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Fracasso pastoral - Charles Bridges

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“Este livro tem sido meu companheiro por quase 50 anos. Publicado pela primeira vez em 1830, esta obra é indiscutivelmente ainda mais necessária hoje do que na época em que apareceu ao público pela primeira vez. Trata-se de um clássico que serve de guia a todos os que estão cientes dos perigos e privilégios do ministério pastoral.”

Alistair Begg, pastor principal na Igreja de Parkside, em Cleveland, Ohio; autor de A vida cristã segundo Jesus e Devocional Verdade para a Vida

“As pessoas me perguntam: ‘Qual é o melhor livro sobre ministério?’ No geral, quando o assunto é o ministério, a pregação apaixonada e o modo de pregar para diferentes tipos de pessoas, não há nada como Fracasso pastoral, de Charles Bridges.”

Joel R. Beeke, presidente e professor de Homilética e Teologia Sistemática no Puritan Reformed Theological Seminary; autor de Espiritualidade reformada e Pregação reformada “Poucos livros tratam do ministério pastoral com tanta seriedade espiritual, honestidade e profundidade bíblica quanto esta obra de Charles Bridges. Suas páginas expõem, com precisão pastoral e amor pela igreja, as causas da esterilidade ministerial e apontam o único caminho para a frutificação: a dependência humilde da graça de Deus e a fidelidade perseverante à Palavra. Este é um livro que examina o coração, corrige motivações e renova a visão do chamado pastoral. Recomendo sua leitura não apenas a pastores, mas também a estudantes de teologia e líderes que desejam servir a Cristo com reverência, fidelidade e fruto duradouro.”

Franklin Ferreira, reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer (São José dos Campos, SP); autor de O Credo dos Apóstolos e coautor de Meditações na Terra Santa

“Quando li este clássico de Charles Bridges pela primeira vez, fui profundamente abalado. Em um capítulo, eu chorava e pensava em desistir do ministério; no seguinte, era tomado por novo ânimo para perseverar. Este livro arrancou de mim toda a autossuficiência ministerial e me marcou com uma lição inesquecível: “nenhuma força, senão o braço da onipotência, é suficiente para o trabalho”. Nunca me esqueci dessa frase. Entre todas as obras que já li sobre o ministério pastoral, nenhuma se compara a esta. Não foi escrita para ser lida com pressa, mas com coração quebrantado, em reflexão e oração diante de Deus. Leia, e descubra o fracasso de si mesmo e toda a suficiência que há no Bom Pastor.”

Vinicius Musselman, pastor na Igreja Batista da Graça (São José dos Campos, SP)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Bridges, Charles, 1794-1869

Fracasso pastoral / Charles Bridges ; [tradução Breno Nunes de Oliveira Seabra, Djair Dias Filho]. -- São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2026.

Título original: The Christian ministry.

ISBN 978-65-5723-496-9

1. Ministério cristão 2. Missão da Igreja 3. PastoresMinistério 4. Teologia pastoral I. Título.

26-346285.0

Fracasso pastoral

CDD-253

Índices para catálogo sistemático:

1. Ministério cristão : Cristianismo 253

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

Traduzido do original em inglês

The Christian ministry: with an inquiry into the causes of its inefficiency

Copyright © 2026 Editora Fiel

Primeira edição em português: 2026

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária.

PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE

LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2ª ed. (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicação específica.

Diretor: Tiago J. Santos Filho

Editor-chefe: Vinicius Musselman Pimentel

Editor: Djair Dias Filho

Coordenação gráfica: Gisele Lemes

Tradução: Breno Nunes de Oliveira

Seabra (textos em inglês); Djair Dias Filho (textos em latim)

Preparação: Thatiane Julie de A. Rodrigues

Revisão de provas: André G. Soares

Diagramação: Sergio Siqueira Moura

Capa: Caio Duarte

ISBN brochura: 978-65-5723-496-9

ISBN ebook: 978-65-5723-495-2

Caixa Postal, 1601

CEP 12230-971

São José dos Campos-SP

PABX.: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br

SUMÁRIO

Parte 1: Visão geral do ministério cristão

Capítulo 1: A origem e instituição divinas do ministério cristão .....

Capítulo 3: A utilidade e necessidade do ministério cristão

Capítulo 5: Os confortos e encorajamentos do

Capítulo

Parte 2: Causas gerais do insucesso no ministério cristão

Capítulo 1: A garantia e o caráter do sucesso ministerial de acordo com a Sagrada Escritura — bem como os sintomas do insucesso .................................................................

Capítulo 2: A privação da influência divina: a principal causa do insucesso ministerial....................................................................

Capítulo 3: A inimizade do coração humano é uma das principais causas do insucesso...................................................................... 123

Capítulo 4: O poder de Satanás: grande obstáculo para o sucesso ministerial ................................................................................... 127

Capítulo 5: Obstáculos locais para o sucesso ministerial ............... 131

Capítulo 6: A ausência de chamado divino: causa importante para o fracasso no ministério cristão ........................................... 137

Parte 3: Causas da ineficácia ministerial ligadas ao nosso caráter pessoal

Capítulo 1: A falta de completa devoção de coração ao ministério cristão......................................................................... 155

Capítulo 2: A conformidade com o mundo................................... 163

Capítulo 3: O temor do homem.................................................... 177

Capítulo 4: A falta de abnegação cristã ......................................... 185

Capítulo 5: O espírito de cobiça.................................................... 199

Capítulo 6: A negligência da prática de retirar-se ......................... 209

Capítulo 7: A influência do orgulho espiritual ............................. 217

Capítulo 8: A ausência ou deficiência na religião pessoal .............. 223

Capítulo 9: A deficiência na religião familiar e a falta de conexão da família do ministro com o seu trabalho .................................. 237

Capítulo 10: A falta de fé .............................................................. 249

APRESENTAÇÃO

Li O Ministério Cristão há exatos dez anos, mas deveria ter lido há 28. Explico. No início da década de 1990, fui enviado pela minha igreja ao Seminário Betel Brasileiro, em São Paulo, a fim de receber a instrução necessária para ser ordenado ao ministério pastoral. Naquela época, cerca de 28 anos atrás, não tínhamos as facilidades de hoje. Não havia celulares nem redes sociais, como em nossos dias, tampouco a profusão de publicações sobre poimênica como temos hoje. Portanto, não dispúnhamos de muitos livros que nos ajudassem a refletir sobre o ministério pastoral, muito menos a partir das causas de seu fracasso. Como fui ordenado muito jovem, aprendi como todo jovem aprende: com muita garra e pouca sabedoria. Os anos se passaram. Tive a oportunidade de servir como pastor auxiliar de homens admiráveis e que deixaram marcas poderosas em minha vida e ministério. Mas tive também o desprazer de servir ao lado de pastores cuja vida e conduta refletiam o exato oposto do que significa ser um verdadeiro pastor. Vi e vivi muitas coisas boas e ruins. Com o tempo, atravessei também uma experiência dolorosa no ministério. Fui, ao mesmo tempo, vítima e vilão. Estava profundamente frustrado com aquilo que eu pensava ser o ministério pastoral. Contudo, a graça e a misericórdia do Senhor me alcançaram. Eu, que quase havia desistido do pastorado, fui agraciado com o cuidado de um pastor muito querido, que me ajudou a recuperar a confiança na vocação ministerial.

Tudo parecia ir bem, pelo menos era o que eu pensava. Até que recebi o convite do Ministério Fiel para participar de uma comitiva de pastores que viajaria para Washington, D.C., a fim de conhecer a Capitol Hill Baptist Church e o ministério 9Marcas. Foi minha primeira experiência com o Weekender, uma conferência para pastores dedicada à plantação e edificação de igrejas saudáveis. Isso aconteceu em maio de 2015. Aquela experiência virou minha cabeça do avesso. Pela primeira vez, depois de

participar de tantas conferências para pastores e líderes, vivenciei algo diferente. Não era apenas uma conferência, era um convite para que pastores vissem com os próprios olhos como uma igreja pode crescer forte e saudável fazendo tão somente o que a Palavra orienta. A simplicidade e a intencionalidade com que cada aspecto da vida da igreja era conduzida provocaram em mim uma grande reviravolta. Vi uma igreja repleta de jovens cantando os hinos que eu cantava antigamente. A sensação de que eu havia perdido algo pelo caminho foi inevitável. Lembro-me como se fosse hoje. Quando tudo terminou, sentei-me em um banco da CHBC e orei: “Senhor, perdoa-me pelo meu fracasso no ministério pastoral. Eu quero, ou melhor, eu preciso somente de ti e da tua Palavra. Ensina-me a ser um bom pastor, que cuide bem de sua igreja e ajude outros pastores a serem moldados pela tua Palavra.” Quando terminei de orar, resolvi marcar em minha agenda aquele dia tão especial. Curiosamente, era 20 de maio de 2015. Naquele dia, eu completava 17 anos de minha ordenação pastoral.

Voltei para o Brasil e compartilhei essa experiência com o Pr. Luiz Sayão, pastor que eu auxiliava naquela época. Com a sabedoria de um pastor vivido, experiente e piedoso, ele me encorajou a plantar uma igreja. Resumo da ópera: no segundo semestre de 2015, iniciamos os primeiros encontros com vistas à plantação. Não havia pressa nem estratégias complexas. Havia oração, longas conversas, estudo bíblico e uma convicção compartilhada: a igreja nasce da Palavra e é sustentada por ela. À medida que o grupo crescia, o sonho deixava de ser apenas uma ideia e ganhava densidade, forma e direção. Foi nesse contexto que, em 2016, Pr. Mark Dever me convidou para participar de um estágio pastoral de cinco meses na CHBC. Depois de um tempo de oração e deliberação, o grupo entendeu que eu deveria aceitar o convite. Ao partir, todos foram deixados inteiramente livres de qualquer compromisso com a plantação naquele momento, sendo encorajados a permanecer fiéis à sua igreja local. A ideia era que, após o meu regresso ao Brasil, retomaríamos a plantação com aqueles que ainda desejassem seguir adiante.

O período na CHBC revelou-se profundamente providencial. Ali, a filosofia de ministério que orientaria a futura igreja não apenas se confirmou,

mas amadureceu, fortaleceu-se e tornou-se mais clara. O que antes era convicção embrionária transformou-se em uma visão mais nítida, enraizada na centralidade da Palavra, no Evangelho e na vida da igreja local. Todavia, a experiência que mais me marcou foi a de acompanhar o cotidiano de um pastor incansavelmente entregue ao ministério pastoral. Eu me perguntava: “Como Mark consegue ser assim?”. A resposta encontrei em um dos muitos livros lidos e discutidos durante o estágio, a saber, O Ministério Cristão. As três primeiras partes do livro tratam justamente daquilo que ninguém fala com tanta clareza e franqueza no ministério pastoral: o seu fracasso. Essas três partes compõem este livro que o leitor tem em mãos. Elas são avassaladoras. Além da Bíblia, todo pastor e todo vocacionado ao ministério pastoral deveria lê-las repetidas vezes. Li as três primeiras partes com lágrimas nos olhos. Foi o primeiro livro que me arrancou lágrimas, inclusive lendo suas notas de rodapé, que são verdadeiras preciosidades. Que livro! Até hoje é meu livro de cabeceira. Sempre me pergunto quando me deparo com uma obra assim: “Como pode um livro transformar radicalmente a vida de alguém?”. Com o tempo, entendi também por que Mark não exigiu que o livro fosse lido de uma só vez, mas aos poucos, ao longo dos cinco meses de estágio. Trata-se de um livro para ser lido e relido, porque ajuda pastores a pensar sobre seus fracassos e a lidar com eles no ministério pastoral.

Em 2017, após meu regresso, encontrei um grupo de 18 pessoas que aguardavam a nossa volta. No dia 15 de janeiro, um culto realizado em minha residência marcou a retomada da plantação. Poucas semanas depois, em 4 de fevereiro de 2017, após um dia inteiro de estudo da Palavra e da eclesiologia que ordenaria a igreja, aqueles irmãos assinaram o pacto de membresia e a declaração de fé. Já se passaram quase dez anos. E, quando olho para a igreja cantando, orando, lendo, ouvindo e vendo a Palavra, lembro-me das palavras de Bridges: “A igreja é o espelho que reflete a plenitude do esplendor do caráter de Deus...”. Não é sobre nossos fracassos, mas é sobre o caráter de Deus.

Jonas Madureira

Pastor na Igreja Batista da Palavra (São Paulo, SP)

PREFÁCIO

Aobra ora apresentada ao público originou-se de uma carta a um querido amigo. Naquela ocasião, refleti sobre o interessante assunto da ineficácia ministerial. As reflexões contidas naquela carta foram — pelo singelo pedido e desinteressada gentileza do editor do periódico Christian Observer [Observador cristão] — posteriormente inseridas, com algumas ampliações, naquela valiosa miscelânea,1 bem como em uma impressão tirada daquela edição para circulação privada. Tendo sido feitos vários pedidos para sua publicação separada, o presente autor foi induzido a reconsiderar o assunto em uma escala mais ampla e a se valer das sugestões de amigos, a fim de que o pequeno panfleto pudesse gradualmente crescer até adquirir suas atuais dimensões estendidas.

Quanto à própria obra, o presente autor deseja estar com seus irmãos “em fraqueza, temor e grande tremor”2. Ele está ciente de que sua própria situação, tanto em autoridade quanto em experiência, não o coloca em uma posição superior aos que, impelidos a ouvi-lo, buscam sabedoria e orientação através de suas palavras; e seria, para ele, causa do mais doloroso e profundo pesar se tais reflexões fossem interpretadas como exibição de um suposto nível ou padrão de zelo, seriedade ou realização ministerial superior ao de seus irmãos. As palavras aqui contidas não são uma descrição daquilo que ele acredita ser, mas, antes, o que ele deveria e o que, confiantemente, deseja ser; e, se (segundo o modelo de pároco de aldeia)3 ele “elevou o padrão o mais alto que pôde”, é porque

1 Christian Observer, março, abril, 1828.

2 1 Coríntios 2.3.

3 N.T.: O termo “pároco de aldeia” (no inglês, country parson) se tornou popular por meio da obra A Priest to the Temple Or, The Country Parson, His Character and Rule of Holy Life (Londres: T. Roycroft, 1671), de George Herbert. A expressão pode também ser traduzida como “pastor rural” ou “pastor do interior”.

“mais alto e distante é o tiro daquele que mira na lua do que aquele que mira em uma árvore”. 4 Ele se esforçou, no entanto, para escrever em primeira instância para si mesmo e apontar cada flecha de convicção para seu próprio coração, pois “tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo?” 5

Veremos que o presente autor discorreu profusamente por meio da ilustração — não apenas por ser mais adequada à sua situação relativa com seus irmãos do que a instrução didática; mas por exibir aquela simpatia de cuidado e preocupação que nos dá um lugar particular na lembrança uns dos outros, um interesse nas orações uns dos outros e um testemunho nos corações uns dos outros. “Sofrimentos iguais aos vossos estão se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo.”6

Os materiais para esta obra foram trazidos de diferentes departamentos do território da Igreja. Embora o presente autor tenha tido consideração especial pelo ministério da igreja oficial estabelecida7 (ao qual ele está vinculado pelos laços mais fortes e afetuosos, e que ocupa, em sua opinião, a posição mais importante na Igreja de Cristo), ele lamentaria recusar uma admissão cordial e negligenciar o uso diligente das reconhecidas excelências dos honrados homens de Deus em outras comunhões.8 Se ele for considerado extenso em suas referências, ele só pode se desculpar por sua ansiedade em abrigar suas próprias

4 George Herbert, A Priest to the Temple Or, The Country Parson, His Character and Rule of Holy Life (Londres: T. Roycroft, 1671), prefácio.

5 Romanos 2.21.

6 1 Pedro 5.9.

7 N.T.: Ministério da igreja oficial estabelecida [Ministry of the Establishment] se refere aos ministros da Igreja da Inglaterra. O título da terceira edição da obra de Bridges incluía uma referência ao ministério da igreja oficial estabelecida (The Christian Ministry: With an Inquiry Into the Causes of Its Inefficiency with Especial Reference to the Ministry of the Establishment).

8 O espírito cristão em um dos dignos defensores da igreja estabelecida é verdadeiramente admirável, a ponto de admitir a obra The Life of Philip Henry (muitas vezes referida nestas páginas) em sua coleção de Biografia Eclesiástica — com a admissão de que qualquer inconformista [veja a nota abaixo] de piedade superior também encontrará lugar em seu trabalho. Christopher Wordsworth, Ecclesiastical Biography; or Lives of Eminent Men, Connected with the History of Religion in England; from the Commencement of the Reformation to the Revolution, 6 volumes (F. C. and J. Rivington: Londres, 1810), prefácio, p. xviii.

declarações (que em si mesmas poderiam ter pouco peso) pela força de autoridade credenciada.9

Afinal, ele está profundamente consciente de que este trabalho extremamente responsável sofreu — talvez materialmente — pela imperícia de seu tratamento. Ele desejaria, entretanto, ser “aceito por seus irmãos”,10 na busca sincera de servir à grande causa, à qual eles, igualmente com ele próprio, são consagrados; e ele imploraria para expressar seus desejos fervorosos de ser favorecido com comunicações e sugestões privadas para o aprimoramento da presente obra em uma segunda edição (caso seja solicitada); para tal fim, ele anexa o endereço completo de seu local de residência.

Seus desejos para este trabalho não são outros, senão o do pároco de aldeia:

Que o Senhor prospere os frutos dos meus trabalhos, tanto para mim quanto para os demais, que não hão de desprezar os meus pobres labores; mas acrescente a esses pontos que observei, até que o livro cresça e se torne uma obra pastoral completa.11

Por si mesmo, ele seria animado pela exortação final de um eminente ministro ao seu aluno e pastor:

E agora segue teu caminho, ó filho mui amado; e trabalha em teu lote com ânimo, devoção, e com gozo até o fim de teus dias; e espera e anseia pelo

9 N.T.: Desde os séculos 17 e 18, o termo “inconformista” foi usado para se referir a cristãos protestantes, na Inglaterra e no País de Gales, que não faziam parte da Igreja da Inglaterra (Anglicana). Eles eram também chamados de Dissenters (dissidentes) e Free Churchman (membros da igreja livre). O movimento teve origem após o Ato de Uniformidade (1662), no qual foram estabelecidos os modos apropriados de culto, orações públicas, administração dos sacramentos, entre outros ritos litúrgicos. Os ministros que discordavam das prescrições do Ato foram expulsos de seus postos e perseguidos. Foi nesse período que se originou o movimento puritano. Entre os vários grupos inconformistas da época, podemos citar os batistas, congregacionais, presbiterianos e metodistas, bem como grupos independentes como os quacres, a Assembleia dos Irmãos, o Exército da Salvação, entre outros.

10 Ester 10.3.

11 George Herbert, A Priest to the Temple Or, The Country Parson, His Character and Rule of Holy Life (Londres: T. Roycroft, 1671), prefácio.

que o glorioso Senhor fará por ti ao cabo de teus dias; naquelas alegrias infinitas, nas quais resplandecerás como o brilho do firmamento e como as estrelas, para todo o sempre.12

Old Newton, Stowmarket, Inglaterra 22 de junho de 1829

12 Dr. Cotton Mather, Student and Preacher. Intituled, Manuductio ad Ministerium, or Directions for a Candidate of the Ministry (Londres: Printed for Charles Dilly, 1781).

Parte 1

VISÃO GERAL DO MINISTÉRIO CRISTÃO

A ORIGEM E INSTITUIÇÃO DIVINAS DO MINISTÉRIO CRISTÃO

Aigreja é o espelho que reflete todo o esplendor do caráter divino. É a grandiosa cena na qual as perfeições de Jeová1 são exibidas ao universo. As revelações feitas à igreja — os grandes eventos sucessivos de sua história — e, acima de tudo, a manifestação da “glória de Deus na pessoa de Jesus Cristo” fornecem, até mesmo para as inteligências celestiais, novos temas de contemplação em adoração.2

Os meios também empregados na edificação da igreja são igualmente ilustração da sabedoria de seu grande autor. A manifestação do Todo-Poderoso e da lógica de que “o poder se aperfeiçoa na fraqueza”3 assegura, efetivamente, o importante objetivo: “que ninguém se vanglorie na presença de Deus”4. Uma ordem separada de homens foi consagrada à grande obra de lançar os alicerces e erguer a superestrutura de sua igreja. Apenas doze homens foram incluídos na instituição original, com uma comissão limitada, a princípio, aos contornos da escassa extensão da “terra de Emanuel”, mas posteriormente ampliada com uma oferta da bênção prometida a “toda criatura”.5 À medida que a obra sobre eles aumentava, tornou-se evidente a necessidade de um aumento correspondente de trabalhadores. Para atender a essa exigência, o Grande Mediador delegou o poder de sua própria comissão a seus trabalhadores fiéis.6 Assim, investidos

1 Efésios 3.10.

2 1 Pedro 1.12.

3 2 Coríntios 12.9

4 1 Coríntios 1.29

5 Mateus 10.1-6; 28.18-20; Marcos 16.15; Lucas 24.27.

6 João 20.21.

de autoridade plena, eles “ordenaram, em cada igreja, presbíteros”, os quais foram incumbidos de atender “por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos”7 e aos quais foi confiado o poder de ordenação sucessivamente a outros,8 para a continuação da função — de acordo com a promessa especial — “até à consumação do século”9. Não que o Senhor tenha transferido aos homens sua autoridade suprema; porém, como alguém encarregado de uma obra, ele exerceu o direito na escolha de seus próprios instrumentos. E, como de fato nenhuma instrumentalidade era necessária, sua seleção dos delegados de sua comissão e dos representantes de sua pessoa é um ato de graça e uma forma de exercitar nossa humildade na submissão a homens com fraquezas semelhantes às nossas, bem como o nosso amor nesse vínculo consolidante de interesse recíproco.10 Assim, cada passo no caminho de nossa salvação tem em si a marca de infinita majestade, sabedoria e bondade: no fato de que homens pecadores, homens fracos, são feitos subservientes naquela grande obra de trazer as almas ao encontro com Cristo; que, pela “loucura da pregação” (ou o que assim parece segundo a sabedoria carnal), os escolhidos de Deus são chamados, vêm a Jesus e são feitos sábios para a salvação; e que a vida, que lhes é transmitida pela palavra da vida nas mãos de homens pobres é, pelo mesmo meio, preservada e promovida.11

O Grande Cabeça da igreja ordenou três grandes repositórios de sua verdade. Nas Escrituras, ele a preservou por sua providência contra todos os ataques hostis. No coração dos cristãos, ele a manteve pela energia onipotente de seu Espírito Santo — mesmo em momentos de grande apostasia generalizada entre os seres humanos.12 E, no ministério cristão, ele

7 Atos 6.1-6; 14.23; 20.28.

8 2 Timóteo 2.2; Tito 1.5.

9 Mateus 28.20.

10 João Calvino, A instituição da religião cristã, tomo II, livros III e IV (São Paulo: Editora UNESP, 2009). Compare com Robert Leighton, Exposition of Isaiah 6.8. Works, Vol. ii. 406, 407, edição de Jerment.

11 Comentário de Robert Leighton sobre 1 Pedro 5.2.

12 Compare 1 Reis 19.18 com Romanos 11.4-5.

depositou “este tesouro em vasos de barro”13 para a edificação e enriquecimento da igreja nas eras sucessivas.

Esse ofício sagrado é administrado por agentes divinamente convocados por meio de uma autoridade legítima14 e confiados com a bênção mais responsável e enriquecedora,15 prestando o mais alto e honrado serviço possível aos seus semelhantes, porque isso está mais intimamente ligado à glória do salvador. Na visão abrangente dada do ofício,16 a grandeza de sua introdução é mostrada como tendo sido prefigurada pela descida e ascensão gloriosa de Jeová sobre o Monte Sinai.17 Esse dom inestimável para a igreja, em sua concessão e instituição originais, pertence à obra mediadora do Filho de Deus, como aquilo que foi comprado pela sua humilhação e o resultado imediato de sua investidura com glória.18 A alta preeminência desse dom, bem como a eficiência de suas operações, é demonstrada em sua variedade distributiva de ofícios.19 Os privilégios comunicados à igreja por sua instrumentalidade são a união com o seu glorioso Cabeça e a comunhão uns com os outros de seus vários membros, em suas relações diversificadas e dependências mútuas. Assim, o corpo caminha em direção “à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo”.20 Cada membro contribui para o estabelecimento do sistema. Resiste-se com força à grande instabilidade da profissão de fé, que está ligada a tantos erros doutrinários e práticos. O espírito partidário se desvanece na atmosfera de amor.21 Todo o corpo, crescendo “em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”, é enriquecido pela mútua transmissão dos dons distribuídos separadamente aos membros, cada um dos quais prontamente se esquece de sua

13 2 Coríntios 4.7.

14 Gálatas 1.1; Atos 13.2-3.

15 1 Timóteo 1.11.

16 Efésios 4.7-16.

17 Compare Salmos 68.7-18 com Efésios 4.8-10.

18 Efésios 4.8-10.

19 Efésios 4.11-12.

20 Efésios 4.12-13.

21 Efésios 4.14.

própria individualidade em atenciosa consideração pelo interesse geral.22 Quão decisiva é a marca que toda essa visão do ministério cristão faz à sua origem divina! E certamente não é fácil conceber um instrumento mais bem adaptado aos grandes propósitos aos quais se destinava a servir: a formação e edificação da igreja e a regeneração do mundo. Suponha que ele esteja em plena e eficaz operação — quão admiravelmente foi concebido para tornar a igreja a bênção mais importante para o mundo! Que grande e abundante meio de derramar a luz e a vida do evangelho sobre um mundo obscuro! Que vasto e valioso corpo de influência moral ele espalharia por toda a sua esfera amplamente expandida! Como seu controle sábio e bondoso da “loucura do povo” imporia um freio até mesmo sobre as convulsões políticas da terra! E que fluxo ilimitado de bênçãos nacionais, sociais e individuais seria comunicado aos nossos e a todas as terras por meio desse canal designado por Deus!

Podemos observar, nesse grande sistema de agência, a ilustração da unidade da vontade e propósitos divinos na administração da igreja. Esse santo ofício originou-se de cada uma das santíssimas pessoas da Trindade: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação”.23 No entanto, foi também, como vimos, o dom de seu Filho exaltado — prometido por ele à igreja antes de sua partida da terra,24 comunicado como o primeiro ato de seu glorioso poder em “encher todas as coisas”25 e selado em todas as instâncias por sua comissão conjunta.26 Ao mesmo tempo, esse ofício é enfaticamente chamado de “ministério do Espírito”.27 É por sua autoridade que os trabalhadores são convocados para a obra28, sua orientação é o que os guia e os direciona29 e é seu agir sobre eles que fornece o suprimento

22 Efésios 4.15-16.

23 2 Coríntios 5.18.

24 Mateus 27.19-20.

25 Compare Salmo 68.18 com Efésios 4.10-11.

26 Gálatas 1.1.

27 2 Coríntios 3.8.

28 Atos 13.2.

29 Atos 16.6-7.

necessário de dons e graças.30 Assim, as instituições do evangelho exibem suas doutrinas mais profundas e misteriosas.31 As três pessoas da Trindade Santíssima são glorificadas de formas diversas e distintas. O ministério diz respeito e depende de cada uma delas e deve prestar honra e serviço igualmente a cada uma delas. Rastreando, portanto, esse sagrado ofício até o escabelo do trono eterno, com que prontidão de alma devemos nos comprometer com suas obrigações solenes! “Meus olhos”, diz o profeta evangélico, “viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” Sua resposta à voz sagrada foi “eis-me aqui, envia-me a mim”.32

Não devemos nos admirar de ver “o mais importante dos apóstolos” incapaz de expressar seu senso avassalador de responsabilidade — “Quem, porém, é suficiente para estas coisas?”33 Quem, seja homem ou anjo, “é suficiente” para abrir “a sabedoria de Deus em mistério”, falar o que em toda a sua extensão é “indizível”, tornar conhecido o que “excede todo entendimento”, suportar o temível peso e responsabilidade do cuidado das almas? Quem possui habilidade e força proporcionais? Quem tem mente e temperamento para dirigir e sustentar uma obra tão vasta? Se nosso grande mestre não tivesse, ele mesmo, respondido a essas perguntas terríveis com sua promessa — “a minha graça te basta”34 —, e se a experiência da fé não provasse de forma demonstrável que “a nossa suficiência vem de Deus”,35 quem, com uma clara compreensão de suas responsabilidades, poderia entrar em um serviço tão temível, ou, uma vez dentro, permanecer nele?

Mas quão solene é a sanção, infinitamente acima de toda e qualquer autoridade humana, estampada e gravada no ofício sagrado! E quão tremenda é a culpa de rejeitar sua comissão! “Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou”.36

30 1 Coríntios 12.7-11.

31 1 Coríntios 12.4-6.

32 Isaías 6.5-8.

33 2 Coríntios 2.16.

34 2 Coríntios 12.9.

35 2 Coríntios 3.5.

36 Lucas 10.16.

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