

RogéRio AndRAde BARBosA e Jô oliveiRA
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RogéRio AndRAde BARBosA e Jô oliveiRA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Barbosa, Rogério Andrade Histórias que nos contaram em Luanda / Rogério Andrade Barbosa; ilustrações de Jô Oliveira. — 1. ed. — São Paulo: Quinteto, 2025.
ISBN 978-85-8392-220-9
1. Literatura infantojuvenil I. Oliveira, Jô. II. Título.
25-261981
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura infantil 028.5
2. Literatura infantojuvenil 028.5
Cibele Maria Dias — Bibliotecária — CRB-8/9427
CDD-028.5

Aos alunos e às alunas que participaram de nossas oficinas em Luanda, escrevendo, desenhando, contando e criando histórias, o agradecimento dos autores.
E ao embaixador Afonso Cardoso e à embaixatriz Solange Escosteguy Cardoso, pelo convite e generosa acolhida na Embaixada Brasileira.



Aconvite da Embaixada Brasileira em Angola e do Instituto Nacional do Livro e do Disco de Angola (Inald), participamos durante dez dias, em junho de 2008, de uma série de atividades em Luanda: lançamento de livro, exposição de ilustrações, palestras, oficinas e também do Jardim do Livro Infantil.
Embora já conhecêssemos outros países africanos, essa era a nossa primeira viagem a Angola.
Logo, sentíamos como se estivéssemos em casa, tal a gentileza e a hospitalidade com que fomos recebidos em todos os lugares.
Os três dias que passamos ministrando oficinas de produção de texto e imagem para crianças, jovens e adultos foram, particularmente, inesquecíveis. Segundo as palavras do mestre Paulo Freire, não estávamos ali só para ensinar, mas, sim, “aprender primeiro para, ensinando depois, continuar a aprender”.
Na primeira parte da oficina, trabalhávamos juntos. No segundo momento, dividíamos a turma em dois grupos: um que gostava de contar histórias, e outro que preferia desenhar.
A princípio, muitas das narrativas que nos apresentaram, como acontece com a maioria das crianças urbanas em qualquer país, eram contos consagrados da literatura infantil e juvenil universal.

Porém, à medida que conversávamos, alguns alunos foram se lembrando de contos e fábulas tradicionais, repassadas, em geral, pelos mais velhos.
Entre as várias histórias que nos contaram, três delas foram selecionadas para este livro. Esses textos, reescritos e adaptados para o público brasileiro, apresentam algumas palavras em quimbundo, uma das línguas nacionais de Angola, e são, como os leitores poderão perceber, plenos de magia e africanidade.
Com base em tudo o que vimos, ouvimos, anotamos e fotografamos, criamos este livro.


ma mulher grávida, que ficara viúva muito jovem, tinha de buscar água todos os dias num rio distante. Não era fácil carregar a disanga, pote grande de barro, mas ela não tinha quem lhe ajudasse.
À medida que os meses passavam, sua barriga aumentava.
Até o dia em que ela não conseguiu suportar o peso da disanga que equilibrava na cabeça.
Naquela manhã, desesperada, a mulher sentou-se em uma pedra à beira do rio e gritou bem alto.
Tão alto que assustou os pássaros empoleirados nos galhos dos imbondeiros:
— Prometo dar meu filho a quem me ajudar!!!
No mesmo instante, um braço peludo levantou do meio das águas, acenando para a mãe.
Ela, assustada com a inesperada aparição, tornou a gritar:
— Prometo dar meu filho a quem me ajudar!!!



Para aumentar seu espanto, um outro braço surgiu das profundezas. Pensou, a princípio, que fosse a Kianda, sereia dos rios, lagoas, fontes e mares, dotada de poderes sobrenaturais. Ou então um Nzumbi, alma de outro mundo.
— Prometo dar meu filho a quem me ajudar — murmurou ela, morta de medo.
Dessa vez, o que apareceu foi a cabeça do ser mais temido da floresta, o Dikish, um monstro pavoroso, que tinha o corpo coberto de pelos, como se fosse um enorme macaco.
Sem dizer uma palavra, ele pegou a disanga e ajudou a mulher como ela havia pedido.

Enquanto o Dikish caminhava, socando o chão com seus gigantescos pés, os animais pequenos, atordoados, corriam para suas tocas para não serem esmagados. Os passarinhos, por sua vez, ao ouvirem o chape-chape dos passos da medonha criatura, cessavam imediatamente de cantar.

E assim foi.
Todas as manhãs, o monstrengo reaparecia pontualmente para ajudar a mulher. Ninguém percebia a presença do misterioso auxiliar, pois a jovem grávida morava em uma cabana afastada das outras do vilarejo.
— Daqui a sete anos, quando o menino já estiver crescido, virei buscá-lo — disse o Dikish, quando percebeu que a mulher estava prestes a dar à luz.
Não demorou muito para a criança nascer. Um menino forte e bonito.
Como ele não tinha pai, a muvalesa, parteira mais idosa e experiente da aldeia, ajudou a escolher o nome do recém-nascido: Domikalinga.
O garoto, desde cedo, demonstrou ser muito inteligente e capaz de adivinhar as coisas, como se fosse um quimbanda, homem que, entre outros mistérios, pode prever o futuro.
