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REVISTA PEQUI

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MASSACRANTE MASSACRANTE MASSACRANTE ESCALA 6x1 ESCALA 6x1 ESCALA 6x1 E A ESCRAVA E A ESCRAVA E A ESCRAVA DO NORTE DO NORTE DO NORTE págs 3 a 5

FIOCRUZ E FIOCRUZ E FIOCRUZ E AS IMAGENS AS IMAGENS AS IMAGENS DE UM DE UM DE UM MASSACRE MASSACRE MASSACRE pág.8 pág.8 pág.8 O TRABALHO O TRABALHO O TRABALHO E O TRABALHADOR E O TRABALHADOR E O TRABALHADOR EM VERSOS EM VERSOS EM VERSOS

EDITORIAL

Baseada em Uberlândia, Minas Gerais, na região que outrora era parte integrante de Goiás, a Editora Olympia recorreu a um fruto que sugere, mais do que identidade gastronômica, a força das ideias que as palavras expressam: o pequi (Caryocar brasiliense) para dar nome a esta publicação. Delicioso e perigoso pela presença de seus ínfimos espinhos no caroço, o pequi tanto empresta sabor ao paladar como pode ferir, exatamente como as palavras. É de palavras e literatura que trataremos nesta revista digital semanal e gratuita que estamos lançando neste início de maio de 2026. Momento apropriado para trazermos à tona a luta pelo fim da escala 6 X 1, ou seja, o massacrante seis dias de trabalho semanal por apenas um de folga, e também o livro “A história de Sojourner Truth, a escrava do Norte”, de Oliver Gilbert, que a Editoria Olympia tem à venda em sua livraria, na loja 77 do Griff Shopping, na Avenida Rondon Pacheco, 2.300. Também abrimos espaço para o livro “Poesias infantis”, de Olavo Bilac, lançado em 1904 e que a Editora Olympia em parceria com a ilustradora Barbara Langoni, acaba de reeditar. Ainda nesta edição celebramos o vigor de poemas sobre o trabalhador e as imagens do massacre de Eldorado dos Carajás em 1996 pelas lentes de João Roberto Ripper que ganharam nova vida com a digitalização pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Boa leitura e até a próxima semana,

EXPEDIENTE

Revista Pequi é um produto digital, semanal e de distribuição gratuita da Editora Olympia. Tem por objetivo estimular a leitura e divulgar obras criadas ou editadas pela empresa e também as que se encontram à venda em sua livraria na loja 77, no segundo piso do Griff Shopping em Uberlândia, Minas Gerais.

Editor: Carlos Franco

Editor de fotografia: Francisco Jr. Colaboraram nesta edição: Yume Ikeda e Thiago Ribeiro

E-mail: cartas@revistapequi,com.br

O MASSACRANTE 6x1

Não existe imagem mais eloquente do que a criada pelo artista Charles Chaplin em Tempos Modernos, clássico de 1936, para traduzir a jornada massacrante imposta pela lógica produtivista: o trabalhador engolido pelas engrenagens de uma máquina que não para, transformado em mera extensão do processo industrial. Quase um século depois, a cena permanece atual para expressar o peso da escala 6x1, modelo em que o tempo de vida é sistematicamente subtraído em favor da produtividade e do lucro. Não por acaso, foi também do Reino Unido, terra natal de Chaplin, que surgiu uma das respostas mais consistentes e promissoras em defesa de uma nova organização do trabalho.

Entre junho e dezembro de 2022, um dos maiores estudos já realizados no mundo sobre a semana de quatro dias — a chamada escala 4x3, ou 32 horas semanais sem redução salarial — foi conduzido na Inglaterra. Capitaneado por 61 empresas, o projeto “4 Day Week Global”, em parceria com a “4 Day Week UK”, pesquisadores da Universidade de Cambridge, do Boston College e do Autonomy Institute, testou uma hipótese que há décadas desafia o pensamento econômico tradicional: a de que trabalhar menos pode significar produzir melhor.

O experimento foi considerado um êxito tão expressivo que a ampla maioria das empresas participantes decidiu manter o modelo, transformando a experiência em referência para iniciativas semelhantes em países como Bélgica, Portugal e Islândia.

O MASSACRANTE 6x1

Os resultados desmontaram previsões alarmistas. Ao implementar a jornada 4x3, o faturamento das empresas não caiu; em muitos casos, houve aumento médio de 1,4%. Mais do que isso, os indicadores de bem-estar registraram uma mudança significativa: o estresse entre os funcionários caiu 71%, com relatos consistentes de melhora na saúde física e mental, redução da exaustão e ampliação do tempo dedicado à família, ao lazer, aos estudos e à prática de atividades físicas. Em uma época marcada por índices crescentes de adoecimento psíquico relacionado ao trabalho, tais números não podem ser ignorados. Outro dado igualmente relevante foi a redução da rotatividade. A probabilidade de pedidos de demissão caiu 57%, fator decisivo em setores que demandam qualificação técnica e altos investimentos em treinamento. Empresas passaram a compreender que a qualidade de vida deixou de ser um benefício periférico para se tornar ativo estratégico. Trabalhadores mais descansados, motivados e emocionalmente equilibrados produzem melhor, inovam mais e permanecem por mais tempo em seus postos.

A discussão, portanto, não se restringe a uma reivindicação trabalhista. Trata-se de repensar o próprio conceito de desenvolvimento. Afinal, de que serve o crescimento econômico se ele exige o esgotamento físico, emocional e social daqueles que o sustentam? O avanço tecnológico prometia libertar seres humanos de jornadas extenuantes; paradoxalmente, em muitos contextos, serviu para intensificar cobranças e ampliar mecanismos de vigilância e pressão.

No Brasil, porém, vozes do atraso insistem em se erguer contra qualquer proposta de superação da escala 6x1. São as mesmas que, desde 1943, demonizam a Consolidação das Leis do Trabalho e tratam direitos históricos como entraves ao progresso. Se dependesse delas, retrocederíamos não apenas na legislação trabalhista, mas na própria concepção civilizatória que orienta a relação entre capital e trabalho. Defender jornadas mais humanas não é radicalismo: é reconhecer que a dignidade não pode continuar submetida à lógica da exaustão. O verdadeiro atraso está em insistir num modelo que rouba dos trabalhadores aquilo que jamais lhes poderá ser devolvido: o tempo de viver.

AJORNADA DE LUTAS DE SOJOURNER TRUTH

A história de Sojourner Truth começa no cativeiro, no final do século XVIII, quando ainda era chamada Isabella Baumfree. NascidaescravizadanosEstadosUnidos,ela atravessouaviolênciacotidianadaservidão até encontrar coragem para fugir com a filha, em um gesto de ruptura que ecoaria na história. Mais do que conquistar a própria liberdade, Sojourner decidiu lutar pela de todos, tornando-se uma voz poderosa contra a escravidão e a opressão dasmulheres.

Com palavras simples e contundentes, ela percorreu cidades e consciências, denunciando injustiças e exigindo dignidade. Seu famoso discurso “Ain’t I a Woman?” ainda ressoa como um marco da luta por igualdade. A trajetória dessa mulher extraordinária ganha vida no livro

A escrava do norte, de Oliver Gilbert, que reconstrói sua jornada com força e sensibilidade, convidando o leitor a enxergaropassadocomnovosolhos.

Reconhecida tardiamente, SojournerTruth tornou-se símbolo de resistência e justiça. Em um feito histórico, foi a primeira mulher negra a ter seu busto instalado no Capitólio dos Estados Unidos em 2009 — um gesto que eterniza sua voz. Ler sua história é mais do que conhecer o passado: é confrontar o presente e renovar o compromissocomaliberdade.

MORTE E VIDA SEVERINA

Publicado em 1955, o livro de poemas “Morte e Vida Severina” do pernambucano João Cabral de Melo Neto foi um marco no modernismo, tanto por trazer um tema regional e brasileiríssimo como por denunciar a luta pela terra que até hoje mobiliza milhares de brasileiros diante das tímidastentativasdereformaagrária.

A vida sofrida de Severino nos versos deste escritor, poeta e diplomata ganharam em 1966 pelas mãos de Francisco Buarque de Holanda uma música que resume com precisão milimétrica o fim da saga deste retirante nordestino que sonhava com umnacodeterranumpaístomadopor latifúndios.

A letra “Funeral de um lavrador”, construída a quatro mãos por João CabraldeMeloNetoeChicoBuarqueé deumapotênciaesensibilidadeàprova do tempo, uma vez que a realidade brasileirainsisteemmantê-laatual.

Esta cova em que estás, com palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo

É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida

É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto

Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco

Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas da terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio

(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo

Mas da terra dada não se abre a boca

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Vinicius de Moraes

Era ele que erguia casas

Onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas

Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia

De sua grande missão:

Não sabia, por exemplo

Que a casa de um homem é um templo

Um templo sem religião

Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia

Sendo a sua liberdade

Era a sua escravidão.

IMAGENS DE UM MASSACRE

No dia 17 de abril de 1996, o Brasil assistiu pelas telas das emissoras de televisão e pelas lentes de Sebastião Salgado e João Roberto Ripper ao Massacre de Eldorado dos Carajás: 21 camponeses assassinados e 69 mutilados pela Polícia Militar do Pará, sob o comando do então governador Almir Gabriel (PSDB) enquanto o país era presidido por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

O acervo desta luta e de outras lutas registradas pelo fotógrafo João Roberto Ripper foi digitalizado e, agora, está disponível ao público na galeria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). São imagens da constante luta do povo brasileiros por seus direitos. As fotos que você vê aqui são do velório das vítimas do massacre, em Curionópolis, no Pará, dias após os crimes nos arredores da fazenda Macaxeira, hoje Assentamento 17 de abril, para que ninguém se esqueça deste dia de infâmia.

REVISTA PEQUI

O NOVO VOO DE OLAVO BILAC

UMA OBRA

ATEMPORAL

Se hoje, ao lermos os versos de “Poesias infantis”, de Olavo Bilac, sentimos uma nostalgia doce — como quem se lembra de uma canção esquecida da infância —, é porque o poeta não escrevia apenas para seu tempo. Escrevia para o futuro. E, nesse futuro, suas Poesias Infantis seguem vivas, como um segredo passado de geração em geração, um tesouro que não perde o brilho, mesmo depois de tanto ser manuseado por mãos pequenas e curiosas.

É, portanto, com muito orgulho que a Editora Olympia em parceria com a brilhante artista plástica Barbara Langoni, a Babi, relança esta obra que teve sua primeira tiragem pela Livraria Clássica de Francisco Alves & Cia em 1904 na certeza de que Bilac segue imortal como nos versos libertários de O pássaro cativo:

Armas, num galho de árvore, o alçapão; E, em breve, uma avezinha descuidada, Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,

A gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:

Porque é que, tendo tudo, há de ficar

O passarinho mudo, Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam. Só gorjeando a sua dor exalam, Sem que os homens os possam entender;

Se os pássaros falassem,

Talvez os teus ouvidos escutassem

Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro

Na mata livre em que a voar me viste; Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;

Da mata entre os verdores, Tenho frutos e flores, Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola! Pois nenhuma riqueza me consola

De haver perdido aquilo que perdi...

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