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Icaro não sabe voar, Gerald Campos (2021)

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Este é o romance de estreia de Gerald Hamilton Campos. Nascido em Palo Alto, na Califórnia (1956), radicado em Salvador (ba), é também compositor e fotógrafo. Entre o final dos anos 1970 e começo dos 1980 publicou quatro folhetos de poesia: Sem pé nem cabeça, Tipo salada e Portas e passagens, assim como Maria Boa Semente ou

Ícaro notou que, apesar da janela, o chão se desfazia num buraco. Foi dominado pelo medo, estava prestes a cair, e o buraco transformou-se num abismo.

GERALD CAMPOS ÍCARO NÃO SABE VOAR

SOBRE O AUTOR

GERALD CAMPOS

Qual o sentido do modo usual de apreensão do Tempo e do Espaço? Seria o mundo “real”

Ícaro não sabe voar

estruturado e apresentado de forma linear apenas para manter o ser humano na ignorância? Para Ícaro, transitar entre realidades se torna uma coisa perfeitamente nornal: ele consegue se transportar para diferentes momentos e dimensões. Ícaro tem mestres e aprende com eles.

A menina que queria enricar,

Mas também tem quem

este um cordel escrito em

o engane, traia e iluda.

sextilhas. Participou como

Quando adulto, desconfia

guitarrista e compositor das

que vivia entre esses muitos

seguintes bandas: Abuso do

mundos desde criança.

Poder, Homicídio Cultural, Mandrágora e Rádio Lombra. Tem 40 anos de profissão como

Do seu ponto de vista, as pessoas inocentes vivem suas vidas sem se saberem prisioneiras

técnico de som. Em 2020,

de algo maior. Essa consciência

deixou de morar na capital

o habita e ele deseja a liberdade,

baiana para viver no Vale do

mas primeiro precisa aprender

Capão, Chapada Diamantina.

a controlar seus vôos.


ÍCARO NÃO SABE VOAR

GERALD CAMPOS

Parte I

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ÍCARO NÃO SABE VOAR

GERALD CAMPOS

T

udo estava escuro, o quarto estava muito escuro, mas podia sentir a presença das paredes mesmo sem enxergar. Sentou na cama com o alívio de quem acorda de um sonho ruim. A boca estava seca e só pensou na água da geladeira. Sede. Um pouco de preguiça adiou o movimento. Enfim levantou, pisou o chão e afundou o pé na areia úmida da praia. Então pegou um punhado de areia. Mais verdadeira que o quarto. Por um segundo ainda ouviu a gritaria das crianças e o sol ardia. Depois, sua cabeça girou trezentos e sessenta graus. Desequilibrado, caiu sentado na cama. Calma. A escuridão voltou e uma voz feminina sussurrou no seu ouvido. – Normal. Não sei o que foi para você, mas para mim foi um piso de mármore polido e as altas colunas do templo. Calma. – Nós temos que sair. Logo eles estarão aqui. Foi agarrado pelo pulso e se deixou levar. Saíram por uma porta no exato momento em que as janelas explodiam e a água do mar invadia por todas as frestas e buracos, afogando a cama, os móveis, o guarda-roupa embutido na parede sólida. Em poucos segundos tudo estava submerso e alguns peixes capturados nadavam entre coisas que não compreendiam.

* A luz do sol ofuscava seus olhos, mesmo assim enxergava os dois pés descalços que corriam à sua frente. O corpo de Ícaro se corroía em uma só pergunta, Onde estou?, mas da boca saiu, numa voz mais alta que a desejada,

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– Quem é você? Os pés interromperam a corrida como quem tem apenas um segundo e a dona deles disse: – Neide. Mas isso não significa nada. E continuou a correr. – pare! Conseguiu agarrá-la pelo braço. – O que está acontecendo? Neide olhou no olho e disse: – Aquele lugar não era um lugar. Aliás, era. Pertencia a um tempo, mas não a um espaço, estava ali e agora não está mais. Onde estamos também não é seguro. E saiu correndo de novo, agora puxando Ícaro junto com ela. – Bem! Ao menos fale enquanto corre – ele pediu. – Não dá! Estou tentando sustentar isto aqui. Vamos! Ela se afastava velozmente e Ícaro preferiu não ficar pra trás. As folhas secas estalavam sob seus pés, e foi então que sentiu o cheiro doce da brisa que acariciava o seu rosto. Corriam por uma trilha na encosta de uma colina que dava em um vale repleto de árvores coloridas com flores e frutos. Lá embaixo um rio corria entre pedras com a força de quem esculpe uma obra prima há milênios. As nuvens iluminavam os céus como se rios de sol ficassem contidos por alguns momentos antes de se derramarem sobre o verde radiante do vale. Sob os pés, as folhas secas passavam como flashes. Nas árvores as folhas eram vitrais e o olhar era o de uma criança que descobre tudo pela primeira vez. Enquanto corria, passou a observar a mulher na sua frente, aparentemente normal, camiseta de malha, calça

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jeans, cabelos negros que batiam nas costas, pernas ágeis, pés descalços. A trilha agora subia em aclive suave e numa curva que rodeava uma grande árvore, notou um roedor bem maior que um hamster, quase do tamanho de um gato, parado entre as raízes, que os observava com atenção. Neide acelerou o passo. Logo após a curva, a trilha acabava em um portão e acima dele havia um grande arco de madeira, todo entalhado com figuras que pareciam mudar a cada olhar. No alto uma inscrição que, pela distância, não dava para ler. Atrás, um imenso jardim onde as flores cantavam a alegria simples de estarem vivas e a grama crescia verde entre uma neblina suave que dava a tudo tons pastéis. – Temos que atravessar – disse Neide numa voz forte, temperada com um toque de insegurança. Nesse momento uma raiz surgiu da terra no meio da trilha entre os dois. Não deu para desviar. Ícaro tropeçou. Pensou vou me esborrachar no chão, mas o chão não estava lá. Foi como se atravessasse a matéria e mais uma vez caiu. Não deu tempo nem de fechar os olhos e lá estava sentado numa almofada. Em sua frente, o grande hamster, com suas manchas marrom claro sobre o pelo branco, olhava com um olho calmo e o outro tranquilo. Tudo reinava em paz. Grandes tapeçarias com cenas campestres desciam do teto, forrando as paredes e seguiam pelo chão até debaixo das várias almofadas, cuidadosamente colocadas para que ele se apoiasse confortavelmente. A luz, não forte o bastante para incomodar nem muito fraca que não permitisse enxergar tudo, nascia de vários pontos. Não havia sombras. O hamster estava em cima do único móvel da sala, um batente de madeira todo esculpido em formas orgâni-

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cas e abstratamente harmoniosas, como as que as árvores criam em suas raízes aéreas. Foi quando um dos tapetes se mexeu. Só então percebeu que ali havia uma porta e por ela entrou um homem todo de branco, paletó branco, calça branca e sapatos brancos, que acariciou os pelos do animal e disse: – Você foi perfeito, como sempre! E obrigado por emprestar sua toca. Olhou para Ícaro e completou, apontando o hamster: – Este é Kauik. Um grande personagem. Algum dia alguém deveria escrever um romance contando sua vida, daria um grande livro sem dúvida alguma. Ícaro estava cansado e confuso, olhava aquele homem com estranheza. Sentiu que a temperatura ambiente era agradável, com a leve umidade do interior das grutas. – Você gosta de ler? – continuou o homem de branco. – Pra mim a literatura é essencial, coloca parâmetros na realidade tão caótica. Às vezes não sabemos onde pisamos, não é mesmo? Oh! você parece tão inseguro! Relaxe. Esse é o lugar mais seguro que já esteve em toda sua vida. Não é mesmo, Kauik? Ninguém consegue mudar isso aqui, a não ser quando Kauik quer. E ele é um ser bom, não vai fazer mal para você. A não ser que necessite e apesar da necessidade dele não ser a minha nem a sua. Quer dizer, nunca se sabe. Os olhos de Ícaro observaram o animal mais uma vez e entenderam que os humanos é que estavam sendo observados. – É, ele pode interpretar – completou o outro – mas isso não importa agora. Vamos a você: um belo rapaz, porém muito mal vestido. Tome isso.

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Ícaro vestia apenas o calção de praia. Os pés descalços estavam sujos de areia salgada misturada à poeira da trilha. Recebeu um pacote. O homem de branco continuava a falar. – Oh! Que falta de educação, eu não me apresentei. Desculpe-me. Você há de compreender, essa coisa toda, a emoção do momento. Você nunca fez algo tão importante que todo o resto pareça mera formalidade? Eu me deixo envolver e isto pode ser um defeito, mas defeito para uns pode ser qualidade para outros. Por isso eu sou. Apenas sou sem me preocupar com o que pensam as outras pessoas, e nisto reside o meu poder. Eu poderia... – Você fala demais! – interrompeu Ícaro, duvidando que toda essa verborréia pudesse ter alguma utilidade. – Quem ou o que é você? – Está bem, está bem – disse o homem, com ar de ofendido. – Você pode me chamar de Irerê. O que sou não importa. Siga-me, venha tomar um banho e trocar de roupa. Saiu através do tapete e Ícaro o seguiu sem ter certeza do que fazia. Olhou Kauik, que o encarava com um olhar de alívio, e atravessou a porta. Pela primeira vez, depois do que parecia um longo tempo, achou normal atravessar algo e estar no lugar que aparentemente deveria estar. A porta dava para uma pequena escada feita de pedras rústicas. Subiram e desembocaram, do meio das raízes de uma grande árvore, em um bosque onde a serenidade não era o acontecido, e sim o colocado: a disposição dos arbustos, os sons dos pássaros e do vento, o verde dos pequenos matos e da grama que crescia livre na beira do caminho, a cachoeira que caía com o barulho de água na pe-

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dra. Tudo visivelmente preparado para dar uma sensação de bem-estar. No céu, as nuvens eram como imensas lâminas de fogo no fim de tarde e Ícaro pensou que poderia ficar ali para sempre. – Esse é o mundo de Kauik. É muito bonito, mas logo será noite e a água vai estar muito fria. Vá em frente, a cachoeira é o seu chuveiro. Foi um banho gelado. No pacote, além de um providencial sabonete, havia uma tolha e roupas confortáveis. Logo Ícaro estava sentado à beira de uma fogueira enquanto Irerê colocava uma panela no fogo. A noite já dominara tudo, o céu estava leitoso de estrelas e uma brisa suave e refrescante trazia a umidade e os sons da cachoeira. Foi quando Irerê falou: – Você vai provar um manjar dos deuses, receita minha, é claro. Você sabia que os sabores dominam a realidade? Também o cheiro, mas o cheiro e o sabor se complementam, embora sejam coisas distintas. Na verdade, tudo interage, todas as sensações, todos os sentidos, isso é o que torna a vida interessante. Por isso mesmo, os sentidos são poderosos agentes transformadores, devem ser respeitados e venerados. Você nunca teve a sensação, ao provar algo saboroso e inesperado, de ser transportado para um lugar no passado ou até para um lugar desconhecido? Pois saiba que esta minha receita já transformou rei em mendigo e mendigo em rei. Mas pode comer sem medo, nada vai acontecer com você aqui. Kauik não permitiria. Que sirva como um aprendizado. Ah! Eu estou com uma fome ancestral, devo me calar e suprir as necessidades do meu corpo, saco vazio não fica em pé, não é mesmo?

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