuras importantes” terem condições financeiras superiores às dela, para um eventual tratamento de saúde que pudesse se fazer necessário após o banho. A fala de Daniel também remete às diferenças de parâmetro de qualidade que deveriam ser aplicadas a cada contexto socioeconômico, mas no sentido contrário. Segundo ele, as exigências de constituição da água para potabilidade, que importamos da legislação de outros países, são excessivamente restritivas para populações em situação de maior precariedade, com menor disponibilidade de água.
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Fenomenologia da Percepção A análise do fenômeno da percepção por Merleau-‐Ponty (1999) reforça o engajamento pelo corpo como aparato para a experiência sensível e o quanto essa nossa ancoragem corporal é definidora de um ponto de vista, e, portanto, de uma relação imbricada sujeito-‐mundo: “Aquele que sente e o sensível não estão um diante do outro como dois termos exteriores, e a sensação não é uma invasão do sensível naquele sente. (...) Sem a exploração do meu olhar ou de minha mão, e antes que meu corpo se sincronize a ele, o sensível é apenas uma solicitação vaga. (...) O sensível me restitui aquilo que lhe emprestei, mas é dele mesmo que eu o obtivera” (MERLEAU-‐PONTY, 1999:288-‐289). Curado (2015) faz uma leitura da filosofia fenomenológica em seu intuito de questionar o distanciamento entre o conhecimento científico e a existência, buscando pelo contato com o mundo vivido, uma nova concepção de razão. Segundo a autora, a fenomenologia de Merleau-‐Ponty pode ser vista como “um movimento que assume como princípio norteador o compromisso de não fragmentar e não tornar o conhecimento algo isolado, estático, pronto e acabado” (CURADO, 2015: 14). Sobre a fragmentação intelectual da experiência sensível, Merleau-‐Ponty aborda a ideia de sinestesia, uma vez que para eles os sentidos estão todos sempre evocados conjuntamente: “A percepção sinestésica é a regra, e, se não percebemos isso, é porque o saber científico desloca a experiência e porque desaprendemos a ver, a ouvir e, em geral, a sentir, para deduzir de nossa organização corporal e do mundo tal como o concebe o físico aquilo que devemos ver, ouvir e sentir” (MERLEAU-‐PONTY, 1999: 308). Em suas falas, sobre a presença dos bambus e de certas espécies de samambaia como um indício da boa qualidade da água, Ione contrapõe ao discurso técnico, atribuído à COPASA, um saber experimental, da prática, da propriedade pela convivência e observação cotidiana do ambiente. Ela também ironiza os parâmetros de pureza e “assepsia” da Companhia de Saneamento e ressalta o maior valor que têm as águas de chuva e da mina para o crescimento das plantas, em relação à água tratada. Contra o discurso científico apartado da experiência, Merleau-‐Ponty propõe um reencontro dos sujeitos consigo próprios (com sua própria natureza?): “Será preciso despertar a experiência do mundo tal como ele nos aparece, uma vez que estamos no mundo por nosso corpo, que percebemos o mundo com nosso corpo. Mas, retomando assim o contato com o corpo e com o mundo, é também a nós mesmos que iremos reencontrar” (MERLEAU-‐PONTY, 1999:278).
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Antônio Ruas, morador do bairro Jardim Felicidade, na região Norte de Belo Horizonte, e militante pela recuperação do Córrego do Tamboril, faz referência à importância da experiência para o envolvimento em uma causa. Ele lamenta a baixa mobilização dos jovens do bairro e a explica pela falta de memória -‐ das lutas pela conquista da terra, bem como de uma relação positiva com o córrego. ANTÔNIO -‐ Acho que o Felicidade não tem 20% da população que veio para cá no início. Essas pessoas não existem mais. São poucas, a maioria dessas pessoas morreu ou se mudou. Quem está aqui hoje é filho ou neto de quem veio. Então não tem mais envolvimento. Não são as pessoas mesmas que lutaram. Quem veio depois, a segunda geração, ainda acompanhou, mas nas outras gerações pegou tudo pronto. Então não tem envolvimento. ELISA -‐ Além de não terem a lembrança do córrego limpo… ANTÔNIO -‐ Isso. Então por mais que a gente faça oficina, trabalhos dentro da própria igreja, mesmo assim, isso não vem na cabeça, na memória das pessoas. Eu vejo essa dificuldade. Não é possível desejar aquilo que você não conhece. Não se sente falta de algo que não se experimentou. Nessa relação estabelecida entre o sujeito e o sensível, o desejo é definido por Barbaras (2006) na dimensão da ausência: "Ao horizonte, como apresentação do inapresentável, não pode responder senão o desejo, na medida em que seu objeto apenas se dá a ele sobre o modo da falta e, portanto, reclama sempre uma nova satisfação" (BARBARAS, 2006: 136, apud VERISSIMO, 2014)29. A pesquisa de mestrado de Isaac Medeiros, hoje integrante do quadro de analistas da Secretaria de Planejamento Urbano da Prefeitura de Belo horizonte, também aborda a relação entre a experiência e o desejo no contexto do projeto DRENURBS. Isaac relata em sua entrevista: ISAAC -‐ Tem uma parte densa e exaustiva da minha pesquisa que é de percepção, onde eu fiz um ensaio para entender como a intervenção pública poderia mudar a percepção das pessoas. Eu abordei as três comunidades [dos entornos dos parques Nossa Senhora da Piedade, Primeiro de Maio e Baleares] e se percebe claramente que as pessoas têm um sentimento, uma relação de afetividade com aquele elemento, a água, em função de sua experiência. A experiência acaba moldando a percepção e os desejos que as pessoas têm. (...) Eu fiz essa pergunta: “Antes do projeto [ DRENURBS], o que você queria nesse lugar?”, “Uma avenida sanitária”. Depois que o projeto ficou pronto, eu perguntei, “E agora, se você pudesse escolher sabendo que o que foi feito seria isso, o que você escolheria?”. “O parque”. Então às vezes as pessoas não querem porque não conhecem a outra possibilidade.
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BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: introduction à une phénoménologie de la perception (2a ed.). Paris: Vrin, 2006.
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3 ∞ Água lúdica ∞ infância / jogo / extraordinário Uma espécie de ápice da nossa relação corporal com o mundo se dá na infância, quando evocamos e exploramos intensamente os nossos sentidos, com maior flexibilidade e disponibilidade para a experiência nela mesma, e menor intervenção da interpretação racional. A dimensão da brincadeira e do jogo é gradualmente deixada de lado e esquecida em nossas vidas, à medida em que nos inserimos em nossa cultura. A memória da cidade da infância e da juventude, nas brincadeiras com água e no envolvimento com o ambiente, aparece, com saudosismo, em alguns relatos dos entrevistados: MÁRCIA -‐ Nós tomávamos banho nessa lagoinha, fazia brinquedo de argila, chegava da aula, pegava piaba. TELMA -‐ A gente fazia era bagunça naquela água. Ali era o ponto turístico das crianças. Enchia o balde de piaba, depois jogava dentro d’água de volta. MÁRCIA -‐ Piaba pequena, piaba média, piaba grande. Dava aquela sensação boa... TELMA – “Olha essa tá barriguda, essa vai ganhar neném”. Era bom demais. Meus filhos ainda foram criados assim. Mas agora acabou. MAJÔ -‐ Quando eu casei, fui morar no bairro Guarani e lá a gente tinha contato com Córrego N. S. da Piedade. O córrego era cheio de nascentes. A gente era do grupo de jovens e íamos para a casa dos amigos. E as pessoas faziam poços de água, açudes, e, antes de colocar peixes, claro que a gente ia nadar.
O regime estético do lúdico é explorado em alguns pensamentos e em muitas práticas urbanísticas, como contraposição à lógica moderna funcional, onde os usos dos territórios da cidade são pré-‐definidos e restritos. A cartilha morar, trabalhar, se deslocar, se divertir engessa os espaços e as práticas das pessoas, tornando o cotidiano urbano monótono, junto ao cinza-‐chumbo também tão pouco diversificado das construções. Muitos ressaltam as práticas de desvio dessa lógica urbana padrão como uma aproximação à arte, mas podem ser também entendidas como modos de vida, correntes filosóficas, movimentos políticos. Voltando à ideia de Direito à Cidade, de Henri Lefebvre -‐ que não trata propriamente do acesso aos direitos sociais urbanos, mas da possibilidade de cada sujeito atuar na produção do espaço a partir de suas próprias significações -‐ o espaço urbano passa a ter valor de uso e não valor de troca, de apropriação e não de propriedade, como formulado por Euclydes (2016), junto às ideias de Lefebvre: “A emergência do período urbano (...) suscita(rá) a prevalência do valor de uso sobre o valor de troca, a superação da passividade pela atividade criadora, a restituição da
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festa, do lúdico, do jogo. O urbano se realiza(rá) “criando sua obra (morfologia, estrutura urbana, lugares modelados e moldados, espaço ou espaços adequados)” (...) “Nesse urbano, “obra das obras”, a vida cotidiana se torna(rá) obra, com todos (indivíduos e grupos) se revelando capazes de criar” (LEFEBVRE, 1991 apud EUCLYDES, 2016:48).30 A formulação de Telma do espaço da brincadeira como “ponto turístico das crianças”, evoca a imagem do viajante, cuja presença nos lugares tem uma qualidade diferenciada daquela que é comum ao ritmo ordinário dos habitantes. Com os sentidos aguçados, o turista não está anestesiado pela rotina e a cidade por ele percebida é fonte de espanto e deslumbre (ou desbunde!). Esta é uma metáfora recorrente nas proposições que visam a uma apropriação cidadã do espaço urbano.
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LEFEBVRE, Henri. A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Ática, 1991.
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Figura 39 -‐ “Bicas”, 2014. Fonte: Guia Morador; “Rios Enclausurados”, 2015. Fonte: M. Scarassatti e F.Ancil; Bloco Fluvial do Peixe Seco, 2016. Fonte: facebook.com/blocofluvial
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Figura 40 -‐ “PARKIN”, 2018. Fonte: Quintal Escola da Leste; Estudos Lina Bo Bardi MASP, 1968. Fonte: Acervo MASP; Nascente da Felicidade, Córrego do Tamboril, 2018. Fonte: REDE Jardim Felicidade.
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Figura 41 -‐ Jogo Deriva Fluvial, 2018. Fonte: Coletivo Às Margens; Escorrega Praça do Papa, 2015. Fonte: Jornal O Tempo; Praia da Estação, 2011-‐12. Fonte: F. Rajão e F. Mafra.
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4 ∞ Água herdada ∞ responsabilidade geracional / vizinhança Da menção à experiência sensorial da água e das memórias de infância, a entrevistada Majô Zeferino passa ao seu sentimento de responsabilidade em propiciar às próximas gerações a mesma oportunidade que ela própria teve, o que se tornou uma das motivações para seu engajamento na militância pela preservação / recuperação do meio ambiente. MAJÔ -‐ Às vezes não tinha ponte, ou, para encurtar o caminho, se o rio estava vazio, porque não era época de chuva, a gente atravessava dentro dele mesmo. Ia nadando. Já nadei nas corredeiras, na cachoeira do Onça. Então para mim, esse amor que eu tenho, às vezes eu me emociono, falando, porque é muito triste você ver o que você fez, para deixar para seus filhos, para seus netos. Meus filhos já não tiveram e para meus netos, então, eu quero ver o que eu posso deixar para eles. Pelo menos para os netos. Princípio da Responsabilidade Intergeracional Essa questão esteve presente nas discussões internacionais que levaram à realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco-‐92, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. No documento produzido na Conferência, conhecido como Declaração do Rio, foram acordados 27 princípios a serem assumidos pelos governos participantes. O tema da Responsabilidade Intergeracional Ambiental está no terceiro princípio e tem na formulação do conceito de Desenvolvimento Sustentável um dos seus principais desdobramentos. “Princípio 3: O direito ao desenvolvimento deverá ser exercido por forma a atender equitativamente às necessidades, em termos de desenvolvimento e de ambiente, das gerações atuais e futuras”.31 Vizinhança Além da herança no tempo, somos levados a pensar na questão da responsabilidade entre contemporâneos e coabitantes do território, pela própria ordem inerente ao sistema hidrológico. Ione Oliveira transfere às águas a mesma relação de parentesco existente entre as pessoas. IONE -‐ Quando chove muito o volume de água das nascentes aumenta e elas se encontram. É aquela questão, o rio segue seu curso e ao longo dele encontra outros filhos. A concepção do território por suas bacias hidrográficas implica na percepção muito clara das relações de causa e consequência das ações individuais e coletivas. No vocabulário das águas temos os
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<www.nacoesunidas.org>
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afluentes, tributários, contribuintes; entre as pessoas, e mesmo entre municípios ou regiões, temos as relações de vizinhança, o senso comunitário. MARIA-‐ O povo lá de cima joga todo o lixo no rio. A gente não tá jogando mais. Coloca o lixo só na hora que o caminhão vem. O povo lá de cima joga tudo e quando o rio enche, eles vêm ver nossa tragédia. Nossa rua, cheia de lixo. Vem gente de longe jogar trem lá. Traz entulho, lixo, sofá velho, colchão. MAJÔ -‐ O meu relacionamento com os rios, com as águas, para mim começou no dia em que eu podei uma árvore e mandei meus meninos levarem o carrinho, com a poda toda, lá embaixo, 100 metros abaixo, e jogar no córrego. Tudo era jogado lá. Aí meu filho voltou, com o carrinho cheio, e disse “mãe, o Omar mandou falar que ele cuidou da parte dele lá, então lá não é lugar de jogar lixo não”. Simplesmente. E por isso que eu trabalho com a água hoje, com o rio. Porque eu também achava que o rio era para tudo. E não importava com meu vizinho lá embaixo. E hoje eu me importo. SEU NONÔ -‐ Então hoje a Engenharia Civil vai retificar um rio, deixar ele reto, pra dar maior velocidade à água. Então ela bate em Belo Horizonte, sai rápido e vai pra Sabará, levando o problema pra Sabará. Nós temos uma reunião de cidades, que é a Região Metropolitana. E outras cidades que advém dela, e por aí vai. Então a gente não pode tirar a sujeira da gente e colocar na porta do vizinho. Local, global A escala do entendimento dessa relação é variável, uma ação em contexto micro pode reverberar até um nível mais amplo, em uma potência de conexão entre local e global. Ernesto da Conceição e José Américo de Souza, conhecidos como “Seu Nonô” e “Seu Zé Américo”, expressam esse sentido de responsabilidade que atribuem a si mesmos. SEU NONÔ – [O Córrego dos Joões] é um afluente da margem esquerda do Córrego do Navio-‐Baleia. O Córrego Navio-‐Baleia é afluente da margem direita do Arrudas. O Arrudas é afluente da margem esquerda do Rio das Velhas. E o Velhas eu não sei se é margem direita ou esquerda do São Francisco. E o São Francisco, como diz o Luiz Gonzaga, vai bater no meio do mar. E agora, tá jogando água no Nordeste por causa da transposição. Então, às vezes eu brinco lá com os meninos [seus ajudantes no trabalho de recuperação do Joões]: “vamos soltar um pouco de água pro Nordeste!” Lá nordeste eles produzem uva, melancia, que o Brasil exporta pra fora. Está tornando o Brasil cada vez mais rico. Hoje o Brasil é uma grande potência agrícola do Mundo. Minas Gerais é a caixa d’água do Brasil e o Brasil é o celeiro do Mundo. SEU ZÉ AMÉRICO -‐ Tem muita coisa a fazer, temos que ser unidos, ter atitude, confiança e esperança. Somos gente, temos que viver. E naquele pouquinho que eu puder ser um grão de areia, eu vou fazer. Para tentar minimizar os problemas não só do Felicidade, mas do nosso país e do nosso planeta.
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5 ∞ Água compartilhada ∞ bem comum de interesse público De acordo com breve retrospectiva histórica traçada por T. Silva (2013) em seu processo de análise da política atual das águas, temos que: na Primeira República (1889-‐1930), os recursos hídricos eram de controle das Oligarquias e destinados às necessidades da produção agropecuária (“República do café com leite”); durante a Era Vargas (1930-‐1945), temos o primeiro documento legal voltado expressamente às questões hídricas, o Código das Águas, de 1934, que reconhece as águas como bem limitado e que por isso deve estar sob tutela do Estado, como bem público. Poucas mudanças ocorrem nos períodos subsequentes. Nos anos populistas (1946-‐1964) e durante a Ditadura Militar (1964-‐1985), a gestão das águas permanece centralizada, priorizando a geração de energia elétrica, o uso agrícola e industrial. É somente nos termos da Carta Magna de 1988 que se estabelece um rompimento com a visão das águas e de outros componentes do meio ambiente enquanto “recursos colocados à disposição do homem ou meros instrumentos para o proveito econômico” (WELTER, 2009: 18), como perpetuado por todos os termos jurídicos brasileiros anteriores. De bem público, o bem ambiental passa ser entendido como bem de interesse público, de forma que sua tutela deve se dar tanto pelo Estado, como por todos os cidadãos, em um modelo de gestão descentralizado, como já vimos anteriormente, com a descrição do Sistema Nacional de Recursos Hídricos. Essa mudança conceitual, além de uma nova lógica de operacionalização, requer uma mudança de mentalidade e postura de todos os atores envolvidos (governo, sociedade civil, iniciativa privada). Nas falas das pessoas entrevistadas, vemos situações que mostram que estas noções ainda estão em processo de assimilação e que existem nuances de acordo com os contextos. Telma e Majô narram situações de disponibilidade de água no domínio privado, como nos casos das cisternas e nascentes existentes no interior de lotes particulares. TELMA -‐ Se falta água na rua [da rede da COPASA], eu tiro água da cisterna. Tem vez que vem gente de longe pegar água aqui. Pessoal da rua usa muito a nossa água com a mangueira. Nunca nego para ninguém. É uma água saudável. MAJÔ -‐ Até hoje não foi aprovada a lei de você receber alguma coisa por cuidar de uma nascente. Mas todo mundo é bem consciente que se um vizinho precisar de água, é obrigado a ceder. Minha irmã também recuperou e cuida de um lago. Eu já falei com ela, “se faltar água, você é obrigada a dar. Mesmo para o seu pior inimigo, você tem que servir”.
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Márcia Moreira e Thiers Matos, se propõem a imaginar maneiras de tornar a água disponível para as pessoas no espaço público e se referem às ideias de lazer, gentileza, amizade. MÁRCIA -‐ Era uma área que podia ser de lazer, pra todo mundo ver água a correndo. Se tivesse um projeto de colocar chafariz nas ruas e nas praças... Já pensou quantas praças têm aqui no bairro? Se usasse esse recurso... THIERS -‐ Quando tinha a nascente aqui perto [hoje praticamente secou], eu ficava aflito que as pessoas jogavam lixo, entulho. No século XIX, no XVIII, no Rio de Janeiro, as famílias abastadas doavam para a cidade um chafariz, um bebedouro, um lugar para a água ser servida pelas pessoas. Então aquela água que acabou de nascer eu pensei em chamar meus amigos arquitetos para fazer um projeto, e a gente coletar uma grana, e fazer ali uma bica, com uma bacia que as pessoas pudessem ir lá e se servir dessa água. Está passando, andando de bicicleta, está suado, vai lá e lava o rosto, a mão, bebe uma água fresca. E a pessoa entende aquilo como um ato gentil e trata de uma maneira mais amistosa. Eu acho que seria isso, precisa tratar água de uma maneira mais amistosa e oferecer essa água para as pessoas. Telma Gonzaga e Isaac Medeiros narram duas situações que expressam perspectivas opostas da dificuldade de assimilação da ideia de natureza como bem comum, tanto em domínio público, como privado, sendo que a primeira se refere ao usufruto e a segunda às responsabilidades decorrentes desse compartilhamento. TELMA -‐ Passei outro dia na Andradas e vi um pé de banana na rua, aqueles cachos de banana, e ninguém mexe. Indo ali para a Câmara Municipal. Ali também indo para o Pronto Socorro, aqueles pés de manga... aquilo ali é bonito, é coisa de Deus. E as mangas “páaa” no chão [Fig. 38].
ISAAC -‐ Vai na legislação e vê se os 20% exigidos [de área permeável no lote] realmente respondem à demanda de drenagem. Todo mundo fica na defesa da lei, mas ela é inócua. Você não consegue convencer nem seu vizinho a manter aquela grama da área privativa, que é do condomínio, mas que ele, por ser área privativa, transforma em espaço gourmet.
Existe uma concepção de extremos entre as ideias de público e de privado, que cria uma cultura em que o público é “de ninguém”, e o privado é individual. Segundo Welter, “a busca pela superação da crise ambiental faz emergir a necessidade do Estado compartilhar com a sociedade a responsabilidade pela proteção ambiental e, para isso, faz-‐se indispensável a construção de uma nova concepção de Estado e uma nova concepção de cidadania (WELTER, 2009: 21). Outras falas de Isaac e o pensamento de Antônio Ruas, cuidador da “Nascente da Felicidade” trazem reflexões nesse sentido:
ISAAC -‐ Isso envolve educação, mentalidade e o conceito do que é público. Ninguém se sente à vontade, ou na responsabilidade, ou até no desejo, de cuidar do que está fora da casa dele. Porque aquilo é tido como obrigação da Prefeitura. (...) Mas eu tenho é
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que criar a cultura, não é só escrever na lei e obrigar, virar uma questão de fiscalização. Tem que ter o trabalho de educação para a sociedade ser parceira.
ANTÔNIO -‐ Esse nome de “cuidador de nascente” é muito pesado, nem gosto muito disso. (...) Essa função é muito pesada para uma pessoa só, acho que todo mundo é cuidador.
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6 ∞ Água material ∞ produto / serviço / poder O início do atendimento pelas redes de abastecimento e esgoto da COPASA, Companhia de Saneamento do Estado de Minas Gerais, ainda está fortemente presente na lembrança de algumas das pessoas entrevistadas. Para além de uma avaliação de suas vantagens e desvantagens, é interessante perceber as mudanças que o acesso ao serviço de água encanada provocou nas práticas cotidianas das pessoas e em sua relação com a água no uso doméstico, que a partir de então passou a ser “comprada”, enquanto um produto. DONA JÚLIA -‐ Minha experiência com a nascente é de 1981, quando eu comecei a construir minha casa, que não tinha água da COPASA no Ribeiro [bairro Ribeiro de Abreu]. Era lá que eu pegava água, enchia os tambores de tarde, para de manhã o pedreiro trabalhar. Uma luta muito grande. Eu tinha que subir e descer morro, encher dois tambores de água de cada vez, colocando a água na cabeça. A rua era puro buraco, cratera mesmo. Aí construí, me mudei para minha casa e continuei pegando água nela para o uso doméstico, geral. Eu venho junto com ela desde essa época, desde 1981. Comecei a fazer horta buscando água nela. Aí depois que veio a COPASA, a gente afastou um pouco dela. Dona Júlia se refere à nascente como um ser, um sujeito com o qual ela mantém uma relação, de quem ela pode estar junto ou afastada. A relação material e corporal é muito forte, com o volume consumido se fazendo obrigatoriamente perceber pelo peso e pelo caminho percorrido com as latas na cabeça. DONA JÚLIA -‐ Hoje, para a horta, a gente utiliza um terreno cedido pela Igreja Católica, mas pagamos a conta de água separado. Então nós somos 3 sócias, eu, Alaíde e a água. Nós vendemos as hortaliças toda semana em uma feira, aqui mesmo no bairro, e em outra feira grande, na Cidade Administrativa. Na sequência da narrativa, de “companheira”, a água passa a ser tratada como uma das “sócias” de um negócio. O acesso fisicamente facilitado não implicou em uma impessoalidade ou banalização da relação com a água, já que o grande esforço físico anterior agora se traduz em um esforço financeiro (outra dimensão material) também considerável, sendo que a conta a ser paga é equivalente ao que a própria Dona Júlia ganha com a atividade da horta. Em outro relato, é ressaltada a atribuição de um novo valor aos antigos hábitos. A chegada da rede parece ter sido um emblema de modernidade e as cisternas naquele momento representaram um modo de vida a ser ultrapassado. Hoje, contando essa história, Márcia e Telma lamentam esse pensamento e valorizam as cisternas.
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TELMA -‐ A cisterna é um buraco redondo, com manilha grandona e a água brota e sobe. Tudo aqui era cisterna, não tinha COPASA. Aí a COPASA chegou e fechou quase tudo, acabou. MÁRCIA -‐ Mas têm pessoas que ainda mantêm cisterna. TELMA -‐ Eu tenho, meu menino lava carro aqui na rua. A água da cisterna a gente usa pra lavar a casa, lavar quintal, usa para a criação. MÁRCIA -‐ A minha mãe, quando fechou a cisterna, eu briguei muito com ela, na época. Falei, “Para quê”? TELMA -‐ Acha mais bonito usar a água da COPASA. MÁRCIA -‐ É, coisa de ignorante, capiau. TELMA -‐ Nós não aceitamos. O moço da COPASA, chamava Seu Kléber, falou para mim, “Dona Telma, nunca desfaça dessa água”. Pessoal da Prefeitura fez análise, falou que é muito boa. Água e poder A água-‐produto também aparece como objeto da disputa de poder, em diversas escalas. O geólogo Daniel Pimenta, em sua entrevista, menciona o interesse das multinacionais pelo controle econômico dos recursos naturais brasileiros; Telma e Márcia conversam sobre a bica da Avenida Petrolina, no bairro Sagrada Família, e relatam as tentativas de apropriação dessa água. DANIEL -‐ O controle da água é realmente muito estratégico, é um lugar de poder. (...) As multinacionais europeias, americanas, chinesas, principalmente, estão de olho na nossa água, na nossa energia, no nosso petróleo. Jogam politicamente pela privatização das empresas, muitas vezes incentivando a má gestão, para que elas se tornem inviáveis e sejam comercializadas a preços inferiores. Elas certamente vão gerir bem, o que significa faturar com isso. TELMA -‐ A água [da bica] era muito boa e todo mundo queria a água. Aí fizeram uma reunião. Mas não conseguiram tirar. O prefeito queria canalizar aquela água porque falou que era útil. Mas o povo não deixou não. MÁRCIA -‐ Aquela bica na verdade ainda gera muito conflito até hoje. Já foi comprovado que é uma água boa, saudável, potável. Vira e mexe tem gente lá querendo fechar. A materialidade da água é expressa em sua existência enquanto objeto da posse, do controle por alguém A legislação brasileira, ainda que caminhando rumo a uma descentralização da gestão, mantém o Governo como proprietário da água. DANIEL -‐ A água é um bem Federal, da União, então qualquer uso e qualquer procedimento para possibilitar esse uso deve ser autorizado [por outorga de uso]. O filósofo Illich (2017), em seu ensaio sobre a imaginação material da água, descreve o elaborado sistema de aquedutos da Roma dos séculos VII e VI a.C. e de seu sistema de abastecimento por fontes, já no ano 100 d.C., localizadas em pontos estratégicos da cidade. Cada uma das fontes distribuidoras era trabalhada escultoricamente e narrava uma história, ligada a divindades e ninfas
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aquáticas. Na leitura de Illich, tratava-‐se de uma ostentação do poder total do Estado sobre o recurso hídrico, um domínio tanto material, pela técnica, quanto do imaginário, pela sobreposição das versões e discursos que lhe interessasse ao universo mágico-‐mitológico que vigorava até então. A prática das famílias abastadas cariocas do século XVIII de servir a água à população em chafarizes, para além de um ato de gentileza (como sugerido por Thiers, em sua utopia pela distribuição pública da água, abordada na seção sobre o bem comum), também pode ser entendida como uma explicitação do controle que estas detinham sobre o bem. Soluções locais ou informais A formalização do abastecimento de água enquanto um serviço é também uma barreira ao seu usufruto. Quando não se tem condições financeiras para arcar com os valores cobrados, é preciso criar soluções alternativas para se viver, equilibrando-‐se as necessidades físicas e morais. MARIA -‐ Lá a gente não paga imposto, nem IPTU, nem luz... água a gente paga metade. Porque a gente tem duas águas, uma de gambiarra e uma de COPASA. Quando a gente mudou pra lá, os vizinhos não queriam água de conta, aí fizemos uma água de conta com registro na rua 15, sendo que nossa casa é na rua 16, passa pelo fundo do lote. Mas quando os vizinhos arrumaram tudo da água de gambiarra, nós fizemos uma ligação pra gente também. Então a gente usa as duas. Tem dois registros e tem duas bóias dentro da caixa. As duas ficam abertas direto. Porque se a da COPASA ficar fechada, a conta vem 0 reais... aí desconfia, né? As duas caem na caixa e misturam. A conta fica metade do valor que seria. Nunca deu problema, tem 19 anos que a gente mora lá. O abastecimento solucionado localmente é também empregado em contextos de consumo elevado, como para uso agrícola, industrial ou condominial. Daniel é prestador de serviços na área de perfuração de poços e fala sobre as condições financeiras e técnicas dessa alternativa. DANIEL -‐ É interessante para atividades industriais e grandes empresas fazerem a própria explotação da água, pois, principalmente para grandes volumes, o custo final é em média 10 a 20% do valor que uma concessionária, como a COPASA, costuma cobrar. Para edifícios e condomínios, também se economiza muito. Uma conta que seria de 15 mil, 20 mil por mês, na conta da COPASA, muitas vezes cai para 10 mil, ou menos. Quando perguntado sobre a possibilidade das residências urbanas também solucionarem seu abastecimento com o uso de poços, como era feito antigamente, Daniel considera inviável como método principal, mas é favorável a essa prática como complementação. DANIEL -‐ Não é viável porque a perfuração do poço é cara e o volume de água que o município demanda é muito elevado. Aqui em BH os poços subterrâneos não têm vazão suficiente, então aproveitamos as reservas do Córrego do Cercadinho, do Rio Paraopeba e outros. Localmente, como complementação, isso ocorre em alguns
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municípios, como Esmeraldas, por exemplo, que utiliza de água subterrânea e superficial. Em qualquer cidade de grande população, com muitas indústrias, lixo, esgoto jogado a céu aberto, é bem possível a contaminação dos aquíferos freáticos. (...) Então a perfuração de poços é uma atividade muito criteriosa, pois tem um potencial de contaminação crítico. Um acidente, um erro, pode causar um crime ambiental. Não sou contra o uso de cisternas. (...) O risco de contaminação pode ser controlado com procedimentos simples e até mesmo o tratamento da água. Existe uma técnica de tratamento de cisternas muito eficiente e de baixo custo, com garrafa pet, cloro em pó, areia e brita. Ainda assim deve-‐se manter uma análise bacteriológica pelo menos semestral. Metabolismo Urbano Soluções de saneamento em escala local são abordadas por Eboli (2018) em seus estudos acerca da aplicabilidade dos princípios do Metabolismo Urbano na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). O Metabolismo Urbano é uma linha de planejamento que propõe uma visão holística da cidade, entendendo-‐a como um ecossistema, e tem como uma de suas principais ferramentas a análise dos fluxos urbanos e sua reestruturação em sistemas menores e descentralizados no sentido de torná-‐los mais eficientes e reduzir o impacto ambiental. A pesquisa de Eboli propõe a análise dos fluxos de esgotamento sanitário e resíduos sólidos dos diferentes municípios da RMBH e a indicação de um repertório de soluções, com o uso de tecnologias variadas em função dos tipos e quantidades de resíduos, da disponibilidade espacial e de outras características específicas de cada região abrangida. Dentre as soluções propostas estão as wetlands, usinas de compostagem e de reciclagem, reatores de biogás, técnicas de aquacultura e de produção hidropônica. A maioria das tipologias sugeridas são passíveis de serem combinadas com outros usos e funções, como o lazer, o paisagismo, projetos educativos e de geração de renda e trabalho. São também levados em consideração os substratos gerados em cada etapa do processamento dos resíduos, reinserindo-‐os em outros circuitos. Seu Nonô, depois de 27 anos de trabalho de limpeza do Córrego dos Joões [Fig. 36], com restauração de sua mata ciliar, e reequilíbrio de um ecossistema local, aderiu também aos princípios do Metabolismo Urbano: SEU NONÔ -‐ Agora vamos fazer captação solar para energia elétrica. Quero fazer uma coisa bem ecológica, para ficar de exemplo de como deve ser feito. Quero parar de lançar o esgoto na rede da COPASA, fazer um sistema que separe águas negras e cinzas, uma fossa para as águas negras e as cinzentas serem tratadas por bananeiras.
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7 ∞ Água ameaça(da) ∞ vulnearabilidade / convivência THIERS -‐ No nosso escritório existe um grande espelho d’água que envolve o prédio. Na verdade, é um lago, porque ele tem vegetação aquática e tem peixes. Ele tem vida, tem um aspecto até estranho, esquisito, porque tem lodo, tem perereca, tem libélula, tem vida, é um lago. E aí tem gente que tem repulsa por ele, porque ele não representa aquela beleza daquela água que eles querem ver, tipo uma piscina tratada. As falas agrupadas nessa seção dão a ver a natureza como ameaça às pessoas e as pessoas como ameaça à natureza. É uma situação cíclica, sem fim, de causa-‐consequência, originada pelo paradigma da oposição entre a cultura e a natureza e nossa tentativa de dominação racional do mundo, como já foi descrito de tantas formas ao longo deste trabalho. Como destacado por Welter (2009), a partir das ideias de Monte-‐Mór32, no processo de urbanização, “os ecossistemas urbanos foram sendo substituídos pela estrutura urbana, aprofundando as distâncias entre as dinâmicas espaciais e ambientais, entre centro e periferia. (WELTER, 2009: 41) IONE -‐ BH era muito mais arborizada do que hoje, mas as árvores ocupam espaço. Aí, entendendo que tem rede telefônica, elétrica, internet, eles acham que isso é mais importante do que preservar uma árvore. (...) O engenheiro que veio aqui no Quilombo e construiu essa sala de aula, construiu debaixo do pé de jatobá. Os Frutos caem e vivem quebrando as telhas. De certo ele imaginou que a gente fosse derrubar a árvore. Porque eles estão acostumados, na cidade, as árvores é que dão licença pra cidade crescer. E aqui no Quilombo não é assim, além do Jatobá ser uma árvore tombada. Ele não vai sair daí. THIERS -‐ Outra coisa é isso, essas drenagens. Antes a gente tinha enxurrada. E hoje em dia as bocas de lobo todas bebem essas águas. Quando nós viemos para o Taquaril pela primeira vez, não existia nenhuma drenagem nessa via inteira até o Cemitério [da Saudade]. Um dia choveu tanto, eu não acreditei no que virou essa rua. Era um rio. E vinham pedras, grandes.. Eles fizeram um trabalho nessa avenida toda e colocaram diversas bocas de lobo. Do Cemitério para baixo não tem mais drenagem, tem uma grande vala, uma loucura, que pega toda a descida de água. Urbanizar é uma coisa muito difícil... tem que ter todo um conceito de princípio, meio e fim. Além dos pressupostos da urbanização ignorarem a base natural do território, em nosso contexto de capitalismo periférico, de urbanização incompleta, a infraestrutura efetivamente implantada é falha e insuficiente. Reiteradas falas dos entrevistados contam, por exemplo, como o
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MONTE-‐MÓR, Roberto Luís. Urbanização extensiva e lógicas de povoamento: um olhar ambiental. In: SANTOS, M. et al (Orgs.). Território, globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec/ANPUR, 1994.
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serviço incompleto de saneamento levou à contaminação da água e à mudança da relação das pessoas com os rios da cidade. ANTÔNIO -‐ Quando o progresso chega, a gente acaba perdendo alguma coisa, ou destruindo outras. Aqui tinha fossa séptica, não tinha rede de esgoto. O córrego, algumas pessoas jogavam lixo, porque não tinha coleta, mas não tinha tantos moradores, então o impacto não era tão grande. Quando nós, moradores, começamos a lutar por melhorias, centro de saúde, escola, asfaltamento -‐ porque precisa, tem que vir água, tem que vir luz, tem que vir rede de esgoto -‐ foi quando a COPASA entrou e lançou toda a rede de esgoto no córrego, sem interceptor. Tanto é que até hoje parte do córrego não tem interceptor. (...) Então o grande poluidor do córrego, eu não digo que foram os moradores, mas sim o órgão público, a COPASA. Ela fez a rede, passou a cobrar o esgoto, para jogar dentro do rio. Aí o pessoal falou, “O esgoto vai para o rio, então eu posso jogar resto de construção, posso jogar meu lixo”. E foi assim. Foi assim que o Córrego Tamboril foi morto. MAJÔ -‐ O esgoto de todo mundo ia para o córrego. Porque se abrisse uma fossa, dava na água. Abria um metro, tinha água. E já que a COPASA colhia nossa água servida e despejava no córrego, por que o morador ia pagar para levar a água dele servida para o córrego? IONE -‐ Outra história é de quando a gente teve essa água contaminada. De dezembro de 2016 a dezembro de 2017, nós tivemos o nosso ribeirão Laginha poluído com coliformes fecais, visivelmente. Nós procuramos entender e vimos que o cano da COPASA tinha estourado em cima dele. Aqui dentro do Quilombo tem uma adutora de esgoto da COPASA e ela estava estourada. DANIEL -‐ Existem no Brasil leis de saneamento básico que não são cumpridas à risca. Elas exigem que todo esgoto seja coletado e tratado. Nas contas das concessionárias, por exemplo, é cobrada uma taxa de esgoto, que muitas vezes nem é coletado. Quando a situação de precariedade chega a um limite extremo, que coloca em risco a vida das pessoas, as fazem sentir-‐se vulneráveis, elas querem uma solução rápida e eficaz, que elimine a fonte do problema. Com vemos na fala de Telma, abaixo, todos querem um final feliz. MARIA -‐ Teve três vezes que entrou água lá em casa. Uma vez arrebitou os pisos todos pra cima. Num dia de chuva forte. A gente acordou com a água na parede, “Nossa a água tá entrando”, veio pelo portão e pelo vaso. O vaso vai enchendo e vai derramando. (....) Subiu até no meio das paredes. A primeira gaveta do guarda-‐roupa molhou toda. Da primeira vez nem deu medo, mas da segunda vez, nem entrou tanto lá em casa, mas deu medo, porque foi arrebentando tudo em volta da nossa casa. MAJÔ -‐ Nós não temos rede fluvial nos nossos bairros, quando chove não tem como atravessar. A água da avenida lota, vem pra cá, e minha água de dentro de casa não consegue sair, por causa da pressão de fora.
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ISAAC – (...) Essa pessoa vai ter uma relação a partir de uma experiência péssima com a água. A população que mora em área ribeirinha, ela tem medo da água. Quem mora em área onde tem esgoto associado ao curso d’água, tem nojo da água. TELMA -‐ Morreu até uma criança, de 5 anos. Eu lembro disso até hoje, a mãe dela gritando. O chinelo dela escorregou, ela foi pegar e caiu. MÁRCIA -‐ Era puro mato, bambu, uma fossa. TELMA -‐ Era horrível. MÁRCIA -‐ O Maurício Campos era Prefeito na ocasião. Ele canalizou, ele gostava muito da Sagrada Família. Asfaltou várias ruas, fez muito pela Sagrada Família. TELMA -‐ Eles fizeram a canalização e todo mundo ficou muito feliz. Saneamento Ambiental e Interdisciplinaridade Para se caminhar em um sentido positivo e sair desse impasse, que colocamos como insustentável, podemos perceber que, apesar da aplicação de conceitos como o de Metabolismo Urbano, descrito anteriormente, ainda ser muito incipiente, temos uma concepção atual de saneamento um pouco mais avançada em relação a políticas precedentes. Do saneamento básico, que se restringia ao abastecimento de água e coleta de esgoto, passamos gradativamente ao entendimento do Saneamento Ambiental, que também abarca a gestão da drenagem urbana, dos resíduos sólidos e do controle de vetores, bem como o pensamento sobre os rios urbanos. "Além disso, o saneamento deixa de ser compreendido unicamente como serviço, passando a ser reconhecido como direito social. (COSTA et al., 2008, apud WELTER, 2009: 43)33. Resta ainda caminhar rumo a uma maior conexão entre as políticas públicas, por um pensamento das águas urbanas integrado, por exemplo, à lógica de mobilidade, ou à concepção de habitação social – de modo a não seguirmos repetindo modelos como do Boulevard Arrudas, da Linha Verde, ou do Vila Viva (Programa de Urbanização de Vilas e Favelas). Mesmo que não tenhamos uma estrutura burocrática, nem formação acadêmica e técnica que estejam satisfatoriamente adequadas a um pensamento interdisciplinar, temos experimentos, programas e ações que apontam nesse sentido, com sucesso, mas, infelizmente, ainda de forma descontínua. ISAAC -‐ Para mim a grande contribuição dos parques do DRENURBS foi mostrar que nós somos capazes de fazer diferente e que fazer diferente dá resultado positivo. Eu acho que a gente está caminhando em uma direção boa. Com resultados mais lentos do que a gente gostaria. (...) Hoje saiu na mídia uma declaração do prefeito [Alexandre Kalil], dizendo que as chuvas se resolvem daqui a 40 anos. É isso, Belo Horizonte tem mais de 100 anos. 100 anos de impermeabilização, antropização. Não é uma gestão, não são duas que vão resolver.
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COSTA, Heloísa Soares; BONTEMPO, Valdete; KNAUER, Sonia. Programa Drenurbs: uma discussão sobre a constituição de alianças de aprendizagem na Política de Saneamento de Belo Horizonte. In: XVI ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 29, set.-‐03, out., Caxambu, MG, 2008.
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Estratégias de convivência Poucos dias depois da declaração mencionada por Isaac, após um incidente de inundação com registro de mortes, na bacia do Córrego do Vilarinho, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, deu outra entrevista, onde afirma que “sirenes não vão salvar vidas”34 e promete novas obras estruturantes. Com esta fala, o Prefeito demonstra uma avaliação simplista de um conjunto de práticas importantes, descritas como estratégias de convivência com as cheias. Segundo essa abordagem, é necessária a incorporação dos processos naturais no planejamento da cidade e a sensibilização da população aos princípios do ciclo hidrológico. MARIA -‐ Quando chove o povo fica xingando que enche tudo d’água. Mas não é culpa do rio, é assim mesmo. ANTÔNIO -‐ Eu não acho que o rio seja o problema, nunca achei. Acho que nós somos o problema. Esse ano foi a primeira vez que tivemos enchente [no Jardim Felicidade], mas não foi o rio que foi para dentro da minha casa, eu é que fui para dentro do rio. No Ribeiro de Abreu, tem casa que está dentro do rio, então no período de chuva, leva mesmo. Como o próprio nome já evoca, pensar em convivência é pensar em relação, em existência concomitante (no tempo e no espaço), em não-‐exclusão de um ou outro lado do problema, para uma ocupação realmente viável e produtiva (ao contrário de destrutiva), do território. No caso das inundações, trata-‐se de uma flexibilização da ocupação, com usos temporários e compatíveis às variações hídricas e de incorporar um desenho urbano mais sensível ao ciclo da água35, que preveja mecanismos para retenção e infiltração da água no solo, por exemplo. Nesse sentido, quando se compreende que as partes mais baixas da cidade correspondem aos talvegues ou linhas de drenagem das bacias, não parece tão absurdo que elas devam ser evitadas em momento de chuva. Também as estratégias de alerta (sirenes e brigadas) se mostram meios bastante efetivos para prevenção de acidentes. MARIA -‐ Época de chuva eu não consigo dormir direito não. Toda hora tenho que subir lá pra ver o rio, com medo dele encher. Se a gente tá dormindo, os vizinhos começam a gritar avisando um para o outro, “cuidado, o rio tá enchendo”. TELMA -‐ Tamparam a água toda da Thereza Cristina, mas quando chove ninguém pode, você vê que está tudo escrito assim, “Cuidado, perigoso. Se chover, não passe aqui”. O córrego estando aberto, a água tem para onde ancorar e ir embora. Não, eles
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Manchete do Jornal Estado de Minas do dia 21/11/2018: “Não vamos resolver problema de chuva e morte na Vilarinho com sirene', diz Kalil. O prefeito de BH, Alexandre Kalil, anunciou obras para a Avenida Vilarinho no ano que vem. Promessa é resolver problema de enchentes definitivamente.” 35 Concepção alinhada às tendências de Low Impact Development, Water Sensitive Urban Design (WSUD) e Green Infrastructure.
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fecharam, colocaram a rua, puseram aqueles esgotos pequenininhos e a água não dá conta de descer naquele lugar ali. Eu achava que eles não deveriam ter fechado o Arrudas. Deveria ter consertado, melhorado. MÁRCIA -‐ Mas a cidade grande, ela cresce, e isso não pode continuar. Pelo menos aqui no Brasil, não sei em outros lugares, o que eles arrumam. TELMA -‐ Mas tem lugar que eles ficam abertos, né? MÁRCIA -‐ Veneza por exemplo é a cidade das águas, né, tem uma estrutura que permite. Então eu não sei. Eu não entendo, não sei se poderia manter. TELMA -‐ No Japão, se o rio é muito grande, eles falam, “Vamos dividir em 3”. Ah, que lindo! ISAAC -‐ Então eu acho que a gente, tendo tecnologia, tendo avançado nas soluções de engenharia, não tem porque não fazer esse resgate com diálogo. E a premissa do DRENURBS, por isso que me encantou desde o início, era: manutenção do que está aí. Não quer perder o que sobrou. Esse é um primeiro passo. Assim como fazer os três parques foi um primeiro passo para desencadear esse monte de mudança de pensamento. Eu acho que só o fato da gente garantir a manutenção do que está aí, com outra lógica, com o conceito de convivência, acho que já garante que no futuro a gente possa pensar em reversão. Pensar em voltar ao que era antes.
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8 ∞ Água Invisível ∞ imagem / idealização / sagrado / utopia “Não é a água como mercadoria que está em questão, nem seu desperdício, sua poluição, as consequências ecológicas de sua extração irresponsável, as consequências biológicas de seu envenenamento ou mesmo sua má ́ distribuição (que significa que, na cidade do México, 60% de toda a água é fornecida a 3% dos domicílios, e 50% dos domicílios se viram com 5% da água). Essas também são questões cruciais, mas elas lidam com a água num sentido diferente. A água de que estou falando é a água de que precisamos para sonhar com a cidade como um lugar de morada. (ILLICH, 2017:16) O mote de Illich é o mesmo que me levou a ir ao encontro com as águas pensadas e vividas pelas pessoas. Mas, diferente do que ele diz, penso que as questões pragmáticas, técnicas e econômicas são todas elas plenas de significados e símbolos, e são elas mesmas que constroem o imaginário, a virtualidade, o sonho da água. Há um entrelaçamento do visível e do invisível, do sensível e do sentido. Segundo Barbaras (1997)36, em Merleau-‐Ponty, o invisível designa ao mesmo tempo "a condição de visibilidade, e a ordem própria da significação”. SEU NONÔ -‐ De início, eu tinha uma previsão de mais ou menos 180 dias para deixar a coisa organizada [o trabalho de revitalização do córrego do Joões]. Quando já estava mais ou menos no meio do tempo, lá no fundo aparecia uma terra meio arenosa, meio clara. Então eu quis tapear eu mesmo, querendo voltar ao meu tempo de criança, e peguei aquela areia e joguei no leito do córrego. Só num pedaço, uns 2 metros. Então a água correu clarinha, por cima. Chamei minha vizinha e falei, quer ver como era o córrego antigamente? Ela viu, falou: “ah, que bonito! “. E eu pensei: “pois eu vou fazer esse córrego realmente ficar bonito”. Seu Nonô fala do poder de enganação que tem a imagem, sua existência enquanto simulacro37. Mas mostra, logo em sequência, a sua potência de criação de realidade, quando a projeção impulsiona para a realização. Já Antônio e Seu Zé Américo, falam do anestesiamento pela imagem, um certo tipo de consolo que imobiliza. ANTÔNIO -‐ Eu trabalho nessa escola [E. M. Jardim Felicidade], vejo o pessoal mostrando, colocaram um quadro sobre a primavera, que não é só um colorido bonito. Mas o pessoal não para para ver. Não é que não tenha trabalho, mas as pessoas veem só como mais uma pintura.
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BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: introduction à une phénoménologie de la perception (2a ed.). Paris: Vrin, 2006. apud VERISSIMO, 2014 37 Sobre o conceito de Simulacro, ver Baudrillard.
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SEU ZÉ AMÉRICO -‐ É triste porque é bonito na foto, mas na realidade a população sofre. ANTÔNIO -‐ A gente troca as águas pelas pinturas... em 1993, tivemos um seminário no Minas Centro, fizemos uma apresentação do [Córrego do] Tamboril. E quando eu estava descendo no elevador, com um professor, ele falou: “Nós somos um bando de malucos. Hoje nós estamos defendendo as águas, mas daqui a um tempo os nossos filhos vão perguntar o que é rio”. Não sei como voltar, a não ser em momentos de crise, como foi com o racionamento de água. Talvez precise chegar a um extremo para o pessoal acordar” Água em movimento Da água-‐cenário, água-‐espacialidade, temos a água-‐duração, que incorpora a quarta dimensão. A água em movimento pode ser vista metafórica ou objetivamente. De fato, a circulação da água, do sangue, dos planetas, das ideias, da matéria (e também das mercadorias e do dinheiro) são fluxos que sustentam nossos organismos. IONE -‐ Aquela água onde eu me banhei, naquele local, outra pessoa jamais vai se banhar nela. Porque aquela água vai, é o rio que corre. Isso é importante saber. A água vai embora. Ela não para, ela segue um curso. SEU NONÔ -‐ Você não via o correr das águas. Então não era um córrego, era uma coisa parada, uma coisa morta. (...) “uai vem cá, se houve movimento, é sinal que existe vida. Então vimos surgir uma vida do nada. E aí eu comecei esse trabalho. O que me motivou foi o movimento da água. Que eu vi que havia vida. Água que cura A dimensão imaterial da natureza também se relaciona ao sagrado, ao inexplicável. À água, nesse sentido, é geralmente associado um atributo de cura. IONE -‐ A água tem a ancestralidade dela. Já tem 25 anos que eu acredito cegamente que a água resolve nossos problemas. Ela nos tira de um estado e nos deixa em outro estado, de equilíbrio total. (...) Na matriz africana a relação com a água é um modo de vida. Ali começa tudo. A água purifica o nosso corpo, a partir do momento que ela esta pura. É assim, é dessa forma. MÁRCIA -‐ Se eu tô com uma depressão eu esqueço até as pessoas que estão do meu lado, eu foco no barulho das águas, é um presente de Deus. MAJÔ -‐ Mas é um milagre da natureza, né? Ela estar aqui poluída desse jeito e chegar em Santo Hipólito, ou na Barra do Guaicuí, você poder nadar nela. Como a própria natureza consome, consegue cuidar dela mesma.
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Figura 42 -‐ Murais no bairro Sagrada Família. 2018. Fonte: Elisa Marques.
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Figura 43 -‐ Frames do filme “Águas Sagradas”, 2017, dir. Amanda Russi. Fonte: Nascentes do Onça [canal Youtube].
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* O que é natureza? * ANTÔNIO -‐ Eu gosto de ficar aqui no final de tarde. Vejo os tucanos passando, sei que eles estão procurando frutas para comer aqui e depois ir dormir lá no mato. E você entrar dentro do mato e sentir aquela sensação de verde. De estar ali dentro do mato... te dá uma liberdade. Para mim é essa liberdade. TELMA -‐ Tem tanta coisa boa na natureza, as árvores, a água. Para mim a natureza é tudo. O ar. Eu acho, para mim. A natureza é boa. O ar é bom, as plantas, as árvores, os passarinhos cantando, os macaquinhos gritando. Que gracinha. MÁRCIA -‐ Tem que focar, parar no quintal um pouco e observar, aí você vê o movimento da natureza. MAJÔ -‐ Para mim a natureza é tudo. Até eu faço parte dela. Eu estou inserida nela. Se você vai limpar um rio, você tem que tomar cuidado, porque dentro dele tem muitas vidas. Então a natureza é o mundo, com tudo que tem dentro dele, é o planeta. Natureza é o que Deus colocou e nós temos que cuidar. Até das nossas próprias vidas. Porque se eu cuidar do rio, mas esquecer de quem está do lado dele, não adianta. SEU NONÔ -‐ É o ser humano, os animais, os pássaros, os rios, as águas. É o tempo. E é também a saudade. ISAAC -‐ É isso aqui, o meio ambiente, o lugar onde todas as formas de vida e formas não-‐viventes estão. Eu sou muito crítico dessa dualidade, dessa forma de tratar da ecologia radical da década de 1970, que acaba achando um contraponto nas teorias de urbanização modernas que tentam negar a natureza. Desde a revolução industrial que não tem essa distinção. A gente, como qualquer outro ser, adapta a terra, adapta o meio. Obviamente nossa capacidade cognitiva, nossa sofisticação é maior e a gente consegue construir essas coisas fabulosas que a gente já construiu, mas taí o aquecimento global, o efeito estufa, a mudança climática, mostrando que a gente não é nada. Assim como uma pedra. Então natureza para mim é tudo. Não tem essa distinção entre natural e não natural. IONE -‐ A natureza são os elementares. Tem gente que tem uma visão complexa, que tudo ocupa a natureza -‐ eu, a casa, o espaço, o galinheiro. Mas eu entendo que são os elementares, a água, a terra, o fogo, o ar. Que são o início de tudo. Depois vem tumultuando até essa forma que está hoje. E sem isso não tem nada. Faltou um, já entra em desequilíbrio.
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* O que é cidade? * ANTÔNIO -‐ Cidade é um monte de pedra em cima da terra. Vai construindo, pedra, tijolo em cima de tijolo, asfalto, cobrindo a terra, nós somos egoístas. Deus dá para você pisar, somos egoístas e impermeabilizamos para não pisar na terra. E reclamamos. Aqui na cidade eu tenho amizades, mas não vejo mais do que isso. SEU NONÔ -‐ A cidade faz parte da natureza. É um aglomerado de pessoas. Pessoas trabalhando. TELMA -‐ BH é uma cidade bonita, cheia de árvore. Cidade boa é onde você pode sair tranquilo. Só de você ter a Serra... a gente ia ali no Sion, no Aglomerado. MÁRCIA -‐ Resumo, Telma, nós não gostamos de cidade grande, nós somos caipira. Nós gostamos é de mato, de bicho, de água. Como nós não estamos na roça mais, a gente prefere morar num local como esse aqui, onde a gente fica bem afastado. THIERS -‐ A cidade é um acúmulo. Se você procura nessas páginas de fotos antigas de BH, leva cada tapa, né? Como essa cidade era caipira, como era verde, como ela era pequena. Ela é pequena. Uma rua gigante com um monte de casinhas, e hoje, onde tinha uma casinha, moram 20 famílias. Então a pressão dessa ocupação é de fato brutal. E é fascinante, a cidade quanto mais velha, mais interessante. Desde que você seja caprichoso, zeloso com ela. Ter um olhar cuidadoso. ISAAC -‐ É um componente da natureza. Um lugar onde a gente colocou mais o dedo. E, para mim, baseado em um modelo fracassado e ainda não ultrapassado, do positivismo que pensa que a racionalidade humana está acima de todas as coisas, que com ciência e tecnologia a gente resolve todos os problemas e pode fazer o que quiser com o esse ambiente. Cidade hoje para mim é resultado dessa mentalidade, dessa construção. Mas é um elemento da natureza que eu espero que saia dessa mentalidade o quanto antes.
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3.2 -‐ Paisagens desejadas (e indesejadas) A Cabeceira do Tamboril ANTÔNIO -‐ A cabeceira do rio [Tamboril] é onde tem uma pedreira enorme, não sei se você já visitou. Atrás tem um pedrão, você olha, fica maluca. As águas vêm dali. Ali em cima tinha uma grande lagoa, ia gente nadar ali. Não existia casa naquela parte. A dona do terreno foi vendendo partes e foram aterrando, aterrando até acabar com a lagoa que era a nascente do córrego. Era tudo lagoa. Com umbaúba, mangue, com taboa. Aí eles começaram a vender. A pedreira também, sendo cortada, com a chuva, ia tudo pra cima da lagoa. Ali naquela rua Tamboril existem algumas casas lá onde a água ainda brota. Algumas pessoas deixam entrar e ver, tem uma senhora que sempre deixa. Eu sonho, com o poder público, de tirar aquelas terras que está ali, aquela terra não é dali, aí sim as nascentes vão voltar. O Córrego do Navio SEU NONÔ -‐ No Seminário Internacional de Revitalização de Rios, uma professora da Inglaterra veio aqui e contou que lá em Londres tinha um carnaval nas margens do rio Tâmisa. Então, ali nas margens do córrego [do Navio] tem uns pés de manga, de ameixa, de pitanga. Ali a gente da comunidade reunia ali. Seria bom fazer um lugar de sentar, bater papo, conversar, reunir a família. Os quintais e os apartamentos MÁRCIA-‐ Eu gosto de quintal, gosto de animal, ter liberdade, não precisar dar satisfação para ninguém. Minha casa tem uma vista maravilhosa, enxergo até a Serra do Cipó, ampla, 500m 2, tem quintal, meus cachorros ficam à vontade, são de porte grande. TELMA -‐ No apartamento você não vê nada, só vê a cara de uma pessoa só. MÁRCIA -‐ E tem que dividir tudo com todo mundo, é um favelão. Não quero saber. MARIA -‐ Eles falam que é bagunca, droga, briga [nos “predinhos Minha Casa Minha Vida”]. Passa a morar todo mundo junto. E eles não fazem apartamento com três quartos mais. Só com dois. Para minha família, tinha que ser três. E a cozinha é desse tamanhozinho, com a área junto. Para família grande não dá não. E o barulho? Entrada tudo junto. Povo suja e não quer limpar. Ninguém limpa, é impressionante. Todo mundo mora, mas ninguém limpa. MAJÔ -‐ Primeiro que lá em casa eu não deixei cortar meu pé de manga. Tá eu, ele e a casa. Minha casa até que é grande, mas eu não deixo de ter o meu quintal. Tem que ter o cimento, mas tem que ter também a natureza. Eu me conecto, eu gosto de ir em lugares onde tem verde, tem água. Mas a gente não pode deixar de inserir o ser humano, que também é agua... eu também faço parte da natureza. O espaço transformado pelas pessoas THIERS -‐ Temos que entender que o homem transforma o espaço. Se você tivesse vindo aqui de dia, você ia ver o que construímos aqui ao longo dos anos, a partir de um campo limpo. Muita coisa foi plantada da semente e hoje são megaestruturas. A gente transforma, de fato. Se considerar a nossa vida nessa casa, é um tempo curto, tem uns 25 anos; nesse tempo criamos esse bosque, todo plantado. É muito impressionante. Dá um ânimo muito grande em plantar. Eu costumo falar muito isso para os meus clientes, principalmente jovens casais, que estão começando a vida com filho pequeno, “Planta e vê
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crescer, ensina seus filhos a observar esse desenvolvimento”. Hoje o jardim tem uma insolação, amanhã vai ter outra, e o que vai viver debaixo disso vai ser outra coisa. Porque o jardim ele vai, ele transmuta. Olhar para isso é o que interessa. Entender que ele passa por um desenvolvimento, que as áreas vão sendo transformadas. As estruturas principais do jardim são o teto, os arbustos são as paredes e as forrações, são os pisos, os assoalhos. Entender que as plantas de menor importância, vamos dizer, elas vão mudando. Mas as estruturas são a configuração final de um jardim. É bonito entender isso. O território IONE -‐ Para mim, que desenvolvo um culto de matriz africana, o território é tudo. Não existe como desvincular desse lugar. Quilombo é resistência no local.
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Figura 44 -‐ Cabeceira do Córrego do Tamboril. 2017. Fonte: Águas Comunitárias – EA/UFMG.
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Figura 45 -‐ Transformações do jardim do paisagista Thiers Matos. Alto: anos 1990; baixo: 2018. Fonte: Thiers Matos.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS: NATUREZA VIVIDA
Figura 46 -‐ “Nuvem de palavras” elaborada automaticamente pelo software Word, a partir do texto integral de transcrição das entrevistas (Anexo 2).
Água e gente: apropriação da natureza na cidade As palavras mencionadas mais vezes durante as entrevistas realizadas para este trabalho são ÁGUA e GENTE. Quando Jane Jacobs (2000)38 diz que a melhor forma de se tornar uma cidade segura é com a presença das pessoas, com a riqueza e diversidade de atividades nas ruas, com a efervescência dos bairros e centros urbanos, poderíamos também transpor essa ideia ao pensamento sobre a proteção da natureza. No capítulo 1 foram abordadas as críticas de M. SILVA (2013) e EUCLYDES (2016) aos instrumentos legais de proteção ambiental, que argumentam que a criação de áreas de proteção tem como consequência a criação de áreas não-‐protegidas em seu entorno. Um pensamento derivado desta análise é o de que não deve haver uma diferenciação espacial entre os lugares da natureza e os lugares das pessoas. A tradição de entendimento de natureza e cidade, ou de natureza e pessoas, como duas entidades separadas e opostas, como vimos por diversos vieses ao longo deste trabalho, gera um distanciamento, uma alienação, um estranhamento e a dominação de um pelo outro, que não é produtiva; ao contrário, tem sido destrutiva. Nesse sentido, como também vimos, a hipótese otimista de Euclydes (2016) é a de que possamos resistir a essa tendência e promover novas dinâmicas sociais que nos levem a um ponto em que não sejam mais distinguíveis áreas de proteção ambiental e áreas urbanizadas, tamanha a fusão que podemos promover entre essas que hoje são tidas como duas categorias espaciais separadas.
Quando perguntadas sobre a definição de natureza e sobre a possibilidade de sua presença na
cidade, as pessoas entrevistadas geralmente se referiram a alguma dentre as três seguintes situações:
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Ver JACOBS, Jane. Vida e morte de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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1) É necessário um deslocamento espacial: a natureza geralmente está em lugares distantes, fora da cidade, e, quando na cidade, está separada do fluxo urbano, em parques, reservas, ambientes descritos como pouco modificados pelo homem, como resquícios de uma “natureza pura”; 2) É necessário um deslocamento temporal ou de ritmo: a natureza está em pequenos detalhes e, para que estes sejam percebidos na cidade, deve-‐se fazer uma interrupção, uma pausa, e se assumir uma postura concentrada. São as aves, as flores, o vento, a sombra, uma bica d’água. Elementos que parecem pequenos tesouros, acessados apenas por aqueles que sejam capazes de uma percepção apurada e sensível. 3) Os quintais: muitas pessoas se referem a seus próprios quintais, como um ambiente que parece combinar espacialidade e temporalidade favoráveis à convivência com a natureza.
THIERS -‐ Pois é, acho que são os quintais. Quintal é um grande reduto... o espaço residual da natureza, onde alguém, com um olhar sensível, impregnou o espaço com alguma coisa ligada ao seu afeto. Então eu acho que são de fato os quintais que vão nos trazer ainda alguma coisa de natureza urbana. O que há nos quintais que os torna um lugar privilegiado para a existência urbana da natureza?
As pessoas. Ou melhor, a apropriação pelas pessoas, o que quer dizer o afeto, a atenção, o cuidado, o manejo, que é o que falta nas ruas. Se observarmos os espaços públicos de Belo Horizonte, vemos uma carência de uma relação de apropriação da rua e, mais ainda, da natureza na rua. As situações com presença de elementos naturais, tais como plantas e árvores, são geralmente marcadas por uma impessoalidade tediosa, que não nos envolve ou estimula. Os canteiros urbanos beiram a artificialidade, e estão muito bem categorizados como mobiliário urbano.
Nos condomínios e prédios, os jardins das áreas comuns também recebem esse tratamento de
objetificação. São espaços reservados para cumprimento da legislação de permeabilidade do solo, mas que não configuram lugares (CARLOS, 2007). Ninguém vai ali, nada acontece, eles não participam nem da vida dos moradores do prédio, nem da rua, já que estão blindados pelos vidros verdes das fachadas. THIERS – [O vidro] é falsamente livre e generoso, pois dá uma ampla visão daquele espaço, mas é de uma crueza profunda -‐ acho que o gradil seria mais gentil, até mesmo para a fauna, porque o que tem de passarinho morrendo nesses vidros é uma coisa incrível. Eles acham que é livre e se arrebentam ali. E, para os jardins, as construtoras seguem a legislação de x m2 de área verde. A escolha desse jardim é feita pelo departamento de compras. O cara faz a cotação de um “kit jardim”, e é comprado o mais barato, sem planejamento algum.
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Figura 47 – Jardins em espaços públicos e privados, em Belo Horizonte. 2018. Fonte: Elisa Marques
THIERS (cont.) -‐ [Nos condomínios] é tudo tacanha, porque tem que ter tanto lote, que as áreas compartilhadas são as piores possíveis. E isso a gente vê nos condomínios e prédios de luxo. A pessoa mora em um prédio no Belvedere, suntuoso, com um jardim espetacular e quando tem a despesa extra para manutenção, ele não quer fazer. Ele não dá a mínima para aquilo que ele compartilha com outras pessoas.
No caso dos parques, os modelos de gestão geralmente se baseiam no fechamento e controle
da área por cercas e guaritas, com horários de visitação. Nossos parques são locais visitados, extra-‐ ordinários, com regras de uso muitas vezes excessivamente restritivas, que não transmitem a sensação da propriedade pública como algo estendido a cada cidadão. ISAAC -‐ Quando as cidades constroem a consciência dos cidadãos como atores, com reconhecimento dos papéis das pessoas e das prefeituras, saem resultados espetaculares. O pessoal está preservando nascente, preservando APP, de maneira independente. E sem colocar o dedo na cara do poder público e falar, “você que teria que fazer”, como um cliente insatisfeito. Essas parcerias, essas posturas mais voluntariosas das comunidades, de se envolver, de cuidar de um espaço público, de querer usar o que é público -‐ isso para mim é o melhor caminho para a gente construir a cidade que a gente quer, uma cidade melhor. Além da ideia de parceria entre poder público e cidadãos, formulada por Issac, vemos em outras falas dos entrevistados expressões como servir, prestar trabalho, ajudar que, apesar de visarem a interação positiva em benefício da natureza e da cidade, demonstram a separação que marca a relação entre as pessoas e a propriedade pública. MAJÔ – (...) seria muito bom se a gente conseguisse cuidar de todas as nascentes que estão em terreno público. Mas aí falam “Ah, está ajudando Prefeitura”. Mas eu estou no mundo é para servir mesmo, cooperar. ISAAC -‐ Nós, brasileiros, temos uma cultura de muita dependência. A gente gosta do paternalismo do poder público. Quando você pergunta para um cidadão a causa de um
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problema na rua dele, no bairro dele, na cidade dele, é muito fácil a resposta. É sempre a culpa do Governo. SEU NONÔ -‐ As pessoas não estão acostumadas a prestar um trabalho à natureza, um trabalho de agradecimento.
Retomando a abordagem da seção “Água Compartilhada” [novelo 5 do Capítulo 3], parece que
para que princípios de gestão compartilhada, como aqueles que prega nossa Constituição, sejam efetivados, é necessário o desenvolvimento de uma nova cultura política, de menor rigidez dos limites entre as dimensões de público e privado. Essas noções derivam do entendimento da propriedade como direito incontestável e do valor que sua salvaguarda tem em nossa sociedade. “A propriedade é arrolada como direito fundamental, cláusula pétrea na ordem constitucional, de modo que a relativização desse direito, a partir do conceito da função social, principalmente no que concerne à necessidade de proteção ambiental, significa uma realidade ainda em construção“ (WELTER, 2009:39).
De volta ao comum urbano No capítulo 1, vimos em Tonucci e Costa (2016) o pensamento que vislumbra o comum urbano como uma alternativa entre o Estado e o mercado, pela concretização dos direitos sociais perseguidos no Brasil desde os movimentos pela Reforma Urbana (e sua consolidação jurídica na Constituição de 1988, mas até hoje não efetivada na prática de maneira satisfatória). A partir das questões complementares agora trazidas pela abordagem da apropriação da natureza urbana como saída para sua proteção/experimentação, considero interessante retomar a perspectiva de Tonucci (2017) em sua empreitada de conceituação do comum urbano. Etimologicamente, o substantivo comum (derivado do latim communis), se opõe à noção de próprio (proprium), ou de propriedade, de modo que o comum ou comunitário não pertence à comunidade nem a ninguém individualmente. Também é ligado ao étimo latino Munus, que designa tanto obrigação (onus) quanto dádiva (donum), de modo que o substantivo se relaciona à reciprocidade, o que implica no entendimento de uma comunidade não como um conjunto de pessoas que têm uma posse em comum, mas sim de pessoas que compartilham obrigações e usufrutos. Passando pela acepção do termo na língua inglesa, temos uma um caminho interessante de compreensão da relação com a propriedade pública na cultura brasileira, salientada há pouco. Variação de common (comum, em inglês), o termo commons, designa as terras comunais, ou compartilhadas. Em Portugal, as terras comunais, correspondentes aos commons ingleses, são denominadas baldios, termo cujo significado no português brasileiro se associa à terra sem dono, no sentido de abandonada
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(TONUCCI, 2017: 36). Este entendimento é revelador e remete diretamente à memória dos documentos produzidos pelos colonizadores portugueses onde, se buscada, a qualificação como baldia, certamente seria encontrada em suas descrições da terra brasileira, notadamente das florestas e serras, como justificativa/estratégia de sua tomada de posse e gestão pelo sistema de sesmarias. O estímulo à não apropriação, ou melhor, o impedimento de diversas naturezas à apropriação das terras comuns pela população é também parte da nossa herança colonialista. Para rompimento com o paradigma da propriedade privada em nossa cultura, ou ao menos sua contraposição, é importante buscar as bases de sua origem e suas implicações políticas, sociais e econômicas diretas. Dentre as características apontadas por Tonucci, destaco duas: -‐ A noção de propriedade privada tem origem nos cercamentos das terras comuns e depende fundamentalmente de um processo de exclusão de certas pessoas em detrimento de outras, geralmente configurado no favorecimento de uma minoria, em detrimento de uma maioria. Desse modo, ao ser entendida como um direito, a propriedade se torna uma relação política entre as pessoas, uma vez que “um conjunto de direitos de propriedade é sempre um conjunto de direitos de cada pessoa em relação às demais” (TONUCCI, 2017: 56). -‐ A instituição da propriedade privada opera a autonomização das pessoas, que passam a ser entendidas como indivíduos, liberados de seus laços comunitários e valores sociais. Pela lógica do mercado, as relações passam a se dar entre produtores e consumidores, de onde deriva a sobreposição do valor de troca ao valor de uso, das necessidades individuais sobre as coletivas. Grosso modo, podemos dizer que a noção da propriedade privada institui relações onde um indivíduo é colocado ao mesmo tempo em contraposição a outros indivíduos especificamente, e a todo o conjunto de outros indivíduos. Por sua vez, a noção de propriedade pública é estabelecida como uma suposta contraposição à propriedade privada capitalista, sobre a qual se assentaram os socialismos de Estado no século XX. Porém, mais do que uma negação, como sugere Tonucci, forma-‐se um duplo, uma vez que há a transposição dos princípios de propriedade ao Estado, sendo que este se configura como indivíduo, tal como um proprietário particular. Mantém-‐se como base a noção de patrimônio, de onde deriva-‐se que “a propriedade pública consiste no direito do Estado de excluir” (TONUCCI, 2017: 58). Frente a essas descrições e definições, o comum urbano se coloca como possibilidade de se vislumbrar novos arranjos sociais, representados por formulações jurídicas “de natureza mais coletiva e não exclusivos, e tampouco redutíveis às circunscrições do Estado e do mercado” (TONUCCI, 2017: 61). Em sua argumentação, Tonucci recorre a Lefebvre para a proposição de um “horizonte
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emancipatório”, segundo o qual o comum estaria “calcado na vida cotidiana, no uso, na apropriação coletiva e na autogestão da cidade como obra coletiva”. (TONUCCI, 2017: 25). O quintal como lugar da natureza comum TELMA -‐ Todo mundo aqui convivia nos quintais, nós tínhamos só cerca, cortava caminho pela casa um do outro. Seu Abílio atravessava pelo meu quintal para pegar o ônibus. Se eu quisesse ir na dona Eunice eu passava pelo fundo, lá tinha pé de jambo, a gente ia lá colher. Tinha muito pé de inhame. Quando a gente fazia festa junina, a gente entrava nos quintais uns dos outros para pegar bananeira, bambu, para fazer enfeite. Todo mundo era muito amigo. Pessoal da [Rua] Volta Grande era muito unido. A imagem de um quintal compartilhado, com fortes laços comunitários, de troca e reciprocidade, parece uma boa referência para o lugar de uma natureza comum na cidade. À natureza comum seriam dedicados os gestos de cuidado geralmente restritos à relação do indivíduo com a propriedade privada, promovendo uma diluição também da dicotomia entre as dimensões doméstica e pública que configuram nossas práticas cotidianas e relações sociais, pela forma do individualismo.
Sugiro o entendimento dessa mudança de mentalidade como uma passagem do “paternalismo
estatal” a uma “cidadania maternal”. MAJÔ -‐ O meu relacionamento com a água hoje mudou. Eu via a água com outros olhos quando eu era criança, de lazer. Hoje eu já vejo de cuidado. O amadurecimento de Majô a coloca na posição de “mãe” e, por essa imagem, podemos ver um universo doméstico estendido à cidade como uma situação propícia para uma natureza vivida. O antigo hábito de lavação de roupas em chafarizes e córregos é um exemplo de uma relação com o espaço público, hoje abandonada, que traz muito de um modo comunitário de experimentar a cidade, tanto nas relações entre as pessoas, como na relação das pessoas com o espaço. LETA -‐ As mulheres trabalhavam juntas à beira d’água, para onde levavam também as crianças, que brincavam e eram cuidadas naquele ambiente. Geralmente passava-‐se muitas horas, uma tarde inteira, nesta atividade, uma vez que as roupas eram colocadas para secar ao sol ali mesmo, pois os tecidos molhados pesavam demais para seu transporte de volta à casa39. No estudo de L. SILVA (2004) sobre as tipologias e práticas ligadas aos quintais na história da habitação brasileira, temos outra referência à relação entre a vida doméstica, dos quintais, e os cursos d’água. Segundo o autor, nas cidades coloniais brasileiras, muito frequentemente as ruas eram implantadas ao longo dos divisores de água, de modo que os fundos dos lotes dessem para os córregos, que eram então limites naturais às propriedades privadas. Os quintais, que abrigavam as funções
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Relato de Leta (Margarete Silva) da memória desta atividade na sua infância no bairro Santa Efigênia, colhido em conversa informal.
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sanitárias das habitações, estavam assim em ligação direta com o curso d’água, que, como vimos, eram usados para a lavação de roupas e também para o descarte dos efluentes domésticos. Essa configuração espacial está representada na pintura abaixo, que representa o vale do Rio Tamanduateí em São Paulo, no início do século XIX.
Figura 48 -‐ “Panorama de São Paulo, visto do Tamanduateí”, de 1821, do pintor francês Arnaud Julien Pallière. 40 Fonte: blog Devaneios
Ainda sobre o período colonial, L. Silva relata que, apesar da distância da vida pública (a relação entre a moradia e a rua se dava pelas fachadas frontais alinhadas ao passeio), os quintais, nos fundos dos lotes, abrigavam importante convivialidade doméstica, ligada às intensas atividades produtivas de subsistência -‐ o cultivo e preparação de alimentos, criação de animais, artesanato -‐ e ao convívio familiar, principalmente feminino, entre as donas da casa e as criadas, no cuidado das crianças. Dessa forma, o quintal (termo cuja etimologia refere a uma “pequena quinta”), significava um resquício da vida rural na cidade e por isso não era considerado um espaço residual, pois “constituíam um recurso de importância fundamental para o abastecimento urbano” (L. SILVA, 2004: 66). Também em área, os quintais eram uma parcela significativa do território da cidade: “A observação da iconografia urbana desse período indica que os quintais eram, em geral, bastante profundos e que a superfície aberta em cada lote era significativamente superior à área construída” (L. SILVA, 2004: 66). Ao longo dos anos a tipologia das casas foi sendo modificada em função das tecnologias construtivas disponíveis e dos contextos sociais. Na passagem do século XIX ao XX, o afastamento lateral da edificação em relação à divisa do lote, por exemplo, marca uma distinção entre as duas áreas livres do terreno: surge o jardim ao lado da casa, com a função de representação social pública, apresentando apenas plantas ornamentais e paisagismo à moda europeia, enquanto o quintal continua sendo a zona produtiva privada, com vegetação mais densa e de grande porte. Essa distinção de caráter entre os cômodos e espaços das casas, pela função, continuou se refletindo na evolução de seus desenhos arquitetônicos, configurando as áreas sociais e de serviço que conhecemos hoje. Essas áreas, entretanto, se tornaram cada vez mais diminutas, à medida em que as atividades de produção de
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https://drivaneios.wordpress.com/2009/05/29/imagens-‐de-‐sao-‐paulo-‐mais-‐de-‐100-‐anos-‐de-‐historia/
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alimentos e artefatos foram sendo automatizadas ou terceirizadas, desde a emergência da sociedade industrial capitalista. A diminuição ou desaparecimento dos quintais também se relaciona à alta valorização fundiária/imobiliária que gera a enorme insuficiência habitacional nas grandes cidades brasileiras. ANTÔNIO -‐ Eu acabei o meu quintal com muita dó, para construir uma casa para minha mãe. Hoje eu não tenho a minha mãe e não tenho quintal. Então eu acho que essas necessidades acabam nos obrigando a fazer isso. No Felicidade foram construídas 3.600 casas, seriam 3.600 famílias. A média era de 4 ou 5 filhos por família. Meninos que tinham 8, 10 anos quando vieram para cá em 1986, hoje são avós. A necessidade de construir foi tomando os quintais, uma casa em cima da outra. Se não temos mais espaço para quintais individuais avantajados, torna-‐se fundamental a qualificação dos espaços públicos, onde se dá o encontro, a troca, o aprendizado, o lazer, a festa, as relações em comunidade. Em alguns planos urbanísticos pelo mundo, vemos o compartilhamento dos interiores de quarteirões, como forma de criação dessas áreas de serviço, ou mesmo, cada vez mais, de espaços de convívio, trazendo benefícios para as vidas individuais e coletivas.
Figura 49 -‐ Esq: uso comum do interior de uma quadra. Intervenção minha sobre ilustração de Carlos Nelson F. dos Santos. Fonte: SANTOS, 1988; Centro: “Manzanas”-‐ plano de Ildefons Cerdà para Barcelona, que prevê áreas non aedificandi nos interiores de quadras. 1859. Fonte: Wikimedia; Dir: “Supermanzanas”, plano de mobilidade urbana que prevê trânsito amigável para pedestres e bicicletas, em um agrupamento de quadras. 2018. Fonte: Agència d’Ecologia Urbana de Barcelona.
A mesma divisão funcional com que descrevemos as habitações brasileiras, ocorre nas cidades. Para cada espaço, sua função: morar, trabalhar, se deslocar, se divertir. Na opinião de Isaac, nosso modo de vida (nossa relação com o espaço e com o tempo) gera limitações, que lhe parecem intransponíveis, para uma existência da natureza na cidade, garantida pela nossa vivência, pelo nosso manejo: ISAAC -‐ O que mais traz limitações? O modo como a gente conduz a nossa existência, a nossa vida. Corrida, parece que o tempo voa, a gente tem tanta coisa para fazer que nos coloca sem tempo para fazer nada. Eu, no meu apartamento, tenho horta, mas
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quase não dá tempo de cuidar dessa horta. Você fazer essa gestão de um quintal com árvore, com jardim, com tudo isso, demanda tempo, dedicação. Coisa que cada vez mais no nosso modo de vida moderno, é escasso. Então você não tem a configuração espacial favorável a isso e você não tem as pessoas com dedicação suficiente para isso. Então acaba que a gente parte para a ideia inicial de que essa natureza talvez esteja fadada a estar nos espaços protegidos públicos. Parece estar justamente na transformação de nosso modo de vida a resposta para este impasse. Euclydes (2016), partindo da crítica aos espaços naturais protegidos, realiza uma análise da experiência da Trama Verde Azul como uma possibilidade de reformulação das formas de conceber, perceber e viver (LEFEBVRE, 1991)41, a natureza. Da Trama Verde Azul à Trama Multicolorida A Trama Verde Azul (TVA) é uma formulação integrante aos processos de elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da RMBH (2009-‐2011) e do Macrozoneamento Metropolitano (2013-‐2015), por uma equipe multidisciplinar coordenada pela UFMG, por encomenda do Governo do Estado. O trabalho, com duração de mais de 7 anos, fundou-‐se em extenso processo participativo -‐ que contou com a realização de oficinas, seminários, reuniões e audiências, com mais de 3000 participações, de representantes de 610 instituições e organizações da sociedade civil (ARAUJO; COSTA, 2017) -‐ e se dedicou à incorporação das tensões entre os interesses dos diversos agentes envolvidos na produção do espaço, para a proposição de uma ampla reestruturação territorial metropolitana. Junto aos princípios que balizaram o processo está o enfrentamento às desigualdades socioespaciais, com a configuração de uma “metrópole policêntrica e mais compacta, em oposição a um crescimento extensivo ou contínuo da mancha urbana do tipo centro-‐periferia prevalecente até hoje” (UFMG, 2014: 17). Dentre os instrumentos e desenhos elaborados neste processo, a TVA se configura como uma estrutura de destaque, ao propor a articulação entre natureza, cultura e espaço urbano, espacialmente representada por uma malha sobreposta ao território, abrangendo um conjunto de áreas com zoneamento específico, relacionado aos recursos hídricos e outros elementos naturais e culturais, em áreas rurais e urbanas. “A TVA foi concebida para ser gradualmente formada pela sobreposição de elementos novos e existentes que serão reunidos por suas características em comum como: a) infraestrutura verde: parques e outras áreas de conservação, florestas remanescentes e áreas agrícolas, monumentos naturais, sítios geológicos, corredores ecológicos e outras áreas verdes de relevância; b) infraestrutura azul: recursos hídricos
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LEFEBVRE, Henri. The production of space. Tradução de Donald Nicholson-‐Smith. Oxford: Blackwell Publishers, 1991.
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superficiais e subterrâneos e outros recursos relevantes, incluindo os sistemas de abastecimento de água metropolitano; c) patrimônio cultural e natural: museus, centros culturais, conjuntos históricos, bibliotecas, locais ligados a práticas de patrimônio imaterial; d) lugares de prática de ecoturismo; e) áreas de cultivo agroecológico de pequena escala e artesanato, dentre diversos outros usos comunitários do território metropolitano; f) redes alternativas de mobilidade: ciclovias, caminhos pedestres, corredores férreos e outras formas de conexão (ARAUJO; COSTA, 2017).
Figura 50 -‐ Esquema geral da TVA, UFMG, 2015. Fonte: ARAUJO; COSTA 2017 [tradução minha].
Sua formulação evoluiu ao longo do desenvolvimento dos estudos e proposições e, segundo Euclydes, pode ser hoje entendida em duas configurações, que ela propõe chamar de Trama Pragmática e Trama Utópica. A Trama Pragmática é a versão constante no relatório entregue como produto final do Macrozoneamento, e que servirá de base para a formulação legal a ser votada pela Assembleia Legislativa do Estado. Na avaliação de Euclydes esta formatação da TVA está aquém das possibilidades de rompimento com os modelos tradicionais de política ambiental para as quais sua versão processual apontava. A trama Utópica é justamente aquela que abrange toda a sua complexidade conceitual e que Euclydes entende como potência de “reunião da vida fragmentada”: “Ao reposicionar simbólica e conceitualmente a natureza no espaço urbano-‐regional, a trama verde e azul propõe iluminar, interligar e fortalecer práticas de apropriação da
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natureza em espaços submetidos a variados graus de intervenção humana (...), sinalizando a superação da oposição natureza-‐campo-‐heterotopia x cidade-‐isotopia e favorecendo a percepção da natureza enquanto lugar de vida, de trabalho e de fruição” (EUCLYDES, 2016: 178). Em sua dimensão utópica, a TVA ensaia a ascensão da era urbana (LEFEBVRE, 1991), em que o valor de uso se sobrepõe ao valor de troca, e “práticas cotidianas potencialmente transformadoras, relacionadas à comunalização, à autogestão, à ecologia, à solidariedade, à diferença e à Festa” emergem e se conectam espacialmente. Em relação às áreas verdes protegidas, a TVA reconhece a dimensão extensiva da urbanização e aposta na perspectiva da naturalização extensiva do espaço social (MONTE-‐MÓR, 2015 apud EUCLYDES, 2016)42. Desse modo, não se trata de uma trama verde ou azul, mas de uma trama dialética, feita da reunião das diferenças: uma trama multicolorida (EUCLYDES, 2016: 226). Para Euclydes, as melhores pistas dessa inovação estão nas concepções do programa da TVA para a agricultura urbana, a mobilidade e o lazer, uma vez que estas consideram a sobreposição espaço-‐ temporal das atividades na cidade, entendendo a unidade do corpo como escala. Thiers nos conta sobre a relação entre uma mulher e sua horta, em uma fazenda para a qual ele executou um projeto de paisagismo: THIERS -‐ A mãe do proprietário tinha paixão pela horta, ela pedia: “gente traz o almoço para mim, que não vou sair daqui não”. Tinha uma casinha, para ela até dormir lá. Ligadassa na coisa. E ela fazia da horta dela uma coisa ornamental, de um jeito que a gente chama no paisagismo de “cottage”, que é um jardim misturado – pomar, horta, ornamental, medicinal, é tudo misturado. Não tem uma lógica externa, a lógica é da pessoa, ela que administra aquele lugar, ela que cria aquele lugar. Aquele lugar não tem governo, o governo é dela. E a beleza está toda nisso: nesse caos, mora a alma da pessoa. Ela imprime ali a sua personalidade, a sua maneira de ver as coisas. Que interessante mote, por uma cidade onde “morem as almas” e se “imprimam as personalidades” de seus cidadãos; onde “não tem lógica externa, não tem governo”. Uma cidade conformada de lugares, de uma natureza vivida -‐ espaços impregnados de nossas subjetividades, que por sua vez nos impregnariam de suas qualidades ambientais, numa relação orgânica entre vida e manutenção da vida. Este é um fluxo interminável, conforme nos conta Seu Nonô:
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SEU NONÔ-‐ Hoje [depois de 27 anos de cuidado do Córrego dos Joões] eu concluí o seguinte: uma obra de revitalização, nunca acaba. Ela tem um início, mas não acaba. Outro dia na televisão eu vi que algumas profissões vão acabar – enfermeiro, advogado; mas uma que não acaba é o “revitalizador de áreas degradadas”.
Figura 51 -‐ Intervenção em sticker em viaduto recém construído na Av. José Cândido da Silveira, bairro Santa Inês. O sticker, como o pixo, o grafite e o stêncil são linguagens da comunicação urbana que usam a superfície da cidade como meio de reivindicação da apropriação do espaço. Fonte: Elisa Marques, 2018.
O manifesto “Meu Lugar” denuncia o viaduto, que cria não-‐lugares, que é símbolo do rodoviarismo, cujas vias cobrem rios. Que a disputa seja com o papel, com a palavra, com a imagem, com a performance, com o corpo. E que seja cada vez mais com o corpo vivo, vivo de água; que a água infiltre e encharque cada vez mais o corpo da cidade.
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ANEXO 1 ROTEIRO PARA ENTREVISTAS Obs. Este roteiro foi utilizado como referência, mas as conversas se deram de forma aberta a questões específicas a cada entrevistado. Algumas perguntas, como “O que é natureza?, “O que é cidade?”, dentre outras, foram repetidas de modo mais sistemático para possibilitar o comparativo entre as diversas respostas, posteriormente. COTIDIANO DOMESTICO -‐ De onde vem a água que você usa em sua casa? -‐ Como é o uso de água na sua casa? Em que atividades ela está presente? Descreva como se realizam as atividades domésticas com água em sua casa. -‐ Como você trata sua água de beber? Você considera necessário complementar o tratamento da COPASA? E a água que vem da nascente? (Quando for o caso) -‐ Onde você armazena água (para os diversos tipos de uso)? Ex.: caixa d’água, tonel, moringa, filtro de barro... -‐ Para onde vai sua água depois de usada? QUALIDADE/QUANTIDADE -‐ O que é água boa? O que é agua ruim? -‐ O que é água limpa? O que é água suja? -‐ Quais sensações a água te traz? (quando você vê/bebe/se banha) -‐ Quais sensações o esgoto te traz? (visão/tato/olfato) -‐ O que é muita água? O que é pouca água? > conversa sobre consumo. -‐ Quando tivemos racionamento/crise de abastecimento no Sudeste, em 2014, o que você fazia para economizar água? NASCENTE (para os cuidadores de nascentes) -‐ Desde quando você cuida dessa nascente? -‐ Qual a importância dela? -‐ Por que você se dedica a isso? -‐ O que aconteceria se você não estivesse aqui cuidando? -‐ Como as pessoas veem seu trabalho? -‐ Para onde vai essa água? NASCENTE (para os usuários de nascentes) -‐ Qual a importância dessa nascente para você? E para o bairro? -‐ Como você utiliza essa água? -‐ Como você se envolve no cuidado dessa nascente? -‐ Que outras relações você percebe com essa nascente, de outras pessoas?
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RIOS E NATUREZA NA CIDADE -‐ Qual o primeiro nome de rio de BH que vem à sua mente? E o segundo? -‐ O que você pensa sobre os rios de Belo Horizonte? -‐ Qual o rio mais próximo à sua casa? Como você se relaciona com ele? -‐ Como você gostaria que fossem os rios da nossa cidade? Desdobramentos: Você acha que isso é possível? Por quê? O que nos impede de ter rios/uma cidade assim? -‐ Quais as causas das inundações? -‐ Você tem “medo” de chuva? -‐ O que é cidade, para você? -‐ O que é uma cidade boa para você? E uma cidade ruim? -‐ O que é natureza, para você? -‐ Existe natureza na cidade? Como ela aparece no seu dia a dia? -‐ O que é qualidade de vida, para você? *** PARA ESPECIALISTAS -‐ O que você pensa sobre a políticas públicas de gestão das águas urbanas? Como seria um modelo de gestão interessante? -‐ Quais as dificuldades para a efetivação, a longo prazo, de um modelo de gestão das águas aos moldes do DRENURBS em Belo Horizonte? -‐ Quais as vantagens e desvantagens entre sistemas de saneamento centralizados e localizados?
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ANEXO 2: Transcrição integral das entrevistas
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ANTÔNIO RUAS, 58 anos. Localização: Córrego do Tamboril (bacia do Onça) Cuidador da Nascente da Felicidade, no bairro Jardim Felicidade, contemplada pelo programa de Valorização de Nascentes do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça. Participa de movimentos comunitários por melhorias para o bairro desde sua origem, nos anos 1980. Envolve-‐se particularmente com as questões ambientais, com foco atualmente na luta pela recuperação do Córrego do Tamboril. ELISA -‐ Como começou seu envolvimento com as águas, na vida e profissionalmente? ANTÔNIO -‐ Meu envolvimento com as águas, não é de agora. Eu nasci na roça, vivi em abundância de água, morava num local no norte de Minas que tinha um rio. Ainda tem hoje parte dele, chama Riachão. No período que eu morei lá, principalmente nos meses de chuva, que tinha que atravessar o rio, atravessávamos com água no pescoço. Se ia em festa, quando era do outro lado rio, atravessava de short, com as roupas na cabeça, chegava lá do outro lado, trocava de roupa e ia. Hoje isso não existe mais. Nem lá. Então eu sempre vivi com a natureza. Quando vim para BH, fui morar no bairro Renascença, e me incomodava muito porque o Renascença também tinha rio. Tinha não, tem, mas as pessoas às vezes não sabem. Debaixo da Rua Paru, tinha um rio. A avenida Cachoeirinha tem um rio debaixo. E onde tinham rios, eles iam se encontrando até chegar na Avenida B. Vasconcelos. Eu conheci ali com rios em céu aberto. Onde é o Conjunto Maria Estela, tinha nascentes, tinha poço d’água, você via os peixes. Eu morava lá perto. E eu vi isso acabando. Eu vim para cá [BH] em 1975. Então isso me incomodava muito. Quando vim morar no [bairro] Felicidade, na verdade eu não vim para morar. Eu vim para ajudar um amigo a construir uma casa. E de repente eu vi aquela água limpinha, pessoal bebendo água desse córrego, estavam construindo a casa, não tinham água, mas vinham pegar água do córrego. Os primeiros moradores, chegava o final de semana, faziam fila para ir numa bica que tinha aqui, a gente chamava de biquinha. Caía aquela cachoeira de água. Então eu vi aquilo e ficava pensando no Renascença, que quando eu cheguei tinha água, depois virou esgoto, depois virou avenida. E ninguém hoje sabe que existe um rio. A gente começou, em 1998, o Manuelzão, os professores Apolo e Tarcísio, me procuraram para pensar um projeto para o córrego do Tamboril. A partir daí comecei a me envolver. Criamos o Núcleo Tamboril, onde fui coordenador. Depois foi sr. Zé Américo. E foi aí que eu passei a defender essa questão e mostrar para a população que não era para matar o rio. Ele foi útil e ele existe. E a gente conseguiu começar, a população começando a entender que isso era real. Como o Tamboril começou a ser poluído? Quando o progresso chega a gente acaba perdendo alguma coisa, ou destruindo outras. Então, aqui tinha fossa séptica, não tinha rede de esgoto. O córrego, algumas pessoas jogavam lixo, porque não tinha coleta, mas não tinha tantos moradores, então o impacto não era tão grande. Quando nós moradores começamos a lutar por melhorias, centro de saúde, escola, asfaltamento -‐ porque precisa, tem que vir água, tem que vir luz, tem que vir rede de esgoto. E aí foi quando a COPASA entrou e lançou toda a rede de esgoto no córrego, sem interceptor. Tanto é que até hoje parte do córrego não tem interceptor. Então o grande poluidor do córrego, eu não digo que foram os moradores, mas sim o órgão público, a COPASA. Ela fez a rede, passou a cobrar o esgoto, para jogar dentro do rio. E aí o rio acabou. Aí o pessoal falou, o esgoto vai para o rio, então eu posso jogar resto de construção, posso jogar meu lixo. E hoje isso ainda é normal. Quando o pessoal começa a jogar entulho e lixo em um ponto, outras pessoas vêem e dizem: “ah aqui é um ponto onde eu posso jogar”. E foi assim. Foi assim que Córrego Tamboril foi morto. Ele era conhecido como Tamboril, depois foi registrado como Fazenda Velha, mas sempre foi chamado pelos moradores de Córrego do Tamboril.
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Então quando o Córrego começou a morrer, a gente começou a lutar pelas nascentes. Porque mesmo tendo esgoto, as nascentes poderiam manter a água do córrego. A gente sonhava e ainda sonha com isso, com a possibilidade desse córrego voltar. E isso é possível ainda. E aí as nascentes, os moradores foram chegando, foi acabando os terrenos -‐ Aqui tinham 6 associações, porque o bairro foi dividido em 6 partes, 6 glebas, chamadas de seções. 1a seção, 2a seção… O bairro começou aqui onde nós estamos [Escola M. Jardim Felicidade], circulou do lado de cá do córrego, depois passou para o lado de lá [margem direita] e seguiu até aqui. Essa parte logo aqui em frente foi a última a ser construída. Então conforme a terra foi sendo distribuída, e os lotes foram acabando, as associações (chamadas de Conselhos da Terra), foram acabando. Então não existia mais o Conselho da Terra, porque não tinha mais terra para ser doada. Com isso o pessoal foi vendo a oportunidade de invadir. Teria uma área livre aqui, “ah, vamos construir”. Com isso foram construídas casas em cima de nascentes. E não só as casas, mas todos os equipamentos sociais estão em cima de nascente. Essa escola, olha ali a água brotando. A Escola Rui da Costa Val também está em cima de nascente. A Casa Recriar, para fazer a fundação, teve tubulão que deu 5 metros de fundura, teve que alugar bomba para sugar a água e chegar em terra firme. A nossa igreja está em cima de nascente. Então todos os equipamentos públicos ficaram em área de nascente, porque a população era pobre, não tinha condição de fazer uma construção bem-‐feita, as estruturas adequadas, então esses lugares ficaram para que a Prefeitura construísse, ou quem tinha condições, que era a igreja, a ABAFE [Associação do bairro]. Onde é a quadra da ABAFE era uma lagoa. Quando veio o programa “Gol do Raí”, foi o “Gol do Raí” que aterrou a lagoa, para fazer a quadra em cima. Então foi dessa forma que foram também acabando as nascentes. Sobraram, visíveis, essas duas. E como estão as nascentes lá do alto, da cabeceira? A cabeceira do rio é onde tem uma pedreira enorme, não sei se você já visitou. Só fui até a rua Tamboril. Atrás tem um pedrão, você olha, fica maluca. As águas vêm dali. Ali em cima tinha uma grande lagoa, ia gente nadar ali. No ano 1988, ou 1989, morreu um cara afogado ali. Não existia casa naquela parte. A dona do terreno que era da família Lima, foi vendendo partes do terreno e foram aterrando, aterrando até acabar com a lagoa que era a nascente do córrego. Ali onde tem uma pracinha feita no OP [Orçamento Participativo], dali pra cima, era tudo lagoa. Com umbaúba, mangue, com taboa. Aí eles começaram a vender. A pedreira também, sendo cortada, com a chuva, ia tudo pra cima da lagoa. Aí quando a chuva ia embora ficava aquela proa (?), aí a dona começou a aproveitar para vender. Ali naquela rua Tamboril existem algumas lá onde a água ainda brota. Têm minas nas casas das pessoas. Algumas pessoas deixam entrar e ver, tem uma senhora que sempre deixa. Eu sonho, com o poder público, de tirar aquelas terras que está ali, aquela terra não é dali, aí sim as nascentes vão voltar. O Córrego N. S. da Piedade foi dessa forma. Eu conheci o córrego N.S. da Piedade povoado, o pessoal ficava em cima do córrego. Até quando veio o projeto que retirou as famílias, a terra, e deixou a água voltar, surgiu o espelho d’água. Aquilo já existia ali, só estava nos quintais das pessoas. A Majô foi uma das pessoas que mais lutou por aquilo lá. Ela era diretora da escola e fez um trabalho muito bom, convenceu os moradores pela desapropriação. Veio um grande projeto, do Drenurbs. Então o Felicidade não é diferente, é a mesma coisa. Então se você passar pela [rua] Furquim Werneck, lá onde a rua Tamboril acaba, por cima. Tem um lugar lá, um lava-‐ jato, se a gente entra lá dá para ver no fundo, que ainda é possível. Mas a gente precisava era de um Apolo no governo, um Polignano na Prefeitura... A gente pode ir fazendo aos poucos. Não aconteceu no 1º de maio, no N.S. da Piedade? As pessoas que estavam nesses lugares conheciam, viviam com aquilo. Aqui no Felicidade essas pessoas não existem mais. São poucas, a maioria dessas pessoas morreram ou se mudaram. Acho que o Felicidade não tem 20% da população que veio para cá no início. Quem está aqui hoje é filho ou neto de quem veio. Então não tem mais envolvimento. Não são as pessoas mesmas que lutaram. Agora, quem veio depois, a segunda geração ainda acompanhou, mas nas outras gerações pegou tudo pronto. Então não tem envolvimento.
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Além de não ter a lembrança do córrego limpo… Isso. Então por mais que a gente faça oficina, trabalhos dentro da própria igreja, mesmo assim, isso não vem na cabeça, na memória da pessoas. Eu vejo essa dificuldade. O que a gente fez recentemente com a nascente aqui, eu esperava que a população fosse abraçar isso. A gente fez algo que eu não tive para minha filha brincar. A gente tava dando essa oportunidade, mas as pessoas preferem passar com seu carro [referência à rua de lazer e proposta que a rua fosse fechada para carros]. De onde vem a água que você usa em casa? Vem da COPASA. Água encanada, que vem para a minha casa e eu uso. Em que atividades a água é usada na sua casa? Não tem envolvimento das pessoas, dos meus filhos com isso. Então em casa eu sou um pouco radical com isso, de ter um controle. Não ficar gastando água debaixo do chuveiro. Ir para um tanque lavar uma vasilha com a torneira aberta. Mas eu não consigo tanto passar isso para meus familiares. Eu sou um chato, eu tento. Mas até que não temos um consumo muito alto de água não. Com a crise [hídrica, de 2014], onde era possível reduzir o uso da água? A gente deixou de limpar o quintal com água. Temos uma área grande que a gente limpa de 15 em 15 dias. A gente passou a demorar mais a limpar e a usar a água da máquina de lavar roupa para isso. Tanto para lavar o terreiro, como para jogar no vaso. Depois que voltou, passou a crise, isso não foi mais possível. A minha máquina deve gastar quase 50 L ,então se você usa 4 tanques de máquina, naquele tempo a gente usava os tambores para guardar. Hoje esses tambores estão lá, mas não estão sendo usados. Como é a água de beber? Não tratamos, é só a da COPASA. Teve um período que eu tratava, até comprei um purificador de água. Ele estragou muito rápido, mandei consertar, mas acho que o investimento não valia a pena. Você usa filtro? O meu pessoal coloca na jarra e coloca na geladeira. Eu não tenho muito isso não. Tenho um filtro na torneira, tomo direto. Não sou muito de água gelada. Esse é o costume, igual ir lá no rio e tomar. E onde vai sua água depois de usada? Vai para a rede de esgoto, tem interceptor. É separado, a água de chuva não vai na rede de esgoto. Então o esgoto de casa é só de uso de banheiro. De onde vem a água dessa nascente [Felicidade]? Dizem que essa água vem da Pampulha. Mas eu não sei. Eu fico viajando, não tenho a mínima ideia. Nós estamos aqui nesse alto. Mas logo aqui em cima tem um corte, a Avenida A, que também tem um córrego debaixo. Ela tem uma caída para lá. Depois tem o Catulo [Córrego Catulo da Paixão Cearense] que tá do outro lado. E eu só tenho esse meio aqui. E a outra parte lá, o Centro Cultural Jardim Guanabara, o desnível dele é o mesmo, ele não é mais alto, para jogar para cá. Então para mim é um mistério, não sei explicar. O que você considera uma água boa ou uma água ruim? Água boa para gente era aquela quando você estava no mato, ela nascia nas pedras, saía limpinha, para a gente isso era água boa. Hoje, eu vejo algumas reportagens que falam que essa água também não é tão boa. Que elas têm contaminação, tem coliformes fecais. Então eu fico pensando, a gente sempre bebia a água daquela forma. Só pegava em uma vasilha, um pote de barro, só para manter a água fria. Não tinha nem muito o hábito de filtrar essa água. Hoje, vendo as tecnologias, principalmente a da COPASA, visitei tratamento de água da COPASA. Então para mim toda água é boa, só falta ela ser tratada. O que é água limpa ou suja? Água suja é essa do córrego, que leva esgoto, animais, lixo. Água limpa é a da biquinha. Ela saindo ali clarinha, a gente entende que ela é filtrada na própria terra. Eu acho que ela não tenha a qualidade talvez para se beber,
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mas igual eu te disse que aqui não tinha rede de esgoto, com fossa, então pode até ser contaminada. Mas eu considero água limpa. Que sensações a água te traz? Eu não consigo nem explicar. Eu tenho esse envolvimento com a água. O tempo formou para chuva eu fico feliz, fico vibrando. Eu vou para as roça, eu gosto de perguntar onde tem os veios, riozinho que tem água. Sou apaixonado. Gosto de me banhar. Uma relação forte. Tomar um banho de água lava tudo, eu saio mais leve quando entro dentro de um rio, aquele mergulho, é uma sensação muito boa. O ano passado fiz uma viagem para Jaíba e queria conhecer o rio são Francisco. Eu já tinha visto, nas margens, mas queria estar no meio mesmo do rio. Então eu atravessei de Jaíba para Itacarambi, de barco. Gastei 5 minutos para atravessar. Quando cheguei no meio do rio, que eu pude olhar de um lado e outro, e senti que eu estava no meio do rio, que sensação gostosa. Eu até me emocionei. Qual o primeiro rio de BH que vem à sua cabeça? O rio que eu conheci, vivi, pesquei, tomei banho é o Riachão e o Pacuí que me chamam muita atenção. O Riachão tinha uma lagoa enorme, mas você não chegava nela, era cheia de tiririca. Em torno era todo rodeado de tiririca, você não conseguia entrar. O progresso vai chegando, os donos, meu tio, Vital Rua, ele morreu, as terras foram divididas, vendidas, e quem começou a ir primeiro foram os japoneses e exploraram com plantação de tomates e depois as outras famílias que foram foi gaúchas, começaram a desmatar primeiro o cerrado, pra fazer carvão, depois a plantação de eucalipto para continuar a produzir carvão e foi chegando à beira da nascente. E matou. Hoje é só um olhozinho d’água. E aí esses rios que eu te disse, o Riachão nascia em Nova Esperança, pertinho de Montes Claros, e desaguava no rio Pacuí e ia para o São Francisco. Ao longo desse rio tinha duas travessias de carro, só dois pontos dava travessia de carro. E alguns lugares dava de cavalo, carro de boi. Hoje, qualquer lugar que você chega você consegue atravessar. Não existe mais rio. E aqui em BH? Os rios de BH , nenhum me chamava muito atenção, o Rio das Velhas, de pouco para cá, eu visitei a nascente lá em Ouro Preto. Depois chega aqui, então eu acompanhando ele aqui todo poluído, e lá ainda você consegue enxergar o fundo do rio, isso me impactou. Como que a gente consegue desmatar, destruir... Como você gostaria que fossem os rios de BH, dentro da cidade? Eu gostaria de ver os rios da cidade, como eu vi outro dia no Canadá, um rio que era poluído e despoluíram, o pessoal vai fazer piquenique, entra dentro, vê peixe. Eu sonho, eu gostaria muito de poder entrar no rio Arrudas, lá no centro de BH. Vejo o pessoal tomando banho, fazendo a Praia da Estação. Que bom seria fazer isso no rio. O que nos impede? A consciência de quem dizem que manda no mundo, nossos políticos. Primeira possibilidade que se tem é canalizar. População pede isso e a gente não tem esse poder de convencimento, de falar que não é dessa forma. Precisa de políticos com essa consciência para mudar a opinião das pessoas. Não vejo a geração que está vindo com envolvimento para mudar isso. Tem um aqui e ali, mas quantos passam lá e não se identificam? Eu trabalho nessa escola, vejo o pessoal mostrando, colocaram um quadro sobre a primavera, que não é só um colorido bonito. Mas o pessoal não para para ver. Não é que não tenha trabalho, mas as pessoas veem só como mais uma pintura. O que é natureza para você? Eu gosto de ficar aqui no final de tarde, vejo os tucanos passando, sei que eles estão procurando frutas para comer aqui e depois ir dormir lá no mato. E você entrar dentro do mato e sentir aquela sensação de verde. De estar ali dentro do mato, te dá uma liberdade. Para mim é essa liberdade. Tem natureza na cidade? Eu acho que sim, em partes. Tem lugar que tem. Dentro do Parque Municipal ainda dá para chegar e ver que tem verde, água. Na região norte ainda tem aqui a Mata do Izidoro. Então em alguns poucos lugares existe ainda. Eu consigo chegar ali no Lagoa do Nado e ver que tem muito verde, muita água. A cidade tem tudo só falta a gente ter cuidado. Mata do Planalto é um lugar fantástico, tem rio, água limpa também. Ainda tem.
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O que é cidade? Cidade é um monte de pedra em cima da terra. Vai construindo, pedra, tijolo em cima de tijolo, asfalto, cobrindo a terra, nós somos egoístas. Deus dá para você pisar, somos egoístas e impermeabilizamos para não pisar na terra. E reclamamos. O que seria uma cidade boa? Não consigo ver. Toda cidade tem que ter saúde, mas não sei se isso gera uma cidade boa. Quando a gente morava na roça não tinha cidade e a gente vivia muito bem. A gente tinha mais vida. Não consigo ver uma cidade boa. O que é uma vida boa, possível na cidade? Eu não vejo, tanto é que eu tenho muita vontade voltar para o interior. Encontrar um lugar que eu possa ir ficar, que tenha água, rio. Eu ainda tenho esse sonho. Aqui na cidade eu tenho amizades, mas não vejo mais do que isso. Os benefícios de conforto que talvez no interior não tenha, mas não sei se não teria mesmo. Como que a natureza aparece no seu dia a dia na cidade? Ela não aparece muito. Eu trabalho aqui na escola, no meu horário de almoço tem um cantinho lá atrás, que não tem ninguém, tem uns pés de flores, com uma sombrinha gostosa, eu vou pra lá. Talvez seja um momento de natureza, porque eu não vou em casa almoçar, porque tenho que enfrentar 10 minutos de sol, então prefiro ficar debaixo da sombrinha. Na minha casa não tem quintal, mas eu tenho bastante planta, gosto de verde, tenho samambaia, coqueiros, nos vasos. Eu tinha, pé de cana, mamão. O que leva os quintais a acabarem? Necessidade de moradia, a gente vai vindo do interior e precisa de casa. Eu acabei o meu quintal com muita dó, para construir uma casa para minha mãe. Hoje eu não tenho a minha mãe e não tenho quintal. Então eu acho que essas necessidades acabam nos obrigando a fazer isso. No Felicidade foram construídas 3600 casas, seriam 3600 famílias, a média era de 4 ou 5 filhos por família, quem conseguia ganhar terreno aqui eram primeiro as pessoas que tinham mais filhos. Meninos que tinham 8, 10 anos quando vieram para cá em 1986, hoje são avós. A necessidade de construir foi tomando os quintais, uma casa em cima da outra. SOBRE A NASCENTE DA FELICIDADE Como é o uso da nascente da Felicidade pelas pessoas? Esse nome de cuidador de nascente é muito pesado, nem gosto muito disso. Porque cuidador é quando você está ali, todo dia fazendo uma coisa. Eu não tenho tempo para isso. Dona Júlia também não tem como estar ali na Nascente Fundamental. Esse nome é muito pesado para uma pessoa, acho que todo mundo é cuidador. O envolvimento com essa nascente tem dois momentos: a gente defende a plantação de árvores, tem gente que defende que ali deve ser uma avenida com asfalto. Mas todo mundo que passa por ali, ontem às 19h30 tinha duas senhoras dando banho nos cachorros e duas garotas tomando banho lá dentro, literalmente. Hoje tinha um grupo de mulheres, e uma falou: “vou colocar minhas pernas, tá muito quente”. E a outra queria encher a garrafa de água, tava com sede. E tem gente que não pensa que uma avenida ali iria acabar com tudo, não tem o olhar de preservar “vamos cuidar, não vai ter carro aqui, fazer um local de lazer”. Eu vi uma senhora reclamando que tiramos o direito dela de ir e vir, que era para fazer caminhada. A gente estava era dando esse direito a ela. O contrário. Até porque ela usufrui da água. Essa imagem de cuidador, a gente só tem um envolvimento maior pela melhoria. Eu e Janice fomos as pessoas que mais trabalhamos para que ela fosse cadastrada no programa de Valorização das Nascentes [Manuelzão/Comitê de bacia]. E a gente mostrou que isso era possível. A Nascente Fundamental [Parque do Onça] está num terreno público e a nossa está na rua, é diferente. A gente teve que brigar muito para isso acontecer.
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PROVOCAÇÕES DE CONVERSAS POR IMAGENS Pintura nos muros, praça na Sagrada Família A gente troca as águas pelas pinturas... em 1993, tivemos um seminário no Minas Centro, fizemos uma apresentação do Tamboril. E quando eu estava descendo no elevador, com um professor, ele falou: “nós somos um bando de malucos. Hoje nós estamos defendendo córregos, daqui um tempo os nossos filhos vão perguntar o que é rio”. Estamos trocando os rios pelas pinturas. Essa geração que está vindo, vai querer isso aqui e nunca aquilo lá. Eu não vejo como mudar isso. As pessoas que estão envolvidas não conseguem plantar isso, nem eu, que sou envolvido com isso diretamente, consigo plantar essa ideia na minha própria casa, com minha filha. Não sei como voltar, a não ser em momentos de crise, como foi com o racionamento de água. Talvez precise chegar a um extremo para o pessoal acordar. Enchentes, placas avisando para não transitar no local Eu não acho que o rio seja o problema, nunca achei. Acho que nós somos o problema. Esse ano foi a primeira vez que tivemos enchente [no J. Felicidade], mas não foi o rio que foi para dentro da minha casa, eu é que fui para dentro do rio. No Ribeiro de Abreu, tem casa que está dentro do rio, então no período de chuva, leva mesmo. * * * TELMA DAS GRAÇAS ASSIS GONZAGA, 71 anos e MÁRCIA TRINDADE, 60 anos. Localização: Córrego Petrolina (bacia do Arrudas) Moradoras há mais de 50 anos da região conhecida como “Buracão”, no bairro Sagrada Família. Telma tem uma lagoinha no quintal da sua casa, assim como praticamente todos os seus vizinhos de quarteirão. Cláudia mora em um lote muito vegetado, que se assemelha a uma chácara. As duas contam juntas a história da sua vizinhança, que tem ainda hoje um modo de vida interiorano, com muito contato com a natureza, em uma relação que elas mesmas denominam “ecológica”. ELISA -‐ Conta um pouco da sua história, D. Telma, e de como veio morar aqui na Sagrada Família. TELMA -‐ Eu sou de Inhaúma, sempre convivi com água. Então eu faço questão de manter essa lagoinha aqui. Água para mim é a melhor coisa do mundo. Eu sou igual peixe, é água que me mantém viva. Eu adoro vir aqui, sacodir uma peneira na água, para oxigenar, os peixes ficam pulando na maior alegria. Quando chove também, eles adoram. Quando eu vim para aqui eu tinha 5 anos de idade. Mas essa aqui nasceu aqui [aponta para Márcia]. Aqui atrás [nos fundos dos lotes] era um córrego que tinha, ao céu aberto. Mas depois canalizou. Muita gente pôs esgoto. E como era na Avenida Petrolina? TELMA -‐ Ali tinha só uma ponte, ali na rua Jacques Luciano com Av. Petrolina. Tinha uma ponte de madeira, que era até muito perigosa, uma pinguela. Morreu até uma criança, de 5 anos. Eu lembro disso até hoje, a mãe dela gritando. O chinelo dela escorregou, ela foi pegar e caiu. MÁRCIA -‐ Era puro mato, bambu, uma fossa. TELMA -‐ Era horrível. MÁRCIA -‐ Aí o prefeito Maurício Campos, era prefeito de BH na ocasião. Depois o engenheiro dele foi até meu padrinho de casamento. Ele canalisou, ele gostava muito da Sagrada Família. Asfaltou várias ruas, fez muito pela Sagrada Família. TELMA -‐ Ele que canalisou. Eles fizeram a canalização e todo mundo ficou muito feliz. Eu passava para ir pra escola, muitas vezes a água tava cá em cima e a gente tinha medo de atravessar. E a gente era muito atrevido, então a gente ia pelo barranco, né, entrava na água e pulava pra sair do outro lado. Foi quando surgiu a biquinha. E eles fizeram uma pesquisa muito grande e a água era boa. Eles tentaram de todas as maneiras tirar a água dali.
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Tirar, por quê? TELMA -‐ A água era muito boa e todo mundo queria a água. Aí fizeram uma reunião. Eu tinha uns 13, 14 anos. Eu lembro que minha mãe, meu pai, foram na reunião. Mas não conseguiram tirar. O prefeito queria canalizar aquela água porque falou que era útil. Mas o povo não deixou não. MÁRCIA -‐ Aquela bica na verdade ainda gera muito conflito até hoje. Já foi comprovado que é uma água boa, saudável, potável. Vira e mexe tem gente lá querendo fechar. Para marcar presença, ganhar voto. TELMA -‐ A gente fazia era bagunça naquela água. Antigamente eles enfiaram um cano e a água saía no cano, de manilha. E a água saía. O pessoal gostava dali. Ali era o ponto turístico das crianças. MÁRCIA -‐ Aquelas casas ali ao redor da Petrolina, 90% tinha mina. TELMA -‐ Nós tínhamos uma mina com monjolo aqui no quintal. Aqui na rua passava esgoto. MÁRCIA -‐ eu nasci e cresci aqui. Brincava aqui na rua. Até ali onde tem o prédio hoje, ali tinha um campinho. E tinha uma água que jorrava ali, da mina, com força mesmo. Então a gente brincava muito ali de argila. Até hoje ainda tem nos fundos. Lá em casa na parte de cima tinha cisterna, água muito boa e potável. O que é cisterna? TELMA -‐ A cisterna se você enfia o braço na água e pega. É um buraco redondo, com manilha grandona e a água brota e sobe. Tinha um caninho que saía da cisterna e caía no quintal, no brejo. Quando eu casei aqui era brejo. Aí eles foram manilhando para acabar um pouco com o barro porque era demais. Mas tudo aqui era cisterna, não tinha COPASA. Aí a COPASA chegou e fechou tudo, acabou. A COPASA não exigiu por lei, mas as famílias temiam porque houve uma represália – quem tiver com cisterna vai pagar multa. MÁRCIA -‐ Mas têm pessoas que ainda mantêm cisterna. TELMA -‐ Eu tenho, meu menino lava carro aqui na rua. A água da cisterna a gente usa pra lavar a casa, lavar quintal, usa para a criação. Faltou água da rua, tem a mangueira que joga água na caixa pra gente usar. MÁRCIA -‐ Mas acho que hoje em dia a COPASA não aceita, como é que é isso? TELMA -‐ Aceita sim. Tem nada a ver. A Telma da Jovelina até deu parte do André lavando carro aqui. Aí a COPASA veio e falou que ele tinha que pagar um tanto, tipo multa, achando que era uma ligação irregular na rede da COPASA. Ele falou não, é da cisterna. Quando eles viram, falaram: “uai, você ainda usa isso? Eu uso não, todo mundo usa. Quem tem, tem”. MÁRCIA -‐ A minha mãe quando fechou a cisterna eu briguei muito com ela, na época. Falei “para quê”? TELMA -‐ Acha mais bonito usar a água da COPASA. MÁRCIA -‐ É, coisa de ignorante, capiau. TELMA -‐ Nós não aceitamos. A COPASA entrou, pediu, a Sudecap. Eu tinha os retratos dos homens trabalhando aqui. O moço, chamava seu Kleber, falou para mim “Dona Telma, nunca desfaça dessa água”. Eles chamaram, pessoal da Prefeitura fez análise, falou que é muito boa. Aí eles passaram, do posto de saúde, a buscar água de 15 em 15 dias, para fazer análise. MÁRCIA -‐ Sem ser a mina da bica, do boi, tem uma outra na Petrolina, logo antes de chegar no Tico [depósito de construção]. Tem uma mina linda. TELMA -‐ No Tito mesmo também tem, onde fica o material dele de telha. Ele cultivou assim, fez uma cisterna alta, tem até peixinho. Se falta água na rua, eu tiro água da cisterna até para beber. Tem vez que vem gente de longe pegar água aqui. Pessoal da rua usa muito a água com a mangueira. É uma água saudável. Qual rio de BH que primeiro vem à cabeça de vocês? MÁRCIA -‐ Rio Arrudas. Podre. TELMA -‐ Rio das Velhas. Rio Paraopeba. Córrego São João, em Inhaúma. Rio São Francisco é a coisa mais linda para mim, em Pirapora. E o córrego da Petrolina está vivo? TELMA -‐ Tá vivo! Ele cai no Horto, no Rio Arruda. Quando vc chega ali perto do Apoio, você vê lá onde ele cai. Tem uma manilha grande, ele cai ali. Era uma área que podia ser de lazer pra todo mundo ver água a correndo. MÁRCIA -‐ Se tivesse um projeto de colocar chafariz nas ruas e nas praças...
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TELMA -‐ Ia ser maravilhoso. MÁRCIA -‐ Já pensou quantas praças têm aqui no bairro, se usasse esse recurso. TELMA -‐ Essa água do córrego, se eles tratassem bem da água. Esse riozinho, o povo ia adorar. Porque nós não temos lazer nenhum nesse bairro. A única coisa que nós tínhamos quando éramos mais novos era ir na bica brincar. Hoje não tem nada. MÁRCIA -‐ Praça, chafariz, fonte. Qual a sensação que água traz para vocês? TELMA -‐ paz, sossego, tranquilidade. Tudo que você pensar de bom nesse mundo. Muitas vezes você está tão nervosa, vai lá para baixo e escuta aquele barulhinho de água... é outra vida, não é? Onde tinha a bica que eles tamparam, fazia aquele barulho, tchaaaa MÁRCIA -‐ Aqui era muito arborizado, muita água, um paraíso, uma benção, né? A gente escutava mesmo água à noite, daqui de casa. Igual eles inventaram essas fontes artificiais que ligam na tomada, para relaxar, o ser humano tem que ter contato com a natureza. TELMA -‐ Você sabe o que é um monjolo? É um círculo, tinha um cano e a água ia caindo na rodinha, tcha tcha tcha MÁRCIA -‐ Nós tomávamos banho nessa lagoinha, fazia brinquedo de argila, chegava da aula, pegava piaba. TELMA -‐ Nós enchia o balde de piaba, depois jogava dentro d’água de volta. MÁRCIA -‐ piaba pequena, piaba média, piaba grande. Coloridas. Dava aquela sensação boa... TELMA -‐ Olha essa tá barriguda, essa vai ganhar neném. Era bom demais. Meus filhos ainda foram criados assim. Mas agora acabou. MÁRCIA -‐ Essas casas aqui ainda têm. TELMA -‐ Eu não deixo tirar não. Essa rua encheu de manilha aqui uma vez, você lembra Márcia? Deixamos as manilhas quebrarem tudo aí na rua. E quando manilhou mesmo aqui para fazer a rede de esgoto na rua? O saneamento básico da comunidade. A gente brincava aqui, todo lugar que vc mexia brotava água. Mas aqui mesmo no centro do quarteirão, no fundo, era um córrego? TELMA -‐ Era. Eles falavam era Corguinho da Sagrada Família. O outro era Córrego da Maria Brasilina [Av. Petrolina]. Aí quando eu casei eu vim para cá. Eu tinha 19 anos, hoje tenho 71 anos. Tem muitos anos, né? Meu filho mais velho fez um ano aqui. Aqui é tão bom. MÁRCIA -‐ Você ficou sabendo que deram parte para cortar o coqueiro? TELMA -‐ O coqueiro tem quase 100 anos! (...) Todo mundo aqui convivia nos quintais, nós tínhamos só cerca, cortava caminho pela casa um do outro. Seu Abílio atravessava pelo meu quintal para pegar o ônibus. Se eu quisesse ir na dona Eunice eu passava pelo fundo, lá tinha pé de jambo, a gente ia lá colher. Tinha muito pé de inhame. Quando a gente fazia festa junina, a gente entrava nos quintais uns dos outros para pegar bananeira, bambu, para fazer enfeite. Todo mundo era muito amigo, hoje é que não convive tanto mais. Já foram chegando outras pessoas. Você não via ninguém brigar. Pessoal da Volta Grande com Diametral era muito unido. E sobre o esgoto? TELMA -‐ O esgoto de banheiro ia para a fossa. O esgoto de pia ia para a rua, caía aqui no meio do rego aqui na rua. Tanto que quando o pessoal foi fazer aqui, passou um trator, jogou bastante brita, todo mundo ficou feliz e fez a canalização, abriu as valetas. Foi melhorando, urbanizando. Muita gente ficou bravo porque teve que pagar. Mas tinha que pagar mesmo, pois para você melhorar, tem que pagar. Eu lembro que meus meninos eram pequenos, o Cláudio caiu dentro da valeta, chovendo, para pegar o cachorro. Deixa eu te falar com sinceridade, aqui era um lugar tranquilo, bom de se viver. MÁRCIA -‐ Até hoje eu gosto! Tanto é que eu tive a oportunidade de ir morar num apartamento, minha mãe faleceu e deixou para mim, e eu não fui. Eu gosto porque é uma comunidade unida. Por que você gosta de morar em casa, mais do que em apartamento? MÁRCIA -‐ Eu gosto de quintal, gosto de animal, ter liberdade, não precisar dar satisfação para ninguém. Minha casa tem uma vista maravilhosa, enxergo até a Serra do Cipó, ampla, 500m2, tem quintal, meus cachorros ficam à vontade, são de porte grande. TELMA -‐ No apartamento você não vê nada, só vê a cara de uma pessoa só. MÁRCIA -‐ E tem que dividir tudo com todo mundo, é um favelão. Não quero saber.
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TELMA -‐ Meu filho tem um triplex, mas a vida dele é aqui. Ele fala: “Eu gosto é do Buracão”. Eu sou conhecida como Telma do Buracão. Aqui é conhecido como Buracão. Meu netinho fala, vou na casa da minha avó do Buracão. Vc já viu de cima, no mapa, ou vendo pela Genoveva [Rua Genoveva de Souza]? Aqui tem a forma de uma âncora. A Volta Grande e no meio a Diametral. Olhando no mapa eu entendi por que. Minha filha que mora em Portugal fala que prefere morar no Buracão. Minha netinha, Diva, fala “eu gosto do Brasil e do meu Buracão”. E quando chove aqui, como é? TELMA -‐ Hoje é tranquilo, a água some, a gente não vê. MÁRCIA -‐ Antes ali alagava. Ali onde tem os predinhos não fizeram galeria suficiente. Aí alagava. Era qquela quantidade de pato e ganso nadando na rua. Eles soltavam os patos e gansos no meio da rua, quando chovia os bichos iam tudo para ali nadar. Aí teve um desbarrancamento da Genoveva que desceu o barranco. O que vocês acham que é natureza? TELMA -‐ Tem tanta coisa boa na natureza, as árvores, a água. Para mim a natureza é tudo. O ar. Eu acho, para mim. Aqui, a natureza é boa. O ar é bom, as plantas, as árvores, os passarinhos cantando, os macaquinhos gritando. Que gracinha. MÁRCIA -‐ E a quantidade de maritaca que vai lá em casa? Acho que eles estão migrando do Instituto Agronômico para cá. TELMA -‐ No dia de arrancar o coqueiro foi uma confusão. De manhã é os papagaios gritando, é as maritacas, periquito, garça. As garças entram no meu laguinho para comer peixe. MÁRCIA -‐ Tem muito animal. Saracura à noite tinha demais. TELMA -‐ Os macaquinhos, tinha demais. Outro dia apareceu um jacu, tão bonito. MÁRCIA -‐ Tem dois jacus lá na Elza, estão dormindo lá no galinheiro. TELMA -‐ Fica dia e noite cró, cró. MÁRCIA -‐ pois, é o jacu. TELMA -‐ Calango tem demais. MÁRCIA -‐ Lá em casa tem muito, grandão. Minha cachorra pega na boca, fica o rabo dependurado. E os gambás? TELMA -‐ Ali na lavanderia, quando eu fui mexer, fez shhhhhh, achei que era cobra. Aqui não tem cobra nem escorpião. Mas era gambá, eu coloquei na caixinha liguei pro IBAMA e eles buscaram. E existe natureza na cidade? TELMA -‐ A gente precisa conviver mais com a natureza na cidade. A gente não vê mais, a gente via cada gavião. Como a gente pode perceber a natureza mesmo estando na cidade grande? TELMA -‐ Se eu tô com uma depressão eu esqueço até as pessoas que estão do meu lado, eu foco no barulho das águas, é um presente de Deus. MÁRCIA -‐ Tem que focar, parar no quintal um pouco e observar, aí você vê o movimento da natureza. TELMA -‐ Tem o Parque Municipal, mas você tem prazer de chegar lá? Por causa do que acontece lá, que a gente vê e não gosta. O mundo está muito esquisito. MÁRCIA -‐ O recurso que a cidade grande promove é as praças públicas, agora aqui é um algo diferente, aqui pode até falar que é ecológico. É um contato diferente. Minha casa é no meio das bananeiras, lá naquele alto. Então, se você quer contemplar a natureza, você levanta cedo, vai ver as maritacas chegando nos pés de fruta, os macaquinhos nas bananas, o nascer do sol maravilhoso ali na Serra do Cipó, que dá pra ver. E por que não dá para ter espaço público assim? Só fundo de quintal. Só quando têm pessoas? MÁRCIA -‐ Eu sempre achei que devia fazer uma praça para as crianças ali embaixo, na casa do seu Abílio. Para as crianças andarem de bicicleta. Bem na encruzilhada. TELMA -‐ Você já viu como é frio ali à noite? É onde a água passa [por baixo do asfalto]. Ali é o ponto gelado, bem no pé de manga. A água passa ali e desce lá para a [Avenida] Petrolina. O que é cidade? TELMA -‐ BH é uma cidade bonita, cheia de árvore. Cidade boa é onde você pode sair tranquilo. Só de você ter a Serra, a gente ia ali no Sion, no Aglomerado. MÁRCIA -‐ Resumo, Telma, nós não gostamos de cidade grande, nós somos caipira. Nós gostamos é de mato, de bicho, de água. Como nós não estamos na roça mais, a gente prefere morar num local como esse aqui, onde a gente fica bem afastado. Você vê que nós não temos nem centro comercial, não tem uma padaria. A cidade fica
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pra lá e nós ficamos aqui, porque a cidade é horrível. Eu não gosto de centro de cidade, centro urbano. Eu tive até salão na Galeria do Ouvidor... eu era muito doida, já trabalhei em salão no Shopping Cidade... quando eu dei por mim, falei: “vou sair dessa [rua] Curitiba”. É muito estressante. Vou ficar na minha casa, quieta no Buracão. E tô aqui, atendendo as amigas. Resumindo, nós estamos só no suco. Conversa fiado, faz comida boa, leva uma para a outra. E vocês acham que era possível um lugar como esse aqui acontecer mais na cidade? MÁRCIA -‐ Tem outros locais, tem muito bairro assim, não tem? TELMA -‐ Passei outro dia na Andradas e vi um pé de banana na rua, aqueles cachos de banana e ninguém mexe. Indo ali para a Câmara Municipal. Ali também indo para o Pronto Socorro, aqueles pés de manga... aquilo ali é bonito, é coisa de Deus. As mangas paaaa no chão. Ali na Avenida Brasil, mesmo, eu vi um rapaz com uns canos brancos cutucando as mangas. Gente isso é coisa de Deus demais. Na porta da igreja aqui da Sagrada Família, na rua Arthur Alvim, os cada pé de manga! Manga coquinho. Pé de pitanga! E voltando aos rios da cidade... vocês falaram que foi bom ter as avenidas da cidade, mas e os rios? TELMA -‐ Era tão bonito. E é assim, tamparam a água toda da Thereza Cristina, mas quando chove ninguém pode, você vê que está tudo escrito assim: cuidado, perigoso. Se chover, não passe aqui. O córrego estando aberto, a água tem para onde ancorar e ir embora. Não, eles fecharam, colocaram a rua, puseram aqueles esgotos pequenininhos e a água não dá conta de descer naquele lugar ali. Eu achava que eles não deveriam ter fechado o Arrudas. Deveria ter consertado, melhorado. MÁRCIA -‐ Mas a cidade grande, ela cresce, e isso não pode continuar. Pelo menos aqui no Brasil, não sei em outros lugares, o que eles arrumam. TELMA -‐ Mas tem lugar que eles ficam abertos, né? MÁRCIA -‐ Veneza por exemplo é a cidade das águas, né, tem uma estrutura que permite. Então eu não sei. Eu não entendo, não sei se poderia manter. TELMA -‐ No Japão, se o rio é muito grande, eles falam: “vamos dividir em 3”. Ah que lindo! MÁRCIA -‐ Se for chegar mesmo à conclusão, isso se chama Brasil, né? Que acaba com tudo. Vende tudo, destrói tudo. TELMA -‐ Tem tudo do bom e do melhor. MÁRCIA -‐ Ou seja o povo tem contato com a natureza e é civilizado. Aqui não, é uma ignorância. TELMA -‐ Você já viu o Instituto Agronômico, que lindo que é? Tem até índio morando lá. Da Funai. MÁRCIA -‐ O povo tá apelando né, onde tem uma arvorezinha, uma águinha eles cai pra lá. Mas eu vejo, aqui tem tudo para ser bom, mas BH é muito jogado, ninguém faz nada por BH. BH acaba com tudo. Aqui não tem lazer. Os projetos ficam engavetados. Se você conseguir levar esse para frente, vai ser heroína. * * * THIERS MATOS, 62 anos Localização: Córrego Navio-‐Baleia (Bacia do Arrudas) Proprietário de um escritório de paisagismo que atende um público da elite econômica de Minas Gerais, morador do bairro Taquaril há 30 anos. Observa as mudanças ambientais na cidade, reflete sobre os processos estéticos, técnicos e sociais da criação paisagística, indica situações em que percebe interações interessantes com a natureza no espaço urbano de BH. THIERS -‐ No nosso escritório existe um grande espelho d’água que envolve o prédio. Na verdade, é um lago, porque ele tem vegetação aquática e tem peixes. Ele não é apenas uma piscina, com água tratada. Ele tem vida, tem um aspecto até estranho, esquisito, porque tem lodo, tem perereca, tem libélula, tem vida, é um lago. E aí tem gente que tem repulsa por ele, porque ele não representa aquela beleza daquela água que eles querem ver, tipo uma piscina tratada, como tem gente que se sente arrebatado por aquilo e deseja ter aquilo. Então isso é até para a gente um grande indicador do que a pessoa quer. Quando a pessoa fala que o arquiteto propõe no projeto um espelho d’água, às vezes ela não está sabendo o que pode vir a ser aquilo ou não. Então muitos já chegaram com um espelho d’água todo asséptico, todo higiênico, e chegaram lá e optaram por ter aquilo, como outros “ah, um espelho d’água é isso, então eu não quero não”. Então fica ilustrativo e didático para
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que a gente consiga entender isso. Então nesse extrato social a gente consegue também captar pessoas que têm um olhar para a natureza um pouco mais amplo, mais diverso, às vezes de uma maneira mais educativa, querem que os filhos tenham um contato com uma coisa mais sensível, com relação à natureza. E a gente tem percebido que esse desejo tem partido mais dos homens do que das mulheres. As mulheres não querem flor. É um fenômeno, de uns 3 anos para cá, mulher não quer flor. Mulher quer um jardim verde, uma coisa prática, que não seja nada emocional, ele é todo racional. É impressionante. E os homens, não. Isso não é nem 1, nem 2. Pois é não entendo, acho que é uma vibração. A flor traz uma vibração. E tem sido mesmo, notável, quando a gente começa a aprofundar mais numa entrevista com um cliente e a gente começa a puxar as coisas, os focos de interesse deles. E a gente pergunta: “E o que vocês pensam de uma flor”. E a mulher sempre “não”. E o homem, “sim”. Eu e a Flávia, minha sócia, nos olhamos e pensamos “mais um!”. ELISA -‐ Em relação à agua como é? Existe uma outra coisa super-‐complexa, hoje mesmo eu tive uma entrevista com um cliente que está construindo uma casa em um condomínio, um projeto super moderno, em que eles querem toda a tecnologia, eles estão contemplando energia fotovoltaica, iluminação, e a parte toda da casa voltada para uma coisa tecnológica. Até carregador de carro elétrico na garagem, eles estão prevendo. E falando de coleta de água de chuva, para irrigação. E esse negócio é um problema. O reservatório consome uma área muito grande... em um lugar onde a água é rara, para um uso doméstico, essa coleta de água de chuva é super bem-‐vinda. Mas não é o caso. Então aqui no Sudeste, essa água chega no período chuvoso, o reservatório enche. Na primeira estiagem que tiver, você esgota seu reservatório e fica ali 4, 5, 6 meses sem encher. Então eu acho uma coisa inútil. Não tem necessidade. E isso, em alguns lugares passa a ser uma exigência “ecológica”. E eu acho completamente inviável, não justifica, não tem razão de ser. E dissuadir os clientes disso é complicado, porque eu estou aqui falando de uma coisa que a princípio é adequada. É um problema que a gente vê, muitas vezes um reservatório consome a área de um jardim, já que em cima de um reservatório eu não posso plantar nada. Agora, uma coisa que a gente contribui, com o paisagismo, na medida que a gente vegeta mais, a gente infiltra mais água no solo, protege o terreno e, criando, áreas de piso, tenta fazer uns pisos mais permeáveis, drenantes, possível, para que água área permaneça no terreno. E em relação ao próprio projeto arquitetônico, de um momento para cá, a calha de coleta de água de chuva, nas coberturas, dos telhados, passou a ser uma coisa mal vista, esteticamente os arquitetos não se sentem bem com aquilo. Eu não tenho problema com calha, acho necessário você distribuir aquela água, ao invés dela cair livremente e ir criando... vc tem que recolher essa água e conduzi-‐la. Ou lá em cima, ou cá embaixo. E isso para um jardim, é uma coisa complicada. Muitas vezes o jardim está encostando nas empenas, nas alvenarias e fica difícil resolver isso. Tem respingo... um problema. A gente chega também em um certo conflito com os arquitetos, quando a gente pede que essa água seja conduzida, recolhida... então é problema... E quando a água é ponto de partida, perguntando mesmo para você, em seu momento de criação, de composição. O que te interessa na água? Recentemente eu estou trabalhando em uma fazenda em Ferros. Fui chamado para fazer essa fazenda e caí para trás com a beleza do lugar. E é lotada de água. Na entrada tem um rego alimentando um açude super bonito, depois tem outro rego que leva uma água que é puxada para perto da área de lazer da casa, depois tem uma horta, que eu nunca vi tão incrível, ela é cheia de pinguela, naquele monte de rego, de córrego; imensa, a horta. Com um bananal que nunca vi nada igual. A mãe do proprietário tinha paixão pela horta, ela pedia: “gente traz o almoço para mim, que não vou sair daqui não”. Tinha uma casinha, para ela até dormir lá. Ligadassa na coisa. E ela fazia da horta dela uma coisa ornamental, de um jeito que a gente chama no paisagismo de cottage, que é um jardim misturado – pomar, horta, ornamental, medicinal, é tudo misturado. Que não tem uma lógica externa, a lógica é da pessoa, ela que administra aquele lugar, ela que cria aquele lugar. Aquele lugar não tem governo, o governo é dela. E a beleza está toda nisso, nesse caos, mora a alma da pessoa. Ela imprime ali a sua personalidade, a sua maneira de ver as coisas, a paixão que ela tem por determinada planta. O uso que aquela planta na composição. E é super bonito o lugar. Ela plantou aqueles Bastões do Imperador, que é aquela flor absurda, e tem mundos daquilo. Depois tem Copo de Leite, mundos daquilo, misturado com espinafre, com muito Chapéu de Couro (ela que faz aquela bebida Mate Couro), ela é uma aquática, linda. Eu fui vendo um monte de coisa que há muito tempo eu não via. Esses jardins trazem uma época. São plantas que foram usadas numa época, aquela pessoa resolvia colecionar, e aquilo torna-‐se uma assinatura daquele jardim.
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Atualmente na Inglaterra tem um resgate de plantas antigas – porque sempre tem planta que cai de moda e entra na moda, as floriculturas vendem aquilo, e de uma hora para outra aquilo desaparece. Com isso, uma série de plantas passaram a não existir mais. E um grupo de paisagistas começou a pesquisar nos cemitérios. Porque eram plantadas nos túmulos, e iam ficando ali, eram devolvidas para a natureza, sem os cuidados de uma flora, sem ser flor de estufa e ela se naturaliza, volta a sua origem. Então é um resgate de plantas, que as pessoas não ouviam mais nem falar delas. Eu estive em Belém uns 3 anos atrás. É muito legal a cidade. Tem um cemitério francês dentro da cidade, com sepulturas artísticas, túmulos lindos, cheios de esculturas, muito mármore, muita carrara. E esse cemitério não coube mais gente, foi criado outro cemitério e esse ficou lá e a floresta invadiu. Então tem túmulos que as raízes levantaram... uma floresta tropical amazônica, dentro de um cemitério... é muito impressionante. É bonito. E tem um monte de um flor... Era um lugar de fazer uma pesquisa. Há umas semanas atrás eu fui ao cemitério com a Tuca, irmã de Chico, e chegando lá tinha uma senhora de um lugar ali de perto, colhendo umas plantinhas do gramado lá da Colina. E eu vi que era uma espécie de uma planta da família do alho, que dá uma batatinha, e que propaga com muita facilidade. E se criou um maciço super bonito delas. No meio da grama. Deve ter uma época do ano que ela desaparece. E agora com a primavera ela acordou e estava lá toda florida. É uma planta que eu não tinha visto antes, também. De fato, essa coisa ocorre, o cemitério é um lugar... Mas isso não tem nada a ver com água!! Mas na verdade a conversa sobre as águas é mesmo um caminho para a gente falar sobre a relação com a natureza de modo geral, na cidade. Eu acho que as pessoas andam muito dissociadas da natureza. Super. E muitas vezes a nossa função é meio que encorajá-‐las. A gente que é de uma geração que foi muito para o mato, foi muito picado por borrachudo, tivemos um contato com a natureza, numa época que não tinha nem repelente, não existia nada disso. Então eu vejo as pessoas falando: “mas vai dar bicho?”. Essa planta dá flor, dá fruto e os bichos vêm até ela. Vem junto o bicho. As pessoas precisam saber que vai ter aranha, cobra, mosquito, tucano, um monte de passarinho. Um monte de coisa vem junto. Tem que entender que estão invadindo um espaço onde até então não tinha gente, e que agora passa a ter. Com o jardim, uma área que era um campo limpo, começa a ter vegetação de porte. Porque eles precisam de um jardim que seja suntuoso, impactante. Então essas plantas já chegam adultas e com um ano já estão produzindo sementes, alimentando fauna. E aí vem fauna. Então é nosso papel, quase didático, ensiná-‐los que aí vem coisa. É porque implica numa relação, né? Se é vivo, não é vai ser uma coisa pictórica, vai trazer uma relação. Vai. Com toda certeza. Hoje as pessoas não têm tempo para nada. Saem para trabalhar de manhã, voltam de noite e no fim de semana é para o social. São raros os que pegam em uma ferramenta, que vão cutucar um canteiro, ter o prazer de regar uma planta. Ou aquele hábito americano, de qualquer nível social, de pegar um cortador de grama, vai cortar seu gramado. Nós estamos longe de ter uma classe que se dedica a essa atividade. É raro. Em 30 anos de atividade, eu devo ter encontrado umas 3 pessoas com essa intenção. E a gente vem de uma cultura que sempre teve gente servindo, sempre teve mão de obra barata. Sempre teve um caseiro, que é um problema para o jardim, que ele estraga as coisas. Ele está ali para zelar, mas na verdade ele estraga. E por comodismo, o proprietário mantém aquela figura ali, que é alguém que entende de tudo, da bomba, da máquina, da boia, do registro, entende de tudo, ele é útil. Mas na verdade ele é um problema. Então é complicado, a gente tem que ir tentando desmontar um pouco isso, abrindo os olhos. Todo mundo pensa que ir para uma casa com um terreno de 1000, 2000 metros, com um jardim com um certo grau de complicação – claro que a gente não quer complicar a vida de ninguém -‐ mas na medida em que você colocou 4 espécies ali, você tem umas correlações que você precisa entender. As pessoas acham que podem ter um jardineiro 1 vez por mês. Então é duro. A gente fala: você tem piscina para limpar, piso, muita área envidraçada, e o jardim vai ficar sempre em extremos, ou sem cuidado, ou completamente aparado, porque ele tem um dia para resolver aqui. Do mesmo jeito que as casas têm proporções enormes -‐ com home theatre, gourmet, espaço fitness, brinquedoteca e querem ter uma empregada que dê conta disso. Então tem aí um troço que eu não sei onde vai dar. E eu acho que isso é papel do arquiteto, de conseguir baixar a bola da pessoa, que não dá para administrar tudo isso.
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Essa conversa está me fazendo pensar nas ações de cuidado, manejo, zelo. E acho que nessas casas que assumem tudo em um lugar só, atividades que a gente faria em outros espaços sociais são incorporadas no ambiente doméstico, nós tendemos a nos comportar nesses casos do mesmo modo como já nos comportamos nas cidades – delegando a outros. Como que nos envolvemos com o espaço público? O espaço público é totalmente abandonado, não existe interesse por aquele espaço. Eles falam que as pessoas não têm zelo por aquilo que é dado a elas. Egoísmo, né? Onde você vê um pouco mais de experimentação na relação natureza/cidade no espaço público, em BH? Pois é, acho que temos cada dia menos. O último espaço que a gente viu sendo atualizado, foi a praça da Savassi, que teve aquele tratamento e recebeu aquelas 4 fontes... que ao meu ver são tolas, apesar de numa cidade tão seca elas trazerem um certo frescor, mas ela tem hora de desligar, quando tem alguém usando a fonte ela é retirada dali, o entorno não é muito bem mantido, e tem sempre um modelo que é meio alemão. Uma relação com o monumento que não traduz muito o nosso jeito de ser. A gente é mais caipira mesmo. Então aquele troço, com muito pórtico, um mobiliário urbano que eu acho bruto. Não é acolhedor, não é delicado. Gosto muito do Eduardo, arquiteto que planejou aquele espaço, mas eu tenho críticas, não é um espaço que me agrada, nem um pouco. Também com relação à Praça da Estação, que também é de autoria deles, eu acho que é necessário que a gente tenha um espaço amplo, aberto assim, mas ele é de uma crueza, é alemão até onde pode! Aqueles totens de luz... claro que tudo tem uma justificativa, para um grande espaço de manifestação... mas é de uma crueza absurda. Eu acho que deveria ter tido um cuidado com um cordão de arborização, pontuado em alguns lugares, uma coisa que tivesse uma certa monumentalidade, sem tirar a perspectiva da praça. Tem uma série de coisas que poderia ter sido cuidada. Tem muito tempo que eu não vejo aquela fonte ligada. Deve ter danificado e manutenção daquilo não é barato. As bombas são caras, todas as conexões, tubos, material que fica submerso tem um desgaste, precisa de manutenção periódica. A água enquanto elemento, enquanto matéria a ser manipulada, é complexo, né? É muito complexo. Porque é um solvente universal, né? É o maior solvente que nós temos. E ela corrói as coisas! Quando a gente foi fazer o nosso lago, tinha diversos profissionais que atuavam com a gente, pessoal que fazia efeitos ornamentais com água, gente que cria iluminação, e eles quiseram fazer para o nosso escritório algumas cortesias, para que a gente pudesse demonstrar os equipamentos que eles vendem. Foi tudo um fracasso. Tinha uns efeitos de uns jorros d’água, e uma água que tem vida, ela tem mal cheiro. Então quando essa água circulava, a gente não dava conta de ficar perto dela. Ela tinha que ficar quieta, não dá para ficar cheirando não. Tinha também umas muflas, uma coisa que fazia como se fosse uma névoa, que era pior, porque o lugar venta muito. É complicadíssimo, isso é uma coisa para Dubai, aqueles grandes hotéis, Las Vegas, bem espetacular. É lindo, tem vários efeitos, você condensa a partícula do H2O e ela deixa de ser uma coisa desagregada e aquilo vira como se fosse um tubo de vidro. E você, interrompendo o fluxo, consegue fazer com que aquilo saia, tem um momento de entrada e um de saída. É super bonito, mas isso não é para nós. Nós temos que nos divertir com outra coisa. A gente se diverte é pescando no lago, outra relação. Soltando um barquinho numa enxurrada. Outra coisa é isso, essas drenagens. Antes a gente tinha enxurrada. E hoje em dia as bocas de lobo todas bebem essas águas. Quando nós viemos para o Taquaril pela primeira vez, não existia nenhuma drenagem nessa via inteira até o Cemitério (da Saudade). Um dia choveu tanto, eu não acreditei no que virou essa rua. Era um rio. E vinham pedras, grandes, que loucura. Eles fizeram um trabalho nessa avenida toda e colocaram diversas bocas de lobo. Do Cemitério para baixo não tem mais drenagem, tem uma grande vala, uma loucura, que pega toda a descida de água. A gente vai ficando privado de certas coisas, mas por outro lado é a drenagem que garante obra, não tem jeito de não drenar. Impossível. Urbanizar é uma coisa muito difícil... tem que ter todo um conceito de princípio, meio e fim. De onde vem a água da sua casa? Da COPASA. Voltando àquela questão da gente ter um jardim irrigado. Porque hoje como as pessoas não têm tempo, uma irrigação automatizada facilita muito a vida, garante a sobrevida do jardim e o sucesso do meu trabalho. Apesar da gente considerar que o gasto com água é maior. Eu aqui poderia ter tido uma irrigação automatizada, apesar do meu jardim ser muito complexo, não obedece aos parâmetros normais, é uma bagunça de uma floresta que eu resolvi compor aqui, então eu tenho uma série de bloqueios que não deixariam a irrigação funcionar 100%. Então eu prefiro regar na mangueira. Eu já tive jardineiro todos os dias na casa, hoje em dia eu não tenho mais. E minha atenção ao jardim é aos sábados, eu levo umas 6 horas molhando. Eu começo cedo e
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vou molhando, molhando. Por um outro lado é o único dia que eu tenho de estar com ele, para avaliar os estados das plantas, se tem uma praga, uma lagarta. É aquele dia que eu vou entender o que está acontecendo e é o meu deleite principal. Irrigar o jardim hoje para mim iria me frustrar. Mas quando tenho convites fico dividido entre as obrigações. Sobre a crise hídrica, como responder ao policiamento das pessoas? Eu vou falar uma coisa quase que leviana. Eu gasto água mesmo. Eu não consigo economizar água. Claro que dentro de casa eu tomo cuidados, não escovo dentes de torneira aberta, tenho hábitos econômicos em relação ao uso doméstico da água. Mas quando eu preciso de água para um jardim, eu não consigo ser contido. Eu molho uma vez por semana. Lá no escritório a gente tem um jardim irrigado (automatizado), então diminuímos o tempo para cada setor do jardim. Mesmo porque numa medida de economizar a conta de água. Aqui, curiosamente minha conta não é alta. O uso doméstico é pequeno, então é mesmo quase somente o jardim, minha conta varia entre 250,270, eu acho bem razoável. Mas eu particularmente não consigo economizar. Hoje reduziu o número de cães na minha casa. Eu tinha dois machos. Se você não lava, fica com a casa fedida. Então tem que lavar pelo menos duas vezes por semana. Não tem jeito, acho bem complicado. Acho que é cultural mesmo nosso. O que você atribui como simbolismos da água? Eu não sei viver sem. É vida total. Às vezes fico pensando: “nossa hoje eu fiquei o dia inteiro mexendo com água. Acordei fui molhar planta, depois lavar piso, depois dar banho nos cachorros, depois fui para a cozinha, aquele monte de louça para lavar, aí no fim vou sair, tenho que tomar um banho! Nossa, fiquei o tempo inteiro na água”. Eu reflito muito sobre isso. Às vezes penso no povo que tem a água ali, dentro de um pote, dentro da casa, e a água é aquela. Como deve ser duro ter esse regime. Isso regendo a sua vida, eu acho que eu viveria muito aflito, não conseguiria, ficaria bem desconfortável mesmo. Não temos noção dessa água preciosa. Aqui a gente trata como algo que tá ali, abri a torneira ela está ali. Às vezes você pressuriza, se quer uma água mais potente. Maluco isso. Saindo da casa, em relação aos rios da cidade. Qual é o rio mais próximo da sua casa, que você sabe que existe? Bom, o primeiro que eu atravesso é o (Córrego) do Navio. Ele ainda existia ali, agora a praça urbanizou, canalizou um pedaço, ali tinha uma favelinha, agora tem uns predinhos, que abrigou as pessoas que viviam ao longo do leito do córrego. Deu uma coisa ampla para o lugar, ali era tudo tomado por casinhas, um pequeno aglomerado mesmo. Depois mais para a frente, tem o Arrudas. Eu sempre tive uma onda com os rios da cidade. Atrás do Palácio das Artes tinha uma cachoeira. Quando criança eu ia lá pescar. Eu morava ali perto, na rua dos Otoni, eu e meus irmãos íamos lá pescar. Com um coadorzinho pegava umas piabinhas, chegava em casa todo contente. Era o Acaba Mundo, chega ali. Outro rio da cidade era o Arrudas. Eu ia com meu pai comprar carne no Perrella e ali ao lado daquela fábrica de pregos, tinha um grande abatedouro. Ao lado do Hospital Militar, onde é a Andradas hoje, que não existia, a gente atravessava uma ponte de madeira, grande. Essa ponte era em péssimo estado, com muitas tábuas faltando e eu via lá embaixo o rio. Era alto! Eu via a água e o entorno era coalhado de urubus. Por causa do abatedouro. Era muito impressionante. Eu me lembro de chegar no Perrella, era um galpão lindo, parecia uma igreja, um frontão triangular, uma porta redonda. E em cima da porta tinha uma cabeça de porco. Um porcão gordo e saltava assim para fora, como um troféu de caça. Aquela cabeça projetada assim e pintada, colorida. E eu passava olhando, aquela cabeça me impressionava muito. E, dentro desse galpão, já era uma instalação bem moderna, de frigorífico. Tudo muito em metal e azulejo branco, todo mundo de roupa e botina branca, gorro branco. E umas balanças estranhas, que eram penduradas pelo teto. A gente comprava carne para o uso doméstico, comprava banha, carne de porco, linguiça. Era uma tarefa divertida, ir com meu pai fazer isso. Esse vale do Arrudas já era amplo? Sim, ali já era bem subúrbio, bem natureza. Tinha o hospital militar de construção significante, o resto, poucas cazinhas. Eu estava indo para o mato mesmo. Sem ocupação.
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De que maneira se poderia pensar numa convivência maior entre as pessoas e o rio, que não seja avenida ou parque? Eu acho que a gente precisa é de ter dinheiro, né? Fico vendo quando vou a Sabará, por exemplo, vejo aquele rio lindo passando na cidade, com casas horrorosas em volta. Ali era para ser uma maravilha! E isso é falta de dinheiro. E a permanência de uma política de que o rio serve para jogar o meu lixo, o esgoto. O rio ali é algo usado para servir dessa forma bem desumana, não trata o lugar como um aliado. Eu, quando tinha essa água aqui perto com mais frequência, ficava aflito que as pessoas jogavam lixo, entulho na rua. Aquilo me ofendia tanto. Eu ia lá, limpava, pensei, “vou colocar uma placa”. Essa água acabou de nascer. É um abuso! Dá para ela mais 200 metros de limpeza, para prosseguir um pouco mais limpa. Fico pensando como no século XIX, no XVIII, no RJ, as famílias abastadas doavam para a cidade um chafariz, um bebedouro, um lugar para aquela água ser servida pelas pessoas. Então aquela água que acabou de nascer eu pensei em chamar meus amigos arquitetos para fazer um projeto, e a gente coletar uma grana, e fazer ali uma bica, com uma bacia que as pessoas podem ir lá e se servirem dessa água. Está passando, andando de bicicleta, está suado, vai lá e lava o rosto, a mão, bebe uma água fresca. E a pessoa entende que aquilo como um ato gentil e trata de uma maneira mais amistosa. Eu acho que seria isso, precisa tratar a ´ågua de uma maneira mais amistosa e oferecer essa água para as pessoas. Eu fiz um trabalho junto com a Ana Schimdt, lá em Ipatinga, para o Ribeirão Ipanema. Ele era 90% despoluído e iam despoluir 100%. Ela fez um projeto de parque linear, uma parte tinha sido tratada pelo Burle Marx, e ela prosseguiu. Na época do Chico Ferramenta [prefeito do PT], a Prefeitura fez esse tratamento desse trecho do rio. E o trabalho da Ana era colocar a população em contato com esse rio. Foi feita uma série de decks, praias, lugares de pesqueiro, de ficar, de redeiros, onde as pessoas pudessem passar um dia em contato com o rio. Não sei se o projeto foi realizado. Eu devo ter feito o projeto em 2000-‐2001, por aí. Foi um trabalho bonito. Eu acho que é isso, precisávamos fazer um trabalho para os rios serem vistos e usados. Para não ter ali aquele barranco maltratado, para não ter o uso do espaço de maneira desrespeitosa. Criar pontes, para que as pessoas pudessem ir daqui para lá, de lá para cá. Fazer as pazes com esses lugares. O rio é tratado como inimigo, aquela água me transmite doença, tem mosquito, tem esgoto, lixo, pneu, sofá, um monte de garrafa pet. O lugar vai se deteriorando... é uma isca, se você jogou um, vem milhões na sequência. Eu hoje não sei muito bem, parece que existe uma maneira de reverter isso, eu vejo nas pessoas o interesse em reverter, mas o contrário ainda também está muito forte. Uma coisa que poderia ter, era um lugar onde as pessoas pudessem deixar seu lixo. E uma questão de criar hábitos mesmo. É igual uma mãe com seu filho, um trabalho constante, diário, um dia, quarenta dias, 1 ano, 3 anos e nunca acaba. Não fica pronto. Esse trabalho de educação é contínuo, sistemático e para sempre. Até ter aquilo introjetado, quando você ver alguém jogando um lixo e arrepiar mesmo. Entrar no âmago da formação da pessoa, do grupo social. Até mesmo aqui no bairro a gente vê que os vizinhos não são cuidadosos com seus vizinhos, não têm capricho um com o outro. No depósito de lixo deles, eles colocam na véspera do lixeiro passar, vem o cachorro... é complicado. O que é uma cidade para você? A cidade é um acúmulo. Se você procura nessas páginas de fotos antigas de BH, leva cada tapa, né? Como essa cidade era caipira, como era verde, como ela era pequena. Ela é pequena. Uma rua gigante com um monte casinhas, e hoje onde tinha uma casinha, moram 20 famílias. Então a pressão dessa ocupação é de fato brutal. E é fascinante, a cidade quanto mais velha, mais interessante. Desde que você seja caprichoso, zeloso com ela. Ter um olhar cuidadoso. A gente poderia ter tido uma cidade absurda, se ela tivesse sido mantida dentro da Contorno, seu projeto original urbanístico, a gente ia ter todos os etilos do século XX. E lindas! As casas foram sendo achatadas, eu fui levando cada tapa, que eu não acreditava. As janelas daqui de casa são todas de demolição. E eu sei de cada casa. Essa aqui por exemplo veio da casa do Haroldo Mattos, na Rua Grão Pará, ao lado da casa da minha avó, onde hoje é a clínica do Neylon Lasmar. Então tudo tem uma história absurda. As casas eram lindas, que não dá para acreditar que alguém teve a coragem de achatar aquilo, não manter. Eu acho que passa muito por essas famílias de grandes do Brasil, que tem muitos filhos, cujo patrimônio serve para ser dividido, então ele tem que ser vendido um dia e vem a pressão imobiliária.
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A gente tem dificuldade com a pré-‐existência, né? Seja da natureza, seja do que nós mesmos construímos antes. Onde a gente vai parar? A pressão imobiliária é um troço horrível, né. Eu lido com isso no meu cotidiano. Vem aí agora essa Cesul, para aqueles lados de Nova Lima, o que vai ser aquilo? Aquele mundo de gente, o lugar sem infra nenhuma. É um novo plano urbanístico para a região da Lagoa dos Ingleses, para 150 mil pessoas. Já está tendo reunião de Licenciamento Ambiental, mas como que vai uma cidade parar ali, daquele jeito? E não tem metrô? Como as pessoas vão chegar e sair, seus funcionários? Água, drenagem de esgoto, serviços, é uma questão gigante. É um projeto para 60 anos, mas tem sido uma discussão sobre a viabilidade ou não. Se não houver um plano urbano que contemple esses equipamentos para aquele lugar funcionar, vai ser um empilhamento de problemas. Aquele Belvedere que as pessoas não conseguem sair daquela rotatória do Shopping, da Raja, do Buritis, e aí vai, só subindo o problema. E essa água? Aquela água da Lagoa das Ingleses é super preciosa, porque ela é alimentada por um córrego ínfimo, uma peninha, e é basicamente água de chuva. E é uma água muito cristalina, tem gente que faz mergulho ali e diz que ela é um absurdo de limpa. E naquela margem quando abaixa, no período de estiagem, e depois sobe, essa variação atrai uma fauna única, chamada de campos hidromórficos, que vive ali e é de uma delicadeza. Tanto que ali não é permitido barco a motor. Porque as marolas danificariam tudo. Então é algo que é mantido de forma delicada e a pressão nesse lugar seria radical. O próprio Alphaville tem uma conta de água que as pessoas não dão conta de pagar. Então abrem poços então começa a impactar o lençol. A conta lá é um tratamento próprio, que vem na conta das pessoas. Eles têm duas contas, uma para jardim e outra para o consumo doméstico. E a do jardim é mais barata, se não as pessoas abandonam o jardim. E muita gente abre poços e isso começa a impactar a lagoa. Então essa pressão é dura. É uma coisa quase incontrolável. Então eu acho que temos que ser chatos sim, não podemos deixar uma unha, colocar o dedo na cara das pessoas e dizer: “aqui você não mexe não”. O meio imobiliário é truculento. Então não tem muita conversa. A gente é muito chamado para fazer paisagismo de condomínio, de portaria, arborização. E aí é um equívoco. As pessoas falam: isso aqui é o Boulevard tal. “Você sabe o que é um Boulevard?” Presta atenção no que você está oferecendo. ´E tudo tacanha porque tem que ter tanto lote que as áreas compartilhadas, são a pior possível. E isso a gente vê nos condomínios/prédios de luxo. A pessoa mora num prédio no Belvdere suntuoso com um jardim espetacular e quanto tem a despesa extra para manutenção, ele não quer fazer. Ele não dá a mínima para aquilo que ele compartilha com outras pessoas, mas a fazenda dele, a casa de Escarpas, aqueilo é ultra bme mantido. Mas o que é compartilhado não tem interesse em contribuir. Acho que isso é da alma dessa classe, é mesquinha no âmago. Eu não divido. Entre o público e o privado, é difícil. E nos prédios, na cidade mesmo, essas portarias com vidros verdes. São lugares onde ninguém vai. Que tipo de lugar poderia ser aquele? Tem a questão da segurança que virou algo que não tem jeito ignorar. Temos que de fato blindar, selar, controlar e aí o vidro passou a ser um elemento barato. Tem aquilo que é falsamente livre e generosa pois dá uma ampla visão daquele espaço, mas é de uma crueza profunda. Acho que o gradil seria mais gentil, até mesmo para a fauna, porque o que tem de passarinho morrendo nesses vidros é uma coisa incrível. Eles acham que é livre e se arrebentam ali. Agora eu acho que as construtoras seguem a legislação de x m2 de área verde. E a escolha desse jardim é feita pelo departamento de compras. O cara faz a cotação, de um kit jardim, compra do mais barato, sem planejamento algum. Algumas construtoras dão algum valor para isso, contratam a gente para um projeto com elaboração, contexto, para agregar valor ao prédio, tem um arquiteto, pois nem sempre é arquiteto, pode ser engenheiro. A gente já teve casas populares feitas por Paulo Mendes da rocha. Esses MRV hoje... Fui chamado por uma construtora pra fazer um Minha Casa Minha Vida que eles consideraram diferente porque perceberam que o jardim trazia para o lugar uma certa, dava uma levantada. E aí eu vi, de fato,
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lá no bairro Tirol tem um conjunto habitacional com um jardim tão bom que o prédio degradou e o jardim dá uma dignidade para aquele lugar. Tudo que foi plantado foi bom. As árvores são boas. Uns Paus-‐Ferro que hoje estão gigantes, lindos, criam um conforto térmico. As copas das árvores estão em frente às janelas e as estruturas de palmeiras estão muito bem posicionadas e criou todo um cenário bonito. A parte verde, com o passar do tempo, ao contrário da edificação, ganhou uma magnitude e decência. E eu citei isso para o cara da construtora. O Estrela Dalva, do Joel Campolina, é incrível aquele conjunto. Olhando no Google Maps é uma bolha no meio daquele Buritis super ocupado. Recentemente eu fui visitar uma fazenda, fui de helicóptero, com o cliente, e nós passamos por cima. E olha que a vegetação do Estrela Dalva não é lá essas coisas. Tem umas casuarinas, uns pinheiros, que não é do meu agrado. Poderiam ter sido plantadas umas árvores que nesses anos teriam virado uma coisa incrível. Se você planta uma árvore boa, no lugar certo, que não vai tirar sol de ninguém, não vai causar problema no piso, ela vai longe. Na região hospitalar, deixei outro dia meu carro na Bernardo Monteiro, ali nos Fícus. Gente, porque não trocam aquelas árvores? 3 anos já se passaram, já era para ter uma árvore crescida no lugar. Tem uma queda de braço difícil aí. Tem um povo querendo que o Fícus fique e fica aquele troço, deprimente. E ainda bem que aquele Fícus foi embora, uma árvore exótica, que não é da nossa flora. Vamos plantar ali uma sapucaia, um monte de Pau Ferro, olha que beleza a avenida Barbacena. Planta uma árvore que de fato nos diz alguma coisa, fica aquele troço fantasmagórico. E também tem isso, lidar com a cidade, a gente lida com as tensões, cada um achando que deve salvar, manter até a última gota, igual um idoso na UTI, vivendo mais 40 anos no soro. Essa coisa católica, temos que lutar até o último recurso. Tira logo, estamos perdendo tempo. Planeja direito agora, não tem que plantar fícus ali mais não. Já deu. Fico vendo as pessoas com aquele saudosismo pela Avenida Afonso Pena, que era lindo. Era lindo nada, era um tubo de uma planta única, besta, totalmente controlada, tendo que ser podada, um trabalhão danado. Uma planta bruta. Uma figueira no meio de um pasto, onde ela possa atingir uma magnitude, para dar sombra para as vacas, é uma beleza. Agora aquele batalhão único é muito feio. Hoje a arborização da Afonso Pena é uma riqueza. No trecho da Praça ABC, as Sapucaias estão lindas. À medida que você vai descendo tem umas coisas lindas. Perto da Praça Tiradentes tem um conjunto de Ipês brancos, que é um espetáculo. Mas esse olhar não existe. Precisa ter um relato sobre o que nós temos que é uma beleza. Temos esse conjunto que é uma presença única, que tá ali marcando a que veio. Foi uma coisa ótima o que o Carone fez, ter acabado com aquela ficaiada boba. Acho que cidade é um troço assim, eu aqui estou morando na borda de uma cidade, né? Saio dela e fico vendo, as luzinhas vão raleando e elas estão chegando. Isso me traz uma coisa muito boa, de não estar dentro da cidade. Quando a gente mudou para cá e fomos limpar as coisas, os quadros, a gente passava o pano, saía uma graxa preta. E a nossa poeira aqui é vermelha. É de roça total. É terra. Tem uma mineração enorme aqui, o vermelho vem muito de lá, o vento é dominante nesse sentido. Em um exercício de amarrar essas ideias todas que você trouxe, o que você chamaria de natureza? Pois é, acho que são os quintais. Quintal é um grande reduto... o espaço residual da natureza, onde alguém, com um olhar sensível, impregnou o espaço com alguma coisa ligada ao seu afeto. Então eu acho que são de fato os quintais que vão nos trazer ainda alguma coisa de natureza urbana. Tem uma planta que foi presente em todos os quintais do Rio de Janeiro, uma fruta, e está hoje praticamente extinta. É a fruta mais saborosa brasileira, da família da jabuticaba, nativa da Mata Atlântica, e hoje é uma planta rara. Procura saber sobre o cambucá. Essa é outra planta que onde eu puder, eu vou plantar. É minha possibilidade de ensinar alguém que um dia a gente teve uma fruta que estava nas famílias, uma planta presente e hoje praticamente desconhecida. É necessário que esses quintais abriguem essas coisas.
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O quintal da casa dos meus pais, a casa já foi vendida, mas quem comprou manteve tudo na íntegra. Meu pai já era um homem idoso, quando eu nasci ele já tinha 60 anos. Um dia, ele chegou em casa com uma sacola com duas mudinhas de jabuticaba. E perguntou para a minha mãe: “Ô Dora, será que eu vou chupar essa jabuticaba?”. Essa jabuticaba cresceu, deu até falar chega e estão lá firmes e fortes. Olha a história que tem isso. Acompanhou uma família, hoje está com outra. Isso, eu olho no Google Maps e vejo, ela é uma bola! Tem os conjuntos urbanos que são adoráveis, como não falar dos Paus-‐Ferro da Avenida Barbacena, as figueiras que estão no estacionamento da Escola de Medicina [da UFMG], é um troço que não tem explicação de tão bonito. Eles foram podados de uma maneira muito delicada, não viraram aqueles monstros cabeludos. E pela densidade do plantio, criou-‐se aquele bosque tão incrível. Ali, sim, um uso lindo do Fícus, que fez um conjunto verde de muita expressão. As mangueiras da Avenida Alfredo Balena. Tem uma série... alguns Paus-‐Mulato que estão em alguns jardins modernistas pela cidade, eu localizo alguns. Em frente à Dona Lucinha, no São Pedro. Tem outro perto do Mater Dei numa casa do Lúcio Costa. Tem um lindo no Museu de Arte da Pampulha, o casino. Tem alguns elementos que com o olhar de paisagista, localizo, e às vezes eu vou visitar! Tem o Museu de História Natural, que é incrível. Até bem pouco tempo atrás estava vivo o autor daquele espaço botânico, o Professor Camilo, que era uma criatura. No escritório dele, lá dentro, tem as fotos dos Jequitibás que ele plantou, que hoje são enormes. Ele com uma cobertinha de palha, para eles não queimarem no sol, em meio àquele campo limpo. Então você entender que o homem transforma o espaço, se você tivesse vindo aqui de dia, você ia ver o que construímos aqui ao longo dos anos, a partir de um campo limpo. Muita coisa foi plantada da semente e hoje são megaestruturas. E que a gente transforma, de fato. Foi descoberto recentemente perto de Ilhéus, na região do uma, uma castanha do pará de 2.000 anos, com um tronco sem explicação, e ela é única. Ou seja, um cara, veio com uma canoa e plantou ali uma Castanha do Pará. Outro lugar que foi muito transformado, a gente foi chamado por empreendedor que fez o Retiro do Chalé. Eles nos mostraram umas fotos do Retiro quando foi lançado. A casa da Lina Bo Bardi! Isso, e hoje é um bosque. Se a gente considerar a nossa vida nessa casa, que é um tempo curto, tem uns 25 anos, nesse tempo criamos esse bosque, todo plantado. É muito impressionante. Dá um ânimo muito grande em plantar. Eu costumo falar muito isso para os meus clientes, principalmente jovens casais, que estão começando vida com filho pequeno, que não precisa ter nada adulto, grande, espetacular. Planta e vê crescer, ensina seus filhos a observar esse desenvolvimento. Hoje o jardim tem uma insolação, amanhã vai ter outra, e o que vai viver debaixo disso vai ser outra coisa. Porque o jardim ele vai, ele transmuta. Olhar para isso é o que interessa. Entender que ele passa por um desenvolvimento, que as áreas vão sendo transformadas. As estruturas principais do jardim são o teto, os arbustos são as paredes e as forrações, são os pisos, os assoalhos. Entender que as plantas de menor importância, vamos dizer, elas vão mudando. Mas as estruturas são a configuração final de um jardim. E é bonito entender isso. Como pensamento mesmo da nossa presença no espaço. Nesse momento, quando a gente explica, justifica, mostra o temperamento daquela planta, o que ela vai exigir de você e com o que ela vai retribuir, o que aquilo vai te trazer, de fato arrebata as pessoas. E a gente percebe as profissões que são mais voltadas com um olhar sensível e delicado para um jardim, geralmente é a turma da saúde. Pessoal ligado à vida, que entende as necessidades de um ser vivo, têm um olhar mais de interesse por isso. Os advogados de um modo geral têm zero. * * *
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Maria José Zeferino Vieira (Majô Zeferino), 60 anos. Localização: Córrego Nossa Senhora da Piedade (bacia do Onça) Moradora do bairro Guarani, foi professora de educação física e bibliotecária da Escola Municipal Hélio Pellegrino e esteve à frente na relação com a comunidade durante o processo de criação do Parque N. S. da Piedade, do programa DRENURBS, inaugurado em 2008. Foi coordenadora-‐geral e é hoje conselheira do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça. Atua ainda na diretoria do Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (COMUPRA), envolvida principalmente na militância pela efetivação do projeto do Parque Ciliar do Onça (articulado pelo movimento “Deixe o Onça Beber Água Limpa”). MAJÔ – Tem 60 anos que eu moro na bacia do baixo Onça. Eu vim para o bairro São Gabriel eu tinha 3 anos de idade, hoje eu tenho 63. E a minha convivência com o Ribeirão Onça era muito grande. Não tinha nada no bairro São Gabriel, um bairro muito novo. E eu estudava, ia para a igreja, tudo da minha vida, desde os 3 anos de idade, era no bairro Aarão Reis. Então eu tinha que atravessar o Onça. Eu estudei na escola no bairro Aarão Reis, eu morava bem acima, no São Gabriel, onde não ia enchente, mas para chegar na escola e na igreja eu tinha que passar pelas enchentes. O rio tinha uma ponte de balanço de um lado para o outro do bairro e quando chovia, a água passava por cima dessa ponte. E a gente tinha pessoas que olhavam a gente, “pode ir, pode atravessar”, seu pai pediu para eu ficar te olhando. Então são aquelas histórias antigas que fazem a gente não esquecer do contato que a gente tem com o rio. Ele estava ali porque se eu caísse ali dentro, ele ia falar para o meu pai e dando força para a gente atravessar aquela ponte. E nós somos uma família de muitos irmãos. Éramos 12. Eu sou a quinta filha e nós cinco estudamos atravessando o Ribeirão Onça, porque os outros já conseguiram escola no bairro São Gabriel. Às vezes não tinha ponte não, ou, para encurtar o caminho, se o rio estava vazio, porque não era época de chuva, a gente atravessava dentro dele mesmo. Ia nadando. Já nadei nas corredeiras, na cachoeira do Onça. Então para mim, esse amor que eu tenho, às vezes eu emociono, falando, porque é muito triste você ver o que você fez, para deixar para seus filhos, para seus netos. Meus já filhos não tiveram e para meus netos, então, eu quero ver o que eu posso deixar para eles, pelo menos para os netos. Quando eu casei, fui morar no bairro Guarani, e lá a gente tinha contato com Córrego N.S. da Piedade. O córrego era cheio de nascente, a gente era de grupo de jovens, e íamos para a casa dos amigos e lá nesse bairro eles faziam poços de água e antes de colocar peixes, a gente claro que ia nadar. Então a gente nadava muito naquelas nascentes onde se fazia aqueles poços. Era tipo uma lagoinha mesmo, para colocar peixe e aproveitar dessas nascentes. Todas as casas do bairro Guarani, do entorno do parque N.S. da Piedade, toda casa tinha uma nascente – tem ainda, algumas ainda tem. Tirando 2, 3 casas do entorno todo, de um lado e do outro, ainda tem nascente dentro das casas. Porque a água é muito presente ali, de um lado e do outro. E muitas foram canalizadas para o córrego, algumas drenadas, outras tampadas. Quando veio o projeto, algumas foram drenadas. Mas a vazão fica muito pouca quando drena, você perde muito da água na drenagem, porque colocou asfalto em cima. Então eu fui criada e estudei nesses dois bairros e quando eu já tinha meus 4 filhos, nós conseguimos uma escola no bairro Guarani -‐ com muita luta porque o bairro não tinha escola, os meninos tinham que andar muito para ir à escola, aí já são os filhos, né? -‐ E aí nós conseguimos uma escola e justamente atrás da minha casa. E eu fui trabalhar nessa escola, que ficava numa rua sem saída. Ela dava no brejo. “Onde você mora?”, “Ah, moro lá no brejo”. O pessoal brincava: “Uai, virou sapo”. Mas justamente porque as ruas do bairro Guarani não tinham ruas. Em 1995 comecei a trabalhar nessa escola e veio a Escola Plural, que era você trabalhar além da sala de aula, além dos portões. E era um trabalho que eu gostava, como professora de Educação Física e Artes, eu nunca gostei de trabalhar fechada. Nessa época fui trabalhar na biblioteca, porque tive uma licença por causa de voz, mas eu não aguentava ficar sem os alunos, então participava dos projetos da escola. E fomos para a Argentina. Com 40 alunos! Me dá saudade às vezes de alguns prefeitos de BH, igual ao Célio de Castro. Nós temos esse córrego, foi um projeto dele, o Drenurbs. E a gente foi para a Argentina trabalhar o Mercosul. Depois eles vieram aqui e nós
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fomos trabalhar em 1999 com qualidade de água. Porque na Argentina eles trabalham muito a qualidade do leite. Lá eles eram de uma escola particular. Nós éramos uma escola pública, pobre, meninos que nunca tinha ido nem ao centro, foram parar na Argentina. Alunos de 13, 14, 15 anos no máximo. Fomos de ônibus, 48 horas de viagem. E chegando lá nós falamos “Nossa água é muito boa”, porque nós passamos sede na Argentina. A água lá é horrível, nem a água mineral de lá é boa. Parece que tem cal, leite magnésio, horrível. E então nós resolvemos trabalhar a água. Eu trabalhava na biblioteca e só dava apoio às pesquisas, aos trabalhos, nas reuniões. Aí o pessoal de geografia e português falaram, vamos trabalhar fazendo pesquisa de campo, para saber o que mais prejudica nossos moradores, com os pais dos alunos. Aí pesquisamos renda, um questionário socioeconômico, onde até eu mesma, moradora ali, me deparei com o problema maior dos moradores do entorno da escola, era o córrego. Estava todo assoreado, era um esgoto a céu aberto. Com várias casas, tipo sítio, com 3, 4 gerações morando nos lotes. Aí nós fomos para a COPASA, para a Prefeitura, porque depois do projeto com a Argentina nós fomos reconhecidos, como primeira escola pública a sair do país. Aí nós fizemos esse projeto, os argentinos vieram, visitaram o córrego, visitamos a Pampulha, fizemos muitas atividades com eles. Para mim a escola plural foi a melhor que já teve, mas quando ela virou escola que tem que ter ordem para fazer, aí acabou. Porque as experiências que foram feitas eram as nossas experiências mesmo de trabalhar fora de sala, com outras atividades para os alunos aprenderem. Aí quando vira lei, parece que não dá certo. Você não tem abertura, tem que fazer aquilo que está determinado. Eu cheguei a fazer um concurso e uma das experiências que tinham no livro era minha, com meus colegas de escola. E quando eu fiz o concurso eu fui reprovada justamente na parte da Escola Plural. Gente, eu narrei minhas experiências e errei? Avaliação não é... eu nunca gostei de avaliação mesmo. Eu acho que com os alunos é no dia a dia, o aprendizado dele. Esses alunos aprenderam muito, até hoje a gente encontra. ELISA -‐ Como foram os depoimentos dos moradores a respeito do córrego? Quando veio a pesquisa, eles falavam. Contaram que quando chegavam em casa... porque o esgoto de todo mundo ia para o córrego. Porque se abrisse uma fossa, dava na água. Abria um metro tinha água. E já que a COPASA colhia nossa água servida e despejava no córrego, porque o morador ia pagar para levar a água dele servida para o córrego? Foi a pergunta que eu, com meus alunos, fizemos para o engenheiro Luís Nogueira. Para onde vai meu esgoto? “Ele corre 100 metros e cai dentro do córrego”. Uai, e eu pago tão caro! Então é melhor eu juntar com meus vizinhos, fazer uma rede de vizinhos e fazer um esgoto nosso mesmo e jogar aqui no Córrego. Eu tô sujando o meu córrego? Aí ele pegou e falou “não, mas agora já tem a ETE Onça, então vamos colocar os interceptores”. Mas até chegar a ETE Onça, quem é que poluía os córregos? Porque a gente pagava pela nossa água servida. Então os alunos aprenderam muito com isso, a pensar “eu vou pagar. Mas então que tire meu esgoto do córrego”. Os alunos, as famílias, faziam depoimentos horrendos sobre o esgoto, ratazanas que pareciam gatos, avançavam nas sacolas de supermercado quando o pessoal chegava na beirada do córrego. O alimento deles dentro de casa, não perecível. Fubá, arroz, tudo tinha que ficar nos saquinhos, embalado em latas, se não no outro dia estava tudo furado. Então nós descobrimos que tínhamos que trabalhar a água. Isso foi em 1999. Quando foi em 2001, a gente ia voltar na Argentina, a gente ia falar sobre ética, aqui e lá. Quando foi no dia 11 de setembro o Bin Laden... E eles viriam no dia 18 e aí simplesmente no dia 13 a inspetora de Buenos Aires nos ligou dizendo que não tinha como, que a viagem estava planejada de avião e na argentina tem muito muçulmanos, eles não iam arriscar. Aí o projeto mudou de rumo, mas fomos entrevistados por uma professora da Newton de Paiva que gostou muito do nosso projeto “Qualidade de Vida” e nos mostrou o caminho do Projeto Manuelzão. Escola Helio Pellegrino. Aí eles viram que nós tínhamos alunos da idade, já tínhamos um grupo, o Manuelzão estava fazendo os núcleos, então nós pegamos e começamos como um núcleo, Amigos do Córrego, 50 alunos. Aí eles abraçaram, um projeto pronto, como não incluir? O grupo estava pronto, dentro de uma escola. Para mim projeto só resolve e tem mais visibilidade, mais pertencimento quando você vai para a escola. Aí nós começamos a trabalhar junto com Manuelzão em fevereiro. Em março nosso núcleo estava formado, trabalhando junto com a Prefeitura, foi incluído no projeto Drenurbs-‐Nascentes. Por isso fizemos o núcleo, e já tinham as crianças e a comunidade escolar. Aí vem. O PM nos ensinou o caminho, o mesmo objetivo que a gente tinha e o conhecimento que adquirimos com nosso trabalho de campo, sobre os meninos estarem chegando na escola doentes e a
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aprendizagem era menor, difícil, por causa da poluição da água. Isso ficou claro. E o Manuelzão tinha essa ideia. Então vimos que batia demais. O professor Apolo era o presidente do Manuelzão, tivemos muita assistência. Fizemos parceria com a COPASA e a Prefeitura. Juntos vimos o que poderíamos fazer para ajudar, como atuar. E em 2003 o presidente do BID veio visitar o córrego e falou “eu quero ver esse inaugurado”. Aí o nosso parque era o mais caro, porque os terrenos eram registrados, então a desapropriação foi muito cara. Quase perdemos por isso, eles levaram o projeto para o Baleares e 1º de Maio, onde a indenização era muito mais barata. Mas depois dessa visita do BID e nosso gerente era muito bom, mandou arrumar a área do parque toda. E ele viu, nós tínhamos nascente dentro de serraria, temos até vídeo disso, de pessoas que nem existem mais. Que quando viu que a escola estava trabalhando falaram “agora eu posso morrer, porque sei que o Córrego N. S. da Piedade vai ser recuperado e nós vamos ter uma via de ida e vinda de carro, não precisamos passar pelo lote dos outros”. Para chegar no bairro Guarani, não tínhamos passagem do bairro Aarão Reis para o Providência. Aí em 2003 começou, foi aprovado. E quando foi em 2006 começaram as obras, e eu ganhei muita aposta, porque ninguém acreditava. E 2008 foram entregues as obras e com um presente, ainda, porque conseguimos um Centro de Educação Ambiental lá dentro. Eu fui convidada para trabalhar lá – sozinha e Deus! Fazia tudo sem verba nenhuma, para descentralizar a educação ambiental da Secretaria [Municipal de Meio Ambiente]. E hoje lá continua existindo, num modelo diferente, porque quando chegou o prefeito Márcio Lacerda ele cortou muita coisa. De conservação, lá, as pessoas que trabalham lá, fazem isso por amor, porque sucatearam todos os parques de BH, porque eles tinham monitor, policiamento, vigias, em duplas. Nosso parque foi o primeiro a funcionar de segunda a segunda, e continua, mas infelizmente a gente é agredido pelo vandalismo hoje em dia, porque não tem policiamento. Se algo acontece lá temos que chamar polícia e até chegar eles já foram embora. Roubo da fauna e da flora. Vira e mexe ouvimos reclamação, mas é difícil. Mas lá ainda está muito bonito, os jardins estão bem tratados. Logo depois da inauguração o parque ganhou como o prêmio Parque Jardim. A escola Helio Pellegrino ganhou 3 prêmios por causa do projeto Escola Cidadã: um em São Paulo, em 2006, Escola Voluntária, fomos o primeiro colocado entre 500 escolas sendo 250 de São Paulo, muitas escolas particulares. Pelo Projeto Manuelzão ganhamos o prêmio de Escola Exemplo; e também o prêmio Paulo Freire, da Prefeitura, em 1998. Mas esse até hoje não recebemos, 10 anos depois. Conta um pouco sobre quando você tinha que atravessar o Onça, na ponte. Era uma pinguela, um coqueiro que eles cortavam de um lado e de outro e você atravessava. Era bom porque a gente praticava muito equilíbrio. Como era seu sentimento pelo rio naquela época? Tinha o perigo, mas também gostava da água... O perigo não... a gente gostava muito de passar na água e tínhamos 3 matadouros que despejavam à montante, no bairro SP, onde está o metrô. É ali que o Ribeirão Onça recebe esse nome. A bacia dele vem lá de contagem, porque nós somos alimentados por água desde contagem, tinha uma fazenda ali onde ficava a nascente de tudo, passa pela Pampulha e vem. E o Cachoeirinha e os outros córregos e nascentes no entorno vão circular o bairro, do São Gabriel até Santa Luzia. Então naquela época, como criança, o meu rio era para lazer. Eu enxergava ele como lugar para nadar. Eu atravessava e às vezes saía do outro lado com uma camada de gordura e sangue nas pernas [do matadouro]. Muitas pessoas tiravam areia dele, vivia disso e mais as olarias que tinham perto. E essa parte dava para navegar, vamos colocar assim. Tanto que o nome Onça, nós descobrimos em 1992, 93, por um trabalho de entrevistas da escola. Os Werneck, Clemente Rocha, eram os donos dessa região, Floramar, Tupi. Ainda existem essas famílias por ali, com esses sobrenomes. Os mais antigos têm 80 anos... e eles falaram de 3 razões para o nome Onça, do Ribeirão Onça. E por isso a gente tirou o “da” e o “do”, porque a gente não sabe. Algumas pessoas falavam que era por causa de um senhor muito bravo, chamado de Onça. Então para atravessar entre as fazendas que ficavam na beira do ribeirão, as pessoas tinham que gritar pedindo a permissão dele, e chamavam de Onça. “Senhor Onça”, porque passava dentro das terras dele e o homem era muito bravo. Ou talvez fosse só o sobrenome dele. A segunda hipótese é porque o Onça foi navegado e teve ouro. E a medida era onça. E a terceira era por causa de jaguatiricas, que tinha na região. A primeira cartilha que o subcomitê fez conta essa história.
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Porque, depois dos núcleos do Manuelzão, nós nos reunimos e conseguimos fazer um comitê de bacia – foi o primeiro sub-‐comitê de bacia do Brasil que se efetivou. A gente começou, naquela luta, junto com o Projeto Manuelzão. Então a gente fala que ele é nosso pai. Nos reunimos desde 2001, 2002. Na mesma época dos núcleos, começamos a fazer essas reuniões. Com o Manuelzão, reunido com Prefeitura, órgão público e sociedade civil e usuários maiores, montamos os subcomitês, para pegar as demandas das diferentes regiões, da população, e levar para o comitê. Porque ele é muito pequeno para rodar o Rio das Velhas, desde a Cachoeira das Andorinhas até lá na Barra do Guaicuí. É muito extenso. Então vamos fazer subcomitês por bacias de ribeirão, que é menor. Por isso que quando chamam meu ribeirão de córrego, eu brigo. Córrego do Onça está na divisa com São Paulo, em Extrema. Aqui é Ribeirão do Onça. Outro dia a Globo falou certinho, eu até mandei um recadinho, que até que enfim eles aprenderam o nome do meu ribeirão. Eu participei desde o começo, então falo com pertencimento mesmo. E conseguimos fazer o nosso subcomitê, foi o primeiro no Brasil, o do Onça. Logo depois foi o do Arrudas. Ele vem justamente para descentralizar. Se o povo não participa do subcomitê, ele não vai ganhar nada não. Tudo é assim. Se você não participa de um COMUSA, de um OP, não adianta. Você tem que lutar pelo que você quer. Foi o que aconteceu com o Córrego Nossa Senhora da Piedade e hoje a gente consegue a visibilidade aqui do baixo onça é através do COMUPRA. Eu não tenho dúvida. O Tamboril é Seu Zé Américo, o Toninho e a Luciana. No primeiro projeto de nascentes não podia colocar nascentes públicas e a gente brigou. Na época a gente brigou, eu era coordenadora, falamos que não podia o Tamboril ficar fora mais uma vez. Porque já tinha ficado de fora do Drenurbs. Mas porque nós conseguimos e eles não? Porque estávamos dentro de um trabalho do formato que nós queríamos. Para o Tamboril a Prefeitura fez um projeto e a comunidade não aceitou. Aí ele tem que voltar para votação. E é um projeto muito difícil, por causa da população que está dentro do rio. A própria Prefeitura fez errado, ela mesma não seguiu a lei. E é muito grande. Como era no N. S. da Piedade? Nós tínhamos 136 famílias. Mas a indenização mais barata deve ter ficado em torno de 100 mil. As pessoas que aceitaram mais rápido a oferta da Prefeitura, ficaram ali perto, no bairro mesmo. Um, a nascente principal era um sítio. Esse foi o mais caro. Que é onde está agora o espelho d’ågua. Esse eu me lembro que foi 450 mil. Aí os outros moradores começaram a ficar com ciúmes. Mas é porque tinha um lago, tinha tantas nascentes, árvores frutíferas. Mas era pouco, 12 reais cada planta. Mas no montante acaba subindo. Tem umas pessoas que não passam lá, dão a volta. Então tem família que tem mágoa até hoje. Tem casos que tinha muitas famílias morando dentro de um mesmo terreno e o projeto só indenizava um, o proprietário, que teria que dividir com os outros. Mas são poucos. Muitos agradecem. Por que o programa de valorização não incluía nascentes no espaço público? É porque o projeto era valorização dos cuidadores de nascentes. Não era valorização das nascentes. A gente queria cuidar daquele que cuida. O que a gente queria era tentar fazer com que a Prefeitura valorizasse esses cuidadores através de uma contribuição. Aí foi pensada uma isenção de imposto. Mas a maioria das nascentes está locais onde a pessoa não tem posse do terreno. Edificação/construção irregular, moradia irregular. Aí a Prefeitura se trava, não pode fazer. Então por isso que outros tampam as nascentes porque para eles se tivessem e contassem que tinha nascente indo para o esgoto, aí eles teriam que pagar sobre a vazão dessa nascente. Na rua eles não poderiam deixar porque se não os vizinhos iriam reclamar da água na porta deles. Aí a valorização passou a ser fazer alguma ação na nascente. Eram 168, tínhamos que colocar 60 no catálogo e escolher 30 para ter intervenção. Aí conseguimos colocar a nascente do Felicidade e a nascente da Dona Júlia. Na etapa seguinte, suamos para conseguir que a Agência Peixe Vivo mudasse o contrato. Conseguimos colocar Nascente Fundamental, da Dona Julia. Aí já não era mais valorização do cuidador e sim da nascente. Como que eu vou dar dinheiro para a Júlia, sendo que a nascente é pública? Por lei não pode beneficiar assim. E cambiamos nascentes que não existiam mais. Por isso que eu falo, se a gente conseguisse cuidar de todas as nascentes que estão em terreno público... aí falam “ah, está ajudando Prefeitura”. Mas eu estou no mundo é para servir mesmo, cooperar. Então a ação em nascentes. Como eu trabalho aqui no Baixo Onça eu sou muito agraciada, porque tem a Nascente da Santinha, no Córrego do Angu. Agora estamos com a Monjolo, onde fizemos intervenção agora. Tem a do [Jardim Felicidade]. Tem a do Planalto, o Brejinho, que não estava, por ser público. Na primeira proposta era só cuidadores de nascente, não podia.
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A empresa foi muito boa, acatou muita coisa que a gente pediu para trocar. Na nascente da Dona Júlia, o cara colocou pedra de ardósia na escada! Louco! A gente brigou, foram muitas cabeças do Velhas que cascou fora. A minha não cascou porque sou voluntária, eles não podem me mandar embora. A equipe de mobilização, acabaram com ela. Porque nós demos muito piti, era um dinheiro muito grande e eles estavam fazendo tudo errado. Pegaram nossa cartilha e copiaram. Para você, o que é água boa e água ruim? Achar água boa agora está tão difícil, né? Porque temos certeza que a água que chega até nossas torneiras está sendo tratada. Onde encontrar? Para mim a classe boa é 1. Porque nós estamos mexendo agora com a Pampulha e eles falaram que chegou na classe 2, é mentira. A classe 2 eu posso até nadar, mas a Pampulha acho que é de 4 para cima, se existir. Porque não existe é só até 4. Você considerar uma água 1, só mesmo a que está chegando lá em casa, mesmo assim porque são feitos exames nela sempre, mostra o tanto de coisas que tem que colocar para conseguir que ela fique na classe 1, que é para beber. A 2 eu ainda posso nadar. 3, falar que pode navegar, mas vai me respingar. Eles encontraram no Rio das Velhas, em Santo Hipólito, nós nadamos e a própria COPASA falou “Você é doida, porque esse povo tem dinheiro”. Porque eu nadei lá com as figurinhas, junto com o professor Apolo, só figura. Eles tinham condições, porque lá ainda era encontrado coliformes fecais. Mas é um milagre da natureza, né? Ela estar aqui poluída desse jeito e chegar em Santo Hipólito, ou na Barra do Guaicuí, você poder nadar nela. Como a própria natureza consome, consegue cuidar dela mesma. Então quanto mais água a gente colocar (com o cuidado das nascentes) e reflorestar nas margens dos rios, essa água também vai limpar aqui. Mas aí chegamos àquela pergunta, “mas que água? Se tirar o esgoto do Onça, vai ter água? As nascentes estão todas correndo para lá? Tem nascente?”. Então me medo é quando tirar o esgoto todo do rio, ele virar uma avenida. Porque ele não tem água. Então é difícil. Quando fala assim, a gente toma um susto, né? O professor Polignano [Marcos Vinícius Polignano, presidente do Projeto Manuelzão-‐UFMG] que fala isso. Depois de uns 4 anos que ele falou isso, comecei a ficar com mais medo ainda. Porque eu não vejo as águas indo para o ribeirão. Vamos falar só aqui, nessa região. A nascente do Santinha, no bairro aqui em frente, não chega água lá. Secou, era um córrego enorme, com várias nascentes. A nascente do Monjolo, lá no Monte Azul, ela está com água limpinha, porém o esgoto é jogado em cima dela. Então o córrego já desce com uma carga de esgoto. E me xingam, e olha que eu já falei mal da COPASA, mas, se tem interceptor, mas a COPASA fala que está chegando tantos % de esgoto a ser limpo. Está chegando o que eu pago... Ela conta o que chega nela e o tanto de gente que está pagando. Quem não paga, os gatos, ela não sabe. Então ela vai fazer uma margem, em cima do que ela recebe. Se ela recebe 60 casas e está chegando 58% ela está faltando. Porque ela está tratando do que ela recebe. Os outros que estão clandestinos, ela não sabe. Então quando você pergunta, como o Ribeirão está sujo, e vocês falam que estão tratando 90%, no caso do Arrudas, e o nosso [Onça], 60-‐70%. Me explica. Aí eu fiz essa pergunta para eles, “é porque vocês contabilizam pelo que vocês recebem?” “é.” Então eles estão tratando, e nós é que estamos colocando. Aí o Monjolo tem tratamento de esgoto. Mas eles preferem jogar para baixo, eles não ligaram na rede. As p essoas não ligam. Então o dia que a gente colocar na rede, aí a gente pode cobrar. Se todos colocarem. Ontem eu vi um debate e gostei da ideia. De ter outras firmas para competir. Porque no dia que a Telemig começou a cotizar, e veio Claro, Tim, etc, etc. Porque esse negócio de sou só eu. O dia que começar a ter divisião, aí as empresas vão querer servir melhor. Se a pessoa cuidar, colocar [ na rede], aí vai ser tratado. Eu só posso cobrar aquilo que eu fiz. Mas o problema todo é que um paga, mas o vizinho não paga. Tem como ter rios saudáveis na cidade? Você imagina essa cidade? Ah, tem! Ah lá, Seul! Que tem condições tem. E vai gastar bem menos dinheiro do que ficar tampando. Mas o brasileiro não tem uma cultura de deixar o rio limpo. Ele acha que o rio é para carregar tudo o que quiser. Algo estragou lá em casa, joga-‐se no rio. O rio leva. Só que ele não vê que o rio tá levando é para o vizinho dele, lá embaixo, onde ele não vê. O relacionamento com os rios, com as águas, para mim começou no dia em que eu podei uma árvore e mandei meus meninos levarem o carrinho, com a poda toda, lá embaixo, 100 metros abaixo, e jogar no córrego. Tudo era jogado lá. Aí meu filho voltou, com o carrinho cheio, e disse “mãe, o Omar mandou falar que ele cuidou da parte dele lá, então lá não é lugar de jogar lixo não”. Simplesmente. E por isso que eu trabalho com a água hoje, com o rio. Porque eu também achava que o rio era para tudo. E não importava com meu vizinho lá embaixo. E hoje eu me importo.
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Então eu já fiz isso, eu tive um relacionamento com o rio e não sabia da importância dele, quando eu era criança. E eu só fui apanhar depois que alguém me chamou a atenção. É por isso que a educação é muito grande, muito boa. Então nós temos que mostrar nossos exemplos sim. “Ah, mas você teve coragem de contar isso para seus alunos?”. Claro que eu tenho, é para mostrar para eles que a gente erra também, mas temos a chance de mudar. Para mim hoje, quando eu passo e vejo o rio, eu só lembro de quando eu pude nadar nele. E que bom essas cascatas, corredeiras, que o pessoal de Taquaraçu vinha e fazia piquenique e vendiam suas feiras. Né, Dona Júlia? Tudo que a Dona Júlia vende hoje, da sua horta orgânica, que tem grande importância para esses bairros aqui, esses trabalhos, isso acontecia antigamente, no ribeirão onça. Eles faziam piquenique na prainha. Na década de 50, 60, 70. Você pensar que até 70 eu podia nadar no Ribeirão Onça. É muito rápido para poluir. Vai crescendo, né? Claro, que eu mudei para cá, era muita fazenda, era muito mato. O Guarani era um buraco, não tinha nada. A Avenida Waldomiro Lobo era uma cratera de erosão. Então o meu relacionamento com a água hoje mudou. Não é que eu não gostava, eu via a água com outros olhos quando eu era criança. Igual eu falei, lazer. Hoje eu já vejo de cuidado. O que você acha que é natureza? Para mim a natureza é tudo. Até eu faço parte dela. Eu estou inserida nela. Igual quando fala natureza, as pessoas acham que é planta, flores. Para mim é tudo, é a biota, é o rio. Se você vai limpar um rio, você tem que tomar cuidado, porque dentro dele tem muitas vidas. Então a natureza é o mundo, com tudo que tem dentro dele, é o planeta. Natureza é o que Deus colocou e nós temos que cuidar. Até das nossas próprias vidas. Porque se eu cuidar do rio, mas esquecer de quem está do lado dele, não adianta. E o que é cidade? É o que nós fizemos, né? Nós pegamos a natureza, que existia, e formamos uma cidade. Nós, eu que sou a quinta filha de doze filhos e eu sou a primeira que nasci na capital. Nasci na beirada do Arrudas. E, se pensar a beirada do Arrudas hoje, que não tem beirada mais, nem onde eu nasci, que hoje é a Avenida Thereza Cristina. É o que a gente faz... cidade, cidade. Porque têm outras cidades, as do interior são totalmente diferentes da nossa. Depende de onde você está. Tem aquelas onde a natureza é mais bela. E nós moramos numa cidade em que a natureza está muito feia. Nós estamos feios. Nós temos muito concreto. Natureza morta. Como você faz para se conectar com a natureza, na sua vida, no seu cotidiano? Primeiro que lá em casa eu não deixei cortar meu pé de manga. Tá eu, ele e a casa. Tenho pé de goiaba. Minha casa até que é grande, mas eu não deixo de ter o meu quintal. Tem que ter o cimento, mas tem que ter também a natureza. Eu me conecto, eu gosto de ir em lugares onde tem verde, tem água. Mas como a gente não pode deixar de inserir o ser humano, que também é agua... igual eu falei, eu também faço parte da natureza. Eu procuro ir a lugares onde a natureza esteja mais completa. Eu vou muito em lugares... Me pergunta se eu voltei ao Mineirão depois que tiraram as árvores todas e deixaram só aquele cimento? Eu passo, me dói, me esquenta, me seca, parece que eu sou um concreto também. Não consigo chegar ali perto. A gente ia ali, com aquele tanto de árvore. Outro dia eu passei ali, tive que passar a pé, não dá, é muito calor. Pode notar que muda tudo, depois que passa a UFMG, acabou. Então eu me conecto procurando lugares mais naturais possíveis. Eu sei que nem existe mais esse lugar natural. A não ser que eu procure aqueles lugares onde a pessoa tem que deixar X de reserva e aí vou ficar ali. Mas isso é muito difícil. Temos os parques como lugares de refúgio, e ainda bem que temos isso. Mas como seria possível ter isso de forma mais distribuída na cidade? Que não sejam lugares restritos, às vezes até cercados, de uma forma separada da cidade... Sobre as cercas do Parque NS da Piedade. A ideia é que ele não tivesse cerca nenhuma. Mas como a gente trabalha com a comunidade escolar, e todo o entorno, a gente fez várias, várias reuniões. Se você pensar que começamos a trabalhar com o córrego em 1999 e ele foi inaugurado em 2008, então foram quase 10 anos de luta naquele pedaço. A gente tentou, primeiro, não colocar asfalto. Colocar piso intertravado. Era nosso sonho. Mas a gente depende dos moradores. É um lugar onde não precisava de asfalto, é igual no Jardim Felicidade. Mas o pessoal pediu, pediu, pediu. No dia que o comitê faz uma obra de recuperação de nascente e deixa tudo
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bonitinho, a regional vai lá e taca um asfalto. E nem é asfalto direito, jogou um piche e deixou com a água correndo em cima do asfalto. Aquilo ali é uma luta muito fácil de resolver se a Regional [Norte], se a Prefeitura quisesse. “Ah, mas os moradores não querem! “. Que morador? Lá naquele quarteirão não tem nada, não tem comércio, não tem casa. Então eu acho que aquela ideia de puxar o muro da escola para dentro do Córrego é a solução, o córrego vai estar dentro da escola. Não tem tantas fazendas que terminam, o rio é a divisória deles, não tem cerca? Aí fica chamando o seu Onça, porque ele devia saber que todo mundo invadia, né? As fazendas dele. Aí nós não conseguimos o piso intertravado na avenida. E lá não passa carro quase nenhum. Depois de um ano construído, os próprios moradores que pediram asfalto, pediram quebra-‐molas. Os próprios filhos dos moradores que foram indenizados, compraram carro e eles mesmos começaram a fazer pegas. E os moradores querem que a gente resolva – coitada de mim! Porque os outros dois professores que trabalharam no projeto, não moram lá. Então tudo era lá em casa, campainha tocando, aconteceu isso e aquilo. Agora como eu quase não saio de casa, se eu sair a pé eu danço, fico muito tempo na rua, ouvindo. Então nós perguntamos, porque se ficasse aberto, a comunidade é que teria que tomar conta. Porque para ser da Fundação de Parques da Prefeitura, tinha que ser cercado. Então nós chegamos à conclusão que uma cerca... igual aqui no Ribeiro de Abreu, vamos ter que cercar uma parte do parquinho. São 5,5km e quando a gente fez esse trabalho de pesquisar o que cada um quer para seu pedaço. Tem lugar que vai ter que ficar aberto, tem lugar que vai ficar restrito. Vai ter horta. Tem uma ideia dos carroceiros fazerem um trabalho de parque equestre. O animal deles se não dá conta mais de trabalhar, dá para passear. * * * Júlia Machado Amaral (“Dona Julia”), 69 anos [ com presença de Majô Zeferino] Localização: Córrego do Onça Cuidadora de uma nascente no bairro Ribeiro de Abreu, contemplada pelo programa de Valorização de Nascentes do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça, que foi qualificada como “Nascente Fundamental”, no projeto do Parque Ciliar do Onça. Dedica-‐se há 5 anos à gestão de uma horta agroecológica, no terreno da igreja católica do bairro. Vende seus produtos em feiras no próprio bairro e na Cidade Administrativa. DONA JÚLIA -‐ Minha experiência com a nascente é de 1981, quando eu comecei a construir minha casa, que não tinha água da COPASA no Ribeiro. Era lá que eu pegava água, enchia os tambores de tarde para de manhã o pedreiro trabalhar. Uma luta muito grande. Eu tinha que subir e descer morro, encher dois tambores de água de cada vez, colocando a água na cabeça. A rua era puro buraco, cratera mesmo. Aí construí, me mudei para cá, continuei pegando água nela para o uso doméstico, geral. Eu venho junto com ela [ a nascente] desde essa época, desde 1981. Comecei a fazer horta buscando água nela. Aí depois veio a COPASA, a gente afastou um pouco dela. Aí começou a ser ponto de droga, depois veio o projeto [de Valorização de Nascentes, do sub-‐comitê do Onça]. Mas eu insisti muito e na segunda edição foi possível incluir. Aí eles passaram a se envolver, vieram, fizeram análise da água, ela não é própria para uso humano, mas o povo tá usando assim mesmo. Ela era muito pouquinha, saindo pouca água, os animais estavam vindo para beber água nela, pisoteavam ela toda. E eu lutei muito por ela. Eu continuava indo lá muito só para olhar. Eu ia lá levar comida para os bichinhos, plantar muda, de árvore, de açaí, de beijinho. Começaram a acontecer visitas com os estudantes, vieram as intervenções do projeto. Agora com o projeto ela tá linda, muita água, muito copo de leite plantado. Eu queria que lá fosse uma agrofloresta. Mas para isso tinha que cercar tudo. Chegamos a cercar tudo, mas as cercas foram quebradas. Agora eu tenho ido menos lá, fui outro dia com um pessoal da UFMG.
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MAJÔ – Nascente Fundamental é o nome dado por considerarmos que ela seja a primeira nascente que faz parte do território do Parque Linear do Onça. Linear, não, ciliar! Porque se falar linear as pessoas acham que a gente quer fazer uma linha, deixar o ribeirão reto e não é essa a ideia que queremos passar. Aí a gente coloca o nome “Fundamental” justamente para todo mundo tomar posse dele. Mas não deixamos de mencionar o nome da dona Júlia. É “Nascente Fundamental do Parque Ciliar do Onça (Cuidadora: Dona Júlia)”. Em todas as nascentes têm que ter o nome do cuidador. Mas para evitar problemas de ciúmes, e para as pessoas aderirem, se envolverem. Até hoje não foi aprovada a lei de você receber alguma coisa por cuidar de numa nascente. Mas todo mundo é bem consciente que se um vizinho precisar de água, é obrigado a ceder. Minha irmã também recuperou e cuida de um lago. Eu já falei com ela, “se faltar água, você é obrigada a dar. Mesmo para o seu pior inimigo, você tem que servir”. Nós não temos rede fluvial nos nossos bairros, quando chove não tem como atravessar. A água da avenida lotou aqui, vem, minha água de dentro de casa não consegue sair, por causa da pressão de fora. ELISA -‐ E o trabalho com a horta? Como é a gestão, vocês vendem? Tem algum subsídio, algum apoio? DONA JÚLIA – Tem 5 anos que eu tô dentro dela. Hoje, para a horta, A gente utiliza um terreno cedido pela Igreja Católica, mas pagamos a conta de água separado. Então nós somos 3 sócias, eu, Alaíde e a água. Nós vendemos as hortaliças em feira aqui mesmo no bairro e toda semana em uma feira grande na Cidade Administrativa. * * * Maria Soares de Almeida, 54 anos Localização: Ribeirão Onça Moradora do bairro Novo Aarão Reis há 19 anos, enfrenta as enchentes do Ribeirão Onça, que por três vezes inundaram sua casa. Hoje aguarda processo de remoção/indenização por parte da Prefeitura, que anuncia a execução de obras nas margens do Ribeirão. Trabalha como faxineira de um prédio e em casas de família, conversa sobre a presença da água em seu cotidiano particular e como “profissional da limpeza”. ELISA -‐ Como era no começo, quando você foi morar lá no bairro Aarão Reis? MARIA -‐ Quando eu fui morar ali, era brejo. Tinha poucas casas. Eu estava grávida da minha filha mais nova, que vai fazer 19 anos, então era tipo ano 2000. Era tudo mato, brejo, tinha um rapaz que morava lá, o esgoto passava bem em frente à casa dele. Mas ele foi arrumando lá. Os moradores mesmo foram colocando as peças de esgoto. Nosso esgoto hoje é todo encanado, vai para aquele mundo abaixo lá. Agora, das casas mais recentes, mais perto ainda do rio, o esgoto vai todo direto para o rio. O nosso vai para aquele mundo abaixo, vai tudo bonitinho. Quando entope a gente chama a Prefeitura para ir lá arrumar. Dá um trabalho, eles ficam primeiro caçando no mapa. Lá a gente não paga imposto, nem IPTU, nem luz... água a gente paga metade. Porque a gente tem duas águas, uma de gambiarra e uma de COPASA. Quando a gente mudou pra lá os vizinhos não queriam água de conta, aí fizemos uma água de conta com registro na rua 15, sendo que nossa casa é na rua 16, passa pelo fundo do lote. Mas aí quando os vizinhos arrumaram tudo da água de gambiarra fizemos uma ligação pra gente também. A gente usa as duas. Tem dois registros e duas bóias dentro da caixa. As duas ficam abertas direto. Porque se a da COPASA ficar fechada, vem 0 reais, aí desconfia, né? As duas caem na caixa e misturam. A conta fica metade do valor que seria. Nunca deu problema, tem 19 anos que a gente mora lá. Quando você chegou no bairro já tinha água encanada? Já. A gente foi puxando dos vizinhos que já tinham a ligação. Por isso que ninguém aceita colocar poste de luz lá, colocar ligação oficial. Se pedir, é arrumar briga com os vizinhos mais velhos. Se um pedir a ligação, vai ter que todo mundo pagar. Nossa luz é puxada de gambiarra do poste da esquina da outra rua. Fica mais sem luz do que sem luz.
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Na época de vento e chuva, a gente tem que subir lá no poste e arrumar. Tem um rapaz que arruma. E é tipo assim, se eu for tomar banho, tem que desligar a máquina. Se tiver passando roupa, não pode fazer escova no cabelo. A gente nunca liga duas coisas juntas, uma de cada vez. É muita gente no poste. E antes era todo mundo num fio só. Quando estragava, estragava pra todo mundo. Agora é cada um com um fio. E seus vizinhos resolvem bem esses problemas juntos? Sim, resolvemos. Tem gente que cobra 50 reais pra subir no poste! Porque não é todo mundo que sobe, é perigoso o choque. E quando é época de chuva, ninguém quer subir, porque tá muito molhado. E como foi quando entrou água do rio na sua casa? Teve 3 vezes que entrou água lá em casa. Uma vez arrebitou os pisos todos pra cima. Num dia de chuva forte. A gente acordou com a água na parede, “Nossa a água tá entrando”, veio pelo portão e pelo vaso. O vaso vai enchendo e vai derramando. E o que vocês fizeram? A gente esperou ela baixar. Ela entra, mas sai rapidinho. Subiu até no meio das paredes. A primeira gaveta do guarda-‐roupas molhou todo. Da primeira vez nem deu medo, mas da segunda vez, que nem entrou tanto lá em casa, deu medo, porque foi arrebentando tudo em volta da nossa casa. Eu e meu marido não estava em casa, só as crianças! Depois a gente foi arrumando em volta. A água não entra mais tem tempo. Nós subimos a altura do beco, agora acho que tem menos chance dela subir até lá. O pessoal da rua comprou uma peça e colocou na tubulação de esgoto que passa pelo beco. A peça não deixa a água do rio voltar pelo cano, pelo vaso, pelos ralos, igual entrava antes. Mas também se chegar lá quer dizer que as casas todas daquela beira já foram tudo embora. E o povo é doido, construíram agora cada casão. Uma casa de 2 andares, fizeram uma padaria embaixo. Uma vez, depois de uma cheia, quando o rio baixou, ficou um monte de peixe no chão. Diz que eles vieram da Pampulha. Cada peixe grande! O povo pegava pra comer. Eles vieram na enxurrada, entravam dentro das casas e ficou pelo chão, nas ruas. Coalhado de peixe. Os que o pessoal não pegou foram morrendo lá no chão, os urubus vieram... e o fedor?! Horrível! E a laje da sua casa, onde você fez uma escada, é pra pode sair se o rio encher? quando encher, poder sair? Tem a ver, porque se encher a gente corre e fica por cima da laje. Alguns vizinhos fizeram isso, a gente fez igual. Para sair ou pra ficar lá esperando a água baixar. Baixa rapidinho, coisa de 10, 15 minutos. Época de chuva eu não consigo dormir direito não. Toda hora tenho que subir lá pra ver o rio, com medo dele encher. Se a gente tá dormindo, os vizinhos começam a gritar avisando um para o outro “cuidado, o rio tá enchendo”. Se encher demais a gente sobe em cima da laje e fica lá esperando até ele baixar. Porque se ele encher, não tem saída não, tenho que ficar é em cima da laje mesmo. Mas acho que ele não passa da altura da minha casa não. Só se a Pampulha arrebentar que eu acho que leva aquilo tudo ali. E a água que vem, é muito suja? Muito, puro esgoto e barro. Cheiro horrível. O dia que entrou na minha casa eu tive que ir tirando tudo no rodo, com balde. E você está com vontade de sair de lá? Como está agora? A gente tá na lista para sair. Mas lá melhorou muito. Eu gosto de lá. É sossegado. Criei os meninos lá, eu saía pra trabalhar, eles ficavam sozinhos em casa e sempre foi tranquilo. Você tem ouvido falar que vai ter um parque ali na região, o Parque do Onça? Ou se vai limpar o rio? Não. Têm algumas pessoas que eles estão tirando, quem está bem na beiradinha. E tão indo para os predinhos. Eles só tiram quem está mesmo bem na beiradinha. Eles medem os metros, não sei quanto. E só tira nessa época de chuva. Uns falam que eles vão fazer a linha do metrô até Santa Luzia, que faz parte do projeto da Rodoviária da Estação São Gabriel. Mas não faz nada não... com essa crise, sem dinheiro, esse governo do jeito que tá. Meu
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marido fica falando pra gente não fazer nada, não gastar ali porque eles vão tirar a gente. Eu acho que não tira tão cedo. E você atravessa o rio no seu dia-‐a-‐dia? Eu atravesso, pela passarela, do bairro Novo Aarão Reis para o Ribeiro de Abreu. Todo dia eu pego o ônibus do lado de lá, o Ribeiro A. É facinho. E o que você sente quando passa em cima do rio? Eu não tenho medo não. Quer ver quando o rio tá revirando assim, em tempo de chuva, a água passando pertinho. Fica amontoado de gente em cima da passarela olhando a água. Eu não tenho medo. A passarela é bem reforçada. E cada dia o rio tá de uma cor. Um dia tá verde, um dia tá vermelho, outro tá amarelo. Tem dia que tá meio roxo! Cada dia uma água diferente. Tem dia que está espumando, dá aquela espumeira. Isso é fora da época de chuva. Quando é época de chuva, ele lava. A água fica mais limpa e mais amarelada. Ele fica bem mais bonito. E o que você sente pelo rio? Hahaha, não sei o que eu sinto pelo rio, nunca parei pra pensar nisso. Mas você já sentiu raiva, pelo que aconteceu na sua casa, pela sujeira? Raiva eu não tenho não. Na verdade, nós nem tomamos muito prejuízo não, teve gente que perdeu tudo e tem pavor de morar lá. E o povo lá de cima joga todo o lixo no rio. A gente não tá jogando mais. Coloca o lixo só na hora que o caminhão vem. O povo lá de cima joga tudo e quando o rio enche, eles vêm ver nossa tragédia. Nossa rua, cheio de lixo. Vem gente de longe jogar trem lá. Traz entulho, lixo, restos, sofá velho, colchão. E com as crianças, elas ficam querendo ir para o rio, como faz? A gente não deixa as crianças ir de jeito nenhum, cê é doida?! Mas tem umas mães meio desmioladas que deixam. Mas é perigoso demais. Já apareceu gente morta ali naquela beirada do rio duas vezes. Outro dia apareceu um, sem cabeça e sem perna. Polícia veio e levou. Eu vi uma vez, ele desenterrado dentro da lama. Na beirada da areia é uma lama podre. Um dia a gente estava andando lá, eu e minha filha, a menina começou a cair na lama, foi puxando, ela quase se enterrou toda, a gente que ajudou. Quanto mais a gente puxava, mas afundava. Mas conseguimos tirar ela. Os buracos de onde eles vão tirando areia, chega uma hora que começa a afundar. Mas no seu dia a dia você vê o rio, da sua casa? Lá de casa não dá pra ver não, já está tudo tampado de casa, na frente. Você tinha o hábito de ir lá ver o rio? Na beirada a gente nunca vai não, porque fede demais. Tem bicho morto, água muito suja. E qual outro rio você vê na cidade? Aquele mesmo, o rio Arrudas. Eles falam que o nosso é o das Velhas. E de onde será que ele vem? Alguém me perguntou outro dia e eu não sei. Aquele lá se chama Ribeirão Onça. O Arrudas é aquele da Andradas, que encontra com o Rio das Velhas lá em Sabará. O de perto da sua casa, o Onça, vem da Pampulha. É a partir da Estação São Gabriel que ele começa a se chamar Onça. Aí tem a cachoeirona do Ribeiro de Abreu. A cachoeira, quando tá cheia, época de chuva, dá pra escutar lá de perto da nossa casa. A gente tem uma casa ali perto. Tá alugada. Se eles forem tirar a gente do Aarão Reis, a gente vai querer dinheiro ao invés de ir pro predinho. Com o dinheiro a gente quer reformar essa casa do Ribeiro. O dia que a gente foi na reunião da Urbel, eles falaram que a gente pode escolher um lugar, que eles fazem o prédio. A gente tem direito de escolher, no Tupi... mas já pensou morar nesses prédios? O que você acha dos predinhos, o que ouve falar? Eles falam que é bagunca, droga, briga. Passa a morar todo mundo junto. E eles não fazem apartamento com 3 quartos mais. Só com 2. Para minha família, tinha que ser 3. E a cozinha é desse tamanhozinho, com a área junto. Para família grande não dá não. E o barulho? Entrada tudo junto. Povo suja e não quer limpar.
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Aquele beco mesmo lá perto da minha casa, só eu que limpo. Ninguém limpa, é impressionante. Todo mundo mora, mas ninguém limpa. Como é sua lembrança, quando você morava na roça, sua relação com a água, com os rios? Na minha roça tinha muita água. E era rio fundo. Mas foi acabando tudo. Chama Ribeirão da Folha. A gente gostava de tomar banho. Tinha uma bica, a gente buscava água lá e lavava roupa lá também. Mas agora secou tudo. O que você acha dos rios da cidade, você que mora do lado de um rio, você acha que deve tampar? Acho que deve tampar. Depende, porque se for muito estreitinho... Dá pra afundar ele. E o que você acha que é natureza? Será que é mato ou água? Tem muita coisa da natureza, não tem não? Pode ser água, planta, mato. Quando chove o povo fica xingando que enche tudo d’água. Mas não é culpa do rio, é assim mesmo. É culpa dos lixos também. E na sua casa, no seu trabalho, você gosta de usar água para limpar? Com certeza. Eu gosto muito de arrumar a casa lavando com água. Fica bem melhor. Fica mais fresquinho, acaba com a poeira. Mas eu não desperdiço não. Porque lá no meu bairro a gente não paga água, mas o que a eles desperdiçam de água, pelo amor de deus. Deixa a torneira dormir aberta, quando está estragada não tem preocupação de arrumar, deixa a água vazando pela rua afora. Não tem um dia que você passa na rua que não tá cheio de lama. Eu não desperdiço, tenho dó. Você já pensou, ficar sem água? É muito pior do que ficar sem luz. * * * Ernesto Soares da Conceição (“Seu Nonô”), 76 anos Localização: Córrego dos Joões/Navio-‐Baleia (Bacia do Arrudas) Militar reformado, realiza há 27 anos um reconhecido trabalho de recuperação do Córrego dos Joões, pequeno afluente do Córrego Navio-‐Baleia que passa nos fundos do seu terreno. Seu Nonô promoveu a interceptação de esgotos das 20 casas do seu quarteirão e criou um sistema de barragens e filtros que permite que a água brote limpa nas nascentes de seu terreno. Às margens do córrego realiza um trabalho paisagístico constante, com pedras, madeira e pneus reutilizados, auxiliando na recomposição de uma mata ciliar. ELISA -‐ Como começou o trabalho do Senhor aqui no bairro da Saudade, com o Córrego dos Joões? SEU NONÔ -‐ Eu comecei esse trabalho em 1991, no século passado. Como o córrego estava muito sujo, cheio de entulho, muito plástico, você não via o correr das águas. Então não era um córrego, era uma coisa parada, uma coisa morta. Então, num determinado domingo, eu estava lá, vendo o córrego, juntamente com o meu cunhado, Anísio. Ele tinha uma enxada e eu não sei por que cargas d’água – tudo acontece, parece que existe uma pessoa, um ser, que vai encaminhando a pessoa para determinada coisa – então não sei por que aquela enxada estava lá, mas ele deu um corte naquela massa escura, bem compactada. Quando cortou aquilo eu vi que a água começou com um movimento. Assim meio granulada, no meio de tanta sujeira. Aí eu falei, “uai vem cá, se houve movimento, é sinal que existe vida”. Então vimos surgir uma vida do nada. E aí eu comecei esse trabalho. Quando eu comecei foi com dois amigos meus, um de infância e outro que eu conheci depois. Com o Paulinho, fui no mercado e comprei 100 sacos de plástico, desses de 100 L, e eu comecei a recolher o lixo. Depois chamei o Lourinho, e ele veio. Ele era acostumado no Vale do Jequitinhonha. Lá eles faziam, com um pedaço de pneu, uma espécie de um laço, colocava as pedras ali dentro e quebrava, fazia brita. No Vale do Rio Doce eles também faziam isso, eu vi depois. Aí ele começou fazendo aquilo com o entulho. O entulho quebrado nós usamos para
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fazer caminho e também pra fazer o concreto das escadas, do acesso ao local, que tinha um aclive muito acentuado. Tinha uma parte na margem direita do Córrego dos Joões, com muito plástico e esgoto a céu aberto. Então foi necessário eu comprar cinto de segurança, capacete, corda, pra que nós pudéssemos trabalhar lá. Começamos tirando plástico. De 4 enxadadas que a gente dava, uma era terra e 3 era plástico. Fomos removendo esse plástico. E esse lugar já era propriedade do senhor? Ele já era nosso entre aspas. Porque era uma área verde. Quando meu pai adquiriu esse terreno ele tinha essa área verde, quem comprava o lote tinha direito à área verde. Tinha uns pés de assapeixe, umas coisinhas bobas, você entende? Sem muita importância. Não tinha árvore alta... não tinha inseto, não tinha passarinho, nada chamava atenção. Um córrego com água que corria muito fininha e com muita ferrugem. Quando chovia, alagava e dava aqueles bancos de areia. A gente limpava e pegava a areia, que usava na construção da casa do meu pai. Nós chegamos em 1947, tinha uma casa de adobe, com chão de terra batida. Para fazer uma casa maior, meu pai comprou tijolo, aquele comum, pequeno, e a gente tirava areia no córrego. Tinha um vizinho que morava do lado, o Gentil, ele tirava areia para meu pai, que pagava a ele 2 reais por lata de areia. E um dia eu resolvi tirar areia também. Eu tirei mais ou menos umas 40 latas de areia, e achei que meu pai ia pagar... hahaha, mas ele não pagou não! Mas era o certo, eu tinha que ajudar, a construção era da minha casa, né? Mas achei que ele ia pagar, então tirei com muito boa vontade, mas não recebi não. E qual era sua expectativa quando começou o trabalho? O que o senhor planejava? De início, eu tinha uma previsão de mais ou menos 180 dias para deixar a coisa organizada. Quando já estava mais ou menos no meio do tempo, lá no fundo aparecia uma terra meio arenosa, meio clara. Então eu quis tapear eu mesmo, querendo voltar ao meu tempo de criança, e peguei aquela areia e joguei no leito do córrego. Só num pedaço, uns 2 metros. Então a água correu clarinha, por cima. Chamei minha vizinha e falei, quer ver como era o córrego antigamente? Ela viu, falou: “ah, que bonito! “. E eu pensei: “pois eu vou fazer esse córrego realmente ficar bonito”. Hoje o córrego é mais bonito do que ele quando eu cheguei, em 1947. Passados 71 anos, ele é mais bonito. Tem árvore, tem passarinho. Tem um sabiá, por exemplo, que tinha uns 50 anos que eu não via. E ele apareceu! Então nós temos abelha, um besouro, que faz a polinização de maracujá, ele tem uma importância grande. Passaram 6 meses, eu vi que na verdade eu não tinha terminado a obra. E hoje eu concluí o seguinte: uma obra de revitalização, nunca acaba. Ela tem um início, mas não acaba. Outro dia eu vi na televisão e vi que algumas profissões vão acabar – enfermagem, advogado, mas uma que não acaba é o revitalizador de áreas degradadas. E eu já tinha pensado nisso há mais tempo, antes de ver essa reportagem. Porque igual você, fez jornalismo, agora está fazendo arquitetura. A arquitetura é uma coisa de Deus, o maior arquiteto é Deus. E Deus, se você já observou, a arquitetura dele não é reta, são ondulações, como os meandros dos rios. Então hoje a engenharia civil vai retificar um rio, deixar ele reto, pra dar maior velocidade à água. Então ela bate em Belo Horizonte, sai rápido e vai pra Sabará, levando o problema pra Sabará. Nós temos uma reunião de cidades, que é a Região Metropolitana. E outras cidades que advém dela, e por aí vai. Então a gente não pode tirar a sujeira da gente e colocar na porta do vizinho. Os anos foram passando, houve dias e houve noites, umas alegres e outras tristes e eu fui naquela luta. Nesse ponto eu também dei trabalho a outras pessoas. Eu trabalhava no Estado, e tive oportunidade de estudo, eu ganhava tanto para trabalhar como para estudar. Eu pensei que antes de sair do Estado, eu queria prestar um serviço ao Estado, ao menos até 65 anos. Hoje eu estou com 76 e estou prestando serviço ainda. E minha mãe é viva, tem 97 anos. Então eu vou tentar prestar esse serviço ao menos até 97 anos. Certo? Eu, trabalhando, nessa vida minha eu acabei conhecendo muitas pessoas, gente diplomada, pós-‐graduada, mestre, doutorando, doutorado, pós-‐doutor. Fiquei no meio desse pessoal. E toda pessoa gosta de ser importante, então eu fiquei no meio desse pessoal, que acha que meu trabalho é importante. Tem até uma parte da Bíblia que diz que Jesus, uma época, ficou no meio dos doutores. E eu tô nessa maré, de ficar no meio dos doutores.
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Nada é por acaso. Então apareceu lá o professor Rogério, que trabalhava na COPASA e foi para o Manuelzão também. E eu gosto de chamar a pessoa de professor, porque eu acho que é a maior autoridade que tem. Jesus era mestre. Então o Rogério veio até aqui com uma moça que era do Uruguay e que estudou um certo tempo com ele na França. Falei com eles que eu já tinha tirado dali mais ou menos 70 caminhões de entulho. E ele falou: “Seu Nonô diz que tirou uns 70 caminhões de entulho”. Houve uma dúvida aí. Então a partir daí eu comecei a guardar os papeizinhos, os recibos. Então desde aquela época eu já juntei uns 50 papéis de caminhão. Se eu tivesse tirado só esses últimos 50, já era muito importante. Nós tivemos no Seminário Internacional de Revitalização de Rios e a COPASA mostrou que em um rio, lá no norte de Minas, tirou 18 caminhões. E eu sozinho aqui, já fiz isso tudo. Essa quantidade de entulho tirado -‐ não tô contando plástico, só entulho -‐ tem uma importância grande porque, veja só: vamos por 120 caminhões, 6m3 cada caminhão, vai dar 720 m3 de entulho. Isso dá espaço para 720 mil litros de água. Então tem uma importância. Se houver uma enchente em algum lugar, um extravasamento de água na bacia, se o extravasamento de água for x e a quantidade de entulho que eu tirei for n, a enchente vai ser de x-‐n. É matemática. Como é a bacia dos Joões? Acima do terreno do senhor, como está a situação? Antes do meu terreno, deve ter uns duzentos e poucos metros. Porque o córrego dos Joões, no contexto global da bacia do São Francisco, deve ser o riacho de menor extensão. E ele torna-‐se importante até por causa disso. Eu acredito que, antigamente, ele vinha lá do pé da Serra do Curral. Mas com a criação da Vila Paraíso, foi aplainando, fazendo arruamento, e foi entupindo o curso d’água. Então hoje ele tem, eu calculo, uns 320 metros. Ele é um afluente da margem esquerda do Córrego do Navio-‐Baleia. O Córrego da Baleia é afluente da margem direita do Arrudas. O Arrudas é afluente da margem esquerda do Rio das Velhas. E o Velhas eu não sei se é margem direita ou esquerda do São Francisco. E o São Francisco, como diz o Luiz Gonzaga, vai bater no meio do mar. E agora, tá jogando água no Nordeste por causa da transposição. Então às vezes eu brinco lá com os meninos, no trabalho do Joões, “vamos soltar um pouco de água pro Nordeste”. Lá nordeste eles produzem uva, melancia, que o Brasil exporta pra fora. Está tornando o Brasil cada vez mais rico. Hoje o Brasil é uma grande potência agrícola do Mundo. Minas Gerais é a caixa d’água do Brasil e o Brasil é o celeiro do Mundo. Como é o envolvimento do senhor com o projeto Manuelzão, com a militância pelas águas? Em 2004 eu conheci a Mércia [Pereira do Nascimento -‐ também cuidadora de nascente da bacia do Navio-‐Baleia], ela veio me entrevistar porque ela estava fazendo um livro [“Resgate Histórico do Córrego Navio Baleia”]. Ela já estava com a boneca pronta e eu fui inserido como um dos personagens principais, que faz e contradiz alguma coisa. Por exemplo, eles dizem que o Córrego da Baleia ia até General Carneiro, navegável. Ora, aqui entre a Pompeia e a Esplanada tinha um declive muito grande, onde as lavadeiras lavavam roupa, lá no Fundão. Como que navega isso? A menos que o cara esteja navegando com uma canoa nas costas. Foi nessa época também que eu fui para o Projeto Manuelzão. Eu, trabalhando no Estado, teve uma época que eu trabalhei na Liga de Defesa Nacional eu não mantive amizade com as pessoas, eu não consigo manter amizade com quem eu acho que é superior à minha pessoa, em termos de conhecimento. Eu sou envergonhado. Na época o Dom Serafim estava sendo convidado, via telex a ir a um evento da Defesa Nacional. Ele estava sendo convidado e não respondia, não ia. Aí me pediram para ir lá pessoalmente fazer o convite, e mesmo assim ele nunca foi. E aqui ele veio, no córrego dos Joões. Tenho retrato com ele e tudo. Veio gente da África, da Inglaterra, do Uruguai, do Chile, do Peru, da França. Aí esse tempo todo, foi chegando outras pessoas. Eu, anteriormente, havia ganho o prêmio AMAP -‐ Associação dos Moradores e Amigos do bairro Pompeia, Eu ganhei o prêmio Hugo Weneck, que eu disputei com a Cristiane Torloni, que tem um trabalho muito importante, e Seu Nonô ganhou. Depois ganhei prêmio de sustentabilidade, do IAB. Como é o trabalho, o mecanismo que o senhor desenvolveu para tirar o esgoto? É o seguinte: o esgoto vem correndo ao longo do córrego. E ali no alto do córrego, bem junto à entrada do meu terreno, eu fiz um desvio. Eu direciono a água para uma tubulação, que leva essa água já bem para a frente, já
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no começo da Avenida Mem de Sá. A partir daquele ponto do desvio, a água é limpa porque brota ali. Porque o terreno é permeável, a chuva cai, infiltra e, mesmo na estação não-‐chuvosa, a água vai drenando até a calha do córrego. A água vai brotando limpa. Nós temos, dentro dos rios brasileiros, só o rio Amazonas e o Solimões que não dependem da chuva, dependem dos Andes, das geleiras que derretem no calor. E o que motivou o senhor a começar esse trabalho? O que me motivou foi o movimento da água. Que eu vi que havia vida. E você deve sempre preservar a vida. Eu quis preservar a vida do córrego. Depois que eu comecei a limpar, apareceram umas Saracuras. Eu até pensei primeiro em chamar de Córrego da Saracura. Mas eu acabei optando por chamar de Joões, porque havia naquele tempo, além do meu pai, muitos “joões” que moravam na beira do córrego. Eu dei esse nome para atrair os vizinhos a ajudarem a manter o córrego limpo. Mas foi o contrário, eles só sujam, mesmo chamando João. Foi um golpe que eu quis dar, mas não colou. BH foi criada em 1897, no século XIX. Esse local foi escolhido para ser a capital de Minas por ter uma rede de córregos muito grande. A quantidade de água drenada na cidade. Diz que numa calça jeans gasta 11 mil litros d’água. Então qualquer indústria necessita de água. Uma cidade para desenvolver, para gerar emprego, precisa de água. Por que o senhor acha que iniciativas como essa não acontecem com mais frequência? Por que esse tipo de exemplo do trabalho do senhor não vira ação em mais lugares da cidade? Tem movimento, mas não gera trabalho. É também uma norma física. Primeiro porque as pessoas não estão acostumadas a prestar um trabalho à natureza, um trabalho de agradecimento. Também por causa da situação financeira. Isso que eu faço aqui tem um gasto. Eu tenho a felicidade, que meu filho não depende de mim e minha mulher é muito dedicada. Minha mulher vem do Norte, é paraibana, ela é parente do Lampião e tem índios também como ancestrais, então herdou uma brabeza danada. O senhor acha que é possível a natureza continuar existindo na cidade? É uma pergunta que eu sempre fiz e as pessoas nunca acreditam no que eu falo: É possível, e o planeta Terra vai voltar a ser tão bonito como antigamente. Isso foi importante para mim porque, embora eu seja velho, eu não sou velho. Embora eu seja velho, eu não sou velho. Porque eu revejo sempre o que eu estudei e tô sempre aprendendo coisa nova. É o movimento. Faço exercício físico... E o movimento da água é importante. Às vezes tem um problema grave, as pessoas vão pra uma piscina e resolve. O movimento da água é bom. Quais as sensações que o senhor tem, em contato com a água? A água me dá uma sensação de prazer e alegria, “vai chover, tá chovendo.” As cascatas... É importante. Tem uma música de um cara que chama Vicente de Paiva. Ele diz: as cascatas.... e as borboletas que enfeitam as matas. A natureza, o céu de manhã, à noite, isso aí tem uma importância grande pra nós. Aqui na continuidade do Córrego da Baleia, ao longo da Avenida Mem de Sá, o que senhor acha que seria interessante para esse trecho que ainda está em leito natural? No seminário internacional de revitalização de rios, uma professora da Inglaterra veio aqui e contou que lá em Londres tinha um carnaval nas margens do rio Tâmisa. Então ali nas margens do córrego, tem uns pé de manga, de ameixa, de pitanga, ali a gente da comunidade reunia ali. Seria bom fazer um lugar de sentar, bater papo, conversar, reunir a família. Mas para o momento tô achando difícil. É importante a presença das pessoas, né? Sim, porque o ser humano faz parte da natureza, né? O ser humano é o ser mais importante. E o que é natureza para o senhor? É o ser humano, os animais, os pássaros, os rios, as águas. É o tempo. E é também a saudade.
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Faz voltar o tempo? Faz relembrar um tempo passado. E, às vezes, esse tempo, que o povo diz que não volta mais. Mas o tempo vai voltar. Talvez eu não esteja aqui mais, mas vai voltar. E cidade, o que é? A cidade faz parte da natureza. É um aglomerado de pessoas. Pessoas trabalhando. A água limpa que brota, quando é que o senhor a solta para o curso do córrego dos Joões, para encontrar o Navio-‐Baleia? Todo dia à tarde. O Córrego da Baleia, a COPASA tirou grande parte do esgoto. Foi canalizado e tá dentro da rede que vai para a ETE Arrudas. Então diminuiu a quantidade de sujeira dentro do córrego. E quando eu soltava a água, dava aquele balanceamento no Córrego da Baleia. Hoje o córrego dos Joões é um dos maiores poluidores do Navio-‐Baleia. A água limpa que o senhor abre, manda direto para o córrego da baleia, né? Sim. E eu tenho uma cisterna, de 1952, que eu uso a agua pra molhar as plantas, umedecer o lugar. É um poço artesiano sem muita tecnologia. Ele chega no lençol freático, sem usar tecnologia. Poço artesiano é mais fundo. Eu uso pra horta, para limpeza da casa. A da COPASA é para casa, banho, beber. Inclusive agora vamos fazer energia solar, se a gente faz captação solar para energia elétrica. Quero fazer uma coisa bem ecológica, para ficar de exemplo de como deve ser feito. Quero parar de lançar o esgoto na rede da COPASA, fazer um sistema que separe águas negras e cinzas uma fossa para as águas negras e as cinzentas serem tratadas por bananeiras. * * * Isaac de Medeiros, 35 anos Localização: Córrego do Marimbondo (Bacia do Onça) Geógrafo, professor do Centro Universitário UNA em cursos de graduação na área ambiental, atua como Analista de Políticas Públicas na Secretaria Municipal de Planejamento Urbano -‐ SMAPU/PBH, desenvolveu pesquisa de mestrado em Análise Ambiental na UFMG sobre o Programa DRENURBS. Passou a infância na região de Venda Nova, em forte relação com o Córrego do Marimbondo. ELISA -‐ Me conta um pouco da sua pesquisa de mestrado, sobre o Projeto Drenurbs. Qual era o foco da sua análise? ISAAC -‐ Sou geógrafo, tenho graduação e mestrado em geografia, e na geografia a gente questiona essa tentativa acadêmica, didática, de separar meio antrópico e meio natural. Essa excessiva separação que as ciências forçam, e que acaba também sendo reforçada nas leis, nas normas. Na minha linha de pesquisa na pós-‐graduação tinham duas correntes, um mais de discussão humana, que incorporaria o urbano, e outra, de análise ambiental, que seria uma linha mais física da geografia. A minha pesquisa foi na linha de análise ambiental, mas, por influência do meu orientador, acabei fazendo um trabalho híbrido. Minha proposta era a de tentar investigar as possibilidades de ressignificar a presença dos cursos d’água em Belo Horizonte, trazê-‐los como elementos da paisagem urbana, do cotidiano, com significado além daquele que historicamente passou a ter. Tem uma parte densa e exaustiva da minha pesquisa que é de percepção, onde eu fiz um ensaio para entender como a intervenção pública poderia mudar a percepção das pessoas. Eu abordei 3 comunidades [dos entornos dos parques Nossa Senhora da Piedade, Primeiro de Maio e Baleares] onde se percebe claramente que as pessoas têm um sentimento, uma relação de afetividade com aquele elemento, a água, em função de sua experiência. A experiência acaba moldando a percepção e os desejos que as pessoas têm. A Engenharia, por causa de uma tradição mais estruturante, que acredita que a técnica pode moldar o ambiente da forma que a gente quiser, acaba gerando essa prática de querer sumir com os cursos d’água da paisagem e canalizar. E o que eu percebi na minha pesquisa foi que as pessoas veem isso como solução para a água que
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existe enquanto problema. E as coisas se casam com um discurso muito sedimentar do poder público, onde a resposta para a presença de um córrego no ambiente urbano é sumir com ele. Sumir com o problema. Então eu aproveitei uma pesquisa de percepção que tinha sido feita no início do projeto Drenurbs, que mostrou a relação que as pessoas tinham com a água. E como eles passaram pela obra e minha pesquisa coincidiu com o término das obras, eu pude fazer o “pós”. Para avaliar se a percepção havia mudado. Para a minha grata surpresa eu pude obter o resultado de uma mudança favorável. As pessoas passaram a ter admiração pelo espaço a partir do momento que o problema deixou de existir. O problema não era o rio, a resposta era óbvia. Por que as pessoas lidam mal com a água no ambiente urbano? Acabou de acontecer um temporal em BH agora, alguém ficou com seu carro cheio d’água – na Lagoinha, na Prudente de Morais, na Teresa Cristina. Essa pessoa vai ter uma relação a partir de uma experiência péssima com a água. A população que mora em área ribeirinha, ela tem medo da água. Quem mora em área onde tem esgoto associado ao curso d’água, tem nojo da água. Se você muda essa situação que gera o desgosto, as pessoas passam a valorizar o espaço. E sempre que eu volto nesses lugares, por que eu frequento esses parques que eu estudei, eu vejo o quanto o pessoal abraçou os projetos, abraçou o lugar. Passados 10 anos do Drenurbs, com o que tem disponível nessa linha atualmente no planejamento urbano, o que você pensa que foi interessante, mas que não está mais presente nas políticas públicas hoje? E o que nem mesmo naquela época foi satisfatório, que já então poderia ter sido mais interessante? Obviamente, a minha avaliação daquela época e a de hoje são diferentes porque eu tive um amadurecimento profissional, estou na Prefeitura já há 6 anos, tive a experiência de poder público... porque na minha pesquisa eu tentei cobrir os diferentes atores. Eu escolhi a comunidade como primeiro objeto de percepção, mas também a academia, os especialistas e o poder público. Eu tive diversas respostas, todas bastante ricas, de pontos de vista diferentes. A academia, sobretudo aqui no Brasil, é muito crítica e pouco propositiva. Não estou falando que a missão da universidade seja fazer, mas por um compromisso com a sociedade ela poderia passar um pouco além da crítica. No poder público, o que eu percebo é que a gente vê as queixas que são feitas e tem o profissional que tem a sua mentalidade, seu desejo, sua competência, mas está em um ambiente institucional onde existem diversas amarras, limitações orçamentárias, políticas, institucionais mesmo. Eu convivo com profissionais, tanto do mercado -‐ porque hoje eu lido muito com as consultorias, por causa das minhas atribuições na Prefeitura – quanto dos profissionais internos da Prefeitura, você tem uma gama totalmente variada de formas de atuação. Você pega um engenheiro, e às vezes é por causa da idade, mas nem sempre, pode ser por causa da formação que teve... Você tem um engenheiro de 50 anos de idade, com 30 de atuação, o cara se formou numa época em que a mentalidade era orientada num sentido. O cara que está saindo da faculdade agora, de Engenharia Ambiental, hoje, ele tem outro tipo de formação, outra bagagem, porque o tempo passou. Mas muitas vezes não é idade, é mesmo como a pessoa conduziu sua formação, que vai ser mais pra lá, mais pra cá. Então algumas dificuldades são de mentalidade mesmo. Porque você convencer um morador de que vai trazer o saneamento que ele tanto deseja, pra tirar o rato e a barata e a água suja da porta da casa dele, ou a té de dentro da casa dele, mas fala que o curso d’água vai continuar ali, você tem que ter um poder de explicação pra vencer toda uma mentalidade... é difícil, não é fácil. Do mesmo modo, convencer um engenheiro que está acostumado a fazer uma solução de encaixotamento numa seção transversal trapezoidal para acelerar a velocidade da água, tirar a água dali, eliminando a parte de saneamento com as redes... porque o saneamento é rede, é infraestrutura, você não tem que pensar no canal para fazer o saneamento. Mudar a mentalidade de um profissional que já atua assim, que sabe trabalhar é assim, que não tem uma atualização, pensar um modelo alternativo, de um parque linear, que entenda o ambiente naturalizado, entre muitas aspas, como possível e urbano... é tão difícil quanto. E isso só falando de mentalidade, por enquanto. Não estou falando de recurso, nem de política, no sentido mais negativo do termo. Mas convencer um gestor público, aí entrando na política -‐ no sentido bom do termo, ou neutro-‐, convencer o gestor, que tem sua formação, sua história, sua forma de pensar. Falar, “olha, não é assim que faz mais não, ô secretário, ô prefeito, ô diretor”.... é difícil. São espaços de disputa. Você tem então vários componentes, a mentalidade, a formação, a concepção de cidade, do mundo, dos problemas. O componente financeiro, os custos de execução e de manutenção. Às vezes fazer de um jeito, tem um custo mais alto nisso e mais baixo naquilo, e no outro jeito, o contrário. Você tem que escolher. Eu vou fazer uma solução que tem mais necessidade e custo maior de manutenção? Ou vou fazer algo que me dá uma solução quase que definitiva, cuja periodicidade de manutenção é de muito longo prazo? São escolhas, na hora de escolher, várias variáveis vão pesar para o tomador de decisão.
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No campo da disputa técnica, tanto quem está no mercado, como nos órgãos públicos, e quem toma as decisões das obras, dos projetos, como do caso do Jardim Felicidade [projeto de saneamento e recuperação do Córrego do Tamboril]. Olha, se alguém falar que vai levar urbanização para aquele fundo de vale, trazendo rua, avenida, calçada, rede de esgoto e um canalzinho lá no meio onde a água da chuva vai correr... quem vai falar que não vai ser bom para aquelas pessoas que estão ali convivendo com uma série de problemas? Se você entrar na disputa falando que é ruim, é infrutífero. Agora, é a única solução? É o que a população deseja? A população sabe o que ela deseja? Eu fiz essa pergunta na minha pesquisa: “Antes do projeto [ Drenurbs], o que você queria nesse lugar?”, “Uma avenida sanitária”. Depois que o projeto ficou pronto, eu perguntei, “E agora, se você pudesse escolher sabendo que o que foi feito seria isso, o que você escolheria?”. “O parque”. Então às vezes as pessoas não sabem porque não conhecem a outra possibilidade. Então essas disputas demandam uma ação coletiva, que atue nesses aspectos todos – técnicos, políticos, econômicos, de mentalidade. Eu fico um pouco impactada, justamente por causa do sucesso que eu considero que sejam essas obras do Drenurbs, de não termos uma perspectiva mais clara de continuidade desse formato. Como você está dizendo, uma vez que já foi feito, a referência que significou para os moradores envolvidos, certamente também foi para a gestão. O que impede que isso seja mais claramente assumido como política pública, com continuidade prevista? Já tem muito tempo desde o último parque... O projeto em si, ele continua, até hoje tem obra do Drenurbs. Mas o que é a menina dos olhos do Drenurbs, que são os três parques, isso se encerrou. A Prefeitura, Belo Horizonte, enquanto cidade, não conseguiu reproduzir isso novamente. Minha avaliação, depois da minha pesquisa e com base nas informações que eu tenho hoje: um fato preponderante se chama verba, dinheiro. Eu peguei os contratos e tenho um pouco documentado como foi isso. A gente estava em outro momento. Hoje estamos nesse cenário político tenebroso no Brasil, uma crise econômica, já discutida há muito tempo, com desemprego alto, crescimento econômico baixo. Lá atrás, nos anos 2000, na metade da década, a economia estava de vento em popa, o Brasil estava crescendo, e a cidade de BH conseguiu um financiamento de 60 milhões de dólares do BID. Essas coisas têm custo, gastam dinheiro. Às vezes quando você coloca os tipos de solução lado a lado, tem a seguinte situação: o custo de implantação de uma obra é alto, mas o custo de manutenção, então o custo total, é baixo. Inclusive se engloba os gastos que poderiam ser reduzidos com saúde pública... Pois esse é o cálculo que nunca é feito. A gente usa muito esse argumento quando temos que disputar internamente aqui na Prefeitura esses discursos. A gente fala, olha, ok, o custo de implantação de um projeto mais naturalizante, que respeita mais o ambiente, que dialoga mais com quem está lá, a comunidade, o uso, deixando o curso d’água no lugar, comparando com uma solução tradicional de engenharia, num primeiro momento, pode até ser mais alto. A manutenção, de fato, a estrutura de drenagem urbana tem uma escala de manutenção que é longa. Você mantém um curso d’água em leito natural dentro de um parque, você tem nem que seja a manutenção do parque para arcar, e ela é regular. Isso é verdade também. Mas se você pensar nos benefícios que isso traz a longo prazo em termos de saúde, ou eventualmente, quando você pega o ciclo de vida útil desses projetos de engenharia tradicional -‐ há 30 anos atrás, uma série de obras que foram feitas foram tomadas como solução definitiva, e a gente sabe que não são. Então o custo vem a longo prazo, porque temos que refazer, tem que quebrar, tem que ampliar a galeria, enfim. Hoje saiu até na mídia uma declaração do prefeito [Alexandre Kalil], dizendo que as chuvas se resolvem daqui a 40 anos. Então temos que ter paciência. Isso é verdade. Na época da minha dissertação tinha uns dados sobre inundação e drenagem urbana de São Paulo, falava que se São Paulo começasse agora no início do século a investir em soluções mais adequadas para sua drenagem, a partir de 2050 a gente começaria a colher os resultados. É isso, Belo Horizonte tem mais de 100 anos, 100 anos de impermeabilização, antropização. Não é uma gestão, não são duas que vão resolver. Então se você calcular a baixa eficiência das soluções tradicionais e os altos retornos que uma solução não-‐ estruturante traz, a gente tem que fazer esse diálogo. A gente está fazendo um investimento que pode ter retorno de saúde, de futuro para a cidade, com muito maior sustentabilidade. Por que não fez mais? Primeiro porque precisa de dinheiro. Não é barato. Embora a gente tenha feito alguns ensaios tentando mostrar que a gente consegue fazer boas soluções a baixo custo. Essa coisa também é relativa.
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O que tem rolado de ensaios que você destacaria, que você ache interessante? Mesmo que seja só no projeto. A gente está numa fase de rediscussão das concepções de projeto. Por que estamos percebendo que não temos condição agora de abrir um novo processo, para escolher novas bacias e fazer projetos amplos de parques como aqueles. Não estamos em um cenário como esse. Mas nós temos diversas obras no município, o Conjunto Jardim Felicidade é um exemplo, que vêm de uma disponibilização orçamentária passada, de investimentos regulares, de intervenções que já estão previstas de acontecer na cidade. Então a gente tenta repensar esses projetos, principalmente no embate entre solução estrutural e não-‐estrutural. Onde, quando e por que ela é necessária. Então o que a gente está conseguindo fazer nessas discussões desses projetos é ter algumas certezas e resultados até positivos. O Jardim Felicidade foi um grande resultado positivo, onde tinha um projeto estruturante e a gente conseguiu pelo menos interromper esse processo. É óbvio que quem é de fora escuta isso e fala, “Poxa, ia trazer uma melhoria para o bairro e vocês interromperam?”. Mas quando a gente conseguiu fazer a discussão e colocar tudo na balança, viu que, com um projeto onde podemos ter resultados muito melhores e mais de encontro ao que a comunidade deseja e precisa, teríamos um custo meno. E lá nós não propusemos fazer um mega parque do Drenurbs. Então nós temos vários projetinhos e alguns projetos maiores trazendo essa discussão. Para mim a grande contribuição dos parques do Drenurbs foi mostrar que nós somos capazes de fazer diferente e que fazer diferente dá resultado positivo. Você está formando agora, eu defendi minha dissertação em 2010. Quase 10 anos depois uma pessoa está falando do Drenurbs. É processo. Então a gente está começando a colher resultados nem que seja de construção de uma nova mentalidade. Seja acadêmica, seja técnica, seja dentro da Prefeitura. Eu converso com consultores de projetos da Prefeitura, e o pessoal já vem com discurso de que hoje não se faz mais assim, então dá para ver que esse benefício nós estamos tendo. Eu acho que a gente está caminhando em uma direção boa. Com resultados mais lentos do que a gente gostaria. O que você pensa sobre a questão de escala? Redução da escala dos projetos, em maior colaboração com a população, com práticas que possam ser locais. Por exemplo, com micro estações de tratamento ou infraestrutura de drenagem distribuída em cada quarteirão... Eu estou vendo processos de regularização de calçadas, por exemplo, cada morador adequando sua calçada com sinalização para deficiente visual, mas não vejo nada no sentido de implantação de soluções drenantes. Além de distribuir essas questões em várias interfaces possíveis com o poder público. Bem, não respondendo como membro da Prefeitura, mas como pesquisador e profissional da área. Eu aposto muito nessa hipótese da participação efetiva da sociedade civil, não só na discussão, mas na execução das políticas públicas. Eu acho fantástico o trabalho do Jardim Felicidade porque o pessoal tem uma postura muito independente em relação aos outros atores e eu acho isso espetacular e que isso falta na nossa cultura. Nós, brasileiros, temos uma cultura de muita dependência. A gente gosta do paternalismo do poder público. Quando você pergunta para um cidadão a causa de um problema na rua dele, no bairro dele, na cidade dele, é muito fácil a resposta. É sempre a culpa do Governo. Eu dou aula em cursos de Engenharia Ambiental, Gestão Ambiental... em qualquer curso da área ambiental, a pegadinha da educação ambiental é uma sacada muito óbvia e eu tento desmistificar isso um pouco. O pessoal acha que os problemas ambientais se resolvem com educação ambiental. Como se fosse só falta de consciência ambiental. É claro que é necessária a educação, tem que estar na escola, tem que estar no dia a dia. E isso já está acontecendo gradualmente, já acontece uma mudança cultural. As crianças dessa geração têm outra postura em relação à anterior. Mas eu pergunto para os meus alunos, “Por que tem inundação em Belo Horizonte?”. A primeira resposta é, “Ah, porque as pessoas são mal-‐educadas e jogam lixo na rua”. Tudo bem, a questão do resíduo é importante, mas talvez seja a menor parte dela. Aí fica numa relação muito pobre porque o cara acha que se ele fizer o mínimo que é destinar corretamente o lixo, ele já vira o Capitão Planeta, está concluída a parte dele. E mesmo assim a cidade vai inundar. E quando a gente trabalha a drenagem urbana, o ciclo da água, a questão da infiltração, a urbanização, impermeabilização, aí chegamos no ponto. Você falou das soluções dispersas de drenagem em substituição a grandes estruturas. Esse é um debate interno à Prefeitura e acho que em toda grande cidade, porque se você está em uma metrópole como Belo Horizonte, é inevitável você precisar de grandes estruturas. Não podemos cair nessa de achar que tudo é naturalizável, que tem que ser como era. Uma cidade com 70% de
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seu solo coberto de cimento, vai precisar de estrutura grande sim. Mas qual é a melhor política para os problemas de drenagem? Ninguém tem dúvida é a solução in loco, na fonte, no lote. Aí você que é da Arquitetura, vai para a questão urbanística. Vai ver na sua casa, no seu quarteirão, no seu prédio. Vai tentar convencer um condomínio a manter uma área jardinada, de taxa de permeabilidade. Vai na legislação e vê se os 20% exigidos realmente respondem à demanda de drenagem. Todo mundo fica na defesa da lei, mas ela é inócua. Você não consegue convencer nem seu vizinho a manter aquela grama da área privativa, que é do condomínio, mas que ele, por ser área privativa, transforma em espaço gourmet. E é um ciclo vicioso, porque existe uma verdadeira aversão pelos problemas que a natureza causa. A folha é sujeira, a terra suja a roda do carro e mancha o porcelanato da garagem... É a lei do menor esforço, né? Até intelectual, até de raciocínio. O pessoal não quer pensar. Então, o cara que não consegue entender que aquele problema da cidade tem relação com a ação dele dentro da casa dele, ele não vai estar disposto a participar. Ele não está disposto a se envolver. Ou quando está, está fazendo de forma incompleta. Simplesmente recolhendo o lixo. Mas quando as cidades constroem a consciência dos cidadãos como atores, com reconhecimento dos papéis das pessoas e das Prefeituras, saem resultados espetaculares. O pessoal está preservando nascente, preservando APP, de maneira independente. E sem colocar o dedo na cara do poder público e falar, “você que teria que fazer”, como um cliente insatisfeito. De fato, essas parcerias, essas posturas mais voluntariosas, das comunidades, de se envolver, de cuidar de um espaço público, de querer usar o que é público. Isso para mim é o melhor caminho pra gente construir a cidade que a gente quer, uma cidade melhor. Isso envolve educação, mentalidade e o conceito do que é público. Porque na nossa cultura o público é de todos e de todos é de ninguém. Ninguém se sente à vontade, ou na responsabilidade, ou até no desejo, de cuidar do que está fora da casa dele. Porque aquilo é tido como obrigação da Prefeitura. Mas aquilo é seu, aquela rua, aquele pedacinho da rua onde você mora, é seu. Na minha rua, hoje foi dia de coleta, quinta-‐feira. Esse é o pior dia da rua, porque o pessoal não respeita o horário de colocar o lixo, não respeita a forma certa, os animais rasgam, o catador de lixo reciclável abre (poderia já estar separado), o caminhão pega e derrama e as pessoas são ainda capazes de reclamar do estado da rua depois, porque a Prefeitura não passa lá depois pra varrer. Por isso que tem coisas que estão no papel, os bons projetos, que nos deixam empolgados, que a gente acha que vai mudar a realidade do dia para a noite... mas tudo é processo. É uma outra dicotomia pesada, além da natureza e do urbano, essa entre o privado e o público. No programa Drenurbs, eu sinto um incômodo pela eliminação dos resquícios de domesticidades. São antigos quintais, tem a presença das árvores frutíferas plantadas pelos antigos moradores, mas se tornou público, colocou cerca, e não tem uma forma de gestão comum. De que maneira a gente poderia questionar a ideia de parque? Como poderíamos deixar esse tipo de ambiente mais distribuído na cidade? Um exemplo, pessoal. Eu cresci em casa, minha família veio da roça, eu sou filho de gente de imigrante do êxodo rural dos anos 1970, saindo da periferia e vindo para BH. Meu avô materno, vindo da roça, seguiu a lógica da roça e comprou terra na parte baixa do bairro, perto do córrego. Então, eu sou, por origem familiar, ribeirinho, em Belo Horizonte. De Venda Nova. Cresci em casa e só fui sair desse ambiente de casa, quintal, lote com árvore, a presença de um córrego que está lá até hoje, obviamente contaminado, recentemente, depois que eu constituí família e fui morar em apartamento. Não gosto nem queria morar em apartamento, mas a forma como a gente produz a cidade, como o desenvolvimento urbano se dá é que me faz não poder morar numa casa. Nem todo mundo tem condição de comprar casa, por uma questão de quantidade. Então a teoria que a arquitetura e o urbanismo chamam de cidades compactas acaba causando limitações. O que mais traz limitações? O modo como a gente conduz a nossa existência, a nossa vida. Corrida, parece que o tempo voa, a gente tem tanta coisa pra fazer que nos coloca sem tempo para fazer nada. Eu no meu apartamento tenho horta, mas quase que não dá tempo de cuidar dessa horta. Você fazer essa gestão de um quintal com árvore, com jardim, com tudo isso, demanda tempo, dedicação. Coisa que cada vez mais no nosso modo de vida moderno, é escasso. Então você não tem a configuração espacial favorável a isso, você não tem as pessoas com dedicação suficiente para isso, então acaba que a gente parte para uma ideia inicial de que essa natureza talvez esteja fadada a estar nos espaços protegidos públicos.
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A cerca, tem toda uma questão de segurança, manutenção, resíduo, impacto. Eu tenho uma avaliação diferente em relação aos parques do Drenurbs. Porque em termos de obra, até por questão de recurso, o ideal seria fazer um mega parque sensacional com infraestrutura pra uso, remover todo mundo que precisar pra fazer o parque do jeito ideal. Primeiro, é custo elevado, segundo, a remoção é conflituosa. Poxa, conviveu 40 anos com o prejuízo, agora que vai melhorar vai tirar a pessoa dali? No Drenurbs, diferente disso, até por uma questão de recurso, todas as remoções que foram necessárias por demanda do projeto – rede coletora de esgoto, por exemplo. Tem uma parte da comunidade que estava dentro do curso d’água, em condição insalubre. Fora dessas situações, as pessoas ficaram. Então lá no Baleares, por exemplo, situação que eu acho ideal, quando já tem uma situação de adensamento como ali, às vezes o limite do parque já é o muro da casa. Tem gente que acha isso ruim. Acha que todo parque deveria ter uma via de contorno pra ciclovia, pedestre. Eu acho muito interessante isso, porque você está respeitando, permitindo que a pessoa conviva com o benefício, agora que ele veio. Ela cuidou o tempo todo então agora vai continuar estando ali. Então eu acho que lá houve uma tentativa de respeitar isso. Óbvio que por uma questão de gestão, acaba fechando, vira um espaço preservado, público, com horário de abrir e de fechar. Com necessidade de gestão, manutenção. Mas isso não invalida a tentativa da gente manter a cultura das pessoas de ter esse espaço dentro de casa. Nós somos um país que vive de lei. Imagina se a gente tivesse uma lei que falasse que todo lote tem que ter uma árvore. Qual seria o índice de área verde no município. Mas eu tenho é que criar a cultura, não é só escrever na lei e obrigar, virar uma questão de fiscalização. Tem que ter o trabalho de educação pra sociedade ser parceira. Eu ter espaço pra uma horta, entra as questões da saúde alimentar, agricultura orgânica, temos que pensar e atuar de maneira mais abrangente, mais intersetorial, trazer os conceitos pra dialogar. Você sempre fala de uma aplicabilidade, e isso é bom, mas queria te propor um exercício de pensamento utópico. O que seria uma forma interessante de Belo Horizonte lidar com suas águas? Como eu te disse eu sou ribeirinho. Eu sei o que é ter a casa invadida por água suja. Eu sei o que é conviver com o mal cheiro. Por outro lado, sempre fui ligado à natureza. Fiz geografia, viajei muito, procuro lugares longe da urbe pra fugir, pensar, refrescar as ideias. Eu sempre defendi uma convivência entre nós e o espaço. Acho que é possível a gente ter uma cidade que tenha um patrimônio ambiental interessante, rico, que traz benefícios ecológicos, de saúde mental e física. Quando eu fui para um apartamento, meu primeiro apartamento era ao lado de uma área de preservação. Os urbanistas falam que todo parque deve ter uso. Eu morava do lado de um que não tinha uso. Era uma reserva. E era espetacular. No meio do bairro, aquilo trazia um conforto, tinha vida, ave, primata, roedor e a minha janela era de frente para lá. No bairro Rio Branco. Assim como você pode ter área verde, acho que a água faz parte dessa presença como elemento não-‐construído. E Belo Horizonte foi escolhida como sítio justamente por isso, cada área mais baixa da nossa cidade que hoje é uma avenida, no passado era um curso d’água. Então eu acho que a gente, tendo tecnologia, tendo avançado nas soluções de engenharia, não tem porque a gente não fazer esse resgate com diálogo. E a premissa do Drenurbs, por isso que me encantou desde o início, era: manutenção do que está aí. A gente tentou levar essa discussão para última Conferência da Cidade: a gente não quer perder o que sobrou. Esse é um primeiro passo. Assim como fazer os 3 parques foi um primeiro passo para desencadear esse monte de mudança de pensamento em algumas, em muitas pessoas. Em 2021 vai fazer 20 anos do plano diretor de drenagem que concebeu o Drenurbs. Eu acho que só o fato da gente garantir a manutenção do que está aí, com outra lógica, com o conceito de convivência, acho que já garante que no futuro a gente possa pensar em reversão. Pensar em voltar ao que era antes. Só que isso tem a ver com discussão de mobilidade. Porque os cursos d’água são transformados em função dos nossos modelos de saneamento e mobilidade automotiva. Por isso que eu falo que temos que pensar na pessoa, no indivíduo. As nossas necessidades de deslocamento acabam impactando na cidade que a gente tem. Na utopia que a gente tem de ter uma cidade com água, com rio. Mas eu acho que é possível, eu consigo enxergar uma cidade no futuro onde a gente consiga manter o que sobrou e tentar, no longuíssimo prazo, reverter situações. Não só das áreas públicas, mas também uma ressignificação da nossa relação privada com a natureza. Essa coisa do manejo, que você falou, desde o lote, o quarteirão, a área pública. Só que isso depende de uma evolução de mentalidade. As pessoas entenderem que isso é necessário, é urgente, e que não tem como escapar.
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O contrário da utopia pra mim foi sempre não enxergar Belo Horizonte como São Paulo. E a gente ainda tem essa chance. Você vê capitais médias do Brasil, eu visitei Campo Grande, ela tem uma condição de sitio urbano espetacular. Eu adorei, moraria lá. É uma capital pequena, uma Belo Horizonte de 20 anos atrás, em termos de população, tem diversos projetos de parques ecológicos, tem uma política de ciclovias legal, acho que com a extensão 5 vezes maior que a nossa. Tem cidades que estão com esse desenvolvimento urbano por vir, e BH está numa situação ainda intermediária, não somos megalópole como SP e RJ, mas também não tão pequena como Campo Grande, acho que essas têm condição de fazer um amadurecimento e ter um projeto de futuro diferente. Essa é minha utopia. O que é natureza? É isso aqui, o meio ambiente, o lugar onde todas as formas de vida e formas não-‐viventes estão. Eu sou muito crítico dessa dualidade, dessa forma de tratar da ecologia radical da década de 1970, que acaba achando um contraponto nas teorias de urbanização modernas que tentam negar a natureza. Desde a revolução industrial que não tem essa distinção. A gente, como qualquer outro ser, adapta a terra, adapta o meio. Obviamente nossa capacidade cognitiva, nossa sofisticação é maior e a gente consegue construir essas coisas fabulosas que a gente já construiu, mas taí o aquecimento global, o efeito estufa, a mudança climática, mostrando que a gente não é nada. Assim como uma pedra. Então natureza para mim é tudo. Não tem essa distinção entre natural e não natural. E cidade? É um componente dessa natureza. Um lugar onde a gente colocou mais o dedo. E, pra mim, baseado num modelo fracassado e ainda não ultrapassado, do positivismo que pensa que a racionalidade humana está acima de todas as coisas, que com ciência e tecnologia a gente resolve todos os problemas e pode fazer o que quiser com o esse ambiente. Cidade hoje para mim é resultado dessa mentalidade, dessa construção. Mas é um elemento da natureza que eu espero que saia dessa mentalidade o quanto antes. E como está a água na sua vida pessoal, no seu cotidiano? Como é seu contato com ela? Acho que igual todo mundo. Todos os usos possíveis e imagináveis do recurso água. Desde insumo, que eu consumo, uso doméstico pra alimentação, higiene. Lazer... Você convive com algum rio? Eu procuro a convivência com espaços preservados, então eu busco sair, conhecer rio, cachoeira, mar. Gosto muito disso. Na cidade, a minha convivência pessoal é muito em função das localizações que eu frequento. Em Belo Horizonte não tem como você fugir da água. Você pode não saber, mas eu, que tenho um conhecimento bom do território, onde tem fundo de vale, onde não tem. Então andando na cidade eu sei o tempo inteiro onde ela está. Agora se eu vou na casa da minha mãe, a água está lá do outro lado do muro, no fundo do quintal. E, profissionalmente, sempre vamos a campo de trabalho, então é um elemento que guia muito as minhas preocupações pessoais e profissionais. Em termos até de planejamento urbano. Eu tento muito fazer esse debate aqui na Secretaria [SMAPU]. Porque se cada lugar onde a gente estiver, cada empresa, cada entidade, cada órgão tiver gente fazer essa discussão, cada vez mais a água vai estar presente na vida de mais pessoas. * * *
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Ione Maria de Oliveira, 50 anos Localização: Córrego Lajinha (Bacia do Izidora) Moradora do Quilombo de Mangueiras, localizado no território conhecido como Mata da Izidora, na região nordeste de BH. O local abriga várias nascentes e possui um curso d’água, o Córrego Lajinha, que, para além do emprego nos afazeres cotidianos da comunidade (a rede da COPASA só chegou ao local em 2007), tem um valor sagrado, nos rituais de matriz africana, em que a água representa a origem de tudo. Ione fala da dimensão espiritual da natureza e da importância imaterial da água, pelas sensações que proporciona e por seus atributos de cura e renovação. IONE -‐ Aqui no Quilombo de Mangueiras tem 3 nascentes, que formam o Córrego Laginha. No alto do Córrego a gente fez um poço e lá nasce o Orixá. A água não é só para beber, para tomar banho. Lá nasce o orixá e é dessa água que a gente prepara os alimentos para o culto. Não acontece o culto sem que todas as pessoas tenham passado pela água. Tem sempre que passar por essa água antes de um encontro religioso. Na matriz africana a relação com a água é um modo de vida. Ali começa tudo. A água purifica o nosso corpo, a partir do momento que ela esta pura. É diferente da água da COPASA, que tá cheia de cloro, né? Se é uma água da nascente, do poço, a gente acredita nessa água. É assim, é dessa forma. A verdade é que o religioso está muito distante de nós. A gente passou a fazer parte do Manuelzão, pra saber como trabalhar, como proteger nossas águas. Nós trabalhamos na campanha, na “Meta 2010”, onde o governador Aécio Neves ia nadar e pescar, e ficamos muito decepcionados porque não houve muito crescimento e participação do Governo. Porque as pessoas do entorno estão engajadas, muito preocupadas com o Ribeirão do Onça. Queremos construir um parque linear ao longo do Onça, então as pessoas estão muito envolvidas com a questão da despoluição, com a retirada dos moradores das margens, das áreas de risco. Eu cheguei a fazer um curso de cinema, a gente registrou, fez um filme sobre a água do Quilombo, com o Gustavo Jardim, na UFMG. Ficamos 12 horas gravando pra fazer um espetáculo de 10 minutos, excelente. Comigo foi apaixonante, eu fiquei louca com aquelas informações. Eu consegui fazer um minuto de filmagem que parecia ter sido um ano. Foi maravilhoso. A gente conseguiu fazer o filme chamado Águas Sagradas, está no youtube. A gente teve também interagindo com o pessoal que cuida de uma nascente no bairro Jardim Felicidade. Nós fizemos conhecimento com vários cuidadores de nascente. Raramente a gente se desprende agora, nós fizemos um grupo de Whatsapp. A gente troca novidades, o que cada um está fazendo. Agora aqui no Quilombo estamos ligados a um projeto de proteção da nossa nascente, nossas plantas já estão com 2 metros de altura. Um relacionamento estreito, plantamos e elas estão crescendo. Tinha sido definido que ia fazer banquinho ao redor, várias coisas, mas, graças a deus, orixá é mais, que os moradores não tiveram a ideia de fazer banquinho, eles não aceitaram, falaram: “Não, essa nascente só vai estar preservada se ela tiver cercada e plantar tudo o que tiver. Ela não vai assorear, não vai ficar seca, o sol não vai chegar nela, nós vamos plantar ao redor dela. “ O trabalho ambiental que a gente tem feito, o projeto que temos aqui dentro do Quilombo que chama “Mangueira limpa”, a cada três meses a gente junta todos os moradores, alguém aluga a caçamba, a associação de moradores participa e a gente coloca esse lixo que está sendo produzido aqui dentro mesmo, embalagem de água sanitária, de confort, refrigerante, os meninos acabam brincando com essas embalagens achando que é bonito e elas se perdem no terreiro. E existe uma questão muito séria, muito grave aqui dentro do Quilombo que é o Lagedo, que é um bairro que tem aqui acima. O começo de tudo é na rua Pintor Pablo Picasso. Ela termina na cerca do Quilombo e, quando chove, a água vem trazendo o lixo todo do Lagedo e cai no rio, quando chove muito forte. A gente sobe então o rio todo, limpando. Uma infinidade de coisas.
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Quando chove muito o volume de água das nascentes aumenta e elas encontram. É aquela questão, o rio segue seu curso e ao longo dele encontra outros filhos. E é isso que acontece aqui no Quilombo, tem 3 nascentes, mas acaba que as águas se juntam em um certo local e continuam juntas. Depois eu vou te levar lá pra você ver. Outra história é de quando a gente teve essa água contaminada. De dezembro de 2016 a dezembro de 2017 nós tivemos o nosso ribeirão Laginha poluído com coliformes fecais, visivelmente. Nós procuramos entender e vimos que o cano da COPASA tinha estourado em cima dele. Aqui dentro do Quilombo tem uma adutora de esgoto da COPASA e ela estava estourada. Isso causou um assoreamento no lugar, o barranco começou a ceder e a gente descobriu. Mas levou meses infiltrando e começou a fazer muita pressão. Aí nos conseguimos que a COPASA viesse e retirasse, mas foi preciso muita pressão. Eu fiz uma carta para o Procurador Geral, que designou uma subsecretaria. Era a Associação Quilombo Mangueiras, e eles se portaram dessa forma. Se fosse uma outra entidade procurando eles, e não um quilombo, eles teriam mais agilidade. Eu fico indignada toda vez. Mas aí essa subsecretaria revirou uns 6 meses e eu dando em cima. Falando que eu não fico sem tomar banho na minha nascente. Que eu acordo todos os dias às 4 da manhã e tomo banho lá e que queríamos ela despoluída. E que tinha uma meta do Governador de tirar todos os esgotos, e nós até então nem tínhamos esgoto. Antes nem tinha também pessoas morando tão perto da nossa terra. Quando começaram a ter construções tão próximas ao Quilombo, tivemos que começar com a operação de caça-‐esgoto. Nós trabalhamos nessa meta, para que fosse tudo para a ETE Onça. ELISA -‐ E aqui atualmente tem rede da COPASA nas casas? Sim, todas as casas estão com água e com esgoto da COPASA. E antes da COPASA, como era, na sua infância? A COPASA tem pouco tempo, depois de 2005. O Luz para Todos foi em 2005, e veio eletricidade. Depois é que chegou a COPASA, acho que foi em 2007. Agora vê, até aí a gente usava a água da nascente pra tudo. Coava e colocava no filtro. Coava e deixava em cima da pia pra lavar louça. E agora como é a água no cotidiano de vocês? Como vocês separam o uso da água da COPASA e a do rio? Infelizmente, como têm tantos moradores aqui no entorno, eu tenho que usar a água da COPASA para cozinhar, beber e banheiro. Agora a do rio eu uso para todas as coisas do santo e tomo banho nela. Mas não posso beber. A proposta é que essa água fosse tratada. A COPASA trata como se nossa água fosse puro coliformes fecais. Se fosse isso mesmo, a gente teria indícios ali, não teria a mata ciliar, alguns tipos de samambaia não nasceriam. Mas ela não é “pura e cristalina”. Ela não é “límpida, inodora e incolor”... mas a gente está o tempo todo ligado para não cair nessas armadilhas. Porque quando a nossa água estava contaminada, que era visível o coliforme, a mata ciliar começou a morrer. O bambu, é visível a moita de bambu. Se tiver bambu em uma nascente, quer dizer que aquela água não é poluída. Você vê os aspectos do bambu e a nascente. A gente observou que perto do Ribeirão do onça tem uma moita de bambu exemplar, maravilhosa. Mas ela não alcança o leito do rio. Ela não faz uso daquela água. E logo acima dela tem uma nascente maravilhosa, que é a Santinha [próximo ao bairro Ribeiro de Abreu]. A moita de bambu se alimenta dessa água limpinha. Com certeza a moita deve fazer um excremento nessa água. A parte inferior é amarelo e a superior é verde. Fica na entrada do conjunto Ribeiro de Abreu, tem uma santinha, Santa Luzia. Então a COPASA oficialmente considera que o córrego de vocês está poluído? Sim, eles falaram para a gente não fazer uso da água. Há um tempo atrás, mais de 10 anos atrás, sempre na época de agosto, a gente tinha que sair daqui pra pegar água e para lavar roupa lá no Córrego Santinha. Porque nossa água secava. Agora não seca mais. E nós temos um parceiro, que já há 40 anos vigia o córrego Santinha e também atua no Quilombo. Ele é bombeiro, e nos trouxe informações sobre como saber se a água está saudável. E por que não seca mais? Aqui foi uma questão espiritual. A gente tratou dos ancestrais. Os ancestrais reconheceram o culto que a gente começou a fazer com mais frequência. O Quilombo estava muito desmatado. Simplesmente as árvores secavam e iam morrendo. Já tem uns 10 anos que o Quilombo passou por uma reestrutura espiritual que levou a uma reestrutura ambiental. Plantas voltaram a nascer, porque eu acredito que você entende nesse momento quando eu digo que as plantas crescem sozinhas. A gente inventa de plantar uma ou outra quando precisa, mas a fauna, a flora, elas se refazem sozinhas, você deixando quieto. E no Quilombo não estava acontecendo isso. Dentro do Laudo Antropológico [Relatório Antropológico de Caracterização Histórica, Econômica e Sociocultural do
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Quilombo de Mangueira, realizado em 2008, pelo Núcleo de Estudos de Populações Quilombolas e Tradicionais-‐ Nuq/ UFMG] a gente fez um diálogo, porque estávamos buscando um parceiro espiritual. E encontramos. Agora a gente vem realizando o trabalho. Cantando para Ossaim, que é o orixá da mata, e fazendo uso da água da nascente pra molhar a mata. E agora em 10 anos ele reflorestou, nasceu de novo. Usando a água. E você sabe o que eu estava pensando essa semana? Não só a água da nascente, mas a água de chuva, como ela é importante para uma planta. Mesmo eu regando constantemente as plantas com a água da nascente, com regador, essa planta aqui só sobreviveu quando começou a chover. Uma primeira chuva, ela cresceu 20 cm em um dia só! Eu tirei foto e mandei no grupo, o pessoal não acreditou. Elas empostaram assim e falaram, “vou pendoar! Vou dar semente porque eu já tô adulta!”. Impressionante. Tem data! Foi no dia 23/09 que a gente plantou. Dia 30, estava a mesma coisa, dia 5 de outubro, a mesma coisa, na primeira chuva, “Tan! “. Sabe? Então eu fico o tempo inteiro observando essa ação. Qual ação está agindo mais nas plantas, e qual água está tendo qual efeito. A água da mina age de uma forma nas plantas, a de chuva de outra e a da COPASA de outra forma ainda. Primeiro que a água da COPASA, seja de manhã, ela já está quente. Só não deixa o bicho morrer. A água da mina você joga, ela fica bem, mas não tem tanto crescimento. O desenvolvimento maior é com água da chuva. Mesmo se você guardar. A minha sogra tá me dando até uns toques sobre água de chuva: “Ione, coloca uma calha e reserva a água de chuva, porque ela é rica em tal tal tal coisa”. E já os meus avós sempre me falaram: “corre da chuva, porque ela vem sobrecarregada”. Aí eu penso que deve ser só as primeiras chuvas... eu não tive tempo de perguntar pra eles. Mas hoje eu penso que não é toda chuva. As primeiras chuvas vêm sobrecarregadas, de poeira, porque vem limpando várias coisas, então ela vem trazendo aquilo. Mas as próximas eu acredito que sejam muito benéficas. E no seu cotidiano, isso que você contou que acorda às 4 da manhã e toma banho na nascente. É sempre? Sim, severamente, todos os dias. Às 4:30 no máximo eu já estou lá, o caminho é livre até lá. O olho d’água mesmo é outra coisa, lá nós fizemos esse projeto, da plantação, da cerca, onde ela nasce mesmo, onde ela brota. Onde eu tomo banho é no curso d’água. Às vezes a gente fica muito infeliz, porque quando chove a situação da gente fica complicada. Porque eles lá no alto do bairro Lagedo, eles direcionaram essa rua aqui para a divisa com o Quilombo e colocaram uma escada, tipo pra quebrar a velocidade da água. Porque o volume de água de chuva é tão grande, que ele vira um rio Arrudas. Mas no dia a dia o Córrego Lajinha não tem um fluxo tão grande. Eu sei que uma piscina de 5.000 litros, ele enche em 2 horas. Mas quando chove dá um fluxo tão grande, que não vem só o lixo da rua, vem também areia e nosso poço vai ficando assoreado. Tem que limpar diariamente. Porque é vida aquela água. Não é só porque mata a sede. Ela tem mais coisa. Tem a questão do imaterial, o que eu não posso ver, não posso tocar. Mas eu posso sentir. Isso é importante pra mim. Isso é que dá vida pra mim. Eu estava muito mal, em 2017, quando a água estava contaminada. Quando chega alguém e me pergunta, “Ione, tem que tomar banho hoje? Tá muito fria!”. “Tem, o processo é esse”. Eu entendo o tempo que a pessoa leva para se acostumar, porque a água fria traz você de volta pra sua realidade. Ela não deixa você viver a vida dos outros. Naquele momento você vive a sua vida, porque é seu corpo que está ali, debaixo da água fria”. A gente fez vários levantamentos sobre a água fria. O tanto que ela traz você jovem, porque ela fecha seus poros. Sem ser tudo o que eu não vejo, não toco, mas sinto dentro da água. Aí traz essas outras questões do rejuvenescimento... Já tem uns lugares que até na pia tem torneira de água quente. E as pessoas acham chique. Eu não lavo meu rosto com água quente de jeito nenhum. Eu fui num hotel uma vez com uma amiga, para um seminário, e até a água da pia era quente. E eu queria água fria e não conseguia. Tive que procurar e desligar o registro atrás da porta. E muitas outras pessoas aqui do Quilombo têm esse hábito de tomar banho? Lá em casa só meu marido que ainda não vai muito. Só se estiver muito calor. Ou então se chegar da rua, com alguma questão. Eu falo com ele, “vai lá, energizar, toma seu banho, para você se estruturar, se equilibrar”. É a receita que eu dou. O remédio aqui é esse. O remédio aqui é o poço. Minha sobrinha que fala, “Ah, minha tia vive mandando a gente pra água”. Mas não tem nada melhor. Mesmo que você naquele momento ache que não está precisando, já completa alguma coisa em você, já dá um crescimento espiritual. Não tem nenhum momento que você vá buscar o banho naquele poço que você sai de lá sem nada. Você sempre carrega sua bateria de alguma forma. Porque tem aquele negócio, eu também acredito que água não venha só para nos limpar, nos purificar,
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mas que a água também preenche um espaço nosso que às vezes tá faltando. Ela lava umas mágoas e preenche. Às vezes está com uma irritação e guarda. E a mágoa ocupa um espaço que não deixa o amor, não deixa a felicidade entrar. A partir do momento que você toma esse banho, minha filha, não fica. Lava essa mágoa que você não soube lidar com ela. Que esse espaço se desocupa e consegue rir mais, ser mais feliz. Eu acredito dessa forma, que a água faz as pessoas feliz, a água alimenta. Não só porque através dela a gente produz e prepara os alimentos. A água tem o específico que é o imaterial. Que as pessoas não vê, as pessoas não toca. E que nos equilibra e nos sustenta. Porque no batismo, é água. Na igreja. No nosso batismo também é na água. Vai benzer, é com água. Então eles vieram devagarzinho dando umas soluções para a água e dizendo para o que a água é importante, mas do imaterial eles não falam. Porque o imaterial é do negro. O negro que sente as questões. O negro que tem ancestral e fala com as pessoas que a água tem ancestral. E a água tem a ancestralidade dela. Já tem 25 anos que eu acredito cegamente que a água resolve nossos problemas. Ela nos tira de um estado e nos deixa em outro estado, de equilíbrio total. A partir do momento que esfria nosso corpo. Não é uma água quente também, né? A água quente não traz muito benefício não, no meu modo de entender. Por isso que eu vou bem cedo. E outra coisa, aquela água onde eu me banhei, naquele local, outra pessoa jamais vai se banhar nela. Porque aquela água vai, é o rio que corre. Isso é importante saber. Porque as pessoas falam, “uai, Ione, mas imaterial como? Se fulano vai, ciclano vai.” É o rio que corre! A água vai embora. Ela não para, ela segue um curso, e eu acredito que ela leva as coisas negativas que tá na gente e deixa tudo em equilíbrio. O Córrego Lajinha começa na nascente, bem na base da Pedra do Xangô. Lá em cima, os meninos colocaram outro nome, Pedra do Urubu, porque fica um monte de urubu pousado, mas para nós que é do culto ela continua chamando de Pedra do Xangô. Mas no laudo antropológico a gente registrou como Pedra do Urubu, reconhecendo que a maioria do quilombo trata ela dessa forma e que existe uma diversidade grande de busca pela espiritualidade. É aquela questão que o povo diz, e é verdadeira, “água mole, pedra dura, tanto bate até que fura”. Se ficar uma gota de água pingando numa pedra ela acaba criando um buraquinho, depois ela racha, e acaba virando uma cachoeira. E a questão que eu aprendi muito no curso de cinema, que o Gustavo Jardim dizia muito, foi o seguinte: Cinema é cachoeira. Essa parte é muito emocionante. Porque se você tem uma cachoeira no seu quintal, todo mundo vai querer ver. Vai querer tirar foto da cachoeira. Foi muito lindo o curso de cinema. Fez parte do programa de valorização das nascentes, do comitê de bacia do Onça.É um projeto que tira 1 centavo da conta de água de cada pessoa, e aí vira um milhão, e com esse dinheiro é que se trabalha nas nascentes. E o que você sente em relação aos rios da cidade, em BH? Tenho um choque de realidade, quando saio aqui do Quilombo. Na questão da estrutura, do paisagismo de BH, eles erraram muito. Porque a água precisa de terra pra escoar. E Belo Horizonte, quando chove, fica cheio de inundação. Você praticamente tem que caminhar sobre as águas, porque onde seria para ela correr não tem vazão. Os rios foram todos canalizados. No nosso filme foi na Avenida dos Andradas, perto do shopping Boulevard, foi onde a gente fez o pré-‐lançamento do filme. Foi muito bonito mostrar o quilombo ali, porque as pessoas ficaram espantadas: “onde é esse lugar?”. ”Ah, deve ser umas cinco horas daqui, é muita mata, tem que andar muito pra chegar num lugar tão preservado assim”. A gente ficou ouvindo e depois falou que o Quilombo era dentro de Belo Horizonte. Graças a Deus a água tem me dado oportunidade de viver e conviver com outras pessoas. Quando eu digo que nessa hora do banho, que eu acompanho as pessoas que vêm para ter um auxílio espiritual, uma ajuda. As pessoas que já estão envolvidas, eu digo, “gente, vem tomar banho pra gente começar”. E lá fora, poder falar sobre as nascentes, sobre a nascente do Quilombo. Poder falar sobre o registro do Córrego Laginha, que a gente mapeou. Nós ajudamos a mapear o Santinha, o Izidora. Os esgotos do Izidora e do Onça. No nosso entorno, nós fizemos isso na maior alegria.
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O que você entende como Natureza? A natureza são os elementares. Tem gente que tem uma visão complexa, que tudo ocupa a natureza, eu, a casa, o espaço, o galinheiro... mas eu entendo que são os elementares, que são o início de tudo. Depois vem tumultuando até essa forma que está hoje. A água, a terra, o fogo, o ar. Que a partir daí, formou-‐se tudo. E sem isso não tem nada. Faltou um, já entra em desequilíbrio. Como você sente a natureza na cidade? Se for ver a natureza na questão de plantas, ela está muito precária. Eu vejo, mas ela é pouca, mas é quase inexistente. BH era muito mais arborizada do que hoje, mas as árvores ocupam espaço. Aí, entendendo que tem rede telefônica, elétrica, internet... eles acham que isso é mais importante do que preservar uma água. Já vi muita cidade grande com paisagismo muito lindo. Como poderíamos conviver de forma mais interessante com a natureza na cidade? Igual a questão das construções verticais, já atrapalha... mas é necessário, porque as pessoas precisam habitar. Pra morar tem que ter árvore, nascente, não ter asfalto. O que acontece quando eu saio da minha casa e vou para o centro? Eu tenho um choque de temperatura. Na cidade uma hora é quente demais, outra é frio demais, por causa do ar condicionado. Tem muita gente que não suporta mais viver aqui, quer ir para o interior. E aqui no quilombo, a cidade está vindo pra cima de nós. Está crescendo. Toda essa região, do são Gabriel até aqui era mata. Mas na época, poucas pessoas queriam habitar na zona norte de BH. Agora parece que não tem escolha, precisa morar. Igual as pessoas que invadem terra é porque precisam. A cidade está abrigando outras pessoas, não é só o crescimento das famílias que estavam aqui. Chegam pessoas de outros lugares. Tem países que não aceitam pessoas irem pra morar, porque a escola não cabe, o centro de saúde não vai dar conta de atender. Existe controle. As pessoas perdem vínculo com seus lugares em busca de uma infinidade de coisas na cidade. Sabe um lugar em BH que me deixa besta? É às margens da BR040, as casas em cima do esgoto. Abaixo da linha da pobreza. É responsabilidade do governo. E um lugar bom? O meu quilombo! E o quilombo do Mato de Tição, em Jaboticatubas. São lugares maravilhosos. São pulmões. Eu falo que eu tenho dois pulmões dentro do meu peito, o quilombo Mangueiras e o Mato de Tição. É um lugar onde você sente a temperatura cair. De noite você usa cobertor! Nós estamos próximos da água e muita folha de árvore cobrindo as casas. A folha não deixa o calor do sol chegar. Por isso a gente deixa folhas nos pés das árvores, deixa também em cima das telhas. Você nasceu aqui? Nasci no Hospital das Clínicas e vim para cá no 3º dia! Eu nasci de parto cesárea. Desde então me criei aqui. Criei meu filho aqui, de 24 anos, o Marcos, que faz direito. Tá no 6º período. Orixá tem abençoado muito, porque a gente tem tido muita vitória na questão de como buscar o conhecimento. Quando você busca, você tem. Como é sua atuação na Associação? Sou diretora de projeto. Não chega muito. Mas o que tem, são os projetos com a escola, os projetos com a nascente. Receber escolas aqui pra mostrar as nascentes, falar sobre a mata, a história do quilombo. E os cultos, os trabalhos aqui, é você que conduz? Eu sou a primeira filha da casa de santo. Mas tem meu pai de santo, meu orientador, ele que abre e encerra a sessão. Mas eu estou em todas, tanto na quarta, como no sábado. Faz parte da minha semana, do meu mês, dos meus anos. E a luta de vocês pela posse desse território? Vocês conseguiram registrar como patrimônio imaterial, não é? A gente começou em 2010 o processo para registro do território, quando o Incra me pediu autorização, eu era Presidente da Associação, pra fazer levantamento do material e passar para a Secretaria de Patrimônio do Município. Aí em 16/09/2017 nós fomos reconhecidos pelo valor imaterial. Tombado como Patrimônio Imaterial
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da cidade de BH. Para mim, que desenvolvo um culto de matriz africana, isso é muito importante, porque o território é tudo. Não existe como desvincular desse lugar. Quilombo é resistência no local. Não acredito em quilombo com pessoas que ficam indo e vindo. Não existe um quilombo onde não existe pessoa no local. A gente resiste ali. Se acabou a luz, a gente vai ficar ali até a luz voltar. A gente vai ficar ali. Acabou a água, pega em outro lugar e vai usar no quilombo. Hoje está estruturado, energia elétrica, esgoto, água, saneamento básico... ótimo, melhorou. Mas a gente tem muito o que avançar, estruturar, cercar, arrumar as casas que tem muitas caindo. Escrever um projeto, fazer parcerias, porque a Caixa Econômica tem verba reservada para Minha Casa Minha Vida rural, minha casa minha vida quilombola. A gente precisa de uma empresa de engenharia. Nós temos a ADE do Quilombo que já determina, por exemplo, que não vai ter nada além de 2 andares. Aí precisamos estruturar do jeito que cada pessoa quer, estruturar as casas, mas não construir um tanto de casa popular dentro do quilombo. Se for vontade de todo mundo, fazer um projeto na caixa. Vocês já tiveram algum tipo de parceria com a escola de arquitetura? Não. Da universidade a relação é mais com o NUq, né? Sim, o NUq foi contratado pelo Incra pra fazer o levantamento antropológico. Foi um processo muito legal. Na apresentação de cada etapa do trabalho a gente fazia um churrasco, uma festa. Aqui é legal isso, sempre tem comemoração. Para esse projeto que você está falando, pode ser legal alguém da Escola da Arquitetura que possa mediar um processo mais interessante, de mais escuta dos moradores... Sim, o engenheiro que veio aqui e construiu essa sala de aula, construiu debaixo do pé de jatobá. Os Frutos caem e vivem quebrando as telhas. De certo ele imaginou que a gente fosse derrubar a árvore. Porque eles estão acostumados, na cidade, as árvores é que dão licença pra cidade crescer. E aqui no Quilombo não é assim, além do Jatobá ser uma árvore tombada. Ele não vai sair daí. * * * Daniel da Silva Pimenta, 50 anos Localização: Córrego do Cercadinho (Bacia do Arrudas) Geólogo, ex-‐funcionário da COPASA, onde atuou como Analista de Recursos Hídricos, atua hoje em empresa de iniciativa privada, com enfoque em perfuração de poços tubulares profundos e de monitoramento ambiental para abastecimento público, industrial e mineração, com a exploração de águas subterrâneas. ELISA -‐ Me conta melhor como é o trabalho na sua empresa? Vocês realizam a perfuração de poços artesianos? DANIEL -‐ A expressão poço artesiano, na verdade, não é a mais correta. O artesianismo é raro, é quando o poço naturalmente joga a água para a superfície, o que ocorre em casos em que a pressão do meio onde se encontra a água subterrânea é maior do que a atmosférica. O nome correto para esse tipo de intervenção que realizamos é poço tubular, que pode ser revestido em tubos de aço ou de pvc. São utilizados para abastecimento industrial, consumo humano, rebaixamento de lençol freático e monitoramento ambiental. Os poços considerados “profissionais”, são poços tubulares que seguem as normas técnicas da ABNT. Então, sim, nós realizamos consultorias, encaminhamos o processo de licenciamento ambiental e fazemos a própria perfuração.
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Quais são os elementos que você observa para avaliar o trabalho de um poço? Em termos de dificuldade, das características específicas de cada local... Existem várias metodologias de locação de poço. Primeiro ocorre um reconhecimento de campo, por visita e/ou por fotografia aérea, com um conhecimento técnico que avalia as características da vegetação, do relevo, do solo. Existe também um procedimento chamado prospecção geofísica, feito com equipamentos de eletroresistividade, emitindo ondas eletromagnéticas para o subsolo. Cada tipo de rocha responde de forma diferente, com isso podemos estimar as características do solo e das rochas localmente e indicar os melhores locais para a perfuração de poços. O primeiro passo é a obtenção da Licença de Perfuração, que deve ser retirada no IGAM, que é o órgão gestor das águas em Minas Gerais. Existe uma Lei Federal que rege as legislações estaduais. A água é um bem Federal, da União, então qualquer uso e qualquer procedimento para possibilitar esse uso deve ser autorizado, e em seguida deve ser solicitada a Outorga de uso das águas (subterrâneas e superficiais). E a outorga e o uso dessa água são cobrados? Sim, mas é interessante para atividades industriais e grandes empresas fazerem a própria explotação da água, pois principalmente para grandes volumes, o custo final é em média 10 a 20% do valor que uma concessionária, como a COPASA, costuma cobrar. Na situação de uma crise de abastecimento hídrico, como a de 2014, a responsabilização da população é uma injustiça se pensamos na dimensão do uso agropecuário e industrial, não é? Sim, em uma situação de crise hídrica como a anunciada em 2014, é um salve-‐se quem puder. Com a falta de água é a população que paga. E, mesmo assim, em algumas situações, as taxas cobradas em geral costumam ser elevadas e os serviços entregues, de má qualidade. Com a questão do esgoto é pior ainda. Existem no Brasil leis de saneamento básico que não são cumpridas à risca. Elas exigem que todo esgoto seja coletado e tratado. Nas contas das concessionárias, por exemplo, há uma taxa de esgoto, que muitas vezes nem é coletado. Uma cidade como Belo Horizonte tem mais verba para garantir a coleta e tratamento de esgoto em larga escala para a população. Mas a gente vê obras de Estações de Tratamento de Esgotos feitas por grandes empresas, que muitas vezes são superfaturadas, para garantir o custo operacional no Brasil que, como todos sabemos, funciona com a oferta de propinas a políticos. Ainda assim, BH é uma cidade privilegiada em relação a água e esgoto. Muitos municípios no Brasil têm a cobrança e os serviços não são realizados adequadamente, ou nem mesmo acontecem. Em situações onde as Prefeituras são responsáveis, há casos em que não se tem capacidade técnica satisfatória para realizar o serviço. E tudo fica assim. É um problema bem sério. Para agora e para o futuro. E por mais que a responsabilização direta dos municípios seja problemática, também a privatização, que está em discussão atualmente, é muito questionável. É um perigo, porque são bens estratégicos, tanto água e esgoto quanto a energia elétrica. São questões de sobrevivência e saúde pública. Como seria uma gestão interessante? É preciso uma gestão inteligente, com equipes técnicas. O problema já começa em Brasília. Por exemplo, é comum haver um economista nomeado como diretor da Agência Nacional de Águas, com assessores que entendem menos ainda de água. Nos municípios o prefeito indica o primo, o amigo, “Ah, ele entende de água, é engenheiro”. Ainda têm as transições de governo, que geram descontinuidade, muitas vezes saem com a mão abanando e não deixam nada para a próxima gestão aproveitar, nem mesmo informações básicas de operação. Quando entra o próximo governo, leva-‐se meses para entender o sistema e propor algo. Do meu ponto de vista, a privatização não é solução porque são bens estratégicos. É preciso uma gestão responsável, pelas empresas de saneamento, na continuidade dos governos, no cumprimento da lei. As multinacionais europeias, americanas, chinesas, principalmente, estão de olho na nossa água, na nossa energia, no nosso petróleo. Jogam politicamente pela privatização das empresas, muitas vezes incentivando a má gestão, para que elas se tornem inviáveis e sejam comercializadas a preços inferiores. Elas certamente vão
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gerir bem, o que significa faturar com isso. No discurso, hoje, dizem que suas ações vão diminuir o preço dos bens aos consumidores, mas amanhã têm o monopólio do preço. E em contexto urbano, tem muito uso de poços profundos? Para edifícios e condomínios, é muito comum. E se economiza muito. Uma conta que seria de 15 mil, 20 mil por mês, na conta da COPASA muitas vezes cai para 10 mil, ou até menos. E em geral a água é de ótima qualidade, ainda mais se o poço for realizado com observação de todos os critérios técnicos. É importante sempre isolar a água superficial, que pode estar contaminada, em função das atividades urbanas, redes de águas de chuva, de esgoto. Assim fica garantida água de qualidade. Como você descreve a água subterrânea de BH? A água no subsolo fica armazenada em reservatórios naturais, chamados aquíferos subterrâneos. Existe o aquífero freático ou livre -‐ é a água superficial, que fica pertinho do chão onde a gente pisa e por isso está muito suscetível a contaminação, já que tem contato com água de chuva, sujeira, pega óleo dos carros, bicho morto na zona rural. Pode estar contaminado, mas nem sempre está; existe o aquífero poroso, que fica entre os grãos de solos arenosos. A água fica nos interstícios dos grãos. Ocorre principalmente em solos inconsolidados, como nas margens de grandes rios, antigos leitos de rios e solos arenoargilosos; o aquífero profundo fica nas rochas cristalinas fraturadas. Quando sofrem alguma tectônica, as rochas se quebram e a água preenche os espaços vazios; e por fim o aquífero cárstico, característico das cavernas em rochas calcárias, é o caso da região de Lagoa Santa, Sete Lagoas, muito conhecida pela Gruta da Lapinha. Em BH nós temos aquíferos do tipo fissural, nas fraturas de rochas cristalinas (granitos e gnaisses), e do tipo misto (poroso e fraturado), na região de Nova Lima, localizada sobre uma unidade geológica de rochas alternadas (com fratura e porosidade). São poços mais complicados que precisam de revestimento, por inteiro. Em qualquer cidade de grande população, com muitas indústrias, lixo, esgoto jogado a céu aberto, é bem possível a contaminação dos aquíferos freáticos. Pode-‐se contaminar até mesmo os fissurais. Mas quando a gente perfura em uma situação que sabemos ser suscetível a contaminação, a gente isola o aquífero freático, com cimento. Então a perfuração de poços é uma atividade muito criteriosa, pois tem um potencial de contaminação crítico. Um acidente, um erro, pode causar um crime ambiental. Seria possível um modelo de abastecimento com uso das águas subterrâneas, em maior escala do que acontece hoje? Por que não temos os poços como estratégia principal, ou mesmo complementar, na cidade? Não faria mais sentido cada um ter seu poço em casa (como já foi antigamente), do que ter toda uma rede dispendiosa cruzando a cidade? Não é viável porque a perfuração do poço é cara e o volume de água que o município demanda é muito elevado. Os poços subterrâneos não têm vazão suficiente, então aqui em BH aproveitamos as reservas do Córrego do Cercadinho, do Rio Paraopeba e outros. Localmente, como complementação, isso ocorre em alguns bairros mais distantes, em municípios, como Esmeraldas, por exemplo, que utiliza de água subterrânea e superficial. Hoje em dia a legislação proíbe /inibe que as pessoas tenham poço/cisterna em casa? A legislação exige que qualquer uso, qualquer captação de água subterrânea ou superficial, tem que ser outorgada. Mas não tem profissionais, nem em quantidade, nem em qualidade, para essa fiscalização. Os órgãos ambientais, não coincidentemente, não têm verba suficiente para isso. Não sou contra o uso de cisternas, nem acho que deveria ter outorga para cisterna. O risco de contaminação pode ser controlado com procedimentos simples e até mesmo o tratamento da água. Existe uma técnica de tratamento de cisternas muito eficiente e de baixo custo, com garrafa pet, cloro em pó, areia e brita. Ainda assim deve-‐se manter uma análise bacteriológica pelo menos semestral. Quando são instituições que vão fazer o serviço, elas são obrigadas a obedecer a legislação, captar e tratar a água bruta seguindo as leis federais, que por sua vez seguem padrões internacionais de potabilidade.
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O que é água boa e água ruim? Quais parâmetros vocês usam para classificar a qualidade da água para os diversos usos? Depende do uso. Se é para indústria, muitas vezes se deve adicionar algum produto químico à agua, fazer algumas correções; Se é para o gado, não precisa fazer quase nada, a não ser que tenha uso acentuado de agrotóxico na região. Para plantações... Para cada necessidade tem seu padrão de água boa. Mas se é para uma população humana, é bem mais criterioso. O Ministério da saúde tem uma lei extremamente, excessivamente, rigorosa. O Brasil copia muito da legislação de outros países e não adequa para nossas necessidades e realidades. Por exemplo, o Ferro, a exigência do valor máximo permitido é 0,3 mg/L . Na prática, 1mg/L já seria aceitável. A quantidade máxima de Manganês exigida é 0,1 mg/L , mas 0,3 já estaria ótimo. Existe um copiou colou que não faz nenhum sentido. Já o PH, realmente tem que ser muito regulado. Um PH muito ácido ou muito básico pode trazer problemas de saúde ou mesmo dificultar o tratamento da água. Mas então, de forma geral, a qualidade da água é muito relativa, depende totalmente da necessidade, do uso. O controle da água é realmente muito estratégico, é um lugar de poder. A água é o bem mais precioso que o homem pode ter, e deve ser tratada com respeito, com economia, com carinho, pois nossa sobrevivência depende 100% deste bem. * * * José Américo de Souza, (Seu Zé Américo) 73 anos Localização: Córrego do Tamboril (bacia do Izidora) Conselheiro do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça, é da primeira geração de moradores do bairro Jardim Felicidade, que lutou pela conquista da terra e das melhorias em infraestrutura. Aposentado, ex-‐ funcionário dos Correios e marceneiro, envolve-‐se ativamente nos movimentos comunitários, com foco atualmente na melhoria dos espaços públicos e na recuperação do Córrego do Tamboril. ELISA -‐ No momento de criação do bairro, como era a organização coletiva? SEU ZÉ AMÉRICO -‐ Primeiramente vou começar 4 anos e meio antes do bairro. Eu morava no bairro Rio Branco e surgiu esse projeto através do Aníbal Teixeira, Ministro do Planejamento, me parece. E na ocasião o Prefeito era Sérgio Ferrara. Criaram a AMABEL -‐ Associação dos Moradores de Aluguel. Foi criada através desse projeto vindo do ministério e do prefeito. A associação passou a acompanhar, uma vez por semana tinha reunião lá no bairro da Lagoa, Comunidade N.S. do Guadalupe. Foi assim por 4 anos e meio. Quando começou a abrir o bairro, começou com uma luta muito difícil. Você teria 45 dias para construir o barraco de 2 cômodos. Se nesse tempo não conseguisse terminar, tinha que passar para outra pessoa. Algumas pessoas conseguiam o material doado pela PBH, outras conseguiam só parte. Era uma confusão grande, era difícil pegar o material. A construção era feita por mutirão. Começou por gleba, Gleba 1 é ali onde fica a ABAFE [Associação Comunitária]. As ruas foram feitas pela Prefeitura e ficavam aqui vários fiscais, que eram um calo no sapato, avaliando as construções, às vezes mandava derrubar as paredes. Aqui não tinha nada. Água por exemplo se trazia no pipa, no tambor, depois começou a colocar chafariz, para as pessoas pegarem água. Depois a COPASA fez uma ligação de mangueira conectada à rede do [bairro] Floramar. Distribuía no chafariz e a gente pegava nas latas. Ficamos morando aqui com água assim por mais de um ano. E a situação era assim, tinha confusão, adversidades, alguns tinham consciência de respeitar uma fila, outros não. Umas pessoas são mais pacíficas e estas sofriam muito mais. Foi uma luta muito árdua e tem pouca gente que viu isso que continua aqui. De lá pra cá muita gente já vendeu o terreno e não deu valor ao que foi prestado. As pessoas muitas vezes pegavam o sorteio, depois participavam de outro sorteio ou invadiam outros lugares. Sendo que era um processo legal, mas tinha os problemas, as demoras. Mas o ser humano é muito polêmico, não dá valor ao sacrifício, ao apoio do poder público.
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Esse começo do trabalho aqui, as pessoas jogaram tudo por terra. O trabalho foi muito intenso mais valeu a pena. Chegava determinado tempo, a comunidade se unia, as lideranças tinham mais amor, mais dedicação, mais respeito aos moradores. Hoje as lideranças só querem subir num banquinho para fazer discurso, não tem aquela vontade de construir, ajudar o nosso município, mas manipular as pessoas, deixa-‐las indignadas, revoltadas. A gente às vezes não respeita os direitos. Hoje não tem como falar de Constituição Brasileira. Eu tenho até medo de falar isso, está tudo desfeito, sem respeito. Os projetos todos se tornaram difíceis de entender, a gente que é leigo não entende essa falta de dignidade, de respeito. Tanto os pobres quanto a classe de nível alto, os parlamentares, os ministros, não têm uma firmeza do que é a Constituição Brasileira. Esse bairro aqui cresceu. Quando as pessoas se uniam, participavam do OP, tinham interesse de ajudar o próximo. Hoje as pessoas pensam no si, não é em grupo, em comunidade. Onde foi parar a dignidade, os direitos e deveres do povo brasileiro? Mas ainda tem esperança que vamos mudar. Talvez eu não veja, mas essas crianças podem ver, temos que confiar no povo brasileiro. O que você ainda espera para esse bairro, de conquista? O principal que a gente deveria ter é educação, não só os compromissos do poder público, mas nossas próprias famílias, temos que saber valorizar uma árvore, as plantas. Para melhorar a gente tem que conscientizar. As lideranças têm que saber que é comunicando e se entendendo com todos os moradores, para que a gente possa ter vida. E a vida é uma coisa muito séria, as pessoas brincam muito com a vida dos outros e a própria. Tem muita coisa a fazer, temos que ser unidos, ter atitude, confiança e esperança. Somos gente, temos que viver. E naquele pouquinho que eu puder ser um grão de areia, eu vou fazer. Para tentar minimizar os problemas não só do Felicidade, mas do nosso país e do nosso planeta. PROVOCAÇÕES DE CONVERSAS POR IMAGENS IMAGEM CACHOEIRA DA BACIA DO ONÇA Interessante pensar que toda essa água que cai aqui, imagina se ela fosse sem o esgoto de toda a região, de BH, de toda contagem, que cai dentro desse Ribeirão do Onça. Que gratificante que seria, para essa região, que valor que teria para esses moradores ao redor dessa cachoeira. Até mesmo na questão alimentar, da pesca, podia se apropriar da pesca... um banho de sol que seja. É linda a imagem, né? IMAGEM AGLOMERADO DA SERRA Isso aqui é o fruto da BH planejada. Planejada dali para baixo. Na época que BH foi planejada não era para existir vida aqui, só da Contorno para dentro. Isso aqui foi tudo criado desordenadamente. E hoje tem problema de violência, falta de educação, de saúde, porque na época não foi planejado. Tem como recuperar, mas a longo tempo. É triste porque é bonito na foto, mas na realidade a população sofre. IMAGEM CÓRREGO DO TAMBORIL Estou vendo o Tamboril e penso em quando eu o conheci, o quanto era diferente. Essa ocupação tem muito tempo. Só que melhorou um pouco nas questões de lixo. Pelo trabalho que as entidades, comunidade, lideranças começaram a trabalhar. Mas ainda está muito sujo. Logo atrás tem a mata dos Werneck onde precisamos fazer um trabalho, estão querendo construir condomínios sem preservação ambiental. Tem um projeto para construir 72 mil apartamentos nessa área e destruir tudo. Não sei como está acontecendo, mas futuramente pode acontecer, precisamos fazer um trabalho para impedir a degradação e as invasões na única mata sem ocupação de BH que não tá sendo protegida. Aqui pode acontecer invasão, imobiliária, pode acabar com o pouco que temos de meio ambiente no nosso município. IMAGEM BAIRRO JARDIM FELICIDADE Crescimento desordenado. Quando criaram o conjunto, a Prefeitura achou que ia ser planejado. Mas na realidade não foi. Foi muito mal dividido o loteamento. O povo vive aqui, melhorou, mas hoje não tem como a gente melhorar o acesso de transporte, porque as ruas são muito estreitas, mal planejadas. Mas está melhorando e com trabalho vai ser melhor.
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