Dom Bosco com Deus (Livro)

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EugĂŠnio Ceria

Dom Bosco com Deus


Ficha Técnica © Eugénio Ceria © Edições Salesianas. 2014 Rua Dr. Alves da Veiga, 124 Apartado 5281 4022-001 Porto Tel: 225 365 750 Fax: 225 365 800 www.edisal.salesianos.pt edisal@edisal.salesianos.pt Capa: Paulo Santos Paginação: João Cerqueira Impressão: Edições Salesianas ISBN: 978-972-690-887-6 D.L.: 378986/14


Eugénio Ceria

Dom Bosco com Deus

Edições Salesianas



PREFÁCIO A ideia deste trabalho tive-a em Frascati em 1929, ano da Beatificação de D. Bosco. Veio-me ao ler a relação anual, que o Rev. Padre Filipe Rinaldi, terceiro sucessor de D. Bosco, tinha enviado, em Janeiro, aos Cooperadores e Cooperadoras Salesianos. Fechava esta sua carta, o venerável Padre, recordando como, cem anos antes, o nosso bom Pai, não tendo ainda catorze anos, trabalhando como humilde e laborioso moço de lavoura numa família de abastados agricultores, não descuidava, jovem como era, o apostolado entre os seus contemporâneos, mas sobretudo se entregava à oração, e como, trabalhando e orando desta maneira, tinha passado um biénio. Recordei então, na boa altura, que o beneditino D. Chautard, no seu conhecidíssimo trabalho «A alma de todo o apostolado» conta D. Bosco entre aqueles sacerdotes e religiosos modernos, que, entregues a uma vida intensamente ativa, mais promoveram o bem das almas, simplesmente porque foram, ao mesmo tempo, homens de profunda vida interior. Recordava igualmente como Mons. Virili, postulador da causa de S. J. Cafasso, ao depor na causa de D. Bosco, tinha declarado considerar D. Bosco um Santo, não só pelas obras realizadas, mas, sobretudo, pelo seu espírito de oração e de recolhimento no Senhor. Ora, disse eu para comigo, aqui está um aspeto da vida de D. Bosco, que, não tendo sido até agora suficientemente analisado, mereceria ser ilustrado com cuidado, no ano da sua probabilíssima beatificação. Impressionados pela visão da sua extraordinária e multiforme atividade, os contemporâneos admiram os seus triunfos, 5


sem quase se lembrarem de que «omnis gloria ejus ab intus». Mesmo a geração que veio já depois da sua morte, fixou de preferência as suas obras, estudando-lhes as formas e desenvolvimentos sem quase se preocupar em perscrutar, a fundo, o princípio animador, aquilo que constitui sempre o grande segredo dos Santos: o espírito de oração e união com Deus. Não, ninguém se iluda de que compreendeu D. Bosco, se não souber até que ponto ele foi homem de oração; pouco fruto tiraria da sua admirável vida aquele que corresse demasiado atrás dos dados biográficos, sem penetrar, quanto possível, os seus movimentos íntimos e habituais. Pareceu-me, por consequência, que levantar uma ponta deste véu, além de coisa de suma edificação, seria também o melhor contributo para a glorificação do novo Beato; o véu, quero dizer, de uma vida que, aparentemente, decorria como a dos seus companheiros, mas que na realidade escondia tesouros de graça e de dons sobrenaturais extraordinários. Pode repetir-se a respeito de D. Bosco o que já foi dito de outros, que ele se assemelhava à Hóstia consagrada: exteriormente, na aparência pão, e dentro, Jesus Cristo1. A estas reflexões, poderia esquivar-me atrás do cómodo, embora real pretexto, da minha insuficiência; mas quis experimentar, tanto mais que sabia obedecer, fazendo-o, à vontade do Reitor-Mor, Padre Filipe Rinaldi. Nos poucos momentos livres das minhas ocupações, procurei estudar com afeto de filho os exemplos e ensinos do Pai, fixando-me sobre todos os pormenores que me parecessem dignos de menção sobre a sua vida de união com Deus. De tal forma, fui juntando pouco 1 Faillon «Vie de M. Olier», T. 1, pág. 136. O Papa Pio XI, no discurso sobre a heroicidade das virtudes de D. Bosco, dizia ter admirado pessoalmente nele «a imensa humildade», notando como ele «suscitador de tudo», girava pela casa «como o último chegado, como o último dos hóspedes».

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a pouco material suficiente e seguro para compilar esta obrazinha, que com humildade e alegria depus aos pés do nosso caro Beato, não sem fazer votos para que outros, com maior frescura de alma, com melhor competência e perícia, voltassem ao assunto, oferecendo-nos uma obra-prima. O tema merece-o, sem a menor dúvida. O livro encontrou certo favor, pois foram impressas duas edições e algumas traduções. Agora, para obedecer a outro sucessor de D. Bosco, voltei ao assunto, introduzindo na obra, aqui e além, aditamentos e modificações, sem que chegassem a alterar a forma primitiva. As fontes de que me servi são geralmente as «Memórias Biográficas» bem conhecidas, a Vida escrita por Lemoyne, em dois volumes: as atas dos processos canónicos, e documentos de arquivo. Interessa-me declarar isto, para que os leitores fiquem seguros sobre a validade das fontes e das coisas expostas, sem necessidade de constantes citações. Sempre que recorri a outras fontes, declaro-o em nota. Quanto ao título, pareceu-me conveniente conservar o anterior, que nada tira à grandeza daquele que sob o simples apelativo de «D. Bosco» realizou tantas maravilhas, que se prolongam ainda pelo futuro. Isto pensava Pio XI, quando na audiência concedida em S. Pedro, a 3 de abril, a todas as peregrinações organizadas pelos Salesianos por ocasião da ­canonização, depois de ter aludido às variadíssimas categorias de que se compõe a família de D. Bosco, emendou dizendo «de S. João Bosco», mas para logo declarar que o mundo continuaria a chamar-lhe D. Bosco. «Está certo, continuou, pois é como repetir o seu nome de guerra, daquela guerra benéfica, uma daquelas guerras que se diria que a divina Providência quer 7


conceder de vez em quando à pobre humanidade, como para a compensar de outras guerras de modo nenhum benéficas, mas dolorosas e semeadoras de dores». Numa manhã de agosto de 1887, no colégio de Lanzo de Turim, o autor, ao subir a grande escadaria, quando chegava ao patamar do primeiro lanço, encontrou-se, como por encanto, a um passo de D. Bosco, parado como quem esperava alguém. Contentíssimo por aquele encontro, beijou-lhe a mão, com afetuoso transporte. D. Bosco perguntou-lhe o nome. Ao ouvi-lo, soltou um Oh! — de grata surpresa; depois, continuou: — Estou contente... — Os meus ouvidos ficaram atentos numa ansiosa expetativa; mas ele não acabou a frase, porque alguém o veio roubar. No fim desta humilde canseira, quanto me sentiria feliz, se voltasse a ouvir dos lábios do Pai tão amado aquelas simples palavrinhas, mas com o sentido completo! Seja como for, Ele sabe o motivo que me levou a escrever este trabalho. Oxalá que abençoe este esforço e o faça, de algum modo, frutuoso. Turim, 31 de janeiro de 1946.

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INTRODUÇÃO Para as almas simples, o Santo é o homem das visões, das profecias e dos milagres; estes, porém, são carismas que não são essenciais à santidade, mas que Deus fomenta na sua Igreja, desde as suas origens, como perene testemunho das divinas virtudes da mesma, e meios extraordinários para provocar, acordar e manter nas mentes dos homens, bem vivo, o pensamento das coisas celestes. O Santo é um homem todo de Deus; um homem que, segundo a expressão de S. Paulo1, vive inteiramente em Deus; um homem, pois, que procura em Deus o princípio e repõe n’Ele o fim de todos os seus pensamentos, de todos os seus afetos, de todas as suas ações. Todos os regenerados pelo batismo receberam em si os elementos desta vida superior à natural, na graça que lhes foi concedida pela bondade infinita de Deus; mas na prática, poucos são os cristãos que correspondendo perfeitamente às luzes e impulsos divinos, alcançam tal grau de vida espiritual que possam aplicar a si toda a extensão das palavras do mesmo Apóstolo2: Não sou eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim. Ora o Santo apresenta-se precisamente como aquele que vive plenamente a vida sobrenatural, na medida, compreende-se, concedida à criatura humana: de modo que, habitualmente, a sua conversatio in coelis est3: ele vive na terra mas como cidadão do céu, tendo sempre fixo o coração onde sabe estar para ele toda a razão de ser dos verdadeiros bens. Nisto consiste o espírito de oração, compreen1

Gal 2, 19.

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Gal 2, 20.

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Fil 3, 20.

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dida principalmente no sentido de ascensão, elevação, impulso afetuoso da alma para Deus4, sem que nada no mundo consiga desviá-la do objeto supremo do seu amor: tirocínio na terra da vida celeste, que será a visão direta, amorosa e eterna. Posto isto, é preciso ter a coragem de confessar que nem sempre as Histórias dos Santos, tais como hoje aparecem um pouco por toda a parte, contêm realmente as Vidas dos Santos. Sem nenhuma dúvida, os Santos desenvolvem também ação, que se situa no cimo dos acontecimentos do seu tempo; na parte que tiveram em certa ordem de factos ou em certas correntes de ideias, o homem de fé descobrirá, se quiser, a mão da Providência, que envia, no tempo e lugar precisos, os heróis capazes de realizar, na humanidade, missões de alta importância religiosa e civil. A este respeito, a hagiografia moderna, não queremos negar, limpou o terreno de preconceitos inveterados, que faziam considerar os Santos como seres caídos das estrelas, estranhos à vida, até dominados por certas monomanias, gostando sempre de se envolver em misticismo, nome inventado pela ignorância da mística e atribuído, com intenção trocista, até a fenómenos de natureza sublime. É justo que prestemos homenagem aos seguidores do método histórico, por terem conseguido que as figuras dos Santos possam hoje aparecer em certos ambientes sem levantar, como outrora, antipatias e desgosto. Mas é também inegável que, deste modo, a verdadeira individualidade do Santo se arrisca a ser diminuída, porque privada da auréola que os fez Santos e que os deve mostrar tais quais são. Convém saber distinguir os dois aspetos, sem os isolar. No estudo dos Santos, como será possível prescindir da santidade? Quem diz No sentido mais geral, a oração é para S. João Damasceno (De fide orth., III, 24) ascensus mentis in Deum, e para S. Agostinho (Serm., IX, 2) mentis ad Deum affectuosa intentio. 4

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santidade, diz uma realidade, sobre a qual pode sobrevoar ligeiramente a ciência positiva, quer histórica quer psicológica, mas nunca quem tenha olhos habituados à investigação dos factos pertencentes a uma ordem superior, onde o humano se encontra com o divino e a ele se une intimamente. Por isso, é falso o conceito que fazem dos Santos aqueles escritores que julgam que não vale a pena ou que é indiferente considerá-los como os homens da união com Deus. Deste modo, temos tido Vidas de Santos, diremos, laicizadas ou quase. Aqui, vem muito a propósito fazer outra observação. Temos ouvido muitas vezes e temos lido que D. Bosco é um Santo moderno. Parece-nos que esta observação deve ser feita com prudência e entendida cum grano salis; de contrário, generaliza-se a dúvida, que, como tantas coisas humanas, a santidade, com o progredir do tempo, tem necessidade de modernizar-se. Longe de nós a ideia de que existem duas espécies de santidade, a primeira boa para os tempos passados, a outra própria para os tempos presentes. A ação da divina graça, que faz os Santos, não muda com o volver dos séculos, como as múltiplas atividades humanas, sempre em vias de modificação, para se adaptarem à variabilidade dos tempos e das circunstâncias. Nem a cooperação do homem na ação santificadora da graça se diversifica hoje de outros tempos, mudando de estilo, segundo os gostos. O perfeito amor de Deus, elemento essencial da santidade, assemelha-se, por isso, ao sol, que desde o primeiro instante da criação vivifica a terra, inundando-a sempre, do mesmo modo, de luz e calor. Não se quer com isto dizer que tal frase não possa admitir uma interpretação razoável, com a condição, porém, de lhe fazer significar isto unicamente: que o Santo é homem do seu tempo e que, portanto, atuando uma missão de bem-fazer, num dado período histórico, toma atitu11


des acidentais que noutras épocas seriam anacrónicas. Não obstante isto, estabelecida a identidade do princípio inspirador, da energia informadora, e do fim supremo de todos os empreendimentos santos, o seu próprio método de proceder nunca reveste carateres de tal novidade que justifiquem quase um axioma deste género: «tantas as épocas, tantas as santidades». Trata-se particularmente de um grosseiro mal-entendido proclamar D. Bosco um Santo moderno. Nestes tempos de operosidade febril, quem assim fala tem todo o ar de o querer elogiar como o Santo da ação, como se a Igreja, de S. Paulo até hoje, não tenha tido sempre Santos ativíssimos e como se, nos nossos dias, um Santo de ação possa deixar de ser, ao mesmo tempo, um homem de oração. Não há santidade sem vida interior, nem haverá nunca vida interior sem espírito de oração. Esta é a genuína espiritualidade de ontem, de hoje e de sempre: ação e oração, fundidas, compenetradas, indivisíveis, como no dia do Pentecostes. Um profundo conhecedor de S. Paulo5, retratando-o quase pelo exercício do apostolado, deixou-nos este esboço, de que D. Bosco nos parece uma cópia fiel: «Com uma facilidade ­incomparável, o Apóstolo associa a mística mais sublime ao ascetismo mais prático; enquanto os seus olhos penetram os Céus, os seus pés nunca perdem o contacto com a terra. Nada está acima, nem abaixo dele. No momento em que se declara crucificado e vivendo a própria vida de Cristo, sabe encontrar para os seus filhos palavras que arrebatam pela jucundidade e pela graça, e desce às prescrições mais minuciosas sobre o véu das mulheres, sobre a boa ordem das assembleias, sobre o dever do trabalho manual, sobre os cuidados com um estômago 5

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Prat, Théologie de St. Paul, vol. II, 1. VI, 3, 5. Beauchesne, Paris.


fraco. Por isso, a sua espiritualidade oferece aos corações mais humildes o alimento sempre saboroso, e às almas mais eleitas a mina inesgotável de profundas meditações». Deste modo, desde as origens do Cristianismo, dando um salto à plena Idade Média, encontramo-nos na presença de um S. Boaventura, de quem um autorizado biógrafo6 nos faz esta observação, que parece igualmente escrita a respeito de D. Bosco: «As épocas de luta pedem homens de grande bondade, que, acima de todas as divergências de partido, consigam pacificar os ânimos: homens de visão clara, que saibam o que querem e vão direitos ao próprio escopo: homens de oração, para assegurarem a paz do próprio interior e obter luz e força do alto». Portanto, a espiritualidade dos Santos, sempre antiga e sempre nova, não sofre metamorfoses no decurso dos séculos, nem pela mudança de costumes7. Pode acontecer que homens apostólicos e cristãos versados nas ciências sagradas, impelidos frequentemente a falar de coisas espirituais, se iludam com facilidade de que é isto que dizem; mas uma coisa é dizer, outra fazer: pode discorrer-se perfeitamente sobre a vida espiritual, sem viver espiritualmente. Nas páginas que vão seguir-se, os sacerdotes, consagrados de modo especial aos sagrados ministérios, encontrarão, se Deus o permitir, e pelos méritos de D. Bosco, luz e estímulo para pôr de harmonia o facere e o docere8 de modo que a prática preceda, 6 Lemmens, Vita di S. Bonaventura, p. XXV. Soc. «Vita e pensien»., Milão, 1921.

Cf. D. Eusébio Vismara, Don Bosco, il Santo dei tempi moderni, in «Virtù e glorie di S. G. Bosco», discorsi raccolti da D. G. Favini, Turim, S. E. I., 1934; pág. 328. É uma exposição esquemática, mas completa e sólida sobre o argumento. 7

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At 1, 1.

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acompanhe e siga o ensino. S. Bernardo quer que sejamos reservatórios e não simples canais9. Os leigos também, que entre os negócios materiais não perdem de vista as coisas do espírito, hão de ler, com não pequeno proveito, os exemplos de um corajoso trabalhador, que no mare magnum das preocupações, possuía a arte de transformar em oração as obras das suas mãos atuando com uma naturalidade incomparável o semper orare et non deficere10. Não dizemos nada das pessoas religiosas, porque estas, tendo inteligência das coisas espirituais, intuirão do pouquíssimo que conseguiremos pôr diante dos seus olhos, o muito mais que não soubemos descobrir. O espírito de oração é a atmosfera do cristão. Espalharei, diz o Senhor11, sobre a casa de David e sobre os habitantes de Jerusalém o espírito de graça e de oração, e voltarão os seus olhos para Mim. A difusão deste espírito, começada no grande Pentecostes, durou, dura ainda e durará perenemente no seio da Igreja, formando como que o ar que os fiéis devem respirar. Os Santos respiram-no puro, sem interrupção, a plenos haustos. Os Santos vivificados por este fluxo e virtute corroborati in interiorem hominem12 têm vindo eliminando de si as obras da carne, enumeradas pelo Apóstolo na Epístola aos Gálatas, e acolhendo, pelo contrário, os frutos do Espírito Santo, isto é, no dizer do mesmo Apóstolo13, a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade e a castidade. Eis o que ele chama viver do Espírito e caminhar no Espírito; isto entende,

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In Cant., Serm. XVIII, 3: Si sapis, concham te exhibebis et non ­canalem.

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Lc 18, 1.

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Zac 12, 10.

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Ef 3, 16.

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Gal 5, 19-25.


quando diz estarem cheios de toda a plenitude de Deus. Belíssimas coisas! Oxalá nós pudéssemos também compreender cum omnibus sanctis, mas, neste caso, com D. Bosco e na sua escola. Quanto à ordem do tratado, aqui está: O caminho dos justos é comparado pelo Espírito Santo à luz que começa a resplandecer, depois avança e cresce até ao dia perfeito. Verdadeiros filhos da luz14, os Santos são luminares do mundo15, progredindo de virtude em virtude até à perfeição16, e chegando com as suas elevações17 onde fulgebunt sicut sol in conspectu Dei18. Sigamos, pois, com toda a simplicidade, após os exemplos da vida de D. Bosco, desde a aurora ao meio dia e até ao declinar do dia, ou melhor até à passagem do firmamento da Igreja militante aos coeli coelorum19, aos altíssimos céus da Igreja triunfante. Referir-nos-emos, por fim, aos dons sobrenaturais gratuitos, que refulgiram nele e que, se não são meios necessários para chegar à união com Deus, servem, pelo menos, quando são verdadeiros, para a revelar sempre em maior grau. O nosso coração, entretanto, transborda de alegria, pensando que, da glória dos Bem-aventurados, o nosso caro Pai não nos iluminará somente os caminhos do exílio com a luz dos seus ensinamentos e exemplos, mas nos servirá de válido intercessor junto de Deus, para que a nós também seja dado alcançar, felizmente, a pátria celeste.

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Jo 12, 36; Lc 16, 8.

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Fil 2, 15.

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2 Cor 3, 16.

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Sl 83, 6.

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Mt 13, 43.

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2 Rs 8, 27.

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Capítulo I

NA FAMÍLIA



Na vida espiritual perpassam por vezes momentos de graça, em que a alma tem intuições repentinas, rápidas e salutares. Dizemos repentinas, quanto ao ato da faculdade cognoscitiva em si próprio; embora o Espírito sopre onde quer1, contudo, ordinariamente falando, em coisas deste género, este perceber imediato e seguro costuma pressupor preparações interiores, mais ou menos longas, mais ou menos advertidas, consistindo, sobretudo, na fiel correspondência aos dons sobrenaturais.

A sua precoce ideia sobre a piedade Rapazinho de onze anos, João Bosco teve um destes relâmpagos reveladores. Tendo-se afeiçoado, por arcanas inclinações do coração, a um digno sacerdote e colocando-se com confiança filial nas suas mãos, aproveitou daquela escola de curta duração um ensino duradoiro: compreendeu que era «bom para a alma» fazer todos os dias uma breve meditação. Recolheu dois frutos desta clara visão: «saborear o que é a vida espiritual» e não agir como antes, isto é, «sobretudo materialmente e como máquina, que faz as coisas sem saber porquê». Assim anotou ele próprio em certas suas «Memórias» escritas por ordem de Pio IX, para proveito dos seus filhos2. Mas, no lugar aqui citado, não devemos passar por alto duas palavrinhas bastante significativas, que lhe escaparam da pena. Uma está onde diz que começou não só a conhecer e experimentar mas «a apreciar o que é a vida espiritual». Eis aqui um requintado dom de sabedoria, a que S. Bernardo chama «saboroso conhecimento» das coisas divinas. Este dom do Espírito 1

Jo 3, 8.

2

Editadas em 1946 (S. E. I., Turim).

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Santo é um verdadeiro gosto espiritual que faz saborear as coisas divinas «por uma espécie de arcana e natural simpatia»3. Outra palavrinha reveladora está naquele agir, antes, «sobretudo materialmente». É notável aquele «sobretudo», que atenua o advérbio próximo. Quer dizer que já havia nele, antes, a ideia da espiritualidade, vaga e indeterminada talvez, mas distinta daquilo que é materialidade, no agir. A coisa que impressiona mais é ver, em tão tenra idade, a noção precoce da forma de piedade que deverá ser a sua e dos seus: harmónico acordo entre o ora et labora, quer dizer, a oração alma da ação.

No lar Tinha aprendido já de sua mãe o amor à oração. Numa família rural piemontesa do bom tempo antigo, o costume cristão, conservando-se inviolado através das infiltrações estrangeiras, perpetuava-se pacificamente de geração em geração, em redor do velho lar, testemunha tanto de alegrias íntimas, simples e fecundas, como também das comuns orações quotidianas, com que aquela gente trabalhadora e honesta encerrava o dia, recitando o rosário diante da imagem da Virgem Consoladora. A casa merecia bem, nesse tempo, o título de santuário doméstico. Num ambiente assim são, uma mulher de altos espíritos, como sabemos que foi a mãe de João, era mestra insuperável de religiosidade vivida, sobretudo quando, como no nosso caso, à força educativa do exemplo, podia unir a comunicativa eficácia da palavra.

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Tanquerey, Abrégé de Théologie ascétique, pág. 1348.


Sabemos, com efeito, que com a espontaneidade própria da linguagem materna, ela lhe vinha instilando desde pequenino um vivo sentimento da presença de Deus, a cândida admiração pelas obras da criação, a gratidão pelos seus benefícios, a conformidade com a vontade de Deus, o temor de O ofender. Talvez nunca uma escola materna encontrasse natureza mais dócil de filho, em receber estes ensinamentos. Deste modo, quando do nativo e humilde lar o menino começou a frequentar a Casa santa do Senhor, também as ascensões infantis daquele coração tomaram novo impulso para as coisas celestes. A sequência da sua vida admirável leva-nos a ousar aplicar-lhe as palavras do Eclesiástico4: Jovem ainda, antes de tropeçar no erro, procurei a sabedoria com a oração; pedi-a no Templo e ela floriu em mim cedo, como uvas de primícias. Nos dias festivos, os divinos ofícios, a que sempre assistia com alegria e devoção, afervoravam-no de tal modo que a impressão suave recebida vibrava na sua alma durante toda a semana. Não nos faltam testemunhos de pessoas que o conheceram menino e que depuseram declarando como ele, durante as suas ocupações do campo, a que cedo se entregou, irrompia em orações ou a sua voz argentina fazia ecoar as colinas solitárias com cânticos de louvores sagrados. Construía altarzinhos, como costumam fazer as crianças e adornava de flores e ramos a imagem da Virgem, mas, diferentemente das outras crianças da sua idade, convocava quantos companheiros podia, para rezar e cantar com ele, imitando devotamente as cerimónias que via na Igreja.

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Eccli., 51, 13-15.

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Seu zelo infantil A palavra de Deus atraía-o. Na catequese e nas prédicas, não perdia uma palavra. Depois, todas as ocasiões eram boas para reunir gente, subir a um banco e, com as suas humildes roupas de camponês, repetir, com plena segurança e fidelidade de memória, os sermões dominicais, ou os factos edificantes fixados e conservados de reserva para a devida altura. Nunca deixava de acrescentar alguma oração e, se era a hora, não se esquecia de recitar, com os seus ouvintes, as orações da noite. Tão grande zelo era suscitado na alma do menino e avivado pelo seu amor filial ao Senhor. Este amor, já em tenra idade, enchia-lhe o coração, levando-o não só a amar a Deus, mas conservando-o unido com doce e cada vez mais estreito vínculo ao Senhor, que desejava ver amado por todos.

Primeiras penitências Meio eficacíssimo para promover esta união é, na opinião dos mestres da vida espiritual, a mortificação cristã, que consiste em morrer para si próprio, para viver a vida de Jesus Cristo, em Deus. Ora, as almas que se sentem mais fortemente transportadas para Deus, entregam-se à mortificação quase levadas por irresistível instinto de amor. Ao ver os Santos gozar, entre as voluntárias privações e sofrimentos, o mundo ignorante pergunta confundido: — Ut quid perditio haec? Para quê tanto desprezo dos confortos materiais? — A resposta é tão antiga como a pergunta; deu-a, há muito tempo, S. Paulo5. Aqueles que são de Cristo crucificaram a pró5

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Gal 5, 24-25.


pria carne. Os ressurgidos com Cristo para a vida do espírito sacrificam de boa vontade a carne, para viver segundo o Espírito. A experiência ensina que este sacrifício desenvolve o espírito de oração e dele procede a fecundidade de ação. O pequeno João cedo compreendeu espontaneamente este segredo da perfeição cristã, mesmo antes de encontrar o sacerdote que o ensinou a meditar: com efeito, escreve nas já citadas «Memórias»: «Entre outras coisas, proibiu-me logo uma penitência que costumava fazer, mas não era adaptada à minha idade e condição». Encorajou-o, porém, a frequentar os sacramentos da Penitência e da Eucaristia.

Primeira Comunhão No ano anterior a este feliz encontro, tinha o nosso jovem feito a sua Primeira Comunhão. Quer dizer que a fez aos dez anos. Foi preciso uma certa violência à disciplina rígida que não admitia ninguém à Comunhão antes dos doze ou catorze anos; mas, desta vez, o comungante apresentava-se à Sagrada Mesa tão bem preparado, que o pároco fechou os olhos. O jovem preparou-se confessando-se três vezes e depois, naquele dia bendito, não se ocupou de nenhum trabalho material, mas unicamente na leitura de livros devotos. Escreverá mais tarde nas citadas «Memórias»: «Parece-me que daquele dia em diante, houve qualquer melhoria na minha vida».

Duras provas Infelizmente, a santa e frutuosa familiaridade com o digno ministro do Senhor que o encaminhava tão bem nos caminhos

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da piedade e do saber, foi subitamente interrompida pela morte. Duras provas esperavam o filho de Margarida. Até então, todo casa e igreja, teve de abandonar o teto materno, para ir servir um patrão como moço de lavoura. Rico de engenho e com uma memória poderosa, viu-se constrangido a despender as suas promissoras energias nos duros trabalhos do campo. Deus assim o quis, para que o edifício das suas sólidas virtudes se levantasse sobre as sólidas bases da humildade. Confessará, mais tarde, que sentia necessidade desta virtude. A oração servia-lhe de alimento e conforto. A oração e alguma coisa mais. Todos os sábados pedia respeitosamente licença aos seus patrões para ir, na manhã seguinte, a uma aldeia distante uma hora de caminho, para ouvir a primeira Missa que se celebrava muito cedo. Qual o motivo de tanta pressa, se mais tarde assistia sempre à Missa paroquial e às outras funções religiosas? Ia lá assim cedo, para poder confessar-se e comungar. Continuou assim em todos os domingos e festas, durante dois anos. É inútil salientar o que isto representa num rapazinho, longe da mãe e em duras condições de vida e não certamente animado a tais práticas por exemplos ou sugestões alheias.

Piedade vivida Tão grande amor por Jesus Sacramentado é sinal de grande progresso no espírito de oração. As disposições internas induzidas na alma por este espírito revelavam-se depois naturalmente na conduta, nas atitudes e nas palavras do jovem. As provas fornecidas nos processos pelos membros vivos da família, em casa de quem o rapazinho prestara serviço, não deixam a menor 24


dúvida a este respeito. Nunca tinham tido nem imaginado sequer um servo tão obediente, laborioso e exemplar. Em casa, cumpriam-se os deveres de bons cristãos com a regularidade dos inveterados costumes domésticos, tenazes nas famílias do campo, e tenacíssimos naqueles tempos de vida sãmente camponesa: o rapazinho, porém, rezava de ordinário de joelhos, mais vezes e mais tempo. Fora de casa, enquanto guardava o gado na pastagem, foi encontrado muitas vezes, quer recolhido na oração, quer concentrado na leitura do Catecismo, o seu livro de meditação. Uma vez, foi visto de joelhos, de cabeça descoberta sob o calor do sol, tão absorto que, chamado repetidas vezes, não deu sinais de ouvir; e, quando foi sacudido e avisado de que não devia dormir ao sol, respondeu simplesmente que não estava a dormir. Um dia, o velho dono da casa, tendo entrado cansado e descobrindo o rapazinho a um canto, ajoelhado e recitando o Angelus, zangou-se e censurou-o, como se ele esquecesse o trabalho para só pensar no Paraíso. João, depois de acabar devotamente a oração, respondeu com respeito, aproximando-se: «O senhor sabe bem que me não poupo. Certamente ganha-se mais rezando do que trabalhando. Rezando, semeiam-se dois grãos e nascem quatro espigas; não rezando, semeiam-se quatro grãos mas colhem-se só duas espigas». Penetrado de semelhantes sentimentos, que admira, como nos dizem as testemunhas oculares, que se observasse sempre nele calma de modos, igualdade de humor, sensatez nas palavras, reserva no trato, aborrecimento por tudo que pudesse empanar o candor da sua alma, ou parecesse só menos conveniente a um jovem francamente cristão? Nem neste período se esqueceu de se devotar ao bem das crianças, divertindo25


-as, catequizando-as e ensinando-as a rezar. Aquele pároco, aonde ia confessar-se aos domingos, chorava de consolação ao ver como, graças ao esforço do jovem, refloria a piedade na parte eleita do seu rebanho. Facto é que, depois da partida do pequeno apóstolo, o ótimo pastor só teve que continuar ele próprio aquelas reuniões, para criar um verdadeiro e próprio oratório festivo. Sobre S. Domingos Sávio, aos doze anos, escreverá S. João Bosco «ter ficado muito admirado vendo o trabalho que a graça divina tinha operado em tão tenra idade»6. O mesmo sentimento surge em nós, ao ler os testemunhos jurados dos contemporâneos sobre toda a conduta do jovem Bosco.

Devoção a Maria João partiu, porque dia e noite o solicitava o pensamento dos estudos; mas a sua via crucis foi ainda longa e dolorosa. No desencorajante alternar de esperanças e desilusões, experimentou, como nunca, a eficácia da exortação de S. Bernardo: ­Respice stellam, voca Mariam. Tinha bebido, com o leite, a devoção a Nossa Senhora. Em circunstâncias solenes, em momentos críticos, sua mãe recomendava: Sê devoto de Maria! À medida que ia aprofundando o conhecimento das coisas divinas, apreciava cada vez mais a doçura desta devoção, feita de absoluta confiança e amor filial, tão pregada e praticada pelos Santos, tão querida das almas piedosas. Uma solitária igrejinha, consagrada à Virgem sobre a alta colina que domina Castelnuovo, tornou-se então a meta das suas frequentes visitas. Ia lá muitas vezes sozinho, outras acompanhado por jovens amigos. 6

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Vida de S. Domingos Sávio, c. VII.


Conservou a recordação daquelas peregrinações, feitas na sua juventude ao Santuário mariano, tão gravada no coração, que no declinar dos anos, ainda se enternecia ao lembrá-las.

A oração contínua Antes de entrar no nosso estudo, parece oportuno abrir um breve parêntese para fixar claramente o conceito fundamental da oração. Ninguém pode pôr em dúvida que na vida cristã a oração é de suprema necessidade; por isso S. Paulo7, escrevendo a Timóteo, a recomenda como primum omnium, mais que tudo. A oração, porém, é estado e é ato. Como estado, consiste na oração contínua desejada pelo mesmo Apóstolo8, quando diz: Sine intermissione orate. Não podemos estar certamente sempre, atualmente, fixos em Deus, mas podemos estar sempre na disposição de orar, mercê do hábito da caridade: a alma do justo, possuindo a graça santificante, e por isso apresentando em si a condição exigida para que se verifiquem as palavras de Jesus9: Viremos a ele e habitaremos nele, recebe das três divinas Pessoas da Santíssima Trindade, pela sua presença, a comunicação da vida divina de modo que então reza verdadeiramente sem interrupção10.

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1Tim 2, 1.

08

1Tes 5, 17.

09

1 Jo 14, 23.

«Quando se permanece fielmente no sulco da divina vontade, sem mesmo que se dê por isso, reza-se no profundo da alma» (D. Marmion, numa carta citada por Thibaut: «L’unione con Dio», trad. it. pág. 19 - Ed. Fior.). 10

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Além dos estados ordinários e comuns da oração assim entendida, há os estados elevadíssimos, concedidos a poucos, estados místicos e estados de puro privilégio. Como ato, a oração toma quatro formas, como insinua o mesmo S. Paulo11, quando inculca a Timóteo que faça obsecrationes, orationes, postulationes, gratiarum actiones; isto é, súplicas ou orações de pedido para nós, orações propriamente ditas de adoração, votos ou orações de pedido pelos outros, agradecimento ou ações de graças pelos benefícios recebidos. A teologia da oração está substancialmente condensada aqui. Ver de que modo souberam vivê-la os Santos é espetáculo que edifica e arrebata.

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Ibid.