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PNLD 2026 Equidade - EFAF - A única da sala

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Tathyana Viana A ÚNICA DA SALA

ilustrações de Amanda Lobos

A ÚNICA DA SALA

Tathyana Viana

1a edição São Paulo — 2025 ilustrações de Amanda Lobos

A ÚNICA DA SALA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Viana, Tathyana

A única da sala / Tathyana Viana; ilustrações de Amanda Lobos. — 1. ed. — São Paulo: Quinteto, 2025.

ISBN 978-85-8392-222-3

1. Literatura infantojuvenil I. Lobos, Amanda. II. Título. 25-261989

Índices para catálogo sistemático:

1. Literatura infantil 028.5

2. Literatura infantojuvenil 028.5

Cibele Maria Dias – Bibliotecária – CRB-8/9427

CDD-028.5

O talento das crianças para aguentar as coisas vem da ignorância sobre as alternativas. Maya Angelou, em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola

capítulo 1

CRIANÇA NÃO TEM QUERER

Na penumbra da sala de aula, a verdade se revelou para mim. Ali, durante a aula de fotografia, naquela exposição de autorretratos lado a lado com nossas fotos de infância, eu percebi o óbvio. E esse óbvio explicava tudo.

O quadro se iluminou ao mostrar um slide com a foto de uma menininha de dois ou três anos de sorriso largo e olhos azuis brilhantes. Ela usava um vestido verde e estava sentada num velocípede. Com a mesma expressão que trazia nessa imagem, via-se, ao lado, a versão atual da menina sorridente sentada na primeira fila, Maria Eduarda. Ambas as fotografias, passado e presente, se complementavam. Em ambas as fotos, ela parecia simplesmente feliz.

E não apenas ela. Todos os meus novos colegas no Colégio Medalha de Ouro estavam radiantes em suas fotos de passado-presente. Bebês fofos, crianças felizes. Como se jamais tivessem pegado um resfriado, ralado o joelho, ouvido um não, tirado uma nota baixa. Pareciam não sofrer com problemas financeiros em casa nem com a falta de tempo dos pais. Nada de perdas, fracassos, dores ou mudanças bruscas de vida. O oposto de como eu

me sentia. Olhando para a câmera, tentei caprichar no sorriso e parecer feliz, mas era apenas pose.

Para conseguir minha foto de criança, tive que remexer as caixas cheias de guardados da minha mãe. Encontrei algumas fotografias dentro de uma pasta amassada e escolhi levar uma em que eu tinha uns nove meses e estava só de fraldas, com uma fisionomia bastante séria, sentada no sofá do nosso antigo apartamento.

Era estranho pensar que a bebê da fotografia e a garota alta e desengonçada da selfie se tratavam da mesma pessoa �� eu, Tereza Mas, olhando bem, estava tudo ali: o mesmo rosto redondo, os mesmos cachinhos no cabelo, o nariz largo e os olhos pequenos que jamais encaravam a câmera.

Mas nem a seriedade da bebê nem o sorriso forçado da menina bastavam para me distinguir dos outros alunos. A grande diferença estava em um simples fato: eu era a única. Antes podia fingir que não conseguia me encaixar por ser a menina que chegou depois numa turma de crianças que estudavam juntas desde a Educação Infantil. Podia me convencer de que a indiferença dos professores existia porque eu vinha de um colégio mais fraco e estava atrasada nas matérias. Podia achar, talvez, que o problema fosse a Laura, minha vizinha que, por coincidência ou azar, estava na minha turma e, tão logo me viu, espalhou para a escola inteira que minha avó era a velha dos gatos de Botafogo.

Encarando agora as fotos da turma no quadro, não dá mais para me enganar achando que todos esses motivos eram suficientes. Desde os primeiros dias de aula naquele colégio novo, eu não falava com ninguém e ninguém falava comigo. Parecia que eu era invisível. Mas, naquela aula de fotografia, entendi que era justamente o contrário. Eu era visível até demais. Não era apenas a menina que chegou depois. Eu era a única menina negra da sala.

♦♦♦

Quando resolveram mudar toda a minha vida, ninguém perguntou nada para mim. Segundo vovó Ivone, criança não tem querer. Se mamãe e ela tivessem me perguntado se eu queria trocar de escola, claro que eu teria dito não, mas simplesmente decidiram e só me comunicaram. Mamãe havia recebido uma proposta muito boa de trabalho num hospital em outra cidade. Um cargo de chefe de enfermagem. Iria ganhar mais e enfim sair do sufoco em que estávamos desde a separação dos meus pais, quatro anos antes, quando ela passou a me criar praticamente sozinha. Só havia um problema: o trabalho era longe e exigia muito; ela teria de pegar mais plantões, fazer mais turnos. Mamãe também queria voltar a estudar �� uma maneira de aumentaro salário. Mas quem ficaria comigo? Não dava para contar com o meu pai, que sumia das nossas vidas por períodos cada vez maiores.

A solução foi recomeçar deixando para trás nosso apartamento na zona norte para morar com a minha avó em Botafogo. Mamãe tentou me convencer da ideia dizendo que se tratava de uma grande oportunidade: ela poderia trabalhar sossegada, sabendo que eu não ficaria sozinha depois da escola, e a partir do ano seguinte eu teria “o melhor ensino da cidade” no Colégio Medalha de Ouro. Era uma chance de garantir o meu futuro.

Para ela e vovó, o mais importante na vida era estudar, ter um diploma e uma boa profissão. Por isso as duas se empenharam tanto em me matricular nessa escola. Minha avó, como de costume, não parava de repetir uma lista extensa de argumentos favoráveis à mudança escolar: ótima infraestrutura, biblioteca, salas climatizadas, campo de futebol, piscina, teatro, ginásio, laboratório de ciências e garantia de aprovação na faculdade. Já fazia tempo que ela dizia que a minha escola atual não era boa, que meus cadernos eram uma bagunça, que eu não sabia nada e estava atrasada nas matérias por causa da constante falta de professores.

�� Escute, minha filha.A Tereza não tem futuro nessa escola em que ela está agora. Sempre tem greve, falta de professor. Quando a polícia faz alguma operação por aquelas bandas, suspendem as aulas... E como fica a menina quando você vai trabalhar? No ano que vem ela vai para o sexto ano; precisa de mais disciplina, de uma escola forte. A neta da Nininha, minha comadre, estu-

dou lá no Medalha de Ouro e passou em Odontologia! Lá, sim, a Tereza vai receber um estudo de qualidade e poderá ser o que quiser.

�� Mas esse colégioé muito caro, mãe.E não vai ser muita mudança de uma vez só para a Tereza? �� Mamãe ainda tinha dúvidas.

No entanto, vovó logo a convenceu de que era o melhor para nós duas. Ela fazia questão de ajudar com a mensalidade. A despesa seria ainda mais alta por causa do transporte escolar, mas valeria a pena. Para elas, estava tudo certo. Porque criança não tem querer.

Nunca passou pela cabeça delas perguntar o que eu achava. Não pensaram nem por um segundo que eu perderia meus amigos e começaria tudo de novo numa escola onde não conhecia ninguém.

Se tivessem me perguntado, saberiam que eu gostava da minha escola, mesmo ela não sendo “a melhor”. Estudava ali desde pequena, conhecia todo mundo, dos alunos às professoras e merendeiras. E, por sinal, achava a merenda uma delícia. Eu não era uma aluna nota dez, mas também não era péssima. Naquela escola, pública, não havia laboratório nem ar-condicionado nas salas, mas eu me divertia e tinha muitos amigos. E, principalmente, lá eu não era invisível nem visível demais, muito menos a única.

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