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"Esquinas" [amostra]

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Esquinas


caio ricardo bona moreira prefácio: susana scramim ilustrações: raro de oliveira


Ó coluna da vitória tostada pelo açúcar hibernal dos dias da infância Walter Benjamin Ah, essas esquinas ficcionalizadas por Caio Ricardo Bona Moreira tocaram uma música antiga na minha alma...

Prefácio por Susana Scramim1

Música antiga porque ali leio situações e reimagino lugares que me são bastante familiares, apesar de produzirem novamente em mim bastante estranhamento. Escrever de modo literário produz simbolização de coisas irrepresentáveis e, mais importante, proporciona a possibilidade de expurgar, para poder ver de longe, aquilo que está colado a e faz parte da nossa subjetividade. Caio Ricardo Bona Moreira fez algo que eu gostaria de ter feito: escrever a cidade onde nasci e cresci.

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Professora titular de Teoria Literária na ufsc

Seu livro que ora apresento, Esquinas, é uma ode e, ao mesmo tempo, uma elegia em forma de prosa em homenagem a uma vida que foi criada em determinado espaço geográfico. A geografia se transforma nesse lugar, chamado cidade onde vivo e onde nasci. Esse lugar não existiu a priori, foi, depois da experiência com a linguagem, alçado à categoria de “lugar”. A linguagem vai maquinando palavras e organiza o relato de uma memória que se constrói em modo “Aleph”, como faz Caio, que permite a outra máquina, a do inconsciente, trabalhar para abrir as imagens do “lugar” ao “porvir”, e não para a ação repetitiva das obviedades. De modo muito inteligente e ao mesmo tempo sen-


sível, Caio registra a vida da cidade confrontando o espaço urbano com a geografia sentimental. O resultado desse confronto se lê em Esquinas, trabalho esse que relaciono ao livro de memórias da infância de Walter Benjamin mediada pela experiência com a cidade. Entre brasileiros, catarinenses e paranaenses, diria que Esquinas poderia ser considerado uma modalidade de “Infância em União da Vitória/Porto União por volta de 2000”. Nas “esquinas” de Caio, se pode observar dois fluxos de escrita: em um deles, se dedica a registrar a passagem do tempo e de suas ações no espaço urbano, no outro, se põe a reimaginar de um modo “alephiano” a materialidade das coisas, confrontada àquilo que não está mais ali e que apenas pode ser recriado. Contudo, essas duas instâncias discursivas não têm linhas fronteiriças muito rígidas, em alguns momentos elas se atravessam mutuamente, especialmente, quando passam pelos pontos de localização importantes para o projeto estrutural desse livro. Um desses momentos estruturais acontece no mergulho reflexivo desencadeado a partir das imagens projetadas nas vidraças de um antigo prédio art déco: No encontro da Ipiranga com a Cruz Machado – não com a Avenida São João – , um velho prédio art déco assiste há quase cem anos à cidade envelhecer. Daquela esquina, a antiga construção tudo viu e tudo sabe. Talvez o leitor não acredite, mas na vidraça de uma de suas janelas é possível vislumbrar, nas tardes de abril, aquele ponto do espaço – mágico e borgeano – que contém todos os outros pontos. Ali, certa vez, concentrei meu olhar e contemplei emocionado um Aleph.

A partir da contemplação desse Aleph numa esqui-

na, as visões do passado se vão sobrepondo às do presente cujo efeito é a recriação daquilo que findou – o antigo – e que resta sob a forma de ruínas. É com esses “cacos”, as ruínas da experiência, como escreve Caio, que a experiência com o “porvir” vai sendo escrita. Ao observar que há uma estrutura no livro, percebo que ela está relacionada àquilo que percorre os sentidos das esquinas. Não é gratuito que o livro se intitule com esse polissêmico vocábulo. Esquina é um ângulo, nome da experiência com o visual, é nome de uma medida da geometria, “esquina” é encontro de linhas ou vias. Mas diz também de uma experiência de estar simultaneamente fora e dentro de um entroncamento, de um encontro entre dois fluxos, duas vias. A gente nunca permanece por muito tempo numa esquina, pois ali se produz uma sensação incômoda, porque teoricamente é concebida para ser um lugar de passagem. Novamente, o pensamento me leva aos escritos de Walter Benjamin, para quem a pesquisa com imagens da vida cotidiana de Paris do final do século xix o conduziu a compreender a nova ordem de sociabilidade implementada pela burguesia na modernidade. Essa pesquisa de Benjamin, na sua edição póstuma, ganhou o nome de “passagens”. Pensada como passagem, a esquina nos proporciona uma visão ampliada das linhas dos quadrados que nos cercam e, nas cidades, dão testemunho do planejamento e da ordem de sociabilidade que seus dirigentes sonharam, ao terem proposto aquele desenho social. O livro de memórias de Caio, ao modo de Walter Benjamin, elabora uma intersecção entre sua história pessoal e a história das suas cidades. A esquina da Rua 7 de setembro com a Av. Hercílio luz nos oferece um quadro magnífico disso que estou vislumbrando em sua escrita. Ali funcionou, ao longo de dez anos, um cinema. Ao enumerar os diferentes filmes que por ali


estiveram em cartaz durante a história das atividades comerciais das empresas de entretenimento cinematográfico, esses mesmos filmes são entremeados com as experiências do sujeito que as rememora que relaciona às crises do planeta, às da arte que tanto ama, às das famílias locais, tentando encontrar respostas para a decadência que está em jogo em toda ideia de crise. Em alguns momentos do livro, as linhas que desenham esquinas se esticam para falar do rio Iguaçu. Nem são tão esticadas assim, porque o caminho sinuoso do rio projeta sobre elas outras vias possíveis para se construir uma memória afetiva – destacadas em suas curvas – no espaço geométrico da linha, oferecendo a ela um caráter épico. O rio Iguaçu é um limite, como a linha do trem, que separa as cidades queridas União da Vitória e Porto União, e que na escrita de Caio é transformado em limiar – abertura e contato – entre religiões distintas, diferentes etnias, geopolíticas apartadas, mas que estão atravessadas por uma língua comum: a do afeto. Limiares que culminam no que o autor escreve na esquina entre Avenida Santa Rosa / Rua José Casemiro Swierk: “Eu diria: as coisas se encontram, se esquinam”. Há também esquinas reimaginadas, como por exemplo a Rua Rimbaud com Jean Genet, nas quais comparecem Sarduy e o Dzi Croquete com a função de ampliar a abrangência da memória, transportando-as para o lugar da literatura, que fez a escrita do autor ser como ela é. E outras, atravessadas pelas esquinas do discurso reflexivo, indicam que a literatura está no cruzamento da Rua Heráclito com a Rua Parmêmides. Ali, onde o pensamento é pensado, nascendo numa esquina, como escreve Caio, leitor de César Aira. Se nem tudo no livro pode ser atribuído a “factualidade” da realidade, e como nem tudo é produto de in-

venção, Caio insiste em definir essa prática da escrita com sendo literatura: “Não esqueçam que isto é literatura, prosa corrida, ensaio em poesia, ou talvez teatro, este que se faz poeticamente também com dedos de prosa. Não é pura ficção, nem mera narração documental”, situando-se a meio do caminho, no cruzamento das linhas entre a literatura e o documento: esquinas. Caio redobra a aposta na invenção da memória mediante o cruzamento incessante e proliferante da história pessoal com a da cidade moderna, o que aprendeu de Walter Benjamin, ao escrever praticamente duas versões de seu livro póstumo Infância em Berlim por volta de 1900, no qual é possível ler, no fragmento intitulado "Tiergarten": Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios.2

Tenho a impressão de que nos encontraremos com a memória das cidades de Caio Ricardo Bona Moreira em diferentes ocasiões. Susana Scramim Florianópolis, setembro de 2020. 2 em: Benjamin, Walter. Infância em Berlim por volta de 1900. Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1984, p. 73-74


Sumário

Rua Clotário Portugal 18 Rua Santos Dumont Rua Padre Saporiti 20 Rua Emílio Kroni Perimetral 22 Av. dos Ferroviários Rua Frei Rogério 24 Rua Padre Anchieta Av. Cruz Machado 26 Av. Ipiranga Rua Professor Amazília 28 Rua Costa Carvalho Av. Manoel Ribas 31 Av. João Gualberto Rua Oswaldo Polsin 32 Rua Hermínio Millis Rua Alemanha 34 Rua Itália Rua Almirante Barroso 37 Rua Quintino Bocaiúva Rua 7 de Setembro 38 Praça Hercílio Luz Rua Felipe Schmidt 40 Rua Voluntários da Pátria Rua Mimi Amazonas 42 Rua Júlia Amazonas Praça Hercílio Luz 45 (Chafariz) Rua Dezenove de Novembro 46 Rua Rio de Janeiro Praça do Contestado 48 Rua Parmênides 49 Rua Heráclito Rua Cícero França 50 Rua São Cristóvão Rua Germano Wagenfuhr 52 Rua Matias Pimpão Rua D. Pedro ii 54 Rua Barão do Rio Branco Rua Augusto Riesemberg 56 Rua Maria Marques Praça Coronel Amazonas 58 Avenida Paula Freitas 60 Rua Orlando Savi Rua Joaquim Fernandes Luiz 62 Rua Anita Maria Haas Jacobs Rua Cruz e Sousa 64 Rua Luiz Delfino Av. Manoel Ribas 67 Av. Carlos Cavalcanti Rua Professor Weinand 68 Rua Jacob Filho Rua Rigoleto Conti 70 Rua José Rudnick Linhas 72 (rio Iguaçu) Rua Helmuth Müller 74 Rua Cidadão José Lona Rua Rimbaud 76 Rua Jean Genet Rua Salomão Khury 78 Rua Miguel Forte Avenida Santa Rosa 80 Rua José Casemiro Swierk Rua José Doopiat 82 Rua Estéfano Berejuk Rua 7 de Setembro 84 Rua Prudente de Morais Av. Marechal Deodoro 87 Rua José Júlio Cleto Silva Rua Coronel Rupp 88 Rua Cel. Colonizador Max Metzler


Otra Canción (...) Como el que de una esquina a la otra camina y habla solo porque trata de entenderse con ese otro que es él mismo como ese como ese la ciudad es su hospicio.

Leónidas Lamborghini


Este mapa de se perder ĂŠ dedicado a Wilson Bueno e a Risadinha, personagem de nossas esquinas cujo nome o vento levou


Rua Clotário Portugal Rua Santos Dumont

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CAIO RICARDO BONA MOREIRA

O antigo Bar do Juca era o ponto de encontro da nata boêmia do bairro São Bernardo. Nesse reduto varonil, misturavam-se democraticamente honestos pais de família, jogadores de dominó e vagabundos de ocasião. Muitos dos quais autoridades do gole na excelência quase aristocrática do boteco. Todos mais ou menos ávidos pelas novidades políticas e policiais a se espalharem de boca em boca nas noites de sexta ou tardes de sábado por entre o barulho da sinuca trilhando sonoramente no buraco de suas caçapas. Não muito longe dali, descendo a Clotário, na esquina seguinte, o Bar do Oscar, leal concorrente, em cujo armazém secos e molhados eram ainda vendidos na caderneta, tempos da honestidade no fio do bigode. Ali, do pão d'água de todo dia ao sorvete seco com anel de plástico ou bexiga. Ali, a via-sacra que vinha do Juca aos cativos que não trocavam um recinto por outro. Ali, o crente Vitalino passava vendendo cocadas. Ali, um velho sem cordas vocais falava por meio de um aparelho elétrico sua voz de Darth Vader. Outro fazia a fé no bicho enquanto comprava salames para a sua dona. Esquinas como essa são propícias para bares, mas não existem mais ou quem sabe? O capital cultural de uma cidade do interior também se mede pela quantidade desses pontos de encontro masculino, feito maçonarias ou saunas, báquicas bocas malditas ou bazares boêmios do bairro, em cujos interiores exala-se uma estranha beleza que vem da mistura de compotas, batatas temperadas, balanças e baleiros, garrafas de aguardentes e batidas variadas. É a delícia dos bebedores que fazem do bar uma espécie de casa, ou seita ou hiato entre o lar e o trabalho, o trabalho e o lar.

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Um mapa da cidade está sobre a mesa. Ele mede 1 metro por 65 centímetros. Um mosquito pousa no cruzamento da Padre Saporiti com a Emílio Kroni, nas coordenadas d + 6 (26°14’52.91 s / 51°05’54.87 o). Este lance de inseto não abole o acaso, mas me convida a um passeio. Em tempos de pandemia, confinado, vou ao Google e, sem máscara, caminho de casa até lá pelo Street View. Perambulo, entro à direita, giro, aproximo de um portão, da fachada da loja, recuo e divago como um pensamento de Xavier de Maistre, tudo sem sair do próprio quarto. As ruas quase desertas, mas logo enxergo alguém fotografado ao léu. É um acontecimento. Amplio, vejo seu rosto embaçado e nada mais além do indefinido corpo que caminha. Semelhante a uma das caras borradas de Francis Bacon, o sujeito escapa da representação. É a própria sensação da cidade ou do país que vejo ali vagando em falso movimento.

Onde andará agora o flâneur, esse ser errante preso à foto? Estará ele na imagem e eu fora dela, ou vice-versa? Mato a saudade que sinto da rua. E da selva vou sabendo sem nem sair do quarto. Mas sem ir para as ruas, como mudar o nosso futuro? E se sairmos, poderemos morrer. Se o mundo ou o Brasil acabar, haverá uma imagem dele salva em algum banco de dados, com seus milhões de números alternados em sistema binário? Somos essas múmias digitais do porvir. Na imagem, tudo é imune, mas a vida, embora viva, segue vã. Isolados e geralmente em silêncio vamos vendo milhares a morrer, pessoas que, sem rosto, são apenas números descoordenados que não levam a lugar algum. Sem enterro digno, esses números acabam por se transformar nos cadáveres que perambulam fadados à fantasma. E tudo é live onde ainda se vive. A orquestra vai tocando enquanto o navio afunda. O país está acéfalo. Lá no Google Earth não anoitece. E onde uma rua tece a outra é sempre dia. Não há peste em Pasárgada. O passeio é profilático, seguro, mas falta uma máquina que reproduza o cheiro da rua, o calor da multidão, uma mágica que ressuscite os mortos da tragédia. Numa esquina, cada rua contém o germe de outra. Nesta, que dá para um campo aberto, imagino um quadro, Campo de Trigo com Corvos, de Van Gogh, esse pintor que quando viveu em Arles morou numa Casa Amarela, na esquina entre a Georges Tinarage e a Avenue de Stalingrad. A casa foi demolida depois de sofrer um bombardeio em 1944. Never more! O artista morreu antes, em 1890, e ninguém sabe de quem foi a culpa. Certamente, de alguém. Quase sempre alguém é responsável por grande parte das tragédias. Urubus passeiam entre os girassóis.

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Rua Padre Saporiti Rua Emilio Kroni

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No verão, a Perimetral de Porto União é o jardim das delícias de Bosch. Me encanta o vai e vem de suas gazelas eufóricas e dedicadas na arte de um andar quase voo. Invento um passeio só para flanar nessa passarela de quadros e personagens, donas de casa e cães de estimação, jovens e cardíacos, esses reincidentes no pecado da gula e sedentarismo. Mas gosto mesmo é de mirar as musas. Vejo Vênus, esbelta, saindo da concha, a dama de cabelos dourados e esvoaçantes, protetor solar fator 30, tênis com amortecedor da Nike, pernas longas e porte fino. Roupa discreta, nada barroca, ape-

nas clássica, como sempre se supôs. Só não é perfeita porque lhe faltam as curvas, bem como a minha companhia no trote do flanar. Delira-me a dança de seus cabelos como delirou a Homero que disso fez canção. Botticelli pintou Zéfiro a soprar as melenas da ninfa não menos aquática que a fonte. Olho tudo, mas vejo somente aquilo que eu quero. É preciso contemplá-la antes que o passeio acabe, antes que o verão acabe, antes que ela case, se mude para Curitiba, ou volte aqui, depois da lua de mel, com gajo e anel. Vejo Mona Lisa (sua voz falando baixinho dentro da minha) caminhando com a amiga, uma ruiva de Botero, que é caixa de supermercado. Ambas levitando com o doce suor a não poupar o perfume de patchouli, lavanda ou baunilha. Apresso o passo e chego mais perto. Falam de homens e sobremesas. Vejo Primavera acompanhada das três Graças. Todas riem, menos uma que, ouvindo seu mp3, nem olha para os lados. Ou talvez nada escape pelo canto de seus olhos de lente e lince. Que música penetra em seus lindos ouvidinhos, suas orelhinhas de brincos e dengos brilhantes? Em meu escritório, num dia chuvoso, me quedo a contemplar a lembrança fictícia desses quadros. Escrevo para não perdê-los. Guardar acesa no texto – essa caixa de cachivaches – a ruína de uma imensa memória. Apenas um lamento: no quarto ao lado, limpando as vidraças, Isabel, sem escolha e sem passeios, nem sonha o que vou fazendo por aqui. Que música toca no ouvido da Graça? Quem saberá? Nunca olvidar das graciosas gazelas de nuestra perimetral. No entanto, nossas Graças mais perfeitas, como as de Rubens, têm curvas. Queira Zeus que os exercícios de seus caminhares não lhes furtem tão precioso bem.

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Perimetral: Av. dos Ferroviários

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Rua Frei Rogério Rua Padre Anchieta

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Aqui, dois tempos se encontram, suavemente se tocam, poeticamente se enlaçam. Amalgamam-se no serão de suas particulares perspectivas. Um é barbudo, usa óculos escuros, bengala e já leu a Bíblia duas vezes. É o passado figurado no antigo edifício que já foi uma fábrica de café, depois uma escola de datilografia e hoje sedia um sebo em cujos livros rotos ou rasurados traças não cessam de roer ou retraçar novas rotas. É a própria imagem do que é eterno e infinito, um monumento dos anos 20 fadado a durar seja o tempo que for, pervivendo altivamente mesmo quando tudo virar ruína. É a metade da arte, Andrômaca, Paris, eu ainda penso em ti. O outro tempo é fugaz, contingente e transitório, passa veloz sem deixar rastros. Levanto os olhos do livro e fito na rua com seu frenético alarido a mulher que passa num doce balanço a caminho da Rodoviária, sacudindo a barra de seu vestido. É uma efêmera beldade, a passante que eu bem teria amado, não fosse um poeta a levá-la daqui. Da Rodoviária ela parte para o livro das flores, Irati ou Guarapuava. É a outra metade da arte. Assim, essa esquina é moderna, já que está fadada a existir apenas e efemeramente enquanto dure. Se nada há aqui para ser apreciado, a não ser o prédio e alguns de seus livros, a não ser a beldade e suas ancas, o bardo que invente algo para eternizar suas belezas contingentes e transitórias, baudelaireanamente fugazes, simplesmente banais. Está tudo num livro lá.

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No encontro da Ipiranga com a Cruz Machado – não com a Avenida São João –, um velho prédio art déco assiste há quase cem anos à cidade envelhecer. Daquela esquina, a antiga construção tudo viu e tudo sabe. Talvez o leitor não acredite, mas na vidraça de uma de suas janelas é possível vislumbrar, nas tardes de abril, aquele ponto do espaço – mágico e borgeano – que contém todos os outros pontos. Ali, certa vez, concentrei meu olhar e contemplei emocionado um Aleph. Como enumerar em sequência seu conjunto infinito? Restaram-me cacos dessa experiência. Vi o canto de uma cotovia sobre o galho de uma árvore em alguma fazenda do interior. Um temporal a despejar pelos ares pedras do tamanho de um punho. Uma plantação de milho, alguém cavando um buraco, um criança brotando do nada e uma velha morrendo sufocada. Um flor se abrindo, um comício, um show de rock, tuaregues em caravana no deserto do Saara. Vi um cortejo negro e silencioso a levar dois mortos para o cemitério no fim de uma rua. Um velho polaco entregando verduras e legumes com sua carroça e cavalo. Vi você me lendo também. Dois irmãos ciganos lutando com punhais no interior da Catalunya pelo coração de uma mulher. O mais for-

te deles se deixando morrer apenas para não ser o assassino. A manhã nublada e monótona de um sábado que ainda não passou em alguma cidade da Etiópia. O Benedito Treme-Treme, vulgo Cavaquinho, que vez e outra desfilou faceiro por aqui. Seu Flaviano a vender pedras e poemas com seu ar de Monge, profeta João Maria, ou quem sabe Conselheiro recém-egresso dos Sertões. Vi também Beatriz, alta e frágil, ligeiramente inclinada em cujo andar havia como que uma graciosa lentidão. Vi Deodorina, seu ser tão flor de rosa, ou Maria Rosa, cabocla dos campos gerais. Vi bichos que não sei nomear, de várias formas, cores e tamanhos, alguns comendo um homem morto. Vi a primeira edição de Macunaíma que alguém guardou em algum armário trancado a sete chaves. Vi alguém chegando a estas plagas com botas altas de tropeiro. Vi uma linda jovem passar com sua pompa e floreio primaveril. Era talvez a filha de minha filha que ainda não nasceu. Vi um cão mijando na esquina para marcar travesso e sem cerimônia seu território de cão. Vi um índio impávido de arco e flecha na mão em alguma reserva do alto Xingu, ou talvez um laklãnõ, botocudo, da aldeia Quati, dos xokleng. Vi um escritor portenho sonhando com um Rei antigo. Vi crimes sórdidos cometidos por esposas traídas. Vi incêndios de corpos desnudos em camas desarrumadas de amor. Vi alguém acenando para alguém pela última vez. Tudo vi do que houve e ainda haverá. O leitor não se espante se algum dia, ao passar por esta esquina, encontrar alguém, quieto e concentrado, espiando por uma das vidraças do velho prédio. Ele estará vendo o mundo numa espécie de máquina. Vendo eu aqui também, você, todos nós, todas as esquinas deste e outro mundo que ainda houver.

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Av. Cruz Machado Av. Ipiranga

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