U E D Q OS E N I R B BRINCADEIRAS
FLORES DO CERRADO EDITORA OLYMPIA
EDITORA OLYMPIA
Capa: Jean-Baptiste Debret (1768―1848)
F825c
Franco, Carlos (organizador e editor) ISNI: 530612937
ISBN 978-65-86241-46-4 Pág. 124 Brinquedos e brincadeiras, Flores do cerrado (coleção), Editora Olympia, Uberlândia/MG, 2026 1.1. Ficção brasileira - Contos I. Título CDD B869.301 CDU 821.134.3 (81)
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Dedicatória
“Quando as crianças brincam E eu as oiço brincar, Qualquer coisa em minha alma Começa a se alegrar.” Fernando Pessoa À todas as crianças que vivem em nós, independentemente da idade. 3
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Sumário Brinquedos e histórias que brincam/Carlos Franco/Pág. 7 Meus oito anos/Casimiro de Abreu/Pág. 13 O circo de cavalinhos/Monteiro Lobato/Pág. 16 Retalhos da infância/Ana Maria Coelho Carvalho/Pág. 47 Uma tarde na Avenida 97/Andréa Brandão/Pág. 50 Bolhas de sabão/Aparecida Jagger/Pág. 54 O baú de Pandora/Artur Monteiro/Pág. 56 Branca de Neve e os sete milhões de seguidores/ Célio D’Ávila/Pág. 60 Brincando de salvar o dia/ Cristiano Rodrigues de Andrade/Pág. 67 A mais bela arte/Frederico Rodrigues Gonzaga/Pág. 76 Esconderijo/Gustavo Coelho/Pág. 77 H.Q. Nostalgia/Gustavo Coelho/Pág. 83 Pipa peixinho/Hillary Souza/Pág. 87 Baliza/Jonicleber Mariano Galvão/Pág. 90 Nossa saudosa brincadeira preferida/Kelly Righi/Pág. 93 A boneca que nasceu devagar/Maria Joana Costa/Pág. 97 H.Q. Legado/Nicole Coelho (Shinya)/Pág. 100 5
EDITORA OLYMPIA O pião infinito/Niko Brasileo/Pág. 101 Pé de fantasia/Paulo Henrique Costa Lima/Pág. 105 Bolinhas de gude e o fim do mundo/ Paulo Irineu Barreto/Pág. 108 O lápis de cor quebrado e a borracha esquecida/ Robson Camilo/Pág. 111 Reinado do quintal/Sâmela Jannie/Pág. 115 Infância no papel/Sandra de Salles Monteiro/Pág. 118 H.Q. O meu pião mágico voou/Solrac P./Pág. 121 Uma voz no sertão/Vicentina Maria da Silva/Pág. 123
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Brinquedos e histórias que brincam
Carlos Franco “Não há nada mais perigoso do que semente de ciência...” Monteiro Lobato, O Circo de Cavalinhos Monteiro Lobato sabia muito bem o que estava prevendo quando escreveu essa frase que usamos na abertura desta apresentação. Ela aparece quase de passagem, no fim de uma tarde de circo no Sítio do Picapau Amarelo, depois que o Visconde de Sabugosa abandona o palco — e o próprio espetáculo — por causa de um livro de trigonometria que encontrou esquecido num canto e que exercia o papel de calço da lona improvisada. O circo, erguido com suor e marteladas por Pedrinho durante três dias, acaba desabando. Mas a frase permanece, irônica e precisa, como um bilhete pregado na porta:
sementes são perigosas porque crescem. O mesmo vale para as histórias sobre brinquedos e brincadeiras. Quem as lê na infância carrega uma semente. Não sabe disso enquanto brinca, enquanto ri da Emília montada no cavalinho de rabo de pena, enquanto torce pelo visconde―palhaço que some com o livro embaixo do braço. Mas anos depois, quando escuta o barulho de um circo ao longe ou encontra uma boneca de pano no fundo de uma gaveta, algo desperta — e então percebe que aquelas histórias nunca foram só sobre brinquedos. Foram sobre o modo como aprendemos a estar no mundo. Esta antologia nasce dessa convicção. 7
EDITORA OLYMPIA Reunimos aqui contos, poemas e histórias em quadrinhos de autores residentes em Uberlândia e também clássicos da literatura brasileira, que têm em comum um mesmo território: o universo dos brinquedos e das brincadeiras que dá título ao livro. Não como cenário, não como enfeite — mas como lente. Uma lente que, colocada diante dos olhos pequenos de uma criança ou dos olhos cansados de um adulto, revela coisas que a linguagem direta frequentemente esconde, as camadas daquele que somos nós. Há aqui bonecas que falam mais do que deveriam. Há trens que partem para estações que não existem nos mapas, as dos sonhos. Há bolinhas de gude que rolam por páginas inteiras carregando o peso inteiro de uma tarde de verão. Há piões que sobem e não voltam, e rodas―gigantes que giram devagar demais para que o momento passe. Há brincadeiras de roda que são também rituais, e jogos de esconde―esconde em que nem sempre se quer ser encontrado. Cada texto foi escolhido por acreditar que brincar é um ato sério — talvez o mais sério que existe. Brincar é o modo que a infância encontrou para ensaiar o mundo antes de entrar nele de verdade. É quando a criança decide que uma vassoura é um cavalo, ela não está se enganando: ela está exercendo a mais poderosa das capacidades humanas, que é a de criar realidades paralelas e habitá―las com convicção. Fato que a semente da ciência comprova por meio das lições dos maiores pensadores mundiais da educação como Lev Vygotsky, Jean Piaget, Paulo Freire e atualmente Gandhy Piorski que veem no brincar um meio eficaz de educação infantil e convivência entre os diferentes, uma verdadeira ponte da vida
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS infantil para a adulta. Nada a ver com os detestáveis e excludentes modelos de educação em casa, o homeschooling, ou a escola militarizada, onde a criança é tolhida das suas dúvidas, dos seus questionamentos e dos seus sonhos, sobretudo do conhecimento que a permitirá fazer escolhas, as suas escolhas. O lúdico mais do que educar é aquilo que nos mantém de pé, ou alguém vive sem sonhar, sem imaginar diferentes situações ainda que dentro das regras do jogo?. A literatura faz exatamente o mesmo. É um jogo de palavras, como castelos de cartas ou de areia, onde a imaginação é essencial. Por isso brinquedos e histórias são parentes próximos — ambos existem num espaço em que as regras do mundo concreto ficam suspensas, e outras regras, mais generosas e diversas, tomam o seu lugar. A organização desta antologia segue, portanto, uma lógica afetiva. Os textos dialogam entre si por ressonância — por compartilharem um tom, uma imagem, uma pergunta. O leitor que começar pelo poema de abertura e for avançando perceberá que as peças se encaixam não como um quebra―cabeça, mas como uma brincadeira de telefone sem fio: cada texto transforma levemente o que recebeu do anterior e passa adiante algo ligeiramente diferente. No fim, a última página ecoa a primeira de um jeito que só faz sentido depois de se ter percorrido o caminho. As histórias foram se agrupando, ainda que pela ordem alfabética de seus autores, em torno desse eixo essencial que é o brincar. São brincantes aqueles que dão vida aos brinquedos como Monteiro Lobato à Emília, a atrevida boneca de pano que fala. Outros vivenciam o tempo elástico das tardes longas, o tempo que some quando se está brincando e pesa quando acaba. 9
EDITORA OLYMPIA E tem aqueles que exploram as brincadeiras coletivas e o que elas revelam sobre hierarquias, pertencimento e exclusão — porque nem toda brincadeira é inocente, e algumas deixam marcas. Os poemas estão distribuídos ao longo de toda a antologia, não agrupados em bloco. Essa decisão foi deliberada. Poema é pausa. É o texto que pede que o leitor respire antes de continuar. Em meio à prosa dos contos e ao ritmo acelerado das histórias em quadrinhos, os poemas funcionam como aquelas pausas que as crianças fazem no meio de uma correria — quando de repente param, sem motivo aparente, e ficam olhando para alguma coisa que só elas estão vendo. As histórias em quadrinhos, por sua vez, trazem uma dimensão que a palavra escrita sozinha não alcança: o silêncio visível. Nos quadrinhos, o espaço entre um quadro e outro — a famosa “sarjeta” — é onde a imaginação do leitor trabalha. É lá que o brinquedo se move, que a bola voa, que a criança cai e levanta sem que precisemos ver nenhuma das duas coisas. É um espaço análogo ao da própria brincadeira: um espaço que existe porque acreditamos nele. Uma nota sobre o que esta antologia não é: ela não é uma coletânea nostálgica. A infância que aparece nestas páginas não é um paraíso perdido nem um jardim protegido. É um lugar complexo, às vezes áspero, habitado por crianças que têm medo, que erram, que excluem, que mentem, que imaginam coisas perturbadoras além das coisas encantadoras. Os melhores textos sobre infância — e acreditamos que os melhores estão aqui — tratam a criança com o mesmo respeito que se deve a qualquer ser humano: sem condescendência e sem idealização.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Lobato entendia isso. Sua Emília é pequena, feita de retalhos e palha, mas é capaz de esconder os óculos de dona Benta e cobrar três cruzeiros para encontrá―los — em notas novas. Ela é interesseira, teimosa, criativa e completamente sem culpa. É uma criança de verdade, disfarçada de boneca. E é exatamente por isso que, décadas depois de ter sido criada, ela ainda nos faz rir e nos faz pensar. É essa a companhia que esta antologia oferece: textos que brincam a sério, brinquedos que existem de verdade, e histórias que, como toda boa semente, têm pressa de crescer. E se José Bento Renato Monteiro Lobato (1882―1948) hoje é revisitado, por vezes cancelado pelo racismo estrutural que imprimiu em algumas de suas obras e pela convivência, em seu tempo, com o movimento eugenista (que defendia o branqueamento da população), chegando a escrever o livro “O Presidente Negro” , o texto lobatiano que trazemos aqui está vinculado ao universo lúdico, da imaginação fértil que encantou gerações contribuindo para o aprendizado de geografia, história, matemática e a compreensão do nosso brasileiríssimo e riquíssimo folclore. Os sentimentos que nos movem em torno da infância, dos brinquedos e das brincadeiras, inauguram a série Flores do Cerrado, criada pela Editora Olympia em parceria com o Clube de Escritores da Biblioteca Municipal de Uberlândia e com o apoio do jornal Diário de Uberlândia. Para a abertura desta obra trazemos os versos do fluminense Casimiro José Marques de Abreu (1839–1860) que hoje dá nome à cidade em que nasceu e que nos faz ter lembranças do passado que nos trouxe para o presente e nos aponta o futuro.
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EDITORA OLYMPIA Em comum, Lobato e Abreu seguem, em domínio público, como clássicos da literatura genuinamente brasileira. Na capa recorremos ao artista francês Jean―Baptiste Debret (1768―1848) que integrou as cortes de Napoleão, D. João VI e D. Pedro I, aportando no Brasil com a Missão Artística Francesa (1817), que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou, hoje Museu Nacional de Belas Artes na outrora capital do Brasil. De volta à França (1831), Debret publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834―1839), documentando aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do século XIX em que se destacam as brincadeiras infantis que ilustram a capa deste livro. Boa leitura,
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Meus oito anos
Casimiro de Abreu Oh! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias Do despontar da existência! ― Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é ― lago sereno, O céu ― um manto azulado, O mundo ― um sonho dourado, A vida ― um hino d'amor! Que auroras, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar! O céu bordado d’estrelas, A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar!
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EDITORA OLYMPIA Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã. Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minha irmã! Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, De camisa aberto ao peito, ― Pés descalços, braços nus ― Correndo pelas campinas À roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis! Naqueles tempos ditosos Ia colher as pitangas, Trepava a tirar as mangas, Brincava à beira do mar; Rezava às Ave―Marias, Achava o céu sempre lindo, Adormecia sorrindo E despertava a cantar!
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Oh! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!
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O circo de cavalinhos
Monteiro Lobato A operação cirúrgica Depois do concurso para a fabricação do irmão de Pinóquio, houve no sítio de dona Benta outro concurso muito engraçado – o concurso de “quem tem a melhor ideia”. Quem venceu foi a Emília, com a sua estupenda ideia de um “círculo de escavalinho”. Dona Benta, que era o juiz do concurso, achou muito boa a lembrança, mas deu risada do título. ― Não é “círculo”, Emília, nem “escavalinho”. É circo de cavalinhos. ― Mas toda gente diz assim ― retorquiu a teimosa criaturinha. ― Está muito enganada. Eu também sou gente e não digo assim. O visconde, que está quase virando gente, também não diz assim. Emília teimou, teimou, e por fim acabou aceitando só metade da emenda. ―Já que a senhora “faz tanta questão”, fica sendo circo de escavalinho. Dona Benta ainda insistia, dizendo que o diminutivo de cavalo é cavalinho e que, portanto, escavalinho era asneira. Mas a boneca não se deu por vencida. ―É que a senhora não está compreendendo a minha ideia ― explicou.! ―Escavalinho é o nome do diretor do circo, o célebre Senhor Pedro Malasarte Escavalinho da Silva, está entendendo? 16
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Dona Benta riu―se da esperteza, mas Pedrinho gostou da ideia e aceitou que o circo teria o nome inventado pela boneca. Em vista disso começaram os três a formular planos e a distribuir papéis. Emília seria a dama que corre no cavalo e pula os arcos. João Faz―de―conta seria o homem que engole espada e come fogo. E palhaço? Estava faltando justamente o principal, que era o palhaço. ―O visconde daria um bom palhaço, se não fosse a sua mania de ciência; mas creio que podemos curá―lo. Vou chamar o doutor Caramujo. ―Acho boa a ideia ― concordou Narizinho. ―Além disso... Mas não pôde concluir. Rompera um bate―boca na cozinha, no qual se ouvia a voz de tia Nastácia gritando: ―“Puxe daqui pra fora”! Os meninos correram a ver do que se tratava e encontraram―na tocando o visconde com o cabo da vassoura. ―Que é? Que foi? ―Pois é este senhor visconde que está me bobeando ― explicou a negra. ―Eu aqui bem quieta escamando estes lambaris para o almoço, e o “estrupido” aparece de livrinho na mão e começa a mangar comigo, com uma história de “seno” e “co―seno” e não sei quê história de “mangaritmos”. Eu estou cansada de dizer que não sei inglês, mas o diabo parece que não acredita... ―“Mangaritmos!” ― exclamou o visconde erguendo os braços para o céu ― e plaf! caiu por terra com ataque. 17
EDITORA OLYMPIA Narizinho correu a socorrê―lo e levou―o para a casinha dele, onde o acomodou dentro da lata que lhe servia de cama. Depois gritou: ―Depressa, Pedrinho. Mande Rabicó chamar o doutor Caramujo. O nosso visconde está muito mal. A casa do visconde era um vão de armário na sala de jantar. Dois grossos volumes do Dicionário de Morais formavam as paredes. Servia de mesa um livro de capa de couro chamado O Banquete, escrito por um tal Platão que viveu antigamente na Grécia e devia ter sido um grande guloso. A cama era formada por um exemplar da Enciclopédia do Riso e da Galhofa, livro muito antigo e danado para dar sono. Mas desde que o visconde ficou uma semana inteira atrás da estante e criou bolor pelo corpo inteiro, não era ali que ele dormia, para não sujar o chão com o seu pozinho verde; dormia na lata. Outros “móveis” ― armarinhos, cadeiras, estantes, também eram formados dos livros de capa de couro, que dona Benta havia herdado de um seu tio, o cónego Agapito Encerrabodes de Oliveira. Era naquela casinha que o visconde passava a maior parte do tempo, lendo, lendo que não acabava mais. e tanto leu que empanturrou. Rabicó fora chamar o médico. Meia hora depois chegava o célebre doutor Caramujo, afobadíssimo, de malinha debaixo do braço. ―Quem é o doente? ― foi logo indagando. ― É o senhor visconde de Sabugosa, que teve hoje um ataque. Venha vê―lo, doutor. 18
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS O médico dirigiu―se para a lata do visconde, examinou―o e franziu a testa. ― Hum! O caso é dos mais graves. Tenho de operá―lo imediatamente. Sua Excelência está empanturrado de álgebra e outras ciências empanturrantes. Tragam―me uma bacia d'água, toalha e também uma pedra de amolar. Pedrinho trouxe as coisas pedidas; o médico amolou na pedra a sua faquinha e abriu de alto a baixo a barriga do visconde. ― Chi! ― exclamou fazendo uma careta. Vejam como está este pobre ventre. Completamente entupido de corpos estranhos. Pedrinho e Narizinho espiaram aquela barriga aberta e viram que em vez de tripas o Visconde só tinha lá uma maçaroca de letras e sinais algébricos, misturados com “senos” e “co―senos” e “logaritmos” ― ou “mangaritmos”, como dizia a tia Nastácia. ― Coitado! ― exclamaram ambos, compungidos. Está mesmo muito mal. O doutor Caramujo tomou uma colherzinha e começou a tirar para fora toda aquela tranqueira científica, depositando―a num pequeno balde que Pedrinho segurava. ― Não tire todas as letras ― advertiu o menino. Se não ele fica bobo demais. Deixe algumas para semente. ― É o que estou fazendo. Estou tirando só o que é álgebra. Álgebra é pior que jabuticaba com caroço para entupir um freguês. Terminada a operação, o doutor colou a barriga do doente com um pouco de cola―tudo. 19
EDITORA OLYMPIA ― Temos agora de deixá―lo em repouso durante três dias ― recomendou. Depois desse prazo vai poder dar seus passeios pelo campo, a fim de tomar sol e respirar as brisas da manhã. Também é preciso esconder quanto livro de álgebra exista por aqui, para evitar recaída. Pedrinho pediu a conta, pagou―a e despediu―se do doutor, recomendando―lhe que desse muitas lembranças ao príncipe Escamado, a dona Aranha e outros personagens do reino. ― Que bom médico! ― exclamou a menina logo que o doutor Caramujo partiu. Com um doutor assim até dá gosto ficar doente. Mas estou notando que esquecemos duma coisa, Pedrinho. ― Que foi? ― Esquecemos de botar casos engraçados dentro da barriga do visconde. Como vai ser palhaço de circo, ficaria ótimo se nós o recheássemos como tia Nastácia faz com os perus. ― Recheio de quê? ― indagou o menino. ― De anedotas, por exemplo. ― Bem pensado! Mas ainda está em tempo, porque a cola não secou. E abrindo de novo o visconde, puseram dentro três páginas bem dobradinhas dum livro do Cornélio Pires. Depois colocaram―no outra vez e deixaram―no a secar em paz. ― Venha ver, Emília, quanta letra saiu de dentro do coitado ― disse a menina, indo ao quintal despejar o balde. Eu bem digo é 20
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS muito perigoso ler certos livros, os únicos que não fazem mal são os que têm diálogos e figuras engraçadas. Passados os três dias de repouso, o visconde pulou da sua lata e foi passear pelo terreiro, conduzido pela Emília, ainda muito fraco, mas perfeitamente curado das suas manias. ― Agora sim ― disse Pedrinho ― nosso circo vai ter um palhaço ainda melhor que o tal Eduardo das Neves que tia Nastácia tanto gaba. Você, Narizinho, precisa fazer―lhe uma roupa bem pândega. ― Estou pensando em fazer―lhe uma roupa de palhaço de verdade, com um grande sol amarelo atrás. ― Pois vá cuidar do sol que eu vou organizar o programa da festa. Dali a pouco o programa estava pronto ― e que lindo! GRANDE CIRCO DE ESCAVALINHO equestre e pedestre dirigido por PEDRO MALASARTE ESCAVALINHO DA SILVA no Sítio do Picapau Amarelo. A famosa Emília correrá no seu cavalo de rabo de pena; O incrível homem que come fogo e engole espadas; O célebre palhaço Sabugueira (rir, rir, rir...); A monumental pantomima o FANTASMA DA ÓPERA; O espetáculo terminará com uma sensacionalíssima SURPRESA: Os espectadores terão direito a uma cocada ou um pé―de―moleque da célebre doceira ANASTAZIMOVA 21
EDITORA OLYMPIA HOJE HOJE HOJE VER PARA CRER. Preços: cadeiras: um Cruzeiro; arquibancadas: 10 centavos Observação: é expressamente proibido entrar por baixo do pano. ― Está muito bom ― aprovou a menina. ― Só falta a música. ― Já pensei nisso e está difícil de resolver. Vovó não pode cuidar da música porque precisa ficar recebendo os convidados. Tia Nastácia também não pode porque precisa ficar tomando conta das cocadas. Não sei como podeerá ser... ― Rabicó! ― sugeriu a menina. ― Rabicó pode ser música. Não é muito afinado, mas passa. ― Esse não; preciso dele para outra coisa, e Pedrinho cochichou―lhe ao ouvido um segredo. ― Ótimo! ― exclamou a menina batendo palmas. ― Vai ser uma sensação! Acho que é a melhor ideia que você já teve, Pedrinho! ― Mas veja lá! Não diga nada a ninguém ― nem à Emília, senão a coisa perde a graça. E ainda cochicharam por vários minutos, dando grandes risadas espremidas.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
O plano de Emília Pedrinho tirou várias cópias do programa e as pôs dentro das cartas de convite que ia enviar aos seus amigos e às amigas de Narizinho. Quem levou as cartas? Quem mais se não esses preciosos portadores chamados Envelopes? Mas como os senhores Envelopes não sabem chegar ao destino se não forem acompanhados dos senhores Sobrescritos e de diversos senhores Selos, Pedrinho arranjou diversos senhores Sobrescritos e diversos senhores Selos para acompanharem os senhores Envelopes na longa viagem que tinham de fazer. E esses portadores se comportaram muito bem. Nenhum deles se distraiu pelo caminho com brincadeiras, de modo que as cartas foram parar direitinhas nas mãos de cada um dos convidados. ― Muito bem! ― disse a menina depois que os portadores partiram. ― Só resta agora convidarmos os nossos amigos do País das Maravilhas. Eles nunca viram um circo e hão de gostar. ― É no que estou pensando ― disse Pedrinho. ― Acho melhor fazer um convite geral e incumbir o senhor Vento de ser o portador. E o menino assim fez. Escreveu um lindo convite numa folha de papel de seda, picou o papel em mil pedaços e subiu à mais alta pitangueira do pomar para jogá―los ao vento lá de cima. E jogou em verso, porque o Vento, o Ar o Fogo e outras forças da natureza só devem ser faladas em verso.
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EDITORA OLYMPIA Vento que vento frade, Estas cartas leva de Norte, sul, leste, oeste E direitinho, se não... Temos complicação! Narizinho, de nariz para o ar embaixo da árvore, riu―se daqueles versos. Depois lembrou―se de uma coisa. ― Você fez asneira, Pedrinho. Mandou convites para todos, o que não é prudente. Podem aparecer o Barba Azul, o capitão Gancho e outras pestes. ― Não tenha medo. Se algum deles cair na tolice de aparecer, atiço―lhes o cachorro em cima. ― Que cachorro? Não temos nenhum aqui. ― Mas vamos ter. Pedirei ao tio Barnabé que nos empreste o Maroto por uma semana. Preciso dele para não deixar que ninguém penetre por baixo do pano ― e também para ser atiçado contra Barba Azul, capitão Gancho ou qualquer outro pirata que apareça. Que acha da ideia? ― Serve. ― Neste caso, apare no avental estas lindas pitangas. E começou a derriçar lindas pitangas, vermelhas e graúdas.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Depois desceu, com os bolsos cheios e sentou―se na raiz da árvore ao lado da menina. Ia comendo e falando. ― Tenho agora de levantar um empréstimo ― disse ele. – Sem comprar uma peça de algodãozinho não poderei fazer o circo. Mas custa Cr$ 10,00 e no meu cofre só há Cr$ 5,30. A menina fez a conta na areia com um pauzinho. ― Estão faltando Cr$ 4,70, se a minha conta estiver certa. ― Menos ― advertiu Pedrinho. ― Podemos contar com a renda. ― Grande renda! Você bem sabe que todos vão pagar de mentira, e com dinheiro de mentira não se compra nada nas lojas. ― Sim, mas há duas cadeiras de um cruzeiro cada uma, reservadas para vovó e tia Nastácia. Elas têm que pagar com dinheiro de verdade. E vou fazer já os bilhetes, porque precisamos vender essas cadeiras hoje mesmo e receber o dinheiro adiantado. Pedrinho engoliu apressadamente as últimas pitangas e foi fazer os dois bilhetes especiais. De cadeira especial. Cr$ 1,00 Narizinho, como era muito jeitosa para negócios, encarregou―se de vendê―las. Dona Benta não botou dúvida; comprou e pagou com uma nota muito velha, mas que ainda corria. Tia Nastácia, porém, era a negra mais regateadeira deste mundo, de tanto regatear com os mascates sírios que passavam por lá. Fez a choradeira do costume e tanto barateou que obteve a sua entrada por 80 centavos. 25
EDITORA OLYMPIA ― Com uma condição! ― disse a menina. ― Você tem que arranjar um tabuleiro de cocadas e pés―de―moleque. Circo sem cocadas não tem graça. A negra resmungou, mas acabou prometendo. Obtidos assim mais Cr$ 1,80, ainda ficavam faltando Cr$ 2,90. Como fazer para consegui―los? Estavam os dois meninos atrapalhados com aquele difícil problema, quando a boneca apareceu com a sua colherzinha torta. ― Eu sou capaz de arranjar esse dinheiro! ― disse ela depois de refletir um momento. ― Mas só o arranjarei se Pedrinho me der aquele carro de rodas de carretel que ele fez outro dia. Pedrinho soltou uma gargalhada. ― Você está pensando que dinheiro é biscoito, Emília? Por mais ativa que seja uma boneca não é capaz de arranjar nem um tostão. ― Não duvide de mim, Pedrinho. Bem sabe que sou uma boneca diferente das outras. Se me promete o carrinho, juro que arranjo o dinheiro. ― Pois vá lá, prometo! A boneca deu uma risadinha cavorteira e foi correndo para dentro. ― Grande boba! ― exclamou Pedrinho. ― Pensa que dinheiro é cisco. ― Não duvide de Emília ― advertiu a menina. ― Ela tem lábias e não me admirarei se aparecer com o dinheiro. 26
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS ― Como? ― Sei lá. Isso é com ela. ― Muito bem ― disse Pedrinho mudando de assunto. – Tenho agora de ir ao mato cortar paus e cipós para a armação do circo. Enquanto isso, trate de fazer a roupa dos artistas. ― E a roupa da “surpresa”? ― Essa fica para o fim ― concluiu o menino, pondo o machadinho ao ombro e partindo para a floresta. Na tarde daquele dia dona Benta caiu numa grande aflição. Imaginem que tinha perdido os óculos e não podia costurar, nem fazer coisa nenhuma. “Sem óculos não sou gente” – costumava dizer. Nastácia e Narizinho já haviam batido a casa inteira, mas nem rasto encontraram dos “olhos de dona Benta”. Nisto a boneca aproximou―se da pobre senhora, dizendo com o seu arzinho de santa: ― Todos já procuraram os seus óculos, menos eu. Quer que os procure? ― Que bobagem, Emília! Pois se Nastácia e Narizinho, que são gente, não acharam meus óculos, você, que é uma simples boneca de pano, os há de achar? ― Tudo é possível neste mundo de Cristo, como a senhora mesma costuma dizer. Se quer experimentar a minha habilidade de achar coisas... ― Pois procure. Quem a impede disso? 27
EDITORA OLYMPIA ― Quanto me paga? ― Interesseira! Pago o que você quiser. Um tostão, por exemplo. Emília deu uma risada gostosa. ― Tinha graça! Era só o que faltava eu procurar óculos para ganhar um tostão! Meu preço é Cr 3,00. ― Você está louca? Não sabe que Cr$ 3,00 é quase o preço de um par de óculos novos? ― Não sei, nem quero saber. Só sei que meu preço para procurar óculos de velha é Cr$ 3,00 ― e em notas novas. Se quer, bem; se não quer... ― Quero, quero ― respondeu dona Benta já meio danada. – E quero também que vá brincar e não me atormente mais. Emília saiu a procurar os óculos por todos os cantos e dali a cinco minutos gritava: ― Achei, achei o fujão! ― e veio correndo, a sacudir os óculos no ar. Dona Benta abriu a boca, de espanto. ― Onde estavam, Emília? ― Dentro do bolso de sua saia de gorgorão amarelo. Dona Benta abriu ainda mais a boca. Não podia compreender aquilo. Havia muito tempo que não punha aquela saia; como, pois, os óculos tinham ido parar lá, e logo no bolso? Mistério... ― Agora passe―me para cá os três cruzeiros em notas novas.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Promessa é dívida ― como diz tia Nastácia. Dona Benta não teve remédio. Foi ao baú, escolheu três notas novas e deu―as à boneca. Emília dobrou―as, bem dobradinhas, e foi correndo procurar o menino que já havia voltado da floresta. ― Pronto! Aqui está o dinheiro! Passe―me um tostão de troco. Pedrinho arregalou os olhos, assombrado, e apalpou as notas para ver se eram verdadeiras. Depois tirou um tostão do bolso e deu―o à boneca. ― Não aceito tostão velho e feio ― disse Emília torcendo o nariz. ― Quero um novo, alumiando. Pedrinho teve de procurar pela casa inteira um tostão novo e teve também de consertar uma das rodas do carro de carretel, que estava solta. Só depois disso é que Emília entregou o dinheiro. ― Para que quer tostão, Emília? Dinheiro de nada vale para quem é boneca. ― Quero para rodar ― respondeu ela ― e saiu, muito contente da vida, rodando o tostão pela sala. Enquanto isso, dona Benta e tia Nastácia cochichavam na cozinha a respeito do estranho acontecimento. ― Foi cavorteiragem dela, sinhá! ― dizia a preta. ― Emília está ficando sabida demais. Juro que foi ela quem escondeu os seus óculos para apanhar os cobres. A gente vê cada coisa neste mundo! Uma bonequinha que eu mesma fiz, e de um pano tão ordinário, tapeando a gente desta maneira! Credo!... 29
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O circo A construção do circo deu muito trabalho. Pedrinho tinha de fazer tudo, mas o pior era abrir buracos para fincar os esteios e o mastro. E quantos buracos. Mais de trinta. Suou que não foi brincadeira; chegou a criar calos d'água nas mãos. Emília, que de vez em quando vinha sapear as obras, deu―lhe uma ideia. ― Eu, se fosse você, arranjava um tatu para fazer esses buracos. Os tatus são melhores do que cavadeira para buracos bem redondinhos. ― E eu, se fosse você ― respondeu o menino de mau humor – ia pentear macacos. Emília pôs―lhe a linha e começou a brincar com o carro de carretel. Atrelou nele o cavalo de rabo de pena, botou o tostão dentro e disse de brincadeira: “Agora, senhor cavalo, vá correndo ao palácio do rei e entregue―lhe este queijo de prata, que eu mando. Ao palácio do rei, não; ao palácio do príncipe. Ao palácio do príncipe, não; ao palácio do duque. Ao palácio do duque, não; ao palácio do marquês. Ao palácio do... Abaixo de marquês o que é, Pedrinho? Perguntou ela, já esquecida da zanga. Mas o menino não estava para prosa, porque justamente naquele instante havia dado uma martelada no dedo. ― É martelo ― respondeu assoprando a machucadura. ― Martelo, martelo! Como é bonito! Por que você não vira o marquês de Rabicó em martelo?
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS ― E por que você não vai lamber sabão, Emília? A boneca botou―lhe a língua outra vez e foi queixar―se a Narizinho lá dentro. A menina estava justamente acabando o sol da roupa do palhaço; ia começar o saiote da dama que corre no cavalo. ― Aquele bobo! ― disse a boneca fazendo um muxôxo.― Dei lhe uma ideia tão boa e o bobo me mandou lamber sabão. Bobão! ― Pedrinho, quando está trabalhando, não gosta que ninguém o atrapalhe, você sabe. ― Mas eu... ― Cale a boca e venha me ajudar na costura. Estou acabando este sol para começar o saiote com que você vai correr no cavalo. ― Que bom! Mas eu também quero um sol atrás. Narizinho deu uma risada. ― Isso é um despropósito, Emília! Sol, só os palhaços usam. Você, quando muito, poderá ter uma lua. ― Lua cheia ou minguante? ― Acho que quarto crescente fica melhor. Emília bateu o pé. ― Quarto não quero. Quero sala crescente! A menina riu―se de novo e abraçou―a, dizendo: ― Assim, é assim que gosto de você, Emília. Bem asneirentazinha ― e não sabichona como tem andado ultimamente. 31
EDITORA OLYMPIA Asneira de boneca é a única coisa interessante que há neste mundo. ― E no outro mundo? ― No outro há muitas. Há fadas, ninfas, sacis, sereias e há o famoso Peter Pan que Faz―de―conta ficou de convidar. ― E ele vem? ― Não sei, mas acho que vem. Peter Pan me parece um grande moleque ― e os moleques gostam muito de circo. A conversa das duas continuou naquela toada por longo tempo. Enquanto isso Pedrinho fez os últimos buracos e começou a fincar os paus. Finca que finca, bate que bate, soca que soca ― três dias levou na luta suando que nem vidraça em manhã de frio lá fora. O circo foi tomando cara de circo de verdade e quando Pedrinho armou o pano, ficou tal qual o Circo Spinelli. A alegria do menino foi imensa. Botou as mãos no bolso e extasiou―se diante de sua obra, cheio de orgulho. Depois gritou: ― Gentarada, venham ver! Todos se reuniram no terreiro e admiraram a obra e bateram palmas. ― É extraordinário! ― disse dona Benta à preta. ― Este meu neto vai quando crescer virar um grande homem, não resta dúvida. ― É o que eu sempre digo, sinhá ― confirmou tia Nastácia.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS ― Pedrinho é um menino que promete. Na minha opinião, ainda acaba delegado. Ser delegado de polícia era para tia Nastácia a coisa mais importante que um homem podia ser ― “porque prendia gente” ― explicava ela. Depois de construído o circo, começaram os ensaios. Pedrinho e a menina lá se trancaram com os artistas, não consentido que ninguém os fosse espiar. Maroto havia chegado e já estava no serviço de montar guarda à porta, para que nem dona Benta, ou a preta pudessem aproximar―se. Maroto tinha ordem de latir, de morder não. Terminados os ensaios da primeira parte, Pedrinho cuidou da pantomima. Foi um custo! Essa pantomima tinha sido imaginada por Pedrinho de um certo jeito mas como todos metessem o bedelho saiu uma mexida completa. Emília fez questão de dar o título ― e deu um título muito sem pé nem cabeça: O FANTASMA DA ÓPERA. ― Phantasma, Emília, corrigiu Narizinho. PH é igual a F, como você pode ver nesta caixa de “phosphoros”. Ninguém lê FÓSFORO. ― Sei disso muito bem ― replicou a boneca. ― Mas quero que seja Fantasma, se não saio da companhia e não empresto o meu cavalinho, nem o meu carro, nem o meu tostão novo. ― Como é birrenta! A gente quando quer uma coisa precisa dar as razões e não ir dizendo quero porque quero. Isso só rei é que faz.
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EDITORA OLYMPIA ― Mas eu tenho minhas razões ― tornou Emília. – Fantasma nada tem que ver com fantasma. Fantasma é uma ideia que tenho na cabeça há muito tempo, de um bicho que até agora ainda não existiu no mundo. Tem olhos nos pés, tem pés no nariz, tem nariz no umbigo, tem umbigo no calcanhar, tem calcanhar no cotovelo, tem cotovelos nas costelas, tem costelas no... ― Chega! ― berrou a menina tapando os ouvidos. ― Não precisa contar o bicho inteiro. Fica Fantasma, como você quer. Mas esse ÓPERA, que é? ― Não sei. Acho ópera um nome bonito e por isso o escolhi. Se você faz muita questão, eu tiro o ER e fica o FANTASMA DA OPA. É o mais que posso fazer. Os dois primos se entreolharam. ― Acho que ela está ficando louca ― cochichou Pedrinho ao ouvido da menina.
Chegam os convidados Bum! Bum! Bum! Chegou afinal o grande dia. O terreiro estava enfeitado de bandeirolas e arcos de bambu. Às sete e meia ia começar o espetáculo. O diretor sentou―se à porta do circo para esperar os convidados. Dali a pouco a porteira do terreiro ringiu e apareceu o doutor Caramujo, muito sério, de casca nova, carregando a sua maleta debaixo do braço. Contou que vinha muita gente do reino das Águas Claras, menos o príncipe Escamado. ― Por que não vem o príncipe? ― indagou Narizinho. 34
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS ― Porque o príncipe já não existe mais ― murmurou o médico baixando os olhos. ― Como não existe mais? Que aconteceu? Fale!... ― Não sei o que aconteceu. Mas depois daquela viagem ao sítio de dona Benta, o nosso amado príncipe nunca mais voltou ao reino. Narizinho recordou―se da cena. Lembrou―se de que o falso gato Félix havia aparecido para avisá―la de que o príncipe estava se afogando por ter desaprendido a arte de nadar. Lembrou―se de que correra ao rio para salvá―lo, mas nada encontrou. Ter―se―ia mesmo afogado? ― Acha que ele morreu afogado, doutor? ― Isso é absurdo, menina. Um peixe nunca desaprende a arte de nadar. O que aconteceu, sabe o que foi? ― Diga... ― Foi comido pelo falso gato Félix, aposto. O choque sentido pela menina foi enorme, e não caiu com um desmaio unicamente porque os convidados estavam chegando e isso estragaria a festa. Mesmo assim puxou do lenço para enxugar três lágrimas bem sentidinhas. Nisto a porteira ringiu. Era dona Aranha com as suas seis filhas. Narizinho fez―lhes grande festa, e contou que tinha estado com Branca de Neve e mais outras princesas para as quais dona Aranha havia costurado. 35
EDITORA OLYMPIA ― Branca de Neve ainda é muito branca? ― perguntou a famosa costureira. ― Cada vez mais ― respondeu a menina. ― Até dói na vista olhar para ela. Em seguida chegaram os dois Bernardos Eremitas ― o que havia casado Narizinho e o que conduzira a salva com a coroa do príncipe. E chegaram os siris couraceiros, e chegou o Major Agarra. De repente soou um mio ao longe. ― Será o falso gato Félix? ― disse Pedrinho. Se ― for aquele patife, meu bodoque vai ter trabalho. Mas não era, e sim o Gato Félix verdadeiro. Pedrinho ia fazendo as apresentações e acomodando os convidados nos seus lugares. Não houve nenhum que não pedisse notícias de Rabicó, do visconde e do João Faz―de―conta. A resposta do menino era sempre a mesma: “Eles são agora artistas do circo e estão se vestindo para a função.” ― E há cocadas? ― quis saber o Gato Félix. ― Cocadas só no intervalo ― respondeu Emília. ― São de três qualidades. Umas brancas como neve, outras cor―de―rosa como rosa cor―de―rosa, outras queimadinhas como rapadura. Tia Nastácia é uma danada para toda sorte de doces e quitutes. Só não sabe fazer bonecos de pau. Faz―de―conta saiu tão feio que não tem coragem de aparecer para ninguém. Chegada a hora de se acenderem os lampiões, entrou no picadeiro um “casaca―de―ferro”. Era o pobre Faz―de―conta, 36
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS com a sua ponta de prego furando as costas da casaca verde que a menina lhe havia feito. Fiz uma vaia. ― Olha o arara! ― gritou o capitão dos couraceiros. ― Arranca o prego! ― urrou o sapo major. O pobre boneco, que tinha muito bom génio, não fez caso. Arrumou os lampiões muito bem, deixando o circo tão claro como o dia. Nisso um dos Bernardos berrou: ― Palhaço! Que venha o palhaço! Todos o imitaram ― e foi um berreiro de deixar a gente surda. Pedrinho teve de aparecer para explicar que ainda não tinham chegado os convidados do País das Maravilhas. A explicação causou muita alegria, porque nenhum dos presentes esperava que o pessoal do reino das fadas também viesse. E essa alegria se transformou em surpresa quando o primeiro deles apareceu. Era o Aladino, com sua lâmpada maravilhosa na mão. Chegou e foi trepando às arquibancadas, como se fosse um velho frequentador de circos. Depois chegou o Gato de Botas junto com o Pequeno Polegar – e todos bateram palmas. Depois veio a Menina da Capinha Vermelha. E vieram Rosa Branca e sua irmã Rosa Vermelha. Rosa Vermelha apresentou―se de cabelo cortado, moda que as princesas do reino das fadas nunca usaram. Foi reparadíssimo aquilo; não houve quem não comentasse. Depois veio Ali Babá sem os quarenta ladrões, e vieram Alice de Wonderland, e Raggedy Ann e quase todos que existem. 37
EDITORA OLYMPIA ― Que maçada! ― murmurou Pedrinho. ― Justamente o que eu mais queria que viesse, não veio ― Peter Pan... ― Talvez ainda venha ― disse Narizinho. ― Ele gosta de fazer tudo diferente dos outros. Era hora de começar o espetáculo; o respeitável público já estava dando sinais de impaciência. ― Palhaço! ― gritava volta e meia o Pequeno Polegar. Nisto um cachorro principiou a latir furiosamente lá fora, como se estivesse dando um pega nalguém. Os espectadores fizeram silêncio, com as orelhas em pé, à escuta. Ali Babá trepou ao último banco para espiar por uma fresta do pano. ― Que é, Ali? ― perguntou Aladino, que estava embaixo arrumando a sua lâmpada. ― É Pedrinho que atiçou o cachorro num sujeito muito feio, de barba azul como um céu. ― Barba Azul! ― exclamaram as princesas assustadas. – Cada vez que pomos o pé no sítio de dona Benta esse malvado aparece. Não o deixem entrar!... Houve um rebuliço. Aladino pegou na lâmpada para chamar o Génio. Não foi preciso. Pedrinho surgiu em cena, já vestido de diretor de circo, e disse: ― Calma! Calma! Não se assustem! O monstro já vai longe. Maroto ferrou―lhe uma dentada na barba, que até arrancou um chumaço ― e mostrou um punhado de barba de Barba Azul. Todos vieram ver e cada qual levou um fio como lembrança. 38
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS ― Palhaço! ― gritou de novo o Pequeno Polegar. ― Cocada! ― miou o Gato Félix. Pedrinho resolveu começar o espetáculo e deu sinal, batendo com um martelo numa enxada velha, pendurada de um barbante ― blem, blem, blem...
O espetáculo A alegria no circo era imensa. Ainda que o espetáculo não valesse nada, todos se dariam por bem pagos da viagem pelo simples prazer da reunião. Os convidados do reino das Águas Claras estavam radiantes de se verem com os famosos personagens que até ali só conheciam através dos livros de histórias. E estes, como fazia muito tempo que não vinham à terra, estavam satisfeitíssimos de se verem em companhia de crianças de carne e osso. Já soara o terceiro sinal e nada do espetáculo ter começo. O “respeitável público” ia ficando irritado. Narizinho achou que o melhor era começar imediatamente. ― Não posso antes de vovó chegar ― alegou Pedrinho. ― Está se arrumando ainda. Como as princesas vieram, vovó teve de mudar de vestido e está passando a ferro aquele de gorgorão do tempo do Imperador. Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, por ser preta. ― Que não seja boba e venha ― disse Narizinho. ― Eu dou uma explicação ao respeitável público. Afinal as duas velhas apareceram ― dona Benta no vestido de gorgorão, e Nastácia num que dona Benta lhe havia emprestado. 39
EDITORA OLYMPIA Narizinho achou conveniente fazer a apresentação de ambas por haver ali muita gente que as desconhecia. Trepou a uma cadeira e disse: ― Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso cónego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a princesa Anastácia. Não reparem ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando―a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virara uma linda princesa loura. Todos bateram palmas, enquanto as duas velhas se escarrapachavam nas suas cadeiras especiais. ― Palhaço! ― gritou o Pequeno Polegar. ― Podemos dar começo ― disse Pedrinho à menina. ― Vá preparar a Emília que eu vou cuidar do palhaço. Como o primeiro número do programa era uma corrida a cavalo da Emília, Narizinho deu―lhe os últimos retoques e fez―lhe as últimas recomendações. Pela primeira vez na vida a boneca mostrava―se um tanto nervosa. Blem, blem, blem, soou a enxada. Era hora. Uma cortina se abriu e a boneca entrou em cena montada no seu cavalinho de rabo de galo. Foi recebida com uma chuva de palmas. Emília fez uma graciosa saudação de cabeça, atirou uns beijinhos e começou a correr. Correu várias voltas, umas sentada de banda, outras, de pé num pé só.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS ― Que danada! ― exclamou dona Benta. ― Nunca pensei que Emília se saísse tão bem; até parece o Tom Mix... Tia Nastácia apenas murmurou “Credo”! e persignou―se. Quando chegou o momento de pular os arcos, surgiu lá de dentro Faz―de―conta com dois deles na mão. Coitado! Estava mais feio do que nunca na roupa de cow―boy que Narizinho lhe arranjara. Aladino virou se para o Gato de Botas e disse: “Este é que é o verdadeiro Cavaleiro da Triste Figura”, e o Pequeno Polegar berrou: “Arranca o prego, bicho careta!” Aquele prego de Faz―de―conta, cuja cabeça aparecia quando ele estava sem chapéu e cuja ponta furava as costas de todos os seus casacos, era um eterno assunto de discussão no sítio. Pedrinho achava que deviam chamar o doutor Caramujo para operá―lo, cortando com a sua serrinha o extravagante apêndice. Mas a menina era de opinião que tal ponta de prego constituía a única arma do coitado. Além disso, era um bom cabide que ela costumava utilizar nos seus passeios com a boneca. Para pendurar coisas leves, como chapéu ou o guarda―chuvinha da Emília, nada melhor. E em vista dessa utilidade a ponta de prego ia ficando nas costas do coitado. Faz―de―conta não ligou importância às troças que o público fez à custa dele. Trepou num banquinho e segurou com toda a convicção o arco de papel vermelho que Emília ia pular. A boneca botou o cavalo no galope, correu duas voltas e na terceira ― zupt! deu um salto. Os espectadores romperam em palmas delirantes. O segundo arco era de papel azul e o terceiro, de papel verde. Emília pulou com a mesma habilidade o azul; mas ao pular o verde houve desastre. 41
EDITORA OLYMPIA Imaginem que o cavalinho entendeu de pular também! Pulou, não há dúvida, mas o seu rabo de pena enganchou no prego de Faz―de―conta, onde ficou dependurado. Quando o público viu que o rabo de pena havia passado do cavalinho para o cabide do boneco, foi uma tempestade de gargalhadas. Não percebendo o que havia acontecido, Faz―de―conta recolheu―se aos bastidores balançando ao vento aquele penacho. Emília também não percebeu o desastre, e julgando que as risadas e vaias eram para ela, parou, vermelhinha como um camarão, e botou uma língua de dois palmos para o público. E recolheu―se furiosa. ― Não brinco mais! ― disse lá nos bastidores, arrancando e espatifando o saiote de gaze. ― Não sou palhaço de ninguém. Foi um custo para Narizinho explicar o que havia acontecido e provar que a vaia tinha sido no cavalo e no boneco, não nela. A raivosa Emília voltou―se então contra o pobre Faz―de―conta. ― Estrupido! Onde se viu tamanho homem andar de fisga nas costas, feito anzol? ― Que culpa tenho? ― gemeu o feiúra tristemente. ― Nasci assim... ― Pois não nascesse! ― rematou a boneca ― e por força do hábito pendurou―lhe na ponta do prego o esfrangalhado saiote de gaze.
O desastre Pedrinho estava numa terrível aflição. O visconde havia desaparecido misteriosamente e o público não cessava de reclamar o palhaço. O menino não podia explicar a si próprio o 42
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS estranho acontecimento. Deixara o visconde, já vestido, num canto dos bastidores, prontinho para entrar em cena logo que Emília acabasse de correr ― e não havia meio de descobrir o visconde. Isso o obrigou a alterar a ordem do espetáculo. ― Ande, Faz―de―conta ― disse ele ao boneco ― vá engolindo espadas enquanto eu campeio o visconde ― e empurrou―o para dentro do picadeiro. Faz―de―conta entrou com um feixe de espadas debaixo de um braço e uma lata de brasa debaixo do outro. Foi colocar―se bem no meio do picadeiro, num tapetinho que havia. E começou a engolir espadas. Fez o serviço tão bem feito que o público esqueceu a feiúra dele e rompeu em palmas. Depois de engolida a última espada, começou a comer fogo, e glut, glut, glut, deu conta de todas as brasas da lata. Ao comer a última, porém, esbarrou nela com a ponta do nariz (que, como todos sabem, era formado por um pau de fósforo) e pegou fogo. Foi uma sensação! O público desandou num berreiro. ― Incêndio de nariz! ― gritava o Polegar. ― Chamem o corpo de bombeiros! Aladino, Ali Babá, o Gato―de―Botas e outros pularam no picadeiro para socorrer o incendiado. Mas foi inútil. O nariz de Faz―de―conta já estava totalmente destruído, só restando um toquinho de carvão... O curioso é que o boneco melhorou bastante de aspecto. Ficou bem menos feio, porque sua feiúra era causada principalmente por aquele horrível nariz de fósforo que tia Nastácia lhe havia espetado na cara. Faz―de―conta foi levado para dentro e o público, chefiado pelo Pequeno Polegar, 43
EDITORA OLYMPIA continuou a pedir palhaço. E como Pedrinho não conseguisse encontrar o visconde, teve de aparecer com explicações. ―Respeitável público! ― disse ele. ― Uma grande desgraça aconteceu. O nosso famoso palhaço Sabugueira acaba de desaparecer misteriosamente. Com certeza algum malvado o raptou, de modo que não há mais palhaço. Também não há mais pantomima. A grande estrela Emília, que desempenhava o papel principal, está emburrada e recusa―se a representar. Em vista desses contratempos vou terminar o espetáculo com a SURPRESA! Uns espectadores bateram palmas; outros assobiaram e o Gato Félix gritou: ― Cocadas, ao menos! Nisto entrou a SURPRESA. Era ― adivinhem se são capazes! era um elefante, o menor elefante do mundo, como Pedrinho foi dizendo enquanto arrumava no picadeiro as garrafas sobre as quais o elefantinho ia caminhar. Um verdadeiro sucesso, a surpresa! Era um elefante tão perfeito que até parecia natural ― com tromba, presas de marfim e grandes orelhas caídas. Deu umas voltas pelo picadeiro, naquele andar sossegado dos elefantes grandes e depois começou a caminhar, com muito medo, sobre as garrafas que Pedrinho colocara de jeito. ― Berra, elefante! ― gritou Polegar. O elefante obedeceu e berrou três vezes com toda a força. Mas berrou numa voz muito parecida com voz de porco. Maroto, que estava lá fora tomando conta do circo, ouviu o berro e ficou de orelha em pé. Depois entrou por baixo do pano para ver o que era. Ao dar com aquele bicho nunca visto, pôs―se a latir 44
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS furiosamente e avançou contra ele de dentes arreganhados. Tamanho susto levou o elefante, que tremeu em cima das garrafas e veio ao chão. Maroto agarrou―o e sacudiu―o, e tanto o sacudiu que a pele do elefante se rasgou pelo meio deixando escapar de dentro ― coin, com, com ― um animal que ninguém esperava: o senhor marquês de Rabicó!... Foi um sucesso! O circo quase veio abaixo de tanta vaia e gritaria. Pedrinho coçou a cabeça; depois danou e caiu de pontapés no Maroto, enquanto Rabicó fugia para o terreiro. Para salvar a situação Narizinho entrou no picadeiro com um cabo de vassoura de tabuleta na ponta, onde se lia em enormes letras vermelhas: INTERVALO. ― Intervalo tem dois LL! ― gritou o Pequeno Polegar, que era partidário da ortografia antiga, a complicada. Mas ninguém lhe deu atenção. Todos cuidaram de descer o mais depressa possível, de medo que as cocadas não chegassem. Tia Nastácia, no seu vestido do tempo da Sinhá Moça, ergueu a toalha que cobria o tabuleiro e começou a distribuição. ― Quero uma branca, duas cor―de―rosa e três queimadas! ― foi dizendo o Gato Félix. Enquanto isso, o Gato de Botas argumentava com Pedrinho a respeito do misterioso desaparecimento do visconde. ― Juro que foi Peter Pan quem o raptou ― dizia o gato. – Peter Pan é muito amigo de pregar peças. Veio aqui às ocultas e “bateu” o palhaço. Garanto que não foi outra coisa. Mas não era nada disso. Era apenas o seguinte. O visconde havia encontrado uma Trigonometria velha que pertencera ao cónego Encerrabodes e Pedrinho pusera como calço dum dos esteios 45
EDITORA OLYMPIA do circo. Tamanha foi a sua satisfação, que arrancou o livro dali e saiu de braço dado com ele para um passeio pelos arredores. E por lá ficaram até o dia seguinte, a conversar sobre “senos” e “co―senos”. ― Como isso, se o doutor Caramujo havia curado o visconde da sua mania científica? Muito simples. Havia curado, mas não havia curado completamente. Deixara em sua barriga algumas letras para semente e foi o bastante para que a festa de Pedrinho acabasse naquele fiasco. Não há nada mais perigoso do que semente de ciência...
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Retalhos da infância
Ana Maria Coelho Carvalho Como escreveu Cora Coralina, nós somos feitos de retalhos, de pedaços coloridos de cada vida que passa pela nossa e que vamos costurando na alma. Nem sempre são felizes, nem sempre são bonitos, mas sempre acrescentam algo e fazem de nós o que somos. Em cada retalho, uma lição, um carinho, uma saudade, uma lembrança que nos torna mais pessoas, mais humanos, mais completos. E de retalho em retalho, tornamo―nos um imenso bordado de nós mesmos. Na minha colcha de retalhos, os que mais gosto são os acrescentados pelas crianças da minha vida. São retalhos bem coloridos, divertidos e originais. Por exemplo, há um retalho acrescentado pela Lia, minha netinha que mora nos States. Ela é uma artista: faz desenhos e artes incríveis, combina as roupas como uma estilista, confecciona cartões lindos todo dia para o pai, enfeita a casa com bilhetes coloridos, faz toucas e cachecóis de crochê. Uma graça. Mas, quando ela perdeu seu primeiro dentinho de leite, foi uma confusão. No começo, com o dente bem mole, estava entusiasmada esperando a chegada da fadinha do dente que iria pegar o dentinho debaixo do travesseiro e trocá―lo por uma nota de cinco dólares. No entanto, quando a fadinha chegou na calada da noite e fez exatamente isso, Lia caiu em prantos na manhã seguinte. Queria o dentinho de volta para guardá―lo para sempre. Então, tentou cativar a fadinha. Fez uma espécie de altar para ela, com flores, guloseimas, bugigangas e escreveu uma
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EDITORA OLYMPIA cartinha (com alguns errinhos de inglês) pedindo o dentinho de volta. A fadinha aceitou. Depois veio a confusão do terrário. Tudo começou quando estive lá e construímos nós três ― ela, o irmão Enzo e eu― um terrário fechado para observar aranhas, minhocas, insetos, a formação da chuva e o crescimento das plantinhas. Eles adoravam coletar os animais e colocar dentro do terrário, mas Lia ficou com pena das minhocas, remexeu a terra e soltou todas. Antes, porém, fez uma casinha de folhas e barro para elas. Enzo ficou indignado. O problema piorou no dia em que foram ao parque e encontraram um besouro bonito, grande e preto, de asas luzidias. O pai teve que carregar o inseto na mão por vários quarteirões. Lia não quis colocá―lo dentro do terrário; preferiu montar um local especial para ele, decorado com pedrinhas, flores e grama. O Enzo ficou bravo novamente. A mãe foi apaziguar a briga e dar uma olhada no besouro, todo confortável no seu recanto florido. E, surpresa: na verdade era uma barata― e das grandes! Foi a vez de ela ficar brava e indignada com o marido, que nem conhecia uma barata e ainda levara uma para dentro de casa. Ele, por sua vez, ficou com nojo de ter carregado a barata na mão. Lia caiu em prantos novamente porque não queria que matassem a barata. Depois que os ânimos se acalmaram, optaram por soltá―la no parque onde a haviam encontrado. Minha outra netinha, Maíra, também é uma graça e sempre acrescenta retalhos coloridos à minha colcha. No almoço do Dia das Mães, estávamos quatro mães reunidas para tirar a foto 48
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clássica quando ela chegou rapidamente e se posicionou bem à frente do grupo para aparecer na fotografia. A turma, indignada, pediu que ela saísse, pois não era mãe. Ela respondeu que era uma futura mãe e não arredou pé. Foi, inclusive, a mais sorridente do grupo. Enfim, parafraseando a poetisa, é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E nunca estaremos prontos e acabados, pois sempre haverá um retalho novo a ser acrescentado à alma. Oxalá nossas colchas de retalhos fiquem bem bonitas e coloridas, com muitos retalhos acrescentados pelas crianças de nossas vidas.
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Uma tarde na Avenida 97
Andréa Brandão O ano era 1977. Em Capinópolis, pequena cidade do interior de Minas Gerais, as tardes pareciam mais longas. O sol dourava os paralelepípedos da Avenida 97, uma rua simples, de poucas casas com calçada, onde a vida seguia tranquila e o tempo caminhava devagar. Assim que a escola terminava e o calor diminuía um pouco, a rua ganhava nova vida. Crianças surgiam de todos os lados, correndo, sorrindo, chamando umas às outras. Era como se a própria avenida nos convidasse para mais uma tarde de aventuras. Nosso destino era sempre o mesmo: a casa do Sr. João e da Dona Lourdes. Eles não tinham filhos e moravam na casa mais bonita da rua. O alpendre amplo, os bancos de madeira, os dois mastros nos cantos e a calçada espaçosa transformavam aquele lugar em um espaço especial aos nossos olhos. O que para eles era apenas a frente de casa, para nós era um reino encantado. Ali acontecia de tudo.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Brincávamos de pique, de amarelinha, de roda. Fazíamos concursos de dança, apresentações musicais improvisadas, desfiles imaginários e desafios que só existiam em nossas cabeças. Com algumas pedrinhas, um pedaço de barbante ou alguns simples riscos no chão criávamos universos inteiros. Éramos muitos. Talvez dez, talvez mais. E, embora os dias nunca fossem iguais, aquele encontro era sagrado. O ponto principal das brincadeiras ficava bem diante da porta da casa. Ali nos reuníamos, conversávamos, planejávamos nossas aventuras e ríamos sem preocupação alguma. O tempo passava tão rápido que mal percebíamos o céu mudando de cor. Então vinha o momento mais esperado — ou mais temido. A maçaneta girava. A porta se abria lentamente. E, num instante, a criançada desaparecia. Cada um corria para um lado, como passarinhos assustados. Em poucos segundos, o alpendre ficava vazio e silencioso. Nós acreditávamos que enganávamos os donos da casa, que nossa fuga era rápida demais para ser percebida. Mas a verdade era outra. Sr. João e Dona Lourdes sabiam de tudo.
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EDITORA OLYMPIA Sabiam das corridas, das gargalhadas, das cantorias e da algazarra que tomava conta da frente de sua casa todas as tardes. Sabiam que havíamos transformado aquele espaço em nosso pequeno mundo particular. E permitiam. Hoje entendo que aquela tolerância era uma forma silenciosa de carinho. Eles só apareciam quando o cansaço pedia descanso ou quando a noite já se aproximava. Nunca vinham com broncas. Apenas surgiam à porta com um sorriso discreto e um olhar sereno, avisando que estava na hora de cada um voltar para casa. Logo depois, outro chamado ecoava pela avenida. Eram as vozes das mães. Uma aqui, outra ali, todas anunciando o mesmo fim de tarde: — Já pra dentro! Hora do banho e da janta! A rua, então, se esvaziava aos poucos. As luzes das casas se acendiam, os portões se fechavam e mais um dia terminava. Muitos anos se passaram desde aquelas tardes na Avenida 97. Hoje percebo que aquela história nunca foi apenas sobre brincadeiras, e sim sobre generosidade. Sobre dois adultos que, mesmo sem filhos, abriram espaço para que a infância florescesse diante de seus olhos. 52
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Sem saber, Sr. João e Dona Lourdes nos ofereceram muito mais que uma calçada ou um alpendre. Deram―nos um lugar para sonhar. E naquela rua simples de Capinópolis, entre poeira, paralelepípedos, gargalhadas e o chamado distante das mães, aprendemos que a verdadeira riqueza da infância estava na capacidade de transformar quase nada em tudo. Talvez por isso, quando fecho os olhos e volto à Avenida 97, ainda consigo ouvir os risos ecoando pelo alpendre marcado com pés descalços e empoeirados. E por um instante, volto a ser criança.
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Bolhas de sabão
Aparecida Jagger A menina e o canudinho feito do pé de mamão, um copo com água e sabão... E lá se vão as bolhas. Azul,amarela, verde, vermelha, multicolorida. A luz do sol atravessa a bola e ela muda de cor. A menina e o canudinho... O dia todo para pintar o céu com as bolhas mais bonitas que se pode fazer. Bolhas de amor, de imaginação, de infância. Os pés no chão, a mãe gritando: “Menina, vem colocar um chinelo!” Mas, as bolhas não deixam... Chega o Joãozinho, a Mariazinha, o Pedrinho e toda a meninada. E agora são vários meninos e meninas, muitos canudinhos feitos com do pé de mamão, muitos copos, tão coloridos quanto as bolhas de sabão. Tantas risadas, tantos gritinhos de alegria. Ah, infância! Que delícia! Que parte mais linda da vida!
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS E quando se brinca, com uma coisa tão simples, memórias maravilhosas são construídas. A menina descalça, os amigos e amigas também. Pés no chão, cabeça nas nuvens e uma promessa de uma vida passageira, alegre e colorida, tão qual uma bolha de sabão.
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O baú de Pandora
Artur Monteiro Havia tempos que eu não me fazia presente na casa amarela da rua Caiçara, onde morava o Seu Honório Dantas. Isso pode parecer estranho, já que eu passava lá todo último domingo do mês. Religiosamente. Mas “dar uma passada” não era o mesmo que viver ou sentir aquele lugar. E eu sabia bem disso, porque ali eu tinha vivido os melhores momentos da minha infância. Antes, aquela casa era o meu Sol. Agora, só mais um amarelo desbotado. Seu Honório – ou, como eu o chamava, vô Binho – foi um respeitado farmacêutico da pequena São Lucas do Norte. Todo mundo o conhecia, e não havia quem não viesse pedir um remedinho, uma erva milagrosa, um conselho. Por isso, a casa era muito benquista e vivia cheia de graças, bênçãos, histórias de remissão – e de crianças. Meu avô, legítimo, era também vô de toda a meninada do bairro. Mas agora ele se foi. Estava deitado na sala, à vista de todos. Sereno. Rodeado de flores e de pessoas – algumas assíduas outras raras. Em meio aos burburinhos e relatos paralelos de causos, as pessoas me diziam que o tempo era mesmo implacável e que o desenlace foi, provavelmente, o melhor possível. Eu assentia, em silêncio. Mas, mesmo resignada, sentia um peso no peito e decidi me afastar por um momento.
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Fui ao sótão – ou o “quartinho da bagunça”, como chamávamos quando criança. Visualmente cataloguei a desordem ordenada e mexi um pouco nas coisas: afastei caixas, abri portas de armários a esmo, limpei com os dedos poeiras há muito decantadas... Até que, em um canto, vi um baú carcomido, mas ainda firme. “Relíquias de Dora”, lia―se na lateral, escrito com a letra inconfundível do vô Binho. No instante em que o abri, a voz de Beto Guedes, ao longe, embalou o momento: “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração...” Alguém devia ter encontrado os vinis do meu avô. Reconheci o ruído abafado da gravação. Nostálgico. Continuei a explorar minhas relíquias. Do topo, recolhi um tamagotchi verde, arranhado. A tela morta – tão morta quanto o bichinho – agora fazia companhia ao meu avô. Alimentar, limpar, brincar, pôr para dormir... tudo era tão mais simples. Mesmo nas opções mais limitadas ou gráficos pixelados, a diversão parecia mais intensa do que nos games modernos de skins digitais e mundos infinitos. Abaixo dele, encontrei um ioiô que, no auge, brilhava enquanto eu tentava domar truques impossíveis – “cachorrinho”, “torre Eiffel”, “volta ao mundo”. Ao lado, um punhado de tazos de personagens de um desenho famoso espalhou―se pelo baú, como se disputassem espaço no recreio. Lembrei da febre dos salgadinhos, da caça aos prêmios raros, das coleções, das trocas com os colegas e das batalhas de bafo 57
EDITORA OLYMPIA na escola; lembrei também da espera: aquele desenho só passava às cinco e meia, nas terças e quintas, ao contrário de hoje, quando tudo cabe num clique, a qualquer momento. Mais ao fundo, uma bola murcha repousava, aposentada. Bastou segurá―la para ouvir, como ecos do passado, os gritos de “pare―bola!”, “três cortes!”, “valendo!”. A rua era nosso estádio: meninos e meninas se misturavam, chinelos viravam traves improvisadas, as disputas corriam até o tampo do dedão abrir ou a mãe gritar da janela que a janta estava pronta. Tudo diferente de agora, cujos treinos são em escolinhas com horários, uniforme e mensalidades – e menos liberdade para inventar um gol que só valia se ninguém tivesse visto a mão. No fundo o baú, quase escondida, uma lata de óleo amassada com um band―aid pregado na lateral. Sorri. Lembrei dos nossos campeonatos de bete na rua. Lembrei do dia em que, na final de um verão qualquer, corri mais do que as pernas permitiam, tropecei feio e ralei o joelho no asfalto quente. Vô Binho me carregou para dentro, limpou o machucado com mertiolate – que ardia mais do que a derrota – e selou tudo com aquela tira torta. “Pronto, Dora. Agora já pode voltar pra ganhar”, ele disse. E eu acreditei – mas não ganhamos. A cada objeto, eu libertava um pedaço esquecido de mim. Fechei o baú. Meus olhos marejaram com aquela lembrança quentinha do vô Binho. Quando desci, encontrei meu filho no sofá, celular em mãos, vibrando de alegria: — Mãe, consegui passar daquele desafio impossível!
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Olhei para ele e, por um instante, vi refletida em seu sorriso a menina que eu tinha sido – só que com outras ferramentas, outras telas, outras ruas. Abracei―o. A música me presenteava com seu verso derradeiro – “... toda vez que o adulto fraqueja, ele vem para me dar a mão” – quando uma verdade me atingiu: a infância não estava perdida; só tinha mudado de forma, insistente, pulsando, com o mesmo passaporte para as aventuras, a mesma alegria das descobertas, brilho das conquistas e o mundo inteiro cabendo em gestos pequenos. Continuava, enfim, a ser o melhor jeito de se aprender a viver. No fundo do meu baú – o Baú de Pandora – vasculhei a infância e (re)encontrei a esperança no futuro.
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Branca de Neve e os sete milhões de seguidores
Célio D’Ávila Era uma vez um reino onde as histórias aconteciam de forma diferente. Neste reino, Branca de Neve ainda era uma garota vista por todos como frágil, delicada, gentil e que amava muito os animais. Lá, o espelho mágico também dizia: ― Irmão, pensa numa mulher bonita! Pois é, ela é o trem mais lindo que existe! Mas a Branca de Neve deste reino, perdeu sua mãe ainda na infância, vítima de uma pandemia. Por isso, a princesa se refugiou e se viciou completamente nas redes sociais a ponto que a coisa mais importante para ela eram seus seguidores, ou seguimores como ela chamava! Branca vivia bem com o pai até que ele resolveu se casar novamente com uma forasteira linda em uma grande cerimônia! O reino estava em festa, mas a princesa logo demonstrou seu ciúme com esta relação, enquanto transmitia a cerimônia ao vivo, no espelhogram, questionando como o pai poderia gostar daquela mulher e dizendo ter certeza que o pai só estava com ela por causa de um certo chá que aparentemente a mulher sempre dava para seu pai à noite. Para Branca Neve não haviam brinquedos nem brincadeiras com outras crianças do reino, mas apenas o seu aparelho celular. Meses após o casamento, pelo excesso de fastfood, o pai de Branca acabou não resistindo a um infarto. E ao fazer a live do funeral do pai, ela conseguiu a façanha de 7 milhões de seguidores, enquanto dizia como iria ser difícil manter a rotina 60
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de Rainha (ela estava convencida de que assumiria o trono) e blogueira ao mesmo tempo, mas Branca teve que cortar a transmissão quando sua madrasta a chamou para uma conversa séria: ―Oh...minha filhinha, o meu marido morreu! O Rei está morto! E não sei o que será de nós, mas você sabe que nosso casamento foi legalizado e por isso eu serei a rainha, mas não tema Branca, você é uma filha e nada vai te faltar enquanto formos amigas! A princesa por sua vez respondeu de forma educada: —Filha... vê lá se eu sou filha de uma lambisgoia! Me erra tia! Por mim meu pai nunca teria te conhecido, fique sabendo que farei um mutirão na internet e você vai ser CANCELADA. A rainha ficou completamente desolada, pois amava muito sua enteada, e Branca cumpriu sua promessa, espalhando mentiras sobre sua madrasta: —Seguimores, seguimores meus! Existe alguém mais bela do que eu? Claro que não, né querides? É quase como se eu pudesse ouvir a voz de todos os sete, sete milhões! Gente, eu estou sendo perseguida pela minha rainha! Ela colocou um caçador para pegar o meu coração! E nem é de um jeito bom... Estou em perigo, não confiem nela, ela é uma rainha má! E não se esqueçam, se hidratem e sejam saudáveis. #princesa #brancarainhamadrastanadinha. Logo a notícia se disseminou e o caçador quis tirar satisfação com a monarca em uma audiência formal, enquanto ela estava sozinha e sem guardas no jardim: —Oh, rainha! Escuta aqui, eu tô precisando saber com você que história é essa de que eu vou matar a Branca irmão... 61
EDITORA OLYMPIA A monarca respondeu: —Oh, tu fala direito comigo que eu não sô plebeia não, tá? Ela espalhou essa história e não sei como resolver. O caçador insistiu: —Pô Rainha, é o que dizem né, pra fazer uma Fake News deixar de ser Fake News faz ela virar verdade, uai! Eu trago o coração dela pra você! Levando a um ultimato da Rainha: —Que horror! Seu caçador de meia tigela, eu quero que você pegue essa faca e enfie no meio da sua bainha! Agora procure o caminho de casa, antes que eu mande cortar sua cabeça! E olha que isso é coisa de outra rainha... Eu amo a Branca como se fosse minha filha, jamais faria isso com minha amorinha! Mas o caçador na verdade já era há muito tempo encantado por Branca de Neve, todo mundo era, como ele não ia ser? Ele sempre mandava a reação de foguinho nos stories da princesa. Como sabia que ela acordava cedo, ao meio dia, foi até sua janela se declarar e contar o que a madrasta falou, mas assim que Branca o viu: —Socorro, quem é você? Ele responde:— Irineu, o caçador! Deixando a garota apreensiva: —Oh não, a rainha te mandou me matar? Era pra ser uma mentira, socorro! E como bom gado, o caçador lançou a braba: — Pelo contrário Senhorita Branca, ela diz que te ama! E eu também na verdade. E a princesa o desafia a provar: — Pois se você ama, mate ele para mim, posso pagar bem! 62
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS O caçador fica alguns instantes pensativo e finalmente responde suspirando de forma maliciosa: — Ah senhorita Branca, tudo que eu poderia desejar era tomar um pouco do seu chá e ganhar visibilidade com seus seguidores, vai chover serviço para mim. A garota que para alguns assuntos era muito inocente respondeu: — Pois faça o serviço e te servirei o chá pessoalmente! O caçador esperou até a noite para tentar pegar a Rainha de surpresa, mas quando ela estava prestes a dormir percebeu os pés do caçador embaixo das cortinas ao olhar no seu espelho: —Você veio me matar? A Branca te mandou? Fique sabendo que pago o triplo do que ela ofereceu! Ele então responde: —Pois você não pode me dar o que ela ofereceu, se é que me entende. Deixando a monarca em choque: — Misericredo com essa menina... Olha lá caçador, são os sete milhões de seguidores da Branca? E enquanto apontava, o caçador olhou e ela fugiu para o meio da floresta chegando numa casa com sete camas pequenas, onde encontrou uma pessoa que não via há muito tempo: — Malévola? E a pergunta foi respondida com uma voz avassaladora: — Oxe, estava esperando os sete anões é? Enquanto as duas trocavam grosserias, Malévola explicou que namorava os criadores dos sete fã clubes da princesa e que ela poderia ficar ali, mas que deveria mesmo era se vingar amaldiçoando ela com um pão de queijo envenenado que a bruxa criou na sua frente:
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EDITORA OLYMPIA —Eu Malévola, portadora do mal, coloco nesse pãozinho de queijo, a maldição do sono eterno! Pronto, agora é só ela comer e dormir para sempre! Basta, agora, ela dar uma mordida! E a rainha questiona: —Mas e se ela não comer, Mal? E a conversa termina com Malévola: — Irmãos Grimm, daí me paciência... Aí ela não dorme, sua inteligente! Enquanto isso, no reino, o caçador levou um coração de boi para fingir que a rainha havia morrido e com isso Branca acabou não servindo o chá, mas fazendo uma live enquanto tomavam café juntos, quando chegou o pão de queijo e Branca abriu como se fosse um mimo ganhado de um seguimor: — Querides seguimores, acabei de receber um belíssimo pão de queijo de um seguimor não identificado! Hum... amo admiradores secretos! Tem apenas uma carta dizendo “Querida e mais bela, espero que tenha ótimos sonhos!”. Sei que já falei sobre carboidratos, mas vou abrir uma exceção por ter sido presente! E não se esqueçam, se hidratem e... Branca imediatamente caiu no sono e sua “morte” se tornou furo de noticiários, alguns diziam ser trama da rede espelho e outros pediam intervenção militar, quando a Rainha arrependida vai com Malévola ao reino para tentar acordar a garota: — Malévola, o que podemos fazer para conseguir acordar essa menina? Malévola faz pouco caso: —Dormiu tarde essa vilã aí! Mas a rainha insiste: —Tem que ter um jeito! E Malévola, então, falou: —Olha, até teria com um beijo de amor verdadeiro, mas isso nem existe... Em meio a esse momento se ouve uma voz distante: — Alguém disse amor verdadeiro? Eu amo ela! Eu amo ela! Desde que 64
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Branca me serviu o café, nunca mais fiquei sem trabalho, ela mudou minha vida e irei acordá―la com meus lábios. Malévola, no entanto interferiu: —Oh, rainha eu disse só o amor verdadeiro e ela com certeza não ama esse aí... Olha a cara dele, virou gado pela menina. Além disso, não deixo um beijo sem consentimento não! Em meio à conversa, o celular da rainha começa a tocar continuamente até que ela olha suas notificações e fica em choque: —Gente, olha aqui! O perfil da Branca bombou com a notícia da sua morte, ela já está agora com 70 milhões de seguidores! E claro, o que Branca mais amava eram os seus seguimores e assim ela levantou sem precisar de nenhum beijo sem sua permissão: —Um celular! Alguém me dê um celular, não é possível!!! Eu estou com mais seguidores do que a Virginia? Malévola entrega o celular da garota e diz: —Está sim, e nem precisou ganhar um reality. Só precisou morrer! Em choque, a blogueira percebe o que aconteceu: —Espera, eu morri? Quem me salvou, o caçador? A Rainha responde: —Ele não! Eu te tirei de uma intoxicação alimentar, lembrando quem você mais ama: seus seguimores. A garota chorando emocionada diz: —Mesmo depois de tudo o que te fiz, todos acham que você é uma rainha má... como posso me redimir? Posso te chamar de mãe? A rainha respondeu docemente: —Claro que pode garotinha, sempre foi o meu sonho! E não acho ruim essa fama... antes ser respeitada por temor do que por amor! Vai que eu acabo virando uma vilã famosa!
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EDITORA OLYMPIA E foi assim que Branca de Neve se tornou conhecida como uma vítima da Rainha Má, ao vender sua história, a garota inventou que os líderes dos fã clubes eram na verdade sete anões e causou toda a confusão que hoje temos na história. Quanto à rainha, dizem que ela chamou Malévola para morar com ela e todas as noites tomam chá e trocam insultos. Já o caçador... esse continua ainda achando que tem chance com Branca de Neve, enquanto eu, narrador, encerro essa história em busca de novas brincadeiras nos reinos encantados da literatura.
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Brincando de salvar o dia
Cristiano Rodrigues de Andrade Diante do espelho do banheiro, o caçula da casa começava seus peculiares preparativos de cara fechada. A um palmo do vidro, estranhando a própria imagem, tentava caprichar na carranca, mas sem muito sucesso. Era um soldado fora de hora, chamado às pressas para sua grande missão ― mesmo sem ter tamanho para ela, pelo menos na fita métrica. Sou da turma dos pequenos, e que fique claro: pequenos, e não pimpolhos. Não tenho moral nem com o Pai, que vive me chamando por coisas de ―inho, ―zinho, e nem é bom falar sobre o que fala a Mãe... "borboletinha" é de dar ódio. Sou morcego! Mas depois de hoje tudo vai mudar. No meio dos preparativos, enquanto reforçava a cara de pit bull sombrio diante do espelho — variando entre morder o ar e fazer caretas cada vez mais tortas —, alguém invadiu seu território feito uma flecha. A porta do banheiro se abriu de supetão e a pessoa entrou, totalmente sem cerimônia — e muito menos o tanto certo de roupas. — Que isso, guri? Dor de dente? Mordeu a língua?
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Era o mano da frente, vizinho de cama. Não se podia confiar muito nele, mas era um tipo inofensivo, ou quase. O “Guri” mal ligou e ficou na dele, firme em seu discurso interno de liderança pré―combate. Enquanto escutava a voz do estranho, tagarelava um "ocupado―ocupado―ocupado" para fora, tudo emendado, até sair embolado — e isso sem parar de trocar as caretas. Já o invasor, de saída, lavou as mãos e praticamente as enxugou nos cabelos do baixinho; num disfarce de carícia, usou a cabeça do garoto como toalha. — Sai, sai, deixa! — protestou o menino, enquanto tentava estapear a mão de encerar cabelo. — Estou pelepalando meu espílito de guelheilho! Seu pronunciamento saiu assim, em meio a puxões na bochecha por mãos semiúmidas que insistiam em desmanchar suas feições recém―adquiridas de pit bull. — Continua assim, guri. Só de zueira, sem dar bobeira! O pequeno soldado esfregou a bochecha vermelha e respingada. Eles não entendiam nada; a coisa era séria, e não conseguiam ver — ou não queriam. Caprichando na pose dramática, ele projetou no espelho a dimensão do perigo: imagens seguiam em flashes, misturando―se ao seu rosto infantil, igualzinho nos filmes... O Pai estava mal, sofrendo calado com esse cara que não parava de aprontar. Cada dia era uma coisa diferente, sempre apertando mais, mexendo no bolso do Pai e acabando com a tranquilidade da Mãe para ver 68
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novela. A Mãe até tinha passado a roer as unhas nos intervalos chatos da TV, só olhando para o Pai, que ficava tendo um troço na barriga, agarrado aos joelhos e falando dele... entre dentes. O Patrão: o cara mau, o chefe dos violões e das vitrolas. Como vai ficar a vida aqui em casa se o Pai não parar de chorar feito mulherzinha? Como vou assistir aos meus desenhos com tanto barulho, soluços e chiados estridentes? Sem tranquilidade para ver as novelas, a Mãe vai perder toda a paciência do mundo... e vai acabar sobrando para mim; vou apanhar todos os dias. Certeza que certa vez peguei uma figurinha desse cara, tipo daquelas medonhas de fazer qualquer menina gritar só de olhar para um pedaço dela, nem metade, mas não sei onde foi parar. Que eu tinha, eu tinha, alguém pegou! Quem? Deixa disso, não é hora... ah, foi Ele, o próprio, o Patrão. De volta ao quarto — digo, ao quartel —, e sem nem sinal do cara seminu, era hora do alistamento, de recrutar uns velhos conhecidos e montar o bando. Por isso, chamei o Ed Coelho Caolho para ajudar, diretamente da caverna perdida dos bonecos — lá da casa antiga, daquela que tinha quintal... — Fui eu mesmo que arranquei o olho dele... Desculpa, Ed, desculpa! Um dia eu acho o teu olho, juro — sussurrou, enquanto apertava contra o peito o coelho bem encardido e
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meio esvaziado de algodão, confortando o amigo de um olho só com muitos e muitos abraços. Também tinha o Tonto―Todo―Imundo, que carregava o poder secreto de espalhar “alegria” — em forma de muitos espirros. Será que espirros podiam mesmo causar alegria? Coisas que a dona Wicca falava. Mas ela se foi; foi para casa mais cedo porque tinha médico. Esse boneco, que era um monte peludo, foi segurado com dedos de pinça, a uma distância segura... Ele não queria aquele tipo de “alegria”. Como funciona a lógica do certo e errado na cabeça de um menino de cinco anos? Em linhas gerais, o mundo se divide entre o que a mãe mandou, o que ela esqueceu de mandar (zona cinzenta) e o perigoso “vai que dá no mesmo” — que quase sempre termina em castigo. Perdido na agitação de seus pensamentos mirins, o garoto guardava um bocado de ideias fixas, estranhas demais para a pouca idade que tinha. Isso de ficar enfezado com um nome lançado no ar era um bom exemplo. Mas esse nome não podia ser apenas uma névoa: tinha que ser alguém, tinha que ter corpo. E ganhou. Brigar, certamente, não ficava na ala do certo, mas existiam exceções para os heróis, principalmente em se tratando de bandido. A Mãe perdoa. Para o menino, o “Patrão” era uma figura bem conhecida, de corpo certo — e bem corpulento, diga―se de passagem —, 70
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além de endereço conhecido: morava a poucos apartamentos dali. Uma proximidade conveniente para a sua imaginação, seu desejo de vingança e sua missão sem volta. Só que não se tratava do patrão certo. Não era o verdadeiro monstro que habitava os tormentos do Pai e da Mãe. Aquele, na verdade, era o patrão do “cara do portão”: o síndico do prédio. De vez em quando, o porteiro gritava por ele chamando―o de “patrão” (habitualmente seguido por uns impropérios meio sussurrados) — o que acabou chegando aos ouvidos atentos do guri (guri―morcego), junto de tantos outros comentários negativos pelos corredores que ajudaram a construir uma fama ruim para o pobre senhor. Vejam só vocês: fofoca faz nascer um vilão... ou violão. Mas quem liga? Aquele homem estava logo ali, era palpável (até demais) e, acima de tudo, um alvo possível — a uns poucos corredores, um lance e meio de escada e chegou. E vá dizer a um miúdo que o mundo é coalhado de gente que... presta mais ou menos — um mundo de muitos inimigos e quase nenhum herói. Capaz de ele chorar. Aconteceu de ele pegar uma caixa de lápis de cera e um monte de papel. Tinha a intenção de fazer plano, mapa, retrato falado, mas acabou se apegando a outras ideias; aí desenhou muita coisa legal. Foi mostrar ao irmão da ponta, o vestibulando — que é o verdadeiro mano joia, dez —, que curtiu tudo aquilo e bateu fotos. Aí ele se animou mesmo: pulou, vibrou, deu fome, tomou lanche, dormiu... Veio o 71
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desenho na TV, hora sagrada, e no outro dia, ou no outro ainda seguinte... Até que aparece o Pai. Vem com a bendita lamúria. Esse cara não cresceu? Não sabe se virar, não? Cara lamuriento... Mas, enfim, ele solta a tal palavra. Aquele nome que enfeza, que agita ideias numa certa cabecinha, e que agora já tem corpo certo e deixou de ser névoa. Enfim... rebobina a fita. E tudo se repete. Menos o desfile do seminu (o mano cinco e meio e caindo) — que foi para a aula de futebol. Banheiro, pit bull sombrio, flashes, quartel, o Ed... Teve também o consolo ao Ed pela falta do olho (que deve estar junto da figurinha). Até a dona Wicca apareceu! Demais! Uma ida ao arsenal secreto da proibição máxima... Arsenal secreto da proibição máxima? Esse é novidade. Tem que parar por aqui. Pois é no arsenal secreto da proibição máxima que tá guardada a Pistola Pistoleira. O soldado fica boquiaberto de ver ela ali, aquela cena também testemunhada por Ed, Tonto. E o Rolo de Trator — que tava no lixo e apareceu agora, um guerreiro jogado fora —, sorte que ele achou a tempo. Tem nome de impressora nele. Parece que ele tinha aprontado alguma com a pistola da última vez, e por isso a mãe resolveu bani―la de vez. Foi parar no quartinho da bagunça, é meio difícil de achar...
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Dali em diante, tudo seria novidade. O que estaria por vir? Com o bando formado, a arma recuperada do exílio e todos sintonizados no mesmo pensamento, a expectativa era enorme... até que a campainha tocou. Era a tia Beth (aquela do bigodão, mas isso a gente não pode falar alto). Hora de pedir a bênção. Ela veio acompanhada do Juninho. Mandaram os dois irem brincar, mas onde, se não havia quintal? O jeito foi improvisar: ele correu, correu e começou a chutar a bola ali mesmo, no meio do corredor. Enquanto a distração familiar acontecia, Tonto, Ed e Rolo continuavam de vigília, de olho na arma. Será que teriam que cumprir a missão sozinhos? Por enquanto, nem tinham saído do lugar. Foi bem nessa hora que o dente de leite do Juninho caiu. E saiu sangue. Muito sangue. O apavoro se instaurou no corredor. Tia Beth, possessa, já ameaçou bater em todo mundo. E com aquele bigodão encarando a gente, é melhor obedecer sem piar. Tá doido, ninguém é maluco de duvidar. É quando a visita finalmente vai embora que recomeça... o desenho, ih, mas dormiu no meio, não era sagrado? Semanas se passaram até que o chorão do Pai finalmente repetiu a palavra mágica. Não foi nenhum "Chá e Zam!", nem nada parecido, mas a força do feitiço foi a mesma. O problema é que o menino estava no banho e saiu em disparada, rodopiando e deixando tudo à mostra na sala. 73
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Dona Wicca, tia Beth, dona Mercedes e Carolzinha estavam todas lá. Para as duas primeiras, nada daquilo era novidade; já eram íntimas do "minhoca de boia" e do "pandeiro frouxo". Dona Mercedes até olhou e não fez grande questão, embora tenha achado uma tremenda falta de educação. Agora, a Carolzinha... essa nunca tinha visto nada igual em todos os seus quatro anos de vida. Para ela, aquilo foi um baque danado: um verdadeiro enigma vindo do espaço. Frescuras de menina, bah! Quem liga? Tinha que reencontrar o bando. Dessa vez o pai, o dondoquinha, estava até urrando o nome impronunciável no vaso. Era alarme geral, de todas as cores. O bando... cadê o bando? Onde foi parar? Não acho! Não acho!! Sumiu! Roubaram! Como funciona a decepção, a ansiedade na cabeça de um menino de cinco anos? Em linhas gerais, é terror bíblico... o sufoco... a escuridão. O corpo para. A alma migra dali. Depois de um alto escândalo, de deixar todos em volta alarmados ao extremo, o guri — que era pequeno mesmo, um pimpolho — vai ao chão. Se contorce como se estivesse ferido de morte. Tudo perdido, para todo o sempre. Não existe mais nada. Só a dor de ter perdido seus amigos tão íntimos, de tanto tempo: o Ed, o Tonto e aquele outro... que era muito, muito especial... aquele outro. Fica ali balbuciando segredos ocultos para o chão. Ninguém entende, ninguém mesmo. É uma língua estrangeira que usa muita baba — só pode ser uma infantilidade de matar de 74
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vergonha. Até o Pai, outro molengão, achou o garoto no chão em estado de ervilha. Um molenguinha completo — bem que dizem: tal pai... De repente... vêm espirros. Espirros de alegria! Seus ouvidos de morcego captam o som. Ele se ergue do chão, da baba, tenso como um fox paulistinha. Atento. O que era aquilo? Dona Wicca. Vindo do céu, com braços de embalar bebê... embalando os bebês dele. Dona Wicca é dez! É mais que dez... é dez e dez. Ele ainda não aprendeu o que vem depois do dez. Ed, Tonto, Pistola... faltou alguém, será? Não. Todos aninhados naqueles braços de anjo. Dona Wicca salvou o dia. É assim que as histórias terminam. Com heróis de verdade. Tudo estava tão... Disney. Parecia dia de Natal, com uma árvore cheia, iluminada... Até que o pai atende o celular. Fala pouco, baixinho, quase não se ouve. Desliga. Aí agita os braços como o tremendo molengão que ele é, e deixa escapar... P... Não, chega. Dessa vez não! O guri age rápido e, num arremesso certeiro de MVP da NBA, encaixa o Tonto direto na boca do pai. O homem fica cheio de "alegria", sem mais P... Não hoje. Não é assim que as histórias terminam.
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A mais bela arte
Frederico Rodrigues Gonzaga Em muitos momentos eu só tinha os livros e a escrita Me tiraram a espontaneidade da criança O prazer de uma jovem Até minha sanidade foi danificada Lutei Lutei ao ponto da minha escrita ser mais cicatriz do que palavra Do sangue das derrotas fazia tinta pra mais uma obra E foi logo essa escrita triste que trouxe você Você me enxergou além da palavra Me possibilitava ressignificar a parte amarga da vida Ainda doída, mas agora com beijos, doces e alegria Com você muito do motivo do meu refúgio na escrita se perdeu Não tô reclamando Penso que foi uma oferenda Trocar essa versão da minha arte por você Trocaria mil vezes É uma das minhas facetas Tô voltando a escrever Como uma criança que não pude ser Como a mulher que deseja outra mulher Como alguém que pode ser si mesma Em vez da escrita bonita e melancólica Hoje beijo e abraço a mais bela arte todo
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Esconderijo
Gustavo Coelho A criatura rugia lá fora, fazendo as paredes antigas vibrarem com sua fúria cega e implacável. O vento invadia o cômodo como um augúrio de que meu tempo estava por um fio. No centro daquela sala, meus olhos buscavam desesperadamente uma saída, um vão que me salvasse do inevitável. O espaço parecia quase todo sufocado por um colosso de mogno, onde poças de cera escorriam do velho candelabro. Eu precisava desaparecer antes que fosse tarde demais. As chamas das velas temiam, anunciando o prenúncio daquela silhueta escura que já engolia o reflexo do chão. O perigo era iminente; restava apenas o silêncio e a aflição de encontrar um lugar para me ocultar. Foi quando uma voz surgiu da penumbra, vinda do corredor, não muito distante, reverberando com uma calmaria que chegava a ser pior que um brado: — Cadê você, pequenino? Eu sei que você está perto. Vou te achar de qualquer jeito. Em meio a tanto caos, senti que começava a perder a sanidade. Meus pensamentos se misturavam ao medo, desorientando meu corpo; já não existia razão, apenas um instinto que agia contra toda lógica e percepção. Lugares inusitados surgiam como soluções efêmeras em minha mente, apenas aumentando o sentimento de impotência frente ao inevitável.
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EDITORA OLYMPIA Foi quando um estrondo, seguido por um grande clarão, iluminou, por um instante, todo aquele local insólito. Como um milagre nascido de minhas preces, a luz apontou para a salvação daquela agonia que me consumia. Uma portinhola. Sem hesitar, me esgueirei em direção à fresta, como uma presa em pânico e encurralada. Forcei meu caminho para dentro, contorcendo cada músculo para obrigar meu corpo a se moldar àquela estreita passagem na madeira. Meus ombros rasparam nas paredes apertadas e minhas mãos tatearam às cegas enquanto eu me arrastava, avançando centímetro por centímetro. Ao cruzar o limiar da portinhola, caí de joelhos. Para meu horror, do outro lado desdobrava-se um ambiente ainda mais profundo e sufocante, onde a escuridão era tão absoluta que fazia a sala anterior parecer iluminada. Apalpava cada canto daquele cômodo, esquadrinhando o piso e as texturas com o único propósito de desenhar um mapa mental de todos os objetos ali presentes. Minhas mãos encontraram uma cômoda maciça, depois um guarda-roupa robusto e, por fim, uma enorme cama com lençóis de cetim. Foi o toque daquele tecido que me fez perceber que, no centro daquele negrume que se estendia como um labirinto, eu acabara de adentrar um dos quartos daquela casa. Mais uma vez, junto com o rugido daquela fera obscura que rompia o silêncio do ambiente, ouço aquela voz, calma como as sombras que se projetavam a cada clarão, mas abafada pela porta que nos separava. ]— A quem você quer enganar? Eu sei que você passou por aqui. Sinto sua presença cada vez mais próxima. E então? Vamos terminar isso logo ou não, pequenino? 78
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Sinto meu coração acelerar como um galope desordenado, atropelando a respiração e sufocando a alma. O desespero golpeou minha mente mais uma vez. Eu precisava focar. Senteime no chão frio, abraçando os joelhos e recitando baixo, como um mantra, algumas palavras de incentivo, durante as constantes orações que vinha fazendo ao longo de toda essa trajetória. No meio daqueles pensamentos, percebi que o tempo era algo precioso ao ouvir a aproximação daquela presença junto à porta que ligava os dois cômodos. Naquele momento, o mundo congelou. Meus olhos já estavam semiadaptados àquela escuridão que me cercava. Havia poucas escolhas a fazer para encontrar um esconderijo que me resguardasse da iminente descoberta. Eu precisava agir! Precisava me manter seguro em algum ponto dentro daquele quarto. “Guarda-roupa? Óbvio demais.” “Debaixo da cama? Será o primeiro local a ser verificado.” “Rente à porta? Caso ele não a abra toda, ficarei exposto.” Mas havia um ponto no qual eu teria uma pequena chance. Havia um velho baú bem em frente à cama. Apesar de seu tamanho reduzido, eu conseguiria me espremer ali dentro e puxar algumas peças de roupa de cama para criar uma espécie de armadura visual, camuflando minha presença. Sem perder um único segundo, rastejei pelo chão até a cama. Agarrei a ponta do lençol de cetim e o puxei de uma vez, arrancando-o junto com a colcha pesada.
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EDITORA OLYMPIA Com o tecido nos braços, alcancei o baú e abri a tampa de madeira com o máximo de cuidado, segurando o trinco para que nenhum barulho denunciasse meus movimentos no silêncio do ambiente. O espaço interno era terrivelmente exíguo, mas o pânico me deu a elasticidade necessária: enfiei primeiro as pernas, encolhendo os joelhos contra o peito, e curvei a espinha até que minhas costas estivessem totalmente moldadas ao fundo do móvel. Ajeitei os lençóis sobre mim para camuflar meu corpo e fechei a tampa com toda a delicadeza. Foi então que eu ouvi. O clique. A maçaneta foi acionada. Ele estava no mesmo quarto. O tênue feixe de luz âmbar vindo do candelabro o ajudou a enxergar os diversos contornos dos móveis localizados no quarto. Mas eu ainda possuía a vantagem da penumbra. — Eu sei que está perto, pequenino. Sinto seu cheiro e logo irei achá-lo. O som de seus passos pesados pelo assoalho acompanhava a batida rítmica e acelerada de meu coração. Ali de dentro, pelo milímetro da fresta do baú, eu enxergava aquele vulto, enquanto mal conseguia respirar de tanta tensão. Notei que ele se moveu primeiro em direção à janela. Ouvi o som das cortinas sendo vasculhadas. O silêncio voltou por dois segundos, quebrado logo em seguida pelo ranger das portas de madeira do guarda-roupa sendo escancaradas. Fracasso. Seus passos se direcionaram então para o centro do cômodo. Ouvi o gemer do piso bem ao lado do meu esconderijo quando ele se agachou, tateando e arrastando as mãos sob a cama vazia em busca de qualquer corpo ali oculto. 80
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Mas então, a silhueta maciça se ergueu e parou exatamente acima de mim. Senti o suor frio descer pela minha nuca, sabendo que ali eu poderia encontrar minha perdição. O trinco do baú rangeu. A tampa de madeira subiu lentamente, permitindo que um filete da luz fraca do candelabro invadisse o casulo. Meus olhos, espremidos sob o tecido, fixaram-se na penumbra lá fora. Ele olhou diretamente para dentro do baú, mas, só conseguiu distinguir o volume desordenado dos lençóis e das colchas de cetim amontoadas no fundo. A tampa de madeira desceu, devolvendo a escuridão ao interior do baú. Percebi a frustração em sua respiração pesada antes de ele dar as costas. À medida que ouvia o afastar de seus passos, fui liberando o ar aos poucos, sentindo a tensão abandonar meu corpo. Foi nesse momento que tudo ficou mais claro. A luz começou a invadir o cômodo, o iluminando. Seus passos cessaram no mesmo instante. Pela pequena abertura, vi o vulto girar o corpo. Sob aquela iluminação, notei que seu olhar foi direto para a cama. “Meu Deus. O colchão está liso, sem as cobertas!” – pensei em pânico. Ele não disse uma palavra. Apenas caminhou de volta. A tampa foi puxada para trás de uma vez. Ele enfiou as mãos lá dentro, agarrou os lençóis e os arrancou de cima de mim, deixando-me totalmente exposto sob a luz. — TE PEGUEI! — gritou ele, com um sorriso. Antes que eu pudesse reagir, uma voz familiar soou do corredor: 81
EDITORA OLYMPIA — Meninos, a luz voltou. Chega de brincadeira por hoje, vamos embora que o vovô precisa descansar. Saí do baú arrastando os lençóis e sorrindo, guardando na memória o tempo em que o coração disparava por pura diversão.
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Roteiro: Gustavo Coelho Arte: Gemini 83
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Pipa peixinho
Hillary Souza Papel de seda, palitos de espetinho, sacolinhas de mercado, linha de costura, cola branca, tesoura sem ponta e uma prima mais velha: esses são os itens necessários para fazer uma pipa caseira. Primeiro, você recorta o papel de seda do tamanho que você quer a sua pipa, no formato que você gosta mais: peixinho, cafifa, morcego, tubarão, lambreta ou raia? Sua prima é mais velha e sabe todos os nomes. Quando cortar, você deixa um espacinho do papel para colar nos palitos. O papel de seda é bom porque é leve, senão sua pipa não sobe. E é preciso ter cuidado para não rasgar, porque além de leve, ele é sensível. Você corre para pegar umas canetinhas para desenhar no papel, mesmo que a sua prima te diga que isso pode fazer o papel rasgar fácil, tanto com a força de desenhar quanto pelo álcool das canetinhas; mas você não liga. Você desenha até acertar um desenho em um papel inteiro com formato de peixinho, que você sempre vê no céu e gosta mais. Então vocês colam os palitos de espetinho ao redor do papel e no meio, em formato de cruz. Enquanto isso, seu irmão menor tenta rasgar as fitinhas de sacolinha de mercado para a rabiola. Vocês conseguem aproveitar algumas das que ele fez, mas ainda cortam outros mais bonitinhos. Fazem um tantão para dar nas três pipas: a sua, do seu irmão que nem vai conseguir soltar, e a da sua prima. Vocês fazem as rabiolas mais longas que conseguem, vão amarrando cada fitinha de sacola na linha. Você gargalha quando pensa na sua pipa alta no céu. Gastam um tempão fazendo isso. 87
EDITORA OLYMPIA Seu irmão gargalha com a mão toda grudenta de cola branca. Sua mãe gargalha de desespero quando vê a bagunça que vocês fizeram na varanda, mas sua prima promete arrumar depois, porque o sol está descendo e vocês tem que empinar as pipas logo. Vocês não sabem nem se a cola secou direito, mas enrolam as rabiolas com cuidado para não embolar, pegam seus carretéis de linha de costura e correm para a pracinha no quarteirão de trás. Lá, outras crianças assistem enquanto os outros — prováveis — primos mais velhos empinam as pipas para eles, lutando para não enroscar umas nas outras e nem nos fios de energia da rua. Quando vocês três chegam, algumas crianças riem das suas pipas, mas você não liga, porque só a sua tem um desenho que você mesma fez — e ao mesmo tempo gosta quando sua prima desaforada as manda cuidarem das vidas delas. Você não sabe qual é a época de vento, mas sabe o que é época de pipa; fica doida quando começa a vê-las voando, quando começa a ouvir a correria atrás de alguma quando a linha arrebenta. Sua mãe nunca te deixou soltar pipa, porque é algo que tem que fazer na rua e ela que não vai ficar correndo atrás de criança solta na rua, correndo perigo de carro pegar todo mundo. Mas às vezes existem anjos que vêm passar uns dias na casa da vó e tiram um tempo para brincar com a prima menor. Vocês desenrolam a rabiola de uma pipa só, porque a prima não vai conseguir soltar pipa e vigiar vocês dois ao mesmo tempo; ela é igual sua mãe. Como sua pipa tem desenho e as outras duas não, é a sua que você faz desenrolar para soltar primeiro. Então, é você que assume o carretel de linha. Você observa como os outros fazem para que ela pegue altura: alguém segura acima da cabeça e alguém corre com o carretel. É você quem tem que correr. Vocês procurar um espaço livre de gente e de 88
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS pipa para tomar distância, desenrolar linha, correr e pegar vento, e então a magia promete começar. Essa arte jamais ficará igual uma pipa comprada em papelaria, a linha de costura sempre arrebenta antes que qualquer altura boa seja alcançada, mas todas as risadas entre fazer a pipa, sair com a prima mais velha e tentar fazê-la subir valem a pena.
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Baliza
Jonicleber Mariano Galvão Uberfórgia, 24/06/1426
A
migos de Castelgram, faz um tempo que não escrevo a vós, aí no Reino Terra Celta. Venho contar-vos um passatempo deveras útil caso, assim como eu, caiais em um lugar com outros guerreiros e nada tenhais para
fazer enquanto ficais de vigia durante a noite; também é um passatempo legal para ensinar a vossos filhos. Enquanto estávamos no acampamento goblin pacificado, Sétzer, que é um goblin macaco, viu um caldeirão com uma sopa feita pelos goblins que ali moravam e decidiu "jantar" aquela sopa composta de sabe lá Deus o que. Havia de tudo um pouco; poucas coisas eu identifiquei, como cascas de pequi, cebolas mordidas, alguns quiabos inteiros, ossos de pequenos animais, entre outras que qualquer humano comum não comeria... Após comer a "janta" que ali estava, Sétzer ficou entediado por não ter nada para fazer; decidi então ensinar-lhe uma brincadeira bastante divertida até que nosso turno de vigia se encerrasse. Baliza é seu nome, e tem por objetivo concluir cinco rodadas utilizando todas as pedras que estão no chão antes que o adversário termine. Abaixo explico melhor:
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Procure cinco pedrinhas parecidas em tamanho e o mais redondas possível, espalhe as cinco pedrinhas no chão. Jogue uma pra cima e enquanto ela está no ar, pegue uma do chão e apare a que caiu, tudo com a mesma mão dominante, repita até pegar as quatro pedras do chão, uma de cada vez, mas mantenha todas em sua mesma mão.
Na segunda rodada jogue-as novamente ao chão, pegue uma pedra, jogue-a para cima e pegue de duas em duas pedras, mantendo-as em sua mão conforme na rodada anterior. Na terceira rodada, jogue a pedra para cima e pegue três pedras juntas e a derradeira sozinha, mantendo-as em sua mão até a próxima rodada. Na quarta rodada, jogue uma pedra e pegue as quatro de uma vez. Se errar (a pedra cair), passe a vez para o adversário.
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EDITORA OLYMPIA Após concluir pegar as cinco pedrinhas, a última etapa é pegar as cinco pedrinhas, jogá-las pra cima e apará-las com a parte de trás da mão dominante. Quem concluir o desafio sem errar a sequência ou sem errar o aparar das pedras, vence. Caso não entendais algo do que expliquei, aplique o improviso, pois o objetivo é deveras passar o tempo; às vezes a noite com uma fogueira não basta para que o tempo passe. Espero
que
vos
agrade
tal
brincadeira.
Há
variações
interessantes, havendo tempo para isso, como adicionar a mão não dominante e, caso queirais tentar com vossa cauda assim como Sétzer — para os que ficaram curiosos, por pouco ele não conseguiu. Com essa dica de passatempo, despeço-me de vós com imensa saudade. Nikito.
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Nossa Saudosa Brincadeira Preferida
Kelly Righi Se eu fechar os olhos neste exato instante, o primeiro sentido que me desperta é o olfato. Um perfume doce, fresco e profundamente marcante de rosas flutua no ar, preenchendo cada espaço da minha memória. Era o cheiro dela. Minha mãe não apenas usava perfume; ela parecia carregar a própria primavera consigo por onde passava. Eu me lembro perfeitamente de me sentar na beira da cama, com as pernas balançando ritmicamente no ar, apenas para observá―la se arrumar diante do espelho. Era um ritual sagrado de beleza e ternura. Ela se maquiava com uma delicadeza, que parecia uma pintura sobre tela, realçando os seus marcantes olhos verdes — profundos e brilhantes como duas esmeraldas — e emoldurando o rosto com seus cabelos loiros que capturavam a luz dourada do final da tarde. Minha mãe ficava deslumbrante. Mas a sua verdadeira beleza nunca esteve apenas nos traços físicos ou na maquiagem impecável; ela habitava na doçura incondicional com que me olhava e no carinho infinito que transbordava de sua voz sempre que me chamava para perto. Nossa casa não era apenas um lar comum; era um palco de pura magia e alegria desimpedida. Bastava que os primeiros acordes de qualquer canção do Trem da Alegria ressoassem na vitrola ou no rádio para que todo o resto do mundo desaparecesse instantaneamente. Minha mãe deixava de lado as gravidades e preocupações da vida adulta, segurava firme as minhas mãozinhas e, com um sorriso imenso e radiante que iluminava todo o seu rosto, começava a pular e dançar comigo. 93
EDITORA OLYMPIA Dançávamos por horas a fio, sem que o cansaço ousasse nos alcançar, rindo até o ar nos faltar nos pulmões. Ela cantava as letras com entusiasmo contagiante, rodopiava comigo pela sala de estar entre os móveis e, com os olhos brilhando de pura felicidade, repetia a frase que ficou gravada para sempre no meu coração:
"Vem, querida, dançar e cantar com a mamãe!" Naquele compasso improvisado, sob a suave luz da sala, eu me sentia a criança mais protegida, feliz e amada de todo o universo. Minha mãe carregava em si a determinação silenciosa e admirável de quem queria reescrever a história. Ela não tivera uma infância fácil ou repleta de mimos; as circunstâncias de sua própria juventude haviam sido privadas de muitas das cores que ela fazia questão de pintar na minha vida. Ela estava obstinada a me garantir uma infância plena, uma realidade mágica e leve que ela mesma nunca pôde desfrutar. Essa generosidade traduzia―se em cada pequeno detalhe do nosso cotidiano. Eu me lembro com nitidez do orgulho e do esmero com que ela comprava roupas da Company para mim — que na época era a melhor e mais desejada marca de roupas do mercado. Vestir aquelas peças era muito mais do que um ato comum; era sentir o cuidado tátil e o desejo dela de me ver integrada e feliz entre os meus pares. Sempre que viajava, ela retornava com as malas pesadas e transbordantes de encantamentos trazidos do Paraguai. Aquelas malas eram verdadeiros portais de fantasia que ela abria no meio da nossa sala. Ela trazia ioiôs coloridos e brilhantes e, com uma paciência infinita, sentava―se ao meu lado no chão, segurando com delicadeza meus dedinhos pequenos para me ensinar a enrolar o barbante da forma correta, mostrando o truque de como jogá―lo para que ele subisse e descesse suavemente. Também me presenteou com patins reluzentes para que eu 94
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS corresse livre pelas calçadas, sentindo o vento fresco bater no meu rosto, além de bicicleta, bambolê e skate. Ela me deu todas as ferramentas possíveis para que eu pudesse brincar, explorar e correr. Em suma, minha mãe me deu asas. Dentre todas as preciosidades que vieram daquelas viagens, há uma noite que brilha com uma luz dourada e perpétua na minha memória. Foi a noite em que ela abriu uma caixa que continha um Atari, acompanhado de dois joysticks pretos com seus clássicos botões vermelhos. Conectamos o aparelho com certa dificuldade à antiga televisão de tubo e colocamos o jogo do sapinho que precisava atravessar a rua movimentada e o rio cheio de perigos. Ficamos jogando juntas até tarde da noite, rindo descontroladamente de cada tentativa frustrada de fazer o sapinho alcançar o outro lado da tela sem ser atropelado. Me lembro de, em determinado momento, desviar os olhos da tela apenas para olhar para ela. O rosto da minha mãe estava iluminado pelo reflexo colorido da televisão. Ela não estava sorrindo por causa do jogo em si; ela estava profundamente feliz simplesmente por me ver feliz jogando. A alegria dela era, e sempre foi, um espelho generoso da minha própria felicidade. Minha infância foi uma tapeçaria rica e colorida, tecida com os fios mais puros de amor, música, risos e um desvelo que não conhecia limites. Minha mãe transformou a escassez que viveu em seu passado em uma abundância avassaladora de afeto no meu presente. Hoje, as canções do Trem da Alegria já não tocam mais com a mesma frequência na nossa sala, os patins e o Atari repousam em algum lugar empoeirado do tempo e aquele perfume inconfundível de rosas tornou―se uma doce e constante saudade que eu guardo a sete chaves no fundo da minha alma.
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EDITORA OLYMPIA A vida seguiu seu curso natural e inexorável. Embora o tempo tenha me ensinado a caminhar com os meus próprios pés, há momentos em que tudo o que eu gostaria era de ouvir aquela voz terna me chamando para dançar mais uma vez.
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A boneca que nasceu devagar
Maria Joana Costa Como fazia todos os dias, no finalzinho da aula, a professora leu um livro para os estudantes já cansados dos exercícios intermináveis do livro didático, dos ditados e das contas de matemática. Geralmente, esse era um dos poucos momentos silenciosos da sala de aula, já que a outra opção era fazer mais cópias, mais ditados e mais contas de matemática. Janaína ansiava por esse momento em que mergulhava literalmente em um mundo bem diferente do de uma criança pobre em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais. Nesse dia, a história escolhida foi A bonequinha preta, de Alaíde Lisboa. Janaína jamais vira uma boneca assim. Até porque, a única boneca que ela tinha em casa havia ganhado usada da filha da patroa de sua mãe, e era loira de olhos azuis. E a boneca da história era muito mais divertida. Ela falava, brincava com sua dona e viveu uma aventura incrível após cair da janela e ficar perdida nas ruas, sendo cuidada por um gato. Na cabeça de Janaína, a bonequinha continuava viva. Ela passou a desejar uma boneca preta para lhe fazer companhia nas brincadeiras, para segurá-la no colo, levá-la para passear, para dormir agarradinha com ela. Na volta da escola, foi direto contar para a avó: — Vó Linda, eu queria tanto uma boneca preta... A gente pode comprar uma?
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EDITORA OLYMPIA A avó sorriu. Ela conhecia aquele desejo. Não era apenas vontade de ter uma boneca, era algo mais profundo. Janaína jamais tinha tido uma boneca que se parecesse com ela. A avó passou a mão pelos cachinhos da neta: — Comprar eu não posso, mas a gente pode fazer uma. Os olhos de Janaína brilharam. No dia seguinte, Vó Linda, que trabalhava em uma oficina de costura, chegou com alguns pedaços de tecidos bem coloridos, um pedaço de tecido marrom e alguns botões. Faltava muita coisa, mas ainda assim a boneca tinha começado a nascer. Primeiro na imaginação de Janaína, depois no coração da avó. E só então nas mãos. Sem pressa. O trabalho na oficina de costura ocupava quase todos os dias da avó, e o cansaço ocupava quase todas as suas noites. Mas sempre que tinha um tempinho e o material ia chegando, a avó trabalhava na boneca. Janaína observava a avó costurar, via o tecido ganhar forma e ouvia as histórias que Vó Linda contava. Histórias sobre mulheres negras que haviam costurado a própria sobrevivência. Sobre avós que trançavam cabelos enquanto ensinavam coragem. Sobre pessoas que aprenderam a enxergar sua beleza mesmo quando o mundo insistia em não vê-la. Enquanto a boneca era feita, Janaína construía seu orgulho, seu pertencimento. Construía a certeza de que sua pele, seus cabelos e seu sorriso contavam uma história bonita. Quando a boneca estava quase pronta, a avó trabalhou na oficina de costura longe do olhar curioso da neta. Costurava um detalhe, ajeitava um botão, arrumava os cabelos de lã. Tudo em segredo. 98
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS A menina perguntava todos os dias: — Ela já está pronta? E a avó respondia sempre: — Ainda não. Esta boneca não gosta de pressa. Enquanto isso, o pai e a mãe de Janaína também preparavam uma surpresa. Com papelão, tinta, cola e retalhos coloridos, construíram uma caixa especial para receber a boneca. Por dentro, desenharam flores, estrelas e pequenos corações. Em um cartão escreveram: “Para Janaína, que é tão bonita quanto as histórias que carrega.” Enfim, chegou o dia de entregar o presente para Janaína. — O que é isso? — perguntou, aproximando-se devagar da caixa sobre a mesa da sala. O pai e a mãe trocaram olhares. A avó sorriu. — Abra — disse a avó. Janaína levantou a tampa com cuidado e então ficou completamente imóvel. Ali estava ela, sua boneca. A pele escura, os cabelos cacheados, os olhos brilhantes... — Ela se parece comigo — disse baixinho. Os olhos da avó se encheram de lágrimas, porque era exatamente isso que desejava. Janaína pegou a boneca nos braços. Abraçou-a com força. A família se reuniu ao redor dela. Naquele instante compreenderam que não haviam criado apenas uma boneca. Tinham costurado amor.
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Roteiro: Nicole Coelho (Shinya) Arte: Gemini
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O pião infinito
Niko Brasileo Como de costume, minha casa, aos domingos, era um ponto de encontro da família. Todos se reuniam no quintal para o churrasco do meu pai, enquanto minha mãe preparava uma quantidade exorbitante de comida. Alguns tios ficavam na muretinha perto da churrasqueira, conversando alto, bebendo cerveja e rindo de piadas que só eles entendiam. Outros permaneciam dentro de casa, ajudando minha mãe a picar tomates, temperar a mandioca e preparar as saladas. Meus primos e eu ficávamos pela casa toda. Nunca parávamos quietos. Ora estávamos jogando bola, correndo pela lateral da casa, tentando subir na goiabeira ou furtando petiscos que ainda não tinham sido servidos. Meus avós eram mais quietinhos. Sempre presentes, mas não se misturavam muito nas bagunças de meus tios bêbados ou na incessante preparação de comida. Eram como os patrulheiros da casa. Pegavam a gente no pulo quando menos esperávamos ou ajudavam quando mais precisávamos. Meu avô, por exemplo, me ajudou a roubar cinco brigadeiros da geladeira no aniversário do meu pai. Comeu dois e me deu três. Assim eram meus domingos: a casa cheia de vozes, emoções e gente. — Meu filhão hoje tá fazendo 12 anos! — gritou meu pai do quintal. Um alvoroço se espalhou e, então, a conversa fiada retornou como se nada tivesse acontecido. Alguns comiam, outros bebiam, e meu pai falava com algum parente sobre como ele se lembra do dia que nasci. Já conhecia aquela história de cor. Meu 101
EDITORA OLYMPIA pai sempre chegava à parte em que quase me perdeu no parto, e seus olhos enchiam de lágrimas. Nasci com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Ainda carrego as cicatrizes. Enquanto os observava pelo canto da janela, senti alguém se aproximando. Era meu avô. Ele chegou de fininho, se sentou em uma cadeira ao meu lado. Espiou para fora da janela, fazendo uma careta engraçada. — Seu pai parece um disco arranhado — resmungou, retornando o olhar para mim. — Também me lembro da primeira vez que te vi. Ele ficou quieto por alguns segundos. Dava a impressão de buscar lembranças ou espantar pensamentos. Sua dentadura dançou dentro de sua boca e, ao encaixá-la novamente, ele voltou a falar: — Sabia que eu fui o primeiro que te deu banho? Eu e sua avó. Cê era pititinho que só, parecia caber na minha mão — ele sorriu. — Agora tá aí. Todo espichado desse jeito, parecendo um grilo. Dei uma risada sem conseguir conter o sorriso. Mas algo chamou minha atenção. Quando ele ria, o som parecia chegar um instante depois. Sempre gostei de conversar com meu avô. Nunca media as palavras, e foi com ele que aprendi boa parte dos palavrões que minha mãe odiaria saber. Mas nunca tinha notado a forma como ele ria, não até hoje. — Mas, meu filho... Sei que você já tá velho, não quer saber mais de brinquedo. — ele fez uma pausa para respirar. — Mas eu quero te dar um presente, quero que você fique com esse pião. O mais rápido de todos. Gira por horas. 102
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Ele retirou do bolso um pião de madeira. A base parecia nova, mas o barbante amarelado denunciava sua idade. Fiquei encarando o brinquedo nas mãos por alguns segundos antes de perguntar: — Nunca usei um desses antes, vô. Pode me ensinar? — naquele instante, tive a sensação de que estávamos a sós em casa. Ele afirmou com a cabeça. Pegou o pião e enrolou o cordão nele, colocou no chão, preparou para puxá-lo e, então, o soltou. Não saiu muito rápido, mas ele girava e girava. Não tremia ou saía do próprio eixo, girava de maneira perfeita, parecendo que congelou no tempo. — Caralho, vô! — no segundo em que falei, tampei a própria boca. Ele me olhou, dando uma risada, ignorando o que tinha acabado de falar. Ficamos um bom tempo olhando o pião rodar. Até que meu avô o pegou em mãos, interrompendo sua trajetória. Naquele instante, vi pelo canto do olho alguém passando correndo ao nosso lado. Mas não ouvi passos. Meu avô devolveu o brinquedo em minhas mãos e disse, olhando em meus olhos: — Pode girar esse peão até cansar, que ele nunca vai parar. Só não olha para trás. — seu sorriso foi engolido. Ao se levantar, meu avô me deu um sorrisinho, passou a mão no meu cabelo e saiu andando para fora de casa. Sem falar mais nada, me deixando com o brinquedo e essa instrução totalmente aleatória. A movimentação da casa pareceu retornar, e todas as vozes voltaram a preencher meus ouvidos. Meus primos estavam ocupados tentando pegar a bola que caiu em cima do telhado. Minha mãe terminava de enrolar alguns 103
EDITORA OLYMPIA docinhos às pressas, e meu pai se segurava para não chorar a cada palavra que falava. Era meu aniversário. Minha festa. Mas, ainda assim, lembrava um domingo qualquer. Segurei o pião em mãos e o preparei. Me abaixei próximo ao chão e o soltei o mais forte que consegui. Ele não se desequilibrou nem um instante. A cada vez que ele rodeava seu próprio eixo, fiquei com a impressão de que a casa se tornava mais quieta. Não ouvia mais meus tios brincando próximo à churrasqueira. Não ouvia mais meus primos brincando. Não ouvia mais minha mãe na cozinha. Ouvia apenas o giro do pião. — Não olhe para trás. — Uma voz atrás de mim. Um toque sobre meus ombros. Não era quente nem frio. Apenas repousava sobre meu ombro. Inconscientemente, girava meu pescoço para trás. Meus olhos pareciam querer ir na direção contrária, mas, quanto mais lutava, mais rápido eu me virava. Fechei os olhos. O som quase inaudível do pião parou. Não tinha conversas paralelas. Abri os olhos. Não tinha movimento pela casa. O pião não estava mais na minha frente. Mas o som voltou a ecoar. Minha respiração era pesada, como se tentasse buscar fôlego após uma longa corrida com meus primos. Atrás de mim, olhando pela janela da sala, meu pai estava parado. Meus tios. Minha mãe. Todos como estátuas. Voltei a olhar para a cadeira. Alguém continuava sentado ali. Não era meu avô.
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Pé de fantasia
Paulo Henrique Costa Lima Ela fez a incisão com delicadeza, mas com a firmeza que a prática lhe havia conferido. Não era a primeira vez que coordenava uma operação como aquela, fato que a dotava de confiança; mas nem por isso a atenção era dispersa, concentrava-se àquela cesárea como se fosse a primeira vez. Ao seu lado, seu fiel ajudante lhe passava todo equipamento necessário, pinças, tesouras e bisturi esterilizados previamente. Apenas depois de aberta a paciente tiveram noção da quantidade de rebentos, doze; nunca haviam presenciado um caso assim. O silêncio era necessário, só se ouvia a própria respiração, isso quando não era retida, e a cada segundo a ansiedade crescia, como um trajeto por uma ponte sinuosa, era preciso ter resiliência até o final do procedimento. Mesmo quando os recém-nascidos já estavam sãos e fora do útero, ainda era preciso manter a concentração para concluir o procedimento costurando o ventre. Quando, enfim, os pacientes estavam fora de risco, a médica, de nove anos, e seu assistente, de sete, respiraram aliviados, mais uma vez os dois primos foram bem sucedidos em um delicado parto de carambola. Era a brincadeira preferida deles no final de semana, quando se encontravam para o almoço dominical em família na casa dos avós, onde, no quintal, reinava um majestoso pé de carambola. A árvore era generosa em dar frutos, não raramente acontecia de algum dos tios ser alvejado por carambolas maduras 105
EDITORA OLYMPIA enquanto fazia a sesta sob a sombra do pé. As frutas eram a alegria dos primos, fonte inesgotável de brincadeiras, sendo o “parto das sementes” justamente a preferida, principalmente depois que foi abolida a “guerra de carambola” – onde as frutas eram usadas, hora como granadas, hora como torpedos – por sucessivos episódios de choro e sucessivas reclamações da avó dizendo que era pecado desperdiçar comida assim. As brincadeiras eram inúmeras, a carambola poderia ser um artefato mágico que Indiana Jones deveria resgatar dos nazistas ou uma bola de futebol numa cobrança de pênalti na final da copa do mundo ou mesmo uma espaçonave viajando pelos confins do universo do quintal da casa da vovó. Foram tantos enredos que tiveram como protagonista e heroína a carambola e sua árvore magnífica que os primos nem desconfiavam que aos poucos apresentava-se um arqui-inimigo para sua amada fruta, uma maligna hortaliça crescendo lentamente; trepando no pé de carambola havia um perverso pé de chuchu. As crianças seguiram brincando nos finais de semana sem se darem conta da batalha vegetal que se desenrolava. Aos poucos as ramas do chuchuzeiro foram se enrolando na caramboleira tal uma jiboia em sua presa. Em determinado domingo, ao chegarem à casa da avó, tomaram um susto, o pé de carambola estava ao chão. Vendo a desolação das crianças, um dos tios explicou que o pé de chuchu matou o pé de carambola e foi preciso derrubá-los. Restou aos primos o luto à fantasia. Pode-se supor que, talvez, em poucos anos, os primos se cansassem das velhas brincadeiras e se entretecem com outras coisas. Talvez, quando adultos, enxergassem naquele pé um empecilho para uma reforma na casa. Talvez o pé se tornasse um mero estorvo com suas folhas e frutos sempre sujando o quintal. Mas não foi isso o que aconteceu. O rompimento abrupto sustou essas possibilidades e consolidou 106
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS duas perspectivas na vida dos primos: a preservação da fantasia infantil cristalizada em uma lembrança feliz de um tempo mais simples; e uma aversão eterna a chuchu.
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Bolinhas de gude e o fim do mundo
Paulo Irineu Barreto São inúmeras as modalidades de jogos e brincadeiras feitas com bolinhas de gude e seria muito difícil descrever todas aqui. Por isso, me limitarei a apresentar uma das principais formas que praticávamos em nossa infância. Em uma pista, construída em terra batida, são feitos pequenos furos, os quais fazem parte do trajeto a ser percorrido. Cada jogador joga com suas bolinhas de gude e deve fazer o percurso, em disputa com os demais, acertando a sua bolinha dentro dos furos feitos no chão, seguindo uma ordem préestabelecida. Enquanto continuar acertando o objetivo, o jogador continua jogando e só para quando erra, dando a vez ao próximo jogador e aguardando nova oportunidade, reiniciando a partir de onde parou. A ordem em que os jogadores irão jogar é sorteada ou pode ser colocada uma bolinha a certa distância e cada jogador atira uma bolinha tentando acertá-la. Quem acertar a bolinha alvo ou tiver lançando a bolinha que chegar mais perto começa e, assim, sucessivamente. No caso de um ou mais competidores acertarem a bolinha, o que define a ordem é a proximidade: o arremessador cuja bolinha acertou e ficou mais perto do alvo, depois do atrito, começa. Nessa modalidade, é considerado o vencedor o jogador que conseguir fazer o trajeto mais rapidamente, nem sempre de forma contínua, mas sempre respeitando as alternâncias entre os jogadores. Foi em um dia desses, de brincadeira, que aconteceu o que narro a seguir. 108
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Era domingo, dia em que a meninada toda se reunia para jogar biloca (bolinhas de gude). Na verdade, jogávamos quase todos os dias, mas no domingo era melhor, pois a “galera” era maior e a disputa se tornava uma competição entre bairros. A plateia também aumentava e cada jogador queria dar o melhor de si. Ao final da tarde, alguns voltavam felizes para casa, com os bolsos cheios de bilocas, mas muitos voltavam tristes. São os contrastes da vida, não existem ganhadores, sem que existam perdedores. Mesmo assim, como escreveu alguém, há um alento para o perdedor: quem vence, está ensinando; quem perde, está aprendendo! O local dos jogos era um corredor de terra batida em uma colônia de dez casas na Rua Rivalino Pereira, no bairro Martins, Uberlândia. Em uma das casas morava o Sr. Antônio e família, sua esposa Elvira e os filhos Nestor, Fabinho e Toninho, os três participavam dos jogos. Também morava na casa a Dona Celina, já bem velhinha e pouco lúcida. Não me recordo se ela era mãe de Dona Elvira ou do Sr. Antônio. Havia ainda, na casa, um cachorrinho pequinês, chamado Bob. Os meninos gostavam muito de aprontar com Dona Celina, principalmente quando ela dava os seus ataques de medo do fim do mundo. Nessas ocasiões ela recitava longos trechos da Bíblia, enquanto andava com um crucifixo nas mãos. Aconteceu que, naquele domingo, quase no fim das disputas, quando o Nestor já estava com uma lata de óleo cheia de bilocas, pois ele já havia “rapelado” quase todos os meninos, o tempo “fechou” de repente. As nuvens eram tão ameaçadoras que parecia noite. Dona Celina saiu de casa dizendo que o fim do mundo seria naquele dia. Ela gritava com toda a força: 109
EDITORA OLYMPIA ―Corre que é hoje! Acode que é hoje! Então, todos nós vimos o imenso clarão de um relâmpago. Ficamos contando os segundos, esperando o ronco do trovão. Ele chegou alguns segundos depois. Grande foi o alvoroço. O pior estava por vir. Um novo ronco surgiu, só que este era contínuo e muito mais alto. Poucos puderam perceber que se tratava de um pequeno avião que perdera a rota, voando baixo, perigosamente baixo. No meio da confusão, todos correram, procurando um lugar seguro. “Seu” Antônio, na correria, deixou cair o cigarro, ainda aceso. Bob, que estava perdido naquela balbúrdia, mordeu o cigarro, no filtro, e correu para dentro da casa, lá encontrou uma assustada Dona Celina, ajoelhada e com o terço na mão. É difícil explicar a expressão de Dona Celina, ao ver Bob “fumando”. Ela ergueu os braços e ainda teve tempo de gritar: ―Valei-me minha Nossa Senhora! Em seguida, Dona Celina caiu desfalecida e só acordou horas depois. Os meninos, no entanto, ainda estão tentando convencê-la de que o mundo não acabou. E, ao final, aquela foi uma das poucas ocasiões em que não foi possível saber, ao certo, quem foi para casa na condição de grande vencedor do jogo de bolinhas de gude do dia!
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BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
O lápis de cor quebrado e a borracha esquecida
Robson Camilo
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EDITORA OLYMPIA Na primeira luz da manhã, quando a sala ainda bocejava e o cheiro dos cadernos novos dançava pelo ar, uma velha caixa de papelão descansava no alto de um armário. Lá dentro moravam tesouros esquecidos. Havia um lápis de cor azul chamado Lucas. Um dia, ele desenhara mares, rios, nuvens e os céus mais bonitos da escola. Mas agora sua ponta estava quebrada. Lucas acreditava que também estava. Ao seu lado repousava uma borracha branca chamada Bianca. Coberta por um fininho casaco de poeira, ela passava os dias em silêncio, esperando que alguém se lembrasse dela. Naquela manhã, Lucas soltou um suspiro tão comprido que quase balançou a tampa da caixa. — Acho que minha história acabou... — murmurou. Bianca sorriu daquele jeito calmo que só quem já esperou muito tempo sabe sorrir. — O que faz você pensar isso? — Antes eu pintava o céu inteiro. Agora nem consigo começar um desenho. Quem vai querer um lápis quebrado? A borracha ficou alguns instantes em silêncio. Depois respondeu baixinho: — Engraçado... Eu também já pensei algo parecido. Fiquei esquecida tanto tempo que achei que ninguém mais precisasse de mim. 112
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS Lucas levantou os olhos, curioso. — E precisava? Bianca deu uma risadinha. — Descobri que até o desenho mais bonito, às vezes, precisa de um pequeno recomeço. Apagar um erro não estraga uma história. Ajuda a escrever uma ainda melhor. As palavras ficaram passeando dentro da cabeça de Lucas. Então ele abriu um sorriso. — E se nós trabalhássemos juntos? Bianca inclinou―se, animada. — Como assim? — Eu ainda posso colorir... mesmo devagar. E, quando eu escorregar, você pode me ajudar a tentar outra vez. — Combinado! — respondeu ela. Naquela mesma tarde, uma menina abriu a caixa. Encontrou o lápis azul. Encontrou a borracha. Sem perceber, também encontrou uma parceria. Lucas já não desenhava linhas perfeitas. Algumas saíam tortinhas. Outras escapavam do lugar. Mas Bianca estava sempre por perto. Apagava um pedacinho aqui. Ajeitava outro ali. E, juntos, transformavam pequenos erros em grandes descobertas. Logo surgiram céus cheios de pipas, oceanos cor de sonho, passarinhos curiosos e nuvens que pareciam algodão―doce. A professora sorriu. Os colegas bateram palmas. E a menina percebeu que seus desenhos estavam mais bonitos não porque eram perfeitos, mas porque tinham coragem de continuar. 113
EDITORA OLYMPIA No fim do dia, Lucas já não se preocupava com sua ponta quebrada. Bianca já não se sentia esquecida. Os dois entenderam uma coisa que nenhuma caixa consegue esconder: algumas pessoas brilham criando. Outras brilham ajudando. E, quando cada uma oferece o melhor que tem, até um simples desenho pode colorir o coração de alguém. Desde então, sempre que um novo caderno era aberto, havia um céu muito azul esperando para nascer... e uma borracha sorrindo, pronta para lembrar que errar também faz parte da mais bonita das obras: crescer.
Reinado do quintal 114
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS
Sâmela Jannie O sol entrava pela varanda como quem chegava para brincar. O quintal despertava em festa: balões dançando no vento, cheiro de bolo saindo do forno, vozes misturadas às folhas, gargalhadas brotando por toda parte. Pés descalços traçavam caminhos na terra morna da tarde. Ali não havia relógios. O tempo gostava de se esconder. E como era bom nisso! Uma corda era ponte sobre rios distantes. Um galho, espada de cavaleiro. Uma caixa de papelão transformava―se em navio, castelo e foguete na mesma aventura. No balanço preso ao velho pé de manga, 115
EDITORA OLYMPIA o céu parecia mais perto. Cada impulso era um convite para tocar as nuvens e conversar com os passarinhos. As mãos inventavam mundos, os olhos acreditavam em milagres simples, e qualquer canto do quintal podia guardar um tesouro. Enquanto as velas aguardavam o parabéns, a brincadeira seguia soberana: pega―pega, esconde―esconde, amarelinha riscada no chão, sonhos soltos pelo ar. Os abraços atravessavam gerações. Os mais velhos sorriam em silêncio, como quem reconhece que a infância é um reino encantado do qual jamais partimos por inteiro. Hoje o quintal mora na memória, mas continua iluminado. Basta fechar os olhos 116
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS para ouvir novamente os risos, sentir a terra sob os pés e perceber que o tempo, esse menino travesso, ainda corre por ali, brincando de nunca passar.
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Infância no papel
Sandra de Salles Monteiro Parece que foi ontem que estávamos todos correndo, pulando, rindo, fazendo arte. A criançada aumentava como fermento no bolo quando chegavam as férias. A rua ficava movimentada com meninas e meninas que vinham passar férias na casa das avós. Naquela rua Artur Bernardes moravam muitas crianças. Na casa da Dona Alzira, mulher preta vista como a mais temida do quarteirão, moravam com ela seu filho, nora e mais cinco filhos. Os netos do outro filho também vinham para brincar durante toda as férias. Na casa da Dona Isoleta, uma mulher baixa, branca, que eu raras vezes via tinha umas três casas no mesmo terreno e muitas crianças. Dona Dadi morava no mesmo quarteirão, na rua Francisco Sales e crianças não faltavam por lá. Eles eram pretos de cabelos lisos e não gostavam de brincar com as crianças da rua Artur Bernardes. As férias eram de três meses, tempo suficiente para nós brincarmos, inventarmos brincadeiras, sermos felizes. Todos sabiam a hora de voltar para casa na hora do almoço e no final do dia. Carimbada era a brincadeira preferida porque todos entravam no jogo. Tiravam par ou ímpar para escolha dos jogadores e o jogo começava na frente da casa da Dona Alzira que também era a garagem do fusca do pai das cinco crianças. Às vezes, a bola vinha com muita força e batia bem nos meus óculos que não suportava a pancada e perdia uma perninha. O jeito era 118
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS pegar um alfinete e prender a perna dos óculos para continuar no jogo. Quando o número de crianças era muito grande, o jogo ia para a rua. Em outro dia, a brincadeira era na praça do Líbano, que ficava na esquina de frente para uma marmoraria. A praça era bonita, com bancos de cimento com nome de pessoas importantes e comércios da cidade. Tudo era alegria até que alguém gritava – “Olha, seu Voninho está vindo!” e a criançada corria para suas casas. Seu Voninho morava de frente a pracinha, ele era um homem de baixa estatura que usava um chapéu preto tipo de caçador e com fama de mau. Ou de outras vezes gritavam – “Olha o Quito!”. Eu nunca vi o tal Quito, mas a fama nada boa era grande. Minha vó falava que ele trabalhava no Patronato Rio das Pedras, lugar que levavam as crianças arteiras e teimosas, então não era preciso vê-lo porque o recado estava dado. Na praça e na rua não sobrava um menino ou menina para ver se era verdade ou não. Seu Voninho, Quito e Dona Alzira, o terror da meninada! Os netos da Dona Dadi, vez ou outra chegavam na esquina e jogavam frutos de mamonas em nós, assim começava a guerra de mamonas. A turma da Artur Bernardes contra a turma da Francisco Sales. Nunca misturava as crianças de uma rua com as da outra rua. Quando cansavam de jogar mamonas, a guerrinha acabava até que apareciam em outro dia para reiniciar a “brincadeira”. Brincávamos de balança-caixão e barra-manteiga – como doíam os tapas, passar anel, ciranda, fazer comidinha, pular corda – “fogo, foguinho, fogão, fubeca”. Os meninos brincavam de carrinho de rolimã e bet. Os jogos de botões eram no alpendre da casa da Dona Alzira porque o jogo era dos netos dela. Fazíamos saquinhos de arroz ou escolhíamos cinco pedrinhas para jogar baliza e não faltava a disputa de bafinha com cartas 119
EDITORA OLYMPIA de baralhos. Ah, na frente da casa da Dona Olívia tinha um jardim com umas plantas que tinham uns pendões vermelhos. Eu muitas vezes arrancava os raminhos dos pendões e corria para não ser vista pela dona da casa que era turca e fama de brava. Em dias fora das férias, minha irmã e eu deitávamos na porta da sala com a cabeça para fora da porta para olhar as nuvens e dar nome para elas. Outras vezes, íamos para o quintal e fazíamos cigarrinhos com talos secos de chuchu e sentadas fingíamos fumar assoprando ar para cima, porque não saia fumaça do galho seco. No quintal tinha canteiros, uns com roseira, outros com plantas medicinais e outros sem plantas e desses aproveitávamos para fazer bolinhos de barro. Era uma alegria quando jogávamos os bolos de barro no muro e eles não caiam. Ficávamos horas no quintal inventando coisas. Eternizar esses momentos no papel é como renascer, trazer a rua, as casas, os risos, o barulho da bola e da corda batendo no chão, os gritos, o som da correria, todas as pessoas e os acontecimentos para o momento presente. Ah, a infância.... gosto e cheiro de vida, bálsamo para o hoje admirando as andanças das nuvens e frescor para o amanhã.
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Uma voz no sertão
Vicentina Maria da Silva De alma desnuda, Adentrei o chão goiano. Na euforia, na emoção, O chão goiano eu versejei. Na ênfase, imitei uma soprano. Numa canção destorcida, estilhacei o silêncio. Na primavera campestre, em dia ensolarado, Observei as flores, gestando os seus frutos. As gabirobeiras floridas, respeitosamente, eu beijei. A vaquinha sedenta no riacho, fiquei a observar. Naquele riacho, meus pés cansados se afogaram. Na flamboyant, o pedreiro da floresta fazia seu ninho. No gramado, as curicacas faziam suas coreografias. Na bica d’água, minhas lágrimas silentes se miscigenaram. Numa emoção incontida, solfejei a melodia “Ave Maria”. No curral, um burro equipado mostrava―se em prontidão. Na engenhoca, à espera de cana, pedi licença: Triturei a tristeza, por vislumbrar terras em erosão. Ao despedir―me daquele chão, minha gratidão, ali deixei.
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EDITORA OLYMPIA Ao me sentir leve e voltar ao pátio do casarão, Para em versos, tornar―me criança, No piso quente, deixei meu rastro, Versejei com alegria tempos vividos, Na expressão folclórica, de novo, Encenei, cantei “Cai―Cai balão”, Entoei os versos de “Ciranda Cirandinha”. Risquei o chão, pulei “Amarelinha”, Como luz do sol nascente, Fiz mugir aquela “Vaca amarela”, Imitei em marcha, “Marcha soldado”, Feliz, não “Atirei o pau no gato”, Dei―lhe pão e estendi―lhe a mão, No impulso, nos banhamos em aquarela, Em doce união, num tempo de paz, Nos laços sagrados de amor, plantei nova esperança.
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“Brinquedos e brincadeiras” é o primeiro livro da coleção de antologias “Flores do Cerrado”, parceria da Editora Olympia com o Clube de Escritores da Biblioteca Municipal de Uberlândia e o apoio do jornal Diário de Uberlândia. O objetivo é a profissionalização dos talentos regionais e a formação de leitores por meio histórias, reais e fictícias, no formato de contos, crônicas, poesias e histórias em quadrinhos.
ISBN 978-65-86241-46-4