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ilustrações MAURICIO NEGRO






Dados de Catalogação na Publicação
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Sistema Integrado de Bibliotecas – SIBI/PUCPR
Biblioteca Central
Edilene de Oliveira dos Santos – CRB 9/1636
B565u 2025
Betto, Frei, 1944Uala, o amor / Frei Betto; ilustrações de Mauricio Negro. — 1. ed. — Curitiba: Champagnat, 2025.
ISBN 978-65-89590-29-3
1. Histórias infantojuvenis. I. Negro, Mauricio, 1968-. II. Título.
25-198


CDD 23. ed. – 808.899282

Para Eunice Wolff e todos que reconhecem nas nações indígenas uma forma superior de civilização a ser defendida e preservada.


De cima da árvore, mergulhou fundo. Com a respiração retida no peito, abriu os olhos dentro d’água e observou, no leito do rio, as pedras contorcendo-se em uma dança fluida, insinuante. Sentia o corpo deslizar dentre a massa líquida removida por seus braços. Possuía a força e a beleza de um cavalo selvagem e nadava com a mesma agilidade de um peixe. Retornou à tona, emergiu a cabeça como se quebrasse um cálice de cristal, expirou forte, aliviado. A correnteza parecia mais veloz, e o indígena viu-se distante da gameleira da qual pulara. Nadou até a margem, ergueu-se e sentou-se em uma pedra. Pousou os olhos intrigados sobre a água.
— O que foi, amigo? — perguntou ao rio que corria a seus pés.
Houve um momento de silêncio, entrecortado pela passarada que festejava o alvorecer na selva.
— Fujo de mim mesmo — respondeu o rio. — Junto à cabeceira, homens brancos instalam máquinas, arrancam árvores, ferem o solo, sujam minhas águas e ameaçam meus peixes.
O peito de Uala se comprimiu em dor. Os olhos, queimados de raiva, inundaram-se de lágrimas. Percebeu que o amigo também chorava, tentando disfarçar as lágrimas entre as águas que transportava em seu dorso. Agachou-se junto à margem, estendeu as mãos para acariciar a superfície do rio. Pela primeira vez, notou que as águas — outrora brilhantes e transparentes — estavam opacas.
— Você está doente, amigo.
— Não, estou bem, mas a vida que carrego em meu ventre corre perigo.
Uala ficou de pé sobre a pedra, aspirou o ar perfumado pelo verde da floresta, encheu os pulmões, deu impulso, envergou o corpo como um arco solto no espaço e mergulhou de novo. O rio sentiu que, dessa vez, o rapaz veio diferente. As águas paralisaram o seu curso e, na quietude de uma lagoa, abriram-se aos carinhos de Uala. Dentro da selva, na curva do grande rio que serpenteava árvores frondosas e gigantes, deu-se o ritual de amor jamais sonhado ou imaginado pelo homem branco: Uala penetrava fundo nas águas, bebia-as sedento, ouvia seus murmúrios, deixava-se atar em suas correntes, partia-se em seus espelhos, enrolava-se em seus lençóis e, com lágrimas de dor e ternura, salgava a face doce e suplicante do rio.


Depois que Uala contou na aldeia o que escutara do rio, imensa fogueira foi armada no meio da taba, sementes de urucum espremidas, o suco do jenipapo extraído, e, com ramos de alecrim, as mulheres pintaram o corpo dos homens, enquanto estes prendiam grossas escamas de peixe, rígidas como osso, nos cabelos lisos e compridos das mulheres. Quando o dia se afastou para descansar e deixou a lua velando o sono da noite, o cacique acendeu a fogueira. Todos, sentados ao redor, esperaram em silêncio o fogo vencer a resistência das toras. As chamas crepitavam, partiam os gravetos, faziam estalar a lenha, enroscavam-se nas toras, apontavam para cima suas espadas púrpuras e subiam em direção às estrelas.
Quando a lua, inebriada, parou para admirar as labaredas resplandecendo na selva, o cacique fez sinal, e Uala se levantou. Aproximou-se da fogueira, que ressaltava os traços vermelhos e pretos em sua pele.
— O rio está triste — disse Uala.
As chamas cresceram e, transfiguradas em serpentes amarelas, dançaram ao ritmo do batuque que protegia o diálogo entre Uala e o fogo. Após breve momento, ele repetiu:
— O rio está triste.
Uma tora partiu-se e espalhou mil fagulhas incandescentes. Em torno da aldeia, a noite avançava ao som das batidas sobre troncos ocos, os pássaros buscavam refúgio na copa de árvores distantes, os animais se afastavam da claridade ameaçadora.
— Uala, os filhos do rio vão desaparecer — disse o fogo pausadamente. E acrescentou: — As águas carregarão em seu ventre a escuridão e a morte.
Nos olhos do homem, os reflexos da dança flamejante ficaram embaçados pelas lágrimas. As faixas vermelha e preta, que, sobre o nariz, se estendiam de face a face, reluziam ensopadas pelo choro mudo de Uala. No silêncio prolongado, seu olhar perdeu-se fixo na fogueira, recolhendo suas chamas e, sob a fumaça, guardava-se da lua.
Uala caminhou em direção ao cacique e repetiu o que o fogo lhe revelara. Então, toda a aldeia, precedida por velhos e crianças, dirigiu-se em fila para o rio e, à sua margem, consumiu a noite dançando aos espíritos da fatalidade.