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PAS 3 - FILOSOFIA - ALUNO

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Frente A A01A02A03A04A05A06A07A08A09A10A11A12Mito, Logos e Pré-socráticos 3 Sócrates (470–399 a.C.): Contexto, método e julgamento 13 Platão De Atenas (427 a.C. - 437 a.C.): Bem, Alma e Conhecimento 18 Aristóteles: Metafísica, Lógica, Ética e Filosofia Helenística 25 Filosofia Patrística de Agostinho e a Escolástica de Aquino 37 René Descartes, John Locke e David Hume 44 Immanuel Kant e a Teoria do Conhecimento e Ética 50 Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e Montesquieu 53 Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx 62 Friedrich Nietzsche 66 Jean-Paul Sartre 69 Filosofia da Ciência e Escola de Frankfurt 72 Gabarito 80
SUMÁRIO

W MITO, LOGOS E PRÉ-SOCRÁTICOS

O Mito

É quase um consenso entre os estudiosos de Filosofia que existiu uma forma anterior à das explicações filosóficas, que podemos denominar de explicação mítica. Chamaremos aqui, pois, de mito, toda tentativa de explicação que antecede, em uma sociedade humana, as buscas de compreensão ancoradas mais firmemente na razão (Filosofia) ou mesmo em tentativas de experimentação para as teorias propostas (Ciência).

O ser humano, nos primeiros estágios de seu desenvolvimento rumo à racionalidade, tinha extrema dificuldade para explicar os fenômenos que o cercavam. Qual é o motivo para períodos longos de seca, seguidos de outros, abundantes de chuvas? Por que, enquanto chove, os raios e os trovões se fazem presentes? Em função de que há a alternância do dia e da noite? Ou de forma mais existencial: De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos exatamente fazendo aqui? Na ausência de respostas racionais ou científicas para questões de tão necessária compreensão, surgem então as explicações míticas. De acordo com Auguste Comte, em um primeiro momento, as divindades serão forças da natureza fetichizadas, ou seja, que ganham uma vida diferente daquela que realmente possuem, e o sol se transforma em divindade, e a lua em outra, e a floresta em outra. As divindades africanas, presentes na umbanda ou no candomblé, até hoje são ligadas a forças ou elementos da natureza.

Desse modo, surgem também as divindades gregas, como Poseidon o deus das águas, Atena a deusa da sabedoria, ou Afrodite a deusa do amor. Vale ressaltar que os deuses gregos são antropomórficos, ou seja, possuem forma humana e, além disso, sentimentos humanos, como amor e ódio. Mentem, enganam, o que demonstra claramente sua imperfeição, e não são, como o Deus abraâmico, seres com poder ilimitado.

A dificuldade de explicação racional citada acima no texto, assim, não permitia aos gregos conhecer muitas coisas que os cercavam, tais como os fenômenos da natureza, e quando se deparavam com algo que, para eles, era inexplicável (como o

FRENTE FILOSOFIA MÓDULO 01 A PAS 3 3
Figura 01 - Os Deuses do Olimpo de Giulio Romano (1492-1546).
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 NÃOHÁITENS RECORRENTES

trovão e o relâmpago, por exemplo) estes homens se espantavam, isto é, temiam, naturalmente, o desconhecido. Contudo, buscavam conhecer o que estava acontecendo ao seu redor, isto é, conhecer a ordem natural do mundo, o que implica, também, compreender as causas e efeitos dos fenômenos naturais.

W A cosmogonia

A palavra cosmogonia vem da junção de duas palavras gregas, quais sejam: cosmos, que significa mundo ordenado e organizado, e gonia, que significa geração, nascimento. De maneira que cosmogonia pode ser compreendida como uma narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo, a partir de forças gerativas.

W A mitologia

A primeira explicação encontrada por estes “indivíduos” para os fenômenos se pautou na formação da sua primeira ideia de divindade, ou seja, os deuses criaram os relâmpagos e os trovões no intuito de se comunicar com os homens. Como já foi dito anteriormente, o conhecimento desses primeiros homens era estritamente baseado nos sentidos e, por isso, percebe-se nos relatos mitológicos a menção a deuses, com características humanas (como Zeus que trai sua esposa Era com uma humana e tem um filho semideus, Hércules; além das constantes lutas entre os deuses), sendo que, de certo modo, existia um deus para cada necessidade dos homens. Talvez por essa razão, atualmente, tem-se os mitos como fábulas ou contos folclóricos, o que é completamente errado.

Os mitos gregos são provenientes de uma tradição oral muito forte, como na maioria dos povos antigos, sociedades ágrafas, transmitida de geração em geração pelos poetas. É necessário distinguir, no entanto, duas classes de poetas, quais sejam: os aedos, aos quais é atribuída a autoria das narrativas, dos quais os principais exemplos são Hesíodo (Teogonia) e Homero (Ilíada e Odisseia); e os rapsodos, responsáveis pela transmissão oral dos poemas. A questão central é que os autores dos poemas não são exatamente os aedos, mas as divindades que falariam por meio deles, como se pode notar pela citação abaixo, que pertence ao início da Ilíada, de Homero.

Canta-me a Cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida, causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados e como pasto das aves.

Quem narra é a deusa, a musa, e isso está bem claro na passagem. É isso que faz com que o mito seja tão respeitado, à semelhança da Bíblia, escrita por homens e inspirada por Deus. Esse é também o motivo pelo qual somente a confluência de uma série de fatores históricos, no seu conjunto, permitiu que essa forma de explicação de mundo fosse questionada com eficácia no imaginário grego. A guerra de Troia, por exemplo, ocorre por causa de intrigas entre os deuses e deusas do Olimpo, e seu desfecho, a queda das muralhas, foi decidido pelo príncipe troiano Páris, antes sequer dos conflitos terem início. A ideia de um destino imutável e controlado pelos deuses é uma das estruturas lógicas presentes nas explicações míticas. O processo de ordenamento do mundo também é explicado, lembrando que para o grego não existe criação, pois tudo que existe sempre existiu. O surgimento ou domínio de alguns instrumentos ou técnicas, como o uso do fogo, também estaria explicado nas narrativas míticas.

W O mito: Édipo Rei

Édipo, o trineto de Cadmo, é hoje talvez o herói grego mais famoso depois de Hércules. Ele é famoso por ter resolvido o enigma da Esfinge, mas ainda mais notório por sua relação incestuosa com sua mãe. Na antiga Grécia, era famoso por ambos os episódios, mas o maior significado era como o modelo do herói trágico, cuja estória incluía os sofrimentos universais da ignorância humana a falta da compreensão da pessoa sobre quem ela é e sua cegueira em face do destino.

Édipo nasceu em Tebas, filho de Laio, o rei, e sua esposa Jocasta. Devido ao oráculo ter predito que Laio encontraria a morte nas mãos de seu próprio filho, o jovem Édipo foi entregue a um pastor do Monte Citéron, com os tornozelos perfurados de modo que não pudesse se mover. Esta foi a origem de seu nome que significa "pé inchado". Entretanto, o bom pastor não conseguia abandonar a criança, entregando-a então a outro pastor do lado oposto da montanha. Este pastor, por sua vez, levou a criança a Pólibo, rei de Corinto, o qual não tendo filhos, ficou feliz em criar o menino como seu filho. Enquanto Édipo crescia, era ameaçado com comentários sobre não ser filho legítimo de Pólibo. Apesar de Pólibo ter lhe assegurado que o era, Édipo decidiu-se finalmente viajar para Delfos e consultar o oráculo. O oráculo não revelou quem eram seus pais verdadeiros, mas contou-lhe que estava destinado a matar seu pai e casar com sua mãe. Horrorizado e tão chocado que esqueceu completamente suas próprias dúvidas sobre seus pais, deixou Delfos resolvido a nunca mais retornar a Corinto, onde viviam Pólibo e sua esposa.

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HOMERO. Ilíada. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 43.

Desconhecido para Édipo, seu pai verdadeiro, Laio, estava também viajando nas redondezas de Delfos. Em um local onde três estradas se encontravam, Édipo se viu ao lado da carruagem de Laio. Um membro da escolta de Laio ordenou rudemente que Édipo saísse do caminho, e este, sem disposição para obedecer, vociferou de volta. Ao passar a carruagem, o próprio Laio golpeou Édipo com um bastão e este respondeu derrubando Laio do veículo e o matando. Esqueceu, então, o incidente e continuou o seu caminho.

Voltando as costas a Corinto, acabou chegando em Tebas, a cidade de Laio, que estava sendo aterrorizada pela Esfinge, um monstro parte leão alado, parte mulher, que fa-

zia uma pergunta que confundia: "O que é que anda com quatro pernas, duas pernas e três pernas?" Aqueles que tentaram e falharam em solucionar a charada eram jogados pela Esfinge em um precipício, cujo fundo estava literalmente tomado por ossos das vítimas. Quando a morte de Laio se tornou conhecida em Tebas, o trono e a mão da rainha de Laio foram oferecidos ao homem que pudesse solucionar a charada e livrar a região da terrível Esfinge. Para Édipo, a charada não ofereceu problema; rapidamente identificou seu sujeito como um "homem que, como um bebê, engatinha de quatro, acaba crescendo e andando em duas pernas e com a idade necessita do suporte de uma terceira perna, uma bengala". Quando a Esfinge escutou essa resposta, ficou tão enraivecida e mortificada que se jogou no precipício, causando sua morte.

Os cidadãos de Tebas receberam Édipo com deferência e o fizeram seu rei. Ele se casou com Jocasta e, por muitos anos, viveram em perfeita felicidade e harmonia. Édipo mostrou-se um governante sábio e benevolente. Jocasta deu-lhe dois filhos, Etéocles e Polínece, e duas filhas, Antígona e Ismênia. Eventualmente, entretanto, outra praga se abateu sobre a região de Tebas, e é neste ponto que começa a grande tragédia de Sófocles, Édipo Rei . A colheita estava morrendo nos campos e hortas, os animais estavam improdutivos, as crianças doentes e os bebês em gestação definhavam, enquanto os deuses estavam surdos a todos os apelos. Creonte, irmão de Jocasta, retornou de sua consulta ao Oráculo de Delfos, que ordenava que a maldição seria levantada apenas quando o assassino de Laio fosse trazido à justiça. Édipo, imediatamente e de maneira enérgica, tomou a tarefa de encontrá-lo e, como primeiro, passo consultou o profeta cego Tirésias. Tirésias reluta em revelar a identidade do assassino, mas é levado gradualmente a se enfurecer pelas insinuações de Édipo sobre ter algo a ver com a morte. Acaba revelando que o próprio Édipo é o pecador que trouxe a maldição sobre a cidade. Também profetiza que Édipo, que se considera tão inteligente e de visão larga, se recusará a aceitar a verdade de suas palavras, se recusará a reconhecer quem realmente é e o que tinha feito.

Édipo, enraivecido, suspeita que seu cunhado Creonte está mancomunado com Tirésias para assumir o trono. Creonte também nada pode dizer para acalmá-lo. Jocasta tenta acalmar a situação: é impossível que Édipo tenha matado Laio, diz ela, pois este foi morto em uma encruzilhada de três estradas. Subitamente, Édipo lembra seu encontro casual com um homem velho perto de Delfos, questionando Jocasta sobre a aparência de Laio (que, estranhamente, se parecia com o próprio Édipo) e o número de elementos na sua escolta. Ele percebe que Laio foi provavelmente a sua vítima. Enquanto

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Figura 02 - ÉDIPO E A ESFINGE - Gustave Moreau, Museu Metropolitan, Nova York, EUA.

espera pela confirmação de um elemento da escolta que retornava a Tebas, um mensageiro chega de Corinto com a notícia que Pólibo tinha morrido de morte natural. Édipo, ainda não suspeitando de toda a extensão de seu crime, fica feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da profecia do oráculo, mas resolve ter cautela antes que acabe se casando com sua mãe.

O mensageiro bem intencionado, ansioso em confortá-lo, assegura a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais. O próprio mensageiro tinha recebido Édipo, então um bebê, das mãos de outro pastor do Monte Citéron e o entregou a Pólibo. Mesmo agora, Édipo não consegue fazer a correta conexão e enquanto a aterrorizada Jocasta tenta, em vão, persuadi-lo a parar a investigação, persiste nos seus esforços para chegar ao fundo do mistério e ordena que o pastor de Laio, agora um velho, seja trazido à sua presença. Por uma casualidade do destino, esse homem é também a única testemunha ainda viva da morte de Laio. Quando finalmente aparece, o completo horror da situação finalmente chega a Édipo; o homem admite que tomou o filho de Laio e com pena o entregou ao pastor de Pólibo, ao invés de o deixar morrer. Essa criança era Édipo, que agora tinha sucedido seu pai no trono e no leito.

Jocasta não esperou pelo desfecho. Tinha ido antes de Édipo para o palácio e, quando a seguiu, com o que parecia uma intenção assassina, descobriu que tinha se enforcado. Arrancando os broches de ouro do vestido dela, golpeia seguidamente seus olhos com eles, até que o sangue corra pela sua face. Como pode olhar para o mundo, agora que consegue ver a verdade? O coro da peça mostra a moral da estória: por mais seguro que um homem possa se sentir, mesmo sendo rico, poderoso e afortunado, ninguém pode se sentir seguro de escapar de um desastre; não é seguro chamar qualquer pessoa de feliz deste lado do túmulo

Apesar de ter solicitado à Creonte um banimento imediato, não foi permitido a Édipo partir de Tebas por vários anos, até que sua punição tivesse sido confirmada por um oráculo. Na ocasião em que foi mandado embora, estava muito menos ansioso para partir. Agora, já um velho, estava condenado a vagar de lugar em lugar, pedindo comida e abrigo. Suas passadas cegas eram guiadas por suas filhas Antígona e Ismênia. Apesar de elas trazerem algum conforto e alegria para ele, seus filhos, Polínice e Etéocles, estavam cada vez mais afastados dele, de seu tio Creonte e um do outro. Tinha sido combinado que se alternariam no governo, um ano para cada um, mas, quando o primeiro ano de Etéocles terminou, ele se recusou a entregar o trono a seu irmão. Polínice se refugiou em Argos, onde agrupou à sua volta uma equipe de seis outros campeões, com os quais se propôs a

sitiar sua cidade natal. É essa a situação no início da obra Édipo em Colona, de Sófocles, quando Édipo, chegando ao fim de sua vida, chega aos olivais de Colona, um distrito nos arredores de Atenas.

Ajudado por Antígona, Édipo se refugia em um altar para aguardar a chegada de Teseu, rei de Atenas, quando Ismênia chega com notícias de Tebas. As facções rivais dos irmãos ficam a cada dia mais nervosas e um oráculo se pronunciou dizendo que o lado que conseguisse o apoio de Édipo seria o vencedor. Édipo, igualmente irritado com Creonte e com seus dois filhos, está seguro de que não apoiará qualquer um dos lados. Podem lutar entre si, esperando que destruam um ao outro no processo. Quando Teseu chega, portanto, Édipo solicita que lhe seja permitido terminar seus dias em Atenas. Teseu escuta com atenção seu pedido e oferece a Édipo um local mais confortável, mas Édipo deseja permanecer no local onde está. Surge então Creonte, determinado a fazer Édipo acompanhá-lo de volta a Tebas, mas apenas à fronteira da cidade, de modo a ainda evitar a maldição de ter Édipo realmente no solo Tebano, para manter sua facção protegida de sua proximidade. Quando Édipo recusa a pretensão de amizade e rejeita a oferta imediatamente, Creonte se torna violento e ameaça levar Édipo à força. Já tinha capturado Ismênia e agora seus soldados tinham levado Antígona para muito longe de seu indefeso pai.

Teseu, retornando bem a tempo de evitar que Édipo seja retirado de seu altar, critica asperamente as ações de Creonte e promete devolver as filhas a Édipo. Além disso, ele ordena que Creonte volte a Tebas. Chega então Polínice, juntamente com uma razão política para desejar a proteção de seu pai, o qual tinha ajudado a expulsar de Tebas; também é rejeitado, e Édipo anuncia sua intenção de permanecer em Colona até o fim de seus dias. A peça termina de maneira dramática: após Édipo desaparecer no arvoredo sagrado, um mensageiro emerge para contar seu fim miraculoso, testemunhado apenas por Teseu. Édipo, anuncia-se, tinha transferido as bênçãos que poderia ter dado a Creonte ou Polínice para Atenas, a qual seria, daí em diante, protegida por sua presença.

O ataque a Tebas feito por Polínice e seus aliados é o assunto da peça Sete contra Tebas, de Ésquilo. Sete campeões lideraram o ataque nos sete portões de Tebas, calhando a Polínice tomar o portão defendido por seu irmão Etéocles. Apesar dos tebanos finalmente repelirem o ataque sobre sua cidade, os dois irmãos morrem pelas espadas um do outro, cumprindo assim a praga de seu pai e prosseguindo a triste saga da casa de Édipo.

A ação dramática de Antígona de Sófocles começa neste ponto da estória. Com os dois herdeiros masculinos de

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Édipo mortos, Creonte assume o título de rei de Tebas. Decreta que, enquanto Etéocles devesse ser sepultado com toda a cerimônia, o traidor Polínice deveria ser deixado no local onde tombou, para ter seu corpo destruído pelos cães e pássaros predadores. Creonte mandou montar guarda ao lado do corpo para certificar-se de que seu édito seria cumprido. Logo, seus soldados retornariam com Antígona, que tinha sido apanhada atirando punhados de terra sobre os restos desfigurados de seu irmão, em um esforço de fornecer-lhe um sepultamento simbólico. Quando desafiada quanto à sua desobediência, replicou que as leis dos deuses, que dizem que os parentes sejam sepultados, são irrevogáveis e imutáveis, devendo ter precedência sobre a lei dos homens. Na sua Antígona , Sófocles utiliza o mito para explorar este conflito entre a lei humana e a divina: o que uma pessoa comum deve fazer quando duas destas leis entram em conflito? Apesar de, por fim, a resposta parecer ser que a lei divina deve ser obedecida a qualquer custo, essa conclusão não é de nenhuma forma evidente no início. Enquanto Antígona é mostrada como uma mulher forte e pouco feminina que não está feliz em permanecer no reino feminino tradicional do lar, mas aventura-se, desafiando as leis de seu guardião masculino, Creonte aparece inicialmente como um homem que tenta fazer o máximo para governar a cidade pela regra do rei.

Quando Antígona não mostra qualquer remorso por seu crime, Creonte ordena que seja sepultada viva, um método cruel de execução calculado para absolvê-lo de responsabilidade direta pela morte. Neste ponto, o noivo de Antígona, Hêmon, filho de Creonte, vem a Creonte pedir pela sua vida, argumentando que a punição é bárbara e politicamente ruim, pois Antígona tem grande possibilidade de tornar-se heroína entre o povo de Tebas. Creonte, entretanto, permanece inflexível, como as árvores que não se curvarão frente corrente nas margens de um rio alagado, ou o marinheiro que não retirará suas velas antes da borrasca. Assim, dá instruções para que a punição prossiga. Apenas quando aparece o profeta Tirésias, e revela a zanga dos deuses e a terrível punição que se abaterá sobre Creonte se persistir nessa ação, é que Creonte finalmente aceita o conselho e liberta Antígona da prisão. Nesciamente, como resultante, detém-se enquanto ia ao sepultamento de Etéocles e apenas chega ao túmulo para encontrar Hêmon segurando o corpo de Antígona - tinha se enforcado em sua cinta. Hêmon então volta sua espada contra seu próprio peito. Creonte retorna à sua casa, recebendo a notícia que sua esposa Eurídice tinha suicidado, amaldiçoando seu marido no seu leito de morte. Esmagado pela tragédia que o tinha atingido de maneira tão súbita, Creonte é conduzido para longe, deixando o coro refletindo sobre o fato da maior parte da felicidade ser a sabedoria, em conjunto com a devida reverência aos deuses.

Extraído do site: <www.mundodosfilosofos.com.br>. Acesso em: 02 nov. 2014. Adaptado.

O nascimento da Filosofia: logos

x Condições históricas que propiciaram o surgimento da Filosofia

Por um longo período, que vai aproximadamente do século VIII ao V a.C, diversas condições foram amadurecendo e favorecendo o aparecimento e a consolidação de uma forma mais racional de compreensão da realidade e dos próprios seres humanos. É sempre importante lembrar que não há uma ruptura entre o mito e o pensamento filosófico, visto que os mitos continuam presentes na vida de grande parte da população, ao passo que a Filosofia, no começo, era prática de poucos, extremamente elitizada. Dentre os principais fatores históricos que, na sua confluência, resultaram em um maior espaço para a aparição de explicações racionais, seguem-se os mais relevantes.

x As viagens marítimas , que geraram dois efeitos mais diretos: as trocas culturais, que conduziram os gregos a um contato com outros povos, originando a geometria, por exemplo, em função da experiência egípcia, ou a história, derivada das genealogias dos babilônios; e o descrédito com relação à palavra do poeta, pois a desmistificação se deu, nesse momento, com a decadência do mito. Vale ressaltar que quem narrava os eventos passados não era exatamente o poeta, simples transmissor das informações que recebia das musas, que consistiam em divindades gregas.

x A invenção do calendário , que demonstra o amadurecimento da capacidade de abstração ao qual havia chegado o povo grego, pois rompe-se com o tempo cíclico, baseado principalmente na natureza, para adotar uma noção linear, baseada sobretudo na observação astronômica, que permite, inclusive, uma maior precisão na datação dos eventos.

x A invenção da moeda , que permitiu uma forma de troca que não se realizava por meio das coisas concretas ou dos objetos concretos trocados por semelhantes, mas uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização.

x A invenção da escrita alfabética , que conduz com a diminuição considerável do número de símbolos, assim como com a ampliação de seu grau de abstração, uma maior democratização do contato com a escrita. Vale ressaltar que os gregos não inventaram a escrita, mas um alfabeto com um número bastante reduzido de signos. A filosofia, assim como qualquer conhecimento sistematizado, demanda registro, por isso a escrita alfabética é tão relevante.

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x O surgimento da polis (Cidade-Estado): as poleis eram cidades relativamente pequenas, com autonomia bélica, econômica e política. Em função da geografia do território grego, extremamente acidentado, não foi possível organizar um grande império, o que conduziu à formação das Cidades-Estados. Atenas, por exemplo, representa até hoje um modelo de democracia direta, aquela em que todos os cidadãos auxiliam na decisão das questões políticas. Na ágora, espaço circular no centro da cidade, os cidadãos se reuniam para decidir os rumos a serem tomados pela coletividade. Deve-se lembrar, no entanto, que os critérios de cidadania só abrangiam os homens, com maioridade, filhos de mulheres atenienses, que tivessem terras e escravos. Isso correspondia, na prática, a mais ou menos 10% da população total. No entanto, isso é muito diferente de uma época na qual as divindades falavam e os homens simplesmente concordavam em função da autoridade de quem falava.

x A cosmologia

O termo cosmologia é derivado de duas palavras gregas, a saber: cosmos que significa mundo ordenado e organizado, e logos , que significa pensamento racional. Dessa forma, podemos defini-la como a busca de um conhecimento racional acerca da ordem do mundo, estudo do mundo existente, diferente das cosmogonias míticas, que se pretendiam narrativas de como a realidade havia se originado ou funcionava.

x A palavra Filosofia – Philo-Sophia

É atr ibuída ao filósofo grego Pitágoras de Samos (aquele do teorema!) a formulação da palavra Filosofia. Ele afirmara que pertence aos deuses a sabedoria plena e completa, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.

A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia, quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio.

Filosofia significa, portanto, o amor, no sentido de amizade, pela sabedoria, e a postura do filósofo é justamente a daquele que busca constantemente, ciente de que jamais possuirá totalmente o objeto do seu amor. De acordo com o filósofo da ciência do século XX, Karl Popper, quanto mais conhecimento, maior é a consciência do indivíduo de sua ignorância. Desse modo, a prática filosófica dispensa o pedantismo, o exibicionismo intelectual, a arrogância. É em função disso que Sócrates se transforma no filósofo por excelência, com sua conhecida máxima: sei que nada sei.

Pré-socráticos Contexto

Pré-socráticos é o termo utilizado para designar os primeiros filósofos, os quais deram início ao período cosmológico, isto é, foram os primeiros a questionar as explicações sobrenaturais presentes nos mitos e procurar uma compreensão racional do cosmos. Esses pensadores também são denominados filósofos da natureza e buscavam conhecer as causas dos fenômenos naturais, ou seja, tinham o intuito de determinar o princípio constitutivo – arché – da natureza – physis –, baseando-se na observação e no raciocínio.

Sobre a definição de arché, temos nas palavras de Giovanni Reale e Dario Antiseri:

“Princípio” (arché) não é um termo de Tales (talvez tenha sido introduzido por seu discípulo Anaximandro, mas alguns pensam numa origem mais tardia), mas é certamente o termo que indica melhor do que qualquer outro o conceito daquele quid do qual derivam todas as coisas. Como nota, Aristóteles, em sua exposição sobre o pensamento de Tales e dos primeiros físicos, o “princípio” é “aquele do qual derivam originalmente e no qual se ultimam todos os seres”, é “uma realidade que permanece idêntica no transmutar-se de suas alterações, ou seja, uma realidade “que continua a existir imutada, mesmo através do processo gerador de todas as coisas”. [...] Em suma, o “princípio” pode ser definido como aquilo do qual provêm, aquilo no qual se concluem e aquilo pelo qual existem e subsistem todas as coisas.

Principais filósofos pré-socráticos

W Filósofos da Escola Jônica:

– Tales de Mileto: “Tudo é água”.

– Anaxímenes de Mileto: “E assim como nossa alma, que é ar, nos mantém unidos, da mesma maneira o vento envolve todo o mundo.”

– Anaximandro de Mileto: “Nem água nem algum dos elementos, mas alguma substância diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos.”

– Heráclito de Éfeso: “Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo.”

W Filósofos da Escola Itálica:

– Pitágoras de Samos: “Todas as coisas são números”.

W Filósofos da Escola Eleata: – Parmênides de Eleia: “O ser é e o não ser não é”.

– Zenão de Eleia: “O que se move sempre está no mesmo agora”.

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(REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 29-30).

W Filósofos da Escola da Pluralidade:

– Empédocles de Agrigento: “Pois destes (os elementos) todos se constituíram harmonizados, e por estes é que pensam, sentem prazer e dor”.

– Demócrito de Abdera: “O homem, um microcosmo.”

Heráclito de Éfeso (545–480 a.C.)

“O ser não é mais do que o vir a ser”

Miguel Spinelli deixa claro um ponto importante na teoria de Heráclito, o de que o mundo é eterno e, por isso, incriado. Isso demonstra que, diferentemente dos outros filósofos pré-socráticos, ele não procurava prioritariamente um princípio constitutivo do cosmos, o qual seria um elemento contido na Natureza, mas sim busca compreender a sua ordem, isto é, como o mundo é a partir da sua organização e ordenação. Heráclito não procura a arché somente no sentido de um elemento de que o cosmos é constituído, mas a lei que o rege, partindo, é claro, das observações feitas na própria Natureza. Para ele, a realidade é um constante fluxo, ou seja, é sempre mutável. Os sentidos, porém, nos mostram certa regularidade, que não condiz com a mudança constante que ocorre realmente. E isso mostra que tanto para Heráclito quanto para Parmênides existe uma cisão entre pensar e sentir.

A luta dos contrários – guerra e paz

“O conflito é o pai e o rei de todas as coisas”... . “O oposto é conveniente, e das coisas diferentes nasce a mais bela harmonia”... . Sem nascimento e perecimento, sem geração e destruição, vida e morte, a perpetuidade do mundo seria insustentável, e, por consequência, a sua própria existência. Sem oposição ou diferenças, também o viver humano seria insustentável, pois desativaria todo o móvel do seu querer e agir, e, consequentemente, o próprio logos autentificador do nomos da deliberação humana.

SPINELLI, M., 1998, p. 196

Heráclito nasceu em Éfeso, por volta de 545 a.C., cidade da Jônia, filho de uma família que ainda conservava prerrogativas reais. De temperamento esquivo, nunca quis participar da vida política e não demonstrava apreço pelos cidadãos de sua cidade.

Foi considerado obscuro por duas razões: tendência ao isolamento e ao silêncio; escrita complexa, composta por aforismos, conjuntos de raciocínios mais curtos, com menor desenvolvimento de explicações do ponto de vista didático e mesmo com uma ausência de preocupação com a apresentação de exemplos. Sua filosofia teve reconhecimento, mais tardiamente, pela maneira como o filósofo percebeu o cosmos, isto é, sua interpretação do modo como a physis “funcionava”. Como percebemos na passagem abaixo.

“Este cosmos (sentenciou Heráclito), igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, e sempre será...”. Ninguém o fez porque ele é eterno, e, por consequência, incriado e imperecível: desprovido de uma vontade criadora anterior (ou externa) à sua destinação de se reproduzir sempre. Por isso, este mundo, é indicado como dado, posto aí, diante dos nossos olhos e dos nossos sentidos, e o que temos a fazer, é buscar compreendê-lo por aquilo que se mostra. [...] O mundo de fenômenos ao mesmo tempo em que se mostra, oculta as suas razões. É de sua índole, tanto o se ocultar como também o se assumir, mediante uma aparência ou maquiagem comunicativa, pela qual a Natureza provoca em nós o desejo de a conhecer.[...] Conhecemos a Natureza não tanto por aquilo que se mostra, mas principalmente por aquilo que inferimos sobre ela.. SPINELLI, M., 1998, p. 193.

Para Heráclito o que comanda a ordem do mundo é a luta, ou melhor a harmonia dos contrários, a perenidade das coisas que fazem parte da Natureza, seja homem, planta, animal, mineral ou qualquer outra coisa. O mundo é eterno, assim como a sua ordem, porém suas partes, aquilo de que ele se constitui está em constante renovo, em um eterno devir. Em outras palavras, se não existir guerra não há paz, se não existir morte não há vida nem nascimento, sem a perenidade das coisas tudo seria eterno e posto, condição que, para Heráclito, é perceptivelmente incoerente com a realidade. A teoria heraclitiana consiste, então, no estabelecimento de uma lei que rege o cosmos, a de que tudo é um eterno devir, um vir a ser constante, pois tudo nasce, cresce e morre. O jovem envelhece, o verde apodrece, tudo está sujeito ao tempo e, assim, a harmonia dos contrários, já que é por existirem os contrários que se tem uma perfeita ordenação da existência do mundo. Pela maneira como percebia o desenvolvimento natural das coisas, Heráclito foi considerado o pai da dialética, isto é, via a realidade como um eterno embate entre opostos, um momento superando o outro.

Dialética é uma palavra com origem no termo em grego, dialektikée, que significa a arte do diálogo, a arte de debater ou raciocinar. Também utilizada com uma noção de oposição, como na luta dos contrários em Heráclito e antagonismo de classes em Marx.

A01 y Mito, Logos e Pré-socráticos 9
Figura 03 - Heráciclo de Éfeso.

W O Logos na Teoria Heraclitiana

Mas ela é detentora (e isso é muito importante e salientado na filosofia de Heráclito), de uma ciência específica e própria, ou seja, de um saber que, de certo modo, se esconde por detrás de uma aparência observável, e que cabe ao logos humano desocultá-la, pela via da observação e da inferência. Esse seu saber é a sua lei (nomos), e também o seu logos, aquele que “tudo governa”: o pensamento que governa tudo através de tudo. [...] O logos, em referência ao cosmos, é expressão dessa articulação, pela qual o cosmos ou o ser pode ser entendido como uma unidade de contrapostos.

SPINELLI, M., 1998, p. 193 e 195

Spinelli, na passagem acima, demonstra novamente que Heráclito busca encontrar o princípio regulativo do cosmos, o logos que governa a ordem do mundo, isto é, assim como os homens o cosmos também tem um logos. A razão conduz as ações dos homens e o logos faz o mesmo com a ordem do mundo, estabelecendo a harmonia entre os contrários, que é o nomos (a lei) que rege os acontecimentos na Natureza. Dessa forma, pode-se dizer que o logos (a razão) do cosmos (espaço ordenado) consiste no princípio que regula a ordem do mundo, é a expressão da harmonia entre os contrários.

Logos é logos no alfabeto grego e significa pensamento racional, sendo que na filosofia de Heráclito é o que vai determinar a lei que rege a ordem do mundo.

Nomos em grego significa lei, deliberação, governo, princípio regulativo.

W O fogo como princípio de todas as coisas

Dado que a sua Filosofia da Natureza é uma filosofia das relações, o fogo (coextensivo do logos) nela se apresenta como elemento constituinte do cosmos e também como a metáfora mais significativa do seu filosofar.[...] Mas o que Heráclito observou (talvez diante da lareira), é que o fogo não existe isoladamente na Natureza, a não ser em Relação: se há fogo, há algo que queima.

Para Heráclito, o fogo é algo que, mais que simplesmente constituir, exprime exatamente a “natureza” do cosmos, já que ele vive da constante mudança, da harmonia entre contrário, pois a sua vida consiste em destruir algo – o combustível –que se transforma em fumaça. O fogo retrata bem o que Heráclito quer dizer com guerra e paz, pois a primeira seria o fogo queimando, destruindo o combustível e o transformando. Já a segunda seria o fogo se apagando, isto é, deixando de queimar e por isso deixando de existir. A guerra é a luta entre os contrários que faz com que exista uma ordem no mundo, a qual o mantém existindo. A paz seria o fim, ou a não existência, desta luta, uma perpetuidade que acabaria com a ordem e, consequentemente, o mundo.

Parmênides de Eleia (540–470 a.C.)

“O ente é, pois é ser e nada não é.”

Parmênides nasceu em Eleia, hoje Vélia, na Itália, por volta de 540 a.C. Foi iniciado na filosofia pelo pitagórico Ananias e tem-se que foi político ativo e formador de boas leis para a cidade. Escreveu um poema intitulado Sobre a Natureza, o qual se divide em três partes: uma primeira que denominaríamos de prólogo, ou seja, uma introdução a segunda (da qual teve-se acesso a vários fragmentos) que trata dos caminhos da verdade; e a terceira (da qual conservam-se apenas fragmentos) que aborda os caminhos da opinião. Tem-se que a filosofia parmenidiana levanta-se contra o dualismo pitagórico (ser e não ser, cheio e vazio,...) e, de acordo com alguns intérpretes, contra o mobilismo de Heráclito.

W A imutabilidade do ser

Vejamos uma passagem de um poema de Parmênides, em que podemos encontrar os principais elementos de seu pensamento.

Só nos resta neste momento, uma única via da qual se possa falar: que é. Sobre ela há um grande número de sinais: que sendo não gerado é imperecível um todo inteiro inabalável e sem fim. Jamais foi nem será, porque é todo presente, um e contínuo. Que origem poder-se-ia atribuir-lhe? Como e de onde cresceria? Não te permitirei dizer nem pensar que ele possa ter crescido do não ser; pois não se pode dizer nem pensar o que não é. Se viesse do nada qual a necessidade o teria impelido a nascer mais cedo ou mais tarde? Assim, pois, é necessário que

Filosofia 10 | PAS 3
SPINELLI, M., 1998, p. 199 e 200 Figura 04 - Fisionomia atribuída a Parmênides de Eleia.

ele seja absolutamente ou não seja. Também a força da convicção jamais concederá que do não ente possa nascer algo dele. A justiça não permite por um afrouxamento de suas amarras, que nasça ou pereça, mas o mantém. Esta decisão recai sobre a seguinte afirmativa: Ou é ou não é [...]. Como poderia perecer o ente? Como poderia ser gerado? Pois se nasceu, não é, e também não é se um dia devesse ser. [...]. Também não é divisível, pois é completamente idêntico a si mesmo. Nada poderia ser-lhe acrescido o que impediria de conter-se, nem retirado, pois o ente é todo pleno. Por isso é todo contínuo [...] Idêntico a si mesmo, em si mesmo repousa, imóvel em seu lugar; pois a poderosa Necessidade o mantém nos limites de um liame que de todos os lados o encerra, de tal modo que ao ente está estabelecido como norma não ser inacabado.

A passagem acima vem confirmar o motivo pelo qual Parmênides desacredita do conhecimento proporcionado pelos sentidos, ou seja, o Ser dos sentidos está em movimento e por isso ele constantemente deixa de ser o que é e se transforma em outro Ser (o não ser anterior), o que para o autor é inconcebível, pois o não ser não existe. Em outras palavras, admitir o movimento implica admitir que uma pessoa deixa de ser jovem e se transforma em velho (que é o mesmo que dizer que se transforma no não jovem, que não existe).

Para Parmênides o ser, o pensar e o dizer são a mesma coisa, pois não se pode, em hipótese alguma, admitir que o não ser possa ser pensado ou dito. O Ser uno e eterno do autor só pode ser concebido pela razão, sendo que os sentidos não podem expressá-lo. Tem origem na história da filosofia o princípio de identidade, que afirma que o ser é sempre idêntico a si mesmo. Juntamente com ele, começa a busca da

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (Uel PR) Leia os textos a seguir. Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. 3.ed. Trad. de JaaTorrano. São Paulo: Iluminuras, 1995. p.91. Segundo a mitologia ioruba, no início dos tempos, havia dois mundos: Orum, espaço sagrado dos orixás, e Aiyê, que seria dos homens, feito apenas de caos e água. Por ordem de Olorum, o deus supremo, o orixá Oduduá veio à Terra trazendo uma cabaça com ingredientes especiais, entre eles a terra escura que jogaria sobre o oceano para garantir morada e sustento aos homens.

“A Criação do Mundo”. SuperInteressante. jul. 2008. Disponível em: <http://super.abril.com.br/religiao/criacaomundo-447670.shtm>.

Acesso em: 1 abr. 2014.

No começo do tempo, tudo era caos, e este caos tinha a forma de um ovo de galinha. Dentro do ovo estavam Yin e Yang, as duas forças opostas que compõem o universo. Yin e Yang são escuridão e luz, feminino e masculino, frio e calor, seco e molhado.

PHILIP, N. O Livro Ilustrado dos Mitos: contos e lendas do mundo. Ilustrado por NileshMistry. Trad. de Felipe Lindoso. São Paulo: Marco Zero, 1996. p.22. Com base nos textos e nos conhecimentos sobre a passagem do mito para o logos na filosofia, considere as afirmativas a seguir.

filosofia pela permanência, pela constância, pela regularidade, que encontraremos nas ideias de Platão ou nas essências de Aristóteles. Mesmo as ciências, na sua busca pelas leis, não deixam de ansiar por algo contínuo, permanente, no real.

W A crítica ao conhecimento pelos sentidos Discordando do pensamento de Heráclito, Parmênides faz uma crítica ao conhecimento das coisas sensíveis, as quais estão em constante mutação, porque não há como formular um conhecimento a respeito de algo que em um dado momento é X e logo depois se torna Y. Para este pensador, é impossível conhecer todas as coisas em todos os seus momentos, pois só se poderia realmente ter acesso a um saber concreto sobre algo se fosse possível conhecê-lo nos diversos momentos de sua existência. Para o autor, então, a realidade não é acessível pelos sentidos, mas tão somente pela razão, que jamais poderia conhecer algo que muda constantemente, mas somente estar conhecendo este algo. O conhecimento pronto e acabado só pode existir frente a uma realidade que não mude, e só assim pode-se afirmar que se conhece alguma coisa em sua plenitude. Como para este filósofo, ao contrário de Heráclito, os sentidos nos mostram mudança, estes não são via de acesso confiável à realidade tal como ela é. Se só o Ser pode ser conhecido, e este é imóvel, imutável, eterno, sempre idêntico a si mesmo, único e uno, o que percebemos na realidade é na verdade aparência, e só pode produzir o que vai ser chamado de doxa, termo grego que, correntemente, é traduzido como opinião, conhecimento transitório. Só a razão pode acessar o que realmente é (existe, pode ser pensado e dito), e para fazê-lo ela deve se afastar dos enganos da mudança e buscar o que permanece.

I. As diversas narrativas míticas da origem do mundo, dos seres e das coisas são genealogias que concebem o nascimento ordenado dos seres; são discursos que buscam o princípio que causa e ordena tudo que existe.

II. Os mitos representam um relato de algo fabuloso que afirmam ter ocorrido em um passado remoto e impreciso, em geral grandes feitos apresentados como fundamento e começo da história de dada comunidade.

III. Para Platão, a narrativa mitológica foi considerada, em certa medida, um modo de expressar determinadas verdades que fogem ao raciocínio, sendo, com frequência, algo mais do que uma opinião provável ao exprimir o vir-a-ser.

IV. Quando tomado como um relato alegórico, o mito é reduzido a um conto fictício desprovido de qualquer correspondência com algum tipo de acontecimento, em que inexiste relação entre o real e o narrado.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas I e II são corretas.

b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.

c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.

d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.

e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.

A01 y Mito, Logos e Pré-socráticos 11

02. (UEG GO) A cultura grega marca a origem da civilização ocidental e, ainda hoje, podemos observar sua influência nas ciências, nas artes, na política e na ética.

Dentre os legados da cultura grega para o Ocidente, destaca-se a ideia de que

a) a natureza opera obedecendo a leis e princípios necessários e universais que podem ser plenamente conhecidos pelo nosso pensamento.

b) nosso pensamento também opera obedecendo a emoções e sentimentos alheios à razão, mas que nos ajudam a distinguir o verdadeiro do falso.

c) as práticas humanas, a ação moral, política, as técnicas e as artes dependem do destino, o que negaria a existência de uma vontade livre.

d) as ações humanas escapam ao controle da razão, uma vez que agimos obedecendo aos instintos como mostra hoje a psicanálise.

03. (Unesp SP) Aedo e adivinho têm em comum um mesmo dom de “vidência”, privilégio que tiveram de pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles veem o invisível. O deus que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar humano. Sua visão particular age sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é.

(Jean-Pierre Vernant. Mito e pensamento entre os gregos, 1990. Adaptado.)

O texto refere-se à cultura grega antiga e menciona, entre outros aspectos,

a) o papel exercido pelos poetas, responsáveis pela transmissão oral das tradições, dos mitos e da memória.

b) a prática da feitiçaria, estimulada especialmente nos períodos de seca ou de infertilidade da terra.

c) o caráter monoteísta da sociedade, que impedia a difusão dos cultos aos deuses da tradição clássica.

d) a forma como a história era escrita e lida entre os povos da península balcânica.

e) o esforço de diferenciar as cidades-estados e reforçar o isolamento e a autonomia em que viviam.

04. (UEG GO) O ser humano, desde sua origem, em sua existência cotidiana, faz afirmações, nega, deseja, recusa e aprova coisas e pessoas, elaborando juízos de fato e de valor por meio dos quais procura orientar seu comportamento teórico e prático. Entretanto, houve um momento em sua evolução histórico-social em que o ser humano começa a conferir um caráter filosófico às suas indagações e perplexidades, questionando racionalmente suas crenças, valores e escolhas.

Nesse sentido, pode-se afirmar que a filosofia

a ) é algo inerente ao ser humano desde sua origem e que, por meio da elaboração dos sentimentos, das percepções e dos anseios humanos, procura consolidar nossas crenças e opiniões.

b) existe desde que existe o ser humano, não havendo um local ou uma época específica para seu nascimento, o que nos autoriza a afirmar que mesmo a mentalidade mítica é também filosófica e exige o trabalho da razão.

c) inicia sua investigação quando aceitamos os dogmas e as certezas cotidianas que nos são impostos pela tradição e pela sociedade, visando educar o ser humano como cidadão.

d) surge quando o ser humano começa a exigir provas e justificações racionais que validam ou invalidam suas crenças, seus valores e suas práticas, em detrimento da verdade revelada pela codificação mítica.

05. (Uel PR) Leia o texto a seguir e responda à próxima questão. De onde vem o mundo? De onde vem o universo? Tudo o que existe tem que ter um começo. Portanto, em algum momento, o universo também tinha de ter surgido a partir de uma outra coisa. Mas, se o universo de repente tivesse surgido de alguma outra coisa, então essa outra coisa também devia ter surgido de alguma outra coisa algum dia. Sofia entendeu que só tinha transferido o problema de lugar. Afinal de contas, algum dia, alguma coisa tinha de ter surgido do nada. Existe uma substância básica a partir da qual tudo é feito? A grande questão para os primeiros filósofos não era saber como tudo surgiu do nada. O que os instigava era saber como a água podia se transformar em peixes vivos, ou como a terra sem vida podia se transformar em árvores frondosas ou flores multicoloridas.

Adaptado de: GAARDER, J. O Mundo de Sofia. Trad. de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.43-44. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o surgimento da filosofia, assinale a alternativa correta.

a) Os pensadores pré-socráticos explicavam os fenômenos e as transformações da natureza e porque a vida é como é, tendo como limitador e princípio de verdade irrefutável as histórias contadas acerca do mundo dos deuses.

b) Os primeiros filósofos da natureza tinham a convicção de que havia alguma substância básica, uma causa oculta, que estava por trás de todas as transformações na natureza e, a partir da observação, buscavam descobrir leis naturais que fossem eternas.

c) Os teóricos da natureza que desenvolveram seus sistemas de pensamento por volta do século VI a.C. partiram da ideia unânime de que a água era o princípio original do mundo por sua enorme capacidade de transformação.

d) A filosofia da natureza nascente adotou a imagem homérica do mundo e reforçou o antropomorfismo do mundo dos deuses em detrimento de uma explicação natural e regular acerca dos primeiros princípios que originam todas as coisas.

e) Para os pensadores jônicos da natureza, Tales, Anaxímenes e Heráclito, há um princípio originário único denominado o ilimitado, que é a reprodução da aparência sensível que os olhos humanos podem observar no nascimento e na degeneração das coisas.

06. (Uem PR) “Taleas de Mileto, o primeiro a indagar estes problemas, disse que a água é a origem das coisas e que deus é aquela inteligência que tudo faz da água.”

(Cícero, Da natureza dos deuses).

“Princípio (arkhé) dos seres [...] ele disse que era o ilimitado [...]. Pois donde a geração é para os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo.”

(Anaximandro). In: CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 49-51).

A partir dos dois fragmentos acima, assinale o que for correto.'

01. A água é, para Tales, expressão da vida, em que tudo se transforma e se conserva.

02. Tales não indagava sobre a qualidade ou coisa originária, mas qual é a qualidade ou coisa originária.

04. A physis (natureza), para Anaximandro, não é nenhuma das qualidades percebidas nas coisas.

08. A escola jônica protagonizou um grande debate sobre as questões de ontologia.

16. A origem dos seres, para Anaximandro, ocorre por um processo de luta entre os contrários; sua dissolução, por um processo de justiça.

Filosofia 12 | PAS 3

W SÓCRATES (470–399 a.C.): CONTEXTO, MÉTODO E JULGAMENTO

“Tudo que sei é que nada sei”

Período socrático ou antropológico

Sócrates nasceu em Atenas, por volta de 470-469 a.C. e morreu em 399 a.C. devido a uma condenação, que se fundamentou nas acusações de ser corruptor da juventude e de não acreditar nos deuses da cidade. Era filho de um escultor e de uma parteira. Nunca escreveu nada e a maioria do que conhecemos de sua filosofia chegou-nos por intermédio dos diálogos de Platão, o que acabou por gerar uma dúvida sobre se Sócrates realmente havia existido ou se seria simples personagem das obras de Platão. A maioria dos comentadores sérios, no entanto, têm optado pela primeira possibilidade.

O que se pode perguntar, no entanto, é o seguinte: o que o tornou tão importante para os estudiosos da filosofia? Por que se tornou um marco, a ponto de classificarmos todos os que vieram antes dele como Pré-socráticos? A resposta não envolve, como deve parecer óbvio, somente elementos cronológicos. O período socrático foi também denominado de antropológico. Analisando a palavra, Antropo: vem de anthropos, que se refere à ideia de homem e lógico: vem de Logos, que significa estudo, razão. Dessa maneira, podemos afirmar que antropologia é o estudo do homem em seus mais variados aspectos, principalmente cultural e social.

Essa divisão existe na história da Filosofia porque Sócrates mudou o enfoque da investigação filosófica, não se preocupando em compreender o mundo natural, como os filósofos que o antecederam, mas procurando conhecer o homem e seu aspecto social e político, como percebemos na seguinte citação a seguir:

Os naturalistas procuraram responder à seguinte questão: “O que é a natureza ou a realidade última das coisas?” Sócrates, porém, procura responder à questão: “O que é a natureza ou realidade última do homem?”, ou seja, o que é a essência do homem?”.

FRENTE FILOSOFIA MÓDULO 02 A PAS 3 13
REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 87. TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 NÃOHÁITENS RECORRENTES

Nesse momento de desenvolvimento, principalmente cultural do mundo grego, além das questões voltadas à natureza (cosmologia), a filosofia começa a preocupar-se com a sociedade e o indivíduo, principalmente no que diz respeito às questões morais. O cidadão guerreiro belo e bom (Arete – modelo de virtude) já não satisfazia o modelo de cidadão da polis. Era, então, necessário formar um novo cidadão para comandar as cidades. Nesse contexto, surgem os Sofistas (professores estrangeiros), que se diziam capazes de ensinar a arte e a técnica do discurso (oratória e retórica). Saber falar em público era essencial em um sistema democrático, no qual as decisões eram tomadas na Ágora, por vontade da maioria dos cidadãos, após ouvirem os discursos prós e contra os temas a serem votados. Os Sofistas ensinavam a jovens aristocratas e recebiam por isso. Acreditavam que tudo poderia ser ensinado, porque tudo era convenção entre os homens. Por isso acreditavam que a realidade era relativa, sendo os resultados dependentes de acordos entre os homens.

Ágora é o fórum público ateniense, onde se reuniam os cidadãos para realizar seus negócios e outras atividades. Era um espaço onde havia muitas feiras livres, mercados e, principalmente, prédios públicos. Símbolo da democracia, o local era celeiro de discussões políticas e de cidadania.

O mais importante deles foi Protágoras, cuja principal afirmação foi a de que “O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são.”

Górgias também foi muito importante, afirmou que podemos pensar o inexistente e comunicar irrealidades por meio da linguagem. Portanto, não há diferença entre doxa (opinião) e Alétheia (verdade), assim como pensavam os outros sofistas e os gregos de sua época.

Sócrates formulou uma ética racionalista (metódica), em que a virtude (Areté) se identifica com o conhecimento. A verdade só pode ser conhecida, portanto, se o indivíduo deixar para trás as ilusões dos sentidos, as palavras e as opiniões. Conhecer, para Sócrates, consistia em se elevar da aparência para a essência, da opinião individual para o conceito universal dos seres, dos valores, da vida moral e da política.

Mencionamos antes a preocupação socrática de compreender qual a essência do homem, que parece-nos estar expressa na seguinte passagem:

Um dos raciocínios fundamentais feitos por Sócrates para provar essa tese é a seguinte: uma coisa é o “instrumento” que se usa e outra é o “sujeito” que usa o instrumento. Ora, o homem usa seu próprio corpo como instrumento, o que significa que o sujeito, que é o homem, e o instrumento, que é

o corpo, são coisas distintas. Assim, à pergunta “o que é o homem”, não se pode responder que é o seu corpo, mas sim que é “aquilo que se serve do corpo”. Mas “o que se serve do corpo é a psyché, a alma (= inteligência) [...]

REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 88.

Para Sócrates, a educação da alma é importante, pois ela é a essência do homem. Ela determina as ações dos homens e pode bem conduzir-nos a uma vida virtuosa. Aquele que tem conhecimento não reúne todas as características necessárias à virtude (justiça, fortaleza, temperança, sabedoria...) e o vício nada mais é que a falta, a privação de conhecimento, ou seja, a ignorância.

Tomando esse preceito como base, podemos também afirmar que tudo o que é exterior à natureza da alma do homem não pode ser considerado virtude. Desse modo, riqueza, poder, fama, beleza e saúde física, dentre outras coisas, não constituem valores éticos, pois “em si mesmos não têm valor”.

O filósofo ficou conhecido também por sua máxima, “tudo que sei é que nada sei”. Com tal afirmação quis dizer que o conhecimento do homem é pequeno, imperfeito, superficial e que o conhecimento pleno e total das coisas naturais só pertence aos deuses. É presunção se considerar conhecedor das coisas criadas por aqueles que nos criaram.

Mas, se virtude é sinônimo de conhecimento, e Sócrates diz não saber nada, então não é virtuoso? Claro que o conhecimento que ele está admitindo como igual à virtude não trata de conhecimentos acerca do mundo natural, o qual os deuses são artífices, mas de conhecimentos práticos e de uma tentativa de uma autocompreensão de nossa alma.

O provável, senhores, é que, em verdade, o sábio seja deus e queira dizer, em seu oráculo, que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana; evidentemente se terá servido deste nome de Sócrates para me dar como exemplo, como se dissesse: “O mais sábio dentre vós, homens, é quem, como Sócrates, compreendeu que sua sabedoria é desprovida verdadeiramente desprovida do mínimo valor”.

PLATÃO, 2004, p. 47.

Isso acontece de tal modo que o não saber socrático já constitui uma sabedoria. Ao reconhecer sua própria ignorância, Sócrates buscou levar aos demais atenienses tal conhecimento, utilizando, para isso, sua dialética.

O Método Socrático

Sócrates afirma, em sua defesa, escrita por Platão, que começou a travar as conversas com seus concidadãos em função de uma experiência mística. Um antigo amigo, que à época de seu julgamento já havia morrido, de nome Querefonte, visitara certa vez o Oráculo de Apolo, na cidade de Delfos, e fez uma pergunta sobre a sabedoria do nosso filósofo. A

Filosofia 14 | PAS 3

resposta da sacerdotisa do templo dava a possibilidade de interpretação de que Sócrates fosse mais sábio que os demais. Para afastar tal forma de entender a resposta, ele se pôs a conversar com algumas pessoas, fazendo perguntas que ele próprio não sabia responder, com uma expectativa inicial de receber instrução. Para a sua surpresa, seus interlocutores, que no início assumiam uma postura até mesmo arrogante, ao final mostravam-se tão ignorantes quanto ele sobre o tema da reflexão. Ao cabo de alguns desses diálogos, ele percebeu que de sabedoria o deus falava que ele era detentor, enquanto faltava aos demais: o dos seus limites, da própria ignorância, presente na afirmação famosa “sei que nada sei”. A partir de então, Sócrates se vê investido pelo deus de uma missão, que consistia em conduzir os seus concidadãos a um melhor conhecimento de si mesmos, a inscrição no portal do templo: “Conhece-te a ti mesmo”.

Sócrates, na intenção de realizar sua missão, adotava sempre o diálogo que assumia uma dupla forma, conforme se tratava de um adversário a refutar ou de um “discípulo” a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até encontrar o adversário presunçoso em evidente contradição, constrangendo-o à confissão humilhante de sua ignorância. É a ironia socrática. No segundo caso, tratando-se de um “discípulo’, multiplicava ainda mais as perguntas, dirigindo-as agora a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão. A esse processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava-se maiêutica, ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das ideias.

Partindo da consciência da sua própria ignorância (“só sei que nada sei”), utilizava como método não a exposição, mas a dialética (aqui com o sentido de arte do diálogo e da discussão), que passava por três momentos distintos:

Ironia: em grego significa interrogação. Consistia em uma cadeia de perguntas realizadas por Sócrates que iam, pouco a pouco, conduzindo o interlocutor à consciência da própria ignorância.

Aporia: do grego a = não e poria, que vem de poros e significa saída. O termo, então, significa sem saída, e relaciona-se ao final de todo o diálogo platônico de primeira fase, também dito diálogo socrático. Acredita-se que, em sua primeira fase de escritos, Platão tenha tão somente reproduzido a prática de Sócrates nas ruas e praças de Atenas. É assim que podemos diferenciar o que seja socrático do que seja já teoria platônica. Todos os diálogos socráticos são aporéticos, ou seja, não apresentam nenhuma resposta ao seu final, o que não poderia ser diferente, visto que Sócrates só tinha consciência da própria ignorância.

Maiêutica: traduzido ao pé da letra, o termo significa arte de parturejar, ou seja, de trazer à luz novos seres humanos. Essa é a profissão da parteira, ainda muito comum em certas regiões do Brasil. Era esse o ofício desempenhado pela mãe de Sócrates. No diálogo Teeteto, nosso filósofo afirma que

sua atividade se parece muito com aquela realizada pela sua mãe, visto que nessa nova etapa, posterior à destruição do falso saber do interlocutor, Sócrates buscaria auxiliar aquele com quem dialogava a conceber ideias verdadeiras, seguras, que estariam, evidentemente, dentro do próprio indivíduo que travava diálogo com o filósofo. E é óbvio que só poderia ser assim, visto que o único conhecimento afirmado por ele é o da sua própria ignorância. Tem-se no diálogo Teeteto de Platão em uma fala de Sócrates ao próprio Teeteto:

Por isso mesmo, não sou sábio, não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado luz. Porém os que tratam comigo, suposto que alguns, no começo pareçam de todo ignorantes, com a continuação de nossa convivência, quantos a divindade favorece progridem admiravelmente, tanto no seu julgamento quanto no de estranhos. O que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; eles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira.

PLATÃO, 1998, p. 13-14

Crítica aos sofistas

O termo sofista vem do grego sophós, que significa sábio ou professor. Adquire, posteriormente, sentido pejorativo para nomear aquele que utiliza sofismas, ou seja, argumentos com a intenção de enganar. Os sofistas atuaram em Atenas no século V a. C. e eram “professores” de retórica e foram os primeiros a cobrarem pelo ensino. Sua participação na democracia ateniense foi importante por ensinarem a arte da retórica, que consistia na técnica de utilizar a linguagem como discurso persuasivo, ou seja, como arte do convencimento. Tal ensino destinava-se à elite intelectual, pois era utilizada nas assembleias públicas e nas decisões das cidades.

A visão pejorativa foi criada por filósofos como Sócrates, que os criticava e condenava por não se preocuparem com a verdade e reduzirem a verdade a um relativismo vinculado à capacidade de convencimento daqueles que participaram do debate/diálogo. Fato que fica notório no texto abaixo:

Eis a missão de Sócrates, missão para a qual ele se sentiu chamado pelo oráculo de Delfos: incitar os homens a se preocuparem antes de tudo com os interesses da própria alma, procurando adquirir o saber e a virtude. Estimulado pelo impulso divino, Sócrates propôs-se a livrar seus concidadãos da influência nefasta dos sofistas, que punham em dúvida o conhecimento de uma verdade suprema e de uma lei moral absoluta, e estimulá-los à procura da verdade da virtude, dando testemunho, com sua vida e sua morte, desses valores eternos.

Julgamento de Sócrates

“(…) descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber alguma coisa, mas que na verdade pouco ou nada sabem. (…) e afirmam que existe um tal Sócrates (…) que corrompe a juventude. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, não têm o que responder; não sabem, mas para não mostrar seu

A02 y Sócrates (470–399 a.C.): Contexto, método e julgamento 15
MONDIN, B. Curso de Filosofia: os filósofos do ocidente. São Paulo: Paulus, 1981, p. 47.

embaraço apresentam aquelas acusações que repetem contra todos os que filosofam: ‘as coisas do céu e o que há sob a terra; o não crer nos deuses; fazer prevalecer o discurso e a razão mais fraca’. Isso porque não querem dizer a verdade: terem dado prova de que fingem saber, mas nada sabem.”

Apol., 23 c-e.

Sócrates, em seus diálogos, não fazia distinção entre condições socioeconômicas, idade ou mesmo política daqueles que se dispunham a ter com ele. Dialogava com cidadãos, pobres e mesmo escravos. Seu objetivo era cumprir a missão dada a ele pela divindade, purificando a alma de seus concidadãos e os desprovendo do engano de que eram sábios.

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. A filosofia de Sócrates se estrutura em torno da sua crítica aos sofistas, que, segundo ele, não amavam a sabedoria nem respeitavam a verdade. O ataque de Sócrates à sofística não tem como pressuposto a ideia de que

a) o conhecimento verdadeiro só pode ser resultado de um diálogo contínuo do homem com os outros e consigo mesmo.

b) o confronto de opiniões na política democrática afasta a possibilidade de se alcançar a sabedoria.

c) a verdade das coisas é obtida na vida cotidiana dos homens e, portanto, pode ser múltipla e inacabada.

d) o autoconhecimento é a condição primária de todos os outros conhecimentos verdadeiros.

e) a ciência (epistéme) é acessível a todos os homens, contanto que estejam dispostos a renunciar ao mundo das sensações.

02. Assinale a alternativa correta

a) O homem é um ser pensante e criativo e, enquanto tal, cria pensamentos. Pensamentos estes que irão fundar e desenvolver a civilização ocidental. Cria o mito e o logos: o primeiro se dá mediante figuras, imagens, fantasias; o segundo, mediante a razão, produzindo conceitos.

b) Podemos afirmar que a Filosofa surgiu a partir da aceitação e irracionalização do mito: porque ela supera a crença mítica e coloca a razão e a lógica como pressupostos básicos para o pensar.

c) A origem da Filosofa, portanto, está ligada à invenção do logos, razão pela qual ela não pode ser concebida, inicialmente, como o exercício do logos. Etimologicamente, logos vem do grego legein, que significa “falar”, “reunir”.

d) Antes de tudo, portanto, logos se define como fala, discurso, razão. Nesse sentido ele concorda com o mito, que também é fala, mas uma “[...] fala que narra, que comunica por analogia entre situações narradas a experiência do narrador”, ao passo que logos “[...] significa fala que demonstra, que descreve o que ocorre às coisas em vista de suas próprias essências” (Cunha, 1992, p. 56).

e) O primeiro filósofo foi Sócrates, que viveu entre o final do século VII e início do século VI a.C. Vale mencionar outros filósofos desse período que fizeram questionamentos semelhantes e deram respostas igualmente semelhantes, dentre eles: Anaxímenes, Anaximandro, Heráclito, Pitágoras e Parmênides.

Além de não fazer distinção entre os interlocutores, também debatia sobre aquilo que os mesmos se predispunham, como por exemplo: crenças, virtude, política, moral, conhecimento, levando-os a reconhecer a ignorância sobre os mesmos.

Na busca pela verdade, acabava por contrariar valores dominantes na sociedade. Fato que o levou a julgamento sob as acusações de corruptor da juventude, não acreditar nos deuses da cidade e fazer prevalecer a razão mais fraca, sendo condenado à morte, bebendo cicuta, veneno extraído de uma planta de mesmo nome. Seus principais acusadores foram: Ânito − que era político, Meleto − que era poeta e Lícon − que era um retórico.

03. (Unicamp SP) A sabedoria de Sócrates, filósofo ateniense que viveu no século V a.C., encontra o seu ponto de partida na afirmação “sei que nada sei”, registrada na obra Apologia de Sócrates A frase foi uma resposta aos que afirmavam que ele era o mais sábio dos homens. Após interrogar artesãos, políticos e poetas, Sócrates chegou à conclusão de que ele se diferenciava dos demais por reconhecer a sua própria ignorância.

O “sei que nada sei” é um ponto de partida para a Filosofia, pois

a) aquele que se reconhece como ignorante torna-se mais sábio por querer adquirir conhecimentos.

b) é um exercício de humildade diante da cultura dos sábios do passado, uma vez que a função da Filosofia era reproduzir os ensinamentos dos filósofos gregos.

c) a dúvida é uma condição para o aprendizado e a Filosofia é o saber que estabelece verdades dogmáticas a partir de métodos rigorosos.

d) é uma forma de declarar ignorância e permanecer distante dos problemas concretos, preocupando-se apenas com causas abstratas.

04. Na Grécia Antiga, o filósofo Sócrates ficou famoso por interpelar os transeuntes e fazer perguntas aos que se achavam conhecedores de determinado assunto. Mas durante o diálogo, Sócrates colocava o interlocutor em situação delicada, levando-o a reconhecer sua própria ignorância. Em virtude de sua atuação, Sócrates acabou sendo condenado à morte sob a acusação de corromper a juventude, desobedecer às leis da cidade e desrespeitar certos valores religiosos.

Considerando essas informações sobre a vida de Sócrates, assim como a forma pela qual seu pensamento foi transmitido, pode-se afirmar que sua filosofia

a) transmitia conhecimentos de natureza científica.

b) baseava-se em uma contemplação passiva da realidade.

c) transmitia conhecimentos exclusivamente sob a forma escrita entre a população ateniense.

d) ficou consagrada sob a forma de diálogos, posteriormente redigidos pelo filósofo Platão.

e) procurava transmitir às pessoas conhecimentos de natureza mitológica.

Filosofia 16 | PAS 3

05. Sócrates inaugura o período clássico da filosofia grega, também chamado de período antropológico. O problema do conhecimento passou a ser uma problemática central na filosofia socrática, pois “a briga” de Sócrates com os sofistas tinha por objetivo resgatar o amor pela sabedoria e a valorização pela busca da verdade.

Nesse contexto, Sócrates inaugura seu método que se fundamenta em dois princípios básicos, que são

a) a indução e dedução das verdades lógicas.

b) a doxa e o lógos convergindo para o conceito racional.

c) a ironia e a Maiêutica enquanto caminhos para conhecer a verdade através do auto-conhecimento (conhecer-te a ti mesmo).

d) o diálogo e a dúvida dialética.

e) a amizade e a justiça social.

06. (UFU MG) Sócrates buscou verdades absolutas, enquanto os sofistas, por sua vez, afirmaram que a verdade era construída pela linguagem, logo, para eles, todo conhecimento era relativo.

“Embora em sua época tenha sido confundido com os sofistas, Sócrates travou uma polêmica profunda com estes filósofos. Ele procurava um fundamento último para as interrogações humanas (O que é o bem? O que é a virtude? O que é a justiça?)”.

COTRIM, Gilberto e FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 284

Com base nas considerações e no excerto acima, diz-se que Sócrates buscava principalmente

a) valores relativos.

b) verdades morais.

c) domínio retórico.

d) ensinar dogmas.

07. (Enem MEC) Uma conversação de tal natureza transforma o ouvinte; o contato de Sócrates paralisa e embaraça; leva a refletir sobre si mesmo, a imprimir à atenção uma direção incomum: os temperamentais, como Alcibíades, sabem que encontrarão junto dele todo o bem de que são capazes, mas fogem porque receiam essa influência poderosa, que os leva a se censurarem. É sobretudo a esses jovens, muitos quase crianças, que ele tenta imprimir sua orientação.

O texto evidencia características do modo de vida socrático, que se baseava na

a) contemplação da tradição mítica.

b) sustentação do método dialético.

c) relativização do saber verdadeiro.

d) valorização da argumentação retórica.

e) investigação dos fundamentos da natureza.

08. (UFU MG) A respeito do método de Sócrates, assinale a alternativa que apresenta a definição correta de maiêutica.

a) Um método sintético, que ignora a argumentação dos interlocutores e prontamente define o que é o objeto em discussão.

b) Uma estratégia sofística, que é empregada para educar a juventude na prática da retórica, visando apenas ao ornamento do discurso.

c) Um método analítico, que interroga a respeito daquilo que é tido como a verdadeira justiça, o verdadeiro belo, o verdadeiro bem.

d) Uma iluminação divina, que deposita na mente do filósofo o conhecimento profundo das coisas da natureza.

09. (UnB DF) Sócrates afirma que a maldade é mais veloz que a morte. No trecho da obra Apologia de Sócrates, essa afirmação é complementada, de forma correta, quando ele diz que, por ser

a) velho, foi apanhado pela morte, mais lenta, porém seus juízes foram apanhados pela maldade, mais veloz, ao cometerem a injustiça de condená-lo à morte.

b) mal, foi apanhado pela morte, mais velha e justa, porém seus juízes foram apanhados pela justiça, mais veloz, ao condená-lo à morte.

c) bom, foi apanhado pela injustiça, mais lenta, porém seus juízes foram apanhados pela mentira, mais veloz, ao condená-lo à morte.

d) sábio, foi invejado pela morte, mais ignorante, porém seus juízes foram invejados pela maldade, mais veloz, ao cometerem a injustiça de condená-lo à morte.

10. (UEM PR) Platão registra, em seu diálogo Crátilo, a análise de Sócrates acerca do valor das lições dos sofistas: “Sócrates – O ensino sobre os termos não é assunto de pouca importância. Se eu tivesse ouvido a lição de Pródico [de Ceós] de cinquenta dracmas, a qual garantia ao ouvinte ficar inteiramente formado acerca deste assunto, como ele assevera, nada te impediria de saber imediatamente toda a verdade acerca do uso correto das palavras. Mas só ouvi a lição no valor de um dracma.”

(PLATÃO, Crátilo, 483B apud FIGUEIREDO, V. de (org.) Filósofos na sala de aula. São Paulo: Berlendis&Vertecchia, 2007, vol. 2, p. 28). Com fundamento no texto acima, assinale o que for correto.

01. Não havia na sofística qualquer alusão à lógica e ao estudo da argumentação, restando apenas lugar à retórica, voltada à noção de argumento correto no contexto dos intensos debates públicos das assembleias democráticas.

02. A preocupação com o uso da palavra ocorre no contexto da pólis grega, em que isegoria e participação política contrapunham o discurso mitológico ao discurso político. Neste prevaleciam a sagacidade, a discussão e a argumentação.

04. O “ensino sobre os termos” era voltado ao desenvolvimento da argumentação, da habilidade retórica e da análise de doutrinas divergentes ou antilogias. Insuficiências nesse aprendizado eram prejudiciais aos negócios públicos e privados.

08. Ao cobrarem pelo ensino de conceitos e de estratégias para estabelecer as teses pretendidas, os sofistas contribuíram para valorizar o saber, inaugurando uma forma de magistério que despertou a admiração de filósofos como Platão e Aristóteles.

16. O apreço dos sofistas pelos discursos duplos (dissoilogoi) demonstra certa tendência antidogmática, o que teria levado esses autores, filósofos e pensadores, à formulação de concepções flexíveis sobre o gênero humano, a sociedade e a realidade.

A02 y Sócrates (470–399 a.C.): Contexto, método e julgamento 17
BRÉHIER, E História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977. E-C-C-E-C

W PLATÃO DE ATENAS (427 a.C. - 437 a.C.): BEM, ALMA E CONHECIMENTO

Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. e seu verdadeiro nome era Arístocles. Platão era um apelido, derivado, de acordo com alguns, de seu vigor físico; ou como outros atestam, da extensão de sua testa (em grego, platôs significa amplitude, largueza).

Platão fazia parte de uma família bastante ligada ao cenário político da Grécia. Sua mãe tinha parentesco com Sólon e seu pai era descendente do rei Codros. Desse modo, desde a juventude, Platão já tinha a política como seu ideal. Seu primeiro contato com Sócrates se deu quando estava com aproximadamente vinte anos, sendo que seu objetivo inicial não era fazer da filosofia a finalidade última de sua vida, mas se preparar melhor para a vida política. É fato que os acontecimentos e o convívio com Sócrates o encaminharam em outra direção e ele dedicou-se, por todo o restante de sua vida, a uma das mais vastas produções filosóficas da história da filosofia.

A atividade literária de Platão abrange mais de cinquenta anos de sua vida: desde a morte de Sócrates até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos – em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal. As obras de Platão são geralmente classificadas em diálogos socráticos, de maturidade e de velhice. Os primeiros são diálogos que defendem a memória de Sócrates e o apresentam discutindo, geralmente, temas morais, sem chegar, porém, a conclusões, ou seja, são os diálogos aporéticos – sem saída – de Sócrates, que são combativos e visam acabar com opiniões inconsistentes, levando o conhecimento verdadeiro às pessoas. Nos diálogos de maturidade, Platão vai afirmando, cada vez mais, a independência de seu pensamento em relação ao de Sócrates. Mas são os diálogos de velhice que apresentam a última formulação do pensamento platônico.

O método platônico

O diálogo, para Platão, não deve permanecer no nível do confronto de consciências, mas precisa tornar-se o embate entre teses. Deve ser um método que suba progressivamente do plano relativo e instável das opiniões (doxa) até a construção de formas mais seguras do conhecimento (episteme), rumo à conquista da verdade. O método proposto por Platão é, em um primeiro momento, uma dialética ascendente, que procura explicar a situação atual do universo e dos seres, não por uma situação anterior, mas por meio de causas intemporais, que expliquem sempre porque cada coisa é o que é. Com isso, Platão está adotando um método explicativo típico da matemática, o método dos geômetras, que consiste basicamente no seguinte: diante de um problema, levanta-se uma hipótese para resolvê-lo; sendo satisfatória, passa-se então a verificar se ela sustenta a si mesma, ou se supõe outra hipótese mais geral, e assim por diante. Cria-se então uma cadeia de hipóteses interdependentes, que buscam uma sustentação última – uma não hipótese – que se baste a si mesma e que sustente todas as demais levantadas anteriormente.

FRENTE FILOSOFIA
PAS 3 18
MÓDULO 03 A
Fonte: <http://1.bp.blogspot.com/>. Acesso em: 15 jan. 2015.
Figura 01 - Busto de Platão. Figura 02 - Recorte da obra A escola de Atenas (15111512) do pintor renascentista Rafael.
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 49 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
Fonte: <http://gnosisbrasil.com/>. Acesso em: 15 jan. 2015.

Vê-se, então, na matemática, um prenúncio para essa dialética platônica, pois ela dá uma ideia do mundo inteligível, já que a geometria nos leva a conceber seres eternos e imutáveis – linha, reta, círculo, figuras idealmente perfeitas – e toda ideia, como veremos na sua teoria das ideias ou formas de Platão, é imutável, perfeita e eterna.

Crítica ao conhecimento sensível

Platão disse certa vez que é próprio de todo ser humano uma espécie singular de pathós, isto é, um sentimento ou disposição para espantar-se frente às coisas. Segundo ele, é dessa admiração fundamental que precederia o impulso da busca pelo conhecimento comum a todos os seres humanos. Essa é a origem do filosofar — diz Platão. Algo chama-nos a atenção e, de imediato, impulsionados pela curiosidade, partimos em busca de explicações e respostas às nossas indagações. Daí o motivo do questionamento sobre o ato de conhecer mostrar-se tão importante e presente ao longo da história da filosofia.

Segundo Platão, permanecer no nível das sensações impede a construção de um conhecimento seguro e estável. De fato, as sensações fornecem apenas evidências momentâneas e individuais e um conhecimento baseado apenas nelas é um conhecimento somente daquilo que aparece a cada pessoa, no momento em que aparece como tal. O conhecimento sensível está no plano da opinião, sendo instável e relativo ao momento e à forma como se percebe determinada coisa. Dessa maneira, não é possível conhecer nada, pois tudo está constantemente mudando.

Sobre o conhecimento

Como em Sócrates, a filosofia de Platão tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Esse fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente por meio da especulação, do conhecimento da ciência. Mas, diferentemente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual ao campo antropológico e moral, Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda realidade.

Esse caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, é tornado especialmente vivo, angustioso pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas, em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto e a paixão contrasta com a razão. Assim, para Platão, o espírito humano é peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível.

A diferença essencial entre o conhecimento sensível e o intelectual, universal, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente ao conhecimento diverso e cair no erro sem o saber, ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso errôneo. Poder-se-ia também dizer

que o primeiro sabe que as coisas estão assim, sem saber porque o estão, ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão, precisamente porque é ciência, isto é, conhecimento das coisas pelas causas.

Tipos de conhecimento

Se, segundo Aristóteles, todo ser humano tende ao conhecimento, resta-nos, antes de mais nada, saber quais tipos e formas de conhecimento existentes, não é mesmo?

Imagine a seguinte situação: dois carros colidem em uma autoestrada sem vítimas fatais e três testemunhas presenciam o acontecimento. Teremos o mesmo relato? Provavelmente não. As diferenças serão relatadas de acordo com a ótica de cada uma das testemunhas. Essa ótica é, de certo modo, determinada pela familiaridade com determinado tipo de conhecimento.

Vejamos: se a testemunha X for uma pessoa religiosa, o relato do acidente será recheado de explicações de como as forças invisíveis operaram a favor dos envolvidos.

Já um físico tenderia a observar com os olhos de um cientista, cheio de demonstrações e atenção ao que chama de “fatos”.

E, por fim, uma dona de casa, sem muito estudo e moradora local que já viu muitos acidentes como este na porta de sua casa. Nesse caso, você concorda que o relato dessa senhora seria um resultado direto de suas experiências anteriores?

Pois então. Existem muitos tipos de conhecer, cada um com suas particularidades e limitações. Dentre eles: o conhecimento vulgar, o racional e o religioso. Conhecimento e poder

“Porque o próprio saber é poder” (Francis Bacon, Religious Meditations).

Essa sentença do filósofo inglês Francis Bacon é difícil de ser refutada, não é mesmo? Se pararmos um pouco para olhar atentamente a história da Humanidade, veremos, em quase todas as civilizações, a busca incansável das classes dominantes em instruir-se ao mesmo tempo que procuram dificultar ou mesmo tornar criminoso o acesso das massas populares ao conhecimento. Foi assim no Egito, onde a família real e uns poucos privilegiados detinham todo o saber à custa da submissão de seu povo. Foi assim na China Comunista, onde o próprio acesso à informação era limitado por uma censura do Estado como forma de manutenção de poucos indivíduos no poder. Que não nos esqueçamos da nossa própria história recente... Após o Golpe de 64, uma das primeiras ações dos militares foi a de abolir as disciplinas de Filosofia e Sociologia dos currículos escolares e, em grande parte, perseguir os profissionais que se ocupavam de seu ensino, bem como os jovens estudantes que protestavam contra o regime.

Isso tudo por quê? Simples: conhecimento e poder sempre mantiveram uma relação estreita. Quem conhece, estu-

A03 y Platão de Atenas (427 a.C. - 437 a.C.): Bem, alma e conhecimento 19

da e desenvolve argumentos está sempre pronto a questionar. O conhecimento que está a favor das elites revela-se perigoso aos seus interesses, pois constitui um importante fator de desalienação

SAIBA MAIS

W Desalienação

Conceito de raízes marxistas; significa o processo de tomada de consciência, por parte da classe dominada, no que diz respeito ao seu verdadeiro lugar no processo produtivo e das formas de exploração às quais se encontra submetida.

Conhecimento formal x informal

W O status do conhecimento no mundo moderno

Nem sempre o conhecimento foi entendido como o resultado de uma prática ou metodologias formais de ensino-aprendizagem. A boa e velha história pode-nos ajudar uma vez mais nessa questão, confirmando que a própria ideia de Escola e a noção de “curriculum” são invenções tardias no que diz respeito à própria produção do conhecimento pelo homem. Seja como for, um conhecimento aprendido em uma Instituição de Ensino é premiado com a famosa certificação. Um diploma ou certificado é muito mais que um papel com letras e assinaturas; trata-se de um reconhecimento social de que o indivíduo domina uma série de saberes e técnicas. Essa é a principal característica de um conhecimento formal. O seu exercício encontra-se circunscrito nos limites das Instituições autorizadas a ensiná-lo.

No entanto, vemos um grande número de pessoas que fazem coisas impressionantes: um pedreiro que, apesar de não ter tido aulas de engenharia, conhece melhor do que o responsável-técnico a resistência de determinado material utilizado na obra em que trabalha, não é? Ele não tem diploma ou mesmo passou por uma escola que o capacitasse. Mas é possuidor de um conhecimento informal, adquirido pela observação das ações de um colega mais experiente na função ou mesmo pelo famoso método de tentativa e erro.

Se não podemos, com absoluta convicção, afirmar qual dos tipos de conhecimento é o melhor, sabemos que, em uma sociedade moderna, há uma sobrevalorização daquele adquirido pelos meios formais. Fato simples de se observar: basta comparar os salários do nosso pedreiro autodidata e do engenheiro responsável pela obra usados no exemplo anterior.

E mesmo com o surgimento de novas áreas do conhecimento e com o rápido avanço das transformações causadas pela tecnologia em nossos dias, a valorização dos saberes práticos e informais ainda é bastante incipiente se compa-

rarmos com a exigência cada vez maior por uma formação certificada e formal. Ter um diploma aumentam as chances de conseguirmos um emprego melhor e passarmos à frente de muitos candidatos. Além disso, o mercado valoriza cada vez mais o empregado que está sempre se atualizando e buscando novos conhecimentos.

A teoria das ideias

Como principal consequência da utilização do método dos geômetras, Platão propõe que se afirme hipoteticamente a existência de formas ou essências, ou ideias, que seriam modelos eternos das coisas sensíveis. Essas essências seriam incorpóreas e imutáveis, existindo em si mesmas. Embora Platão as chame também de ideias, elas não existem na mente humana, como conceitos ou representações mentais, nem nos objetos – de que são modelos, nem nos sujeitos – que conhecem esses sujeitos. Cada coisa corpórea e mutável seria o que ela é – uma cadeira, por exemplo – porque participa da essência que lhe serve de modelo – a cadeira em si, a essência ou a ideia de cadeira. Uma cadeira que vemos ou tocamos pode ser de metal ou madeira, de várias cores ou modelos. Ela muda, envelhece e é destruída com o tempo, mas a essência de cadeira permanece sempre a mesma, fora do tempo e do espaço, é sempre única. Não podemos apreender com os sentidos essa essência ou ideia incorpórea e intemporal, pois nossos sentidos só captam o material, dotado de alguma concretude, que está situado no espaço e no tempo. Só podemos alcançá-la pelo intelecto.

Alma e reminiscência

Como o homem – ser concreto que existe no tempo e no espaço – pode conhecer as essências incorpóreas e intemporais? Essa possibilidade depende de outra hipótese: é preciso supor que ele possua algo incorpóreo e indestrutível, algo de natureza semelhante à das ideias. É necessário supor que ele abriga em seu corpo uma alma, também pura forma imortal. Essa alma já teria contemplado as essências antes de se prender ao corpo ao qual provisoriamente está vinculada. Unida ao corpo, alojada a ele como em uma prisão, ela esquece daquele conhecimento anterior. Mas os sentidos apreendem objetos que são cópias imperfeitas daquelas essências que a alma contemplara e isso permite que ela vá lembrando das ideias. Assim, o conhecimento é, na verdade, reconhecimento, reminiscência, retorno.

A ideia de bem

A adoção do método dos geômetras faz da filosofia, inicialmente, um jogo de hipóteses. Se até o final o conhecimento permanecer com esse jogo, ele permanecerá no âmbito do provável, do possível, do hipotético, não chegando à certeza. Desse modo, a escalada do conhecimento resultará na garantia da verdade se, no final, depois de percorrer todas as hipóteses, levar ao absoluto, ao necessário, ao não hipotético. Platão considera que, usando o conhecimento dialético, o filósofo pode atingir as essências eternas. E, seguindo as articulações

Filosofia 20 | PAS 3

que ligam as essências, vai conquistando essências cada vez mais gerais, até que por fim, contempla aquele absoluto, uma superessência. Na República, Platão o denomina de Bem. Ele seria a fonte de toda a luz, fazendo com que os objetos possam ser conhecidos e que nós possamos conhecê-los.

A política: aristocracia de filósofos

Para Platão, o modelo político presente em sua cidade naquele momento não representava as melhores possibilidades para um governo em nome da Justiça e do Bem. É importante, agora, que entendamos o que o faz pensar assim. A base para tal crítica nós já construímos: o ser humano é composto de corpo e alma, e esta última, antes de ser aprisionada para a experiência sensível, esteve no plano inteligível, contemplando diretamente as formas perfeitas. A questão é que as almas tiveram, ao longo das suas existências, experiências muito distintas, o que fez com que escolhessem, para a vida em que se encontram, projetos também muito diferentes. Foi isso que fez com que umas optassem por uma vida mergulhada na satisfação pelos bens materiais, enquanto outras escolheram uma existência mais contemplativa, de reflexão, dedicada à filosofia.

Em seu famoso dialógo O Banquete, Platão nos apresenta uma alma que seria dividida em três partes: racional, emocional e apetitiva, sendo que esta última é justamente aquela que mais se compraz com a satisfação das necessidades do corpo. Para ele, uma alma equilibrada possui uma parte racional que reina absoluta sobre as outras duas, controlando-as de perto. A cidade ideal também seria assim. Nela, aqueles que possuem a parte racional da alma mais proeminente (almas de ouro) e que, por isso mesmo, optaram por uma vida menos afeita ao material e mais dedicada à contemplação, deveriam ser os governantes da pólis, os filósofos. Representando as emoções, porque lutam por amor à cidade, e porque tem na coragem a característica fundamental, estariam os militares, comandados pela elite de magistrados. No lugar da parte apetitiva, exatamente porque a têm mais acentuada em sua alma, estariam os grupos que se dedicariam a cuidar da manutenção material da cidade, os agricultores, pastores e artesãos, comerciantes. Em tal formação, os mais capazes estariam na posição de comando e ordenariam a cidade sempre na direção do Bem. Em uma democracia, como a que existia, os filósofos, sendo minoria, seriam sempre vencidos nas votações pelos demagogos e pelos insensatos e as decisões ficariam sempre nas mãos dos menos capacitados, o que representaria prejuízo para o coletivo.

A alegoria da caverna

Trata-se de um trecho do Livro VII da República, de Platão. As falas na primeira pessoa são de Sócrates e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão.

– Depois disso, continuei, comparando nossa natureza, conforme seja ou não educada, com a seguinte situação: imagina homens de morada subterrânea em forma de caverna, provida de uma única entrada com vista para uma luz em toda sua largura. Encontram-se nesse lugar, desde pequenos,

pernas e pescoço amarradas com cadeias, de forma que são forçados a ali permanecer e a olhar apenas para frente, impossibilitados, como se acham, pelas cadeias, de virar a cabeça. A luz de um fogo aceso, a grande distância brilha no alto e por trás deles; entre os prisioneiros e o foco de luz há um caminho que passa por cima, ao longo do qual imagina agora um murozinho, à maneira do tabique que os politiqueiros levantam entre eles e o público e por cima do qual executam suas habilidades.

– Figuro tudo isso, respondeu.

– Observa, então, ao comprido desse murozinho homens a carregar toda a sorte de utensílios que ultrapassa a altura do muro, e também estátuas e figuras de animais, de pedra ou de madeira, bem como objetos da mais variada espécie. Como é natural, desses carregadores uns conversam e outros se mantêm calados.

– Imagens muito estranhas, disse, como também os prisioneiros de que falas.

– Parecem-se conosco, respondi. Para começar, achas mesmo que em semelhante situação poderiam ver deles próprios e dos vizinhos alguma coisa além da sombra projetada pelo fogo, na parede da caverna que lhes fica em frente?

– De que jeito, perguntou, se a vida inteira não conseguem mexer a cabeça?

– E com relação aos objetos transportados, não acontecerá a mesma coisa?

– Como não?

– Logo, se fossem capazes de conversar, não acreditas que pensariam estar designando pelo nome certo tudo o que veem?

– Necessariamente.

– E se no fundo da prisão se fizesse ouvir um eco? Sempre que se falasse alguma coisa das estátuas, não achas que eles só poderiam atribuir a voz às sombras em desfile?

– Sim, por Zeus! exclamou.

– De qualquer forma, continuei, para semelhante gente a verdade consistiria apenas na sombra dos objetos fabricados.

– É mais do que certo, respondeu.

– Considera agora, lhe disse, quais seriam as consequências da libertação desses homens depois de curados de suas cadeias e imaginações, se as coisas se passassem do seguinte modo: vindo a ser um deles libertado e obrigado imediatamente a levantar-se, a virar o pescoço, andar e olhar na direção da luz, não apenas tudo isso lhe causaria dor, como também o deslumbramento o impediria de ver os objetos cujas sombras até então ele enxergava. Como achas que responderia a quem afirmasse que tudo o que ele vira até ali não passava de brinquedo e que somente agora, por estar mais próximo da realidade e ter o rosto voltado para o que é mais real é que ele via com maior exatidão; e também se o interlocutor lhe mostrasse os objetos, à medida que fossem desfilando e o obrigasse, à custa de perguntas a designá-

A03 y Platão de Atenas (427 a.C. - 437 a.C.): Bem, alma e conhecimento 21

los pelos nomes? Não te parece que ficaria atrapalhado e imaginaria ser mais verdadeiro tudo o que ele vira até então do que como naquele instante lhe mostravam?

– Muito mais verdadeiro, respondeu.

– E no caso de o forçarem a olhar para a luz, não sentiria dor nos olhos e não correria para junto das coisas que lhe era possível contemplar, certo de serem todas elas mais claras do que as que lhe então apresentavam?

– Isso mesmo, disse.

– E agora, perguntei: se o arrastassem à força pela rampa rude e empinada e não o largassem enquanto não houvessem alcançado a luz do sol não te parece que sofreria bastante e se revoltaria por ver-se tratado daquele modo? E depois de estar no claro, não ficaria com a vista ofuscada sem enxergar nada do que lhe fosse então indicado como verdadeiro?

– De fato, respondeu; pelo menos no começo.

– Precisaria, creio, habituar-se para poder contemplar o mundo superior. De início, perceberia mais facilmente as sombras; ao depois as imagens e dos outros objetos refletidos na água; por último os objetos, no rasto deles, o que se encontra no céu e o próprio céu, porém sempre enxergando, com mais facilidade, durante a noite, à luz da lua e das estrelas, do que de dia ao Sol com todo o seu fulgor.

– Não há dúvida.

– Finalmente, segundo penso, também o Sol, não na água ou sua imagem refletida em qualquer parte, mas no lugar certo, que ele poderia ver e contemplar tal como é mesmo.

– Necessariamente, disse.

– De raciocínio em raciocínio, chegaria à conclusão de que o Sol é que produz as estações e tudo dirige no espaço visível, e que, de alguma modo, é a causa do que ele e seus companheiros estavam habituados a distinguir.

– É evidente, respondeu, que depois de tudo, ele concluiria dessa maneira.

– E então? Quando se lembrasse de sua primitiva morada, da sabedoria lá reinante e dos companheiros de prisão: não te parece que se felicitaria pela mudança e lastimaria a sorte deles todos?

– Sem dúvida.

– E as honrarias e os elogios entre eles mesmos, os prêmios para quem percebesse com mais nitidez as imagens em desfile e se lembrasse com exatidão do que costumava aparecer em primeiro lugar ou por último, ou concomitantemente, e que por isso, ficasse em condições de prever o que iria dar-se: acredita-se que semelhante indivíduo do outro tempo ou invejasse os que entre eles fossem alvo de distinções ou fizessem parte do governo? Ou com ele se passaria aquilo de Homero: pois preferira viver empregado em trabalhos do campo, sob um senhor sem recursos e vir a sofrer seja o que for a voltar para semelhantes ilusões e viver a antiga vida?

– É também o que penso, respondeu; aguentaria tudo para não voltar a viver daquele jeito.

– Considera também o seguinte, lhe falei: se esse indivíduo baixasse de novo para ir sentar-se ao seu antigo lugar, não ficaria com os olhos obnubliados pelas trevas por vir da luz do Sol assim tão de repente?

– Sem dúvida, respondeu.

– E se tivesse de competir outra vez a respeito das sombras com aqueles eternos prisioneiros quando ainda se ressentisse da fraqueza da vista, por não se ter habituado com o escuro – o que não exigiria pouco tempo – não se tornaria objeto de galhofa dos outros e não diriam estes que o passeio lá por cima lhe estragara a vista e que não valia a pena sequer tentar aquela subida? E se por ventura ele procurasse libertá-los e conduzi-los para cima, caso fosse possível aos outros fazer uso das mãos e matá-lo, não lhe tiraria a vida?

– Com toda certeza, respondeu.

– Agora, meu caro Glauco, precisarás essa alegoria a tudo que expusemos antes, para compartilhar, para comparar o mundo percebido pela visão com o domicílio carcerário, e a luz do fogo que nele esplende com a energia do Sol. Quanto à subida para o mundo superior e à contemplação do que lá existe se vires nisto a ascensão da alma para a região inteligível, não te terás desviado das minhas esperanças, já que tanto ambicionas conhecê-las. Só Deus sabe se está de acordo com a verdade. O que vejo, pelo menos, é o seguinte: no limite extremo da região do cognoscível está a ideia do bem, dificilmente perceptível, mas que, uma vez apreendida, impõe-nos de pronto a conclusão de que é a causa de tudo o que é belo e direito, a geratriz, no mundo visível, da luz e do senhor da luz, como no mundo inteligível é dominadora, fonte imediata da verdade e da inteligência, que precisará ser contemplada por quem quiser agir com sabedoria, tanto na vida pública como na particular.

– Concordo com tua maneira de pensar, me disse, até onde consigo acompanhar.

(PLATÃO, 1988, p. 281-284)

Filosofia 22 | PAS 3
Mundo das Ideias Ideias Prisioneiros Palavras, imagens Sombras de objetos artificiais com diferentes graus de semelhança. Opinião Sensações Saber Conceitos Sombra das coisas naturais Objetos Artificiais Fogo Sol Ideia de Bem Carlos Fontes

Breve explicação da alegoria da caverna

O que é a caverna? O mundo em que vivemos. O que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. O que é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do Sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das ideias ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A filosofia. Por que os prisioneiros zombam e, se pudessem, matariam o filósofo (aqui Platão se refere à condenação de Sócrates à morte pela assembleia ateniense)? Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.

Após essa breve explanação de alguns pontos referentes à Alegoria da Caverna, passaremos à análise dos seus dois aspectos mais importantes, o epistemológico (referente ao conhecimento) e o político (relativo ao poder).

Na dimensão epistemológica, percebe-se a distinção das duas principais formas de conhecimento enunciadas por Platão na sua Teoria das Ideias: doxa ou opinião, referente ao mundo sensível, dos fenômenos, e a episteme, referente ao mundo inteligível das ideias.

O mundo sensível, acessível aos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, e é ilusório, pura sombra do verdadeiro mundo. Assim, mesmo se percebemos inúmeras abelhas dos mais variados tipos, a ideia de abelha deve permanecer imutável, deve ser una, consistindo, assim, na verdadeira realidade. Com isso, Platão se aproxima do instrumental teórico de Parmênides.

Do seu mestre aproveita a noção de logos , e continuando o processo de compreensão do real, cria a palavra ideia ( eidos ), para referir-se à intuição intelectual, distinta da intuição sensível.

Portanto, acima do ilusório mundo sensível, há o mundo das ideias gerais, das essências imutáveis que o homem atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos.

Sendo as ideias a única verdade, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que participa do mundo das ideias do qual é apenas sombra ou cópia. Por exemplo, um cavalo só é um cavalo enquanto participa da ideia de “cavalo em si”.

Se lembrarmos do que foi dito, a respeito dos Pré-socráticos, podemos verificar que Platão tenta superar a oposição do pensamento de Heráclito (que afirma a eterna mutabilidade do ser) com a posição de Parmênides (que afirma a imobilidade do ser). Para Platão, a mutabilidade do ser da teoria do primeiro refere-se ao mundo sensível (da doxa), e a imutabilidade do ser da teoria do segundo refere-se ao mundo inteligível, ou mundo das ideias.

A questão política, que também pode ser trabalhada na “Alegoria da Caverna”, permite ao aluno pensar sobre o seu mundo por meio da analogia do homem que sai da caverna, vê o mundo como ele realmente é e retorna para tentar mostrar aos outros o que é a realidade. Contudo, se estes pudessem, o matariam. Nessa passagem do VII livro da República,

Platão se refere a Sócrates que conheceu a realidade e tentou abrir os olhos dos atenienses. Pergunta-se então: por que os governantes de Atenas fizeram de tudo para condenar e matar Sócrates, acusando-o de ser o corruptor da mocidade?

É simples, porque Sócrates estava fazendo uma revolução, mostrando aos atenienses que aquilo que julgavam conhecer estava errado, sendo que, com isso, ele demonstrou que inclusive o conceito de virtude – que todos julgavam que os governantes possuíam, e por isso tinham direito de comandar a polis – estava errado. Então, por que aquele que descobre que não é virtuoso está no poder? Sócrates estava mostrando que todos os conhecimentos e costumes que a sociedade de Atenas tinha – e mantinha os governantes no poder – estavam errados, e isso era prejudicial aos que detinham o poder. Por isso, era necessário calar Sócrates. Outra analogia possível é a de que Sócrates fosse a “esquerda” e os governantes de Atenas a “direita”; a primeira diz que o governo da “direita” está errado e mostra o porquê e, por isso, são tachados de comunistas, alienados, loucos, anarquistas e muito mais. Esses são conceitos que não havia na época, mas que representam a situação atualizada do acontecido. Daí vê-se o porquê do empenho em continuar com os cursos técnicos e da crítica aos ditos cursos de humanas. Os primeiros formam profissionais e os outros intelectuais, sendo estes últimos nada mais do que problemas para o sistema posto pelos governantes.

A sociedade deve ser constituída de homens iguais, sendo que, por meio do voto; escolhem-se alguns para serem não governantes, mas representantes, ou seja, o povo paga alguém para que tome conta do que é público. Dessa forma, o “governante” não é nada mais que um empregado do povo, que não está conseguindo cumprir a sua função, pois as sociedades – cidades, Estados, países – estão um caos.

E aí proponho a seguinte questão: em uma empresa privada, um empregado descontente com seu salário pode aumentá-lo? A resposta é NÃO. Então por que o empregado do povo pode? Por que se encontra tantas dificuldades para demitir esse empregado quando ele não cumpre seu papel? Por que contratamos alguém para tomar conta de tudo que é público e encontram-se estradas esburacadas, sem sinalização, não há atendimento médico, dentre outras coisas e, mesmo assim, não se consegue demiti-lo? É pelo fato de que a minoria da população não pensa assim, ou não tem consciência desses fatores, imaginam que são governados e os governantes têm o poder e, por isso, nada se pode fazer.

Todas essas reflexões parecem estar distantes do que é exposto por Platão na “Alegoria da Caverna”, mas não está, pois Sócrates morreu para que não abrisse a mente dos atenienses para fatores como esses. Apresento o seguinte exemplo no intuito de esclarecer melhor ainda a relação feita acima. Se, para os atenienses, o que dá direito ao governo é o fato de um homem ser virtuoso e Sócrates mostra que o que eles tinham como virtude está errado, o povo de Atenas poderia se perguntar: por que ele está no poder? Eu o considerava virtuoso, porém, vi que o que considerava virtude está errado, então ele não é mais virtuoso e por isso deve deixar o poder. É claro que as coisas não aconteciam de forma tão simples, mas o raciocínio é correto e caso viesse a ser colocado, poderia acabar com a forma de governo posta no momento.

A03 y Platão de Atenas (427 a.C. - 437 a.C.): Bem, alma e conhecimento 23

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (UFU MG) Considere o seguinte trecho

“No diálogo Mênon, Platão faz Sócrates sustentar que a virtude não pode ser ensinada, consistindo-se em algo que trazemos conosco desde o nascimento, defendendo uma concepção, segundo a qual temos em nós um conhecimento inato que se encontra obscurecido desde que a alma encarnou-se no corpo. O papel da filosofia é fazer-nos recordar deste conhecimento”

MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000. p. 31.

Nesse trecho, o autor descreve o que ficou conhecido como

a) a teoria das ideias de Platão.

b) a doutrina da reminiscência de Platão.

c) a ironia socrática.

d) a dialética platônica.

02. (Uem PR) No diálogo Teeteto, de Platão, lê-se a seguinte afirmação de Sócrates: “estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, pois a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia.”

(PLATÃO, Teeteto. Belém: Editora da Universidade Federal do Pará, 1988, p. 20).

A respeito da noção de admiração na filosofia platônica, assinale o que for correto.

01. A admiração está presente no exercício filosófico de Platão sob um duplo ponto de vista: o filósofo é aquele que não sabe e se põe a caminho do saber.

02. A admiração pertence ao regime mítico, e não propriamente ao filosófico, pois o homem se maravilha com o poder sobrenatural dos deuses.

04. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão está na dúvida, e não na admiração.

08. É próprio do saber filosófico de Platão o seu aspecto teorético, explicitado como um olhar aberto à realidade.

16. Para Platão, o filósofo é aquele que tem a capacidade de amar a sabedoria, e não a capacidade de admirar-se.

03. No livro VI da obra A república (488a ss.), Platão compara a democracia a um navio no qual todos os marinheiros desejam pilotar sem, no entanto, possuir conhecimento algum da arte de navegar. Entrementes, o verdadeiro piloto - “que precisa se preocupar com o ano, as estações, o céu, os astros, os ventos e tudo o que diz respeito à sua arte, se quer de fato ser comandante do navio, a fim de o governar, quer alguns o queiram quer não” - é compreendido como um inútil.

Para Platão, essa metáfora refere-se

a) às relações das cidades com os verdadeiros filósofos.

b) à primazia da monarquia sobre as outras formas de governo.

c) ao caráter universal do conhecimento prático.

d) à evidente sabedoria do governo tirânico.

04. (Uem PR) Platão descreve, na obra A República, as condições de uma cidade justa e os passos necessários para se alcançar uma educação filosófica na busca do bem, assentada em quatro etapas:

1) na percepção das próprias coisas, campo da confiança naquilo que captamos pelos sentidos (nível da opinião);

2) na redução das coisas do mundo às hipóteses matemáticas (nível da inteligência e do conhecimento);

3) na transição para o mundo inteligível (nível em que se reconhecem as próprias formas);

4) na captação da forma do bem (nível em que se encontra a forma reguladora máxima do nosso conhecimento).

A respeito da noção de educação e da teoria do conhecimento em Platão, assinale o que for correto. C C E C E

01. Esse procedimento que leva ao bem é chamado de método dialético.

02. A alegoria da caverna é uma metáfora que explicita o procedimento dialético para Platão.

04. Platão valoriza as aparências e os prazeres na busca da verdade e do bem.

08. As entidades matemáticas são sombras das formas e só podem ser compreendidas quando contrastadas com elas.

16. A atitude da crença deve ser entendida como algo falso no domínio do conhecimento.

05. (UEG GO) O surgimento da filosofia entre os gregos (Séc. VII a.C.) é marcado por um crescente processo de racionalização da vida na cidade, em que o ser humano abandona a verdade revelada pela codificação mítica e passa a exigir uma explicação racional para a compreensão do mundo humano e do mundo natural.

Dentre os legados da filosofia grega para o Ocidente, destaca-se

a) a concepção política expressa em A República, de Platão, segundo a qual os mais fortes devem governar sob um regime político oligárquico.

b) a criação de instituições universitárias como a Academia, de Platão, e o Liceu, de Aristóteles.

c) a filosofia, tal como surgiu na Grécia, deixou-nos como legado a recusa de uma fé inabalável na razão humana e a crença de que sempre devemos acreditar nos sentimentos.

d) a recusa em apresentar explicações preestabelecidas mediante a exigência de que, para cada fato, ação ou discurso, seja encontrado um fundamento racional.

06. Em A República, Livro X, Platão, ao considerar a relação entre arte, mímese e verdade, afirma que

a) a verdade na arte depende da natureza do objeto imitado.

b) a arte de imitar está bem longe de produzir a verdade.

c) o artista que imita a realidade produz o belo e revela a verdade.

d) a arte é verdade por ser imitação que tem inspiração nas musas.

07. (Enem MEC) Os andróginos tentaram escalar o céu para combater os deuses. No entanto, os deuses em um primeiro momento pensam em matá-los de forma sumária. Depois decidem puni-los da forma mais cruel: dividem-nos em dois. Por exemplo, é como se pegássemos um ovo cozido e, com uma linha, dividíssemos ao meio. Desta forma, até hoje as metades separadas buscam reunir-se. Cada um com saudade de sua metade, tenta juntar-se novamente a ela, abraçando-se, enlaçando-se um ao outro, desejando formar um único ser.

PLATÃO. O banquete. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

No trecho da obra O banquete, Platão explicita, por meio de uma alegoria, o

a) bem supremo como fim do homem.

b) prazer perene como fundamento da felicidade.

c) ideal inteligível como transcendência desejada.

d) amor como falta constituinte do ser humano.

e) autoconhecimento como caminho da verdade.

Filosofia 24 | PAS 3
C-E-E-C-E

W ARISTÓTELES: METAFÍSICA, LÓGICA, ÉTICA E FILOSOFIA HELENÍSTICA

Se, para Sócrates e Platão, filósofos atenienses, a ideia é anterior e até mesmo independente dos objetos concretos, para Aristóteles (384 a.C.– 322 a.C.) ela é o resultado da observação dos próprios seres humanos.

A solução aristotélica é brilhante: não vivemos em um mundo que aponta constantemente para fora de si, diz o filósofo, e sim em uma única realidade que é composta pelo conjunto de forma e matéria. Com isso, Aristóteles realiza uma espécie de unificação dos dois mundos platônicos, cabendo à filosofia não mais a tarefa de libertar os seres humanos das correntes da ignorância e do erro oriundo dos sentidos, mas o papel de diferenciar aquilo que é essencial do que é acidental nas coisas.

Mas o que Aristóteles entende por matéria e forma? Em sua obra A Metafísica ele define esses conceitos de diversas formas diferentes. Em linhas gerais, identifica a forma com a própria ideia de uma coisa, a representação de sua figura ideal. Em contrapartida, a matéria revela-se como um elemento fundamental, mas ainda em estado bruto, à espera de algo que justifique a sua existência. Ao conjunto de matéria e forma, Aristóteles deu o nome de substância

Um bom exemplo para tornar clara essa distinção é o da estátua de bronze dado pelo próprio filósofo. Para Aristóteles, o bronze seria a matéria, enquanto a figura ideal, a forma. A estátua realizada representaria o conjunto de matéria e forma, ou seja, a própria

substância da estátua.

Essa postura de um realismo mais empírico defendido por Aristóteles é tema de frequentes comparações entre o filósofo e seus antecessores, que foram muito bem retratadas em uma das maiores obras de Rafael.

Essa postura de um realismo mais empírico defendido por Aristóteles é tema de freentre maiores

FRENTE FILOSOFIA
PAS 3
MÓDULO 04 A
TREINAMENTO
PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 14-15
Figura 01 - Escola de Atenas (Scuola di Atenas:1509/1510) é uma das mais famosas obras do pintor Rafael. Em meio a dezenas de pensadores, o renascentista italiano optou por pintar Platão e Aristóteles bem ao centro. Podemos notar que Platão, mais velho, aponta o seu indicador para o alto, enquanto Aristóteles parece querer trazê-lo a uma posição mais intermediária.
PAS

Esse entrelaçamento entre essência e substância presente em todas as coisas permitiu ainda que Aristóteles justificasse outra questão bastante polêmica entre os filósofos gregos: a problemática do movimento. Como é possível o movimento? — perguntou Aristóteles. Seu professor, apesar de ter se esforçado bastante, nunca havia conseguido uma explicação filosófica aceitável para essa questão. Portanto, Aristóteles partiu em busca da ideia de função, chegando, por fim, à Teoria das Quatro Causas Assim, no pensamento aristotélico, tudo o que existe, por tender à perfeição, possui quatro causas, a saber:

x A Causa FORMAL.

x A Causa MATERIAL.

x A Causa EFICIENTE.

x A Causa FINAL.

Bem, a ideia na mente do artista seria, para Aristóteles, identificada com a causa formal. O material empregado (no caso, o bronze) seria a causa material. A causa eficiente compreenderia a própria ação das mãos e dos instrumentos utilizados para moldar e esculpir a obra de arte, enquanto a intenção do artista em utilizar a estátua em um templo seria a causa final.

Como ficou claro, as coisas não estão mais em uma relação entre cópia e modelo, como defendia Platão. Não se faz mais necessária a referência de essências imutáveis extramundanas, juntamente com a sua impossibilidade de mudança. Para Aristóteles, esse processo revela-se fruto da inseparável relação entre forma e matéria cuja atualização das essências nada mais é do que o resultado da passagem daquilo que é potencial para algo que agora encontramos em ato.

No exemplo que utilizamos, a peça de bronze seria uma estátua em potência enquanto ainda não sofreu as transformações impostas pelas mãos do escultor. Uma vez terminada a obra de arte, tudo o que já estava latente na matéria-prima torna-se realizado sob a forma de estátua. Essa explicação dada por Aristóteles é bastante abrangente e, assim, uma semente seria potencialmente uma árvore, do mesmo modo que uma criança seria a promessa de adulto no futuro. Com maiores detalhes, a Teoria de Aristóteles das Quatro Causas será estudada no próximo módulo.

A Metafísica Aristotélica

O primeiro campo que estudaremos de Aristóteles é a Metafísica, que foi denominada por ele de filosofia primeira e consistiria basicamente no estudo do ser e das suas causas. Ao estudar tais temas, no entanto, nosso pensador se afasta do idealismo platônico, adotando uma posição que denominaremos de empirista, ou realista. O realismo aristotélico

representa, na Grécia antiga, ao lado das filosofias de Sócrates e Platão, outra tentativa de superação da oposição dos pensamentos de Parmênides e Heráclito. O primeiro negava a realidade do movimento e da mudança, enquanto o segundo via o Ser, sobretudo, como o vir-a-ser, afirmando que toda permanência e estabilidade resultam do equilíbrio entre os polos opostos.

Defendendo a possibilidade de uma ciência sobre o real e concreto, Aristóteles afirma que é possível conhecer o que é o real concreto e mutável por meio de definições e conceitos que permanecem inalterados. Basta que, para isso, seja estabelecido previamente o que importa ser conhecido acerca do Ser, distinguindo-o daquilo que pode ser deixado de lado por ser meramente ocasional, factual ou acidental. Considera o universo como um todo ordenado segundo leis constantes e imutáveis. Essa ordem imutável e eterna rege não apenas os fenômenos da natureza, como também os de ordem política, moral ou estética. Antecedendo, como fundamento, as diversas ciências que se interessam por determinados aspectos do ser, existe uma ciência “primeira”, a Sabedoria (depois designada como Metafísica) que estuda o Ser e procura enunciar essa ordem subjacente que torna inatingíveis todos os fenômenos.

Dessa forma, a Filosofia de Aristóteles representa um grande esforço para solucionar o problema do Ser e da ciência. Em face disso, ele tem que dar a tríplice resposta: a Parmênides, a Heráclito e a Platão.

Com relação ao primeiro, Aristóteles rompe a realidade compacta, estática, imóvel e indiferenciada do Ser parmenídeo, mediante as noções de per se e per accidens, assim como as de ato e potência. Desse modo, afirmamos todo ser como composto de uma essência, conjunto de atributos imutáveis, que definem o que o ser é, e de acidentes, características mutáveis do ser, sem que essa modificação interfira na essência. Podemos, por exemplo, afirmar que a essência do ser humano é composta de sua mortalidade, de sua animalidade e de sua racionalidade, enquanto o fato de ser mais alto ou mais baixo, mais gordo ou mais magro, ter olhos claros ou escuros, seriam atributos acidentais. Assim, sendo não existe um ser único, mas muitos seres. Cada Ser é uma substância individual concreta que pode ser afetada de muitos modos por múltiplas modificações acidentais. O Ser uno não passa de um conceito abstrato da mente. Ao conceito unívoco de Parmênides opõe o seu conceito analógico: “O ente e o uno dizem-se de muitos modos.”

Com a teoria do ato e da potência, Aristóteles salva o movimento dos seres. Não é o Ser que se move, mas os seres concretos e particulares. Todos os seres, exceto o Primeiro Motor Imóvel, movem-se.

Filosofia 26 | PAS 3

Em resposta a Heráclito, nosso autor recorda que os seres particulares movem-se, mas as essências são imóveis e permanecem por meio de todas as mudanças e mutações.

Por fim, em contraposição a Platão, Aristóteles considera que não existem dois mundos ontologicamente distintos, mas um só. Os universais (substâncias segundas) não têm realidade ontológica, mas lógica. São conceitos formados pela mente mediante abstração. A verdadeira realidade ontológica é constituída pelas substâncias individuais (substâncias primeiras) em suas três grandes definições: terrestres, celestes e divina.

Aristóteles não usa a palavra Metafísica, mas sim Filosofia Primeira. Ele pensa em uma ciência cujo objeto não é nenhuma parte determinada do Ser, como, por exemplo, a medicina ou a matemática, mas o Ser em geral, isto é, o Ser como tal, com o que dele depende: “Há uma ciência que considera o Ser como tal e com tudo o que essencialmente lhe concerne.” A esta ciência, ou seja, à Filosofia Primeira cabe o estudo dos primeiros princípios das primeiras causas de todas as coisas e investiga o “Ser enquanto Ser”.

Ao definir a ontologia ou Metafísica como o estudo do “Ser enquanto Ser”, Aristóteles está dizendo que a Filosofia Primeira estuda as essências sem diferenciar essência física, matemática, astronômica, humana etc., pois cabe às diferentes ciências estudá-las enquanto diferentes entre si. Quanto à Metafísica cabem três estudos:

x Primeiro Motor Imóvel: a realidade primeira e suprema da qual todo restante procura aproximar-se, imitando a sua perfeição imutável. As coisas se transformam, diz Aristóteles, por que desejam encontrar a sua essência total e perfeita, imitável como a essência divina? Pela mudança incessante que buscam imitar o que não muda nunca. Daí, o Primeiro Motor Imóvel do mundo, ou seja, aquilo que sem agir diretamente sobre as coisas, ficando à distância delas, as atrai e é desejado por elas. Tal desejo as faz mudar para um dia não mais mudar. Esse desejo, segundo Aristóteles, explica porque há o devir e porque este é eterno, pois as coisas naturais nunca poderão alcançar o que desejam, isto é, a perfeição imutável. A mudança ou o devir é a maneira pela qual a Natureza, ao seu modo, se aperfeiçoa e busca imitar a perfeição do imutável divino. O Primeiro Motor Imóvel é o princípio que move toda a realidade, e é denominada dessa maneira porque não se move e não é movido por nenhum outro ente, pois, mover significa mudar, sofrer alterações quantitativas e qualitativas, nascer e perecer, e o Primeiro Motor Imóvel é perfeito, não muda nunca.

x Primeiros Princípios e Causas Primeiras: de todos os seres ou essências existentes.

x Propriedades ou Atributos Gerais: de todos os seres, sejam eles quais forem, graças aos quais podemos determinar a essência particular de um Ser particular existente. A essência ou ousia é a realidade primeira e última de um Ser, aquilo sem o qual um Ser não poderá existir ou deixará de ser o que é. À essência entendida sob esta perspectiva universal, Aristóteles dá o nome de substância: o substrato ou suporte permanente de qualidade ou atributos necessários de um Ser. A metafísica estuda a substância em geral.

Aristóteles

Nascido em Estagira, fronteira com a Macedônia, Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C) era filho de um médico, Nicômaco. Aos 18 anos passa a viver em Atenas, onde se iniciam seus estudos na Academia, escola filosófica fundada por Platão. Permaneceu ali por aproximadamente 20 anos, até a morte de seu mestre. Após isso é, convidado por Filipe II, rei da Macedônia, para auxiliar na formação do jovem Alexandre, função que ocupa até a coroação do rapaz. Retorna para Atenas e funda o Liceu, local onde se realizam estudos de Filosofia e de alguns ramos da ciência, como Física e Biologia. Desse autor, estudaremos três campos do conhecimento, quais sejam: a Metafísica, a Lógica e a Ética.

A teoria das Quatro Causas

Aristóteles apresenta a Metafísica, em primeiro lugar, como “busca das causas primeiras”, de forma que deve-

A04 y Aristóteles: metafísica, lógica, ética e filosofia helenística 27
Extraído do site: <htt p://commons.wikimedia.org/>. Acesso em 15 jan 2015.
Figura 02 - Busto de Aristóteles.

mos identificar quais e quantas são essas “causas”. Ele esclareceu que as causas, necessariamente, devem ser finitas quanto ao número e estabeleceu que, no que se refere ao mundo do devir , reduzem-se às seguintes quatro causas, em vista das quais pode-se dizer que um Ser é:

x Causa formal: é aqu ilo que explica a forma que uma essência possui. Ex.: uma estátua de um homem, diferente de uma estátua de um cavalo.

x Causa material: é aquilo de que uma essência é feita, sua matéria. Ex.: o mármore utilizado na confecção de uma estátua.

x Causa eficiente ou motriz: é aquilo que explica como a matéria recebeu uma forma para constituir sua essência, ou seja, refere-se ao agente que produziu diretamente a coisa. Ex.: o escultor que fez a estátua.

x Causa final: é o motivo, a razão ou finalidade para alguma coisa existir e ser tal como ela é. Ex.: o escultor que fez a estátua com a finalidade de exaltar a figura do soldado ateniense. Esta causa é o motivo pelo qual a causa eficiente deu causa formal à causa material.

O Ser é Matéria e forma

Para Aristóteles os entes são compostos de matéria e forma. Logo, não há matéria sem forma, nem forma sem matéria.

W Matéria

A matéria é o elemento de que as coisas da natureza (animais, homens, plantas, artefatos, dentre outras coisas) são feitos. Sua principal característica é possuir virtualidades ou conter em si mesma a possibilidade de transformação, isto é, mudança.

W Forma

A forma é o que individualiza e determina uma matéria, fazendo existir as coisas e seres particulares. Sua principal característica é ser aquilo que uma essência é em um determinado momento, pois a forma é aquilo que atualiza as virtualidades contidas na matéria.

Ato e potência

A matéria tem potencialidades indeterminadas e a forma lhe dá determinações na constituição de um ente em ato.

W O ato

O ato é a atualidade de uma matéria, ou seja, sua forma em um dado instante no tempo. Ato é a forma que atualizou uma potência contida na matéria. Ex.: a árvore é o ato da semente; o adulto é o ato da criança.

W A potência

A potência é o que está contido em uma matéria e pode vir a existir, se for atualizado por alguma causa. Ex.: a criança é um adulto em potência ou em potencial; a semente é a árvore em potência ou em potencial.

Observação: a potência e a matéria são idênticas, assim como a forma e o ato. A matéria ou potência são uma realidade passiva que precisa do ato e da forma, isto é, da atividade que cria os seres indeterminados.

Essência e acidente

W Essência

A essência é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e sua forma, unidade que lhe dá um conjunto de propriedades ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ela é. Assim, por exemplo, um Ser humano é, por essência ou essencialmente, um animal mortal, racional, dotado de vontade, gerado por outros semelhantes a ele, e capaz de gerar outros semelhantes a ele.

W Acidente

O acidente é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter ou deixar de ter sem perder o seu Ser próprio. Por exemplo, um Ser humano é racional e mortal por essência, mas é baixo ou alto, gordo ou magro, negro ou branco, por acidente. A humanidade é a essência (animal, mortal, racional), enquanto o acidente é o que existindo, ou não, nunca afeta o Ser da essência (baixo, alto, gordo, magro, negro, branco). A essência é o universal e o acidente o particular.

O Ser como substância

Por diversas vezes, em sua Metafísica , Aristóteles afirma que o Ser pode ser dito em diferentes sentidos. É, portanto, um conceito analógico. O primeiro desses sentidos, que é o mais fundamental, é o que corresponde mais de perto àquilo que o Ser é em si mesmo, isto é, a substância, ousia . A substância pode, por sua vez, ser simples (Deus) ou composta (os demais seres). A ciência do Ser é, portanto, a ciência do Ser imóvel, substância absolutamente simples (Deus) e, ao mesmo tempo, ciência dos entes compostos, os entes da natureza, que estão em constante movimento. Enquanto ciência do Ser, a Filosofia é uma ciência da substância. A substância é um indivíduo uno em si mesmo e separado dos demais.

A substância significa o que algo é em seu sentido mais completo e forte. Ela é a primeira categoria do Ser, o substrato ou o sujeito que permanece por meio de todas as mutações acidentais, locais, qualitativas e quantitativas. É próprio da substância ser ela mesma o Ser mesmo. Ela é o primeiro

Filosofia 28 | PAS 3

tanto na ordem lógica (como conceito), como na ontológica (como coisa). Existem duas classes de substâncias:

a) Este homem, esta árvore, esta pedra, são substâncias primeiras.

b) O homem, a árvore, a pedra, são substâncias segundas.

Platão Aristóteles

Mundo das ideias ou formas: lugar em que se encontram as verdadeiras formas, universais, eternas, imóveis, ou seja, onde se tem o conhecimento verdadeiro sobre o ser. Por exemplo: a ideia universal e perfeita de homem, a qual me possibilita identificar todo um grupo de seres, como homens.

Mundo sensível: lugar onde se encontram as cópias imperfeitas das formas encontradas no mundo das ideias. É no mundo sensível que encontramos os seres individuais. Por exemplo: são as cópias individuais e imperfeitas das ideias, ou seja, são homens que possuem individualidades, o que impossibilita que estejam na forma ideal.

Para Aristóteles, Platão dividiu o Ser, separando a essência do acidente, de tal forma que ele descaracterizou o Ser, pois, para o primeiro, o Ser é um misto de essência e acidente e, quando Platão separa o mundo das ideias do mundo sensível está, na verdade, separando a essência do acidente. Já para Aristóteles é impossível que exista um ser que é pura essência (forma) ou mesmo puro acidente (matéria).

Lógica

Essência: é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e a sua forma, unidade que lhe dá um conjunto de propriedade ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ele é. Por exemplo: é o que faz de todos os homens...homens.

Acidente: é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter, ou deixar de ter, sem perder o seu Ser próprio. É o que individualiza o ser. Por exemplo: é o que individualiza Sócrates no que concerne ao grupo de seres de que ele faz parte, ou seja, é o que o diferencia dos outros homens.

O termo

A ideia, conhecida como noção ou conceito, é a simples representação intelectual de um objeto. Não deve ser confundida com a imagem, que é uma representação sensível do objeto. O termo é a expressão verbal da ideia e, do ponto de vista lógico, não pode ser confundido com a palavra.

No que diz respeito à ideia, podemos fazer algumas considerações sobre dois de seus elementos mais importantes, a saber: a compreensão, que é o seu conteúdo, ou seja, o conjunto de elementos de que uma ideia se compõe. E a extensão, que corresponde a um conjunto de sujeitos de que uma ideia convém.

Uma proposição é constituída por elementos que são seus termos. Aristóteles define os termos ou categorias como “aquilo que serve para designar uma coisa”. São palavras não combinadas com outras e que aparecem em tudo quanto pensamos e dizemos. Há dez categorias ou termos:

I. Substância: homem, Sócrates.

II. Quantidade: dois metros, um quilo.

III. Qualidade: branco, grego, agradável.

IV. Relação: o dobro, a metade.

V. Lugar: em casa, na rua.

VI. Tempo: ontem, amanhã.

VII. Posição: sentado, deitado.

VIII. Posse: armado, isto é, tendo armas.

IX. Ação: corta, fere.

X. Paixão/Passividade: é cortado, é ferido.

As categorias/termos indicam o que uma coisa é, faz ou como está. São aquilo que nossa percepção e nosso pensamento captam imediatamente e diretamente em uma coisa, não precisando de qualquer demonstração, pois nos dão a apreensão direta de uma entidade simples. Possuem duas propriedades lógicas:

x Extensão: é o conjunto de objetos designados por um termo.

x Compreensão: é o conjunto de propriedades que esse mesmo termo designa.

Por exemplo: utilizamos a palavra "homem" para designar Pedro, Paulo, Sócrates e usamos a palavra "metal" para designar ouro, ferro, prata.

O termo lógica é a tradução para o português da palavra grega organon, que nada mais significa "instrumento". Desse modo, a lógica, para Aristóteles, não consistiria em um campo de produção de conhecimento, tal como se apresentam a metafísica ou a ética, mas sim um conjunto de procedimentos que devem ser realizados para se utilizar corretamente a capacidade de raciocinar. Para o autor, assim, o biólogo, o físico, o químico ou o astrônomo, qualquer um deve organizar logicamente seu pensamento, se tem alguma pretensão de chegar à verdade.

A extensão do termo "homem" será o conjunto de todos os seres que podem ser designados por ele. Se, porém, tomarmos esse termo e dissermos que é um animal, vertebrado, mamífero, bípede, mortal e racional, essas qualidades formam sua compreensão. Quanto maior a extensão de um termo, menor a sua compreensão. Por exemplo: Sócrates (extensão menor). Sua compreensão, porém, será maior, pois Sócrates possui todas as propriedades do termo "homem", mais as suas propriedades enquanto pessoa determinada.

Essa distinção permite classificar os termos ou categorias em três tipos:

A04 y Aristóteles: metafísica, lógica, ética e filosofia helenística 29

x Gênero: extensão maior, compreensão menor. Ex.: animal.

x Espécie: extensão média e compreensão média. Ex.: homem, indivíduo.

x Indivíduo: extensão menor, compreensão maior. Ex.: Sócrates.

Na proposição, as categorias ou termos são predicados atribuídos a um “sujeito”. O sujeito (S) é uma substância; os predicados (P) são as propriedades atribuídas ao “sujeito”; a atribuição ou predicação se faz por meio do verbo de ligação ser. Ex.: João é lindo e modesto.

A proposição

A proposição é um discurso declarativo, que enuncia ou declara verbalmente o que foi pensado e raciocinado pelo juízo. A proposição reúne ou separa verbalmente o que o juízo reuniu ou separou mentalmente.

A reunião ou separação dos termos recebe o valor de verdade ou de falsidade quando o que foi reunido ou separado em pensamento e linguagem está reunido/separado na realidade (verdade), ou quando o que foi reunido está separado na realidade (falsidade). A reunião se faz pela afirmação S é P. A separação se faz pela afirmação S não é P. A proposição apresenta o juízo (coloca o pensamento na linguagem) e a realidade (declara o que está unido ou separado na realidade). Do ponto de vista do “sujeito”, existem dois tipos de proposições:

As proposições se classificam segundo a qualidade, quantidade e a relação. Do ponto de vista da qualidade, as proposições se dividem em:

x Afirmativas: as que atribuem alguma coisa a um sujeito: S é P.

x Negativas: as que separam o sujeito de alguma coisa: S não é P.

Do ponto de vista da quantidade, as proposições se dividem em:

x Universais: quando o predicado se refere à extensão total do sujeito, afirmativamente (todos os S são P) ou negativamente (nenhum S é P).

x Particulares: quando um predicado é atribuído a uma parte da extensão do sujeito, afirmativamente (alguns S são P) ou negativamente (alguns S não são P).

x Singulares: quando o predicado é atribuído a um único indivíduo, afirmativamente (este S é P) ou negativamente (este S não é P).

Os três princípios da lógica formal

Como todo pensamento e todo juízo, a proposição está submetida aos três princípios lógicos e fundamentais, condições de toda verdade, quais sejam:

x Princípio de identidade: um Ser é sempre idêntico a si mesmo. A é A.

x Princípio da não contradição: é impossível que um Ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao mesmo tempo e na mesma relação. É impossível afirmar que A é A e depois afirmar que A é não A ao mesmo tempo.

x Princípio do terceiro excluído: dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente verdadeira e outra falsa. A é B ou não B, não havendo terceira possibilidade.

Graças a esses princípios obtemos a última maneira pela qual as proposições se distinguem. Trata-se da classificação das proposições segundo a relação:

x Contraditórias: quando temos o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma das proposições é universal afirmativa (todos os S são P) e a outra é particular negativa (alguns S não são P); ou quando se tem uma universal negativa (nenhum S é P) e uma particular afirmativa (alguns S são P).

x Contrárias: quando, no mesmo sujeito e no mesmo predicado, uma das proposições é universal afirmativa (todos os S são P) e outra é universal negativa (nenhum S é P); ou quando uma das proposições é particular afirmativa (alguns S são P) e a outra é particular negativa (alguns S não são P).

x Subalternas: quando uma universal afirmativa subordina uma particular afirmativa de mesmo sujeito e predicado, ou quando uma universal negativa subordina uma particular negativa também de mesmo sujeito e predicado.

O silogismo

Aristóteles dizia que a verdade e a falsidade são propriedades das coisas e não do pensamento; que a realidade ou a irrealidade também são propriedades das coisas e não do pensamento, mas que um pensamento verdadeiro deveria exprimir a realidade da coisa pensada, enquanto que um pensamento falso nada poderia exprimir.

Ele elaborou uma teoria do raciocínio como inferência. Inferir é tirar um proposição como conclusão de uma outra ou de várias proposições que a antecedem, as quais são a sua explicação ou a sua causa. O raciocínio é uma operação do pensamento realizada por meio de juízos, anunciada linguisticamente e logicamente pelas proposições encadeadas formando, assim, um silogismo. O raciocínio e o silogismo são operações mediatas de conhecimento, pois a inferência significa que só conhecemos alguma coisa (a conclusão) por meio ou mediação de outras coisas.

O silogismo possui três características principais, a saber:

x É mediato: exige um percurso de pensamento e de linguagem para que se possa chegar a uma conclusão, isto é, exige uma mediação para que se possa chegar a uma conclusão.

x É dedutivo: são movimentos de pensamento e de linguagem que partem de certas afirmações verdadeiras para chegar a outras também verdadeiras, que dependem necessariamente das primeiras.

Filosofia 30 | PAS 3

x É necessário: porque é dedutivo (as consequências a que se chega na conclusão resultam necessariamente da verdade do ponto de partida). Por isso, Aristóteles considera o silogismo que parte de proposições apodídicas superior ao que parte de proposições hipotéticas ou possíveis, designando-o como nome de ostensivo, pois ostenta ou demonstra claramente a relação necessária e verdadeira entre o ponto de partida e a conclusão.

Todos os homens são mortais.

Sócrates é homem.

Logo Sócrates é mortal.

Um silogismo é constituído por três proposições, compostas por duas premissas, e uma conclusão. As premissas possuem termos chamados extremos e a função do termo médio é ligar os extremos. Esta ligação é a inferência ou dedução e sem ela não há raciocínio nem demonstração.

A premissa maior deve conter o termo maior (“mortais”) e o termo médio (“homens”); a premissa menor deve conter o extremo menor (“Sócrates”) e o termo médio (“homens”). A conclusão deve conter o extremo maior e o menor, jamais deve conter o termo médio (no caso, deve conter “mortal” e "Sócrates", e nunca deve conter o termo “homem”). De forma que a função do termo médio é a de ligar os extremos; ele deve estar nas premissas, mas nunca na conclusão.

A inferência silogística deve obedecer a oito regras, sem as quais a dedução não terá validade, não sendo possível dizer se a conclusão é verdadeira ou falsa. São elas:

I. Um silogismo deve ter um termo maior, um menor e um médio e somente três termos, nem mais nem menos.

II. O termo médio deve aparecer nas duas premissas e jamais aparecer na conclusão. Deve ser tomado em toda sua extensão (ou seja, como um universal) pelo menos uma vez, pois, do contrário, não se poderá ligar o termo maior ao menor. Por exemplo, se dissermos “Os nordestinos são brasileiros” e “Os mineiros são brasileiros”, não podemos tirar conclusão alguma, pois o termo médio “brasileiros” foi tomado sempre em parte de sua extensão e nenhuma vez no todo de sua extensão.

III. Nenhum termo pode ser mais extenso na conclusão que nas premissas, pois, neste caso, concluir-se-ia mais do que se teria permitido. Isso significa que uma das premissas sempre deverá ser universal (afirmativa ou negativa).

IV. A conclusão não pode conter o termo médio, já que a função deste se esgota na ligação entre o maior e o menor, ligação que é a conclusão.

V. De duas premissas negativas nada pode ser concluído, pois o termo médio não terá ligado os extremos.

VI. De duas premissas particulares nada poderá ser concluído, pois o termo médio não terá sido tomado em toda sua extensão pelo menos uma vez e não poderá ligar o maior ao menor.

VII. Duas premissas afirmativas devem ter a conclusão afirmativa, o que é evidente por si mesmo.

VIII. A conclusão sempre acompanha a parte mais fraca, isto é, se houver uma premissa negativa, a conclusão será negativa; se houver uma premissa particular, a conclusão será particular; se houver uma premissa particular negativa, a conclusão será particular negativa.

Ética

Na obra Ética a Nicômaco Aristóteles apresenta o essencial de sua doutrina moral. É interessante perceber como sua obra apresenta uma noção de conjunto. O mesmo autor que inaugurou a noção de causa final, única apresentada de forma inédita por ele, inicia a obra perguntando-se pela finalidade da ação humana. A essa questão nosso autor esboça, de forma sucinta, a seguinte resposta: a finalidade de toda ação humana é a procura pela felicidade.

Então, o filósofo realiza um inventário de motivações que poderiam conduzir um ser humano à felicidade, e analisa de maneira mais pormenorizada três situações: as honras, o prazer e a virtude. O primeiro item, de acordo com sua teoria, não deveria ser preferido por alguém que queira realmente atingir a felicidade, e isso porque aquele que dependesse de honrarias para ser feliz estaria sempre na dependência de outros seres humanos, ou seja, de elementos externos a si mesmo, e por isso fora do seu controle. Quanto ao prazer, como veremos um pouco abaixo, seu problema essencial reside no fato de primar pelos excessos, e não pela moderação, o que o autor condena sobremaneira. Também no prazer, grande parte das vezes, o sujeito se encontra na dependência da colaboração de outra pessoa.

Desse modo, dos três elementos comentados pelo autor, somente a vida virtuosa consiste em elemento que deve realmente ser considerado na busca pela felicidade. Pois, o indivíduo para obtê-la, só depende de si mesmo, nem reconhecimento alheio, nem prazer excessivo.

A partir desse momento, torna-se necessário, então, que o autor defina melhor o que se deve entender por virtude, já que realiza a defesa de uma vida virtuosa como única possibilidade de verdadeira felicidade. E ele a define, então, em contraposição ao vício. Desse modo se procede a uma definição que, a partir da citação que segue, podemos atingir:

“A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um

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meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo.“

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, II, 6. São Paulo: Nova Cultural, 1987.Col. Os Pensadores, p. 33.

x Virtude: Ato ou sentimento marcado pela moderação ou pelo equilíbrio, aquilo que Aristóteles denomina de meio termo entre a falta e o excesso. Desse modo, a coragem virtuosa seria o equilíbrio entre a covardia, vício por falta, e a temeridade, vício por excesso. O soldado deve ter coragem suficiente para adentrar no campo de batalha, mas medo bastante para se proteger com eficiência do inimigo, com armadura, escudo e respeito às táticas estabelecidas.

x Vício: Ato ou sentimento marcado pela falta ou pelo excesso, ou seja, pelo desequilíbrio. É assim que o amor próprio pode ser deturpado pela modéstia, que consiste em sua falta, assim como pela vaidade, que é o seu excesso.

Marilena Chauí, em sua obra Filosofia: Ensino Médio (São Paulo: Ática, 2005, p. 183), apresenta um quadro com as principais virtudes e os principais vícios, baseado na obra aristotélica. A título de exemplo, reproduzimos abaixo o quadro, visando a uma melhor compreensão por parte do estudante:

Virtudes Vício por excesso Vício por deficiência

Coragem Temeridade Covardia

Temperança Libertinagem Insensibilidade

Prodigalidade Esbanjamento Avareza

Magnificência Vulgaridade Vileza

Respeito próprio Vaidade Modéstia

Prudência Ambição Moleza

Gentileza Irascibilidade Indiferença

Veracidade Orgulho Descrédito

Agudeza de espírito Zombaria Rusticidade

Amizade Condescendência Enfado

Justa

indignação Inveja Malevolência

Ao analisarmos o quadro das virtudes, é relevante lembrarmos uma diferenciação que o próprio autor faz, entre virtude dianoética e ética. A primeira, também designada como virtude intelectual, é aquela adquirida e desenvolvida por meio da educação formal. A segunda, como o termo ethos mesmo designa em grego, é adquirida e desenvolvida por meio do costume, do hábito, da vivência. Assim, aprende-se a ser

equilibrado sendo equilibrado, ou seja, exercitando tal comportamento cotidianamente.

Helenismo

Geralmente se divide a Antiguidade grega em quatro períodos: Homérico, com a incidência das explicações míticas; Arcaico, marcado pela presença da filosofia da natureza; Clássico, que consiste no auge da democracia ateniense, a guerra do Peloponeso, e a presença de Sócrates, Platão e Aristóteles; e helenístico, que consiste na difusão da cultura helênica ou grega para o oriente, chegando até a Índia, com a campanha do líder macedônio Alexandre Magno. É sobre este último período que trataremos a partir de agora.

É importante lembrar, primeiramente, que a cultura grega vai ao oriente, e influencia, sem sombra de dúvida. No entanto, é importante ressaltar também, que o mundo grego sofre influências das culturas orientais. O primeiro aspecto que precisa ficar claro, é o que as filosofias que surgem no período resultam do processo da miscigenação. Outro ponto importante a ser lembrado é o fato de que as poleis gregas, antes se organizando autonomamente como Estados legítimos, passam a partir deste momento a se verem inseridas em um império maior. Atenas, por exemplo, após a Guerra do Peloponeso, sofre com a hegemonia tebana, depois com a Macedônia, e após um período turbulento de dissenções políticas, surgirá um outro império, o Romano. Trata-se de um período, portanto, em que o antigo ideal de felicidade necessariamente vinculada à pólis entra em colapso, e passa a não fazer mais sentido. Em função disso, as escolas que aparecem no período representam uma busca pela melhor forma de vida com vistas a se atingir a felicidade, em grego, eudaimonia, nesse momento muito vinculada a uma forma de viver mais personalizada. Bom, feita esta pequena contextualização histórica, vamos às correntes.

O Cinismo

Escola fundada em Atenas no século IV a.C., por um discípulo de Sócrates, de nome Antístenes. A preocupação central da escola já havia sido evidenciada pelo filósofo no seu discurso de defesa: a preocupação do homem ateniense com os bens materiais e as convenções sociais, em detrimento do cuidado com a alma e com a virtude. A questão é que o cinismo leva isso a consequências extremas. O próprio nome da escola vem do radical grego vinculado à palavra cão, o que significa que o filósofo de tal corrente buscaria uma vida parecida com a destes animais quando se encontram sem dono. Mas em que isso implicaria? Bem, um animal assim não possui nenhum apego a bens materiais ou a convenções sociais, e seu abandono, na verdade, o deixa em outra condição, a liberdade. É exatamente esta a relação feita por aquele que segue tal percepção de vida. O desapego à matéria e ao status conduz à liberdade, e esta à tranquilidade da alma, em grego, ataraxia. Esta deveria ser a meta do homem. A tranquilidade da alma ou ausência de perturbação, neste período, é praticamente o sinônimo de felicidade.

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O cínico mais famoso foi Diógenes de Sínope, figura que viveu na cidade de Atenas e foi contemporânea de Platão e Aristóteles. Dizem que perambulava pelos espaços públicos, sem nenhuma posse, apenas com um barril que lhe cobria as partes íntimas. Seu desapego e seu jeito crítico de ser – por vezes andava pela pólis no meio do dia com uma lanterna acesa e, quando perguntado sobre o que procurava, respondia procurar “um homem”, ou seja, humanidade – fizeram com que fosse uma das figuras mais lembradas do período em que viveu.

busca e a orientação de discípulos. As escolas helenistas, majoritariamente, nos apresentam uma concepção física, ou seja, nos dizem como as coisas são e, a partir disso, nos orientam sobre como nos comportarmos em relação a elas. O ceticismo funciona basicamente assim. Portanto, Pirro, que não havia deixado nada escrito, teria nos chegado por meio de seus seguidores pensando da seguinte maneira:

1) as coisas seriam, segundo Pirro, indiferentes, instáveis e indecisas. Como elas nos aparecem assim, nossas sensações não nos apresentam algo seguro com relação ao mundo pois, principalmente em razão da instabilidade, o que me parece ser agora, pode parecer não ser no futuro. Isso inviabiliza minhas opiniões, que não merecem confiança, já que se baseiam em algo tão inseguro.

2) em função de tal concepção sobre como as coisas são, só nos resta agir de uma maneira, que consiste na abstenção total de juízos, a aphasia (ausência de discurso) e a apraxia (inação). Com o tempo, e provavelmente não com Pirro, virá o termo epoché, que significa suspensão de juízos sobre as coisas.

O Ceticismo

Escola fundada por Pirro de Élis, ainda no século IV a.C. Segundo Diógenes Laércio, ele teria acompanhado Alexandre na sua campanha até a Índia, e lá haveria deparado com os chamados gimnosofistas (sábios nus), que seriam faquires ou mestres iogues, em uma busca de paz espiritual marcada pelo distanciamento do mundo e sobretudo das sensações. Ao retornar à Grécia, inicia a sua caminhada pessoal nessa

3) o resultado de tal comportamento diante do mundo, o que não impede o indivíduo de continuar refletindo, em contato com o real – o termo cético vem de um radical grego que significa busca, meditação, reflexão – é a tranquilidade da alma ou ataraxia, que conduz o indivíduo à felicidade. A história da filosofia demonstra que hipóteses opostas sobre o real por vezes são apresentadas, e o critério de verdade destas se encontram nelas mesmas. Desse modo, na ausência de possibilidade de se decidir por uma ou por outra posição dogmática, o cético, se abstém de emitir um sim ou um não, e isso lhe garante a imperturbabilidade. O grande sistematizador do ceticismo foi Sexto Empírico.

O Epicurismo

Escola fundada em 306 a.C, na cidade de Atenas, em um jardim, por Epicuro. Ele entendia que a filosofia deveria ser um remédio para os grandes males que afligem o ser humano, dentre os quais alguns medos, como o da vida, da morte, do além-túmulo e dos deuses.

Assim como o ceticismo, a chave para a ataraxia, entendida aqui como ponto a ser atingido para se chegar à eudaimonia, envolve uma concepção física, ou seja, sobre como as coisas funcionam. Tal concepção Epicuro retoma de Demócrito e Leucipo, que eram atomistas. Parte-se, portanto, do pressuposto de que tudo quanto existe resulta da combinação aleatória dos átomos, inclusive nossas almas e o mundo dos deuses, que existe paralelamente ao nosso, sem que eles estabeleçam interação conosco.

Os resultados de tal pressuposição são os seguintes: a vida se resume às sensações, que podem ser boas ou ruins. A morte nada mais é do que o fim das sensações, ela não existe enquanto existirmos, e quando ela for, não seremos mais. Como nossa alma se desagrega, da mesma forma que nosso corpo, em uma concepção totalmente materialista, não existe absolutamente nada além túmulo, e não devemos nos ocupar disso também. Os deuses, apesar de existirem, não interagem conosco, pois vivem em uma condição de felicidade plena, o que exclui qualquer perturbação com o nosso plano.

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Aristóteles: metafísica, lógica, ética e filosofia helenística
Figura 01 - Alexander e Diogenes de Nicolas Andre Monsiau, 1818. Fonte: <www.kunst-fuer-alle.de>. Acesso em: 24 fev. 2015. Figura 02 - Escultura de Pirro de Élis. Fonte: <www.google.com>. Acesso em: 24 fev. 2015.

Resta saber, portanto, como devemos lidar com as sensações durante a vida. Para os epicuristas, o prazer (hedoné) em si não é algo ruim, mas é necessária uma inteligência prática (phronesis) para que o indivíduo saiba lidar com ele. Decorre disso uma divisão das sensações boas em três grupos e, a partir disso, a orientação de como nos vincularmos ou não a cada um.

Prazeres naturais e necessários: são aqueles vinculados à existência do indivíduo e, portanto, devem ser satisfeitos, como a alimentação, a hidratação, o abrigo, a vestimenta.

Prazeres naturais e desnecessários: são aqueles que, apesar de vinculados à existência do sujeito, extrapolam o campo da necessidade, como degustar um prato refinado ou tomar um vinho de determinada safra. O vínculo equivocado com o supérfluo, tornando-o necessário, pode conduzir o indivíduo à perturbação e, consequentemente, à perda da felicidade.

Prazeres não naturais e desnecessários são aqueles que, além de não serem necessários, extrapolam as necessidades naturais, tais como o poder, a honra, o reconhecimento. A dependência do indivíduo com relação a outras pessoas e suas ações, para atingir tais prazeres, potencializa os níveis de perturbação aos quais ele está exposto. Tais prazeres, portanto, não devem ser o foco de busca do homem prudente.

Percebe-se, portanto, que o epicurismo vincula a ataraxia ao vínculo aos prazeres corretos. Existem, nesse período, os hedonistas, que realmente defendem o vínculo absoluto com o prazer, e a anulação máxima da dor. Para os epicuristas, devemos nos vincular aos prazeres certos, que podem nos garantir satisfação sem nos trazer perturbações, os naturais e necessários. Os sofrimentos são inevitáveis, mas são passageiros, e sempre suportáveis. Devemos, portanto, evitar a confusão entre epicurismo e hedonismo que, como visto, estão longe de ser a mesma coisa.

O Estoicismo

Escola fundada em Atenas no ano 300 a.C, por Zenão de Cítio, pensador de origem fenícia. O nome estoicismo deriva do termo grego stoapoikilé, “pórtico pintado”, local onde os seus

integrantes se reuniam. O desenvolvimento da doutrina, no entanto, se deveu a discípulos e sucessores, como Cleantes e Crisipo. No seu período latino, encontraremos provavelmente os nomes mais ilustres da escola, como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio, já na era cristã. Nesta escola, novamente, encontraremos uma concepção física, ou seja, sobre como as coisas são, embasando uma lógica, que não comentaremos aqui, e uma ética, nosso objeto de estudo. Dessa forma, a conduta humana adequada está intimamente ligada a como o mundo funciona, e talvez nestes filósofos mais do que nas outras escolas.

Para os estoicos, o cosmos seria o resultado da interação de dois princípios: um passivo, a matéria, e um ativo, o Logos, (razão). Tal Logos teria alguma materialidade, entendida por alguns dos membros da escola como o fogo, por outros como o éter. Ele irradia sua força sobre a matéria, formando, como resultado, tudo quanto existe. O homem, como parte integrante do cosmos, tem também uma parte do Logos, a alma, e uma parte de matéria, corpo. Tudo que nos ocorre, portanto, resulta do controle desta razão imanente sobre o

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Fonte: <rati ocinati va.wordpress.com>. Acesso em: 24 fev. 2015. Figura 03 - O prazer, de um modo geral, é exaltado por Epicuro, que o considera essencial para a felicidade, mas deixa claro que não se refere “aos prazeres dos dissolutos e dos crápulas”. A obra intitulada “Dance to the Music of Time“, de Nicolas Poussin, ilustra uma cena de dança grega, celebrando os prazeres terrenos. Figura 04 - Busto de Zenão de Cítio no Museu Pushkin, em Moscou. Fonte: <en.wikipedia.org>. Acesso em: 24 fev. 2015.

real, e é exatamente o que nos deveria acontecer. Alguns estoicos denominam tal ordenamento de Providência. Na filosofia, concepções como esta costumam ser denominadas de panlogismo, e encontraremos em Spinoza ou em Hegel percepções equivalentes, guardadas as devidas ressalvas.

A implicação necessária do que acompanhamos na física do estoicismo só pode nos encaminhar para uma ética: é livre o indivíduo que conforma as suas ações com os rumos para os quais a Providência o conduz. Mas isso significa que tal escola acredita que existe um destino que deverá se cumprir? Que as coisas deverão acontecer de uma determinada maneira? Majoritariamente sim. Mas isso não retira completamente a minha liberdade? Por incrível que pareça, não. A questão aqui consiste em distinguir, no fluxo das nossas vidas, as coisas que são necessárias daquelas que são livres. São necessários os elementos da nossa vida que não dependem de nós, como diversas condições do nosso próprio corpo e o que nos é externo. São livres, ou seja, dependem de nós, os nossos estados de ânimo.

Um grande problema para os indivíduos consiste em acreditar que podem alterar aquilo que não podem, isto é, os eventos que nos são indiferentes. Ao buscarem mudar o necessário, e não conseguirem exatamente por este motivo, evidentemente se perturbam e, como vimos, perturbação é sinônimo de infelicidade. Ao entendermos os eventos como necessários, e nos conformarmos a eles, justamente porque os entendemos assim, lidamos melhor com tudo o que nos ocorre, e optamos bem sobre a única coisa sobre a qual nos compete escolher os nossos estados de ânimo.

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (UEM PR) A relação entre arte e natureza é discutida pelos filósofos desde Platão e Aristóteles. Para Platão, o artista é capaz de produzir somente cópias das ideias verdadeiras; portanto não podemos confiar nos produtos da arte para conhecer o que são as coisas. Para Aristóteles, a arte é capaz de imitar a realidade de tal forma que representa as coisas, os sentimentos e os fatos tais como são verdadeiramente, e não como meras cópias de coisas reais.

C-E-E-C-C

Sobre a relação entre arte e natureza, assinale o que for correto.

01. Para Platão, a beleza está na relação harmônica entre as partes e o todo das coisas, e a beleza verdadeira, portanto, não é um aspecto sensível das coisas, porém é captada pelo intelecto.

02. Segundo Aristóteles, a arte é uma espécie de ciência, porque podemos distinguir os diferentes tipos de imitação, seus efeitos e as regras de construção das obras de arte.

04. Para ambos os pensadores, a arte somente é imitação da natureza quando representa seres e coisas que realmente existem; quando ela representa animais míticos como as sereias ou o Minotauro, ela é imaginativa, e não imitativa.

08. Para Platão, embora a ideia do belo esteja ligada à ideia do Bem, que é a ideia suprema, os poetas não são bons educadores, pois em suas obras eles visam somente as coisas belas contingentes, e não o Bem em si.

16. Para Aristóteles, a arte imita as ações, e não somente aspectos sensíveis; por isso a música, por meio do ritmo e da melodia, e a tragédia, por meio das ações das personagens, são ambas imitações da natureza.

A percepção de que as relações são desencadeadas de maneira necessária deve conduzir o homem sábio à indiferença com relação ao que ele não pode controlar, que é a maioria dos elementos da sua vida. Tal posição diante das coisas, denominada de apatheia, conduz o ser humano à tranquilidade da alma (ataraxia), e esta à eudaimonia. De tal percepção, presente no estoicismo, surge a expressão amorfati, que significa amor aos fatos, ou amor a tudo que nos ocorre na vida, seja o que consideramos agradável, seja o que achamos ruim. Mesmo porque, o que cada indivíduo é, em qualquer momento de sua vida, é o resultado de todos os eventos que ele já vivenciou e que, portanto, se bons ou ruins, foram necessários para que ele fosse o que é.

O homem não deve buscar o poder ou status, mas não deve se furtar a eles se o destino o colocar em algum lugar mais nobre, como ocorreu com Marco Aurélio, pensador importante da escola, que ocupou o maior cargo político de Roma no período: Imperador. Trata-se de uma corrente, como se percebe, que teve bastante longevidade, já que vamos do século III a.C. a, pelo menos, 180 d.C., com Marco Aurélio, sem contar a possível influência que ainda se manteve durante longo período, e sobre o próprio cristianismo nascente, do que nos dão conta alguns historiadores.

O tema da felicidade, como foi visto, e de como atingi-la a partir de uma vida adequada, foi amplamente tratado no período, com uma rica produção textual. Grande parte do que foi escrito, no entanto, acabou por se perder ao longo do tempo. As influências sobre nossa cultura e os filósofos posteriores, no entanto, é inegável.

02. (UEM PR) “Por natureza, todos os homens desejam o conhecimento. [...] a ciência que investiga causas é mais instrutiva do que uma que não o faz, pois é aquela que nos diz as causas de qualquer coisa particular que nos instrui. Ademais, o conhecimento e o entendimento desejáveis por si mesmos são mais alcançáveis no conhecimento daquilo que é mais cognoscível. Pois o homem que deseja o conhecimento por si mesmo vai desejar sobretudo o conhecimento mais perfeito, que é o conhecimento do mais cognoscível, e as coisas mais cognoscíveis são os princípios e causas primeiros; porque é através e a partir destas que outras coisas vêm a ser compreendidas.”

(ARISTÓTELES, Metafísica - livro I. In: MARCONDES, D. Textos básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 46-51).

A partir do texto citado, assinale o que for correto.

01. As coisas cognoscíveis não podem ser conhecidas pelo ser humano.

02. O homem deseja o conhecimento mais perfeito, e isso só é possível pela ciência que investiga as causas.

04. A ciência que investiga a causa das coisas e a ciência dos princípios das coisas são contraditórias.

08. O conhecimento não é natural nos seres humanos, mas um desejo que alguns têm, e outros, não.

16. O conhecimento científico fundamenta-se no conhecimento das causas e dos princípios das coisas.

03. (Enem MEC) Dado que, dos hábitos racionais com os quais captamos a verdade, alguns são sempre verdadeiros, enquanto outros

A04 y Aristóteles: metafísica, lógica, ética e filosofia helenística 35
E-C-E-E-C

admitem o falso, como a opinião e o cálculo, enquanto o conhecimento científico e a intuição são sempre verdadeiros, e dado que nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição, e, por outro lado, os princípios são mais conhecidos que as demonstrações, e dado que todo conhecimento científico constitui-se de maneira argumentativa, não pode haver conhecimento científico dos princípios, e dado que não pode haver nada mais verdadeiro que o conhecimento científico, exceto a intuição, a intuição deve ter por objeto os princípios.

(ARISTÓTELES.. Segundos analíticos In: REALE, G. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994)

Os princípios, base da epistemologia aristotélica, pertencem ao domínio do(a)

a) opinião, pois fazem parte da formação da pessoa.

b) cálculo, pois são demonstrados por argumentos.

c) conhecimento científico, pois admitem provas empíricas.

d) intuição, pois ela é mais exata que o conhecimento.

e) prática de hábitos racionais, pois com ela se capta a verdade.

04. (UEM PR) No campo da lógica, afirma-se que um argumento ou silogismo é válido quando sua conclusão é uma consequência da aceitação de suas premissas. E E C C E Acerca da validade lógica dos argumentos, assinale o que for correto.

01. O argumento a seguir é dedutivo válido: “Noventa por cento dos estudantes de Filosofia que concluem o curso fazem pós-graduação. Ana concluiu o curso de Filosofia. Logo, Ana fará pós-graduação.”

02. Se um argumento é válido, ele também é, necessariamente, correto.

04. A partir de duas premissas negativas, como “Nenhum peixe é mamífero. Aranhas não são mamíferos”, nada podemos concluir.

08. Em um silogismo válido, uma das premissas deve sempre ser universal.

16. A análise lógica é utilizada nas ciências para determinar a verdade ou a falsidade das hipóteses científicas.

05. (UFU MG) Silogismo. Essa palavra, que na origem significava cálculo, era empregada por Platão como raciocínio em geral e foi adotada por Aristóteles para indicar o tipo perfeito do raciocínio dedutivo, definido como um discurso em que, postas algumas coisas, outras se seguem necessariamente.

ABBAGNANO,

Considerando-se a definição de silogismo, assinale a alternativa que indica sua interpretação correta.

a) A conclusão pode contrariar todas as premissas.

b) O silogismo só conduz a conclusões hipotéticas.

c) A conclusão é sempre resultado das premissas.

d) A dedução é inaplicável ao silogismo categórico.

06. (UEM PR) Considere os seguintes argumentos:C E C C C

Argumento 1

Todo brasileiro é mamífero.

Todo mamífero é um animal vertebrado.

Logo, todo brasileiro é um animal vertebrado.

Argumento 2

Políticos são corruptos.

João é presidente da república.

Logo, João é corrupto.

A partir dos argumentos citados, assinale o que for correto.

01. ‘Mamífero’ é o termo médio do argumento 1.

02. O argumento 2 não possui termo médio explícito.

04. As premissas do argumento 1 são universais.

08. No argumento 2, ‘presidente da república’ é uma particularização de ‘políticos’.

16. A conclusão do argumento 2 é uma inferência válida das premissas, mas ela é também incorreta, visto ser uma universalização indevida a partir das premissas.

07. (UEM PR) “Devemos considerar agora o que é a virtude. Visto que na alma se encontram três espécies de coisas – paixões, faculdades e disposições de caráter –, a virtude deve pertencer a uma destas.”

(ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, p. 54, 1979).

A partir do fragmento acima e de conhecimentos sobre a ética aristotélica, assinale o que for correto.

01. Para Aristóteles, o homem virtuoso será o bom cidadão, ou seja, aquele que vive sob as normas da justiça.

02. A virtude, para Aristóteles, é a equidistância entre dois vícios, um por excesso, outro por falta.

04. Segundo Aristóteles, somos chamados bons e maus pelas nossas paixões, quando agimos, por exemplo, tomados pela ira.

08. A virtude é uma modalidade de escolha ou envolve algum tipo de escolha.

16. Segundo Aristóteles, somos virtuosos pelas nossas faculdades, entendidas como capacidades que temos de sentir emoções.

08. (UEM PR) Na Ética a Nicômaco, Aristóteles investiga o gênero ao qual poderíamos identificar as virtudes, se como paixões, ou como faculdades ou ainda como disposição de caráter.

A propósito dessa discussão sobre a virtude no pensamento de Aristóteles, assinale o que for correto.

01. Aristóteles entende as paixões como aqueles sentimentos acompanhados de prazer ou de dor.

02. As virtudes não podem ser entendidas como paixões, uma vez que são modalidade de escolhas ou envolvem a escolha, pois não escolhemos sentir, por exemplo, cólera ou medo.

04. Não somos bons ou maus por nossas paixões, mas por nossas virtudes ou vícios.

08. Como ocorre no âmbito das paixões, a virtude é movida para determinada ação.

16. Para Aristóteles, o estudo da virtude está vinculado com a vida do cidadão na polis (cidade), pois o homem virtuoso será bom cidadão.

09. (UEM PR) O estoicismo antigo advoga a ideia de que um destino inflexível governa certos aspectos de nossa vida, imprimindo-lhes uma inevitável necessidade. A respeito do estoicismo antigo, assinale o que for correto.

01. Para os estoicos, o mundo é um sistema de seres e de acontecimentos ordenado por uma razão divina.

02. Todos os acontecimentos do mundo estão concatenados rigorosamente e se relacionam como causas e efeitos.

04. Os estoicos negam qualquer tipo de liberdade, pois defendem rigorosamente a noção de destino.

08. Os estoicos defendiam a ideia de que é preciso “viver segundo a natureza”, que entendiam como “viver de acordo com a virtude”.

16. O homem deve abster-se das paixões para assegurar uma vida tranquila e virtuosa.

Filosofia 36 | PAS 3
Nicola Dicionário de Filosofia. Trad. Benedetti, I. C. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Adaptado) C-C-E-C-E C-C-C-E-C C-C-E-C-C

W FILOSOFIA PATRÍSTICA DE AGOSTINHO E A ESCOLÁSTICA DE AQUINO

Contexto histórico

Durante certo tempo, Roma ofereceu resistência ao ensino e propagação da filosofia grega. Isso por acreditar que ela desviava os cristãos da crença nos dogmas, ou fazia nascer heresias, devido a seus instrumentos conceituais para a compreensão de certos aspectos da religião. Porém, com a difusão das obras de Platão e de Aristóteles, não foi mais possível ignorar a herança intelectual grega.

A partir da aceitação da cultura pagã, o ensino na idade média passou a contar com temas vinculadores ao saber profano à teologia, sustentada na autoridade da revelação.

Nesse sentido, a filosofia é a demonstração da verdade através de instrumentos que permitam ao filósofo triunfar sobre os detentores da pretensa verdade. A filosofia não é a busca da verdade, pois a verdade já foi trazida pela própria palavra de Deus. As questões de âmbito teológico são mais importantes para o homem, por tratarem de sua salvação. No âmbito filosófico, também não há que se buscar a verdade, visto que a verdade está posta nas obras de Aristóteles. Há, portanto, duas sínteses: a das verdades profanas, constituída pela doutrina de Aristóteles; e a das verdades cristãs, contidas nas sagradas escrituras e nas interpretações autorizadas dos textos sacros. A filosofia medieval pode ser dividida em quatro grandes momentos:

x Padres Apostólicos: os primeiros padres da igreja cristã, como Paulo, que repudiavam a filosofia em favor da fé.

x Padres Apologistas: buscavam defender a fé cristã da influência da filosofia.

x Patrística: primeiras buscas de conciliação entre fé e razão. Utilização da filosofia platônica. O maior pensador foi Agostinho de Hipona.

x Escolástica: movimento das primeiras universidades, vinculadas à igreja. Reaparecimento das obras de Aristóteles. O maior pensador foi Tomás de Aquino.

A Filosofia Patrística

É a filosofia dos padres da igreja católica. Com o objetivo de unir religião e filosofia, os padres introduziram ideias novas para os pagãos, tais como a ideia de criação do mundo, de pecado original, de Deus como trindade una, encarnação e morte de Deus. Santo Agostinho e Boécio introduziram a ideia de “homem interior”, ou seja, de consciência moral ou livre arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pelo mal no mundo.

Essa filosofia é uma retomada da filosofia platônica, na qual é valorizado o suprassensível, e a qual remete o homem a um comportamento ético rigoroso, já que o mundo corpóreo ou sensível afasta o homem do supremo bem. Com isso, é indispensável que o homem paute seu comportamento na justa medida, ou seja, mantenha sob controle suas paixões de forma racional. Seu principal representante foi, sem sombra de dúvida, Aurélio Agostinho.

Agostinho de Hipona (354-430 d.C), ou Santo Agostinho, como ficou conhecido em função da compreensão da igreja católica, foi o maior expoente da Patrística. Nasceu em Tagaste, na África, em 13 de novembro de 354, filho de um pagão e de uma cristã fervorosa, Mônica, depois canonizada santa pela igreja. Entretanto, ao ir para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, aderindo ao maniqueísmo, seita que atribuía à realidade substancial tanto o bem quanto o mal, buscando encontrar uma explicação para o problema do mal e uma justificação da vida.

Até seus trinta e dois anos, abandona o maniqueísmo e retoma a filosofia neo-platônica, que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal, e se converte, finalmente, ao Cristianismo. Concebendo uma vida cristã, encontra a possibilidade de pôr fim a suas angústias, e encontra na filosofia a felicidade, passando a utilizá-la como instrumento em favor da fé, de onde tira a máxima “entender para crer e crer para entender”.

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FRENTE FILOSOFIA
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MÓDULO 05 A
Fonte: <pt.slideshare.net>. Acesso em: 24 fev. 2015.
TREINAMENTO
PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 38 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
Figura 01 - Agostinho do Hipona.

A filosofia agostiniana se funda a partir da tríade: fé, esperança e amor, onde o sujeito do conhecimento está pronto para conhecer Deus se for iluminado por Ele, pois como no âmbito da física as coisas devem ser iluminadas pela luz do sol para serem conhecidas, o mesmo ocorre com relação às coisas divinas, pois Deus é o sol que as ilumina.

Ocorre, porém, que a opção de utilizar, ou não, as virtudes supracitadas depende do homem, que possui o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de escolher ou não as coisas divinas, que são o bem. Agostinho toma isso como base para sua filosofia, pois se crê pela vontade, e essa é irracional, visto que não se pode explicar e entender porque se ama, já que se ama pela vontade de amar.

Fé e Razão: a busca da felicidade

Para Agostinho, o problema da felicidade constitui a motivação do pensar filosófico. A filosofia é entendida como uma disciplina teórica que coloca problemas à estrutura do mundo físico ou à natureza dos deuses, mas não como um questionamento sobre a condição humana à procura da beatitude.

Agostinho se preocupa com o problema das relações entre razão e fé, entre o que se demonstra racionalmente e o que se sabe pela convicção interior, entre a verdade revelada e a verdade lógica, entre a religiosidade cristã e a filosofia pagã. Através da fé nas escrituras, busca o entendimento daquilo que elas ensinam, pois, a fé para ele é a via de acesso à verdade eterna. Mas a fé não pode ser demonstrada sem o trabalho da razão, que a precede e é a sua consequência, pois é necessário compreender para crer e crer para compreender.

A doutrina da iluminação divina

“Percorri o melhor possível, com os sentidos, o mundo exterior. Observei em mim a vida do corpo e os próprios sentidos. Passei depois às profundezas da memória, a essas amplidões sucessivas, admiravelmente repletas de inumeráveis riquezas. Observei-as, estupefato. Mas, sem Vós, nada pude distinguir. Contudo, reconheci que Voes nada disto éreis.

Não era eu quem descobria estas maravilhas. É certo que as percorri a todas e tentei distingui-las e avaliá-las no seu justo valor, tomando e interrogando os seres que traziam mensagens aos meus sentidos. [...] Mas não era eu quem fazia tudo isso, nem era a força com que eu agia, a qual não éreis Vós, porque sois luz imutável que eu consultava acerca da existência, da qualidade e do valor em todas as coisas.”

(Agostinho. 2004, p. 303-304.)

Agostinho acredita que as verdades contidas nas filosofias pagãs provêm da mesma fonte das verdades cristãs. Por isso as verdades dos filósofos pagãos (Platão e Aristóteles) são verdades porque Deus permitiu que esses homens vislumbrassem a Sabedoria. Devido à iluminação interior, alguns aspectos das filosofias pagãs permitem a compenetração das verdades absolutas da religião.

Através da doutrina da iluminação divina, Agostinho explica como é possível ao homem receber de Deus as verdades eternas, pois todo conhecimento verdadeiro é resultado de uma iluminação divina, que faz com que o homem contemple as ideias, arquétipos eternos de toda a realidade. Não que a luz divina possa ser vista, mas ela serve para iluminar as ideias.

Para elaborar sua teoria, o autor busca recursos na alegoria da caverna de Platão, que mostra ser o conhecimento resultado do Bem, considerado como o sol que ilumina o mundo inteligível. Mas Agostinho entende a percepção do inteligível na alma como uma irradiação divina no presente, e não como descoberta de um conteúdo passado.

Assim como os objetos exteriores só podem ser vistos quando iluminados pela luz do sol, também as verdades da sabedoria precisariam ser iluminadas pela luz divina para se tornarem inteligíveis. Contudo, o homem possui seu próprio intelecto, sendo que a iluminação permite ao intelecto pensar corretamente por ordem natural, estabelecida por Deus, existente entre as coisas do mundo e as verdades inteligíveis, denominadas pela palavra ideia, forma, espécie, razão ou regra.

Por conseguinte, todo conhecimento verdadeiro é o resultado de uma iluminação divina, levando o homem à contemplação das ideias, arquétipos ou modelos eternos de toda a realidade, não podendo porém a luz divina ser vista, só servindo para iluminar.

A Escolástica

Aproximadamente no século IX da era cristã, as instituições estatais começam a se complexificar, exigindo cada vez mais, para a realização das funções nelas exercidas, mão de obra capacitada. O analfabetismo, excetuando-se o clero, assola o território hoje conhecido como Europa. É em função

Filosofia 38 | PAS 3
Fonte: <htt p://blistar.net/>. Acesso em: 24 fev. 2015.
Figura 02 - Saint Augustine: Philippe de Champaigne Los Angeles CountyMuseumofArt, Los Angeles, CA, USA.

disso, que um Imperador analfabeto, chamado Carlos Magno, atenta para a necessidade da formação de uma classe que representará, futuramente, a possibilidade de uma burocracia mais funcional. Ocorre então, a chamada Renascença Carolíngia, que é realizada com o auxílio do pensador Alcuíno de York, com a fundação das escolas. Nelas eram ministradas as sete artes liberais: o Trivium (gramática, retórica e dialética) e o Quadrivim (aritmética, geometria, música e astronomia). Todas elas, no entanto, submissas à teologia, pois essas escolas se encontravam ligadas ou a mosteiros ou a catedrais.

O problema dos universais

A relação entre voces e res, entre linguagem e realidade, que está no centro dos estudos gramaticais e da dialética, constitui o elemento essencial da questão dos universais, vivamente debatida no século XII por suas implicações linguísticas, gnosiológicas e teológicas. Com efeito, o problema dos universais diz respeito à determinação do fundamento e do valor dos conceitos e termos universais, como, por exemplo, “animal” e “homem”, aplicáveis a uma multiplicidade de indivíduos. Mas, em geral, trata-se de um problema que diz respeito à determinação da relação entre as ideias ou categorias mentais, expressos em termos linguísticos, e as realidades extra mentais, ou, em última análise, é o problema da voces e a res, entre as palavras e as coisas, entre o pensamento e o Ser. O problema envolve, portanto, o fundamento e a validade do conhecimento e, em geral, do saber humano.

W A posição nominalista

Doutrina filosófica surgida na Idade Média que consiste em uma tomada de posição frente ao problema dos universais. Na investigação acerca da natureza dos termos genéricos, o nominalismo, tomado em seu sentido amplo, afirma: as espécies e os gêneros, em última instância, os universais, não são realidades. Eles constituem somente nomes, palavras empregadas a fim de agrupar conjuntos de indivíduos. Frente a esta questão, a postura nominalista opõe-se à solução realista, que afirma a realidade dos universais, presentes no intelecto divino anteriormente às coisas. Os realistas representam uma interpretação do platonismo desde a perspectiva da filosofia medieval. Deste modo, os universais possuem a função de modelos ideais, a partir dos quais são criados os entes singulares.

O nominalismo surge na Idade Média, ainda que tenha sido prefigurado por várias argumentações de filósofos antigos. Seu florescimento ocorreu em dois períodos distintos: no século XI, com Roscelino de Compiègne, e no século XIV, com Guilherme de Ockham. Do primeiro filósofo, conhecemos seu pensamento somente através das refutações de seus contraditores. Segundo eles, Roscelino negaria qualquer realidade aos universais, considerando-os simplesmente como um sopro de voz (em latim, flatusvocis). A postura de Guilherme, por sua vez, confere aos universais a natureza de signos, palavras que permitem ao intelecto humano reunir determinados grupos de entes sob a mesma designação, abstraindo suas diferenças individuais.

Em ambos os casos, a concepção nominalista afirma o individual como a única forma verdadeira de existência. Deste modo, os conceitos universais permanecem tão estranhos aos entes como as palavras que empregamos para designá-los. O nominalismo aponta, necessariamente, para uma tendência gnosiológica de tipo empirista, uma vez que se a realidade é unicamente composta de indivíduos, somente a apreensão do particular, isto é, a experiência sensível, nos permite acesso à realidade.

A postura nominalista foi criticada de várias formas. Santo Anselmo refuta a posição de Roscelino, valendo-se do seguinte argumento: mesmo que o universal seja apenas um sopro de voz, ele ainda é alguma coisa, provida de realidade. Como tal, seria preciso apreendê-lo, conhecê-lo por meio do intelecto. Contudo, toda apreensão intelectiva somente pode ocorrer por meio dos universais, que, assim, estariam presentes nos sons enquanto estes se configuram “entes naturais”.

O nominalismo encontrou vários seguidores diretos, nos séculos XIV e XV, como Pedro de Ailly, João Buridano, Nicolau de Oresme e Alberto de Saxônia. Suas teses foram retomadas e reinterpretadas durante a era moderna por várias vertentes filosóficas. O empirismo inglês, o positivismo clássico e o materialismo de Feuerbach são alguns destes exemplos. Atualmente, o neopositivismo, bem como determinadas vertentes da lógica e da filosofia da linguagem, integram-se a uma postura nominalista, ainda que cada uma destas correntes reveja esta postura a partir de seus próprios paradigmas.

W A posição realista

O realismo consiste no pensamento que compreende essência da realidade como algo material ou empírico, substantivamente determinado. Oposto ao idealismo, que concebe a consciência do sujeito como fundamento de todo real, o realismo afirma que as coisas existem nelas mesmas, fora e independente da consciência subjetiva do homem. Por querer pensar as coisas “tal como elas mesmas são”, o realismo se constitui em um pensamento objetivo que, ao contrário das especulações dialéticas dos idealistas, busca ser sempre positivo e, antes de tudo, pragmático.

Tanto o realismo como o idealismo nascem da compreensão dicotômica que pensa o real como um composto de matéria e espírito, corpo e alma. A matéria é o elemento sensível e exterior, o mundo, e o espírito, o elemento inteligível e interno, o homem. A partir da separação homem-mundo, a verdade passa a ser concebida como a adequação entre o sujeito e o objeto. Todavia, na medida em que é originariamente separados e com essências distintas, como pode haver a síntese entre sujeito e objeto que constitui o conhecimento verdadeiro? Em outras palavras: a ligação, que é o lugar da verdade, se dá no homem, e por isso é subjetiva, ou no mundo, e assim objetiva? Em que instância, no homem ou no mundo, se encontra o “entre” que une sujeito e objeto? Enquanto o idealismo afirma que o fundamento desta relação é o homem, pois só conhecemos o que o pensamento coloca previamente nas coisas, o realismo afirma que o fundamento da relação é o mundo, pois o pensamento apenas representa e, assim expõe, o que as coisas são nelas mesmas. Assim, a partir do pressuposto da separação

A05 y Filosofia Patrística de Agostinho e a Escolástica de Aquino 39

ontológica de homem e mundo, o realismo se constitui como um pensamento contraposto ao idealismo, por pensar o mundo e não o homem como o fundamento da realidade.

Os movimentos filosóficos do realismo mais importantes são o atomismo, os universais, os empiristas e os materialistas.

Para o realismo de Guilherme de Champeaux, por vezes denominado ultrarrealismo, os universais existem como entidades reais. Em alguns autores, à moda do platonismo, tais modelos ideais se encontrariam na mente de Deus e, portanto, fora dos seres individuais. O realismo aristotélico trabalha com a existência dos universais nos próprios individuais que, portanto, somente se diferenciariam em função de sua acidentalidade.

W Pedro Abelardo (1079 - 1142) - O realismo moderado

Pedro Abelardo nasceu em Le Pallet, perto de Nantes (França). Além do papel filosófico importante que desempenhou na discussão acerca dos universais, tornou-se famoso por sua dramática história pessoal. Lecionou filosofia e teologia em Paris, e reunia, em suas aulas, um número considerável de alunos. Entre estes se encontrava Heloísa, por quem Abelardo perdidamente se apaixonou. Perseguidos pelo cônego Fulbert, tio da jovem, casaram-se secretamente em Paris. Abelardo, temendo por sua segurança, abrigou-a em uma abadia, onde Heloísa acabou por fazer profissão de fé. Atacado por homens a mando do tio de Heloísa, Abelardo foi mutilado. Entrou para uma abadia, onde se tornou monge, contudo voltando posteriormente a lecionar. A correspondência trocada por Abelardo e Heloísa, quando ambos já se encontravam devotados à vida monástica, figura entre os mais tocantes escritos amorosos da literatura ocidental.

No campo filosófico, Abelardo sobressai por suas opiniões polêmicas. Estudou lógica com Roscelino e, posteriormente, com Guilherme de Champeaux. Estes dois filósofos representam duas posições opostas quanto ao problema dos universais e Abelardo termina por refutar a ambas. Roscelino representa uma posição nominalista extremada frente a esta questão, defendendo a tese de que só podemos encontrar na realidade os entes individuais, sendo o universal, desta forma, apenas uma emissão sonora, um mero nome.

Guilherme de Champeaux, por sua vez, defende uma postura realista, ao afirmar, seguindo uma interpretação de Platão tornada canônica na Idade Média, a existência real dos universais, ou antes, a existência mais real e autêntica destes frente aos entes particulares. Abelardo refuta o nominalismo de Roscelino, defendendo que os universais apresentam uma realidade mental. E refuta o realismo de Guilherme de Champeaux, afirmando que, se o universal é um atributo, ele não pode ser uma realidade, uma vez que uma realidade não pode ser predicada por outra realidade, pois “nenhuma realidade pode ser dita acerca de muitas coisas, mas somente um nome”. Os debates entre Abelardo e seu mestre realista parecem ter levado este último, por fim, a atenuar sua posição.

A tese de Abelardo frente a esta questão pode ser, assim, resumida: o universal é um nome, e um nome é uma voz significativa. Deste modo, a discussão, até o momento predominantemente metafísica, se transfere para o domí-

nio da lógica, cabendo a esta a tarefa de aclarar o sentido da significação, bem como de investigar a relação que esta mantém com o significado.

As ideias de Abelardo também causaram polêmica no âmbito das indagações teológicas. Seu pensamento neste campo constitui, igualmente, uma dupla oposição. Por um lado, contra aqueles que se negavam a aplicar a dialética, isto é, as forças da razão, à investigação de questões relativas ao divino. Por outro, contra os que tratavam a dialética como o único modo seguro de acesso a Deus. Contra uma acusação de ser excessivamente dialético, esquecendo assim a importância da revelação para a teologia, escreve Abelardo: “Não quero ser tão filósofo que resista a Paulo, nem tão aristotélico, para afastar-me de Cristo”. Apesar disso, sua postura lhe valeu censuras, em especial de São Bernardo. Suas opiniões teológicas foram condenadas por dois concílios, sendo consideradas heréticas. Seu primeiro livro, Introdução à Teologia, foi proibido pelo Concílio de Soissons em 1121.

Abelardo contribui também para as investigações de ordem ética, trazendo à baila a discussão acerca da importância da intenção no julgamento de um ato moral. O todo de seu pensamento exerceu influência sobre filósofos de seu século, bem como, um século depois, sobre São Tomás de Aquino, um dos maiores expoentes da filosofia na Idade Média.

Principais obras de Abelardo: Sobre a Unidade e Trindade Divina, Sim e Não, Teologia Cristã, Lógica para principiantes, História das minhas Calamidades.

Faleceu em 21 de abril, em Chalon-sur-Saône, aos sessenta e três anos.

Tomás de Aquino (1225 – 1274)

Tomás de Aquino nasceu em 1225 em Roccasseca e lá mesmo morreu em 1274, filho dos condes de Aquino, estudou as artes liberais.

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Adaptou a filosofia grega de Aristóteles ao pensamento cristão da Escolástica, mas seus pensamentos são de cunho dogmático cristão dos Padres da Igreja e da tradição Medieval anterior. Preocupava-se com a demonstração da existência de Deus e a explicação da essência na medida em que é possível, a interpretação racional dos dogmas. Por um lado a Trindade, a criação do mundo, a Eucaristia e por outro lado, a Ética orientada para uma vida sobrenatural, o problema dos universais e muitos outros.

Para ele a teologia funda-se na Revelação divina, enquanto a filosofia tem por base o exercício da razão humana. Não é o homem que faz teologia, mas Deus, ao revelar-se, pois Deus é a própria verdade, e o uso correto da razão conduz a verdade. Daí não pode haver conflito entre a filosofia e a teologia porque seria uma discórdia no âmbito da verdade, como podemos perceber em suas palavras.

É um fato que esses princípios naturalmente inatos à razão humana são absolutamente verdadeiros; são tão verdadeiras que chega a ser impossível pensar que possam ser falsos. [...] A mesma coisa que o mestre inculca no espírito do seu discípulo, a ciência do mestre a inclui, a menos que este ensinamento do mestre esteja imbuído de hipocrisia, o que não se pode supor em Deus. Ora, o conhecimento dos princípios que nos são conhecidos naturalmente nos é dado por Deus, uma vez que Deus é o autor da nossa natureza.

Por conseguinte, tais princípios naturais estão incluídos também na sabedoria divina. Portanto, tudo aquilo que contradiz tais princípios, contradiz a sabedoria divina. Ora, isto não pode acontecer em Deus. Tudo o que a revelação divina nos manda crer, é impossível que contrarie o conhecimento natural.

(AQUINO, T. 2004, p. 143-144)

Desse modo, podemos sintetizar da seguinte maneira as relações que Aquino estabelece entre razão natural e fé:

x as duas são formas distintas de se acessar a verdade, sendo que a razão o faz por meio do que o filósofo denomina evidência intrínseca, ou seja, demonstração lógica ou empírica das coisas, e a fé por meio da confiança na autoridade do Deus revelante. Desse modo, dão origem a duas ciências distintas: à filosofia e à teologia.

x como ambas nos foram infundidas pelo mesmo ser, que é Deus, é incoerente imaginar que Ele nos concederia uma razão que nos levasse a negar as verdades que nos são resultado da sua revelação. Em função disso, não deve haver conflito entre fé e razão quando consideram o mesmo objeto, e caso tal ocorra, devemos optar pela revelação, visto que a razão pode ser conduzida de maneira equivocada.

x ainda que a razão possa, sozinha, atingir as verdades referentes ao mundo natural e até a algumas relacionadas a Deus, Aquino acha que nem todos os seres humanos o podem igualmente, e mesmo aqueles que têm essa possibilidade, poderiam errar muito antes de consegui-lo. Em função disso, é interessante que Deus revele as verdades que devemos atingir para, posteriormente, a razão demonstrá-las, por meio da concatenação dos raciocínios e da observação das coisas, por meio da evidência intrínseca. A fé, portanto, termina por ser superior à razão.

Os princípios do conhecimento

Tomás de Aquino concilia as verdades da razão aristotélica e o conteúdo da revelação bíblica e, com isso, prova a existência de Deus. Racionalmente o mundo é concebido como um conjunto de criaturas contingentes, cuja existência é dada por Deus, criadas a partir do nada e escalonadas de acordo com os graus diversos de perfeição e participação na essência e na existência de Deus.

No ápice da hierarquia das criaturas, encontram-se os anjos, que são criaturas como as demais, embora incorpóreas possuem a mais alta perfeição dentre todas as criaturas. Já o homem é um ser dotado de corpo e alma, mas não possui uma inteligência pura como a dos anjos, por ter sua alma ligada ao corpo e devido a essa dupla natureza o homem pode conhecer o inteligível, mas não pode manter contato direto com ele. Seu conhecimento parte dos sentidos que revelam objetos concretos e singulares, mas através da abstração consegue formular conceitos universais.

Tomás de Aquino afirma que o intelecto pode gerar conceitos abstratos e universais porque não se limita a receber e registrar os dados fornecidos pelos sentidos, embora o conhecimento tenha início no plano corpóreo se finaliza no plano espiritual.

Retomando as ideias de Aristóteles sobre o Ser e o saber, Tomás de Aquino enfatizou a importância da realidade sensorial. No processo de conhecimento dessa realidade, ressaltou uma série de princípios considerados básicos, dentre os quais se destacam:

A05 y Filosofia Patrística de Agostinho e a Escolástica de Aquino 41
Fonte: <https://sumateologica.files.wordpress.com>. Acesso em: 24 fev. 2015.
Figura 03 - Santo Tomás de Aquino de Carlo Crivelli - The National Gallery, Londres, Inglaterra.

x Princípio de contradição: o ser é ou não é. Não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista.

x Princípio da substância: na existência dos seres podemos distinguir a substância (a essência, propriamente dita, de uma coisa, sem a qual ela não seria aquilo que é) e o acidente (a qualidade não essencial, acessória do ser).

x Princípio da causa eficiente: todos os seres que captamos pelos sentidos são seres contingentes, isto é, não possuem, em si próprios, a causa eficiente de suas existências. Portanto, para existir, o Ser contingente depende de um outro Ser que representa a sua causa eficiente: este outro Ser é chamado de Ser necessário

x Princípio da finalidade: todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de um objetivo, de uma “razão de ser”. Enfim, todo Ser contingente possui uma causa final.

x Princípio do ato e da potência: todo Ser contingente possui duas dimensões: o ato e a potência. O ato representa a existência atual do Ser, aquilo que está realizado e determinado. A potência representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou mas pode realizar-se. É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança.

As Provas da Existência de Deus

O Ser é o conceito mais universal de todos , segundo Tomás de Aquino, que aproveita o ensinamento aristotélico. Mas esta universalidade não é o gênero como demonstrou Aristóteles, contrapondo-se à opinião de Platão. O ente é um transcendental que está presente em todas as coisas sem confundir-se com nenhuma delas.

A palavra Ser possui dois sentidos, quais sejam: a essência e a existência. Tomás de Aquino afirma que há distinção entre a essência e a existência das criaturas, que são entes contingentes. Porém, em Deus, não há essa distinção, pois a existência de Deus provém de sua essência.

Para Tomás de Aquino há cinco vias, isto é, cinco maneiras de demonstrar a existência de Deus, que são:

1ª) O PRIMEIRO MOTOR: Tudo aquilo que se move é movido por outro Ser. Por sua vez, este outro Ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro Ser. E, assim, sucessivamente. Se não houvesse um primeiro Ser movente, cairíamos num processo indefinido. Logo, conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro Ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus.

2ª) A CAUSA EFICIENTE: Todas as coisas existentes no mundo não possuem em si próprias a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. Tomás de Aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. Logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa causa primeira é Deus.

3ª) SER NECESSÁRIO E SER CONTINGENTE: Este argumento é uma variante do segundo. Afirma que todo Ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. Ora,

se todas as coisas que existem podem deixar de Ser, então, alguma vez, nada existiu. Mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. É preciso admitir, então, que há um ser que sempre existiu, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa da sua existência, mas, ao contrário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus.

4ª) OS GRAUS DE PERFEIÇÃO: Em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar a existência de graus diversos de perfeição. Assim, afirmamos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. Ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isto supõe que deve existir um Ser com o máximo dessa qualidade, ao nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um Ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade. Portanto, um Ser máximo e pleno. Esse ser é Deus.

5ª) A FINALIDADE DO SER: Todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, semelhante a flecha dirigida pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum Ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus.

Assim, Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico com a finalidade de nele buscar os elementos racionais que explicassem os principais aspectos da fé cristã. Enfim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da religião católica, ao mesmo tempo que transformou essa filosofia numa síntese original.

Enfim, a ideia principal que anima as cinco vias acima descritas é Deus, invisível e infinito, demonstrável por seus efeitos visíveis e finitos. Visto que sabe-se que Deus é, porém não se sabe o que é. Mas pode saber-se algo a respeito de Deus, através da visão das criaturas, que pode se dar pela via da causalidade, da excelência e da negação. De todos esses modos, há duas possibilidades de ver: uma conforme a simples razão natural, alguns vêem a luz mas não estão na luz. A outra através da revelação que é superior a razão, porque está na luz vista pela razão.

Portanto, o mundo é criado por Deus por um ato livre e voluntário, e a criação é a posição do mundo na existência que pela revelação se realiza no tempo, mesmo que não possa ser demonstrado racionalmente. Deus é a causa exemplar e também a causa final, visto que todos os fins se dirigem para ele.

Sobre a questão dos Universais, Aquino toma uma posição que poderíamos entender como resultante de seu contato com as três grandes escolas apresentadas anteriormente. O autor termina por assumir um posicionamento realista, entendendo a existência do universal em três instâncias: ante rem, isto é, antes dos seres, na mente de Deus; in re, ou seja, nas coisas, enquanto essências dos próprios seres individuais; e post rem, posterior às coisas, na nossa mente, a partir da sua assimilação por meio da abstração, à moda aristotélica.

Filosofia 42 | PAS 3

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (UEM PR) O problema do mal foi uma preocupação central para Agostinho (354-430 d.C.) durante grande parte de sua vida. Como existe o mal no mundo criado por um Deus bom? Tal é a interrogação filosófica que está na base de muitas teodiceias modernas. A resolução desse problema por Agostinho reconhece que a origem do mal não está em Deus, mas no livre-arbítrio da vontade humana. O homem é livre e não é determinado a agir de um modo ou de outro.

A respeito desse pensamento de Agostinho, assinale o que for correto.

01. Agostinho, quando jovem, fora simpatizante do maniqueísmo, uma religião de origem oriental.

02. O homem é totalmente livre, e a graça divina não ocupa papel algum na constituição da ação humana.

04. O mal é uma força positiva pela qual o homem é impelido a realizar certas ações.

08. O mal é sinônimo do pecado, é resultante da soberba humana.

16. A solução de Agostinho para o problema do mal tem seu ponto de partida nos livros dos filósofos neoplatônicos.

02. (UFU MG) Agostinho, em Confissões, diz: “Mas após a leitura daqueles livros dos platônicos e de ser levado por eles a buscar a verdade incorpórea, percebi que ‘as perfeições invisíveis são visíveis em suas obras’ (Carta de Paulo aos Romanos, 1, 20)”. Agostinho de Hipona. Confissões, livro VII, cap. 20, citado por: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000. Tradução do autor.

Nesse trecho, podemos perceber como Agostinho

a) se utilizou da Bíblia para conhecer melhor a filosofia platônica.

b) utiliza a filosofia platônica para refutar os textos bíblicos.

c) separa nitidamente os domínios da filosofia e da religião.

d) foi despertado para o conhecimento de Deus a partir da filosofia platônica.

03. (Enem MEC) Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”

(AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984)

A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo da reflexão filosófica sobre a(s)

a) essência da ética cristã.

b) natureza universal da tradição.

c) certezas inabaláveis da experiência.

d) abrangência da compreensão humana.

e) interpretações da realidade circundante.

04. Assim como os primeiros padres da Igreja, Santo Agostinho é herdeiro da filosofia de Platão, a qual buscou adaptar à fé cristã. É correto afirmar que para o bispo de Hipona:

a) a razão (logos) inspiradora dos filósofos pagãos não fora a mesma que se revelou em Cristo.

b) a sabedoria perfeita e acabada só se daria através da revelação divina.

c) a fé não deve preceder a razão, embora essa seja inútil sem aquela.

d) a verdade é extrínseca ao homem, que possui uma natureza corrompida.

e) as ideias existem num mundo à parte da mente divina.

05. O pensamento político medieval foi marcado pelas relações conflituosas entre a Igreja e os governantes seculares.

Tendo em vista as teorias teológico-políticas da Idade Média, que divergem quanto à delimitação de soberania do poder espiritual e terreno, é incorreto dizer que

a) o governante não representa os governados, mas a Deus perante os governados, já que seu poder deriva Dele.

b) a ordem política e social é uma hierarquia de funções e lugares fixos, onde o papa e o imperador ocupam o topo.

c) a finalidade do poder político é estritamente espiritual para Santo Agostinho e a Patrística latina.

d) o rei e o papa são soberanos nos seus respectivos domínios, o temporal e o espiritual, segundo a “teoria das duas espadas”.

e) o rei possui dois corpos, o humano e o divino.

06. (UEM PR) No início da Suma teológica (Primeira parte, questão 2, artigos 1-3) encontramos a questão mais importante que se impõe ao pensamento filosófico de Tomás de Aquino referente à existência de Deus: ela se impõe imediatamente à inteligência humana? Dessa questão central, decorrem duas outras. Caso a existência de Deus não seja evidente, pode ser demonstrada? Em caso afirmativo, como isso poderia ser feito?

A respeito do tema da existência de Deus, para Tomás de Aquino, assinale o que for correto.

01. Ao ouvir o nome “Deus”, o homem reconhece que Ele existe na sua mente e na realidade.

02. Embora a existência de Deus seja evidente em si mesma, ela não o é para nós.

04. A existência de Deus não pode ser demonstrada, pois é um artigo de fé.

08. É possível demonstrar a existência de Deus, mas não conhecê-la.

16. O ponto de partida da reflexão de Tomás de Aquino acerca da existência de Deus é a experiência sensível, fonte segura de todo conhecimento humano.

07. (UFU MG) Alguns filósofos podem ser considerados realistas e outros nominalistas, conforme o posicionamento de cada um. Guilherme de Champeaux (1070 – 1121 d. C.) foi um filósofo e teólogo francês, professor na escola da catedral de Notre Dame, em Paris. Champeaux afirmava que “o universal é não somente real, mas também essencialmente idêntico na diversidade das coisas de que é atributo.”

VASCONCELOS, José Antônio. Reflexões: filosofia e cotidiano. São Paulo: edições SM, 2016. p. 212.

A posição de Champeaux, em relação aos universais, é classificada como

a) realista, pois compreende que os universais são entes reais.

b) nominalista, pois considera que os universais são apenas nomes.

c) conceptualista, pois aceita que há certa realidade nos universais.

d) indeterminada, pois, para ele, os universais são um problema sem resolução.

A05 y Filosofia Patrística de Agostinho e a Escolástica de Aquino 43
C-E-E-C-C E-C-E-C-C

NÃOHÁITENS RECORRENTES

W RENÉ DESCARTES, JOHN LOCKE E DAVID HUME

René Descartes (1596-1650)

René Descartes nasceu em La Haye, na França, filho de burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Flèche, instituição de bastante renome, o que lhe deu respaldo para sua crítica ao método escolástico. Vejamos de que pressupostos parte o autor para a construção do seu pensamento:

Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem. E é improvável que todos se enganem a esse respeito; mas isso é antes uma prova de que o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso, que é justamente o que é denominado bom senso ou razão, é igual em todos os homens. E assim, a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam.

(DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004, p. 35).

Da passagem acima, tiramos algumas ideias importantes:

x Razão: sinônimo de bom senso, é o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso.

x Diversidade de opiniões: deve-se ao fato de tomarmos caminhos (métodos) diferentes, e de não considerarmos as mesmas coisas.

x A razão humana é universal.

É por causa do pressuposto de que a razão humana é universal que Descartes busca conceber um método (caminho) que permita bem conduzir a mesma, para se chegar a conhecimentos seguros. Seu método é composto de quatro regras somente, as quais ele julga suficientes. O primeiro preceito do seu método “era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que não conhecesse claramente como tal”, ou seja, consiste em duvidar de tudo até que algo se mostre claro e evidente à razão. E aqui notam-se os critérios de verdade para Descartes: clareza e evidência. O segundo método consistia em “repartir cada uma das dificuldades que [...] analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las”. A essa segunda etapa se denomina análise, nome que é utilizado na química. O terceiro o “de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos [...]”. A esta etapa denomina-se síntese. Por fim, o quarto e último preceito consistia em “efetuar em toda parte relações metódicas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir”. Para o autor, o conhecimento a que se chegasse após seguir devidamente as quatro etapas seria totalmente seguro.

Seguindo os preceitos acima o indivíduo conseguiria evitar dois vícios da alma apontados por Descartes como inimigos do conhecimento: a precipitação e a prevenção. Por precipitação compreendemos aqui a postura daquele que salta etapas que podem ser importantes em busca de atingir o conhecimento mais rapidamente, e podemos afirmar que isso é fruto do excesso de confiança. Ao contrário, a prevenção é o vício que conduz aquele que se dedica ao conhecimento a duvidar de sua capacidade de atingi-lo. Todos nós já dissemos ou ouvimos alguém dizer sobre um determinado assunto: “isso não entra na minha cabeça!” Essa é a típica atitude preventiva com relação ao conhecimento. A utilização do método conduz o ser humano a um conhecimento seguro, o que dissipa as possibilidades de prevenção.

Ao buscar utilizar seu método, o autor deve necessariamente cumprir a primeira regra. E é assim, colocando em suspenso tudo em que até então acreditava, que Descartes chega à primeira verdade indubitável de sua filosofia, a saber, o cogito ergo sum, que significa pen-

FRENTE FILOSOFIA
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MÓDULO 06 A PAS
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019

so, logo existo. Isso ele faz em suas Meditações sobre Filosofia Primeira, e podemos acompanhar razoavelmente seu raciocínio.

A primeira coisa que é pelo autor colocada em dúvida são os sentidos. “Ora, notei que os sentidos às vezes enganam e é prudente nunca confiar completamente nos que, seja uma vez, nos enganaram”. A essa dúvida, porém, Descartes coloca um limite, afirmando que de algumas coisas que os sentidos nos mostram torna-se difícil duvidar, como, por exemplo, “que agora estou aqui, sentado junto ao fogo, vestindo esta roupa de inverno, tendo este papel às mãos e coisas semelhantes”. Nota-se que se torna difícil duvidar da existência do próprio corpo. Descartes ultrapassa esse limite ao afirmar: “com frequência o sono noturno não me persuadiu dessas coisas usuais, isto é, que estava aqui, vestindo esta roupa, sentado junto ao fogo, quando estava, porém, nu, deitado entre as cobertas”. Assim, colocando o argumento da dificuldade que existe em separar vigília de sonho, ele mostra a possibilidade de duvidar da própria existência corpórea. Porém, novamente o autor impõe um limite para sua dúvida, quando escreve que “esteja eu acordado ou dormindo, dois e três juntos são cinco e o quadrado não tem mais que quatro lados”. Com isso ele quer dizer que existem certas relações no mundo, que estejamos vigiando ou dormindo, são sempre as mesmas, o que torna difícil delas se poder duvidar. Ele porém ultrapassa esse limite com o seguinte argumento:

Suporei, portanto, que não há um Deus ótimo, fonte soberana da verdade, mas algum gênio maligno, e ao mesmo tempo, sumamente poderoso e manhoso, que põe toda a sua indústria em que me engane: pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas externas nada mais são do que ludíbrios dos sonhos, ciladas que ele estende à minha credulidade.

(DESCARTES, René. Meditações. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999, p. 255)

Ao supor a existência de um tal ente, que podemos comparar à “Matrix” contemporânea, Descartes escapa de qualquer limite para sua dúvida, e é por isso que a mesma é chamada hiperbólica, exagerada. Para garantir a possibilidade de conhecimento verdadeiro, o autor deverá refutar seu argumento mais forte para a dúvida, que é o do gênio maligno, e é isso que ele fará nas demais meditações, provando a existência de um Deus perfeito, que por assim ser, jamais poderia ser enganador. É porém, duvidando radicalmente de tudo que Descartes chega ao cogito, e a afirmação que enuncia essa verdade indubitável é a seguinte: “Não há dúvida, portanto, de que eu, eu sou, também, se me engana: que me engane o quanto possa, nunca poderá fazer, porém, que eu nada seja, enquanto eu pensar que sou algo”. Essa é, então, a primeira verdade a que chega o autor.Por sua descrença nos sentidos, Descartes recebe grosseiramente o rótulo de racionalista, ou seja, daquele que acredita que se conheça verdadeiramente tão somente por meio da razão. Porém ele admite a existência de ideia que nos vêm dos sentidos, às quais denomina adventícias, porém, por nos enganarem algumas vezes, não são dignas de confiança. Existem também as ideias que o filósofo chama de fictícias, que são aquelas formadas por nossa imaginação, utilizando as anteriores. Conhecimento verdadeiro, livre de engano, entretanto, só se tem através das

ideias inatas, que ele denomina a marca do Criador na criatura. As ideia de Deus e dos entes matemáticos são desse tipo, e é nas ideia com as quais nascemos que devemos confiar plenamente. Podemos, evidentemente, notar extrema semelhança entre as ideia inatas de Descartes e as ideia imutáveis de Platão, podendo ser colocados ambos grosseiramente sob o rótulo que utilizamos de idealistas, ou seja, daqueles que acreditam no conhecimento através das ideias.

Resumindo: aplicação do método

Todos os homens são dotados de razão, porém chegam a resultados diferentes, por isso há necessidade de estabelecer um método. Descartes estabelece, então, as 4 regras do método:

x Evidência: algo só deve ser aceito como verdadeiro se se mostrar claro e evidente (indubitável)

x Análise: dividir as dificuldades em tantas partes quantas forem necessárias para melhor resolvê-las.

x Síntese: ordenar os pensamentos partindo dos objetos mais simples para os mais complexos.

x Enumeração/Revisão: realizar relações tão completas e revisões tão gerais que se tivesse certeza de nada omitir.

W Aplicação do método:

1º Passo: Dúvida metódica para chegar à evidência (1ª regra do método). Para chegar a um princípio indubitável Descartes utiliza a dúvida metódica, sendo que duvida primeiramente dos sentidos (pois eles nos enganam); depois se questiona sobre a vigília (como sei que estou acordado e não dormindo); em seguida duvida da própria natureza corpórea. O filósofo francês começa a duvidar de tudo o que possa gerar o mínimo de questionamento (dúvida hiperbólica – exagerada). Contudo chega um ponto em que não pode duvidar de uma coisa: de que duvida, sendo que esta é um pensamento. Desse modo, formulou-se o primeiro princípio indubitável: Penso, logo existo. Que é a EVIDÊNCIA.

2º Passo: Agora que encontrou um princípio indubitável (Penso, logo existo), deve buscar o conhecimento verdadeiro a partir dele. Dessa forma, Descartes passa a analisar o próprio pensamento (o qual se torna o objeto a ser conhecido).

A06 y René Descartes, John Locke e David Hume 45

Aplica então a ANÁLISE, dividindo o pensamento em tantas partes quantas forem possíveis, as quais chamou ideias.

Observe a seguir as ideias que constituem as partes do pensamento para Descartes:

W As ideias

x Ideias adventícias: oriundas das percepções sensíveis, por isso são passíveis de dúvida.

x Ideias fictícias: formadas por nossa imaginação a partir das ideias adventícias. Podemos compará-las a montagens feitas pela imaginação.

x Ideias inatas: marcas de Deus no homem. Nascemos com elas, por isso são verdadeiras e correspondem ao real. Ex.: ideia de Deus, matemáticas

3º Passo: Agora que dividiu o objeto (pensamento), deve partir do mais simples para o mais complexo (SÍNTESE), isto é, das ideias inatas (puro pensamento, então mais simples), depois as adventícias (são mediatas, pois entre a razão e o objeto da experiência sensível temos os sentidos como mediadores) e, por fim, as fictícias (as quais são mais complexas por serem “montagens feitas a partir das ideias adventícias).

4º Passo: Aplica então a REVISÃO ou ENUMERAÇÃO, na qual vai tomar as ideias inatas (que são verdadeiras e indubitáveis por serem puro pensamento) para avaliar as outras. Percebendo, então, que as adventícias podem ser verdadeiras ou falsas (pois os sentidos podem me enganar) e as fictícias são falsas (são “montagens” feitas a partir das adventícias, e não das inatas).

Nasceu em Wrington, na Inglaterra, estudou na Universidade de Oxford, o que lhe conferiu o diploma de Master of Arts e onde ensinaria grego e retórica. Ficou descontente com o ensino de filosofia recebido em Oxford e chegou a dirigir seu espírito para outros ramos, como medicina, anatomia, física e fisiologia. Mas foi em 1690 que foi publicada sua grande obra na área da epistemologia: Ensaio sobre o intelecto humano, na qual trata da formação do conhecimento com bases na experiência, fato que o caracteriza como empirista. Tem-se na referida obra sobre a formação do conhecimento:

Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem ideias inatas e caracteres estampados em sua mente. Já examinei, em linhas gerais, essa opinião, e supondo que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas ideias, e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente; com este fim solicitarei a cada um recorrer à sua própria observação e experiência.

Da citação acima, temos o princípio primordial da teoria empirista de Locke. A negação das ideias inatas e a imposição de uma única via de aquisição das ideias, ou seja, pela experiência sensível. Segundo este autor, toda ideia, por mais fantástica que possa parecer tem sua raiz na percepção pelos sentidos.

Temos abaixo os motivos pelos quais nega as ideias e princípios inatos.

x Contradiz a experiência: se realmente existissem ideias e princípios inatos, os mesmos estariam presentes na mente de uma criança, bem como dos homens primitivos e selvagens. A experiência nos mostra o contrário.

x Sua verdade não pode ser averiguada: como se admite que as ideias inatas não dependem dos sentidos, não é possível averiguar se são ou não verdadeiras, pois o único critério para tal averiguação é a experiência.

A epistemologia de John Locke

Como vimos acima, Locke nega as ideias inatas, fato que fica notório também em seu famoso Princípio da Tábula Rasa: “Não existe nada em nossa mente que não tenha passado pelos sentidos”. Mas então, quais são os tipos de ideias que podem ser formadas e como se dá a formação das mesmas?

Epistemologia vem da junção de duas palavras gregas: episteme, que significa conhecimento, ciência e logos (logia) que significa razão ou estudo. De tal forma que a epistemologia consiste em uma Teoria do conhecimento, na qual se estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento.

Empirismo vem de empeiria, que significa experiência. Consiste na doutrina filosófica que afirma ser o conhecimento resultado da experiência, restringindo-se ao que pode ser apreendido através dos sentidos ou da introspecção, opondo-se ao racionalismo e à metafísica.

Filosofia 46 | PAS 3
Fonte: <en.wikipedia.org>. Acesso em: 30 mar. 2015.
Figura 01 - John Locke (1632-1704) LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. In. Locke. Trad. de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 57. (Coleção “Os Pensadores”)

Segundo John Locke existem dois tipos de ideias: as simples e as complexas. Cada uma com suas especificidades, inclusive no que concerne à sua formação.

W Ideias simples

As ideias simples são cópias das percepções, não podendo ser criadas e nem destruídas. Podem ser formadas por:

x Sensação: cópias exatas das percepções. Sua origem consiste em uma impressão que é externa ao sujeito que expressa qualidades primárias (correspondem estritamente a características próprias do objeto). Ex.: cor, sabor, figura, extensão etc.

Reflexão são originadas a partir do contato com o objeto. Mas mesmo dependendo da percepção para serem formuladas, sua origem é interna ao sujeito e expressa qualidades secundárias (não correspondem a características que são próprias do objeto). Ex.: dor, prazer, vontade, unidade etc.

W Ideias complexas

São ideias formadas a partir de ideias simples, e dependem da vontade do sujeito de formá-las. Podem ser formadas por:

x Combinação consiste na combinação de duas ou mais ideias simples a fim de formar uma nova ideia, a qual será considerada complexa. Ex.: Sereia, dragão etc.

x Junção Reunião de duas ideias (simples ou complexas) regulando-as com o intuito de ter uma visão delas, mas sem unificá-las em uma só ideia, como acontece na combinação. Ex.: situações que imaginamos com elementos de nossa memória, mas que não vão dar origem a uma nova ideia.

x Abstração trata-se da separação das partes que compõem as ideias complexas, com o intuito de gerar ideias ou conceitos gerais que não existem na realidade, mas que se referem apenas às operações mentais do intelecto. Ex: causalidade, homem, mesa, etc.

As ideias complexas podem ser de três tipos, quais sejam:

x Modo são ideias compostas a partir das simples que constituem apenas atributos de outras ideias, não se supõe uma existência própria. Ex.: beleza, roubo, raciocinar etc.

x Relação formadas a partir da relação/comparação entre duas ou mais ideias simples. Ex.: causalidade, identidade, alto, claro etc.

x Substância trata-se da combinação de ideias simples que nos conduzem a uma ideia mais geral que subsistiria por si mesma. Ex.: homem, chumbo, Deus etc.

Como perceberemos, o empirismo de John Locke apesar de negar as ideias inatas e propor de forma tão pormenorizadas as formas de conhecimento, será mais moderado no que concerne aos limites impostos pelo conhecimento do que David Hume, que estudaremos a seguir.

David Hume (1711-1776)

Nasceu em Edimburgo, na Escócia, e estudou Filosofia, Direito e Comércio. Realizou várias viagens, nas quais conheceu pensadores como Adam Smith e Jean-Jacques Rousseau. Foi,

dentro da história da Filosofia, um dos maiores representantes da corrente empirista. Fez talvez a mais radical crítica à Metafísica Clássica (Parte da Filosofia que estuda o Ser e suas causas, segundo Aristóteles), questionando noções como a de causalidade e substância. Vejamos, através de um trecho do próprio autor, quais são os pressupostos de seu pensamento.

“Cada um admitirá prontamente que há uma diferença considerável entre as percepções do espírito, quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor moderado, e quando depois recorda em sua memória esta sensação ou a antecipa por meio de sua imaginação.[...] Podemos, por conseguinte, dividir todas as percepções do espírito em duas classes ou espécies, que se distinguem por seus diferentes graus de força e de vivacidade. As menos fortes ou menos vivas são geralmente denominadas pensamentos ou ideia.[...] Pelo termo impressão, entendo, pois, todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos.[...] Parece que esta proposição não admitirá muita controvérsia: todas as nossas ideia são cópias das impressões[...]”. (HUME. D. Investigação acerca do entendimento humano. In. HUME. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 35-36)

Os trechos acima pod em enganar-nos, demonstrando falsa simplicidade. Entretanto, o que é importante que fique bem entendido no raciocínio do autor é o limite que este impõe à nossa possibilidade de conhecer, quando coloca como única porta de entrada para a nossa mente o acesso a ela dado pelos sentidos. Explorando o texto, conclui-se que, para Hume, não exista ideia em nossa mente que não tenha entrado pelos sentidos, teoria essa já defendida anteriormente por filósofos como Aristóteles e Locke.

Nascemos, então, para o autor, como folhas em branco, nas quais, por meio dos dados sensoriais, são impressas informa-

A06 y René Descartes, John Locke e David Hume 47
Fonte: <en.wikipedia.org>. Acesso em: 30 mar. 2015. Figura 02 - David Hume.

ções sobre o mundo. Nesse sentido, nota-se enorme diferença entre as teorias de Hume e Descartes. Para Descartes, existem ideia que existem em nossa mente que não adentraram pelos sentidos, que são denominadas inatas, e inclusive só elas são verdadeiramente confiáveis. Para Hume, confiáveis ou não, as ideias fornecidas pelos sentidos são nosso único acesso à realidade e ao conhecimento, que, assim sendo, será bem mais limitado que para Descartes.

É pela radicalidade com que Hume defende sua teoria do conhecimento que ele será, naturalmente, levado a criticar algumas noções correntes da Metafísica de sua época. O tipo de conhecimento que é possível segundo os pressupostos do autor é o chamado indutivo, grosso modo, o que parte das experiências particulares para leis gerais. Tal tipo de conhecimento jamais pode levar a conhecimento verdadeiro, mas somente provável.

O gráfico de Hume é simples: dois tipos de percepções, ou seja, de formas de perceber o mundo, diferenciadas simplesmente pelo grau de força e vivacidade com que nos afetam. Às mais fortes, que são provenientes dos sentidos ou dos sentimentos que possuímos, dá-se o nome de impressões. Às mais fracas, cópias das primeiras, chamam-se ideias. As segundas agrupam-se em nossa mente em duas faculdades, como também foi afirmado no texto, uma de recordação, denominada memória, outra de antecipação, que recebe o nome de imaginação. O interessante é que o fato de uma ideia estar em uma ou em outra faculdade não é responsabilidade da própria faculdade, mas da forma mesmo de se relacionar das ideias. Assim, se uma ideia ainda está muito forte em minha mente, a ponto de ao buscá-la, outras que se encontram ligadas a ela lhe venham junto, esta encontra-se no campo da memória. Porém, se existe uma ideia em minha mente que já se encontra, de tão fraca, completamente solta que não a ligo mais à impressão que a originou, esta encontra-se no campo da imaginação. É por isso que o autor afirma que:

“[...] embora o nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas ideia compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos”. (HUME. D. Investigação acerca do entendimento humano. In. HUME. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 36)

O autor impõe um limite tão grande à nossa capacidade de conhecer, ele é levado, por exemplo, a questionar a noção de causalidade (causa e efeito). Se o que possuímos são experiências particulares e subjetivas (relativas ao sujeito), pode-se e deve-se questionar como se chega à afirmação de que sempre determinada causa leva a determinado efeito. Ele reflete que o sol que tenha nascido até hoje, é fato verdadeiro, que nascerá amanhã, porém, é apenas bastante provável, pois bem pode ocorrer, e sabemos disso, que não nasça. Ao comprar na verduraria uma banana madura, se ela ficar podre, dizemos que “aquela banana apodreceu”. Nada há, aparentemente, que nos permita dizer que uma banana madura é a mesma coisa que uma banana podre, a não ser que recorramos à noção da metafísica aristotélica que chamamos substância, ou seja, que afirmemos que a tal fruta possui uma banalidade que não se modifica. Pelo método de conhecimento proposto por Hume, porém, se as ideia de causalidade e substância, assim como outras da Metafísica, correspondessem a algo existente, deveríamos evidentemente encontrar as impressões que lhes deram origem. Isso porém não ocorre. Refuta-se o autor, como ele mesmo afirma, de maneira muito fácil: basta mostrar uma só ideia que esteja em nossa mente e que não possua sua fonte nos sentidos. Ele próprio analisa a ideia de Deus, e conclui que a mesma é uma ideia complexa, formada por um conjunto de ideias simples, como bondade e sabedoria, cada uma advindo de uma impressão. Assim, as ideia acima citadas, de substância e causalidade também, se não correspondem a impressões reais que lhes deram origem, só podem ser fruto de nossa imaginação. Analisando um trecho em que trata da causalidade, podemos ver como tais noções metafísicas se formam em nossa mente.

“[...] como o espírito tem encontrado em numerosos casos que dois gêneros quaisquer de objetos – a chama e o calor, a neve e o frio – sempre têm estado em conjunção, se, de novo, a chama ou a neve se apresentassem aos sentidos, o espírito é levado pelo costume a esperar calor ou frio, e a acreditar que esta qualidade existe realmente e que se manifestaria se estivesse mais próxima de nós”. (HUME. D. Investigação acerca do entendimento humano. In. HUME. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 64)

Pela citação, podemos entender como, para David Hume, é possível o aparecimento de certas noções metafísicas em nossa mente: estas são geradas pelo costume, que chamamos também de hábito, que criamos ao ver que em certos eventos seguem-se outros, uma espécie de ilusão ou crença, que faz com que acreditemos, por exemplo, que o sol nascerá sempre, pelo simples fato de ter nascido até hoje. Os limites que o autor impõe ao conhecimento retiram qualquer possibilidade de universalidade e de necessidade nas ciências, e vieram a causar o que se chama de A Grande Crise da Metafísica. O mérito de Hume é, porém, o de ter abalado as bases do dogmatismo que imperava até então na filosofia.

Filosofia 48 | PAS 3
Fonte: <www.google.com>. Acesso em: 30 mar. 2015.

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (UEM PR) “Porque fomos crianças antes de termos nos tornado adultos, e porque julgamos ora bem, ora mal acerca de coisas que se apresentaram a nossos sentidos em uma época na qual não dispúnhamos ainda do inteiro uso de nossa razão, aconteceu que muitos juízos, formados com precipitação, impedem-nos de chegar ao conhecimento da verdade. E o fazem de modo que não há aparência de que possamos nos libertar, salvo no caso de nos dedicarmos a duvidar uma vez em nossas vidas de todas as coisas nas quais encontramos a menor suspeita de incerteza.”

(DESCARTES, R. Princípios de filosofia. In: FIGUEIREDO, V. de. Filosofia: temas e percursos. São Paulo: Berlendis & Vertecchia Editores, 2013, p. 125). Considerando o fragmento transcrito, assinale o que for correto.

01. Os juízos incorretos ou falsos são aqueles formados na infância, quando ainda não se dispõe do inteiro uso da razão.

02. A dúvida deve ser um hábito mental para nos livrarmos das incertezas advindas dos sentidos.

04. Juízos verdadeiros são resultado de um exercício mental que passa pelo questionamento daquilo que conhecemos somente pelos sentidos, pelas aparências.

08. O critério de verdade sobre os juízos depende de cada um, não havendo uma regra universal para a verdade de uma proposição ou de um juízo.

16. A dúvida ou o ceticismo em relação àquilo que advém dos sentidos é o início da busca de um conhecimento que se pretende verdadeiro.

02. (Enem MEC) Nunca nos tornaremos matemáticos, por exemplo, embora nossa memória possua todas as demonstrações feitas por outros, se nosso espírito não for capaz de resolver toda espécie de problemas; não nos tornaríamos filósofos, por ter lido todos os raciocínios de Platão e Aristóteles, sem poder formular um juízo sólido sobre o que nos é proposto. Assim, de fato, pareceríamos ter aprendido, não ciências, mas histórias.

DESCARTES, R. Regras para a orientação do espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Em sua busca pelo saber verdadeiro, o autor considera o conhecimento, de modo crítico, como resultado da

a) investigação de natureza empírica.

b) retomada da tradição intelectual.

c) imposição de valores ortodoxos.

d) autonomia do sujeito pensante.

e) liberdade do agente moral.

03. (UnB DF) Com relação às artes e à filosofia relacionadas ao Renascimento, assinale a opção correta.

a) Bacon, Descar tes e Leonardo da Vinci criaram o método científico moderno, cujas bases foram estabelecidas na continuidade da escolástica. Segundo eles, era preciso assegurar um método logicamente dedutível que levasse o ser humano ao conhecimento das verdades universais.

b) Leonardo da Vinci, que imprimiu base científica à sua arte, considerava o artista um homem livre, e a pintura, uma arte nobre.

c) Assumindo o espírito humanista de sua época, Tomás de Aquino, Leonardo da Vinci e Descartes empenharam-se em construir um modo de se chegar ao conhecimento seguro, fundamentado na apreensão da verdade imutável, nas leis da matemática e da lógica, nos estudos anatômicos e na filosofia escolástica.

d) A investigação científica proposta por Platão, baseada na observação e na experiência, inspirou os trabalhos de Galileu e Leonardo da Vinci. Para Platão, as artes dependiam dos conhecimentos científicos, ideia que motivou Leonardo da Vinci a fazer da pintura uma arte nobre.

04. (UEM PR) As linhas iniciais do Discurso do Método, de Descartes, afirmam, primeiramente, que o bom senso ou razão “é a coisa mais bem partilhada do mundo” e, posteriormente, a modo de complemento, que “não é suficiente ter o espírito bom, mas aplicá-lo bem”.

A propósito dessas frases e de conhecimentos sobre o racionalismo de Descartes, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

01. O uso da razão por si só não garante a identificação da verdade.

02. A razão não se estende à análise da moralidade, pois esta diz respeito aos costumes e aos sentimentos humanos.

04 Diferentemente da tradição agostiniana e escolástica, a razão cartesiana não é marcada pelo pecado original.

08. O bom uso da razão está vinculado a condições determinadas de sua aplicação.

16. A razão bem conduzida pode se voltar para os assuntos da fé e da religião.

05. (UEM PR) “Qualquer um está pronto a admitir que existe uma diferença considerável entre as percepções da mente, quando um homem sente a dor decorrente do calor excessivo, ou o prazer de um clima moderado, e quando ele traz de novo à sua memória, mais tarde, tal sensação, ou a antecipa em sua imaginação. Essas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos sentidos; mas elas não chegam jamais a alcançar a força e vivacidade do sentimento original.”

(HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano. In: MARCONDES, D. Textos básicos de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 103).

Considerando o fragmento transcrito, assinale o que for correto.

01. A memória de uma sensação não possui relação com a sensação percebida pelos sentidos.

02. A percepção da mente é uma imitação daquilo que procede dos sentidos.

04. A sensação na mente tem força sensível igual àquela produzida nos sentidos.

08. A memória produzida pelas sensações nos engana, pois cada experiência sensível é única.

16. A memória da sensação difere das percepções da mente, pois a memória é uma cópia das percepções sensíveis e não possui a força da sensação original.

06. (UFU MG) Quando olhamos em torno de nós na direção dos objetos externos e consideramos a ação das causas, não somos jamais capazes, a partir de um único caso, de descobrir algum poder ou conexão necessária, alguma qualidade que ligue o efeito à causa e torne um a consequência infalível do outro como, por exemplo, o impulso de uma bola de bilhar é acompanhado pelo movimento da segunda. Eis tudo o que se manifesta aos sentidos externos.

HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. In: Os Pensadores. Tradução: AIEX, A. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 76.

Considerando-se o excerto acima, segundo Hume, o que permite que o entendimento humano seja alcançado é a suposição de que as causas e os efeitos dos acontecimentos sejam conhecidos. Nesse sentido, é correto afirmar que esse conhecimento é consequência

a) da razão.

b) da causa.

c) do efeito.

d) do hábito.

A06 y René Descartes, John Locke e David Hume 49
E-C-C-E-C C-E-C-C-E E-C-E-E-C

W IMMANUEL KANT E A TEORIA DO CONHECIMENTO E ÉTICA

Teoria do conhecimento

ImmanueI Kant (1724-1804) nasceu em Konigsberg, na Alemanha. Teve uma longa e tranquila dedicada ao ensino e à investigação filosófica. Realiza uma brilhante síntese entre as filosofias racionalista e empirista, além de mudar completamente o foco da filosofia até então, a ponto de seu pensamento ser considerado como uma “revolução copernicana na filosofia”. Rejeita tanto o racionalismo quanto o empirismo exagerados, negando tanto as altíssimas possibilidades do primeiro quanto as imensas limitações impostas pelo segundo. Kant, para tal, defende uma tese que podemos encontrar no trecho abaixo.

“Que todo o nosso conhecimento começa com a experiência, não há dúvida alguma, pois, do contrário, por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser despertada para o exercício senão através de objetos que tocam nossos sentidos e em parte produzem por si próprios representações, em parte põe em movimento a atividade do nosso entendimento para compará-las, conectá-las ou separá-las e, desse modo, assimilar a matéria bruta das impressões sensíveis a um conhecimento dos objetos que se chama experiência? Segundo o tempo, portanto, nenhum conhecimento em nós precede a experiência, e todo ele começa com ela. [...] Mas embora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ele se origina justamente da experiência. Pois poderia bem acontecer que mesmo o nosso conhecimento de experiência seja um composto daquilo que recebemos por impressões e daquilo que a nossa própria faculdade de conhecimento (apenas provocada por impressões sensíveis) fornece de si mesma, cujo aditamento não distinguimos daquela matéria-prima antes que um longo exercício nos tenha tornado atento a ele e nos tenha tornado aptos à sua abstração. [...] Portanto, é pelo menos uma questão que requer uma investigação mais pormenorizada e que não pode ser logo despachada devido aos ares que ostenta, a saber se há um tal conhecimento independente da experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos. Tais conhecimentos denominam-se a priori e distinguem-se dos empíricos, que possuem sua fonte a posteriori, ou seja, na experiência”.

Do texto acima, algumas das principais ideias podem ser analisadas.

I. Experiência: conhecimento dos objetos, que se dá quando nosso entendimento compara, conecta ou separa, e desse modo assimila a matéria bruta das impressões sensíveis.

II. Função dos objetos:

III. Tese: O conhecimento de experiência é um composto do que recebemos por impressões (Hume) e daquilo que nossa própria faculdade de conhecimento fornece de si mesma (ultrapassagem da teoria de Hume).

x A priori: Conhecimento independente desta ou daquela experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos.

x A posteriori: Conhecimento que possui suas fontes tão somente na experiência.

FRENTE
50
FILOSOFIA MÓDULO 07 A PAS 3
KANT, I. Crítica da Razão Pura. In. Kant. Tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 53
Fonte:
Acesso
30 mar. 2015. Figura
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 23-25-26-27 2016 2017 2018 2019 54-55-75
<en.wikipedia.org>. em: 01 - Immanuel Kant.

Analisando melhor o trecho e agora relacionando as ideias dele tiradas, vemos que para Kant a experiência sensível não é algo passivo como para Hume, ou seja, não somos simplesmente afetados. O conhecimento é, assim, algo ativo, no qual nossas faculdades de conhecimento, que serão elencadas abaixo, impõe sim algo seu, e é nesse sentido que a experiência é um composto, e é com essa tese que Kant poderá ultrapassar os limites impostos por David Hume. Um tópico importante no pensamento kantiano é o que é denominado Revolução Copernicana na Filosofia. Nicolau Copérnico realizou, na física, uma mudança radical no foco de análise do universo. A teoria até então defendida era a do geocentrismo, ou seja, a Terra estava no centro e os demais astros giravam em torno da mesma. Este pensador afirma o heliocentrismo, isto é, o Sol está no centro e os demais planetas giram em torno dele.

Para Kant, o foco central da filosofia sempre foi voltado para o objeto a ser conhecido. Partia-se então, dogmaticamente, da ideia de que a faculdade de conhecimento possuía a capacidade de produzir informações sobre o que era estudado. A proposta desse filósofo é inovadora porque ele propõe que, antes que partamos ao conhecimento dos objetos, façamos uma análise da própria faculdade de conhecimento e de seus limites e possibilidades. Tal análise foi feita na obra Crítica da Razão Pura, na qual delineia de maneira detalhada como se dá o conhecimento. Esse se dá para o autor da seguinte maneira: como vimos no texto acima o primeiro passo é a sensação. Porém, diferentemente de Hume, o que será lançado na mente não é uma representação de sensação, mas do que Kant chama de intuição, que podemos definir como uma sensação que escolhemos em meio às várias que nos afetam ao mesmo tempo. A intuição é formada na faculdade chamada sensibilidade, que impõe à experiência sensível duas formas puras existentes nela mesma, que são espaço e tempo. A intuição, formada dessa maneira, é lançada no intelecto, que através das dez categorias de predicação, forma o conceito por meio de um juízo. As categorias citadas são: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, posse, ação, paixão. Sobre isso, vejamos uma passagem do próprio autor:

“Deve-se distinguir em cada conhecimento matéria, isto é, o objeto, e forma, isto é, a maneira como conhecemos o objeto. Por exemplo: se um silvícola vê de longe uma casa, cujo uso não conhece, tem, no entanto, representado diante de si precisamente o mesmo objeto que o que sabe tratar-se de uma morada edificada para o homem. Mas esse conhecimento de um só e mesmo objeto é, em caso e no outro, diverso pela forma: mera intuição, em um caso, intuição e conceito ao mesmo tempo, no outro”. (KANT, I. Manual dos cursos de lógica geral. Tradução e notas de Fausto Castilho. Uberlândia: EDUFU; Campinas: IFCH-UNICAMP, 1998, p. 47)

Todo conceito é emitido em forma de juízo, isto é, como dizia Aristóteles, de uma proposição do tipo S é P. Kant irá

diferenciar os tipos de juízos assim como diferencia os tipos de conhecimento. A primeira divisão se dá entre juízos analíticos e juízos sintéticos. Segundo o autor “juízos analíticos (os afirmativos) são, portanto, aqueles em que a conexão do predicado com o sujeito for pensada por identidade; aqueles, porém, em que essa conexão for pensada sem identidade, devem denomina-se juízos sintéticos”. Falando de forma mais simples, um juízo é analítico se o predicado for uma qualidade implicitamente contida no sujeito, como, por exemplo, quando afirmamos que um triângulo é uma figura de três lados. Um juízo é sintético quando a qualidade contida no predicado não faz parte do sujeito, mas lhe é acrescentada, como, por exemplo, quando afirmamos que Sócrates é inteligente, pois poderia muito bem ocorrer que ele não fosse. Os juízos sintéticos são também divididos em dois tipos: a priori e a posteriori. Um juízo é sintético a priori quando seu predicado acrescenta alguma informação ao sujeito, e a afirmação feita pelo mesmo não depende desta ou daquela experiência. Um exemplo deste tipo de juízo é a afirmação de que duas retas paralelas jamais se cruzam no espaço. É sintético porque o conceito de espaço ou de cruzamento não está contido implicitamente no sujeito. É a priori porque a afirmação feita não é procedente para esta ou aquela dupla de retas, mas para qualquer dupla de retas pensada em qualquer tempo. Tal conhecimento, portanto é universal e necessário, diferentemente do que pensava David Hume, e isso porque todos nós possuímos uma sensibilidade dotada de espaço e tempo e um intelecto que contém as dez categorias.

Ao conjunto destas faculdades de conhecimento Kant denomina sujeito transcendental, devemos entender transcendental no autor o que é anterior ou independente da experiência, diferentemente de transcendente, que é aquilo que está além da experiência sensível. Os juízos sintéticos a posteriori são aqueles nos quais o predicado acrescenta algo ao sujeito, porém a afirmação depende da experiência sensível.

Apesar de ultrapassar, consideravelmente, os limites do conhecimento impostos por David Hume, mostrando a possibilidade do conhecimento universal e necessário, Kant mostra, entretanto que nossa experiência possui uma limitação muito grande, qual seja: não é possível, através das faculdades de conhecimento acima citadas, conhecer a coisa em si, ou seja, o objeto como ele é nele mesmo. Isso se dá por causa da principal tese kantiana, a saber, de que a experiência é um composto, e não nos é possível chegar ao conhecimento do objeto em si mesmo, mas só como o mesmo se apresenta para nossas faculdades de conhecimento, e a isso o autor chama fenômeno.

A07 y Immanuel Kant e a teoria do conhecimento e ética 51

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (UEM PR) “Em todos os juízos em que for pensada a relação de um sujeito com o predicado (se considero apenas os juízos afirmativos, pois a aplicação aos negativos torna-se depois fácil), essa relação é possível de dois modos. Ou o predicado B pertence ao sujeito A, como algo que está contido (ocultamente) nesse conceito A; ou B encontra-se totalmente fora do conceito A, ainda que esteja em conexão com ele. No primeiro caso, denomino o juízo de analítico, no outro, de sintético.”

(KANT, I. Crítica da razão pura. In: MARCONDES, D. Textos básicos de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 119).

Com base nas ideias de Kant sobre juízos analíticos e sintéticos, assinale o que for correto.

01. Juízos analíticos, tais como “o triângulo tem três lados”, expressam a identidade entre sujeito e predicado.

02. Os princípios de nossas ações morais devem ser fundados em juízos sintéticos a priori teóricos, isto é, de validade universal e necessária.

04. De acordo com a definição de Kant, as proposições “todos os corpos ocupam lugar no espaço” e “todos os corpos são pesados” são juízos analíticos.

08. As proposições das ciências da natureza obtidas por meio da experiência, à medida que expressam conhecimentos verdadeiros sobre o mundo, podem ser juízos analíticos ou sintéticos.

16. A função do juízo analítico é elucidar aquilo que já está contido no conceito de algo, e nada acrescenta a esse conceito.

02. (UFU MG) Leia a citação a seguir.

A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha, continuem no entanto de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles.

KANT, I. Resposta à pergunta: que é “Esclarecimento”? (Aufklarüng). In: ______. Textos seletos. Tradução de Raimundo Vier. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 64.

A menoridade de que fala Kant é a condição daqueles que não fazem o uso da razão. Essa condição evidencia a ausência

a) do idealismo necessário para a ampliação dos horizontes existenciais.

b) da autonomia para fazer uso próprio da razão sem a tutela de outrem.

c) da religião encarregada de fazer feliz o homem indigente de pensamento.

d) da ignorância, pois quem se deixa guiar pelos outros acerta sempre.

03. “De que todo o nosso conhecimento comece com a experiência, não há a mínima dúvida; pois de que outro modo a faculdade de conhecer deveria ser despertada para o exercício, se não ocorresse mediante objetos que impressionam os nossos sentidos e em parte produzem espontaneamente representações, em parte põem em movimento a nossa atividade intelectual de comparar essas representações, conectá-las ou separá-las, e deste modo transformar a matéria bruta das impressões sensíveis em conhecimento de objetos, que se chama experiência? [...] Mas, ainda que todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ele origina-se da experiência.”

(KANT, I. Crítica da razão pura. In: MARCONDES, D. Textos básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 117).

A partir do texto citado, assinale o que for correto.

01. O conhecimento tem seu início na experiência sensível; isso não significa, todavia, que ele esteja preso à experiência e limitado por ela.

02. A faculdade de conhecer está em repouso e é despertada pela experiência sensível, sendo essa a fonte primeira do conhecimento.

04. As representações sensíveis das coisas são espontâneas e não precisam de qualquer interferência dos sentidos.

08. A faculdade de conhecer pode produzir conhecimentos por si mesma, visto que as impressões sensíveis não são a origem de todo o conhecimento.

16. A faculdade de conhecer opera sobre as representações das coisas advindas por meio dos sentidos e produz, assim, novos conhecimentos.

04. Analise os trechos abaixo.

“Se, porém, todo o conhecimento se inicia com a experiência, isso não prova que todo ele derive da experiência” (Crítica da Razão

Pura, B1) “Sem a sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado; sem o entendimento, nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas [...] Só pela sua reunião se obtém conhecimento”. (Crítica da Razão Pura, B75)

A respeito dos trechos, assinale a alternativa incorreta

a) Do debate que acompanhou a filosofia moderna entre os dogmáticos, sejam empiristas ou intelectualistas, sobre as fontes do conhecimento científico, Kant parece se posicionar em um “meio termo”, quando, de fato, muda os termos do problema

b) Kant parece aderir ao ceticismo quando recusa que nosso conhecimento alcance as coisas em si; estas, não podemos conhecer. Só podemos conhecer os objetos da experiência sensível, que são condicionados pela forma em que são recepcionados pela sensibilidade e pela forma em que são pensados pelo entendimento

c) Kant consegue assim conciliar o inatismo das ideias dos intelectualistas com os dados empíricos dos objetos fora da consciência, concedendo igualmente a ambos os lados da disputa dogmática

d) A Crítica da Razão Pura toma primeiramente intuições cegas para saber o que nos fornecem de antemão; após isto, toma pensamentos vazios para também deles saber o que fornecem, para extrair disso os limites e condições de toda experiência possível

e) Consideradas as coisas assim – do ponto de vista transcendental –, Kant salvaguarda os direitos da Metafísica em tomar os objetos para além da experiência, os mais dignos de serem pensados, como Deus, liberdade, alma, mas com esta restrição: só pensados, pois já não podem ser de modo algum conhecidos

05. (UnB DF) Assinale a opção correta acerca do Esclarecimento, movimento a que Kant faz referência em seus escritos.

a) Com esse movimento surge o sujeito do conhecimento, que é aquele que obedece aos seus superiores, subordinando sua razão à realização do bem coletivo.

b) O Esclarecimento foi o primeiro movimento da história do Ocidente a conceber o ser humano como o centro do universo, idealizando-o como artífice do seu próprio destino.

c) O Esclarecimento consolidou-se no século XVIII, razão pela qual Kant acreditava que, à sua época, os seres humanos já se encontravam emancipados.

d) A razão e a liberdade dos homens eram consideradas por esse movimento condições para o aperfeiçoamento da humanidade.

Filosofia 52 | PAS 3
C-E-E-E-C C-C-E-C-C

W MAQUIAVEL, HOBBES, LOCKE, ROUSSEAU E MONTESQUIEU

Nicolau Maquiavel

Nicolau Maquiavel (1469-1527) nasceu na Itália e é considerado o fundador do pensamento político moderno. Foi diplomata e conselheiro dos governantes de Florença, e viu a ascensão da burguesia comercial nas grandes cidades, assim como a fragmentação da Itália. Vendo a vida política assim fragmentar-se, Maquiavel funda um novo tipo de pensamento político, negando o que se havia dito e feito até então. Nesse sentido, nega um fundamento anterior e exterior à política, como a natureza, no caso de Aristóteles, ou alguma influência divina, no caso dos teólogos medievais.

O autor não aceita também a ideia de uma boa comunidade política, voltada para o bem comum. Ao contrário, enxerga a sociedade em constante tensão, causada pelos interesses opostos daqueles que oprimem, e assim querem continuar, e os que são oprimidos, e não podem aceitar de bom grado essa condição. A principal finalidade da política seria, assim, a tomada e manutenção do poder, o que só pode ocorrer se o governante consegue dar a essa formação, a princípio sem objetivos comuns, uma identidade. Consequentemente, a verdadeira virtude do príncipe não deve pertencer àquele conjunto ditado pela igreja, mas a virtù principesca deve ser a competência política. É por isso que Maquiavel afirma que:

“Assim, deve o príncipe tornar-se temido, de sorte que, se não for amado, ao menos evite o ódio, pois é fácil ser, a um só tempo, temido e não odiado, o que ocorrerá uma vez que se prive da posse dos bens e das mulheres dos cidadãos e dos súditos, e, mesmo quando forçado a derramar o sangue de alguém, poderá fazê-lo apenas se houver justificativa apropriada e causa manifesta”.

(MAQUIAVEL,

Sendo o governante uma figura competente, ele será capaz de enfrentar todas as situações que a sorte (fortuna) lhe trouxer. Vale ressaltar que a Fortuna, na mitologia grega, é uma deusa, ser feminino, que como tal, deve ser conquistado, pois não se entrega facilmente a alguém. O príncipe deve, assim, ter a capacidade de conquistar momentos promissores para o sucesso de seu governo, além de ter a mestria necessária para ultrapassar aqueles que não se apresentem nessa configuração. Livre dos imperativos das virtudes cristãs, o ideal seria que o governante unisse a força, característica do leão, à astúcia, característica da raposa, ou seja, fazer uso da violência, que é uma prerrogativa de quem governa, com toda inteligência necessária para, como foi dito acima, evitar o ódio dos súditos. Vale ressaltar que virtù e fortuna são as duas condições para o sucesso de um governo. Ao usar como exemplo Moisés, líder hebreu, como figura que possuía valor para estar à frente de uma comunidade política, Maquiavel não deixa de evidenciar que todo esse valor, sem uma ocasião apropriada para ser demonstrado, não conduziria à tomada do poder. Daí a necessidade da simultaneidade entre o valor do líder e uma ocasião apropriada.

Maquiavel não defende a monarquia, ou qualquer outro regime político, mas afirma que qualquer regime é legítimo se garante a liberdade dos súditos. Nesse sentido, afirma que o governante jamais deve se aliar aos poderosos, mas sempre ao povo, pois os poderosos são seus concorrentes. Além disso, denuncia a corrupção política, afirmando que um dos principais fatores que despertam o ódio do povo é a sua espoliação por parte de seus governantes. A grande ruptura realizada pelo autor com relação principalmente ao pensamento antigo é a separação que faz entre ética, compreendida em seu sentido mais genérico, e política. Não é que não exista uma moralidade na política, mas ela possui sua lógica própria, muitas vezes distinta das demais relações sociais. Para os gregos seria inconcebível um político sem virtudes, enquanto para Maquiavel a única função da política é, como já foi visto, a tomada e a manutenção do poder, o que envolveria a preocupação do governante em conduzir da melhor maneira possível o convívio social, talvez não sendo bom no sentido moral da palavra, mas competente para equilibrar os interesses divergentes presentes no corpo social.

FRENTE FILOSOFIA MÓDULO 08 A PAS 3 53
N. O Príncipe. In. Maquiavel. Tradução de Olívia Bauduh. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 106-107)
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
NÃOHÁITENS RECORRENTES

Thomas Hobbes

Thomas Hobbes (1588-1679) nasceu em aldeia inglesa chamada Westport. Utilizando como pressuposto que “todo ser luta para conservar-se, isto é, evitar a morte”, e discordando de Aristóteles, que afirmava serem os homens sociáveis por natureza. Hobbes, assim como Maquiavel, funda um pensamento político baseado no mundo material. A sociabilidade dada aos homens por Aristóteles custa-lhes a igualdade, ou seja, só é sustentada por serem considerados uns superiores aos outros por natureza. Como para Hobbes todos são iguais por natureza, possuindo todos nessa condição direito apenas à vida e à liberdade, não se contentando nenhum em ser servo do outro, surge um estado de natureza marcado pela guerra de todos contra todos. Daí surge a famosa frase que afirma que “o homem é o lobo do homem”. Vejamos, nas palavras do próprio autor, como ele imaginou o estabelecimento do Contrato Social que deu origem ao Estado (Leviatã - Monstro bíblico). Para ele, a única maneira que os homens tiveram para instituir, entre si, um poder comum era:

“[...] conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade [...] é como se cada homem dissesse a cada homem [...] transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este Homem, ou a esta Assembleia de homens, com a condição de transferires a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. [...] Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa chama-se Estado [...] É esta a geração daquele grande Leviatã [...] ao qual devemos [...] nossa paz e defesa. Pois graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz em seu próprio país, e da ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros. É nele que consiste a essência do Estado, o qual pode ser assim definido: uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum. Àquele que é portador dessa pessoa se chama Soberano, e dele se diz que possui poder soberano. Todos os restantes são súditos”.

já citado estado de guerra de todos contra todos, denominado de estado de natureza. Essa criação é humana, e aí o motivo da discordância com Aristóteles. Sendo o Estado uma criação humana, nega-se a naturalidade aristotélica, e atribui-se a ele artificialidade, no que irão concordar os demais contratualistas. Vimos no texto também, que para Hobbes o soberano é o monarca, isto é, o depositário da confiança do povo, podendo este fazer o que considerar melhor, e inclusive utilizar a força, para manter a paz. Tal poder é incontestável e indivisível, sendo assim, absoluto. Podemos considerar então o autor um defensor do absolutismo.

Nota-se, então, pelas palavras do próprio autor que a sociedade civil, na qual viviam os homens de seu tempo, só poderia ter sido gerada por um pacto entre os homens. O motivo pelo qual os indivíduos buscam o referido acordo também são elencados do texto, quais sejam: a paz e a defesa. Os homens, através da instituição do Estado, abdicam de sua liberdade individual em prol de uma liberdade artificial, para saírem do

É importante, no entanto, que não se confunda monarquismo com absolutismo. Hobbes não é um defensor do monarquismo, o que se vê claramente na citação a seguir:

A única maneira de instituir um poder comum entre os homens, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros (...) é conferir toda sua força ou poder a um homem ou a uma assembleia de homens que possa reduzir suas diversas vontades (...) a uma só vontade. Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado.

HOBBES, T. Leviatã. Col. “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1970.

O Estado pode, assim, ser governado por um só homem ou por um grupo, desde que não exista divisão de poder, como encontramos atualmente na maioria dos países do planeta (executivo, legislativo e judiciário). Apesar de aventar a possibilidade de formas de governo diversas, Hobbes acaba por apresentar a monarquia como a mais adequada, pelo fato de nela confluírem a vontade individual, do Rei, com a vontade pública, dos súditos, de forma mais eficiente. A forma aristocrática, e mesmo a presença de eleições para a escolha de quem governa de forma soberana, não são excluídas pelo autor. Leviatã é um monstro bíblico, e no frontispício da primeira edição da obra ele aparece gigantesco, com o corpo formado por inúmeros corpos humanos, que representam a coletividade, com o cetro em uma mão (poder) e a espada na outra (força). É importante lembrar que quem transferiu tais

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HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado Eclesiástico e Civil. In. Hobbes. Tradução de João Paulo Monteira e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 144. Fonte: <htt p://upload.wikimedia.org/>. Acesso em: 15 jun. 2016. Figura 01 - Thomas Hobbes

objetos simbólicos para o Estado, em função do pacto, foram os próprios súditos, o que consiste em outro fundamento, não religioso e nem natural, para o poder político. Assim como em Maquiavel, aqui se encontra uma concepção de Estado ligada intimamente à força física.

Curiosidade

Sabe-se que esta imagem é uma gravura encomendada por Hobbes ao desenhador alemão Wenceslaus Hollar, para o frontispício da 1ª edição do Leviathan. A conformidade do desenho ao conteúdo da obra é de tal maneira grande, que se torna impossível não concluir que o filósofo dera ao artista indicações muito precisas.

res que surgem no topo de cada uma das respectivas colunas constituem uma ameaça recíproca. O castelo e a catedral são duas conchas fechadas, dois símbolos entre os quais não é possível a síntese. Daí, a necessidade de a narrativa do político passar a uma outra dimensão, na qual tanto o poder espiritual como o poder temporal irão ser subsumidos pelo poder soberano, em termos, porém, que escapam ao domínio da razão e se perdem na mitologia.

Passemos então à parte superior da gravura. Aqui, logo em primeiro plano, está uma catedral, no meio de uma cidade amuralhada, tranquila e geométrica como só as cidades utópicas. Nos arredores, há mais igrejas, casas, campos cultivados e estradas. Ao fundo, emerge um corpo gigantesco, ocupando de tal modo a cena que todos os outros elementos da gravura se tornam quase insignificantes. O gigante não está implantado na paisagem, está para além, surge inesperadamente, à semelhança do Cristo ressuscitado de muitas representações medievais, ou do Pantokrátos da teologia bizantina. Se tivermos em conta que o seu nome é Leviatã e que o leviatã é um peixe mitológico, compreender-se-á a sua estranha inscrição no espaço da gravura. Ele está como se viesse de além da terra, e tem, a encimá-lo, em jeito de legenda, uma frase tirada do livro de Job, 41, 24: non est potestas super terram quae comparetur ei (não existe sobre a terra poder que se lhe compare). Nas mãos, ele ostenta, não a espada e o cetro, como é costume nos retratos dos reis, mas a espada e o báculo episcopal, para que fique claro que é tanto poder civil como poder eclesiástico, tanto poder temporal como poder espiritual, não restando nada fora da sua ordem jurídica.

O desenho ocupa um espaço retangular que se divide, sensivelmente a meio, em duas partes, uma em cima, outra em baixo. A metade inferior subdivide-se, por sua vez, em três colunas verticais. A do meio tem o título, o subtítulo, o nome do autor, o local e a data da edição. Quanto às laterais, a da esquerda apresenta uma sucessão de vinhetas, cada uma delas com o seu motivo: na primeira a contar de baixo, vê-se uma batalha. Nas seguintes, vemos sucessivamente um conjunto de armas e estandartes, um canhão, uma coroa e, por fim, um castelo. Há, portanto, ao longo da coluna, um movimento ascensional que vai da guerra à sua superação mediante a força e a autoridade do monarca. O mesmo se passa, em termos rigorosamente simétricos, no plano espiritual, representado na coluna da direita: em baixo, assiste-se a uma discussão entre teólogos. Logo a seguir, vem um cacharolete com vários tipos de argumentos que se usam nas controvérsias; depois, surgem raios celestes, uma mitra de bispo e, finalmente, uma catedral. Quer no plano físico, ou no plano espiritual, parte-se de uma base de conflitualidade, violência e anarquia, a qual se abandona progressivamente, à medida que vão surgindo sinais de força e poder. Tratando-se, porém, de dois planos não apenas distintos como virtualmente conflituais, os pode-

Texto de Diogo Pires Aurélio é professor de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa. Disponível em: http://revistaestudospoliticos.com/a-soberania-como-vontade-e-como-representacao-por-diogo-pires-aurelio/ (adaptado) Acesso: 28/05/2015.

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Fonte: <http://2.bp.blogspot.com/>. Acesso em: 15 jun. 2016.
Fonte: <https://s-media-cache-ak0.pinimg.com>. Acesso em: 15 jun. 2016.

John Locke (1632-1704) é considerado um dos pais da teoria chamada Liberalismo, por causa de sua defesa explícita à propriedade privada. Tal defesa é fundamentada com a introdução de um direito do homem no estado de natureza, além dos já citados por Hobbes à vida e à liberdade, quando afirma em sua obra Segundo Tratado sobre o Governo: “consideremos a razão natural, que nos diz terem os homens, uma vez nascidos, direito à própria preservação, e, consequentemente, à comida e à bebida e a tudo quanto a natureza lhes fornece para a subsistência [...]”. É óbvio que para assegurar o direito à vida o homem deveria necessariamente se apropriar dos meios necessários para sobreviver, mas ao enfatizar esse fator, Locke introduz a propriedade privada como direito natural, tendo fundamento, como ele mesmo afirma, pelo trabalho realizado pelo homem em busca da sobrevivência, no que afirma que “seja o que for que ele (o homem) retire do estado que a natureza lhe forneceu e no qual o deixou, fica-lhe misturado ao próprio trabalho, juntando-se-lhe algo que lhe pertence, e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele”.

Mas apesar de fundamentar a propriedade privada com a noção de trabalho, o autor tem que, através do estudo, ir impondo limites à mesma e transpondo-lhes, para ver até que ponto pode o homem acumular. O primeiro limite imposto é o do desperdício, ou seja, já que tudo foi criado para os homens em comum, não é permitido a nenhum homem acumular bens perecíveis além do que possa consumir, pois que estes podem vir a fazer falta para os outros, caso se percam. Tal limite, da perecividade, é superado com a invenção da moeda, valor de troca que o homem pode acumular sem que se perca. Outro limite para o acúmulo é, evidentemente, relativo às próprias limitações físicas do ser humano, ou seja, alguém só pode acumular o quanto possa colher. Tal limite é transposto com a introdução da noção de trabalho alienado, defendida sob o ponto de vista de que a primeira propriedade a que todos têm acesso é à do próprio corpo, o qual o mesmo possui o direito de alienar a outrem, vendendo assim sua força de trabalho. Ultrapassam-se assim todos os limites para o acúmulo de bens.

É importante lembrar que tudo que foi dito acima corresponde ao estado de natureza, no qual, para o autor, os homens vivem em certa harmonia, guiados pela razão. O papel do Contrato Social, para Locke, não possui assim papel tão decisivo quanto na teoria de Hobbes. Nas palavras do primeiro:

“Sendo os homens, [...] por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com

as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela”.

O papel do Estado, fundado pelo contrato firmado entre os homens, assim, é o de legitimar os direitos já existentes no estado de natureza. Nesse sentido, a soberania não se encontra mais nas mãos dos poderosos, que encontram como limite para o exercício do poder a individualidade dos homens, e seu direito de acumular sem a interferência do Estado. Esse possui somente a função de assegurar a qualidade de vida dos membros da sociedade civil, dando-lhes educação, saúde e segurança. Tal modelo de Estado é ainda o que funciona no Brasil. Por exemplo, os governantes não possuem o direito de se intrometer na individualidade dos cidadãos, salvo por ordem judicial.

Dos três filósofos contratualistas que estamos estudando, somente Locke fala de direito à insurreição, ou seja, à derrubada de algum governante que não esteja agindo segundo o consenso a que chegaram os cidadãos. Tal direito só é possível devido à tripartição do poder defendida por Locke, pois, dessa maneira, é possível destituir o governante do poder sem dissolver o Estado, como fica evidenciada na passagem abaixo:

Locke divide o poder do governo em três poderes, cada um dos quais origina um ramo de governo: o poder legislativo (que é o fundamental), o executivo (no qual é incluído o judiciário) e o federativo (que é o poder de declarar a guerra, concertar a paz e estabelecer alianças com outras comunidades). Enquanto o governo continuar sendo expressão da vontade livre dos membros da sociedade, a rebelião não é permitida: é injusta a rebelião contra um governo legal. Mas a rebelião é aceita por Locke em caso de dissolução da sociedade e quando o governo deixa de cumprir sua função e se transforma em uma tirania.

Jean-Jacques Rousseau

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra, na Suíça, transferindo-se para a França em 1742, onde escreveu suas grandes obras. Além de escritos de Filosofia, o autor escreveu romances, e até mesmo uma obra sobre pedagogia, chamada Emílio. Vejamos, entretanto, o que pensou o autor sobre o surgimento da Sociedade Civil.

“O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se es-

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LOCKE, J. Segundo Tratado sobre o governo. In: Locke. 3.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Coleção Os Pensadores. LOCKE, John. In: MORA, J. F. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2001. V.III. p. 1770.

quecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém.”

Com base no trecho, podemos tecer as primeiras comparações com relação às teorias dos dois autores anteriores. Contrastando Rousseau com Locke, podemos ver uma diferença significativa, que também Locke mantém com Hobbes. Para Rousseau, assim como para Hobbes, a propriedade privada não é um direito natural. Somente Locke o acrescenta aos direitos de vida e liberdade. A propriedade, porém, é elemento importantíssimo para o entendimento do pensamento de Rousseau, pois o mesmo atribui a seu surgimento a responsabilidade pela criação da sociedade civil. É porque passa a existir propriedade que surge a necessidade da criação, por meio de um contrato, de uma sociedade artificial.

Para Rousseau, a instituição da propriedade é a causadora, como vimos, das desavenças entre os homens, que não existiam no estado de natureza. É aí que aparecerá um estado parecido com o que Hobbes denomina estado de guerra, assim como a necessidade da passagem para a sociedade civil, por meio do contrato. Para o autor, a teoria hobbesiana está equivocada, pois: “Vivendo em sua primitiva independência, não mantêm entre si uma relação suficientemente constante para constituir quer o estado de paz quer o de guerra, os homens em absoluto não são naturalmente inimigos”.

que acontece com os demais. Tal sentimento é importante para o tipo de Estado defendido pelo autor, a democracia, já que tal modelo exige que os indivíduos, ao realizarem escolhas, consigam se colocar no lugar de outros que serão atingidos por elas. Mas como o surgimento da propriedade inicia um novo estado de coisas, forçando a passagem para a sociedade civil, o contrato passa a ser necessário. Sobre o mesmo, o autor afirma:

“Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece, contudo a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto antes. Esse, o problema fundamental cuja solução o contrato social oferece”.

Assim o autor nega ser o homem lobo do próprio homem, e funda o que grosseiramente se denomina a teoria do “Bom Selvagem”, acreditando na existência de um sentimento de compaixão ou piedade no ser humano, que consiste em uma capacidade que os homens possuem de se importar com o

A liberdade na sociedade, porém, não pode mais ser considerada natural, visto que a associação é algo artificial. Trata-se, pois do que se chama liberdade civil, a qual coloca a todos em pé de igualdade. A soberania para o autor, visto que o Estado surge por meio de um consenso entre os homens, encontra-se nas mãos do povo. O soberano é a vontade geral que, por sua vez, não pode ser confundida com a vontade de todos. A vontade geral é fruto de um consenso a que chegam os membros de uma associação, podendo alguns discordar da mesma, estando, porém, obrigados a acatá-la pela própria natureza do acordo.

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ROUSSEAU, J-J. Do contrato Social. In. ROUSSEAU II. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 87.
Fonte: <http://upload.wikimedia.org/>. Acesso em: 15 jun. 2016.
Figura 02 - Jean-Jacques Rousseau
Fonte: <historicamenteincorrecto.files.wordpress.com>
ROUSSEAU, J-J. Do contrato Social. In. ROUSSEAU. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 69.
Acesso em: 15 jun. 2016.

É importante mencionar outro aspecto da filosofia de Rousseau, pois antes de escrever discursos sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e o do Contrato Social, já havia manifestado seu pessimismo em relação ao progresso social, fato que fica manifesto na seguinte pass agem:

“Antes que a arte polisse nossas maneiras e ensinasse nossas paixões a falarem a linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos, mas naturais e a diferença dos procedimentos denunciava, à primeira vista, a dos caracteres. No fundo, a natureza humana não era melhor, mas os homens encontravam sua segurança na facilidade para se penetrarem reciprocamente, e essa vantagem, de cujo valor não temos mais a noção, poupava-lhes muitos vícios.”

ROUSSEAU, J.J. Discurso sobre as ciências e as artes. Trad. de Lourdes Santos Machado. 3 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 336. Coleção “Os Pensadores.”

Percebemos no texto a cima que Rousseau tece uma crítica aos avanços trazidos pelas ciências e artes, visto que os mesmos trouxeram vícios antes inexistentes, os quais asseveraram não só o individualismo em busca da propriedade, mas também causaram desigualdades sociais não só de cunho econômico, mas também cultural, intelectual e até nos modos de se “portar” na sociedade. Em outros termos, ao impor padrões criados externamente e artificialmente, acabaram contribuindo para o declínio e corrupção da n atureza humana.

Quadro comparativo

Conceitos THOMAS HOBBES

“O homem é o lobo do próprio homem”.

JOHN LOCKE

Legitima a propriedade privada como direito natural.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU

“O bom selvagem”.

Estado de natureza

Motivo para o contrato (pacto)

Período prévio ao Estado político ou sociedade civil. Caracterizado pela “guerra de todos contra todos”

Período prévio ao Estado político ou sociedade civil. Caracterizado por uma relativa harmonia devido à racionalidade humana.

Período prévio ao Estado político ou sociedade civil. Caracterizado por uma harmonia devido à ingenuidade do homem em seu estágio mais primitivo.

Contrato

O homem visa naturalmente à autopreservação de sua vida. Logo, percebe a condição miserável em que se encontra e busca a paz no Estado.

O indivíduo abdica TOTALMENTE do direito de se governar e o transmite, espontaneamente, ao governante.

Direitos naturais - Vida / segurança - Liberdade.

Violação ao direito natural à propriedade privada, o que gera a “guerra de todos contra todos”.

O indivíduo abdica PARCIALMENTE do direito de se governar e o transmite ao governante.

- Vida / segurança - Liberdade

- Propriedade privada

Surgimento da concepção propriedade privada, a qual gera o individualismo no homem e, consequentemente, a “guerra de todos contra todos”.

O indivíduo NÃO abdica do direito de se governar, pois o governante é um representante da vontade do povo. Mas abdica de sua liberdade irrestrita em prol do todo.

- Vida / segurança - Liberdade.

Estado Absoluto / absolutista Liberal Democrático

Soberania Governo Legislativo.

* Locke divide o poder em 3: legislativo, executivo e federativo

Povo

Observações

“O pacto sem espadas não passa de palavras”. O uso da força é necessário, mas só o Estado pode fazê-lo para garantir os direitos dos cidadãos.

Para Locke é possível destituir um governante sem dissolver o Estado. A esse direito ele nomeou insurreição.

Crítica à polidez gerada pelo avanço das ciências e artes. “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”.

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Montesquieu

Charles Montesquieu, ou barão de Montesquieu, o filósofo, cientista político e escritor francês Charles-Louis Secondat nasceu em 18 de Janeiro de 1689 em La Brède, na França, e foi um dos grandes precursores do pensamento iluminista.

Filho de uma família que tinha negócios com vinho, ele foi criado no luxuoso Castelo de La Brède e teve o ensinamento básico em casa. Ingressou no Colégio Juilly aos 11 anos e teve os contatos iniciais com a filosofia iluminista, que tinha uma maneira peculiar de analisar a ciência, religião, política e a sociedade. Foi após casar-se com uma rica protestante, que herdou o título de Barão de Montesquieu e ficou responsável pela Câmara de Bordeaux, para resolver questões jurídicas da região. Enquanto exercia a presidência da Câmara, resolveu estudar a fundo as áreas do direito romano, biologia e geologia, usando as ciências naturais como metáforas para explicar as ciências humanas em seus artigos e teses acadêmicas.

Foi em sua obra magna, Do espírito das leis que escreveu sobre a natureza das leis, liberdade, formas de governo e a tripartição do poder. Passemos então à análise da forma como Montesquieu aborda estes quatro tópicos.

x Empíricas, pois levam em conta os aspectos elencados acima, ou seja, trata-se de leis estabelecidas a partir da consciência e conhecimento acerca de determinada sociedade. Montesquieu condena as tentativas de se estabelecer normas abstratas ou mesmo a priori por serem universais e não levarem em conta as peculiaridades de cada sociedade

Do que falamos até aqui, fica notório que Montesquieu coloca as leis como princípio para a manutenção da liberdade, as quais devem estar de acordo com vários aspectos de cada sociedade, dentro os quais elencamos a forma e natureza do governo das mesmas. Ele diz que existem três formas de governo, que são:

x Republicano , que é aquele em que o poder soberano pertence total ou parcialmente ao povo. Esta forma de governo é fundada na virtude, pois como o poder é do povo o mesmo deve estar consciente de que suas decisões recaem sobre si também, devendo suportar o peso da decisão ou da lei. Contudo, quando o poder soberano pertence totalmente ao povo caracteriza, de certa maneira, uma forma corrupta de república, pois muitos se perdem na ambição e na avareza. Por isso, a soberania deve estar nas mãos de poucos, os mais aptos e virtuosos que governariam.

x Monárquico, que é aquele em que o poder soberano pertence a apenas um governante. Essa forma de governo está fundada na honra e lealdade, as quais se norteiam segundo leis fixas e imutáveis. Como quem governa está acima dos demais o principio da igualdade extremada é deixado de lado e todos se submetem a autoridade do governante. Porém, caso este torne seus súditos escravos, fica caracterizada a corrupção da monarquia.

Segundo Montesquieu as leis devem ser:

x Positivas, pois ao contrário do que muitos pensam, elas garantem a liberdade do indivíduo e não a limitam. Tal fato ocorre porque são as leis que garantem os direitos e exigem os deveres dos indivíduos de uma sociedade e, para tanto, garante a segurança de todos para que possam usufruir de sua liberdade sem o temor do outro.

x Relativas, porque devem levar em conta aspectos como história, religião, cultura, tradições e até clima. Dessa forma as leis variam de acordo com a sociedade. A imposição de padrões preestabelecidos a todos as sociedades seria uma forma corrupta de aplicação das leis, pois subverteria a sua própria função, qual seja: garantir a liberdade.

x Despotismo, que é aquele em que o poder soberano pertence a apenas um homem, que governa segundo sua vontade. Essa forma de governo está fundada no medo, pois com o imenso poder do rei é passado àqueles em que ele confia, mas se estes se julgarem capazes de cuidarem-se de si mesmos podem gerar revoluções. Dessa forma, o medo traria maior segurança ao rei e ao seu governo, visto ser necessário, pela amplitude do poder, ter pessoas que o auxiliem, mas que se submetam sem a possibilidade de revoltas. Para Montesquieu, o despotismo é uma forma de governo corrupta por natureza.

Como todas as formas de governo podem se corromper e acabar privando os indivíduos de sua liberdade, Montesquieu, a exemplo de John Locke, diz ser necessária a divisão do poder, uma condição para a liberdade, visto que “o poder detém o poder”, isto é, o poder controla, vigia a si mesmo, como se houvesse uma autorregulação para que nenhum dos poderes se corrompa. Ele divide o poder em:

x Legislativo: cria, altera e extingue as leis de acordo com as necessidades do Estado para a garantia da liberdade.

x Executivo : garante a segurança, “faz guerra ou paz”, envia e recebe embaixadores e previne invasões.

x Judiciário: julga, condena ou absolve e executa a pena segundo cada causa partic ular entre os indivíduos.

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Fonte: <http://cmapspublic.ihmc.us/>. Acesso em: 15 jun. 2016.

Enfim, tudo o que foi dito girou em torno do que era necessário para garantir a liberdade, a qual Montesquieu define como: “Querer fazer tudo aquilo que se deve querer fazer e não o que se é obrigado a querer fazer”. Em outros temos, o homem livre, por entender a importância das leis as segue

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. (UEM PR) “Os homens, em geral, julgam mais com os olhos do que com as mãos, mais pelas aparências, porque se veem todos e se conhecem poucos; todos veem aquilo que tu pareces ser, poucos conhecem aquilo que tu és; e aqueles poucos não se atrevem a opor-se à opinião dos muitos que têm o poder do Estado para os defender; e nas ações de todos os homens, sobretudo na dos príncipes, quando não há juiz para quem reclamar, se olha para os fins. Faça tudo, portanto, um príncipe para vencer e conservar o estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos serão louvados, porque o vulgo se deixa levar por aquilo que parece e pelo resultado das coisas ...” C-C-E-C-C (MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Hedra, 2009, p. 181-183). Considerando o fragmento transcrito, assinale o que for correto.

01. Para Maquiavel, cabe ao governante atentar para os efeitos de suas ações, visto que as pessoas julgam em função dos resultados alcançados.

02. Para Maquiavel, a ação política é avaliada, em grande parte, pela aparência dos resultados, e não pelo que de fato é.

04. Para Maquiavel, um governante não deve se preocupar com o juízo que a população faz de seu governo, pois ela é composta, em sua maioria, por ignorantes.

08. Para Maquiavel, os poucos que conhecem os mecanismos do poder político e têm o poder de julgar evitam contrariar a maioria, julgando conforme o gosto popular, e não conforme o que é correto.

16. O fragmento revela que, para Maquiavel, o poder político de um governante se apoia em muito sobre a opinião que o povo possui dele e sobre os efeitos de suas ações de governo.

02. (UFU MG) “Deveis saber, portanto, que existem duas formas de se combater: uma, pelas leis, outra, pela força. A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vezes a primeira não é suficiente, é preciso recorrer à segunda. [...] um príncipe obrigado a bem servir-se da natureza dos animais deve dela tirar as qualidades da raposa e do leão, pois este não tem defesa alguma contra laços, e a raposa, contra os lobos. Precisa, pois, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Os que se fizeram unicamente leões não serão bem sucedidos”.

espontaneamente, ou seja, por livre vontade. Contudo, aquele que as segue por imposição ou medo da coerção continua submisso e não é totalmente livre. Ser livre é “fazer tudo o que a lei permite”, mas não por mera obrigação, mas pela consciência da importância de fazê-lo.

d) penalizando materialmente o traidor de modo que atinja toda a coletividade.

04. (UnB DF) Relativamente ao contexto histórico em que Maquiavel produziu sua obra, o início da Idade Moderna na história ocidental, assinale a opção correta.

a) Obras como O Príncipe também cumprem o objetivo de justificar a centralização do poder em mãos do monarca no quadro de crise que abalou as estruturas feudais de poder.

b) Maquiavel tornou-se o mais importante teórico do absolutismo real justamente por defender a tese de que o poder real não pode ser contestado, por ter origem divina.

c) Opondo-se frontalmente a Maquiavel, Thomas Hobbes escreveu um livro que se tornou célebre, O Leviatã, no qual propõe mecanismos de representação política da sociedade para limitar o poder do Estado.

d) A formação das monarquias nacionais centralizadas representou uma vitória da nobreza feudal que, tendo perdido força econômica, voltou-se para o controle político do Estado, relegando o rei a posição secundária.

05. Os conceitos de “virtù” e “fortuna” são desenvolvidos por Maquiavel na obra O Príncipe. A “virtù” e a “fortuna” são atributos indispensáveis para o governante na constituição e manutenção dos principados.

Sobre o pensamento político de Maquiavel em O Príncipe, é correto afirmar.

a) Ao propor uma espécie de diretriz para os futuros príncipes, Maquiavel se nega a retomar os exemplos de boas organizações políticas do passado. Somente a partir do domínio da contingência, analisando cada situação particular, é possível saber qual é a melhor decisão a ser tomada.

b) Maquiavel defende que o príncipe deve governar com a finalidade de manter a ordem e a harmonia interna dos principados. Nesse sentido, a criação de novas leis é bem recebida pelos indivíduos, que percebem e aceitam a necessidade da constituição de um melhor arranjo político.

c) O príncipe deve agir de maneira prudente e conscienciosa a fim de manter seus súditos sob o seu controle. Entre ser amado e temido, é preferível que o príncipe seja temido, pois os homens são covardes e inclinados à traição e somente o amor, que também é necessário, mas não suficiente, não garante a estabilidade do principado e a segurança do governante.

Conforme o excerto acima, conclui-se que, para Maquiavel,

a) quem governa deve usar a astúcia e a força.

b) somente a força é o bastante para governar.

c) somente as leis bastam para bem governar.

d) a raposa significa a força e o leão, a astúcia.

03. (UnB DF) De acordo com Maquiavel, o príncipe, em caso de traição, deve agir com crueldade,

a) penalizando materialmente apenas o traidor.

b) instituindo a pena de prisão de modo que atinja apenas o traidor.

c) instituindo a pena de prisão de modo que atinja toda a coletividade.

d) O governante muitas vezes é odiado pelos seus súditos e a causa do desafeto está na prática covarde e violenta na usurpação dos bens particulares. Embora o príncipe deva ser prudente, não é necessário que tenha grandes preocupações sobre a sua reputação, pois a força e a coerção das leis devem necessariamente garantir o cumprimento das leis do estado em qualquer circunstância.

e) O príncipe não deve tomar partido de terceiros, nem mesmo defender vigorosamente seus súditos. A gratidão daqueles que estão sob o poder do Estado não é garantia de manutenção do poder. O que garante a coesão interna do Estado é conjunto de leis forjadas pelo príncipe a despeito da vontade dos governados.

Filosofia 60 | PAS 3
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Trad. XAVIER, L. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

06. (UEM PR) O filósofo inglês Thomas Hobbes elaborou sua filosofia política com a intenção de mostrar como a constituição do Estado pelos indivíduos estabeleceria a paz e cessaria o que ele chamou de o “estado de guerra de todos contra todos”. Ele afirmou que: “A única maneira de instituir um tal poder comum, capaz de os defender das invasões dos estrangeiros e dos danos uns dos outros, garantindo-lhes uma segurança suficiente para que, mediante o seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir todas as suas vontades por pluralidade de votos, a uma só vontade.”

HOBBES, T. Leviat㸠XVII, apud FIGUEIREDO, V. B. (org.) Seis filósofos na sala de aula, v. 2. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, p. 57. Sobre a filosofia política de Hobbes, assinale o que for correto.

01. A noção de “estado de guerra de todos contra todos” proposta por Hobbes concorda com a definição de Aristóteles de que o homem é um “animal político”.E

02. O Estado concebido por Hobbes é representativo, isto é, cada cidadão se reconhece como autor dos atos que o governante pratica em nome de todos os governados.C

04. O soberano não pode estar sujeito às leis civis, pois, se estivesse, seria necessário um juiz, acima do soberano, que pudesse julgá-lo.C

08. As vontades de todos os cidadãos devem ser reduzidas à vontade única do soberano. Hobbes não admite a divisão entre os poderes executivo, legislativo e judiciário, como ocorre nos Estados democráticos modernos.C

16. Para Hobbes, a justiça consiste no cumprimento do pacto estabelecido pela comunidade, e não há nada que seja naturalmente justo ou injusto.C

07. (UEM PR) Considere os trechos selecionados abaixo.

Texto 1:

“Todavia, mais do que para qualquer outro animal, é natural para o ser humano ser um animal social e político, ou seja, viver junto a muitos, como o demonstra a necessidade natural. Com efeito, no caso dos demais animais, a natureza preparou-lhes a comida; como vestimento, proveu-os de pelos; [...]. Mas a natureza não dotou o ser humano dessas coisas. Ao invés disso, foi-lhe dada a razão que o habilita a preparar tudo isso com suas mãos. Porém, como um único ser humano não é suficiente para fazer todas essas coisas, então um ser humano sozinho não pode levar, de maneira suficiente, sua vida. Logo, é natural ao ser humano que ele viva em sociedade junto a muitos.”

TOMÁS DE AQUINO. A realeza: dedicado ao rei de Chipre. In: MARÇAL, J. Antologia de textos filosóficos. Curitiba: Seed, 2009, p. 667).

Texto 2:

“[...] durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra, e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida.”

HOBBES, T. Leviatã, São Paulo: Abril, 1988, p. 54.

A partir dos textos acima e de teses do pensamento político de Tomás de Aquino e de Thomas Hobbes, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

01. A cidade, para Tomás de Aquino, é forma superior de organização natural e visa ao bem viver do homem.C

02. Hobbes não considera que haja uma disposição natural à socialização dos homens, sendo necessária a intervenção artificial para congregá-los em sociedade.C

04. Para Tomás de Aquino, não é possível pensar a noção de autoridade como meio de alcançar o bem comum para todos aqueles que vivem em sociedade.E

08. Para Hobbes, a autoridade coercitiva do Estado é o único meio de assegurar a boa convivência em sociedade.C

16. O pensamento político de Tomás de Aquino tem origem comunitária, e o de Hobbes, origem individualista.C

08. (UEM PR) Na investigação sobre o fundamento da associação política, o pensamento moderno apresenta as chamadas teorias contratualistas. Caso expressivo desse pensamento é J. J. Rousseau, para quem o contrato que institui a sociedade política é realizado por todo o povo consigo mesmo. A respeito da teoria contratualista de Rousseau, assinale o que for correto.

01. As duas partes contratantes se reduzem a uma só, o povo, que pode ser considerado soberano e súdito.C

02. Somente é legítimo obedecer às leis se elas são expressão da vontade geral.C

04. Para Rousseau, diferentemente de Étienne de La Boétie, a história das comunidades políticas não é a história da servidão.E

08. Essa nova associação recebe o nome de República ou de corpo político, o que antigamente levava o nome de cidade.C

16. Ao violar-se o pacto social o homem perde sua liberdade natural. E

09. (UFU MG) Com relação à noção de estado de natureza, que é o estado em que os seres humanos se achavam antes da formação da sociedade, podem-se identificar, na filosofia política moderna, três tendências:

1. Os seres humanos são naturalmente egoístas e, no estado de natureza, se achavam numa guerra de todos contra todos daí que, por medo uns dos outros, aceitam renunciar à liberdade e constituir um Soberano, o Estado, que garanta a paz.

2. Não é por medo uns dos outros, e sim para garantir o direito à propriedade e à segurança que os seres humanos consentem em criar uma autoridade que possa tornar isso possível.

3. No estado de natureza, os seres humanos eram felizes e foi o advento da propriedade privada e da sociedade civil que tornou alguns escravos de outros.

Podem-se atribuir essas três concepções, respectivamente, a

a) Hobbes, Rousseau e Maquiavel.

b) Hobbes, Locke e Rousseau.

c) Maquiavel, Hobbes e Locke.

d) Rousseau, Maquiavel e Locke.

10. (UFU MG) Em uma situação hipotética da saída dos homens do estado de natureza, o pacto social, firmado por um grupo de indivíduos, implica a renúncia ao direito individual absoluto, o qual será transferido para um soberano encarregado de promover a paz, e que merecerá desse grupo a obediência total – salvo na situação em que esse soberano se tornar impotente para a manutenção da paz e da prosperidade.

Essas afirmações estão contidas no pensamento político de um filósofo contratualista moderno. Assinale a alternativa que nomeia o filósofo em questão.

a) Jean-Jacques Rousseau.

b) Jean Bodin.

c) John Locke.

d) Thomas Hobbes.

A08 y Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e Montesquieu 61

NÃOHÁITENS RECORRENTES

W GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL E KARL MARX

Para entender a filosofia de Hegel, é conveniente situar alguns pontos básicos a partir dos quais se desenvolve a sua reflexão.

O primeiro desses pontos é o entendimento da realidade como Espírito. Esse conceito desenvolvido a partir da filosofia de Fichte e Schelling, é ampliado em Hegel. Entender a realidade como espírito, de acordo com a filosofia de Hegel, é entendê-la não apenas como substância (um enrijecimento do espírito, como pensava Schelling), mas também como sujeito. Isso significa pensar a realidade como processo, como movimento, e não somente como coisa (substância).

O segundo ponto básico da filosofia hegeliana diz respeito justamente a esse movimento da realidade. A realidade, enquanto espírito, possui uma vida própria, um movimento dialético. Por movimento dialético, Hegel quer caracterizar os diversos momentos sucessivos (e contraditórios) pelos quais determinada realidade se apresenta. Em seu texto Fenomenologia do Espírito, Hegel usa o exemplo da planta, desenvolvendo o seguinte raciocínio:

“O botão desaparece no florescimento, podendo-se dizer que aquele é rejeitado por este; de modo semelhante, com o aparecimento do fruto a flor é declarada falsa existência da planta, com o fruto entrando no lugar da flor como a sua verdade. Tais formas não somente se distinguem, mas cada uma delas se dispersa também sob o impulso da outra, porque são reciprocamente incompatíveis. Mas, ao mesmo tempo a sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual elas não apenas não se rejeitam, mas, ao contrário, são necessárias uma para a outra, e essa necessidade igual constitui agora a via do inteiro”.

Nesse exemplo, Hegel ressalta que a realidade não é estática, mas dinâmica, e em seu movimento apresenta momentos que se contradizem entre si, sem, no entanto, perderem a unidade do processo, que leva a um crescente autoenriquecimento.

Esse desenvolvimento, que se faz por meio do embate e da superação de contradições, Hegel denominou dialética. Embora esse termo apareça já na antiguidade, com Platão, em Hegel o conceito de dialética se aplica a algo totalmente distinto: não é um método ou uma forma de pensar a realidade, mas sim o movimento concreto da realidade. Por isso, para compreender o real, o pensamento também deve ser dialético.

Hegel compreende esse movimento do real, ou do espírito que se realiza, como um movimento que se processa em três momentos: o primeiro, do Ser-em-si, o segundo, do Ser outro ou fora-de-si; e o terceiro que seria o retorno, do Ser para-si. Usando o exemplo da planta, ele distingue estes momentos dizendo: “A semente é em-si a planta, mas ela deve morrer como semente e, portanto, sair fora-de-si, a fim de poder se tornar, desdobrando-se, a planta para-si.”

Nesse exemplo, compreende-se que a realidade para Hegel é um contínuo devir, no qual um momento prepara o outro, mas, para que esse outro momento aconteça, o anterior tem que ser negado.

Esses três momentos são comumente chamados de tese, antítese e síntese. Hegel os concebe como um movimento em espiral, ou seja, um movimento circular que não se fecha, pois cada momento final, que seria a síntese, se torna a tese de um movimento posterior, de caráter mais avançado.

FRENTE FILOSOFIA
62
MÓDULO 09 A PAS 3
Fonte: Wikimedia commons TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019

Então:

Dialética: é o desenvolvimento que se faz por meio do embate e da superação de contradições.

Esses três momentos são comumente chamados de Tese: a afirmação de algo; Antítese: negação da afirmação; Síntese: negação da negação.

Compreender a dialética da realidade, segundo Hegel, exige um trabalho árduo da razão, que se deve afastar do entendimento comum e se colocar do ponto de vista do absoluto. Esse caminho da consciência que se afasta do conhecimento comum e se eleva ao saber absoluto é o objeto da reflexão do autor em sua obra já referida. Nela, Hegel afirma que a consciência que alcança o saber absoluto atinge a Razão, ou seja, supera o entendimento finito e adquire “a certeza de ser de toda a realidade”. Desse modo, a razão alcançaria a consciência da unidade entre ser e pensar, harmonizando a subjetividade e a objetividade.

René François Ghislain Magritte nasceu na cidade de Lessines, na Bélgica, no dia 21 de novembro de 1898. Posteriormente, ele se tornaria um dos mais significativos artistas plásticos do movimento surrealista belga.

Sua obra As Férias de Hegel (1958), nos mostra sua predileção aos pensadores. Hegel foi o expoente da dialética filosófica e é outra vez inspiração do artista. Ele mesmo diz sobre o trabalho: “Pensava que Hegel... teria sido muito sensível a este objeto que tem duas funções opostas: ao mesmo tempo, não admitir água (repelir) e admitir (conter). Ele teria ficado satisfeito, creio, ou divertido (como se estivesse de férias) e chamei ao quadro As Férias de Hegel”.

A ênfase na obra de Magritte parece estar sempre ligada a estimular o pensamento. É uma pintura para filósofos ou, pelo menos, para apreciadores do pensamento filosófico. Era um pintor de ideias, um pintor de pensamentos visíveis, mais do que de assuntos.

Disponível em: http://confrariadaarte.blogspot.com.br/2007/09/ren-magritte.html

(acesso em: 25/02/2015)

Relação entre Filosofia e História

O pensamento de Hegel se apresenta como um grande sistema, que permite pensar tanto a natureza, a realidade física, quanto o Espírito. O fio condutor dessa reflexão totalizante é a relação entre finito e infinito. Hegel acredita que o trabalho da filosofia é de superação do entendimento finito e limitado das coisas finitas e limitadas para alcançar o saber absoluto, que é o saber da coisa em si. Assim, nesse caminhar da consciência rumo ao saber absoluto, temos a busca da infinitude a partir da consciência finita. Como sistema filosófico, a obra de Hegel procura demonstrar esse caminho de conhecimento finito ao conhecimento absoluto em vários campos do saber, tanto em relação à natureza como ao Espírito.

Em relação à natureza, Hegel reconheceu três momentos:

x O Espírito subjetivo que se refere ao indivíduo e à consciência individual.

x O Espírito objetivo que se refere às instituições e costumes historicamente produzidos pelos homens.

x O Espírito absoluto que se manifesta na arte, na religião e na filosofia, como espírito que compreende a si mesmo.

A09 y Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx 63
Fonte: Wikimedia commons

No que se refere à história, Hegel afirma que ela é o desdobramento do Espírito objetivo. O Espírito objetivo é a realização da liberdade na sociedade, e se manifesta no direito, na moralidade e na “eticidade”, englobando a família, a sociedade e o Estado. O Estado político é, na filosofia de Hegel, o momento mais elevado do Espírito objetivo, de forma tal que “o indivíduo só existe como membro do Estado”, conforme Hegel afirma em Princípios da Filosofia do Direito

Hegel diz ainda que “a história é o desdobramento do Espírito no tempo”. A filosofia da história deve captar o movimento histórico não como momentos estagnados, mas no ponto de vista da razão, do absoluto. Desse ponto de vista, a história é, segundo Hegel, uma contínua evolução da ideia de liberdade, que se desenvolve segundo um plano racional. Assim, os conflitos, as guerras, as injustiças, as dominações de um povo sobre outro devem ser compreendidos como contradições, como momentos negativos que funcionam como uma mola dialética que move a história. Usando os termos da dialética Hegeliana, esses momentos seriam a antítese, que contrapõe a tese, fazendo surgir uma etapa superior, que seria a síntese.

Hegel sintetiza essa concepção com a frase: “Tudo que é real é racional, tudo que é racional é real”. Isso equivale dizer que todas as coisas existentes, mesmo as piores fazem parte de um plano racional e que, portanto, têm um sentido dentro do processo histórico. Essa afirmação hegeliana recebeu inúmeras críticas, já que pode levar a certo conformismo ou a uma passividade diante das injustiças.

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. ( UEM PR) A discussão sobre os direitos humanos envolve a questão filosófica da dignidade humana e da autonomia ética do ser humano.

Assinale o que for correto sobre as noções de direitos humanos e dignidade.

01. Ao considerar a tese da autonomia da vontade humana, como a faculdade de determinar-se a si mesmo, Kant formulou o fundamento da dignidade da natureza humana.C

02. A dignidade humana, para Hegel, é o resultado de um reconhecimento, isto é, cada ser humano deve ser pessoa e respeitar os outros como pessoa.C

04. A Constituição Brasileira de 1988 considera a dignidade humana princípio fundamental, essencial para todo o ordenamento constitucional.C

08. Quando se vincula a dignidade humana ao valor intrínseco da vida humana, tem-se a biologização da dignidade humana.C

16. Para Habermas, a dignidade humana decorre da natureza humana, e não do valor de cada pessoa no âmbito da reciprocidade das relações humanas.E

02. ( UEM PR) As teses do filósofo alemão Immanuel Kant sobre o caráter pedagógico da arte influenciaram o movimento romântico do início do século XIX. Segundo o filósofo, o sentimento do sublime é a elevação do nosso espírito pela beleza, de forma que, diante do belo, compreendemos a proximidade entre aquilo que é humano, finito, e aquilo que é infinito, e assim nos erguemos acima do lugar-comum vulgar.

Acerca das concepções estéticas do Romantismo e da filosofia alemã nos séculos XVIII e XIX, assinale o que for correto.

01. Para Kant, o sublime é um sentimento produzido pelo artista a partir do belo natural.E

02. Segundo Kant, o sentimento do sublime estimula o nosso sentimento de liberdade moral.C

04. O Romantismo buscou na cultura da Grécia Antiga um exemplo ideal de unidade entre os sentimentos e as paixões.C

08. Para Hegel, a arte é educativa porque, na progressão das diversas formas artísticas, exprime a passagem da religião natural para a religião da interioridade.C

16. O movimento romântico buscou sistematizar a construção artística por meio de regras objetivas, da mesma forma que filósofos do período, como Hegel, Fichte e Schelling, produziam tratados em que buscavam sistematizar o conhecimento filosófico.E

03. Sobre as filosofias de Hegel e Marx, é correto afirmar.

a) A dialética transcreve, sobretudo, na Fenomenologia do Espírito de Hegel a busca da consciência pela consciência de si e, em seguida, na lógica, o desenvolvimento do espírito absoluto que se expressa na arte, religião e na filosofia.

b) A crítica de Marx à filosofia de Hegel aponta para uma recompreensão total da dialética, por lhe retirar o caráter racional e lhe instituir um viés materialista, bem como antimetafísico.

c) A dialética em Marx transcreve um projeto diferente do hegeliano, centrada na luta de classes, e, portanto, livre daquilo que Heidegger designou como tradição ontoteológica.

d) Segundo Castoriadis, Marx, ainda que não tenha sido influenciado pela ideia de evolução social, de cunho darwinista, ele seria partidário da ideia de que a sociedade feudal estava aquém dos avanços da burguesia.

e) A filosofia de Marx extirpa definitivamente a metafísica da Filosofia, por apresentar uma dimensão materialista para o desenvolvimento da história, que não recorre à metafísica.

04. No que concerne à arte na filosofia de Hegel, é correto afirmar:

a) Contrariando a tradição grega, para Hegel a comédia é o lugar próprio da representação artística.

Filosofia 64 | PAS 3

b) O belo artístico é a imitação perfeita do sublime natural, e o artista aproxima-se do absoluto quando realiza bem essa imitação ou mimeses.

c) A arte é obra do livre-arbítrio e o artista, um mestre de Deus, desse modo a arte é divina.

d) A arte é o segundo momento do espírito na busca do conhecimento de si mesmo, sendo antecipada pela religião.

e) A arquitetura é a forma de arte mais desenvolvida para Hegel, por ser fruto do livre arbítrio, sendo menos dependente dos sentidos do que a música.

05. Tomando como base as funções da arte, é correto afirmar que:

a) Para Hegel, a arte tem como função primordial promover o desenvolvimento do espírito por meio da imitação da história.

b) Para Adorno, a arte do ligeiro e do agradável sempre foi marcada pela massificação e ilusão.

c) O conceito de fetichismo musical de Adorno pode se deduzir de aspectos psicológicos.

d) O conceito de fetichismo da música tem sua raiz na releitura que Adorno imprime à teoria marxista da mercadoria.

e) Hegel e Adorno compartilham com a tese de que a arte ganha seu sentido mais pleno na música.

06. ( UEM PR) A Filosofia ocupa um papel crítico no pensamento do jovem Marx. Trata-se da crítica ao estado não democrático e da crítica à religião, como se observa na Introdução de sua obra de 1844, Sobre a crítica da filosofia de Hegel.

A respeito do pensamento político de Marx, assinale o que for correto.

01. Marx se insurge contra a monarquia prussiana e trabalha para a constituição de um Estado de Direito na Prússia.C

02. Marx rompe com os hegelianos de esquerda ao defender uma democracia radical.C

04. Ao colocar a Filosofia a serviço da História sua tarefa principal é desmascarar a autoalienação humana.C

08. A crítica de Marx à religião não sofreu influência dos estudos de Feuerbach sobre o cristianismo.E

16. A religião é o ópio do povo em uma sociedade opressora e desprovida de cidadania.C

07. ( UEM PR) “... o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes, e como, ao mesmo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra geral, o Estado da classe mais poderosa, da classe dominante, classe que, por intermédio dele, se converte em classe politicamente dominante e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida. [...] Entretanto, por exceção, há períodos em que as lutas de classes se equilibram de tal modo que o poder do Estado, como mediador aparente, adquire certa independência momentânea em face das classes.”

(ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. In: COTRIM, G; FERNANDES, M. Fundamentos de filosofia São Paulo: Editora Saraiva, 2010, p. 326).

Considerando o fragmento transcrito, assinale o que for correto.

01. O Estado nasceu como expressão dos interesses da classe dominante.E

02. O Estado, em certos momentos, deixa de defender os interesses de uma classe específica, particularmente a burguesia.E

04. O conflito de classes é algo inerente ao Estado.C

08. A repressão à classe oprimida revela a vinculação dos interesses do Estado à classe dominante.C

16 Não é contrário à natureza do Estado se vincular ao interesse de uma classe específica.C

08. (UFU MG) Para a economia política, o salário corresponde aos custos e ao preço da produção de uma mercadoria. Na realidade, porém, não é o que ocorre. Para produzir uma determinada mercadoria, um trabalhador precisa de um certo número de horas (suponhamos, por exemplo, quatro horas) e seu salário será calculado a partir desse tempo; entretanto o trabalhador trabalha durante muito mais tempo (suponhamos, por exemplo, oito horas) e, consequentemente, produz muito mais mercadorias; estas, porém, não são computadas para o cálculo do salário, de modo que há um trabalho excedente não pago, isto é, não coberto pelo salário.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia São Paulo: Editora Ática, 2000. p. 545. (Adaptado)

O excerto acima sintetiza um dos mais importantes temas do pensamento marxista, o qual é definido como

a) a ideologia dominante burguesa.

b) o materialismo histórico-dialético.

c) as relações sociais de produção.

d) a concepção idealista do Estado.

09. (UFU MG) Segundo Karl Marx (1818-1883), “não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência”.

Contribuição à crítica da economia política São Paulo: M. Fontes, 1977. p. 23.

Essa citação sintetiza o pensamento filosófico, político, histórico e econômico desse pensador, que se convencionou chamar de

a) Liberalismo de esquerda.

b) Idealismo dialético.

c) Atomismo econômico.

d) Materialismo histórico.

Anotações

A09 y Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx 65

TREINAMENTO PAS

W FRIEDRICH NIETZSCHE

A transvaloração dos valores

68-69-70-71-72 2013 46-47 2014 33-36-37-39

2015 24

2016 28-29-30-31-32

2017 52-53-54-55-56

2018 11-12-13-34-35

2019 25-26-27

Friedrich Wilhelm Nietz sche nasceu na localidade de Röcken, próxima a Leipzig, em 15 de outubro de 1944, em uma família protestante. Após realizar alguns estudos em teologia e filosofia, acabou por dedicar-se à filologia, estudando autores como Diógenes Laércio, importante historiador da filosofia, e os poetas Hesíodo e Homero. Além do gosto pelos livros, Nietzsche também nutria grande admiração pela música, o que se percebe pela sua amizade – posteriormente prejudicada por questões intelectuais – com o compositor alemão, seu contemporâneo, Richard Wagner. De 1869 a 1879, Nietzsche leciona na Universidade da Basileia, na Suíça, mas em consequência de problemas de saúde, decorrentes provavelmente de sífilis, abandonou as atividades docentes. De acordo com alguns estudiosos, foi em função de seus desequilíbrios emocionais, que o conduziram à demência no final da vida, que nosso autor escolheu os aforismos – pequenos fragmentos de texto que guardam certa independência entre si – como estilo central de escrita, o que torna seus textos ainda mais difíceis de se compreender. No entanto, apesar disso e de todo o preconceito da academia com relação ao filósofo, ele se tornou um dos nomes mais populares da filosofia contemporânea, e tentaremos, à frente, compreender alguns dos motivos de tamanha popularidade.

Uma das posturas centrais da filosofia nietzschiana é a denominada transvaloração dos valores, que nada mais é do que uma postura questionadora diante da moral social apresentada ao indivíduo. Ao realizar tal crítica, tentando fazer uma genealogia da moral, ou seja, buscando compreender o surgimento histórico dos valores que estão presentes na sociedade ocidental, Nietzsche chega a uma das ideias centrais de sua filosofia, que estará presente em toda a sua obra, qual seja: os valores ocidentais, advindos principalmente do racionalismo filosófico e da religiosidade cristã, conduzem o homem à negação de sua própria vitalidade, isto é, à corrupção. Em um trecho da obra O Anticristo nosso autor assim se manifesta:

A vida mesma vale para mim como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, de potência: onde falta a vontade de potência, há declínio. Minha afirmação é que a todos os valores mais altos da humanidade falta essa vontade – que valores de declínio, valores niilistas, sob os mais santos nomes, exercem o domínio.

Niilismo é um termo que deriva do vocábulo latim “ nihil ”, que significa “nada”. É a negação de todo e qualquer princípio religioso, social e político. Trata-se de uma posição filosófica que nega os dogmas. Sustenta que a existência humana não tem, objetivamente, qualquer significado nem propósito essencial. Posto isto, opõe-se a todas as teorias que preguem uma finalidade desprovida de explicação verificável.

Os niilistas, de forma geral, pretendem ignorar preconceitos, com opções de realização que não estejam ligadas a coisas consideradas inexistentes. É importante ter em conta que não é uma questão de pessimismo nem de falta de fé, mas, como nega qualquer dogma, trata-se antes de uma posição aberta a infinitas opções.

FRENTE
66
FILOSOFIA MÓDULO 10 A PAS 3
Fonte: Wikimedia commons
2006 2007 2008 2009 2010
2011 2012
PROVA ITENS
48-50

Aí está o problema dos valores: eles domam nossos instintos e, no limite, retiram a nossa vitalidade, os nossos anseios mais elementares, a nossa vontade de potência. Se Nietzsche fez uma genealogia, ou seja, um estudo histórico do surgimento dos valores, ele bem poderia responder ao seguinte questionamento: a partir de quando a moral assumiu essa postura castradora? De acordo com o autor, em dois momentos, isso é bastante perceptível: no período racionalista de Sócrates e Platão, quando se tenta submeter a realidade observada ao crivo da razão; e quando o Cristianismo se torna hegemônico no ocidente, o que coincide com a decadência do Império Romano. O período helênico conseguiu, de forma ímpar, conciliar a racionalidade e os instintos do homem, e duas divindades demonstram isso com nitidez: Apolo, o deus sol, da flecha certeira e da racionalidade, e Dionísio, o deus do vinho, da embriaguez, que em Roma será cultuado nas bacanais, quando recebe o nome de Baco. Desse modo, existia um equilíbrio entre a vitalidade e a razão, entre o instinto e a sociabilidade, e esse equilíbrio foi desfeito, primeiramente, em nome de um racionalismo que a tudo quer dominar, cerceando a capacidade de desejar do indivíduo, que recebe, em um segundo momento, o golpe de misericórdia da moral cristã, essa que, de acordo com o pensamento nietzschiano, seria a moral do escravo. Em outra citação do autor, da obra Para a Genealogia da Moral, podemos perceber esse aspecto com certa clareza:

O levante dos escravos na moral começa quando o ressentimento mesmo se torna criador e então surgem valores: o ressentimento de seres tais, aos quais está vedada a reação propriamente dita, o ato, e que somente por uma vingança imaginária ficam quites. Enquanto toda moral nobre brota de um triunfante dizer sim a si próprio, a moral de escravos diz não, logo de início, a um “fora”, a um “outro”, a um “não-mesmo”: e esse “não” é seu ato criador.

Um romano, no auge do seu triunfo, não exaltaria, em momento algum, a humildade, o choro, o sofrimento, a fraqueza. Ao contrário a virtú romana, já nos afirmava

A10 y Friedrich Nietzsche 67
Fonte: <http://images.google.com>. Acesso em: 28 jul. 2016.

Maquiavel, exaltava o poder e a força, a capacidade de fazer valer aquilo que se quer, e não a caridade ou o amor incondicional ao próximo. O que ocorre é que como ao escravo é vedada toda a ação, ele só poderia incorrer em uma moral da negação. Essa, então, se dá, em última instância, na recusa do próprio mundo do qual se é escravo, afirmando-o imperfeito, inferior, se comparado a um mundo no qual os verdadeiros possuidores da virtude, os bem aventurados, serão aqueles que dominarão. Assim ocorre a exaltação da fraqueza, em detrimento do desejo de fazer valer sua vontade de potência no momento presente. É a supressão da vitalidade, do instinto, da força, em favor de uma apatia que domina o indivíduo. De acordo com Nietzsche, o homem fraco seria um camelo que possui sobre si duas corcovas: a moral social e a religião, que o levam a negar-se a si mesmo. O homem forte, ou super-homem, passaria pelo estágio do leão, no qual teria força suficiente para romper com os valores que lhe foram estabelecidos, e chegaria ao estágio da criança, com seu universo de possibilidades, efetivando, assim, a transvaloração de todos os valores, para a afirmação individual. O homem forte não projeta sua felicidade em um mundo superior e futuro, faz prevalecer sua vontade e é feliz no pres ente.

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. ( UEM PR) O filósofo alemão Nietzsche realizou em sua obra uma crítica das posições metafísicas dos filósofos anteriores. Ele afirma: “Contraponhamos a isso, afinal, de que modo diferente nós (-digo nós por cortesia...) captamos no olho o problema do erro e da aparência. Outrora se tomava a alteração, a mudança, o vir-a-ser em geral como prova de aparência, como signo de que tem de haver algo que nos induz em erro. Hoje, inversamente, na exata medida em que o preconceito da razão nos coage a pôr unidade, identidade, duração, substância, causa, coisidade, ser, vemo-nos, de certo modo, enredados no erro, necessitados ao erro; tão seguros estamos, com fundamento em um cômputo rigoroso dentro de nós, de que aqui está o erro.”

(NIETZSCHE, F. O crepúsculo dos ídolos. In: FIGUEIREDO, V. (org.) Seis filósofos na sala de aula, v. 2. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, p. 175).

Acerca das teses de Nietzsche sobre o ser, a aparência, a verdade e o erro, assinale o que for correto.

01. Nietzsche propõe que é ilusório conceber a verdade como algo único e permanente. C

02. A arte é um processo de falsificação pelo qual construímos um mundo verdadeiro. E

04. O homem está “enredado no erro” porque precisa contar com a previsibilidade e a racionalidade para sobreviver. C

08. A crítica de Nietzsche se dirige à maneira como a filosofia moderna se desviou das teses dos pensadores pré-socráticos Parmênides e Heráclito. E

16. Segundo Nietzsche, a ciência moderna investiga as transformações dos fenômenos naturais, por isso compreende que o mundo é fundamentalmente um processo de vir-a-ser.E

02. (UFU MG) [...] a palavra “bom”, de antemão, não se prende necessariamente a ações “não egoístas”; como é a superstição daqueles genealogistas da moral. Em vez disso, somente com

um declínio de juízos de valor aristocráticos acontece que essa oposição “egoísta” – “não egoísta” se imponha mais e mais à consciência humana – é, para me servir de minha linguagem, o instinto de rebanho que, com ela, afinal, toma a palavra (e também as palavras).

NIETZSCHE, Friedrich. Para a genealogia da moral Os Pensadores. Trad. LEBRUN, G. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 342. De acordo com o conteúdo da citação, assinale a alternativa que nomeia um dos conceitos mais importantes da filosofia nietzschiana.

a) Impulso apolíneo.

b) Impulso dionisíaco.

c) Vontade de potência.

d) Transvaloração dos valores.

03. (Enem MEC) Vi os homens sumirem-se numa grande tristeza. Os melhores cansaram-se das suas obras. Proclamou-se uma doutrina e com ela circulou uma crença: Tudo é oco, tudo é igual, tudo passou! O nosso trabalho foi inútil; o nosso vinho tornou-se veneno; o mau olhado amareleceu-nos os campos e os corações. Secamos de todo, e se caísse fogo em cima de nós, as nossas cinzas voariam em pó. Sim; cansamos o próprio fogo. Todas as fontes secaram para nós, e o mar retirou-se. Todos os solos se querem abrir, mas os abismos não nos querem tragar!

NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra Rio de Janeiro: Ediouro, 1977.

O texto exprime uma construção alegórica, que traduz um entendimento da doutrina niilista, uma vez que

a) reforça a liberdade do cidadão.

b) desvela os valores do cotidiano.

c) exorta as relações de produção.

d) destaca a decadência da cultura.

e) amplifica o sentimento de ansiedade.

Filosofia 68 | PAS 3

W JEAN-PAUL SARTRE O existencialismo

Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se ele escolhe a todos os homens.

Sartre recebeu significativa influência filosófica de Heidegger. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, participou da luta da resistência francesa contra o nazismo. Também aderiu ao marxismo, considerando-o a filosofia de sua época, mas, diante da intervenção soviética na Hungria, em 1956, rompeu com o Partido Comunista, acusando-o de se desviar do sentido autêntico do marxismo.

Em 1964 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas se recusou a recebê-lo. Não desejava reconhecer a autoridade dos juízes que lhe ofereceram o prêmio nem aderir a essa instituição.

A principal obra filosófica de Sartre é O ser e o nada, publicada em 1939. Nessa obra, ele ataca duramente a teoria aristotélica da potência. Para Sartre, o ser é o que é. Trata-se, na linguagem sartreana, do ente em-si. Esse ente “não é ativo nem passivo, nem afirmação nem negação, mas simplesmente repousa em si, maciço e rígido”.

Mas, além do ente em-si, Sartre concebe a existência do ser especificamente humano, denominando-o ente para-si. O ente para-si específico do homem se opõe ao ente em-si, que representa a plenitude do ser. Portanto, para Sartre, a característica tipicamente humana é o nada: um “espaço aberto”. Esse nada, próprio da existência, faz do homem um ente não-estático, não-compacto, acessível às possibilidades de mudança.

Se o homem fosse um ser cheio, total, pleno, com uma essência definida, ele não poderia ter nem consciência, nem liberdade. Primeiro, porque a consciência é um espaço aberto a múltiplos conteúdos. Segundo, porque a liberdade representa a possibilidade de escolha. Por intermédio dela, o homem revela suas aspirações por algo que ele ainda não é.

Assim, para o autor, se o homem não expressasse esse “vazio de ser”, sua consciência já estaria pronta, acabada, fechada. E, nesse caso, o homem não poderia manifestar a liberdade, pois estaria totalmente preso à realidade estática do ser pleno.

Por isso, o homem tem como característica específica o não-ser, algo indefinido e indeterminado. Por esse mesmo motivo, não podemos falar, da existência de uma natureza humana universal, mas sim de uma condição humana, isto é,

“O conjunto de limites a priori que esboçam a sua (do homem) situação fundamental no Universo. As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade pagã – ou senhor feudal ou proletário. Mas o que não varia é a necessidade para ele de estar no mundo, de lutar, de viver com os outros e de ser mortal”.

É desse modo que se pode conceber, assim, o existencialismo, definido pelo próprio Sartre como uma doutrina filosófica que acredita que no ser humano, diferentemente dos animais irracionais, determinados biologicamente, e dos objetos, concebidos antes na forma de ideia, a existência precede a essência. O que significa exatamente isso? Significa que primeiro o ser humano existe, surge no mundo, é

FRENTE FILOSOFIA
PAS 3 69
MÓDULO 11 A
Fonte: Wikimedia commons
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 18-19-20-28 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
Figura 01 - Jean-Paul Sartre

jogado no mesmo, depois ele se faz, e a forma como vai ser, é ele mesmo quem decide. Só assim entendemos a afirmação sartreana de que o homem é o seu projeto, o que faz de si mesmo, os seus atos.

Disso decorre a implicação de que um covarde não é assim designado porque pensa de maneira pouco corajosa, mas sim porque realizou, ao longo de sua vida, atos covardes. Sem nenhuma determinação transcendente, biológica ou religiosa, o único elemento a ser analisado é a conduta do indivíduo.

Um dos valores fundamentais da condição humana é, segundo Sartre, a liberdade É o exercício da liberdade, em situações concretas, que impulsiona a conduta humana, que gera incerteza, que leva à procura de sentidos, que produz a ultrapassagem de certos limites.

Diante da condição humana de ser condenado a sempre ter que escolher, surge no homem um sentimento frente às inúmeras possibilidades com as quais o mesmo se defronta. Não tendo ninguém que escolha por ele, o indivíduo se vê muitas vezes perdido em uma posição na qual não quer estar, e essa situação lhe causa angústia. Isso se resume na frase de Sartre que afirma que “estamos sós e sem desculpa”. A angústia, assim, é o sentimento causado pela total liberdade de escolha e pelo fato de que ninguém, em última instância, pode escolher por nós.

Algumas pessoas, tamanho o sentimento de angústia que os afeta, acabam se refugiando no que Sartre denomina má-fé. A má-fé é a atitude daquele que não quer escolher, mas que finge fazê-lo através do determinismo social ou mesmo religioso. Em síntese, agir de má-fé é atribuir as escolhas que fazemos aos outros, ao destino ou a qualquer entidade transcendente. Sartre chama aquele que age assim de “sujo”, “safado”, e obviamente não respeita a atitude de alguém que rompe com a principal característica humana, a liberdade.

Albert Camus, em seu livro O mito de Sísifo, fala do homem absurdo, que é aquele que enfrenta com coragem a dureza de um mundo que não foi feito em função dele. Sartre, ao ser acusado de conceber uma filosofia pessimista, principalmente pelos cristãos, afirma que o que possui é uma dureza otimista, e se ele retirou o paraíso do fim da vida humana, tirou também o inferno do fogo eterno. De qualquer forma, como bom ateu que se preze, nosso autor é pessimista com relação à realidade da finitude do ser humano, afirmando que se nossos projetos nunca poderão ser totalmente concretizados a morte é um absurdo, por ser exatamente a nadificação de nossos projetos.

Vale ressaltar que nosso autor é incluído no eixo temático da ética por defender a tese da responsabilidade universal do ser humano com relação à sua conduta, pelo fato de que quando eu faço uma escolha individual, em última instância, ela só é responsável se for aquela que eu gostaria, racionalmente, que todo ser humano na mesma situação fizesse. Daí decorre a ação responsável.

Resumindo

“Estamos condenados à liberdade.”

“A existência precede a essência”.

“O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria; eis nosso ponto de vista.”

– Liberdade = Escolha, de todas as oportunidades que nos são apresentadas, somos livres para escolher qualquer uma.

Filosofia 70 | PAS 3

– Responsabilidade = Somos responsáveis por nossas escolhas e pelas consequências das mesmas, tanto no que se refere a nós mesmos, quanto no que se refere às formas como nossas escolhas interferiram na vida de outros.

– Angústia = O fato de sermos responsáveis por nossas escolhas gera angústia, pois podemos fazer a escolha errada e, então, seremos culpados por todos os nossos “fracassos”.

– Má-fé = A angústia nos leva a termos ações de má-fé, ou seja, atribuirmos a outros a responsabilidade de nossas escolhas e das consequências das mesmas.

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. ( UEM PR) O existencialismo de Sartre declara que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, e que este ser é o homem; em outros termos, a realidade humana.

Acerca do existencialismo de Sartre, assinale o que for correto.

01. O pensamento de Sartre privilegiou a existência em lugar de se ater à importância da essência. C

02. “A existência precede a essência” significa que o homem primeiramente existe, descobre isso e surge no mundo. E

04. O existencialismo sartreano aproxima-se do existencialismo católico ao propor a valorização do homem. E

08. O existencialismo sartreano sofreu influências do pensamento marxista e da Psicanálise. C

16. O homem, para Sartre, possui um destino que deve ser cumprido. E

02. (UFU MG) Considere o seguinte trecho, extraído da obra A náusea, do escritor e filósofo francês Jean Paul Sartre (1889-1980).

“O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte, a gratuidade perfeita.”

II. “O homem não é a consequência duma intenção própria duma vontade, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer”.

III. “(…) podemos estabelecer como máxima indubitável que nenhuma ação pode ser virtuosa ou moralmente boa, a menos que haja na natureza humana algum motivo que a produza, distinto do senso de sua moralidade”.

IV. “A má-fé é evidentemente uma mentira, porque dissimula a total liberdade do compromisso. No mesmo plano, direi que há também má-fé, escolho declarar que certos valores existem antes de mim (…).”

Os quatro fragmentos de texto são, respectivamente, atribuídos aos seguintes pensadores

a) Nietzsche, Sartre, Hobbes, Hume.

b) Hobbes, Nietzsche, Hume, Sartre.

c) Hume, Nietzsche, Sartre, Hobbes.

d) Sartre, Hume, Hobbes, Nietzsche.

04. (UFSJ MG) Na obra O existencialismo é um humanismo, JeanPaul Sartre intenta

a) desenvolver a ideia de que o existencialismo é definido pela livre escolha e valores inventados pelo sujeito a partir dos quais ele exerce a sua natureza humana essencial.

b) mostrar o significado ético do existencialismo.

c) criticar toda a discriminação imposta pelo cristianismo, através do discurso, à condição de ser inexorável, característica natural dos homens.

d) delinear os aspectos da sensação e da imaginação humanas que só se fortalecem a partir do exercício da liberdade.

trecho, vemos uma exemplificação ou uma referência ao existencialismo sartriano que se apresenta como

a) recusa da noção de que tudo é contingente.

b) fundamentado no conceito de angústia, que deriva da consciência de que tudo é contingente.

c) denúncia da noção de má-fé, que nos leva a admitir a existência de um ser necessário para aplacar o sentimento de angústia.

d) crítica à metafísica essencialista.

03. (UFSJ MG) Leia atentamente os fragmentos abaixo.

I. “Também tem sido frequentemente ensinado que a fé e a santidade não podem ser atingidas pelo estudo e pela razão, mas sim por inspiração sobrenatural, ou infusão, o que, uma vez aceita, não vejo por que razão alguém deveria justificar a sua fé…”.

05. (UFSJ MG) A angústia, para Jean-Paul Sartre, é

a) tudo o que a influência de Shopenhauer determina em Sartre: a certeza da morte. O Homem pode ser livre para fazer suas escolhas, mas não tem como se livrar da decrepitude e do fim.

b) a nadificação de nossos projetos e a certeza de que a relação Homem X natureza humana é circunstancial, objetiva, e pode ser superada pelo simples ato de se fazer uma escolha.

c) a certificação de que toda a experiência humana é idealmente sensorial, objetivamente existencial e determinante para a vida e para a morte do Homem em si mesmo e em sua humanidade.

d) consequência da responsabilidade que o Homem tem sobre aquilo que ele é, sobre a sua liberdade, sobre as escolhas que faz, tanto de si como do outro e da humanidade, por extensão.

A11 y Jean-Paul Sartre 71
SARTRE, Jean Paul. A Náusea. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. Tradução de Rita Braga, citado por: MARCONDES, Danilo Marcondes. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000. Nesse

W FILOSOFIA DA CIÊNCIA E ESCOLA DE FRANKFURT

Filosofia da ciência

Como nosso estudante já obteve contato, durante a sua formação, com a Filosofia, nos dispensamos aqui de esclarecer extremamente o que ela seja. No entanto, é necessário esclarecer o que seja essa área do conhecimento que se convencionou denominar Filosofia da Ciência. A palavra “ciência” vem do latim, scire, termo que significa literalmente saber. No sentido literal, aquele que possui ciência é aquele que sabe.

No entanto, é preciso que se avalie a palavra não em seu sentido literal, mas em seu uso, e é aí que vamos encontrar o significado mais comum no mundo em que vivemos: ciência é um tipo de conhecimento característico de alguns especialistas, devidamente treinados para produzir verdades, e com uma capacidade que está acima daquela que possui a maioria das pessoas “comuns”. Retirando de nossa definição inicial os exageros visíveis, ficamos com a seguinte conclusão: o que se convencionou atualmente chamar de ciência é um conhecimento especializado, seja dos fenômenos da natureza ou dos chamados sociais, e esse tipo de saber se desenvolveu principalmente a partir do século XVII da era cristã.

Agora podemos tentar definir com mais clareza o que estudaremos nesse módulo: Filosofia da Ciência é um dos vários campos filosóficos, e ele se dedica de maneira específica ao estudo das condições dentro das quais é produzido o conhecimento que se denomina científico, em contraposição ao conhecimento que utilizamos em nosso cotidiano, e que será chamado aqui de senso comum. O alcance do que é produzido pelo meio científico será questionado, para que tenhamos uma clareza maior a respeito de “verdades” que nos chegaram por meio das afirmações de alguns cientistas famosos.

Dissemos que a ciência será, em nossos estudos, contraposta ao senso comum, mas o que exatamente é isso? O que denominamos aqui de senso comum é o conhecimento que utilizamos diariamente, na maioria das vezes de forma irrefletida, e que serve para a condução da vida de todo indivíduo no mundo. O mesmo é obtido, grande parte das vezes, da nossa experiência, isto é, da nossa vivência, de forma que se pode afirmar que é construído de maneira empírica (empeiria, em grego, significa experiência, por isso conhecimento empírico é aquele que produzimos por meio da experiência, isto é, por meio do nosso contato com o mundo, que ocorre sempre por meio dos cinco sentidos: tato, audição, paladar, visão e audição).

Assim, nossos avós ou bisavós construíam muitas vezes uma relação com o mundo baseada na repetição dos eventos, o que lhes dava, a partir de certo momento, uma ideia de que algo era verdadeiro. Vejamos um exemplo: minha avó, quando eu começava a espirrar, fazia um chá caseiro contendo várias plantas, que geralmente eram encontradas no quintal. Por incrível que pareça, esse procedimento aparentemente fazia algum efeito, possivelmente um pouco psicológico, e eu melhorava com o uso mais ou menos constante do “medicamento”. Se perguntássemos à minha avó por que eu tinha melhorado, ela afirmaria que o chá “é bom” para o tratamento de gripe. Se perguntássemos a ela por que exatamente ele realiza tal efeito, muito provavelmente ela não saberia responder.

O senso comum é assim, um conhecimento adquirido pelo uso, sem que se possa, de fato, explicar as causas últimas do que acontece. Se reunirmos a química e a biologia e estudarmos o chá que minha avó me dava quando criança, as duas ciências provavelmente poderão nos explicar como substância “X”, existente no chá, age na parte “Y” do organismo humano, causando uma sensação de alívio. Minha avó não conseguiria fazer

72 FRENTE
FILOSOFIA MÓDULO 12 A PAS 3
TREINAMENTO PAS PROVA ITENS 2006 2007 2008 2009 31 2010 2011 32-77 2012 2013 2014 2015 59-60 2016 2017 2018 2019

isso, porque não tinha acesso a esse tipo de conhecimento, o que não a impediu de, correta ou erradamente, fazer uso de medicamentos caseiros para o alívio de sintomas conhecidos. Esse é o senso comum que é, na maioria das vezes, retirado das experiências cotidianas.

Muitas vezes, acredita-se que o conhecimento possuído por uma pessoa comum, analfabeta, por exemplo, seja desprovido de raciocínio lógico, o que é um engano. Podemos sim afirmar que ele se encontra em uma lógica diferente daquela existente no conhecimento científico. Vamos a um exemplo inspirado no livro de Rubem Alves, Filosofia da Ciência: se andamos pela rua de carro, com nosso pai ou nossa mãe ou alguém conhecido dirigindo, e o veículo para de funcionar, mesmo não sendo mecânicos, formulamos algumas hipóteses. Quais seriam essas hipóteses?

1) A gasolina acabou.

2) A bateria acabou.

3) As duas coisas aconteceram.

Para que as possibilidades acima sejam formuladas, é necessário um modelo de motor que temos em nossa mente, e esse modelo, por mais simples que seja, é um caixote que só funciona se lhe forem fornecidos combustível e eletricidade. Geralmente, abre-se o capô em busca de uma mangueira solta ou de um fio dependurado, ou se balança o carro ouvindo o tanque de gasolina, para testar a possibilidade. Muitas vezes dá certo. Vamos enumerar os procedimentos realizados?

1) Ocorreu um problema, que nos levou a nos debruçar sobre alguma questão.

2) Levantamos algumas hipóteses para solucionar o problema.

3) Testamos as hipóteses, da mais simples de verificar para a mais complicada.

4) Convocaremos o auxílio de um especialista (mecânico) caso não consigamos resolver a questão.

Duas coisas devem ser percebidas com o exemplo: os procedimentos que acabamos de descrever, apesar de bastante comuns no dia a dia das pessoas, possui uma lógica, baseada em um determinado modelo de motor que a grande maioria das pessoas possui; a ciência segue uma lógica muito parecida com a que foi descrita, mas ultrapassa o senso comum em um ponto, que passamos a tratar agora.

Se o senso comum realiza boa parte dos procedimentos utilizados na ciência, qual seria a principal diferença entre os dois tipos de conhecimento? Os cientistas seriam homens excêntricos, mais capazes que as pessoas comuns para chegar à verdade, por possuírem uma inteligência superior? A resposta é negativa, e devemos de uma vez por todas afastar esses estereótipos. Na verdade, os cientistas passam por um processo que não é acessível à maioria das pessoas comuns: a especialização.

O que faz de um cientista, de um pesquisador, alguém mais apto a tratar de determinadas questões é o nível de conhecimento que ele adquire, por meio de seus estudos, sobre certo assunto. Sua dedicação a uma área, seja a química, a física, a biologia ou a própria filosofia faz com que um indivíduo seja, teoricamente, mais capaz de resolver problemas ligados àquele campo de conhecimento do que outros que não são especialistas.

Desse modo, um cientista não é mais e nem menos inteligente que ninguém, já que antes alguém que se dedicou mais ao estudo de um determinado assunto. E a pergunta seria: isso é um ponto completamente positivo? Evidentemente não, e dificilmente algo nesse mundo possui somente um lado, principalmente positivo. A vantagem da especialização consiste no fato de que o cientista conhece cada vez melhor o objeto que se dedica a estudar, resolvendo questões cada vez mais complicadas. A desvantagem da especialização reside no fato de que cada vez mais o especialista perde o contato com as áreas que não são a sua.

Vejamos um exemplo: um biólogo que estuda as plantas (botânico), e estuda um tipo especial de vegetal, compreende muito bem seu objeto, mas quanto mais se dedica a ele menos consegue ter contato com outros tipos de planta, menos ainda com outras áreas da biologia, e imagine qual é o seu contato com a história ou a geografia. Fique a vontade para falar sobre isso com os seus professores, pois muito provavelmente a opinião deles confirmará o que você leu.

De acordo com Rubem Alves, um especialista é como um homem que fosse aos poucos ficando com um sentido mais desenvolvido que os demais. Sua visão, por exemplo, seria brilhante, tanto para enxergar de perto quanto de longe, mas talvez seu olfato não seja tão bom assim, ou seu tato não funcione muito bem. Desse modo, não devemos endeusar os cientistas, que são pessoas como nós, que erram e acertam, se esforçando para desenvolver teorias que, grande parte das vezes, beneficiam boa parte da população. Não nos esqueçamos, no entanto, de que em uma sociedade todas as funções são igualmente importantes, e por isso não devemos valorizar uma mais que a outra.

Finalizando o nosso trabalho, fica a grande questão: qual é, afinal, a principal diferença entre o conhecimento comum e a ciência? Vimos que não é o fato de se utilizar de raciocínio lógico, pois isso tanto o senso comum quanto o conhecimento científico fazem.

Uma primeira diferença é o grau de especialização que o cientista possui sobre determinado assunto, por causa dos anos de dedicação aos estudos e às pesquisas em um determinado campo. Isso, no entanto, não faz do cientista alguém melhor do que o comum dos homens.

A12 y Filosofia da Ciência e Escola de Frankfurt 73

Uma segunda diferença é o alcance da explicação. No exemplo do chá para gripe da minha avó, percebe-se que ela não age de maneira irresponsável, fazendo experiências com plantas desconhecidas, que poderiam mesmo envenenar. Existe um grau de certeza, baseado no número de vezes que certo evento aconteceu. Dizendo de outra forma: sempre que alguém tomou o chá os sintomas da doença foram amenizados.

Essa regularidade que minha avó percebeu é chamada na ciência de lei, e é enunciada da seguinte forma: se ocorre “X”, então ocorre “Y”. Desse modo temos dois momentos distintos que são a observação dos fatos e a formulação de leis que regulam algum campo da natureza ou da vida social. No entanto, o raciocínio da minha avó para por aí, e nós não podemos exigir muito mais dela. A ciência não. Para ela não é o bastante afirmar que algo ocorre sempre da mesma maneira, ela precisa explicar porque isso se dá. Para isso, são necessárias mais duas etapas na construção do conhecimento, que geralmente ultrapassam o senso comum: a formulação de uma teoria, e a realização de experiências para testar as teorias formuladas. Assim sendo, enquanto muitas vezes o senso comum se contenta em descrever como o mundo funciona, a ciência busca explicar por que as coisas ocorrem dessa maneira e não de outra.

Após essa breve introdução sobre conceitos básicos sobre a ciência, realizaremos um breve estudo de algumas teorias sobre a prática científica. A partir do século XVI, o debate sobre o alcance e os limites da ciência se intensificou. Com início mais nítido em Francis Bacon, passando por René Descartes no século XVII, chegaremos às críticas à indução realizadas por David Hume e à tentativa de síntese de Immanuel Kant no XVIII. Como já comentamos os três últimos, é interessante conhecer, ainda que sinteticamente, o primeiro. Francis Bacon inova a concepção indutiva, que como já vimos já existia pelo menos desde Aristóteles, quando distingue experiência vaga de experiência escriturada. A primeira é o conjunto de percepções captadas pelo observador quando opera ao acaso, a segunda quando o observador foi determinado de sobreaviso por um determinado motivo, e opera de forma metódica. Desse modo, percebe-se que nem toda observação experimental pode ser considerada científica. Não há dúvida, no entanto, de que a ciência é constituída de observações de experiência escriturada. Desse modo, se o cientista “pergunta à natureza” por meio da observação, afastando-se dos ídolos e noções falsas que ocupam o entendimento humano, deverá chegar à verdade, às formas, não no sentido platônico ou aristotélico do termo, mas no sentido de conceito produzido experimentalmente.

Quais seriam, no entanto, tais ídolos? Os primeiros são os ídolos da tribo, inerentes à própria natureza humana, que nos conduziriam a uma apreensão do universo mais simples do que realmente é, aceitando, por exemplo, sem problematiza-

ção, os dados dos sentidos. Os segundos são os da caverna, que são os mais particulares, pois cada pessoa tem uma tendência de conceber o mundo da maneira que pessoalmente lhe agrada mais, muitas vezes, em função disso, cometendo enganos. Os terceiros ídolos são os do foro (ou do mercado), e consistem na ambiguidade das palavras, pois devemos nos lembrar que a linguagem é uma entidade que utilizamos para significar o mundo, que não deve ser confundida com o próprio mundo. Os últimos são os ídolos do teatro, que consiste nos sistemas filosóficos existentes antes de sua teoria. Todos eles seriam tão falsos quanto as peças teatrais, e nem Platão, nem Aristóteles, escaparam de sua crítica ferrenha. Logo, podemos concluir que a postura de Bacon é a utilização do método indutivo de forma segura, fazendo todas as críticas ao conhecimento produzido até então, para que pudéssemos chegar a um conhecimento seguro.

Um século depois, surge o positivismo e, com ele, uma preocupação mais clara com a delimitação do que seja científico. Na lei dos três estados, de Auguste Comte, percebe-se a delimitação de três tipos específicos de conhecimento: o religioso, o filosófico e o científico. A religião é marcada por seu caráter sobrenatural, fictício e, também, dogmático. As sociedades tenderiam a ultrapassar essa primeira etapa chegando a uma forma de explicação mais racional, filosófica, denominada de metafísica, que seria caracterizada por seu caráter abstrato. Em um terceiro momento, o grupo social alcançaria o estágio positivo ou científico, que se caracterizaria pela comprovação experimental das proposições apresentadas. Aí encontramos um primeiro critério de demarcação da ciência, se comparada à metafísica: a comprovação experimental. Assim, a objetividade da postura científica passa a ser uma exigência para todo aquele que a ela se dedicar, mesmo nas ciências consideradas humanas. Vale lembrar a postura defendida por Émile Durkheim, um dos pais da sociologia, para quem o cientista social deveria “tratar os fatos sociais como ‘coisas’”. Para um positivista, assim, o conhecimento científico seria produzido por meio dos seguintes passos: observação, descoberta de leis, composição de teorias explicativas das leis e realização de experiências comprobatórias. Não é à toa que o filósofo da ciência Karl Popper, em suas aulas para o curso de física, interpelava seus alunos nas primeiras aulas com a ordem: observem!! Um pouco adiante veremos, comentando esse autor, qual era o sentido de sua fala em sala de aula.

Círculo de Viena

No início do século XX, um conjunto de pensadores, entre os quais poderíamos encontrar filósofos, matemáticos, lógicos, fundou na Áustria o chamado Círculo de Viena, também conhecido como Positivismo Lógico. A lógica central segue basicamente o mesmo raciocínio dos positivistas clássicos, com a ressalva de que a verdade não se encontraria exatamen-

Filosofia 74

te no mundo, mas na significação dos enunciados científicos. Poderíamos então considerar científico o ramo de conhecimento que apresentasse enunciados significativos, o que exigiria que fossem verificados. Desse modo, estabelece-se um critério para a demarcação do que seja ou não científico, que é a verificação da significação dos enunciados apresentados. O problema é que a significação estaria diretamente ligada à possibilidade de comprovação experimental, o que acaba por deixar os positivistas lógicos muito próximos da posição positivista clássica. Popper nos apresenta a compreensão de dois importantes pensadores do Círculo:

Schlick diz: “(...) um enunciado genuíno deve ser passível de verificação conclusiva.” Waismann é ainda mais claro: “Se não houver meio de determinar se um enunciado é verdadeiro, esse enunciado não terá significado algum, pois o significado de um enunciado confunde-se com o método de sua verificação. “ (41)

Desse modo é fundado, pelo Círculo de Viena, o chamado verificacionismo, ou princípio de verificação. O que se encaixa em tal princípio é denominado ciência, o que não se enquadra é Metafísica e, assim, não possui valor de verdade. Vale lembrar que no século XVIII o campo do conhecimento que era conhecido por Metafísica foi duramente criticado por David Hume, e Kant dará uma outra função a esse ramo epistemológico. Para o Positivismo Lógico, só a ciência produz conhecimento válido, baseado na significação dos enunciados apresentados, e lembrando Waismann, significação do enunciado e verificação estão diretamente ligados.

Thomas Kuhn

No século XX, o tema da ciência foi central nas discussões filosóficas, e encontramos alguns nomes que precisam ser ressaltados. Um deles é Thomas Kuhn. Em sua obra A estrutura das revoluções científicas nosso autor faz uma análise que mistura certa psicologia com sociologia da ciência. Sua teoria é construída em torno do conceito de paradigma. Afirma o autor que “um paradigma é o que os membros de uma comunidade científica, compartilham e, reciprocamente, uma comunidade científica consiste em homens que compartilham um paradigma.” Mas o que Kuhn chama exatamente de paradigma? Esse seria o conjunto formado pelos métodos, instrumentos, conceitos e experimentos dominantes em certo período em determinada ciência, que girariam em torno de uma teoria considerada correta. Isso significa que, naquele determinado momento histórico, uma certa forma de ver o mundo se estabelecia e se destacava com relação às outras, aparecendo como um paradigma dominante. Tal período será denominado, na teoria de nosso autor, de ciência normal. Os leitores devem estar imaginando que o melhor para a ciência é que ela sempre vivencie períodos de normalidade, pois isso seria sinal de sua total capacidade de explicar a realidade. O

problema é que, no século XX, chegamos a uma visão um pouco mais realista das possibilidades da ciência de produzir conhecimento sobre o mundo, e a crença de que chegaríamos à verdade sobre as coisas foi aos poucos caindo em desuso. Por isso Thomas Kuhn afirma que a “característica mais surpreendente dos períodos de investigação normal (...) é a de tão pouco aspirarem a produzir novidade.”

É por isso que afirmamos acima que há aqui certa psicologia da prática científica. Pensemos em um exemplo prático: Plutão não é um planeta. Será que é fácil para os astrônomos, que anteriormente ensinaram nas universidades que Plutão era um planeta, admitirem seu engano, ou seja, admitirem que toda uma geração de cientistas defendeu uma tese equivocada? E os manuais que afirmavam a versão anterior, terão que corrigir o equívoco? Lançar uma edição atualizada? Essas são algumas das implicações da aceitação de uma nova concepção da realidade. Desse modo, a tendência de um período normal é de realizar testes que confirmem a teoria amplamente aceita, e não que a coloquem em questão. Mas essa hegemonia de uma teoria é, por vezes, apenas aparente.

Não houve nenhum período desde a antiguidade remota até os fins do século XVIII em que existisse uma opinião única, generalizada e aceita sobre o desenvolvimento da luz. Em vez disso, havia numerosas escolas (...) competidoras e todas realçavam como observações paradigmáticas, o conjunto particular de fenômenos ópticos que lhes podia explicar a sua teoria.

No entanto, por mais que um paradigma dominante tente se manter nessa situação, em algum momento começa a surgir, no universo da teoria, o que o autor denomina de anomalia, que é um problema que resiste a ser resolvido pelo instrumental da teoria mais aceita. Tal anomalia pode iniciar certo mal estar ou constrangimento nos cientistas da época mas, como já dissemos, a tendência é de simples variações dentro da teoria, reformas pequenas, reformulações ad hoc (voltadas exatamente para esse caso específico), com o objetivo de manter a hegemonia do paradigma. No entanto, por vezes tais modificações ad hoc não são suficientes e se estabelece um período de crise na ciência, em função da ineficácia do aparato teórico dominante para resolver aquela classe de problemas. Surge, então, um período de crise na ciência, com a consequente concorrência de diversos paradigmas na busca pela hegemonia. A meta é sanar, de maneira coerente, o problema que a teoria em questão não conseguiu resolver. Quando isso ocorre, a fase de crise na ciência é temporariamente superada, e retornamos a um período de ciência normal, que durará enquanto o novo paradigma estiver resolvendo os problemas propostos à sua análise.

Outra constatação interessante à qual chegou Thomas Kuhn foi a de que a história da ciência não é, grande parte das vezes, uma experiência de acumulação de conhecimento.

A12 y Filosofia da Ciência e Escola de Frankfurt 75

Em suas palavras: “a tradição científica normal que surge de uma revolução científica é incompatível com as que existiam anteriormente.” Essa incompatibilidade entre o novo paradigma e o que lhe antecedeu é algo que, muitas vezes, contraria nossa concepção de prática científica. Pensamos que o desenvolvimento da ciência ocorre de forma totalmente linear.

O que o autor está afirmando é que, muitas vezes, para resolver um problema que uma teoria anterior não conseguiu resolver, o paradigma sucessor não realiza uma simples reforma nas concepções anteriormente aceitas, mas rompe bruscamente com o que era apresentado anterior, defendendo um posicionamento incompatível com o que anteriormente era hegemonicamente aceito. No entanto, a história da ciência, para Kuhn, nos mostra isso, e para o autor seria “a transição sucessiva de um paradigma para o outro por meio de uma revolução, o modelo ideal de uma ciência madura.”

Karl R. Popper

Outro autor importantíssimo no século XX no que diz respeito à filosofia da ciência é o austríaco Karl Raimund Popper. Apesar de inicialmente participar das discussões do Círculo de Viena ou Positivismo Lógico, grupo que foi acima apresentado, terminou por discordar do posicionamento do grupo e por estabelecer um outro critério de demarcação entre o que é científico e o que não é.

É importante lembrar que o que diferencia a ciência da Metafísica para autores como Moritz Schlick é a possibilidade de verificação dos enunciados. Se ocorre o teste e tudo corre como o previsto, então estamos diante de uma verdade científica.

O problema, que já nos foi apresentado por Thomas Kuhn, é que a partir daí as tentativas terminam por buscar constantemente confirmar a teoria vigente, reforçando a sensação de que tal teoria é verdadeira.

Popper recorda, em sua obra Conjecturas e Refutações, o problema da indução, tal como foi formulado por David Hume no século XVIII. Relembremos: o procedimento indutivo não possui implicação lógica, que só existe na dedução, que procede de afirmações universais para conclusões particulares (silogismo).

Assim, por maior que seja o número de vezes que um evento ocorre, nada pode garantir que o mesmo continuará acontecendo assim no futuro. Não é possível afirmar, assim, com certeza, que o sol nascerá amanhã. No entanto, não é absurdo esperar que ele nasça. No entanto, só podemos afirmar a probabilidade, ainda que enorme, que isso ocorra, nada mais. Mas o que explicaria a crença na regularidade absoluta do mundo? De acordo com Hume, o hábito ou costume que adquirimos em função da regularidade observada.

Popper, ao retomar Hume, mantém o posicionamento do autor do século XVIII, e rejeita, assim, o esquema positivista

que afirma a observação da realidade como ponto de partida das teorias científicas. O rompimento ocorreu depois que o autor assistiu a uma conferência de um físico chamado Albert Einstein, que apresentava uma teoria extremamente arrojada, com grandes possibilidades de comprovação de seus equívocos, e que extrapolava as possibilidades de observação experimental. Evidentemente a teoria apresentava possibilidades de observação posterior de sua veracidade. Popper afirma que o cientista apresenta uma teoria explicativa da realidade e que, só posteriormente, é possível realizar as observações necessárias à sua confirmação.

No entanto, mesmo essa confirmação por meio da observação é problematizada por nosso autor. Em suas palavras:

Importa acentuar que uma decisão positiva só pode proporcionar alicerce temporário à teoria, pois subsequentes decisões negativas sempre poderão constituir-se em motivo para rejeitá-la. Na medida em que a teoria resista a provas pormenorizadas e severas, e não seja suplantada por outra, no curso do progresso científico, poderemos dizer que ela “comprovou sua qualidade” ou foi “corroborada” pela experiência passada. (34)

A experiência empírica jamais poderá comprovar a verdade de uma concepção científica, somente sua validade temporária. O fato de os experimentos confirmarem uma teoria não implica, de maneira alguma, que ela seja verdadeira, e sim que ela é temporariamente aceitável, até que decisões negativas demonstrem a incapacidade de adequação da explicação vigente.

A experiência para apresentar um critério de demarcação alternativo entre ciência e metafísica, definindo como científica a teoria que se mostra passível de comprovação empírica. No entanto, a experiência, no caso de Popper, não será utilizada para a confirmação da teoria em questão, o que conduziria, como já bem afirmou Thomas Kuhn, a uma tendência de estagnação. A busca das experiências deve, ao contrário, ser de elementos que refutem a teoria, ou seja, que demonstrem sua inviabilidade. Nas palavras do próprio autor:

Contudo, só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação pela experiência. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema. Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que torne possível validá-lo através do recurso das provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico.

Ao invés, assim, do verificacionismo dos Positivistas Lógicos, Popper nos apresenta o falseacionismo como critério de

Filosofia 76

demarcação entre a ciência e a metafísica. O autor nos apresenta como exemplo de proposição não científica “choverá e não choverá amanhã”, exatamente porque tal assertiva não é passível de falsificação. A afirmação de que “choverá amanhã”, no entanto, pode ser considerada científica, pois pode ser desmentida por meio da experiência sensível.

Boas teorias, muitas vezes, correm grandes riscos de estarem erradas, mas enquanto são válidas, são extremamente úteis para quem delas se utilize. A afirmação de que choverá em algum dia no ano que vem no Brasil muito dificilmente será equivocada, no entanto, tal assertiva pouca utilidade terá para quem dela quiser fazer uso. Choverá na última semana de agosto do ano que vem no Brasil, proposição muito mais arriscada, se confirmada terá trazido benefícios muito maiores a quem porventura necessite dessa informação.

Desse modo, para nosso autor, os cientistas não devem ter medo de que suas teorias sejam refutadas, pois só a descoberta das falhas das teorias conduz ao desenvolvimento da ciência. Reforçar uma concepção científica já aceita contribui muito pouco ou em nada para o progresso do conhecimento. Muitas teorias, ao fugirem de qualquer possibilidade de refutação, se tornam não científicas. Se afirmo, por exemplo, que todo cisne é branco, a primeira busca que devo realizar deve ser para encontrar um cisne que não o seja. Mais cisnes brancos encontrados não melhoram a minha teoria, mas somente reforçam uma sensação de verdade que, como já dito acima, não deve existir no conhecimento indutivo. No entanto, tenho que ter coragem para, quando encontrar um cisne negro, admitir a falha da minha concepção, e não buscar saídas alternativas como afirmar que, como todo cisne é branco e esse pássaro não é dessa cor, ele não pode ser um cisne, deve ser um “cisne”.

Teorias como a psicanálise e o próprio marxismo são criticadas por Popper pela sua falta de cientificidade, exatamente por não se mostrarem passíveis de refutação. No caso da teoria marxista, a questão é relativamente simples: um modo de produção só desaparece quando todas as forças produtivas tiverem sido desenvolvidas em seu interior. Assim sempre que a revolução der errado, um marxista dirá que as forças produtivas ainda não haviam se desenvolvido completamente, evitando sempre admitir que a teoria tenha apresentado equívocos.

Paul K. Feyerabend

Por último, vale lembrar o anarquista metodológico de Paul K. Feyerabend, também austríaco. Para esse autor, o único preceito que se deve admitir para a prática científica é de que “vale tudo”. Desse modo, acompanhamos a denúncia de certo caráter elitista da ciência ocidental, que considera tudo o que não é ela mesma como algo sem fundamento seguro. Práticas como a acupuntura ou a medicina natural, assim como a homeopatia, devem receber o mesmo status da ciência tradicional, desde que demonstrem funcionalidade.

Se admitirmos somente o esquema positivista como válido para a formulação de teorias científicas (observação-lei-teoria-comprovação experimental), várias concepções científicas hoje amplamente aceitas terão que ser recusadas, por não se adequarem a esse esquema de construção. No livro Descobertas acidentais na ciência, Royston M. Roberts nos apresenta uma série de exemplos de desenvolvimento científico ocorrido de forma pouco ortodoxa. Vale lembrar as ordenhadoras e a vacina contra a varíola, ou o próprio Viagra, que de medicamento para problemas cardíacos passa a tratamento para impotência de forma acidental.

É importante, no entanto, diferenciar o contexto de descoberta do contexto de justificação. Por mais que uma descoberta científica ocorra inicialmente de forma acidental, ela só será aceita pela comunidade científica após seu descobridor explicar com exatidão em que condições regulares tal evento ocorre de fato, e isso exige experimentação demorada e raciocínio lógico. O que tentamos demonstrar utilizando Feyerabend é que, nem sempre, o conhecimento científico ocorre de maneira totalmente linear e esperada, aliás, quando olhamos para a história da ciência, percebemos que grande parte das vezes isso não aconteceu. Apesar disso, só as teorias lógica e empiricamente justificadas podem ser realmente aceitas pela comunidade científica.

Escola de Frankfurt: Teoria crítica

e Razão comunicativa

A Escola de Frankfurt surgiu na Alemanha em aproximadamente 1925 e teve como principais representantes Walter Benjamin (1892-1940), Hebert Marcuse (1898-1979), Max Horkheimer (1895-1973), Theodor Adorno (1903-1969) e Jürgen Habermas (1929). Os principais temas abordados pela Escola foram de caráter filosófico-social e verteram sobre cultura de massa, indústria cultural, liberdade, ciência e técnica, bem como o papel da razão na formação/construção das relações pessoais e produtivas (trabalho e bens).

A filosofia da Escola de Frankfurt foi conhecida posteriormente como Teoria Crítica, pois ia contra o pensamento moderno de que a razão representava a Luz diante das trevas que teriam caracterizado o período medieval, que era sinônimo de progresso e este de felicidade, liberdade ou mesmo valorização do homem enquanto tal. Os filósofos acima mencionados, perceberam, até pelo momento histórico em que viveram, que esta razão iluminada que trazia consigo o progresso também carregava um lado “obscuro”, que ficaria evidente na forma como a mesma se torna instrumento de dominação.

Adorno e Horkheimer: Razão instrumental

Max Horkheimer, em sua obra Eclipse da Razão evidencia dois tipos de razão: a razão objetiva e a razão subjetiva. A primeira tem o intuito de efetivar a “ideia de homem”, isto é, a emancipação do homem nos mais variados aspectos, tais como:

A12 y Filosofia da Ciência e Escola de Frankfurt 77

autonomia, criticidade, liberdade, criatividade que regularia as relações pessoais, bem como as relações de conhecimento no que concerne à natureza. A segunda teria um caráter instrumental, seria um meio para atingir um fim, ou seja, dominação da natureza com o objetivo de transformá-la para geração de capital.

Horkheimer admite que, em um mundo capitalista, a sociedade industrial instrumentalizou a razão, fazendo com que esta seja meio para se alcançar objetivos predeterminados pela mesma. O indivíduo se tornou escravo de sua razão, que o induz sempre a buscar melhores meios para alcançar fins materiais, lucrativos. A ciência deixa de estar a serviço da humanidade e fica subordinada ao capital. A humanidade vai perdendo sua identidade e criticidade em prol dos valores preestabelecido por um sistema autoritário e alienante. O homem é o que tem e é avaliado a partir da sua eficácia na resolução de problemas e capacidade de gerar maior benefício/lucro.

Em sua obra intitulada Dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer deixam claro essa via de mão dupla que é a emancipação da razão da forma como aconteceu. Na medida em que a razão objetiva foi gradativamente sendo encoberta pela razão instrumental, mais evidente fica a o caráter dialético que há no esclarecimento (aqui entendido como desenvolvimento da razão), pois ao mesmo tempo em que este traz consigo aspecto positivos como cura de doenças, comodidades, conforto; também contribui para uma desumanização do indivíduo, que deixa de ser fim e passa a ser meio. As ciências, na busca pela satisfação de supostas necessidades humanas e em prol do progresso, fazem experimentos, testes, estudam, compreendem a natureza para dominá-la e, neste processo de dominação, interfere na ordem da mesma sem pensar nas consequências. Para esses autores, essa intervenção na natureza vai se tornar tão intensa que trará consequências que podem ser irreversíveis e prejudiciais ao homem, levando-o ao que chamaram de barbárie do intelecto.

Enfim, o avanço da razão instrumental caracteriza a “dialética do esclarecimento”, ou seja, progresso que pode conduzir ao caos, caracterizado tanto por uma emancipação da razão que tira do homem autonomia e criticidade, quanto pela possibilidade de danos irreversíveis aos recursos naturais essenciais à vida humana.

Jürgen Habermas: Razão comunicativa

Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf em 18 de Junho 1929, filósofo e sociólogo alemão, que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ficou conhecido por suas teorias sobre a racionalidade comunicativa e a esfera pública, sendo considerado como um dos mais importantes intelectuais contemporâneos. Foi assistente de Theodor Adorno e é um dos principais representantes da chamada segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas continuou a discussão acerca da razão instrumental em um contexto mais avançado, o que o conduziu a elaboração de sua teoria fundada na razão comunicativa, a qual se opõe à razão instrumental. Podemos diferenciá-las a partir das maneirais de agir da seguinte maneira:

Ação instrumental: corresponde ao mundo relativo aos sistemas fundados no poder (Estado, leis etc) e na moeda (mercado). Esse tipo de ação pauta-se na razão instrumental, a qual serve como meio para atingir fins bem específicos e definidos, sempre orientados para o resultado eficaz da ação.

Ação comunicativa: corresponde ao que Habermas chama de mundo da vida, que está mais voltado para a inter e intra-subjetividade entre indivíduos e/ou grupos. Por meio da comunicação (diálogos, debates), os indivíduos buscam, isentos de dominação, a compreensão, expressando perspectivas e pressupostos com o intuito de chegar a um consenso que traga o bem estar mútuo. Toda a bagagem (intelectual, cultural e histórica) que cada indivíduo traz consigo está suscetível ao debate sem a tentativa de uma imposição de determinada posição, pois o objetivo é o bem comum e não o estabelecimento de condições rígidas de caráter dominador. Não se trata de persuadir o outro ou encontrar a ação que traga a melhor relação custo-benefício mas de encontrar o que seria melhor para os envolvidos.

O problema encontrado por Habermas é que na sociedade atual, com o capitalismo avançado, a ação instrumental tem tomado o lugar da ação comunicativa, ou seja, está invadindo o mundo da vida pessoal, sufocando a subjetividade, anulando a autonomia e as relações pessoais que deixam de ser afetivas e com vistas a um bem comum para visarem a um fim proposto por um sistema impessoal. Na teoria da ação comunicativa de Habermas, o certo e o errado não deveriam ser pautados em parâmetros impostos pelo sistema político (poder) ou econômico (capital), mas ser determinado por meio do diálogo e discurso, visando ao consenso, o legitimador do certo ou errado e, consequentemente, das ações dos indivíduos, que poderiam ser julgadas como éticas ou não. O poder político e suas regras deveriam ser pautados pelo consenso gerado no diálogo entre os indivíduos ou grupos e não o contrário.

Filosofia 78
p://upload.wikimedia.org/>. Acesso em: 28 jul. 2016.
Fonte: <htt

EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO

01. ( UEM PR) O filósofo Thomas Kuhn, em sua obra Estrutura das revoluções científicas, entende que o progresso da ciência acontece por meio da substituição dos paradigmas nos quais se baseiam os conhecimentos e as hipóteses científicas de uma época por novos paradigmas. Os paradigmas são questionados porque já não podem mais resolver os problemas científicos acumulados, e o surgimento de hipóteses que exigem princípios diferentes e contraditórios para a explicação dos fenômenos revela uma crise que poderá dar lugar à construção de um novo modelo consensual para as ciências.

Acerca das teorias sobre as revoluções científicas, assinale o que for correto.

01. Atualmente, os métodos das ciências humanas entendem que as realidades sociais seguem uma progressão constante, de forma que encontramos na história leis e padrões semelhantes àqueles das ciências naturais. E

02. Segundo Kuhn, a ciência não possui pontos de vista neutros, pois os cientistas sempre levam em conta o seu contexto histórico. C

04. Karl Popper propôs que a verdade das proposições científicas pode ser verificada por meio do método lógico dedutivo. E

08. O método da falseabilidade proposto por Karl Popper permitiu que as proposições das ciências humanas fossem avaliadas de acordo com critérios objetivos. E

16. Segundo Popper, uma proposição do tipo “choverá ou não choverá aqui amanhã” não é um enunciado científico, pois não pode ser refutada pela experiência. C

02. (UEM PR) “Parece que enquanto o conhecimento técnico expande horizontes da atividade e do pensamento humano, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização.”

(HORKHEIMER, M. Eclipse da razão. In: COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos de filosofia São Paulo: Editora Saraiva, 2010, p. 280).

Com base no fragmento transcrito, assinale o que for correto.

01. As novas tecnologias, principalmente a facilitação do acesso às redes sociais e aos portais de notícias, permitem ao cidadão ter mais acesso à informação.C

02. Os avanços tecnológicos reduzem a capacidade do pensamento humano, como as calculadoras simples de nossos celulares, que limitam o conhecimento matemático.E

04. O uso intensivo da tecnologia nas consultas médicas, reduzindo a interação médico/paciente, humanizou os tratamentos.E

08. O rápido desenvolvimento das tecnologias está produzindo massas de analfabetos funcionais, o que mostra o quanto essas tecnologias são prejudiciais ao avanço do conhecimento.E

16. A tecnologia pode ser usada para manipular grupos sociais, como a disseminação de notícias falsas (fake news) que circulam pelas redes sociais.C

03. (Enem MEC) O conceito de democracia, no pensamento de Habermas, é construído a partir de uma dimensão procedimental, calcada no discurso e na deliberação. A legitimidade democrática exige que o processo de tomada de decisões políticas ocorra

a partir de uma ampla discussão pública, para somente então decidir. Assim, o caráter deliberativo corresponde a um processo coletivo de ponderação e análise, permeado pelo discurso, que antecede a decisão.

VITALE, D. Jürgen Habermas. Modernidade e democracia deliberada. Cadernos do CRH (UFBA), v. 19, 2006 (adaptado).

O conceito de democracia proposto por Jürgen Habermas pode favorecer processos de inclusão social. De acordo com o texto, é uma condição para que isso aconteça o(a)

a) participação direta periódica do cidadão.

b) debate livre e racional entre cidadãos e Estado.

c) interlocução entre os poderes governamentais.

d) eleição de lideranças políticas com mandatos temporários.

e) controle do poder político por cidadãos mais esclarecidos.

04. ( UEM PR) “A concepção científica do mundo rejeita a concepção metafísica [...]. É precisamente a rejeição da possibilidade do conhecimento sintético a priori que constitui a tese fundamental do empirismo moderno. A concepção científica do mundo só admite proposições experimentais sobre objetos de qualquer tipo e proposições analíticas da lógica e da matemática.”

(A concepção científica do mundo: O Círculo de Viena. In: CHAUÍ, M. et al. Primeira filosofia. Lições introdutórias. São Paulo: Brasiliense, 1987). O fragmento acima é um extrato do manifesto do Círculo de Viena, escrito por Carnap, Hahn e Neurath, em 1929.

Com base nesse excerto e em conhecimentos sobre filosofia da ciência do século XX, assinale o que for correto.

01. Esse manifesto apresenta as principais ideias do chamado positivismo lógico ou empirismo lógico. C

02. O Círculo de Viena sofreu influência da lógica de Frege, das filosofias de Russel e de Wittgenstein. C

04. Os autores do Círculo de Viena apresentam teorias na quais a experiência e a linguagem se completam. C

08. As proposições da metafísica dizem respeito a situações que são observáveis empiricamente. E

16. A principal tese filosófica defendida pelos autores do Círculo de Viena diz respeito à unidade real da ciência. C

05. (Enem MEC) Hoje, a indústria cultural assumiu a herança civilizatória da democracia de pioneiros e empresários, que tampouco desenvolvera uma fineza de sentido para os desvios espirituais. Todos são livres para dançar e para se divertir, do mesmo modo que, desde a neutralização histórica da religião, são livres para entrar em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção econômica, revela-se em todos os setores como a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa.

ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

A liberdade de escolha na civilização ocidental, de acordo com a análise do texto, é um(a)

a) legado social.

b) patrimônio político.

c) produto da moralidade.

d) conquista da humanidade.

e) ilusão da contemporaneidade.

A12 y Filosofia da Ciência e Escola de Frankfurt 79

GABARITO

FILOSOFIA / PAS3

A01 - Mito, Logos e Pré-socráticos

A02 - Sócrates (470–399 a.C.): Contexto, método e julgamento

A08 - Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e Montesquieu

01 C-C-E-C-C 02 a 03 c 04

A03 - Platão De Atenas (427 a.C. - 437 a.C.): Bem, Alma

A09 - Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx

A04 - Aristóteles: Metafísica, Lógica, Ética e Filosofia Helenística

A10 - Friedrich Nietzsche

A11

A05 - Filosofia Patrística de Agostinho e a Escolástica de Aquino

A12

A06 - René Descartes, John Locke e David Hume

A07 - Immanuel Kant e a Teoria do Conhecimento e Ética

80
01 d 02 a 03 a 04 d 05 b 06 01, 02, 04, 16
01 c 02 a 03 a 04 d 05 c 06 b 07 b 08 c 09 a 10 E-C-C-E-C
01 b 02 C-E-E-C-E 03 a 04 C C E C E 05 d 06 b 07 d
e Conhecimento
01 C-E-E-C-C 02 E-C-E-E-C 03 d 04 E E C C E 05 c 06 C E C C C 07 C-C-E-C-E 08 C-C-C-E-C 09 C-C-E-C-C
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Jean-Paul
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