EDITORES DA SÉRIE TESOUROS PURITANOS
Joel R. Beeke e Jay T. Collier
O interesse pelos puritanos continua crescendo, mas muitas pessoas acham a leitura desses gigantes da fé um pouco perturbadora. Esta série busca superar essa barreira apresentando livros puritanos em tamanho conveniente e com extensão acessível. Cada livro é cuidadosamente editado pensando nos leitores modernos, suavizando a linguagem difícil de uma era passada, mas preservando o significdo dos autores originais. Os livros da série são criteriosamente selecionados para oferecer alguns dos melhores conselhos sobre assuntos importantes com os quais as pessoas continuam tendo difiuldade hoje.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Greenhill, William, 1591-1671
Não ameis o mundo / William Greenhill ; [coordenação Gisele Lemes] ; tradução João Paulo Aragão G. Oliveira. -- 1. ed. -- São José dos Campos, SP : Editora Fiel, 2026.
Título original: Stop loving the world.
ISBN 978-65-5723-494-5
1. Cristianismo - Aspectos sociais 2. Mensagens 3. Puritanos 4. Teologia I. Lemes, Gisele. II. Título.
26-341951.0
Elaborado por Aline Graziele Benitez - CRB-1/3129
CDD-285.9
Não ameis o mundo
Traduzido do original em inglês Stop Loving the World
Copyright © 2011 por Reformation Heritage Books
Todos os direitos reservados.
•
Originalmente publicado em inglês por Reformation Heritage Books 3070 29th St. SE Grand Rapids, MI 49512
Copyright © 2025 Editora Fiel Primeira edição em português: 2026
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária.
PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE
LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES,
SALVOEMBREVESCITAÇÕES,COM INDICAÇÃODAFONTE.
Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2ª ed. (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicação específic .
•
Diretor: Tiago J. Santos Filho
Editor-chefe: Vinicius Musselman
Editora: Renata Cavalcanti
Coordenação Gráfica: Gisele Lemes
Tradução: João Paulo Aragão da Guia
Oliveira
Preparação: Bruna Gomes Ribeiro
Revisão de Provas: Renata Cavalcanti
Diagramação: Caio Duarte
Capa: Caio Duarte
ISBN brochura: 978-65-5723-494-5
ISBN e-book: 978-65-5723-493-8
Caixa Postal, 1601
CEP 12230-971
São José dos Campos-SP PABX.: (12) 3919-9999 www.editorafil.com.br
PREFÁCIO
Imagino que um título como Não ameis o mundo provoque uma reação forte. Embora algumas pessoas estejam mais dispostas a admitir isso do que outras, a maioria sente uma certa resistência ao ouvir que não devemos amar o mundo. Talvez sua reação seja defensiva. (“Quem disse que eu amo o mundo? Como você ousa me julgar assim?”) Porém, o mais provável é que a resistência venha na forma de uma contestação. (“Como assim devemos parar de amar o mundo? João 3.16 diz que Deus ama o mundo, então por que não devemos amar também? Vamos lá, por que todo esse pudor puritano?”) A verdade é que o mandamento de não amar o mundo vem diretamente da Bíblia: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo” (1Jo 2.15). Portanto, seja a nossa reação defensiva ou ofensiva, devemos começar lidando com o fato de que é Deus quem nos diz para não amarmos o mundo.
Será que a razão para tais reações é que amamos demais o mundo? É verdade que algumas pessoas apresentam uma visão desequilibrada, que não enxerga nenhum valor no mundo ao seu redor. E, certamente, devemos buscar uma compreensão responsável do que realmente significaa instrução bíblica de não amarmos o mundo. Porém, apesar de tais abusos e levando em consideração a interpretação adequada, os cristãos atentos admitirão prontamente que uma de nossas maiores tentações é dar mais importância ao mundo do que ao seu Criador. Sem nos darmos conta, apegamo-nos às coisas deste mundo com ardente afeição. Até mesmo as boas e saudáveis dádivas de Deus são mais valorizadas do que aquele que as dá.
Riqueza, fama e poder estão entre as coisas mais desejáveis que este mundo oferece. Adoramos coisas materiais, sejam elas dinheiro,
terras ou outras comodidades e confortos materiais. Valorizamos a boa opinião dos outros e desejamos ter honra entre os homens. Também adoramos estar no controle, influnciando a forma como as coisas acontecem nesse mundo e tendo nossa vontade atendida. Cada uma dessas coisas tem seu devido lugar, mas com muita facilidade esperamos que elas sejam nossa fonte de alegria.
O problema de amar o mundo se intensificaem nossos dias pelo fascínio dos avanços tecnológicos e a acessibilidade de tantas coisas.
A internet coloca virtualmente o mundo em nossas mãos. Você pode vender ou comprar o que quiser com um clique, gerar uma multidão de “amigos” e “fãs” em blogs e redes sociais, e mobilizar as massas com campanhas online. Neste novo reino de realidade virtual, os encantos do mundo parecem estar sempre ao alcance.
Embora nossa sociedade altamente tecnológica, imersa em um materialismo desenfreado, certamente seja inclinada a amar o mundo, o problema do mundanismo e nossa resistência à instrução de nos opormos a ele não é novidade. O amor pelo mundo tem sido um problema para a humanidade desde a Queda, quando Adão e Eva valorizaram mais um fruto do que a vontade daquele que criou o fruto. É um problema antigo que persistirá até o retorno de Cristo; por essa razão, o Espírito Santo inspirou o apóstolo João a nos dizer para não amar o mundo. Como esse é um problema que o povo de Deus sempre teve que enfrentar, devemos nos valer dos conselhos de cristãos ao longo dos séculos em nossa busca por um antídoto contra o amor pelo mundo.
Um bom ponto de partida são os puritanos. Seus sermões e livros frequentemente abordavam esse tema, fornecendo excelentes recursos para suprimir o amor excessivo pelo mundo. Com esse objetivo, recomendo este livro de William Greenhill (1598–1671). Originalmente intitulado Being against the love of the world [Contra o amor pelo
mundo], foi publicado como um sermão complementar ao seu livro The sound hearted christian (Londres, 1670) [O cristão de coração saudável]. O texto desse sermão é bastante extenso — muito mais longo do que os outros sermões anexados — e provavelmente foi pregado em mais de um culto ou expandido da versão original para fis de publicação. Acreditando que o sermão serve bem como um livro próprio, atualizamos a linguagem para leitores modernos, dividimos o texto em capítulos convenientes e adicionamos subtítulos para ajudar esse sábio conselho a falar a uma nova geração. O texto expressa de forma bastante concisa a preocupação puritana e a solução encontrada para o problema sempre presente de amar o mundo.
Antes de ler este livro, talvez seja útil compreender que Greenhill sentiu o fascínio do mundo e a dor associada a negar-lhe o seu amor.
Muito antes de pregar sobre o assunto, ele foi desafiado a colocar seus princípios em prática. Muitas vezes ao longo de sua vida, Greenhill foi afastado de empregos respeitáveis e influntes devido às suas convicções. Uma dessas ocasiões foi em 1636. Greenhill tornara-se ministro em Oakley, Sufflk, e ocupava dois importantes cargos de pregação em Sufflk e Norwich. Esses lugares de honra proporcionaram-lhe uma vida confortável e a oportunidade de fazer a diferença para Cristo. Contudo, em 1633, o rei Carlos I, que se opunha fortemente aos puritanos, republicou o The book of sports [O livro dos esportes] e declarou que os ministros que se recusassem a lê-lo de seus púlpitos perderiam seus cargos. Assim como muitos puritanos, Greenhill se recusou a lê-lo para seu povo e foi destituído do cargo.
O que era tão ofensivo aos puritanos era que o livro incentivava o entretenimento mundano no Dia do Senhor. Na prática, esse foi um julgamento duplo para Greenhill e outros sobre o quanto eles amavam o mundo. Em primeiro lugar, seguir O livro dos esportes significria
renunciar à parte do Dia do Senhor — um dia inteiro reservado para uma expressão mais direta e explícita do nosso amor por Deus — a fimde demonstrar o amor pelo mundo. Em segundo lugar, os ministros foram tentados a ler essa declaração real sob a ameaça de perderem seus empregos. Não que Greenhill acreditasse que o lazer e os locais de honra fossem ilegítimos. Pelo contrário, ele estava convencido de que ceder a essas tentações seria revelar um amor maior pelas coisas deste mundo do que pelo Deus que lhe deu tais coisas.
A perda de Greenhill ocorreu muito antes da publicação desse sermão, e ele nunca se refere a essas lutas pessoais no decorrer de sua mensagem. No entanto, isso serve para ilustrar que Greenhill vivenciou o mesmo tipo de lutas que ele encorajava outros a travarem. Quando posto à prova, ele se mostrou disposto a abrir mão de condições boas e piedosas para sustentar um amor ainda maior por Deus. Greenhill estava nas trincheiras com seus companheiros, dando conselhos que obviamente haviam sido testados e comprovados em sua própria vida.
Outro ponto deve ser observado sobre o apelo puritano a não amar o mundo. Os puritanos foram retratados como “almofadinhas moralistas” que queriam se isolar completamente dele. Para desmistificr essa caricatura, devemos observar que Greenhill apresenta uma compreensão equilibrada do que significaamar o mundo. Em meio a essa mensagem profunda, ele tem o cuidado de não nos sobrecarregar com expectativas irreais. Não me interprete mal; este é um livro muito impactante. Porém, Greenhill evita a mentalidade que nega a bondade da criação, distinguindo entre usar o mundo corretamente e amá-lo. Ele nos chama a lidar com as coisas que nos foram dadas como uma expressão do nosso amor pelo doador delas. Ao reconhecermos isso, percebemos que o chamado para não amar o mundo não se trata, em última análise, do que não devemos fazer; é um meio para alcançar o
objetivo positivo de nos deleitarmos em Deus. Nosso problema, contudo, é que estamos envolvidos em um caso de amor com as coisas que Deus criou. O mundo promete nos satisfazer de si mesmo, e nós recorremos a ele em vez de a Deus. O mundo nos vende uma promessa que jamais poderá cumprir, e nós a aceitamos.
Talvez a razão pela qual as pessoas reajam tão fortemente contra os puritanos seja porque, na verdade, realmente amamos o mundo. Se você se parece um pouco comigo, precisa ouvir a mensagem desafiadora, mas encorajadora, deste livro. Nele, Greenhill nos oferece um antídoto saudável para o nosso caso de amor pelo mundo. Ele explica o que significaamar o mundo, expõe os perigos de estimá-lo, compartilha como devemos nos relacionar com ele e oferece orientações encorajadoras para desapegarmos nossos corações dele. É um livro com uma mensagem atemporal, que demonstra a relevância dos puritanos para os dias de hoje. Oro para que ele inspire você a viver de uma forma que mostre que o mundo e todos os seus encantos não são o motivo pelo qual você vive. Em vez disso, que você viva no mundo e o use de tal forma que as pessoas vejam claramente que seu coração pertence a Cristo, o criador deste mundo.
Jay T. Collier Grand Rapids, Michigan Novembro de 2010
1
SOBRE O MUNDO E O NOSSO
AMOR POR ELE
Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. (1 João 2.15)
João era o discípulo amado de Cristo e escreveu essa epístola àqueles que eram amados por Cristo. Seu grande objetivo era confirmá-los na fé em Cristo e encorajá-los em santidade e amor, como se vê em 1 João 3.23: “Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou”. No segundo capítulo, versículos 1 e 2, ele apresenta um antídoto contra as fraquezas dos cristãos: que caso alguém pecasse, teria um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. E para que não se abusasse disso e os homens não se sentissem à vontade para pecar (visto que havia tal antídoto), ele os confronta com a observância dos mandamentos do Senhor nos versículos 3 a 6. Isso era um lembrete de que, se eles receberam algum benefício por meio de Cristo, amariam a Cristo, e se amavam a Cristo, g uardariam os seus mandamentos e andariam como ele andou. Nos versículos 7 a 11, João os instrui no amor, mostrando que este é um mandamento ao mesmo tempo novo e antigo, em diversos aspectos.
Capítulo
Então, ele se dirige particularmente aos “filhinhos” no versículo 12, aos “jovens” no versículo 13 e aos “pais” no versículo 14. Ele lhes diz no texto que não devem amar o mundo e as coisas que há nele. Fazer isso é um grande obstáculo tanto para a santidade de vida quanto para o amor ao próximo. As palavras desse texto nos proporcionarão duas observações.
Primeiro, até mesmo os santos são propensos a amar o mundo. Não haveria proibição de amar o mundo, a menos que tivéssemos uma inclinação natural para isso. Sim, os cristãos são muito suscetíveis a amar o mundo e o que há nele. Existe uma grande afinidade entre o mundo e nosso coração e natureza corruptos. Prazeres, lucros, honras e coisas dessa categoria agradam aos nossos gostos, afetos, disposições e inclinações. Por isso, o apóstolo diz: “Não ameis o mundo”.
A segunda observação é que aqueles que estão em estado de graça — sejam filhinhos, jovens ou pais — não devem amar o mundo. “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo.”
Feitas essas observações, procurarei abordar os seguintes pontos:
• O que significa o mundo” e o que é amá-lo;
• Algumas razões pelas quais não devemos amar o mundo (capítulo 2);
• Algumas questões sobre como nos relacionamos com a criação de Deus (capítulo 3);
• Algumas aplicações da doutrina (capítulo 4);
• Outros motivos para não amar o mundo (capítulo 5);
• Orientações para desvincularmos nosso coração do mundo (capítulo 6).
O que significa “o mundo”
Existem três maneiras principais de entender a palavra “mundo”:
1. “Mundo” refere-se aos céus e à terra visíveis, com todas as criaturas que neles habitam, tal como criados pela mão de Deus. Gênesis 1.1 nos diz: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Depois disso, somos informados sobre coisas específicasque foram criadas. No Novo Testamento, lemos que “todas as coisas foram feitas por intermédio dele” e que “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele” (João 1.3, 10). O mundo, e tudo o que nele existe, foi criado por Cristo. Deus, por meio de Cristo, criou o mundo e o que há nele. Consequentemente, todas as coisas na terra são feitura de Deus e de Cristo, e são compreendidas pela palavra “mundo”.
2. “Mundo” significaos costumes, as condutas, a adoração e as modas do mundo. Romanos 12.2 diz: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos”. Em outras palavras, não se conformem com os costumes e maneiras deste mundo, com seus cultos e modas. Vemos isso também em Colossenses 2.20-22: “Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças […] segundo os preceitos e doutrinas dos homens?” Aqui, “mundo” deve ser entendido como os rudimentos dos homens, os costumes dos homens, a adoração dos homens e as maneiras dos homens na adoração a Deus. Assim, vê-se que “mundo” implica os costumes, modas, maneiras e cultos do mundo. Em outros lugares, são chamados de “rudimentos fracos e pobres” (Gl 4.9) e “a tradição dos homens” (Cl 2.8).
3. “Mundo” significaa pompa e o esplendor do mundo, que Satanás utiliza para promover seu reino e seus interesses, bem como para obstruir o reino e os interesses de Cristo. É o abuso da glória e da grandeza da criação de Deus, das excelências e dons dos homens e dos lucros
e prazeres do mundo. Assim, em Gálatas 6.14, Paulo diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificdo para mim, e eu, para o mundo”. Em outras palavras: “Estou crucificdo para a pompa, a glória e o esplendor do mundo, e para tudo o que é bom de acordo com o mundo. E o mundo está crucificdo para mim. Para mim, ele está morto, e para ele, eu sou alguém morto.” Em outra passagem, Paulo conta como Demas, “tendo amado o presente século” (2Tm 4.10), abandonou o ministério pelas coisas, prazeres, lucros, honras, confortos e contentamentos do mundo.
Portanto, “não ameis o mundo”. Não amem as criaturas, costumes e modas do mundo, nem o esplendor, a pompa, a glória e a adoração do mundo. Esses três significdos de “mundo” estão todos compreendidos aqui em nosso texto.
O que é amar o mundo
1. Amar o mundo é estimá-lo profundamente, tê-lo em alta conta. Cristo disse: “aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus” (Lc 16.15). Quando temos grande estima pelo mundo e as coisas que há nele, amamos o mundo. Aqueles que foram convidados para o grande banquete em Lucas 14 davam mais importância às suas fazendas, seus bois, suas esposas e às coisas do mundo do que às coisas de Cristo. Quando essas coisas são altamente estimadas, diz-se que amamos o mundo.
Muitos homens se considerariam realizados se conquistassem o mundo. Eles dizem: “Eu seria feliz se tivesse tal propriedade, tais honras, tal grandeza”. Considere o Salmo 144.12-15:
Que nossos filhos sejam, na sua mocidade, como plantas viçosas, e nossas filhas, como pedras angulares, lavradas como colunas de palácio; que transbordem os nossos celeiros, atulhados de toda sorte de provisões; que os nossos rebanhos produzam a milhares e a dezenas de milhares, em nossos campos; que as nossas vacas andem pejadas, não lhes haja rotura, nem mau sucesso. Não haja gritos de lamento em nossas praças. Bem-aventurado o povo a quem assim sucede!
Aqui, Davi fala em nome dos homens do mundo; são homens felizes, prósperos e bem-sucedidos. Mas eis como ele os corrige: “Sim, bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor! ”. Jonas tinha grande estima por sua planta, que pereceu em uma noite. Os judeus tinham grande estima pelo seu templo. Diz-se que amamos o mundo quando atribuímos valor e estima grandes demais às coisas do mundo.
2. Amamos o mundo quando nossos pensamentos estão fixos nele. Os pensamentos de uma pessoa são tomados por aquilo que ela ama. “Quanto amo a tua lei!”, disse Davi. “É a minha meditação, todo o dia!” (Sl 119.97). Meditamos principalmente sobre as co isas que amamos. Quando nossos pensamentos são consumidos pelo mundo, quando ele está em nossa mente dia e noite, amamos o mundo e as coisas que há nele. Os homens pensam muito no mundo — nos prazeres, nas honras, nos lucros, nas riquezas, nas delícias do mundo. Seus pensamentos são tomados por essas coisas. Tiago
4.13 diz: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros”. Seus pensamentos estavam fixos no mundo, em comprar e vender, em obter lucro. Com isso, eles comprovaram seu amor pe lo mundo. Semelhantemente, no Salmo 49.11 está escrito: “O seu pensamento íntimo é que as suas casas serão perpétuas e, as suas moradas, para todas as gerações; chegam a dar seu próprio nome às suas terras”. Todos os seus pensamentos estavam dominados e ocupados com essas coisas, o que demonstrava seu amor pelo mundo. Da mesma forma, Filipenses 3.19 fala de homens com mentalidade mundana. Quando a mente dos homens está voltada para a terra e as coisas do mundo, eles amam a terra e amam o mundo. São habitantes da terra, em busca de uma herança aqui. Assim, essa é a segunda co isa em que consiste o amor pelo mundo: ter nosso pensamento ocupado pelo mundo, cuidar das coisas do mundo e ser levado em direção ao mundo.
3. Diz-se que os homens amam o mundo quando o desejam. Homens e mulheres desejam muito aquilo que amam. Eles têm fortes desejos por aquilo e correm atrás dessas coisas. O amor é o desejo de se unir àquilo que é amado. Você sabe o que dizem os mandamentos: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.” (Êx 20.17). Quando existe cobiça na alma, é uma demonstração de que a alma está apaixonada pela coisa. Como os desejos dos homens são movidos e tão fortemente apegados às coisas do mundo!
4. O amor pelo mundo é visto quando o coração é colocado nas coisas do mundo. O Salmo 62.10 nos adverte: “se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração”. Muitas pessoas colocam o
estimá-loprofundamente, tê-lo em alta conta.
Quandotemosgrande
estimapelomundoe ascoisasquehánele, amamos o mundo.
coração nas coisas do mundo. Como vemos em Oseias 4.17: “Efraim está entregue aos ídolos”. Seu coração estava colocado em seus ídolos. Quando o coração se apega a algo, ele ama aquilo. Samuel disse a Saul para não ocupar seu coração com as jumentas de seu pai (1Sm 9.20). O coração dos homens está colocado em seus bens, seu gado, seu milho, seu vinho e azeite, seus prazeres e lucros, e para tudo aquilo que o mundo lhes oferece. Contudo, Colossenses 3.2 nos lembra: “Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra”. Os homens colocam seus afetos nas coisas terrenas. Uma coisa ou outra aqui na terra rouba o coração deles, que é tomado por elas, e assim eles amam essas coisas. Mateus 24.38 diz: “Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento”. Seus afetos estavam colocados nessas coisas. Quando nossos afetos estão colocados em algo, é isso que amamos.
5. Diz-se que amamos o mundo quando empregamos a maior parte de nossa força nas coisas do mundo, em relação a elas e por causa delas. Quando empregamos nossa maior força em algo, dedicamos nosso tempo e energia a isso. “Trabalhai, não pela comida que perece”, disse Cristo, “mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará” (Jo 6.27). Quando nossa principal ocupação envolve a comida que perece e outras coisas semelhantes, nós as amamos. Quando a alma se inclina para aquilo, existe amor. Quando os homens se levantam cedo, deitam-se tarde e gastam seu tempo dessa maneira, é por amor. Romanos 13.14 nos lembra: “nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências”. Quando nos dispomos à carne e suas concupiscências — para realizá-las, agradar-lhes e satisfazê-las —, ficaevidente que amamos o mundo. Os homens o seguem com entusiasmo, e seu tempo e energia são gastos assim.
6. Diz-se que amamos o mundo quando aproveitamos todas as oportunidades e ocasiões para obter as coisas terrenas: comprar barato e vender caro; adquirir grandes propriedades, casas, terras e coisas dessa natureza. Disse Cristo: “os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz” (Lc 16.8). Os filhos do mundo são hábeis em sua geração para aproveitar todas as vantagens necessárias para o seu crescimento. Mas, “ouvi isto, vós que tendes gana contra o necessitado e destruís os miseráveis da terra” (Am 8.4). Eles ficvam à espera de oportunidades para explorar os necessitados, para fazer deles suas presas, para obter seu trabalho por uma ninharia ou de graça. Eles são como a águia que voa alto, olhando para baixo para capturar sua presa. O coração vagueia e viaja pelo mundo, buscando algo em que se fimar. Contudo, lembrem-se das palavras de nosso Senhor: “Não andeis, pois, a indagar o que haveis de comer ou beber e não vos entregueis a inquietações” (Lc 12.29). Não sejam como meteoros do céu que caem na terra. Tantos são como meteoros no ar, pairando; por fim, cem na terra.
Alguns dirão: “Se eu tivesse herdado uma propriedade como essa, então poderia ficr em paz e descansar”. Em Provérbios 18.11, o sábio diz: “Os bens do rico lhe são cidade forte e, segundo imagina, uma alta muralha”. Quando um rico conquista riquezas, ele se acomoda nelas. É a sua cidade forte, e nela ele descansará. É como uma muralha alta em sua própria mente, que ele pensa que o defenderá de todos os inimigos, danos e injustiças. Assim, amamos o mundo quando buscamos vantagens e confiamos nelas, acreditamos nelas e nos protegemos por meio delas.
7. Amamos o mundo quando suportamos grandes difiuldades por ele. Suportamos quase tudo por aquilo que amamos. Jacó amava Raquel, por isso suportou o frio e o calor, o inverno e o verão, para
realizar seus desejos. Assim, quando os homens suportam grandes difiuldades, enfrentam grandes perigos e se aventuram em qualquer coisa para conquistar o mundo, pode-se dizer que eles o amam. Diz-se que nossos soldados arriscam seus membros e sua vida por alguns centavos por dia. E há empresários que arriscariam suas almas em nome de seu crédito. Eles não consideram que seja um mérito ou uma honra suportar uma injúria ou uma injustiça, mas arriscarão suas vidas e almas para manter seu crédito e sua honra. No Salmo 107.23-27 é possível ver como os homens suportam o perigo e as tempestades no mar:
Os que, tomando navios, descem aos mares, os que fazem tráfio na imensidade das águas, esses veem as obras do Senhor e as suas maravilhas nas profundezas do abismo. Pois ele falou e fez levantar o vento tempestuoso, que elevou as ondas do mar.
Subiram até aos céus, desceram até aos abismos; no meio destas angústias, desfalecia-lhes a alma.
Eles suportam tribulações que consomem até a própria alma.
“Andaram, e cambalearam como ébrios, e perderam todo tino.” Os homens suportam qualquer coisa no mar para conquistar as riquezas do mundo, o que sugere que eles amam o mundo. Nenhuma difiuldade esfriará o amor deles; embora enfrentem tempestades, ondas e perigos, seu amor pelo mundo não se apaga. Nada os cansa, desde que possam conquistar o mundo. Porém, quanto às coisas de Deus e da alma, o evangelho e o sábado, como os homens logo se cansam disso! Considerem novamente Amós 8.4-5:
Ouvi isto, vós que tendes gana contra o necessitado e destruís os miserá-veis da terra, dizendo: Quando passará a Festa da Lua Nova, para vender-mos os cereais? E o sábado, para abrirmos os celeiros de trigo, diminuindo efa, e aumentando o siclo, e procedendo dolosamente com balanças enganadoras.
Eles não se cansam do mundo, mas logo se cansam do sábado e das ordenanças de Deus. Os homens conseguem suportar qualquer dificuldade e perigo para obter bens, mas dificilmente suportarão qualquer coisa para obter o céu, a graça ou mais interesse por Cristo.
8.Os homens amam o mundo quando lhe dão favoritismo. Quando demonstram maior favoritismo pelas coisas do mundo em seus discursos, estão apaixonados pelo mundo. Cristo nos diz: “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). Quando o mundo está no coração, o coração o ama. Fica evidente que o mundo está no coração quando nossas conversas são sobre o mundo e o priorizam acima de tudo. Em João 3.31, o Senhor diz: “Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra”. As pessoas terrenas favorecem as coisas da terra em sua fala. Como são saborosas para elas as discussões sobre ganhos, prazeres e honras. E em João 8.23, lemos: “E prosseguiu: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou”. Cristo não era deste mundo e sempre falava do céu e das coisas celestiais, coisas concernentes ao bem eterno da alma humana. Eles, porém, eram da terra e falavam da terra. Jesus se referiu aos escribas e fariseus como pessoas que amavam os aplausos dos homens e buscavam lugares de honra. Eles eram da terra; portanto, apreciavam as coisas terrenas e falavam muito delas. Cristo, entretanto, era do céu e falava de coisas celestiais. Eles se preocupavam com o cominho, o endro, a hortelã e os dízimos,
enquanto negligenciavam as coisas importantes da Lei. Seus corações estavam nessas coisas.
Está escrito em 1 João 4.5: “Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve”. Os homens são do mundo, e as pessoas amam ouvi-los falar do mundo. Mas quando alguém fala de coisas celestiais, quão indesejáveis e desagradáveis elas são? “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Eles não discernem as coisas de Deus, nem as recebem; tais coisas são espirituais, logo, não lhes são bem-vindas. Por isso, em Romanos 8.5, o apóstolo diz: “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne”. Eles as apreciam, saboreiam-nas, deleitam-se com elas e têm prazer nelas, “mas os que se inclinam para o Espírito, [cogitam] das coisas do Espírito.”
Isaías 58.13 diz:
Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor , digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs.
Deus considera uma pessoa como graciosa, piedosa e boa se, em vez de negligenciar o sábado, ela se afasta de buscar prazer em sua própria vontade e palavras. Ora, as nossas próprias palavras são do mundo; palavras da carne. Isso parece demonstrar que um homem não é do mundo quando saboreia as coisas de Deus e não se afasta do sábado; antes, se abstém de fazer sua própria vontade no dia santo de Deus. Porém, quando apreciamos e saboreamos as coisas terrenas em nossas conversas, isso mostra que estamos ligados ao mundo e o amamos.
9. Um homem ama o mundo quando chora e se lamenta pelas coisas terrenas que lhe são tiradas. Quando amamos algo, lamentamos quando o perdemos. Quando os homens choram profundamente por um filho, isso demonstra que amavam esse filho. Quando os homens lamentam e sofrem pela perda de bens, nomes, amigos ou parentes, isso demonstra que eles amam o mundo. Raquel chorou e recusou ser consolada. Por quê? Porque não tinha filhos. Como muitos sofrem demasiadamente quando perdem coisas exteriores como crédito, lucro, honras, prazeres, bens ou relações. Como eles choram e ficm descontentes, cabisbaixos, e não se deixam consolar. Eles amam o mundo e as coisas do mundo.
10. Diz-se que amamos o mundo quando estamos determinados a enriquecer e a conquistá-lo de qualquer forma. Alguns conquistarão o mundo por bem ou por mal, como se costuma dizer. O texto de 1 Timóteo 6.9 fala dos “que querem ficr ricos”. Eles estão determinados a serem ricos e a conquistarem o mundo, aconteça o que acontecer. Esses homens realmente amam o mundo.
Agora você entende o que é o mundo e o que significa má-lo.
Para reforçar
O capítulo 1 mostra que o coração humano possui uma inclinação natural para amar o mundo. Por isso a Escritura adverte os cristãos a vigiarem seus afetos, explicando o que significa “mundo” e como esse amor se revela nos pensamentos, desejos e prioridades do coração.
PARA REFLETIR
• Ao examinar sua vida cotidiana, o que parece exercer maior atração sobre o seu coração — Deus ou os interesses deste mundo?
• Quando seus pensamentos ficm livres, para onde eles naturalmente se voltam?
• Que mudanças em seu cotidiano poderiam ajudar seu coração a valorizar mais as coisas eternas do que as temporais?