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Dante e Reina - César Aira (cap. 1)

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césar aira

Dante eREINa tradução: Joca Wolff


Índice

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I. A dicotomia II. A violação III. A salvação IV. O amanhecer V. O pedido de mão VI. O matrimônio VII. O laboral VIII. A suspeita IX. A revelação X. Além da evolução

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A dicotomia

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avoucava com o osso do seu dom na parede coberta com figuras de esqueletos bailarinos em seu sistema nervoso. Um rato comia um passarinho, um menino da noite mordia um sorvete Crack. Pasmo com sua definitiva mutação: agora sou um cão, dizia em pensamentos latidos, com a voz do seu pai, Pedro Latido. E dizia sem lembrar que antes também tinha sido cão. Antes como agora. Os corseletes pretos da muralha se cruzaram e descruzaram como se dessem a hora. Antes cão, agora cão. Essa era a verdadeira mutação, tornar-se o que sempre se tinha sido. O resto era ilusão. Isto era a realidade... A realidade! A crista de pirâmides de papelão! Mataria ela... se pudesse. Arrancaria suas lascas de papelão a dentadas. Dentro dela tinha uma gosma preta.

Tudo dependia dos códigos. Um drama estava se desenrolando no baldio. Cavoucando no esqueleto do ar, a mosca, as núpcias da mosca e do cão. Dante e Reina... Tudo se transforma em humano. Cão e mosca intercambiavam seus seres clonados, ele era mosca, ela cão, perseguindo-se. Era uma dicotomia. Como saber a priori que alguém nasceu para ser escultor? Seus genes se entreabriam e se fechavam numa palpitação, num nó nas tripas de febre. Milhões de moléculas de fósforo na noite eterna, cinema amazônico. A menina mosca atravessava o lixão. Seu pai, Pedro Zumbido, tinha lhe mandado comprar vinho, pai incestuoso; com a sacola de borracha. Terminaria catador? Mendigo? Tinha se dado um apelido. E se sentia frustrado porque não tinha oportunidade de usar. Mas claro que tinha! Era esta... ou aquela... qualquer uma, todas. Percebia tarde demais, quando a oportunidade desabava sobre ele em forma de matrimônio.

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Todo o verossímil caía estrepitosamente. Por culpa da linguagem, dos códigos empregados. Mas quem se importa? O público está acostumado com esses filmes de espiões que acontecem na União Soviética e o herói continua falando inglês ainda que se faça passar com sucesso por membro do Politburo. Era como se milhões de anos de evolução passassem num segundo. O cão e a mosca, montados no lombo do vírus retrógrado, como o gaúcho e a chinoca. “Reina, Reininha...” O sussurro noturno, pela fila dupla de catres do barraco albergue dos filhos inumeráveis de Zumbido. “Teu paizinho quer vinho”. O alcoólatra. O intragável. Não respondia por seus atos de Anticristo. “Vai na farmácia”. “Por que na farmácia, mãezinha? Não seria mais prático ir no bar, na venda de vinho?” Como explicar a uma menina criada para ser puta, a uma analfabesta, que a Evolução já tinha passado, que no mundo já não existia o vinho em estado natural e agora era preciso sintetizálo com química? Vai na farmácia, birrentinha de merda, dormindo ou acordada! Tenho medo, mãezinha! Quem sabe o que

pode me acontecer pela rua a essas horas. As caminhas valsavam na teia de aranha. Todos estavam dormindo. Tudo me é permitido! dizia o bebum. Sua saliva corria num regueiro irisado de nitroglicerina. O bigode pingava. Três luzes. Duas luzes. Uma luz. Um táxi branco dentro de um sapato dourado. Apertava na sua mãozinha rígida o pequeno frasco de líquido vermelho viscoso, frasco a válvula com o rótulo: Veneno. Flit. Queria exterminar de uma vez por todas o pai. A muito tola não pensou em arrancar a etiqueta. Não sabia ler. Mas o pai também não. E no entanto... Além das palavras havia um desenhinho, a caveira. Para isso não se precisava saber ler. No escuro, sem se incomodar em ligar o gás de nitrogênio, na pressa de beber, os lábios de gesso preto, quem sabe se notaria... Enquanto isso, Uau... Coincidiam. Coincidiam na dicotomia. O baldio era o Jurássico. Estava a sua espera, tinha estudado seus hábitos. Tinha aprendido antes de estudar, com o instinto universal. A paciência da besta que não tem nada a fazer. Na Ideia Fixa. Mas ao chegar o momento culminante se distraiu. Queria comer

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carne crua, tinha tanta gana que perdeu a coordenação. Tinha quatro joelhos para cuidar, quatro cotovelos, todos os pelos do seu corpo terminavam numa gota de fósforo líquido. A lua se revolvia entre nuvens fugitivas. Teria preferido dormir, dormir de uma vez, sem tirar as pernas de pau. Só se ouviam os mordiscos do rato. Havia um intenso cheiro de gás. O prolongado riso da escuridão. O criador de instantes. A respeito da violação; também se podia “violar” a palavra empenhada, uma promessa, um juramento, por exemplo: Te juro que sou um ser humano, te prometo, te dou minha palavra... E te violo, puta! Lembrar da história da megalomania, o melhor escultor do mundo. Sua ignorância o pusera em apertos. Tinha feito um busto e talhado no pedestal a palavra VUSTO; trataram-no de ignorante, de animal... Mas é que o prócer se chamava José Maria Vusto, o que ele podia fazer? Que situação mais clássica que ir à meianoite atrás da amada, pelos atalhos mais sinistros de um bairro? A transformação do bair-

ro em selva, da cultura em natureza. E coincidir com ela? Cair em cima por casualidade? Dar a volta ao mundo atrás dela, sonhando com ela, ou conhecê-la nas coordenadas. Não precisava de álcool, chegava a ansiedade. Não quero te violentar, mosca morta. Mas vou fazer isso de qualquer jeito, a ansiedade me obriga. Quantas coisas não quis fazer e fiz, ou fiz sem querer! No momento supremo, o Dante que não se sabia Dante descobriu que não era puto... no momento da violência, de violar a palavra... Assim tinha que ser! Não era cão-com-cão! Era cão com mosca! O abismo. O cachorro coxo. Talvez fingisse para se fazer de interessante, para dar pena. Assim ganhava a vida, dia após dia, sempre com essas estúpidas simulações. Mas as mentiras se tornam realidade, são pagas lá longe, ainda que trinta anos depois. Um caminhar da noite, tornando-se dois vultos em vez de um, com o embalo, um lado ia fumar nas tertúlias dos escorpiões. O trenzinho de pau, a corda, trucutrum! Tum! Tum! Escuro, escuro, escuro.

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texto  César Aira título  Dante e Reina tradução  Joca Wolff revisão  Marina dos Santos Ferreira ilustração  Fábio Abreu projeto gráfico  Pierre Themotheo ficha catalográfica  Maria da Luz Hacke Machado coordenação editorial  Katherine Funke

Aira, César a811 Dante e Reina. / César Aira: ilustr. Fábio Abreu. Joinville: Micronotas, 2020. 92 p.: 12 x 18 cm isbn: 978-85-93797-17-0 1. Literatura argentina – Novela. I. Título. cdd: AR863

Fevereiro de 2020 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Micronotas rua Conselheiro Pedreira, 551 Pirabeiraba - cep 89239-200 - Joinville/sc

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