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luta o s i c e r p É
ss Premio Orígenes Le Fundaçao Nacional do
a — O Melhor Livro pa
ra Jovem
il (FNL Livro Infantil e Juven
IJ), 1988
3ª edição
São Paulo — 2026
Copyright © Marcia Kupstas, 1987, 2000, 2026
Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados à EDITORA FTD.
Rua Rui Barbosa, 156 — Bela Vista — São Paulo — SP CEP 01326-010 — Tel. 0800 772 2300
www.ftd.com.br | central.relacionamento@ftd.com.br diretor-geral Mauricio Zanforlin
diretora de conteúdo Cintia Cristina Bagatin Lapa gerente editorial Isabel Lopes Coelho editor Estevão Azevedo
editora-assistente Carla Bettelli assistente editorial Cauê Zuchi
analista de relações internacionais Tassia R. S. de Oliveira
coordenador de produção editorial Leandro Hiroshi Kanno preparadora Marina Nogueira
revisoras Lívia Perran e Kandy Saraiva editora de arte Camila Catto
projeto gráfico e diagramação Luísa Zardo
diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno
Marcia Kupstas nasceu em São Paulo, em 1957. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), tem mais de cento e sessenta livros publicados, a maioria para o público jovem. Maria Jupira nasceu em Belo Horizonte, em 2002. Formada em Artes Plásticas pela Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), trabalha com ilustração e quadrinhos. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Kupstas, Marcia
É preciso lutar! / Marcia Kupstas; ilustrações de Maria Jupira. — 3. ed. — São Paulo: FTD, 2026. ISBN 978-85-96-06436-1 1. Literatura infantojuvenil I. Jupira, Maria. II. Título. 25-307899.0 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantil 028.5
2. Literatura infantojuvenil 028.5 Cibele Maria Dias — Bibliotecária — CRB-8/9427
CDD-028.5
Para meu neto Calvin
U
ma hora da tarde de terça-feira. Margarida esperava o marido sair do banheiro; ia pedir que colocasse
a mesa para o almoço. Olhou para o relógio, pensou consigo mesma que os filhos deviam estar “estourando”, do jeito que uma garota de catorze e um menino de dez anos fazem quando voltam da escola: livros de um lado, mochila de outro, blusa amarrada na cintura, a fome selvagem de quem está em fase de crescimento. Margarida apagou o fogo do arroz, experimentou o feijão, aprovou o gosto… Coisas de todo dia, na casa de Margarida, o marido Juca, os filhos Zizi e Salviano. Tranquilidade e sossego?… Não era bem assim. Margarida começou a ouvir a discussão, parecia vir da rua. Tirou o avental, jogou na cadeira e foi até a discreta sala do apartamento onde moravam, no segundo andar do edifício Azul Real. Margarida abriu a janela. — Boa tarde — falou o homem que estava amarrado à árvore, na altura da janela do apartamento de Margarida. — Boa tarde — ela respondeu com calma. Então arregalou os olhos e gritou para dentro de casa: — JUUUUUUUUCA! O marido ouviu e, ainda do banheiro, gritou de volta: — O que ÉÉÉÉÉÉ? — Tem um homem pendurado na janela! O homem, cuidando para não se esfolar no tronco da árvore ou se esborrachar no chão, replicou tranquilamente: — Não, minha senhora. Não estou pendurado na janela. Estou pendurado na árvore! 7
M
inutos antes, se alguém passasse pela rua Marcelinus,
presenciaria um acontecimento absolutamente normal: um caminhão de carroceria aberta ia atrapalhando o já difícil trânsito do local. Dois homens estavam na carroceria, mais dois na cabine do caminhão. — É aqui — disse Betão, do banco do passageiro. Era um homem calvo com tufos de cabelo acima das orelhas. — Rua Marcelinus, número 156. — Vai ser difícil estacionar — respondeu o motorista alto e barrigudo, com a pele avermelhada de quem está sempre no sol. — Deixa que eu vou arrumar uma vaga. Betão mostrou agilidade enquanto descia rapidamente da cabine e chamava os dois ajudantes na carroceria: — Luís, vai nesse prédio aí. Tenta achar os donos dos carros. E você, Tadeu, vai naquele da frente. Logo os dois funcionários pediam aos porteiros dos edifícios que localizassem os donos dos automóveis estacionados na rua, pois precisavam parar o caminhão exatamente à frente da tipuana, a frondosa árvore que ficava na calçada da rua Marcelinus, número 156.
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K
anassa de Moura morava na única casa da rua Marcelinus, no número 162. Era um sobrado rosa,
velha propriedade que havia herdado do pai. Se Kanassa estava com sessenta e dois anos, o sobrado tinha mais de cinquenta, mas estava bem conservado. Kanassa já havia morado em muitos lugares, mas esta casa era seu quartel-general, o lugar onde cultivava um jardim e mantinha um escritório.
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Kanassa estava se preparando para almoçar quando tocaram a campainha. — Pois não? — Boa tarde — disse o homem de macacão azul. — Por acaso aquele carro ali é do senhor? Aquele carrão preto? — Carrão preto? Não… — Kanassa saiu porta afora, olhando para as manobras do caminhão. — O que está acontecendo? — Nada, não. É só a árvore. Kanassa ainda não havia entendido: — Árvore? — É… A gente tem ordem de cortar a árvore. A resposta fez Kanassa se ligar no assunto. Trancou a porta e levou a chave, caminhando em direção à sua vizinha, a árvore. Kanassa andava depressa, e o homem quase corria atrás dele. — Ei! — gritou Kanassa para o motorista do caminhão. — Que papo é esse de cortar a árvore? O motorista nem desceu do veículo. Deu de ombros e apontou o colega: — Quem manda nisso aí é ele, o Betão. Eu só dirijo. Kanassa foi direto até Betão, que apalpava o tronco da tipuana e olhava para os galhos com jeito de conhecedor de árvores. — O senhor pode me explicar o que está acontecendo? Para encarar Kanassa, Betão teve que olhar para cima. Kanassa tinha quase dois metros de altura. Depois se virou para Luís, com uma expressão de quem pergunta: “O que esse cara quer?”. “Esse cara” repetiu a pergunta. Betão respirou fundo antes de dizer: — Amigo, por que o senhor não cuida da sua vida? — E o que é cuidar da minha vida? — respondeu Kanassa, já fazendo perguntas. — É me trancar em casa? — É não atrapalhar o serviço dos outros. 10
— Ah, bom. Agora começamos a nos entender. E qual é o serviço que vocês vieram fazer por aqui? — O senhor não tá vendo? Olha pro caminhão! — Betão apontou as letras azuis, que diziam: “Prefeitura — urbanização e jardinagem”. — Eu sei ler — retrucou Kanassa. — E daí? Kanassa falava alto, mais alto do que o encarregado gostaria. Por causa disso, algumas janelas se abriram. O porteiro do edifício Azul Real olhava a cena com muita curiosidade. — Daí que a ordem é derrubar a árvore. Só isso.
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O
interfone do apartamento de dona Juanita tocou várias vezes antes que a empregada atendesse e chamasse
pela patroa. Juanita reclamou, depois pegou o aparelho com mil cuidados para não estragar o esmalte fresco das unhas. — Sim, sim, eu já vou — disse ela, satisfeita. Sentia-se muito bem consigo mesma. Foi até a fruteira e pegou, com todos os mil cuidados, a chave do carro. Ia saindo quando o telefone tocou. Era o marido. — Oi, Greg. Estou com pressa… Tudo bem? — Ouviu alguma coisa que devia ser monótona, pois cortou o assunto. — Tá, depois… Tenho que tirar o carro da rua, vieram cortar a árvore… É. Que bom, não? Liga pro Plínio, agradece… Tchau. Um beijo. Gregório ainda mandou o “beijinho, Juju” com que sempre se despedia da mulher, mas Juanita estava com pressa. O elevador nunca demorou tanto. Juanita ia assoprando as unhas, era uma pena: o esmalte ia secar e depois dar o dobro de trabalho para limpar o excesso em volta das unhas. Mas, pelo menos, tinha um bom motivo para manobrar o carro — um elegante sedã preto, presente de aniversário. Em poucos meses estariam no novo apartamento, com várias vagas de garagem. Enquanto isso, não tinha opção a não ser pagar seguro e deixar o carro na rua. Só que as malditas flores daquela árvore sujavam tudo… Agora finalmente ia se livrar delas. O elevador chegou ao quarto andar. Juanita entrou e apertou o botão do térreo. No visor, foi acompanhando: 3o, 2o, 1o, T. Empurrou a porta com as palmas das mãos, evitando tocar as unhas em qualquer lugar. Deu de cara com o porteiro do edifício e com Tadeu, que estava de uniforme azul. — Vim tirar o carro — ela informou. — Vocês vieram cortar a árvore, não é? 12
— Agora eu já nem sei mais, dona — disse Tadeu. Ele apontou para o outro lado da rua, onde estavam o caminhão, seus colegas da prefeitura, a tipuana e… Kanassa de Moura, amarrado num galho da árvore, a cinco metros do chão.
—
E
scute, o senhor perdeu o juízo? — perguntou Juca, mangas arregaçadas, apoiado na janela do apar-
tamento. — O que está fazendo na minha janela? — Eu não estou na sua janela, meu senhor. Estou na nossa árvore. — Que nossa?! — Juca quase gritou. Margarida estava um pouco atrás dele, como se usasse o corpo do marido para se proteger daquele homem. Kanassa havia conseguido um bom lugar, com as pernas abraçando o tronco da tipuana. Passou uma corda de náilon em torno da cintura para impedir uma queda. Estava suado, mas feliz. Para alguém de seu peso e idade, continuava bastante ágil: subiu no tronco com rapidez e decisão, deixando os funcionários de boca aberta, gritando com ele e conversando entre si. — Desce daí, seu moço… — gritou Betão, erguendo o punho num gesto de ameaça. — Isso aqui não é brincadeira! Kanassa respondeu ao funcionário e a Juca ao mesmo tempo: — Brincadeira é esse prefeitozinho cortar a árvore! Quem vocês pensam que são? Essa tipuana é nossa, é da cidade. Aí se virou para Juca, que estava no segundo andar, e usou um tom de voz mais baixo: — Querem cortar a árvore. Comigo aqui em cima fica mais difícil… 13
Nunca em sua vida Juca se sentiu tão confuso. Passava a língua nos lábios e a mão no queixo, não conseguia achar palavras. Quem encontrava palavras era Betão, apontando o punho para cima, em direção a Kanassa: — Nós vamos chamar a polícia! Ouviu? A polícia! Kanassa retrucava para baixo: — Podem chamar! Que venham me prender! É o único jeito de me tirarem daqui! Muita gente estava em volta da árvore, na calçada. Zizi e Salviano se destacavam, com o uniforme de escola. Sorriram e acenaram para os pais, que podiam ser vistos debruçados na janela do apartamento. — Zizi! Salviano! Venham pra casa já! — berrou Juca para os filhos. Depois, voltando-se para Kanassa: — Pelo amor de Deus, homem, isso lá é coisa que se faça? Faz um… Juca mexia as mãos, como se os gestos pudessem lhe ajudar a encontrar as palavras: — Faz uma reclamação, uma queixa… Kanassa tinha um sorriso muito tranquilo no rosto. — Até fazer tudo isso, a árvore já virou lenha. O senhor não sabe que isto aqui é Brasil?
J
uanita se esqueceu completamente das unhas pintadas ao apertar a chave do carro nas mãos. Falou tão
alto — e tão de perto — com Betão que uma gota de saliva ficou brilhando no nariz dele. — Que palhaçada é essa? — questionou Juanita. — Por que vocês ainda não cortaram a árvore? 14
— Quem a senhora pensa que é pra gritar comigo? — defendeu-se Betão, louco para encontrar alguém em quem pudesse despejar sua raiva. — Meu marido é funcionário público graduado! Tenho um monte de amigos na prefeitura, sou… — Juanita ia falar mais uma série de nomes e títulos, mas preferiu gritar para Kanassa ouvir: — E quem você pensa que é, hein? — Uma andorinha! — respondeu Kanassa lá do alto. — E é melhor a senhora sair de baixo, que eu boto ovo! — Esse cara tá bêbado! — sugeriu Juanita, tentando angariar o apoio das pessoas que estavam ao redor. — Só pode ser isso. — Por que ele tá na árvore? — perguntou Zizi, cutucando André, o porteiro do prédio. André sorria. Ele presenciara todo o bate-boca, depois tinha até se decepcionado quando Kanassa voltou para casa. Mas logo tornou a se divertir ao ver o mesmo homem retornar para a árvore com sua corda de náilon, escalando os galhos com a rapidez de um moleque. Kanassa tinha ganhado um aliado. — A prefeitura quer cortar a árvore. Aí esse cara subiu lá pra não deixar eles fazerem isso.
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Um embate se instala na rua Marcelinus, e tudo por causa de uma árvore: uma majestosa tipuana em flor. De um lado, funcionários da prefeitura querem cumprir a ordem de cortá-la. Do outro, um morador antigo do bairro, o artista Kanassa, amarra-se ao tronco para impedir a derrubada, indignado com a falta de justificativas reais. A confusão aumenta quando Zizi, acompanhada do irmão e dos amigos, decide se juntar a Kanassa para salvar a árvore — sem saber que está indo contra Juanita, uma vizinha que detesta ver o carro coberto pelas florzinhas amarelas da tipuana. Uma das obras que marcaram a estreia de Marcia Kupstas na literatura, É preciso lutar! ganha nova edição, celebrando os quarenta anos de carreira da autora, com uma trama que continua atual ao trazer à luz a importância de defendermos a preservação do meio ambiente, árvore por árvore.
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Em vez de tropeçar em didatismos, sua escrita se afirma como um espelho do mundo: misturando contradições, problemas, belezas, afetos, falhas, tristezas, amores, ressentimentos. As palavras se agarram à vida e mostram que nós, seres humanos, da infância até a velhice, não passamos de uma coleção de incoerências.
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ISBN 978-85-96-06436-1 9
788596 064361
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BRUNO MOLINERO, em posfacio para esta ediçao