capa_Lebedenco_Resgate tipografico_P2.pdf 1 15/01/2022 21:02:01
Arquitetura pela Universidade de São Paulo, onde defendeu seu mestrado, seu doutorado e sua livre-docência. Foi coordenador do Curso de Design da FAUUSP e professor do Departamento de Projeto, atuando nos programas de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo e em Estética e História da Arte da USP. Foi curador de arte contemporânea da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo de 2009. Atuou como líder do grupo de pesquisa Design, Ambiente e Interfaces, assessor científico da Cambridge University Press e Bolsista de Pesquisa da UOL. É autor do livro Além das formas: introdução ao pensamento contemporâneo no design, nas artes e na arquitetura (Annablume) e de diversos artigos e ensaios sobre design e arquitetura.
Marcos Braga possui graduação em
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Priscila Farias, designer, é doutora e
mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, livre-docente pela FAUUSP, e bolsista PQ do CNPq. Atua como professora associada da FAUUSP e pesquisadora visitante em universidades brasileiras, americanas e europeias. Foi membro da diretoria da Associação dos Designers Gráficos (ADG) e presidente da Sociedade Brasileira de Design da Informação (SBDI). É editora do periódico científico InfoDesign e membra do comitê editorial de periódicos internacionais. Atualmente coordena o Laboratório de Pesquisa em Design Visual - LabVisual e o Programa de Pós-Graduação em Design. Publicou diversos artigos e livros sobre tipografia, semiótica e design, entre eles: Tipografia Digital (2ab), Visualizando Signos e Dez Ensaios sobre Memória Gráfica (Blucher).
Érico Lebedenco
Érico Lebedenco é mestre em Design pela Universidade Anhembi Morumbi e especialista em Tipografia pelo Centro Universitário Senac São Paulo. Foi membro da organização do encontro internacional de
O resgate tipográfico é uma prática tradicional na tipografia, mas pouco discutida no Brasil. Este livro aborda as características fundamentais, os limites conceituais e a relevância dessa prática no contexto latino-americano do design de fontes tipográficas digitais.
tipografia DiaTipo São Paulo, além de cocriador e apresentador do DiaCrítico – premiado canal de vídeos sobre design, com foco em tipografia. É designer de tipos, designer
RESGATE TIPOGRÁFICO
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Desenho Industrial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestre em Antropologia da Arte pela mesma universidade e doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é professor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da FAUUSP. É membro do corpo editorial de periódicos científicos no Brasil e no Chile. É autor de vários textos e livros organizados sobre história do design no Brasil, entre eles os premiados ABDI e APDINS-RJ: História das Associações Pioneiras de Design do Brasil, Dez Ensaios sobre Memória Gráfica (Blucher) e Histórias do Design de Minas Gerais (EdUEMG).
A Coleção Pensando o Design oferece textos relevantes para os estudos em design. De forma objetiva, séria e original, são abordados importantes temas dentro do largo espectro de atuação do design contemporâneo. A coleção busca levar informação e reflexão inovadora, principalmente ao público leitor da área acadêmica e científica, mas pretende, também, contribuir com o desenvolvimento na área profissional do design. O critério de seleção de obras para essa série se apoiou na qualidade e na inovação dos textos. Assim, alinhados com o perfil da coleção, encontramos obras de autores consagrados, e mesmo alguns iniciantes de grande potencial. A Coleção Pensando o Design apoia e divulga o resultado das principais investigações conduzidas por profissionais e grupos de pesquisa da área, em especial aquelas desenvolvidas no âmbito dos programas de pós-graduação.
Lebedenco
Carlos Zibel Costa formou-se em
gráfico e diretor de arte com experiência em escritórios de design, agências de propaganda e empresas de branding. Foi premiado em edições da Bienal Brasileira de Design Gráfico – ADG Brasil, participou do Concurso do Cartaz para a 32ª edição do Prêmio Design
RESGATE TIPOGRÁFICO DELIMITAÇÕES, CARACTERÍSTICAS E PRÁTICA NO DESIGN DE TIPOS Análise e produção de fontes digitais inspiradas no passado
MCB e obteve Menção Honrosa na 33ª edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. É docente no Istituto Europeo di Design (IED) e na Universidade Anhembi Morumbi, onde também foi responsável pela Oficina Tipográfica do curso Design Gráfico.
Coleção Pensando o Design Coordenação
Priscila Farias
Resgate Tipográfico Delimitações, características e prática no design de tipos
Érico Lebedenco
Resgate tipográfico: delimitações, características e prática no design de tipos © 2022 Érico Lebedenco Editora Edgard Blücher Ltda.
Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Jonatas Eliakim Produção editorial Lidiane Pedroso Gonçalves Preparação de texto Ana Lúcia dos Santos Projeto gráfico Priscila Lena Farias Diagramação Guilherme Henrique Revisão de texto Maurício Katayama Capa Leandro Cunha
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-012 – São Paulo – SP – Brasil
Lebedenco, Érico Carneiro Resgate tipográfico : delimitações, características e
Fax 55 11 3079 2707
prática no design de tipos / Érico Carneiro Lebedenco ;
Tel 55 11 3078 5366
coordenação de Priscila Farias. – São Paulo : Blucher, 2022.
contato@blucher.com.br
152 p. (Pensando o Design)
www.blucher.com.br Bibliografia ISBN 978-65-5506-098-0 (impresso) Segundo Novo Acordo Ortográfico, conforme 6. ed.
ISBN 978-65-5506-095-9 (eletrônico)
do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, julho de 2021.
1. Design 2. Projeto gráfico (Tipografia) I. Título II. Farias, Priscila
É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora.
Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
21-5682
CDD 745.4
Índices para catálogo sistemático: 1. Design
Conteúdo Resgatando tipos, recuperando memórias 9 Introdução 13 Delimitações e conceitos relevantes 19 1.1 Sobre a nomenclatura adotada 20 1.2 Resgate tipográfico no contexto do design 26 1.3 Contribuição para a memória tipográfica 33
Condições e características para o resgate tipográfico 39 2.1 Motivações para o resgate 39 2.2 Tecnologia, temporalidade e fidelidade 44 2.3 Considerações sobre a prática 55 2.4 Apropriação e ética 70
Amostras da produção latino‑americana 85 3.1 Critérios para o levantamento 85 3.2 Lagarto, de Gabriel Martínez Meave 88 3.3 Samba, de Tony de Marco e Caio de Marco 94 3.4 Espinosa Nova, de Cristóbal Henestrosa 100 3.5 Loreto, de Eduardo Rodríguez Tunni e Pablo Cosgaya 106 3.6 Legitima, de César Puertas 111 3.7 The Erbar Revival (dT Jakob), por tipos Gustavo Soares e Eduilson Coan 116
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Resgate tipográfico: delimitações, características e prática no design de tipos
Considerações finais 123 Referências 129 Índice remissivo 141
Delimitações e conceitos relevantes A crescente profissionalização do design de tipos no Brasil, a partir da primeira década do século XXI, e a maior articulação dos profissionais brasileiros no mercado internacional de fontes digitais (GOMES, 2010) favorecem a reflexão sobre as práticas profissionais e as bases teóricas no campo da tipografia. Todavia, Coelho (2008, p. 12) observa que “um campo do saber se delineia a partir da identificação de seus termos básicos, de seu jargão” e “de sua base discursiva”. O autor também reconhece que “não há disciplina que não identifique os seus termos operacionais” (2008, p. 12). Desse modo, qualquer área do design necessita de reconhecimento dos seus conceitos úteis e da identificação de um denominador terminológico comum para a evolução dos debates entre profissionais e pesquisadores. Como observa a designer e pesquisadora brasileira Priscila Farias (2004), mesmo que um certo grau de ambiguidade ou variedade de interpretação possa ser aceito na linguagem, o discurso científico implica a adoção de termos bem definidos, que evitem essa ambiguidade. A situação se agrava com a introdução de termos estrangeiros ao léxico profissional, dado que “design” é um termo emprestado do inglês, cujo significado pode variar, dependendo do seu uso. Diversos autores (FARIAS, 2004; ROCHA, 2012; STOLARSKI, 2005; VILLAS-BOAS, 2007) identificam motivos para essa problemática: a introdução tardia das técnicas de impressão no Brasil; a importação de uma cultura estrangeira de design durante o século XX; a consolidação das tecnologias digitais que utilizam termos principalmente em inglês; a confusão entre denominações para o campo de conhecimento, a atividade profissional e cargos funcionais; e a falta de consenso nas traduções e usos de estrangeirismos. O escritor e designer brasileiro André Villas-Boas (2007) ressalta que a ocorrência de divergências para denominações no design brasileiro não é um caso isolado, dando-se também em países que utilizam idiomas diferentes, como o espanhol, e até mesmo nos países de língua inglesa, com mais tradição no design.
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Resgate Tipográfico: delimitações, características e prática no design de tipos
Portanto, faz-se necessário um esclarecimento sobre a nomenclatura em língua portuguesa adotada para o tema – considerando-se traduções do inglês e do espanhol –, junto com definições de importantes termos da tipografia que são utilizados no seu entendimento. Quando necessário, as definições para outros termos desse campo são indicadas em notas de rodapé. 1.1 Sobre a nomenclatura adotada
O designer e tradutor André Stolarski (2005) observa que a “ausência de referências oficiais acessíveis sobre terminologia tipográfica em língua portuguesa” e a “inconsistência do uso desse vocabulário no Brasil” dificultam muito a tradução de obras de referência no campo da tipografia (STOLARSKI, 2005, p. 11). Entre as possíveis causas, o autor destaca a curta tradição tipográfica no país, o afastamento do saber específico na produção mecanizada das décadas de 1980 e 1990, e a poderosa imposição do uso de terminologia em inglês no cotidiano dos designers (2005, p. 12). Ao abordar a temática do resgate de fontes, o designer mexicano Gabriel Martínez Meave (2005) observa que o termo mais utilizado internacionalmente para a sua identificação é o inglês type revival, adotado em diversas publicações de tipografia (KELLY, 2011; LO CELSO, 2000; POHLEN, 2011; SHAW, 2017; TRACY, 1986). Ainda que alguns autores de língua inglesa (MORISON, 1973; UPDIKE, 1922; KINROSS, 2004) utilizem diferentes nomes ou variações para abordar o assunto, essa nomenclatura é o ponto de partida oportuno para estabelecer uma terminologia apropriada em português. Em determinado ponto, também se avaliará uma correlação com o termo equivalente em língua espanhola, rescate tipográfico, devido à ocorrência de publicações que citam ou abordam o tema nesse idioma (ARES, 2016; GUERRERO; D’ANGELO, 2017; HENESTROSA, 2005; MEAVE, 2003). Se, por um lado, a prática estudada apresenta um nome consolidado em inglês, por outro, não há um consenso na produção bibliográfica brasileira sobre o termo correto para a sua identificação em língua portuguesa. Os autores brasileiros da área do design atribuem-lhe vários nomes, que possuem sutis diferenças de significado. O designer e professor universitário Ricardo Esteves Gomes (2010) utiliza, na mesma publicação,
Delimitações e conceitos relevantes
o termo resgate histórico para citar uma das motivações para a criação de fontes digitais; e o estrangeirismo revival para comentar sobre os aspectos dos processos analógicos de impressão simulados digitalmente nas fontes. Do mesmo modo, a designer e pesquisadora Fátima Finizola (2010) ocasionalmente se utiliza do termo revival, mas comenta o tema abordando-o como uma variação da apropriação em caráter histórico. Na tradução do livro Contrapunção – fabricando tipos no século dezesseis, projetando tipos hoje, do escritor e designer de tipos neerlandês Fred Smeijers (2015), o designer brasileiro Gustavo Ferreira também opta por manter a expressão inglesa revival. Por sua vez, o escritor e designer brasileiro Claudio Rocha (2012) indica que projetos de novas fontes podem ser direcionados ao passado da tipografia, com o resgate ou a releitura de antigas formas. Outros autores e tradutores (BOMENY, 2010; FARIAS, 2001; NAZARIAN, 2011) não determinam nomenclaturas específicas para o tema, porém, utilizam expressões como reinterpretação, recuperação, retomada ou revitalização de formas tipográficas preexistentes. Cardoso (2016) adverte sobre o perigo de serem trazidos temas do design para a língua portuguesa, devido à multiplicidade de significados contidos nas palavras. Considerando-se o termo em inglês, faz-se necessário compreendê-lo corretamente para, em seguida, propor uma nomenclatura apropriada em português. A expressão type revival é composta por duas palavras, e, por isso, conveio iniciar-se a análise por desmembrar o termo. Serão considerados os significados desses dois vocábulos separadamente no seu idioma original, para, em seguida, conseguir-se compreendê-los como uma unidade. Dentre as definições dicionarizadas para type, consta a sua denotação mais evidente, relacionada com os caracteres impressos ou letras (WAITE, 2012). Entretanto, esse vocábulo também apresenta funções enquanto verbo, indicando a ação de digitar ou datilografar informações com um teclado alfanumérico. Soma-se a essa palavra uma função, enquanto radical linguístico, que altera o significado ou o enfoque de outra palavra com a qual é combinada. Seu uso incorpora novas conotações, produzindo uma delimitação semântica de área, atuação ou campo de atividade, como em type cast, typeface, type size, type design e type designer.1 Nesse sentido, essa análise alinha-se com as observações de Stolarski (2005), ao ressaltar que, em inglês, o termo type pode
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1 Fundição de tipos, tipo ou face do tipo, tamanho do tipo, design de tipos e designer de tipos (BRINGHURST, 2005).
Condições e características para o resgate tipográfico No que diz respeito à prática do resgate tipográfico entre os designers, observam-se diferenças significativas em relação às abordagens projetuais e aos entendimentos que essa atividade representa na tipografia. As informações coletadas diretamente com designers de tipos brasileiros e de outras nacionalidades, por meio de entrevistas realizadas no âmbito da pesquisa deste livro, em conjunto com os dispersos dados obtidos na bibliografia do campo, revelam um agrupamento de questões e métodos que flexibilizam os limites dessa prática, ao mesmo tempo que se identifica uma tradição que segue convenções estabelecidas pela reverência aos pioneiros da tipografia. Também são reconhecidos novos paradigmas pelo confronto desses mesmos postulados com as amplas possibilidades existentes no suporte digital contemporâneo. Neste capítulo, evidenciam-se os aspectos relevantes para a compreensão dos resgates, principalmente sob um viés profissional dessa prática. 2.1 Motivações para o resgate
Diversas contribuições para o tema sinalizam a existência de designers com perfis diferentes que demonstram interesse por essa prática. Em entrevista de 2018, Shaw (2018) observa que muitos são movidos por uma sensação de nostalgia ou afetividade por determinadas soluções históricas. Também, afirma que o estudo de alguns tipos pode atender a demandas específicas de função ou continuidade de uso (na comunicação de uma empresa, por exemplo), e ainda que designers podem fazer o resgate com uma orientação de ganho monetário ou como estratégia de aprendizado em design de tipos. (LEBEDENCO, 2019, p. 147). Downer (1996) identifica, principalmente, dois grupos distintos de indivíduos que realizam resgates tipográficos:
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Resgate Tipográfico: delimitações, características e prática no design de tipos
o primeiro é composto por jovens designers, muitas vezes inexperientes, que encaram a atividade como uma oportunidade para o aprimoramento técnico, desenvolvendo a percepção e a habilidade no desenho de tipos com base em modelos históricos; e o segundo é formado por profissionais experientes, como Matthew Carter, Jonathan Hoefler, Fred Smeijers e tantos outros que desenvolvem projetos de resgate tipográfico como uma forma de homenagear grandes figuras do passado ou como uma estratégia comercial. Em entrevistas cedidas em 2018, o designer e pesquisador argentino Pablo Cosgaya e o designer brasileiro Gustavo Soares reconhecem a adaptação tecnológica de tipos como uma resposta à necessidade mercadológica de continuidade. De um ponto de vista empresarial, fornecedores de tipos querem manter constante a demanda pelos seus acervos, independentemente das mudanças de técnicas e equipamentos usados profissionalmente. Gerry Leonidas (2018) designer grego e diretor do curso de mestrado Communication Design/Typeface design e outros, da Universidade de Reading no Reino Unido, salienta que a familiaridade cultural dos leitores com modelos de letras consolidados pelo uso é um fator decisivo que favorece essa continuidade na tipografia (LEBEDENCO, 2019). É possível recordar que, durante as primeiras décadas do século XX, a Monotype foi pressionada por muitos dos seus consumidores para a criação de “imitações” de tipos populares e bem conhecidos. Com a liderança de Stanley Morison, a equipe da empresa iniciou um significativo empreendimento para o desenvolvimento de inúmeros resgates tipográficos baseados em arquétipos originados no Renascimento (BIGELOW; SEYBOLD, 1981). Com o tempo, esse tratamento se tornou comum entre profissionais do ramo. Cosgaya observa que um mesmo tipo histórico pode motivar a criação de novas versões proprietárias, como as versões Garamond Simoncini, ATF Garamond, ITC Garamond e Stempel Garamond, referentes aos impressos produzidos com tipos móveis a partir das matrizes de Claude Garamond (LEBEDENCO, 2019). O designer também reconhece que a reinterpretação de um tipo para novas tecnologias pode apresentar contornos de homenagem a um período da história ou a um profissional do passado que seja relevante para uma comunidade (conferir os projetos Loreto e Espinosa apresentados no Capítulo 3).
Condições e características para o resgate tipográfico
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A reverência pelas criações que antecedem os designers de tipos atuais é percebida é relatada pelo designer japonês Toshi Omagari em entrevista cedida em 2018 ao abordar o seu trabalho com o acervo da empresa Monotype: No meu caso, temos um enorme catálogo de tipos e sinto que tenho uma responsabilidade no meu ombro para manter a biblioteca. Se você é o proprietário legal dos designs originais, então acredito que é esperado que você faça a versão mais autêntica. Nós temos o arquivo no qual eu posso pesquisar através de 130 anos de desenhos de tipos, e não é somente muito divertido apenas dar uma olhada, como é muito excitante ver belos designs que nós esquecemos (LEBEDENCO, 2019, p. 131).
Ainda que a atividade exija zelo ao lidar-se com designs criados por terceiros e, muitas vezes, carregados de prestígio, o designer italiano Michele Patanè e o brasileiro Gustavo Soares reconhecem igualmente que o estudo de aspectos estéticos do passado pode mostrar-se uma atividade prazerosa, inspirando novos projetos. Omagari admite que a consulta ao grande catálogo histórico da Monotype também possibilita o encontro de certos projetos que podem atender a necessidades atuais identificadas no mercado. Patanè observa que a reflexão acerca de soluções interessantes para problemas contemporâneos consequentemente possibilita um retorno financeiro significativo para a foundry10 ou designer de tipos que realiza o resgate (LEBEDENCO, 2019, p. 144-145). Em entrevista de 2018, o designer de tipos britânico Ron Carpenter destaca que o apelo comercial existente para determinados tipos é a principal motivação para o desenvolvimento profissional dessa prática, mas reconhece que a atividade do resgate oferece uma importante introdução aos processos do design de tipos para jovens estudantes e uma familiarização com as formas dos caracteres tipográficos. É uma oportunidade para que aprendam a desenhar tipos com base em uma investigação histórica, considerando-se análises morfológicas de letras e símbolos contidos na produção de um reconhecido artífice ou que são representativos de estilo histórico específico (LEBEDENCO, 2019). Constata-se que essa prática apresenta um importante papel na formação do designer de tipos pela sua reconhecida adoção
10 O termo em inglês foundry, ou de modo completo type foundry, é a empresa na qual se criam fontes. A expressão é mantida como tradição de uma época em que os tipos eram produzidos em metal. Pode ser traduzido como “fundição de tipos”.
Amostras da produção latino ‑americana A adoção de tecnologias digitais no design no final do século XX permitiu a aproximação técnica dos países da América Latina com as produções europeias e estadunidenses no design de tipos. Com isso, nas primeiras décadas do século XXI, ocorreu uma crescente produção de fontes digitais por designers locais, em conjunto com o aumento significativo de estudos e iniciativas de fomento da tipografia (GOMES, 2010; CONSOLO, 2013; LAMÓNACA, 2013). Nessa circunstância, observa-se que a prática do resgate tipográfico ainda é pouco explorada na região, embora seja perceptível em diversos países com cultura de tipografia. Isso justifica o enfoque no design de tipos latino-americano. Para um melhor entendimento dos critérios utilizados no levantamento e análise das amostras, descreve-se a seguir quais foram os aspectos considerados na escolha dos projetos, para posteriormente apresentar as características gerais de cada resgate, com suas contribuições para o entendimento do fenômeno. 3.1 Critérios para o levantamento
Para a definição dos resgates tipográficos selecionados e a realização das análises utilizou o método de estudo de caso (SANTOS et al., 2018), no qual se observaram alguns critérios. Além da restrição geográfica para a escolha dos projetos, considerando-se os países americanos com idioma de matriz latina, buscou-se avaliar a disponibilização de informações consistentes sobre o processo de desenvolvimento do tipo produzido por cada designer ou fundidora, por meio de publicações, artigos, registros de palestras, memoriais descritivos ou outros documentos. Também decidiu-se que a natureza dos originais estudados pelos designers de tipos poderia ser mista, considerando tipos e matrizes originais,
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34 Os critérios adotados na seleção dos casos de resgate tipográfico proporcionaram uma amostra significativa para o entendimento das abordagens de design utilizadas por designers latino-americanos. Todavia, trabalhos relevantes no Brasil foram excluídos por carecerem de informações documentadas ou de distribuição comercial, ainda que alguns tenham sido reconhecidos em importantes eventos de design, como a Bienal Brasileira de Design Gráfico da ADG Brasil ou a Bienal Tipos Latinos. Alguns deles são: Isidora (figura 3.2), de Laura Lotufo; Gaspar Italic, de Érico Lebedenco; Bonde, de Álvaro Franca; Graúna, de Gabriel Figueiredo; e Rudolf Titling, de Lucas Franco e Claudio Rocha.
Resgate Tipográfico: delimitações, características e prática no design de tipos
caracteres impressos, desenhos originais, letreiramentos presentes em impressos comerciais, caligrafias em documentos manuscritos ou reproduzidos em manuais, e outras possibilidades que se adequam aos parâmetros identificados na investigação. Além disso, os temas, modelos de letras, tipos ou documentos estudados em cada projeto poderiam ser de outros contextos geográficos, contanto que os designers responsáveis diretamente pelos trabalhos de resgate tivessem nacionalidades de países da América Latina. Por fim, determinou-se que todos os tipos resultantes seriam, obrigatoriamente, fontes digitais distribuídas comercialmente por meio de plataformas de venda on-line (MyFonts, Fontshop, Creative Market, Adobe Fonts ou outras) ou pelos websites dos próprios designers ou fundidoras responsáveis pelos projetos (mediante sistema de e-commerce ou contato direto). Mesmo que a produção de fontes digitais seja razoavelmente distribuída pelos países americanos de língua espanhola e portuguesa (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua, Peru, Uruguai e Venezuela, países participantes das Bienais Tipos Latinos), as principais iniciativas de resgate foram identificadas no México, no Brasil, na Argentina e na Colômbia (figura 3.1). Com base nos critérios anteriormente expostos, seis projetos foram selecionados para análise. Do México, foram selecionados Lagarto, de Gabriel Martínez Meave, lançado pela sua Kimera Type Foundry; Espinosa (Nova), de Cristóbal Henestrosa, pelo Estudio CH. Do Brasil; Samba, dos irmãos Tony de Marco e Caio de Marco, pela Just in Type/Linotype; e The Erbar Revival (dT Jakob), de Gustavo Soares (e Eduilson Coan), publicado pela dooType. Já da Argentina, Loreto, de Pablo Cosgaya e Eduardo Rodríguez Tunni, pela Tipo; enquanto da Colômbia foi selecionado Legitima, de César Puertas, lançado pela sua fundidora Tipograma.34 É importante destacar que a intenção não era realizar um amplo estudo cultural, mas apresentar somente um recorte significativo da produção de profissionais latino-americanos de design. Para cada um dos resgates tipográficos selecionados, foram levantadas informações sobre os designers responsáveis pelo projeto – sua formação acadêmica e experiência profissional –, e acerca do período de criação do trabalho. Foram estabelecidas as datas de desenvolvimento de projetos acadêmicos, de seu lançamento como fontes comerciais, e também aquelas de ampliação ou revisão de projeto.
Amostras da produção latino-americana
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lAGARto Gabriel Martínez Meave - 2001 Luis Lagarto - 1589 méxIco
eSpInoSA (novA)
SAmBA
Cristóbal Henestrosa - 2010 Antonio de Espinosa - 1554
Tony de Marco e Caio de Marco - 2003 J. Carlos - anos 1920
colômBIA
BRASIl
leGItImA César Puertas - 2009 ? - 1695
the eRBAR RevIvAl (dt jAkoB) ARGentInA
Gustavo Soares - 2007 com Eduilson Coan - 2017 Jakob Erbar - anos 1920
loReto Eduardo Rodriguez Tunni e Pablo Gosgaya - 2009 ? - 1721
Figura 3.1 Mapa da América Latina com indicação dos projetos de resgate tipográfico selecionados para análise, designer responsável, ano de lançamento da fonte, autor e ano de referência dos desenhos originais.
Figura 3.2 Amostra de caracteres da família tipográfica Isidora, de Laura Lotufo. Imagem reproduzida de Lotufo (2010, p. 1).
Tomando por base a documentação que descreve cada projeto, foram identificados os temas principais no âmbito da cultura regional, histórica e da tipografia, com suas eventuais correlações – considerando-se aspectos conceituais, técnicos e metodológicos. Narrativas estruturadas a respeito de cada um dos resgates tipográficos selecionados foram elaboradas contemplando as principais etapas de seu processo de criação. Nessas narrativas, foram expostas as informações gerais do projeto; em seguida, o contexto histórico dos caracteres estudados; e, posteriormente, as características materiais e técnicas
capa_Lebedenco_Resgate tipografico_P2.pdf 1 15/01/2022 21:02:01
Arquitetura pela Universidade de São Paulo, onde defendeu seu mestrado, seu doutorado e sua livre-docência. Foi coordenador do Curso de Design da FAUUSP e professor do Departamento de Projeto, atuando nos programas de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo e em Estética e História da Arte da USP. Foi curador de arte contemporânea da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo de 2009. Atuou como líder do grupo de pesquisa Design, Ambiente e Interfaces, assessor científico da Cambridge University Press e Bolsista de Pesquisa da UOL. É autor do livro Além das formas: introdução ao pensamento contemporâneo no design, nas artes e na arquitetura (Annablume) e de diversos artigos e ensaios sobre design e arquitetura.
Marcos Braga possui graduação em
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Priscila Farias, designer, é doutora e
mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, livre-docente pela FAUUSP, e bolsista PQ do CNPq. Atua como professora associada da FAUUSP e pesquisadora visitante em universidades brasileiras, americanas e europeias. Foi membro da diretoria da Associação dos Designers Gráficos (ADG) e presidente da Sociedade Brasileira de Design da Informação (SBDI). É editora do periódico científico InfoDesign e membra do comitê editorial de periódicos internacionais. Atualmente coordena o Laboratório de Pesquisa em Design Visual - LabVisual e o Programa de Pós-Graduação em Design. Publicou diversos artigos e livros sobre tipografia, semiótica e design, entre eles: Tipografia Digital (2ab), Visualizando Signos e Dez Ensaios sobre Memória Gráfica (Blucher).
Érico Lebedenco
Érico Lebedenco é mestre em Design pela Universidade Anhembi Morumbi e especialista em Tipografia pelo Centro Universitário Senac São Paulo. Foi membro da organização do encontro internacional de
O resgate tipográfico é uma prática tradicional na tipografia, mas pouco discutida no Brasil. Este livro aborda as características fundamentais, os limites conceituais e a relevância dessa prática no contexto latino-americano do design de fontes tipográficas digitais.
tipografia DiaTipo São Paulo, além de cocriador e apresentador do DiaCrítico – premiado canal de vídeos sobre design, com foco em tipografia. É designer de tipos, designer
RESGATE TIPOGRÁFICO
M
Desenho Industrial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestre em Antropologia da Arte pela mesma universidade e doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é professor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da FAUUSP. É membro do corpo editorial de periódicos científicos no Brasil e no Chile. É autor de vários textos e livros organizados sobre história do design no Brasil, entre eles os premiados ABDI e APDINS-RJ: História das Associações Pioneiras de Design do Brasil, Dez Ensaios sobre Memória Gráfica (Blucher) e Histórias do Design de Minas Gerais (EdUEMG).
A Coleção Pensando o Design oferece textos relevantes para os estudos em design. De forma objetiva, séria e original, são abordados importantes temas dentro do largo espectro de atuação do design contemporâneo. A coleção busca levar informação e reflexão inovadora, principalmente ao público leitor da área acadêmica e científica, mas pretende, também, contribuir com o desenvolvimento na área profissional do design. O critério de seleção de obras para essa série se apoiou na qualidade e na inovação dos textos. Assim, alinhados com o perfil da coleção, encontramos obras de autores consagrados, e mesmo alguns iniciantes de grande potencial. A Coleção Pensando o Design apoia e divulga o resultado das principais investigações conduzidas por profissionais e grupos de pesquisa da área, em especial aquelas desenvolvidas no âmbito dos programas de pós-graduação.
Lebedenco
Carlos Zibel Costa formou-se em
gráfico e diretor de arte com experiência em escritórios de design, agências de propaganda e empresas de branding. Foi premiado em edições da Bienal Brasileira de Design Gráfico – ADG Brasil, participou do Concurso do Cartaz para a 32ª edição do Prêmio Design
RESGATE TIPOGRÁFICO DELIMITAÇÕES, CARACTERÍSTICAS E PRÁTICA NO DESIGN DE TIPOS Análise e produção de fontes digitais inspiradas no passado
MCB e obteve Menção Honrosa na 33ª edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. É docente no Istituto Europeo di Design (IED) e na Universidade Anhembi Morumbi, onde também foi responsável pela Oficina Tipográfica do curso Design Gráfico.