3 minute read

London, London, 1975

London, London, 1975

London, London so beautiful, so lovely. Andar perdida, devagar pelo frio, pela chuva. Procurando as coisas, tentando descobri-las.

Advertisement

Segunda-feira. O sol me esquenta do frio. A vida corre no parque, na livraria. No violão do Emílio, da Estela, nas conversas no meio das almofadas.

Nossas perguntas do ano passado. Uma exposição de fotografia no Hyde Park. O café do cineclube quase vazio.

O pôr do sol no Tâmisa azul e dourado. Quinta feira. As pessoas se desentendem devagar. Lembro dos pores de sol em Ipanema, em Portillo com muita neve, em Salvador com muita cachaça, em Viña del Mar. Na Île St.Louis, indo para a casa da Caty, levando vinhos e chocolate.

Naquele verão em Londres encontramos muita gente. Nos fins de tarde, eu gostava de me sentar à beira do Tâmisa, em frente do Westminster e olhar a cidade.

Dás as costas para mim na nossa noite fria, depois do crepe com vinho no Asterix. Tudo isso poderia estar acontecendo na beira do Sena, mas é outono, o rio é o Tâmisa, a rua é King’s Road. Nossos passos ressoam nas folhas amarelas.

Já é 29 de setembro e o ano corre. Na tv, alguém fala de História Contemporânea e de estúdios. De repente, a gente esquece que o outono chegou.

Queria te descobrir no meio dos risos. O tempo voa em nossas mãos vadias. Nossa paz de risos no meio do olho. Lembro de uma cena de filme: Jean-Pierre Léaud caminhando com um livro de Balzac. St. James Park. O verde se espalha e o vento é frio.

Essa estadia em Londres foi repleta de filmes depois que descobrimos o Electric Cinema, um cinema de arte ao norte

64

da cidade. Em alguns dias, chegávamos a ver três filmes, um depois do outro.

Holland Park, solta no tempo-espaço. Xícaras de chá e calor. Alguém falou trinta anos esta noite. Os anos passam.

Um dia, no Hyde Park, comecei a conversar com duas ladies inglesas. Elas me falaram de suas casas, de suas vidas, das viagens, dos filhos. Nos seus relatos, as datas eram marcadas por eventos da realeza. Diziam, por exemplo: meu primeiro filho nasceu no ano da coroação da Elisabeth, ou fui à África do Sul no ano do casamento do príncipe Charles com Diana. Passamos a tarde conversando no parque. Às cinco horas elas me convidaram para o five o’clock tea numa casa de chá do parque.

Historinhas coladas. Não perturbe meu ensaio de ser gente grande. Te deixo nesse 29 de setembro. Na hora em que o relógio bate meia-noite, eu saio andando por essa noite de mil outonos.

O filme terminou há algum tempo. Ouço o barulho de tamancos na calçada. O quarto aqueceu meu frio.

Nossos passos na chuva na tarde. Meu choro desconsolado. O inverno passa correndo pelo outono. Pensei de novo no cinema de Bremen e nas cinematecas da vida. No Electric Cinema e nos filmes experimentais sem pé nem cabeça.

Victoria Station. Gentes e cores. Abraços. Portobello Road. A solidão das pessoas. Os hippies descalços no meio dos bêbados.

Um pub, aquele ar de festa. Teu olhar cheio de coisas não ditas. Talvez seja mais fácil dizer gosto da vida e de brincar de viver.

No barulho da Euston Road, esperando Jan Garbarek, que vai tocar aquele pequeno sax, com sua cara de anjo drogado.

65

Frases sem fim. Gentes, gentes e teu olhar cheio de coisas não ditas. As pessoas tomando sol no Hyde Park na primavera. Se perder na Tate num sábado à tarde. Depois, sair andando à toa em Covent Garden.

66

This article is from: