EXCLUSIVO
RENAN DO VÔLEI PROMETE NÃO DEIXAR IMPUNES OS CORRUPTOS DA CONFEDERAÇÃO
NÚMERO 19 JUNHO/JULHO 2014 Edição 19 | Ano 5 www.istoe2016.com.br VENDA PROIBIDA – EXEMPLAR DE DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E PARTE INTEGRANTE DA REVISTA ISTOÉ
ISTOÉ 2016
VAI TER COPA E OLIMPÍADA QUAL SERÁ O LEGADO DO MUNDIAL DE FUTEBOL PARA OS JOGOS DO RIO?
SAUDÁVEL CONCORRÊNCIA COMO A RIVALIDADE ENTRE THIAGO BRAZ E AUGUSTO DUTRA FAZ BEM PARA O SALTO COM VARA BRASILEIRO
E MAIS _OS DRONES QUE VIGIAM OS GRANDES EVENTOS _LUCIANO DO VALLE POR MAGUILA _AS AGRURAS DO BMX
JUNHO/JULHO 2014
_OS BRAVOS BOXEADORES DO CONGO
É PR ECISO TER RAÇA WALLACE, TINGA, DAIANE DOS SANTOS E OUTRAS ESTRELAS DO ESPORTE BRASILEIRO REVELAM COMO SUPERARAM AS BARREIRAS DO PRECONCEITO DE COR
Wallace, jogador da seleção de vôlei
6 ExpEdiEntE 7 Editorial
8 ColaboradorEs seções
16
Clique OlímpiCO O premiado trabalho subaquático do fotógrafo brasileiro Jonne Roriz
94
pAinel Notícias sobre todos os esportes olímpicos
20
AqueCimentO O depoimento comovente do ex-boxeador Maguila sobre o amigo e narrador Luciano do Valle
98
páginA DOurADA O improvável Ricardo Prado venceu gigantes da natação
28
entrevistA: renAn DAl ZOttO O astro da geração de prata acaba de assumir um cargo na cartolagem e promete pegar pesado com as denúncias de corrupção na Confederação Brasileira de Vôlei
66
rAiO X Todos os detalhes do gramado da Copa do Mundo. Acredite: plantar e cortar é a parte fácil
90
perfOrmAnCe Os melhores e mais estilosos relógios esportivos, que vão muito além de marcar a hora
92
COnCentrAçãO De Mike Tyson a Maria Sharapova: quem são as personalidades do esporte que você não pode deixar de acompanhar nas redes sociais
reportagens
32
nO peitO e nA rAçA Como Wallace, Daiane dos Santos, Tinga e outros grandes atletas brasileiros enfrentaram – e ainda enfrentam – o racismo
46
DuplA COmpetiçãO Thiago Brás e Augusto Dutra não cansam de quebrar os recordes um do outro no salto com vara. E isso é ótimo para o Brasil
52
sAngue pelA COpA A vida e as histórias dos nove operários que morreram durante a construção das arenas do Mundial de 2014
foto: joão castellano/ag. istoé
60
De 2014 pArA 2016 As obras e a experiência da Copa do Mundo poderão ser aproveitadas para a Olimpíada do Rio?
68
pOrrADA AfriCAnA Em meio à pobreza e à guerra, o boxe floresce no Congo
74
DuDA, 15 AnOs, purO tAlentO Nunca uma jogadora de vôlei de praia impressionou tanta gente em tão pouco tempo
78
sem-tetO O BMX tem tudo para ganhar medalhas e popularidade no Brasil. Só falta um detalhe: lugar para treinar
82
guerreirA DAs pisCinAs Susana Schnarndorf, ex-triatleta, mãe de três filhos e portadora de Parkinson. Desistir? Até parece
86
COmiDA pOr trADiçãO Um inóspito mergulho no hábito dos torcedores americanos de se empanturrar durante as competições esportivas
A CopA não será umA desgrAçA pArA o futuro dA nAção
Desde as manifestações de junho de 2013, bater na Copa do Mundo virou o esporte preferido de milhões de brasileiros, da maioria esmagadora da imprensa internacional e até de gente que, de uma forma ou de outra, é responsável pelo evento (o ex-Fenômeno Ronaldo, integrante fiel do Comitê Organizador Local, se disse envergonhado pelos atrasos nas obras, como se ele próprio não tivesse nada a ver com isso). Fanfarronices à parte, é inegável que o Brasil fez quase tudo errado. Não era preciso construir 12 estádios, não cumprimos os prazos, há denúncias graves de corrupção, muitos projetos de infraestrutura não saíram do papel, gastamos um dinheirão que poderia ter sido destinado para fins mais nobres. As constatações acima são verdadeiras, mas devemos ver o outro lado também. Nem tudo que envolve a Copa é desprezível. Acredite: o torneio de futebol não será uma desgraça para o futuro da nação, como os defensores do apocalipse gostam de proclamar. Um exemplo modesto: a reforma do Aeroporto do Galeão não ficou pronta a tempo para o Mundial, o que é lamentável sob todos os aspectos. A questão é que o aeroporto, apesar dos atrasos deploráveis, está se modernizando – e nós todos em breve poderemos desfrutar dele. Se não houvesse Copa e Olimpíada, as autoridades teriam disposição política para fazer o que é necessário? A mentira que se construiu é que a Copa seria o antídoto para todos os males nacionais. Com ou sem Copa, com ou sem Olimpíada, precisamos de estradas melhores, de aeroportos decentes, de segurança nas ruas, e tudo isso deveria ser feito não para os estrangeiros que estão por vir – mas por nós, brasileiros. A Copa, enfim, foi o fator que escancarou a necessidade urgente de mudanças, e isso deveria ser visto como algo positivo. Amauri Segalla, diretor de redação asegalla@istoe.com.br
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pisamos na bola • Ao contrário do que a 2016 publicou na edição 20, Mauro Vinícius da Silva, o Duda do salto em distância, já conquistou medalhas em competições internacionais ao ar livre. • Diferentemente do informado na seção Performance, o Sony Dog Mount é indicado para uso exclusivamente com a câmera Sony Action Cam.
editorial
expediente editor e diretor reSPonSÁvel doMingo alzugaray editora Cátia alzugaray PreSidente-executivo CaCo alzugaray diretor editorial Carlos José Marques diretor editorial-adjunto luiz Fernando sá diretor de redação aMauri segalla editor luCas Bessel editor de arte pedro Matallo editor-executivo de fotografia Cesar itiBerê editor de fotografia JuCa rodrigues colaBoradoreS
fotografia agência iStoÉ aPoio adMiniStrativo
TexTo: aline ridolFi, danielle sanCHes, deMétrio VeCCHioli, FláVia riBeiro, Mariana BarBoza, natHalia zieMKieWiCz, raul Montenegro, riCardo seno, rodrigo Cardoso, rodrigo lara, rodrigo riBeiro, toM Cardoso, Vera lynn, yan BoeCHat FoTo: Carlos roCHa, eduardo zappia produção: Cintia sanCHez ilusTração: andré toMa, daniel VinCent, oliVer quinto rePÓrtereS fotogrÁficoS: João Castellano, Masao goto Filho, pedro dias e rafael Hupsel gerente: Maria amélia scarcello SecretÁria: terezinha scarparo aSSiStente: Cláudio Monteiro auxiliar: lucio Fasan
Projeto grÁfico coPy-deSk e reviSão ServiçoS grÁficoS oPeraçõeS
ricardo van steen (colaborou Bruno pugens) lourdes Maria a. rivera, Mario garrone Jr., neuza oliveira de paula, regina Caetano e tamiris prystaj gerente induStrial: Fernando rodrigues
gregorio França gerente: renan Balieiro coordenador de ProceSSoS grÁficoS: Marcelo Buzzo analiSta jr.: daniel asselta coordenadoreS de luiz Massa e regina Maria analiSta Pleno: denys Ferreira aSSiStenteS: Cesar William e indianara andrade auxiliar: Jario pereira líder eStoque: paulo Henrique paulino.
diretor:
oPeraçõeS:
venda avulSa logíStica e diStriBuição de aSSinaturaS aSSinaturaS
gerente: luciano sinhorini coordenadoreS: Jorge Burgatti e ricardo augusto santos conSultoraS de MerchandiSing: alessandra silva e talita souza primo aSSiStenteS: Fábio rodrigo, ricardo souza e gislaine aparecida peixoto coordenadora: Vanessa Mira coordenadora-aSSiStente: regina Maria aSSiStenteS: denys Ferreira, Karina pereira e ricardo souza diretor de vendaS PeSSoaiS: Wanderlei quirino gerente adMiniStrativa de vendaS: rosana paal gerente de aSSinaturaS: pablo pizzutiello gerente de ProjetoS eSPeciaiS:
ebano gandini Junior diretor de teleMarketing: anderson lima gerente de atendiMento ao aSSinante: elaine Basílio gerente online e ParceriaS: solange Chiarioni gerente de aSSinaturaS (Sul): sidnei doMingues Caetano gerente geral de PlanejaMento e oPeraçõeS: reginaldo Marques gerente de oPeraçõeS e aSSinaturaS: Carlos eduardo panhoni gerente de teleMarketing: renata andrea gerente de call center: ana Cristina teen central de atendiMento ao aSSinante: (11) 3618.4566. de 2ª a 6ª feiraS daS 9h àS 20h30 outraS caPitaiS 4002.7334 deMaiS localidadeS: 0800-888 2111 (exceto ligaçõeS de celulareS) assine: www.aSSine3.coM.Br exemplar avulso: www.ShoPPing3.coM.Br Marketing
PuBlicidade
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diretor nacional: José Bello souza Francisco diretor de PuBlicidade: Maurício arbex secretÁria da diretoria de PuBlicidade: regina oliveira gerenteS executivoS: eduardo nogueira, érika Fonseca, Fabiana Fernandes, Mara Beatriz Marques, luiz sergio siqueira e regiane Valente aSSiStenteS de PuBlicidade: Valéria esbano coordenadora adM. de PuBlicidade: Maria da silva aSSiStente adM. de PuBlicidade: ederson do amaral gerente de coordenação: alda Maria reis coordenadoreS: gilberto di santo Filho e rose dias contato: publicidade@editora3.com.br rio de janeiro - rj: diretor de PuBlicidade: expedito grossi. gerenteS executivaS: adriana Bouchardet, arminda Barone e silvia Maria Costa. coordenadora de PuBlicidade: dilse dumar. tel.: (21) 2107-6667. Fax: (21) 2107-6669 BraSília - df: gerente: Marcelo strufaldi. tel.: (61) 3223-1205 / 3223-1207. Fax: (61) 3223-7732. aracaju - Se: pedro amarante • gabinete de Mídia • tel.: (79) 3246-4139 / 9978-8962 – BelÉM - Pa: glícia diocesano • dandara representações • tel.: (91) 3242-3367 / 8125-2751 – Belo horiZonte - Mg: Célia Maria de oliveira • 1a página publicidade ltda. tel./fax: (31) 3291-6751 / 9983-1783 – caMPinaS - SP: Wagner Medeiros • parlare Comunicação integrada • tel.: (19) 8238-8808 / 3579-8808 – curitiBa - Pr: Maria Marta graco • M2C representações • tel./fax: (41) 3223-0060 / 9962-9554 – florianÓPoliS - Sc: anuar pedro Junior e paulo Velloso • Comtato negócios • tel.: (48) 9986-7640 / 9989-3346 – fortaleZa - ce: paulo temóteo • estação de Mídia • tel.: (85) 3021-0735 / 9991-4029 – goiÂnia - go: paula Centini e olímpio Cardoso • Centini y Cardoso • tel./fax: (62) 9221-5575 / 8152-1606 / 3954-9583 – Porto alegre - rS: roberto gianoni, thiago soll • rr gianoni Comércio & representações ltda • tel./fax: (51) 3388-7712 / 9985-5564 / 8157-4747 – recife - Pe: andré nicéas e eduardo nicéas • nova representações ltda • tel./fax: (81) 3227-3433 / 9164-1043 / 9164-8231 – riBeirão Preto - SP: andréa gebin • parlare Comunicação integrada • tel.: (16) 3236-0016 / 8144-1155 – Salvador - Ba: andré Curvello • aC Comunicação • tel./fax: (71) 3341-0857 / 8166-5958 – Vila VelHa - es: didimo effgen • dicape representações e serviços ltda • tel./fax: (27) 3229-1986 / 8846-4493 – internacional: gilmar de souza Faria • gsF representações de Veículos de Comunicações ltda • tel.: 55 (11) 99163-3062 Marketing PuBlicitÁrio: diretora: isabel povineli. gerente: Maria Bernadete Machado. aSSiStenteS: Marília trindade e Marília gambaro diretor de arte: Victor s. Forjaz redator: Bruno Módolo
2016 é uma publicação bimestral da três editorial ltda. redação e administração: rua William speers, 1.088, são paulo-sp, Cep: 05067-900. Fone: (11) 3618-4200 –
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RAuL MOntEnEgRO
O jornalista Raul Montenegro, nascido em São José dos Campos (SP), é formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP). Foi redator do caderno de política da Folha de S.Paulo e, hoje, é repórter da revista ISTOÉ. Nesta colaboração para a 2016, escreveu os perfis dos nove operários mortos nas obras dos estádios da Copa do Mundo, um trabalho que exigiu faro jornalístico, tato e muitas horas ao telefone.
ALinE RiDOLfi
Aline Ridolfi é jornalista e mora em Nova York. Nos Estados Unidos há três anos, onde fez mestrado em estudos de mídia, ela aproveita a condição de outsider para perambular, refletir e escrever sobre assuntos típicos da cultura americana. Mesmo tendo focado suas coberturas em questões voltadas ao mundo digital, sente um prazer imenso em trabalhar com esportes. Jogou basquete por anos e é uma atleta frustrada, com direito a problemas nos joelhos e pinos no quadril. Nesta edição da 2016, foi responsável pela reportagem sobre os exagerados hábitos alimentares dos americanos em estádios e ginásios.
PEDRO DiAS
Nascido e criado em São Paulo, o jovem Pedro Dias é um prodígio atrás das lentes. Começou como assistente de fotografia, trabalhou com profissionais da publicidade e da moda e, hoje, é colaborador assíduo das publicações da Editora Três. Também atua como assistente de fotografia para produções do cinema, arte que, nas suas palavras, "é um vício". Nesta edição da 2016, assina o marcante ensaio da reportagem de capa, sobre o racismo no esporte. O material, ao mesmo tempo sensível e forte, é uma clara amostra do talento de Pedro.
DEMétRiO vECChiOLi
O são-roquense Demétrio Vecchioli é jornalista formado pela Cásper Líbero em 2007. Acredita que a heterogeneidade do esporte olímpico propicia histórias muito mais saborosas do que a cobertura tradicional do futebol. Há um ano, mantém o blog Olimpílulas, especializado em esporte olímpico brasileiro e na preparação para os Jogos do Rio. Nesta edição da 2016, produziu duas reportagens: o perfil da jogadora de vôlei de praia Duda, de apenas 15 anos, e a história sobre as agruras do BMX brasileiro, que não tem onde treinar.
AnDRé tOMA
fLáviA RiBEiRO
Formada em jornalismo e em história pela PUCRio, Flávia atua na área esportiva desde 1997, quando começou a cobrir futebol para o Lance!. A carioca também trabalhou nos jornais O Dia e Extra. Depois que virou mãe, em 2003, resolveu se aventurar pela vida de freelancer, sem nunca abandonar a cobertura de esportes. Esteve nos Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara e na Olimpíada de Londres, onde quase perdeu o fôlego vendo Usain Bolt correr. Nesta edição da 2016, escreveu o tocante perfil da nadadora paraolímpica Susana Schnarndorf.
Este sansei nascido em São Paulo é formado pela Escola Panamericana. Virou ilustrador freelancer em 2004 e, desde então, exibe sua arte em alguns dos principais veículos do País. A ascendência oriental exerce forte influência em sua vida pessoal e profissional. Apaixonado por quadrinhos e música, é neles que André busca referências e inspiração para o trabalho. Nesta 2016, fez a bela ilustração do narrador Luciano do Valle.
COLABORADORES
CLIQUEOLÍMPICO IMAGENS SURPREENDENTES DO ESPORTE
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JUNHO/JULHO 2014
Guerra subaquática O fotógrafo Jonne Roriz, 36 anos, tomou “algumas porradas e alguns chutes no rosto” para conseguir capturar esta imagem. Posicionado abaixo dos atletas do polo aquático do Sesi-SP, ele bem que tentou evitar os encontrões. “No fim, deu tudo certo, mas alguns choques foram inevitáveis”, contou à 2016. O esforço valeu a pena. A imagem rodou o mundo e foi duplamente premiada. Ganhou o concurso da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de São Paulo e também foi uma das escolhidas do Photo District News, tradicional prêmio americano, na categoria esportes. Para a equipe da 2016, a premiação de Jonne tem um significado especial. O fotógrafo é colaborador frequente da revista. Assinou um ensaio sobre a seleção feminina de nado sincronizado e também realizou a capa com o nadador Bruno Fratus. Sempre embaixo d’água.
CLIQUEOLÍMPICO IMAGENS SURPREENDENTES DO ESPORTE
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JUNHO/JULHO 2014
exército azul Água é uma das paixões de Jonne Roriz. Fotografia é a outra. Mergulhador de resgate certificado, ele se especializou em capturar imagens subaquáticas. “A água é um elemento magnífico”, diz. Claro, o ambiente líquido ajuda a compor belas imagens, mas a sensibilidade do fotógrafo e o preparo técnico são imprescindíveis. Em ensaios especiais, como este feito para o time de polo aquático do Sesi-SP, a parafernália é enorme. “Para esse tipo de produção, costumo trabalhar com um assistente e um mergulhador de resgate”, diz. Cilindros de ar, válvulas, luzes dentro e fora d’água, além das câmeras, compõem o arsenal de Jonne, soteropolitano que descobriu a fotografia aos 17 anos. Em 2004, começou a mergulhar e se encantou para sempre. Teve que dar um jeito de unir trabalho e prazer. O resultado são imagens fascinantes – e prêmios.
FORÇA “Se não fosse pelo luciano, eu seria pedreiro até hoje”
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junho/julho 2014
Porrada neles, luCiano! MesMo coM Graves proBleMas de saÚde, adilson rodriGues, o MaGuila, deu, coM a aJuda da Mulher, irani pinheiro, uM depoiMento eXclusivo soBre o narrador e eMpresÁrio luciano do valle
MaGuila, eM depoiMento a toM cardoso “o luciano do Valle foi um paizão pra mim. Ele nem tinha idade para ser meu pai, não era tão velho assim (acho que são 11 anos de diferença), mas eu era tão cabeça dura que, se não fosse por ele, trabalharia até hoje como pedreiro. Tudo que conquistei financeiramente no boxe devo à luqui (empresa de marketing esportivo, comandada por luciano do Valle e José Francisco leal, o Kiko). O primeiro bom dinheiro que ganhei no boxe usei pra comprar minha casa, na zona leste de São Paulo. Depois comecei a gastar tudo. não estava nem aí. Tinha uma porrada de irmão. nove no total. E todo dia alguém me pedia alguma coisa. Só de caminhão para os meus irmãos, eu comprei uma meia dúzia. O luciano ficava puto comigo. Dizia que eu tinha que investir meu dinheiro, colocar na caderneta de poupança, porque a vida de boxeador era muito difícil. Quando comecei a namorar a irani, minha mulher até hoje, o luciano ficou aliviado. Achou que finalmente teria alguém para cuidar de um cara teimoso como eu. lembro o que o luciano disse pra ela quando a gente casou: ‘Cuida do Meninão’. Eu era mesmo um moleque. O luciano dizia que eu tinha que morar nos Estados Unidos, que ali eu teria os melhores treinadores à disposição, que era um país que respirava boxe. Eu não queria ir, mas o luciano acabou me convencendo. Disse que eu treinaria com um dos maiores técnicos todos os tempos, um tal de Ângelo Dundee (ex-treinador de mitos como Muhammad Ali e Sugar Ray leornard). na época, o meu treinador era o Miguel de Oliveira (excampeão mundial dos médios-ligeiros) e ficou combinado com o luciano que ele também iria para os Estados Unidos acompanhar o meu treinamento com o Dundee, que iria trabalhar fundamentos de defesa. Deu quase tudo errado. O Miguel, que era um cara muito orgulhoso, ficou virando a cara enquanto o Dundee me ensinava. Era para eu ficar morando lá. O luciano insistia nisso. Grávida do Júnior, o meu primeiro filho, a irani também achava que seria importante para a família. Mas fiquei só seis meses. não me adaptei, achava a vida lá muito chata, IlustrAção: AndrÉ toMA
devagar demais. não tinha os meus amigos, os meus cavalos. Voltei, mas a parceria com o Dundee continuou. E posso dizer que a escolha do luciano estava certa: aprendi quase tudo que sei de boxe com aquele velho. ouvi muita gente falando um monte bobagem, que o luciano só inventava adversário fraco para eu bater e que, por isso, eu não estava pronto pra enfrentar grandes lutadores como o (Evander) Holyfield e o (George) Foreman. Eu estava bem preparado sim, tanto que ganhei o primeiro assalto contra o Holyfield. Estava melhor que ele, mas o Dundee se empolgou, disse para eu ir para cima. Achei estranho, porque ele justamente me treinava para eu nunca abrir a guarda, para não ir pra cima do adversário sem antes cuidar da defesa. Antes da luta contra o Holyfield, o luciano passava toda hora no quarto do hotel em las Vegas pra me dizer pra não partir com tudo, que tinha que levar a luta até o final e ganhar por pontos. Eu ficava meio cabreiro. lá era a casa do Holyfield e dificilmente os jurados dariam vitória para mim. Mas o luciano acabou me convencendo a seguir essa estratégia, que era também a estratégia do Dundee. não sei por que o velho decidiu mudar de ideia. Quando vi, já tinha levado um direto no queixo e perdido a luta. Um ano depois, o luciano conseguiu marcar a luta contra o Foreman. O homem estava meio velho, tinha mais de 40 anos, mas continuava forte. Era um guardaroupa. O luciano me acalmou, disse que eu também era forte, que tinha condições de vencer uma lenda do boxe mundial. Sempre dizia que tudo ia dar certo. nisso a gente era parecido. não tinha tempo ruim para a gente. Uma hora a nossa parceria acabou, mas continuamos amigos. Perdemos contato quando ele foi morar em Porto de Galinhas (em Pernambuco), mas de vez em quando a gente se encontrava. E era sempre muito bom. Fiquei abalado com a notícia da morte do luciano. Eu estava muito pior do que ele, mas a vida é assim . Onde quer que esteja, espero que saiba que o “Meninão” aqui é grato por tudo que ele fez por mim e pela minha família.”
////////////// aquecimento
OlHOS ATEnTOS: imagem feita por drone da FAB durante a Copa das Confederações
Vigilantes autônomos conheça os aviões não tripulados que farão patrulhas durante a copa do Mundo e a oliMpíada A Copa do Mundo representará o batismo de fogo para a vigilância atenta e silenciosa dos veículos aéreos não tripulados (Vant), que também estarão presentes nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. A Força Aérea Brasileira (FAB) opera aviões desse tipo desde 2010, inicialmente em caráter experimental. Em 2011, a corporação decidiu comprar o sistema da empresa israelense Elbit Systems. “Ele era constituído por uma estação de controle, uma antena de enlace, duas aeronaves modelo Hermes 450 e dois conjuntos de equipamentos ópticos”, informou o Comando da Aeronáutica (Comaer). Em 2013, mais duas aeronaves do mesmo tipo foram adquiridas. Um ano depois, a FAB subiu um degrau e comprou o Hermes 900, capaz de monitorar até dez alvos simultaneamente, além de ter autonomia maior e ser operado por satélite, sem qualquer restrição de alcance (confira quadro). Para cuidar do sistema, a FAB criou um esquadrão especializado. Chamado de Hórus, ele opera exclusivamente com os Vants e fica alocado na Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Cada Vant exige uma equipe formada por até 13 militares. Dependendo da duração da missão, dois ou três grupos podem se revezar em funções como pilotagem, comunicação, inteligência e mecânica.
“Com o novo Vant, o Hermes 900, o número de pessoas necessárias deverá aumentar bastante, dada a capacidade de monitoramento dessa aeronave”, informa a FAB. Tanto a Força Aérea Brasileira quanto a Polícia Federal – que tem seus próprios aviões não tripulados – já utilizam os Vants em uma série de operações. Eles atuam em rotinas de vigilância de fronteiras, como a Operação Ágata, realizada na Amazônia para o combate de tráfico de drogas e crimes ambientais. Também participaram da segurança de eventos de grande porte, como a Rio+20, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa das Confederações. De acordo com o Comaer, não há planos para que Vants armados sejam utilizados. A atuação dessas aeronaves durante a Copa do Mundo seguirá o mesmo protocolo de missões convencionais e não dispensará o uso de aeronaves tripuladas. “Vants e helicópteros, por exemplo, são complementares. Um helicóptero não pode ficar em voo por 20 horas nem ter uma visão geral da área. Já o Vant é capaz de realizar essa função e mudar alvos com um simples movimento de câmera”, informa o Comaer. Em contrapartida, imagens mais próximas e detalhadas não podem ser captadas pelos veículos não tripulados. A ideia, portanto, é usar os dois aparelhos em conjunto. fotos: reprodução
////////////// OS VEíCUlOS AéREOS nãO TRiPUlADOS DA FAB ApliCAção: vigilância contínua de alvos, reconhecimento e monitoramento de eventos de grande porte EquipE: cada sistema, composto por duas aeronaves, é operado por 13 militares. o número deve aumentar com a adoção da vigilância multitarefa “skeye”, que requer mais nove operadores. o esquadrão horus é o responsável pelos vants
Hermes 450 Envergadura: 10,5 m Comprimento: 6,1 m Peso máximo de decolagem: 550 kg Teto de altitude: 18 mil pés (5,4 km) Alcance: 300 km Autonomia: 17 horas Motor: do tipo rotativo (Wankel), com potência máxima de 52 cv Velocidade máxima: 176 km/h Equipamentos: conjunto óptico com mapeador de superfície (SAR), câmera de vídeo e sensor de visão frontal infravermelha (FliR) Fabricante: Elbit Systems (israel)
Hermes 900 Envergadura: 15 m Comprimento: 8,3 m Peso máximo de decolagem: 1.180 kg Teto de altitude: 30 mil pés (9,1 km) Alcance: ilimitado (comunica-se por satélite) Autonomia: 36 horas Motor: de quatro cilindros opostos Rotax 914, com potência máxima de 115 cv Velocidade máxima: 220 km/h Equipamentos: conjunto óptico com mapeador de superfície (SAR), câmera de vídeo, sensor de visão frontal infravermelha (FliR) e sistema SkEye, composto por dez câmeras de alta resolução capazes de monitorar alvos independentemente Fabricante: Elbit Systems (israel)
nA CAPiTAl: Vant monitora o estádio de Brasília, um dos palcos da Copa do Mundo
CarCará, o drone brasileiro os equipamentos israelenses não são os primeiros vants das forças armadas brasileiras. desde 2006, a Marinha utiliza o avião não tripulado carcará. com tecnologia mais simples, ele é lançado manualmente ou por catapulta. a aeronave utiliza um motor elétrico e possui velocidade máxima de 40 km/h. tem autonomia de até 95 minutos e carrega uma câmera móvel com zoom de 10x ou um sensor infravermelho. junho/julho 2014
istoé 2016
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HÓquei SoBRe GRama
inGE VERMEUlEn iDADE: 29 ANoS • lOCAl DE nASCiMEnTO: AMERiCANA (Sp) • PAíS QUE DEFEnDEU: HolANDA (DE 2007 A 2011) PRinCiPAiS RESUlTADOS: TÍTulo EuRopEu DE 2009 2016: Foi pARA A HolANDA quANDo E poR quÊ? Fui adotada. Tinha apenas dois meses. 2016: CoMo SEu JEiTo HolANDÊS poDE AJuDAR o BRASil? Sou uma pessoa direta e objetiva. Mas isso às vezes assusta
os brasileiros, pois falo o que penso, seja bom ou ruim. 2016: Do quE VoCÊ Não GoSTA No BRASil? Da desorganização. 2016: o quE o BRASilEiRo TEM quE VoCÊ GoSTA? Jeito amigável e acessível. Brasileiros dão atenção a todo mundo. 2016: poR quE JoGAR pElo BRASil E Não pElA HolANDA? Pela enorme vontade de surpreender o mundo e mostrar
do que o Brasil é capaz. 2016: poR quE SÓ AGoRA RESolVEu JoGAR pElo BRASil? Quando tinha 17 anos, procurei o consulado brasileiro
para ver se tinha time. não souberam me informar e a ideia adormeceu.
ERnST ROST OnnES iDADE: 28 ANoS • lOCAl DE nASCiMEnTO: AMSTERDã (HolANDA) – FilHo DE BRASilEiRo PRinCiPAiS COnQUiSTAS PElA HOlAnDA: CAMpEão EuRopEu DE CluBES EM 2005 2016: VoCÊ SE CoNSiDERA MAiS BRASilEiRo ou HolANDÊS? Holandês. Morei a vida toda lá. Mas, aos poucos,
estou aprendendo o jeito brasileiro de ser. 2016: o quE o BRASilEiRo TEM quE oS ouTRoS Não TÊM? A simpatia e o jeito despojado. 2016: o quE VoCÊ Não ADMiRA No BRASil? A forma como as coisas são desorganizadas. 2016: CoMo SEu JEiTo HolANDÊS poDE AJuDAR o TiME? Tenho experiência em um dos esportes mais populares
da Holanda. Posso dar bons conselhos. 2016: poR quE JoGAR pElo BRASil E Não pElA HolANDA? Quando soube que os Jogos de 2016 seriam no Rio, só
me passava pela cabeça jogar pelo Brasil.
PoLo aquÁtico
FEliPE PERROnE
iDADE: 28 ANoS • lOCAl DE nASCiMEnTO: Rio DE JANEiRo (RJ) • PAíS QUE DEFEnDEU: ESpANHA (2003 A 2012) PRinCiPAiS COnQUiSTAS: BRoNZE No MuNDiAl DE MElBouRNE (2003) E pRATA No MuNDiAl DE RoMA (2009) 2016: poR quE Foi MoRAR NA ESpANHA? Meu irmão foi jogar na Espanha quando eu tinha 15 anos. Por isso também fui para lá. Em 2003, eu já tinha passaporte espanhol e decidi começar a jogar. 2016: poR quE DECiDiu JoGAR pElA ESpANHA E Não pElo BRASil? no Brasil, ninguém conhecia
EU VOlTEi
o polo aquático nem tinha interesse nele.
para Montar tiMes Mais fortes para os JoGos de 2016, alGuns esportes
2016: CoMo SEu lADo ESpANHol poDE AJuDAR o TiME? Já participei de duas Olimpíadas, experiência que nenhum atleta do polo aquático brasileiro tem. 2016: o quE o BRASilEiRo DEVERiA ApRENDER CoM o ESpANHol? O conceito de ser cosmopolita, aberto a todas as culturas. E, no lado esportivo, a função social do esporte, não querer só saber de futebol. 2016: VoCÊ SE CoNSiDERA MAiS BRASilEiRo ou ESpANHol? Brasileiro.
TOnY AZEVEDO iDADE: 32 ANoS • lOCAl DE nASCiMEnTO: Rio DE JANEiRo (RJ) • PAíS QUE DEFEnDEU: ESTADoS uNiDoS PRinCiPAiS COnQUiSTAS: MEDAlHA DE pRATA NoS JoGoS DE pEquiM (2008) 2016: o quE VoCÊ MAiS ADMiRA No JEiTo BRASilEiRo? Todo mundo é simpático e leva uma vida como se fosse uma grande família.
consideraM
2016: VoCÊ SE CoNSiDERA MAiS AMERiCANo ou BRASilEiRo? Brasileiro.
repatriar
2016: o quE oS EuA TÊM DE MElHoR Do quE o BRASil? Saber tratar a corrupção. lá quem rouba é preso.
Brasileiros.
2016: CoMo SEu lADo AMERiCANo poDE AJuDAR o BRASil? Tenho o lado mental muito forte e boa técnica.
confira queM
2016: o quE pESA MAiS pARA ESColHER o BRASil? Disputar uma Olimpíada em casa pelo país onde nasci.
são eles
2016: E o quE FARiA VoCÊ ESColHER oS ESTADoS uNiDoS EM 2016? A possibilidade de disputar cinco Olimpíadas pelo país. fotos: AnAn sesA/IMAGo | XInhuA/IMAGo | BudA Mendes/GettY | dIVulGAção
SÓ 11 ANOS E UM TALENTO PARA O GOLFE DESTE TAMANHO... Ela só tem 11 anos, mas já é madura o suficiente para balançar o mundo do golfe feminino. Com olhos focados e tacadas precisas, a pequena Lucy Li conseguiu uma vaga para o US Open e fez história: é a mais nova jogadora a participar do torneio. Li, que tem como instrutor o escocês Jim McClean, é um fenômeno desde pequena. Aos 4 anos, teve aulas de mergulho e alcançou dezmetros de profundidade sem saber nadar. Ela ainda tentou praticar ginástica e música antes de descobrir, aos 7 anos, seu talento natural para o golfe. A menina estava vendo o irmão, Luke, jogar na escola, quando foi convidada para dar algumas tacadas. E nunca mais parou.
O QUE MICHAEL JACKSON ME ENSINOU Segundo homem mais rápido do mundo, o jamaicano Yohan Blake confessou recentemente que as maiores lições de sua vida foram aprendidas observando vídeos de Michael Jackson. O velocista, que ouve músicas do rei do pop várias vezes por dia – principalmente Thriller, Man in the mirror e Dirty Diana –, declarou que deseja ajudar as pessoas, assim como seu ídolo fez em vida. É daí que vem o estímulo para doar 5% de seus rendimentos para obras de caridade, incluindo uma casa na Jamaica para meninos que sofreram abusos na infância. Lesionado e ausente de toda a última temporada, Blake contou que está pronto para chegar ao topo do mundo em 2016 – e que consegue, sim, fazer o passo “Moonwalk”, que eternizou Jackson.
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AINDA MUITO LONGE DO TOPO Apesar da conquista do bronze no Torneio de Seul, na Coreia do Sul, em abril, o esgrimista franco-brasileiro Ghislain Perrier ainda está longe de alcançar as primeiras colocações do ranking mundial no florete. O atleta de 27 anos, que nasceu em Fortaleza e foi adotado por franceses quando era um bebê, ocupa a 49ª posição na lista, com 33 pontos. A distância para o primeiro colocado, o chinês Ma Jianfei, é de nada menos que 151 pontos. Mesmo se quiser chegar apenas à décima colocação, Ghislain ainda precisa marcar 96 pontos, algo nunca antes alcançado por um atleta nacional. Quer defender o Brasil em 2016, mas terá um longo caminho pela frente.
RIO 2016 NA PONTA DO LÁPIS Os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio, agora têm um site para divulgar seus gastos. O Fiscaliza Rio 2016 (www. fiscalizario2016.gov.br) é uma parceria entre os tribunais de contas do Estado do Rio de Janeiro, da União e da cidade do Rio. A iniciativa esclarece para onde estão sendo direcionadas as despesas com mobilidade urbana, infraestrutura esportiva, segurança e tudo o que envolve a preparação para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos na capital fluminense. Com tradução em inglês e espanhol, o portal oferece versões para deficientes auditivos e visuais e dá fôlego à organização do evento, que vem sofrendo críticas pela morosidade na sua preparação.
JUNHO/JULHO 2014 FOTOS: TIMOTHY A. CLARY/AFP | JOHN THYS/AFP
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entrevista renan dal zotto
VARREDURA Renan na casa em Floripa: “Contratei uma auditoria para analisar todos os contratos da confederação”
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“A s de nú nciA s de c o rru pção são um A m AnchA no vôlei”
surge a filha Annalisa Blando Dal Zotto, empresária, irmã da cantora italiana Deborah Blando e mulher de Renan. Casada há 25 anos com um dos maiores craques da história do vôlei, Anna, como é chamada por ali, diz que o negócio do marido “é bola”. Aos 53 anos, Renan – campeão como jogador, treinador e gestor – é atualmente dirigente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). Na entidade desde o início do ano, está no front da apuração das irregularidades cometidas na gestão do ex-presidente da entidade Ary Graça. Renan surge no meio do jardim, depois de passar por um caminho que dá acesso direto à areia da praia. Ele senta diante da piscina, abre uma cerveja Stella Artois para ele e outra para este repórter e desanda a falar sobre o que o move: o vôlei. O melhor da conversa está a seguir.
Como você recebeu a medalha de prata conquistada nos Jogos de Los Angeles, em 1984? Prata é
E, hoje, os jogadores pagam comissões nas transferências para o Exterior? Acho que
complicado. É uma derrota. Me senti mal pra caramba. Mas, depois de alguns anos, há um reconhecimento legal. É impressionante, é como se fosse um título.
paga-se 10% do valor do contrato do atleta.
Você ainda joga vôlei? Eu não tenho vontade. Faz
no vôlei, que sempre teve uma boa imagem. A primeira atitude a se fazer é isentar todas as pessoas que estão na CBV hoje em dia. Elas não têm nada a ver com o ocorrido. O problema foi da gestão passada. Agora é preciso mostrar por que estamos lá. Contratei a Pricewaterhouse para fazer uma auditoria completa na entidade, para ver se os contratos são legais, se têm falhas. É importante deixar claro: desde janeiro, o vôlei brasileiro está com uma nova gestão.
uns cinco anos que não jogo. Passei a jogar futebol, mas me machuquei e parei. Aí encontrei o beach tênis, que é extremamente democrático, dá para jogar de dupla mista, com gente mais nova ou mais velha.
É verdade que você deu dinheiro para dirigentes da confederação de vôlei para obter a liberação para jogar fora do Brasil? Sim. Na verdade, foi o clube que pagou. O dirigente me cobrava, mas era o clube que depositava. Não sei exatamente quanto, mas eram valores muito altos. Eu não participava dessas negociações. O meu negócio era jogar vôlei.
Até que ponto as denúncias de corrupção na CBV mancham o vôlei nacional? Elas são uma mancha
Tem receio de que seu nome fique atrelado a essas denúncias, uma vez que agora você é dirigente da CBV? Tenho medo disso, de criarem vínculos. Meu nome é o que tenho de mais importante. Já avisei que, a partir da auditoria, vai ser transparência total. Não vai ter
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É a sogra de Renan Dal Zotto, um dos craques da geração de prata da seleção masculina de vôlei, que abre a porta da casa situada na badalada praia Jurerê Internacional, em Florianópolis. Com um cachorro no colo, ela dá as boas-vindas ao visitante até que
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por RodRigo CaRdoso, de Florianópolis Fotos CaRlos RoCha
entrevista renan dal zotto
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contrato engavetado. Eu tenho recebido apoio de atletas, clubes e treinadores. Tenho canal direto, explico tudo a eles. Convoquei uma reunião para explicar exatamente o que estava sendo feito. Chamei todos os clubes, masculino e feminino, no hotel Bourbon em São Paulo. Expliquei o que vinha acontecendo, em que pé estamos e o que vamos fazer daqui para a frente.
21 pontos, eu meti a porrada na CBV. É um absurdo. Ninguém joga assim no mundo e por que a gente tem que jogar? Qualquer um que conhece vôlei sabe que a regra dos 21 pontos não vai vingar. A CBV colocou isso goela abaixo da gente. A antiga gestão, para ser boazinha com a Federação Internacional de Vôlei, topou fazer esse teste. Que fizesse, então, no campeonato juvenil e não na Superliga.
Foi o Bernardinho que o indicou para trabalhar na CBV? Ele passou meu nome para a turma de lá.
Por que essa regra não vai vingar? Ela mexe muito
O Bernardinho não é o homem por trás do dossiê com as denúncias contra a CBV? Garanto que não e acho estranho ele não ter se defendido. Quando eu não estava na CBV, tive acesso a alguns documentos, que vieram de pessoas do voleibol. O Bernardo sabia deles, mas não tinha os documentos em mãos.
Por que o Ary Graça renunciou à presidência da CBV após as denúncias? Eu não tenho amizade com o Ary como tenho com o Nuzman (Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro). Caso venha a ser provada alguma irregularidade, ficarei decepcionado com o Ary. E lamentarei, porque não precisava disso. Vai ficar uma mancha na carreira dele. Estou na expectativa do que possa vir à tona, mas uma coisa é certa: não vamos ocultar nada que a auditoria levantar.
Que lição tirar desse triste episódio? Temos de repensar o sistema da confederação. O Zé Roberto, tricampeão olímpico, não tem nenhuma autonomia de decisão, nenhum poder de voto, dentro do sistema do voleibol brasileiro. É fundamental repensar isso. É importante que a gestão seja profissional, mas precisamos ter gente do vôlei dentro da instituição. Hoje, quem vota para eleger o presidente da CBV são os 27 presidentes de federações. Vamos mudar isso. Agora, temos uma comissão de atletas. Desta comissão sairá um representante do vôlei de praia e um do vôlei de quadra. Eles terão direito a voto e poderão ser eleitos, mas só depois de sete anos lá. É muito pouco, vão ser engolidos, mas temos que começar de alguma maneira.
Os jogadores e técnicos têm liberdade para criticar a CBV? Pô, estão metendo o pau pra caramba! O Bernardinho e o Zé Roberto vivem falando mal da Superliga. Quando surgiu a mudança de regras para os
na estrutura do jogo, nivela muito por baixo. Com ela, se eu fosse montar um time, veria quem são os melhores sacadores e contrataria três. Porque se eu abrir 4, 5 pontos não dá para o adversário recuperar. Se eu tenho um jogador excepcional no saque, o jogo fica muito mais individual do que coletivo. Esses testes não vão acontecer mais na Superliga.
O que tem de mudar na formação do jogador de vôlei? Trabalhei no futebol por quatro anos. A diferença dele para o vôlei é que as instituições são fortes, entra ídolo, sai ídolo, troca presidente e a instituição permanece. Quem faz o vôlei não são as instituições. O vôlei depende de pessoas. Se o Bernardinho e o Montanaro disserem que não querem mais, acabam os times. O Suzano acabou porque o (Ricardo) Navajas foi para o futebol. Tirando o Minas, o Pinheiros, um ou dois outros clubes, são as pessoas que fazem o vôlei no Brasil. Primeiramente, temos que identificar essas pessoas e nos aproximarmos delas. Depois, multiplicá-las e capacitá-las.
Outros esportes não enfrentam o mesmo problema O basquete e o handebol também passam por isso. E é assim porque não temos um modelo de negócio interessante, que é o que pretendemos fazer com a Superliga, um modelo autossustentável. Precisamos atrair as universidades para o vôlei. Dentro da universidade, você consegue minimizar custos de um projeto. Capital intelectual está ali: advogado, preparador físico, nutricionista. E algumas têm estrutura com ginásio. Penso em montar times de universidades ou ligados a alguma instituição.
É verdade que você foi uma espécie de tutor do Bruninho, o filho do Bernardinho? Ele veio para a minha casa em Floripa com 16 ou 17 anos. Ficou um tempo, porque entendi que ele deveria passar pelo processo de morar em casa de atletas. Minha mulher o trata como um filho. Quando fui morar no Rio, com 16 anos, fui acolhido e
apoiado pela família do Bernardinho. Foi o Bernardo que pediu para eu receber o filho dele. O Bruninho veio para Floripa para ser o quarto levantador da Unisul. Eu disse ao Bernardo que já tinha três levantadores e ele falou: “Manda ele catar bola.” No primeiro ano, o Bruninho já era o terceiro levantador. Quando eu saí da Unisul, levei o Bruninho para a Cimed para ser titular. Fomos campeões e no segundo ano ele já era capitão do time.
O Bruninho chegou à seleção depois que o Ricardinho resolveu deixar o grupo, em 2007. Ele já estava pronto? Foram muito injustos com o Bruninho. Falo e até me arrepio. O Bernardo colocou o Bruninho para sacar em um jogo do Pan no Maracanãzinho. O ginásio inteiro começou a vaiar e gritar o nome do Ricardinho. Aí o Bruninho acertou o saque, o Brasil pontuou e alguém começou a gritar o nome dele. Todo o ginásio veio junto. O público foi injusto com ele, mas durou só 30 segundos. Levaram para o lado de que o Bernardo tirou o Ricardinho para colocar o filho, mas isso não é verdade. Se a relação dele com o pai serviu para algo, foi para o Bernardo demorar a convocar o Bruninho, porque eu achava que ele deveria estar na seleção antes.
Como foi o início da sua carreira como gestor? Parei de jogar em 1993, na Itália. Lá, comecei a direcionar a carreira para ser treinador. O problema é que treinador pula de galho em galho e eu não queria isso. Vim morar em Floripa por causa da doença do Gianluca (leucemia linfática aguda), que precisava morar perto do mar. Comprei um terreno, construí minha casa. Estava desempregado. A minha mulher, Anna, foi trabalhar na empresa dos pais e eu fui cuidar de esportes olímpicos do Figueirense. Três meses depois, surgiu a oportunidade de montar um projeto esportivo e de marketing na universidade Unisul. Aí descobri o gosto de trabalhar como gestor.
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"A LEUCEMIA DE MEU FILHO ME ENSINOU A SER OTIMISTA. ele precisou de 39 trAnsfusões de sAngue, mAs deu tudo certo. A vitóriA dele foi um trAbAlho em equipe monstruoso”
interior de São Paulo para dar o treino. Ao chegar à cidade, deitei para dar uma repousada e perdi a hora. Fiquei me culpando e joguei a toalha.
Foi possível extrair algo de positivo depois de passar por tudo isso? Aprendi a ser otimista ao extremo. Eu não enxergava outra coisa a não ser o sucesso do tratamento. Descobrimos a leucemia em 1996, quando o meu filho estava com 2 anos. Ele precisou de 39 transfusões de sangue. Montei um time de amigos para fazer transfusão. Eu não podia porque tinha o vírus da hepatite. Muitos atletas e jogadores doaram. Times do Banespa, Minas, treinadores, jogadores. Mas eu tinha de contar com caras que doassem na hora que eu precisava. Então, eu organizava tudo numa planilha. Um amigo, o Cadu, doou muito sangue. Meu filho tem mais sangue dele do que meu. Mas muitas pessoas se afastaram.
Por quê? Gente que não quis conviver, não se sentia bem em estar perto da situação, que é realmente dura. Em 1996, leucemia era morte certa. O Bebeto de Freitas tinha perdido um irmão com leucemia. E para mim, pô, nem se fala, era meu filho único. A Anna fez cursos de cromoterapia, florais, reiki, cristais, tudo para aplicar no Gianluca. De noite, ela energizava os cristais e meu filho dormia com eles no corpo. O Gianluca dava altos pulos de tanta energia que passava para ele. Mas teve gente que não deixava os filhos chegarem perto, achando que a leucemia era transmissível. Por duas vezes, o doutor nos chamou para dizer: “Pratiquem a vossa fé, porque o estado dele está muito grave.” Eu ficava doido, mas não pensava na possibilidade de ele morrer. Raspei a minha cabeça em solidariedade. O tratamento durou quatro anos. Gianluca passou por 21 internações. O Gianluca ficou com alguma sequela? Disseram que
o Gianluca poderia ter perda de raciocínio matemático, mas hoje, aos 20 anos, ele é engenheiro de produção. Também falaram que ele teria problema de altura. De fato, ele mede 1,73 metro, enquanto o irmão caçula, duro. Descobrimos a leucemia do Gianluca e, quando soube o Enzo, de 15 anos, tem 1,86. Mas está tudo certo. Foi um trabalho monstruoso em equipe. O Gianluca era que eu precisava tratar do meu filho na capital paulista, o filho único. Eu e Anna conversamos e decidimos que dono da Chapecó transferiu a equipe para São Paulo. Ele foi sensacional. Mas foi um tempo de muitos altos e baixos. só faríamos outro filho quando a cura definitiva ocorresse. E assim foi. A gente viu muitos casais se separando Lembro do dia em que eu me dei conta de que não ia durante um processo como o nosso, mas com a gente suportar. Havia passado uma noite no hospital, o Gianluca com reação por causa de uma químio, e fui de carro para o foi o contrário. Ainda bem.
Quando você estava treinando o Chapecó, descobriu que seu filho tinha leucemia. Como foi treinar um time e ao mesmo tempo lutar contra a doença? Foi
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_tinga (futebol)
_uma q u e s tão pele
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Por mais que muita gente Prefira fechar os olhos, é imPossível ignorar uma verdade Pungente: o Preconceito racial está entranhado no esPorte brasileiro por Nathalia ZiemkiewicZ fotos pedro dias/ag. istoé
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_daiane dos santos (ginテ《tica artテュstica)
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_Josi dos santos (esqui)
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_Josi dos santos (esqui)
“não me queriam Por ser negra”
no esqui estilo livre, a cor da pele predominante entre os atletas é tão branca quanto a neve em que eles deslizam. aos 29 anos, Josi dos santos entrou para a história das olimpíadas de inverno como a primeira negra do mundo a competir pela modalidade. o feito aconteceu este ano na rússia. não foi uma apresentação brilhante – nem poderia ser. seis meses antes, a confederação brasileira de desportos na neve (cbdn) recrutava esportistas para representar o País em sochi. embora nunca tivesse esquiado na vida, ela dominava acrobacias aéreas graças à carreira na ginástica artística e enxergou na oportunidade um grande desafio. ao lado da também iniciante laís souza, Josi embarcou para a temporada de treino no canadá que culminou com o terrível acidente da companheira. ela se reergueu emocionalmente e exibiu o melhor que pôde. recebida de braços abertos no esqui, a ex-ginasta demora a revelar a mágoa em relação à atividade que amava praticar desde menina. Josi afirma ter sido vítima de preconceito desde 1998, no auge de sua forma física. após uma semana de treinamento e avaliação técnica, quatro brasileiras seriam escolhidas para disputar o Pan-americano. “tive as melhores notas, mas não me queriam por ser negra”, diz. “só fui porque meu técnico bateu o pé.” depois disso, Josi operou o joelho e se afastou por um tempo. voltou dois anos mais tarde, sentindo-se ainda mais desconfortável e excluída no centro de treinamento. em outra ocasião, segundo ela, optaram por uma menina branca com um somatório de pontos bem menor. Josi nunca contou sobre isso aos pais porque quis evitar o sofrimento deles – e temia que, se soubessem, a obrigassem a largar o esporte. enquanto isso, sofreu sozinha e tomou uma decisão quando aquilo que era fonte de prazer virou tristeza. “abandonei a seleção meio depressiva. não fui forte como a dai”, afirma, referindo-se à colega daiane dos santos.
_JÚlio silVa (tÊnis)
“fiquei maluco, queria sair na mão”
aos 13 anos, o garoto arrumou emprego como pegador de bola num clube de tênis em Jundiaí. Júlio silva precisava contribuir com a renda de sua humilde família. À medida que fazia amizades com os professores e contava sua história, começou a receber aulinhas básicas. Porque era esforçado, inventaram de fazer rifa para comprar raquete e pagavam as viagens para que competisse em outras cidades. o treinamento profissional de Júlio se deu a partir dos 17 anos, quando passou a disputar torneios brasileiros e internacionais. certa vez, no chile, ouviu de um torcedor “fica quieto, macaco”. rebateu a discriminação paralisando o jogo. avisou o árbitro que só prosseguiria se o indivíduo fosse retirado dali por seguranças. Júlio foi atendido e, na hora, usou a indignação a seu favor. “botei o sangue para dar o troco e vencer a partida”, diz Julio, hoje aposentado aos 34 anos e professor em araçatuba. confusão mesmo aconteceria em 2010, na itália, diante do austríaco daniel Koellerer. durante o confronto nas quadras, o jogador adversário ofendeu-o dizendo em alemão “volta pra floresta”, gesticulando como quem coça debaixo dos braços. Júlio ignorou a ofensa, simplesmente por não compreender o idioma. mas seus colegas, entre os quais o tenista thiago silva, escutaram da arquibancada e alertaram o juiz – que não tomou nenhuma providência. no final da partida, deu-se o tumulto. “me explicaram o que ele tinha dito e fiquei maluco, queria sair na mão”, lembra. Júlio registrou a ocorrência numa delegacia italiana e foi organizado um abaixo-assinado para banir o agressor do tênis. um ano depois, por uma série de motivos, foi exatamente o que aconteceu com Koellerer. “não sei por que algumas pessoas agem assim, se somos todos iguais”, afirma. “quando a gente morrer, vamos todos pro mesmo lugar.”
_Wallace (VÔlei)
“racismo é covardia”
Wallace de souza se preparava para o saque depois de marcar mais um ponto para o sada cruzeiro. em março de 2013, sua equipe liderava a superliga masculina de vôlei. o jogo em andamento era um clássico mineiro disputado na casa do minas tênis clube. apesar da pressão da torcida adversária, os visitantes venciam por 2 sets a 0. sob um silêncio apreensivo do ginásio, Wallace impulsionou a bola para o outro lado da quadra. “vai lá, macaco! volta pro zoológico”, uma mulher gritou sonoramente. o jogador seguiu na partida, desconcentrado, vasculhando a arquibancada com o olhar em busca da agressora. “eu fiquei indignado, sem chão, puto da vida”, afirma o oposto, de 26 anos. “até o juiz me encarou como quem dissesse para relevar aquilo.” Wallace não estava preparado para ignorar. bloquear um ataque na rede é bem mais fácil que bloquear um ataque às emoções. abalado psicologicamente, ele mesmo admite que seu desempenho caiu muito. depois desse episódio, o minas conseguiu virar – e vencer – por 3 sets a 2. talvez seja leviano cravar que a derrota do cruzeiro se deveu à manifestação racista, mas não há dúvida de que ela atrapalhou o foco do time. no vestiário, ainda transtornado, Wallace recebeu o apoio dos colegas. “esquece isso, aquela pessoa não merece te deixar nesse estado”, disseram para ele. ele passou uma semana remoendo a história, recebendo ligações de parentes e amigos. hoje agradece por não ter conseguido identificar a torcedora, certo de que teria perdido a cabeça e pulado o alambrado para tirar satisfações. “além de covardia, é coisa de quem não teve educação familiar”, diz Wallace, que integrou a seleção brasileira campeã pan-americana (2011) e vice-campeã olímpica em londres (2012). o caso dele foi levado ao superior tribunal de Justiça desportiva, que determinou por unanimidade multa de r$ 50 mil ao minas. na época, tanto o clube punido quanto a confederação brasileira de vôlei publicaram nota lamentando e repudiando a atitude racista.
_tinga (futebol)
“com os negros, semPre existe o PreJulgamento” “uh, uh, uh, uh.” era a bola tocar os pés do volante tinga para um coro uníssono imitar o som dos macacos. ele defendia o cruzeiro numa partida contra o real garcilaso pela taça libertadores, realizada no Peru em fevereiro deste ano. as imagens alcançaram davis, de apenas 11 anos, que assistia à televisão em casa. “eu não quero ir para a escola amanhã”, suplicou o filho mais velho de tinga, aos prantos. sem encontrar palavras para explicar os insultos racistas, a mãe segurou o próprio choro e respondeu: “são coisas do futebol.” a milhares de quilômetros dali, o pai e jogador não conseguia dormir de tamanha perplexidade. menos pelo fato em si, que o correr da vida ensinou a driblar, mais pelo local em que aconteceu, uma cidade pobre e miscigenada. não passou por algo parecido nem mesmo quando vestiu a camisa de um time alemão e se mudou com a família para a europa. “tenho consciência do ser humano que eu sou”, diz, aos 36 anos. “Já tive dificuldades maiores que o preconceito e superei.” a repercussão do caso mobilizou personalidades em uma campanha contra o racismo. a presidenta dilma rousseff e o ministro Joaquim barbosa, do supremo tribunal federal, manifestaram publicamente indignação. embora tenha levantado o debate, o episódio não foi inédito para tinga. em 2005, ele integrava a equipe do internacional quando foi vítima de uma situação semelhante em caxias (rs), na disputa de uma partida contra o Juventude. ou seja, não há desculpa – o racismo existe também nos gramados brasileiros. e tinga não aceita o discurso de que é preciso levar esse tipo de violência na esportiva: educação é educação, dentro e fora dos estádios. casado há quinze anos com uma loira descendente de italianos, ele sabe muito bem disso. os olhares os perseguem em restaurantes, hotéis e eventos como se encarnassem o estereótipo do “jogador rico e sua maria-chuteira”. os dois se conheceram ainda jovens, quando as famílias eram vizinhas num bairro de Porto alegre. “Por que se surpreendem com a nossa história? Porque, com os negros, sempre existe o prejulgamento.” Para tinga, educar as novas gerações é a única alternativa para construir uma sociedade sem preconceito. “estou fazendo a minha parte com meus dois filhos”, diz.
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_mÁrcio cHagas (Árbitro de futebol)
“ser negro é conviver com humilhações diárias” o pior cartão vermelho é aquele que não se pode dar. era o que pensava o árbitro márcio chagas a caminho do estacionamento do clube em que acabara de comandar o jogo entre esportivo e veranópolis, em bento gonçalves (rs). ele deu partida no carro – uma, duas tentativas e nada. na terceira, saíram bananas do escapamento. a lataria havia sido amassada a pontapés. nenhuma câmera ou testemunha identificou os agressores. “Preferia tomar porrada porque poderia reagir”, diz, aos 37 anos. “ser negro é conviver com provações e humilhações diárias.” quinze anos de carreira e quatro títulos consecutivos como o melhor árbitro do campeonato gaúcho não foram suficientes para blindá-lo. naquela noite, antes mesmo do apito inicial, um grupo de 20 torcedores colado ao alambrado já urrava na direção de márcio coisas como “macaco, escória, seu lixo, volta pra selva, essa negrada tem que morrer”. o time local ganhou, nenhuma decisão foi contestada e o juiz relatou em súmula as manifestações racistas. “os xingamentos folclóricos do futebol não doem como ouvir esses absurdos que tocam na questão étnica e racial”, diz. “neste caso, a intenção é atingir a minha pessoa, não a autoridade em campo.” os ataques vêm de todos os lados. em 2005, márcio expulsou o treinador nestor mior depois de ter sido chamado de “negro coitado”, mas a punição da federação gaúcha de futebol se limitou a míseros 60 dias de afastamento. no ano seguinte, no intervalo de uma partida pelo cruzeiro de Porto alegre, o goleiro larry xingou o árbitro de “macaco ladrão”. larry foi autuado por um policial, ficou preso no vestiário até que o jogo terminasse e todos fossem registrar um boletim de ocorrência na delegacia. condenado no processo, o goleiro só precisou pagar algumas cestas básicas. “as penas são brandas porque não julgam o racismo como crime, mas como uma expressão corriqueira dentro de um evento esportivo”, afirma. ele estava pensando em desistir da profissão após o triste episódio em bento gonçalves, mas foi convidado para ser comentarista da maior emissora do sul do País. márcio venceu os racistas.
_daiane dos santos (ginÁstica artística)
“o Preconceito intimida”
ela nasceu e cresceu na região sul do País, povoada por imigrantes italianos e alemães. desde pequena, daiane dos santos ouviu dos pais que era linda com a cor de sua pele e o encaracolado dos cabelos. aos 11 anos, enquanto exibia estripulias no colégio público, foi convidada a iniciar na ginástica olímpica num centro de esportes do estado. o espaço era democrático e miscigenado, repleto de crianças oriundas de famílias humildes. não demorou muito para que ela conseguisse uma bolsa no grêmio náutico união, um clube elitizado de Porto alegre, onde os negros eram nítida minoria. “algumas mães não gostavam da minha presença ali, pediam às filhas que não ficassem perto nem conversassem comigo”, diz a maior ginasta da história do País, agora aposentada, aos 31 anos. o preconceito não veio em forma de xingamentos, mas em olhares distantes e desconfiados. até de quem não esperava. certa vez, um treinador não conseguiu argumentos convincentes para se negar a treiná-la. mas daiane era muito focada no esporte, cada rejeição dava mais impulso para as acrobacias que ficariam mundialmente famosas. ela nunca se deixou afetar, não lembra de ter derramado uma lágrima por causa do racismo velado. ao contrário da mãe, que se ressentia ao captar comentários maldosos nas competições. “sempre senti que precisava dar três vezes mais suor para provar a minha qualidade técnica”, diz daiane. então era isso o que ela fazia. daiane foi a primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro no campeonato mundial. o reconhecimento dos títulos que traz no currículo não apenas atestou sua competência como induziu muita gente a respeitá-la. embora tenha aberto portas para as gerações seguintes, ela lamenta que muitas meninas negras ainda sejam obrigadas a lidar com o preconceito. “isso intimida, mexe com o ego e a autoestima, pode realmente atrapalhar uma carreira”, diz. “como alguém pode render o máximo sendo tantas vezes diminuído pelos outros? nem todo mundo tem a cabeça que eu tive.”
em Belo Horizonte, durante uma partida de vôlei, alguém da arquibancada manda o oposto Wallace voltar para o zoológico. Depois de apitar um jogo de futebol em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, o juiz Márcio encontra bananas no escapamento do carro. Em muitos lugares, o volante Tinga, do Cruzeiro, ouve maledicências sobre seu casamento com uma branca. Na ginástica, Josi quase fica fora da seleção e um técnico se recusa a treinar Daiane – apenas porque elas são negras. Por mais que muita gente prefira fechar os olhos, é impossível ignorar uma questão pungente na vida de milhões de negros, sejam eles atletas ou cidadãos em geral: o racismo está entranhado na sociedade brasileira. No esporte, retrato fiel do que nós somos, o preconceito é tão corriqueiro quanto vitórias e derrotas, e muitas vezes não se expressa por xingamentos, sons símios e cachos de bananas. “A gente sente o preconceito no olhar”, diz a ginasta Daiane dos Santos. Pesquisas recorrentes mostram que a maioria esmagadora da nação acredita que existe racismo no País, mas apenas uma parcela insignificante se reconhece como racista. Um dos mais influentes sociólogos brasileiros, o paulista Florestan Fernandes definiu numa frase essa aparente contradição: “Temos preconceito de ter preconceito.” Como combater um inimigo que não se assume? No Brasil, mais da metade da população (51%) se declara negra ou parda. O que explica então a rara presença de negros entre médicos, engenheiros, advogados ou políticos, a não ser o preconceito associado à brutal desigualdade? Segundo os mais recentes dados disponíveis, 75% das classes A e B são de brancos, enquanto 72% dos pobres são negros. Outros dados, do Ministério da Saúde, revelam que os negros estão no topo do ranking de vítimas por homicídio – mais da metade dos mortos por esse crime eram jovens, dos quais 71,44% negros. Quem diz que não existe racismo no Brasil ou está enganado ou fala isso de má-fé. Nunca houve por aqui um conflito civil motivado pela cor da pele, como aconteceu na África do Sul de Nelson Mandela, e talvez por isso se disseminou a teoria de que “somos todos iguais”. Ok, isso deveria ser uma verdade incontestável, mas na prática é a negação da realidade. “A democracia racial é um desejo, mas ainda está longe de acontecer”, afirma o historiador Joel Rufino dos Santos, autor do livro A escravidão no Brasil. Diante das intermináveis barreiras impostas aos negros, o caminho mais curto para a inclusão se deu pelo esporte, pela música e pela arte. “Ninguém discrimina um negro na pelada
da praia ou numa roda de samba”, afirma Sérgio Costa, professor-titular de sociologia na Universidade Livre de Berlim. “Mas torce o nariz se a filha quiser casar com ele.” Se este negro for um atleta bem-sucedido, talvez a família aceite a união – mas ele continuará exposto à estupidez de torcedores, como mostram os xingamentos que vêm das arquibancadas de ginásios e estádios brasileiros. Ao longo do tempo, atletas negros expressaram seus sentimentos em relação ao racismo de formas variadas. O jogador de futebol Arthur Friedenreich, filho de um comerciante alemão e uma lavadeira brasileira, escondia o cabelo encaracolado sob uma touca. Os velocistas americanos Tommie Smith e John Carlos, que subiram ao pódio dos 200 metros rasos na Olimpíada de 1968, fizeram uma saudação com os punhos cerrados, numa referência ao grupo revolucionário Panteras Negras. O boxeador Muhammad Ali foi mais longe para apoiar o movimento negro em 1970: disse que atiraria sua medalha de ouro no rio em protesto por não ter sido atendido em um restaurante para brancos. Tricampeão do mundo, Paulo Cézar Caju voltou da Europa esbanjando fluência em francês e espanhol. Não deixa de ser irônico que Caju tenha sido considerado arrogante ao gastar os novos idiomas dentro de seu smoking – diziam, na época, que a um negro não cabia aquele pose toda. Poucas décadas antes, cientistas europeus se debruçavam em experimentos, como medição de crânios, na tentativa de comprovar o discurso de que os brancos eram intelectualmente superiores. No Brasil, antropólogos como o baiano Nina Rodrigues defendiam um direito penal diferenciado entre as raças – como os negros não teriam capacidades mentais para compreender seus erros, deveriam ser submetidos a penas mais brandas. Um raciocínio não muito diferente é aplicado para defender, principalmente, os torcedores racistas. “O esporte desperta emoções primitivas, faz parte do jogo”, ouve-se por aí. Como se, dentro de um ginásio ou um estádio, nos tornássemos momentaneamente incapazes de distinguir civilidade de desrespeito. “Educação é educação em qualquer lugar”, afirma o volante cruzeirense Tinga, alvo recente de ataques racistas enquanto disputava uma partida pelo seu time no Peru. Não foi a primeira vez que ele se viu numa situação dessas, até porque a vida cotidiana é igualmente cruel. Embora ainda surpreenda, Tinga diz ter adquirido maturidade para superar o preconceito. Mas o racismo intimida e fere a autoestima de qualquer um. No caso dos
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_Wallace (VÔlei)
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_tinga
_daiane dos santos
_Josi dos santos
integrantes do moVimento negro depositam suas expectatiVas nos esportistas, Justamente porque eles são ícones que inspiram multidões. AcreditAm que os AtletAs poderiAm ser portA-vozes dA lutA por iguAldAde _Wallace
_JÚlio silVa
_mÁrcio cHagas
fotos: felipe oliveira/aGif | BeN staNsall/afp | Mike Blake/reUters | divUlGação | raMiro fUrqUiM/aGif
esportistas, pode inclusive atrapalhar o desempenho. O jogador de vôlei Wallace confessa ter perdido o foco no meio de clássico da Superliga depois que uma torcedora o chamou de “macaco” e sugeriu que “voltasse para a floresta”. Transtornado com a covardia, ele procurou identificá-la na arquibancada durante o jogo, mas não conseguiu. Para o historiador da USP Marcel Diego Tonini, que estuda a presença do negro no futebol, há basicamente dois padrões de reação para as vítimas de preconceito racial. Alguns ficam ressentidos e falham em suas funções, outros encaram a discriminação como um desafio e jogam com mais garra ainda. Chama a atenção o fato de que a maioria não denunciou o racismo e “acabou deixando pra lá porque não ia dar em nada.” Em parte, por medo de que sua imagem profissional ficasse atrelada a um marketing negativo ou por dificuldade de provar algo por vezes subjetivo. E também por questões mais práticas, segundo Tonini. “Alguns atletas dizem que, se for para dar bola sempre que sofrem discriminação, vão viver em delegacia.” A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) registra um aumento gradativo no número de denúncias, mas as estatísticas da intolerância serão sempre subestimadas. Talvez pela crença geral de que as leis Afonso Arinos (proíbe a discriminação racial) e Caó (define preconceito racial como crime) raramente são executadas. No Brasil, racismo é delito inafiançável, ou seja, punido com prisão e sem direito a fiança. “Mas a questão está tão arraigada na sociedade que os delegados caracterizam como ofensa ou injúria”, afirma Ramatis Jacino, presidente do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial. “Basta pagar umas cestas básicas para se ver livre.” Os tribunais esportivos andam movimentados com a quantidade de processos sobre o tema. O problema, alegam especialistas, é que as sanções parecem leves. As multas para os clubes cujos torcedores manifestam racismo não costumam passar de R$ 30 mil, um valor irrisório comparado ao que muitas agremiações arrecadam. O problema é não identificar e punir cada agressor, permitindo que frequentem novamente os espaços esportivos. Graças à estrondosa repercussão do caso de Daniel Alves, que teve o apoio de celebridades nas redes sociais, o homem responsável por atirar uma banana na direção do jogador foi preso. Se condenado, David Campayo Lleo, 26 anos, pode pegar até três anos na cadeia. Em maio do ano passado, a União das Federações Europeias de Futebol (Uefa) aprovou uma suspensão
mínima de dez partidas a quem apresentar esse tipo de comportamento no futebol. “As penas são brandas porque não julgam como crime, mas como uma expressão corriqueira dentro de um evento esportivo”, afirma o árbitro Márcio Chagas, que encontrou bananas em seu carro após apitar uma partida em Bento Gonçalves. Provavelmente, a medida mais exemplar tenha sido dada pela NBA. A liga americana de basquete cobrou R$ 5,6 milhões de Donald Sterling, dono do Los Angeles Clippers, e o baniu do esporte. Tudo porque um famoso site de fofocas vazou uma conversa em que Sterling pede à namorada para não levar negros aos jogos nem divulgar fotos ao lado deles. Integrantes do Movimento Negro depositam suas expectativas nos esportistas, justamente porque eles são ícones que inspiram multidões. Acreditam que eles poderiam ser porta-vozes da luta por igualdade. Para a professora da USP e pesquisadora da história olímpica do Brasil Katia Rubio, se o esporte reflete a sociedade, não é justo cobrar isso. “O atleta é tão cidadão quanto um professor, um médico, um engenheiro”, diz. “Se essas pessoas não denunciam a questão racial, por que ele teria essa obrigação?” Às vésperas da Copa do Mundo, o governo federal lançou uma propaganda contra o preconceito. Enquanto as imagens mostram torcedores eufóricos e emocionados durante uma partida, o locutor pergunta coisas como “de que cor é a lágrima e a alegria?” A presidenta Dilma Rousseff também pediu ao papa Francisco que escreva uma carta contra o racismo, que deve ser lida na abertura do evento. E Joseph Blatter, o todo-poderoso da Fifa, avisou que a ordem é tolerância zero com manifestações do gênero. As iniciativas são nobres, mas insuficientes para chutar para bem longe uma questão histórica e cultural. O esporte pode dar belas lições à sociedade, como a inclusão que promove, só que não vai resolver tudo sozinho nem liquidar o problema. “Quando pudermos falar francamente sobre a opressão racial do passado e o desacordo racial do presente, daremos um grande passo para deixar esse preconceito para trás”, afirma Jeremi Duru, professor de direito da Universidade de Washington e pesquisador da inclusão social dos negros pelo esporte. É uma tristeza, mas parece que o dia em que o preconceito será definitivamente jogado na lata de lixo da história está longe de chegar. Produção: Cintia Sanchez maquiagem: ana cláudia mota (tinga e Wallace) ester ganev (Josi santos e daiane dos santos) junho/julho 2014
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RiVaLiDaDE Thiago Braz (de branco) é mais técnico e augusto Dutra, mais veloz
arquiamigos Com a mesma equipe, o mesmo téCniCo e a mesma origem, thiago Braz e augusto Dutra Disputam para ver quem é o melhor Brasileiro no salto Com vara
por Mariana Queiroz BarBoza fotos joão castellano/ag. istoé
Mais veloz atleta brasileiro do salto coM vara, Augusto Dutra, 23 anos, parecia insuperável até junho do ano passado. Embalado pelos aplausos de uma plateia que acompanhava obedientemente as batidas de “We Will Rock You”, clássico da banda Queen, Dutra passou pelo sarrafo a uma altura de 5,82 m ao final de 18 passadas e, assim, quebrou o recorde sul-americano numa prova de rua em Hof, na Alemanha. O índice era um centímetro superior à sua própria marca no Grande Prêmio Internacional de Atletismo realizado um mês antes em Uberlândia, Minas Gerais, e comprovava a boa fase de Dutra, dono de quatro recordes em cinco meses. O topo durou apenas mais duas semanas, quando, ao saltar 5,83 m – de novo, por uma diferença de um centímetro –, outro atleta conseguiu o ouro e o recorde continental no Campeonato Sul-Americano de Atletismo em Cartagena, na Colômbia. Mais alto e mais novo, Thiago Braz, 20 anos, começava a deixar de ser uma promessa juvenil para se tornar uma real ameaça. Juntos, Braz e Dutra representam a principal chance de pódio do Brasil, talvez até com uma dobradinha, no salto com vara na Olimpíada de 2016. Mais do que repartir o pódio, os dois dividem o mesmo técnico: Elson Miranda, responsável também pelos recordes de Fabiana Murer e Fábio Gomes da Silva. “Se o Augusto pode, você também pode”, disse o treinador a Thiago antes da conquista em Cartagena. Neste ano, os dois brasileiros chegaram à final do Mundial Indoor de Sopot, na Polônia, com os principais saltadores do mundo. De 12 competidores, Thiago ficou em quarto lugar e Augusto, que se recuperava de uma lesão séria no pé, em sétimo. Tanto tempo juntos faz com que a rivalidade logo seja um obstáculo cotidiano, quase banal. Para uma prova de alta performance e alto rendimento, o treinamento é intenso e chega a dez sessões por semana, que incluem ginástica, técnica de corrida e corrida com vara, além dos saltos, com descansos apenas às quartas e aos domingos, sem feriados. Não raro, Elson divide os quatro atletas de sua equipe em treinos diferentes para que um possa observar a técnica do outro. Ele diz que a direção é a mesma para Thiago e Augusto, apesar de diferenças pontuais. junho/julho 2014
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DuRa concoRRência augusto Dutra (aCima) Dominou a temporaDa 2013 até thiago Braz (à Direita) queBrar seu reCorDe
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augusto Dutra:
5,82 m
“O Augusto tem como característica ser muito veloz”, diz Elson. “Aqui (no Centro de Treinamento do Clube de Atletismo BM&FBovespa, em São Caetano do Sul) a gente faz uma corrida que vem acelerando aos poucos para que o atleta seja veloz só na última passada.” Os saltadores correm empunhando uma vara de fibra de vidro com cerca de cinco metros de comprimento e têm que encaixá-la num buraco, sem perder velocidade, para conseguir projetar seu corpo com energia suficiente para o salto. Como Augusto só chegou à BM&FBovespa depois de passar por dois clubes, não foi Elson quem fez seu desenvolvimento técnico. “Levou um tempo para ele se adaptar ao meu trabalho, à forma como eu acho que ele deve transportar a vara e correr de um jeito mais eficiente,” afirma o técnico. Thiago, em contrapartida, é cria de Elson. Ele chegou a São Caetano com 15 anos de idade. Desde então, levou medalha de prata nos Jogos Olímpicos da Juventude de Cingapura, em 2010, ouro no Pan-Americano Juvenil de Miramar, em 2011, ouro no Mundial Juvenil
em prova De rua em hof, na alemanha
de Barcelona, em 2012, e ouro no Sul-Americano de Cartagena, em 2013. “Esse garoto simplesmente ganhou tudo o que poderia ter ganhado”, diz Elson. “O Thiago é o estereótipo do atleta soviético.” A referência à formação esportiva na antiga república socialista tem relação direta com a consultoria do ucraniano Vitaly Petrov, nome por trás de grandes estrelas como Yelena Isinbayeva e Serguei Bubka. Contratado da Confederação Brasileira de Atletismo até a Olimpíada do Rio, Petrov trabalha com Elson Miranda desde 2001 num rigoroso método soviético de formação de atletas. Com ele, Elson aprendeu a desenvolver a parte física para levar seus saltadores ao nível mais alto, em que o acaso não é um fator relevante. Segundo o ucraniano, cada medalha conquistada pela Rússia custa US$ 2 milhões, considerando que um atleta demora ao menos dez anos para ser formado. “No Brasil, nossas medalhas não são trabalhadas, são sorte”, diz Elson. “Lá é tudo técnica.” Como a trajetória de Thiago Braz mostra, o quadro tem mudado. No Centro de Atletismo da fotos: gência luz/BM&fBoVEsPa
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thiago Braz:
5,83 m
(ínDiCe para o munDial De mosCou), no Campeonato sul-ameriCano De Cartagena, na ColômBia
BM&FBovespa, que ocupa uma área de 31.112 metros quadrados, foram investidos R$ 20 milhões e regularmente o clube recebe novos equipamentos. Além dos patrocínios de Caixa, Pão de Açúcar, Nike e São Caetano, os atletas recebem dinheiro do Ministério do Esporte, via Bolsa Pódio (que varia de R$ 5 mil a R$ 15 mil). O benefício paga técnico, fisioterapeuta, dá direito a dois “campings” internacionais por ano e à compra de materiais novos. Neste ano, os saltadores já receberam cinco varas cada um. Uma masculina chega a custar até 600 euros. Sem incentivo do governo, o equipamento, com todos os impostos e taxas de importação, poderia chegar a R$ 5 mil no Brasil. Com 100 varas à disposição, Elson Miranda guarda “uma pequena fortuna”. É a Bolsa Pódio também que financia a temporada internacional de três meses na qual Thiago e Augusto embarcaram no fim de maio. O destino: a cidade de Fórmia, a cerca de duas horas de Roma, na Itália, onde fica um centro de treinamento da Federação Internacional de Atletismo (Iaaf),
especializado em salto com vara. No local, hotel e restaurante ficam integrados às pistas indoor e outdoor por uma diária que custa, em média, 50 euros com tudo incluso. Ali funciona o QG da equipe brasileira para as competições na Europa e nos Estados Unidos. A temporada de 2014 começaria na Diamond League em Eugene, nos EUA, o principal torneio de elite do atletismo mundial. Lá o maior rival atende por Renaud Lavillenie. Em fevereiro, o francês saltou 6,16 m numa competição indoor organizada por Bubka, então detentor do recorde mundial, em Donetsk, na Ucrânia. Uma “ousadia”, na opinião de Thiago Braz. Não bastassem as viagens do Brasil ao Hemisfério Norte serem longas e cansativas, os atletas do salto com vara têm que lidar com o inconveniente de transportar seu material de trabalho. Antes do embarque, a confederação brasileira precisa ser notificada pelo técnico por escrito e, assim, repassar à agência de viagem responsável pelas passagens a informação de que um estojo com dez varas de mais
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de quatro metros irão junto com o atleta. A viagem só segue quando a companhia aérea confirma o despacho do tubo. No celular, Elson mostra, animado, a imagem registrada pelo funcionário de um aeroporto em que um homem uniformizado segura uma ponta da vara de dentro do porão de um Boeing 737. A outra ponta quase toca o chão. “Eu gosto dessa foto ainda mais quando dizem que a vara não cabe no avião”, afirma o técnico. “Cabe sim, olha aí.” Com o estímulo da concorrência, Thiago e Augusto só cresceram. Em um ano, Thiago evoluiu de um salto de 5,55 m para 5,83 m. Augusto saiu de 5,45 m para terminar a temporada de 2013 saltando 5,82 m. A rivalidade entre dois atletas, em diversos pontos da história, mostrou-se fundamental para o avanço do esporte. Tricampeões da Fórmula 1, Ayrton Senna e Nelson Piquet dedicaram-se às provocações mútuas com tanto afinco quanto a fazer o melhor tempo nas pistas nas oito temporadas que disputaram juntos. A ultrapassagem de Piquet em Senna no circuito da Hungria, em 1986, entrou para a história como uma das mais espetaculares. Também nos anos 80, Joaquim Cruz e Zequinha Barbosa disputavam a liderança no atletismo brasileiro e estabeleceram recordes sul-americanos indoor nos 800 metros rasos. No basquete, Hortência e Paula consagraram a seleção feminina em meio a inúmeros conflitos nos bastidores. Augusto e Thiago evitam levar a rivalidade para fora do ginásio. Por mais que um dia sigam caminhos opostos, sua origem impede que a ligação entre os dois seja apagada. Nascidos em Marília, no interior de São Paulo, eles compartilham histórias desde a infância. “O Augusto não tinha medo de cair, dava gargalhada quando pulava”, diz Juvenal Dutra sobre o filho, que, apelidado de 220 (numa referência à voltagem), até hoje mantém o sonho de ser dublê de cinema. Um dia, saindo de casa, o pai flagrou Augusto sentado debaixo de uma árvore, tocando uma melodia melancólica no violão. “Perguntei o que era e ele me disse que não tinha amigos”, afirma Juvenal. Do outro lado da Rodovia Transbrasiliana, que cruza a cidade, o Estádio Pedro Sola, a um quarteirão da casa da família Dutra, vivia cheio de crianças – entre elas, o pequeno Thiago Braz. Juvenal, então, matriculou Augusto nas aulas de atletismo. Da janela, munido de um binóculo, ele passou a acompanhar o progresso do filho. Enquanto isso, Thiago, criado pela avó, Maria do Carmo, acompanhava o tio Fabiano, 16 anos
mais velho que ele, em treinos e competições. Tio e sobrinho corriam todos os dias a distância de um quilômetro de casa ao centro esportivo com os tênis nas mãos. Fabiano Braz da Silva era decatleta e chegou a representar o Brasil no Campeonato Sul- Americano. “Depois de três anos brincando nos colchões, o Thiago começou a se destacar e receber uniforme e sapatilhas da prefeitura e de outros atletas”, afirma o tio. “Isso, para ele, era o máximo.” Augusto começou no salto em altura. Thiago, no salto triplo. O pai de Augusto, cenógrafo de bufês infantis, escolas e estúdios, marcava com tinta numa parede seu progresso. Chegou a 2,10 m. Thiago se inspirava em Jadel Gregório, recordista sul-americano no salto triplo, que também saíra de Marília. A cidade conseguiu se tornar um dos celeiros do atletismo no Estado de São Paulo, porque parte dos impostos pagos pelas faculdades à prefeitura é revertida em bolsas de estudo para os atletas. Eventualmente, com os limites na infraestrutura, chega a hora de eles partirem. Augusto queria mais adrenalina e mudou para o salto com vara, apesar de a distância permanecer em sua carreira, agora na estrada. Uma vaquinha entre familiares pagou o trajeto de quase seis horas até Bragança Paulista, onde foi aprovado pelo técnico Otaviano Caetano da Silva, num teste na terra, e ele entrou para o Grupo Rede Atletismo (encerrado em 2011). Logo, Thiago não quis ficar para trás. “Eu vi o Augusto saindo de Marília e quis sair de lá também”, diz. Foi aí que começou a treinar salto com vara. Ligar para Augusto Dutra e mandar recados para o técnico do Grupo Rede entrou para a rotina de Thiago Braz. Depois de um encontro numa competição em Sertãozinho, também no interior paulista, Augusto apresentou Thiago a Otaviano. O destino de seu futuro rival ganharia um empurrãozinho com aquela indicação. Foram sete meses morando juntos em Bragança até que Thiago passou num teste para treinar com Elson Miranda em São Paulo. “Ele foi, eu fiquei”, diz Augusto, que ainda treinaria por uma temporada numa pista de carvão na ASA de São Bernardo do Campo. “Assim como o Fábio e a Fabiana, o Thiago estava começando a dar resultado. Eu queria isso também.” Em 2012, chegou ao clube da BM&FBovespa, sem indicações. “Antes, um sempre ajudava o outro, mas agora tem essa história da rivalidade”, afirma Thiago. “Para mim, isso só dá mais estímulo”, diz Augusto. “É uma disputa saudável que me ajuda a evoluir.” A briga pela quebra de recordes mostra que restam poucas dúvidas disso.
Produção: cintia sanchez • agradecimentos: nike, aramis, coca-cola, calvin Klein, Quiksilver e Richards.
“a RiVaLiDaDE é um EsTímuLo”, Diz augusTo DuTRa (à DiR.). seGUNdo thiaGo braz, “UM seMPre ajUda o oUtro”
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_Fábio Luiz Pereira _ronaLdo oLiveira dos santos _MarcLeudo de MeLo Ferreira _ J o s é a n t ô n i o d a s i Lva n a s c i M e n t o _ a n tô n i o J o s é P i ta M a r t i n s _ F á b i o H a M i Lt o n d a c r u z _ M u H a M M a d ’a L i d o M a L e r r a n d r o Pao Lo n i c H o L a s P o s e i d o n M ac i e L a Fo n s o _José aFonso de oLiveira rodrigues _ r a i M u n d o n o n ato L i M a c o s ta
eles deram a vida pela c o pa a traJetória e a obra dos nove oPerários q u e M o r r e r a M n a c o n s t r u ç ã o d o s e s tá d i o s
por Raul MontenegRo
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Fábio Luiz Pereira (São Paulo, 27 de novembro de 2013)
Ronaldo Oliveira dos Santos (São Paulo, 27 de novembro de 2013)
Operar guindaste era a vida dele
O mOntadOr de assentOs que gOstava de maCHadO de assis
O operador de guindaste Fábio luiz pereira era corintiano roxo. a fama ganhou ares de mito quando parte da cobertura do itaquerão caiu sobre o caminhão onde ele trabalhava. Fábio morreu na hora. O paranaense de 41 anos não ligava para futebol antes de suas três meninas mudarem para sempre a relação do pai com o mundo da bola. “ele não era fanático, a paixão pelo Corinthians foi influência nossa”, diz Keille pereira, 19 anos, filha do operário. além dela, Karen, 21, e Karolay, 14, ficaram órfãs naquele meio-dia de quarta-feira, 27 de novembro de 2013. elas cresceram no interior paulista, para onde Fábio se mudou ainda adolescente, quando a vida no sítio em andirá (pr) complicou. primeiro, foi para Ourinhos. em 2006, seguiu para limeira, residência de sua mulher e filhas até hoje. por causa dos irmãos, que eram do ramo, já aos 17 anos começou a trabalhar com caminhões, como ajudante. logo passou a dirigi-los e não largou o volante nunca mais. Há dois anos, começou a operar um tipo de guindaste chamado munck e seguiu para a construção da arena do Corinthians. a felicidade da família foi enorme. após a conclusão da obra, Fábio planejava comprar uma casa e um Ford ecosport. “ele passava a semana inteira lá”, diz Keille. “vinha para limeira no finzinho da tarde de sábado e voltava para são paulo na segunda-feira de madrugada. Foi aí que pesou.” nos fins de semana em casa, Fábio fazia churrasco para vizinhos e irmãos. “amava cozinhar”, diz Keille, que lembra com carinho da moto Honda Biz que ganhou do pai pouco antes do acidente. “ele não era de dar bronca, mas passava muitos conselhos.” Como não podia bancar nada além dos primeiros meses de faculdade, orientou as filhas a procurar emprego para pagar os estudos. Karen faz administração e Keille, matemática. Foi por estar empregadas que as duas, após a morte do pai, conseguiram equilibrar as finanças da casa. apesar de estar envolvido diretamente com o evento, Fábio não era o maior entusiasta da Copa. “ele se importava mais com os jogos do Corinthians do que com os do Brasil”, diz Keille. “Falava que o país deveria investir em outras coisas, mas era meio a favor, meio contra.”
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a morte de ronaldo Oliveira dos santos, 43 anos, no mesmo acidente que vitimou o motorista Fábio luiz pereira, revoltou a família. além da perda do ente querido, parentes reclamam que o Corinthians e a construtora não entraram em contato para relatar a fatalidade. paulo pereira, um dos irmãos, diz que o modo como a notícia foi dada poderia ter resultado em mais um desastre. “quando a minha mãe, doente do coração, recebeu a ligação de um colega dele contando sobre a morte, achei que ela fosse morrer também”, diz. “ela desmaiou várias vezes.” paulo também ataca o ex-presidente do Corinthians andrés sanchez, que liderou o projeto de construção da nova arena. “O vagabundo disse que deu assistência, mas aqui não chegou ninguém”, diz. ronaldo viveu uma infância pobre no sertão cearense. “passamos muita fome juntos”, diz o irmão paulo. Carne na refeição era luxo só para os sábados. “no resto da semana, tinha só feijão, farinha e rapadura.” para dar oportunidades aos filhos, o pai, que morreu ao levar um choque elétrico no trabalho, decidiu emigrar para Fortaleza e ser pintor. a vida não melhorou muito. anos depois, com paulo e um irmão mais velho, ronaldo foi tentar a sorte na capital paulista pela primeira vez, pouco depois de completar a maioridade. Ficou três anos. trabalhou em pizzaria e editora de livros. a leitura era sua grande paixão. Conhecidos relatam que ele devorava qualquer tipo de texto, de livros a gibis. apesar das dificuldades, havia completado o ensino médio e era viciado em internet. “era muito inteligente, entendedor das coisas”, afirma o irmão paulo. amigo da família, o engenheiro agrônomo Horácio moreira de sousa Filho diz que os autores favoritos de ronaldo eram machado de assis e Jorge amado. O operário tinha uma veia humorística. “era um cômico”, diz Horácio. “no serviço ficava cheio de carrapichos e aí batia foto de si mesmo. era muito engraçado.” depois de voltar de são paulo para Fortaleza, ronaldo casou e teve duas filhas. passou as duas décadas
seguintes no nordeste, até se divorciar. após um período montando assentos no Castelão, estádio cearense que também receberá os jogos da Copa, voltou para são paulo para realizar a mesma atividade, dessa vez no itaquerão. pouco antes da tragédia, já estava de malas prontas para regressar. “ele seria dispensado pela empresa porque o serviço ia ficar pronto”, diz Horácio. “Já tinha comprado as passagens de avião para voltar.” ronaldo tinha um sonho, que tentaria realizar quando voltasse para casa. queria fazer faculdade de direito ou jornalismo. O operário até gostaria de assistir a um jogo da Copa do mundo, mas não tinha dinheiro para comprar o ingresso nem seria convidado pelos responsáveis pelo itaquerão. “É que nem naquela música ‘Cidadão’, do Zé ramalho: ele construiu o prédio, mas não podia entrar”, diz o irmão. e se lembra de uma frase que julgava esquecida. “Há 20 anos, ele me disse em são paulo que ia ficar conhecido no mundo inteiro. e ficou, com a morte.”
Marcleudo de Melo Ferreira (Manaus, 14 de dezembro de 2013)
O instaladOr de luminárias nãO tinHa medO de altura quando marcos antônio de melo Ferreira soube da morte do único irmão, marcleudo, 22 anos, sua primeira preocupação foi como iria contar à mãe sobre o desastre que vitimara o caçula, em 14 de dezembro de 2013. avisou o pai e, junto de tias e primas, bolou uma história para levar raimunda izídia, 58, a um dos dois hospitais de limoeiro do norte, no Ceará, onde a família vive. O plano era dar um calmante à matriarca para que ela suportasse melhor o impacto da notícia. não adiantou. quando ouviu que o filho caíra de uma altura de 35 metros enquanto instalava luminárias na arena amazônia, em manaus, ela desmaiou. O mesmo cenário se repetiu nos dias seguintes. “Foi uma coisa medonha”, diz o irmão, conhecido como marquinhos. “Hoje, ela está um pouco mais conformada, mas é só alguém lembrar que ela começa a passar mal.” marcleudo saiu da roça aos 7 anos, com os pais, rumo à área urbana de limoeiro do norte. lá, cresceu em condições melhores do que as enfrentadas pelo
primogênito, que conta que ele só gostava de “produtos novos e de qualidade”. para comprá-los, recorria ao suor do rosto. Começou a labutar aos 18 anos, fazendo forros de casas e vendendo quinquilharias. “sempre se movimentava, não ficava parado em casa”, diz marquinhos. “era um rapaz esperto.” Conseguiu emprego no município vizinho de quixadá. pouco tempo depois, um conhecido convidou o jovem e mais três amigos para levantar o estádio da Copa em manaus. pouco interessado em futebol, marcleudo não ligava para o simbolismo da obra. dava expediente para cumprir seus objetivos. O mais imediato deles era comprar o primeiro carro, para substituir uma moto. “Botava uma coisa na cabeça e trabalhava para aquilo”, conta antônio eduardo gomes, um dos colegas com quem foi para a capital amazonense. lá, ganhava cerca de r$ 1 mil, mais os aditivos das horas extras. somados, os rendimentos chegavam a r$ 1,5 mil. em manaus, o jovem cobria o turno da madrugada. morava num alojamento com vários outros pedreiros, acordava ao meio-dia, almoçava, merendava às 15 horas e seguia para o batente às 17 horas. nos momentos de lazer, ficava o tempo todo no Facebook e ouvia forró cearense, especialmente a banda garota safada, do cantor Wesley safadão. Falava para o irmão que não tinha medo das alturas que encarava diariamente. sentia-se seguro. “Os meninos me disseram que o marcleudo era o mais cuidadoso, que xingava quem estivesse sem cinto”, diz marquinhos. “e aí logo ele foi dar um vacilo desses, não dá para entender.”
José Antônio da Silva Nascimento (Manaus, 14 de dezembro de 2013)
O COraçãO Frágil dO enCarregadO de asFaltO dois meses antes de sofrer um infarto fulminante, o operário José antônio da silva nascimento fez um check-up que não apontou nenhum problema cardíaco. no sábado, 14 de dezembro de 2013, foi trabalhar normalmente, apesar da morte de outro operário, marcleudo de melo Ferreira, algumas horas antes. de manhã, telefonou para a mulher e a filha e não reclamou de
memória
nada. a verdade é que sentia tontura e dores no peito enquanto se aproximava do Centro de Convenções do amazonas, prédio vizinho ao estádio, que integra a estrutura montada para a Copa. Às 10 horas, seu coração não resistiu. O resgate não conseguiu salvá-lo. O corpo ficou até as 14 horas sob o calor de cerca de 40 graus Celsius antes de ser levado ao instituto médico legal da cidade. “meu cunhado estava jogado no sol quente como um animal”, diz Cleunia de souza Costa. a mulher, maria do socorro de souza Costa, estava no pará quando tudo aconteceu. tinha ido passar o natal com os pais, enquanto o marido comemorava o aniversário de 50 anos, que seriam completados dali a dois dias. nascido numa pequena cidade nos arredores da capital amazonense, José antônio passou a infância rodeado de água, pescando. levado, tomava esculachos da mãe quando resolvia pular da canoa para o rio. estudou até a quinta série e foi trabalhar numa embarcação pesqueira para criar os quatro irmãos, após o pai morrer, mordido por uma cobra. mais velho, mudou-se para manaus e foi pintor, segurança e empregado de um posto de gasolina flutuante. Foi lá que conheceu a mulher, que na época trabalhava numa empresa de navegação às margens do rio. depois de idas e vindas, os dois começaram a namorar. logo nasceu a filha única, elen Cristina, hoje com 16 anos. Fazia dois anos que trabalhava como operário para a construtora Conserge, empresa que assumiu parte das obras do complexo manauara para a Copa. apesar disso, era crítico dos gastos do evento. achava tudo um “grande excesso” diante dos problemas do país com saúde, segurança e educação. também reclamava do salário de r$ 1,5 mil, que considerava baixo para a cobrança e a responsabilidade do cargo de encarregado de asfalto. José antônio era feliz de verdade nas horas vagas. Ficava longe do concreto cinza e do asfalto escuro, pescando no local onde foi criado. suas maiores “vítimas” eram os jaraquis, que ele devorava com gosto. “gostava muito de peixe, mas não de bife nem de carne moída”, diz a mulher. amante da natureza e da família, tinha dois sonhos: comprar um sítio quando se aposentasse e ver a filha matriculada em uma faculdade. não verá nenhum dos dois, mas poderia se orgulhar: no fim do ano, elen prestará vestibular para direito. 56
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Antônio José Pita Martins (Manaus, 7 de fevereiro de 2014)
O pOrtuguês gOstava muitO de seu guindaste “ele ficava lá no guindaste dele, no ar-condicionado”, diz um dos operários da arena amazônia sobre antônio José pita martins, 55 anos, técnico português enviado ao Brasil pela empresa martifer para trabalhar na arena amazônia. por causa das obras da Copa em manaus, veio ao país duas vezes. na primeira, foi responsável pela montagem do equipamento e pelo treinamento de um trabalhador brasileiro na operação do guindaste de 700 toneladas, do qual martins cuidava com muito zelo. na manhã da sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014, cumpria a segunda jornada no Brasil – na operação de desmonte do guindaste – quando uma das peças do equipamento caiu sobre ele. nos últimos momentos de vida, deu entrada num pronto-socorro local com traumatismo craniano e lesões no tórax, às 9h51. Foi estabilizado e encaminhado ao hospital dr. João lúcio pereira machado, também na capital amazonense, onde morreu na mesa de cirurgia, exatamente às 12h30. O acidente aconteceu às vésperas do retorno de antônio a portugal. O técnico era visto pelos colegas como um profissional dedicado e uma pessoa simpática e sorridente. “ele mesmo dizia que gostava muito do guindaste”, diz nina neubarth, diretora jurídica da martifer. “Conhecia a máquina como ninguém.” O português era casado, mas sua família não quis falar com a 2016. amigos próximos também se recusaram a atender a reportagem.
Fábio Hamilton da Cruz (São Paulo, 29 de março de 2014)
O OperáriO e O OrgulHO de erguer O itaquerãO COm as próprias mãOs no fim de 2013, Felipe, irmão do operário Fábio Hamilton da Cruz, 23 anos, morreu assassinado. aos sobrinhos órfãos, ele dizia: “pode deixar que
o tio vai cuidar de vocês como se fosse o seu pai”. a promessa durou pouco. seis meses depois, Fábio caiu de uma altura de 8 metros durante as obras do itaquerão. a segunda tragédia consecutiva deixou a família arrasada. O pai vagou a esmo, não se sabe bem por onde, após ouvir a notícia. Os parentes chegaram a temer mais uma desgraça, mas ele reapareceu momentos antes do enterro. tudo aconteceu na construção do estádio do clube pelo qual a família é apaixonada: o Corinthians. O trabalhador era doente pelo time. Costumava dizer aos amigos que tinha orgulho de erguer o templo da zona leste com as próprias mãos. também não tirava a Copa do mundo da cabeça e chegava a discutir quando pessoas jogavam dúvidas sobre o hexa brasileiro. apesar de admitir a pressão sobre os operários para que o estádio fosse entregue a tempo, não reclamava da sorte: “tô dando meu sangue, é com amor que estou fazendo tudo isso”, dizia aos familiares. a cada vitória do alvinegro, o mesmo ritual se repetia: os parentes saíam pelas ruas de diadema, na grande são paulo, buzinando e soltando fogos de artifício. “era uma festa a cada jogo”, diz a tia eva maria do Carmo. “agora, sem o Fábio e o Felipe, já não é a mesma coisa. Ficou com menos alegria.” apesar de jovem, ele começou a trabalhar cedo, vendendo balas em faróis para vitaminar o orçamento de casa. também fez carretos em feiras para ajudar um primo, antes de conseguir o almejado emprego na arena. nas horas de folga, divertia-se levando os filhos do irmão, nicolas e nicole, de 3 e 11 anos, ao parque do ibirapuera. sonhava em comprar “um cantinho”, casar e ter filhos. “não existe morte bonita, mas ele morreu com dignidade, trabalhando”, diz eva. “ser pobre e honesto é a melhor coisa do mundo.”
Muhammad’Ali Dom Alerrandro Paolo Nicholas Poseidon Maciel Afonso (Cuiabá, 8 de maio de 2014)
O aJudante tiCO era O FaZ-tudO dO estádiO O nome muhammad’ali dom alerrandro paolo nicholas poseidon maciel afonso, 32 anos, emba-
nanou repórteres que noticiaram sua morte, no dia 8 de maio. vitimado por um choque elétrico enquanto trocava uma lâmpada da arena pantanal, ele admirava os profissionais da mídia. a relação íntima com o jornalismo vinha de longa data. O pai, robson afonso, era desenhista publicitário e publicava um jornal comunitário chamado menino de rua, dedicado a mostrar a realidade das crianças que viviam na grande Cuiabá. em um de seus primeiros serviços, muhammad’ali ajudou a entregar o periódico. O primeiro legado deixado por robson ao quarto filho não foi a paixão pelos noticiários, mas o nome. trata-se de uma sucessão de homenagens: ao boxeador muçulmano nascido Cassius Clay; ao pai do personagem Zorro, don alejandro de la vega; e ao navio fictício ss poseidon, criado pelo escritor americano paul gallico. no bairro onde cresceu, seu apelido era bem menos pomposo: tico, como o esquilo do desenho animado. Criado na Cohab Cristo rei, em várzea grande, região metropolitana de Cuiabá, passava os sábados nas rodas de conversa das calçadas da vizinhança, jogando papo fora e bebendo café ou chimarrão. “ele era uma pessoa estilo Jair rodrigues, sempre para cima”, diz o amigo da família davi de paula dias, radialista. na infância, trabalhou como engraxate e vendeu pastéis e picolés. adulto, fez vários bicos e foi empregado por uma transportadora e uma empresa de segurança antes de conseguir a vaga no estádio do mundial, em 5 de maio de 2013. “de tudo ele sabia um pouco”, afirma davi. para familiares, a versatilidade pode ter sido justamente o motivo de sua desgraça. segundo a mãe, eliana maciel de araújo, sua carteira de trabalho atesta que ele foi contratado como ajudante. “meu filho entendia um pouquinho de eletricidade, mas não era qualificado”, diz. “muhammad’ali não teria morrido se estivesse fazendo o serviço dele mesmo, e não o de eletricista”, reclama a irmã alerrandra rebeka maciel afonso. O objetivo de vida era trazer para perto suas duas crianças, nicholas e Heloísa, que moram em goiânia, com a mãe. “estava juntando dinheiro para comprar uma casa e trazê-los para Cuiabá”, conta a irmã alerrandra. também sonhava em assistir, ao lado da prole, aos jogos na arena amazônia. “ele me falou que queria dizer aos filhos: ‘papai ajudou a fazer esse estádio’”, diz davi.
memória
José Afonso de Oliveira Rodrigues (Brasília, 11 de junho de 2012)
as JÉssiCas e O CantO eram as paixões dO OperáriO Os parentes de José afonso de Oliveira rodrigues, 21 anos, não sabiam que ele trabalhava a uma altura de 30 metros no estádio mané garrincha. O jovem de Campo largo do piauí nunca contou à família que seu serviço era feito no anel de compressão, o ponto mais alto da construção da arena da Copa do mundo em Brasília. nem maria das graças – a tia graça –, que morava com ele em planaltina de goiás, cidade no entorno de Brasília, desconfiou: “José afonso dizia que subia no máximo cinco metros”, afirma. “era para não botar medo na mãe, que tinha acabado de descobrir que tinha diabetes.” no curto período em que viveu no distrito Federal (chegou lá em 15 de abril, começou na obra em 4 de maio e morreu em 11 de junho de 2012), o piauiense recusou outro trabalho por causa do perigo. “ele foi chamado num supermercado, mas, como era no período da noite, nós não deixamos”, diz a tia graça. “a cidade era desconhecida e violenta.” O emprego no estádio foi seu primeiro na construção civil. antes disso, no município natal, frequentava a escola e ajudava o pai na lavoura, onde plantava milho e feijão para subsistência. Frequentou o primeiro ano do ensino médio numa escola agrícola de são João do arraial, também no piauí, durante 15 dias. Foi quando decidiu seguir para Brasília, meio por acaso. “ele estava destinado”, acha o cunhado Carlos ivan Ferreira. “era um primo dele que ia, mas desistiu. Como a passagem já havia sido comprada, o José afonso foi no lugar.” Único homem dos seis filhos da família, era o xodó da casa. aos 9 anos, achou bonitos os cultos da assembleia de deus e se converteu. lá, desenvolveu o amor pela música e conquistou diversos prêmios de canto. aos 15, voltou ao catolicismo e foi para o coral da paróquia.
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a vida afetiva ficou marcada pelas duas Jéssicas que namorou. a primeira, depois do fim do relacionamento, morreu dando à luz o bebê de outro homem, um ano após a morte de José afonso. Com a segunda, trocava mensagens todos os dias até o acidente. Falava em casar aos 30 anos, depois de concluir a escola agrícola e abrir uma lan house. entre salário e horas extras, tirava mais de r$ 1 mil por mês e fazia planos. “Comprou calça, bermuda, tênis e mandou um dinheirinho para a mãe”, diz a tia graça. “Foi até na loja ver o preço da tevê e do playstation para montar a lan house.” não deu tempo.
Raimundo Nonato Lima Costa (Manaus, 29 de março de 2013)
O pedreirO que previu que a mulHer FiCaria viÚva Às 21h59 de quarta-feira, 28 de março de 2013, como fazia todas as noites, o pedreiro raimundo nonato lima Costa, 49 anos, telefonou para a mulher, maria nilcinea de sousa Campos, para conversar sobre o dia. Às 22h15, ele caiu de um andaime de cinco metros de altura e morreu, na arena amazônia, em manaus, após sofrer traumatismo craniano. além da esposa, deixou para trás o enteado, gustavo, 9 anos, que criava como se fosse seu próprio filho. raimundo e maria se conheceram quando ela estava grávida de quatro meses. Como os dois trabalhavam perto um do outro, a paixão não demorou para despertar. na época, ela acabara de deixar o pai biológico de gustavo e passava dificuldades. O operário deu carinho, moradia e a possibilidade de ver o filho crescer sem jamais passar fome. muito diferente da história do próprio raimundo em Cururupu, litoral maranhense. lá, ainda moleque, o operário precisava catar caranguejo no mangue para sobreviver. não completou os estudos e saiu cedo de casa para nunca mais voltar. viveu muitos anos em Brasília antes de se mudar para o amazonas. no maior estado do Brasil, passou a trabalhar na construtora andrade gutierrez. saiu não muito tempo depois, mas foi recontratado no dia 8 de março do ano passado – apenas 20 dias antes da queda.
por causa do atraso nas obras, raimundo era muito cobrado para que o serviço fosse feito rapidamente, mas não reclamava da correria nem do serviço noturno. para ele, o salário de cerca de r$ 1,3 mil compensava. Fora do expediente, o flamenguista doente tratava o futebol como religião e não perdia uma partida de dominó com os vizinhos. tinha planos: terminar de construir a casa própria e comprar um automóvel para levar esposa e filho para passeios fora da cidade. mais adiante, queria adquirir outros imóveis para viver de renda e passar a velhice numa cadeira de balanço. no dia 20 de março, oito dias antes de sua morte, falou para a mulher se arrumar porque eles iriam ao cartório assinar a união estável. “querida, agora você é casada e eu vou te fazer feliz”, disse a maria nilcinea. um dia antes da catástrofe, porém, deu a sombria declaração à esposa: “amor, você sabia que vai ficar viúva? não vai demorar pra ficar viúva.” na hora, ela achou que era besteira. Hoje, não sabe mais o que pensar. “eu não sei por que ele falou de viuvez”, conta maria. “até hoje isso está na minha cabeça. se eu soubesse, jamais deixaria ele trabalhar, mas não tenho bola de cristal.”
Muhammad’Ali Dom Alerrandro Paolo Nicholas Poseidon Maciel Afonso
Fábio Luiz Pereira
Ronaldo Oliveira dos Santos
Marcleudo de Melo Ferreira
José Antônio da Silva Nascimento
Antônio José Pita Martins
Fábio Hamilton da Cruz
José Afonso de Oliveira Rodrigues
Raimundo Nonato Lima Costa
copa
QUAL SERÁ O LEGADO DA COPA? NÃO SÃO OS EQUIPAMENTOS ESPORTIVOS NEM AS OBRAS DE MOBILIDADE URBANA AS PRINCIPAIS HERANÇAS DO MUNDIAL. O TORNEIO DE FUTEBOL ENSINOU UMA LIÇÃO ÀS AUTORIDADES: O BRASIL NÃO PODE MAIS ERRAR
POR VERA LYNN
A ENXURRADA DE CRÍTICAS à organização da Copa do Mundo e a desconfiança generalizada de milhões de brasileiros acenderam um sinal de alerta para os Jogos de 2016. Será que a Olimpíada carioca cometerá os mesmos erros? O Rio olímpico vai entregar o que prometeu? Os equipamentos esportivos ficarão prontos a tempo? As obras de infraestrutura virão? Todas essas questões provavelmente seriam levantadas apenas às vésperas da Olimpíada, mas a indignação com os problemas da Copa antecipou essa discussão. Não é exagero dizer que um dos principais legados do Mundial de futebol será colocar em estado máximo de atenção as autoridades responsáveis pelos Jogos no Rio. A lição foi dura e teria sido melhor passar sem ela. Já que as 12 cidades-sedes da Copa erraram feio na preparação do evento, é de se esperar que os problemas pelo menos sirvam de aprendizado. Há algumas semanas, o vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), John Coates, disse que os preparativos do Brasil para a Rio2106 são “os piores” que ele já viu. Para aproveitar o embalo, jornais sensacionalistas ingleses afirmaram que Londres seria um plano B caso os brasileiros continuem falhando. Chegou a hora de mostrar que o Rio pode fazer diferente. Do ponto de vista esportivo, a Copa do Mundo não deixará legado significativo para a Olimpíada. O Maracanã está pronto, mas receberá apenas a abertura, o encerramento e as partidas do torneio de futebol. Todas as outras arenas estão em construção ou passando por melhorias. Em termos de infraestrutura, a Copa fez acelerar obras importantes para 2016. Uma das principais é o corredor expresso Transcarioca, que vai ligar a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão, na Ilha do Governador. A previsão é que, durante o torneio de futebol, 20 das 45 estações previstas já estejam funcionando e que as demais fiquem prontas até o fim do ano. Com 39 quilômetros de extensão, a Transcarioca é o primeiro corredor de alta capacidade no sentido transversal da cidade, e a prefeitura estima que 400 mil pessoas serão beneficiadas por ela. Além da Transcarioca, o projeto olímpico prevê outros dois sistemas BRTs (Bus Rapid Transit) em operação até 2016: a Transoeste e a Transolímpica. As obras
forÇa mÁxima policial no complexo do lins, no rio: para a copa, mais de 4,5 mil agentes foram treinados pelo fbi, e a ideia é duplicar esse contigente para a olimpíada de 2016
copa
da Transoeste, via com 56 quilômetros de extensão que ligará a Barra a Campo Grande, ganharam algum fôlego graças à Copa, e um pequeno trecho já foi inaugurado. Já o corredor Transolímpico, que deverá ser o mais utilizado para os Jogos, tem previsão de conclusão apenas para o início de 2016. Trata-se, como a Copa já ensinou, de uma margem de segurança pequena demais, de apenas alguns meses antes de as competições começarem. Uma das principiais preocupações dos organizadores da Copa, o aeroporto do Galeão, no Rio, tem sofrido nos últimos meses com uma série de apagões e nem todas as reformas previstas para terminar antes do Mundial ficarão prontas. Elas estão, ao menos, em andamento, e não há motivo razoável que justifique atrasos para 2016. A questão é que, no Brasil, atrasa-se obra por qualquer coisa: problemas na licitação, falta de documentação, pressões políticas e, claro, incompetência. A Infraero diz que, para a Copa, a reforma dos terminais e a expansão do Terminal 2 elevaram em quase 80% a capacidade de atendimento dos passageiros. A real dimensão do impacto dessas melhorias será sentida durante o Mundial. A própria Infraero, porém, admite que a reforma completa do aeroporto só será concluída no fim de 2015, o que pode significar, muito provavelmente, 2016. Segundo o projeto original, até lá serão instalados 74 novas pontes de embarque e 101 balcões, enquanto a área total do pátio de aeronaves aumentará de 670 mil metros quadrados para 1,5 milhão. Quem passou pelo Galeão no fim de maio se surpreendeu com a quantidade de escadas rolantes desativadas e com o som incessante do maquinário pesado de construção. A pressa, irmã gêmea do improviso, era evidente. Tudo disso ao custo de R$ 5,7 bilhões, valor total que deverá ser investido pelo consórcio que administrará o Galeão por 25 anos. 62
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Chamar de “teste” um evento global como a Copa do Mundo é de certo modo uma incoerência, mas o torneio de futebol vai funcionar para a Olimpíada como um grande laboratório. E isso em todos os aspectos que envolvem a organização. Na questão da segurança, as próprias autoridades admitem que o Mundial servirá de base para o que será feito daqui a dois anos. Para a Copa, os policiais do Rio de Janeiro passaram por um treinamento oferecido por agentes americanos do Serviço Federal de Inteligência (FBI, na sigla em inglês), sendo que o objetivo principal é treinar os policiais para atuarem de forma firme, mas sem violência, no caso de distúrbios civis. Afinal, as manifestações estão nas ruas e não é pequena a chance de os protestos ganharam volume durante o torneio de futebol. “A ideia não é mudar nossa maneira de atuar, mas aperfeiçoar detalhes da operação”, diz André Luiz Araújo Vida, comandante do Batalhão de Choque da PM do Rio. “Estamos prontos para a Copa e estaremos mais ainda para a Olimpíada.” No caso da segurança, é preciso admitir que houve planejamento. O treinamento com os agentes do FBI tem sido feito desde 2011, por meio de um convênio com a Embaixada dos Estados Unidos. Desde então, 4,5 mil profissionais foram capacitados. Entre eles, policiais especializados em identificar fraudes em documentos e em dar primeiros socorros a feridos. Até 2016, a ideia é treinar pelo menos outros cinco mil policiais, totalizando perto de dez mil agentes preparados pelo FBI. Não é apenas o legado humano que ficará. A Copa deixará para a Olimpíada equipamentos de segurança inéditos no País. O Centro Integrado de Comando e Controle foi montado dentro de uma espécie de contêiner à prova de disparo de armas de fogo e explosões. Lá dentro ficará todo o sistema de dados usado pelos responsáveis pela segurança pública durante a Copa. O pacote de segurança inclui lotes de máscaras,
a copa do mundo fez acelerar obras importantes para 2016, como a via expressa transcarioca (foto maior), que vai ligar a barra da tijuca ao aeroporto do galeão em obras o maracanã, que vai sediar o torneio de futebol em 2016, é o único equipamento esportivo que ficará para a olimpíada. abaixo, ilustração do novo galeão, que deverá ser concluído só em 2015
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armamentos de baixa letalidade e câmeras de alta definição que produzem imagens em tempo real. Entregues ao Rio pelo governo federal, os equipamentos representam um investimento de R$ 108 milhões. Como a Copa será, de fato, o teste de fogo para tudo isso, as autoridades admitem que falhas possam ocorrer. Eis aqui outra vantagem para a Olimpíada: até lá, será possível definir o grau de eficiência de todos os sistemas e, eventualmente, corrigir rumos. “O legado mais importante será o sistema integrado em vários níveis, inclusive com setores de segurança de todo o País”, diz Andrei Augusto Passos Rodrigues, secretário extraordinário de Segurança para Grandes Eventos do governo federal. A grande lição que virá da Copa é, na verdade, um aprendizado às avessas: não dá para prometer e não entregar, ninguém está disposto a aceitar gastos exorbitantes, não se suporta mais improvisos no lugar de planejamento sensato. Basta acompanhar as manifestações de rua para perceber como os brasileiros estão atentos a tudo isso. A Copa está aí e não dá mais tempo para mudar. A chance agora é fazer direito na Olimpíada de 2016.
alvo: forças de segurança na favela nova Holanda, no rio. a polícia carioca diz que está preparada para a copa, mas que estará mais ainda para a olimpíada
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RAIO X Tudo o que você precisa saber sobre O GRAMADO DA COPA DO MUNDO
O MANTO VERDE DO FUTEBOL Parece simples, mas não é: um gramado no padrão Fifa envolve seleção de espécies, manejo adequado e solo ideal
PREPARANDO O TERRENO O gramado é uma das últimas partes da construção do estádio e demora, em média, 45 dias para ter condições mínimas de uso. Para começar, o terreno que vai receber a planta precisa estar em ótimo estado, ou ela não vai crescer. O primeiro passo é nivelar a terra com uma prensa, que acaba com as irregularidades e torna a matéria compacta. Com o chão firme e forte, os buracos praticamente deixarão de existir. RETO NÃO É BOM Mesmo nivelado, o terreno precisa ter um leve declive. A inclinação, feita nas laterais ao redor de todo o campo, permite que a água das chuvas escorra, evitando que as plantas se afoguem. Em um campo de 60 metros de largura, as linhas laterais estão 30 cm abaixo da linha do centro do campo.
HIDRATAÇÃO NA MEDIDA Se o excesso pode ser fatal, a falta de água também não ajuda. A quantidade certa deve ser espalhada de forma homogênea pelo campo. Esqueça a mangueira: a irrigação é feita com aspersores, parecidos com aqueles jatos giratórios que vemos em jardins. Para não atrapalhar as passadas e as jogadas, o dispositivo fica escondido embaixo da terra. Ligada à rede do estádio, a tampa do aspersor “sobe” com a pressão da água assim que ela chega aos canos, em uma tecnologia chamada sugestivamente de “pop-up”. 66
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TERRA, AREIA E MATÉRIA ORGÂNICA Antes do plantio, a terra onde a grama será colocada é preparada com uma camada de areia e matéria orgânica. O topsoil, como a mistura é chamada, tem cerca de 30 centímetros e serve para a grama fixar suas raízes. Acima dele vem uma fina camada de adubo reforçado, que vai servir como um suplemento alimentar para a grama. Essa medida é essencial para que ela sobreviva durante os primeiros dias do replantio.
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ESCOAMENTO Todo o gramado possui um sistema de drenagem que fica logo abaixo da terra. Ele é composto por um cano principal maior, de 10 cm de diâmetro, que percorre o campo de ponta a ponta, e por vários outros menores. Colocados em valas, os canos recebem uma cobertura de brita ou areia e um filtro (para prevenir entupimentos). Juntos, eles captam a água da chuva e carregam o excesso para ralos fora do campo.
SEDE DA COPA: o novo Beira-Rio, em Porto Alegre
CANOS DE DRENAGEM TOPSOIL GRAMA
MARCAÇÃO CORRETA Sabe aquelas faixas que aparecem no gramado? Elas nada mais são do que grama "penteada". Na hora de aparar, a máquina que realiza a poda faz o desenho. Dependendo do sentido em que o corte é feito, a grama fica marcada, criando a ilusão das faixas.
SELEÇÃO DE PRIMEIRA Aguentar 90 minutos de corridas e pisões não é para qualquer grama. Para os estádios, são escolhidas as variedades mais resistentes da planta. No Mundial da África do Sul, três tipos foram eleitos: a ryegrass-perenne, a kikuyo e a tifsport. Na Europa, a ryegrass é a mais usada, pois cresce com pouca luminosidade. Por aqui, a empresa Greenleaf, responsável pelos gramados nas cidades-sede da Copa, optou pela variedade bermuda. Bem adaptada ao nosso clima, ela tem pouco talo (facilitando o corte) e folhas estreitas, o que cansa menos os jogadores e permite que a bola role melhor. RESISTÊNCIA Assim como os outros tipos de grama, a variedade bermuda tem alguns subtipos, geralmente híbridos recriados em laboratório para garantir resistência. Retirada de uma fazenda especializada no plantio de grama em Saquarema, município do Rio de Janeiro, a variedade bermuda celebration foi utilizada pela Greenleaf para recuperar o gramado do Maracanã após os jogos da Copa das Confederações. HORA DE SEMEAR Sim, grama tem semente. Mas, por questões práticas, o plantio se dá por meio do famoso “tapete”, que nada mais é do que o replantio de mudas já adultas. Com cerca de 30 milímetros de espessura, o tapete garante, além de praticidade, que o gramado fique pronto em pouco tempo. Se tudo der certo, a grama vai crescer – e muito: duas vezes por semana, ela precisa ser aparada para se manter na altura média de 24 mm.
OS NÚMEROS CURIOSOS DOS GRAMADOS DE FUTEBOL
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É O NÚMERO DE PESSOAS QUE PODEM RESPIRAR COM O OXIGÊNIO LIBERADO POR UM GRAMADO NO TAMANHO PADRÃO ESTABELECIDO PELA FIFA (105 M X 68 M)
90% 80%
DO PESO DA GRAMA ESTÁ NAS RAÍZES
DO PESO DE CADA FOLHA DA GRAMA É ÁGUA
65 MILHÕES É A MÉDIA DE PÉS DE GRAMA QUE EXISTEM EM UM CAMPO DE FUTEBOL PADRÃO
ENTRE R$ 30 E R$ 50 É O PREÇO DA GRAMA POR METRO QUADRADO (PARA SE TER UMA IDEIA, O GRAMADO DE GOLFE CUSTA, EM MÉDIA, R$ 150 POR METRO QUADRADO)
boxe
COMbate ex-guerrilheiro, Kibomango largou as armas apรณs os estilhaรงos de uma granada de mรฃo atingirem seu olho esquerdo
O últimO a desafiar KibOmangO mOrreu nO ringue Como o boxeador mais temido da repúbliCa demoCrátiCa do Congo se prepara para uma luta inglória: Conseguir vaga para os Jogos do rio texto e fotos yan boechat, de goma
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boxe
“a mOrte fOi uma fatalidade, mas sOu durO cOmO O tysOn”
treinO Kibomango dirige um clube para crianças que lutaram na guerra e jovens em busca de uma chance
ibomango chegou suado. subiu as escadas num trote rápido, pulando de dois em dois degraus. a cada salto, um soco no ar, como se estivesse atingindo um saco de areia imaginário. O capuz do robe vermelho – de um tecido sintético que fazia as vezes de seda – deixava seu rosto encoberto enquanto ele simulava jabs, diretos e cruzados no começo da manhã de um domingo quente e úmido de abril. ao seu redor, crianças observavam, entre inebriadas e entediadas, a coreografia típica dos boxeadores que se preparam para subir em um ringue. À sua frente, um grupo de seis rapazes fazia os preparativos finais para iniciar uma sessão de quase duas horas de treino pesado. uns corriam, outros pulavam corda, alguns tentavam aprimorar a esquiva. com um grito em swahili, a língua da etnia bantu falada por mais de 50 milhões de pessoas nesta parte da África central, Kibomango fez tudo parar à sua volta. crianças, atletas e visitantes ocasionais ficaram em silêncio. enquanto ensaiava um discurso de incentivo a seus pupilos, o boxeador de 37 anos começou a tirar o robe vermelho, que trazia na parte de trás, em amarelo, a inscrição “italian stallion”. sob o manto que lhe empresta a aura de um campeão prestes a ser iluminado pelos holofotes de algum cassino de las Vegas, veste sapatilhas vermelhas, um short que parece ter sido confeccionado com a bandeira americana e uma camiseta regata branca cavada, bastante usada, com furos por todas as partes. tanta marra tem sua razão. Kibomango é o boxeador mais respeitado e temido do leste da república democrática do congo, o antigo Zaire, um país assolado por uma guerra brutal que já deixou quase seis milhões de mortos nas últimas duas décadas. Por ali corre a lenda de que o último lutador a desafiá-lo morreu no ringue, no nono assalto de uma luta dura, após uma sequência de golpes no melhor estilo mike tyson. “foi uma fatalidade, ele era meu amigo, mas eu sou duro como o tyson, e ele não resistiu”, contou o lutador à beira de um campo de futebol feito de uma espécie de areia extraída dos campos de lava nas proximidades de goma, a principal cidade do leste do congo, na fronteira com ruanda. “Ele é o campeão, o maior lutador do Congo, talvez o maior lutador da África”, diz roubert ndongo, uma espécie de agente/secretário do lutador, que observava com aprovação os elogios. Kibomango, que tem como nome de batismo balezi bagunda, carrega no corpo as lembranças dos tempos
em que viveu como soldado no maior conflito armado do mundo desde o fim da segunda guerra mundial. no peito, nas costas e nas mãos estão as marcas de cortes que nunca receberam pontos e cicatrizaram pela insistência regenerativa da pele. no rosto, é fácil perceber que as dilacerações jamais foram tratadas por médicos preocupados com a estética. O globo ocular esquerdo foi vítima dos estilhaços de uma granada de mão e se perdeu em um campo de batalha perto de Kinshasa, a capital da república democrática do congo. as pálpebras que restaram – ou parte delas – parecem ter se unido de forma indefinida e, aos desatentos, dão a impressão de que ele está sempre piscando, pronto para abrir o olho que já não existe mais. ele se diz campeão de todo o congo, apesar das poucas provas de que isso seja verdade ou de que haja um campeonato nacional reconhecido. agora, diz ele, quer ser campeão olímpico. treina seis vezes por semana, duas horas por dia, pensando no rio e em las Vegas. enquanto isso não acontece, tem dedicado a vida a evitar que jovens congoleses sejam seduzidos pelas promessas de dinheiro, mulheres e aventura que os quase 30 grupos armados que atuam nessa região do centro da África oferecem diariamente nas ruas de goma. em uma guerra tão longa e com tantas baixas, é fundamental para os grupos armados recrutarem soldados. Quando não conseguem novos
adeptos, simplesmente raptam crianças nos vilarejos e as obrigam a lutar com um AK-47 nas mãos. Hoje em dia Kibomango dirige uma espécie de clube amador de boxe na cidade, voltado exclusivamente para meninos ex-soldados, um problema crônico no congo, e jovens rapazes que queiram se dedicar ao que ele, como muitos boxeadores, chama de a nobre arte. não cobra nada por isso, apenas a dedicação dos jovens atletas. todos, como ele, precisam estar às seis horas da manhã em ponto em uma decrépita tribuna de honra do estádio de futebol local. essas são as regras do club de l’amitie – ou clube da amizade, em francês. “só exijo dedicação. não quero que essas crianças vivam a guerra, não há nada pior que a guerra. aqui, ao menos, elas têm uma chance de aprender algo, de se sentirem alguém”, diz ele. fabrice djeff não gosta de dizer a idade que tem. mas às vezes esquece disso. ele foi capturado aos 12 anos de idade em um vilarejo próximo a goma por um grupo armado que atua nas montanhas do Kivu do norte, a província que concentra boa parte dos conflitos que ajudaram o congo a ser o dono do pior Índice de desenvolvimento Humano (idH) do mundo, de
boxe
acordo com a Onu. Passou dois anos na mata, ora enfrentando as forças do exército congolês, ora atacando vilarejos como aquele em que passou a infância, ora defendendo-se de grupos rebeldes rivais. “isso faz muito tempo, tento não lembrar daqueles dias”, diz ele, que garante ter completado 21 anos há poucos dias, apesar da aparência de um homem de quase 30. como quase todos os kadogos, o termo local para crianças soldados, djeff não gosta de relatar o que viu e viveu nos seus tempos de soldado. a guerra do congo é marcada não só pelo absurdo número de vítimas, mas também, e principalmente, pelas barbáries perpetradas tanto pelos rebeldes quanto pelas forças do governo. estupros generalizados e assassinatos coletivos se tornaram rotina nessa região. “a única coisa que lembro é que aquilo não é vida para um ser humano”, diz djeff. como boa parte dos rapazes “adotados” por Kibomango, djeff também está aprendendo uma profissão, caso a carreira de boxeador fique aprisionada pela dura realidade congolesa. aos mais talentosos, o “campeão” congolês oferece a oportunidade de aprender os segredos da mecânica de carros. Kibomango mantém uma oficina em uma das vielas esburacadas de goma. garante que é capaz de consertar qualquer veículo, de qualquer marca. fala com tanta confiança que, após a autopromoção, é comum ouvir murmúrios confirmando sua habilidade com os carros. “goma é a capital rebelde do congo e, apesar das poucas batalhas, a guerra passa por aqui, sempre passou”, afirma bernard Kalume, um intérprete congolês que viu a mulher ser assassinada diante dos dois filhos durante o genocídio dos hutus contra os tutsis, em ruanda, há 20 anos. “Se você
não aprende algo, o destino para quem vive em Goma são as armas. Não existem opções.”
espremida entre o lago Kivu e o vulcão nyiragongo, goma é uma cidade construída sobre os rios de lava petrificada que cobrem a vasta planície que divide a república democrática do congo e ruanda. as ruas são escuras, assim como as calçadas, as casas e tudo o mais que é feito das pedras vulcânicas e uma espécie de areia preta extraída das áreas próximas ao vulcão. aos domingos, logo nas primeiras horas da manhã, centenas de jovens, adultos e senhores tomam conta das ruas esburacadas, das quadras improvisadas, dos terrenos baldios, para se exercitar. correm, pulam, agacham e se contorcem em estranhos alongamentos. nem os guardadores de carros armados com fuzis aK-47 ou as pequenas caminhonetes equipadas com metralhadoras 0.50 mm que circulam pelas vielas estreitas conseguem dissipar a imagem bucólica dessas manhãs de do-
mingo no coração da África. Por alguma razão, todo o horror da guerra que já matou quase seis milhões de pessoas nessa região parece dar lugar aos sonhos improváveis de todas essas pessoas que acordaram antes dos primeiros raios de sol para treinar boxe sobre a lava escura que cobre goma. desde que o antigo ditador congolês mobuto sese seko organizou a histórica luta entre mohamad ali e george foreman em Kinshasa, a capital do então Zaire, em 1974, o boxe se transformou em uma febre nacional. Pela primeira vez o país africano criado sob os desígnios do rei belga leopoldo ii era palco de um evento que não envolvia morte, torturas ou a barbárie. Pela primeira vez em sua história os congoleses tinham diante de si homens negros que eram astros mundiais. ali, o vencedor daquela luta épica, tornou-se uma espécie de modelo a ser seguido pelos homens do congo. Mesmo aqueles que não
sonham em se tornar boxeadores vão para as ruas treinar nas manhãs de domingo, repetindo os gestos de Ali nos filmes que divulgavam a luta. “Ele é um modelo para mim e deveria ser um modelo para todos”, gosta de dizer Kibomango.
apesar da reverência ao ídolo que protagonizou a maior luta de boxe da história, Kibomango busca aperfeiçoar sua técnica para se tornar um lutador tão letal quanto mike tyson. treina insistentemente a velocidade e parece cultivar uma raiva que está sempre contida, mas pronta para explodir. nos primeiros contatos que fez com a reportagem da 2016, não quis dar entrevistas e nem ao menos ser fotografado. só após ser convencido – com a mostra de passaporte – de que se tratava de uma revista brasileira, aceitou ser entrevistado. “as pessoas vêm de fora e querem me fotografar porque não tenho um olho, porque os kadogos estão aqui, mas nunca, nunca querem nos ajudar”, tentava se explicar. “não temos nada, nem luvas, nem protetores, nem sacos de areia decentes. a única coisa que temos nós ganhamos dos brasileiros”, diz. Kibomango esteve no brasil há alguns anos a convite da Ong luta da Paz, que promove o ensino do boxe para crianças carentes na favela da maré, no rio de Janeiro. fundador da organização, o ex-boxeador inglês luke dowdney, ouviu a história de Kibomango e o convidou a lutar no País. “foi especial. eles nos deram equipamentos, luvas, protetores e faixas”, afirma o congolês. “temos muito pouco e precisamos de muito mais, mas tudo que temos foram os brasileiros que deram.” a meta agora é voltar ao rio para disputar a Olimpíada de 2016. ele sabe que é uma tarefa difícil. “mas continuaremos treinando todos os dias”, diz.
L’aMitie: Os integrantes do Clube da amizade se reúnem seis vezes por semana, sempre nas primeiras horas do dia, no que já foi a tribuna de honra do estádio de futebol da cidade. eles vão lá para treinar sob o comando de Kibomango, que apenas cobra dedicação e empenho de seus pupilos, como Fabrice Djeff (de camisa e faixa azuis), um ex-soldado que, ainda criança, foi sequestrado por guerrilheiros em um vilarejo de Goma e obrigado a lutar por dois anos com um aK-47 nas mãos junho/julho 2014
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ATITUDE posITIvA Duda em saquarema, no Rio: talento incomparĂĄvel 74
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por Demétrio Vecchioli fotos eDuarDo zappia
Campeã mundial sub-19, viCe-sub-23 e agora integrante da seleção adulta, a adolesCente eduarda lisboa, a duda, é o talento mais preCoCe da história do vôlei de praia brasileiro
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pra ia
“A DuDA gostA muito DA mAriA ElisA, tEm ElA como íDolo”, diz a ex-jogadora Cida, falando de Eduarda Lisboa, sua única filha, de 15 anos. No dia seguinte, a reportagem da 2016 conversaria com Maria Elisa, 30 anos, representante do Brasil no vôlei de praia nos Jogos de Londres-2012. A entrevista, porém, acabou adiada. Dá para entender. A “veterana” acabara de ser derrotada pela adolescente no torneio mais importante da temporada nacional, o Super Praia. A vitória sobre Juliana/Maria Elisa, dupla de maior destaque no País na atualidade, é só um dos grandes feitos de Duda nos últimos meses. Entre os 14 e os 15 anos, ela ganhou o Mundial Sub-19, foi prata no Sub-23, estreou nos circuitos brasileiro e mundial e subiu ao pódio do Super Praia. Só por esse bronze, dividiu com a parceira Lili, 26 anos, um prêmio de R$ 46 mil, além de um carro zero-quilômetro avaliado em R$ 34 mil. Brincando, colocou R$ 40 mil na conta. E o termo brincando não é só força de expressão. “Eu jogo o adulto por diversão”, afirma Duda, mais nova de uma seleção que, tirando ela, tem média de idade de 29 anos. Até pouco tempo atrás, se a 2016 fosse escrever sobre uma revelação do vôlei de praia, o texto seria sobre Rebecca Silva, 21 anos. A cearense, descoberta por Reis Castro, técnico de Larissa e Juliana, foi vicecampeã do Circuito Brasileiro em 2012/2013. Mas subiu no salto. Na véspera da viagem para o Mundial Sub-23, avisou que não queria mais jogar na base. Era uma terça-feira à noite. A estreia, na Polônia, seria na quinta-feira pela manhã. Poucos teriam a coragem que teve a comissão técnica da seleção de base, comandada por Reis Castro. O bom senso indicava que Duda seria a última opção. A garota havia chegado naquela manhã a Saquarema (RJ), no CT do vôlei, vinda da
Europa. “Eu cheguei da Itália e dormi até umas 11h”, lembra. “Estava cansada.” A atleta almoçou e treinou durante a tarde inteira. De noite, por volta das 21 horas, recebeu a visita da comissão, que avisou: Rebecca não iria para o Mundial. Duda estava convocada. “Eu chorava e dizia: ‘Não vou, não vou’”, conta Duda. A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) já havia pedido, mais cedo, a intervenção de Cida, que passou a bola para a filha e sugeriu que a menina consultasse o psicólogo da equipe. “Ele me mostrou que nada é por acaso”, lembra a adolescente. “Falou: ‘Faça o que o seu coração manda.’” Um dia depois, às 14h50 locais (cerca de 36 horas depois de ser convocada), a garota de 14 anos estreava, ao lado de Thaís, no Mundial Sub-23. “No primeiro jogo, ganhamos da Áustria. Falei: ‘Tá ficando bom.’ Aí ganhamos da Venezuela. ‘Tá ficando melhor ainda.’ Nas quartas, contra a Holanda, a gente não sabia como lidar porque era uma dupla mais forte. A expectativa foi aumentando e ganhamos de novo de 2 a 0. Na semifinal, fizemos 2 a 1 no Canadá”, lembra. Na decisão, diante de uma dupla da Alemanha, Thaís sentiu uma lesão na coxa. As brasileiras ganharam o primeiro set (21/19), perderam o segundo (21/12) e venderam caro o terceiro (15/13). Tristeza pelo título que escorreu pelas mãos? Que nada. “Ganhando ou perdendo, foi um sonho”, diz Duda. Isso foi no dia 9 de junho de 2013. Desde então, muita coisa aconteceu na carreira de Duda. No fim do mesmo mês, em Umag (Croácia), disputou o Mundial Sub-21 ao lado de Thainá, substituta de Rebecca. Ficou nas quartas de final. Três meses depois, as duas seriam campeãs mundiais sub-19 em Portugal, numa campanha de sete jogos e nenhum set perdido.
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Quando Duda tinha 3 anos, Cida começou a se arriscar na areia. Foram quatro anos até se tornar profissional, sempre levando a filha para os torneios. As derrotas da mãe doíam e Duda, torcedora fiel, perdeu as contas de quantas vezes chorou sentada sozinha na arquibancada. Mas os tropeços de Cida serviam também de lição para a garota, que, aos poucos, foi aprendendo a lidar com tudo que é ligado ao vôlei de praia: vitórias, derrotas, treinos, viagens, trocas de parceiras. Algum tempo depois, já ajudava nos treinos da mãe, em São Cristóvão. “Como sou do interior de Sergipe e não ia para a capital, construí um centro de treinamentos”, diz Cida. “Ela me ajudava sacando, levantando, e desde os 8 anos já fazia tudo direitinho.” A sergipana era uma das três ou quatro atletas do circuito que tinham filho pequeno. A tranquila Duda logo virou xodó. “A Cidoca sempre foi muito querida nos torneios”, conta a também jogadora Talita, 31 anos. “Até o meu técnico brincava que os jogos com a Cida eram sempre muito difíceis, mas que seria muito mais porque dali a pouco viria a filha da Cida.” Duda aprendeu rápido e chegou a fazer dupla com a mãe em alguns torneios regionais, antes da aposentadoria de Cida, em 2012. “Ela herdou muito da minha característica técnica”, diz a mãe. “É muito fria e, com essa idade, sabe administrar jogos e torneios.” O que a garota tem de diferente? “Tem mais força, é mais porradeira”,
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afirma Cida. A união de explosão física com técnica e força mental faz da jovem uma atleta com enorme potencial. Segundo Maria Elisa, adversária e tutora, Eduarda tem mais maturidade do que muita jogadora adulta. “O set começa de verdade depois dos 12 pontos”, diz a atleta. “É aí que vou dar meu melhor ataque, que vou fazer o que não fiz até então.” Em dez anos de vôlei de praia, Cida nunca subiu ao pódio de um torneio nacional. Inúmeras vezes, bateu na trave nos Opens, parando nas quartas de final. Com Duda, o começo também foi assim. Ao lado de Thaís, 22 anos, foram oito jogos em três etapas, com apenas duas vitórias, ambas sobre Neida/Erica. No Guarujá (SP), no primeiro confronto diante de Juliana/Maria Elisa, foram derrotadas por 2 a 1. “Aí já percebi que ela não era mais uma criança”, diz Maria Elisa. “Mas avisei a Duda que ela só ia poder ganhar de mim quando tivesse 18 anos”, brinca. As duas voltariam a se encontrar na sexta etapa do circuito, em janeiro, em outra situação. Rebecca (de novo ela abrindo as portas para Duda) ficou grávida, deixando Lili momentaneamente sem parceira. A capixaba de 27 anos convidou Duda para jogar até o fim da temporada. Em quatro Opens, foram três quintos e um nono lugar. Mas a temporada não havia acabado. Para este ano, a CBV criou um novo torneio, denominado Super Praia, reunindo as melhores duplas do País. Voltamos, assim, ao começo da história. Em Salvador (BA), ao lado de Lili, Duda deu de ombros para o aviso da “irmãzona” e venceu Juliana/Maria Elisa na fase de classificação, tirando as veteranas do torneio. Cida parece falar com sinceridade quando diz que explica à filha que deve jogar por amor. “O dinheiro é consequência, não pode subir à cabeça”, afirma. “A hora dela ainda não chegou, mas isso um dia vai acontecer.” E Duda aprendeu. O técnico Reis conta que, dia desses, por decisão própria, a garota abriu mão de jogar um Open, que garante R$ 5 mil à dupla última colocada, para disputar uma competição sul-americana de base, que não tem premiação em dinheiro. “O que ela gosta mesmo é de jogar sub-19, sub-21, esses torneios da idade dela”, diz Cida. Jogando no adulto “para se divertir”, Duda já se colocou entre as melhores do País. Com Lili, foi aos Jogos Sul-Americanos e voltou de Santiago, no Chile, com uma medalha de bronze.
poR AmoR Duda abriu mão de premiação para disputar um campeonato sul-americano. “Dinheiro é consequência”, diz a mãe
No ano passado, estreou no Circuito Mundial. Em Durban, na África do Sul, ao lado de Thaís, na última etapa da temporada 2013, perdeu nas quartas de final, mas deu mais uma mostra do talento fora do comum. “Sou ex-jogador, estou no vôlei de praia desde o começo do esporte e nunca vi algo parecido com a Duda”, diz Reis Castro. “Sempre achei a Rebecca e a Larissa um fenômeno, mas apareceu outro fenômeno mais forte ainda. É inacreditável. É incomparável.” Duda é maior do que as garotas da sua idade (tem 1,80 m), mas todos garantem que não é isso que faz dela tão melhor que qualquer outra. “Ela tem uma paciência, um entendimento do jogo fora do normal”, diz Maria Elisa. Quando o esporte encontra um talento dessa grandeza, é clichê ouvir que se trata de “um diamante a ser lapidado”. Isso, porém, já foi feito com esmero por Cida. Daqui para a frente, o segredo é conseguir dosar a vida de atleta adulta de alto rendimento, tratada como futura medalhista olímpica, com a de uma adolescente de 15 anos. “Estudo a distância, mas não tem comparação com ir ao colégio, sair com os amigos”, diz Duda, que faz trabalhos escolares quando está em Saquarema, mas nem consegue pegar nos livros durante as competições. O calendário de um jogador de vôlei de praia é cruel. Na temporada passada, foram 13 etapas no Circuito Mundial e outras dez etapas no Circuito Brasileiro – cada uma acontece em um fim de semana. Por maior que seja o talento de Duda, o vôlei de praia é jogado por duas atletas. Assim, a grande incógnita na carreira da adolescente é: quem será sua parceira? A resposta está em um jogo de xadrez repleto de variáveis. A começar pela lacuna de 11 anos entre ela e a segunda jogadora mais nova da seleção. Reis Castro acredita que Duda deve esperar três anos para que a seleção de base termine de formar uma companheira do seu nível. Até lá, sugere que jogue com quem se sentir bem. São dois lados da balança. De um, a opção por formar uma dupla forte agora e já brigar por títulos. Do outro, a possibilidade de formar uma dupla duradoura e vencedora como foi Larissa/ Juliana. A própria Duda diz não pensar muito nisso, apesar de ter muita intimidade com Thainá. Na temporada internacional, vai jogar com Lili sempre que for chamada pela seleção adulta e deverá disputar três dos quatro mundiais de base: o sub-23 (com Thaís) e mais dois. Também irá aos Jogos Olímpicos da Juventude, em Nanjing (China), com parceira ainda não definida. Para a temporada nacional, que deve começar em agosto, as possibilidades são ainda maiores. E a certeza é única: um grande talento está à espreita, de olho em 2016, 2020, 2024...
CICLISMO
O BMX quer casa Como a falta de uma pista de dimensões olímpiCas no Brasil prejudiCa um dos esportes Com maior potenCial de medalhas por Demétrio Vecchioli fotos joão castellano/ag. istoé
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esperança de medalha do ciclismo BmX na olimpíada de 2016, Bianca quinalha tem praticamente tudo: uma equipe multidisciplinar, a chance de participar de todas as competições internacionais, bons patrocinadores e apoio irrestrito do governo federal e da confederação nacional. Só há um porém: não existe nenhuma pista de BMX no Brasil onde ela possa trabalhar. Construir uma completa, dentro dos padrões internacionais, custa mais ou menos R$ 1 milhão – mil vezes menos do que foi gasto no Estádio Nacional de Brasília, erguido para a Copa do Mundo de 2014. O BMX entrou no programa dos Jogos de Pequim-2008 e, desde então, representa a única opção “radical” dos Jogos Olímpicos de Verão. No Brasil, ganha cada vez mais adeptos, projeção e resultados, mas ainda sofre com a falta de estrutura. “É como treinar numa mesa de pingue-pongue e competir numa quadra de tênis”, diz Bianca. “Ou treinar numa quadra de futebol society e disputar a Olimpíada no futebol”, completa Renato Rezende. Os reclamantes são os dois principais nomes da modalidade no País. Eles treinam diariamente em pistas de bicicross, menores que as da versão olímpica, chamadas de supercross. As diferenças são gritantes. Numa pista de supercross, os homens pedalam numa velocidade média de 60 km/h. Na de bicicross (SX), bastante popular no interior de São Paulo, as bicicletas não passam de 45 km/h. Além disso, o portão de largada da prova olímpica é 60% mais alto (a partir de 8 m). Por causa das dificuldades do traçado, com saltos maiores, o supercross só permite competições de profissionais e juniores. Nem tempo nem dinheiro são desculpas para que o Brasil não tenha uma pista de BMX, que, em junho, com-
BIaNca quINaLHa: ela tem bons resultados, apesar da falta de lugar adequado para treinar
CICLISMO
EM NOVEMBRO DE 2013, FOI ANUNCIADA A CONSTRUçãO DA PRIMEIRA PISTA DE BMX, EM LONDRINA. ATÉ AGORA, O PROJETO ESTá LONGE DE SAIR DO PAPEL pleta 11 anos como disciplina olímpica. Em novembro do ano passado, foi anunciada a construção da primeira pista, em Londrina (PR), onde fica a sede da Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC). A promessa era organizar ali o Campeonato Pan-Americano, agendado para 16 de maio. Até agora, nenhum saco de terra foi deslocado e a competição terá que ser em outra sede. O projeto começou há dois anos e já encontrou entraves. O local escolhido, aterrado, não suportaria o peso da rampa de concreto. Decidiu-se construir a pista no Autódromo Ayrton Senna. Só depois de ela ser projetada percebeu-se que a rampa atrapalharia a visão da torre de controle. Foram necessárias mais alterações. Agora, faltam interessados na licitação de R$ 650 mil com verba do Ministério do Esporte. “As construtoras que têm a documentação estão cheias de obras”, diz Jean Marcello Passos, projetista da pista. Peru, Equador, Colômbia e Chile já têm suas pistas. Na Argentina, há duas delas, e foi lá que Renato se preparou para os Jogos de Londres-2012. “Até então, eu só ia para a pista de BMX para competir”, diz. “Em 20 dias na Argentina, pude finalmente treinar sem compromisso, sem medo de errar, e me aperfeiçoar”, conta o atleta da equipe da Prefeitura de Paulínia (SP). A falta de pistas de BMX fez com que Bianca – que treina em Sorocaba (SP) e compete por São José dos Campos (SP) – se apavorasse ao praticar o esporte que pode levá-la à Olimpíada. “Eu morria de medo do supercross”, diz. “Só no ano passado é que superei.” O BMX é o único esporte disputado tanto nos Jogos Olímpicos de Verão quanto nos X-Games. Quando a franquia americana começou a se popularizar, principalmente na virada do século, incomodou o Comitê Olímpico Internacional (COI). Afinal, Bob Burnquist, Travis Pastrana e Tony Hawk começaram a atrair os jovens para os esportes radicais, filão concorrente dos olímpicos. Cogitou-se levar o skate aos Jogos, mas houve grande resistência dentro do COI – era radicalismo demais. A solução encontrada, em junho de 2003, visando Pequim-2008, acabou sendo o BMX no seu modelo de corrida. No X-Games, a disputa é em freestyle, em que os atletas recebem notas de juízes.
A escolha teve um quê de praticidade: como disciplina do ciclismo, não era necessária a inclusão de uma nova modalidade no programa olímpico, algo que precisa ser aprovado pela Assembleia Geral do COI com maior antecedência. Além disso, o BMX tem suas raízes na Califórnia (EUA), onde surgiu paralelamente ao vôlei de praia, que virou um dos carros-chefe dos Jogos de Verão desde sua implantação, em Atlanta-1996. No Brasil, os primeiros bons resultados surgiram a partir de 2011, especialmente com Renato Rezende, que fechou 2013 na 11ª colocação do ranking mundial, depois de um sexto e um quarto lugares nas duas primeiras etapas da Copa do Mundo. Na análise de Francisco Florencio, diretor de alto rendimento da CBC, Renato é “fundamental” para o BMX brasileiro. O carioca de 22 anos, radicado em Poços de Caldas, é o pilar técnico e financeiro do desenvolvimento do BMX no Brasil. Graças aos pontos de Renato, o País hoje é o décimo primeiro do ranking mundial por equipes no BMX masculino. Em Londres, o carioca foi o único representante brasileiro entre os homens. Além disso, o ranking de Renato fez o ciclismo BMX entrar no Plano Brasil Medalhas, do governo federal. Como o projeto exige a participação de uma estatal no patrocínio da modalidade, a Caixa Econômica Federal foi a escolhida e gasta R$ 1,5 milhão por ano só com o BMX. A ação aproximou o banco e a CBC, que fecharam um patrocínio máster de R$ 17 milhões até 2016. Além de Renato, Thaynara Morosini tem direito à Bolsa Pódio, do governo federal. Aos 18 anos, fechou 2013, seu último ano como júnior, em sexto lugar do ranking mundial na categoria e agora pode começar a competir com Bianca Quinalha (20 anos, 23ª do mundo), Priscila Carnaval (20 anos, 20ª) e Squel Stein (22 anos, 78ª) pelas duas vagas na Rio-2016. Para isso, três delas têm de somar boa quantidade de pontos no ranking, ajudando o Brasil a subir do nono para pelo menos o quinto lugar por países. No masculino, só uma lesão pode tirar Renato Rezende da Olimpíada. A outra vaga tem a concorrência de pelo menos seis atletas.
reNaTO e BIaNca: aos 22 anos, renato é o pilar do esporte no Brasil. Graças à sua pontuação no ranking mundial, o País deverá ter o direito de levar dois ciclistas para os Jogos do rio. Bianca tem 20 anos e atualmente é a 23ª melhor do mundo
Em 2008, com apenas 17 anos, Renato já era o melhor do Brasil no bicicross e foi convidado para comentar os Jogos de Pequim pelo canal SporTV. “Quando vi tudo aquilo, decidi que iria para uma Olimpíada”, diz. Procurou um treinador, mudou de cidade e foi atrás do objetivo, que realizou já em Londres, aos 20 anos. O sonho quase virou pesadelo. “Eu tinha chances de ir para a final, mas meu pneu furou na curva e fui atropelado.” Quando saiu da pista, de maca, Renato estava sem dores. Queria voltar para a prova, já que a competição ainda teria outras três largadas. Mas, ao tirar um raio X do ombro, os médicos disseram que ele teria que ficar no hospital. “A adrenalina passou e chegou a dor”, diz. “Tomei três injeções de morfina. Tive que apagar para colocarem meu ombro no lugar.” As quedas fazem parte da rotina dos atletas. Nos Jogos Sul-Americanos de Santiago, em março, o colombiano Carlos Oquendo, bronze em Londres, caiu e abriu caminho para o ouro de Renato, decidido nos metros finais. No Mundial passado, a disputa de dois atletas pela prata fez com que ambos caíssem e ficassem a ver navios. “Para mim, há duas posições: primeiro ou oitavo (último)”, diz Renato. No BMX, ser muito jovem faz toda a diferença. No ranking mundial, os
dez primeiros colocados têm média de idade de apenas 22 anos. E ela seria ainda mais baixa se menores de 19 anos não fossem proibidos de competir na elite. A vida útil do atleta é curta. O mais velho top 50 do mundo tem 28 anos. Renato não consegue dobrar para trás a mão esquerda. Todos os outros atletas da elite nacional já sofreram lesões sérias. Mas é exatamente a adrenalina que atrai cada vez mais jovens. Só a primeira etapa do Campeonato Paulista, em fevereiro, teve 450 inscritos. De acordo com o técnico Daniel Jorge, o Estado tem os principais polos de desenvolvimento, especialmente nas cidades de Paulínia, Americana, São José dos Campos e Sorocaba. De acordo com o diretor de alto rendimento da CBC, existe um projeto sólido para o BMX dentro da confederação. Desde 2010, os atletas participam regularmente de competições internacionais. Neste ano, foi montada uma equipe multidisciplinar, com mecânico, médico, fisioterapeuta, psicólogo e nutricionista. Além disso, há um projeto de intercâmbio internacional. Tudo para ir ao pódio em 2016. Falta uma ação fundamental: apressar as obras da pista olímpica. A avaliação de todos na seleção – ainda que ninguém queira se indispor com declarações públicas – é que, quanto antes a pista ficar pronta, maiores as chances de o País formar campeões.
produção: cintia sanchez • agradecimentos: Nike, colcci, Body for sure e Henring.
paraolímpicos
De braçaDa Portadora de Parkinson, a ex-triatleta susana schnarndorf desafiou os Piores Prognósticos Para se tornar um fenômeno da natação ParaolímPica
por Flávia RibeiRo fotos pedRo dias/ag. istoé
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junho/julho 2014
ambiente De trabalho aos 46 anos, Susana passa a maior parte da semana na piscina do CPb em São Caetano do Sul (SP), onde treina para os Jogos de 2016. a doença de Parkinson não impediu a atleta de seguir no esporte
em braçaDa Nos últimos dez aNos, a vida da gaúcha susaNa schNarNdorf tem sido uma moNtaNharussa. Da alegria de ser mãe à aflição da morte quase certa, a atleta mal consegue expressar em palavras o que aconteceu. “Foi um tsunami”, diz. Em agosto do ano passado, às vésperas de completar 46 anos, ela conquistou a medalha de ouro nos 100 m peito (categoria SB6) no Mundial de Montreal da natação paraolímpica. Também levou o bronze nos 400 m livre (S6) e pavimentou o caminho em direção ao título de melhor atleta feminina de 2013, concedido pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB). Tudo isso apenas três anos depois de ter voltado ao esporte, após um período de sofrimento e incerteza. Nadadora desde a adolescência, triatleta a partir de 1993, Susana já havia participado dos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata (1995) e de 13 edições do Ironman – a desgastante prova com 3,8 km de natação, 42 km de corrida e 180 km pedalando – quando começou a perder o controle sobre seu corpo, em 2005. Tinha 36 anos e acabara de dar à luz Maila, sua terceira filha com o triatleta Alexandre Ribeiro. Ainda passava por um divórcio doído quando seu mundo virou de cabeça para baixo. “Falo em 2005 e até me arrepio”, diz. “Veio a Maila em maio, me separei em junho, fiquei doente em setembro.”
paraolímpicos
No começo, ela sentia como se estivesse se afogando. A garganta fechava, Susana perdia a capacidade de respirar ou engolir. Sufocava mesmo. O primeiro diagnóstico foi síndrome do pânico. Mas os sintomas começaram a piorar: as pernas não respondiam aos comandos, os braços perderam a força. O segundo diagnóstico foi tumor no cérebro. O lado esquerdo ficou totalmente paralisado. Veio o terceiro diagnóstico: derrame. Os exames se sucediam e nenhuma das conclusões dos médicos se confirmava. Quarto diagnóstico: esclerose lateral. As previsões eram assustadoras. Alguns médicos davam a Susana um ano de vida. Outros, seis meses. Essa sucessão de erros se arrastou por três anos. Entre 2005 e 2008, Susana viveu em meio a dúvidas sobre sua saúde e seu tempo de vida. Pior: não foi corretamente medicada e viu a doença progredir. Ficou presa a uma cama, alimentando-se por sonda. “Não conseguia mastigar nem engolir, a comida me sufocava e a musculatura do pescoço parou de funcionar”, relembra. “Doença degenerativa geralmente aparece em pessoas mais velhas, não é fácil o diagnóstico nessa idade. Os médicos foram chutando tudo que poderia ser.” Finalmente, veio o diagnóstico definitivo: Parkinson-Plus, doença neurológica degenerativa, progressiva e rara, que se manifesta pela morte de células encefálicas e por sintomas que afetam o sistema nervoso autônomo e o sistema motor. É, portanto, uma síndrome caracterizada por um conjunto de sintomas de caráter neurodegenerativo. “Grosseiramente, o médico diz que meu cérebro está apagando”, diz Susana. O choque da notícia teve seu lado bom. Susana passou a finalmente tomar a medicação correta. Ou melhor, as medicações. Atualmente, ingere um coquetel de 12 comprimidos por dia. Cada um deles ataca um dos sintomas, melhorando a qualidade de vida da atleta. “Senão não engulo, não ando, não falo. Dá pane”, diz. “Quando lembro daqueles três anos, me pergunto como aguentei.” Susana diz que foi por causa dessa luta que se emocionou tanto quando conquistou o Mundial. Ela comemorou sem parar da piscina até o pódio. Assim que voltou a nadar, em 2009, como parte de seu tratamento fisioterápico, foi abordada por um grupo de atletas paraolímpicos. Até então, nem pensava em voltar a competir. “Eles me viram, perguntaram o que eu tinha e convidaram: ‘Você é bichadinha também, podia treinar com a gente’. Foi quando tudo começou”, diz. Nessa nova etapa, teve seus momentos de insegurança. Na manhã do dia 14 de agosto de 2013, a atleta passou mal na prova eliminatória do Mundial. Conseguiu o tempo para se classificar para a final, mas
nadou muito abaixo do que podia e saiu da piscina enjoada. Ao cruzar com Daniel Dias, seu companheiro de seleção e detentor de 22 medalhas paraolímpicas, disse que não estava se sentindo bem. “Su, já está escrito”, ele disse. “Fica calma e nada com paixão e fé.” Funcionou. Quando subiu no bloco para começar a prova, ela já sabia que ia ganhar. Dentro d’água, não via ninguém à sua frente, mas não sabia se havia alguém ao lado, muito perto. Quando bateu, viu a campeã olímpica Victoria Savtsova, da Ucrânia, bater juntinho. Passou 30 segundos sem saber se o ouro era mesmo dela ou não. Até que olhou para a arquibancada. “Foi aí que vi o Rodrigão com o dedo para o alto, mostrando que eu tinha sido a número um”, lembra. Rodrigão é o fisioterapeuta do CPB, Rodrigo Dispato, com quem Susana tem uma relação de amizade e cumplicidade desde os Jogos Parapan-Americanos de 2011, em Guadalajara. Tudo começou durante a preparação na piscina. Como havia muitos atletas para aquecer, vários tiveram que dividir as raias. Nisso, Susana acabou levando um chute na cabeça. O resultado foi um doloroso trauma cervical. O médico que a examinou afirmou que ela dificilmente conseguiria nadar no dia seguinte, quando disputaria os 400 m livre, uma de suas melhores provas. Rodrigão passou as horas seguintes ao lado dela, num intenso tratamento fisioterápico. “Eu disse que ela tinha uma inflamação que causava dor, mas que na hora da prova a adrenalina ajudaria a superar isso”, diz Rodrigão. Naquele dia, Susana conquistou medalha de bronze na categoria S8. Em 2012, ela já competiu nos Jogos Paraolímpicos de Londres pela S7. Ficou com o quarto lugar nos 100 m peito. Em 2013, no Mundial, já era S6 – quanto mais baixo o número, maior o comprometimento motor. A reclassificação de Susana se explica pela progressão da doença, que deixa seus movimentos mais limitados com o passar do tempo. A nadadora sabe disso, sente as mudanças a cada ano, mas não se abala. Até quando descreve os sintomas atuais da doença, faz isso sem um pingo de amargura na voz. Ela arrasta a perna esquerda, que não dobra e “pesa uma tonelada”, como diz. Levanta o braço esquerdo com muita dificuldade e não movimenta os dedos. Sofre com rigidez facial. E, agora, começa a sentir os efeitos da doença no lado direito do corpo: os dedos das mãos já estão rígidos e a perna pesa. “Não espero uma solução médica”, diz a atleta. “Tomei antidepressivo por vários anos, mas já parei faz tempo. Meu antidepressivo agora é o treino.”
inCerteza: a nadadora gaúcha passou três anos sem um diagnóstico para sua doença. “Foi um tsunami”, diz
“MEU ANTIDEPRESSIVO AGORA É O TREINO”, DIz A ATLETA, QUE ANTES DO PARKINSON HAVIA PARTICIPADO DE 13 EDIçõES DO IRONMAN SuCeSSo em 2014 no aberto da dinamarca, disPutado em março, susana ganhou todas as suas Provas na categoria s6. confira quais disPutas ela venceu e o temPo que cravou. 100 m Peito: 1m44s01 200 m medley: 3m23s10 400 m livre: 6m00s66
nas provas multiclasse, em que os atletas de várias categorias competem entre si, susana foi segunda nos 400 m medley e terceira nos 200 m medley.
Produção: cintia sanchez agradecimentos: nike, Caju brasil, asics, olympikus, mormaii e body for Sure.
Os filhos só ficam com Susana nos fins de semana, já que de segunda a sexta ela se muda do Rio de Janeiro para São Caetano do Sul, em São Paulo, onde fica concentrada com a seleção no centro de referência do CPB. Brinca que os sábados e domingos são inteiramente dedicados aos três. “Eles sabem como estou alegre, então ficam alegres também”, conta ela, que escolheu os nomes dos filhos inspirada pelo amor que sentia pelo Havaí, palco das melhores edições de Ironman de que participou. Kaillani quer dizer “oceano celestial”; Kaipo significa “doce coração”, e Maila, “pele bronzeada”. Em Montreal, pouco antes de sua prova, ela recebeu uma mensagem dos três: “Mãe, está todo mundo te assistindo”. Era pela tevê, e Susana já se arrepiou toda. “Imagina nos Jogos do Rio, quando eles estiverem na arquibancada?”, pergunta. “Acho que vou ter doping natural, de tanta adrenalina.” No mundo do esporte adaptado, Susana é uma exceção. Uma medalha de ouro aos 45 anos, afinal, é pouco comum. Em 2016, ela terá 48 anos, prestes a completar 49. Não há como definir, hoje, em que classe competirá. Mas já se sabe que ela é uma das grandes esperanças de medalha para o Brasil. “Sou a mais velha da seleção, mas tenho tanta energia quanto as meninas de 17”, diz. “Idade é só um número.” A natação brasileira tem 83 medalhas em Jogos Paraolímpicos, sendo 28 de ouro, 27 de prata e 28 de bronze. Em 2012, Susana bateu na trave e ficou com o quarto lugar nos 100 m peito. Agora, quer ajudar essa lista a crescer. “Eu quero o ouro”, diz. “O coração já está batendo no Rio. Vai ser sem igual.”
comportamento
eles amam muito tudo isso AmericAnos AdorAm ver umA pArtidA de beisebol, bAsquete ou sejA lá o que for. mAs gostAm mesmo é de ir Aos estádios pArA devorAr enormes quAntidAdes de comidA por Aline Ridolfi ilustração dAniel vincent 86 istoé 2016
junho/julho 2014
no país em que o pecado da gula pode ser cometido em toda parte,
não vive uma experiência completa quem vai a um ginásio ou estádio sem devorar enormes quantidades de comida. Americanos adoram ver uma partida de beisebol, basquete ou seja lá o que for – mas gostam mais ainda de comer. Há até uma palavra, tailgating, que traduz a união das duas coisas. O tailgating consiste exatamente nisso: é a mania, tão antiga quanto corriqueira, de parar o carro no estacionamento de uma praça esportiva, montar a churrasqueira na frente do porta-malas, reunir um grupo de torcedores amigos e mandar ver no hambúrguer, na costela e na linguiça. De acordo com a Associação Norte Americana da Indústria de Tailgating (sim, isso existe), a cada temporada pelo menos 20 milhões de pessoas saem de casa para grelhar sua comida em um estacionamento. Para se ter uma ideia da importância da comida nessas ocasiões, basta observar que cerca de 30% dos torcedores tailgaters, como são chamados, nem chegam a entrar no estádio para ver a partida. Há quem acredite que o tailgating tem suas origens no período da Guerra da Secessão. Em 1861, pouco antes da Batalha de Bull Run, civis que apoiavam o lado da
GRANDE PRÊMIO: carrinho atira cachorros-quentes para torcedores durante partida do time de beisebol Phidelphia Phillies
União compareceram ao local munidos de cestas de comida para “torcer” por seus soldados. Cinco anos depois, em 1866, o cowboy texano Charles Goodnight transformou uma carroça do Exército em uma espécie de bufê portátil com o intuito de alimentar seus conterrâneos. Por mais distantes que pareçam essas comparações, a Associação Americana de Tailgate (diferente da entidade que representa a indústria) garante que esses foram os estopins da tradição. Outros dizem que, em 1969, torcedores que se preparavam para assistir a um jogo universitário entre Rutgers e Princeton estavam tão famintos que começaram a grelhar linguiças atrás de seus cavalos. Nessa lógica, o termo tailgating teria nascido a partir da palavra tail, que significa cauda em inglês, uma referência direta aos animais. Desencontros históricos à parte, a junção entre comida e o fervor despertado pela rivalidade esportiva forma a combinação perfeita que faz de um simples jogo uma grande celebração do esporte. Foto: Brian Garfinkel/Getty
Assim como no Brasil, nos Estados Unidos o amor pelo time e os rituais pré-jogo vêm de família. David Resnick, nova-iorquino do Brooklyn, não nega o orgulho que sente pelo time local, o New York Jets. “Quando era criança, tínhamos ingressos para toda a temporada e eu e meu pai íamos ao estádio toda vez que os Jets jogavam em casa”, afirma. “Nossos lugares eram horríveis e ficávamos na penúltima fila, mas isso não importava”, conta o torcedor, que cresceu com a tradição da comida ambulante. “O tailgating representa mais da metade da experiência de ir ao jogo”, afirma, antes de descrever em detalhes o processo que segue há quase 30 anos. Antes da partida, David para o carro no estacionamento do estádio e começa a preparar seu espaço. Churrasqueira, cadeiras, mesas e, claro, um cooler cheio de bebidas. Tem gente que leva a história a outro nível, com tendas e barracas. Nos menus, tudo o que compõe um típico churrasco americano: cachorros-quentes, hambúrgueres, asas de frango, costela e, claro, muita cerveja. Para quem pensa que estar no estádio com cinco horas de antecedência é exagero, o fanático torcedor dos Jets rebate: “As vagas são preenchidas rapidamente. Logo após a abertura do estacionamento, ele já está cheio. Tem que chegar cedo.” O tailgating vai além de um programa que antecede partidas de futebol americano. Alguns torcedores passam meses planejando a participação em um único evento. Adepto da prática desde pequeno, Corey Thompson, torcedor do Gators, time universitário de futebol americano, não nega a empolgação quando o assunto é uma das maiores rivalidades da categoria: Gators (Universidade da Flórida) e Bulldogs (Universidade da Geórgia). “Não é à toa que chamamos o fim de semana desse jogo de a maior festa ao ar livre do mundo”, diz. De fato, o tailgating que antecede essa partida é conhecido ao redor dos Estados Unidos como “The World’s Largest Outdoor Cocktail Party”. Sediada desde 1933 em Jacksonville, na Flórida, a partida atrai cerca de 200 mil torcedores e é considerada o maior evento de comi- lança móvel do País. Provavelmente do mundo. A festa começa na quinta-feira e dura até o o fim da partida, na tarde de domingo. Durante cada temporada, o mercado de tailgating movimenta cerca de US$ 20 bilhões. Estima-se que 45% dos adeptos gastem mais de US$ 500 por ano apenas em comida e condimentos. Esse fenômeno cultural excede os torcedores. Fabricantes de utensílios, produtores de comidas
A C A D A TEM P O RADA, PE LO ME N OS 2 0 M I L H Õ ES DE AM ERI CA N OS FAZ E M CH URRAS CO DI A N TE D E UM E ST Á D I O ES P O RT IV O , FE N ÔME N O C H A M A D O DE TAILGAT I N G
tradicionais e marcas de produtos que se aproveitam desse tipo de evento representam uma máquina de consumo que funciona com perfeição. Até mesmo em época de crise econômica, a tradição do tailgating permanece intacta. Na verdade, ela é tão forte que, em dia de SuperBowl, o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos, especula-se que o americano médio consuma mais comida do que em qualquer outra ocasião do ano, incluindo o dia de Ação de Graças, o Natal e a Páscoa. Apesar de ser uma das maiores representações da paixão dos americanos por comida e esporte, o tailgating não tira o brilho do que é servido também dentro dos estádios. Para os que preferem beisebol ou basquete, a experiência de assistir aos jogadores preferidos ao vivo está sempre aliada a algum tipo de alimento, mesmo sem armar a churrasqueira do lado de fora da arena. “Nachos, pretzel, hambúrguer, cachorro-quente, pizza, sanduíches, batatas fritas, salgadinhos, amendoim, chilli, asas de frango… é muita comida”, diz Roger Buckley, que tem como esporte preferido o beisebol. Aos 60 anos, confessa não ter mais paciência para grandes multidões, mas não nega que, quando pensa em jogos esportivos, a primeira coisa que lhe vem à cabeça é comida. “Cachorro-quente sempre foi o meu preferido”, diz. “E beisebol é um tipo de jogo tão longo que, pra ser sincero, tem hora que a única coisa que a fazer é comer.” Dados do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde mostram que, em 2012, o número de americanos obesos ultrapassava a marca dos 78 milhões. Cerca de 30% das crianças entre 2 e 5 anos estão acima do peso ideal. O esporte, pelo visto, tem contribuído para alimentar essa preocupante estatística.
PERFORMANCE
OMEGA SEAMASTER PLANET OCEAN 600M Responsável por cronometrar os Jogos Olímpicos, a marca de relógios Omega tem como garoto-propaganda ninguém menos que Michael Phelps, maior recordista da história das Olimpíadas. Ele é a cara da linha Planet Ocean, mais especificamente da série Seamaster, especialmente construída para aguentar a pressão das águas de quem pratica mergulho (o aparelho aguenta exagerados 600 metros de profundidade). O mecanismo do cronômetro é visível pelo fundo de caixa transparente. US$ 6 mil • omegawatches.com
TOURBILLON RM 027 Garoto-propaganda da marca Richard Mille, o tenista Rafael Nadal se uniu ao fabricante para criar este turbilhão, reconhecido por sua leveza – pesa 19 gramas – e durabilidade. Ideal para esportistas clássicos, a peça é delicada, porém resistente: foi construída para aguentar nada menos do que 5.000 Gs de força. Além disso, um sistema interno de cabos previne o mecanismo de ser afetado por choques – como quedas –, garantindo sua durabilidade. Em edição limitada, o aparelho tem preço nas alturas. US$ 690 mil • richardmille.com
ALPNACH MECHANICAL CHRONOGRAPH Mais conhecida pelos clássicos canivetes suíços, a Victorinox também é cheia de estilo quando o assunto são relógios. Inspirado pelos helicópteros militares, o Alpnach exala masculinidade em cada centímetro de sua pulseira de nylon balístico (mesmo tecido usado em coletes à prova de bala). Robusto, o relógio tem o ponteiro que marca os segundos no mesmo formato do rotor do helicóptero Cougar e é perfeito para praticantes de esportes radicais. R$ 9.486 • victorinox.com.br
TEMPO DE ESTILO
MUITO MAIS DO QUE MEROS RELÓGIOS, ESTES APARELHOS SÃO EQUIPADOS COM GPS, MONITOR CARDÍACO, SENSOR DE PASSADA E ATÉ MEDIDORES DE ALTITUDE. ESCOLHA A FUNCIONALIDADE QUE MAIS CABE NA SUA ROTINA – E NO SEU BOLSO POR DANIELLE SANCHES
CASIO PRO TREK PRG-110-1V
POLAR RCX5
SUUNTO AMBIT2
Ecologicamente corretos, os relógios da família Pro Trek usam uma única e grande bateria que pode ser recarregada pela luz solar. O melhor: cada carga completa dura até cinco meses. O PRG-110-1V é especialmente projetado para quem gosta de aventura. Componentes menores e mais finos foram combinados para criar um acessório leve e confortável, sem comprometer a durabilidade. Possui bússola digital, altímetro e barômetro, entre outras funções. R$ 1.389 • casio.com.br
Para quem valoriza armazenamento de dados, este é o relógio certo. O Polar profissional, especialmente indicado para praticantes de corrida, ciclismo e CrossFit, pode ser programado para medir os batimentos cardíacos dentro de uma zona específica – por exemplo, de alta queima calórica. O aparelho tem ainda 24 opções de análise em tempo real, que medem simultaneamente dados como ritmo, calorias queimadas e tempo percorrido. O gadget faz até comparação com outros treinos. R$ 2.000 • proximus.com.br
Com GPS para corrida, ciclismo ou natação, o Ambit2 é uma ótima ferramenta multiesporte. O aparelho ainda vem com monitor cardíaco que mede os batimentos de acordo com a velocidade, o ritmo e a distância percorrida. O aparelho também oferece mais de mil aplicativos que permitem personalizar treinos e descobrir a inclinação de uma subida ou a quantidade de calorias queimadas no trajeto. US$ 500 • suunto.com
NIKE+ SPORTWATCH GPS Uma das maiores marcas esportivas da atualidade tinha que ter um relógio igualmente grande – em todos os sentidos. O Sportwatch possui tela enorme, com botões bem acessíveis, facilitando a navegação. O sistema inclui dados como distância, ritmo, calorias queimadas, rota e até informações sobre o relevo do terreno. A ferramenta Plus Reminder é especialmente útil: armazena um histórico com até 15 horas de corrida e guarda seus registros pessoais para posterior upload no Nikeplus.com, permitindo análise do treino e gerenciamento de metas. R$ 750 • nike.com.br
JUNHO/JULHO 2014
ISTOÉ 2016
91
CONCENTRAÇÃO
SERENA WILLIAMS
NEYMAR
KOBE BRYANT
A falta de filtro social que acomete algumas pessoas na internet também afeta Serena Williams. Em 2013, a tenista, conhecida por seu mau humor crônico dentro e fora das quadras, deixou seus seguidores do Twitter (@serenawilliams) chocados – e até enojados, como alguns fizeram questão de comentar – com uma foto do tornozelo, inchado e deformado por causa de uma lesão. Ao mesmo tempo, a atleta faz a festa no seu perfil do Instagram (@serenawilliams) com roupas escandalosas e selfies exóticos, para dizer o mínimo.
O cara é um sucesso nas mídias sociais: sua página no Facebook tem 21 milhões de seguidores. No Twitter (@neymarjr), mais de 10 milhões de pessoas acompanham seus comentários, enquanto quase 5 milhões curtem as fotos no Instagram (@njunior11). Com tanto alcance, é comum ver imagens do craque que, na verdade, não passam de ações comerciais. Mas Neymar cumpre o papel de ídolo direitinho e sacia a vontade dos fãs ao postar os bastidores do seu dia a dia como jogador do Barcelona, além de frases “inspiradoras” e selfies durante viagens.
Grande estrela do basquete nos Estados Unidos, Bryant só perde em popularidade no Facebook para Neymar. Mas “Mamba”, como é chamado por lá, ainda é um novato no mundo das redes sociais. O jogador do Los Angeles Lakers criou sua conta no Twitter (@kobebryant) em meados de 2013. O perfil no Instagram (@kobebryant) veio a seguir. Em ambos os casos, bastou divulgar a novidade para chegar à casa dos milhões de seguidores. Tudo por conta da sua simpatia e do bom humor em posts sem afetação, algo raro na NBA.
#MERECEUMCLIQUE CONHEÇA OS ATLETAS MAIS ATIVOS NAS MÍDIAS SOCIAIS E
DESCUBRA POR QUE, AFINAL, ELES TÊM TANTOS SEGUIDORES POR DANIELLE SANCHES
MIKE TYSON Um dos perfis mais nonsense da rede, o Instagram do ex-boxeador é igualmente engraçado e melancólico. Tyson parece bonzinho nas fotos de sua conta (@mike_tyson), que hoje tem quase 800 mil seguidores. É uma sombra do homem furioso de antigamente, lembrado por ele com imagens históricas de quando era jovem e famoso por seus golpes fulminantes. Também não faltam fotos do ex-atleta com personalidades americanas. Queridíssimo, “Mikey” assumiu recentemente que segue Justin Bieber na rede social. E adora postar fotos segurando passarinhos (!). Fofo, não é?
USAIN BOLT
MARIA SHARAPOVA
BRUNO REZENDE
O homem mais rápido do mundo não se safou das confusões online e bateu boca com o futebolista Mario Balotelli no Twitter. O velocista disse que considerava o jogador agressivo demais e que não gostava dele. Suas contas no Twitter (@usainbolt) e no Instagram (@usainbolt) são repletas de imagens de bastidores, fotos de suas vitórias e, claro, muitas imagens de produtos de seus patrocinadores.
Não é de hoje que a tenista russa arranca suspiros durante os jogos – e nas coletivas de imprensa, nos eventos publicitários... A bela, que já atuou como modelo, confessou que se acha muito chata para ter um Twitter. Puro charminho: a conta da jogadora (@MariaSharapova) tem 959 mil seguidores e está sempre atualizada com fotos da tenista, que não esconde o glamour em que vive, ao surgir em poses e cenários para lá de caros. Que tal se exibir dentro de uma banheira com uma garrafa de champanhe na mão? É de enlouquecer as recalcadas.
Filho do técnico de vôlei Bernardo Rezende, Bruninho mantém ativas contas no Instagram (@brunorezende) e no Twitter (@brunorezende1). Com 398 mil seguidores na rede de microblogs, o levantador da seleção brasileira costuma postar fotos da sua rotina de treinos e também comenta o cenário esportivo brasileiro. O campeão mundial ainda faz as vezes de assessor de imprensa e divulga, ele mesmo, as notícias a respeito da sua carreira – como a renovação do contrato com o time italiano do Modena, confirmada em abril deste ano.
JADE BARBOSA O sucesso como ginasta se tornou pequeno diante da fama de Jade Barbosa no Instagram (@jade_barbosa). A menininha que o Brasil viu alcançar conquistas inéditas nos campeonatos de ginástica artística mundo afora cresceu – como ela mesma gosta de frisar – e apareceu. Sua conta é recheada de imagens em que a atleta “sensualiza”, mostrando o corpo super em forma em poses provocantes. A “rainha dos selfies”, como é chamada pela imprensa esportiva, arranca suspiros dos seguidores e mantém o canal constantemente atualizado, para deleite dos mais assanhados.
HANDEbOL
O NOVO TIME DA MELHOR DO MUNDO
eleita a melhor jogadora do mundo, a paulista Alexandra Nascimento vai trocar de time após 11 anos. Alexandra deixa o Hypo, da Áustria, para jogar no Baia mare, da romênia. O motivo é o fim da parceria da equipe austríaca com a Confederação de Handebol. Além de Alexandra, atuavam no Hypo as brasileiras Bárbara Arenhart, fabiana diniz, Ana paula rodrigues, francielle rocha, deonise fachinello e fernanda frança. O destino delas ainda não foi definido.
>ATLETISMO
JOVENS TALENTOS NA CHINA
O Brasil classificou 15 atletas para a segunda edição dos Jogos Olímpicos da Juventude, que serão disputados em Nanjing, na China, entre 16 e 28 de agosto. Confira quem são: HOmeNs__________________________________ 200 m: Aliffer JúNiOr dOs sANtOs 400 m: ANdersON COrdeirO limA CerqueirA 110 m com barreiras: VitOr HeNrique VeNâNCiO 400 m com barreiras: mikAel ANtONiO de Jesus 2.000 m com obstáculos: dANiel ferreirA de NAsCimeNtO salto em altura: dANilO de sOuzA GOulArt CArdOsO salto com vara: BruNO GermANO spiNelli salto em distância: kelVes ApAreCidOs dOs sANtOs lançamento do disco: mAyCON WerNke BONAdiO mulHeres________________________________ 100 m / 200 m: mimA mArques dA silVA 800 m: ANA kArOlyNe de CAmpOs silVA 100 m com barreiras: pAOllA ferliN luCHiN 400 m com barreiras: mAriA letiCiA de limA peres salto em distância: eleN CAmilO VAsCONCelOs lançamento do dardo: AlexANdrA mAriA pimeNtA dA silVA
>bADMINTON
FORÇA MÁXIMA NO MUNDIAL
pela primeira vez na história o Brasil terá representantes em todas as modalidades do Campeonato mundial de Badminton, entre 25 e 31 de agosto, na dinamarca. Alex tjong, daniel paiola, fabiana silva, Hugo Arthuso, lohaynny Vicente e paula pereira estão confirmados no torneio. A lista pode aumentar. tudo depende da performance de outros atletas nas competições disputadas até um mês antes do mundial.
>bASQUETE
CATORZE NACIONAIS CONSECUTIVOS
um dos projetos mais bacanas do esporte paraolímpico brasileiro se desenvolve longe dos grandes centros esportivos do país. trata-se do time feminino de basquete de cadeira de rodas All star rodas Girls, sediado em Belém, no pará. A equipe treina em regime permanente, tem técnico profissional e estrutura de apoio. O resultado se vê nas quadras: em maio, o All star rodas Girls pará venceu o campeonato brasileiro. Não só isso: foi o 14º título nacional consecutivo conquistado pelas paraenses.
>bOXE
FRATURA ADIA PLANOS DE PROMESSA DO ESPORTE
Boxeador brasileiro de maior potencial da atualidade, o catarinense patrick teixeira deu um azar danado. em um treino de rotina, fraturou a mão direita. resultado: a luta agendada para o dia 14 de junho, no Brooklyn, em Nova york – uma chance de patrick exibir
seu talento em palcos internacionais –, teve de ser adiada. Aos 23 anos, patrick detém o título latino da Organização mundial de Boxe e é 14º colocado no ranking dos médios-ligeiros. seu cartel impressiona: são 22 lutas e 22 vitórias, das quais 19 por nocaute.
>CANOAGEM
NASCE UM FENÔMENO
que a mato-grossense de primavera do leste Ana sátila Vargas era um talento a turma da canoagem já sabia. A novidade é que Ana parece ser mais do que isso – um fenômeno, para dizer a verdade. Aos 19 anos, ela faturou a medalha de ouro no mundial sub-23 realizado na Austrália. A conquista veio no slalom e superou o melhor resultado do Brasil no campeonato (em 1992, o gaúcho Gustavo selbach foi bronze). Assim, Ana passa a ter o direito de sonhar com o pódio em 2016. A julgar pela impressionante evolução nos últimos anos, isso está longe de ser impossível.
>ESGRIMA
FOCO NO TOP 16
O paulistano renzo Agresta, principal esgrimista brasileiro na modalidade sabre, começou o ano na estratégica 16ª posição do ranking mundial. É que, nesse esporte, os top 16 entram diretamente na chave principal dos torneios mais importantes, evitando assim o desgaste da etapa classificatória. O maior desafio de renzo em 2014 será o Campeonato mundial, programado para julho, na rússia.
>FUTEbOL
COI RECLAMA DO MARACANÃ
Não é apenas a fifa que fica no pé dos gestores do maracanã, palco da final da Copa do mundo. O Comitê Olímpico internacional enviou uma carta ao governo do rio reclamando das medidas dos túneis de acesso ao campo e da cobertura. Na resposta, as autoridades brasileiras disseram que o maracanã está pronto para a Olimpíada e que reformas não serão necessárias. em 2016, o estádio receberá as festas de abertura e encerramento e partidas do torneio de futebol.
>GINÁSTICA
LAÍS FICA MAIS 4 MESES NOS EUA A ginasta laís souza, que se recupera do acidente sofrido no dia 27 de janeiro, deve continuar no hospital Jackson memorial, em miami, nos estados unidos, por pelo menos mais quatro meses. A previsão foi feita pelo Comitê Olímpico Brasileiro, que tem custeado todas as despesas. A permanência se deve à intenção dos médicos de introduzir um tramento com células-tronco e com um exoesqueleto controlado pelo cérebro.
>GOLFE
GERAÇÃO PROMISSORA
O golfe nacional mostrou sua força no faldo southAmerica, torneio disputado em maio, em porto Alegre, e que valia classificação para a final mundial do faldo series. das cinco vagas que o campeonato oferecia, três ficam com brasileiros. Vão representar o país no exterior os gaúchos rohan Boettcher, que venceu a categoria para atletas com até 16 anos, e Herik machado, vitorioso entre os jogadores com até 18 anos, além da paranaense Carolina yamada, atual líder do ranking juvenil feminino para jovens de até 21 anos.
>HIPISMO
HYUNDAI É A NOVA PATROCINADORA
A montadora sul-coreana Hyundai decidiu apostar no hipismo brasileiro, em maio, a empresa anunciou o patrocínio do principal campeonato nacional, que passa a se chamar Campeonato Brasileiro Hyundai de sênior top. O contrato entre a montadora e a confederação vai até 2016. durante esse período, serão distribuídos r$ 3 milhões em prêmios aos atletas. para dar maior visibilidade ao torneio, a partir de agora ele não será disputado apenas em um fim de semana, mas em nove etapas realizadas ao longo do ano. Os atletas poderão descartar dois resultados negativos, à exceção da última prova, que terá um peso maior. Cada etapa terá a premiação de r$ 120 mil e o campeão brasileiro também leva um Hyundai ix35.
CICLISMO
AGENDA COMPLETA
O Bmx terá um segundo semestre agitado. Confira o calendário de competições: Data
Evento
Cidade
5 e 6 de julho
Brasileiro de Bicicross
Americana (sp)
23 a 27 de julho
uCi World Championship
roterdã (Holanda)
2 e 3 de agosto
Copa Brasil de Bicicross
A definir
29 e 30 de agosto
Copa Brasil de Bicicross
salvador (BA)
6 e 7 de setembro
uCi supercross World Cup
santiago del estero (Argentina)
26 e 27 de setembro uCi supercross World Cup
Chula Vista (euA)
11 e 12 de outubro Copa Brasil de Bicicross
Joinville (sC)
1º e 2 de novembro Copa Brasil de Bicicross
A definir
>HÓQUEI SObRE A GRAMA OBRAS PARA 2016 SÃO ELOGIADAS
enfim, a Olimpíada de 2016 recebe um elogio consistente. depois de passar três dias no rio, dirigentes da federação internacional de Hóquei (fiH) aprovaram o andamento das obras da arena que será erguida em deodoro. executivo-chefe da fiH, kelly fairweather disse que 95% de suas dúvidas foram esclarecidas. “Vi um senso de urgência, o que é bastante reconfortante”, disse o dirigente. em 2016, o hóquei sobre a grama será disputado por 12 equipes masculinas e 12 femininas. mesmo sendo sede da competição, o Brasil} não tem vaga garantida. Até o fim de 2014, a seleção feminina precisa chegar entre as 40 primeiras do ranking mundial e os homens, entre os 30. Atualmente, elas estão em 41º e eles, em 33º.
>LEVANTAMENTO DE PESO FUTEBOL, DARDO, DISCO E, SÓ DEPOIS, PESO
maior promessa do levantamento de peso brasileiro, monique lima de Araújo treina mesmo para valer há apenas três anos. É que ela quase foi jogadora de futebol. Aos 17 anos, monique chegou a viajar com a seleção para disputar um torneio na turquia. desistiu porque não queria depender de outras atletas para vencer. enveredou para o atletismo e acabando fazendo arremesso de disco e dardo. foi o tenente Carlos Aveiro, do Centro de educação física Almirante Nunes, no rio, que mudou o destino dela. Aveiro achou – e acertou – que monique tinha o perfil ideal para o levantamento de peso. Agora, aos 22 anos, é apontada por todos os especialistas como a atleta de maior potencial desse esporte no país.
>NADO SINCRONIZADO
NAS ÁGUAS NÃO TEM FLA-FLU
luisa Borges, 18 anos, é atleta do fluminense. Giovana stephan, 24,do flamengo. Apesar de trabalharem em clubes diferentes, marcados por enorme rivalidade no futebol, elas agora precisam estar 100% sintonizadas. É que luisa e Giovana são o novo dueto da seleção brasileira de nado sincronizado, em substituição a lara e Nayara, que disputaram as duas últimas Olimpíadas. A parceria começou bem. em maio, as duas obtiveram um ótimo resultado no Aberto do rio, disputado no parque Aquático maria lenk. ficaram com o bronze, atrás das ucranianas e das italianas.
LUTAS
FALTAM LUGARES PARA TREINAR
O Brasil dispõe de poucas academias onde aprender o esporte. Confira as louváveis exceções: Brasília: Centro de treinamento do MMa CErraDO l2 norte na 604, dentro do Clube unidade Vizinhança
GOiânia: academia Contato rua t-38, qd. 125, lt.16 – telefone: (62) 3541-5069 faculdade de educação física da federal de Goiás – rodovia Goiânia – Nerópolis, km-12, Campus samambaia – telefone: (62) 3521-1141
riO DE JanEirO: CT da CBla rua Bom pastor, 106 – tijuca – telefones: (21) 3242-5543/ (21) 3591-9800
Projeto lutando Por um Brasil Melhor escola municipal presidente médici – rua João de lacerda, s/Nº – telefone: (21) 9805-2310/3332-3988
Jequiá iate Clube rua praia do zumbi, nº 28 – zumbi – ilha do Governador – telefone: (21)3366-4584
Centro de Treinamento ianka rocha – CTir Av. Cesário de melo, 960 – Campo Grande – telefone: (21) 2412-4634
sãO PaulO: sesi Osasco – Av. Getúlio Vargas, s/N – Jardim piratininga - telefone: (11) 3602-6200
>NATAÇÃO
OS CONVOCADOS PARA OS JOGOS DA JUVENTUDE
A delegação brasileira que embarca para os Jogos da Juventude, em Nanjin, na China, de 16 a 28 de agosto, terá oito nadadores. eis a lista: > HOmeNs matheus santana, da unisanta (velocista estilo livre), luiz Altamir melo, do flamengo (borboleta), Andreas mickosz, do Corinthians (peito), e Vítor Guaraldo, do pinheiros (costas) > mulHeres Natalia de luccas, do Corinthians (costas), Giovanna diamante, do sesi/sp (livre), Bruna primati, do sesi (fundista estilo livre), e Viviane Jungblut, do Grêmio Náutico união/rs (fundista estilo livre).
>PENTATLO MODERNO YANE DISCUTE IDEIAS COM O COB
O Comitê Olímpico Brasileiro lançou uma ideia interessante: atrair mais atletas para a gestão do esporte nacional. A medalhista de bronze no pentatlo moderno, yane marques, foi uma das estrelas que foram ao COB, em maio, debater propostas. saiu da reunião convencida de que é preciso criar comissões de atletas para todas as confederações, sejam elas de esportes tradicionais no país ou não. Além dela, participaram talentos olímpicos brasileiros, como emanuel, do vôlei, e Gustavo Borges, da natação.
POLO AQUÁTICO AGENDA LOTADA 96
ISTOÉ 2016
junho/julho 2014
uma das maiores favelas do rio, a rocinha está formando talentos para o esporte brasileiro graças a inúmeros projetos que surgiram
depois da escolha da cidade para sediar os Jogos de 2016. O bacana da história é que até modalidades consideradas de elite estão sendo beneficiadas. três jogadoras de polo aquático do flamengo, um dos principais clubes desse esporte no país, surgiram nas piscinas da rocinha. quem sabe uma delas defenda a seleção na Olimpíada!
>REMO
REFORÇO PARAOLÍMPICO
O Brasil conseguiu qualificar mais quatro atletas para integrar sua equipe paraolímpica de remo em competições internacionais. Com base em laudos médicos, a federação internacional de remo (fisa) aprovou em maio a entrada de Geovani pinho, do Aldo luz (sC), na categoria As (impulso com os braços), erik lima, do sport (pe), e frederich mallrich, do Guanabara (rJ), na categoria ltA (pernas, tronco e braços), e michel Gomes, do flamengo (rJ), na categoria tA (tronco e braços). A qualificação foi obtida durante as disputas da regata internacional de Gavirate, na itália. O melhor resultado na competição foi de Josiane lima e luciano pires, que conquistaram medalha de bronze no esquife duplo ltA.
>RÚGbI
BRASILEIRAS ENTRE AS MELHORES DO MUNDO
O oitavo lugar conquistado pela seleção feminina na última etapa do circuito mundial de rugby sevens representou um passo histórico para o esporte: pela primeira vez, o Brasil aparece entre as dez melhores equipes no ranking internacional (é o nono). A performance surpreendeu. As brasileiras venceram a Holanda, donas da casa e país com enorme tradição nesse esporte, e depois caíram apenas diante de estados unidos, frança e Austrália, potências mundiais.
>SALTOS ORNAMENTAIS A BOA FASE DE HUGO PARISI
Aos 29 anos, o brasiliense Hugo parisi parece viver o melhor momento da carreira. em maio, conquistou a medalha de bronze na quarta etapa do circuito mundial de saltos ornamentais de san Juan, em porto rico, na plataforma de 10 metros. Hugo tem três Olimpíadas nas costas, sendo que sua melhor colocação foi nos Jogos de pequim, em 2008, quando foi 19º colocado. tudo indica que ele será um dos saltadores brasileiros em 2016.
>TAE KWON DO
APOSTA NA RODAGEM INTERNACIONAL
Os responsáveis pelo tae kwon do brasileiro estão levando a sério a máxima de que é preciso rodagem internacional para forjar atletas vitoriosos. em maio, a delegação nacional faturou nove medalhas no espanha Open, um dos torneios mais tradicionais da europa e que sempre é realizado na cidade de Castellon. depois, o time embarcou para madri, para uma clínica com técnicos estrangeiros.
>TIRO
DOIS ATLETAS ENTRE OS 20 MELHORES
O Brasil avança no tiro. O novo ranking divulgado pela federação internacional traz, pela primeira vez, dois brasileiros entre os 20 melhores do mundo. Além de Cássio rippel, que está no top 20 da modalidade carabina desde o início de 2013, rodrigo Bastos, da fossa olímpica, apareceu na 14ª posição depois do sexto lugar conquistado na Copa do mundo de tucson, nos estados unidos. Aos poucos, o Brasil vai chegando lá: entre a 20ª e a 30ª posições, há outros quatro atletas do país.
>TIRO COM ARCO
ESFORÇO E MEDALHA
Não é fácil a vida da paulista sarah Nikitin, que em maio conquistou a inédita medalha de prata na Copa do mundo de Cáli, na Colômbia. todos os dias, sarah percorre quase 100 quilômetros da casa dos pais em Osasco, na região
metropolitana de são paulo, para o centro de treinamento da seleção, em Campinas. faz isso no mínimo cinco dias por semana. Às vezes, seis. detalhe: o percurso é feito de ônibus, porque ela ainda não juntou dinheiro para comprar um automóvel. As agruras do esporte brasileiro não impediram que sarah se tornasse uma das atletas mais promissoras para 2016.
>TRIATLO
MARINHA FAZ DOAÇÃO DE TÊNIS desde que o rio de Janeiro foi escolhido sede da Olimpíada de 2016, o esporte vem oferecendo oportunidades para milhares de brasileiros. Há alguns dias, a marinha do Brasil doou 100 pares de tênis para crianças e adolescentes carentes que demonstraram interesse em praticar triatlo. A garotada integra o projeto “Atleta Cidadão”, da prefeitura de fortaleza, e já tem alguma experiência com corrida. falta agora investir no treinamento de ciclismo e natação.
>VELA
RS:X EQUIPADA
Os principais velejadores da classe rs:x receberam, em maio, um presente há muito tempo aguardado. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) entregou a Albert Carvalho, patricia freitas, Bruna martinelli e ricardo “Bimba” Winicki quatro novas pranchas, além de todos os acessórios de competição que acompanham o pacote. O equipamento, adquirido em parceria com a Confederação Brasileira de Vela (CBVela), será utilizado em treinamentos e competições voltados à preparação para a Olimpíada de 2016. O primeiro grande teste prático das novas pranchas será no Campeonato mundial de santander, na espanha, em setembro.
>VÔLEI
O POTENCIAL DE MARKETING DE FABIANA
O site americano sporspro divulgou a sua já tradicional lista dos atletas com maior potencial de marketing do mundo. para o Brasil, a relação traz surpresas. Além de Neymar, do Barcelona – escolha óbvia pelo que ele representa –, integra o grupo a meio-de-rede fabiana Claudino,
JUDÔ
SARAH SAI DO TOPO
A campeã olímpica sarah menezes deixou o topo do ranking mundial da federação internacional de Judô, na categoria até 48 kg, após um ano e oito meses de domínio inconteste. A nova líder é a mongol urantsetseg munkhbat, campeã mundial, que venceu o Grand slam de Baku, em maio. A diferença entre as duas, no entanto, é de apenas 246 pontos, que podem ser recuperados em apenas uma competição. Outras três brasileiras aparecem na vice-liderança de suas categorias: Érika miranda (até 52 kg), a campeã mundial rafaela silva (até 57 kg) e maria suelen Altheman (acima de 78 kg).
do sesi-sp, que tem no currículo dois ouros olímpicos. O outro atleta nacional presente na lista é o velocista paraolímpico Alan fonteles.
>TÊNIS
DJOKOVIC PREFERE O RIO A ROLAND GARROS
O tenista sérvio Novak djokovic definiu uma meta principal para a carreira: ser campeão nos Jogos do rio. Apesar de jamais ter vencido roland Garros, um dos quatro grandes campeonatos do circuito, djokovic disse que prefere amealhar a medalha olímpica a quebrar o tabu no torneio francês. “quando fui bronze em pequim, senti uma emoção única”, disse djokovic em entrevista para um jornal inglês. “seria um sonho ganhar um ouro para a posteridade. se você me perguntar se prefiro roland Garros ou rio, direi que fico com a Olimpíada.”
>VÔLEI DE PRAIA
TALITA E TAIANA TREINAM COM PARAOLÍMPICOS
A dupla campeã mundial no vôlei de praia passou recentemente por uma experiência diferente. talita e taiana participaram de um treino com jogadores que formam a base da seleção brasileira de vôlei sentado, esporte integrante do programa paraolímpico. A ideia do projeto, que deverá ser ampliado para outras modalidades, é quebrar barreiras entre atletas olímpicos e paraolímpicos.
>TÊNIS DE MESA RÁPIDA ASCENSÃO
em outubro de 2007, quando tinha 16 anos, a paulista Cátia Oliveira sofreu um acidente de carro que a deixou tetraplégica. No mesmo dia, ela tinha sido convocada para defender a seleção brasileira no mundial sub-17 de futebol. depois de uma longa depressão, Cátia resolveu retomar o sonho de ser atleta. Apesar de praticar tênis de mesa há apenas um ano, ela coleciona resultados surpreendentes. em seu primeiro torneio, uma etapa da Copa Brasil, conseguiu um terceiro lugar. No segundo campeonato, foi vice-campeã. Agora, planeja ir aos Jogos do rio.
PÁGINA DOURADA Conquistas que entraram para a história Vera Lynn
Oliver Quinto
TEXTO
ARTE
UM GIGANTE DE 1,68 M DE ALTURA Recordista mundial e medalhista olímpico, o baixinho Ricardo Prado foi o nadador mais técnico da história do Brasil
RICARDO PRADO É UM FENÔMENO DESDE CEDO. COMEÇA A PRATICAR NATAÇÃO AOS 5 ANOS, EM ANDRADINA (SP), ONDE NASCEU, E AOS 7 VENCE O CAMPEONATO BRASILEIRO PARA CRIANÇAS, NOS 50 METROS BORBOLETA.
EM 1977, COM 12 ANOS, DISPUTA NO PERU O CAMPEONATO SUL-AMERICANO ADULTO DE NATAÇÃO. FATURA OITO MEDALHAS (QUATRO DE OURO E QUATRO DE PRATA).
AOS 14 ANOS, VAI PARA A CALIFÓRNIA APERFEIÇOAR A TÉCNICA E SE TORNA UM DOS PRIMEIROS NADADORES BRASILEIROS A SAIR DEFINITI VAMENTE DO PAÍS.
EM 1980, FAZ ÍNDICE PARA OS JOGOS DE MOSCOU, NA RÚSSIA. TEM SÓ 15 ANOS. SEU DESEMPENHO SURPREENDE: É 12O COLOCADO NOS 400 METROS MEDLEY.
DEIXA O ANONIMATO EM 1982, NA CIDADE DE GUAYAQUIL, NO EQUADOR: AOS 17 ANOS, SAGRA-SE CAMPEÃO E RECORDISTA MUNDIAL DOS 400 METROS MEDLEY, A PROVA MAIS COMPLETA DA NATAÇÃO. COM SÓ 1,68 METRO DE ALTURA, É UM CASO RARO DA NATAÇÃO, NUM PERÍODO EM QUE OS GIGANTES DE 2 METROS COMEÇAM A DOMINAR AS PISCINAS.
PARA OS JOGOS DE LOS ANGELES, EM 1984, INICIA UM PERÍODO EXTENUANTE DE TREINOS: NADA OITO HORAS POR DIA, SEIS DIAS DA SEMANA, A PARTIR DAS 5H30 DA MANHÃ. SEU TÉCNICO É MARK SCHUBERT*.
É FAVORITO À MEDALHA DE OURO, MAS FALHA NA FINAL DOS 400 METROS MEDLEY: ERRA A VIRADA ENTRE OS NADOS DE PEITO E LIVRE E VÊ O CANADENSE ALEX BAUMANN DISPARAR RUMO AO OURO. RICARDO FICA COM PRATA, UM RESULTADO HISTÓRICO PARA A NATAÇÃO BRASILEIRA. ATÉ ENTÃO, O BRASIL SÓ HAVIA SIDO BRONZE EM OLIMPÍADAS.
POUCO ANTES DOS JOGOS DE SEUL, EM 1988, ANUNCIA A APOSENTADORIA DAS PISCINAS. TEM SÓ 23 ANOS. COM VONTADE DE INICIAR OUTRA CARREIRA, SE FORMA EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE METODISTA DE DALLAS.
* Mentor do lendário Mark Spitz
EM 2003, AOS 38 ANOS, SOFRE UM ENFARTE E COLOCA DUAS PONTES DE SAFENA.
A INESPERADA DERROTA EM LOS ANGELES MEXE COM A CABEÇA DE RICARDO. ELE DIMINUI O RITMO DE TREINOS E VÊ A DISTÂNCIA PARA OS RIVAIS AUMENTAR.
DEPOIS DE SER COMENTARISTA DE NATAÇÃO NA TEVÊ, ENTRA NO RAMO DA GESTÃO ESPORTIVA. ATUALMENTE, É PRESIDENTE DO CONSELHO DE ESPORTES DO COMITÊ RIO 2016.
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