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Elias Yaguakãg
Ilustrações do autor
1a edição
Porto Alegre — 2025
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Yaguakãg, Elias Aventuras do menino Kawã / Elias Yaguakãg; ilustrações do autor. — 1. ed. — Porto Alegre: Mediação, 2025.
ISBN 978-65-5538-052-1
1. Povos indígenas (Maraguá) — Literatura infantojuvenil I. Título.
25-261922
Índices para catálogo sistemático:
1. Povos indígenas: Brasil: Literatura infantil 028.5
2. Povos indígenas: Brasil: Literatura infantojuvenil 028.5
Eliete Marques da Silva — Bibliotecária — CRB-8/9380



Um livro sobre meu povo 8
Kawã, kurumĩ guayni, curumim caçador 11
A onça-pintada 19
O caçador de çukurijús 25
O gavião-real 31
Kawã torna-se mirixawa 37
Palavras e grafismos maraguás e regionalismos amazônicos 40
Quem é Elias Yaguakãg 46
Para saber mais
sobre os indígenas maraguás 47



Em 2007 fui convidado para participar do 9º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro. Era a primeira vez que visitava uma cidade grande e que viajava de avião. Fiquei deslumbrado!
É outro mundo, outra civilização. Imagino que as pessoas do sul do país também fiquem deslumbradas quando chegam pela primeira vez a Manaus, capital do Amazonas, uma metrópole rodeada de verde, ou a uma aldeia indígena, no meio da floresta. Fico pensando o que seria do mundo se não houvesse diversidade étnica e cultural.
Este é meu primeiro trabalho como autor e ilustrador. Sempre tive o sonho de fazer um livro sobre meu povo e o mundo infantil tradicional, que ainda faz parte da vida de muitos de nós.
O povo maraguá tem uma cultura muito rica e sei que, como indígenas, temos muito a contribuir para o nosso país. Espero que através destas aventuras todos possam conhecer um pouco mais de mim e de meu povo.
Elias Yaguakãg

Kawã (cauã) quer dizer “gavião veloz”. É o nome de um dos gaviões mais bonitos da Amazônia. É também o nome de um menino, o herói desta história.


Há muitos e muitos anos, quando ainda não havia notícia de brancos no país dos maraguás e os povos indígenas eram senhores absolutos dessas terras que hoje chamamos Brasil, nasceu, na aldeia Yãbetué’y, um menino chamado Kawã — que em maraguá significa “gavião veloz”.
Esta é a história desse menino, filho dos grandes guerreiros do Baixo Amazonas, caçadores de onças e mestres na arte da pesca do piraruku*, moradores das margens do rio Abacaxis, que naquele tempo se chamava Guarinamã — “rio de nossa gente” —, um rio de correr manso, em cujas águas pretas se debruçam praias de areia fininha, convidativas a um bom banho vespertino. Kawã nasceria numa dessas praias.
Antecipando-se aos costumes dos maraguás — que sempre esperam a criança nascer para lhe dar nome —, quando a mãe de Kawã estava grávida, seu pai, um hábil caçador, disse: — Quando meu filho nascer, vou chamá-lo Kawã, pois quero que seja como eu, corajoso e protetor dos animais símbolos de nosso clã.
* As palavras em destaque são explicadas a partir da página 40.



Entre os maraguás, meu amigo, a organização social é composta de seis clãs principais: Tawatóguá — clã do gavião, Aripunãguá — clã da vespa, Piraguáguá — clã do boto, Yaguareteguá — clã da onça-pintada, Çukuyêguá — clã da sucuri, e Pirakêguá — clã do peixe-elétrico. Todo nome tem significado, quase sempre relacionado ao clã a que a pessoa pertence ou a seu espírito protetor, segundo a religião tradicional do povo maraguá — a Urutópiag. Uma vez escolhido o nome, a pessoa deverá zelar por seu animal símbolo, por exemplo, cuidando dos feridos.
O nome Kawã foi dado ao menino em homenagem ao clã Tawatóguá, o clã do gavião, mas seu espírito protetor é a onça-pintada, por isso seu segundo nome é Yaguá.
Seu parto não foi igual ao dos outros. Kawã nasceu antes do tempo e era tão pequeno que dava para colocá-lo na palma da mão. Sua mãe chegou a pensar que ele não sobreviveria, pois era pequeno demais. Seu pai andava triste, pois pensava que o kurumĩ não realizaria seu sonho.
Chegou o momento em que Kawã deveria ser apresentado ao painy — nome que os maraguás dão ao pajé, o homem mais sábio da aldeia. Ele conhece todo tipo de remédio natural, assim como doenças sobrenaturais, por isso é tradição os pais apresentarem os filhos ao painy.
Ao chegar à casa do painy, o pai de Kawã ouviu as palavras do sábio:
— Pode entrar, kurumĩ guayni!
Não entendendo, seu pai perguntou:
— Painy, por que o senhor o chama de curumim caçador?
