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POESIA TROVADORESCA DIDACTICA

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MANUAL DO

TROVADOR


Glauco Mattoso

MANUAL DO TROVADOR

Casa de Ferreiro São Paulo


Manual do trovador © Glauco Mattoso, 2026 Editoração, Diagramação e Revisão Lucio Medeiros Capa Concepção: Glauco Mattoso Execução: Lucio Medeiros Fotografia: Akira Nishimura Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Mattoso, Glauco MANUAL DO TROVADOR / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 106 Páginas 1.Poesia Brasileira I. Título. 25-1293

CDD B869.1 Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira


NOTA INTRODUCTORIA Parallelamente ao sonnetto/dissonnetto, à glosa decimal, à oitava rhyma, ao limeirique e ao haikai (entre outras estrophações), a trova tem sido objecto do meu experimentalismo formal, a exemplo daquellas que compõem o KALENDARIO MATTOSIANO ou das que, à guisa de quartetto, integram os sonnettilhos do livro SACCOLA DE FEIRA. Em 2020 retomei o genero para retrabalhar alguns de meus themas nesse molde synthetico que, tradicionalmente cultivado pelos trovadores puristas, offeresce largo campo tambem aos mais satyricos, fescenninos e, no meu caso, politicamente incorrectos em relação à deficiencia visual da qual sou portador. Este volume collige velhos e novos exemplos da quadrinha em redondilha, que se tornou o symbolo mais lapidar duma geometria rhymada a serviço da arte poetica e da politica antiesthetica.


[PRIMEIRA PARTE] TROVAS NAS TREVAS Quem é cego vê regime oppressor o tempo todo. Mas o nosso mais opprime, pois, nas trevas, mais me fodo. Quem enxerga dá risada do ceguinho aqui, fodido. Mas não posso fazer nada, salvo o verso, onde eu revido. Aos biographos ja dei do meu caso nova pista: No sonnetto quem foi rei trovas somma, graus conquista. Quando lambo ou massageio um pezão que me maltracta, entrelinha acho no meio dos artelhos, sem errata.

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Pedicure com a lingua faço caso um mandão queira: Na lambida, a baba pingo-a bem no meio da frieira. Um sacana, ao ver-me, disse: “Que gozado! Ficou cego!” Não tardava que elle risse si eu espeto o pé num prego. “Jamais quero, vixe, estar no logar desse cegueta!” (Falla alguem, a gargalhar, quando caio na sargeta.) Escutei na rua: “Ahê, chupa, cego!” O gajo ria. “Dó não tenho de você! Dá tesão sua agonia!”

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Bengalando pela rua jovens ouço. Um delles brada: “Chupa, cego! Culpa sua si levar uma pedrada!” Bengalando na calçada dei de encontro com o poste. Rindo ouvi moleque cada. Não faltou quem disso goste. Bengalando, nada vejo, e essa scena à turma aggrada. Quem diz “Chupa!” não tem pejo de soltar a gargalhada. Me chutaram a bengala para longe e, de joelho, paus chupei. Quem sae se ralla. A sahir não acconselho.

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Quanto mais a gente reza menos cremos nós no sancto que esta nossa fé despreza e poder ja nem tem tanto. “Minha mãe está solteira!”, diz um joven pro meu lado, mas supponho que elle queira abusar-me, eis que enteado. Quando chupo um typo sado, só lhe escuto uma risada que me deixa attormentado, mas, si sou masoca, aggrada. Dos cachorros tenho dó. Não terei do ser humano. Vão ao céu elles, e só. Nos infernos eu me damno.

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A Terceira Guerra ja começou, sempre se diz. Mas nem ultima será nem primeira: appenas bis. Do opponente derroptado uma bota pisa a cara. Fallou Orwell: “Ao passado o futuro se compara.” Quando um physico descobre mais um facto universal sei que fica até mais pobre minha astral cuca animal. Si a cegueira, na chorosa lyra verto, gozação eu desperto: um cego posa de palhaço, não em vão.

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Um ceguinho jamais dosa quando pode e quando não soltar bufa silenciosa ou mandar ver um rojão. Mais me vale ser sapão, num brejinho, que sapinho num brejão: mais attenção dão aos versos que escrevinho. É melhor attrahir pena do que inveja, pois, assim, minha força acham pequena e não tramam contra mim. Olhos brancos, bocca aberta, como quem chupar queria: eis dum cego o que é, na certa, a melhor photographia.

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Um adulto rememora, no seu dia, a meninice. A creança não viu hora de que adulta se sentisse. Dum espelho não preciso. Ser galan jamais eu quiz. Cego nunca foi Narciso. Quem enxerga é que é feliz! Menos perde quem tem pouco. Mais perdeu quem muito tinha. Perdeu tudo o cego louco. Maior perda foi a minha. Quando ainda eu enxergava um fanzine publiquei. A memoria as lettras grava e do typo os nomes sei.

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Rico vive rindo à toa, mas dum cego ri-se o pobre, pois mais vale visão boa que ter grana que lhe sobre. É difficil para quem anda, cego, de bengala guardachuva abrir. Eu nem fallo disso. Ninguem falla. No olho alheio uma pigmenta diz o povo que não arde. Mas o cego um pau aguenta na garganta, sem allarde. O peor cego, segundo o povão, é o que não queira enxergar. Mas não confundo teimosia com cegueira.

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É teimoso o cego quando se recusa a adjoelhar. Quem enxerga, no commando, lhe mostrar vae seu logar. Quando um cego oppõe-se e teima, é bem facil dominal-o: Com cigarro um gajo o queima e elle engole, mudo, um phallo. Um ceguinho não excolhe. Chupa aquelle que deu ordem. Pelos cegos ha quem olhe? Só lhes resta que concordem. “Chupa, cego!” ja me disse um mandão que enxerga bem. Resistir era tolice. Ao chupar, rezei: Amen!

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Quem tiver um olho, em terra de ceguinhos, será rei. Um bom subdito não berra: mamma, mesmo sem ser gay. A mulher levou na bunda quando o macho optar queria. Mas garganta acha profunda num ceguinho, onde elle enfia. Quem num cego se sacia seduzil-o acha besteira. Basta dar-lhe, si elle pia, um tapão por focinheira. Carnaval se commemora com vistosa phantasia. Si, impedido, o cego chora, mais faz falta que sorria.

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Meu glaucoma, noite e dia, a mil males se compara. Ficar cego, pois, me allia aos que teem doença rara. Quem enxerga me diz: “Fia na sciencia, Glauco, e para de chorar tua agonia!” Gozação tal mais me azara. Outro cego me contava o que entende da cegueira: condiciona a mente escrava a chupar, queira ou não queira. “Cego, foda-se!”, me diz quem na bocca a rolla mette. Me fodi, calei-me e fiz o que devo: um bom boquette.

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“Foi castigo!”, meu juiz, ao gozar, sempre repete. Eu, fazendo o que elle quiz, chupo como quem punhete. Quem enxerga bem, com vis argumentos, me submette. Fode e, rindo, pede bis sem remorso que lhe affecte. Viajar é bom appenas si o subjeito enxerga bem. Para um cego, bellas scenas são turisticas? Mas nem...! A turisticas dezenas de cidades mais ninguem me levou e ninguem crê nas attracções que o paiz tem.

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Quem desdenha quer comprar, diz o dicto, mas, de quem ficou cego, no logar pôr-se nunca quer ninguem. Quem por ultimo se ri, ri melhor, diz o rifão. Ri-se deste cego aqui todo mundo, mas eu não. Quem vê cara, coração não vê, dizem. Mas quem vê a do cego, diz-lhe: “Irmão, mais feliz sou que você!” Beiço beija! Abra, sorria! O meu serve de boceta. Quem na bocca o pau me enfia quer que um cego se submetta.

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Eu, gymnastica? Tá louco? Sou é cego e sedentario! Bengalando, falta pouco p’ra que eu saia do scenario! A vingança frio pratto é, mas nunca que me vingo, pois de quem soffro o mau tracto ‘inda bebo o quente pingo. Luz solar: ha que me enfade peor thema? Só me calha, sendo cego, ter saudade de seu brilho, que me falha. Nunca é tarde! Fazer vou o seguro do meu cu. Fiquei cego. Vae que sou sinistrado si estou nu...

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Deus adjuda quem madruga. Madruguei, mas Elle não me indicou nenhuma fuga da cegueira. Mau sermão. Batte à machina ‘inda alguem? Hoje em dia se “digita”! Até cego agora tem um teclado e “blogue” edita! Foi fatal o meu glaucoma: enxerguei, mas fiquei cego. “Foi bem feito!”, quem me doma diz, e ao sadico me entrego. Semicego quem nasceu nem canonico será nem mais sancto serei eu do que um Pedro de ser ha.

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Quanto mais rezou a gente, mais phantasma apparesceu. Mas o cego, pela frente, nem que reze, só vê breu. Dum rapaz estão à caça as meninas: “Ai, que lindo!” Mas o cego, quando passa, só percebe que estão rindo. Bom folklore! Sou caypora pois cegueira foi azar. Curupyra o cego adora si um pé torto o faz gozar. Quem enxerga tem direito de gozar. Quem cego fica paga pelo seu defeito: tem dever de chupar picca.

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Deus decide quem acceito será: aquelle que vê bem. Quem é cego o seu defeito pagará: que chupar tem. Si o ceguinho está no palco, quem enxerga applaude e ri. Si o ceguinho for o Glauco, tanto ri que faz chichi. De injustiças bem eu posso ser a propria testemunha. Fiquei cego porque o nosso deus christão só bens propunha. Eu confundo um analysta com psychologo, mas não tem problema, ja que a vista perdi mesmo e estou doidão.

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Em meus versos ja cantei o esportista cego ou manco. Eu nem tento! Faço feio, nem siquer fico no banco... Sem adjuda, faz lambança um ceguinho no mercado: a bengala delle alcança o que está de cada lado. Ah, sem duvida! Aggradesço ao Senhor pela cegueira! Pagar este caro preço não conhesço quem não queira! Não viajo de avião nem de graça, ainda mais ao saber que os cegos não são, a bordo, deseguaes.

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Papel comico? Sim, faço, ja fallei, mas poesia de auctor cego que é devasso ao palhaço se associa. Que é que um cego fazer pode? Pode usar a bocca para dar prazer a quem o fode ou levar tapão na cara. Em abril, ja no primeiro dia, um bobo paga o pato. O ceguinho um anno inteiro vae pagando, é o que eu remacto. Quem tem bocca vae a Roma, dizem quando o cego sae. Mas no cu sempre elle toma: quem informa errado o trae.

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Appressado come cru. A agguardar, cego não chia. Mesmo assim, toma no cu: só lhe servem sobra fria. “Obrigado!”, diz o cego quando cedem-lhe passagem. Ao pisar, porem, num prego, sabe como os outros agem. Toda droga faz effeito, pois testadas todas são. Mas de cego o meu defeito droga alguma cura, não. Ja vi tudo o que queria, mas mais quero ver agora. Quem perdeu a luz do dia manhanzinha à noite chora.

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Ser um cego massagista é funcção que não me extranha. Quem perdeu a sua vista não faz manha: ganha manha. Enxergando cada vez menos, nestas trevas vi-me. Um zurzido Zeus me fez sem dizer qual foi meu crime. Quem é cego de nascença com sons sonha. Quem perdeu tem com cores, nas quaes pensa, pesadellos, e sou eu. Colorido quem enxerga zomba facil do ceguinho, que ninguem normal alberga sem sorrir delle, excarninho.

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De mim dizem: “Que se foda! Ficou cego? Foi bem feito!” Descarregam em mim toda a maldade, e com direito. Quem observa a afflicção dum “invidente”, externa o riso, attitude bem commum, como sempre, em verso, eu friso. “Olha o cego tropeçando!” Riem quando, indo, eu tropeço. “Vae, tropeça!”, dizem quando eu tropeço no regresso. Quem é cego se subjeita à piada, à troça, ao sarro. Mas peor será a desfeita si lhe excarram o catarrho.

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[SEGUNDA PARTE] TROVAS SEM TRAVAS Muita coisa ja foi dicta num poema mais comprido. Trabalhar a gente evita si encurtar, emfim, decido. Mais trabalho deu aquillo que volume teve, extenso, ou aquillo que burilo devagar, emquanto penso? Como Trini Lopez canta, mulher feia melhor é, pois com ella a dois se janta. Com a bella, a trez, até. Trini Lopez cantou bem, nos sessenta, que cabello bom é longo... P’ra quem tem! Liso o meu quizera tel-o!

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Jejuar antes da janta. Orar antes do peccado. Gozar logo, sinão tanta erecção terá brochado. Você deve paciente ser com todos, menos com um politico na frente do seu carro. Sem fonfon! Me banhei antes de dar a cagada. Sempre rolla. Me limpei, mas no logar a sujeira ainda colla. Faz o solo com a sola a palavra bem casada. Mas a bocca melhor colla numa planta, si pisada.

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Dar de graça caro custa para aquelle que especula. Repartir pães não é justa compta para quem tem gula. Valioso um livro fica si a leitura a alguem aggrada. Um não lido, numa rica bibliotheca, vale nada. Si escrever bem facil fosse, escriptores haveria como sendo o melhor doce pão commum na padaria. Bom auctor não é só quem [variante: actor] phantasia a propria vida, mas tambem quem dó não tem de encarnar um suicida.

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Não exsiste esse conceito dum “abuso de poder”. O poder, que eu não acceito, ja abusivo vem a ser. É metade do talento mais devida à propria fama. A restante eu nem commento, pois mais fama a fama chama. Quando falla alguem demais, um sapato outrem lhe quer pôr na bocca, mas eguaes coisas falla, si puder. Quanto mais eu me comparo, mais me sinto differente. Quanto mais me julgo raro, mais sou como toda gente.

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Senador e deputado maior querem regalia? A politica tem dado tanta folga a quem vadia! Boa mesa tem tamanha importancia, que me olvido do amargor e na lasagna ou na pizza acho um sentido. “É melhor saber bastante sobre pouco, que pouquinho sobre tudo”, me garante quem critica meu mau vinho. Quando a historia não é chata me ser lida acho que vale. Mas si só de fadas tracta, outra quero que me emballe.

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Minha nossa! Dia assim commemora-se? O paiz nessa crise tão ruim e alguem pode estar feliz? Sogros tenho: quem fallar mal dum japa me chateia, pois seu filho no meu lar tem commigo cama meia. Brazileiro sou da gemma, mas me torna admirador a cultura que, suprema, noites mil soube compor. Muito riso, pouco siso, diz o povo. Mas eu rio da desgraça alheia: piso no geral e no meu brio.

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De intenções é cheio o inferno! Ser feliz tem marca certa? Accredite quem quizer no vendedor que faz offerta! Todo dia vinte e nove quem bem come pede gnocchi. O sortudo é quem diz: “Prove!” O azarado que se toque. Quem bem come bem se sente. Bem comer é pratto cheio. Nos cuidemos, minha gente! Bem comamos, mas sem freio! Quem não chora, diz o dicto que não mamma. Mas chorar, eu chorei, e não evito que me faça alguem mammar.

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Ja fui hippie e tambem punk. Armamentos eu detesto. Esse atomico foi um que meresceu o meu protesto. Quer você democracia? Pois tolere quem achar que o paiz melhor seria no regime militar! Quando somos contra a lei o Systema nos opprime. Quando o dedo eu apponctei para alguem, commetteu crime. Si o politico corrupto se fodeu, foi praga minha. Si me dedam, fico puto quando pago uma caixinha.

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“Si roubei, elle tambem! Ninguem pode me accusar!”, diz o crapula que vem occupar do outro o logar. Diz que engorda quem mentir o politico magrella. Não tem corpo de fakir o seu filho, que protela. “Engordou? É porque mente!”, falla, rindo, quem accusa. Ao filhão do presidente diz o medico: “Reduza!” Si mentir engorda, como explicar que, de quem disse isso, o filho mais que Momo é pesado? Gulodice?

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O motivo vale por ser um habito tão nosso. Eu de “espresso” bebedor sou e, insomne, a dose endosso. Nesta quadra a nobre lucta é o desporto que se enfoca. Si na cara não me chuta, lambo as solas dum judoka. Não serei Gonçalves Dias mas os indios eu respeito. Os poetas teem mais dias e os indigenas mais peito. Descoberta foi a Terra quando alguem a viu de fora. Quem fallou “azul” não erra, mas quem disse “verde” chora.

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Considera a Terra plana quem juizo não tem pleno. Si pisada, até banana fica plana no terreno. Quem o cerebro tem chato é, talvez, terraplanista. Mas seu chato pé de pato pisa quem perdeu a vista. No frigir dos ovos é que conhescemos a manteiga. Do politico moleque não funcciona a labia leiga. Jornalista a liberdade sempre exige e faz que valha. Si lhe falta, que dirá de quem na midia nem trabalha?

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Outras fallas vão entrar, mas a lingua é uma só. Seja aquem ou alem mar, fallo a mesma da vovó. Esculptura tenho em mente que me exalte a proporção do pé grego, condizente com seu curto e anão dedão. Ao pinctar um pé descalço eu pincello com a lingua. Si topar, num passo em falso, com frieira, eu jamais xingo-a. Um protesto não nos basta. Os homophobos estão opprimindo o “pederasta”, sempre estão... mas com tesão.

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Si no tracto da creança “innocentes” são os “anjos”, quem na zona lhes ammansa o tesão, si são marmanjos? Si cae sempre o pão do pobre com manteiga para baixo, sua faca nunca o cobre todo, e nisso aqui me encaixo. Quanto ao teste do pezinho, taes exames uteis são. Mas peões desencaminho e prefiro o do pezão. Do tennista que primeiro for do ranking e se luxa eu desdenho. Quero o cheiro dum que até dispensa a ducha.

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Que a marinha brazileira se celebre! Ao dicto cujo que esta lyra lambe e cheira, um pé canto: o do marujo. Addeanta alguma coisa combatter o que é lethal? Perde tempo o bardo, pois a droga ou macta ou nem faz mal. Um bollinho quem degusta, sem rival, que nos sacia, acha a fama delle justa, procedente da Bahia. Um bom pratto será mesmo temptação? Eu, gluttão, pecco! Tutu quero com torresmo degluttir, com repeteco!

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Guerra? Não! Revolução? Nada disso! Uma sensata mente pensa: as armas são más, excepto a quem se macta. Meu basset, na photo, finge que está triste, tem mania. De Miguel se faz, de esphinge, quando é pego em teimosia. Eu, na rede, bem padesço. O amigão que pode ver me bullyinga e pelo advesso faz-me estima reverter. Escriptor não tem appenas razão para festejar. Sua penna, a duras penas, por um cargo troca... ou bar.

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Os amigos, quem diria, desentendem-se e se pegam na porrada. Putaria ja se segue e, em gozo, offegam. Tudo compta reparar no verso torto: peido, arrocto, inclusive si eu encarno os azares dum canhoto. Poesia, si é ruim, seu auctor pensa ser boa. Mau poeta, para mim, será sempre outra pessoa. Sociedade, si é secreta, me interessa, mas não faço parte dessa, que me veta, pois devassa alguem devasso.

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É folklorica a mania. Lobishomem e vampiro não são lenda, todavia, e eu aqui não os insiro. Quem as victimas confunde não viveu em tal “suffoco”. Uns cahiam no “desbunde”, outros cu não tinham oco. A breguice tem a ver, pois no brega se estimula a trepar, a ter prazer e se exalta a scena chula. Quando eu grito, patriota não serei. Disso eu não tracto. Gritarei por uma bota não lamber, nem um sapato.

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Exquisito diz que sou quem critica meu fetiche, mas faz parte do meu show para os outros que eu me lixe. Seresteiro e menestrel nem synonymos são, mas quando faço meu papel finjo agir como outro faz. Perdoar a raça toda, digo, humana, agora eu quero. Mas desejo que se foda, ja que posso ser sincero. Uma coisa não tolero na actual televisão: não exsiste um canal zero sem qualquer programmação.

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A surdez ja foi lembrada e precisa de lembrança. Si ninguem escuta nada todo mundo appenas dansa. Liberdade de expressão não tem preço, mas tem custo. Uns se vendem, outros são censurados, e acham justo. Quem impostos sempre paga mau serviço ganha em troca. Quem ao outro cede a vaga tambem chupa-lhe a piroca. Eu, no hospicio? Cê tá louco! exquisito sou, admitto, mas ainda falta pouco p’ra que eu, nu, saia a dar grito...

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Ja fallei, em verso, disso. Desaggrada sempre o clima. O thermometro, no enguiço, ou só desce, ou fica accyma. Puxa! Emfim chega a vez della! Esta festa não se olvida! Festejar a mortadella é preciso, puxa vida! Dores sinto, mas de vaga causa. Faltam-me respostas. São do cu si a gente caga, mas variam pelas costas. Urbanista que se preze tem na praia a casa bella mas defende sua these sobre a vida na favella.

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Megalomano, o hoteleiro! Cinco estrellas ja se julga! Mas seu nobre pardieiro dá comforto à gorda pulga. Nesta quadra, tolerante, dou appoio a causa nobre: lambo sola de pisante do moleque rico ou pobre. Um poeta creativo não appenas formas testa: soffre em scena, chora ao vivo, dos leitores faz a festa. Sim, racista sou, mas só quando exalto o meu basset e desprezo outro totó. Mal só falla quem não vê!

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Eu de pauta pouco entendo, que dirá de partitura! Mas estou desenvolvendo meu ouvido, um cego jura. De malandro gosta alguma de appanhar, segundo a lenda. Sempre alguma se accostuma, muito embora alguem se offenda. Sim, é verde o ET! Duvida quem quizer! Está provado! A questão foi resolvida, ja que a Terra agora invado! Deus exsiste. Logo, pensa: “Neste predio sou quem manda!” Inquilino leva prensa quando fuma na varanda.

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Si um casal for de sambistas, parceria sempre rolla. Si das lettras, as revistas e jornaes nem darão bolla. Sim, justiça seja feita: se mantem a lei correcta. Mas o pae não só se deita com a filha: pega a netta. Architecto que se uffana no Planalto se projecta mas será Copacabana a morada desse estheta. Quem dos pobres sente dó tem é medo da pobreza. Vale menos ouro em pó que migalhas sobre a mesa.

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Os macacos querem só imitar-nos, mas ninguem como algum põe no gogó seu caralho inteiro, ah, nem...! Não sou gothico, mas abro sempre alguma cova, em verso, que me rende esse maccabro pesadello, ao gozo inverso. Não ha cheiro que perfume a carcassinha conservada, mas que, ao menos, numa mumia do chulé se perca nada. Dez, nove, oito, septe, seis... Falta pouco... É o fim da Terra! Quattro, trez, dois, um... Mas eis que esta merda não se encerra!

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Si sumisse um pedacinho de mim cada vez que penso em você... Jamais definho e estou, sempre mais, immenso. O relogio só tem hora muito curta a quem sorri e longuissima a quem chora. Ha só longas por aqui. Quem ja viu crescer cabello na caveira cabelluda diz: “Jamais é pesadello si você crê! Não se illuda!” A vizinha ahi de cyma limpa a casa todo dia. Ella nunca desanima de fazer tal porcaria.

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Um cocô suja a privada. Dois cocôs sujam bem mais. Quem quer limpa a trova nada diz de themas tão fecaes. Ninguem traga a propria merda nem a alheia nos aggrada, mas a gente, em lettras, herda muita merda antepassada. Ninguem traga a propria bosta nem a alheia nos aggrada, mas a gente, em lettras, gosta duma bosta antepassada. Quem só caga molle pensa ser bem facil nossa vida, mas quem caga duro offensa acha até na lyra lida.

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Minha merda fica tão empedrada, às vezes, que eu, que jamais fui tão christão, nem consigo ser atheu. Ja rezei ao padroeiro, constipado na privada. Me sahiu tolete inteiro, mas a prega ensanguentada. Me disseram que quem ora para a Sancta caga bem e eu rezei: “Nossa Senhora...” Não sahiu nadinha, nem... Me disseram: “Você não rezou certo! Peça com humildade!” O cagalhão sae, mas rubro qual baton.

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Sentir nojo de excremento é normal. Mas sou poeta e não sinto. Si me sento faço uma arte bem concreta. Quem tem fé pede ao Alem que consiga cagar molle. Quem não tem mas caga bem com a fé dos crentes bolle. Bem cagar, o que seria? É fazer tudo, sem que eu reze para, na bacia, ter a mesma dum atheu. Um atheu caga melhor do que os crentes, e se explica. Nada sabe elle de cor e nem ora: aqui está a dica.

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Um atheu mais approveita! Não exsiste Deus! Assim, fazer pode elle desfeita e abusar até de mim... Quem atheu é não precisa prestar comptas. Pode até ser o sadico que pisa noutro atheu e em São Thomé. Um atheu tem liberdade de fazer o que quizer. É mais sadico que Sade quando batte na mulher. Um politico, si atheu, não dará satisfacção nem ao povo, pois fodeu com os cofres da nação.

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O politico saphado nem se importa si for pego. P’ra adjudal-o um advogado garantido tem emprego. Quem quizer ser presidente da republica arte tem que ter para ar dar de gente preoccupada com... ninguem. Si eu seguir à risca tudo que o doutor me recommenda serei chronico ou agudo comprador da droga à venda. Concluindo, me despeço sem dizer nada na trova. Caso faça algum successo, direi: “Merito? Uma ova!”

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[TERCEIRA PARTE] REESTROPHANDO AS TROVAS TROVANDO A TROVA [3801] Peixe olhando no mercado, encontrei meu eu peixeiro, que, ao ser visto e perguntado, respondeu, interesseiro: “Faço trova, e meu recado nella cabe por inteiro. Por si mesmo está explicado, dispensando o do parceiro.” Ao olhar a cor do peixe, tambem quero o meu pescar. Penso e peço que me deixe pescar juncto nesse mar. Elle, vendo que interesse eu demonstro em lhe trovar, facilita e cobra nesse peixe um preço popular. Foi assim que um punheteiro alter ego, appresentado a mim como costumeiro trovador, vi de bom grado.

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TROVANDO A TROVA DO SOL [3802] Vou chamar esse meu eu trovador de Pedro Rocha, por ser duro e ser o seu pau o verso que debocha. “O meu dia ammanhesceu, mas o Sol, no escuro, brocha: si a cegueira é sempre um breu, torna inutil qualquer tocha.” Eis a trova que propuz, mas o Pedro um verso adduz, esse chato de galocha que é mais perfido e me encoxa. Applicando o verso a mim, fez a quarta linha assim: “O meu dia ammanhesceu, mas o Sol, no escuro, brocha: si a cegueira é sempre um breu, no meu cu tal pau se attocha.”

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TROVANDO A TROVA DA ESTRADA [3803] Decidi que farei cada trova como si o tesão fosse estrada interdictada, e assim veiu a trova, então: “Do trem vejo, ao longe, a estrada se perder: tenho a impressão de que nunca leva a nada, que meus sonhos alli vão...” Pedro Rocha, meu eu bardo, resolveu fazer meu fardo mais pesado, o brincalhão que acha sempre algum calão. Pensa o Pedro numa picca e essa quarta linha fica: “Do trem vejo, ao longe, a estrada se perder: tenho a impressão de que nunca leva a nada, como brocha o pau na mão...”

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TROVANDO A TROVA DO AMOR [3804] Pedro pede-me, e animou-se, que por lyrico eu me passe. Ri do thema que me trouxe e do amor mostrei a face: “Um amor é como um doce não comido, quando nasce. Mas depois... Tomara fosse mais gostoso e não findasse!” Rindo, Pedro pega a deixa e, entendendo a minha queixa, vê mais nitido esse impasse. Mas, na replica, sem classe, parte logo para o lado mais carnal, fechando o achado: “Um amor é como um doce não comido, quando nasce. Mas depois... Tomara fosse ja na foda o desenlace!”

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TROVANDO A TROVA DO DOCE [3805] Pedro Rocha acha normal deturpar-me o tempo inteiro. Faz um verso addicional e se torna meu parceiro. “Sendo o amor um doce, qual? Bomboccado? Brigadeiro? Qualquer delles! Affinal, é melhor sempre o primeiro...” Esta fora a minha trova, commentando outra que prova como o amor é passageiro a um poeta seresteiro. Mas o Pedro, que é sacana, troca o quarto e assim explana: “Sendo o amor um doce, qual? Bomboccado? Brigadeiro? Qualquer delles! Affinal, vão sahir pelo trazeiro...”

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TROVANDO A TROVA DA PORTA [3806] Esperanças um plebeu tem, até numa tapera... Esta trova me occorreu, bem romantica e sincera: “Mal na porta alguem batteu, fui correndo... Mas não era ninguem: era appenas meu coração, que estava à espera...” Pedro Rocha, um gozador escholado, quiz suppor nella um quarto verso, à vera, e jogou para a gallera. Elimina o meu e, em troca, esta linha elle colloca: “Mal na porta alguem batteu, fui correndo... Mas não era ninguem: era appenas meu intestino, que libera...”

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TROVANDO A TROVA DO CASAMENTO [3807] Casamento que se finda nunca rende um thema insosso, quando a trova delle advinda põe a faca no pescoço: “Me casei menino ainda. Separei-me ainda moço. Si a mulher foi muito linda, seu retracto foi esboço...” Trova feita, mal mostrei-a para o Pedro, elle allardeia que o castello está sem fosso e no angu sobra caroço. Tira o verso do desfecho e o “corrige” neste trecho: “Me casei menino ainda. Separei-me ainda moço. Si a mulher foi muito linda, foi o penis pouco grosso...”

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TROVANDO A TROVA DOMINGUEIRA [3808] Reclamar não é que eu queira, mas do chiste é Pedro o rei. Acha sempre uma besteira numa trova que eu cantei: “Namorei na sexta-feira e no sabbado casei. No domingo deu canseira, na segunda o addeus é lei...” Lendo a trova que compuz, goza o Pedro, e traz à luz que a verdade eu soneguei. Diz mais elle do que eu sei: no final dessa quadrinha propoz outra quarta linha: “Namorei na sexta-feira e no sabbado casei. No domingo deu canseira, na segunda virei gay...”

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TROVANDO A TROVA DA VOVOZINHA [3809] Accabei de produzil-a e, no verso em que se encerra, esta trova não vacilla quando é contra qualquer guerra: “No sofá vovó cochila. Si o nettinho corre e berra, nem se abballa, está tranquilla: reina a plena paz na Terra...” Mas o Pedro, que é do contra, um pretexto logo encontra para rir quando alguem erra e meu verso sempre emperra. Acha a scena muito leve e este quarto verso escreve: “No sofá vovó cochila. Si o nettinho corre e berra, nem se abballa, está tranquilla: vae cahir! Ja ja se ferra!”

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TROVANDO A TROVA DO URBANISTA [3810] Ao compor trovas, me affasto do echo urbano, que me macta. Onde o verde é denso e basto meu olhar quero que batta: “No primeiro plano, o pasto. Attraz delle, vê-se a matta. Mais ao fundo, o mundo é vasto... Foi aonde, aquella ingrata?” Assim faço a trova, à tarde, si um odor no nariz arde, polluido, que maltracta o urbanista nesta data. Mas o Pedro, ratto urbano, finaliza e estraga o plano: “No primeiro plano, o pasto. Attraz delle, vê-se a matta. Mais ao fundo, o mundo é vasto... Mas que sacco! Tarde chata!”

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TROVANDO A TROVA TROVEJADA [3817] Sempre dando bolla fora eu estou, e um verso meu. Pedro Rocha, sem demora, mais um delles percebeu: “Quando chove, é o céu que chora de tristeza, por ser eu tão sozinho: foi-se embora minha amada e addeus nem deu...” Sendo “amada” ou sendo “amado”, logo o Pedro enxerga o lado mais prophano e mais atheu na versão que me occorreu. Em logar da linha casta, faz um fecho pederasta: “Quando chove, é o céu que chora de tristeza, por ser eu tão sozinho: foi-se embora o rapaz que me fodeu...”

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TROVANDO A TROVA DA CHARTA [3818] A thematica é bem farta quando o bardo não tenciona ser satyrico e, na quarta linha, accolhe uma fujona: “Si releio aquella charta na qual ella me abbandona, creio ainda que não parta, que ammanhan me telephona...” Mas o Pedro, um alter ego sem pudor, acha este cego muito candido e cafona quando fallo duma dona. Logo a quarta linha pega e outra, em troca, elle me entrega: “Si releio aquella charta na qual ella me abbandona, creio ainda que não parta, que parar não va na zona...”

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TROVANDO A TROVA DO MAR [3819] Sendo um genero fecundo, eu da trova só me uffano. Mas o Pedro, um bardo immundo, nella causa immenso damno... “Meu amor é tão profundo quanto as aguas do oceano, mas navego nesse mundo sem ter porto e a todo panno...” Ao compor a trova accyma, eu tentei captar um clima mais naval e, salvo enganno, sem ao genero dar cano. Mas o Pedro foi terrivel! Remactou, baixando o nivel: “Meu amor é tão profundo quanto as aguas do oceano, mas navego nesse mundo só mettendo em cu mundano...”

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TROVANDO A TROVA DOS NAMORADOS [3820] Essa falta de decoro é do Pedro o que eu receio, si, ao trovar, por desafforo, palavrões mette no meio: “Dia lindo: faço khoro eu com ella, num passeio. Mas brigamos, e o namoro terminou num dia feio...” Esta trova eu fiz pensando num amor fugaz, mas, quando falla o Pedro, é sem rodeio que perverte o verso alheio. Não bastou meu quarto verso; elle encontra um mais perverso: “Dia lindo: faço khoro eu com ella, num passeio. Mas brigamos, e o namoro me deixou de sacco cheio...”

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TROVANDO A TROVA DO BEBÊ [3822] Normalmente, vae-se embora a mulher, si não se accerta um casal. Só não peora quando a porta fica aberta... “Si o totó latte la fora, della a ausencia sente, allerta. Si, aqui dentro, o bebê chora, a saudade é que me apperta...” Fiz tal trova e fui me pôr no logar de quem a dor sente, sendo a volta incerta. Mas, si a chance se lhe offerta, vem o Pedro e, em verso quarto, mostra a dor seguinte ao parto: “Si o totó latte la fora, della a ausencia sente, allerta. Si, aqui dentro, o bebê chora, vou trocar fralda, na certa...”

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TROVANDO A TROVA DO MILAGRE [3823] Todo aquelle que quizesse se curar, que se tortura com algum tumor que cresce, tem que estar, da cura, à altura: “Um milagre é o que accontesce quando alguem dum mal se cura. Dependesse só da prece, de ex-doente era a fartura...” Nesta trova, achei que a fé, por si só, tambem não é o bastante, nem a jura ao sanctinho da gravura. Entretanto, o Pedro quiz este quarto verso, e diz: “Um milagre é o que accontesce quando alguem dum mal se cura. Dependesse só da prece, minha picca era mais dura...”

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TROVANDO A TROVA DO PECCADO [3824] Saberá qual é seu lado quem não seja tão atheu nem tão sceptico, e seu fado saiba quando o meresceu: “Si é virtude ou si é peccado quem decide? Deus ou eu? Para o certo e para o errado livre arbitrio Deus nos deu...” Pedro Rocha, que é prophano, duvidou do ser humano e Escripturas nem as leu. Nos seus termos de plebeu, ao ler esta minha trova, deu no quarto verso a prova: “Si é virtude ou si é peccado quem decide? Deus ou eu? Para o certo e para o errado, quem não fode, se fodeu...”

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TROVANDO A TROVA DO FINGIMENTO [3825] Qual recheio ha de suppor quem receia meu pastel? Vae achar vento, si for esperar nozes com mel... “Duvidei do trovador, duvidei do menestrel: um só finge sentir dor; si outro soffre, faz papel...” Nesta trova eu, com Pessoa, suspeitei que a dor não doa nem lhes seja amargo o fel. Mas o Pedro, que é rebel, chulamente os desmascara e dos bardos mostra a cara: “Duvidei do trovador, duvidei do menestrel: um só finge sentir dor; outro goza dando o annel...”

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TROVANDO A TROVA DO DESEJO [3826] A ferida que me lesa talvez seja a que eu quizesse, pois nem tanto um mal nos pesa caso achemos que appetesce: “Quanto mais um homem reza, mais phantasma lhe apparesce. A mulher que me despreza peço ao sancto em minha prece...” Viu o Pedro em minha trova o pretexto que comprova por que a picca lhe enduresce. Sem que a verve delle cesse, substitue a quarta linha por estoutra que escrevinha: “Quanto mais um homem reza, mais phantasma lhe apparesce. A mulher que me despreza fiz que fosse a que me desse...”

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TROVANDO A TROVA DO DESTINO [3827] Trovas faço e tracto, nesta, da esperança no futuro. A vivencia nos attesta que o porvir é um tanto obscuro: “Hoje eu quero fazer festa, si ammanhan só passo appuro: o destino que me resta é viver sempre inseguro...” Meu eu bardo, o Pedro Rocha, que das trovas só debocha, vê que a minha tem um furo e lhe empresta um tom impuro. Pega aquella quarta linha e outra faz, melhor que a minha: “Hoje eu quero fazer festa, si ammanhan só passo appuro: o destino que me resta é cagar cocô bem duro...”

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TROVANDO AS TROVAS VIRTUOSAS [3828] “A mulher que não se affasta das virtudes é modesta: si ella é simples, não contrasta; si é discreta, não contesta.” “Castidade, só, não basta: a mulher que for honesta tem que, alem da vida casta, escrever CHRISTO na testa.” Duas trovas fiz, accyma, exaltando a mulher pia, mas deu Pedro, numa, a rhyma que a deturpa e que a vicia: “A mulher que não se affasta das virtudes é modesta: si ella é simples, não contrasta; si é currada, não protesta.” Na segunda, Pedro deu, na intenção de deturpal-a, esta rhyma, sendo atheu que dos vicios nada cala: “Castidade, só, não basta: a mulher que for honesta tem que, alem da vida casta, ler que é PUTA a que não presta.”

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TROVANDO A TROVA DO PERDÃO [3829] Ao suppor que Deus perdoa desde a puta mais sapeca ao burguez que os pobres zoa, minha trova o caso checa: “Dá perdão Deus à pessoa que tem vicios e que pecca. Mas jamais Elle abbençoa quem ao Demo se hypotheca...” Pelo lado satanista fiz tal trova, tendo em vista quem é contra Roma ou Mecca e em sanctinhos não crê neca. Mas o Pedro toma o caso de quem peque pelo attrazo: “Dá perdão Deus à pessoa que tem vicios e que pecca. Mas jamais Elle abbençoa quem exporra na cueca...”

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TROVANDO A TROVA DA APPARENCIA [3830] Muita gente tem costume de ver culpa num pivete por ser negro, ou, caso eu fume, qual doença me accommette. “Quando a flor não tem perfume, não cumpriu o que promette. Cor, appenas, não presume haver uva num Grapette...” No antigão refrigerante busquei rhyma, si a flagrante fraude em tudo se repete, da salsicha ao spaghetti. Mas ao Pedro isso não basta; quer a rhyma menos casta: “Quando a flor não tem perfume, não cumpriu o que promette. Cor, appenas, não presume que um negão faça boquette...”

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TROVANDO A TROVA DO SINO [3831] Todo bardo se revela algo candido, é verdade. Minha trova, pois, appella para tal simplicidade: “Quando o sino da cappella batte, eu fico com saudade. Phase boa foi aquella sem barulho na cidade...” Pedro Rocha ja não acha graça nesse thema e excracha um bordão do qual se enfade. Com calão meu verso invade, pega a minha trova e apponcta as questões que leva em compta: “Quando o sino da cappella batte, eu fico com saudade. Phase boa foi aquella sem motel, puteiro e grade...”

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TROVANDO A TROVA DO SITIO [3832] Todo bardo me responde não haver quem rhymas faça a não ser que sejam onde ellas tenham, mesmo, graça. “Quando um carro surge ao longe, faz lattir meu cão de caça. Mas, no sitio onde eu sou monge, ninguem chega... e o carro passa.” Si nos impares bastante é que rhymem na toante, esta eu quiz, por ser excassa, sem fazer qualquer trappaça. Mas o Pedro, indifferente, pares rhyma e bem se sente: “Quando um carro surge ao longe, faz lattir meu cão de caça. Mas, no sitio onde eu sou monge, só na bronha o tempo passa.”

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TROVANDO A TROVA DA MARGARIDA [3833] Pode um lyrico qualquer ver nas flores respondida a pergunta, si estiver no papel de quem duvida: “Para ver quem bem me quer, eu desfolho a margarida. Mas não acho uma mulher que me queira nesta vida...” É normal que a solidão seja assumpto sempre à mão quando um bardo se decida a fazer trova soffrida. Mas o Pedro logo excolhe o calão, caso a desfolhe: “Para ver quem bem me quer, eu desfolho a margarida. Mas não acho uma mulher virgem! Só mulher da vida!”

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TROVANDO A TROVA DA PONTE [3834] Ao trovar, não se ammedronte: tente abrir seu coração. Caso alguem o desapponcte, faça, em verso, a confissão. “Um segredo aquella ponte guarda, sobre o ribeirão. Si quizer que ella lhe conte, passe alli sozinho, então.” Quem se abriu sabe bem onde um romantico se esconde num momento de emoção, seja o gajo bardo ou não. Mas o Pedro estraga a dica e o desfecho modifica: “Um segredo aquella ponte guarda, sobre o ribeirão. Si quizer que ella lhe conte, fique alli cagando, então.”

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TROVANDO A TROVA DA SERESTA [3835] Trovador que não appella para a musica, e não tracta como amada uma donzella, não soffreu, só quiz mammata. “Bem debaixo da janella fui fazer-lhe a serenata. Declarei-lhe amor, mas ella ja dormia, aquella ingrata!” Pois o Pedro achou, matreiro, que um poeta seresteiro só faz typo e a foda empatta com aquella labia chata. Deturpou minha seresta e, glosando, propoz esta: “Bem debaixo da janella fui fazer-lhe a serenata. Declarei-lhe amor, mas ella a cagar estava, a ingrata!”

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TROVANDO A TROVA DA SOLIDÃO [3838] Quem da farra está cansado e questão de amar não faz, um pretexto acha, coitado, ao deixar de ser rapaz. “Antes só, diz o dictado, do que andar com Satanaz. De rezar eu não me enfado; de peccar não sou capaz.” Nem se importa, por covarde parescer, quem faz allarde da virtude contumaz ou, de espirito, da paz. Pedro assim é que interpreta a conducta do poeta: “Antes só, diz o dictado, do que andar com Satanaz. De rezar eu não me enfado; pois perdi, na foda, o gaz.”

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TROVANDO A TROVA DA CAMINHADA [3839] A mulher que encanta um bardo quasi nunca se revela. Elle achar-se felizardo pode, quando à trova appella: “Ao passar alli, retardo o meu passo e penso nella. Mais pesado fica o fardo si a não vejo na janella.” Pedro logo pega a trova e no bardo applica a sova, sem dar trella ao tagarella nem fiar-se na ballella. Troca aquelle quarto verso por um lubrico e perverso: “Ao passar alli, retardo o meu passo e penso nella. Mais pesado fica o fardo si a cueca meu pau mella.”

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TROVANDO A TROVA DA LAMA [3840] Quando chove, si eu exbarro com um carro, ja interpreto o pendor de tirar sarro que, ao choffer, é o predilecto. “Pela estrada, nenhum carro passa agora: tudo quieto. Ouço um só, que ammassa o barro, pois choveu, mas passa recto.” Presuppõe-se um caminhante que se exponha assim, durante um curtissimo trajecto rhumo ao secco e quente tecto. Pedro Rocha, tendo em vista tal problema, foi sarrista: “Pela estrada, nenhum carro passa agora: tudo quieto. Ouço um só, que ammassa o barro, e eu me fodo por completo.”

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TROVANDO A TROVA CANINA [3891] O martello eu adopto em meu soccorro, mas à trova não serve o dicto cujo. É por isso que, às vezes, eu recorro aos dois metros, e os dois desenferrujo: “De cachorro bravo eu corro, mas do manso eu nunca fujo. Quem amigo é do cachorro, sabe como é ser sabujo.” Esta trova, eu a faço consciente da carencia que um homem cego sente, isolado que nem um caramujo. Sei que um velho cantor não sobrepujo, mas o Pedro, mais rispido e directo, explicita melhor aquelle affecto: “De cachorro bravo eu corro, mas do manso eu nunca fujo. Quem amigo é do cachorro, ja lambeu sapato sujo.”

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TROVANDO A TROVA LUMINOSA [3892] Não pensei, nesta trova que compuz, na sujeira moral que nos encarde, muito menos em corpos ou cus nus, como o Pedro pensou, esse covarde: “Repararam como a luz da manhan com a da tarde se paresce? Se deduz que Deus brilha si o Sol arde.” Philosophica: assim pensei a trova, pois refiro-me à fé que se renova cada vez que o Sol nasce, sem allarde. Mas, fallando, risonho, o seu “Me agguarde!”, meu eu Pedro, mordaz e contundente, à nudez se refere e choca a gente: “Repararam como a luz da manhan com a da tarde se paresce? Se deduz que nos cus nus o Sol arde.”

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TROVANDO A TROVA SERTANEJA [3893] Num caboclo accredito, até no escuro: não lhe creio faltar honestidade. Seu machismo tambem eu asseguro: não ha bicha ou veado que lhe aggrade. “Sertanejo é rude, é duro, sem malicia nem maldade. Elle é rustico, mas puro: não traz vicios da cidade.” Elle é forte, é viril, antes de tudo, disse Euclydes, pois, masculo e barbudo, não lhe attrae o “chamego” dum “cumpade”. Só platonica achei sua amizade. Pedro leva mais longe essa macheza, resaltando-lhe a parte ainda illesa: “Sertanejo é rude, é duro, sem malicia nem maldade. Elle é rustico, mas puro: seu cu pau nenhum invade.”

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TROVANDO AS TROVAS SAUDOSAS [3894] Quem faz trova não tem tara, não compõe verso indecente. Quando diz que amou, é para confessar que ainda sente: “A saudade só separa corações physicamente. Si não vejo, cara a cara, quem amei, vejo na mente.” Mas ao Pedro, que é do mal, um amor sentimental não será sufficiente. Sendo um bardo irreverente, elle pega a trova e tira algo erotico da lyra: “A saudade só separa corações physicamente. Si não vejo, cara a cara, na punheta estou contente.” Sempre leio algum confrade, numa trova, a se queixar de que, à tarde, dá vontade de, saudoso, versejar: “À tardinha, o que me invade não é magoa do logar: O que sinto é só saudade de quem nunca vae voltar...” Fiz, então, esta, que falla do motivo de cantal-a no acconchego do meu lar sem das fodas cogitar. Mas o Pedro, que é mundano, glosa, e eu entro pelo cano:

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“À tardinha, o que me invade não é magoa do logar: O que sinto é só saudade dum cuzinho, ao me excitar...”

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TROVANDO A TROVA FORMOSA [3895] Trova nunca é brincadeira: ao poeta, é mais bemvindo o amor puro, que não cheira a desdem de alguem sorrindo. “A belleza verdadeira não está num rosto lindo. Caso o bello ver eu queira, olho a flor, si está se abrindo.” Entretanto, o Pedro encara sempre a trova pela tara que desperta, e vae curtindo seu obsceno instincto infindo. Quando um verso assim lhe cae nas mãos, isto, sim, o attrae: “A belleza verdadeira não está num rosto lindo. Caso o bello ver eu queira, olho um lindo cu se abrindo.”

97


TROVANDO A TROVA DICTOSA [3896] Não ha trova que me aggrade si a deturpa algum parceiro. Fescennino é meu confrade e eu só levo no trazeiro: “A maior felicidade não consiste no dinheiro. É melhor sentir saudade quando o amor foi verdadeiro.” Compuz esta simplesmente figurando alguem que sente o que eu ja senti primeiro, feito um vate seresteiro. Meu parceiro, o Pedro, não perde a chance do calão: “A maior felicidade não consiste no dinheiro. É melhor sentir saudade dum barato e bom puteiro.”

98


TROVANDO A TROVA DESDICTOSA [3897] Não ha trova que me enfade quando falla ao coração. Si é tristeza o que me invade, não serei tão triste em vão: “Fatal infelicidade vem depois duma paixão. Não sobrou nem a saudade, nem dinheiro no colchão.” Da desdicta algum proveito sempre eu tiro si, a respeito, compuzer um bom refrão na fugaz occasião. Mas o Pedro nem siquer valoriza meu mester: “Fatal infelicidade vem depois duma paixão. Não sobrou nem a saudade, nem na rolla algum tesão.”

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TROVANDO A TROVA DO PANORAMA [3898] Ao trovar, o panorama que nos cerca é como um mytho. Quem verseja e quem declama torna bello o que é maldicto. “O scenario do meu drama (Que ironia!) é o mais bonito: ella amou-me, e ja não ama, na varanda onde eu recito...” Si componho assim, é para mostrar como um bardo encara uma dor, que eu não evito confessar, digo e repito. Mas o Pedro, um bardo chulo, assim fecha, e eu, claro, engulo: “O scenario do meu drama (Que ironia!) é o mais bonito: ella amou-me, e ja não ama, nesta cama em que eu vomito...”

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TROVANDO A TROVA DO PASSARO [3900] Trovador não se sacia, por semana, com um par de quadrinhas, pois vicia a vontade de cantar: “Como o passaro, que pia sem nenhum dia pullar, eu componho, todo dia, uma trova popular.” Ao compor tal trova, eu quiz alludir ao mais feliz acto, ou triste: o versejar sobre a sorte ou sobre o azar. Pedro Rocha, porem, faz de tal acto o mais mordaz: “Como o passaro, que pia sem nenhum dia pullar, eu componho, todo dia, sobre o gozo ao copular.”

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SUMMARIO TROVAS NAS TREVAS TROVAS SEM TRAVAS REESTROPHANDO AS TROVAS TROVANDO A TROVA [3801].......................... 61 TROVANDO A TROVA DO SOL [3802]................... 62 TROVANDO A TROVA DA ESTRADA [3803]............... 63 TROVANDO A TROVA DO AMOR [3804].................. 64 TROVANDO A TROVA DO DOCE [3805].................. 65 TROVANDO A TROVA DA PORTA [3806]................. 66 TROVANDO A TROVA DO CASAMENTO [3807]............. 67 TROVANDO A TROVA DOMINGUEIRA [3808].............. 68 TROVANDO A TROVA DA VOVOZINHA [3809]............. 69 TROVANDO A TROVA DO URBANISTA [3810]............. 70 TROVANDO A TROVA TROVEJADA [3817]................ 71 TROVANDO A TROVA DA CHARTA [3818]................ 72 TROVANDO A TROVA DO MAR [3819]................... 73 TROVANDO A TROVA DOS NAMORADOS [3820]............ 74 TROVANDO A TROVA DO BEBÊ [3822].................. 75 TROVANDO A TROVA DO MILAGRE [3823]............... 76 TROVANDO A TROVA DO PECCADO [3824]............... 77 TROVANDO A TROVA DO FINGIMENTO [3825]............ 78 TROVANDO A TROVA DO DESEJO [3826]................ 79 TROVANDO A TROVA DO DESTINO [3827]............... 80 TROVANDO AS TROVAS VIRTUOSAS [3828].............. 81 TROVANDO A TROVA DO PERDÃO [3829]................ 82 TROVANDO A TROVA DA APPARENCIA [3830]............ 83 TROVANDO A TROVA DO SINO [3831].................. 84 TROVANDO A TROVA DO SITIO [3832]................. 85 TROVANDO A TROVA DA MARGARIDA [3833]............. 86 TROVANDO A TROVA DA PONTE [3834]................. 87 TROVANDO A TROVA DA SERESTA [3835]............... 88 TROVANDO A TROVA DA SOLIDÃO [3838]............... 89 TROVANDO A TROVA DA CAMINHADA [3839]............. 90 TROVANDO A TROVA DA LAMA [3840].................. 91


TROVANDO A TROVA CANINA [3891]................... 92 TROVANDO A TROVA LUMINOSA [3892]................. 93 TROVANDO A TROVA SERTANEJA [3893]................ 94 TROVANDO AS TROVAS SAUDOSAS [3894]............... 95 TROVANDO A TROVA FORMOSA [3895].................. 97 TROVANDO A TROVA DICTOSA [3896].................. 98 TROVANDO A TROVA DESDICTOSA [3897]............... 99 TROVANDO A TROVA DO PANORAMA [3898]............. 100 TROVANDO A TROVA DO PASSARO [3900].............. 101


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