

Lendas negras
Júlio Emílio Braz
Salmo Dansa
Lendas negras
Obra selecionada para o catálogo White Ravens 2002, da Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique (Alemanha).
Júlio Emílio Braz
Ilustrações
Salmo Dansa
1a edição
Porto Alegre – 2025
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Braz, Júlio Emílio Lendas negras / Júlio Emílio Braz; ilustrações Salmo Dansa. — 1. ed. — Porto Alegre: Mediação, 2025.
ISBN 978-65-5538-050-7
1. Literatura juvenil I. Dansa, Salmo. II. Título.
25-258182
Índice para catálogo sistemático:
1. Literatura juvenil 028.5
Aline Graziele Benitez — Bibliotecária — CRB-1/3129
CDD-028.5


Histórias dos povos africanos
Como afrodescendente, sempre me ressenti da falta de livros que falassem sobre a África ou que contassem suas histórias. Sem procurar muito, até hoje é bem mais fácil encontrar publicações com lendas europeias, vikings, celtas, russas, japonesas. Nada contra. O homem é o somatório de suas experiências e de tudo o que lê. E quanto maior e mais diversificada sua leitura, melhor. De qualquer forma, a máxima não tem sido aplicada às lendas, histórias e culturas africanas.
Isso sempre me incomodou. Incomodava ontem, quando eu era criança e olhava com indiferença minha própria cor, e incomoda hoje, quando, ao visitar escolas, encontro jovens que também sentem vergonha de quem são. Acho interessante, e ainda mais importante, que eles conheçam suas origens.
Quantas histórias sobre os tuaregues, o lendário povo nômade do norte da África, esses jovens já ouviram?
Algum deles conhece a história de reinos tão poderosos quanto desconhecidos como os de Gana e Ashanti? E sobre o império Mali? O que ouviram?
Songai?
Kanem-Bornu? Bambara?
Ainda não se falou o suficiente sobre a África para os jovens de hoje, afrodescendentes ou não. E, quando se falou, buscou-se mais a discussão sobre as religiões ou o folclórico, quando não o estereótipo.
Para muitos, a África ainda é um mistério. Ou pior: quando aparece nos noticiários, é mencionada como palco de terríveis guerras civis, de epidemias pavorosas ou como um continente de países à beira da barbárie, onde a civilização parece não existir. No entanto, boa parte das dificuldades enfrentadas hoje na região é, na verdade, herança de séculos de colonização predatória. Colonização que deixou como legado a divisão artificial e, por isso mesmo, conflituosa de todo um continente, separando povos de mesma origem histórica e forçando inimigos seculares a conviver num mesmo país até hoje. Mas a África é bem mais do que isso. Na verdade, não existe apenas uma África, mas incontáveis, ricas em histórias e tradições; do norte islamizado até o sul dividido em incontáveis crenças e religiões – muitas delas fruto dos anos de colonização europeia –, passando por uma surpreendente diversidade ecológica e geográfica que vai de desertos escaldantes, como o Saara e o Kalahari, às maravilhas florestais do delta do Okavango e às extensas savanas de países como o Quênia.
Sua riqueza étnica é impressionante, responsável por uma herança cultural e artística que, penso, muitos de nós, inclusive os afrodescendentes, desconhecem, apesar de a África ter uma influência decisiva nos hábitos e nos costumes dos brasileiros, inclusive daqueles que não são afrodescendentes. Na musicalidade, no falar, na culinária ou no temperamento do brasileiro, o Brasil e a sua história, direta ou indiretamente, estão ligados aos milhares de africanos que entraram neste país com a escravização. Podemos falar o mesmo de países como os Estados Unidos, Cuba e outros tantos no continente americano.
Ao escrever este livro, não pensei em nada além disto: resgatar, a partir de poucas lendas de várias partes do continente africano, um pouquinho dessa herança cultural esquecida – ou premeditadamente ignorada – e apresentar a todos os dispostos a conhecê-la. Quem sabe, assim, outros tantos se sintam inspirados a escrever mais sobre ela.

Júlio Emílio Braz

Tsui’goab ou A batalha contra a Morte
Há muitos e muitos anos, o povo kói, que vive no grande deserto no sul da África, conta a história de um homem que viria a ser conhecido como Tsui’goab.
Naqueles tempos, vivia-se uma grande seca. Não chovia fazia muitos e muitos meses e, como todos os homens da aldeia, Tsui’goab estava preocupado.

– Quando será que teremos chuva novamente? – perguntava-se. O sol castigando a terra e os homens, e a água e a comida cada vez mais escassas. Para onde quer que olhasse, Tsui’goab não conseguia avistar sequer uma nuvem. Os poços secavam, e os homens eram obrigados a ir cada vez mais distante para encontrar qualquer animal para caçar e saciar a fome das crianças, que choravam noite adentro, as barrigas vazias, os corpos que eram apenas pele e osso.
Quase todo o gado morrera. As plantações haviam se transformado em galhos e folhas secas que se misturavam à poeira quando o vento quente soprava do deserto e varria as cabanas silenciosas. Apenas um poço sobrara depois de tantos meses sem chuva, mas a cada dia que passava era preciso descer os baldes cada vez mais baixo para encontrar o líquido precioso.
Vivia-se um grande dilema: beber a água e saciar a sede ou dá-la ao gado. Mas se dessem de beber ao gado, sofreriam terrivelmente e, pior, não teriam como regar as plantações. Sem gado e sem colheitas, morreriam de fome.

O sol, antes olhado com admiração e encantamento, transformara-se no grande inimigo, destruidor de tudo e de todos. Sem poder fazer nada para ajudar, Tsui’goab chorava, atormentado pelas dúvidas e pela dor de ver aqueles que amava sofrerem tanto.

Certo dia, um desconhecido entrou na aldeia logo depois de uma pavorosa ventania que soprou por horas no deserto. O homem acabou sendo acolhido na casa dos mais velhos, pois, apesar do sofrimento e da provação a que eram submetidos pela seca, hospitalidade era hospitalidade, e todo visitante sempre se via bem recebido e convidado a partilhar do pouco que tinham.


Apesar de ter o rosto escondido por um capuz e o corpo coberto por uma longa capa, Tsui’goab pôde perceber que o visitante era um homem extremamente saudável. Era musculoso e aparentava grande força física, diferente de todos por aquelas bandas, quase sempre magros e de aparência envelhecida.
– De onde vem? – quis saber, observando-o com desconfiança.
– De perto e de longe – respondeu o desconhecido.
– A seca anda muito grande e espalhou-se para bem longe...
– É verdade...
– Deve ter visto a morte muitas vezes pelo caminho...
– Para onde quer que eu vá, a morte me acompanha...
– Apesar disso, você me parece bem saudável. Bastante saudável, na verdade... – O homem sorriu misteriosamente e nada disse, o que levou Tsui’goab a perguntar: – Tem alguma explicação para isso?

– Explicação? Que explicação?
– Qual é o seu segredo?
– Segredo? Do que está falando, homem?
– Já esteve outras vezes nesta aldeia, não é verdade?
Os olhos do desconhecido brilharam de modo estranho.
– Sim e não – respondeu, a voz sumida. Tsui’goab levantou-se num salto e o desafiou:

– Vamos! Tire seu capuz e mostre-nos o seu rosto, pois não há mais o que esconder! Todos sabemos muito bem quem você é! O desconhecido sorriu, fazendo pouco-caso das palavras de Tsui’goab.
– Sabem mesmo?
– Ouvimos quando você disse que vem de longe e de perto e bem sabemos que a morte está por todo lado. Por isso a viu por onde passou, pois a verdade é que você é a Morte.
O desconhecido despiu o capuz e a capa e admitiu: – É verdade. Eu sou Gaunab, e muitos me chamam de Morte.