Os muitos nomes de Silvana poderiam ser “os muitos nomes” de Maria, Paula, Conceição, entre outros. Essas personagens, apesar de terem diferenças identitárias e históricas, têm algumas caractecercar, numa abordagem da Psicanálise em interface com a História, a Sociologia e a Antropologia, essas características e buscar a difícil e quase impossível explicação sobre os caminhos obtusos e sinuosos do silenciamento da “cor” nas pesquisas psicanalíticas. A leitura não deixa dúvida sobre a representação destas mulheres no imaginário coletivo de uma sociedade racista como a brasileira. O consciente e o inconsciente, o dito e o não-dito se misturam em nosso cotidiano, como se formassem um iceberg cuja ponta podemos enxergar a olho nu, mas não a parte mais profunda que exige as ferramentas de uma análise psicanalítica.
– Kabengele Munanga
PSICANÁLISE
psicanálise, sua posição ou seus operadores, quem afirma essa insubordinação são as pessoas. O
Os muitos nomes de Silvana
trabalho deste livro é o encontro
Contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras
recupera, com afeto e justeza, as
com as contradições da casa grande, que agem no conforto de suas poltronas. Ana Musatti intelectuais pretas dentro e além da que o tema, ainda oportuno, é uma denúncia vazia. Em um texto rigoroso e poético, testemunhamos o ato analítico e político da escuta de uma pesquisadora e analista que aponta os marcadores de estrangeiridades de gênero, de raça e de classe. Musatti aponta para a radicalidade da psicanálise,
série
PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA Coord. Flávio Ferraz PSICANÁLISE
Ana Paula Musatti-Braga
Por mais subversiva que se diga a
psicanálise. Engana-se quem pensa
rísticas em comum: são mulheres, pobres e negras. A autora tenta
Os muitos nomes de Silvana
Psicanalista, educadora da Arco-Escola Cooperativa. É doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e membro do Laboratório Psicanálise Sociedade e Política da mesma instituição, desde 2004. Autora de vários artigos e capítulos de livros dos quais se destacam: “Articulações entre psicanálise e negritude: desamparo discursivo, constituição subjetiva e traços identificatórios” (2017) e “Escutando os subterrâneos da cultura: racismo e suspeição em uma comunidade escolar” (2018), ambos em parceria com Miriam Debieux; e “Racismo e sexismo: desafios da constituição psíquica de mulheres negras e homens negros”, em parceria com Priscilla Santos de Souza, do livro As escritas do Ódio: psicanálise e política (Escuta, 2018).
Musatti-Braga
Ana Paula Musatti-Braga
que aposta no devir de uma nova humanidade.
Priscilla Santos de Souza
OS MUITOS NOMES DE SILVANA Contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras
Ana Paula Musatti-Braga
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Os muitos nomes de Silvana: contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras © 2021 Ana Paula Musatti-Braga Editora Edgard Blücher Ltda. Série Psicanálise Contemporânea Coordenador da série Flávio Ferraz Publisher Edgard Blücher Editor Eduardo Blücher Coordenação editorial Jonatas Eliakim Produção editorial Lidiane Pedroso Gonçalves Preparação de texto Maurício Katayama Diagramação Negrito Produção Editorial Revisão de texto Ana Lúcia dos Santos Capa Laércio Flenic Imagem da capa iStockphoto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Rua Pedroso Alvarenga, 1245, 4o andar 04531-934 – São Paulo – SP – Brasil Tel.: 55 11 3078-5366 contato@blucher.com.br www.blucher.com.br Segundo o Novo Acordo Ortográfico, conforme 5. ed. do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, março de 2009. É proibida a reprodução total ou parcial por quaisquer meios sem autorização escrita da editora. Todos os direitos reservados pela Editora Edgard Blücher Ltda.
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Braga-Musatti, Ana Paula Os muitos nomes de Silvana : contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras / Ana Paula Musatti-Braga. – São Paulo: Blucher, 2021. 390 p. (Psicanálise Contemporânea / coord. de Flávio Carvalho Ferraz) Bibliografia ISBN 978-65-5506-208-3 (impresso) ISBN 978-65-5506-206-9 (eletrônico) 1. Mulheres e psicanálise. 2. Negras. 3. Discriminação social. 4. Feminilidade. 5. Racismo. I. Título. II. Ferraz, Flávio Carvalho. III. Série 21-2063
CDD 616.8917 Índice para catálogo sistemático: 1. Psicanálise
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Conteúdo
Prefácio – Sobre mulheres negras: uma posição psicanalítica
13
Referências 21
Apresentação 23 Introdução 27 Os muitos nomes de Silvana 27 Quando os muitos nomes viram um
33
Uma mulher entre muitas mulheres: muitas histórias e uma só cor
39
1. Sandra: sobre a invisibilização das mulheres negras brasileiras 53 Invisibilização e desaparecimento social: subexposição e superexposição
55
O negro no mundo dos brancos: produção do branqueamento e da branquitude
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Branqueamento como política de Estado
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conteúdo
Branquitude e o discurso sobre o desejo de branquear
72
O silêncio da psicanálise sobre a negritude e a condição social: autores incolores e daltonismo nas pesquisas 75 Psicanalistas negras esquecidas e silenciadas: apagamentos sucessivos de uma mesma cor 81 O segredo de Virgínia Bicudo
84
Neusa Souza e o ser negro como um vir a ser
90
Lélia Gonzalez: enegrecendo o feminismo
94
2. Sônia: uma história escravizada e seus rastros
99
O escravismo e a tentativa de “passar em branco”
106
Produção dos sem-raízes e sem-história
110
A queima de arquivos
112
A história oficial: o mito da harmonia racial Mestiço como símbolo nacional: sincretismo cultural e exclusão social
117 119
Feijoada: da metáfora da mestiçagem às marcas de resistência 121 Vestígios da insurgência: Sônia e a casa com muita gente
3. Suzana e o retorno das algemas
126
135
Eu pareço suspeito?
139
A pobreza no Brasil tem cor
141
Criminalização da miséria e do conflito: encarceramento e genocídio 145 Primeiro prende, depois julga
148
Reaja ou será morto!
154
Sobrevivendo no inferno
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ana paula musatti-braga
4. Selma: sobre a servidão, o racismo e o sexismo
11
169
Projeto da santa-mãezinha no Brasil colonial
172
Das escravas amas de leite às babás
175
A mãe preta e o pretuguês
175
Função materna e corpo erógeno
185
Babás e a maternidade transferida
189
Criadas de ontem e de hoje
197
Mucamas 198 A doméstica e a mulata: entre a servidão e o ícone da mulher brasileira 203 Retorno do insuportável: racismo e a outra face do servil
221
A dica de Fanon: o negro como o não eu
226
O estranho como o mais íntimo
231
Contribuições da psicanálise a respeito do racismo
236
A calma de olhar
239
5. Sofia e o tornar-se uma mulher negra
243
Mãe é tudo igual, mas depende do endereço
244
A mãe, a mulher e a puta na psicanálise freudiana e algumas dicas de Lacan
258
O erótico na bibliografia psicanalítica sobre as mulheres negras
266
O branco como Ideal: espelhamento e identificação
269
Mais além do espelho: o não identificável e não assimilável
290
O gozo invejado e suas consequências: retomando Isildinha Nogueira, Neusa Souza e Tiago Reis Filho
295
As mulheres negras como heteridade
310
Sofia e sua saída singular: nem só mãe, nem necessariamente puta 322
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conteúdo
Entre folhas e chás, candomblé e pedagogia
6. Considerações finais
323
335
Referências 361
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Prefácio – Sobre mulheres negras: uma posição psicanalítica
Aviso aos leitores: atenção, este livro pode gerar incômodo! Este livro, Os muitos nomes de Silvana: contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras, apresenta uma tese, no sentido radical do termo: é uma tomada de posição da psicanalista e pesquisadora Ana Paula Musatti-Braga, nas perspectivas teórica, clínica, social e ética, sobre o que opera, silencia, angustia e transita no laço social quando se trata das relações raciais, particularmente com as mulheres negras. Posição ancorada em extensa pesquisa bibliográfica e na escuta psicanalítica na escola, na casa, na rua, na cidade. Escutas realizadas na cidade de São Paulo, Brasil, mas as vozes que se pronunciaram atravessam lugares e tempos – atravessam os muros entre as classes sociais, entre negros e brancos, homens e mulheres; atravessam os muros da academia e do método – psicanálise, sociologia, história, geografia etc.; atravessam os países, as escolas, as casas, as cadeias; atravessam o tempo das gerações, da transmissão, o passado
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Apresentação
Este livro, originado de minha tese de doutorado, é o resultado de muitos encontros. Para fazer o percurso aqui relatado, tão estrangeiro a mim mesma e, em certo sentido, soterrado em minha história por décadas, foi necessário que eu encontrasse muitos parceiros de jornada. Em 2004, o encontro com Miriam Debieux e com o grupo do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política, da Universidade de São Paulo (naquela época ainda com outro nome, mas já com uma clara posição clínico-política), foi determinante, pois marcou minha clínica e minha escuta daí em diante; ela bem sabe da minha admiração, mas reitero aqui a minha gratidão. Também em 2004, graças à abertura de Ana Elisa Siqueira, pude iniciar meu trabalho na escola municipal em que ela é diretora e, nesse espaço, aproximar-me de sua comunidade – o que acabou por definir o tema da minha pesquisa de doutorado. Meu encontro com minha entrevistada foi o maior responsável pelo meu interesse na temática racial; a ela agradeço por ter me concedido seu depoimento com a paciência necessária para que eu pudesse escutá-lo. Durante a pesquisa, a disponibilidade da Marieta Madeira e
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Introdução
Uma vez que foi Silvana a maior responsável pelas feições e rumos deste livro, não seria possível começar de outro modo que não apresentando-a, por meio de seus muitos nomes. Trata-se de tentar reproduzir, aqui, o modo como também fui me aproximando dela: mais buscando ouvir e elencar detalhes do que tentando compor um todo que os comportaria.
Os muitos nomes de Silvana Conheci Sandra em 2009, durante uma reunião em uma escola municipal onde trabalhei por sete anos, encontro de que fizeram parte, além dela e seu filho (de 16 anos), três educadoras da escola e eu, como psicanalista do Grupo de Estratégias em Educação. Sandra escutou atenta e pacientemente o que lhe diziam sobre seu filho: que ele intimidava os outros e não estava fazendo o que era proposto como atividade pedagógica. Simplesmente respondeu que esse caminho não havia sido ela quem tinha traçado para o
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1. Sandra: sobre a invisibilização das mulheres negras brasileiras
O sindicato dos lojistas dirigiu um ofício ao delegado da Segurança Pessoal, pedindo providências para o trânsito de pessoas pela rua Direita, sábado e domingo, especialmente com relação às pessoas de cor . . . Acham feio aquele desfile de negros no centro, que constitui a única manifestação da presença do negro em São Paulo (senhor negro entrevistado por Virgínia Bicudo, década de 1940).1 Nas lojas da cidade, quando a gente entra para comprar alguma coisa, só é atendida depois de muito esperar (mulher negra entrevistada por Virgínia Bicudo, década de 1940).2 Vivo isolado de certas situações sociais, e assim acontece com todos os negros de minha classe – acham-se afastados
1 Caso nº 8 (Bicudo, 2010, p. 75). 2 Caso nº 6 (Bicudo, 2010, p. 71).
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sandra
de certos aspectos da vida social (senhor negro entrevistado por Virgínia Bicudo, década de 1940).3 A pessoa vai se esforçar o resto da vida para permanecer invisível, não porque é uma coisa que ela quer se blindar, ela quer se tornar invisível para não ser agredida (Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, rapper, 2014).4 Durante uma de suas sessões, desesperada . . . chorando, dizia que não conseguia mais parar de emagrecer . . . Era evidente que esse emagrecimento todo representava uma vontade inconsciente de desaparecer, de “dar sumiço” em seu “corpo negro” (Isildinha Nogueira, psicanalista, dé cada de 1990).5 . . . ela [mulher negra] não está na capa das revistas, ela não está na capa da Crescer – revista de bebezinho – não têm bebezinhos negros; depois, não está na capa da Playboy . . . Ela não está na revista de moda, ela não está na revista de cabelos (Daniela Gomes, jornalista, 2013).6 O que há em comum entre esses depoimentos, tão díspares quanto ao momento histórico e à situação em que foram pronunciados, tão diversos em relação ao contexto em que vieram a público? 3 Caso nº 8, senhor negro, de “classe social intermediária”, segundo a autora (Bicudo, 2010, p. 75). 4 Recuperado de http://ponte.org/quando-voce-chama-a-pessoa-de-macaco-voce-esta-jogando-toda-a-humanidade-dela-no-lixo/. 5 Nogueira (1998, p. 162). 6 Depoimento no documentário 25 de julho – Feminismo negro contado em primeira pessoa. Recuperado de www.youtube.com/watch?v=J6ev2V-Ee3U.
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2. Sônia: uma história escravizada e seus rastros
Faltou. Os professores sempre tiveram uma coisa de perguntar: “fale um pouco sobre sua família e sua mãe”. Eu já falava: “faltou saber quem era ela”. (Sônia, 2014) Da família da minha mãe sei pouco. Fez falta não conhecer, na hora que perguntavam, eu não sabia. (Sônia, 2014) Esses são dois trechos de uma mesma entrevista com Sônia. Foram pronunciados no mesmo dia, mas em momentos diferentes. O primeiro foi uma resposta à minha pergunta de como se sentia na escola; o segundo, a uma pergunta sobre a origem de sua família. Sônia insiste na palavra, faltou, possivelmente porque é a algo fundamental que está se referindo. Faltou sua mãe, fez falta não conhecer sua mãe, faltou saber quem era ela. Essa fala de Sônia será o disparador para abordar sua inscrição no discurso hegemônico sobre a história dos negros brasileiros e sua capacidade de resistência a ele. Não dá para pensar a vida dos
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sônia
negros que foram escravizados e de seus filhos, netos, bisnetos, trinetos... – os afrodescendentes – sem fazer um trajeto que problematize o apagamento da memória sobre o período escravista e a construção de uma história que o encobriu, com o mito de uma harmonia racial e de um sincretismo cultural no Brasil. A invisibilização e a superexposição, trabalhadas no capítulo anterior como experiências com os quais os negros brasileiros teriam de se haver no seu cotidiano, estão totalmente imbricadas com um silenciamento de suas vozes na construção de uma história das relações sociais durante o período escravista e após ele. A nossa escravidão não só marcou os que foram escravizados, com os ferros em brasa, para que fossem identificados para venda, mas, sem dúvida, marcou-os por gerações com o discurso que os identificava como sujeitos passivos socialmente, incapazes de qualquer ação política consequente, promíscuos sexualmente, destituídos de laços afetivos familiares e comunitários.1 A fala de Sônia vai nos auxiliar na discussão do que pode significar estar inscrito em uma história que foi, ela própria, escravizada. Não conheci minha mãe, quando faleceu eu era bebê, tinha meu irmão e os outros dois morreram. Era uma negra muito bonita, mas não conheci, nunca vi uma imagem. Meu pai e minha avó diziam: “você é a cara dela”. Me olho no espelho e acho parecida, pelo que os
1 Vale ressaltar, como um importante instrumento para modificação deste quadro, a Lei nº 10.639, de 2003, que tornou obrigatório na rede de ensino fundamental e médio, oficial e particular, o estudo da História e Cultura Afro-Brasileira, posteriormente alterada pela Lei nº 11.645, de 2008, que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Recuperado de http://portal.mec.gov.br/conaes-comissao-nacional-de-avaliacao-da-educacao-superior/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/12989-relacoes-etnico-raciais.
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3. Suzana e o retorno das algemas
Você é do Conselho Tutelar? Foi o que ouvi de uma vizinha de Suzana, quando entrou na cozinha para um café e viu-me com uma caneta e algumas anotações no papel. No mesmo dia, pouco depois, quando terminara a entrevista e estava me despedindo de Suzana, já na calçada, sua filhinha mais nova começou a dar tapas no próprio rosto. Ao ouvir de sua mãe “você vai se machucar”, ela continuou, rindo, em uma brincadeira arriscada. Até que Suzana olhou para ela seriamente, dizendo: Para com isso, senão você vai ficar machucada e, se chegar na escola assim, vão achar que fui eu! (Suzana, 2013) Descoladas do campo discursivo no qual se inscrevem, essas frases poderiam denotar uma preocupação em ocultar algo importante; afinal, por que achariam isso na escola? Como diz a
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expressão popular, “quem não deve não teme!”. Assim, a menos que o receio de Suzana fosse o de que uma acusação de fora apontasse para alguma contravenção que ela preferisse omitir, não haveria com o que se preocupar. No entanto, sua precaução não parece excesso de cuidado, nem preocupação desmedida; ela aponta uma pertença em um mundo segmentado no que se refere ao campo do direito: há aqueles para quem a sensação é de que a lei os protege, e há aqueles que têm a vivência cotidiana de que a lei serve para controlá-los e criminalizá-los. Suzana e as outras mulheres deste livro demonstram uma pertença a esse segundo grupo. O que fica evidente também na fala de sua vizinha, uma vez que mesmo os conselhos tutelares, que haviam sido concebidos para democratizar e garantir a justiça a crianças e adolescentes, tornaram-se, principalmente no que se refere às relações familiares dos pobres, dispositivos policialescos, prontos a penalizar e criminalizar, como afirma Vera Batista (2012). Há que se acrescentar que, se os dispositivos policialescos de controle dirigem-se prioritariamente aos pobres, dirigem-se ainda mais aos pobres negros. Estou defendendo que, no nosso país, a desigualdade social não engloba ou abarca a desigualdade racial, ainda que possam ter uma articulação bastante íntima, como já foi afirmado anteriormente. O depoimento de Tadeu – um rapaz de 22 anos, branco, que nasceu em uma família pobre e é morador de rua do centro de São Paulo desde os 12 anos –, relatado pela pesquisadora Lia Vainer Schucman (2014), é emblemático em relação a essa questão: Era uma maloca ali perto do São Pedro, eram mais de 50 pessoas que moravam dentro. Do nada, todo mundo acordou com uma arma na cara, só eu que não. Eu olhei assim pra todo mundo, aí o policial já perguntou:
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4. Selma: sobre a servidão, o racismo e o sexismo
Eu tinha 17 anos, estava com meu filho Pedro que é mais branquinho e uma mulher falou pra mim: “Que bom que sua patroa confia em você, deixa você sair com o filho dela”. Eu não estava entendendo, falei que era meu filho, aí ela falou: “Espero que não tenha sido seu patrão que fez isso em você!”. Você sabe né?! Tinha muito isso. (Selma, 2013) Selma me contou essa passagem da sua história quando lhe indaguei se alguma vez já havia se sentido discriminada: difícil imaginar um relato que condense de maneira mais explícita as articulações entre sexismo e racismo no Brasil. A cena que Selma destaca parece um retalho recortado de um pano cuja trama teria sido tecida por linhas discursivas que se cruzam e transpassam-se de tal forma que nos fazem acompanhar os diversos atravessamentos e enlaçamentos das mulheres negras brasileiras. Conforme vamos puxando os fios dessa complexa trama, deparamo-nos com as relações de servidão vividas por elas
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cotidianamente, outrora e hoje, articulando não só relações entre homens e mulheres, entre homens brancos e mulheres negras, mas entre as próprias mulheres, brancas e negras. Ao ser vista com um menino com pele mais clara que a sua, é enxergada como se estivesse servindo a ele e à sua suposta família branca. Diante da afirmação de que não era esse o caso, então a suposição passa a ser de que Selma teria servido a um homem adulto, sexualmente: o filho seria a prova cabal desse ato de dominação. O diálogo entre essas duas mulheres revela que uma delas imagina e reconhece a outra a princípio e, com alguma insistência, como servil: despossuída de quereres, desejos, vontades e escolhas, uma vez que estaria no mundo unicamente para servir (Gonçalves Filho, 2008). Lembremo-nos de que é preciso considerar os fios dessa trama levando-se em conta o sujeito inscrito no laço social, em uma rede discursiva de poder, em um lugar desde onde foi nomeado e reconhecido; um lugar onde se mantém, questiona ou recusa; um lugar marcado socialmente, historicamente, mas também atravessado erótica e pulsionalmente, como fica evidente na cena vivida por essas duas mulheres (Lacan, 1954/1986; 1954-1955/1985a; 19621963/2002; 1969-1970/1994). Por que, sendo ambas as personagens da cena mulheres adultas, uma delas, ao reconhecer o carinho entre a outra e a criança, não consegue supor ali uma relação maternal? Por que, diante da afirmação de que esse amor se devia ao fato de aquele menino ser o filho de Selma, a outra mulher insiste em só enxergá-la como tendo sido violentada por um homem, um patrão? O que é que não pode ser visto e que toma como resposta apressada e equivocada a suposta servidão persistente e insistente? Selma estaria nessa cena, ao mesmo tempo, subexposta e superexposta. Subexposta, na medida em que não há uma pergunta
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5. Sofia e o tornar-se uma mulher negra
Conforme visto no capítulo anterior, ainda escutamos os ecos e vivemos sob a herança de um contraponto entre a escrava amásia, valorizada sexualmente à custa de um processo de coisificação, cujo corpo aparecia ao senhor como se fosse livre de entraves sexuais; e a mulher dita “de respeito”, esposa do senhor de escravos, valorizada socialmente à custa de um corpo assexuado, a encarnação da santa-mãezinha. A angústia decorrente do encontro com uma depositária desse corpo sexual, representante desse suposto gozo ilimitado e sem amarras, poderia ser uma das causas para, ainda hoje e com bastante frequência, tantos e tantas buscarem colocar a mulher negra em uma posição exclusivamente materna, conforme eu havia escutado das educadoras na escola. Lembremo-nos de que a pergunta que pude formular a partir do que escutei de um grupo de estudantes com o qual trabalhava era: por que os adolescentes daquela escola precisavam defender tanto a honra de suas mães, e o tempo todo? Por que essas mulheres, que eram constantemente defendidas pelos seus filhos como
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sofia
não putas, eram convocadas tão frequentemente, na escola, como só mães? E, ao menor sinal de que elas não se contentavam em ser só mães, o nome que circulava tão facilmente sobre elas era a puta, a mulher devassa, a mulher sem qualidades. O que fica obturado nessa passagem tão rápida da mãe à puta é o significante mulher, impossível de pronunciar. Por que esse espaço entre a mãe e a mulher seria tão estreitado, tão difícil de ser preservado para essas mulheres, mães, negras e pobres? Essa é uma questão que exige ser abordada e contornada aos poucos.
Mãe é tudo igual, mas depende do endereço O significante mãe não é um significante qualquer. Atrai como um ímã: sua força faz com que, em determinados momentos, consiga congregar em torno de si mulheres nas situações de vida mais díspares, em momentos históricos bastante distantes. A historiadora Mary Del Priore (2009) chega a afirmar que, se não se pode crer ingenuamente em uma solidariedade de gênero, acima das diferenças de raça, de credo e de segmento econômico, haveria situações em que tal solidariedade ocorreria, sendo a maternidade um desses raros momentos. Difícil esgotar os motivos que acabam por reunir sob um único nome modos de se relacionar tão diversos, em uma identificação capaz de suspender tantas outras diferenças. Ao menos por alguns instantes, mãe é tudo igual. Destaco dois aspectos que, segundo acredito, contribuem para a força dessa nomeação, mãe, que viria como uma cola identificatória tão forte que faria crer tratar-se de uma identidade. O primeiro aspecto seria aquele sob a perspectiva do novo ser que é fundado no campo do desejo humano a partir dessa função
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6. Considerações finais
Aqui está. Foi difícil eu me decidir a deixar que saísse de minhas mãos. . . . Ele segue completamente os ditames do inconsciente, segundo o célebre princípio de Itzig, o viajante dominical: “– Itzig, para onde você vai? – E eu sei? Pergunte ao cavalo”. Não iniciei um só parágrafo sabendo onde ele iria terminar. (Freud, 1898)1 Não iniciei um só parágrafo sabendo onde ele iria terminar. Tanto que esse trabalho se inicia sem nenhuma cor, por meio de um projeto de pesquisa nomeado “Entre a Mulher e a Mãe: a Sexualidade numa Escola Pública de São Paulo – um Estudo Psicanalítico”. No entanto, seu escrito final faz saltar dos depoimentos a cor das mulheres que fui escutando, apontando para alguns dos efeitos subjetivos diante dessa divisão cromática e política da nossa sociedade.
1 Freud em sua carta a Fliess de 7 de julho de 1898, comentando seu artigo A interpretação dos sonhos (Masson, 1986).
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considerações finais
A questão que me surgiu a princípio foi fruto do trabalho de vários anos em uma escola municipal de São Paulo, em que, entre tantos outros dispositivos coletivos, escutava os adolescentes por meio dos “grupos de conversas”. Um desses grupos, de maneira mais explícita, trouxe-me uma indagação de por que esses adolescentes precisavam se dedicar tanto a defender a honra de suas mães. Parecia que a todo momento era necessário repetir que elas eram mulheres dignas de respeito e de valor, como resposta a uma suposta acusação de que não o fossem. O que estaria sendo afirmado sobre elas com essa acusação iminente e essa defesa fervorosa? Por que passavam tão rapidamente de mãe à puta, foi a pergunta que primeiro enunciei. Essa pergunta inicial não aparecia isoladamente; a ela estava articulada uma outra: uma impressão minha de que haveria uma ressalva das educadoras, quando aparecia algo das mães dos alunos apontando uma posição não exclusivamente materna. Contudo, isso não aparecia relacionado a todas as mães da escola indiferenciadamente; aparecia basicamente em relação a essas mães defendidas por seus filhos de forma tão veemente, algo que poderia ser resumido em uma fala difusa, que seria enunciada mais ou menos assim: para se arrumar ela tem tempo, mas para cuidar dos filhos...; ou então: sair ela consegue, mas vir à reunião... O que ouvia, por meio de falas anônimas, era que essa mulher que pensa em sair, encontrar alguma paixão, divertir-se, essa mulher estaria desviando seu corpo, seu pensamento e seu olhar de onde deveria realmente estar: as suas obrigações como mãe e como mulher trabalhadora. Essas afirmações apareciam como um coro, tal qual na tragédia grega, que expressaria os temores, os julgamentos e os sentimentos da comunidade cívica, contrastando com a fala do herói. No nosso caso, o herói seria essa mulher singular
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Os muitos nomes de Silvana poderiam ser “os muitos nomes” de Maria, Paula, Conceição, entre outros. Essas personagens, apesar de terem diferenças identitárias e históricas, têm algumas caractecercar, numa abordagem da Psicanálise em interface com a História, a Sociologia e a Antropologia, essas características e buscar a difícil e quase impossível explicação sobre os caminhos obtusos e sinuosos do silenciamento da “cor” nas pesquisas psicanalíticas. A leitura não deixa dúvida sobre a representação destas mulheres no imaginário coletivo de uma sociedade racista como a brasileira. O consciente e o inconsciente, o dito e o não-dito se misturam em nosso cotidiano, como se formassem um iceberg cuja ponta podemos enxergar a olho nu, mas não a parte mais profunda que exige as ferramentas de uma análise psicanalítica.
– Kabengele Munanga
PSICANÁLISE
psicanálise, sua posição ou seus operadores, quem afirma essa insubordinação são as pessoas. O
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trabalho deste livro é o encontro
Contribuições clínico-políticas da psicanálise sobre mulheres negras
recupera, com afeto e justeza, as
com as contradições da casa grande, que agem no conforto de suas poltronas. Ana Musatti intelectuais pretas dentro e além da que o tema, ainda oportuno, é uma denúncia vazia. Em um texto rigoroso e poético, testemunhamos o ato analítico e político da escuta de uma pesquisadora e analista que aponta os marcadores de estrangeiridades de gênero, de raça e de classe. Musatti aponta para a radicalidade da psicanálise,
série
PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA Coord. Flávio Ferraz PSICANÁLISE
Ana Paula Musatti-Braga
Por mais subversiva que se diga a
psicanálise. Engana-se quem pensa
rísticas em comum: são mulheres, pobres e negras. A autora tenta
Os muitos nomes de Silvana
Psicanalista, educadora da Arco-Escola Cooperativa. É doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e membro do Laboratório Psicanálise Sociedade e Política da mesma instituição, desde 2004. Autora de vários artigos e capítulos de livros dos quais se destacam: “Articulações entre psicanálise e negritude: desamparo discursivo, constituição subjetiva e traços identificatórios” (2017) e “Escutando os subterrâneos da cultura: racismo e suspeição em uma comunidade escolar” (2018), ambos em parceria com Miriam Debieux; e “Racismo e sexismo: desafios da constituição psíquica de mulheres negras e homens negros”, em parceria com Priscilla Santos de Souza, do livro As escritas do Ódio: psicanálise e política (Escuta, 2018).
Musatti-Braga
Ana Paula Musatti-Braga
que aposta no devir de uma nova humanidade.
Priscilla Santos de Souza