Skip to main content

Grupo Galpão: tempos de viver e de contar

Page 1


Tempos de viver e de contar
Eduardo Moreira [org.]
2ª edição

Fundado em 1982 em Belo Horizonte (Minas Gerais), o Grupo Galpão tem suas raízes no teatro popular e de rua, mas criou uma linguagem própria e muito rica que dialoga com o erudito, a tradição e a contemporaneidade, o universal e o regional.

Formado por doze integrantes fixos e muitas parcerias exitosas, o Galpão já se apresentou em todo o território nacional e participou de vários festivais na América e na Europa. Essa união foi determinante para que vencessem tempos difíceis, sobrevivessem e se consolidassem como um dos principais representantes do teatro brasileiro.

Tem gente que primeiro pega o livro e folheia, outros que olham o sumário, outros, a breve apresentação do autor; algum lê a orelha, tipo esta, outros saltam tudo, até o prefácio, e vão direto ao que interessa... Eu sugiro uma forma de começar a conhecer este livro extraordinário: abra na página 5, onde está a primeira das muitas fotos que contam a história que você vai ler e ver. Nessa foto, quem está ao centro, de camisa

amarela, é o Tuninho. O louro, mais atrás, é o Paulo André. Mais ou menos do lado dele, o Beto. A Teuda, aqui no lado direito, todo mundo conhece, claro. Também a Fernanda, a Inês, o Júlio, o Arildo. Na frente, a Lydia e a Simone, puxando o bloco. À esquerda, o Chico, depois o Eduardo, discreto, lá atrás. E ali, no espaço aberto perto do meio, um pouco à esquerda, a Wanda. Ela, você pode não ver, mas eu vejo muito claramente. São todos artistas de teatro. Artistas de teatro, sabe o que é isso? Cantam, dançam, tocam, atuam, usam a voz, o corpo, as expressões, os gestos, máscaras, pé no chão, perna de pau, pintam o rosto, saltam, riem, choram quando é preciso, têm todas as técnicas para criar o mundo. Melhor, outros mundos. Este a que estamos condenados, dito real, foi fácil: era um mundo só, e em sete dias, digo em seis, porque um foi de descanso, mexe daqui, ajeita dali, uma árvore aqui, um dinossauro ali, e já estava pronto, torto e mal-ajambrado assim como continua sendo; não por culpa de quem fez, mas dos que até hoje trabalham contra, dos que fazem de tudo para destruí-lo.

Quero dizer: difícil é o que esses artistas fazem, um mundo novo por dia, todo dia, pela via da utopia. Não sei há quanto tempo conheço esse grupo, essa trupe, essa companhia. Já nos encontramos na Espanha, ali pelo começo do século XVI, dito Século de Ouro (e muito antes ainda, claro), depois em outros lugares e outros tempos, depois no Reino de Copacabana, no século XX, quando já tinham esses corpos novos e esses nomes.

Aqui, neste livro, que começou a ser impresso em 1439, na Mogúncia, no Sacro Império

Romano-Germânico, estão relatadas em uma língua românica, o português, algumas peripécias desses artistas de teatro, desde que passaram a se organizar em um grupo, a que chamaram de Galpão. O português, como se sabe, vem do galego-português falado no Reino da Galícia e no norte de Portugal. O nome Galpão, segundo uma das lendas da fundação do grupo, seria inspirado no nome do El Galpón, surgido em 1949, na banda oriental do rio da Prata, com o qual também fiz muitas viagens. Na narrativa que vão ler, uma história maravilhosa do teatro, os que não creem no que refiro aqui vão poder comprovar, por exemplo, os encontros desses artistas com o poeta William Shakespeare, inclusive no próprio teatro do poeta (já depois do incêndio de 1613, isso é verdade), onde reforçaram os laços de união que já tinham com ele e desfrutaram de uma saudável convivência às margens do rio Tâmisa, em Londres.

Volto a olhar a foto e vejo que esse de camisa amarela, quase ao centro, é Tio Vânia, esse mais atrás, discreto, é Romeu, aquela à esquerda é...

As histórias eternas começam assim: nel mezzo del cammin di nostra vita... ou, como nesta versão da história eterna do teatro: “Aristóteles afirmava que a poesia é mais importante do que a história, pois a história fala das coisas como foram, e a poesia trata das coisas como poderiam ter sido”.

Aderbal Freire-Filho (1941-2023), ator e diretor teatral

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO

Administração Regional no Estado de São Paulo

Presidente do Conselho Regional

Abram Szajman

Diretor Regional

Luiz Deoclecio Massaro Galina

Conselho Editorial

Carla Bertucci Barbieri

Jackson Andrade de Matos

Marta Raquel Colabone

Ricardo Gentil

Rosana Paulo da Cunha

Edições Sesc São Paulo

Gerente Iã Paulo Ribeiro

Gerente adjunto Francis Manzoni

Editorial Clívia Ramiro

Assistente: Maria Elaine Andreoti

Produção Gráfica Fabio Pinotti

Assistente: Ricardo Kawazu

Tempos de viver e de contar

Eduardo Moreira [org.]
2ª edição

© Edições Sesc São Paulo, 2021

© Eduardo Moreira, 2021

Todos os direitos reservados

2ª edição, 2026

Preparação José Ignacio Mendes

Curadoria das imagens Eduardo Moreira e Inês Peixoto

Projeto gráfico, capa e diagramação Lúcia Nemer e Martuse Fornaciari

Revisão Silvana Vieira e Karinna Taddeo

Versão para o inglês Rodrigo Maltez (texto Eduardo Moreira), Anthony Cleaver (texto Valmir Santos)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

G892 Grupo Galpão: tempos de viver e de contar / Eduardo Moreira (organizador) – 2a ed. – São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2026

384 p.: il. color, fotografias; bilíngue (português/inglês).

978-85-9493-371-3

1. Teatro. 2. Teatro brasileiro. 3. Companhia de teatro.

4. Teatro de rua. 5. Grupo Galpão. 6. Cine Horto. I. Título. II. Moreira, Eduardo.

CDD 792.981

Ana Cláudia Martins – Bibliotecária CRB-8/8246

Edições Sesc São Paulo

Rua Serra da Bocaina, 570 – 11º andar 03174-000 – São Paulo SP Brasil Tel. 55 11 2607-9400 edicoes@sescsp.org.br sescsp.org.br/edicoes /edicoessescsp

Sumário

ENCENAR JÁ-VIVIDOS | 8

Danilo Santos de Miranda

Grupo Galpão: A UTOPIA DA POESIA NO MUNDO | 11

Eduardo Moreira

A CONVICÇÃO ARTÍSTICA ENDEREÇADA DA RUA PITANGUI | 81

Valmir Santos

UMA HISTÓRIA EM 18 ATOS

1. Tempos heroicos (1982-1987) | 106

Alma boa de Setsuan, E a noiva não quer casar, De olhos fechados, Ó pro cê vê na ponta do pé, A comédia da esposa muda, Arlequim servidor de tantos amores, Queremos praia e Triunfo, um delírio barroco

2. Em busca da realidade brasileira (1988-1991) | 118

Corra enquanto é tempo, Foi por amor e Álbum de família

3. A explosão barroca do teatro (1992-1996) | 128

Romeu e Julieta e A rua da amargura

4. O teatro imaginário de Molière (1997-1999) | 150

Um Molière imaginário

5. O teatro partido ao meio (1999-2000) | 160

Partido

6. A comédia popular brasileira (2000-2002) | 168

Um trem chamado desejo

7. O encontro com Paulo José (2003-2005) | 178

O inspetor geral e Um homem é um homem

8. Os milagres contados pelo público (2006-2008) | 196

Pequenos milagres

9. A saga cômica de um anti-herói (2009-2012) | 206

Till, a saga de um herói torto

10. A viagem a Tchékhov (2013-2014) | 216

Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) e Eclipse

11. O delírio dos gigantes de Pirandello (2014-2015) | 228

Os gigantes da montanha

12. Uma ode musical à passagem do tempo (2015-2016) | 238

De tempo somos – um sarau do Grupo Galpão

13. O teatro político (2016-2018) | 246

Nós e Outros

14. Veio a pandemia (2020-2022) | 260 Éramos em bando, Histórias de confinamento, Como os ciganos fazem as malas, A primeira perda da minha vida, Sonhos de uma noite com o Galpão, Quer ver escuta, Partida de vôlei à sombra do vulcão e Febre

15. O reencontro com o público (2023-2025) | 268

Cabaré Coragem e (Um) Ensaio sobre a cegueira

16. Duas visitas à casa de William Shakespeare (2000 e 2012) | 280

17. Cinema e teatro: o encontro com Eduardo Coutinho | 290 em Moscou (2008-2009)

18. Galpão Cine Horto (1998 e 2019) | 298

Fichas técnicas dos espetáculos | 308

English version | 320

Créditos complementares | 384

ENCENAR JÁ-VIVIDOS

|

Santos de Miranda |

Regional do Sesc São Paulo (1984 a outubro de 2023)

O teatro é uma arte que experiencia o tempo de modo peculiar. Sua efemeridade essencial coloca desafios à memória relacionada a artistas, encenadores e profissionais do palco, bem como às suas criações. Diferentemente de outras linguagens artísticas, cuja permanência permite que sucessivas gerações conheçam aquilo que foi produzido em determinado contexto, as artes cênicas dão-se plenamente no aqui-agora; posteriormente, o que resta é vestígio.

Face a essa condição, ganha ares paradoxais a constatação de que uma parte importante do patrimônio cultural brasileiro tenha sido construído por grupos teatrais de destacada longevidade. O Grupo Galpão está entre tais iniciativas, constituindo-se numa experiência fundamental para compreender as dinâmicas culturais brasileiras nas últimas décadas.

Parte dessa relevância deve-se ao lugar crucial ocupado pelo grupo: entre a rua e o palco, entre o popular e o erudito, a tradição e a contemporaneidade, o universal e o regional brasileiro. Caracterizado pela permeabilidade junto aos públicos, suas peças foram assistidas por mais de um 1,7 milhão de espectadores de 18 países. Trata-se de um conjunto de atores que trabalham com diretores convidados – como Gabriel Villela, Cacá Carvalho, Paulo José, Paulo de Moraes, Yara de Novaes, Jurij Alschitz e Marcio Abreu –, embora por vezes a direção dos espetáculos fique a cargo dos próprios componentes.

Desde sua fundação em 1982, o Galpão desenvolve uma consistente e extensa ação de registro da memória de seu trabalho, tendo publicado diversos diários dos processos de montagens de seus espetáculos, quase todos os textos encenados, assim como descrições e análises da trajetória da companhia. A presente publicação, que constitui um testemunho da profícua re lação entre Sesc e Grupo Galpão ao longo das últimas décadas, tem o acervo fotográfico como fio condutor da memória, cotejando-o com uma seleção de excertos de críticas e de artigos de jornais, além de ensaios do crítico Valmir Santos e de seu diretor e ator, Eduardo Moreira.

O teatro é uma expressão cuja significação transcende o debate estético: ele ajuda a pensar a sociedade num dado tempo e espaço, suas potencialidades e contradições. Uma das estratégias do Sesc é sublinhar a dimensão sociocultural de tais processos. Isso se dá não somente por meio da realização de festivais e da difusão de espetáculos, mas também de ações formativas como palestras, seminários, cursos e workshops. O Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, criado pelo encenador Antunes Filho e sob sua coordenação entre 1982 e 2019, é um exemplo destacado do envolvimento institucional com essa linguagem, tendo se tornado referência no que diz respeito à formação de atores e ao desenvolvimento de metodologias de trabalho criativo.

As publicações das Edições Sesc dedicadas ao tema atuam em sentido análogo, visando aproximar cultura e educação. Em todos esses casos, convoca-se a memória para servir ao presente, fertilizando as problemáticas relações deste com o passado e o futuro.

E a noiva não quer casar, Praça 7, BH

(1982)
Foto | Arquivo Galpão

GRUPO GALPÃO : A UTOPIA DA POESIA NO MUNDO |

Aristóteles afirmava que a poesia é mais importante do que a história. Isso porque a história fala das coisas como foram, e a poesia trata das coisas como poderiam ter sido.

O teatro é o lugar privilegiado para falar das coisas possíveis, para tratar da utopia de forma mais contundente, no sentido de promover o encontro com o outro. Seu verdadeiro sentido é o de tornar visível aquilo que ainda é invisível.

Foi desse impulso, do que poderia ser, que o teatro nasceu há mais de 25 séculos na Grécia, sob o prisma de vivenciar uma experiência dolorosa e visitar a perspectiva do olhar do outro, do inimigo, do que está do outro lado do front . Quando Ésquilo retrata em cena o drama dos “bárbaros” derrotados na peça Os persas , ele transporta o público grego para o milagre de vivenciar a experiência dolorosa pela qual passa o inimigo.

Na mesma perspectiva, o drama de Hamlet também é o despertar da capacidade de encarar algo de “podre que existe no reino da Dinamarca”. Entrar em contato com a zona escura e pouco edificante que existe dentro de nós mesmos. Porque o teatro é também, por excelência, o lugar propício ao encontro com nossas experiências mais dolorosas, individuais e coletivas.

Isso é o teatro. Celebração catártica, entretenimento, lugar de reflexão e de encontro, que promove a reinvenção individual e coletiva, conectando-nos com nosso passado e projetando-nos, por meio da radicalidade da presença, ao futuro. Fazer disso uma missão necessária, mesmo que algumas vezes frustrada e irrealizável, transforma o teatro em projeto de vida. Individual e, pela própria natureza intrinsecamente coletiva do teatro, também de uma comunidade.

Em 44 anos de história do Galpão, sempre imaginei e concebi o relato de sua trajetória a partir da construção desse outro lugar. Do lugar do que poderia ter sido. Do lugar de algo que sempre teve tudo para não dar certo, que nasceu meio pálido e torto, mas conseguiu prosperar, gerou frutos e continua persistente, exatamente porque sempre se alimentou da possibilidade do encontro. Da capacidade de repensar seu próprio rumo e aprender com o outro.

Capítulo 1

Tempos heroicos (1982-1987)

Alma boa de Setsuan , E a noiva não quer casar , De olhos fechados , Ó pro cê vê na ponta do pé ,

A comédia da esposa muda , Arlequim servidor de tantos amores , Queremos praia e Triunfo, um delírio barroco

O cotidiano estava parado num sinal da Savassi, acelerando seu carro de vez em quando, enquanto uma chuva fina caía de leve, quando deparou com o absurdo cruzando a avenida à sua frente, vivificado na figura de cinco “grandes atores”, dos quais ele só viu os joelhos, e dois palhaços-músicos seguidos por vários curiosos, na sua maioria crianças. Esse momento mágico atraiu a curiosidade de cerca de 80 pessoas, que se aglomeraram nas proximidades da kombi da Campanha de Popularização do Teatro para assistirem à peça E a noiva não quer casar, com o Grupo Galpão, que trabalha com pernas de pau. […]

Dentre as inúmeras situações em que se envolveu, o Grupo Galpão viveu uma experiência, no mínimo, curiosa. Quando foram se apresentar no Parque Municipal, no dia 19 de dezembro, surgiu um funcionário da portaria do parque que, alegando a existência (comprovada) de uma lei que proíbe a execução de manifestações artísticas na área do parque, pediu o auxílio da PM para impedir a apresentação. Sem entrar no mérito da arbitrariedade da lei, cerca de 25 policiais deteram [sic] os sete membros do grupo dentro do Teatro Francisco Nunes, onde eles forneceram seus nomes completos, endereços e telefones. Até que chegou um advogado e negociou a liberação do grupo, já que não havia razão para a detenção.

Luiz Carlos Bernardes, “O teatro, na rua e na periferia, acontece”. Estado de Minas, coluna Pano Aberto, 16 jan. 1983

Encontramos a turma do Galpão na Casa de Paschoal da Fundacen (Fundação Nacional de Artes Cênicas) em Santa Teresa, o alojamento que hospeda os artistas de todo o país que precisam permanecer no Rio para participarem de cursos, seminários, conferências ou resolver algum problema relacionado com as artes cênicas. […] O Grupo Galpão chegou ali para fazer o curso de teatro de rua, dramaturgia e dança hindu com o grupo Tascabile da Itália. O fantástico grupo mineiro que há dez anos vem realizando espetáculos de rua no sentido de levar o teatro ao povo diretamente estava voltando do encontro de teatro de Canela, no Rio Grande do Sul.

Magda Lenard, “Grupo Galpão em alta”. Diário da Tarde, 6 nov. 1987

Com recursos de arte circense, o grupo mineiro Galpão passa a realidade pelo crivo da fantasia e transforma o cotidiano em bom motivo de riso. O espetáculo, depois do sucesso com a peça E a noiva não quer casar, estreou ontem em São Paulo, sob o título sugestivo de Ó prô cê vê na ponta do pé Trata-se de uma criação coletiva com dez cenas curtas, todas puxando para o lado cômico, com personagens como o repórter de TV, o camelô, o político, os punks, a bailarina e vários outros. O grupo está se apresentando no Centro Cultural São Paulo em sessões ora no picadeiro montado em seu interior, ora nas salas teatrais.

“Galpão traz o cômico para o picadeiro”.

O Estado de S. Paulo, 13 out. 1984

Páginas 106-107

Wanda Fernandes, Eduardo Moreira, Fernando Linares e Mauro Lúcio Xavier em E a noiva não quer casar Praça 7, BH Foto | Arquivo Galpão

Acima e ao lado: A alma boa de Setsuan Fotos | Roland Schaffner

O teatro partido ao meio (1999-2000) Partido

Antônio Edson e Lydia Del Picchia Fotos | Guto Muniz
Páginas 160-161 e ao lado: elenco de Partido

Esta é uma conquista da evolução estética do grupo, de sua credibilidade e do amadurecimento da própria audiência, que cada vez mais se capacita para acompanhar desempenhos e propostas rigorosas e sem concessões ao digerível.

Clara Arreguy, “Divisão e integridade”. Estado de Minas, 22 jul. 1999

Dificilmente a qualidade cênica de Partido poderá ser superada: mas é uma pena que se perca tamanho esforço num texto literário impossível de ser transportado para o palco.

Bárbara Heliodora, “Montagem bela mas confusa”. O Globo, 9 ago. 1999

É raro um artista, ou um grupo de artistas, alcançar um momento sublime em sua carreira. O Galpão já tivera o seu, no instante da morte de Julieta em Romeu e Julieta. Conseguiu a façanha de repetir a dose. O desnudamento material e simbólico do ator Paulo André no final de Partido é sublime, um despojar-se completamente de qualquer orgulho, pudor, ornamento, é revelar algo essencial, permitir ao público a graça da iluminação.

Em seus últimos espetáculos, o Galpão alcançara outros patamares menos valiosos – o patético em A rua da amargura, na “pietà” a que a encenação conduz e, na morte do Judas, o equilíbrio perfeito entre humor e reflexão sobre o humor, entre forma livre e rigor da encenação em Um Molière imaginário. Mas o sublime é algo mais valioso, o que coloca Partido lado a lado de Romeu e Julieta como a maior contribuição do Galpão à arte nacional.

Marcello Castilho Avellar, “Um instante sublime”. Estado de Minas, 8 maio 1999

Finamente burilado, quase encantatório para ouvir, Partido é um espetáculo para gostar do que se vê. São notáveis as partituras, os cenários, os figurinos, os objetos de cena, as caracterizações dos personagens, a luz precisa e deslumbrante. É menos visível, mas bastante perceptível, a rica prospecção teatral que realiza. Como ali se escreve cuidadosamente nas entrelinhas, com aguçada e resoluta caligrafia. Com a tremida de artista. Tudo isso o torna um espetáculo imperdível.

Miguel Anunciação, “Partido é imperdível”. Hoje em Dia, 29 jul. 1999

Me aventuro, con Partido, a pensar que, primero, se trata de la negación de nuestra propia esencia; segundo, que nos convertimos en hombrecillos tristes; y tercero, que mientras no nos aceptemos como somos – seres finitos – cualquier escapatoria será imposible. El montaje con el que Galpão se está presentando en el FITC 2000 es, en definitiva, una invitación a abrir las maletas que los personajes de Partido cargan con los restos de unas vidas que no tiene sentido atesorar. Un espectáculo que sobresale por la precisión de su puesta, por la calidad interpretativa y vocal de sus actores y por el impecable diseño escenográfico que, pese a su sencilla espectacularidad, no irresuelta el denso texto de Calvino. Seguimos en busca del hombre completo.

“O teatro partido ao meio”. El Nacional, Caracas, 29 mar. 2000

Capítulo 9 Till, a saga de um herói torto

A saga cômica de um anti-herói (2009-2012)

Presente na história, o universo do grotesco foi explorado tanto na construção dos personagens como também no cenário, figurino e maquiagem. Um workshop sobre bufões ministrado por Joaquim Elias ajudou os atores a encontrar o exagero do grotesco em seus corpos – mas, segundo Júlio Maciel, a referência aparece apenas de forma sutil.

Júlia Guimarães, “Till”. Pampulha, 27 jun. 2009

Till é uma comédia rasgada, cujo processo de construção foi, desde o princípio, colaborativo. Antes de o grupo optar pela história, o público foi convidado a assistir a cenas de quatro textos diferentes, entre eles o de Luís Alberto de Abreu, que bateu na preferência geral; Lisístrata, de Aristófanes; Sonho de uma noite de verão e uma adaptação de Hamlet, ambos de Shakespeare.

Fábio Fabrini, “Os saltimbancos”.

O Globo, 12 set. 2009

O Rio não para de comentar a volta do Grupo Galpão às origens, ou melhor, às ruas. Só na sexta-feira, três mil pessoas foram ao parque dos Patins, na Lagoa, para ver Till, a saga de um herói torto

Heloísa Tolipan, “Na chuva, na rua, na fazenda, em qualquer lugar”. Jornal do Brasil, 21 set. 2009

Após alguns séculos, Till Eulenspiegel, surpreendido, volta a viver suas desatinadas aventuras no Brasil, mais particularmente em Minas Gerais. E se sente bem-vindo.

Bárbara Heliodora, “Galpão descobre o lúdico e a mineirice da lenda alemã”. O Globo, 10 out. 2009

Páginas 206-207

Elenco de Till, a saga de um herói torto Foto | Nereu Jr.

Inês Peixoto Foto | Nidin Sanches

Fichas técnicas dos espetáculos

E A NOIVA NÃO QUER CASAR… (1982-1985)

Direção | Fernando Linares

Elenco | Antônio Edson / Chico Pelúcio – Mulher Barbada

Wanda Fernandes – Floribela

Eduardo Moreira – Zaratrusta, Capanga

Teuda Bara – Coringa, Pai

Fernando Linares – Zodin, Sr. Mony

Mauro Xavier – Curisco

Nabo Vidigal – Halterofilista

Equipe de criação

Direção | Fernando Linares e Eduardo Moreira

Músicos | Beto Franco, José Arthur Aguiar e Renato Bebiano

Texto | Eduardo Moreira

DE OLHOS FECHADOS (1983-1987)

Direção | Fernando Linares

Elenco | Eduardo Moreira – Pedro

Fernando Linares – Cheiro, Som

Nabo Vidigal / Antônio Edson – Zeca

Teuda Bara – Tia, Teti

Wanda Fernandes – Maíra

(O ator Rodolfo Vaz fez substituição eventual no espetáculo)

Equipe de criação

Direção | Fernando Linares

Texto | João Vianney

Músicas | Sérgio Braz

Cenário | Nabo Vidigal

Coreografia | Oswaldo Rosa Jr.

Figurinos | Paulo Alvarez e Sumaia Costa

Produção | Sonale Murta e Grupo Galpão

Ó PRÔ CÊ VÊ NA PONTA DO PÉ (1984-1991)

Direção | Fernando Linares e Eduardo Moreira

Elenco | Chico Pelúcio – Malabarista, Mendigo, Cantor, Câmera

Eduardo Moreira – Malabarista, Guarda, Cantor, Vendedor, Repórter

Paulinho Polika / Antônio Edson – Acrobata, Camelô, Maestro, Turista

Fernando Linares – Acrobata

Sumaia Costa / Teuda Bara – Mágica, Cantora, Turista

Wanda Fernandes – Palhaço, Bailarina, Cantora

Beto Franco – Acrobata, Vendedor, Cantor, Capanga

(O ator Oswaldo Rosa Jr. fez substituição eventual no espetáculo)

Equipe de criação

Direção | Fernando Linares, Eduardo Moreira e Grupo Galpão

Texto | Criação coletiva e Eduardo Moreira

Coreografia | Grupo Galpão e Oswaldo Rosa Jr.

Concepção de bonecos | Grupo Galpão e Paulinho Polika

Figurinos | Grupo Galpão

Produção | Grupo Galpão e Tião Camilo

ARLEQUIM SERVIDOR DE TANTOS AMORES (1985-1986)

Direção | Fernando Linares

Elenco | Antônio Edson – Arlequim

Eduardo Moreira – Florindo Aretusi, Briguela

João Cristeli – Dr. Lombardi

Paulinho Polika – Pantaleão

Sumaia Costa / Nadia – Clarisse

Wanda Fernandes – Beatriz

Teuda Bara – Esmeraldina

Chico Pelúcio – Sílvio

Equipe de criação

Direção | Eduardo Moreira e Fernando Linares

Texto | Carlo Goldoni

Cenário | Paulinho Polika e João Machado Gontijo

Coreografia e preparação corporal | Miriam Tavares

Figurinos | Sumaia Costa

Máscaras | Paulinho Polika e João Cristeli

Adereços | Luiz Henrique Vieira

Iluminação | Eid Ribeiro

Trabalho vocal | Ataulfo Cardoso

Trilha sonora | Arildo de Barros

Produção | Luiz Eduardo Corrêa e Beto Franco

A COMÉDIA DA ESPOSA MUDA (1986-1993)

Direção | Paulinho Polika

Elenco | Antônio Edson – Doutor

Beto Franco – Coringa

Eduardo Moreira – Briguela

Maria Gastelois – Coringa

Teuda Bara – Vesúvia

Wanda Fernandes – Coringa

Equipe de criação

Direção | Paulinho Polika

Texto | Criação coletiva

Assistente de direção | Eduardo Moreira

Cenário e adereços | Paulinho Polika

Preparação corporal | Miriam Tavares

Preparação vocal | Ataulfo Cardoso

Figurino | Márcio Gatto

TRIUNFO - UM DELÍRIO BARROCO (1986-1987)

Direção | Carmen Paternostro

Elenco | Companhia de Dança do Palácio das Artes, Grupo Galpão –

Antônio Edson, Eduardo Moreira, Teuda Bara e Wanda Fernandes

Bailarinos convidados | Dudude Herrmann, Jaciara Edwiges de Araújo, José Maria Alves, Luiz Augusto, Maurício Christian e Sebastião Júnior

Equipe de criação

Coreografia | Carmen Paternostro, Dudude Herrmann e Companhia de Dança

Direção, concepção cênica e roteiro final | Carmen Paternostro

Pesquisa e roteiro básico | Paulinho Assunção

Direção instrumental e assistente teatral | Gil Amâncio

Cenografia e figurinos | Raul Belém Machado

Trilha sonora | Carmen Paternostro e Roland Schaffner

Palácio das Artes

Assistente de direção | Lydia Del Picchia

Iluminação | Jorge Luiz

Músicos | Gil Amâncio, Guda, Júlio Cézar, Niel Machado e Maurício Muniz

FOI POR AMOR… (1987-1992)

Direção | Antônio Edson

Elenco | Antônio Edson / Chico Pelúcio – Músico

Beto Franco – Marido

Eduardo Moreira – Juiz

Teuda Bara – Mulher, Morta

Wanda Fernandes – Apresentadora

Equipe de criação

Direção | Antônio Edson

Texto | Eduardo Moreira e Antônio Edson

Música | Sérgio Brás

Preparação vocal | Babaya

Produção | Grupo Galpão e Göethe Institut

CORRA ENQUANTO É TEMPO (1988-1994)

Direção | Eid Ribeiro

Elenco | Beto Franco – Cego Xavier

Chico Pelúcio – Pastor

Eduardo Moreira – Crente, Travesti

Maria Gastelois / Antônio Edson / Teuda Bara /

Wanda Fernandes – Coro de Crentes

Equipe de criação

Direção e texto | Eid Ribeiro

Assistente de direção | Antônio Edson

Preparação vocal e arranjos | Babaya

Coreografia | Eid Ribeiro e Grupo Galpão

Trabalho corporal | Paola Retore

Figurinos e adereços | Márcio Gatto

Produção | Grupo Galpão

ÁLBUM DE FAMÍLIA (1990-1992)

Direção | Eid Ribeiro

Elenco | Antônio Edson – Sobrenatural

Beto Franco – Jonas

Chico Pelúcio – Nonô

Eduardo Moreira – Guilherme

Maria Gastelois – Glória

Rodolfo Vaz / Júlio Maciel – Edmundo

Teuda Bara – Tia Rute

Wanda Fernandes – Senhorinha

(A atriz Eliane Carneiro fez substituição eventual no espetáculo)

Equipe de criação

Direção | Eid Ribeiro

Assistentes de direção | Antônio Edson e Eduardo Moreira

Música original | Eduardo Guimarães Álvares

EQUIPE GRUPO GALPÃO

Gerente Executivo | FERNANDO LARA

Coordenadora de Produção | GILMA OLIVEIRA

Coordenadora Administrativa | WANILDA D’ARTAGNAN

Coordenadora de Planejamento | ALBA MARTINEZ

Coordenadora de Comunicação | FERNANDA LARA

Coordenador Técnico e Técnico de Luz | RODRIGO MARÇAL

Produtora Executiva | BEATRIZ RADICCHI

Técnico de Som | VITOR CASTANHEIRA

Técnico de Luz | WILLIAM BILILIU

Supervisor Administrativo | CLÁUDIO AUGUSTO

Assistente de Planejamento | DUDA CARMONA

Assistente de Comunicação | LUCY RIBEIRO

Assistente Administrativo | CAROLINE MARTINS

Assistente de Produção | ZAZÁ CYPRIANO

Assistente Técnico | WILLIAM TELES

Serviços Gerais | DANIELLE RODRIGUES

Design Gráfico | CÍNTIA MARQUES

Comunicação Digital | RIZOMA COMUNICAÇÃO E ARTE

(LETÍCIA LEIVA e MATHEUS CARVALHO)

Assessor Contábil | WELLINGTON D’ARTAGNAN

Gestora Financeira de Projetos | ARTMANAGERSZ

PROJETO SOCIOCULTURAL CONEXÃO GALPÃO

Coordenação de produção | CLARA BASTOS

Atrizes e atores-monitores | AT HOS FERREIRA, LUCIANA BAHIA, MARGARETH SERRA e PABLO BARCELOS

CENTRO DE PESQUISA E MEMÓRIA DO TEATRO (CPMT)

Coordenação | MARCOS COLETTA

Bibliotecário | TIAGO CARNEIRO

EQUIPE GALPÃO CINE HORTO

Direção Geral | CHICO PELÚCIO

Gerência Executiva | GISELE MILAGRES

Conselho Executivo | BETO FRANCO, CHICO PELÚCIO, GISELE MILAGRES, JÚLIO MACIEL, LYDIA DEL PICCHIA e SIMONE ORDONES

Coordenação de Planejamento | DEBORAH R. SOUSA

Assistente de Planejamento e Projetos | TÂNIA ARAÚJO e VINICIUS BICALHO

Coordenação de Produção | MARCUS BONATO

Assistente de Produção | YASMINE RODRIGUES

Coordenação Técnica | ORLAN TORRES (SABARÁ)

Técnico | AKNER GUSTAVSON

Coordenação de Comunicação e Edição de Textos | BRAMMA BREMMER

Assistente de Comunicação e Redes Sociais | LICA DEL PICCHIA

Coordenação Administrativo-Financeiro | MARIA JOSÉ DOS SANTOS

Assistente Administrativo-Financeiro | NÁDIA FONSECA

Coordenação Operacional e Programação | ALAN RODRIGUES

Auxiliar Administrativo | LEANDRO DIAS

Porteiro | FERNANDO SANTOS

Serviços Gerais | JUAREZ PEREIRA e RAQUEL MARTINS

Assessoria Contábil | WELLING TON DARTAGNAN DOS REIS • WDR –CONTABILIDADE & ASSESSORIA LTDA.

Assessoria Financeira | ARTMANAGERS

Coordenação Pedagógica | LYDIA DEL PICCHIA

Coordenação Pedagógica dos Cursos, Oficinas e Projetos Especiais | FÁBIO FURTADO

Equipe Pedagógica dos Cursos, Oficinas e Projetos Especiais | CAMILA MORENA DA LUZ, FÁBIO FURTADO, GLÁUCIA VANDEVELD, JULIANA MARTINS, KELLY CRIFER, LETÍCIA CASTILHO e MICHELE BERNARDINO

Coordenação Pedagógica dos Núcleos de Pesquisa | CAMILA MORENA DA LUZ

Equipe Pedagógic a dos Núcleos de Pesquisa | ANDERSON FELICIANO, CAMILA MORENA DA LUZ, CLEO MAGALHÃES, IGUI LEAL, LUIZ DIAS e VINÍCIUS DE SOUZA

Equipe Núcleos Juventudes | CLEBIN QUIRINO, MARILDA CORDEIRO e PRISCILA TOMAS

Secretaria de Cursos | ELIS MARQUES

CRÉDITOS COMPLEMENTARES

Fotos | p. 5 (abertura) | BIANCA AUN

pp. 378-379 (mosaico retratos) | BIANCA AUN

pp. 380-381 (mosaico retratos) | ACERVO GALPÃO, BIANCA AUN e GUTO MUNIZ

pp. 383 (equipes Grupo Galpão e Galpão Cine Horto) | FERNANDO LARA

Agradecemos a todos os fotógrafos que gentilmente nos cederam fotos e tornaram este livro possível.

Todos os esforços foram realizados com intuito de obtermos a permissão dos detentores dos direitos autorais e de imagem das fotos que compõem este livro. Caso recebamos informações complementares, elas serão devidamente creditadas na próxima edição.

Fonte Rotis Semi Sans

Papel capa: Supremo Alta Alvura 250 g/m2

miolo: Alta Alvura 120 g/m2

Impressão Pifferprint

Data Abril de 2026 FSC

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook