Espia montanhas das
Ana Carolina Neves

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Ilustrações
Valentina Fraiz
1ª edição
Porto Alegre – 2025
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Neves, Ana Carolina Espia das montanhas / Ana Carolina Neves; ilustrações Valentina Fraiz. — 1. ed. — Porto Alegre: Mediação, 2025.
ISBN 978-65-5538-048-4
1. Literatura infantojuvenil I. Fraiz, Valentina. II. Título.
25-255913
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura infantil 028.5
2. Literatura infantojuvenil 028.5
CDD-028.5
Aline Graziele Benitez — Bibliotecária — CRB-1/3129

Angela-Lago
Este livro descreve o cenário onde eu vivo hoje, e me alegra saber que ele existirá para você, leitor.
Moro em uma pequena vila, à beira do Parque Estadual do Biribiri, nas redondezas de Diamantina, em Minas Gerais. Vivo cercada pelas serras e seus desenhos que nunca terminamos de decifrar. Cercada por rios e córregos de diferentes cores, como a autora nos conta. Com suas quedas-d’água que são uma festa.
O campo sabe ser árido, mas sabe também ser gentil.
A cada momento está diferente. A gente vai acompanhando suas mudanças durante o ano: tempo da flor de agosto, tempo do pau-d’arco, da aleluia, da canela-de-ema, do pau-santo. E das sempre-vivas.
Os animais da região algumas vezes se aproximam para nosso encantamento. Ou medo, pois, se são doces mocós e caxinguelês e engraçadas seriemas, há também

muitas cobras. E aranhas do tamanho da palma da mão. Os pássaros são tantos, a autora lhe contará. E você verá que a experiência de viver tão próximo à natureza é forte e boa.
Experimentará a liberdade de ficar na chuva, escutando as folhas cantarem, de sentir o vento e de admirar os penhascos. Temerá a força das águas e as trilhas escorregadias no alto da serra. Porque com certeza você se identificará com Zinho, nosso Miguilim. Como ele verá e não verá. É que sempre vemos pouco, se considerarmos a maravilha que é o mundo.
Aqui não se pode mais apanhar as sempre-vivas, agora é um parque de preservação. Mas as pessoas contam histórias como a deste livro. De como viviam parte do ano em lapas e do contentamento da época da colheita das flores.

Temos benzedeiras que sabem orações para tudo, inclusive a bendição especial e concreta dos biscoitos de polvilho da Vó Judith. E também, como neste livro, muitos conhecem sempre alguma boa história a ser contada na hora certa. E a vida é saborosa e arriscada. E deslumbrante. E singela.
Espia das montanhas tornará seu este pedaço da Serra do Espinhaço. E não só o cenário, o mundo. Dou alegremente meu testemunho de que esta ficção é de verdade.

A natureza não faz milagres; faz revelações.
Carlos Drummond de Andrade


Naquelas paragens não havia cidades. Nem bairros ou condomínios. Nem avenidas ou ruas. Nem carros ou motocicletas. Nem mesmo fazendas. Aquelas paragens ficavam no alto de uma cadeia de montanhas conhecida como Espinhaço.
Essa cadeia de montanhas era diferente das outras que aparecem nos atlas geográficos. Talvez tivesse chegado a ser uma imensa cordilheira como suas irmãs geológicas, altíssimas, com picos nevados e agudos, como os Andes, os Alpes e o Himalaia. Mas agora, muito desgastada pelas intempéries, com fileiras de rochas encrespadas, ela mais se parecia com uma comprida espinha dorsal cheia de lordoses e escolioses.
Coisa difícil por lá era ver uma casinha, um curral ou uma criação. O viajante podia andar por dias escutando



só o zumbido dos insetos, o canto dos pássaros, o barulho do vento varrendo os capins e o murmúrio de regatos correndo entre pedras.
Havia por ali um lugar chamado Tempo Perdido, onde moravam dois irmãos — o Zinho e a Chica. Ficava entre o Pico do Itambé e o Pico Dois Irmãos, numa caída de serra, esquecido entre campos e montanhas. Lá os dias se confundiam, as semanas se misturavam, e só a mudança das estações lembrava que o tempo estava de passagem. No mais, a vida seguia vagarosa, sem grandes acontecimentos e sem quase pessoa alguma. Mas num certo outono, que ia se encaminhando como outro qualquer, aconteceram coisas que mudaram a vida dos irmãos.
