W MITO, LOGOS E PRÉ-SOCRÁTICOS
O Mito
É quase um consenso entre os estudiosos de Filosofia que existiu uma forma anterior à das explicações filosóficas, que podemos denominar de explicação mítica. Chamaremos aqui, pois, de mito, toda tentativa de explicação que antecede, em uma sociedade humana, as buscas de compreensão ancoradas mais firmemente na razão (Filosofia) ou mesmo em tentativas de experimentação para as teorias propostas (Ciência).
O ser humano, nos primeiros estágios de seu desenvolvimento rumo à racionalidade, tinha extrema dificuldade para explicar os fenômenos que o cercavam. Qual é o motivo para períodos longos de seca, seguidos de outros, abundantes de chuvas? Por que, enquanto chove, os raios e os trovões se fazem presentes? Em função de que há a alternância do dia e da noite? Ou de forma mais existencial: De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos exatamente fazendo aqui? Na ausência de respostas racionais ou científicas para questões de tão necessária compreensão, surgem então as explicações míticas. De acordo com Auguste Comte, em um primeiro momento, as divindades serão forças da natureza fetichizadas, ou seja, que ganham uma vida diferente daquela que realmente possuem, e o sol se transforma em divindade, e a lua em outra, e a floresta em outra. As divindades africanas, presentes na umbanda ou no candomblé, até hoje são ligadas a forças ou elementos da natureza.
Desse modo, surgem também as divindades gregas, como Poseidon o deus das águas, Atena a deusa da sabedoria, ou Afrodite a deusa do amor. Vale ressaltar que os deuses gregos são antropomórficos, ou seja, possuem forma humana e, além disso, sentimentos humanos, como amor e ódio. Mentem, enganam, o que demonstra claramente sua imperfeição, e não são, como o Deus abraâmico, seres com poder ilimitado.
A dificuldade de explicação racional citada acima no texto, assim, não permitia aos gregos conhecer muitas coisas que os cercavam, tais como os fenômenos da natureza, e quando se deparavam com algo que, para eles, era inexplicável (como o
trovão e o relâmpago, por exemplo) estes homens se espantavam, isto é, temiam, naturalmente, o desconhecido. Contudo, buscavam conhecer o que estava acontecendo ao seu redor, isto é, conhecer a ordem natural do mundo, o que implica, também, compreender as causas e efeitos dos fenômenos naturais.
W A cosmogonia
A palavra cosmogonia vem da junção de duas palavras gregas, quais sejam: cosmos, que significa mundo ordenado e organizado, e gonia, que significa geração, nascimento. De maneira que cosmogonia pode ser compreendida como uma narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo, a partir de forças gerativas.
W A mitologia
A primeira explicação encontrada por estes “indivíduos” para os fenômenos se pautou na formação da sua primeira ideia de divindade, ou seja, os deuses criaram os relâmpagos e os trovões no intuito de se comunicar com os homens. Como já foi dito anteriormente, o conhecimento desses primeiros homens era estritamente baseado nos sentidos e, por isso, percebe-se nos relatos mitológicos a menção a deuses, com características humanas (como Zeus que trai sua esposa Era com uma humana e tem um filho semideus, Hércules; além das constantes lutas entre os deuses), sendo que, de certo modo, existia um deus para cada necessidade dos homens. Talvez por essa razão, atualmente, tem-se os mitos como fábulas ou contos folclóricos, o que é completamente errado.
Os mitos gregos são provenientes de uma tradição oral muito forte, como na maioria dos povos antigos, sociedades ágrafas, transmitida de geração em geração pelos poetas. É necessário distinguir, no entanto, duas classes de poetas, quais sejam: os aedos, aos quais é atribuída a autoria das narrativas, dos quais os principais exemplos são Hesíodo (Teogonia) e Homero (Ilíada e Odisseia); e os rapsodos, responsáveis pela transmissão oral dos poemas. A questão central é que os autores dos poemas não são exatamente os aedos, mas as divindades que falariam por meio deles, como se pode notar pela citação abaixo, que pertence ao início da Ilíada, de Homero.
Canta-me a Cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida, causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados e como pasto das aves.
Quem narra é a deusa, a musa, e isso está bem claro na passagem. É isso que faz com que o mito seja tão respeitado, à semelhança da Bíblia, escrita por homens e inspirada por Deus. Esse é também o motivo pelo qual somente a confluência de uma série de fatores históricos, no seu conjunto, permitiu que essa forma de explicação de mundo fosse questionada com eficácia no imaginário grego. A guerra de Troia, por exemplo, ocorre por causa de intrigas entre os deuses e deusas do Olimpo, e seu desfecho, a queda das muralhas, foi decidido pelo príncipe troiano Páris, antes sequer dos conflitos terem início. A ideia de um destino imutável e controlado pelos deuses é uma das estruturas lógicas presentes nas explicações míticas. O processo de ordenamento do mundo também é explicado, lembrando que para o grego não existe criação, pois tudo que existe sempre existiu. O surgimento ou domínio de alguns instrumentos ou técnicas, como o uso do fogo, também estaria explicado nas narrativas míticas.
W O mito: Édipo Rei
Édipo, o trineto de Cadmo, é hoje talvez o herói grego mais famoso depois de Hércules. Ele é famoso por ter resolvido o enigma da Esfinge, mas ainda mais notório por sua relação incestuosa com sua mãe. Na antiga Grécia, era famoso por ambos os episódios, mas o maior significado era como o modelo do herói trágico, cuja estória incluía os sofrimentos universais da ignorância humana a falta da compreensão da pessoa sobre quem ela é e sua cegueira em face do destino.
Édipo nasceu em Tebas, filho de Laio, o rei, e sua esposa Jocasta. Devido ao oráculo ter predito que Laio encontraria a morte nas mãos de seu próprio filho, o jovem Édipo foi entregue a um pastor do Monte Citéron, com os tornozelos perfurados de modo que não pudesse se mover. Esta foi a origem de seu nome que significa "pé inchado". Entretanto, o bom pastor não conseguia abandonar a criança, entregando-a então a outro pastor do lado oposto da montanha. Este pastor, por sua vez, levou a criança a Pólibo, rei de Corinto, o qual não tendo filhos, ficou feliz em criar o menino como seu filho. Enquanto Édipo crescia, era ameaçado com comentários sobre não ser filho legítimo de Pólibo. Apesar de Pólibo ter lhe assegurado que o era, Édipo decidiu-se finalmente viajar para Delfos e consultar o oráculo. O oráculo não revelou quem eram seus pais verdadeiros, mas contou-lhe que estava destinado a matar seu pai e casar com sua mãe. Horrorizado e tão chocado que esqueceu completamente suas próprias dúvidas sobre seus pais, deixou Delfos resolvido a nunca mais retornar a Corinto, onde viviam Pólibo e sua esposa.
Desconhecido para Édipo, seu pai verdadeiro, Laio, estava também viajando nas redondezas de Delfos. Em um local onde três estradas se encontravam, Édipo se viu ao lado da carruagem de Laio. Um membro da escolta de Laio ordenou rudemente que Édipo saísse do caminho, e este, sem disposição para obedecer, vociferou de volta. Ao passar a carruagem, o próprio Laio golpeou Édipo com um bastão e este respondeu derrubando Laio do veículo e o matando. Esqueceu, então, o incidente e continuou o seu caminho.
Voltando as costas a Corinto, acabou chegando em Tebas, a cidade de Laio, que estava sendo aterrorizada pela Esfinge, um monstro parte leão alado, parte mulher, que fa-
zia uma pergunta que confundia: "O que é que anda com quatro pernas, duas pernas e três pernas?" Aqueles que tentaram e falharam em solucionar a charada eram jogados pela Esfinge em um precipício, cujo fundo estava literalmente tomado por ossos das vítimas. Quando a morte de Laio se tornou conhecida em Tebas, o trono e a mão da rainha de Laio foram oferecidos ao homem que pudesse solucionar a charada e livrar a região da terrível Esfinge. Para Édipo, a charada não ofereceu problema; rapidamente identificou seu sujeito como um "homem que, como um bebê, engatinha de quatro, acaba crescendo e andando em duas pernas e com a idade necessita do suporte de uma terceira perna, uma bengala". Quando a Esfinge escutou essa resposta, ficou tão enraivecida e mortificada que se jogou no precipício, causando sua morte.
Os cidadãos de Tebas receberam Édipo com deferência e o fizeram seu rei. Ele se casou com Jocasta e, por muitos anos, viveram em perfeita felicidade e harmonia. Édipo mostrou-se um governante sábio e benevolente. Jocasta deu-lhe dois filhos, Etéocles e Polínece, e duas filhas, Antígona e Ismênia. Eventualmente, entretanto, outra praga se abateu sobre a região de Tebas, e é neste ponto que começa a grande tragédia de Sófocles, Édipo Rei . A colheita estava morrendo nos campos e hortas, os animais estavam improdutivos, as crianças doentes e os bebês em gestação definhavam, enquanto os deuses estavam surdos a todos os apelos. Creonte, irmão de Jocasta, retornou de sua consulta ao Oráculo de Delfos, que ordenava que a maldição seria levantada apenas quando o assassino de Laio fosse trazido à justiça. Édipo, imediatamente e de maneira enérgica, tomou a tarefa de encontrá-lo e, como primeiro, passo consultou o profeta cego Tirésias. Tirésias reluta em revelar a identidade do assassino, mas é levado gradualmente a se enfurecer pelas insinuações de Édipo sobre ter algo a ver com a morte. Acaba revelando que o próprio Édipo é o pecador que trouxe a maldição sobre a cidade. Também profetiza que Édipo, que se considera tão inteligente e de visão larga, se recusará a aceitar a verdade de suas palavras, se recusará a reconhecer quem realmente é e o que tinha feito.
Édipo, enraivecido, suspeita que seu cunhado Creonte está mancomunado com Tirésias para assumir o trono. Creonte também nada pode dizer para acalmá-lo. Jocasta tenta acalmar a situação: é impossível que Édipo tenha matado Laio, diz ela, pois este foi morto em uma encruzilhada de três estradas. Subitamente, Édipo lembra seu encontro casual com um homem velho perto de Delfos, questionando Jocasta sobre a aparência de Laio (que, estranhamente, se parecia com o próprio Édipo) e o número de elementos na sua escolta. Ele percebe que Laio foi provavelmente a sua vítima. Enquanto
espera pela confirmação de um elemento da escolta que retornava a Tebas, um mensageiro chega de Corinto com a notícia que Pólibo tinha morrido de morte natural. Édipo, ainda não suspeitando de toda a extensão de seu crime, fica feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da profecia do oráculo, mas resolve ter cautela antes que acabe se casando com sua mãe.
O mensageiro bem intencionado, ansioso em confortá-lo, assegura a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais. O próprio mensageiro tinha recebido Édipo, então um bebê, das mãos de outro pastor do Monte Citéron e o entregou a Pólibo. Mesmo agora, Édipo não consegue fazer a correta conexão e enquanto a aterrorizada Jocasta tenta, em vão, persuadi-lo a parar a investigação, persiste nos seus esforços para chegar ao fundo do mistério e ordena que o pastor de Laio, agora um velho, seja trazido à sua presença. Por uma casualidade do destino, esse homem é também a única testemunha ainda viva da morte de Laio. Quando finalmente aparece, o completo horror da situação finalmente chega a Édipo; o homem admite que tomou o filho de Laio e com pena o entregou ao pastor de Pólibo, ao invés de o deixar morrer. Essa criança era Édipo, que agora tinha sucedido seu pai no trono e no leito.
Jocasta não esperou pelo desfecho. Tinha ido antes de Édipo para o palácio e, quando a seguiu, com o que parecia uma intenção assassina, descobriu que tinha se enforcado. Arrancando os broches de ouro do vestido dela, golpeia seguidamente seus olhos com eles, até que o sangue corra pela sua face. Como pode olhar para o mundo, agora que consegue ver a verdade? O coro da peça mostra a moral da estória: por mais seguro que um homem possa se sentir, mesmo sendo rico, poderoso e afortunado, ninguém pode se sentir seguro de escapar de um desastre; não é seguro chamar qualquer pessoa de feliz deste lado do túmulo
Apesar de ter solicitado à Creonte um banimento imediato, não foi permitido a Édipo partir de Tebas por vários anos, até que sua punição tivesse sido confirmada por um oráculo. Na ocasião em que foi mandado embora, estava muito menos ansioso para partir. Agora, já um velho, estava condenado a vagar de lugar em lugar, pedindo comida e abrigo. Suas passadas cegas eram guiadas por suas filhas Antígona e Ismênia. Apesar de elas trazerem algum conforto e alegria para ele, seus filhos, Polínice e Etéocles, estavam cada vez mais afastados dele, de seu tio Creonte e um do outro. Tinha sido combinado que se alternariam no governo, um ano para cada um, mas, quando o primeiro ano de Etéocles terminou, ele se recusou a entregar o trono a seu irmão. Polínice se refugiou em Argos, onde agrupou à sua volta uma equipe de seis outros campeões, com os quais se propôs a
sitiar sua cidade natal. É essa a situação no início da obra Édipo em Colona, de Sófocles, quando Édipo, chegando ao fim de sua vida, chega aos olivais de Colona, um distrito nos arredores de Atenas.
Ajudado por Antígona, Édipo se refugia em um altar para aguardar a chegada de Teseu, rei de Atenas, quando Ismênia chega com notícias de Tebas. As facções rivais dos irmãos ficam a cada dia mais nervosas e um oráculo se pronunciou dizendo que o lado que conseguisse o apoio de Édipo seria o vencedor. Édipo, igualmente irritado com Creonte e com seus dois filhos, está seguro de que não apoiará qualquer um dos lados. Podem lutar entre si, esperando que destruam um ao outro no processo. Quando Teseu chega, portanto, Édipo solicita que lhe seja permitido terminar seus dias em Atenas. Teseu escuta com atenção seu pedido e oferece a Édipo um local mais confortável, mas Édipo deseja permanecer no local onde está. Surge então Creonte, determinado a fazer Édipo acompanhá-lo de volta a Tebas, mas apenas à fronteira da cidade, de modo a ainda evitar a maldição de ter Édipo realmente no solo Tebano, para manter sua facção protegida de sua proximidade. Quando Édipo recusa a pretensão de amizade e rejeita a oferta imediatamente, Creonte se torna violento e ameaça levar Édipo à força. Já tinha capturado Ismênia e agora seus soldados tinham levado Antígona para muito longe de seu indefeso pai.
Teseu, retornando bem a tempo de evitar que Édipo seja retirado de seu altar, critica asperamente as ações de Creonte e promete devolver as filhas a Édipo. Além disso, ele ordena que Creonte volte a Tebas. Chega então Polínice, juntamente com uma razão política para desejar a proteção de seu pai, o qual tinha ajudado a expulsar de Tebas; também é rejeitado, e Édipo anuncia sua intenção de permanecer em Colona até o fim de seus dias. A peça termina de maneira dramática: após Édipo desaparecer no arvoredo sagrado, um mensageiro emerge para contar seu fim miraculoso, testemunhado apenas por Teseu. Édipo, anuncia-se, tinha transferido as bênçãos que poderia ter dado a Creonte ou Polínice para Atenas, a qual seria, daí em diante, protegida por sua presença.
O ataque a Tebas feito por Polínice e seus aliados é o assunto da peça Sete contra Tebas, de Ésquilo. Sete campeões lideraram o ataque nos sete portões de Tebas, calhando a Polínice tomar o portão defendido por seu irmão Etéocles. Apesar dos tebanos finalmente repelirem o ataque sobre sua cidade, os dois irmãos morrem pelas espadas um do outro, cumprindo assim a praga de seu pai e prosseguindo a triste saga da casa de Édipo.
A ação dramática de Antígona de Sófocles começa neste ponto da estória. Com os dois herdeiros masculinos de
Édipo mortos, Creonte assume o título de rei de Tebas. Decreta que, enquanto Etéocles devesse ser sepultado com toda a cerimônia, o traidor Polínice deveria ser deixado no local onde tombou, para ter seu corpo destruído pelos cães e pássaros predadores. Creonte mandou montar guarda ao lado do corpo para certificar-se de que seu édito seria cumprido. Logo, seus soldados retornariam com Antígona, que tinha sido apanhada atirando punhados de terra sobre os restos desfigurados de seu irmão, em um esforço de fornecer-lhe um sepultamento simbólico. Quando desafiada quanto à sua desobediência, replicou que as leis dos deuses, que dizem que os parentes sejam sepultados, são irrevogáveis e imutáveis, devendo ter precedência sobre a lei dos homens. Na sua Antígona , Sófocles utiliza o mito para explorar este conflito entre a lei humana e a divina: o que uma pessoa comum deve fazer quando duas destas leis entram em conflito? Apesar de, por fim, a resposta parecer ser que a lei divina deve ser obedecida a qualquer custo, essa conclusão não é de nenhuma forma evidente no início. Enquanto Antígona é mostrada como uma mulher forte e pouco feminina que não está feliz em permanecer no reino feminino tradicional do lar, mas aventura-se, desafiando as leis de seu guardião masculino, Creonte aparece inicialmente como um homem que tenta fazer o máximo para governar a cidade pela regra do rei.
Quando Antígona não mostra qualquer remorso por seu crime, Creonte ordena que seja sepultada viva, um método cruel de execução calculado para absolvê-lo de responsabilidade direta pela morte. Neste ponto, o noivo de Antígona, Hêmon, filho de Creonte, vem a Creonte pedir pela sua vida, argumentando que a punição é bárbara e politicamente ruim, pois Antígona tem grande possibilidade de tornar-se heroína entre o povo de Tebas. Creonte, entretanto, permanece inflexível, como as árvores que não se curvarão frente corrente nas margens de um rio alagado, ou o marinheiro que não retirará suas velas antes da borrasca. Assim, dá instruções para que a punição prossiga. Apenas quando aparece o profeta Tirésias, e revela a zanga dos deuses e a terrível punição que se abaterá sobre Creonte se persistir nessa ação, é que Creonte finalmente aceita o conselho e liberta Antígona da prisão. Nesciamente, como resultante, detém-se enquanto ia ao sepultamento de Etéocles e apenas chega ao túmulo para encontrar Hêmon segurando o corpo de Antígona - tinha se enforcado em sua cinta. Hêmon então volta sua espada contra seu próprio peito. Creonte retorna à sua casa, recebendo a notícia que sua esposa Eurídice tinha suicidado, amaldiçoando seu marido no seu leito de morte. Esmagado pela tragédia que o tinha atingido de maneira tão súbita, Creonte é conduzido para longe, deixando o coro refletindo sobre o fato da maior parte da felicidade ser a sabedoria, em conjunto com a devida reverência aos deuses.
Extraído do site: <www.mundodosfilosofos.com.br>. Acesso em: 02 nov. 2014. Adaptado.
O nascimento da Filosofia: logos
x Condições históricas que propiciaram o surgimento da Filosofia
Por um longo período, que vai aproximadamente do século VIII ao V a.C, diversas condições foram amadurecendo e favorecendo o aparecimento e a consolidação de uma forma mais racional de compreensão da realidade e dos próprios seres humanos. É sempre importante lembrar que não há uma ruptura entre o mito e o pensamento filosófico, visto que os mitos continuam presentes na vida de grande parte da população, ao passo que a Filosofia, no começo, era prática de poucos, extremamente elitizada. Dentre os principais fatores históricos que, na sua confluência, resultaram em um maior espaço para a aparição de explicações racionais, seguem-se os mais relevantes.
x As viagens marítimas , que geraram dois efeitos mais diretos: as trocas culturais, que conduziram os gregos a um contato com outros povos, originando a geometria, por exemplo, em função da experiência egípcia, ou a história, derivada das genealogias dos babilônios; e o descrédito com relação à palavra do poeta, pois a desmistificação se deu, nesse momento, com a decadência do mito. Vale ressaltar que quem narrava os eventos passados não era exatamente o poeta, simples transmissor das informações que recebia das musas, que consistiam em divindades gregas.
x A invenção do calendário , que demonstra o amadurecimento da capacidade de abstração ao qual havia chegado o povo grego, pois rompe-se com o tempo cíclico, baseado principalmente na natureza, para adotar uma noção linear, baseada sobretudo na observação astronômica, que permite, inclusive, uma maior precisão na datação dos eventos.
x A invenção da moeda , que permitiu uma forma de troca que não se realizava por meio das coisas concretas ou dos objetos concretos trocados por semelhantes, mas uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização.
x A invenção da escrita alfabética , que conduz com a diminuição considerável do número de símbolos, assim como com a ampliação de seu grau de abstração, uma maior democratização do contato com a escrita. Vale ressaltar que os gregos não inventaram a escrita, mas um alfabeto com um número bastante reduzido de signos. A filosofia, assim como qualquer conhecimento sistematizado, demanda registro, por isso a escrita alfabética é tão relevante.
x O surgimento da polis (Cidade-Estado): as poleis eram cidades relativamente pequenas, com autonomia bélica, econômica e política. Em função da geografia do território grego, extremamente acidentado, não foi possível organizar um grande império, o que conduziu à formação das Cidades-Estados. Atenas, por exemplo, representa até hoje um modelo de democracia direta, aquela em que todos os cidadãos auxiliam na decisão das questões políticas. Na ágora, espaço circular no centro da cidade, os cidadãos se reuniam para decidir os rumos a serem tomados pela coletividade. Deve-se lembrar, no entanto, que os critérios de cidadania só abrangiam os homens, com maioridade, filhos de mulheres atenienses, que tivessem terras e escravos. Isso correspondia, na prática, a mais ou menos 10% da população total. No entanto, isso é muito diferente de uma época na qual as divindades falavam e os homens simplesmente concordavam em função da autoridade de quem falava.
x A cosmologia
O termo cosmologia é derivado de duas palavras gregas, a saber: cosmos que significa mundo ordenado e organizado, e logos , que significa pensamento racional. Dessa forma, podemos defini-la como a busca de um conhecimento racional acerca da ordem do mundo, estudo do mundo existente, diferente das cosmogonias míticas, que se pretendiam narrativas de como a realidade havia se originado ou funcionava.
x A palavra Filosofia – Philo-Sophia
É atr ibuída ao filósofo grego Pitágoras de Samos (aquele do teorema!) a formulação da palavra Filosofia. Ele afirmara que pertence aos deuses a sabedoria plena e completa, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.
A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia, quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio.
Filosofia significa, portanto, o amor, no sentido de amizade, pela sabedoria, e a postura do filósofo é justamente a daquele que busca constantemente, ciente de que jamais possuirá totalmente o objeto do seu amor. De acordo com o filósofo da ciência do século XX, Karl Popper, quanto mais conhecimento, maior é a consciência do indivíduo de sua ignorância. Desse modo, a prática filosófica dispensa o pedantismo, o exibicionismo intelectual, a arrogância. É em função disso que Sócrates se transforma no filósofo por excelência, com sua conhecida máxima: sei que nada sei.
Pré-socráticos Contexto
Pré-socráticos é o termo utilizado para designar os primeiros filósofos, os quais deram início ao período cosmológico, isto é, foram os primeiros a questionar as explicações sobrenaturais presentes nos mitos e procurar uma compreensão racional do cosmos. Esses pensadores também são denominados filósofos da natureza e buscavam conhecer as causas dos fenômenos naturais, ou seja, tinham o intuito de determinar o princípio constitutivo – arché – da natureza – physis –, baseando-se na observação e no raciocínio.
Sobre a definição de arché, temos nas palavras de Giovanni Reale e Dario Antiseri:
“Princípio” (arché) não é um termo de Tales (talvez tenha sido introduzido por seu discípulo Anaximandro, mas alguns pensam numa origem mais tardia), mas é certamente o termo que indica melhor do que qualquer outro o conceito daquele quid do qual derivam todas as coisas. Como nota, Aristóteles, em sua exposição sobre o pensamento de Tales e dos primeiros físicos, o “princípio” é “aquele do qual derivam originalmente e no qual se ultimam todos os seres”, é “uma realidade que permanece idêntica no transmutar-se de suas alterações, ou seja, uma realidade “que continua a existir imutada, mesmo através do processo gerador de todas as coisas”. [...] Em suma, o “princípio” pode ser definido como aquilo do qual provêm, aquilo no qual se concluem e aquilo pelo qual existem e subsistem todas as coisas.
Principais filósofos pré-socráticos
W Filósofos da Escola Jônica:
– Tales de Mileto: “Tudo é água”.
– Anaxímenes de Mileto: “E assim como nossa alma, que é ar, nos mantém unidos, da mesma maneira o vento envolve todo o mundo.”
– Anaximandro de Mileto: “Nem água nem algum dos elementos, mas alguma substância diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos.”
– Heráclito de Éfeso: “Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo.”
W Filósofos da Escola Itálica:
– Pitágoras de Samos: “Todas as coisas são números”.
W Filósofos da Escola Eleata: – Parmênides de Eleia: “O ser é e o não ser não é”.
– Zenão de Eleia: “O que se move sempre está no mesmo agora”.
W Filósofos da Escola da Pluralidade:
– Empédocles de Agrigento: “Pois destes (os elementos) todos se constituíram harmonizados, e por estes é que pensam, sentem prazer e dor”.
– Demócrito de Abdera: “O homem, um microcosmo.”
Heráclito de Éfeso (545–480 a.C.)
“O ser não é mais do que o vir a ser”
Miguel Spinelli deixa claro um ponto importante na teoria de Heráclito, o de que o mundo é eterno e, por isso, incriado. Isso demonstra que, diferentemente dos outros filósofos pré-socráticos, ele não procurava prioritariamente um princípio constitutivo do cosmos, o qual seria um elemento contido na Natureza, mas sim busca compreender a sua ordem, isto é, como o mundo é a partir da sua organização e ordenação. Heráclito não procura a arché somente no sentido de um elemento de que o cosmos é constituído, mas a lei que o rege, partindo, é claro, das observações feitas na própria Natureza. Para ele, a realidade é um constante fluxo, ou seja, é sempre mutável. Os sentidos, porém, nos mostram certa regularidade, que não condiz com a mudança constante que ocorre realmente. E isso mostra que tanto para Heráclito quanto para Parmênides existe uma cisão entre pensar e sentir.
A luta dos contrários – guerra e paz
“O conflito é o pai e o rei de todas as coisas”... . “O oposto é conveniente, e das coisas diferentes nasce a mais bela harmonia”... . Sem nascimento e perecimento, sem geração e destruição, vida e morte, a perpetuidade do mundo seria insustentável, e, por consequência, a sua própria existência. Sem oposição ou diferenças, também o viver humano seria insustentável, pois desativaria todo o móvel do seu querer e agir, e, consequentemente, o próprio logos autentificador do nomos da deliberação humana.
SPINELLI, M., 1998, p. 196
Heráclito nasceu em Éfeso, por volta de 545 a.C., cidade da Jônia, filho de uma família que ainda conservava prerrogativas reais. De temperamento esquivo, nunca quis participar da vida política e não demonstrava apreço pelos cidadãos de sua cidade.
Foi considerado obscuro por duas razões: tendência ao isolamento e ao silêncio; escrita complexa, composta por aforismos, conjuntos de raciocínios mais curtos, com menor desenvolvimento de explicações do ponto de vista didático e mesmo com uma ausência de preocupação com a apresentação de exemplos. Sua filosofia teve reconhecimento, mais tardiamente, pela maneira como o filósofo percebeu o cosmos, isto é, sua interpretação do modo como a physis “funcionava”. Como percebemos na passagem abaixo.
“Este cosmos (sentenciou Heráclito), igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, e sempre será...”. Ninguém o fez porque ele é eterno, e, por consequência, incriado e imperecível: desprovido de uma vontade criadora anterior (ou externa) à sua destinação de se reproduzir sempre. Por isso, este mundo, é indicado como dado, posto aí, diante dos nossos olhos e dos nossos sentidos, e o que temos a fazer, é buscar compreendê-lo por aquilo que se mostra. [...] O mundo de fenômenos ao mesmo tempo em que se mostra, oculta as suas razões. É de sua índole, tanto o se ocultar como também o se assumir, mediante uma aparência ou maquiagem comunicativa, pela qual a Natureza provoca em nós o desejo de a conhecer.[...] Conhecemos a Natureza não tanto por aquilo que se mostra, mas principalmente por aquilo que inferimos sobre ela.. SPINELLI, M., 1998, p. 193.
Para Heráclito o que comanda a ordem do mundo é a luta, ou melhor a harmonia dos contrários, a perenidade das coisas que fazem parte da Natureza, seja homem, planta, animal, mineral ou qualquer outra coisa. O mundo é eterno, assim como a sua ordem, porém suas partes, aquilo de que ele se constitui está em constante renovo, em um eterno devir. Em outras palavras, se não existir guerra não há paz, se não existir morte não há vida nem nascimento, sem a perenidade das coisas tudo seria eterno e posto, condição que, para Heráclito, é perceptivelmente incoerente com a realidade. A teoria heraclitiana consiste, então, no estabelecimento de uma lei que rege o cosmos, a de que tudo é um eterno devir, um vir a ser constante, pois tudo nasce, cresce e morre. O jovem envelhece, o verde apodrece, tudo está sujeito ao tempo e, assim, a harmonia dos contrários, já que é por existirem os contrários que se tem uma perfeita ordenação da existência do mundo. Pela maneira como percebia o desenvolvimento natural das coisas, Heráclito foi considerado o pai da dialética, isto é, via a realidade como um eterno embate entre opostos, um momento superando o outro.
Dialética é uma palavra com origem no termo em grego, dialektikée, que significa a arte do diálogo, a arte de debater ou raciocinar. Também utilizada com uma noção de oposição, como na luta dos contrários em Heráclito e antagonismo de classes em Marx.
W O Logos na Teoria Heraclitiana
Mas ela é detentora (e isso é muito importante e salientado na filosofia de Heráclito), de uma ciência específica e própria, ou seja, de um saber que, de certo modo, se esconde por detrás de uma aparência observável, e que cabe ao logos humano desocultá-la, pela via da observação e da inferência. Esse seu saber é a sua lei (nomos), e também o seu logos, aquele que “tudo governa”: o pensamento que governa tudo através de tudo. [...] O logos, em referência ao cosmos, é expressão dessa articulação, pela qual o cosmos ou o ser pode ser entendido como uma unidade de contrapostos.
SPINELLI, M., 1998, p. 193 e 195
Spinelli, na passagem acima, demonstra novamente que Heráclito busca encontrar o princípio regulativo do cosmos, o logos que governa a ordem do mundo, isto é, assim como os homens o cosmos também tem um logos. A razão conduz as ações dos homens e o logos faz o mesmo com a ordem do mundo, estabelecendo a harmonia entre os contrários, que é o nomos (a lei) que rege os acontecimentos na Natureza. Dessa forma, pode-se dizer que o logos (a razão) do cosmos (espaço ordenado) consiste no princípio que regula a ordem do mundo, é a expressão da harmonia entre os contrários.
Logos é logos no alfabeto grego e significa pensamento racional, sendo que na filosofia de Heráclito é o que vai determinar a lei que rege a ordem do mundo.
Nomos em grego significa lei, deliberação, governo, princípio regulativo.
W O fogo como princípio de todas as coisas
Dado que a sua Filosofia da Natureza é uma filosofia das relações, o fogo (coextensivo do logos) nela se apresenta como elemento constituinte do cosmos e também como a metáfora mais significativa do seu filosofar.[...] Mas o que Heráclito observou (talvez diante da lareira), é que o fogo não existe isoladamente na Natureza, a não ser em Relação: se há fogo, há algo que queima.
Para Heráclito, o fogo é algo que, mais que simplesmente constituir, exprime exatamente a “natureza” do cosmos, já que ele vive da constante mudança, da harmonia entre contrário, pois a sua vida consiste em destruir algo – o combustível –que se transforma em fumaça. O fogo retrata bem o que Heráclito quer dizer com guerra e paz, pois a primeira seria o fogo queimando, destruindo o combustível e o transformando. Já a segunda seria o fogo se apagando, isto é, deixando de queimar e por isso deixando de existir. A guerra é a luta entre os contrários que faz com que exista uma ordem no mundo, a qual o mantém existindo. A paz seria o fim, ou a não existência, desta luta, uma perpetuidade que acabaria com a ordem e, consequentemente, o mundo.
Parmênides de Eleia (540–470 a.C.)
“O ente é, pois é ser e nada não é.”
Parmênides nasceu em Eleia, hoje Vélia, na Itália, por volta de 540 a.C. Foi iniciado na filosofia pelo pitagórico Ananias e tem-se que foi político ativo e formador de boas leis para a cidade. Escreveu um poema intitulado Sobre a Natureza, o qual se divide em três partes: uma primeira que denominaríamos de prólogo, ou seja, uma introdução a segunda (da qual teve-se acesso a vários fragmentos) que trata dos caminhos da verdade; e a terceira (da qual conservam-se apenas fragmentos) que aborda os caminhos da opinião. Tem-se que a filosofia parmenidiana levanta-se contra o dualismo pitagórico (ser e não ser, cheio e vazio,...) e, de acordo com alguns intérpretes, contra o mobilismo de Heráclito.
W A imutabilidade do ser
Vejamos uma passagem de um poema de Parmênides, em que podemos encontrar os principais elementos de seu pensamento.
Só nos resta neste momento, uma única via da qual se possa falar: que é. Sobre ela há um grande número de sinais: que sendo não gerado é imperecível um todo inteiro inabalável e sem fim. Jamais foi nem será, porque é todo presente, um e contínuo. Que origem poder-se-ia atribuir-lhe? Como e de onde cresceria? Não te permitirei dizer nem pensar que ele possa ter crescido do não ser; pois não se pode dizer nem pensar o que não é. Se viesse do nada qual a necessidade o teria impelido a nascer mais cedo ou mais tarde? Assim, pois, é necessário que
ele seja absolutamente ou não seja. Também a força da convicção jamais concederá que do não ente possa nascer algo dele. A justiça não permite por um afrouxamento de suas amarras, que nasça ou pereça, mas o mantém. Esta decisão recai sobre a seguinte afirmativa: Ou é ou não é [...]. Como poderia perecer o ente? Como poderia ser gerado? Pois se nasceu, não é, e também não é se um dia devesse ser. [...]. Também não é divisível, pois é completamente idêntico a si mesmo. Nada poderia ser-lhe acrescido o que impediria de conter-se, nem retirado, pois o ente é todo pleno. Por isso é todo contínuo [...] Idêntico a si mesmo, em si mesmo repousa, imóvel em seu lugar; pois a poderosa Necessidade o mantém nos limites de um liame que de todos os lados o encerra, de tal modo que ao ente está estabelecido como norma não ser inacabado.
A passagem acima vem confirmar o motivo pelo qual Parmênides desacredita do conhecimento proporcionado pelos sentidos, ou seja, o Ser dos sentidos está em movimento e por isso ele constantemente deixa de ser o que é e se transforma em outro Ser (o não ser anterior), o que para o autor é inconcebível, pois o não ser não existe. Em outras palavras, admitir o movimento implica admitir que uma pessoa deixa de ser jovem e se transforma em velho (que é o mesmo que dizer que se transforma no não jovem, que não existe).
Para Parmênides o ser, o pensar e o dizer são a mesma coisa, pois não se pode, em hipótese alguma, admitir que o não ser possa ser pensado ou dito. O Ser uno e eterno do autor só pode ser concebido pela razão, sendo que os sentidos não podem expressá-lo. Tem origem na história da filosofia o princípio de identidade, que afirma que o ser é sempre idêntico a si mesmo. Juntamente com ele, começa a busca da
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
01. (Uel PR) Leia os textos a seguir. Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre.
HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. 3.ed. Trad. de JaaTorrano. São Paulo: Iluminuras, 1995. p.91. Segundo a mitologia ioruba, no início dos tempos, havia dois mundos: Orum, espaço sagrado dos orixás, e Aiyê, que seria dos homens, feito apenas de caos e água. Por ordem de Olorum, o deus supremo, o orixá Oduduá veio à Terra trazendo uma cabaça com ingredientes especiais, entre eles a terra escura que jogaria sobre o oceano para garantir morada e sustento aos homens.
“A Criação do Mundo”. SuperInteressante. jul. 2008. Disponível em: <http://super.abril.com.br/religiao/criacaomundo-447670.shtm>.
Acesso em: 1 abr. 2014.
No começo do tempo, tudo era caos, e este caos tinha a forma de um ovo de galinha. Dentro do ovo estavam Yin e Yang, as duas forças opostas que compõem o universo. Yin e Yang são escuridão e luz, feminino e masculino, frio e calor, seco e molhado.
PHILIP, N. O Livro Ilustrado dos Mitos: contos e lendas do mundo. Ilustrado por NileshMistry. Trad. de Felipe Lindoso. São Paulo: Marco Zero, 1996. p.22. Com base nos textos e nos conhecimentos sobre a passagem do mito para o logos na filosofia, considere as afirmativas a seguir.
filosofia pela permanência, pela constância, pela regularidade, que encontraremos nas ideias de Platão ou nas essências de Aristóteles. Mesmo as ciências, na sua busca pelas leis, não deixam de ansiar por algo contínuo, permanente, no real.
W A crítica ao conhecimento pelos sentidos Discordando do pensamento de Heráclito, Parmênides faz uma crítica ao conhecimento das coisas sensíveis, as quais estão em constante mutação, porque não há como formular um conhecimento a respeito de algo que em um dado momento é X e logo depois se torna Y. Para este pensador, é impossível conhecer todas as coisas em todos os seus momentos, pois só se poderia realmente ter acesso a um saber concreto sobre algo se fosse possível conhecê-lo nos diversos momentos de sua existência. Para o autor, então, a realidade não é acessível pelos sentidos, mas tão somente pela razão, que jamais poderia conhecer algo que muda constantemente, mas somente estar conhecendo este algo. O conhecimento pronto e acabado só pode existir frente a uma realidade que não mude, e só assim pode-se afirmar que se conhece alguma coisa em sua plenitude. Como para este filósofo, ao contrário de Heráclito, os sentidos nos mostram mudança, estes não são via de acesso confiável à realidade tal como ela é. Se só o Ser pode ser conhecido, e este é imóvel, imutável, eterno, sempre idêntico a si mesmo, único e uno, o que percebemos na realidade é na verdade aparência, e só pode produzir o que vai ser chamado de doxa, termo grego que, correntemente, é traduzido como opinião, conhecimento transitório. Só a razão pode acessar o que realmente é (existe, pode ser pensado e dito), e para fazê-lo ela deve se afastar dos enganos da mudança e buscar o que permanece.
I. As diversas narrativas míticas da origem do mundo, dos seres e das coisas são genealogias que concebem o nascimento ordenado dos seres; são discursos que buscam o princípio que causa e ordena tudo que existe.
II. Os mitos representam um relato de algo fabuloso que afirmam ter ocorrido em um passado remoto e impreciso, em geral grandes feitos apresentados como fundamento e começo da história de dada comunidade.
III. Para Platão, a narrativa mitológica foi considerada, em certa medida, um modo de expressar determinadas verdades que fogem ao raciocínio, sendo, com frequência, algo mais do que uma opinião provável ao exprimir o vir-a-ser.
IV. Quando tomado como um relato alegórico, o mito é reduzido a um conto fictício desprovido de qualquer correspondência com algum tipo de acontecimento, em que inexiste relação entre o real e o narrado.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
02. (UEG GO) A cultura grega marca a origem da civilização ocidental e, ainda hoje, podemos observar sua influência nas ciências, nas artes, na política e na ética.
Dentre os legados da cultura grega para o Ocidente, destaca-se a ideia de que
a) a natureza opera obedecendo a leis e princípios necessários e universais que podem ser plenamente conhecidos pelo nosso pensamento.
b) nosso pensamento também opera obedecendo a emoções e sentimentos alheios à razão, mas que nos ajudam a distinguir o verdadeiro do falso.
c) as práticas humanas, a ação moral, política, as técnicas e as artes dependem do destino, o que negaria a existência de uma vontade livre.
d) as ações humanas escapam ao controle da razão, uma vez que agimos obedecendo aos instintos como mostra hoje a psicanálise.
03. (Unesp SP) Aedo e adivinho têm em comum um mesmo dom de “vidência”, privilégio que tiveram de pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles veem o invisível. O deus que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar humano. Sua visão particular age sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é.
(Jean-Pierre Vernant. Mito e pensamento entre os gregos, 1990. Adaptado.)
O texto refere-se à cultura grega antiga e menciona, entre outros aspectos,
a) o papel exercido pelos poetas, responsáveis pela transmissão oral das tradições, dos mitos e da memória.
b) a prática da feitiçaria, estimulada especialmente nos períodos de seca ou de infertilidade da terra.
c) o caráter monoteísta da sociedade, que impedia a difusão dos cultos aos deuses da tradição clássica.
d) a forma como a história era escrita e lida entre os povos da península balcânica.
e) o esforço de diferenciar as cidades-estados e reforçar o isolamento e a autonomia em que viviam.
04. (UEG GO) O ser humano, desde sua origem, em sua existência cotidiana, faz afirmações, nega, deseja, recusa e aprova coisas e pessoas, elaborando juízos de fato e de valor por meio dos quais procura orientar seu comportamento teórico e prático. Entretanto, houve um momento em sua evolução histórico-social em que o ser humano começa a conferir um caráter filosófico às suas indagações e perplexidades, questionando racionalmente suas crenças, valores e escolhas.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a filosofia
a ) é algo inerente ao ser humano desde sua origem e que, por meio da elaboração dos sentimentos, das percepções e dos anseios humanos, procura consolidar nossas crenças e opiniões.
b) existe desde que existe o ser humano, não havendo um local ou uma época específica para seu nascimento, o que nos autoriza a afirmar que mesmo a mentalidade mítica é também filosófica e exige o trabalho da razão.
c) inicia sua investigação quando aceitamos os dogmas e as certezas cotidianas que nos são impostos pela tradição e pela sociedade, visando educar o ser humano como cidadão.
d) surge quando o ser humano começa a exigir provas e justificações racionais que validam ou invalidam suas crenças, seus valores e suas práticas, em detrimento da verdade revelada pela codificação mítica.
05. (Uel PR) Leia o texto a seguir e responda à próxima questão. De onde vem o mundo? De onde vem o universo? Tudo o que existe tem que ter um começo. Portanto, em algum momento, o universo também tinha de ter surgido a partir de uma outra coisa. Mas, se o universo de repente tivesse surgido de alguma outra coisa, então essa outra coisa também devia ter surgido de alguma outra coisa algum dia. Sofia entendeu que só tinha transferido o problema de lugar. Afinal de contas, algum dia, alguma coisa tinha de ter surgido do nada. Existe uma substância básica a partir da qual tudo é feito? A grande questão para os primeiros filósofos não era saber como tudo surgiu do nada. O que os instigava era saber como a água podia se transformar em peixes vivos, ou como a terra sem vida podia se transformar em árvores frondosas ou flores multicoloridas.
Adaptado de: GAARDER, J. O Mundo de Sofia. Trad. de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.43-44. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o surgimento da filosofia, assinale a alternativa correta.
a) Os pensadores pré-socráticos explicavam os fenômenos e as transformações da natureza e porque a vida é como é, tendo como limitador e princípio de verdade irrefutável as histórias contadas acerca do mundo dos deuses.
b) Os primeiros filósofos da natureza tinham a convicção de que havia alguma substância básica, uma causa oculta, que estava por trás de todas as transformações na natureza e, a partir da observação, buscavam descobrir leis naturais que fossem eternas.
c) Os teóricos da natureza que desenvolveram seus sistemas de pensamento por volta do século VI a.C. partiram da ideia unânime de que a água era o princípio original do mundo por sua enorme capacidade de transformação.
d) A filosofia da natureza nascente adotou a imagem homérica do mundo e reforçou o antropomorfismo do mundo dos deuses em detrimento de uma explicação natural e regular acerca dos primeiros princípios que originam todas as coisas.
e) Para os pensadores jônicos da natureza, Tales, Anaxímenes e Heráclito, há um princípio originário único denominado o ilimitado, que é a reprodução da aparência sensível que os olhos humanos podem observar no nascimento e na degeneração das coisas.
06. (Uem PR) “Taleas de Mileto, o primeiro a indagar estes problemas, disse que a água é a origem das coisas e que deus é aquela inteligência que tudo faz da água.”
(Cícero, Da natureza dos deuses).
“Princípio (arkhé) dos seres [...] ele disse que era o ilimitado [...]. Pois donde a geração é para os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo.”
(Anaximandro). In: CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 49-51).
A partir dos dois fragmentos acima, assinale o que for correto.'
01. A água é, para Tales, expressão da vida, em que tudo se transforma e se conserva.
02. Tales não indagava sobre a qualidade ou coisa originária, mas qual é a qualidade ou coisa originária.
04. A physis (natureza), para Anaximandro, não é nenhuma das qualidades percebidas nas coisas.
08. A escola jônica protagonizou um grande debate sobre as questões de ontologia.
16. A origem dos seres, para Anaximandro, ocorre por um processo de luta entre os contrários; sua dissolução, por um processo de justiça.
W SÓCRATES (470–399 a.C.): CONTEXTO, MÉTODO E JULGAMENTO
“Tudo que sei é que nada sei”
Período socrático ou antropológico
Sócrates nasceu em Atenas, por volta de 470-469 a.C. e morreu em 399 a.C. devido a uma condenação, que se fundamentou nas acusações de ser corruptor da juventude e de não acreditar nos deuses da cidade. Era filho de um escultor e de uma parteira. Nunca escreveu nada e a maioria do que conhecemos de sua filosofia chegou-nos por intermédio dos diálogos de Platão, o que acabou por gerar uma dúvida sobre se Sócrates realmente havia existido ou se seria simples personagem das obras de Platão. A maioria dos comentadores sérios, no entanto, têm optado pela primeira possibilidade.
O que se pode perguntar, no entanto, é o seguinte: o que o tornou tão importante para os estudiosos da filosofia? Por que se tornou um marco, a ponto de classificarmos todos os que vieram antes dele como Pré-socráticos? A resposta não envolve, como deve parecer óbvio, somente elementos cronológicos. O período socrático foi também denominado de antropológico. Analisando a palavra, Antropo: vem de anthropos, que se refere à ideia de homem e lógico: vem de Logos, que significa estudo, razão. Dessa maneira, podemos afirmar que antropologia é o estudo do homem em seus mais variados aspectos, principalmente cultural e social.
Essa divisão existe na história da Filosofia porque Sócrates mudou o enfoque da investigação filosófica, não se preocupando em compreender o mundo natural, como os filósofos que o antecederam, mas procurando conhecer o homem e seu aspecto social e político, como percebemos na seguinte citação a seguir:
Os naturalistas procuraram responder à seguinte questão: “O que é a natureza ou a realidade última das coisas?” Sócrates, porém, procura responder à questão: “O que é a natureza ou realidade última do homem?”, ou seja, o que é a essência do homem?”.
Nesse momento de desenvolvimento, principalmente cultural do mundo grego, além das questões voltadas à natureza (cosmologia), a filosofia começa a preocupar-se com a sociedade e o indivíduo, principalmente no que diz respeito às questões morais. O cidadão guerreiro belo e bom (Arete – modelo de virtude) já não satisfazia o modelo de cidadão da polis. Era, então, necessário formar um novo cidadão para comandar as cidades. Nesse contexto, surgem os Sofistas (professores estrangeiros), que se diziam capazes de ensinar a arte e a técnica do discurso (oratória e retórica). Saber falar em público era essencial em um sistema democrático, no qual as decisões eram tomadas na Ágora, por vontade da maioria dos cidadãos, após ouvirem os discursos prós e contra os temas a serem votados. Os Sofistas ensinavam a jovens aristocratas e recebiam por isso. Acreditavam que tudo poderia ser ensinado, porque tudo era convenção entre os homens. Por isso acreditavam que a realidade era relativa, sendo os resultados dependentes de acordos entre os homens.
Ágora é o fórum público ateniense, onde se reuniam os cidadãos para realizar seus negócios e outras atividades. Era um espaço onde havia muitas feiras livres, mercados e, principalmente, prédios públicos. Símbolo da democracia, o local era celeiro de discussões políticas e de cidadania.
O mais importante deles foi Protágoras, cuja principal afirmação foi a de que “O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são.”
Górgias também foi muito importante, afirmou que podemos pensar o inexistente e comunicar irrealidades por meio da linguagem. Portanto, não há diferença entre doxa (opinião) e Alétheia (verdade), assim como pensavam os outros sofistas e os gregos de sua época.
Sócrates formulou uma ética racionalista (metódica), em que a virtude (Areté) se identifica com o conhecimento. A verdade só pode ser conhecida, portanto, se o indivíduo deixar para trás as ilusões dos sentidos, as palavras e as opiniões. Conhecer, para Sócrates, consistia em se elevar da aparência para a essência, da opinião individual para o conceito universal dos seres, dos valores, da vida moral e da política.
Mencionamos antes a preocupação socrática de compreender qual a essência do homem, que parece-nos estar expressa na seguinte passagem:
Um dos raciocínios fundamentais feitos por Sócrates para provar essa tese é a seguinte: uma coisa é o “instrumento” que se usa e outra é o “sujeito” que usa o instrumento. Ora, o homem usa seu próprio corpo como instrumento, o que significa que o sujeito, que é o homem, e o instrumento, que é
o corpo, são coisas distintas. Assim, à pergunta “o que é o homem”, não se pode responder que é o seu corpo, mas sim que é “aquilo que se serve do corpo”. Mas “o que se serve do corpo é a psyché, a alma (= inteligência) [...]
REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 88.
Para Sócrates, a educação da alma é importante, pois ela é a essência do homem. Ela determina as ações dos homens e pode bem conduzir-nos a uma vida virtuosa. Aquele que tem conhecimento não reúne todas as características necessárias à virtude (justiça, fortaleza, temperança, sabedoria...) e o vício nada mais é que a falta, a privação de conhecimento, ou seja, a ignorância.
Tomando esse preceito como base, podemos também afirmar que tudo o que é exterior à natureza da alma do homem não pode ser considerado virtude. Desse modo, riqueza, poder, fama, beleza e saúde física, dentre outras coisas, não constituem valores éticos, pois “em si mesmos não têm valor”.
O filósofo ficou conhecido também por sua máxima, “tudo que sei é que nada sei”. Com tal afirmação quis dizer que o conhecimento do homem é pequeno, imperfeito, superficial e que o conhecimento pleno e total das coisas naturais só pertence aos deuses. É presunção se considerar conhecedor das coisas criadas por aqueles que nos criaram.
Mas, se virtude é sinônimo de conhecimento, e Sócrates diz não saber nada, então não é virtuoso? Claro que o conhecimento que ele está admitindo como igual à virtude não trata de conhecimentos acerca do mundo natural, o qual os deuses são artífices, mas de conhecimentos práticos e de uma tentativa de uma autocompreensão de nossa alma.
O provável, senhores, é que, em verdade, o sábio seja deus e queira dizer, em seu oráculo, que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana; evidentemente se terá servido deste nome de Sócrates para me dar como exemplo, como se dissesse: “O mais sábio dentre vós, homens, é quem, como Sócrates, compreendeu que sua sabedoria é desprovida verdadeiramente desprovida do mínimo valor”.
PLATÃO, 2004, p. 47.
Isso acontece de tal modo que o não saber socrático já constitui uma sabedoria. Ao reconhecer sua própria ignorância, Sócrates buscou levar aos demais atenienses tal conhecimento, utilizando, para isso, sua dialética.
O Método Socrático
Sócrates afirma, em sua defesa, escrita por Platão, que começou a travar as conversas com seus concidadãos em função de uma experiência mística. Um antigo amigo, que à época de seu julgamento já havia morrido, de nome Querefonte, visitara certa vez o Oráculo de Apolo, na cidade de Delfos, e fez uma pergunta sobre a sabedoria do nosso filósofo. A
resposta da sacerdotisa do templo dava a possibilidade de interpretação de que Sócrates fosse mais sábio que os demais. Para afastar tal forma de entender a resposta, ele se pôs a conversar com algumas pessoas, fazendo perguntas que ele próprio não sabia responder, com uma expectativa inicial de receber instrução. Para a sua surpresa, seus interlocutores, que no início assumiam uma postura até mesmo arrogante, ao final mostravam-se tão ignorantes quanto ele sobre o tema da reflexão. Ao cabo de alguns desses diálogos, ele percebeu que de sabedoria o deus falava que ele era detentor, enquanto faltava aos demais: o dos seus limites, da própria ignorância, presente na afirmação famosa “sei que nada sei”. A partir de então, Sócrates se vê investido pelo deus de uma missão, que consistia em conduzir os seus concidadãos a um melhor conhecimento de si mesmos, a inscrição no portal do templo: “Conhece-te a ti mesmo”.
Sócrates, na intenção de realizar sua missão, adotava sempre o diálogo que assumia uma dupla forma, conforme se tratava de um adversário a refutar ou de um “discípulo” a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até encontrar o adversário presunçoso em evidente contradição, constrangendo-o à confissão humilhante de sua ignorância. É a ironia socrática. No segundo caso, tratando-se de um “discípulo’, multiplicava ainda mais as perguntas, dirigindo-as agora a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão. A esse processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava-se maiêutica, ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das ideias.
Partindo da consciência da sua própria ignorância (“só sei que nada sei”), utilizava como método não a exposição, mas a dialética (aqui com o sentido de arte do diálogo e da discussão), que passava por três momentos distintos:
Ironia: em grego significa interrogação. Consistia em uma cadeia de perguntas realizadas por Sócrates que iam, pouco a pouco, conduzindo o interlocutor à consciência da própria ignorância.
Aporia: do grego a = não e poria, que vem de poros e significa saída. O termo, então, significa sem saída, e relaciona-se ao final de todo o diálogo platônico de primeira fase, também dito diálogo socrático. Acredita-se que, em sua primeira fase de escritos, Platão tenha tão somente reproduzido a prática de Sócrates nas ruas e praças de Atenas. É assim que podemos diferenciar o que seja socrático do que seja já teoria platônica. Todos os diálogos socráticos são aporéticos, ou seja, não apresentam nenhuma resposta ao seu final, o que não poderia ser diferente, visto que Sócrates só tinha consciência da própria ignorância.
Maiêutica: traduzido ao pé da letra, o termo significa arte de parturejar, ou seja, de trazer à luz novos seres humanos. Essa é a profissão da parteira, ainda muito comum em certas regiões do Brasil. Era esse o ofício desempenhado pela mãe de Sócrates. No diálogo Teeteto, nosso filósofo afirma que
sua atividade se parece muito com aquela realizada pela sua mãe, visto que nessa nova etapa, posterior à destruição do falso saber do interlocutor, Sócrates buscaria auxiliar aquele com quem dialogava a conceber ideias verdadeiras, seguras, que estariam, evidentemente, dentro do próprio indivíduo que travava diálogo com o filósofo. E é óbvio que só poderia ser assim, visto que o único conhecimento afirmado por ele é o da sua própria ignorância. Tem-se no diálogo Teeteto de Platão em uma fala de Sócrates ao próprio Teeteto:
Por isso mesmo, não sou sábio, não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado luz. Porém os que tratam comigo, suposto que alguns, no começo pareçam de todo ignorantes, com a continuação de nossa convivência, quantos a divindade favorece progridem admiravelmente, tanto no seu julgamento quanto no de estranhos. O que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; eles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira.
PLATÃO, 1998, p. 13-14
Crítica aos sofistas
O termo sofista vem do grego sophós, que significa sábio ou professor. Adquire, posteriormente, sentido pejorativo para nomear aquele que utiliza sofismas, ou seja, argumentos com a intenção de enganar. Os sofistas atuaram em Atenas no século V a. C. e eram “professores” de retórica e foram os primeiros a cobrarem pelo ensino. Sua participação na democracia ateniense foi importante por ensinarem a arte da retórica, que consistia na técnica de utilizar a linguagem como discurso persuasivo, ou seja, como arte do convencimento. Tal ensino destinava-se à elite intelectual, pois era utilizada nas assembleias públicas e nas decisões das cidades.
A visão pejorativa foi criada por filósofos como Sócrates, que os criticava e condenava por não se preocuparem com a verdade e reduzirem a verdade a um relativismo vinculado à capacidade de convencimento daqueles que participaram do debate/diálogo. Fato que fica notório no texto abaixo:
Eis a missão de Sócrates, missão para a qual ele se sentiu chamado pelo oráculo de Delfos: incitar os homens a se preocuparem antes de tudo com os interesses da própria alma, procurando adquirir o saber e a virtude. Estimulado pelo impulso divino, Sócrates propôs-se a livrar seus concidadãos da influência nefasta dos sofistas, que punham em dúvida o conhecimento de uma verdade suprema e de uma lei moral absoluta, e estimulá-los à procura da verdade da virtude, dando testemunho, com sua vida e sua morte, desses valores eternos.
Julgamento de Sócrates
“(…) descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber alguma coisa, mas que na verdade pouco ou nada sabem. (…) e afirmam que existe um tal Sócrates (…) que corrompe a juventude. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, não têm o que responder; não sabem, mas para não mostrar seu
embaraço apresentam aquelas acusações que repetem contra todos os que filosofam: ‘as coisas do céu e o que há sob a terra; o não crer nos deuses; fazer prevalecer o discurso e a razão mais fraca’. Isso porque não querem dizer a verdade: terem dado prova de que fingem saber, mas nada sabem.”
Apol., 23 c-e.
Sócrates, em seus diálogos, não fazia distinção entre condições socioeconômicas, idade ou mesmo política daqueles que se dispunham a ter com ele. Dialogava com cidadãos, pobres e mesmo escravos. Seu objetivo era cumprir a missão dada a ele pela divindade, purificando a alma de seus concidadãos e os desprovendo do engano de que eram sábios.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
01. A filosofia de Sócrates se estrutura em torno da sua crítica aos sofistas, que, segundo ele, não amavam a sabedoria nem respeitavam a verdade. O ataque de Sócrates à sofística não tem como pressuposto a ideia de que
a) o conhecimento verdadeiro só pode ser resultado de um diálogo contínuo do homem com os outros e consigo mesmo.
b) o confronto de opiniões na política democrática afasta a possibilidade de se alcançar a sabedoria.
c) a verdade das coisas é obtida na vida cotidiana dos homens e, portanto, pode ser múltipla e inacabada.
d) o autoconhecimento é a condição primária de todos os outros conhecimentos verdadeiros.
e) a ciência (epistéme) é acessível a todos os homens, contanto que estejam dispostos a renunciar ao mundo das sensações.
02. Assinale a alternativa correta
a) O homem é um ser pensante e criativo e, enquanto tal, cria pensamentos. Pensamentos estes que irão fundar e desenvolver a civilização ocidental. Cria o mito e o logos: o primeiro se dá mediante figuras, imagens, fantasias; o segundo, mediante a razão, produzindo conceitos.
b) Podemos afirmar que a Filosofa surgiu a partir da aceitação e irracionalização do mito: porque ela supera a crença mítica e coloca a razão e a lógica como pressupostos básicos para o pensar.
c) A origem da Filosofa, portanto, está ligada à invenção do logos, razão pela qual ela não pode ser concebida, inicialmente, como o exercício do logos. Etimologicamente, logos vem do grego legein, que significa “falar”, “reunir”.
d) Antes de tudo, portanto, logos se define como fala, discurso, razão. Nesse sentido ele concorda com o mito, que também é fala, mas uma “[...] fala que narra, que comunica por analogia entre situações narradas a experiência do narrador”, ao passo que logos “[...] significa fala que demonstra, que descreve o que ocorre às coisas em vista de suas próprias essências” (Cunha, 1992, p. 56).
e) O primeiro filósofo foi Sócrates, que viveu entre o final do século VII e início do século VI a.C. Vale mencionar outros filósofos desse período que fizeram questionamentos semelhantes e deram respostas igualmente semelhantes, dentre eles: Anaxímenes, Anaximandro, Heráclito, Pitágoras e Parmênides.
Além de não fazer distinção entre os interlocutores, também debatia sobre aquilo que os mesmos se predispunham, como por exemplo: crenças, virtude, política, moral, conhecimento, levando-os a reconhecer a ignorância sobre os mesmos.
Na busca pela verdade, acabava por contrariar valores dominantes na sociedade. Fato que o levou a julgamento sob as acusações de corruptor da juventude, não acreditar nos deuses da cidade e fazer prevalecer a razão mais fraca, sendo condenado à morte, bebendo cicuta, veneno extraído de uma planta de mesmo nome. Seus principais acusadores foram: Ânito − que era político, Meleto − que era poeta e Lícon − que era um retórico.
03. (Unicamp SP) A sabedoria de Sócrates, filósofo ateniense que viveu no século V a.C., encontra o seu ponto de partida na afirmação “sei que nada sei”, registrada na obra Apologia de Sócrates A frase foi uma resposta aos que afirmavam que ele era o mais sábio dos homens. Após interrogar artesãos, políticos e poetas, Sócrates chegou à conclusão de que ele se diferenciava dos demais por reconhecer a sua própria ignorância.
O “sei que nada sei” é um ponto de partida para a Filosofia, pois
a) aquele que se reconhece como ignorante torna-se mais sábio por querer adquirir conhecimentos.
b) é um exercício de humildade diante da cultura dos sábios do passado, uma vez que a função da Filosofia era reproduzir os ensinamentos dos filósofos gregos.
c) a dúvida é uma condição para o aprendizado e a Filosofia é o saber que estabelece verdades dogmáticas a partir de métodos rigorosos.
d) é uma forma de declarar ignorância e permanecer distante dos problemas concretos, preocupando-se apenas com causas abstratas.
04. Na Grécia Antiga, o filósofo Sócrates ficou famoso por interpelar os transeuntes e fazer perguntas aos que se achavam conhecedores de determinado assunto. Mas durante o diálogo, Sócrates colocava o interlocutor em situação delicada, levando-o a reconhecer sua própria ignorância. Em virtude de sua atuação, Sócrates acabou sendo condenado à morte sob a acusação de corromper a juventude, desobedecer às leis da cidade e desrespeitar certos valores religiosos.
Considerando essas informações sobre a vida de Sócrates, assim como a forma pela qual seu pensamento foi transmitido, pode-se afirmar que sua filosofia
a) transmitia conhecimentos de natureza científica.
b) baseava-se em uma contemplação passiva da realidade.
c) transmitia conhecimentos exclusivamente sob a forma escrita entre a população ateniense.
d) ficou consagrada sob a forma de diálogos, posteriormente redigidos pelo filósofo Platão.
e) procurava transmitir às pessoas conhecimentos de natureza mitológica.
05. Sócrates inaugura o período clássico da filosofia grega, também chamado de período antropológico. O problema do conhecimento passou a ser uma problemática central na filosofia socrática, pois “a briga” de Sócrates com os sofistas tinha por objetivo resgatar o amor pela sabedoria e a valorização pela busca da verdade.
Nesse contexto, Sócrates inaugura seu método que se fundamenta em dois princípios básicos, que são
a) a indução e dedução das verdades lógicas.
b) a doxa e o lógos convergindo para o conceito racional.
c) a ironia e a Maiêutica enquanto caminhos para conhecer a verdade através do auto-conhecimento (conhecer-te a ti mesmo).
d) o diálogo e a dúvida dialética.
e) a amizade e a justiça social.
06. (UFU MG) Sócrates buscou verdades absolutas, enquanto os sofistas, por sua vez, afirmaram que a verdade era construída pela linguagem, logo, para eles, todo conhecimento era relativo.
“Embora em sua época tenha sido confundido com os sofistas, Sócrates travou uma polêmica profunda com estes filósofos. Ele procurava um fundamento último para as interrogações humanas (O que é o bem? O que é a virtude? O que é a justiça?)”.
COTRIM, Gilberto e FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 284
Com base nas considerações e no excerto acima, diz-se que Sócrates buscava principalmente
a) valores relativos.
b) verdades morais.
c) domínio retórico.
d) ensinar dogmas.
07. (Enem MEC) Uma conversação de tal natureza transforma o ouvinte; o contato de Sócrates paralisa e embaraça; leva a refletir sobre si mesmo, a imprimir à atenção uma direção incomum: os temperamentais, como Alcibíades, sabem que encontrarão junto dele todo o bem de que são capazes, mas fogem porque receiam essa influência poderosa, que os leva a se censurarem. É sobretudo a esses jovens, muitos quase crianças, que ele tenta imprimir sua orientação.
O texto evidencia características do modo de vida socrático, que se baseava na
a) contemplação da tradição mítica.
b) sustentação do método dialético.
c) relativização do saber verdadeiro.
d) valorização da argumentação retórica.
e) investigação dos fundamentos da natureza.
08. (UFU MG) A respeito do método de Sócrates, assinale a alternativa que apresenta a definição correta de maiêutica.
a) Um método sintético, que ignora a argumentação dos interlocutores e prontamente define o que é o objeto em discussão.
b) Uma estratégia sofística, que é empregada para educar a juventude na prática da retórica, visando apenas ao ornamento do discurso.
c) Um método analítico, que interroga a respeito daquilo que é tido como a verdadeira justiça, o verdadeiro belo, o verdadeiro bem.
d) Uma iluminação divina, que deposita na mente do filósofo o conhecimento profundo das coisas da natureza.
09. (UnB DF) Sócrates afirma que a maldade é mais veloz que a morte. No trecho da obra Apologia de Sócrates, essa afirmação é complementada, de forma correta, quando ele diz que, por ser
a) velho, foi apanhado pela morte, mais lenta, porém seus juízes foram apanhados pela maldade, mais veloz, ao cometerem a injustiça de condená-lo à morte.
b) mal, foi apanhado pela morte, mais velha e justa, porém seus juízes foram apanhados pela justiça, mais veloz, ao condená-lo à morte.
c) bom, foi apanhado pela injustiça, mais lenta, porém seus juízes foram apanhados pela mentira, mais veloz, ao condená-lo à morte.
d) sábio, foi invejado pela morte, mais ignorante, porém seus juízes foram invejados pela maldade, mais veloz, ao cometerem a injustiça de condená-lo à morte.
10. (UEM PR) Platão registra, em seu diálogo Crátilo, a análise de Sócrates acerca do valor das lições dos sofistas: “Sócrates – O ensino sobre os termos não é assunto de pouca importância. Se eu tivesse ouvido a lição de Pródico [de Ceós] de cinquenta dracmas, a qual garantia ao ouvinte ficar inteiramente formado acerca deste assunto, como ele assevera, nada te impediria de saber imediatamente toda a verdade acerca do uso correto das palavras. Mas só ouvi a lição no valor de um dracma.”
(PLATÃO, Crátilo, 483B apud FIGUEIREDO, V. de (org.) Filósofos na sala de aula. São Paulo: Berlendis&Vertecchia, 2007, vol. 2, p. 28). Com fundamento no texto acima, assinale o que for correto.
01. Não havia na sofística qualquer alusão à lógica e ao estudo da argumentação, restando apenas lugar à retórica, voltada à noção de argumento correto no contexto dos intensos debates públicos das assembleias democráticas.
02. A preocupação com o uso da palavra ocorre no contexto da pólis grega, em que isegoria e participação política contrapunham o discurso mitológico ao discurso político. Neste prevaleciam a sagacidade, a discussão e a argumentação.
04. O “ensino sobre os termos” era voltado ao desenvolvimento da argumentação, da habilidade retórica e da análise de doutrinas divergentes ou antilogias. Insuficiências nesse aprendizado eram prejudiciais aos negócios públicos e privados.
08. Ao cobrarem pelo ensino de conceitos e de estratégias para estabelecer as teses pretendidas, os sofistas contribuíram para valorizar o saber, inaugurando uma forma de magistério que despertou a admiração de filósofos como Platão e Aristóteles.
16. O apreço dos sofistas pelos discursos duplos (dissoilogoi) demonstra certa tendência antidogmática, o que teria levado esses autores, filósofos e pensadores, à formulação de concepções flexíveis sobre o gênero humano, a sociedade e a realidade.
W PLATÃO DE ATENAS (427 a.C. - 437 a.C.): BEM, ALMA E CONHECIMENTO
Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. e seu verdadeiro nome era Arístocles. Platão era um apelido, derivado, de acordo com alguns, de seu vigor físico; ou como outros atestam, da extensão de sua testa (em grego, platôs significa amplitude, largueza).
Platão fazia parte de uma família bastante ligada ao cenário político da Grécia. Sua mãe tinha parentesco com Sólon e seu pai era descendente do rei Codros. Desse modo, desde a juventude, Platão já tinha a política como seu ideal. Seu primeiro contato com Sócrates se deu quando estava com aproximadamente vinte anos, sendo que seu objetivo inicial não era fazer da filosofia a finalidade última de sua vida, mas se preparar melhor para a vida política. É fato que os acontecimentos e o convívio com Sócrates o encaminharam em outra direção e ele dedicou-se, por todo o restante de sua vida, a uma das mais vastas produções filosóficas da história da filosofia.
A atividade literária de Platão abrange mais de cinquenta anos de sua vida: desde a morte de Sócrates até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos – em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal. As obras de Platão são geralmente classificadas em diálogos socráticos, de maturidade e de velhice. Os primeiros são diálogos que defendem a memória de Sócrates e o apresentam discutindo, geralmente, temas morais, sem chegar, porém, a conclusões, ou seja, são os diálogos aporéticos – sem saída – de Sócrates, que são combativos e visam acabar com opiniões inconsistentes, levando o conhecimento verdadeiro às pessoas. Nos diálogos de maturidade, Platão vai afirmando, cada vez mais, a independência de seu pensamento em relação ao de Sócrates. Mas são os diálogos de velhice que apresentam a última formulação do pensamento platônico.
O método platônico
O diálogo, para Platão, não deve permanecer no nível do confronto de consciências, mas precisa tornar-se o embate entre teses. Deve ser um método que suba progressivamente do plano relativo e instável das opiniões (doxa) até a construção de formas mais seguras do conhecimento (episteme), rumo à conquista da verdade. O método proposto por Platão é, em um primeiro momento, uma dialética ascendente, que procura explicar a situação atual do universo e dos seres, não por uma situação anterior, mas por meio de causas intemporais, que expliquem sempre porque cada coisa é o que é. Com isso, Platão está adotando um método explicativo típico da matemática, o método dos geômetras, que consiste basicamente no seguinte: diante de um problema, levanta-se uma hipótese para resolvê-lo; sendo satisfatória, passa-se então a verificar se ela sustenta a si mesma, ou se supõe outra hipótese mais geral, e assim por diante. Cria-se então uma cadeia de hipóteses interdependentes, que buscam uma sustentação última – uma não hipótese – que se baste a si mesma e que sustente todas as demais levantadas anteriormente.
Vê-se, então, na matemática, um prenúncio para essa dialética platônica, pois ela dá uma ideia do mundo inteligível, já que a geometria nos leva a conceber seres eternos e imutáveis – linha, reta, círculo, figuras idealmente perfeitas – e toda ideia, como veremos na sua teoria das ideias ou formas de Platão, é imutável, perfeita e eterna.
Crítica ao conhecimento sensível
Platão disse certa vez que é próprio de todo ser humano uma espécie singular de pathós, isto é, um sentimento ou disposição para espantar-se frente às coisas. Segundo ele, é dessa admiração fundamental que precederia o impulso da busca pelo conhecimento comum a todos os seres humanos. Essa é a origem do filosofar — diz Platão. Algo chama-nos a atenção e, de imediato, impulsionados pela curiosidade, partimos em busca de explicações e respostas às nossas indagações. Daí o motivo do questionamento sobre o ato de conhecer mostrar-se tão importante e presente ao longo da história da filosofia.
Segundo Platão, permanecer no nível das sensações impede a construção de um conhecimento seguro e estável. De fato, as sensações fornecem apenas evidências momentâneas e individuais e um conhecimento baseado apenas nelas é um conhecimento somente daquilo que aparece a cada pessoa, no momento em que aparece como tal. O conhecimento sensível está no plano da opinião, sendo instável e relativo ao momento e à forma como se percebe determinada coisa. Dessa maneira, não é possível conhecer nada, pois tudo está constantemente mudando.
Sobre o conhecimento
Como em Sócrates, a filosofia de Platão tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Esse fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente por meio da especulação, do conhecimento da ciência. Mas, diferentemente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual ao campo antropológico e moral, Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda realidade.
Esse caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, é tornado especialmente vivo, angustioso pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas, em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto e a paixão contrasta com a razão. Assim, para Platão, o espírito humano é peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível.
A diferença essencial entre o conhecimento sensível e o intelectual, universal, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente ao conhecimento diverso e cair no erro sem o saber, ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso errôneo. Poder-se-ia também dizer
que o primeiro sabe que as coisas estão assim, sem saber porque o estão, ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão, precisamente porque é ciência, isto é, conhecimento das coisas pelas causas.
Tipos de conhecimento
Se, segundo Aristóteles, todo ser humano tende ao conhecimento, resta-nos, antes de mais nada, saber quais tipos e formas de conhecimento existentes, não é mesmo?
Imagine a seguinte situação: dois carros colidem em uma autoestrada sem vítimas fatais e três testemunhas presenciam o acontecimento. Teremos o mesmo relato? Provavelmente não. As diferenças serão relatadas de acordo com a ótica de cada uma das testemunhas. Essa ótica é, de certo modo, determinada pela familiaridade com determinado tipo de conhecimento.
Vejamos: se a testemunha X for uma pessoa religiosa, o relato do acidente será recheado de explicações de como as forças invisíveis operaram a favor dos envolvidos.
Já um físico tenderia a observar com os olhos de um cientista, cheio de demonstrações e atenção ao que chama de “fatos”.
E, por fim, uma dona de casa, sem muito estudo e moradora local que já viu muitos acidentes como este na porta de sua casa. Nesse caso, você concorda que o relato dessa senhora seria um resultado direto de suas experiências anteriores?
Pois então. Existem muitos tipos de conhecer, cada um com suas particularidades e limitações. Dentre eles: o conhecimento vulgar, o racional e o religioso. Conhecimento e poder
“Porque o próprio saber é poder” (Francis Bacon, Religious Meditations).
Essa sentença do filósofo inglês Francis Bacon é difícil de ser refutada, não é mesmo? Se pararmos um pouco para olhar atentamente a história da Humanidade, veremos, em quase todas as civilizações, a busca incansável das classes dominantes em instruir-se ao mesmo tempo que procuram dificultar ou mesmo tornar criminoso o acesso das massas populares ao conhecimento. Foi assim no Egito, onde a família real e uns poucos privilegiados detinham todo o saber à custa da submissão de seu povo. Foi assim na China Comunista, onde o próprio acesso à informação era limitado por uma censura do Estado como forma de manutenção de poucos indivíduos no poder. Que não nos esqueçamos da nossa própria história recente... Após o Golpe de 64, uma das primeiras ações dos militares foi a de abolir as disciplinas de Filosofia e Sociologia dos currículos escolares e, em grande parte, perseguir os profissionais que se ocupavam de seu ensino, bem como os jovens estudantes que protestavam contra o regime.
Isso tudo por quê? Simples: conhecimento e poder sempre mantiveram uma relação estreita. Quem conhece, estu-
da e desenvolve argumentos está sempre pronto a questionar. O conhecimento que está a favor das elites revela-se perigoso aos seus interesses, pois constitui um importante fator de desalienação
SAIBA MAIS
W Desalienação
Conceito de raízes marxistas; significa o processo de tomada de consciência, por parte da classe dominada, no que diz respeito ao seu verdadeiro lugar no processo produtivo e das formas de exploração às quais se encontra submetida.
Conhecimento formal x informal
W O status do conhecimento no mundo moderno
Nem sempre o conhecimento foi entendido como o resultado de uma prática ou metodologias formais de ensino-aprendizagem. A boa e velha história pode-nos ajudar uma vez mais nessa questão, confirmando que a própria ideia de Escola e a noção de “curriculum” são invenções tardias no que diz respeito à própria produção do conhecimento pelo homem. Seja como for, um conhecimento aprendido em uma Instituição de Ensino é premiado com a famosa certificação. Um diploma ou certificado é muito mais que um papel com letras e assinaturas; trata-se de um reconhecimento social de que o indivíduo domina uma série de saberes e técnicas. Essa é a principal característica de um conhecimento formal. O seu exercício encontra-se circunscrito nos limites das Instituições autorizadas a ensiná-lo.
No entanto, vemos um grande número de pessoas que fazem coisas impressionantes: um pedreiro que, apesar de não ter tido aulas de engenharia, conhece melhor do que o responsável-técnico a resistência de determinado material utilizado na obra em que trabalha, não é? Ele não tem diploma ou mesmo passou por uma escola que o capacitasse. Mas é possuidor de um conhecimento informal, adquirido pela observação das ações de um colega mais experiente na função ou mesmo pelo famoso método de tentativa e erro.
Se não podemos, com absoluta convicção, afirmar qual dos tipos de conhecimento é o melhor, sabemos que, em uma sociedade moderna, há uma sobrevalorização daquele adquirido pelos meios formais. Fato simples de se observar: basta comparar os salários do nosso pedreiro autodidata e do engenheiro responsável pela obra usados no exemplo anterior.
E mesmo com o surgimento de novas áreas do conhecimento e com o rápido avanço das transformações causadas pela tecnologia em nossos dias, a valorização dos saberes práticos e informais ainda é bastante incipiente se compa-
rarmos com a exigência cada vez maior por uma formação certificada e formal. Ter um diploma aumentam as chances de conseguirmos um emprego melhor e passarmos à frente de muitos candidatos. Além disso, o mercado valoriza cada vez mais o empregado que está sempre se atualizando e buscando novos conhecimentos.
A teoria das ideias
Como principal consequência da utilização do método dos geômetras, Platão propõe que se afirme hipoteticamente a existência de formas ou essências, ou ideias, que seriam modelos eternos das coisas sensíveis. Essas essências seriam incorpóreas e imutáveis, existindo em si mesmas. Embora Platão as chame também de ideias, elas não existem na mente humana, como conceitos ou representações mentais, nem nos objetos – de que são modelos, nem nos sujeitos – que conhecem esses sujeitos. Cada coisa corpórea e mutável seria o que ela é – uma cadeira, por exemplo – porque participa da essência que lhe serve de modelo – a cadeira em si, a essência ou a ideia de cadeira. Uma cadeira que vemos ou tocamos pode ser de metal ou madeira, de várias cores ou modelos. Ela muda, envelhece e é destruída com o tempo, mas a essência de cadeira permanece sempre a mesma, fora do tempo e do espaço, é sempre única. Não podemos apreender com os sentidos essa essência ou ideia incorpórea e intemporal, pois nossos sentidos só captam o material, dotado de alguma concretude, que está situado no espaço e no tempo. Só podemos alcançá-la pelo intelecto.
Alma e reminiscência
Como o homem – ser concreto que existe no tempo e no espaço – pode conhecer as essências incorpóreas e intemporais? Essa possibilidade depende de outra hipótese: é preciso supor que ele possua algo incorpóreo e indestrutível, algo de natureza semelhante à das ideias. É necessário supor que ele abriga em seu corpo uma alma, também pura forma imortal. Essa alma já teria contemplado as essências antes de se prender ao corpo ao qual provisoriamente está vinculada. Unida ao corpo, alojada a ele como em uma prisão, ela esquece daquele conhecimento anterior. Mas os sentidos apreendem objetos que são cópias imperfeitas daquelas essências que a alma contemplara e isso permite que ela vá lembrando das ideias. Assim, o conhecimento é, na verdade, reconhecimento, reminiscência, retorno.
A ideia de bem
A adoção do método dos geômetras faz da filosofia, inicialmente, um jogo de hipóteses. Se até o final o conhecimento permanecer com esse jogo, ele permanecerá no âmbito do provável, do possível, do hipotético, não chegando à certeza. Desse modo, a escalada do conhecimento resultará na garantia da verdade se, no final, depois de percorrer todas as hipóteses, levar ao absoluto, ao necessário, ao não hipotético. Platão considera que, usando o conhecimento dialético, o filósofo pode atingir as essências eternas. E, seguindo as articulações
que ligam as essências, vai conquistando essências cada vez mais gerais, até que por fim, contempla aquele absoluto, uma superessência. Na República, Platão o denomina de Bem. Ele seria a fonte de toda a luz, fazendo com que os objetos possam ser conhecidos e que nós possamos conhecê-los.
A política: aristocracia de filósofos
Para Platão, o modelo político presente em sua cidade naquele momento não representava as melhores possibilidades para um governo em nome da Justiça e do Bem. É importante, agora, que entendamos o que o faz pensar assim. A base para tal crítica nós já construímos: o ser humano é composto de corpo e alma, e esta última, antes de ser aprisionada para a experiência sensível, esteve no plano inteligível, contemplando diretamente as formas perfeitas. A questão é que as almas tiveram, ao longo das suas existências, experiências muito distintas, o que fez com que escolhessem, para a vida em que se encontram, projetos também muito diferentes. Foi isso que fez com que umas optassem por uma vida mergulhada na satisfação pelos bens materiais, enquanto outras escolheram uma existência mais contemplativa, de reflexão, dedicada à filosofia.
Em seu famoso dialógo O Banquete, Platão nos apresenta uma alma que seria dividida em três partes: racional, emocional e apetitiva, sendo que esta última é justamente aquela que mais se compraz com a satisfação das necessidades do corpo. Para ele, uma alma equilibrada possui uma parte racional que reina absoluta sobre as outras duas, controlando-as de perto. A cidade ideal também seria assim. Nela, aqueles que possuem a parte racional da alma mais proeminente (almas de ouro) e que, por isso mesmo, optaram por uma vida menos afeita ao material e mais dedicada à contemplação, deveriam ser os governantes da pólis, os filósofos. Representando as emoções, porque lutam por amor à cidade, e porque tem na coragem a característica fundamental, estariam os militares, comandados pela elite de magistrados. No lugar da parte apetitiva, exatamente porque a têm mais acentuada em sua alma, estariam os grupos que se dedicariam a cuidar da manutenção material da cidade, os agricultores, pastores e artesãos, comerciantes. Em tal formação, os mais capazes estariam na posição de comando e ordenariam a cidade sempre na direção do Bem. Em uma democracia, como a que existia, os filósofos, sendo minoria, seriam sempre vencidos nas votações pelos demagogos e pelos insensatos e as decisões ficariam sempre nas mãos dos menos capacitados, o que representaria prejuízo para o coletivo.
A alegoria da caverna
Trata-se de um trecho do Livro VII da República, de Platão. As falas na primeira pessoa são de Sócrates e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão.
– Depois disso, continuei, comparando nossa natureza, conforme seja ou não educada, com a seguinte situação: imagina homens de morada subterrânea em forma de caverna, provida de uma única entrada com vista para uma luz em toda sua largura. Encontram-se nesse lugar, desde pequenos,
pernas e pescoço amarradas com cadeias, de forma que são forçados a ali permanecer e a olhar apenas para frente, impossibilitados, como se acham, pelas cadeias, de virar a cabeça. A luz de um fogo aceso, a grande distância brilha no alto e por trás deles; entre os prisioneiros e o foco de luz há um caminho que passa por cima, ao longo do qual imagina agora um murozinho, à maneira do tabique que os politiqueiros levantam entre eles e o público e por cima do qual executam suas habilidades.
– Figuro tudo isso, respondeu.
– Observa, então, ao comprido desse murozinho homens a carregar toda a sorte de utensílios que ultrapassa a altura do muro, e também estátuas e figuras de animais, de pedra ou de madeira, bem como objetos da mais variada espécie. Como é natural, desses carregadores uns conversam e outros se mantêm calados.
– Imagens muito estranhas, disse, como também os prisioneiros de que falas.
– Parecem-se conosco, respondi. Para começar, achas mesmo que em semelhante situação poderiam ver deles próprios e dos vizinhos alguma coisa além da sombra projetada pelo fogo, na parede da caverna que lhes fica em frente?
– De que jeito, perguntou, se a vida inteira não conseguem mexer a cabeça?
– E com relação aos objetos transportados, não acontecerá a mesma coisa?
– Como não?
– Logo, se fossem capazes de conversar, não acreditas que pensariam estar designando pelo nome certo tudo o que veem?
– Necessariamente.
– E se no fundo da prisão se fizesse ouvir um eco? Sempre que se falasse alguma coisa das estátuas, não achas que eles só poderiam atribuir a voz às sombras em desfile?
– Sim, por Zeus! exclamou.
– De qualquer forma, continuei, para semelhante gente a verdade consistiria apenas na sombra dos objetos fabricados.
– É mais do que certo, respondeu.
– Considera agora, lhe disse, quais seriam as consequências da libertação desses homens depois de curados de suas cadeias e imaginações, se as coisas se passassem do seguinte modo: vindo a ser um deles libertado e obrigado imediatamente a levantar-se, a virar o pescoço, andar e olhar na direção da luz, não apenas tudo isso lhe causaria dor, como também o deslumbramento o impediria de ver os objetos cujas sombras até então ele enxergava. Como achas que responderia a quem afirmasse que tudo o que ele vira até ali não passava de brinquedo e que somente agora, por estar mais próximo da realidade e ter o rosto voltado para o que é mais real é que ele via com maior exatidão; e também se o interlocutor lhe mostrasse os objetos, à medida que fossem desfilando e o obrigasse, à custa de perguntas a designá-
los pelos nomes? Não te parece que ficaria atrapalhado e imaginaria ser mais verdadeiro tudo o que ele vira até então do que como naquele instante lhe mostravam?
– Muito mais verdadeiro, respondeu.
– E no caso de o forçarem a olhar para a luz, não sentiria dor nos olhos e não correria para junto das coisas que lhe era possível contemplar, certo de serem todas elas mais claras do que as que lhe então apresentavam?
– Isso mesmo, disse.
– E agora, perguntei: se o arrastassem à força pela rampa rude e empinada e não o largassem enquanto não houvessem alcançado a luz do sol não te parece que sofreria bastante e se revoltaria por ver-se tratado daquele modo? E depois de estar no claro, não ficaria com a vista ofuscada sem enxergar nada do que lhe fosse então indicado como verdadeiro?
– De fato, respondeu; pelo menos no começo.
– Precisaria, creio, habituar-se para poder contemplar o mundo superior. De início, perceberia mais facilmente as sombras; ao depois as imagens e dos outros objetos refletidos na água; por último os objetos, no rasto deles, o que se encontra no céu e o próprio céu, porém sempre enxergando, com mais facilidade, durante a noite, à luz da lua e das estrelas, do que de dia ao Sol com todo o seu fulgor.
– Não há dúvida.
– Finalmente, segundo penso, também o Sol, não na água ou sua imagem refletida em qualquer parte, mas no lugar certo, que ele poderia ver e contemplar tal como é mesmo.
– Necessariamente, disse.
– De raciocínio em raciocínio, chegaria à conclusão de que o Sol é que produz as estações e tudo dirige no espaço visível, e que, de alguma modo, é a causa do que ele e seus companheiros estavam habituados a distinguir.
– É evidente, respondeu, que depois de tudo, ele concluiria dessa maneira.
– E então? Quando se lembrasse de sua primitiva morada, da sabedoria lá reinante e dos companheiros de prisão: não te parece que se felicitaria pela mudança e lastimaria a sorte deles todos?
– Sem dúvida.
– E as honrarias e os elogios entre eles mesmos, os prêmios para quem percebesse com mais nitidez as imagens em desfile e se lembrasse com exatidão do que costumava aparecer em primeiro lugar ou por último, ou concomitantemente, e que por isso, ficasse em condições de prever o que iria dar-se: acredita-se que semelhante indivíduo do outro tempo ou invejasse os que entre eles fossem alvo de distinções ou fizessem parte do governo? Ou com ele se passaria aquilo de Homero: pois preferira viver empregado em trabalhos do campo, sob um senhor sem recursos e vir a sofrer seja o que for a voltar para semelhantes ilusões e viver a antiga vida?
– É também o que penso, respondeu; aguentaria tudo para não voltar a viver daquele jeito.
– Considera também o seguinte, lhe falei: se esse indivíduo baixasse de novo para ir sentar-se ao seu antigo lugar, não ficaria com os olhos obnubliados pelas trevas por vir da luz do Sol assim tão de repente?
– Sem dúvida, respondeu.
– E se tivesse de competir outra vez a respeito das sombras com aqueles eternos prisioneiros quando ainda se ressentisse da fraqueza da vista, por não se ter habituado com o escuro – o que não exigiria pouco tempo – não se tornaria objeto de galhofa dos outros e não diriam estes que o passeio lá por cima lhe estragara a vista e que não valia a pena sequer tentar aquela subida? E se por ventura ele procurasse libertá-los e conduzi-los para cima, caso fosse possível aos outros fazer uso das mãos e matá-lo, não lhe tiraria a vida?
– Com toda certeza, respondeu.
– Agora, meu caro Glauco, precisarás essa alegoria a tudo que expusemos antes, para compartilhar, para comparar o mundo percebido pela visão com o domicílio carcerário, e a luz do fogo que nele esplende com a energia do Sol. Quanto à subida para o mundo superior e à contemplação do que lá existe se vires nisto a ascensão da alma para a região inteligível, não te terás desviado das minhas esperanças, já que tanto ambicionas conhecê-las. Só Deus sabe se está de acordo com a verdade. O que vejo, pelo menos, é o seguinte: no limite extremo da região do cognoscível está a ideia do bem, dificilmente perceptível, mas que, uma vez apreendida, impõe-nos de pronto a conclusão de que é a causa de tudo o que é belo e direito, a geratriz, no mundo visível, da luz e do senhor da luz, como no mundo inteligível é dominadora, fonte imediata da verdade e da inteligência, que precisará ser contemplada por quem quiser agir com sabedoria, tanto na vida pública como na particular.
– Concordo com tua maneira de pensar, me disse, até onde consigo acompanhar.
(PLATÃO, 1988, p. 281-284)
Breve explicação da alegoria da caverna
O que é a caverna? O mundo em que vivemos. O que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. O que é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do Sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das ideias ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A filosofia. Por que os prisioneiros zombam e, se pudessem, matariam o filósofo (aqui Platão se refere à condenação de Sócrates à morte pela assembleia ateniense)? Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.
Após essa breve explanação de alguns pontos referentes à Alegoria da Caverna, passaremos à análise dos seus dois aspectos mais importantes, o epistemológico (referente ao conhecimento) e o político (relativo ao poder).
Na dimensão epistemológica, percebe-se a distinção das duas principais formas de conhecimento enunciadas por Platão na sua Teoria das Ideias: doxa ou opinião, referente ao mundo sensível, dos fenômenos, e a episteme, referente ao mundo inteligível das ideias.
O mundo sensível, acessível aos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, e é ilusório, pura sombra do verdadeiro mundo. Assim, mesmo se percebemos inúmeras abelhas dos mais variados tipos, a ideia de abelha deve permanecer imutável, deve ser una, consistindo, assim, na verdadeira realidade. Com isso, Platão se aproxima do instrumental teórico de Parmênides.
Do seu mestre aproveita a noção de logos , e continuando o processo de compreensão do real, cria a palavra ideia ( eidos ), para referir-se à intuição intelectual, distinta da intuição sensível.
Portanto, acima do ilusório mundo sensível, há o mundo das ideias gerais, das essências imutáveis que o homem atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos.
Sendo as ideias a única verdade, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que participa do mundo das ideias do qual é apenas sombra ou cópia. Por exemplo, um cavalo só é um cavalo enquanto participa da ideia de “cavalo em si”.
Se lembrarmos do que foi dito, a respeito dos Pré-socráticos, podemos verificar que Platão tenta superar a oposição do pensamento de Heráclito (que afirma a eterna mutabilidade do ser) com a posição de Parmênides (que afirma a imobilidade do ser). Para Platão, a mutabilidade do ser da teoria do primeiro refere-se ao mundo sensível (da doxa), e a imutabilidade do ser da teoria do segundo refere-se ao mundo inteligível, ou mundo das ideias.
A questão política, que também pode ser trabalhada na “Alegoria da Caverna”, permite ao aluno pensar sobre o seu mundo por meio da analogia do homem que sai da caverna, vê o mundo como ele realmente é e retorna para tentar mostrar aos outros o que é a realidade. Contudo, se estes pudessem, o matariam. Nessa passagem do VII livro da República,
Platão se refere a Sócrates que conheceu a realidade e tentou abrir os olhos dos atenienses. Pergunta-se então: por que os governantes de Atenas fizeram de tudo para condenar e matar Sócrates, acusando-o de ser o corruptor da mocidade?
É simples, porque Sócrates estava fazendo uma revolução, mostrando aos atenienses que aquilo que julgavam conhecer estava errado, sendo que, com isso, ele demonstrou que inclusive o conceito de virtude – que todos julgavam que os governantes possuíam, e por isso tinham direito de comandar a polis – estava errado. Então, por que aquele que descobre que não é virtuoso está no poder? Sócrates estava mostrando que todos os conhecimentos e costumes que a sociedade de Atenas tinha – e mantinha os governantes no poder – estavam errados, e isso era prejudicial aos que detinham o poder. Por isso, era necessário calar Sócrates. Outra analogia possível é a de que Sócrates fosse a “esquerda” e os governantes de Atenas a “direita”; a primeira diz que o governo da “direita” está errado e mostra o porquê e, por isso, são tachados de comunistas, alienados, loucos, anarquistas e muito mais. Esses são conceitos que não havia na época, mas que representam a situação atualizada do acontecido. Daí vê-se o porquê do empenho em continuar com os cursos técnicos e da crítica aos ditos cursos de humanas. Os primeiros formam profissionais e os outros intelectuais, sendo estes últimos nada mais do que problemas para o sistema posto pelos governantes.
A sociedade deve ser constituída de homens iguais, sendo que, por meio do voto; escolhem-se alguns para serem não governantes, mas representantes, ou seja, o povo paga alguém para que tome conta do que é público. Dessa forma, o “governante” não é nada mais que um empregado do povo, que não está conseguindo cumprir a sua função, pois as sociedades – cidades, Estados, países – estão um caos.
E aí proponho a seguinte questão: em uma empresa privada, um empregado descontente com seu salário pode aumentá-lo? A resposta é NÃO. Então por que o empregado do povo pode? Por que se encontra tantas dificuldades para demitir esse empregado quando ele não cumpre seu papel? Por que contratamos alguém para tomar conta de tudo que é público e encontram-se estradas esburacadas, sem sinalização, não há atendimento médico, dentre outras coisas e, mesmo assim, não se consegue demiti-lo? É pelo fato de que a minoria da população não pensa assim, ou não tem consciência desses fatores, imaginam que são governados e os governantes têm o poder e, por isso, nada se pode fazer.
Todas essas reflexões parecem estar distantes do que é exposto por Platão na “Alegoria da Caverna”, mas não está, pois Sócrates morreu para que não abrisse a mente dos atenienses para fatores como esses. Apresento o seguinte exemplo no intuito de esclarecer melhor ainda a relação feita acima. Se, para os atenienses, o que dá direito ao governo é o fato de um homem ser virtuoso e Sócrates mostra que o que eles tinham como virtude está errado, o povo de Atenas poderia se perguntar: por que ele está no poder? Eu o considerava virtuoso, porém, vi que o que considerava virtude está errado, então ele não é mais virtuoso e por isso deve deixar o poder. É claro que as coisas não aconteciam de forma tão simples, mas o raciocínio é correto e caso viesse a ser colocado, poderia acabar com a forma de governo posta no momento.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
01. (UFU MG) Considere o seguinte trecho
“No diálogo Mênon, Platão faz Sócrates sustentar que a virtude não pode ser ensinada, consistindo-se em algo que trazemos conosco desde o nascimento, defendendo uma concepção, segundo a qual temos em nós um conhecimento inato que se encontra obscurecido desde que a alma encarnou-se no corpo. O papel da filosofia é fazer-nos recordar deste conhecimento”
MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000. p. 31.
Nesse trecho, o autor descreve o que ficou conhecido como
a) a teoria das ideias de Platão.
b) a doutrina da reminiscência de Platão.
c) a ironia socrática.
d) a dialética platônica.
02. (Uem PR) No diálogo Teeteto, de Platão, lê-se a seguinte afirmação de Sócrates: “estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, pois a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia.”
(PLATÃO, Teeteto. Belém: Editora da Universidade Federal do Pará, 1988, p. 20).
A respeito da noção de admiração na filosofia platônica, assinale o que for correto.
01. A admiração está presente no exercício filosófico de Platão sob um duplo ponto de vista: o filósofo é aquele que não sabe e se põe a caminho do saber.
02. A admiração pertence ao regime mítico, e não propriamente ao filosófico, pois o homem se maravilha com o poder sobrenatural dos deuses.
04. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão está na dúvida, e não na admiração.
08. É próprio do saber filosófico de Platão o seu aspecto teorético, explicitado como um olhar aberto à realidade.
16. Para Platão, o filósofo é aquele que tem a capacidade de amar a sabedoria, e não a capacidade de admirar-se.
03. No livro VI da obra A república (488a ss.), Platão compara a democracia a um navio no qual todos os marinheiros desejam pilotar sem, no entanto, possuir conhecimento algum da arte de navegar. Entrementes, o verdadeiro piloto - “que precisa se preocupar com o ano, as estações, o céu, os astros, os ventos e tudo o que diz respeito à sua arte, se quer de fato ser comandante do navio, a fim de o governar, quer alguns o queiram quer não” - é compreendido como um inútil.
Para Platão, essa metáfora refere-se
a) às relações das cidades com os verdadeiros filósofos.
b) à primazia da monarquia sobre as outras formas de governo.
c) ao caráter universal do conhecimento prático.
d) à evidente sabedoria do governo tirânico.
04. (Uem PR) Platão descreve, na obra A República, as condições de uma cidade justa e os passos necessários para se alcançar uma educação filosófica na busca do bem, assentada em quatro etapas:
1) na percepção das próprias coisas, campo da confiança naquilo que captamos pelos sentidos (nível da opinião);
2) na redução das coisas do mundo às hipóteses matemáticas (nível da inteligência e do conhecimento);
3) na transição para o mundo inteligível (nível em que se reconhecem as próprias formas);
4) na captação da forma do bem (nível em que se encontra a forma reguladora máxima do nosso conhecimento).
A respeito da noção de educação e da teoria do conhecimento em Platão, assinale o que for correto. C C E C E
01. Esse procedimento que leva ao bem é chamado de método dialético.
02. A alegoria da caverna é uma metáfora que explicita o procedimento dialético para Platão.
04. Platão valoriza as aparências e os prazeres na busca da verdade e do bem.
08. As entidades matemáticas são sombras das formas e só podem ser compreendidas quando contrastadas com elas.
16. A atitude da crença deve ser entendida como algo falso no domínio do conhecimento.
05. (UEG GO) O surgimento da filosofia entre os gregos (Séc. VII a.C.) é marcado por um crescente processo de racionalização da vida na cidade, em que o ser humano abandona a verdade revelada pela codificação mítica e passa a exigir uma explicação racional para a compreensão do mundo humano e do mundo natural.
Dentre os legados da filosofia grega para o Ocidente, destaca-se
a) a concepção política expressa em A República, de Platão, segundo a qual os mais fortes devem governar sob um regime político oligárquico.
b) a criação de instituições universitárias como a Academia, de Platão, e o Liceu, de Aristóteles.
c) a filosofia, tal como surgiu na Grécia, deixou-nos como legado a recusa de uma fé inabalável na razão humana e a crença de que sempre devemos acreditar nos sentimentos.
d) a recusa em apresentar explicações preestabelecidas mediante a exigência de que, para cada fato, ação ou discurso, seja encontrado um fundamento racional.
06. Em A República, Livro X, Platão, ao considerar a relação entre arte, mímese e verdade, afirma que
a) a verdade na arte depende da natureza do objeto imitado.
b) a arte de imitar está bem longe de produzir a verdade.
c) o artista que imita a realidade produz o belo e revela a verdade.
d) a arte é verdade por ser imitação que tem inspiração nas musas.
07. (Enem MEC) Os andróginos tentaram escalar o céu para combater os deuses. No entanto, os deuses em um primeiro momento pensam em matá-los de forma sumária. Depois decidem puni-los da forma mais cruel: dividem-nos em dois. Por exemplo, é como se pegássemos um ovo cozido e, com uma linha, dividíssemos ao meio. Desta forma, até hoje as metades separadas buscam reunir-se. Cada um com saudade de sua metade, tenta juntar-se novamente a ela, abraçando-se, enlaçando-se um ao outro, desejando formar um único ser.
PLATÃO. O banquete. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
No trecho da obra O banquete, Platão explicita, por meio de uma alegoria, o
a) bem supremo como fim do homem.
b) prazer perene como fundamento da felicidade.
c) ideal inteligível como transcendência desejada.
d) amor como falta constituinte do ser humano.
e) autoconhecimento como caminho da verdade.
W ARISTÓTELES: METAFÍSICA, LÓGICA, ÉTICA E FILOSOFIA HELENÍSTICA
Se, para Sócrates e Platão, filósofos atenienses, a ideia é anterior e até mesmo independente dos objetos concretos, para Aristóteles (384 a.C.– 322 a.C.) ela é o resultado da observação dos próprios seres humanos.
A solução aristotélica é brilhante: não vivemos em um mundo que aponta constantemente para fora de si, diz o filósofo, e sim em uma única realidade que é composta pelo conjunto de forma e matéria. Com isso, Aristóteles realiza uma espécie de unificação dos dois mundos platônicos, cabendo à filosofia não mais a tarefa de libertar os seres humanos das correntes da ignorância e do erro oriundo dos sentidos, mas o papel de diferenciar aquilo que é essencial do que é acidental nas coisas.
Mas o que Aristóteles entende por matéria e forma? Em sua obra A Metafísica ele define esses conceitos de diversas formas diferentes. Em linhas gerais, identifica a forma com a própria ideia de uma coisa, a representação de sua figura ideal. Em contrapartida, a matéria revela-se como um elemento fundamental, mas ainda em estado bruto, à espera de algo que justifique a sua existência. Ao conjunto de matéria e forma, Aristóteles deu o nome de substância
Um bom exemplo para tornar clara essa distinção é o da estátua de bronze dado pelo próprio filósofo. Para Aristóteles, o bronze seria a matéria, enquanto a figura ideal, a forma. A estátua realizada representaria o conjunto de matéria e forma, ou seja, a própria
substância da estátua.
Essa postura de um realismo mais empírico defendido por Aristóteles é tema de frequentes comparações entre o filósofo e seus antecessores, que foram muito bem retratadas em uma das maiores obras de Rafael.
Essa postura de um realismo mais empírico defendido por Aristóteles é tema de freentre maiores
Esse entrelaçamento entre essência e substância presente em todas as coisas permitiu ainda que Aristóteles justificasse outra questão bastante polêmica entre os filósofos gregos: a problemática do movimento. Como é possível o movimento? — perguntou Aristóteles. Seu professor, apesar de ter se esforçado bastante, nunca havia conseguido uma explicação filosófica aceitável para essa questão. Portanto, Aristóteles partiu em busca da ideia de função, chegando, por fim, à Teoria das Quatro Causas Assim, no pensamento aristotélico, tudo o que existe, por tender à perfeição, possui quatro causas, a saber:
x A Causa FORMAL.
x A Causa MATERIAL.
x A Causa EFICIENTE.
x A Causa FINAL.
Bem, a ideia na mente do artista seria, para Aristóteles, identificada com a causa formal. O material empregado (no caso, o bronze) seria a causa material. A causa eficiente compreenderia a própria ação das mãos e dos instrumentos utilizados para moldar e esculpir a obra de arte, enquanto a intenção do artista em utilizar a estátua em um templo seria a causa final.
Como ficou claro, as coisas não estão mais em uma relação entre cópia e modelo, como defendia Platão. Não se faz mais necessária a referência de essências imutáveis extramundanas, juntamente com a sua impossibilidade de mudança. Para Aristóteles, esse processo revela-se fruto da inseparável relação entre forma e matéria cuja atualização das essências nada mais é do que o resultado da passagem daquilo que é potencial para algo que agora encontramos em ato.
No exemplo que utilizamos, a peça de bronze seria uma estátua em potência enquanto ainda não sofreu as transformações impostas pelas mãos do escultor. Uma vez terminada a obra de arte, tudo o que já estava latente na matéria-prima torna-se realizado sob a forma de estátua. Essa explicação dada por Aristóteles é bastante abrangente e, assim, uma semente seria potencialmente uma árvore, do mesmo modo que uma criança seria a promessa de adulto no futuro. Com maiores detalhes, a Teoria de Aristóteles das Quatro Causas será estudada no próximo módulo.
A Metafísica Aristotélica
O primeiro campo que estudaremos de Aristóteles é a Metafísica, que foi denominada por ele de filosofia primeira e consistiria basicamente no estudo do ser e das suas causas. Ao estudar tais temas, no entanto, nosso pensador se afasta do idealismo platônico, adotando uma posição que denominaremos de empirista, ou realista. O realismo aristotélico
representa, na Grécia antiga, ao lado das filosofias de Sócrates e Platão, outra tentativa de superação da oposição dos pensamentos de Parmênides e Heráclito. O primeiro negava a realidade do movimento e da mudança, enquanto o segundo via o Ser, sobretudo, como o vir-a-ser, afirmando que toda permanência e estabilidade resultam do equilíbrio entre os polos opostos.
Defendendo a possibilidade de uma ciência sobre o real e concreto, Aristóteles afirma que é possível conhecer o que é o real concreto e mutável por meio de definições e conceitos que permanecem inalterados. Basta que, para isso, seja estabelecido previamente o que importa ser conhecido acerca do Ser, distinguindo-o daquilo que pode ser deixado de lado por ser meramente ocasional, factual ou acidental. Considera o universo como um todo ordenado segundo leis constantes e imutáveis. Essa ordem imutável e eterna rege não apenas os fenômenos da natureza, como também os de ordem política, moral ou estética. Antecedendo, como fundamento, as diversas ciências que se interessam por determinados aspectos do ser, existe uma ciência “primeira”, a Sabedoria (depois designada como Metafísica) que estuda o Ser e procura enunciar essa ordem subjacente que torna inatingíveis todos os fenômenos.
Dessa forma, a Filosofia de Aristóteles representa um grande esforço para solucionar o problema do Ser e da ciência. Em face disso, ele tem que dar a tríplice resposta: a Parmênides, a Heráclito e a Platão.
Com relação ao primeiro, Aristóteles rompe a realidade compacta, estática, imóvel e indiferenciada do Ser parmenídeo, mediante as noções de per se e per accidens, assim como as de ato e potência. Desse modo, afirmamos todo ser como composto de uma essência, conjunto de atributos imutáveis, que definem o que o ser é, e de acidentes, características mutáveis do ser, sem que essa modificação interfira na essência. Podemos, por exemplo, afirmar que a essência do ser humano é composta de sua mortalidade, de sua animalidade e de sua racionalidade, enquanto o fato de ser mais alto ou mais baixo, mais gordo ou mais magro, ter olhos claros ou escuros, seriam atributos acidentais. Assim, sendo não existe um ser único, mas muitos seres. Cada Ser é uma substância individual concreta que pode ser afetada de muitos modos por múltiplas modificações acidentais. O Ser uno não passa de um conceito abstrato da mente. Ao conceito unívoco de Parmênides opõe o seu conceito analógico: “O ente e o uno dizem-se de muitos modos.”
Com a teoria do ato e da potência, Aristóteles salva o movimento dos seres. Não é o Ser que se move, mas os seres concretos e particulares. Todos os seres, exceto o Primeiro Motor Imóvel, movem-se.
Em resposta a Heráclito, nosso autor recorda que os seres particulares movem-se, mas as essências são imóveis e permanecem por meio de todas as mudanças e mutações.
Por fim, em contraposição a Platão, Aristóteles considera que não existem dois mundos ontologicamente distintos, mas um só. Os universais (substâncias segundas) não têm realidade ontológica, mas lógica. São conceitos formados pela mente mediante abstração. A verdadeira realidade ontológica é constituída pelas substâncias individuais (substâncias primeiras) em suas três grandes definições: terrestres, celestes e divina.
Aristóteles não usa a palavra Metafísica, mas sim Filosofia Primeira. Ele pensa em uma ciência cujo objeto não é nenhuma parte determinada do Ser, como, por exemplo, a medicina ou a matemática, mas o Ser em geral, isto é, o Ser como tal, com o que dele depende: “Há uma ciência que considera o Ser como tal e com tudo o que essencialmente lhe concerne.” A esta ciência, ou seja, à Filosofia Primeira cabe o estudo dos primeiros princípios das primeiras causas de todas as coisas e investiga o “Ser enquanto Ser”.
Ao definir a ontologia ou Metafísica como o estudo do “Ser enquanto Ser”, Aristóteles está dizendo que a Filosofia Primeira estuda as essências sem diferenciar essência física, matemática, astronômica, humana etc., pois cabe às diferentes ciências estudá-las enquanto diferentes entre si. Quanto à Metafísica cabem três estudos:
x Primeiro Motor Imóvel: a realidade primeira e suprema da qual todo restante procura aproximar-se, imitando a sua perfeição imutável. As coisas se transformam, diz Aristóteles, por que desejam encontrar a sua essência total e perfeita, imitável como a essência divina? Pela mudança incessante que buscam imitar o que não muda nunca. Daí, o Primeiro Motor Imóvel do mundo, ou seja, aquilo que sem agir diretamente sobre as coisas, ficando à distância delas, as atrai e é desejado por elas. Tal desejo as faz mudar para um dia não mais mudar. Esse desejo, segundo Aristóteles, explica porque há o devir e porque este é eterno, pois as coisas naturais nunca poderão alcançar o que desejam, isto é, a perfeição imutável. A mudança ou o devir é a maneira pela qual a Natureza, ao seu modo, se aperfeiçoa e busca imitar a perfeição do imutável divino. O Primeiro Motor Imóvel é o princípio que move toda a realidade, e é denominada dessa maneira porque não se move e não é movido por nenhum outro ente, pois, mover significa mudar, sofrer alterações quantitativas e qualitativas, nascer e perecer, e o Primeiro Motor Imóvel é perfeito, não muda nunca.
x Primeiros Princípios e Causas Primeiras: de todos os seres ou essências existentes.
x Propriedades ou Atributos Gerais: de todos os seres, sejam eles quais forem, graças aos quais podemos determinar a essência particular de um Ser particular existente. A essência ou ousia é a realidade primeira e última de um Ser, aquilo sem o qual um Ser não poderá existir ou deixará de ser o que é. À essência entendida sob esta perspectiva universal, Aristóteles dá o nome de substância: o substrato ou suporte permanente de qualidade ou atributos necessários de um Ser. A metafísica estuda a substância em geral.
Aristóteles
Nascido em Estagira, fronteira com a Macedônia, Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C) era filho de um médico, Nicômaco. Aos 18 anos passa a viver em Atenas, onde se iniciam seus estudos na Academia, escola filosófica fundada por Platão. Permaneceu ali por aproximadamente 20 anos, até a morte de seu mestre. Após isso é, convidado por Filipe II, rei da Macedônia, para auxiliar na formação do jovem Alexandre, função que ocupa até a coroação do rapaz. Retorna para Atenas e funda o Liceu, local onde se realizam estudos de Filosofia e de alguns ramos da ciência, como Física e Biologia. Desse autor, estudaremos três campos do conhecimento, quais sejam: a Metafísica, a Lógica e a Ética.
A teoria das Quatro Causas
Aristóteles apresenta a Metafísica, em primeiro lugar, como “busca das causas primeiras”, de forma que deve-
mos identificar quais e quantas são essas “causas”. Ele esclareceu que as causas, necessariamente, devem ser finitas quanto ao número e estabeleceu que, no que se refere ao mundo do devir , reduzem-se às seguintes quatro causas, em vista das quais pode-se dizer que um Ser é:
x Causa formal: é aqu ilo que explica a forma que uma essência possui. Ex.: uma estátua de um homem, diferente de uma estátua de um cavalo.
x Causa material: é aquilo de que uma essência é feita, sua matéria. Ex.: o mármore utilizado na confecção de uma estátua.
x Causa eficiente ou motriz: é aquilo que explica como a matéria recebeu uma forma para constituir sua essência, ou seja, refere-se ao agente que produziu diretamente a coisa. Ex.: o escultor que fez a estátua.
x Causa final: é o motivo, a razão ou finalidade para alguma coisa existir e ser tal como ela é. Ex.: o escultor que fez a estátua com a finalidade de exaltar a figura do soldado ateniense. Esta causa é o motivo pelo qual a causa eficiente deu causa formal à causa material.
O Ser é Matéria e forma
Para Aristóteles os entes são compostos de matéria e forma. Logo, não há matéria sem forma, nem forma sem matéria.
W Matéria
A matéria é o elemento de que as coisas da natureza (animais, homens, plantas, artefatos, dentre outras coisas) são feitos. Sua principal característica é possuir virtualidades ou conter em si mesma a possibilidade de transformação, isto é, mudança.
W Forma
A forma é o que individualiza e determina uma matéria, fazendo existir as coisas e seres particulares. Sua principal característica é ser aquilo que uma essência é em um determinado momento, pois a forma é aquilo que atualiza as virtualidades contidas na matéria.
Ato e potência
A matéria tem potencialidades indeterminadas e a forma lhe dá determinações na constituição de um ente em ato.
W O ato
O ato é a atualidade de uma matéria, ou seja, sua forma em um dado instante no tempo. Ato é a forma que atualizou uma potência contida na matéria. Ex.: a árvore é o ato da semente; o adulto é o ato da criança.
W A potência
A potência é o que está contido em uma matéria e pode vir a existir, se for atualizado por alguma causa. Ex.: a criança é um adulto em potência ou em potencial; a semente é a árvore em potência ou em potencial.
Observação: a potência e a matéria são idênticas, assim como a forma e o ato. A matéria ou potência são uma realidade passiva que precisa do ato e da forma, isto é, da atividade que cria os seres indeterminados.
Essência e acidente
W Essência
A essência é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e sua forma, unidade que lhe dá um conjunto de propriedades ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ela é. Assim, por exemplo, um Ser humano é, por essência ou essencialmente, um animal mortal, racional, dotado de vontade, gerado por outros semelhantes a ele, e capaz de gerar outros semelhantes a ele.
W Acidente
O acidente é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter ou deixar de ter sem perder o seu Ser próprio. Por exemplo, um Ser humano é racional e mortal por essência, mas é baixo ou alto, gordo ou magro, negro ou branco, por acidente. A humanidade é a essência (animal, mortal, racional), enquanto o acidente é o que existindo, ou não, nunca afeta o Ser da essência (baixo, alto, gordo, magro, negro, branco). A essência é o universal e o acidente o particular.
O Ser como substância
Por diversas vezes, em sua Metafísica , Aristóteles afirma que o Ser pode ser dito em diferentes sentidos. É, portanto, um conceito analógico. O primeiro desses sentidos, que é o mais fundamental, é o que corresponde mais de perto àquilo que o Ser é em si mesmo, isto é, a substância, ousia . A substância pode, por sua vez, ser simples (Deus) ou composta (os demais seres). A ciência do Ser é, portanto, a ciência do Ser imóvel, substância absolutamente simples (Deus) e, ao mesmo tempo, ciência dos entes compostos, os entes da natureza, que estão em constante movimento. Enquanto ciência do Ser, a Filosofia é uma ciência da substância. A substância é um indivíduo uno em si mesmo e separado dos demais.
A substância significa o que algo é em seu sentido mais completo e forte. Ela é a primeira categoria do Ser, o substrato ou o sujeito que permanece por meio de todas as mutações acidentais, locais, qualitativas e quantitativas. É próprio da substância ser ela mesma o Ser mesmo. Ela é o primeiro
tanto na ordem lógica (como conceito), como na ontológica (como coisa). Existem duas classes de substâncias:
a) Este homem, esta árvore, esta pedra, são substâncias primeiras.
b) O homem, a árvore, a pedra, são substâncias segundas.
Platão Aristóteles
Mundo das ideias ou formas: lugar em que se encontram as verdadeiras formas, universais, eternas, imóveis, ou seja, onde se tem o conhecimento verdadeiro sobre o ser. Por exemplo: a ideia universal e perfeita de homem, a qual me possibilita identificar todo um grupo de seres, como homens.
Mundo sensível: lugar onde se encontram as cópias imperfeitas das formas encontradas no mundo das ideias. É no mundo sensível que encontramos os seres individuais. Por exemplo: são as cópias individuais e imperfeitas das ideias, ou seja, são homens que possuem individualidades, o que impossibilita que estejam na forma ideal.
Para Aristóteles, Platão dividiu o Ser, separando a essência do acidente, de tal forma que ele descaracterizou o Ser, pois, para o primeiro, o Ser é um misto de essência e acidente e, quando Platão separa o mundo das ideias do mundo sensível está, na verdade, separando a essência do acidente. Já para Aristóteles é impossível que exista um ser que é pura essência (forma) ou mesmo puro acidente (matéria).
Lógica
Essência: é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e a sua forma, unidade que lhe dá um conjunto de propriedade ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ele é. Por exemplo: é o que faz de todos os homens...homens.
Acidente: é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter, ou deixar de ter, sem perder o seu Ser próprio. É o que individualiza o ser. Por exemplo: é o que individualiza Sócrates no que concerne ao grupo de seres de que ele faz parte, ou seja, é o que o diferencia dos outros homens.
O termo
A ideia, conhecida como noção ou conceito, é a simples representação intelectual de um objeto. Não deve ser confundida com a imagem, que é uma representação sensível do objeto. O termo é a expressão verbal da ideia e, do ponto de vista lógico, não pode ser confundido com a palavra.
No que diz respeito à ideia, podemos fazer algumas considerações sobre dois de seus elementos mais importantes, a saber: a compreensão, que é o seu conteúdo, ou seja, o conjunto de elementos de que uma ideia se compõe. E a extensão, que corresponde a um conjunto de sujeitos de que uma ideia convém.
Uma proposição é constituída por elementos que são seus termos. Aristóteles define os termos ou categorias como “aquilo que serve para designar uma coisa”. São palavras não combinadas com outras e que aparecem em tudo quanto pensamos e dizemos. Há dez categorias ou termos:
I. Substância: homem, Sócrates.
II. Quantidade: dois metros, um quilo.
III. Qualidade: branco, grego, agradável.
IV. Relação: o dobro, a metade.
V. Lugar: em casa, na rua.
VI. Tempo: ontem, amanhã.
VII. Posição: sentado, deitado.
VIII. Posse: armado, isto é, tendo armas.
IX. Ação: corta, fere.
X. Paixão/Passividade: é cortado, é ferido.
As categorias/termos indicam o que uma coisa é, faz ou como está. São aquilo que nossa percepção e nosso pensamento captam imediatamente e diretamente em uma coisa, não precisando de qualquer demonstração, pois nos dão a apreensão direta de uma entidade simples. Possuem duas propriedades lógicas:
x Extensão: é o conjunto de objetos designados por um termo.
x Compreensão: é o conjunto de propriedades que esse mesmo termo designa.
Por exemplo: utilizamos a palavra "homem" para designar Pedro, Paulo, Sócrates e usamos a palavra "metal" para designar ouro, ferro, prata.
O termo lógica é a tradução para o português da palavra grega organon, que nada mais significa "instrumento". Desse modo, a lógica, para Aristóteles, não consistiria em um campo de produção de conhecimento, tal como se apresentam a metafísica ou a ética, mas sim um conjunto de procedimentos que devem ser realizados para se utilizar corretamente a capacidade de raciocinar. Para o autor, assim, o biólogo, o físico, o químico ou o astrônomo, qualquer um deve organizar logicamente seu pensamento, se tem alguma pretensão de chegar à verdade.
A extensão do termo "homem" será o conjunto de todos os seres que podem ser designados por ele. Se, porém, tomarmos esse termo e dissermos que é um animal, vertebrado, mamífero, bípede, mortal e racional, essas qualidades formam sua compreensão. Quanto maior a extensão de um termo, menor a sua compreensão. Por exemplo: Sócrates (extensão menor). Sua compreensão, porém, será maior, pois Sócrates possui todas as propriedades do termo "homem", mais as suas propriedades enquanto pessoa determinada.
Essa distinção permite classificar os termos ou categorias em três tipos:
x Gênero: extensão maior, compreensão menor. Ex.: animal.
x Espécie: extensão média e compreensão média. Ex.: homem, indivíduo.
x Indivíduo: extensão menor, compreensão maior. Ex.: Sócrates.
Na proposição, as categorias ou termos são predicados atribuídos a um “sujeito”. O sujeito (S) é uma substância; os predicados (P) são as propriedades atribuídas ao “sujeito”; a atribuição ou predicação se faz por meio do verbo de ligação ser. Ex.: João é lindo e modesto.
A proposição
A proposição é um discurso declarativo, que enuncia ou declara verbalmente o que foi pensado e raciocinado pelo juízo. A proposição reúne ou separa verbalmente o que o juízo reuniu ou separou mentalmente.
A reunião ou separação dos termos recebe o valor de verdade ou de falsidade quando o que foi reunido ou separado em pensamento e linguagem está reunido/separado na realidade (verdade), ou quando o que foi reunido está separado na realidade (falsidade). A reunião se faz pela afirmação S é P. A separação se faz pela afirmação S não é P. A proposição apresenta o juízo (coloca o pensamento na linguagem) e a realidade (declara o que está unido ou separado na realidade). Do ponto de vista do “sujeito”, existem dois tipos de proposições:
As proposições se classificam segundo a qualidade, quantidade e a relação. Do ponto de vista da qualidade, as proposições se dividem em:
x Afirmativas: as que atribuem alguma coisa a um sujeito: S é P.
x Negativas: as que separam o sujeito de alguma coisa: S não é P.
Do ponto de vista da quantidade, as proposições se dividem em:
x Universais: quando o predicado se refere à extensão total do sujeito, afirmativamente (todos os S são P) ou negativamente (nenhum S é P).
x Particulares: quando um predicado é atribuído a uma parte da extensão do sujeito, afirmativamente (alguns S são P) ou negativamente (alguns S não são P).
x Singulares: quando o predicado é atribuído a um único indivíduo, afirmativamente (este S é P) ou negativamente (este S não é P).
Os três princípios da lógica formal
Como todo pensamento e todo juízo, a proposição está submetida aos três princípios lógicos e fundamentais, condições de toda verdade, quais sejam:
x Princípio de identidade: um Ser é sempre idêntico a si mesmo. A é A.
x Princípio da não contradição: é impossível que um Ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao mesmo tempo e na mesma relação. É impossível afirmar que A é A e depois afirmar que A é não A ao mesmo tempo.
x Princípio do terceiro excluído: dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente verdadeira e outra falsa. A é B ou não B, não havendo terceira possibilidade.
Graças a esses princípios obtemos a última maneira pela qual as proposições se distinguem. Trata-se da classificação das proposições segundo a relação:
x Contraditórias: quando temos o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma das proposições é universal afirmativa (todos os S são P) e a outra é particular negativa (alguns S não são P); ou quando se tem uma universal negativa (nenhum S é P) e uma particular afirmativa (alguns S são P).
x Contrárias: quando, no mesmo sujeito e no mesmo predicado, uma das proposições é universal afirmativa (todos os S são P) e outra é universal negativa (nenhum S é P); ou quando uma das proposições é particular afirmativa (alguns S são P) e a outra é particular negativa (alguns S não são P).
x Subalternas: quando uma universal afirmativa subordina uma particular afirmativa de mesmo sujeito e predicado, ou quando uma universal negativa subordina uma particular negativa também de mesmo sujeito e predicado.
O silogismo
Aristóteles dizia que a verdade e a falsidade são propriedades das coisas e não do pensamento; que a realidade ou a irrealidade também são propriedades das coisas e não do pensamento, mas que um pensamento verdadeiro deveria exprimir a realidade da coisa pensada, enquanto que um pensamento falso nada poderia exprimir.
Ele elaborou uma teoria do raciocínio como inferência. Inferir é tirar um proposição como conclusão de uma outra ou de várias proposições que a antecedem, as quais são a sua explicação ou a sua causa. O raciocínio é uma operação do pensamento realizada por meio de juízos, anunciada linguisticamente e logicamente pelas proposições encadeadas formando, assim, um silogismo. O raciocínio e o silogismo são operações mediatas de conhecimento, pois a inferência significa que só conhecemos alguma coisa (a conclusão) por meio ou mediação de outras coisas.
O silogismo possui três características principais, a saber:
x É mediato: exige um percurso de pensamento e de linguagem para que se possa chegar a uma conclusão, isto é, exige uma mediação para que se possa chegar a uma conclusão.
x É dedutivo: são movimentos de pensamento e de linguagem que partem de certas afirmações verdadeiras para chegar a outras também verdadeiras, que dependem necessariamente das primeiras.
x É necessário: porque é dedutivo (as consequências a que se chega na conclusão resultam necessariamente da verdade do ponto de partida). Por isso, Aristóteles considera o silogismo que parte de proposições apodídicas superior ao que parte de proposições hipotéticas ou possíveis, designando-o como nome de ostensivo, pois ostenta ou demonstra claramente a relação necessária e verdadeira entre o ponto de partida e a conclusão.
Todos os homens são mortais.
Sócrates é homem.
Logo Sócrates é mortal.
Um silogismo é constituído por três proposições, compostas por duas premissas, e uma conclusão. As premissas possuem termos chamados extremos e a função do termo médio é ligar os extremos. Esta ligação é a inferência ou dedução e sem ela não há raciocínio nem demonstração.
A premissa maior deve conter o termo maior (“mortais”) e o termo médio (“homens”); a premissa menor deve conter o extremo menor (“Sócrates”) e o termo médio (“homens”). A conclusão deve conter o extremo maior e o menor, jamais deve conter o termo médio (no caso, deve conter “mortal” e "Sócrates", e nunca deve conter o termo “homem”). De forma que a função do termo médio é a de ligar os extremos; ele deve estar nas premissas, mas nunca na conclusão.
A inferência silogística deve obedecer a oito regras, sem as quais a dedução não terá validade, não sendo possível dizer se a conclusão é verdadeira ou falsa. São elas:
I. Um silogismo deve ter um termo maior, um menor e um médio e somente três termos, nem mais nem menos.
II. O termo médio deve aparecer nas duas premissas e jamais aparecer na conclusão. Deve ser tomado em toda sua extensão (ou seja, como um universal) pelo menos uma vez, pois, do contrário, não se poderá ligar o termo maior ao menor. Por exemplo, se dissermos “Os nordestinos são brasileiros” e “Os mineiros são brasileiros”, não podemos tirar conclusão alguma, pois o termo médio “brasileiros” foi tomado sempre em parte de sua extensão e nenhuma vez no todo de sua extensão.
III. Nenhum termo pode ser mais extenso na conclusão que nas premissas, pois, neste caso, concluir-se-ia mais do que se teria permitido. Isso significa que uma das premissas sempre deverá ser universal (afirmativa ou negativa).
IV. A conclusão não pode conter o termo médio, já que a função deste se esgota na ligação entre o maior e o menor, ligação que é a conclusão.
V. De duas premissas negativas nada pode ser concluído, pois o termo médio não terá ligado os extremos.
VI. De duas premissas particulares nada poderá ser concluído, pois o termo médio não terá sido tomado em toda sua extensão pelo menos uma vez e não poderá ligar o maior ao menor.
VII. Duas premissas afirmativas devem ter a conclusão afirmativa, o que é evidente por si mesmo.
VIII. A conclusão sempre acompanha a parte mais fraca, isto é, se houver uma premissa negativa, a conclusão será negativa; se houver uma premissa particular, a conclusão será particular; se houver uma premissa particular negativa, a conclusão será particular negativa.
Ética
Na obra Ética a Nicômaco Aristóteles apresenta o essencial de sua doutrina moral. É interessante perceber como sua obra apresenta uma noção de conjunto. O mesmo autor que inaugurou a noção de causa final, única apresentada de forma inédita por ele, inicia a obra perguntando-se pela finalidade da ação humana. A essa questão nosso autor esboça, de forma sucinta, a seguinte resposta: a finalidade de toda ação humana é a procura pela felicidade.
Então, o filósofo realiza um inventário de motivações que poderiam conduzir um ser humano à felicidade, e analisa de maneira mais pormenorizada três situações: as honras, o prazer e a virtude. O primeiro item, de acordo com sua teoria, não deveria ser preferido por alguém que queira realmente atingir a felicidade, e isso porque aquele que dependesse de honrarias para ser feliz estaria sempre na dependência de outros seres humanos, ou seja, de elementos externos a si mesmo, e por isso fora do seu controle. Quanto ao prazer, como veremos um pouco abaixo, seu problema essencial reside no fato de primar pelos excessos, e não pela moderação, o que o autor condena sobremaneira. Também no prazer, grande parte das vezes, o sujeito se encontra na dependência da colaboração de outra pessoa.
Desse modo, dos três elementos comentados pelo autor, somente a vida virtuosa consiste em elemento que deve realmente ser considerado na busca pela felicidade. Pois, o indivíduo para obtê-la, só depende de si mesmo, nem reconhecimento alheio, nem prazer excessivo.
A partir desse momento, torna-se necessário, então, que o autor defina melhor o que se deve entender por virtude, já que realiza a defesa de uma vida virtuosa como única possibilidade de verdadeira felicidade. E ele a define, então, em contraposição ao vício. Desse modo se procede a uma definição que, a partir da citação que segue, podemos atingir:
“A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um
meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo.“
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, II, 6. São Paulo: Nova Cultural, 1987.Col. Os Pensadores, p. 33.
x Virtude: Ato ou sentimento marcado pela moderação ou pelo equilíbrio, aquilo que Aristóteles denomina de meio termo entre a falta e o excesso. Desse modo, a coragem virtuosa seria o equilíbrio entre a covardia, vício por falta, e a temeridade, vício por excesso. O soldado deve ter coragem suficiente para adentrar no campo de batalha, mas medo bastante para se proteger com eficiência do inimigo, com armadura, escudo e respeito às táticas estabelecidas.
x Vício: Ato ou sentimento marcado pela falta ou pelo excesso, ou seja, pelo desequilíbrio. É assim que o amor próprio pode ser deturpado pela modéstia, que consiste em sua falta, assim como pela vaidade, que é o seu excesso.
Marilena Chauí, em sua obra Filosofia: Ensino Médio (São Paulo: Ática, 2005, p. 183), apresenta um quadro com as principais virtudes e os principais vícios, baseado na obra aristotélica. A título de exemplo, reproduzimos abaixo o quadro, visando a uma melhor compreensão por parte do estudante:
Virtudes Vício por excesso Vício por deficiência
Coragem Temeridade Covardia
Temperança Libertinagem Insensibilidade
Prodigalidade Esbanjamento Avareza
Magnificência Vulgaridade Vileza
Respeito próprio Vaidade Modéstia
Prudência Ambição Moleza
Gentileza Irascibilidade Indiferença
Veracidade Orgulho Descrédito
Agudeza de espírito Zombaria Rusticidade
Amizade Condescendência Enfado
Justa
indignação Inveja Malevolência
Ao analisarmos o quadro das virtudes, é relevante lembrarmos uma diferenciação que o próprio autor faz, entre virtude dianoética e ética. A primeira, também designada como virtude intelectual, é aquela adquirida e desenvolvida por meio da educação formal. A segunda, como o termo ethos mesmo designa em grego, é adquirida e desenvolvida por meio do costume, do hábito, da vivência. Assim, aprende-se a ser
equilibrado sendo equilibrado, ou seja, exercitando tal comportamento cotidianamente.
Helenismo
Geralmente se divide a Antiguidade grega em quatro períodos: Homérico, com a incidência das explicações míticas; Arcaico, marcado pela presença da filosofia da natureza; Clássico, que consiste no auge da democracia ateniense, a guerra do Peloponeso, e a presença de Sócrates, Platão e Aristóteles; e helenístico, que consiste na difusão da cultura helênica ou grega para o oriente, chegando até a Índia, com a campanha do líder macedônio Alexandre Magno. É sobre este último período que trataremos a partir de agora.
É importante lembrar, primeiramente, que a cultura grega vai ao oriente, e influencia, sem sombra de dúvida. No entanto, é importante ressaltar também, que o mundo grego sofre influências das culturas orientais. O primeiro aspecto que precisa ficar claro, é o que as filosofias que surgem no período resultam do processo da miscigenação. Outro ponto importante a ser lembrado é o fato de que as poleis gregas, antes se organizando autonomamente como Estados legítimos, passam a partir deste momento a se verem inseridas em um império maior. Atenas, por exemplo, após a Guerra do Peloponeso, sofre com a hegemonia tebana, depois com a Macedônia, e após um período turbulento de dissenções políticas, surgirá um outro império, o Romano. Trata-se de um período, portanto, em que o antigo ideal de felicidade necessariamente vinculada à pólis entra em colapso, e passa a não fazer mais sentido. Em função disso, as escolas que aparecem no período representam uma busca pela melhor forma de vida com vistas a se atingir a felicidade, em grego, eudaimonia, nesse momento muito vinculada a uma forma de viver mais personalizada. Bom, feita esta pequena contextualização histórica, vamos às correntes.
O Cinismo
Escola fundada em Atenas no século IV a.C., por um discípulo de Sócrates, de nome Antístenes. A preocupação central da escola já havia sido evidenciada pelo filósofo no seu discurso de defesa: a preocupação do homem ateniense com os bens materiais e as convenções sociais, em detrimento do cuidado com a alma e com a virtude. A questão é que o cinismo leva isso a consequências extremas. O próprio nome da escola vem do radical grego vinculado à palavra cão, o que significa que o filósofo de tal corrente buscaria uma vida parecida com a destes animais quando se encontram sem dono. Mas em que isso implicaria? Bem, um animal assim não possui nenhum apego a bens materiais ou a convenções sociais, e seu abandono, na verdade, o deixa em outra condição, a liberdade. É exatamente esta a relação feita por aquele que segue tal percepção de vida. O desapego à matéria e ao status conduz à liberdade, e esta à tranquilidade da alma, em grego, ataraxia. Esta deveria ser a meta do homem. A tranquilidade da alma ou ausência de perturbação, neste período, é praticamente o sinônimo de felicidade.
O cínico mais famoso foi Diógenes de Sínope, figura que viveu na cidade de Atenas e foi contemporânea de Platão e Aristóteles. Dizem que perambulava pelos espaços públicos, sem nenhuma posse, apenas com um barril que lhe cobria as partes íntimas. Seu desapego e seu jeito crítico de ser – por vezes andava pela pólis no meio do dia com uma lanterna acesa e, quando perguntado sobre o que procurava, respondia procurar “um homem”, ou seja, humanidade – fizeram com que fosse uma das figuras mais lembradas do período em que viveu.
busca e a orientação de discípulos. As escolas helenistas, majoritariamente, nos apresentam uma concepção física, ou seja, nos dizem como as coisas são e, a partir disso, nos orientam sobre como nos comportarmos em relação a elas. O ceticismo funciona basicamente assim. Portanto, Pirro, que não havia deixado nada escrito, teria nos chegado por meio de seus seguidores pensando da seguinte maneira:
1) as coisas seriam, segundo Pirro, indiferentes, instáveis e indecisas. Como elas nos aparecem assim, nossas sensações não nos apresentam algo seguro com relação ao mundo pois, principalmente em razão da instabilidade, o que me parece ser agora, pode parecer não ser no futuro. Isso inviabiliza minhas opiniões, que não merecem confiança, já que se baseiam em algo tão inseguro.
2) em função de tal concepção sobre como as coisas são, só nos resta agir de uma maneira, que consiste na abstenção total de juízos, a aphasia (ausência de discurso) e a apraxia (inação). Com o tempo, e provavelmente não com Pirro, virá o termo epoché, que significa suspensão de juízos sobre as coisas.
O Ceticismo
Escola fundada por Pirro de Élis, ainda no século IV a.C. Segundo Diógenes Laércio, ele teria acompanhado Alexandre na sua campanha até a Índia, e lá haveria deparado com os chamados gimnosofistas (sábios nus), que seriam faquires ou mestres iogues, em uma busca de paz espiritual marcada pelo distanciamento do mundo e sobretudo das sensações. Ao retornar à Grécia, inicia a sua caminhada pessoal nessa
3) o resultado de tal comportamento diante do mundo, o que não impede o indivíduo de continuar refletindo, em contato com o real – o termo cético vem de um radical grego que significa busca, meditação, reflexão – é a tranquilidade da alma ou ataraxia, que conduz o indivíduo à felicidade. A história da filosofia demonstra que hipóteses opostas sobre o real por vezes são apresentadas, e o critério de verdade destas se encontram nelas mesmas. Desse modo, na ausência de possibilidade de se decidir por uma ou por outra posição dogmática, o cético, se abstém de emitir um sim ou um não, e isso lhe garante a imperturbabilidade. O grande sistematizador do ceticismo foi Sexto Empírico.
O Epicurismo
Escola fundada em 306 a.C, na cidade de Atenas, em um jardim, por Epicuro. Ele entendia que a filosofia deveria ser um remédio para os grandes males que afligem o ser humano, dentre os quais alguns medos, como o da vida, da morte, do além-túmulo e dos deuses.
Assim como o ceticismo, a chave para a ataraxia, entendida aqui como ponto a ser atingido para se chegar à eudaimonia, envolve uma concepção física, ou seja, sobre como as coisas funcionam. Tal concepção Epicuro retoma de Demócrito e Leucipo, que eram atomistas. Parte-se, portanto, do pressuposto de que tudo quanto existe resulta da combinação aleatória dos átomos, inclusive nossas almas e o mundo dos deuses, que existe paralelamente ao nosso, sem que eles estabeleçam interação conosco.
Os resultados de tal pressuposição são os seguintes: a vida se resume às sensações, que podem ser boas ou ruins. A morte nada mais é do que o fim das sensações, ela não existe enquanto existirmos, e quando ela for, não seremos mais. Como nossa alma se desagrega, da mesma forma que nosso corpo, em uma concepção totalmente materialista, não existe absolutamente nada além túmulo, e não devemos nos ocupar disso também. Os deuses, apesar de existirem, não interagem conosco, pois vivem em uma condição de felicidade plena, o que exclui qualquer perturbação com o nosso plano.
Resta saber, portanto, como devemos lidar com as sensações durante a vida. Para os epicuristas, o prazer (hedoné) em si não é algo ruim, mas é necessária uma inteligência prática (phronesis) para que o indivíduo saiba lidar com ele. Decorre disso uma divisão das sensações boas em três grupos e, a partir disso, a orientação de como nos vincularmos ou não a cada um.
Prazeres naturais e necessários: são aqueles vinculados à existência do indivíduo e, portanto, devem ser satisfeitos, como a alimentação, a hidratação, o abrigo, a vestimenta.
Prazeres naturais e desnecessários: são aqueles que, apesar de vinculados à existência do sujeito, extrapolam o campo da necessidade, como degustar um prato refinado ou tomar um vinho de determinada safra. O vínculo equivocado com o supérfluo, tornando-o necessário, pode conduzir o indivíduo à perturbação e, consequentemente, à perda da felicidade.
Prazeres não naturais e desnecessários são aqueles que, além de não serem necessários, extrapolam as necessidades naturais, tais como o poder, a honra, o reconhecimento. A dependência do indivíduo com relação a outras pessoas e suas ações, para atingir tais prazeres, potencializa os níveis de perturbação aos quais ele está exposto. Tais prazeres, portanto, não devem ser o foco de busca do homem prudente.
Percebe-se, portanto, que o epicurismo vincula a ataraxia ao vínculo aos prazeres corretos. Existem, nesse período, os hedonistas, que realmente defendem o vínculo absoluto com o prazer, e a anulação máxima da dor. Para os epicuristas, devemos nos vincular aos prazeres certos, que podem nos garantir satisfação sem nos trazer perturbações, os naturais e necessários. Os sofrimentos são inevitáveis, mas são passageiros, e sempre suportáveis. Devemos, portanto, evitar a confusão entre epicurismo e hedonismo que, como visto, estão longe de ser a mesma coisa.
O Estoicismo
Escola fundada em Atenas no ano 300 a.C, por Zenão de Cítio, pensador de origem fenícia. O nome estoicismo deriva do termo grego stoapoikilé, “pórtico pintado”, local onde os seus
integrantes se reuniam. O desenvolvimento da doutrina, no entanto, se deveu a discípulos e sucessores, como Cleantes e Crisipo. No seu período latino, encontraremos provavelmente os nomes mais ilustres da escola, como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio, já na era cristã. Nesta escola, novamente, encontraremos uma concepção física, ou seja, sobre como as coisas são, embasando uma lógica, que não comentaremos aqui, e uma ética, nosso objeto de estudo. Dessa forma, a conduta humana adequada está intimamente ligada a como o mundo funciona, e talvez nestes filósofos mais do que nas outras escolas.
Para os estoicos, o cosmos seria o resultado da interação de dois princípios: um passivo, a matéria, e um ativo, o Logos, (razão). Tal Logos teria alguma materialidade, entendida por alguns dos membros da escola como o fogo, por outros como o éter. Ele irradia sua força sobre a matéria, formando, como resultado, tudo quanto existe. O homem, como parte integrante do cosmos, tem também uma parte do Logos, a alma, e uma parte de matéria, corpo. Tudo que nos ocorre, portanto, resulta do controle desta razão imanente sobre o
real, e é exatamente o que nos deveria acontecer. Alguns estoicos denominam tal ordenamento de Providência. Na filosofia, concepções como esta costumam ser denominadas de panlogismo, e encontraremos em Spinoza ou em Hegel percepções equivalentes, guardadas as devidas ressalvas.
A implicação necessária do que acompanhamos na física do estoicismo só pode nos encaminhar para uma ética: é livre o indivíduo que conforma as suas ações com os rumos para os quais a Providência o conduz. Mas isso significa que tal escola acredita que existe um destino que deverá se cumprir? Que as coisas deverão acontecer de uma determinada maneira? Majoritariamente sim. Mas isso não retira completamente a minha liberdade? Por incrível que pareça, não. A questão aqui consiste em distinguir, no fluxo das nossas vidas, as coisas que são necessárias daquelas que são livres. São necessários os elementos da nossa vida que não dependem de nós, como diversas condições do nosso próprio corpo e o que nos é externo. São livres, ou seja, dependem de nós, os nossos estados de ânimo.
Um grande problema para os indivíduos consiste em acreditar que podem alterar aquilo que não podem, isto é, os eventos que nos são indiferentes. Ao buscarem mudar o necessário, e não conseguirem exatamente por este motivo, evidentemente se perturbam e, como vimos, perturbação é sinônimo de infelicidade. Ao entendermos os eventos como necessários, e nos conformarmos a eles, justamente porque os entendemos assim, lidamos melhor com tudo o que nos ocorre, e optamos bem sobre a única coisa sobre a qual nos compete escolher os nossos estados de ânimo.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
01. (UEM PR) A relação entre arte e natureza é discutida pelos filósofos desde Platão e Aristóteles. Para Platão, o artista é capaz de produzir somente cópias das ideias verdadeiras; portanto não podemos confiar nos produtos da arte para conhecer o que são as coisas. Para Aristóteles, a arte é capaz de imitar a realidade de tal forma que representa as coisas, os sentimentos e os fatos tais como são verdadeiramente, e não como meras cópias de coisas reais.
C-E-E-C-C
Sobre a relação entre arte e natureza, assinale o que for correto.
01. Para Platão, a beleza está na relação harmônica entre as partes e o todo das coisas, e a beleza verdadeira, portanto, não é um aspecto sensível das coisas, porém é captada pelo intelecto.
02. Segundo Aristóteles, a arte é uma espécie de ciência, porque podemos distinguir os diferentes tipos de imitação, seus efeitos e as regras de construção das obras de arte.
04. Para ambos os pensadores, a arte somente é imitação da natureza quando representa seres e coisas que realmente existem; quando ela representa animais míticos como as sereias ou o Minotauro, ela é imaginativa, e não imitativa.
08. Para Platão, embora a ideia do belo esteja ligada à ideia do Bem, que é a ideia suprema, os poetas não são bons educadores, pois em suas obras eles visam somente as coisas belas contingentes, e não o Bem em si.
16. Para Aristóteles, a arte imita as ações, e não somente aspectos sensíveis; por isso a música, por meio do ritmo e da melodia, e a tragédia, por meio das ações das personagens, são ambas imitações da natureza.
A percepção de que as relações são desencadeadas de maneira necessária deve conduzir o homem sábio à indiferença com relação ao que ele não pode controlar, que é a maioria dos elementos da sua vida. Tal posição diante das coisas, denominada de apatheia, conduz o ser humano à tranquilidade da alma (ataraxia), e esta à eudaimonia. De tal percepção, presente no estoicismo, surge a expressão amorfati, que significa amor aos fatos, ou amor a tudo que nos ocorre na vida, seja o que consideramos agradável, seja o que achamos ruim. Mesmo porque, o que cada indivíduo é, em qualquer momento de sua vida, é o resultado de todos os eventos que ele já vivenciou e que, portanto, se bons ou ruins, foram necessários para que ele fosse o que é.
O homem não deve buscar o poder ou status, mas não deve se furtar a eles se o destino o colocar em algum lugar mais nobre, como ocorreu com Marco Aurélio, pensador importante da escola, que ocupou o maior cargo político de Roma no período: Imperador. Trata-se de uma corrente, como se percebe, que teve bastante longevidade, já que vamos do século III a.C. a, pelo menos, 180 d.C., com Marco Aurélio, sem contar a possível influência que ainda se manteve durante longo período, e sobre o próprio cristianismo nascente, do que nos dão conta alguns historiadores.
O tema da felicidade, como foi visto, e de como atingi-la a partir de uma vida adequada, foi amplamente tratado no período, com uma rica produção textual. Grande parte do que foi escrito, no entanto, acabou por se perder ao longo do tempo. As influências sobre nossa cultura e os filósofos posteriores, no entanto, é inegável.
02. (UEM PR) “Por natureza, todos os homens desejam o conhecimento. [...] a ciência que investiga causas é mais instrutiva do que uma que não o faz, pois é aquela que nos diz as causas de qualquer coisa particular que nos instrui. Ademais, o conhecimento e o entendimento desejáveis por si mesmos são mais alcançáveis no conhecimento daquilo que é mais cognoscível. Pois o homem que deseja o conhecimento por si mesmo vai desejar sobretudo o conhecimento mais perfeito, que é o conhecimento do mais cognoscível, e as coisas mais cognoscíveis são os princípios e causas primeiros; porque é através e a partir destas que outras coisas vêm a ser compreendidas.”
(ARISTÓTELES, Metafísica - livro I. In: MARCONDES, D. Textos básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 46-51).
A partir do texto citado, assinale o que for correto.
01. As coisas cognoscíveis não podem ser conhecidas pelo ser humano.
02. O homem deseja o conhecimento mais perfeito, e isso só é possível pela ciência que investiga as causas.
04. A ciência que investiga a causa das coisas e a ciência dos princípios das coisas são contraditórias.
08. O conhecimento não é natural nos seres humanos, mas um desejo que alguns têm, e outros, não.
16. O conhecimento científico fundamenta-se no conhecimento das causas e dos princípios das coisas.
03. (Enem MEC) Dado que, dos hábitos racionais com os quais captamos a verdade, alguns são sempre verdadeiros, enquanto outros
admitem o falso, como a opinião e o cálculo, enquanto o conhecimento científico e a intuição são sempre verdadeiros, e dado que nenhum outro gênero de conhecimento é mais exato que o conhecimento científico, exceto a intuição, e, por outro lado, os princípios são mais conhecidos que as demonstrações, e dado que todo conhecimento científico constitui-se de maneira argumentativa, não pode haver conhecimento científico dos princípios, e dado que não pode haver nada mais verdadeiro que o conhecimento científico, exceto a intuição, a intuição deve ter por objeto os princípios.
(ARISTÓTELES.. Segundos analíticos In: REALE, G. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994)
Os princípios, base da epistemologia aristotélica, pertencem ao domínio do(a)
a) opinião, pois fazem parte da formação da pessoa.
b) cálculo, pois são demonstrados por argumentos.
c) conhecimento científico, pois admitem provas empíricas.
d) intuição, pois ela é mais exata que o conhecimento.
e) prática de hábitos racionais, pois com ela se capta a verdade.
04. (UEM PR) No campo da lógica, afirma-se que um argumento ou silogismo é válido quando sua conclusão é uma consequência da aceitação de suas premissas. E E C C E Acerca da validade lógica dos argumentos, assinale o que for correto.
01. O argumento a seguir é dedutivo válido: “Noventa por cento dos estudantes de Filosofia que concluem o curso fazem pós-graduação. Ana concluiu o curso de Filosofia. Logo, Ana fará pós-graduação.”
02. Se um argumento é válido, ele também é, necessariamente, correto.
04. A partir de duas premissas negativas, como “Nenhum peixe é mamífero. Aranhas não são mamíferos”, nada podemos concluir.
08. Em um silogismo válido, uma das premissas deve sempre ser universal.
16. A análise lógica é utilizada nas ciências para determinar a verdade ou a falsidade das hipóteses científicas.
05. (UFU MG) Silogismo. Essa palavra, que na origem significava cálculo, era empregada por Platão como raciocínio em geral e foi adotada por Aristóteles para indicar o tipo perfeito do raciocínio dedutivo, definido como um discurso em que, postas algumas coisas, outras se seguem necessariamente.
ABBAGNANO,
Considerando-se a definição de silogismo, assinale a alternativa que indica sua interpretação correta.
a) A conclusão pode contrariar todas as premissas.
b) O silogismo só conduz a conclusões hipotéticas.
c) A conclusão é sempre resultado das premissas.
d) A dedução é inaplicável ao silogismo categórico.
06. (UEM PR) Considere os seguintes argumentos:C E C C C
Argumento 1
Todo brasileiro é mamífero.
Todo mamífero é um animal vertebrado.
Logo, todo brasileiro é um animal vertebrado.
Argumento 2
Políticos são corruptos.
João é presidente da república.
Logo, João é corrupto.
A partir dos argumentos citados, assinale o que for correto.
01. ‘Mamífero’ é o termo médio do argumento 1.
02. O argumento 2 não possui termo médio explícito.
04. As premissas do argumento 1 são universais.
08. No argumento 2, ‘presidente da república’ é uma particularização de ‘políticos’.
16. A conclusão do argumento 2 é uma inferência válida das premissas, mas ela é também incorreta, visto ser uma universalização indevida a partir das premissas.
07. (UEM PR) “Devemos considerar agora o que é a virtude. Visto que na alma se encontram três espécies de coisas – paixões, faculdades e disposições de caráter –, a virtude deve pertencer a uma destas.”
(ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, p. 54, 1979).
A partir do fragmento acima e de conhecimentos sobre a ética aristotélica, assinale o que for correto.
01. Para Aristóteles, o homem virtuoso será o bom cidadão, ou seja, aquele que vive sob as normas da justiça.
02. A virtude, para Aristóteles, é a equidistância entre dois vícios, um por excesso, outro por falta.
04. Segundo Aristóteles, somos chamados bons e maus pelas nossas paixões, quando agimos, por exemplo, tomados pela ira.
08. A virtude é uma modalidade de escolha ou envolve algum tipo de escolha.
16. Segundo Aristóteles, somos virtuosos pelas nossas faculdades, entendidas como capacidades que temos de sentir emoções.
08. (UEM PR) Na Ética a Nicômaco, Aristóteles investiga o gênero ao qual poderíamos identificar as virtudes, se como paixões, ou como faculdades ou ainda como disposição de caráter.
A propósito dessa discussão sobre a virtude no pensamento de Aristóteles, assinale o que for correto.
01. Aristóteles entende as paixões como aqueles sentimentos acompanhados de prazer ou de dor.
02. As virtudes não podem ser entendidas como paixões, uma vez que são modalidade de escolhas ou envolvem a escolha, pois não escolhemos sentir, por exemplo, cólera ou medo.
04. Não somos bons ou maus por nossas paixões, mas por nossas virtudes ou vícios.
08. Como ocorre no âmbito das paixões, a virtude é movida para determinada ação.
16. Para Aristóteles, o estudo da virtude está vinculado com a vida do cidadão na polis (cidade), pois o homem virtuoso será bom cidadão.
09. (UEM PR) O estoicismo antigo advoga a ideia de que um destino inflexível governa certos aspectos de nossa vida, imprimindo-lhes uma inevitável necessidade. A respeito do estoicismo antigo, assinale o que for correto.
01. Para os estoicos, o mundo é um sistema de seres e de acontecimentos ordenado por uma razão divina.
02. Todos os acontecimentos do mundo estão concatenados rigorosamente e se relacionam como causas e efeitos.
04. Os estoicos negam qualquer tipo de liberdade, pois defendem rigorosamente a noção de destino.
08. Os estoicos defendiam a ideia de que é preciso “viver segundo a natureza”, que entendiam como “viver de acordo com a virtude”.
16. O homem deve abster-se das paixões para assegurar uma vida tranquila e virtuosa.
W FILOSOFIA PATRÍSTICA DE AGOSTINHO E A ESCOLÁSTICA DE AQUINO
Contexto histórico
Durante certo tempo, Roma ofereceu resistência ao ensino e propagação da filosofia grega. Isso por acreditar que ela desviava os cristãos da crença nos dogmas, ou fazia nascer heresias, devido a seus instrumentos conceituais para a compreensão de certos aspectos da religião. Porém, com a difusão das obras de Platão e de Aristóteles, não foi mais possível ignorar a herança intelectual grega.
A partir da aceitação da cultura pagã, o ensino na idade média passou a contar com temas vinculadores ao saber profano à teologia, sustentada na autoridade da revelação.
Nesse sentido, a filosofia é a demonstração da verdade através de instrumentos que permitam ao filósofo triunfar sobre os detentores da pretensa verdade. A filosofia não é a busca da verdade, pois a verdade já foi trazida pela própria palavra de Deus. As questões de âmbito teológico são mais importantes para o homem, por tratarem de sua salvação. No âmbito filosófico, também não há que se buscar a verdade, visto que a verdade está posta nas obras de Aristóteles. Há, portanto, duas sínteses: a das verdades profanas, constituída pela doutrina de Aristóteles; e a das verdades cristãs, contidas nas sagradas escrituras e nas interpretações autorizadas dos textos sacros. A filosofia medieval pode ser dividida em quatro grandes momentos:
x Padres Apostólicos: os primeiros padres da igreja cristã, como Paulo, que repudiavam a filosofia em favor da fé.
x Padres Apologistas: buscavam defender a fé cristã da influência da filosofia.
x Patrística: primeiras buscas de conciliação entre fé e razão. Utilização da filosofia platônica. O maior pensador foi Agostinho de Hipona.
x Escolástica: movimento das primeiras universidades, vinculadas à igreja. Reaparecimento das obras de Aristóteles. O maior pensador foi Tomás de Aquino.
A Filosofia Patrística
É a filosofia dos padres da igreja católica. Com o objetivo de unir religião e filosofia, os padres introduziram ideias novas para os pagãos, tais como a ideia de criação do mundo, de pecado original, de Deus como trindade una, encarnação e morte de Deus. Santo Agostinho e Boécio introduziram a ideia de “homem interior”, ou seja, de consciência moral ou livre arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pelo mal no mundo.
Essa filosofia é uma retomada da filosofia platônica, na qual é valorizado o suprassensível, e a qual remete o homem a um comportamento ético rigoroso, já que o mundo corpóreo ou sensível afasta o homem do supremo bem. Com isso, é indispensável que o homem paute seu comportamento na justa medida, ou seja, mantenha sob controle suas paixões de forma racional. Seu principal representante foi, sem sombra de dúvida, Aurélio Agostinho.
Agostinho de Hipona (354-430 d.C), ou Santo Agostinho, como ficou conhecido em função da compreensão da igreja católica, foi o maior expoente da Patrística. Nasceu em Tagaste, na África, em 13 de novembro de 354, filho de um pagão e de uma cristã fervorosa, Mônica, depois canonizada santa pela igreja. Entretanto, ao ir para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, aderindo ao maniqueísmo, seita que atribuía à realidade substancial tanto o bem quanto o mal, buscando encontrar uma explicação para o problema do mal e uma justificação da vida.
Até seus trinta e dois anos, abandona o maniqueísmo e retoma a filosofia neo-platônica, que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal, e se converte, finalmente, ao Cristianismo. Concebendo uma vida cristã, encontra a possibilidade de pôr fim a suas angústias, e encontra na filosofia a felicidade, passando a utilizá-la como instrumento em favor da fé, de onde tira a máxima “entender para crer e crer para entender”.
PAS
A filosofia agostiniana se funda a partir da tríade: fé, esperança e amor, onde o sujeito do conhecimento está pronto para conhecer Deus se for iluminado por Ele, pois como no âmbito da física as coisas devem ser iluminadas pela luz do sol para serem conhecidas, o mesmo ocorre com relação às coisas divinas, pois Deus é o sol que as ilumina.
Ocorre, porém, que a opção de utilizar, ou não, as virtudes supracitadas depende do homem, que possui o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de escolher ou não as coisas divinas, que são o bem. Agostinho toma isso como base para sua filosofia, pois se crê pela vontade, e essa é irracional, visto que não se pode explicar e entender porque se ama, já que se ama pela vontade de amar.
Fé e Razão: a busca da felicidade
Para Agostinho, o problema da felicidade constitui a motivação do pensar filosófico. A filosofia é entendida como uma disciplina teórica que coloca problemas à estrutura do mundo físico ou à natureza dos deuses, mas não como um questionamento sobre a condição humana à procura da beatitude.
Agostinho se preocupa com o problema das relações entre razão e fé, entre o que se demonstra racionalmente e o que se sabe pela convicção interior, entre a verdade revelada e a verdade lógica, entre a religiosidade cristã e a filosofia pagã. Através da fé nas escrituras, busca o entendimento daquilo que elas ensinam, pois, a fé para ele é a via de acesso à verdade eterna. Mas a fé não pode ser demonstrada sem o trabalho da razão, que a precede e é a sua consequência, pois é necessário compreender para crer e crer para compreender.
A doutrina da iluminação divina
“Percorri o melhor possível, com os sentidos, o mundo exterior. Observei em mim a vida do corpo e os próprios sentidos. Passei depois às profundezas da memória, a essas amplidões sucessivas, admiravelmente repletas de inumeráveis riquezas. Observei-as, estupefato. Mas, sem Vós, nada pude distinguir. Contudo, reconheci que Voes nada disto éreis.
Não era eu quem descobria estas maravilhas. É certo que as percorri a todas e tentei distingui-las e avaliá-las no seu justo valor, tomando e interrogando os seres que traziam mensagens aos meus sentidos. [...] Mas não era eu quem fazia tudo isso, nem era a força com que eu agia, a qual não éreis Vós, porque sois luz imutável que eu consultava acerca da existência, da qualidade e do valor em todas as coisas.”
(Agostinho. 2004, p. 303-304.)
Agostinho acredita que as verdades contidas nas filosofias pagãs provêm da mesma fonte das verdades cristãs. Por isso as verdades dos filósofos pagãos (Platão e Aristóteles) são verdades porque Deus permitiu que esses homens vislumbrassem a Sabedoria. Devido à iluminação interior, alguns aspectos das filosofias pagãs permitem a compenetração das verdades absolutas da religião.
Através da doutrina da iluminação divina, Agostinho explica como é possível ao homem receber de Deus as verdades eternas, pois todo conhecimento verdadeiro é resultado de uma iluminação divina, que faz com que o homem contemple as ideias, arquétipos eternos de toda a realidade. Não que a luz divina possa ser vista, mas ela serve para iluminar as ideias.
Para elaborar sua teoria, o autor busca recursos na alegoria da caverna de Platão, que mostra ser o conhecimento resultado do Bem, considerado como o sol que ilumina o mundo inteligível. Mas Agostinho entende a percepção do inteligível na alma como uma irradiação divina no presente, e não como descoberta de um conteúdo passado.
Assim como os objetos exteriores só podem ser vistos quando iluminados pela luz do sol, também as verdades da sabedoria precisariam ser iluminadas pela luz divina para se tornarem inteligíveis. Contudo, o homem possui seu próprio intelecto, sendo que a iluminação permite ao intelecto pensar corretamente por ordem natural, estabelecida por Deus, existente entre as coisas do mundo e as verdades inteligíveis, denominadas pela palavra ideia, forma, espécie, razão ou regra.
Por conseguinte, todo conhecimento verdadeiro é o resultado de uma iluminação divina, levando o homem à contemplação das ideias, arquétipos ou modelos eternos de toda a realidade, não podendo porém a luz divina ser vista, só servindo para iluminar.
A Escolástica
Aproximadamente no século IX da era cristã, as instituições estatais começam a se complexificar, exigindo cada vez mais, para a realização das funções nelas exercidas, mão de obra capacitada. O analfabetismo, excetuando-se o clero, assola o território hoje conhecido como Europa. É em função
disso, que um Imperador analfabeto, chamado Carlos Magno, atenta para a necessidade da formação de uma classe que representará, futuramente, a possibilidade de uma burocracia mais funcional. Ocorre então, a chamada Renascença Carolíngia, que é realizada com o auxílio do pensador Alcuíno de York, com a fundação das escolas. Nelas eram ministradas as sete artes liberais: o Trivium (gramática, retórica e dialética) e o Quadrivim (aritmética, geometria, música e astronomia). Todas elas, no entanto, submissas à teologia, pois essas escolas se encontravam ligadas ou a mosteiros ou a catedrais.
O problema dos universais
A relação entre voces e res, entre linguagem e realidade, que está no centro dos estudos gramaticais e da dialética, constitui o elemento essencial da questão dos universais, vivamente debatida no século XII por suas implicações linguísticas, gnosiológicas e teológicas. Com efeito, o problema dos universais diz respeito à determinação do fundamento e do valor dos conceitos e termos universais, como, por exemplo, “animal” e “homem”, aplicáveis a uma multiplicidade de indivíduos. Mas, em geral, trata-se de um problema que diz respeito à determinação da relação entre as ideias ou categorias mentais, expressos em termos linguísticos, e as realidades extra mentais, ou, em última análise, é o problema da voces e a res, entre as palavras e as coisas, entre o pensamento e o Ser. O problema envolve, portanto, o fundamento e a validade do conhecimento e, em geral, do saber humano.
W A posição nominalista
Doutrina filosófica surgida na Idade Média que consiste em uma tomada de posição frente ao problema dos universais. Na investigação acerca da natureza dos termos genéricos, o nominalismo, tomado em seu sentido amplo, afirma: as espécies e os gêneros, em última instância, os universais, não são realidades. Eles constituem somente nomes, palavras empregadas a fim de agrupar conjuntos de indivíduos. Frente a esta questão, a postura nominalista opõe-se à solução realista, que afirma a realidade dos universais, presentes no intelecto divino anteriormente às coisas. Os realistas representam uma interpretação do platonismo desde a perspectiva da filosofia medieval. Deste modo, os universais possuem a função de modelos ideais, a partir dos quais são criados os entes singulares.
O nominalismo surge na Idade Média, ainda que tenha sido prefigurado por várias argumentações de filósofos antigos. Seu florescimento ocorreu em dois períodos distintos: no século XI, com Roscelino de Compiègne, e no século XIV, com Guilherme de Ockham. Do primeiro filósofo, conhecemos seu pensamento somente através das refutações de seus contraditores. Segundo eles, Roscelino negaria qualquer realidade aos universais, considerando-os simplesmente como um sopro de voz (em latim, flatusvocis). A postura de Guilherme, por sua vez, confere aos universais a natureza de signos, palavras que permitem ao intelecto humano reunir determinados grupos de entes sob a mesma designação, abstraindo suas diferenças individuais.
Em ambos os casos, a concepção nominalista afirma o individual como a única forma verdadeira de existência. Deste modo, os conceitos universais permanecem tão estranhos aos entes como as palavras que empregamos para designá-los. O nominalismo aponta, necessariamente, para uma tendência gnosiológica de tipo empirista, uma vez que se a realidade é unicamente composta de indivíduos, somente a apreensão do particular, isto é, a experiência sensível, nos permite acesso à realidade.
A postura nominalista foi criticada de várias formas. Santo Anselmo refuta a posição de Roscelino, valendo-se do seguinte argumento: mesmo que o universal seja apenas um sopro de voz, ele ainda é alguma coisa, provida de realidade. Como tal, seria preciso apreendê-lo, conhecê-lo por meio do intelecto. Contudo, toda apreensão intelectiva somente pode ocorrer por meio dos universais, que, assim, estariam presentes nos sons enquanto estes se configuram “entes naturais”.
O nominalismo encontrou vários seguidores diretos, nos séculos XIV e XV, como Pedro de Ailly, João Buridano, Nicolau de Oresme e Alberto de Saxônia. Suas teses foram retomadas e reinterpretadas durante a era moderna por várias vertentes filosóficas. O empirismo inglês, o positivismo clássico e o materialismo de Feuerbach são alguns destes exemplos. Atualmente, o neopositivismo, bem como determinadas vertentes da lógica e da filosofia da linguagem, integram-se a uma postura nominalista, ainda que cada uma destas correntes reveja esta postura a partir de seus próprios paradigmas.
W A posição realista
O realismo consiste no pensamento que compreende essência da realidade como algo material ou empírico, substantivamente determinado. Oposto ao idealismo, que concebe a consciência do sujeito como fundamento de todo real, o realismo afirma que as coisas existem nelas mesmas, fora e independente da consciência subjetiva do homem. Por querer pensar as coisas “tal como elas mesmas são”, o realismo se constitui em um pensamento objetivo que, ao contrário das especulações dialéticas dos idealistas, busca ser sempre positivo e, antes de tudo, pragmático.
Tanto o realismo como o idealismo nascem da compreensão dicotômica que pensa o real como um composto de matéria e espírito, corpo e alma. A matéria é o elemento sensível e exterior, o mundo, e o espírito, o elemento inteligível e interno, o homem. A partir da separação homem-mundo, a verdade passa a ser concebida como a adequação entre o sujeito e o objeto. Todavia, na medida em que é originariamente separados e com essências distintas, como pode haver a síntese entre sujeito e objeto que constitui o conhecimento verdadeiro? Em outras palavras: a ligação, que é o lugar da verdade, se dá no homem, e por isso é subjetiva, ou no mundo, e assim objetiva? Em que instância, no homem ou no mundo, se encontra o “entre” que une sujeito e objeto? Enquanto o idealismo afirma que o fundamento desta relação é o homem, pois só conhecemos o que o pensamento coloca previamente nas coisas, o realismo afirma que o fundamento da relação é o mundo, pois o pensamento apenas representa e, assim expõe, o que as coisas são nelas mesmas. Assim, a partir do pressuposto da separação
ontológica de homem e mundo, o realismo se constitui como um pensamento contraposto ao idealismo, por pensar o mundo e não o homem como o fundamento da realidade.
Os movimentos filosóficos do realismo mais importantes são o atomismo, os universais, os empiristas e os materialistas.
Para o realismo de Guilherme de Champeaux, por vezes denominado ultrarrealismo, os universais existem como entidades reais. Em alguns autores, à moda do platonismo, tais modelos ideais se encontrariam na mente de Deus e, portanto, fora dos seres individuais. O realismo aristotélico trabalha com a existência dos universais nos próprios individuais que, portanto, somente se diferenciariam em função de sua acidentalidade.
W Pedro Abelardo (1079 - 1142) - O realismo moderado
Pedro Abelardo nasceu em Le Pallet, perto de Nantes (França). Além do papel filosófico importante que desempenhou na discussão acerca dos universais, tornou-se famoso por sua dramática história pessoal. Lecionou filosofia e teologia em Paris, e reunia, em suas aulas, um número considerável de alunos. Entre estes se encontrava Heloísa, por quem Abelardo perdidamente se apaixonou. Perseguidos pelo cônego Fulbert, tio da jovem, casaram-se secretamente em Paris. Abelardo, temendo por sua segurança, abrigou-a em uma abadia, onde Heloísa acabou por fazer profissão de fé. Atacado por homens a mando do tio de Heloísa, Abelardo foi mutilado. Entrou para uma abadia, onde se tornou monge, contudo voltando posteriormente a lecionar. A correspondência trocada por Abelardo e Heloísa, quando ambos já se encontravam devotados à vida monástica, figura entre os mais tocantes escritos amorosos da literatura ocidental.
No campo filosófico, Abelardo sobressai por suas opiniões polêmicas. Estudou lógica com Roscelino e, posteriormente, com Guilherme de Champeaux. Estes dois filósofos representam duas posições opostas quanto ao problema dos universais e Abelardo termina por refutar a ambas. Roscelino representa uma posição nominalista extremada frente a esta questão, defendendo a tese de que só podemos encontrar na realidade os entes individuais, sendo o universal, desta forma, apenas uma emissão sonora, um mero nome.
Guilherme de Champeaux, por sua vez, defende uma postura realista, ao afirmar, seguindo uma interpretação de Platão tornada canônica na Idade Média, a existência real dos universais, ou antes, a existência mais real e autêntica destes frente aos entes particulares. Abelardo refuta o nominalismo de Roscelino, defendendo que os universais apresentam uma realidade mental. E refuta o realismo de Guilherme de Champeaux, afirmando que, se o universal é um atributo, ele não pode ser uma realidade, uma vez que uma realidade não pode ser predicada por outra realidade, pois “nenhuma realidade pode ser dita acerca de muitas coisas, mas somente um nome”. Os debates entre Abelardo e seu mestre realista parecem ter levado este último, por fim, a atenuar sua posição.
A tese de Abelardo frente a esta questão pode ser, assim, resumida: o universal é um nome, e um nome é uma voz significativa. Deste modo, a discussão, até o momento predominantemente metafísica, se transfere para o domí-
nio da lógica, cabendo a esta a tarefa de aclarar o sentido da significação, bem como de investigar a relação que esta mantém com o significado.
As ideias de Abelardo também causaram polêmica no âmbito das indagações teológicas. Seu pensamento neste campo constitui, igualmente, uma dupla oposição. Por um lado, contra aqueles que se negavam a aplicar a dialética, isto é, as forças da razão, à investigação de questões relativas ao divino. Por outro, contra os que tratavam a dialética como o único modo seguro de acesso a Deus. Contra uma acusação de ser excessivamente dialético, esquecendo assim a importância da revelação para a teologia, escreve Abelardo: “Não quero ser tão filósofo que resista a Paulo, nem tão aristotélico, para afastar-me de Cristo”. Apesar disso, sua postura lhe valeu censuras, em especial de São Bernardo. Suas opiniões teológicas foram condenadas por dois concílios, sendo consideradas heréticas. Seu primeiro livro, Introdução à Teologia, foi proibido pelo Concílio de Soissons em 1121.
Abelardo contribui também para as investigações de ordem ética, trazendo à baila a discussão acerca da importância da intenção no julgamento de um ato moral. O todo de seu pensamento exerceu influência sobre filósofos de seu século, bem como, um século depois, sobre São Tomás de Aquino, um dos maiores expoentes da filosofia na Idade Média.
Principais obras de Abelardo: Sobre a Unidade e Trindade Divina, Sim e Não, Teologia Cristã, Lógica para principiantes, História das minhas Calamidades.
Faleceu em 21 de abril, em Chalon-sur-Saône, aos sessenta e três anos.
Tomás de Aquino (1225 – 1274)
Tomás de Aquino nasceu em 1225 em Roccasseca e lá mesmo morreu em 1274, filho dos condes de Aquino, estudou as artes liberais.
Adaptou a filosofia grega de Aristóteles ao pensamento cristão da Escolástica, mas seus pensamentos são de cunho dogmático cristão dos Padres da Igreja e da tradição Medieval anterior. Preocupava-se com a demonstração da existência de Deus e a explicação da essência na medida em que é possível, a interpretação racional dos dogmas. Por um lado a Trindade, a criação do mundo, a Eucaristia e por outro lado, a Ética orientada para uma vida sobrenatural, o problema dos universais e muitos outros.
Para ele a teologia funda-se na Revelação divina, enquanto a filosofia tem por base o exercício da razão humana. Não é o homem que faz teologia, mas Deus, ao revelar-se, pois Deus é a própria verdade, e o uso correto da razão conduz a verdade. Daí não pode haver conflito entre a filosofia e a teologia porque seria uma discórdia no âmbito da verdade, como podemos perceber em suas palavras.
É um fato que esses princípios naturalmente inatos à razão humana são absolutamente verdadeiros; são tão verdadeiras que chega a ser impossível pensar que possam ser falsos. [...] A mesma coisa que o mestre inculca no espírito do seu discípulo, a ciência do mestre a inclui, a menos que este ensinamento do mestre esteja imbuído de hipocrisia, o que não se pode supor em Deus. Ora, o conhecimento dos princípios que nos são conhecidos naturalmente nos é dado por Deus, uma vez que Deus é o autor da nossa natureza.
Por conseguinte, tais princípios naturais estão incluídos também na sabedoria divina. Portanto, tudo aquilo que contradiz tais princípios, contradiz a sabedoria divina. Ora, isto não pode acontecer em Deus. Tudo o que a revelação divina nos manda crer, é impossível que contrarie o conhecimento natural.
(AQUINO, T. 2004, p. 143-144)
Desse modo, podemos sintetizar da seguinte maneira as relações que Aquino estabelece entre razão natural e fé:
x as duas são formas distintas de se acessar a verdade, sendo que a razão o faz por meio do que o filósofo denomina evidência intrínseca, ou seja, demonstração lógica ou empírica das coisas, e a fé por meio da confiança na autoridade do Deus revelante. Desse modo, dão origem a duas ciências distintas: à filosofia e à teologia.
x como ambas nos foram infundidas pelo mesmo ser, que é Deus, é incoerente imaginar que Ele nos concederia uma razão que nos levasse a negar as verdades que nos são resultado da sua revelação. Em função disso, não deve haver conflito entre fé e razão quando consideram o mesmo objeto, e caso tal ocorra, devemos optar pela revelação, visto que a razão pode ser conduzida de maneira equivocada.
x ainda que a razão possa, sozinha, atingir as verdades referentes ao mundo natural e até a algumas relacionadas a Deus, Aquino acha que nem todos os seres humanos o podem igualmente, e mesmo aqueles que têm essa possibilidade, poderiam errar muito antes de consegui-lo. Em função disso, é interessante que Deus revele as verdades que devemos atingir para, posteriormente, a razão demonstrá-las, por meio da concatenação dos raciocínios e da observação das coisas, por meio da evidência intrínseca. A fé, portanto, termina por ser superior à razão.
Os princípios do conhecimento
Tomás de Aquino concilia as verdades da razão aristotélica e o conteúdo da revelação bíblica e, com isso, prova a existência de Deus. Racionalmente o mundo é concebido como um conjunto de criaturas contingentes, cuja existência é dada por Deus, criadas a partir do nada e escalonadas de acordo com os graus diversos de perfeição e participação na essência e na existência de Deus.
No ápice da hierarquia das criaturas, encontram-se os anjos, que são criaturas como as demais, embora incorpóreas possuem a mais alta perfeição dentre todas as criaturas. Já o homem é um ser dotado de corpo e alma, mas não possui uma inteligência pura como a dos anjos, por ter sua alma ligada ao corpo e devido a essa dupla natureza o homem pode conhecer o inteligível, mas não pode manter contato direto com ele. Seu conhecimento parte dos sentidos que revelam objetos concretos e singulares, mas através da abstração consegue formular conceitos universais.
Tomás de Aquino afirma que o intelecto pode gerar conceitos abstratos e universais porque não se limita a receber e registrar os dados fornecidos pelos sentidos, embora o conhecimento tenha início no plano corpóreo se finaliza no plano espiritual.
Retomando as ideias de Aristóteles sobre o Ser e o saber, Tomás de Aquino enfatizou a importância da realidade sensorial. No processo de conhecimento dessa realidade, ressaltou uma série de princípios considerados básicos, dentre os quais se destacam:
x Princípio de contradição: o ser é ou não é. Não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista.
x Princípio da substância: na existência dos seres podemos distinguir a substância (a essência, propriamente dita, de uma coisa, sem a qual ela não seria aquilo que é) e o acidente (a qualidade não essencial, acessória do ser).
x Princípio da causa eficiente: todos os seres que captamos pelos sentidos são seres contingentes, isto é, não possuem, em si próprios, a causa eficiente de suas existências. Portanto, para existir, o Ser contingente depende de um outro Ser que representa a sua causa eficiente: este outro Ser é chamado de Ser necessário
x Princípio da finalidade: todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de um objetivo, de uma “razão de ser”. Enfim, todo Ser contingente possui uma causa final.
x Princípio do ato e da potência: todo Ser contingente possui duas dimensões: o ato e a potência. O ato representa a existência atual do Ser, aquilo que está realizado e determinado. A potência representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou mas pode realizar-se. É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança.
As Provas da Existência de Deus
O Ser é o conceito mais universal de todos , segundo Tomás de Aquino, que aproveita o ensinamento aristotélico. Mas esta universalidade não é o gênero como demonstrou Aristóteles, contrapondo-se à opinião de Platão. O ente é um transcendental que está presente em todas as coisas sem confundir-se com nenhuma delas.
A palavra Ser possui dois sentidos, quais sejam: a essência e a existência. Tomás de Aquino afirma que há distinção entre a essência e a existência das criaturas, que são entes contingentes. Porém, em Deus, não há essa distinção, pois a existência de Deus provém de sua essência.
Para Tomás de Aquino há cinco vias, isto é, cinco maneiras de demonstrar a existência de Deus, que são:
1ª) O PRIMEIRO MOTOR: Tudo aquilo que se move é movido por outro Ser. Por sua vez, este outro Ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro Ser. E, assim, sucessivamente. Se não houvesse um primeiro Ser movente, cairíamos num processo indefinido. Logo, conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro Ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus.
2ª) A CAUSA EFICIENTE: Todas as coisas existentes no mundo não possuem em si próprias a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. Tomás de Aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. Logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa causa primeira é Deus.
3ª) SER NECESSÁRIO E SER CONTINGENTE: Este argumento é uma variante do segundo. Afirma que todo Ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. Ora,
se todas as coisas que existem podem deixar de Ser, então, alguma vez, nada existiu. Mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. É preciso admitir, então, que há um ser que sempre existiu, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa da sua existência, mas, ao contrário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus.
4ª) OS GRAUS DE PERFEIÇÃO: Em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar a existência de graus diversos de perfeição. Assim, afirmamos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. Ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isto supõe que deve existir um Ser com o máximo dessa qualidade, ao nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um Ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade. Portanto, um Ser máximo e pleno. Esse ser é Deus.
5ª) A FINALIDADE DO SER: Todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, semelhante a flecha dirigida pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum Ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus.
Assim, Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico com a finalidade de nele buscar os elementos racionais que explicassem os principais aspectos da fé cristã. Enfim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da religião católica, ao mesmo tempo que transformou essa filosofia numa síntese original.
Enfim, a ideia principal que anima as cinco vias acima descritas é Deus, invisível e infinito, demonstrável por seus efeitos visíveis e finitos. Visto que sabe-se que Deus é, porém não se sabe o que é. Mas pode saber-se algo a respeito de Deus, através da visão das criaturas, que pode se dar pela via da causalidade, da excelência e da negação. De todos esses modos, há duas possibilidades de ver: uma conforme a simples razão natural, alguns vêem a luz mas não estão na luz. A outra através da revelação que é superior a razão, porque está na luz vista pela razão.
Portanto, o mundo é criado por Deus por um ato livre e voluntário, e a criação é a posição do mundo na existência que pela revelação se realiza no tempo, mesmo que não possa ser demonstrado racionalmente. Deus é a causa exemplar e também a causa final, visto que todos os fins se dirigem para ele.
Sobre a questão dos Universais, Aquino toma uma posição que poderíamos entender como resultante de seu contato com as três grandes escolas apresentadas anteriormente. O autor termina por assumir um posicionamento realista, entendendo a existência do universal em três instâncias: ante rem, isto é, antes dos seres, na mente de Deus; in re, ou seja, nas coisas, enquanto essências dos próprios seres individuais; e post rem, posterior às coisas, na nossa mente, a partir da sua assimilação por meio da abstração, à moda aristotélica.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
01. (UEM PR) O problema do mal foi uma preocupação central para Agostinho (354-430 d.C.) durante grande parte de sua vida. Como existe o mal no mundo criado por um Deus bom? Tal é a interrogação filosófica que está na base de muitas teodiceias modernas. A resolução desse problema por Agostinho reconhece que a origem do mal não está em Deus, mas no livre-arbítrio da vontade humana. O homem é livre e não é determinado a agir de um modo ou de outro.
A respeito desse pensamento de Agostinho, assinale o que for correto.
01. Agostinho, quando jovem, fora simpatizante do maniqueísmo, uma religião de origem oriental.
02. O homem é totalmente livre, e a graça divina não ocupa papel algum na constituição da ação humana.
04. O mal é uma força positiva pela qual o homem é impelido a realizar certas ações.
08. O mal é sinônimo do pecado, é resultante da soberba humana.
16. A solução de Agostinho para o problema do mal tem seu ponto de partida nos livros dos filósofos neoplatônicos.
02. (UFU MG) Agostinho, em Confissões, diz: “Mas após a leitura daqueles livros dos platônicos e de ser levado por eles a buscar a verdade incorpórea, percebi que ‘as perfeições invisíveis são visíveis em suas obras’ (Carta de Paulo aos Romanos, 1, 20)”. Agostinho de Hipona. Confissões, livro VII, cap. 20, citado por: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000. Tradução do autor.
Nesse trecho, podemos perceber como Agostinho
a) se utilizou da Bíblia para conhecer melhor a filosofia platônica.
b) utiliza a filosofia platônica para refutar os textos bíblicos.
c) separa nitidamente os domínios da filosofia e da religião.
d) foi despertado para o conhecimento de Deus a partir da filosofia platônica.
03. (Enem MEC) Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava”, dizem eles, “por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?”
(AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984)
A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo da reflexão filosófica sobre a(s)
a) essência da ética cristã.
b) natureza universal da tradição.
c) certezas inabaláveis da experiência.
d) abrangência da compreensão humana.
e) interpretações da realidade circundante.
04. Assim como os primeiros padres da Igreja, Santo Agostinho é herdeiro da filosofia de Platão, a qual buscou adaptar à fé cristã. É correto afirmar que para o bispo de Hipona:
a) a razão (logos) inspiradora dos filósofos pagãos não fora a mesma que se revelou em Cristo.
b) a sabedoria perfeita e acabada só se daria através da revelação divina.
c) a fé não deve preceder a razão, embora essa seja inútil sem aquela.
d) a verdade é extrínseca ao homem, que possui uma natureza corrompida.
e) as ideias existem num mundo à parte da mente divina.
05. O pensamento político medieval foi marcado pelas relações conflituosas entre a Igreja e os governantes seculares.
Tendo em vista as teorias teológico-políticas da Idade Média, que divergem quanto à delimitação de soberania do poder espiritual e terreno, é incorreto dizer que
a) o governante não representa os governados, mas a Deus perante os governados, já que seu poder deriva Dele.
b) a ordem política e social é uma hierarquia de funções e lugares fixos, onde o papa e o imperador ocupam o topo.
c) a finalidade do poder político é estritamente espiritual para Santo Agostinho e a Patrística latina.
d) o rei e o papa são soberanos nos seus respectivos domínios, o temporal e o espiritual, segundo a “teoria das duas espadas”.
e) o rei possui dois corpos, o humano e o divino.
06. (UEM PR) No início da Suma teológica (Primeira parte, questão 2, artigos 1-3) encontramos a questão mais importante que se impõe ao pensamento filosófico de Tomás de Aquino referente à existência de Deus: ela se impõe imediatamente à inteligência humana? Dessa questão central, decorrem duas outras. Caso a existência de Deus não seja evidente, pode ser demonstrada? Em caso afirmativo, como isso poderia ser feito?
A respeito do tema da existência de Deus, para Tomás de Aquino, assinale o que for correto.
01. Ao ouvir o nome “Deus”, o homem reconhece que Ele existe na sua mente e na realidade.
02. Embora a existência de Deus seja evidente em si mesma, ela não o é para nós.
04. A existência de Deus não pode ser demonstrada, pois é um artigo de fé.
08. É possível demonstrar a existência de Deus, mas não conhecê-la.
16. O ponto de partida da reflexão de Tomás de Aquino acerca da existência de Deus é a experiência sensível, fonte segura de todo conhecimento humano.
07. (UFU MG) Alguns filósofos podem ser considerados realistas e outros nominalistas, conforme o posicionamento de cada um. Guilherme de Champeaux (1070 – 1121 d. C.) foi um filósofo e teólogo francês, professor na escola da catedral de Notre Dame, em Paris. Champeaux afirmava que “o universal é não somente real, mas também essencialmente idêntico na diversidade das coisas de que é atributo.”
VASCONCELOS, José Antônio. Reflexões: filosofia e cotidiano. São Paulo: edições SM, 2016. p. 212.
A posição de Champeaux, em relação aos universais, é classificada como
a) realista, pois compreende que os universais são entes reais.
b) nominalista, pois considera que os universais são apenas nomes.
c) conceptualista, pois aceita que há certa realidade nos universais.
d) indeterminada, pois, para ele, os universais são um problema sem resolução.