A coleção de palavras
Uma nova vida ao atravessar o mar por Roberta Alexandr Sundfeld
Sobre a autora
Sobre o ilustrador
Um cardápio cheio de perguntas
As minhas melhores amigas se revezavam ou tiravam no par ou ímpar para decidir quem passaria o sábado na casa dos meus avós. Elas diziam que aquela era uma casa de avós de filme, como esses da sessão da tarde, com chaminé soltando fumaça e balanço no quintal. E era mesmo.
Clara tinha uma avó que já não lembrava o nome dos netos. Era uma senhora magrinha, que ficava horas sentada na cadeira de balanço, olhando longe pela janela alguma coisa que só ela parecia enxergar. Tinha a mania de coçar sem parar o braço em que havia uns números tatuados. A minha amiga dizia que era uma tatuagem feia, triste. O avô da Clara tinha morrido na guerra. A avó estava viva, mas havia ficado assim, um pouco estranha, distraída do mundo.
Já a avó da Bianca era muito divertida! Ela não gostava de ser chamada de vovó, preferia babe e dizia que era um segredinho só dela e das netas. Mas depois a gente descobriu que esse segredo era porque nem todo mundo sabia que babe também significa vovó, só que em iídiche, e assim ela podia mentir um pouco sobre sua verdadeira idade. O cabelo da babe era vermelho vivo, da cor do fogo,
e ela tinha realmente uma alegria quente, enfeitada com bijuterias espalhafatosas que ela mesma fazia ou comprava na feira hippie. Babe inventava maquiagens, fantasias e peças de teatro com música alta. Eu adorava ser convidada para dormir na casa da Bianca quando sabia que era a noite de ficarmos com a babe, mas a verdade é que ela não tinha cara nem jeito e nem cheiro de avó.
Ruth tinha apenas dois avôs. Um deles era barrigudo, tinha uma risada de trovão e sempre levava livros para colorir quando buscava a Ruthinha na saída da escola. O outro avô ela nunca encontrava, porque a família perdeu o contato quando ele se casou com outra mulher. Nunca entendi muito isso de “perder o contato” com alguém que você sabe exatamente onde mora. Mas era assim. As avós, a Ruthinha nunca conheceu. E é por isso que ela ganhou esse nome: uma homenagem à avó que também se chamava Ruth e que já tinha morrido quando a neta nasceu.
Almoçar na casa dos meus avós era um dos meus programas preferidos! Eu sempre chegava à casa deles com fome. Tudo que eu comia por lá tinha um sabor que eu podia reconhecer pelo cheiro, de olhos fechados, antes mesmo da primeira mordida. O único problema é que para o meu avô não existia almoço com os netos sem um papo sobre o que a gente estava aprendendo na escola, principalmente em história e geografia. Vovô gostava de topônimos! Tinha uma mania estranha de perguntar o endereço das minhas amigas. Dizia que a gente não pode morar numa rua sem
saber quem foi a pessoa que deu nome a ela; temos que conhecer a origem dos lugares. Acho que essa mania de juntar o nome com a história de vida da pessoa tinha a ver com a própria história do meu avô. Ele nasceu com o nome de Mendel e só quando veio morar no Brasil é que ganhou o nome de Manoel. Imagina isso: ter dois nomes! Às vezes, antes de dormir, eu ficava pensando qual seria o outro nome que escolheria, se pudesse. A Ruth sempre falava disso. Ela não gostava do próprio nome, achava que era nome de gente velha. Então tentava convencer a mãe a trocar por Patrícia, Júlia ou então Renata. Mas a mãe da Ruthinha explicava que, quando a gente nasce, ganha o nome que os pais escolheram e o carrega a vida toda. Eu ficava um pouco chateada, porque achava que a mãe da Ruthinha não acreditava muito nessa história dos dois nomes do meu avô. Mas eu juro que é verdade!
Com essa mania do vovô de querer saber tudo sobre o nome da rua em que as pessoas moravam, eu tive que descobrir quem foi Getúlio Vargas, Alferes Ângelo Sampaio e Tenente Max Wolf Filho quando me mudei para novas casas. O vovô nunca soube me explicar por que um homem que deu um tiro no próprio coração e outros que lutaram em guerras ganharam de presente um nome de rua. E eu cresci achando mais bonitos os endereços das amigas que moravam em ruas com nome de professora, de rio ou de flor.
Quando percebia que uma amiga estava aflita com as perguntas difíceis do vovô, eu tentava mudar de assunto e perguntava para a vovó sobre a sobremesa; a sobremesa das crianças, é claro, porque
o vovô, esse eu já sabia que nunca provava nenhuma das sobremesas que a minha avó preparava. Vovô Manoel não conhecia o sabor de gelatina nem de pudim. Ele nunca comia mousse de chocolate, flan de baunilha com calda de caramelo e jamais chegou perto de uma maria-mole. Ele simplesmente não conseguia levar até a boca a colher com um pedaço de qualquer comida que tremesse, nem que fosse só um pouquinho.
A vovó fazia um pudim de leite condensado maravilhoso, daqueles cheios de furinhos, que era o meu predileto, mas servia de sobremesa ao vovô Manoel uma fatia de mamão, com as sementes.
Nunca vi nada mais sem graça. Comer mamão na sobremesa era, para mim, tão esquisito como dar às ruas nomes de homens que fizeram guerras. Eu não comia mamão. O cheiro me enjoava, e eu não experimentava, mesmo que a vovó garantisse que estava docinho.
Então, por muitos anos foi assim: de um lado da mesa, eu e o meu prato de pudim com calda de caramelo, e do outro, o vovô atrás de sua fatia de mamão com sementes, que ele comia devagarzinho para esticar a conversa; afinal, a gente sempre tinha muito sobre o que conversar.
O shtetl
Mendel nasceu em 1909, num shtetl (cidadezinha) em Horyshkivka, na Bessarábia — região histórica da Europa Oriental, onde fica a atual Moldávia e parte da Ucrânia —, a pouco mais de trezentos quilômetros de Kiev, a capital ucraniana.
O shtetl, mais do que uma cidadezinha, era uma atmosfera, um ambiente. A língua falada era o iídiche, uma estranha mistura de alemão, hebraico e línguas eslavas. E foi nessa fusão de línguas que os judeus da Europa Central e Oriental encontraram um jeito de se entender. Uma gente que não era só polonesa, ucraniana, moldava, russa ou húngara: eram judeus, e por isso não tinham exatamente a identidade desses países, porque não eram totalmente aceitos ou integrados às comunidades do mesmo modo que os demais cidadãos. Para além de um idioma, o iídiche era uma cultura, um modo de viver.
O shtetl de Mendel, em Horyshkivka, parecia com os tantos outros daquela região: pelas ruelas se espalhavam tabernas, açougues, uma porção de ateliês de alfaiates, sapateiros, carpinteiros e feiras com barracas onde se vendia de tudo um pouco. As casas eram simples, amontoadas em ruas estreitas. A vida girava em torno de uma praça central onde se fazia comércio, celebravam-se as festas e discutia-se acaloradamente para fazer valer opiniões ou pelo simples hábito e prazer de argumentar. Em quase todo shtetl, por menor que fosse, era certo que existiria mais de uma sinagoga,
porque sempre havia muitos pontos de vista sobre como conduzir os ritos e compreender a fé, inclusive na mesma tradição judaica. Então, que cada um fizesse do seu jeito e se multiplicassem os lugares que serviam para conversar com o mesmo Deus. “Para a fé, melhor mais do que menos”, era o que costumava dizer o pai de Mendel.
A Bessarábia foi uma terra conquistada por muitos povos, como uma fazenda que vai mudando de dono. Por isso, irmãos nascidos na mesma casa, por exemplo, não eram do mesmo país! Alguns eram ucranianos, outros eram moldavos, romenos ou então russos, conforme o ano em que nasceram.
A vida em Horyshkivka era pobre, quase miserável. Mas era intensa, animada. Tinha teatro, poesia, dança, música, tudo envolto em tradições antigas e em religiosidade. As tradições judaicas davam o ritmo da vida, do dia a dia. Era um lugar de gente que falava alto, cantava, comia as mesmas comidas, se vestia de modo parecido; como se cantar, dançar e contar histórias pudesse dar à pobreza menor importância e tornar as pessoas mais próximas, unidas por um sentimento de pertencimento, pondo em prática o ditado de “quem canta seus males espanta”.
As famílias visitavam umas às outras, trocando favores, receitas e fofocas. As amizades passavam de uma geração para a próxima, o que muitas vezes acabava em casamentos. Quando os pais achavam que era a hora de os filhos saírem de casa e formarem a própria família, organizavam um shiduch (encontro arranjado). Funcionava como uma espécie de site de namoro. Mas sem site. E sem namoro. Tudo era feito pelos pais, com a ajuda de uma casamenteira profissional que ia descobrindo as preferências de cada família. E depois se tentava “dar match”, fazer uma combinação perfeita. As famílias, quase todas pobres, não deixavam de ter a esperança de ver o filho ou a filha se casar com alguém um pouco mais rico. O que, claro, nunca acontecia! Seguiam assim: