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Revista Conteúdo PSI — 3ª edição

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Revista

CONTEÚDO PSI ÓRGÃO OFICIAL CONTEÚDO PSI VOLUME II, N.1, 2020


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CONTEÚDO PSI ÓRGÃO OFICIAL CONTEÚDO PSI VOLUME II, N.1, 2020

ISSN: 2596-2825


REVISTA CONTEÚDO PSI, VOLUME II, N.1, 2020

REVISTA CONTEÚDO PSI ÓRGÃO OFICIAL CONTEÚDO PSI VOLUME II, N.1, 2020, ISSN 2596-2825

EDITORES

Thais Blucher Jonatas Eliakim Sabrina Inserra PRODUÇÃO EDITORIAL

Juliana Leuenroth Luana Negraes REVISÃO

Andréa Stahel IMAGENS

Aline Anguely CAPA, PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO

Guilherme Fagundes IMAGEM DA CAPA

© 2018 Artists Rights Society (ARS), New York / VG Bild-Kunst, BonnImage actions El Lissitzky (Lazar Markovich Lissitzky) (1890-1941). Proun, 1920.

Revista Conteúdo PSI ÓRGÃO OFICIAL CONTEÚDO PSI Volume 2, n. 1 – 2020 Semestral ISSN 2596-2825

COPYRIGHT © Revista Conteúdo PSI

ENDEREÇO

Rua Pedroso Alvarenga 1245 4º andar São Paulo, SP CEP: 04531-934 Telefone: (11) 3078 - 5366


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Revista Conteúdo PSI

Sumário

5 editorial Jonatas Eliakim

10 quadrinhos 1 Tatiana Gomes

11 conteúdo psi 15 isolamento: para você,

qual é a pior parte? Marion Minerbo

21 cartas para lembrar Angélica Monção

25 precisamos ouvir as puérperas em tempos de coronavírus Isabel Tatit | Claudia Ruiz D. Simionato

35 quadrinhos 2 Tatiana Gomes 37 o trauma branco e seus destinos Marion Minerbo e o analista (não) está só: a clínica psicanalítica, a solidão e as companhias fantasmáticas Wilson Franco

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61 indicação As formas do recordar Daniel Schor

71 LIVROS


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Editorial

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EDITORIAL


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“... et qui auraient pu se confondre avec elle aux yeux d’un observateur qui ne voit les choses que du dehors, c’est-à-dire qui ne voit rien...” 1

Estamos vivendo um momento diferente. Diante dele, muito daquilo que tínhamos como certeza é questionado, e boa parte dos planos estabelecidos para o futuro foi modificada ou suspensa. Isso causa uma série de consequências que necessitam de atenção especial. Aliás, palavras como diferente, estranho, especial, novo/inovador, adaptado, irregular etc. são, agora, palavras de ordem. Além delas, também estão muito presentes em todos os discursos e falas ao nosso redor as palavras isolamento, quarentena, pandemia, vírus etc. E isso tem acontecido porque o mundo está mudando, o momento em que vivemos está marcado por uma radical alteração da rotina, que mexe na estrutura social, que para muitos significava segurança. É por causa dessa importante alteração na nossa vida que nós do Conteúdo PSI decidimos abrir a plataforma de forma gratuita por algum tempo, garantindo que todos aqueles que precisem do acesso aos conteúdos que veiculamos tenham assegurado o seu acesso. Desse

1

“... e quem poderia ter se confundido com isso aos olhos de um observador que vê as coisas apenas de fora, ou seja, que não vê nada...”. Proust, M. (1919). Du côté de chez Swann. In M. Proust, À la recherche du temps perdu (Vol. 2, p. 233). Paris: Gallimard.


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modo, convoco você, que já é assinante, a falar sobre a nossa biblioteca com seus colegas e a formar grupos de apoio e de leitura, fortalecendo os nossos laços por meio desta. Ainda como uma ação que reconhece a relevância de refletir sobre essa nova configuração do mundo, das nossas relações com o espaço, com o tempo e com os outros, esta edição da Revista Conteúdo PSI traz uma proposta inovadora. Os textos que compõem este trabalho, em muitos sentidos, quebram com a estrutura canônica do artigo científico e/ou ensaístico. O primeiro texto desta revista é uma tirinha da psicanalista e colagista Tatiana Gomes, a @Tatithoughts, em que a autora estabelece uma reflexão bastante pontual e sofisticada sobre isolamento, percepção e desejo. Na sequência, a psicanalista Marion Minerbo, no diálogo Isolamento: para você, qual é a pior parte?, nos brinda com uma sensível reflexão acerca da rotina e da certeza, levando-nos a observar a importância desses conceitos em nossa vida psíquica. Seguimos com duas cartas escritas pela psicóloga fenomenóloga Angélica Monção, nas quais, em uma espécie de fluxo de pensamento poético, a autora trabalha a relação entre humanidade, sociedade e natureza em um primeiro momento, e, em um segundo, nos traz o paradigma da gestação retrabalhado. O texto que segue as cartas também trata da questão da gestação, um paradigma bastante interessante para compreendermos o momento em que vivemos. É um trabalho das psicanalistas Isabel Tatit e Claudia Ruiz D. Simionato intitulado Precisamos ouvir as puérperas em tempos de coronavírus, em que, para além da gestação, as autoras tratam do puerpério, da quarentena, do resguardo, fazendo uma associação entre esses conceitos e o momento atual e suas urgências. Então, voltamos ao trabalho de Tatiana Gomes, que traz outra reflexão sobre as pressões e urgências do momento de pandemia e isolamento. Na sequência, Marion Minerbo retorna também com o diálogo O trauma branco e seus destinos, em que podemos refletir por outro ângulo sobre a violência que temos vivido e como esse momento vai influenciar quem somos.


Editorial

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Por fim, fechamos com um artigo do psicanalista Wilson Franco, de título ... e o analista (não) está só: a clínica psicanalítica, a solidão e as companhias fantasmáticas, em que o autor reflete, em uma polifonia com diversos textos e autores, sobre a solidão, ou não, do analista. Espero que esta seja uma leitura interessante, leve e inspiradora!

São Paulo, 26 de maio de 2020. Jonatas Eliakim


Tatiana Gomes é autora das tirinhas Tatithoughts. Formou-se em psicologia, é psicanalista e colagista. Segue criando suas tiras, as quais publica no Instagram @Tatithoughts, e procura, a partir delas, falar com humor sobre diversos assuntos que tocam nosso cotidiano e nossas experiências subjetivas.


Conteúdo psi

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CONTEÚDO PSI


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O QUE É? O Conteúdo PSI é uma biblioteca digital criada pela editora Blucher e a Teth Serviços com o objetivo de difundir informações na área da psicanálise, disponibilizando livros, resumos, artigos e trabalhos em formato digital e fornecendo um desconto de até 50% na compra de livros e revistas impressos para os associados por meio de um acordo com editoras renomadas na área. A plataforma funciona com um sistema de assinatura, em que o assinante escolhe um plano ao qual mais se adeque e, depois de passar pelo processo de cadastro, terá acesso a textos digitais e desconto na compra de livros das editoras parceiras. Temos planos disponíveis para estudantes, professores e profissionais e sociedades; os três possuem acesso contínuo a todos os textos da plataforma em formato digital e cada um dos grupos tem vantagens específicas. O acesso aos livros é liberado após a conclusão da assinatura – que deve ser feita com um cartão de crédito –, que pode ser cancelada a qualquer momento. Após tudo concluído, o membro receberá acesso ao catálogo com conteúdo exclusivo de psicanálise em alta qualidade. A biblioteca digital poderá ser acessada por computador, tablet ou celular (por meio de aplicativo) ou diretamente do site da VitalSource.


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Conteúdo psi

A S S I N AT U R A S BIBLIOTECA DIGITAL

Os assinantes da biblioteca recebem acesso a todos os livros da base em formato digital. vantagens

Leitura em desktop, notebook e aplicativo Acesso a todos os livros da base Busca e pesquisa de termos Desconto de até 50% em compras de livros impressos do catálogo

A biblioteca conta com os catálogos de psicologia e psicanálise das editoras Autêntica, Dublinense, Gutemberg, Vestígio e Nemo.


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Isolamento: para você, qual é a pior parte?

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ISOLAMENTO: PARA VOCÊ, QUAL É A PIOR PARTE? Marion Minerbo1

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Psicanalista, membro efetivo e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Doutora pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é autora de Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher, 2016), Neurose e não neurose (Blucher, 2019) e Transferência e contratransferência (Blucher, 2020) e de dezenas de artigos publicados em revistas nacionais e internacionais. Em 2015, recebeu o prêmio Durval Marcondes no XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise.


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AnaLisa – Olá, Marion! Que loucura tudo isso que está acontecendo, né? E esse isolamento sem fim?! Aqui vamos indo. Está bem difícil para todos, mas minha irmã mais nova, que tem 15 anos, está subindo pelas paredes. Tivemos uma conversa interessante sobre qual a pior parte para cada uma de nós. Achei estranho o que um amigo dela disse. Que, para ele, a pior coisa era não poder ir comprar pão no fim do dia, como sempre fez. Para evitar aglomerações, a padaria fechou. Parece uma perda um tanto banal, no meio de tantas outras tão mais sérias. Marion – Não sabia que você tinha uma irmã adolescente. Aqui também não está fácil. Mas me conte um pouco de como está sendo para vocês. AnaLisa – Meu pai ficou desempregado. Está difícil conviver o tempo todo com a família neste apartamentinho. Tem horas bacanas, a gente vê TV juntos, joga cartas. Mas tem horas em que ele afunda. Isso é novo para nós, pois ele sempre foi tão seguro, tão paizão. Minha mãe tenta segurar a barra, a gente cozinha com ela, conversa. Mas dá para ver que está superangustiada com o futuro. E minha irmã se enfia no quarto e quase não sai. A mãe da melhor amiga dela morreu de corona. Ela me disse que para ela a pior parte é estar presa entre quatro paredes. Não poder nem dar um abraço na amiga que está de luto! Para ela é vital encontrar os amigos, jogar conversa fora, rir e relaxar.


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Marion – Os amigos são mesmo fundamentais para todos nós. E talvez mais ainda quando se é adolescente. Uma parte do trabalho psíquico da adolescência é conseguir “perder” os pais da infância e “sair” de casa, mesmo que continuem morando com os pais. Para isso, precisam ser “recebidos” pelo mundo, que nesse momento é o grupo de amigos. Então ela não sofre só porque está presa. Sofre porque o isolamento prejudica esse processo psíquico, que tem que se dar concretamente, no mundo. AnaLisa – As redes sociais ajudam – ela vive grudada no celular. Faz muitos encontros por Zoom com os amigos; eles jogam, cantam, tocam música. Mas não é a mesma coisa. Mas, como eu te disse, queria entender aquele amigo dela. Ele é um cara diferente, meio poeta, sabe falar de sentimentos. Mas daí a sofrer porque não pode ir à padaria... Marion – Muito sensível a observação dele. Faz sentido, se a gente pensar em qual é a importância da rotina para nossa vida psíquica. Olha, tem coisas que a gente faz de vez em quando, tipo uma viagem. É legal, quebra a rotina. Mas a nossa vida, nosso cotidiano, é feito de rotina. São aquelas pequenas coisas que nos dão segurança justamente porque se repetem, estão sempre lá, contamos com elas. Em psicanalês a gente diria que a rotina é composta de vários pequenos “enquadres” que organizam nossa vida – e também nossa vida psíquica. Tipo: sair de casa a tal hora e ir para a escola ou para o trabalho, encontrar as mesmas pessoas, ter uma atividade produtiva, praticar um esporte etc. AnaLisa – Eu achava que rotina era sinônimo de chatice. Mas entendo o que você está dizendo. O enquadre funciona como um chão mais ou menos firme sobre o qual podemos caminhar sem pensar muito. Marion – Exatamente! Ninguém dá um passo pensando “será que meu próximo passo vai ser no chão ou no vazio?”. Mas é isso que está acontecendo com o planeta neste momento: perdemos o chão! Nosso próximo passo é no vazio! AnaLisa – E isso dá uma angústia enorme. A gente só descobre como a rotina é importante quando ela some de repente.


Isolamento: para você, qual é a pior parte?

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Marion – Quando a gente sabe o que vem pela frente, consegue se preparar para enfrentar o que vem, e isso nos tranquiliza. É fácil ver isso com os bebês. Como eles se desorganizam psiquicamente quando perdem sua rotininha. Essas pequenas atividades do dia a dia, nas quais nem prestamos muita atenção, dão ao Eu o sentimento de continuidade no tempo e no espaço. Parece que, para seu amigo, ir até a padaria todos os dias tinha essa função. Ele se sentia segurado/amparado por esse “ritual”. Não era só o ato concreto de comprar pão. Tinha também valor simbólico. Talvez algo como: fim das obrigações do dia, começo daquilo que faz a vida valer a pena. AnaLisa – Que interessante! Nunca tinha pensado nisso. E o amigo da minha irmã disse que, quando vai chegando a hora em que ele ia à padaria, vai dando um buraco no peito, uma sensação de que está solto no espaço, quase um pânico. Claro, agora eu entendo: é como se ele desse um passo no vazio. Por isso para ele essa é a pior parte! Marion – Belíssima descrição do que é a angústia. AnaLisa – E para você, qual é a pior parte? Marion – A incerteza sobre o que virá. Ter que continuar caminhando sabendo que não há mais um chão firme sobre o qual pisar. Ser obrigada a reconhecer que as supostas certezas que eu tinha não passavam de ilusão. AnaLisa – Muito louco tudo isso!


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Cartas para lembrar

CARTAS PARA LEMBRAR Angélica Monção1

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Psicóloga clínica, fenomenóloga e humana em demasia.


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São Paulo, 6 de abril de 2020

Reflexão tem sido a palavra-chave nesses tempos. Tempos de morte que chegaram a cavalo com a covid-19. E não apenas a morte física, que já são milhares, mas a morte de tudo que a humanidade insistia em considerar viável para nossa existência. A morte da cultura social como a conhecíamos foi a primeira. O isolamento de bilhões de pessoas na tentativa da quebra do contágio, isto é, o ser humano encarando sua existência em massa como nunca foi registrado na história. Líderes mundiais de joelhos diante de um ser acelular; a economia, tal qual a conhecemos, derretendo; o dinheiro perdendo o seu ideal valor; a miséria humana não é a morte, é a ganância. E a fome pode se tornar uma espécie de vírus também. O silêncio é fúnebre, as ruas estão desertas, porém cheias de desacreditados. Em um tempo em que a ciência foi tão descreditada, hoje torna-se nossa esperança. O mundo nunca mais será o mesmo. O tempo nunca será mais o mesmo. Já a terra grita e se mobiliza para recuperar o punhado de vida que arrancamos dela. O céu nunca esteve tão azul. As estrelas voltaram a estar presentes. A noite é cercada de silêncio e medo, que ainda não se revelou para maioria, mas é apenas uma questão de tempo. E nós nunca estivemos com a cabeça tão focada no presente. A vida já pareceu tão importante?


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É sempre assim: o capitalismo estremece e a humanidade ressurge, tímida. Assim, percebemos, pouco a pouco, que a nossa megalomania de acreditar que há algum controle sobre a vida vem ao chão. Nunca tivemos o controle de nada. Dar vazão ao tempo talvez seja a única forma de curar nossa existência, que se encontra doente. E, dentro da nossa angústia existencial, tomara que entendamos que fazemos parte da Terra, não ela de nós, e que, se lutarmos contra essa lógica, talvez não reste nada além de tristeza e solidão. São Paulo, 10 de maio de 2020

É possível que eu renasça, mas, por agora, estou sendo gestada. Daqui, do escuro do ventre da vida, escuto ruídos que lembram a batida de outro coração, recordo-me que não estou sozinha, contudo esse espaço ainda não deixa de ser escuro e apertado. Meu corpo toma formas diferentes, sente incômodos intensos, a dor parece mais forte. A morte é uma face próxima a mim. Aliás, foram muitas mortes essa semana. Ninguém vela seus corpos, ninguém chora suas saudades. Somos reféns das nossas vaidades. Estar certo é o mais novo tutorial de maquiagem – da necro­ maquiagem. Estou sendo gestada nos pensamentos e prazeres, descubro um novo desses todos os dias e rememoro aqueles que um dia deixei para trás. Sou Ser preso à terra pelo cordão do sonhar. Estou sendo gestada, tenho apenas dois meses.


Precisamos ouvir as puérperas em tempos de coronavírus

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PRECISAMOS OUVIR AS PUÉRPERAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS Isabel Tatit1 Claudia Ruiz D. Simionato2

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Psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atende em consultório particular desde 2009.

2

Psicanalista com bacharelado e licenciatura em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP, 2000-2004) e especialização no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), Departamento de Psicologia Clínica (2007-2009), em Teoria, Técnica e Estratégias Especiais em Psicanálise. Atua em consultório particular como psicanalista desde 2013.


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As teorias sobre solidão partem da diferença entre solitude (simplesmente o fato de estar só) e o sentimento de solidão (sofrimento subjetivo). O desamparo da solidão é expressão da dificuldade de lidar com a falta de outros, mas também da dificuldade nos descompassos nas relações em geral. Já a solitude diz respeito à possibilidade de cada um se separar dos grupos, dos ideais, da ideia de complementaridade e, então, inventar uma forma singular de estar no mundo... inevitavelmente, com os outros. Nesse sentido, podemos falar também em uma solidão estrutural, comum a todos nós. Trata-se do vazio constitutivo que viabiliza a margem de singularidade que nos cabe. Em tempos de quarentena, estamos mesmo isolados, como costumam dizer? As definições de solitude, solidão, autoisolamento, segregação e quarentena foram atualizadas. Mais além da solitude e da solidão (estrutural ou subjetivada como sofrimento), podemos diferenciar autoisolamento de segregação. Essa quarentena nos parece uma mistura de ambos: se antes apenas a solidão era característica comum da estrutura do sujeito, agora isolamento e segregação passaram a ser destino comum de (quase) todos nós. Falamos em segregação quando um agente externo exclui. Um vírus pode ser o agente externo que exige que fiquemos em casa, segregando-nos do espaço público e lançando-nos numa convivência doméstica intensa. De fato, na maioria das vezes, estamos confinados no ambiente familiar. Mas estamos também autoisolados, no sentido


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de que escolhemos nos proteger. O cuidar de si e o cuidar dos outros nunca estiveram tão próximos. Assim, segregação e autoisolamento também se aproximam por uma questão ética. O ser humano é gregário por excelência, ainda que sempre em conflito com suas relações. Não somos autossuficientes, precisamos nos abastecer com coisas do mundo, portanto segregação e isolamento são quase sempre parciais. Nesse sentido, ainda que lavemos as mãos obsessivamente, usemos máscaras, desinfetemos todas as compras, troquemos de roupa ao chegar em casa, deixemos os sapatos para fora, tiremos os tapetes e espirremos cloro em tudo, não existe garantia de risco zero de contaminação. E quando as quarentenas se juntam?

Esse cenário nos fez retomar a temática do puerpério em suas dimensões subjetivas e sociais. É muito comum quando se ganha um bebê escutar a menção ao provérbio africano de que “é preciso toda uma aldeia para cuidar de uma criança”. Se, em condições ditas normais, esse adágio já circula não à toa, imagine em uma situação de isolamento pela chegada de um bebê somada à quarentena para evitar a disseminação do novo coronavírus? Muitas são as mães que estão passando por isso agora: algumas com bebês recém-nascidos, outras com bebês de alguns meses, que ensaiavam poder começar a sair da quarentena (que também não dura só quarenta dias), ou até com bebês maiores, porque esse tempo do “voltar a circular” – o que é que volta a circular? – não é um tempo apenas cronológico. Demora um tanto, em muitos casos, para uma mãe se sentir confortável para circular com seu bebê. Essa demora é justificada pelos discursos dos pediatras e das avós e pelo calendário das vacinas, claro, mas também restam as questões sempre presentes: “mas já vamos sair desse ambiente protegido?”; “quanto sou capaz de proteger esse bebê?”; “como garantir que nada aconteça a ele?” – questões perfeitamente simultâneas com o desejo por essa saída. E estas também são perguntas que assolam muitos agora: como e quando voltaremos a nos sentir protegidos e, portanto, autorizados a circular? Quantos esse vírus pode


Precisamos ouvir as puérperas em tempos de coronavírus

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contaminar? E aí é o ponto com que, inevitavelmente, todos, mães, não mães e não toda-mães, precisam lidar: embora desejemos, não podemos circular. A impossibilidade é um tema recorrente no período do puerpério. Durante a gestação, algum isolamento já se anuncia: embora cada gestação seja uma, é comum que a mulher sinta cansaço, sono, desconfortos físicos que já a impossibilitem de seguir sua rotina como era antes. Além disso, a suposta futura mudança de papel – por exemplo, de uma mulher que era “só” amiga, de uma que era “só” tia, de uma que era “só” companheira, entre outros casos, para uma que agora é também mãe – já pode trazer abalos em vínculos, que farão com que a gestante precise se localizar na nova cena, ainda em construção. Essas mudanças de papéis que a mulher desde logo precisa elaborar durante a gestação – enquanto, ao mesmo tempo, seu corpo está a mil –, de alguma forma, fazem o tema da solidão/ isolamento aí se anunciar. Depois, com a chegada do bebê, muito do que acontece, ao contrário do que se propaga socialmente, é um desencontro. “A” mãe é idealizada e predicada de antemão como aquela que vai cuidar, nutrir, amparar aquele bebê, não importa o que (lhe) aconteça – e muitas vezes essas ações vêm condensadas em um verbo só: o verbo “amar”. O “só”, do sentir-se sozinha com um bebê, pode ir dando lugar a um somente: “só eu não sou capaz” –, o que funda o grupo mítico das “capazes”. Soma-se a isso um esvaziamento narcísico, que pode ser vivido com bastante sofrimento, mais acentuado ainda se era esperada uma “plenitude” com o encontro com o bebê (a ponto de algumas mulheres fazerem desse sofrimento um lugar permanente), que, de fato, é muito sofrido quando todo-o-cuidado de um bebê fica sob única responsabilidade de uma pessoa, pressuposta – algumas topam esse lugar, outras não – como aquela que vai ser “toda-mãe”. Cuidar de um bebê é algo muito intenso para apenas um(a) se responsabilizar. É um engano achar também que, quando uma mãe cuida de um bebê, ao fazê-lo, ela já esteja cuidando de si. “Serei tão só e somente eu aquela a ser suficiente?” Não é possível estar só no cuidado de um bebê. O campo do possível pode ser lido


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como restrição ou campo das possibilidades. Ao entrar em contato com o outro, com outras mães, com outros que se pré-ocupem e se ocupem desse cuidado também do bebê, pode-se passar de “só eu não consigo” para “só, eu não consigo”. E, aqui, talvez o provérbio de que é preciso toda uma aldeia para criar uma criança possa ser lido como: é preciso solidariedade no cuidar. Uma solidariedade que torne possível fraturar a ideia de cuidado onipotente, sem faltas e, portanto, sempre insuficiente. Cuidar do outro, como está também escancarado nessa quarentena, não pode ser desvinculado de um cuidar de si. Não sem o outro. O autoisolamento domiciliar, esse tempo suspenso sem dia para acabar, o imperativo “fique em casa”, a necessidade de se resguardar para resguardar um ser mais frágil são assuntos conhecidos das mães. A quarentena provocada pelo novo coronavírus recupera a sensação do pós-parto, ou até da gravidez, de uma vida paralela, na qual as lógicas do trabalho, do dinheiro, do espaço e do tempo caem por terra. É um momento em que precisamos muito dos outros, mas estamos recolhidos, circulando menos. Questões de sobrevivência ganham prioridade, e a saúde mental fica em segundo plano, mas logo é reconsiderada, pois começamos a surtar, explodir, exaurirnos, adoecer... Se há uma diferença importante entre a quarentena provocada pelo vírus e o puerpério é que, no primeiro caso, a quarentena é de todos. Talvez aquele sentimento de “estou aqui sozinha, parada, enquanto o mundo ferve lá fora” não se apresente. O mundo também parou. Mas ainda não sabemos. Precisamos ouvir as puérperas em tempos de coronavírus. No Dicionário Houaiss, puerpério é o período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação. No dia a dia, esse período também é chamado de resguardo ou quarentena. Etimologicamente, a palavra diz respeito ao parto, às dores do parto. Não é preciso ser mãe para desconfiar que é errado imaginar que algo volte “às condições anteriores à gestação”, muito menos num tempo tão limitado, e que isso vale para todas as mulheres. E esse saber materno nos inspira para


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a reabertura pós-coronavírus. Muita coisa vai mudar, não adianta esperarmos ansiosamente pelo “retorno do funcionamento normal das coisas”. Não deveríamos, também, tomar a quarentena como pura perda de tempo ou parada do tempo. “Quando tudo acabar”, a pergunta “o que fiz de minha quarentena?” irá retornar. Assim, como o puerpério não pode ser circunscrito à experiência do parto, tampouco aos quarenta dias pós-parto, quais serão os efeitos subjetivos após a quarentena viral? Como mães, sabemos que o sofrimento não se encerra com o fim da reclusão. O processo de subjetivação da maternidade ou, ainda, os tropeços e as invenções singulares de cada mãe na relação com seu filho acontecem enquanto a mulher está totalmente absorvida pelas demandas concretas e imperativas do recém-nascido. O tempo do chamado puerpério é um eterno presente. É comum os adultos que cuidam do bebê terem dificuldade para fazer planos. Quem dita o tempo é um ser ainda não ritmado pela cultura, em seu corpo mal está impresso o que é dia, o que é noite. Atravessamos nosso primeiro mês da quarentena viral. Ouvimos de muitos e experimentamos uma vida de eternos domingos. Não porque trabalhamos pouco, mas porque às vezes estamos de pijama o dia todo, num ritmo diferente, outras vezes, estamos com os horários mais flexíveis e, principalmente, em casa, com a nossa família. As demandas das novas logísticas (escola virtual, crianças em casa, home office, serviços domésticos) também atropelaram o trabalho subjetivo relativo ao acontecimento da pandemia. Quanto tempo demora para se elaborar essa fissura em nossa ilusão de segurança da saúde física? Como lidar com os medos de ser contagiado, de morrer, de perder familiares, como lidar com notícias como “morrem a cada dia mais de mil pessoas em algum país”? No puerpério, as antecipações da vida cotidiana, típicas da neurose, podem abrandar. Muitos pais abrem mão, de fato, de ficar criando expectativas ou frustram-se menos quando o esperado não ocorre. Não adianta prometer que vai à festa sem antes saber como será a noite com o bebê. Diversos ideais antes sustentados pelos pais são atropelados pelo presente, carregado dos limites do que é possível para aqueles adultos e


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para aquele bebê naquela determinada circunstância. A contingência, portanto, ganha importância: “eu queria que fosse parto normal, mas o bebê começou a entrar em sofrimento, fazer o quê?”. Com maior ou menor sofrimento psíquico, a depender do grau de apego aos ideais anteriores, a parentalidade impõe o tempo presente, o status de contingência e os limites do possível. Embora cuidar de um filho seja, entre outras coisas, criar alguém para o futuro, tornar-se mãe ou pai de um recém-nascido puxa a experiência para a concretude das tarefas diárias ligadas à sobrevivência física. Embora saibamos que tal sobrevivência diz respeito ao investimento libidinal dos pais, não podemos ignorar o quanto isso envolve uma dimensão bem pragmática: ir ao supermercado e à farmácia, dar banho, trocar fralda, amamentar, fazer dormir, limpar a casa. Um recém-nascido produz uma demanda enorme de tarefas que muitas vezes impede ou prejudica a elaboração, a abstração, a construção e a reflexão pelos pais do acontecimento do nascimento do filho. O bordão temporal dos Alcoólicos Anônimos parece servir bem aos contextos da puérpera e dos isolados da quarentena viral: um dia de cada vez. Viver o presente já é difícil o suficiente. O bordão da quarentena atual passa pelo “saia somente para o essencial: mercado, farmácia e hospital”. A vida dos pais recentes não escapa muito disso. O maior sinal de que as demandas sufocantes do presente exaurem os pais é que o mantra do “puerpério” é “calma, vai passar”. Esse mantra se faz necessário numa tentativa (desesperada) de incutir um (belo) futuro num momento em que (quase) só há presente. É como se, ao dizerem a si mesmas “vai passar”, as mães pudessem se distanciar um pouco desse presente tão maçante e pular para um período melhor no futuro. É, por certo, uma forma de negação desse presente, uma defesa diante dos árduos trabalhos psíquico e braçal envolvidos no cuidado com o bebê. Trata-se de um recurso discursivo para a mãe tomar fôlego, como quem precisa dar um último gás para terminar uma corrida. Só que, na melhor das hipóteses, embora a corrida siga novos trajetos, ela não termina, ao menos por uns bons anos. A escuta clínica nos faz concluir que não há, necessariamente, superação, estabilidade e harmonia como consequência imediata


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do acontecimento “chegada do filho”. Muitas vezes há desencontro. Desencontro com um Outro consistente e suas significações já prontas. É recorrente ouvir de mulheres que não imaginavam como seria o sono ou o enjoo na gravidez: “Foi completamente diferente, eu vomitava, mas não era bem enjoo, eu ficava deitada, mas não era bem sono”. A maternidade é uma experiência radical de diferença, incompreensão e limite da linguagem. O repertório construído diversas vezes não dá conta do que acontece no corpo e no psiquismo. E não é que “vai passar” tem se tornado também um mantra em tempos de coronavírus? Estamos diante, novamente, da tentativa de desacontecimentalização do momento que vivemos? Ou se trata da estratégia de sobrevivência psíquica possível, diante do tormento de não saber quanto tempo essa suspensão vai durar? A proliferação das lives (vídeos ao vivo) na quarentena soam como essa convocação excessiva do tempo presente: assista agora, viva o presente comigo agora, ouça o que tenho para dizer agora... As lives têm se apresentado como as demandas incessantes e infinitas do bebê recém-nascido, que convoca o tempo todo nossa assistência, ora para seguir vivo, ora porque a linguagem está em pleno processo de marcar o ritmo, as pausas, a distância entre o apelo e a resposta, entre o eu e o outro. Que bom que, no caso das lives, também podemos não assistir, e o outro continuará vivo. Assim esperamos. A exaustão do corpo diante de tantas atividades braçais e a estafa mental produzida pela quantidade de recomendações também unem as duas quarentenas. Lavar as mãos e os produtos do supermercado, passar cloro nos sapatos, não usar máscara se não tiver sintomas – que logo evoluiu para usar máscara independentemente disso –, todas são tarefas que nos exaurem assim como trocar fraldas, dar banho, fazer comida, fazer dormir, amamentar etc. Trata-se de uma enxurrada de ações num corpo insone, numa subjetividade em transformação profunda e num contexto de suspensão e crise. Tendo como base a experiência do puerpério, entendemos que a quarentena, para além do resguardo do corpo, é o tempo necessário para a reelaboração psíquica diante de um acontecimento que embaralha as referências simbólicas e imaginárias anteriores. Entendemos


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que há uma exigência ética e política relativa ao tempo de compreender uma experiência dessa ordem, seja um vírus que assola o mundo, seja o nascimento de um novo ser. A quarentena atual e sua lógica necessariamente comunitária poderiam também trazer contribuições para pensar a quarentena parental. Todos precisam cuidar de si e dos outros, senão será impossível seguir. Nesse sentido, deveria haver suporte social e cultural que oferecesse a oportunidade de parada na quarentena dos pais e do país.


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Tatiana Gomes é autora das tirinhas Tatithoughts. Formou-se em psicologia, é psicanalista e colagista. Segue criando suas tiras, as quais publica no Instagram @Tatithoughts, e procura, a partir delas, falar com humor sobre diversos assuntos que tocam nosso cotidiano e nossas experiências subjetivas.


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O trauma branco e seus destinos

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O TRAUMA BRANCO E SEUS DESTINOS Marion Minerbo1

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Psicanalista, membro efetivo e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Doutora pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é autora de Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher, 2016), Neurose e não neurose (Blucher, 2019) e Transferência e contratransferência (Blucher, 2020) e de dezenas de artigos publicados em revistas nacionais e internacionais. Em 2015, recebeu o prêmio Durval Marcondes no XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise.


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AnaLisa – Olá, Marion! Queria retomar nossa última conversa sobre o isolamento, pois me ajudou bastante a nomear alguns sentimentos e angústias meio difusos. Falamos que cada um está sofrendo por um motivo diferente, mas andei pensando sobre os efeitos que essa pandemia vai ter sobre a sociedade de forma geral. Um ponto de vista mais coletivo... Marion – Nomear sentimentos e angústias sempre ajuda, né? Você tem toda a razão: a pandemia afeta a sociedade como um todo. Do ponto de vista psicanalítico, esse acontecimento pode ser pensado como um trauma coletivo. Veio sem aviso prévio, encontrou-nos despreparados, tirou nosso chão. AnaLisa – Interessante você ter falado em “trauma”, pois eu costumo pensar nisso como algo pessoal, ou individual. Mas é verdade: nesse caso estamos todos mais ou menos no mesmo barco, mesmo considerando as diferenças imensas em termos de recursos materiais e psíquicos de que as pessoas dispõem. Marion – Exatamente. O mais louco é que se trata de um tipo de violência que não conhecíamos, e por isso é até difícil reconhecê-la como tal. Talvez você se lembre da angústia branca, termo que o psicanalista francês André Green usou para descrever o sofrimento psíquico mudo, invisível e silencioso das patologias do vazio. Analogamente, acho que poderíamos falar desse sofrimento atual como violência branca. Faz sentido para você? AnaLisa – Lembro, sim, do André Green e do conceito de angústia branca. E faz todo o sentido a associação que você fez, já que o próprio coronavírus é invisível e silencioso!


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Marion – E a violência branca é uma violência sem sangue, silenciosa, mas pode matar. O trauma branco arrebenta nossa pele psíquica não só pelos efeitos devastadores em nossas vidas, mas também porque é algo que não faz sentido para nós em pleno século XXI! Não temos repertório para lidar com isso. Quem imaginaria o planeta (quase) inteiro de quarentena? As fronteiras fechadas? AnaLisa – Para mim, a pior parte desse “trauma branco” (achei chique falar assim!) é lidar com a incerteza do futuro. Psiquicamente falando, a sensação é de tentar me equilibrar sobre um chão de areia movediça. Exaustivo! Marion – Sem dúvida! Além dessa incerteza, é brutal termos que conviver diariamente com a angústia da ameaça de uma morte solitária, lenta, por asfixia. Um contato tão direto com nossa vulnerabilidade é mais do que damos conta de metabolizar! AnaLisa – O confinamento físico não era parte da nossa realidade. Era coisa só para criminosos presos em solitárias. Marion – E não temos como combater o “inimigo”, o que pelo menos nos colocaria numa posição menos impotente, mais ativa. Ter de abrir mão da nossa rotina diária também é traumático porque ela nos dá uma sustentação psíquica. Isso sem falar nas consequências da devastação econômica que nos aguarda. AnaLisa – Se aprendi direito com as nossas conversas, o traumático nos obriga a entrar em contato justamente com esse desamparo e com a absoluta falta de garantias com relação ao futuro. E certamente deixa marcas que ficam inscritas em nosso psiquismo... Marion – É por aí mesmo. Os traumas deixam, sim, suas marcas. Pense em uma pessoa que passou por uma guerra. Será que ela consegue voltar a viver “como antes”? Não tanto em relação às atividades cotidianas, mas à experiência subjetiva propriamente. Será que dá para metabolizar o horror ou o que não foi integrado vai continuar a assombrá-la vida afora? AnaLisa – Eu imagino que algumas marcas não desaparecem nunca. A experiência subjetiva de quem já passou fome, por exemplo, será sempre


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diferente daquela de quem nunca sofreu privações desse tipo. Talvez ela olhe para seu prato de comida com a consciência aguda de que ele poderia não estar lá. Talvez viva constantemente com medo de voltar a passar fome. Talvez a imagem de uma criança faminta se imponha entre duas garfadas. Marion – Trazendo para nossa realidade atual de pandemia, será possível recalcar tudo isso e continuar vivendo tranquilamente? Ou viveremos em constante paranoia, evitando aglomerações, vendo sinais de perigo em cada espirro? Ou iremos incorporar períodos de isolamento em nossas rotinas, criando um “novo normal” e nos adaptando a ele? AnaLisa – Daí a gente volta para uma perspectiva mais individual, né, Marion? Pois cada um vai lidar com esse trauma a partir de sua própria história emocional e dos recursos psíquicos disponíveis. Quer dizer: o trauma branco é coletivo, porém seus destinos são singulares. Marion – Perfeito! E é possível que as inscrições do traumático não desapareçam nunca. Talvez a consciência permanente de que tudo é efêmero nos ajude a aproveitar e a sentir gratidão pelo que temos. Talvez, ao contrário, a angústia nos impeça de aproveitar o que temos, enquanto temos. Viveremos dentro de um pesadelo constante? AnaLisa – Talvez. Mas, numa visão mais otimista, podemos pensar que há traumas que cicatrizam. Dizem que o tempo cura tudo... Marion – Talvez seja possível elaborar e integrar a experiência traumática ao longo do tempo. A vida pode, sim, voltar a ser “como antes”. Pode até ficar mais rica, se pudermos incluir em nossos repertórios – psíquico, comportamental, relacional – o que descobrimos durante o período de crise. Podemos voltar a confiar na estabilidade do mundo, usufruindo dessa ilusão necessária para reconstruir nossas vidas. Ou, ainda, a cicatriz pode se abrir a qualquer momento em situações análogas, e a nossa absoluta vulnerabilidade voltará a nos assombrar quando menos esperarmos. AnaLisa – Quem seremos depois de tudo isso? Marion – Quem viver (!) verá!


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... E O ANALISTA (NÃO) ESTÁ SÓ: A CLÍNICA PSICANALÍTICA, A SOLIDÃO E AS COMPANHIAS FANTASMÁTICAS1 Wilson Franco2

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Agradeço a Talita Tavares, Bartholomeu Vieira e Caio Padovan pela leitura de uma versão preliminar deste texto e pelos comentários e sugestões.

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Psicanalista, doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) e professor do Curso de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. É autor dos livros Gente só (Chiado, 2014), Autorização e angústia de influência em Winnicott (Casa do Psicólogo, 2014), Expressões do indizível (Patuá, 2019) e Os lugares da psicanálise na clínica e na cultura (Blucher, 2020). E-mail para contato: wilsondeacfranco@gmail.com


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Introdução

Escrevo este texto em meio às transformações e incertezas deflagradas pela pandemia de covid-19. É um período assustador: em questão de semanas instalou-se a sensação de que vivemos em um mundo novo, irreconhecível, sensação que coabita sofridamente com a percepção paulatina de que o mundo em que vivíamos até então está perdido. Posto que nosso entendimento de “mundo” é amparado basicamente por nossa disposição afetiva para com o meio que habitamos (a noção de “mundo” é bem diferente da noção de “planeta”), parece seguro dizer que nosso mundo efetivamente mudou de forma inexorável – e, assim como o luto de um ente querido envolve a “perda de um mundo” e o lento aprendizado de como viver no “novo mundo” que é este em que a pessoa amada e perdida não vive, estamos às voltas com esse “estranho novo mundo”, em que gestos tão rotineiros quanto um aperto de mão e tão singelos quanto um abraço se perdem da rotina e somem por trás do mar de mensagens de WhatsApp e das lives incontáveis em mídias variadas. Num contexto como esse, faria todo o sentido eu aproveitar essa ocasião para escrever sobre essas transformações, contribuir para que possamos compreendê-las e localizarmo-nos em meio a elas. Mas decidi fazer algo distinto: decidi recuar um pouco em relação às urgências e emergências e tratar de um tema que dialoga, ainda que apenas indiretamente, com isso tudo. Tomei essa decisão por dois motivos: 1)


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fiquei receoso de não contribuir com nada além do que outros colegas e concidadãos têm feito bastante bem, e 2) porque entendo que esse “novo mundo” não é completamente novo, sendo “apenas” uma transformação dramática em relação ao mundo em que vivíamos até pouco tempo atrás; nesse sentido, parece-me útil “lançar pontes” em relação a temas que são transformados, mas permanecem – até porque, no fim das contas, precisaremos de um apoio estético para compreender nossa permanência no mundo que estamos construindo. Pois bem: neste texto pretendo tratar da solidão do analista, tema que, como disse, parece “atravessar” os mundos (já existia naquele em que vivíamos e certamente existe naquele em que ora adentramos). Muito do que tenho a dizer a respeito do tema valeria independentemente das atuais circunstâncias – mas percebo que estas tornam o tema mais premente, uma vez que a maior parte dos analistas tem estado fisicamente só enquanto atende (os pacientes estando em suas respectivas casas, ou carros, ou onde quer que seja); os analistas têm atendido de suas casas (gerando sentimentos confusos e paradoxais a partir dessa estranha experiência); e têm tido de lidar (tanto quanto qualquer outro cidadão) com o isolamento social. O texto compõe dois vetores aparentemente – mas apenas aparentemente – opostos: a primeira parte trata de dimensões importantes da solidão inexorável em que trabalha o analista, e a segunda parte trata de dimensões importantes do trabalho do analista, em que ele jamais estará só. A oposição, como disse, é apenas aparente, e espero que ao final do texto fique claro como elas interagem e se compõem na práxis e no pensamento clínico psicanalíticos. 1. Em que o analista está só

Um leigo, à primeira vista, poderia estranhar a ideia de que o analista enfrenta problemáticas associadas à solidão; afinal, o psicanalista só conduz seu trabalho clínico em encontros com o paciente, seu par analítico – então, à primeira vista, pensar na solidão do analista pareceria tão estranho quanto pensar na solidão do dançarino de forró (que também nunca conduz seu trabalho sozinho).


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Mas essa impressão não procede, porque a solidão do analista é uma questão premente e intensamente vivida: analistas têm de enfrentar a sensação de solidão, e de forma mais pungente e delicada porque se trata justamente de uma solidão contraintuitiva, uma solidão para além da aparência. Poderíamos dizer, arriscando uma fórmula, que o analista está só porque sua presença é pautada por sua condição de analista, que pressupõe a suspensão da pessoalidade daquele que opera como analista enquanto sua práxis clínica assim o exige. O que isso significa, muito basicamente, é que o analista está com outras pessoas o tempo todo, mas ele não está lá enquanto pessoa, e tampouco está em interação com a pessoalidade delas, do ponto de vista de sua presença ali – então o fato de seu trabalho envolver interação com outras pessoas não contribui para que ele conviva, enquanto pessoa, com outras pessoas. O ponto crucial, aqui, é a diferença entre subjetividade e pessoalidade: a pessoalidade pressupõe a incorporação e a habitação de nossa identidade imaginária e socialmente construída e negociada, a dimensão de nossas vivências, a partir das quais nos reconhecemos como nós mesmos; a subjetividade, por sua vez, diz respeito a processos mais abrangentes e, digamos, menos sociais, menos sociáveis, eventualmente menos socializáveis. Basicamente, estamos tratando aqui de uma diferença de grau e qualidade nas formas de interação humana – de forma que, assim como uma pessoa obtém graus e qualidades distintos de satisfação se está em uma festa de confraternização da empresa ou em um bar com amigos queridos, de modo relativamente equivalente um analista está engajado em formas de socialização radicalmente distintas quando está conversando com seus amigos e quando está atendendo seu paciente. Então, assim como uma pessoa em uma festa da empresa não está (ou não deveria estar) focada principalmente em se divertir, o analista em seu trabalho clínico não deveria estar engajado em sociabilidade ou interação social – o que está em jogo é outra coisa, de outra ordem, e por isso a interação do analista com seus pacientes não diz respeito à sua sociabilidade ou à sua vida social. O ponto que levanto aqui interage com os conceitos winnicottianos de verdadeiro e de falso self (Winnicott, 1960/1983) – com


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qualificações importantes: 1) é importante lembrar que “verdadeiro” e “falso” aqui não são noções morais ou valorativas, mas descrições de processos psíquicos qualitativamente distintos; 2) o falso self não é necessariamente patológico, e, pelo contrário, seria patológica a ausência de recurso ao falso self na vida de alguém; 3) o verdadeiro self não é “verdadeiro” no sentido de ser autêntico – é verdadeiro no sentido de integrar formas de vivência e expressão que remetem de forma não sintomática aos processos primários e a estados de não integração (estando, portanto, relativamente livre de racionalizações e outros mecanismos de defesa). Tendo em vista essas qualificações, podemos propor que o trabalho do analista pressupõe a suspensão dos mecanismos adaptativos pautados pela operação do falso self no analista – o que mergulha o analista em um modo relacional que não é o da sociabilidade; mas essa suspensão não implica um “mergulho no verdadeiro self ”, que seria fonte de satisfações diretas e não mediadas: pelo contrário, isso pressupõe que o analista disponha de sua presença de forma a acompanhar os processos do paciente. Como se ele fosse um generoso, habilidoso e bastante abnegado dançarino de forró, um que suspende seus próprios interesses e prazeres em benefício de seu par, para que seu par consiga viver, compreender e transformar seu próprio modo de dançar; como se o funcionário fosse à festa de gala da empresa sabendo que precisará perceber, interagir e fazer acontecer alguma interação específica, sem que ele saiba de antemão qual é – e então ele se senta ali, junto ao bar, e observa em busca de algo que ele só saberá o que é quando o tiver encontrado. Para além das noções winnicottianas de verdadeiro e falso self, podemos entrever que o ponto decisivo em causa aqui é aquele da atenção flutuante – ou atenção equivalentemente suspendida, como preferem alguns. Porque a suspensão da atenção implica um modo muito específico de relaxamento – é relaxamento, mas é relaxamento como ferramenta de trabalho; de forma que, ainda que esteja em jogo a suspensão do regime mediado pelo falso self (que é o regime da sociabilidade corriqueira), o que se constitui a partir daí não é um modo de presença que proporciona ao analista uma plataforma de satisfação não mediada. Não significa, no polo oposto, que o analista é um


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abnegado que não obtém prazer de seu trabalho, mas significa, sim, que o prazer que ele obtém de seu trabalho é necessariamente submetido à dedicação de sua presença ao trabalho de análise – de forma que a disposição psíquica do analista envolve uma suspensão no regime de sociabilidade usual sem remeter a uma retração narcísica que poderia vir a prover satisfação direta (gozo). Tudo que está sendo dito aqui acaba por nos remeter de volta à compreensão avançada por Figueiredo (2008) acerca da presença do analista, indicando uma presença que implica uma flutuação entre momentos mais implicados e momentos mais reservados (ele está sempre presente, mas os modos de sua presença flutuam). O ponto principal é que essa presença, modulando entre a implicação (quando diante de situações clínicas que clamam por interpretação, pontuação, interposição de uma construção, atuação, enactment etc.) e a reserva (quando diante de situação clínicas que convocam ao rêverie, ensonhamento, elaboração de vivências contratransferenciais, sobrevivência e elaboração contratransferencial de ataques ao analista e ao setting etc.), não está a serviço da pessoa do analista, ou seja, não se presta à oferta de satisfação sexual e/ou narcísica do analista. Interpolo aqui uma discussão acerca das gratificações do analista, porque considero o tema importante e delicado – afinal, disse que a presença do analista na práxis clínica não se presta à oferta de condições de gratificação sexual e/ou narcísica, mas esse ponto não é simples e clama por detalhamento. É sabido, e perfeitamente aceitável, que o analista obtém satisfação sexual (não genital, mas sensação de prazer corporal vinculada a vivências clínicas) e satisfação narcísica a partir de sua práxis; mas é crucial manter em vista que essa gratificação é residual e submetida à ética da psicanálise e às condições concretas de trabalho – essas gratificações são (devem ser) tão relevantes quanto os chocolates que funcionários de fábricas de chocolates ganham na Páscoa: é bom receber, mas se você está trabalhando ali especificamente por isso, está fazendo isso pelos motivos errados. O prazer da clínica advém de maneiras certamente bastante distintas para profissionais distintos, e é certo que a clínica oferece plataformas legítimas para satisfação pessoal do analista (desde aprendizados colaterais em “cultura geral”, passando


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por diversão genuína diante de piadas e situações cômicas, chegando à satisfação legítima diante de um trabalho que promove satisfação narcísica e/ou sexual não genital diante de encontros clínicos vivazes e vivificantes); o ponto principal aqui é que o analista se dispõe a manter sua atenção nesse tal regime de suspensão, para que possa fazer seu trabalho, e se dispõe a navegar entre modos implicados e reservados conforme a necessidade do trabalho. Chegamos, com isso, ao coração do argumento deste tópico. O analista se dispõe a se manter presente conforme a necessidade do trabalho, e para tanto dispõe a si mesmo sob um regime de suspensão – isso implica que o encontro que ele vive ali, com seu paciente, não serve a ele, e qualquer prazer que a ele advenha do encontro é residual, colateral.3 Por isso, ainda que em um dia comum de trabalho um analista entre em contato com muitas pessoas, e ainda que eles tenham trocas significativas, isso não significa que o analista esteve em um dia socialmente agitado e gratificante – um pouco a despeito de sua presença em diversos encontros com diversos pacientes, em diversos aspectos decisivos pode-se dizer que o analista está só. Além disso: mesmo que ele tenha obtido gratificação por conta de bons momentos vividos em sua práxis clínica, esses bons momentos não se referem à sua sociabilidade, submetidos como estão a um regime de presença pautado por outros imperativos – e por isso, mesmo que tenha tido bons momentos em seus atendimentos, o prazer vivido não se refere à sua vida social e não se presta a alimentar uma vida social. Assim, por fim, pode-se dizer que a situação analítica pressupõe a suspensão da sociabilidade do analista, e o modo paradoxal como isso acontece (posto que ele encontra gente enquanto trabalha) pode gerar vivências perturbadoras, exacerbando a percepção de solidão que ele eventualmente viva por questões pessoais.

O que não significa que é irrelevante, evidentemente – o analista tem pleno direito a sentir prazer em sua práxis, e esse prazer é parte importante da sustentação do trabalho, mas ele deve estar acoplado a uma lógica de sustentação segundo a qual esse prazer é colateral àquilo que é central, imprescindível e decisivo no trabalho.

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Um último comentário sobre esse ponto, em tempos de covid-19 e isolamento social: o fato de os analistas estarem em suas casas, atendendo a partir da intimidade de seus lares, parece-me contribuir para aprofundar a sensação de estranhamento associada à solidão de que estou falando aqui. Isso acontece porque o íntimo com que se engaja o analista em sua práxis habita, nele, aquele campo que Freud associou ao fenômeno do Unheimlich (estranho, inquietante, infamiliar, insólito, incômodo, chame-o como queira) – penso, inclusive, que o campo do Unheimlich é como que o ponto a partir do qual a escuta do analista se instala; no campo entre a implicação e a reserva em meio ao qual a presença do analista varia, o Unheimlich seria basicamente o centro de equilíbrio (aquilo que já foi chamado de ponto de estofo e que Freud atribuiu ao ponto cego do analista em 1913). Meu ponto aqui é que o fato de o analista estar trabalhando a partir de sua casa sobrepõe ao estranhamento que é peculiar ao seu modo de trabalho uma camada a mais de Unheimlich, mais uma intimidade indócil e paradoxal. Como, além disso, os analistas têm tido de passar virtualmente todas as horas de todos os seus dias em suas próprias casas, isso pode eventualmente contribuir para um efeito de estranhamento que se dissemina e eventualmente contagia outras áreas de sua performance social cotidiana. Se alguma coisa conforta em relação a esse panorama é o fato de que analistas, como condição de sua práxis, estão habituados a se verem mergulhados em estranhamento e angústia, e por isso podemos imaginar que aos poucos vão recuperando condições de elaborar (também) esse desafio. 2. Em que o analista não está só

De qualquer forma, ainda que o analista tenha de lidar com a problemática da solidão em sua práxis, seria uma simplificação descabida supor que está condenado à solidão. E digo isso não só pelo fato de ele contar com a presença do paciente, seu par analítico; digo isso por conta de companhias outras, menos evidentes e mais insólitas – espectros, avatares e assombrações que habitam sua


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práxis.4 Não se trata, é claro, de “obsessores” espíritas nem nada do gênero: eles são parte indissociável da escuta e do ofício psicanalítico, passíveis de compreensão e exposição bastante materialista e bem pouco esotérica. Para recorrer, uma vez mais, a uma fórmula (essa, infelizmente, deselegantemente longa): o psicanalista nunca está sozinho porque trabalha a partir de um modo de presença delimitado e habitado por uma fantasmática composta por espectros, avatares e assombrações conjurados a partir de sua experiência com seus autores de referência, comentadores, analistas, supervisores, professores e pares; essas imagos permitem a incorporação e encarnação ativa do modo de pensamento peculiar à psicanálise e que a caracteriza. Os interlocutores fantasmáticos são parte importante do “ambiente de escuta”, que é, no fim das contas, a presença a que Luís Cláudio Figueiredo (2008) se refere – aquela presença em meio à qual o analista se dispõe de forma mais ou menos implicada, mais ou menos reservada, ao sabor dos acontecimentos clínicos. Falávamos, no tópico anterior, sobre como o analista mobiliza e se ampara sobre sua atenção flutuante, ou equilibradamente suspendida, como instrumento principal de seu trabalho; bom, a atenção flutua, mas o analista não se apega, e não opera, a partir do que lhe “dá na veneta” – ou melhor: trabalha a partir do que lhe dá na veneta, mas trabalha intensamente sobre como a “veneta” o acomete, para garantir que ela responda a elementos que serão plataforma para um trabalho clínico significativo e transformador. Para a preparação do bom funcionamento de sua “veneta”, como bem sabemos, o psicanalista deve pautar-se por uma boa fundamentação nos elementos do tripé analítico: uma boa análise pessoal, uma formação teórica robusta e experiências clínicas supervisionadas instrutivas e enriquecedoras. Acontece que esse tripé não é, evidentemente, um tripé frio e metálico como os tripés de máquinas fotográficas: o tripé analítico se constrói a partir de encontros significativos, a partir da interação com

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Não tratarei, neste texto, das distinções entre esses conceitos, nem entre eles e equivalentes (eventualmente homônimos) consagrados na tradição psicanalítica. Para o leitor interessado em aprofundar seu entendimento dos conceitos, recomendo a leitura de Frosh (2018) e Derrida (1994).


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outros psicanalistas, alguns mais experientes (professores e analistas e supervisores), outros que são companheiros na jornada de formação. 2.1 Companhia viva

Encontramos aqui, então, um primeiro campo de interlocutores fantasmáticos que estarão presentes no “ambiente de escuta” ocupado pelo analista em sua práxis: interlocutores amparados em lembranças e vivências que envolveram um “outro encarnado”, ou seja, encontros materiais com pessoas em interação deliberada com eles: trata-se dos analistas, supervisores, professores, colegas de grupos de estudos etc. com que o analista em formação interage. Por meio desses encontros se compõe um amplo campo de interlocutores imaginários, pessoas com quem o analista estabeleceu relações de identificação, idealização, rivalidade e paixão. Essas pessoas certamente serão parte do lastro afetivo mobilizado pela flutuação do analista no transcurso de sua práxis cotidiana – ainda que, em geral, não tomemos consciência de sua presença lá; ainda assim, mesmo que não os vejamos, temos eventualmente indícios de sua presença a partir de pequenos gestos, cacoetes ou modulações de escuta. Lembrome,5 nesse sentido, de uma época em que me peguei encerrando sessões, a despeito de meu melhor juízo, dizendo algo como “estou preocupado com nosso horário, então... podemos continuar na próxima sessão?” – não era uma colocação que eu mesmo achasse pertinente e não gostava dela, mas ela insistia em saltar de meus lábios; e o pior de tudo era que eu sabia exatamente de onde ela vinha: era uma expressão recorrente na forma como minha analista na época encerrava as sessões (o que sempre me incomodava, visto que ela mesma frequentemente atrasava para me chamar, pouco “preocupada com o horário” que eu mesmo passava em sua sala de espera). Mais recentemente tive a oportunidade de ver surgir Aqui, como em algumas passagens adiante, recorrerei a exemplos pessoais, recolhidos de minha fantasmagoria pessoal, como forma de ilustração das coisas a que me refiro. Serão exemplos simples, e eu espero e imagino que analistas que me leem possam recorrer a seus próprios exemplos: exemplos de trejeitos, expressões e cacoetes que apontam a “presença” de outros em sua presença, a permanência de impressões que vão habitar sua presença e (por consequência) sua atenção flutuante.

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outra expressão: “então tá bom, Fulano; podemos ficar por aqui, hoje?” – esta também uma citação, ipsis litteris, de outro analista. Já um supervisor me influenciou em algo mais abstrato, abrangente e decisivo que o modo de encerrar sessões: em uma supervisão, ele me convenceu a superar minha inibição e formular, no contexto de um caso que atendia na época, uma intervenção retoricamente mais forte, na linha “eu sinto que você não existe” que aparece em alguns relatos clínicos de Winnicott (Winnicott, 1971, é um bom exemplo); bom, o fato é que a partir daquela ocasião eu passei a contar com a capacidade de sustentar situações clínicas que dependam de enunciados fortes e duros de minha parte, quando isso é clinicamente pertinente. “Incorporações” como essa poderão aparecer em todo e qualquer detalhe da presença clínica do analista – um modo de postar-se junto à porta para receber o paciente, um modo de franzir as sobrancelhas, um modo de iluminar ou decorar a sala de atendimento. Algumas associações são mais evidentes, outras menos, mas só posso imaginar que elas fazem parte desse “lastro” afetivo e imaginativo que um analista estabelece com sua comunidade de referência e pertencimento na implementação de sua práxis. Imagino, claro, que a maioria de nós estabeleça estilos e idiossincrasias performáticas sem fazer grande questão de descobrir “de quem roubamos o quê”; ainda assim, parece-me apenas razoável supor que nossas performances cotidianas em nossas práxis clínicas contem com diversos pequenos gestos que nos acolhem (e, por derivação, acolhem nossos pacientes) naquilo que a análise vai oferecendo e significando para nós. Como se houvesse uma grande dispersão de fios vermelhos (e fios de diversas outras cores) compondo a tapeçaria do imaginário daquilo que “psicanálise” passa a significar conforme a fazemos acontecer. 2.2. O cânone e os comentadores consagrados

Outra dimensão dessas companhias impresentes cabe, com as devidas adaptações dinâmicas, aos autores de referência – autores de textos por meio dos quais o analista veio a conceber que “entende” ou “conhece” psicanálise. Entendo que os autores que contribuem


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de forma decisiva para a composição desse campo são: 1) aqueles que chamo de “canônicos” (autores como Freud, Lacan, Klein, Winnicott, Ferenczi – todos aqueles que consolidam uma imago forte no movimento psicanalítico, favorecendo uma espécie de campo de gravidade em torno da qual será composto, durante suas próprias vidas ou a posteriori, um grupo organizado como “-ismo”); parece um consenso na comunidade psicanalítica que uma pessoa não pode vir a se tornar analista sem dispor de um domínio aceitável em relação a um recorte considerado aceitável dentro do vasto e heterogêneo corpus canônico; 2) além de autores que compõem um cânone, os analistas invariavelmente recorrem a uma extração de autores que imagino que convenha chamar de “notáveis”: aqueles que não compõem – pelo menos não durante a formação do analista em questão – uma imago sólida a ponto de consolidar um campo de tabu à sua volta, mas que ainda assim oferecem elementos decisivos na consolidação de estratégias de escuta, pensamento e atuação clínicos; aqui figurariam, contemporaneamente, comentadores estrangeiros bem estabelecidos no editorial especializado brasileiro, como Joël Dor, Bruce Fink, Pontalis, Green e também brasileiros como Luís Claudio Figueiredo, Daniel Kupermann, José Outeiral, Christian Dunker, Luiz Alfredo Garcia-Roza. A diferença entre os grupos aqui não é de natureza, mas de grau – mas, ainda assim, ela é decisiva; pensemos, por exemplo, que 1) ninguém me chamaria de “figueirediano” ou “kupermanniano” ou “dunkeriano” ou o que seja; 2) as pessoas me chamam (com irritante frequência) de “winnicottiano”, ainda que tenham claro que eu não me enquadro em uma caricatura do que isso usualmente significa na cabeça delas; 3) parece-me que a colocação “winnicottiano” só faria sentido em relação a mim se fosse ponderada pelo fato de que a imago a que recorro de Winnicott é modelada pelo papel que cumpriram em minha formação autores (e pessoas) como Luís Claudio Figueiredo e Daniel Kupermann; 4) parece inaceitavelmente indigesto que um analista não esteja enquadrado dentro de um “ismo” canônico qualquer (mesmo que seja um ismo imaginarizado de forma não autoral como “psicanalista contemporâneo”, “psicanalista pós-escolas”, “vinculado à teoria dos campos” ou coisa que o valha).


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Essa composição entre canônicos e notáveis a que me referi acima fica clara quando pensamos em analistas formados em instituições e escolas mais tradicionais de transmissão da psicanálise, instituições onde o autor canônico é ensinado por meio da forma como os membros notáveis daquela instituição o compreendem (inclusive no sentido etimologicamente mais literal, em que “compreender” recende a posse) e onde o tripé é “amarrado” de maneira mais firme (com os professores e analistas e supervisores “trabalhando em conjunto” na composição de uma fantasmática mais coesa)6; é assim que funciona, na prática, aquilo que Kupermann chama de “transferências cruzadas” (1996). 2.3 Sombras sobrepostas, luz

No tópico 2.1 enfatizei a dimensão pessoal e encarnada da formação/autorização, pautada pelo encontro do analista em formação com professores, analistas, supervisores e colegas, ao passo que no tópico 2.2 enfatizei a dimensão autoral, pautada pelo encontro do analista em formação com os autores canônicos e notáveis, aqueles consagrados como portadores de saber e autorizados a comentar o cânone.7 Os limites aqui, de qualquer forma, não precisam ser rígidos – até porque em geral não são, posto que notáveis frequentemente interagem pessoalmente ou são imaginados de forma menos fantasmática e mais condensada (eles fazem um tanto da “passagem” entre a dimensão canônica, em que ela é mais etérea, e a dimensão encarnada dos reles mortais estudando textos, conduzindo suas análises

Coesão que eu sustento que comporta um constrangimento potencial à capacidade de pensamento criativo por parte do analista em formação, conforme discuti em algumas passagens de Franco (2019).

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A proposta aqui segue de perto a dimensão de determinantes externos do discurso conforme analisados por Foucault em “Ordem do discurso” (Foucault, 2004) – é importante ter em vista, contudo, que Foucault percebe a psicanálise fundamentalmente distinta da ordenação discursiva vigente na hermenêutica e nas fórmulas professorais religiosas (Foucault, 2001), distinção que não subscrevo (conforme discuto em detalhes em Franco, 2020).


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e suas práxis clínicas). Há uma diferença importante, de qualquer maneira, entre o impacto transferencial encarnado com que analistas, supervisores e professores nos afetam e aquele pautado pelo corpus textual de autores com quem nos relacionamos de forma intelectual e afetivamente decisiva, associada principalmente ao efeito do ensino “corpo a corpo” para a incorporação de uma performance que acolha a presença analítica do analista em formação.8 O que mais importa aqui, de qualquer forma, é que tanto pessoas quanto textos e autores contribuem na composição do ambiente (mental, afetivo e mimo-gesto-postural) em meio ao qual o analista conduz seu trabalho. E é nesse sentido que podemos supor que o analista, ainda que esteja sozinho em sua atenção flutuante, não está sozinho na medida mesma em que essa atenção flutua em um meio que é todo permeado por fantasmas. Se tudo vai bem, claro, o sujeito não estará obsedado por essas fantasmagorias, que sequer o ocuparão – até porque a ideia não é que elas o ocupem, mas, pelo contrário, que ele as ocupe: a fantasmática da presença do analista é o espaço habitado pelo analista, e nessa medida ela é mais ocupada do que ocupante; seja como for, o analista está, mas também não está, sozinho. Trago por fim, à guisa de encerramento desta segunda parte, uma consideração associada à crise deflagrada pela pandemia de covid-19, semelhantemente ao que fiz no encerramento da primeira parte. E o que me parece mais urgente nesse sentido é a acentuação da perda de trocas encarnadas no horizonte da trajetória do analista em formação – com cada vez mais recurso a lives e ensino à distância e com supervisões e grupos de estudos e análises ocorrendo de forma online, fica suspendida

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É claro que um autor pode proporcionar um cacoete ou uma “incorporação” naquele que o lê (a depender de quão gráfico ou detalhista o autor é em suas discussões, e também de quão imaginativo o leitor é em sua composição de uma imago autoral vívida e passível de encarnação estereotipada a partir do contato com o texto do autor); mas minha experiência (e a lógica) aponta para a perspectiva de que a constituição de uma incorporação – uma encarnação da psicanálise em uma performance clínica que acolha o exercício da práxis –, a perspectiva é que isso venha mais do contato direto com professores e analistas e supervisores do que do contato com autores imaginados a partir do estudo sistemático de textos.


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a plataforma encarnada por meio da qual uma parte razoável da transmissão da psicanálise era usualmente feita até bem recentemente. Essa característica interage de perto com uma preocupação que já formulei tempos atrás no contexto do que chamei, na época, de “superpsicanalistas”: a preocupação é que alguns psicanalistas sejam formados fazendo recurso bastante intenso a figuras que são “reais demais” para serem autores “de fundo” (como são os autores canônicos), ao mesmo tempo que são “ideais demais” para serem interlocutores “de frente” (como analistas, supervisores e outros com quem o analista em formação estabelece trocas mais passíveis de incorporação e encarnação); esse é o campo ocupado na prática por intelectuais e “grandes comentadores” da psicanálise, aqueles que projetam uma sombra enorme ao dar a entender que sabem tudo e explicam tudo (obturando, assim, o acesso ao modo específico de não saber que caracteriza a escuta analítica). Pois bem, minha preocupação aqui é que a transmissão da psicanálise, destituída de encontros presenciais e encarnados, precipite a formação de analistas que implementam uma psicanálise desencarnada – no sentido daquelas sopas ralas, “sem corpo”, daquelas sopas aguadas em que parece restar apenas “o cheiro”, um sabor distante e rarefeito do que ela deveria ser.9 Sempre entendi que a autorização do psicanalista congrega imaginários idealizados e jogos de relações que oferecem uma plataforma, um “pivô” que permitirá ao analista em formação “fazer o giro” de uma postura submissa e estudantil a uma desafiadora e/ou descrente até chegar, por fim, a uma incorporação autoral e criativa; pois bem, o risco é que a “virtualização” das relações que medeiam o contato do analista em formação com o imaginário daquilo que a psicanálise “é” leve a uma cristalização ou paralisação desse processo (paralisação que será “reagida”, evidentemente – mediante uma postura defensivamente arrogante, ou uma postura mimética caricatural, ou numa eterna submissão inferiorizada). 9

Não levanto essa preocupação por saudosismo ou primitivismo: entendo que as plataformas virtuais podem contribuir para a disseminação de conhecimento e podem ser muito úteis em muitos momentos e processos – mas acho importante pensar sobre o que está em jogo quando nos propomos a “substituir” atividades que antes eram feitas presencialmente por “equivalentes” virtuais ou online.


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Referências bibliográficas Derrida, J. (1994). Espectros de Marx: o Estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Figueiredo, L. C. (2008). Presença, implicação e reserva. In L. C. Figueiredo, & N. Coelho Jr. Ética e técnica em psicanálise. São Paulo: Escuta. Foucault, M. (2001). Qu’est-ce qu’un auteur? In M. Foucault, Dits et écrits (Volume I: 1954-1975). Paris: Gallimard. Foucault, M. (2004). A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Loyola. Franco, W. (2018, 12 de janeiro). Marvels: superpsicanalistas, autores canônicos e reles mortais. Errâncias. Recuperado de https://errancias.com/2018/01/12/ marvels-superpsicanalistas-autores-canonicos-e-reles-mortais/. Franco, W. (2019). Autorização e angústia de influência em Winnicott. Belo Horizonte: Artesã. Franco, W. (2020). Os lugares da psicanálise na clínica e na cultura. São Paulo: Blucher. Freud, S. (1996). A dinâmica da transferência. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XII). Rio de Janeiro: Imago. (Publicado originalmente em 1913). Frosh, S. (2018). Assombrações: psicanálise e transmissões fantasmagóricas. São Paulo: Benjamin. Kupermann, D. (1996). Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições. Rio de Janeiro: Revan. Winnicott, D. W. (1971). Dreaming, phantasying and living: a case-history describing a primary association. In: D. W. Winnicott, Playing and reality. London: Routledge. Winnicott, D. W. (1983). Distorção de ego em termos de verdadeiro e falso self. In D. W. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed. (Publicado originalmente em 1960).


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As formas do recordar1

Daniel Schor 2 “Os histéricos sofrem principalmente de reminiscências” (BREUER; FREUD, 1893, p. 7, tradução nossa), declararam Freud e Breuer em seus Estudos sobre a histeria. Na afirmação, considerada por muitos o postulado inaugural da psicanálise, os dois médicos lançam um princípio tão impactante e original quanto aberto e imponderável, cujo alcance não estava, na época, em condições de ser avaliado, e cujo sentido se faz notar na clínica contemporânea, talvez, de modo ainda mais contundente do que no contexto de sua formulação. Atribuir o sofrimento psíquico a “reminiscências” significa atribuí-lo a alguma qualidade de memória. No entanto, um dos pressupostos que definem o modo psicanalítico de conceber o adoecimento

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Este é um trecho do livro “Heranças invisíveis do abandono afetivo: um estudo psicanalítico sobre as dimensões da experiência traumática”, de Daniel Schor, editado pela Blucher em 2018. Este trabalho está disponível na íntegra na biblioteca do Conteúdo PSI.

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É psicanalista, doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), onde defendeu também sua dissertação de mestrado.


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humano consiste na ideia de que essas memórias serão tão mais patogênicas quanto menos puderem ser reconhecidas e experimentadas como tais pelo sujeito. Nos Estudos, Freud e Breuer entendem como um dos determinantes do adoecimento histérico o fato de que o Eu considerou a experiência como sendo incompatível com ele próprio e, portanto, ela teve de ser rechaçada (STRACHEY, 1955). Presumem, então, que o trauma psíquico, por efeito de sua lembrança tão recusada quanto presente, funciona como um antígeno que permanece em ação ainda que muito tempo após sua entrada no psiquismo (BREUER; FREUD, 1893). Eis um sentido que o desenvolvimento ulterior da psicanálise veio ampliar e reforçar enormemente. Sofremos – e hoje, seguramente afirmamos, não somente os histéricos – assolados pelos restos não integrados de nossa história, pelo que guardamos, a partir dela, como corpos estranhos a nós mesmos. Diagnosticar um adoecimento psíquico significa, nesse sentido, elucidar os modos com que tais disjunções operam em determinada personalidade. Significa, então, nessa mesma medida, compreender como ocorre num dado sujeito o relacionamento com o próprio passado. Sem qualquer pretensão de contemplar a riqueza das observações e discussões presentes nos Estudos, muito menos fazer jus à complexidade do percurso realizado por Freud de um ponto a outro de sua obra, atentemos, porém, para um outro momento de sua produção e consideremos, por um instante, um de seus mais importantes trabalhos sobre as formas de manifestação das “reminiscências” no contexto clínico: recordar, repetir, elaborar. No artigo de 1914, Freud retoma brevemente o histórico das transformações sofridas pela técnica psicanalítica desde o método catártico, baseado na tentativa de reproduzir os processos psíquicos ocorridos durante a formação do sintoma, para, em seguida, debruçar-se sobre os diferentes modos de recordação que passava a identificar na experiência analítica acumulada até ali. Na curta revisão com que inicia o artigo, o criador da psicanálise destaca que, no tratamento hipnótico, o recordar se configurava de forma relativamente simples:


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O paciente se punha numa situação anterior, que não parecia jamais se confundir com a presente, comunicava os processos psíquicos da mesma, até onde haviam permanecido normais, e acrescentava o que podia resultar da transformação dos processos antes inconscientes em conscientes (FREUD, 1914, p. 196, grifo nosso).

Apesar de se considerar a patologia histérica como efeito de um de “transbordamento” do passado sobre o presente motivado pelo estrangulamento da carga afetiva àquele vinculada, havia, então, pelo que se pode perceber, a profunda crença num psiquismo organizado em tempos nitidamente distintos. A mesma crença, no entanto, não poderia se sustentar a partir das investigações empreendidas com a técnica da associação. Na sequência do texto, Freud chama nossa atenção para um “grupo de eventos psíquicos” que não “representam os anos esquecidos da infância tão adequadamente quanto o conteúdo manifesto do sonho representa os pensamentos oníricos” (FREUD, 1914, p. 197) e, nessa medida, tem de ser considerado separadamente em sua relação com o esquecer e o recordar. Nele, diz, sucede com particular frequência que seja “lembrado” algo que não poderia jamais ser esquecido, pois em tempo algum foi percebido, nunca foi consciente e, além disso, parece não fazer nenhuma diferença, para o decurso psíquico, se uma dessas “conexões” era consciente e foi então esquecida, ou se jamais alcançou a consciência. A convicção que o doente adquire no decurso da análise independe por completo de uma tal recordação (1914, p. 198).

No referido grupo, Freud situa formas de “esquecimento” relacionadas à “dissolução de nexos” e ao “não reconhecimento de sequências lógicas” (1914, p. 198). Além dessas, menciona “um tipo muito especial de vivências muito importantes, que têm lugar nos primórdios da infância e que na época foram vividas sem compreensão” (grifo nosso). Tais descrições chamam nossa atenção


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para experiências que se manifestam no psiquismo, não enquanto pressões do recalcado que exige expressão no plano consciente, mas por efeito de sua própria incompletude, fato que impede o estabelecimento de uma clara fronteira que lhes assegure a condição definitiva de atuais ou passadas. Surge aí a conhecida afirmação das situações clínicas em que o analisando não recorda absolutamente o que foi esquecido e reprimido, mas assim o atua. Ele não o reproduz como lembrança, mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber que o faz (1914, p. 199).

O analisando repete, podemos dizer, como se ainda vivenciasse a situação traumática original, e o faz, interessantemente, sem que, para isso, precise ser hipnotizado. Na medida em que repete, o sujeito permanece fixado em determinado ponto de sua história, que se faz atual, entre outras coisas, pela transferência da carga emocional experimentada naquele contexto para o presente. Nesse sentido, as atuações precisam ser consideradas como um modo particular de rememoração. Parece-nos crucial perceber, assim, que, no lastro de uma discussão que se propõe, de início, eminentemente clínica, Freud realiza um trabalho fundamental de caracterização de diferentes formas de memória capazes de povoar a vida subjetiva, bem como dos modos de registro e manifestação que lhes são inerentes. Entretanto, nem só de memórias se trata, já que fazer repetir diz Freud, significa “conjurar uma fração da vida real” (1914, p. 202), ao passo que fazer lembrar, como sucedia pela hipnose, dava a impressão de um experimento de laboratório. Isso procede uma vez que, no primeiro caso, o esforço em questão refere-se não apenas ao que aconteceu, mas ao que permanece acontecendo. Assim, o entendimento da compulsão à repetição como algo que traz à tona o “passado presente” do paciente nos faz abranger um espectro muito mais amplo de sua história emocional. Se recordar é evocar o acontecido, repetir é encenar o que permanece inconcluso em relação à história do sujeito.


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A partir daqui, propomos realizar novo salto dentro da obra freudiana para considerar, em meio a ela, o último momento por nós selecionado em que a problemática do recordar é trazida para o centro da discussão. Construções em análise, de 1937, é um artigo cuja tonalidade deixa entrever um Freud disposto a levar o tema das reminiscências, lembranças ou recordações às últimas consequências. Já nas primeiras páginas, o autor declara sem rodeios que “todos nós sabemos que a pessoa que está sendo analisada tem de ser induzida a recordar algo que foi por ela experimentado e reprimido” (FREUD, 1937, p. 258, tradução nossa). Lembra, porém, logo em seguida, que a outra parte do trabalho, ou seja, a tarefa do analista, vinha sendo empurrada para segundo plano. A partir disso, declara: O analista não experimentou nem reprimiu nada do material em consideração; sua tarefa não pode ser recordar algo. Qual é, então, sua tarefa? Sua tarefa é a de completar aquilo que foi esquecido a partir dos traços que deixou atrás de si ou, mais corretamente, construí-lo. A ocasião e o modo como transmite suas construções à pessoa que está sendo analisada, bem como as explicações com que as faz acompanhar, constituem o vínculo entre as duas partes do trabalho de análise, entre o seu próprio papel e o do paciente (1937, p. 258, grifo nosso, tradução nossa).

“Completar aquilo que foi esquecido [...] as explicações com que as faz acompanhar [...] o vínculo entre as duas partes do trabalho [...].” Aos nossos ouvidos, tais palavras indicam claramente que devemos considerar o vínculo aí citado, não apenas como o elo criado entre analista e paciente, mas, igualmente, entre os dois tempos do contato com o trauma. Posicionados, de início, cada qual em seus lugares próprios pelos jovens investigadores da técnica hipnótica, passado e presente são agora reunidos na/pela pessoa do analista, que acompanha, vincula, completa e, desse modo, (re)constrói e (re)encontra sentidos, ao mesmo tempo, antigos e atuais.


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Vemo-nos, assim, mais de quarenta anos depois, radicalmente distantes da cisão categórica entre passado e presente pela qual se caracterizava o método hipnótico, a qual ficava encenada na separação visível entre os estados de transe, suposto palco de expressão das experiências passadas, e de vigília, em que estaria resguardado o acesso à vida presente. A distinção antes pressuposta e, por isso mesmo, artificialmente induzida, corresponde agora aos extremos de um largo espectro de nuances que caberá ao analista captar, identificar e traduzir em seu trabalho. Ocorre, nesse ponto, a famosa comparação entre o trabalho do analista e o do arqueólogo, cujos desafios, diz Freud, são “de fato idênticos” (1937, p. 259, tradução nossa), exceto por um fato crucial: o de que o material com que trata o analista “não é algo destruído, mas algo que ainda está vivo” (1937, p. 259). Apesar disso, ambos “possuem direito indiscutido a reconstruir por meio da suplementação e da combinação dos restos que sobreviveram” (1937, p. 259, grifo nosso). Há que se manter em mente, afirma Freud: que o escavador está lidando com objetos destruídos, dos quais grandes e importantes partes certamente se perderam, pela violência mecânica, pelo fogo ou pelo saque. Nenhum esforço pode resultar em sua descoberta e levar a que sejam unidas aos restos que permaneceram. O único curso que se lhe acha aberto é o da reconstrução, que, por essa razão, com frequência, só pode atingir um certo grau de probabilidade. Mas com o objeto psíquico cuja história primitiva o analista está buscando recuperar, é diferente. Aqui, defrontamo-nos regularmente com uma situação que, com o objeto arqueológico, ocorre apenas em circunstâncias raras, tais como as de Pompeia ou da tumba de Tutancâmon. Todos os elementos essenciais estão preservados; mesmo coisas que parecem completamente esquecidas estão presentes, de alguma maneira, em algum lugar, e simplesmente foram enterradas e tornadas inacessíveis ao indivíduo (1937, p. 259-260, tradução nossa).


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De nosso ponto de vista, uma importante interrogação deve ser colocada ante tal constructo freudiano. Será mesmo que, em se tratando do objeto psíquico, todos os elementos essenciais estão necessariamente preservados? Não teríamos, nós humanos, tido, em nossa história, agentes de efeitos tão deletérios quanto os que na arqueologia se atribui a “violências mecânicas”, ao “fogo” ou ao “saque”?


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LIVROS


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Livros

TRANSFERÊNCIA E CONTRATRANSFERÊNCIA autora:

Marion Minerbo

ISBN: 9788521219279 – Blucher, 2020 – 290 p.

Este livro de Marion Minerbo é, ao mesmo tempo, consistente e leve. Seu estilo ensaístico expressa o movimento em várias dimensões entre a imaginação metapsicológica e a operação do método psicanalítico, que, em seu conjunto, habitam o coração do exercício da clínica psicanalítica. O leitor é conduzido, com muita delicadeza e atenção, pelos caminhos propostos pelo trabalho de tal forma que, mobilizado por uma leitura fluente, agradável e, em algum grau, “intimista”, quando dá por si, já atravessou com muito gosto repertórios conceituais diversos e meandros de questões muito complexas, sentindo-se estimulado pelos vários roteiros de pesquisa que vão sendo generosamente oferecidos no decorrer do percurso e que poderão ser retomados, caso seja de seu interesse. Talvez possa então se surpreender com o alcance de sua própria apreensão de conteúdos, cuja costura vai sendo oferecida gradual e pacientemente por uma companhia firme e fiel a suas intenções de tal forma que a complexidade das questões tratadas vai sendo esboçada por meio de uma espécie de traçado em espiral, que permite retomá-las em planos e tempos diversos à medida que a reflexão avança, apurando a orquestração dos instrumentos teóricos. Já se vê uma circulação sensível entre os papéis de psicanalista, professora e supervisora que se entrelaçam de modo criativo na perspectiva da escritora. Assim, observa-se claramente a vinculação da estrutura do texto às suas fontes de origem na organização dos tópicos e na forma de apresentação dos itens escolhidos, desde que o livro se reporta a um curso oferecido na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e à coordenação de outros grupos psicanalíticos por parte da autora. O processo de escrita de Marion expressa os movimentos subjacentes à escuta psicanalítica em sua vinculação à configuração de um diagnóstico transferencial, tanto no registro da situação analítica como no da dinâmica de seminário clínico e de supervisão, testemunhando, assim, a articulação estreita entre estilo e modo de produção de conhecimento – peculiaridade epistemológica da psicanálise enunciada por Freud desde os primórdios da constituição do campo psicanalítico. O texto nos convida a acompanhar, passo a passo, os desdobramentos de um recorte possível para a tematização da questão da transferência-contratransferência, contornando-se como um trabalho verdadeiramente primoroso no campo da transmissão de conhecimento em psicanálise. Ana Maria Loffredo

Trecho do Prefácio de Transferência e contratransferência.


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BION EM NOVA YORK E EM SÃO PAULO autor:

Wilfred R. Bion Paulo Cesar Sandler

tradução:

ISBN: 9788521219170 – Blucher, 2020 – 226 p.

Wilfred Bion faleceu em 8 de novembro de 1979, em Oxford (Reino Unido), menos de uma semana após receber um diagnóstico de leucemia mieloide. O conteúdo deste livro foi aprovado por ele em 1978. Duas séries de discussões formam um contraste revelador: a série de 1978 consistiu na terceira visita de Bion a São Paulo e a quarta ao Brasil, por essa razão, seu método de apresentar os assuntos era familiar ao público. Já a visita a Nova York (Estados Unidos), em 1977, foi sua primeira. Deve-se admitir que, para aqueles que procuram respostas prontas e acabadas, o método de Bion era inexplicável, frustrante e irritante. Ele era alguém versado em seu assunto, excepcionalmente articulado e, portanto, plenamente capacitado para provar a seus inquisidores aquilo que precisavam ouvir – e ele sabia disso. Entretanto, Bion, firme no respeito pela verdade, não podia ser persuadido a ir contra seguir um curso em que não poderia respeitar a si mesmo. Acreditou que “la réponse est le malheur de la question”, tanto em sua vida profissional como em sua vida privada. Problemas estimulavam seu pensamento e argumentação – nunca suas respostas. Suas réplicas – melhor dizendo, paracontribuições – eram como extensão das questões, a despeito da aparente irrelevância. Um ponto de vista melhor pode ser apresentado em suas próprias palavras: Não sei a resposta a essas perguntas. Se soubesse, não lhes diria. Acho importante que os senhores encontrem respostas por si mesmos. Vou dar-lhes uma chance de preencher o vácuo que deixei. Penso que não importa minha explicação. Chamaria a sua atenção para a natureza do problema. Quando sinto uma pressão – seria melhor ficar preparado, caso me façam perguntas –, digo: “Às favas com isso, não vou procurar esse negócio em Freud nem em qualquer outro lugar, nem mesmo na minha afirmação anterior – vou tolerar a pergunta”. No entanto, vai ficar claro que estou pedindo que os senhores também a tolerem. Francesca Bion

Trecho do Prefácio de Bion em Nova York e em São Paulo.


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Livros

COMPANHIA VIVA Psicoterapia psicanalítica com crianças autistas, borderline, desamparadas e que sofreram abuso autora:

Anne Alvarez Gabriel Hirschhorn

tradução:

ISBN: 9788521218678 – Blucher, 2020 – 394 p.

Este livro é um registro de minhas reflexões a respeito da experiência de tratar crianças autistas, psicóticas e borderline com métodos da psicoterapia psicanalítica. Algumas das crianças e dos adolescentes que descrevo são pacientes psicóticos que começavam a melhorar. Outras são psicóticas borderline que estiveram pairando à beira do abismo. Todos, espero, dão uma ideia dos dois mundos: o da sanidade e o da loucura, da fragilidade de um e do poder ameaçador e sedutor do outro. Esses pacientes podem ser ajudados por métodos psicanalíticos, mas o tratamento é longo, árduo e quase sempre exerce uma pressão considerável sobre o terapeuta. Mesmo assim, há um consenso crescente de que essa pressão e esse peso são, de algum modo, fundamentais para o tratamento. Crianças cujas mentes e corpos foram danificados por intrusões como abuso sexual, violência ou negligência, e outras, bastante diferentes, prejudicadas por suas próprias e misteriosas sensibilidades a privações menores, podem experimentar um tipo de profundo desespero e cinismo de maneira muito mais intensa que pacientes neuróticos. Um terapeuta, sofrendo de uma dose muito grande de zelo terapêutico ou de uma crença apaixonada no poder terapêutico da explicação psicanalítica, pode vivenciar um grande desapontamento caso a criança não pareça se sentir ajudada por suas incríveis revelações e não apresente mudanças. Eu mesma tive muitos desses desapontamentos. Os terrores do paciente podem ser opressivos demais para serem simplesmente nomeados – que dirá explicados; sua destrutividade ou autodestrutividade pode ter se desenvolvido após, talvez, anos de prática, atingindo um nível de sofisticação elevadíssimo. O psicoterapeuta precisa ser capaz de sentir-se suficientemente transtornado para sentir pelo paciente e, ao mesmo tempo, suficientemente sadio para pensar com ele, até que o ego do próprio paciente – seu self pensante – cresça o suficiente para fazê-lo por si mesmo. No livro, tento formular as implicações dos avanços no trabalho com crianças psicóticas e borderline.

Trecho do Prefácio de Companhia viva.


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TORNANDO-SE PAIS A adoção em todos os seus passos autora:

Gina Khafif Levinzon

ISBN: 9788521219446 – Blucher, 2020 – 214 p.

Meu contato com o mundo da adoção ocorreu inicialmente por meio de meu trabalho como psicanalista. No início de minha vida profissional, atendi em psicoterapia uma criança adotada que representou para mim um grande desafio, pela dificuldade em atendê-la e pela imensa gama de emoções que ela despertava. A partir daí, outros pacientes adotados me foram encaminhados, e percebi a lacuna que havia no Brasil com relação a estudos e pesquisas realizados a esse respeito. Desde então, tenho me dedicado a uma ampliação maior de conhecimentos sobre esse tema, que me toca de modo especial. Na verdade, todos nós somos no fundo adotados, em maior ou menor grau, pelas nossas famílias, nosso país, nossa comunidade, nossos amigos... Escrevi uma tese de doutorado, dois livros e um número significativo de artigos sobre o assunto. Desde o início do meu trabalho, no entanto, acalentava a ideia de escrever um livro voltado especificamente para pais adotivos. Tenho visto o quanto estar informado sobre as questões principais da adoção e deixar aberto um espaço para a discussão e expressão de sentimentos, angústias e expectativas torna-se essencial para a criação saudável dos filhos. Agradeço à Michelle Kitner e a Marcelo Levinzon pelo auxílio prestado. Agradeço também à Cristina Rodrigues Rosa Bento Augusto pela ajuda na atualização dos procedimentos jurídicos realizados nos dias atuais em relação àqueles em que me baseei na edição original deste livro. Este livro tem como objetivo auxiliar os pais adotivos e as pessoas que se interessam pelo assunto a considerar pontos importantes na constituição da família adotiva. É uma introdução ao mundo da adoção. Não substitui, no entanto, a procura de profissionais habilitados para ajudar os pais nos casos em que esse acompanhamento se faz necessário. Ser filho, ser mãe, ser pai... Esta é a base que constitui os pilares do ser humano.

Trecho do Prefácio de Tornando-se pais.


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Livros

A PSICANÁLISE DO VIR A SER autor:

Claudio Castelo Filho

ISBN: 9788521219255 – Blucher, 2020 – 306 p.

Este livro apresenta uma série de artigos que escrevi ao longo dos 35 anos de trabalho em clínica psicanalítica que tenho desenvolvido em meu consultório. Alguns poucos foram publicados antes em revistas científicas da área, mas sofreram extensas revisões para entrar neste volume devido à evolução de meus pensamentos desde que apareceram originalmente, outros foram apresentados em reuniões científicas, conferências e congressos, e vários são inéditos e recentes. Os temas abordados são os que têm me ocupado de forma mais central na minha prática e também as questões que frequentemente são levantadas em aulas que dou e em conferências que faço, nas bancas de monografias, dissertações e teses de que tenho participado, em conversas com colegas, em bancas de relatórios de atendimentos, e assim por diante. Questões associadas à criatividade e à intuição têm sido o foco central de minha atenção, assim como da finalidade prática da psicanálise, que distingo nitidamente de outras práticas psicoterapêuticas, psiquiátricas ou médicas, como deixo explícito no primeiro capítulo. Em dois capítulos ocupo-me da produção estética cinematográfica de dois cineastas italianos: da filmografia do grande Luchino Visconti, falecido em 1976, e do contemporâneo Paolo Sorrentino e seu filme A grande beleza, com os profundos insights psicológicos nele contidos apresentados com extraordinário refinamento e beleza, como foram capazes, na literatura, Proust, Tolstói, Maupassant, Eça de Queirós, Edith Wharton, Machado de Assis, Thomas Mann, entre outros. A estética também é o meio para se aproximar da vida psíquica, e valho-me também em outra passagem do famoso artigo de Freud “O Moisés de Michelangelo”. Meu intuito foi o de uma escrita que seja o mais clara possível, evitando gongorismos e formulações herméticas que possam deixar a leitura cansativa e entediante, além de pouco esclarecedora, destacando minha prática clínica. Espero que tenha obtido algum sucesso nesse sentido. No material clínico apresentado (colhido ao longo dos 36 anos de atendimentos) foram tomados todos os cuidados possíveis para não haver chance de identificação dos pacientes, e há de se perceber que priorizo basicamente aquilo que observo durante as sessões analíticas, pois considero que históricos de vida e anamneses pouca ou nenhuma utilidade têm para a minha prática psicanalítica, visto que o que se apresenta durante as sessões psicanalíticas é o que penso ter verdadeira relevância e que pode permitir o esclarecimento de situações externas à análise dos analisandos, ou que pode dar sentido às suas experiências pretéritas, e não o contrário. O que importa, todavia, não é o passado, mas o que o analisando possa fazer do presente e do futuro com as luzes que possa obter daquilo que verificar durante suas sessões com o analista. Trecho da Introdução de A psicanálise do vir a ser.


REVISTA CONTEÚDO PSI, VOLUME II, N.1, 2020

EXPRESSÃO E LINGUAGEM Aspectos da teoria freudiana autora:

Janaina Namba

ISBN: 9788521219132 – Blucher, 2020 – 286 p.

No ano de 1891, Freud, em Contribuição à concepção das afasias, faz extensa crítica à neurologia do século XIX, que defendia uma localização anatômica cerebral para funções mentais. Logo no início desse texto, o autor afirma que se utilizará de casos já descritos na literatura para propor uma nova concepção de afasias e destaca que o funcionamento da linguagem se encontra intrinsecamente ligado ao funcionamento psíquico: “os processos fisiológicos não são interrompidos onde começam os processos psíquicos” (p. 105, tradução nossa). Estes últimos não seriam localizáveis como ditava a neurologia da época, mas estariam encadeados e em situação de dependência com os processos fisiológicos. Como consequência, teríamos que a ativação do córtex cerebral decorrente de uma excitação nervosa seria ela própria responsável pela modificação do tecido cortical, funcionaria como uma impressão, uma marca no tecido que viria a registrar uma possibilidade de memória. Portanto, a memória não se encontra circunscrita em células, embora tenha como substrato o tecido nervoso, “lugar” por onde percorrem estímulos provenientes tanto do interior como do exterior do corpo. Esses estímulos estariam inscritos como traço, como representação. E as representações continuam a ser imagos, mas que, segundo Luiz Roberto Monzani, “não possuem mais o valor representativo conferido pelo pensamento clássico, subsistem em função do que são e do lugar em que estão”. Essas representações que envolvem a memória são inconscientes e só farão parte da consciência ao se unirem às representações verbais, ou seja, possuem um funcionamento autônomo e encadeado que depende de ligações intrínsecas ao aparelho psíquico: “elas não reenviam mais a nada a não ser a si mesmas e à cena de que fazem parte”. Com base nos aspectos descritos, este livro tem como tema a linguagem na teoria psicanalítica freudiana. Particularmente, procuramos abordar o processo de aquisição da linguagem verbal no indivíduo com relação ao desenvolvimento psíquico infantil. Além disso, sugerimos a aquisição da linguagem como parte de um processo primitivo do desenvolvimento da cultura humana.

Trecho da Apresentação de Expressão e linguagem.


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Livros

OS LUGARES DA PSICANÁLISE NA CLÍNICA E NA CULTURA Autor: Wilson Franco ISBN: 9788521219118 – Blucher, 2020 – 286 p.

Os lugares da psicanálise na clínica e na cultura busca demonstrar como a prática psicanalítica, tanto no âmbito clínico como cultural, depende intimamente do contexto em que ela está inserida e defende a necessidade de cultivar essa relação. Franco se opõe à concepção unitária e mistificante d’A psicanálise, com “a” maiúsculo, defendendo que a pluralidade que a caracteriza não deve ser escamoteada, mas sim assumida e compreendida. O autor defende que é necessário ver além dessas separações convencionais, porque é nesse ponto que se poderão elucidar com mais clareza as questões em pauta. A obra critica, portanto, os profissionais que se prendem de forma doutrinária a um teórico ou linha de estudo, defendendo que há problemas complexos na prática psicanalítica que requerem pensamento crítico e complexo – não basta entender de Lacan ou Winnicott ou Klein, é necessário pensar com e para além do que eles escreveram. Para defender esse argumento, o autor parte do contexto histórico da psicanálise e passa pela política, pela epistemologia e pela ciência para buscar uma concepção de psicanálise que seja pertinente ao nosso tempo e meio. De acordo com o psicanalista Daniel Kupermann, que assina a orelha do livro, “não apenas a clínica é indissociável das políticas produtoras de modos de ser, pensar e agir no mundo, mas também o valor de verdade dos saberes instituídos é inseparável dos poderes em jogo na sua inserção cultural”.


REVISTA CONTEÚDO PSI, VOLUME II, N.1, 2020

QUATRO CONVERSAS COM W. R. BION autor:

Wilfred R. Bion Paulo Cesar Sandler

tradução:

ISBN: 9788521219156 – Blucher, 2020 – 86 p.

Em abril de 1976, um grupo composto de aproximadamente 25 pessoas, cujas atividades eram de residentes de psiquiatria, psicoterapeutas e psicólogos, reuniu-se por quatro vezes com Wilfred Ruprecht Bion, no Veterans Administration Hospital, em Brentwood, Los Angeles (Estados Unidos), com intervalos de uma semana. Cada reunião durou duas horas. O intuito:

conversar com Bion. Na função de editora, suprimi material já publicado e também passagens repetitivas das gravações magnetofônicas originais. Francesca Bion

Trecho da Introdução de Quatro conversas com W. R. Bion.


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Livros

MATRIZES MÍTICAS NA OBRA DE BION coordenadora:

Martha Maria de Moraes Ribeiro Andréa Ciciarelli Pereira Lima, Cláudia Fernanda Bianchi, Débora Agel Mellem, Lídia Neves Campanelli, Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro e Sônia Maria de Godoy organizadores:

ISBN: 9788521219217 – Blucher, 2020 – 292 p.

A função de um psicanalista se baseia na investigação que visa que o analisando transforme a relação com sua mente inconsciente, tantas vezes paralisada, imobilizada ou atormentada por fatores de origens diversas. Essa função cria um campo específico, o campo psicanalítico, em que atuamos. Bion teve a genialidade de propor inusitados meios de acesso a esse campo. Inusitados em função de nos oferecer a possibilidade de abrirmos mão de nossa racionalidade, pensamentos conscientes e lógicos, para adentrarmos um campo de sonho, do desconhecido, do inacessível. Desde que a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP) foi escolhida, durante o congresso internacional realizado em Milão, para sediar os estudos sobre a obra de Bion, iniciaram-se, com entusiasmo e efervescência entre seus membros, os estudos preparatórios para esse evento. A presente publicação refere-se ao estudo dos principais mitos que selecionamos, oferecendo subsídios à linguagem interpretativa, por meio de arranjos estéticos, em diferentes linguagens: poesia, música, imagens mentais, em busca de decifração nos enigmas, nos sonhos, nos terrores sem nome, fantasmas, entre outras questões. Em busca de preservar a pulsação entre os cinco momentos que constituíram as mesas, instaurou-se um movimento contínuo para que se preenchesse o tempo de uma apresentação a outra, atando as pontas entre elas. Assim, em todos os meios de comunicação da SBPRP, reuniões científicas, boletins, blogs etc., a presente história dos mitos e da psicanálise continuava a pulsar em ânimo e alma. A produção deste livro é o resultado de um valioso trabalho conjunto, que pôde acompanhar o caráter sequencial das cinco mesas mencionadas. Cada palestrante disponibilizou o texto escrito referente à sua fala. Após cada apresentação, uma pessoa do público foi convidada a escrever suas impressões sobre a experiência emocional que viveu durante o evento. A introdução do livro teve a colaboração do ilustre psicanalista Dr. Paulo Cesar Sandler; a quarta capa foi escrita pelo também ilustre psicanalista Dr. Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro, então presidente da SBPRP e coordenador-geral do Encontro Internacional Bion 2018. O corpo do livro contém os trabalhos dos componentes das mesas, seguidos dos comentários ocorridos a cada evento. Martha Maria de Moraes Ribeiro

Trecho do Prefácio de Matrizes míticas na obra de Bion.


REVISTA CONTEÚDO PSI, VOLUME II, N.1, 2020

INTERFACES DA PSICANÁLISE autor: Renato Mezan ISBN: 9788521218654 – Blucher, 2020 – 592 p.

“Cent fois sur le métier/ remets ton ouvrage”, diz um verso da Arte poética de Boileau, citado em algum lugar por Piera Aulagnier: métier como tear, numa referência à origem da palavra texto. Os fios que compõem este tecido são ideias, palavras, imagens, lembranças; e a trama que desenham é a de um pensamento se fazendo, às voltas com as dificuldades da prática clínica, da atividade acadêmica e do próprio trabalho de escrever – as faces do métier deste autor, agora no sentido de ocupação ou profissão. Faces, interfaces... imagens que remetem à geometria e à informática. Certamente não por acaso: na geometria, a razão humana descobriu seu poder de provar, o que serviu de modelo para a argumentação filosófica – mas também descobriu, ao estudar a proporção entre o lado e a diagonal do quadrado, que a irracionalidade habita o coração mesmo do que parece racional. Já a informática opera com um aparelho e com códigos, por meio dos quais signos, imagens e palavras se interpenetram constantemente. Que belas metáforas para a psicanálise! Também aqui, razão e desrazão convivem – na alma humana como no pensamento do analista, seja este clínico, seja teórico; também aqui, palavras e imagens se recobrem a todo momento, umas dando nascimento às outras, num processo de engendramento recíproco e de mútuo esclarecimento. Mas não forcemos demais a analogia. A psicanálise possui uma dimensão terapêutica, que é sua essência e sua razão de ser; mas possui também uma dimensão teórica, pois formula teses sobre o psíquico que pretendem ser verdadeiras, portanto passíveis de algum tipo de demonstração. Situa-se entre as disciplinas humanas, e, como todas elas, depende de fatores extracientíficos para se constituir e sobreviver. Esses fatores provêm do entorno social e cultural, de sorte que o não diretamente clínico faz igualmente parte dela, como pressuposto, como objeto ou como aresta de contato. Vale dizer que a teoria freudiana tem, como um rio, montante e jusante: a montante suas condições de possibilidade, a jusante suas aplicações na terapia e na crítica da cultura. Essa imagem também pode ser lida numa clave diacrônica: a montante, o passado da psicanálise, embutido inelutavelmente no seu presente; a jusante, as tarefas clínicas e éticas que se impõem aos que a praticam. Os artigos aqui reunidos espelham essa dupla visada, tentando situar nossa disciplina em vários contextos e compreender de que modo tais contextos se encontram, nela, transpostos e reconfigurados. Procurei mostrar isso ao longo de três eixos principais, que correspondem às três partes do livro: questões de história da psicanálise, os vínculos sutis que a unem ao entorno cultural e social, e os problemas atinentes ao seu ensino no ambiente universitário.

Trecho da Apresentação de Interfaces da psicanálise.


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