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PNLD 2026 Equidade - EFAF - Rei-pássaro

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Ezequiel Vitor Tuxá

ei-pássaro

ei-pássaro

Ezequiel Vitor Tuxá

pássaro

São Paulo — 2025 1ª edição

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Tuxá, Ezequiel Vitor

Rei-pássaro / Ezequiel Vitor Tuxá; ilustrações do autor.

— 1. ed. — São Paulo: BR Educação, 2025.

ISBN 978-85-66811-62-9

1. Literatura infantojuvenil I. Tuxá, Ezequiel Vitor. II. Título.

25-263551

Índices para catálogo sistemático:

1. Literatura infantil 028.5

2. Literatura infantojuvenil 028.5

CDD-028.5

Aline Graziele Benitez — Bibliotecária — CRB-1/3129

Capítulo I

HÁ MUITO TEMPO, tempo suficiente para uma sacola plástica se decompor, histórias serem esquecidas, tradições se atualizarem e até castelos desabarem, um rei chamado Dom Inácio, mais conhecido pelos seus súditos como Dom Inácio dos Sapatos sem Serventia, tinha uma regra para lá de Bagdá que deixava todo mundo coçando a cabeça: ele nunca, de jeito nenhum, podia tocar o chão. Se isso acontecesse, algo terrível se abateria sobre ele e, bem, sobre todo o reino. Isso mesmo. Nada de grama, areia, pedra ou qualquer tipo de solo. Era assim desde quando ele completara oito anos. As últimas memórias de rei Dom Inácio tocando o chão eram daquele tempo mágico, quando ele brincava de guerra com torrões de areia, de cavar e de pique-lama.

Agora, você deve estar se perguntando: “Mas quem inventou essa maluquice?”. Ah, foi ninguém menos que o próprio astrólogo-feiticeiro-mestre-conselheiro Plutônio, um senhorzinho mais envergado que galho verde e que vivia no mundo da lua, na torre mais alta do castelo. Era o tipo de senhor que usava um chapéu cheio de estrelas e luas, uma capa com desenhos de constelações e que falava de alinhamentos cósmicos e vórtices mágicos.

Ninguém sabia de onde ele realmente tinha vindo.

Plutônio era conhecido por suas profecias misteriosas, que ora eram verdadeiras, ora eram… difíceis de engolir, sobretudo para gente com a cabeça cheia de ar. Os súditos, condes e cavaleiros riam quando ele vinha com o papo de que a Terra era redonda e que viemos de macacos-nadadores-celulares; ele exagerava um pouquinho nos detalhes.

Um dia, Plutônio chegou correndo à sala do trono, com os braços cheios de pergaminhos, quase tropeçando nos próprios pés.

— Majestade! — gritou para o pai de Dom Inácio com a voz tão esganiçada que fez o cachorro real Frufi sair disparado. — Os planetas falaram! Os astros se desesperaram! O Segundo Sol tremeu de medo! O Grande Cometa Cabelos de Fogo me revelou um terrível segredo!

O pai de Dom Inácio, Dom Frederico, que estava comendo tranquilamente uma enorme fatia de queijo, levantou uma sobrancelha.

— Lá vem você, logo cedo, com mais uma das suas… Fale de uma vez, Plutônio. O que os planetas estão fofocando agora?

O astrólogo puxou um pergaminho tão comprido que metros de papel foram se desenrolando no chão feito um tapete, parando próximo aos pés do rei.

— As estrelas escreveram no céu, com suas babas brilhantes! Se vosso filho colocar os pés no chão, um dedinho sequer, uma ponta de unha que seja, o mundo entrará em colapso!

Terremotos, vulcões, gelo derretido… O caos! Os céus cairão!

Tudo será destruído! E o pior: as tortas de maçã nunca mais existirão! — Ele pronunciou as últimas palavras com uma nota tão grande de mistério que Dom Frederico arrepiou-se inteiro.

O rei arregalou os olhos. Sem tortas de maçã? Isso era grave. Muito grave!

— Mas o que devo fazer, Plutônio? — perguntou Dom Frederico, tentando não engasgar com o pedaço de queijo, maior que seu rosto rechonchudo.

— Nunca deixe o pequeno Dom Inácio tocar o chão!

Jamais! Os pés dele devem ser como os de um passarinho: sempre longe da terra, sempre voando. O único piso que ele

poderá tocar é o das torres mais altas do castelo. Se essa regra for obedecida, ele terá uma vida longa e próspera.

E, como se nada fosse, Plutônio saiu da sala deixando os pergaminhos e imitando um passarinho. O rei ficou tão abatido com a notícia que parou de comer na hora. A sala toda caiu num silêncio absoluto. Dom Inácio, que brincava no jardim, foi retirado imediatamente do chão por seus cavaleiros e, desde então, nunca mais sentiu a terra nem a mínima poeira sob os pés.

Começaram, assim, as bizarrices no reinado de Dom Frederico. Daquele dia em diante, o futuro rei Dom Inácio passou a “andar” por aí carregado por quatro cavaleiros em cima de um palanquim, ou, como dizia Plutônio, na cadeira majestática móvel. Quando queria passear, era colocado sob um cavalo com patas de veludo. No jardim real, era levado em cima de tapetes mágicos, os quais, na verdade, eram apenas rolos grossos de pano empurrados por criados desesperados.

Como nunca antes ninguém havia ousado queixar-se das profecias de Plutônio, não o fariam daquela vez. Plutônio tinha um dom especial de fazer as pessoas acreditarem em seus sonhos, ideias, pergaminhos…

A notícia se espalhou como fogo pelo reino. Todo mundo achava aquilo uma esquisitice sem tamanho. Se os pés não são usados para andar por aí, para que eles servem? Mas ninguém ousava questionar em voz alta a profecia. E se fosse verdade? Arriscariam desafiá-la? Certamente, não; todos queriam manter o reino progredindo e cheio de riquezas. Assim, quando se tornou rei, Dom Inácio somente tocava com os pés o piso da torre mais alta do castelo e assinava, com as próprias mãos, leis e aumento de tributos.

Capítulo II

DOM INÁCIO DOS SAPATOS SEM SERVENTIA estava vivendo seu dia como qualquer outro rei que não pode tocar o chão: carregado de um lado para outro em sua cadeira majestática móvel enquanto se empanturrava de biscoitos amanteigados. A manhã estava mais calma que criança depois de tomar suco de maracujá, até que um mensageiro entrou no salão do trono abrindo os portões feito um trovão. Ele trazia uma carta selada tão decorada com penas verdes que mais parecia uma obra de arte. Dava até dó de desfazer o embrulho para ler a mensagem.

— Majestade! — gritou o mensageiro, reverenciando-o tão depressa que o chapéu caiu. — Uma carta urgentíssima chegou da Terra dos Papagaios!

Ao ouvirem Terra dos Papagaios, todos na sala começaram a cochichar, eufóricos. Terra dos Papagaios, misteriosa e cheia de riquezas, de criaturas “exóticas” e de árvores que davam ouro (ou pelo menos era o que o povo gostava de imaginar).

— Terra dos Papagaios? — disse o rei, pegando a carta com cuidado e admiração. — Isso fica tão longe que minhas pernas ociosas até tremem.

Ele rompeu o selo e começou a ler em voz alta:

A Vossa Majestade, Dom Inácio dos Sapatos Sem Serventia, Grande Não Tocador do Chão, Escrevemos para informar que estas terras são mais ricas do que qualquer livro possa descrever. As florestas tão densas que o céu quase desaparece no infinito verde; os rios tão largos que parecem mares; e os frutos tão doces que fazem as abelhas enjoar. Aqui há ouro, pedras preciosas e madeira suficiente para construir milhões de castelos.

Contudo, essas riquezas estão ameaçadas por bestas selvagens e uma natureza que não perdoa. É necessário que Vossa Majestade venha pessoalmente para garantir que a Terra dos Papagaios torne-se a maior joia de sua Coroa. Tragam sapatos, cadeira majestática móvel extra e disposição. Com grande respeito a Vossa Realezazência, Escrivão Real.

O rei olhou para a carta e depois para seus conselheiros.

— Madeira, frutas doces, riquezas, ouro? Deveras uma boa ideia. Entretanto… e os perigos? — perguntou, exibindo uma ruga de preocupação na testa. — Não quero ser atacado por essas bestas selvagens. Pelo meu porte, serei o prato principal do banquete!

Os conselheiros começaram a sussurrar entre si. Um deles, o Conde de Conselhos Sempre Tortos, levantou a mão.

— Majestade, veja bem, se a Terra dos Papagaios é tão abundante, imagine o quanto isso beneficiará o reino… Mas, claro, diante de vossa condição, Vossa Majestade pode ficar no navio e não tocar o solo daquela terra. Apenas supervisione de longe! Nossos olhos serão vossos olhos; nossos pés, vossos pés. A riqueza será de todo o reino. Viva!

Os outros conselheiros gritaram “viva”, mas o rei ainda não estava convencido.

Dom Inácio coçou o queixo, pensativo.

— Humm, parece uma boa ideia. Mas… e se o navio afundar? E se houver tubarões? Ou lulas? E se…

O rei encheu-se de tristeza ao se lembrar do dia em que, por pura teimosia, testou os limites da profecia. Durante quase toda a vida, disseram-lhe que jamais deveria tocar o chão, que a terra carregava um peso que seu sangue real não poderia suportar. Porém, naquela noite, tomado por um impulso infantil de rebeldia, de não querer ser rei na ausência do pai, ousou desafiar o destino. Com o coração acelerado, amarrou vários

lençóis na perna da cama, o suficiente para descer da torre mais alta, e, por fim, desceu.

Estendeu o pé e, quase sem querer, a unha do mindinho roçou a terra fria. Foi um instante breve, um gesto pequeno, mas o mundo tremeu ao seu redor. O vento soprou forte, os rios estremeceram e o silêncio despencou sobre o reino.

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