

Fundado em 1982 em Belo Horizonte (Minas Gerais), o Grupo Galpão tem suas raízes no teatro popular e de rua, mas criou uma linguagem própria e muito rica que dialoga com o erudito, a tradição e a contemporaneidade, o universal e o regional.
Formado por doze integrantes fixos e muitas parcerias exitosas, o Galpão já se apresentou em todo o território nacional e participou de vários festivais na América e na Europa. Essa união foi determinante para que vencessem tempos difíceis, sobrevivessem e se consolidassem como um dos principais representantes do teatro brasileiro.

Tem gente que primeiro pega o livro e folheia, outros que olham o sumário, outros, a breve apresentação do autor; algum lê a orelha, tipo esta, outros saltam tudo, até o prefácio, e vão direto ao que interessa... Eu sugiro uma forma de começar a conhecer este livro extraordinário: abra na página 5, onde está a primeira das muitas fotos que contam a história que você vai ler e ver. Nessa foto, quem está ao centro, de camisa
amarela, é o Tuninho. O louro, mais atrás, é o Paulo André. Mais ou menos do lado dele, o Beto. A Teuda, aqui no lado direito, todo mundo conhece, claro. Também a Fernanda, a Inês, o Júlio, o Arildo. Na frente, a Lydia e a Simone, puxando o bloco. À esquerda, o Chico, depois o Eduardo, discreto, lá atrás. E ali, no espaço aberto perto do meio, um pouco à esquerda, a Wanda. Ela, você pode não ver, mas eu vejo muito claramente. São todos artistas de teatro. Artistas de teatro, sabe o que é isso? Cantam, dançam, tocam, atuam, usam a voz, o corpo, as expressões, os gestos, máscaras, pé no chão, perna de pau, pintam o rosto, saltam, riem, choram quando é preciso, têm todas as técnicas para criar o mundo. Melhor, outros mundos. Este a que estamos condenados, dito real, foi fácil: era um mundo só, e em sete dias, digo em seis, porque um foi de descanso, mexe daqui, ajeita dali, uma árvore aqui, um dinossauro ali, e já estava pronto, torto e mal-ajambrado assim como continua sendo; não por culpa de quem fez, mas dos que até hoje trabalham contra, dos que fazem de tudo para destruí-lo.
Quero dizer: difícil é o que esses artistas fazem, um mundo novo por dia, todo dia, pela via da utopia. Não sei há quanto tempo conheço esse grupo, essa trupe, essa companhia. Já nos encontramos na Espanha, ali pelo começo do século XVI, dito Século de Ouro (e muito antes ainda, claro), depois em outros lugares e outros tempos, depois no Reino de Copacabana, no século XX, quando já tinham esses corpos novos e esses nomes.

Aqui, neste livro, que começou a ser impresso em 1439, na Mogúncia, no Sacro Império
Romano-Germânico, estão relatadas em uma língua românica, o português, algumas peripécias desses artistas de teatro, desde que passaram a se organizar em um grupo, a que chamaram de Galpão. O português, como se sabe, vem do galego-português falado no Reino da Galícia e no norte de Portugal. O nome Galpão, segundo uma das lendas da fundação do grupo, seria inspirado no nome do El Galpón, surgido em 1949, na banda oriental do rio da Prata, com o qual também fiz muitas viagens. Na narrativa que vão ler, uma história maravilhosa do teatro, os que não creem no que refiro aqui vão poder comprovar, por exemplo, os encontros desses artistas com o poeta William Shakespeare, inclusive no próprio teatro do poeta (já depois do incêndio de 1613, isso é verdade), onde reforçaram os laços de união que já tinham com ele e desfrutaram de uma saudável convivência às margens do rio Tâmisa, em Londres.
Volto a olhar a foto e vejo que esse de camisa amarela, quase ao centro, é Tio Vânia, esse mais atrás, discreto, é Romeu, aquela à esquerda é...
As histórias eternas começam assim: nel mezzo del cammin di nostra vita... ou, como nesta versão da história eterna do teatro: “Aristóteles afirmava que a poesia é mais importante do que a história, pois a história fala das coisas como foram, e a poesia trata das coisas como poderiam ter sido”.
Aderbal Freire-Filho (1941-2023), ator e diretor teatral
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
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Diretor Regional
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Conselho Editorial
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Edições Sesc São Paulo
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Gerente adjunto Francis Manzoni
Editorial Clívia Ramiro
Assistente: Maria Elaine Andreoti
Produção Gráfica Fabio Pinotti
Assistente: Ricardo Kawazu
Tempos de viver e de contar
© Edições Sesc São Paulo, 2021
© Eduardo Moreira, 2021
Todos os direitos reservados
2ª edição, 2026
Preparação José Ignacio Mendes
Curadoria das imagens Eduardo Moreira e Inês Peixoto
Projeto gráfico, capa e diagramação Lúcia Nemer e Martuse Fornaciari
Revisão Silvana Vieira e Karinna Taddeo
Versão para o inglês Rodrigo Maltez (texto Eduardo Moreira), Anthony Cleaver (texto Valmir Santos)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
G892 Grupo Galpão: tempos de viver e de contar / Eduardo Moreira (organizador) – 2a ed. – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2026
384 p.: il. color, fotografias; bilíngue (português/inglês).
978-85-9493-371-3
1. Teatro. 2. Teatro brasileiro. 3. Companhia de teatro.
4. Teatro de rua. 5. Grupo Galpão. 6. Cine Horto. I. Título. II. Moreira, Eduardo.
CDD 792.981
Ana Cláudia Martins – Bibliotecária CRB-8/8246
Edições Sesc São Paulo
Rua Serra da Bocaina, 570 – 11º andar 03174-000 – São Paulo SP Brasil Tel. 55 11 2607-9400 edicoes@sescsp.org.br sescsp.org.br/edicoes /edicoessescsp

Sumário
ENCENAR JÁ-VIVIDOS | 8
Danilo Santos de Miranda
Grupo Galpão: A UTOPIA DA POESIA NO MUNDO | 11
Eduardo Moreira
A CONVICÇÃO ARTÍSTICA ENDEREÇADA DA RUA PITANGUI | 81
Valmir Santos
UMA HISTÓRIA EM 18 ATOS
1. Tempos heroicos (1982-1987) | 106
Alma boa de Setsuan, E a noiva não quer casar, De olhos fechados, Ó pro cê vê na ponta do pé, A comédia da esposa muda, Arlequim servidor de tantos amores, Queremos praia e Triunfo, um delírio barroco
2. Em busca da realidade brasileira (1988-1991) | 118
Corra enquanto é tempo, Foi por amor e Álbum de família
3. A explosão barroca do teatro (1992-1996) | 128
Romeu e Julieta e A rua da amargura
4. O teatro imaginário de Molière (1997-1999) | 150
Um Molière imaginário
5. O teatro partido ao meio (1999-2000) | 160
Partido
6. A comédia popular brasileira (2000-2002) | 168
Um trem chamado desejo
7. O encontro com Paulo José (2003-2005) | 178
O inspetor geral e Um homem é um homem
8. Os milagres contados pelo público (2006-2008) | 196
Pequenos milagres
9. A saga cômica de um anti-herói (2009-2012) | 206
Till, a saga de um herói torto
10. A viagem a Tchékhov (2013-2014) | 216
Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) e Eclipse
11. O delírio dos gigantes de Pirandello (2014-2015) | 228
Os gigantes da montanha
12. Uma ode musical à passagem do tempo (2015-2016) | 238
De tempo somos – um sarau do Grupo Galpão
13. O teatro político (2016-2018) | 246
Nós e Outros
14. Veio a pandemia (2020-2022) | 260 Éramos em bando, Histórias de confinamento, Como os ciganos fazem as malas, A primeira perda da minha vida, Sonhos de uma noite com o Galpão, Quer ver escuta, Partida de vôlei à sombra do vulcão e Febre
15. O reencontro com o público (2023-2025) | 268
Cabaré Coragem e (Um) Ensaio sobre a cegueira
16. Duas visitas à casa de William Shakespeare (2000 e 2012) | 280
17. Cinema e teatro: o encontro com Eduardo Coutinho | 290 em Moscou (2008-2009)
18. Galpão Cine Horto (1998 e 2019) | 298
Fichas técnicas dos espetáculos | 308
English version | 320
Créditos complementares | 384
ENCENAR JÁ-VIVIDOS
|
Danilo
Santos de Miranda |
Diretor
Regional do Sesc São Paulo (1984 a outubro de 2023)
O teatro é uma arte que experiencia o tempo de modo peculiar. Sua efemeridade essencial coloca desafios à memória relacionada a artistas, encenadores e profissionais do palco, bem como às suas criações. Diferentemente de outras linguagens artísticas, cuja permanência permite que sucessivas gerações conheçam aquilo que foi produzido em determinado contexto, as artes cênicas dão-se plenamente no aqui-agora; posteriormente, o que resta é vestígio.
Face a essa condição, ganha ares paradoxais a constatação de que uma parte importante do patrimônio cultural brasileiro tenha sido construído por grupos teatrais de destacada longevidade. O Grupo Galpão está entre tais iniciativas, constituindo-se numa experiência fundamental para compreender as dinâmicas culturais brasileiras nas últimas décadas.
Parte dessa relevância deve-se ao lugar crucial ocupado pelo grupo: entre a rua e o palco, entre o popular e o erudito, a tradição e a contemporaneidade, o universal e o regional brasileiro. Caracterizado pela permeabilidade junto aos públicos, suas peças foram assistidas por mais de um 1,7 milhão de espectadores de 18 países. Trata-se de um conjunto de atores que trabalham com diretores convidados – como Gabriel Villela, Cacá Carvalho, Paulo José, Paulo de Moraes, Yara de Novaes, Jurij Alschitz e Marcio Abreu –, embora por vezes a direção dos espetáculos fique a cargo dos próprios componentes.
Desde sua fundação em 1982, o Galpão desenvolve uma consistente e extensa ação de registro da memória de seu trabalho, tendo publicado diversos diários dos processos de montagens de seus espetáculos, quase todos os textos encenados, assim como descrições e análises da trajetória da companhia. A presente publicação, que constitui um testemunho da profícua re lação entre Sesc e Grupo Galpão ao longo das últimas décadas, tem o acervo fotográfico como fio condutor da memória, cotejando-o com uma seleção de excertos de críticas e de artigos de jornais, além de ensaios do crítico Valmir Santos e de seu diretor e ator, Eduardo Moreira.
O teatro é uma expressão cuja significação transcende o debate estético: ele ajuda a pensar a sociedade num dado tempo e espaço, suas potencialidades e contradições. Uma das estratégias do Sesc é sublinhar a dimensão sociocultural de tais processos. Isso se dá não somente por meio da realização de festivais e da difusão de espetáculos, mas também de ações formativas como palestras, seminários, cursos e workshops. O Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, criado pelo encenador Antunes Filho e sob sua coordenação entre 1982 e 2019, é um exemplo destacado do envolvimento institucional com essa linguagem, tendo se tornado referência no que diz respeito à formação de atores e ao desenvolvimento de metodologias de trabalho criativo.
As publicações das Edições Sesc dedicadas ao tema atuam em sentido análogo, visando aproximar cultura e educação. Em todos esses casos, convoca-se a memória para servir ao presente, fertilizando as problemáticas relações deste com o passado e o futuro.

E a noiva não quer casar, Praça 7, BH
GRUPO GALPÃO : A UTOPIA DA POESIA NO MUNDO |
Eduardo Moreira
Aristóteles afirmava que a poesia é mais importante do que a história. Isso porque a história fala das coisas como foram, e a poesia trata das coisas como poderiam ter sido.
O teatro é o lugar privilegiado para falar das coisas possíveis, para tratar da utopia de forma mais contundente, no sentido de promover o encontro com o outro. Seu verdadeiro sentido é o de tornar visível aquilo que ainda é invisível.
Foi desse impulso, do que poderia ser, que o teatro nasceu há mais de 25 séculos na Grécia, sob o prisma de vivenciar uma experiência dolorosa e visitar a perspectiva do olhar do outro, do inimigo, do que está do outro lado do front . Quando Ésquilo retrata em cena o drama dos “bárbaros” derrotados na peça Os persas , ele transporta o público grego para o milagre de vivenciar a experiência dolorosa pela qual passa o inimigo.
Na mesma perspectiva, o drama de Hamlet também é o despertar da capacidade de encarar algo de “podre que existe no reino da Dinamarca”. Entrar em contato com a zona escura e pouco edificante que existe dentro de nós mesmos. Porque o teatro é também, por excelência, o lugar propício ao encontro com nossas experiências mais dolorosas, individuais e coletivas.
Isso é o teatro. Celebração catártica, entretenimento, lugar de reflexão e de encontro, que promove a reinvenção individual e coletiva, conectando-nos com nosso passado e projetando-nos, por meio da radicalidade da presença, ao futuro. Fazer disso uma missão necessária, mesmo que algumas vezes frustrada e irrealizável, transforma o teatro em projeto de vida. Individual e, pela própria natureza intrinsecamente coletiva do teatro, também de uma comunidade.
Em 44 anos de história do Galpão, sempre imaginei e concebi o relato de sua trajetória a partir da construção desse outro lugar. Do lugar do que poderia ter sido. Do lugar de algo que sempre teve tudo para não dar certo, que nasceu meio pálido e torto, mas conseguiu prosperar, gerou frutos e continua persistente, exatamente porque sempre se alimentou da possibilidade do encontro. Da capacidade de repensar seu próprio rumo e aprender com o outro.
Capítulo 1
Tempos heroicos (1982-1987)
Alma boa de Setsuan , E a noiva não quer casar , De olhos fechados , Ó pro cê vê na ponta do pé ,
A comédia da esposa muda , Arlequim servidor de tantos amores , Queremos praia e Triunfo, um delírio barroco


O cotidiano estava parado num sinal da Savassi, acelerando seu carro de vez em quando, enquanto uma chuva fina caía de leve, quando deparou com o absurdo cruzando a avenida à sua frente, vivificado na figura de cinco “grandes atores”, dos quais ele só viu os joelhos, e dois palhaços-músicos seguidos por vários curiosos, na sua maioria crianças. Esse momento mágico atraiu a curiosidade de cerca de 80 pessoas, que se aglomeraram nas proximidades da kombi da Campanha de Popularização do Teatro para assistirem à peça E a noiva não quer casar, com o Grupo Galpão, que trabalha com pernas de pau. […]
Dentre as inúmeras situações em que se envolveu, o Grupo Galpão viveu uma experiência, no mínimo, curiosa. Quando foram se apresentar no Parque Municipal, no dia 19 de dezembro, surgiu um funcionário da portaria do parque que, alegando a existência (comprovada) de uma lei que proíbe a execução de manifestações artísticas na área do parque, pediu o auxílio da PM para impedir a apresentação. Sem entrar no mérito da arbitrariedade da lei, cerca de 25 policiais deteram [sic] os sete membros do grupo dentro do Teatro Francisco Nunes, onde eles forneceram seus nomes completos, endereços e telefones. Até que chegou um advogado e negociou a liberação do grupo, já que não havia razão para a detenção.
Luiz Carlos Bernardes, “O teatro, na rua e na periferia, acontece”. Estado de Minas, coluna Pano Aberto, 16 jan. 1983
Encontramos a turma do Galpão na Casa de Paschoal da Fundacen (Fundação Nacional de Artes Cênicas) em Santa Teresa, o alojamento que hospeda os artistas de todo o país que precisam permanecer no Rio para participarem de cursos, seminários, conferências ou resolver algum problema relacionado com as artes cênicas. […] O Grupo Galpão chegou ali para fazer o curso de teatro de rua, dramaturgia e dança hindu com o grupo Tascabile da Itália. O fantástico grupo mineiro que há dez anos vem realizando espetáculos de rua no sentido de levar o teatro ao povo diretamente estava voltando do encontro de teatro de Canela, no Rio Grande do Sul.
Magda Lenard, “Grupo Galpão em alta”. Diário da Tarde, 6 nov. 1987
Com recursos de arte circense, o grupo mineiro Galpão passa a realidade pelo crivo da fantasia e transforma o cotidiano em bom motivo de riso. O espetáculo, depois do sucesso com a peça E a noiva não quer casar, estreou ontem em São Paulo, sob o título sugestivo de Ó prô cê vê na ponta do pé Trata-se de uma criação coletiva com dez cenas curtas, todas puxando para o lado cômico, com personagens como o repórter de TV, o camelô, o político, os punks, a bailarina e vários outros. O grupo está se apresentando no Centro Cultural São Paulo em sessões ora no picadeiro montado em seu interior, ora nas salas teatrais.
“Galpão traz o cômico para o picadeiro”.
O Estado de S. Paulo, 13 out. 1984
Páginas 106-107
Wanda Fernandes, Eduardo Moreira, Fernando Linares e Mauro Lúcio Xavier em E a noiva não quer casar Praça 7, BH Foto | Arquivo Galpão

Acima e ao lado: A alma boa de Setsuan Fotos | Roland Schaffner

O teatro partido ao meio (1999-2000) Partido




Esta é uma conquista da evolução estética do grupo, de sua credibilidade e do amadurecimento da própria audiência, que cada vez mais se capacita para acompanhar desempenhos e propostas rigorosas e sem concessões ao digerível.
Clara Arreguy, “Divisão e integridade”. Estado de Minas, 22 jul. 1999
Dificilmente a qualidade cênica de Partido poderá ser superada: mas é uma pena que se perca tamanho esforço num texto literário impossível de ser transportado para o palco.
Bárbara Heliodora, “Montagem bela mas confusa”. O Globo, 9 ago. 1999
É raro um artista, ou um grupo de artistas, alcançar um momento sublime em sua carreira. O Galpão já tivera o seu, no instante da morte de Julieta em Romeu e Julieta. Conseguiu a façanha de repetir a dose. O desnudamento material e simbólico do ator Paulo André no final de Partido é sublime, um despojar-se completamente de qualquer orgulho, pudor, ornamento, é revelar algo essencial, permitir ao público a graça da iluminação.
Em seus últimos espetáculos, o Galpão alcançara outros patamares menos valiosos – o patético em A rua da amargura, na “pietà” a que a encenação conduz e, na morte do Judas, o equilíbrio perfeito entre humor e reflexão sobre o humor, entre forma livre e rigor da encenação em Um Molière imaginário. Mas o sublime é algo mais valioso, o que coloca Partido lado a lado de Romeu e Julieta como a maior contribuição do Galpão à arte nacional.
Marcello Castilho Avellar, “Um instante sublime”. Estado de Minas, 8 maio 1999
Finamente burilado, quase encantatório para ouvir, Partido é um espetáculo para gostar do que se vê. São notáveis as partituras, os cenários, os figurinos, os objetos de cena, as caracterizações dos personagens, a luz precisa e deslumbrante. É menos visível, mas bastante perceptível, a rica prospecção teatral que realiza. Como ali se escreve cuidadosamente nas entrelinhas, com aguçada e resoluta caligrafia. Com a tremida de artista. Tudo isso o torna um espetáculo imperdível.
Miguel Anunciação, “Partido é imperdível”. Hoje em Dia, 29 jul. 1999
Me aventuro, con Partido, a pensar que, primero, se trata de la negación de nuestra propia esencia; segundo, que nos convertimos en hombrecillos tristes; y tercero, que mientras no nos aceptemos como somos – seres finitos – cualquier escapatoria será imposible. El montaje con el que Galpão se está presentando en el FITC 2000 es, en definitiva, una invitación a abrir las maletas que los personajes de Partido cargan con los restos de unas vidas que no tiene sentido atesorar. Un espectáculo que sobresale por la precisión de su puesta, por la calidad interpretativa y vocal de sus actores y por el impecable diseño escenográfico que, pese a su sencilla espectacularidad, no irresuelta el denso texto de Calvino. Seguimos en busca del hombre completo.
“O teatro partido ao meio”. El Nacional, Caracas, 29 mar. 2000
Capítulo 9 Till, a saga de um herói torto
A saga cômica de um anti-herói (2009-2012)


Presente na história, o universo do grotesco foi explorado tanto na construção dos personagens como também no cenário, figurino e maquiagem. Um workshop sobre bufões ministrado por Joaquim Elias ajudou os atores a encontrar o exagero do grotesco em seus corpos – mas, segundo Júlio Maciel, a referência aparece apenas de forma sutil.
Júlia Guimarães, “Till”. Pampulha, 27 jun. 2009
Till é uma comédia rasgada, cujo processo de construção foi, desde o princípio, colaborativo. Antes de o grupo optar pela história, o público foi convidado a assistir a cenas de quatro textos diferentes, entre eles o de Luís Alberto de Abreu, que bateu na preferência geral; Lisístrata, de Aristófanes; Sonho de uma noite de verão e uma adaptação de Hamlet, ambos de Shakespeare.
Fábio Fabrini, “Os saltimbancos”.
O Globo, 12 set. 2009
O Rio não para de comentar a volta do Grupo Galpão às origens, ou melhor, às ruas. Só na sexta-feira, três mil pessoas foram ao parque dos Patins, na Lagoa, para ver Till, a saga de um herói torto
Heloísa Tolipan, “Na chuva, na rua, na fazenda, em qualquer lugar”. Jornal do Brasil, 21 set. 2009
Após alguns séculos, Till Eulenspiegel, surpreendido, volta a viver suas desatinadas aventuras no Brasil, mais particularmente em Minas Gerais. E se sente bem-vindo.
Bárbara Heliodora, “Galpão descobre o lúdico e a mineirice da lenda alemã”. O Globo, 10 out. 2009
Páginas 206-207
Elenco de Till, a saga de um herói torto Foto | Nereu Jr.
Inês Peixoto Foto | Nidin Sanches


