Skip to main content

MANUAL DO TUTOR

Page 1


MANUAL DO

T U T O R

Glauco Mattoso

MANUAL DO TUTOR DE TOTÓS

São Paulo

Casa de Ferreiro

Manual do tutor de totós

© Glauco Mattoso, 2026

Editoração, Diagramação e Revisão

Lucio Medeiros

Capa

Concepção: Glauco Mattoso

Execução: Lucio Medeiros

Fotografia: Akira Nishimura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mattoso, Glauco

MANUAL DO TUTOR DE TOTÓS / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 142 Páginas

1.Poesia Brasileira I. Título.

25-1293 CDD B869.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira

NOTA INTRODUCTORIA

Publicada originalmente em edição impressa (2017) e reeditada ampliadamente (2021) pelo sello Lumme, a collectanea antes intitulada BASSETUDE DOURADA sae agora na versão digital, mais actualizada, incluindo sonnettos da nova safra (a partir do undecimo milhar), alem dos demais generos nos quaes occorre o thema bassetistico (motte glosado, madrigal, ode, infinitilho, etc.), contehudo reformulado em face da volumosa producção recente.

Esta selecta poetica é uma authentica prosopopéa cynophila que thematiza o cão das raças basset hound e dachshund, favoritas do auctor, cujo mascotte mais estimado attendia pelo appellido de Chicho ou Xixo e meresceu pagina propria em www. facebook.com/chichorrodagamma, alem de varias chronicas na blogosphera.

Outro titulo no qual Mattoso paga tributo à raça é A PREDILECTA DO POETA, publicado pelo sello Tordesilhinhas como livro infantil, com illustrações de Lourenço Mutarelli. Tambem no romance lyrico RAYMUNDO CURUPYRA, O CAYPORA, pelo sello Tordesilhas, a personagem de Chicho figura como animal de estimação, demonstrando que, em meio a tantos motivos de desillusão relativamente à especie humana, a affectividade canina desponcta como valvula de excappe para a faceta mais sentimental do poeta cego e revoltado com as barbaries da supposta civilização.

MOTTE GLOSADO [7406]

Meu bassê, chamado Chicho, faz mais manha que bebê.

Si deixarem, cheira lixo como reles viralatta, mas tem curta e torta a patta meu bassê, chamado Chicho. As orelhas, eu as ficho mais compridas, si alguem crê, que as do Guinness. Si você reparar no triste olhar, Chicho, prestes a chorar, faz mais manha que bebê.

Dengosissimo e fofão, quem resiste a tanto charme? Não consegue conquistar-me qualquer outro fiel cão. Um dachshund ou cocker não é tão fofo que eu me dê ao trabalho, aqui no apê, de cuidar de mais um bicho.

Meu bassê, chamado Chicho, faz mais manha que bebê!

MOTTE GLOSADO [7528]

Eu prefiro a minha parte em linguiça, sempre digo.

Minha pagina com arte foi creada e fama fez.

Mas não disso, olhem vocês, eu prefiro a minha parte. Não sou typo que descharte ter nas redes um amigo. Sou famoso, mas commigo mais combina amor que fama. Quero a prova de quem ama em linguiça, sempre digo.

Sou basset hound e meu dono me mimou: agora quero boa vida e sou sincero quando digo que ambiciono só passeio, lanche e somno. Mas no lanche eu só consigo salsichões comer e brigo si não for porção que farte.

Eu prefiro a minha parte em linguiça, sempre digo.

MOTTE GLOSADO [7585]

Quando a gente photographa um basset, flagra um saphado.

Faz um dengo, finge estaffa meu cachorro, que bem posa para as photos e que goza quando a gente photographa sua cara. Elle se sapha pela pose si é cobrado. Interesse, de seu lado, tem o bicho na linguiça que lhe damos. Quem attiça um basset, flagra um saphado.

MOTTE GLOSADO [7597]

Me tractei com um cavallo, mas prefiro o meu cachorro.

“Bassetherapia”: assim eu defino o que me tracta. Não ha forma mais sensata de cuidar-me. Mais affim que um doutor ou que um mastim é o basset, ao qual recorro. Si eu preciso de soccorro affectivo, é só chamalo. Me tractei com um cavallo, mas prefiro o meu cachorro.

MOTTE GLOSADO [7609]

Si o basset fica doente, com remedio não o curo.

Um mascotte às vezes fica indisposto, mas eu não levo ao medico o meu cão. Aos que querem, dou a dica: com carinho se medica um basset. O mais seguro é dar beijos. Sim, no duro! Beije mesmo! Experimente! Si o basset fica doente, com remedio não o curo.

Mais dengoso do que a gente é o cachorro. Quem tem um viu que a manha é mais commum si o basset fica doente. Mas remedios, caso eu tente lhe dar, elle corpo duro faz, recusa, e não atturo tanta manha! Um beijo dei e sarou! Agora eu sei: com remedio não o curo.

MOTTE GLOSADO [7643]

A surdez ninguem evita si o basset nem tudo escuta.

Conclusão melhor foi essa dicta pelo especialista em basset, que deu a pista: “Elle escuta o que interessa! É malandro o cão à bessa!”

Orelhona tem, astuta, que acha feios “banho” ou “fructa”, mas “linguiça” acha bonita! A surdez ninguem evita si o basset nem tudo escuta.

MADRIGAL ANIMAL [7676]

Chegou a sua hora, seu baixote! Ouviu? Va ja nanar no seu caixote!

Teimoso, o meu basset fará de tudo, disposto a não sahir do seu logar na salla, um tapetão grosso e felpudo. Mas passa ja das onze, me deitar eu vou e, no meu quarto, um salsichudo não dorme, pois não quero accostumar.

Ja foi, durante o dia, “bassear” e poz, esse orelhudo, pelo apê todinho a sua torta e modellar pattola. Agora chega. Qual bebê, terá que addormescer. E elle a sonhar está, si o dono, insomne, nisso crê.

Assim é meu cachorro, mas você se illude quando extranha essa attitude humana que elle assume, pois não vê que, deante da fofura, será rude tractar como “animal” esse basset tão typico na sua “bassetude”...

MADRIGAL INTENCIONAL [7715]

Meu dono diz a todos que sou manso e beijos dou na bocca, quando a alcanço.

Não é que eu seja facil ou devasso, mas todos os meus beijos são assim, de lingua, sem pudor nem embaraço. Me chamam de “salsicha”: para mim, estão elogiando, pois não passo sem duma demonstrar que estou a fim...

Não posso de “baixinho” achar ruim que alguem me chame, desde que um beijinho me deixe dar na bocca, pois não vim da selva, sou domestico, e carinho não nego, mas só quero o meu tiquim de almondega, linguiça, salaminho...

Ração, si eu não comer, ao passarinho advisa que a dará meu dono, e eu fico com raiva desse intruso! Aqui, sozinho, eu reino e ave nenhuma mette o bicco! Com outro “salsichinha” me engalfinho, até, si disputar commigo um tico!

Não sou, para o meu dono, nenhum mico, portanto, si em seu rosto a lingua espicho! Sei que elle sabe disso, e me dedico a ouvir, nas orelhonas, o cochicho que faz quando me aggarra e é meu mais rico presente: “Ah, meu basset! Dá um beijo, Chicho!”

MADRIGAL PROVERBIAL [7721]

O Chicho, o Chocho e o Chucho são os trez bassets que eu não terei, digo a vocês!

Um só ja dá trabalho, com as suas orelhas longas, pattas curtas, tão teimoso e tão dengoso! Que tal duas fofuras dessas, trez até? Serão demais na mesma cama! E, pelas ruas, nós quattro? Chega! Basta-me um só cão!

MANIFESTO REFORMISTA [7901]

“Está tudo fodido, Glauco! Ousar a gente necessita para pôr no azul as nossas comptas novamente! Reformas radicaes a gente vae fazer na vida publica, ah, si vamos! Fiscal, eleitoral, da previdencia, bancaria, trabalhista, patronal... A deixa approveitando, Glauco, nós queremos nos costumes ver limite! Na China ter irmão é prohibido! Aqui prohibiremos o cachorro, assim a “bassear” ninguem mais leva basset nenhum! Livramos a calçada de tanto cocô! Chega, nos apês, daquella barulheira! Não concorda? Tal como foi alli, cães nunca mais!”

-- Espere ahi! Votar quem vae? No lar dos proprios congressistas labrador ou cocker ha, não acha? Alem de quente, o thema não tem nada a ver e sae da pauta nacional e dos reclamos antigos do povão, que tem urgencia de eschola, de trabalho, coisa e tal... Pensou nisso? Na certa, logo appós cachorros prohibir, alguem palpite dará na nossa cama! Decidido será que ninguem pode, nem de Zorro, pôr mascara! De Adão, então, qual Eva irá phantasiar-se! Que mais cada um deixa de fazer? Que é que vocês esperam que resulte si essa chorda esticam? Diga! Alvissaras geraes?

MANIFESTO FEMINISTA [7917]

“Tem horas que eu me sinto uma coitada, me culpo, me pergunto o que é que faço, entende, Glauco? Sabe? Eu bem que quiz ser uma feminista! Mas reparo naquellas que idolatro, que eram tão autonomas, as duas! Sim, a Janis, alem da Mama Cass! Uma dizendo, chorosa, que voltava para casa sozinha, sempre, Glauco! Outra que ria, mas era appaixonada pelo Lennon, sabendo que, tão gorda, chance zero teria com qualquer outro rockeiro! Estou desconsolada, Glauco! Addeanta luctar para ser livre, si nos resta appenas solidão, Glauco? Me diga!”

-- Entendo, sim, amiga. Porem nada se pode fazer. Pense no palhaço que Lennon foi de Yoko! Ser feliz assim não dá! Ser bruxa sae mais caro! Não acha mais amor haver num cão? Adopte seu bassê! Si ao povo “panis” ja basta, ao bassê basta, como addendo, um osso, um biscoitinho! Mal se attraza você, chora, saudoso! Não seria melhor ganhar lambeijos? No veneno não fique, minha amiga! Feliz quero que seja! Assim, dispense o perdigueiro, o beagle, mesmo o cocker! Veja quanta ternura num bassê, quando faz festa! Melhore seu astral! Que diz, amiga?

MANIFESTO MACHISTA [7918]

“Que faço, Glauco? Estou desconsolado! Do Greaves eu me lembro! Em “Take a letter, Maria”, nos relata que, ao chegar em casa à noite, flagra a sua esposa nos braços de outro gajo! Tá, pretende ser digno, quer deixar a baixaria de lado: manda charta, copia tira, que passa ao advogado... Mas embrulha algumas roupas, deixa a casa, tudo na mão da trahidora, Glauco! Justo do jeito que commigo se deu! Acha você que seja justo, Glauco? Dá vontade de descer o braço, ser um porco chauvinista! Não concorda?”

-- Concordo. Sim, me sinto do seu lado, pois muitos amigões procuram ether, se drogam, se desgraçam, deixam lar, mobilia, carro, até o bassê à raposa! Revolta como a sua a gente entende. Mas pense no bassê! Qualquer Maria que fique com as coisas! Quem prefira trahir, se foda! Ao menos a fagulha de amor brilha nos olhos do orelhudo, não acha? Seu bassê conserve! Custo menor terá! Ração, uma bollacha, appenas, mas lambeijos ganhará! Não acha que compensa? Por prazer ja basta a punhetinha! Corte a chorda!

MANIFESTO SOLIPSISTA [7929]

“Me sinto um misanthropo, Glauco! Faz alguma falta alguem na nossa vida? Que nada! Amigos sempre decepção nos causam! Mulher, filhos, paes, avós só sabem nos pedir algum favor! Que fiquem de mim longe! Ja me basta cuidar do meu bassê que, coitadinho, precisa de mim tanto! Seu bassê não é, tambem, carente, Glauco? Não lhe cobra a companhia permanente?”

-- Sim, elles cobram mesmo. Teem um gaz damnado! Mas a gente até convida alguem que tem bassê num domingão, faz festa p’ra cachorro! Quem a sós se tranca si um bassê vier propor passeio? Quem resiste? Quem se affasta dum desses orelhudos? Seu vizinho tem um, não tem? Então! Como você se sente solitario? Ao quarteirão dê voltas, socialize-se! Então? Tente!

SCINTILLANTE TRANSEUNTE [8023]

Enganna-se quem acha que o basset ja morto vire estrella e fique la parado no universo, eternidade affora. Que elle vire estrella, sim, eu creio, pois ao anjo se assemelha. Jamais, porem, durante dia claro.

Passeia pela rua, mas você não pode vel-o. Saiba que elle está nos mesmos locaes onde -- Quem não ha de lembrar? -- esteve sempre, por assim dizer, nos encantando, longa orelha e curta patta, em tudo usando o faro.

Você não o verá, mas elle vê você. Tambem é visto por quem dá na rua seu passeio, si amizade fizeram: beagle, cocker ou mastim. Cachorros, mesmo os vivos, a scentelha de vida acham nos mortos, eu reparo.

COMING TO THE CANYON [8038]

Possivel si me fosse conversar appenas com cachorros, um amigo humano que não tenho certamente canino a mais teria. Como os Mamas and Papas ja cantavam, é preciso “to say good morning really meaning it” e, quando um cão diz “Au!”, quer nos dizer “Bom dia!” “Alô!” “Cadê minha linguiça?” Ou seja, diz aquillo que lhe vem à mente, sem fingir, sem falsidade.

Cachorro, quando morre, vira “star”, no céu uma estrellinha, mas te digo que é falso tal conceito, pois a gente não vê quando não quer. Nos nossos dramas estamos tão absorptos, que juizo nem temos para ouvir um cão que grite com outro (ambos ja mortos), para ver os dois a passear na fronteiriça calçada, no trajecto que ao Alem nos leva, pela vida, na cidade.

Não morrem, os cachorros. Nosso lar ainda, sim, frequentam. Meu castigo é vel-os, pois sou cego. Sei, descrente o povo é do que digo. Tu não amas teu cão? Não vês phantasmas? Pois te adviso: Phantasmas elle vê. Quem accredite naquillo que eu affirmo, tem poder tambem para notar quem é que attiça aquelle bassezinho que ninguem notou, excepto um cego ja de edade.

INFINITILHO COMPARTILHADO [8130]

{Ahi, Mattoso, quero que me digas si estou equivocado ou si nós dois entramos num accordo. Pois occorre que dó, mesmo, não tenho de ninguem, nem velho, miseravel, cego, mudo, currado, prisioneiro, cadeirante, emfim, ninguem da raça que se diz humana. Mas não é que sinto dó dos bichos? Sim, dó tenho de cachorro, ainda que feroz, si maltractado, faminto, abbandonado, coitadinho! Paresce-te talvez, Mattoso, que eu me mostro um insensivel? Mas tu tens, tambem, com cachorrinhos o maior carinho! Pelos homens tu tambem terás o meu desprezo? Me responde!}

-- Prezado cidadão, entre as amigas pessoas que me pedem nome aos bois, cachorros, gattos, patos, quem me torre o sacco nunca falta. Mas me vem alguem como o senhor, que falla tudo aquillo que sustento. Semelhante a todos os humanos sou, mas quiz deixar claro nos versos que chodó não tenho por ninguem, por ninguem morro de amores, nem por mim. Por outro lado, adoro cachorrinhos, com carinho refiro-me ao basset. Quem entendeu meu poncto me meresce parabens. Portanto, meu senhor, nada melhor que nós compartilharmos o que tem a gente em commum, sabe só Zeus onde.

QUEM TEM UM SALSICHUDO TEM TUDO [8151]

Quem tem um salsichudo ja tem tudo na vida e não precisa de mais nada. Faltou calor humano? Esse orelhudo mais vale que outro amante ou que outra amada.

Bassê, quem tem, tem sempre. Na segunda lhe lambe a cara assim que o dia raia e, mesmo si levou tapa na bunda, saudade sente caso você saia.

Na terça, vem com cara arrependida si mette onde não deve a patta torta, mas, quando ao nosso almosso se convida, só fica nos olhando e se comporta.

Si tempo me sobrar, levo, na quarta, meu fofo a passear, mas, nessa breve voltinha, de cheirar elle se farta e mette o narigão onde não deve.

Si chove, seu passeio está, na quincta, suspenso, pois molhar não pode a patta. Na cama é justo, então, que eu lhe consinta a chance de passar a tarde chata.

Não quero mimar muito, mas, na sexta, si a chuva não parar, o cão na cama permitto subir. Elle, que de besta nadinha tem, na colcha se exparrama.

No sabbado, o sol volta e meu bassê com outros quer sahir e brincar juncto. Tambem o seu passeia e com você nem posso conversar sobre outro assumpto.

Assim, pois, voltaremos, no domingo, ao parque e, com você, sempre percorro o rastro dos bassês, até que um pingo nos lembre de buscar nosso cachorro.

SALSICHARIA DOMINGUEIRA [8153]

O Xaxo, o Xexo, o Xixo, o Xoxo e o Xuxo são cinco bassethounds, cada qual mais fofo, mais malandro e mais gorducho, de tanto “pidões” serem, é normal.

O Xaxo, tricolor, mais amarello paresce, o que lhe dá cara de tacho. Do Xexo, preguiçoso e lento, o bello tom cinza xexelento eu jamais acho.

O Xixo, marron todo, por ser meu, suspeito sou si jogo meu confetti. O Xoxo, que é mais timido, no seu branquinho pello, é neve que derrete.

O Xuxo, todo preto, só na poncta da torta patta é branco e as orelhonas cahidas seu olhar fazem de compta que é triste, attraz de duas azeitonas.

Os cinco só se junctam no domingo a fim de bagunçar no parque, quando levados são de carro por um gringo amigo, o mais cachorro nesse bando.

Não posso accompanhal-os, mas agguardo que a tarde, lenta, passe e mais saudoso estou quando meu Xixo chega. O fardo da dor se foi. Seus beijos dão-me gozo.

ODE AO DESAMPARO [8158]

Por medo da represa, se evacua, inteiro, um logarejo. Si rompida, inunda cada casa, cada rua.

O povo sae às pressas. Deixa a vida diaria para traz. Algum abrigo encontram num albergue que os convida.

Mas vejam só que pena! Nem consigo crer nisso! Um animal que pesa mais de quinze kilos fica de castigo!

Não pode ir com os donos, ou os “paes”, siquer um basset hound de trinta e trez kilinhos! Quem será que ouve seus ais?

Só pode ser um cego, que vocês suppõem quem seja. Alguem traz o cachorro à sua casa, alem de outros bassets.

Pequenos cães e gattos teem soccorro appenas pelo peso? Que injustiça! Por todos eu de amores aqui morro!

Mas deixe estar! Provado que inteiriça esteja a tal represa, ter regresso às casas o povão logo cobiça!

De volta a cria querem? Pois impeço que levem o basset, que é meu, agora! Irei, por elle, à lucta, mas me estresso!

Si os “donos” o resgatam, quem ja chora é o cego, que sozinho continua, saudoso de outro amor que foi embora...

INTERESSEIRO COMPANHEIRO [8191]

A propria dona delle é quem entrega o pobre do basset: diz que é saphado, que rouba, coitadinho. Que será, pergunto-me, que fez esse coitado a poncto de ser justo o que ella allega?

De minha parte, em minha visão cega, appenas appalpando, sou levado a crer que esse cachorro não está ligando si tem fama de damnado, nem nada. Quer brincar com seu collega.

Ou seja, quer commigo na refrega correr, pullar. Não sae mais do meu lado. Me incita, me provoca, para la e para ca me chama. Quer aggrado, quer doce, quer brincar de pega-pega.

Um cego prevenido ja carrega no bolso uns biscoitinhos, resultado prevendo dum encontro, quando dá dois delles ao basset que, com seu brado mais rouco, pede bis, resmunga, offega.

Até que, de repente, peça prega no cego: de seu bolso outro boccado lhe furta, vae comendo tudo, ja comeu, o damnadão. Mas não me enfado do cão que, emquanto o mimo, não sossega.

DEFICIENTE UTILITARISMO [8468]

Um cego me contava que o basset não serve de cão guia, por andar somente em ziguezague. Si à mercê ficasse do cachorro, seu azar se multiplicaria. “Quem não crê (diz elle) no que digo, basta olhar sargetas, postes, muros... Vê você que varios attractivos vão mudar a ropta do basset!” Dar um rollê com elle significa “bassear”, jamais guiar alguem que ja não vê e escuta a rir o povo alli no bar.

PUNGENTE CONFORMISMO [8483]

Chegou o Jorge. Disse elle que vinha. Levou o cobertor, o colchonette, o pote escripto “Chicho”, uma bollinha mordida, sem mais nada que complete. Foi, para tanto amor, o fim da linha.

E o Chicho foi-se embora. Me promette o Jorge que terá todo o carinho do mundo, o meu basset. Que pincte o septe na nova casa, ao lado do amiguinho

Salô, basset tambem. E eu que me affecte.

Terá saudade? Eu, cego, aqui sozinho, chorei. A solidão maior é minha, pois elle se accostuma. Ja adivinho

Chichorro e Salomão, pela cozinha do Jorge, disputando um biscoitinho.

CARENTE COMPANHEIRISMO [8484]

Passados alguns dias, Jorge liga contando que não para de chorar o Chicho, da saudade que o castiga. Precisa retornar depressa ao lar antigo, se entregar à mão amiga.

Pergunto: Não formaram um bom par Salô com Chicho? Jorge diz que sim, mas nunca todo o tempo. O calcanhar do cego elle seguia, sempre a fim da minha companhia, seu logar.

Até que a solução não é ruim. Sentindo que me falta quem me siga, de volta acceito o Chicho. Para mim tambem foi duro, justo é que se diga! Basset quem tem, não tente nada assim!

PARABOLA PARADISIACA [8555]

Jesus, no Paraiso, um lindo anjinho abbraça e diz: “Por ordem do Senhor meu Pae, a dar-te tenho um recadinho. Estás vendo? Olha a Terra! Vê que horror! Ha muito sentimento mau, mesquinho!

Vae la, querido, faz este favor: expalha pelo mundo o meu carinho, expalha pelo mundo o meu amor!

Mas, antes que te ponhas a caminho, disfarsa-te, sinão irão suppor, por ser amargo o pão, azedo o vinho, que estás cumprindo o officio de inspector. Então, transforma as asas, com jeitinho, em longas orelhonas, muda a cor do pello, encurta as pattas, teu corpinho espicha, qual salsicha. Assim, quem for te ver, dirá: -- Que fofo! Que fofinho!

Vae logo, que darás allivio à dor de muita gente boa, ja adivinho.

Serás, emfim, meu anjo, um bemfeitor! Na volta, te darei um biscoitinho.

ADOPTIVO INCENTIVO [10.133]

Achou ser egoismo o Papa, só por causa dos casaes que teem um cão em vez de terem filhos. Mas eu não concordo que isso cause quiproquo.

um fofo bassezinho mais chodó será que qualquer rude molecão. O filho um cão exige? Uma adopção resolve. O cão fugiu? Quem sente dó?

Na rua a faixa diz que chora alguma creança. Achado o cão, essa creança cresceu e cahiu fora: à vida rhuma.

Quem é que cuidará do cão, da mansa fofura? A mamãe, ora! Alguem assuma que quem ficou mais ganha confiança!

AFFECTIVO INCENTIVO [10.137]

Fallou o Papa. Disse que é peccado casaes não desejarem ter um filho. Catholico, o casal um peccadilho commette e tem cachorro, um adoptado.

Um outro seu cachorro, para aggrado dos filhos, pagou caro. Maravilho meus olhos no bassê preto, com brilho no pello, orelhões, cara de saphado.

Com ambos os casaes um cão irá ficar até morrer. Os filhos não irão ficar jamais. Notaram ja?

Insisto nisto. O Papa, sempre tão mettido, que plantar batatas va! Mais vale, em vez dum filho, ter um cão.

SARADINHO NÃO: SERADINHO [10.163]

Glaucão, nós adoptamos um “serade” em casa! Sim, “sem raça definida”! O fofo ja mudou a nossa vida! Não ha melhor amor nem amizade!

Podemos nós manter attraz de grade um desses cachorrinhos? Não! Quem lida com livres cães de rua não duvida que, inquietos, façam como lhes aggrade!

Sim, Glauco, um viralatta caramello bem typico! Precisa ver que experto! Detalhe interessante eu lhe revelo:

Emquanto não estava alguem por perto, peguei-o, ja, lambendo o meu chinello! Lembrei-me de você, Glaucão, decerto!

BASSÊ MARRON, MARRON BASSÊ [10.174]

Glaucão, tenho um bassê todo marron! Você tem um, tambem marron bassê? Ja teve? Elle morreu? Porra, você devia arranjar outro! Um cão tão bom!

Preciso sempre estar, poeta, com meu fofo orelhudão! Você não vê o olhar delle, da cor do mel! Bebê paresce! Tem um pello de pompom!

Ha amigos que, em logar de ter nenen, preferem o bassê! Você devia, poeta, adoptar esse cão, tambem!

Não digo que elle seja bom cão guia, mas boa companhia não tem quem mais faça, nos affans do dia a dia...

DIA DO URBANISTA [10.227]

Nas urbes, toda praça deveria dispor de cachorrodromo! Não acha, Glaucão? Nada de imposto nem de taxa! Terá que ser gratuito, noite e dia!

Nos bairros mais selectos, a alegria seria do bassê, que só relaxa depois de ter ganhado uma bollacha, a aguinha, alem do beijo da tithia!

Sim, mesmo o viralatta caramello teria seu espaço! Não, racista não sou e pelos pobres tambem zelo!

Não, cegos não, Glaucão! Quem sua vista perdeu que fique em casa, de chinello, roupão e tudo! Seja realista!

DIA DA HOSPITALIDADE [10.232]

É facil perceber si sou bemvindo, poeta, a algum amigo, no seu lar! Sim, basta seus cachorros observar! Assim sei si ja fico ou vou sahindo...

Bassês tem um amigo: qual mais lindo nem posso distinguir! Sou, ao chegar, por todos festejado! Teem olhar tão meigo, tão gentil! Me esperam rindo...

Será por que lhes levo um biscoitinho no bolso? Ou será mesmo hospitaleiro um fofo desses? Finjo ou adivinho?

Um dia, não levei e, pelo cheiro, notaram que exquesci... Glauco, o focinho torceram-me! Senti-me interesseiro...

DIA DA ALPHABETIZAÇÃO [10.266]

Escrevem ja, no gruppo dos bassês, que curtem um “luau”. Não, não é mau, está correcto. Porra, mas “corau”, ou mesmo “karaukê”, não? Tu não vês?

Questão, naquella turma, alguem ja fez de termos como “aumigo”, tudo em “au”, usar. Tambem “encãotro”, num tal grau de excesso, que paresce insensatez!

Não achas “cãominhada” assaz horrivel, poeta? Consideras “Au Que Mia” bom nome num petshop de alto nivel?

Então nada direi mais, pois a thia que ensigna portuguez faz o possivel, mas essa cachorrada a silencia!

DIA DO CÃO DE RUA [10.271]

Fugindo do calor, um viralatta entrou na padaria, que tem ar melhor, refrigerado. Quiz ficar alli, mas a fregueza disse, chata:

“Não pode! É contra as normas!” Não se tracta de regras, mas de empathico pensar, commigo penso. O dono do logar a tempo demonstrou mente sensata.

Aguinha trouxe, deu até biscoito àquelle cachorrinho. Não demora, com elle virão outros, seis ou oito.

Parados na fresquinha, alli não chora nenhum. O bassezinho, mais affoito, roubou (Bem feito!) os pães duma senhora.

DIA DA “EIAI” NUM “AUAU” [10.301]

Ouviu fallar, Glaucão? Que intelligente maneira de estudar o que é que falla o nosso cachorrinho! Não se estalla o dedo, mais! Fallemos como gente!

Os bichos nos entendem! Sim, não tente ninguem assobiar, alli na salla, nem dar tolos commandos que algum “mala”, mettido a addextrador, em vão invente!

Teremos que entendel-os e fallar com elles claramente, coisa que essa veraz programmação torna vulgar!

Expertos são os bichos, cara, à bessa! Tomara que não queiram disfarsar aquillo que entender vamos depressa!

DIA DO ADDEXTRADOR CONSCIENTE [10.306]

Achar que intelligentes nós sejamos, accyma dos bichinhos, está dando mais panno para mangas! O commando que damos não os “treina”, convenhamos!

Ao cão que só obedesce, somos amos. Mas, quando um basset teima, nós, teimando, dizemos que elle é “burro”. Porem, quando faz isso, o cão se impõe por seus reclamos.

Basset que desaccapta não é bobo! Está manifestando opinião! Portanto, tão experto é quanto um lobo!

Aquelle cão robot, tão manso, tão “treinado”, esse que é burro! Sendo um probo subjeito, reconhesço tal questão!

DIA DO REENCONTRO DE RAÇAS [10.318]

Faz tempo que informado não sou, cara, daquelle cachorrodromo onde tanto bassê ja se encontrou! E, por emquanto, noticia ninguem teve! Quem repara?

Você não sente falta? Attente para as photos! Tem saudades, eu garanto! Hem? Vamos reviver aquelle encanto? Aos outros o bassê nem se compara!

Nem beagle, nem siquer um bulldoguinho francez, siquer um cocker, tem a graça daquelle salsichão pelo caminho!

Mas podem conviver, aqui na praça, si formos recordando, com carinho, das nossas emoções! O tempo passa!

DIA DO MUSICO [10.339]

Glaucão, o meu bassê sabe tocar piano! Não, piano percussivo, não! Elle nunca toca rock ao vivo! Piano de verdade, sem falhar!

Da frente suas pattas, devagar, appoia no teclado! Um selectivo criterio tem, à clara! Ahi, revivo Ravel e Debussy no meu radar!

Emquanto, uivando, canta affinadinho, as pattas, ao acaso, cada nota desenham! Só na mente, eu as sublinho!

É, Glauco, de vanguarda aquillo! Bota vanguarda nisso! O bicho, direitinho, bem toca, como quem, na rua, trota!

DIA DA ANXIEDADE DA ESPERA [10.369]

Glaucão, o meu bassê, si está sozinho em casa, não me espera sem uivar! Paresce que lhe espetam, sem parar, agulhas e alfinetes, coitadinho!

Pois é, quem me contou foi um vizinho que escuta a choradeira... Tem um par, tambem, de bassezinhos. Por azar, se junctam a lattir! Eu me apporrinho!

Hem, Glauco? O que você faria, amigo? Eu, quando ouço fallarem, quasi morro! Sahir de casa, agora, nem consigo!

{É simples! Leve juncto o seu cachorro em todas as sahidas. Tal castigo nenhum bassê meresce, eis meu exporro.}

DIA DO NUMISMATA [10.402]

Na nota de duzentos deveria, em vez dum viralatta caramello, um bello basset hound, esse tão bello cachorro, ter logar na allegoria!

Não acha, Glauco? O bicho nos envia mensagem de tristeza, mas não zelo eu pela falsa imagem que congelo na mente, desse olhar de sympathia!

O olhar triste lhe serve, na verdade, só p’ra fazer chantagem e ganhar mais rango, mais carinho ou attenção!

Dinheiro, p’ra fazer o que lhe aggrade, não pode faltar! Vamos dar logar, depressa, à nova nota de milhão!

DIA DO “BASSET ALMOSSANDO” [10.435]

Assim como varia a Sancta Ceia nas obras dos artistas, deveria haver tambem alguma allegoria accerca do basset nas artes, creia!

“Basset comendo” o quadro se nomeia. Teriamos Picasso, Dali, via museus de todo o mundo! Tambem ia pinctal-o um Portinari, de mão cheia!

Pincturas, esculpturas, até photo mostrando umas versões desse “Basset comendo”! Bem sublimes, sempre eu noto!

Portanto, deverá tambem você compor algum sonnetto que devoto se mostre dessa scena assaz clichê!

DIA DE COMBATTE AO ABBANDONO DE ANIMAES [10.482]

Um timido basset, um cão sem dono, na vespera das festas, pela rua vagueia. Não “basseia”. Appenas sua figura symboliza um abbandono.

Por annos, teve dono. Foi seu somno tranquillo, pois não ha quem substitua um fofo bassezinho. Mas actua no caso o seu azar, que eu não abbono.

Azares, os conhesço. Mas tomara que este dezembro verde sirva para mais casos evitar de cães sem tecto...

Na rua, não exsiste raça rara nem pura. Algum de edade se compara ao cego que, por vezes, interpreto.

DIA DO PHONOAUDIOLOGO [10.503]

Glaucão, o meu bassê sabe fallar direito, claramente! Em cada “au au”, ou antes, “eu eu”, não é nada mau o seu fallar lindão e singular!

Um phonoaudiologo, com ar pedante e impertinente, quiz dar grau zerado pro cachorro! Deu quinau por causa desse “eu eu”! Nem está a par!

Bassês lattem “eu eu” porque, de facto, são centro de attenções geraes! É justo que sejam egoistas! Sei que é chato!

Mas taes especialistas alto custo demandam, sem que entreguem, eu constato, algum saber! Não morro desse susto!

DIA DO CANTO KHORAL [10.510]

Uivar, como os bassês em khoro, não é facil, menestrel! Eu tenho trez que, quando vão cantar, fazem freguez o bairro todo, louco de emoção!

Eu toco Handel, Glauco! Quando um cão escuta aquillo, chama mais bassês e entoam a halleluiah que vocês, ceguinhos, de cor sempre saberão!

Alguem até gravou bons albuns com um khoro de bassês, cantando Bach, Beethoven, Mozart, mesmo um local som!

Ouvi, ja, Villa Lobos, Glaucão! Ah, que vozes! Quantos uivos, sem do tom sahir! Alguem discorda, ainda? Bah!

DIA DO PANETTONE DE CACHORRO [10.560]

Ja tudo “de cachorro” hoje está à venda, Glaucão! O meu bassê sempre me cobra aquelle panettone que é, sim, obra de intensa propaganda, que se entenda!

Embora algum careta até se offenda, productos “de cachorro” vão, de sobra, enchendo pratteleiras! É manobra sagaz que, no commercio, augmenta a renda!

Precisa ver, Glaucão! O meu bassê adora panettone! Quem iria vetar esse prazer? Irá você?

Por isso, não duvido: qualquer dia começam a vender algo que dê aos bichos o sabor duma ambrosia!

DIA DA CREANÇA COM CANCER [10.596]

O filho dum amigo ja não tinha mais chance de viver. Estava tão rhachitico, que ja tive impressão de ver um zumbizinho que definha.

Tambem me commovi com tão damninha doença. Algum sorriso, só si um cão viesse ao hospital. Mas os cães são uns anjos disfarsados. Um ja vinha.

Entrou no quarto um timido bassê, deixou-se tactear pelo menino. Hem? Pode imaginar isso você?

Eu posso. Ja sorrindo me imagino, depois de ter tocado num. Bem vê você que é bemfazejo um “Oi!” canino.

DIA DO HAMBURGER [10.597]

Glaucão, por um sanduba acho que eu morro! Mas tenho um bassezinho que tambem adora tal delicia! Ao caso vem: Por que não dar hamburger ao cachorro?

Nenhum veterinario dar exporro me venha! Si o bichinho disso tem vontade, não podemos deixar sem comer alguem por falta de soccorro!

Com hypoglycemia meu bassê até finge que está, caso o sanduba não ganhe! Caso serio, né? Não vê?

Por mais que o peso delle, depois, suba, não ha como negar! Caso eu não dê, será minha a pressão que se derruba...

DIA DE “BASSEAR” [10.610]

Calor, hem? Inda assim, meu cão não passa sem, pela tarde, ir dando uma voltinha aqui no quarteirão! Ja se encaminha correndo para a “sua” bella praça!

Alguem que piquenique nella faça não passa sem lhe dar uma coxinha, um peito ou uma asinha de gallinha! Glaucão, é o meu bassê mesmo uma graça!

Vou dando um pouco d’agua... “Bassear” se torna algo curtivel, mesmo num tamanho calorão neste logar!

Ah, todos elogiam o bumbum gordão, as orelhonas, esse par de tortas pattas... Nada de incommum!

DIA DE NATAL NO ASYLO DOS BASSÊS [10.634]

Um delles adoptado foi. Na hora de virem retiral-o os novos paes, os outros ja velhinhos animaes começam a uivar. Ah, quem não chora?

Mas elle se despede e, sem demora, sae para não voltar alli jamais. Assim que sae, começam os seus ais de novo os outros todos. Gente, e agora?

É providencial, pois, a chegada daquella senhorinha que lhes traz biscoitos de cachorro, um para cada.

Um só, não: trez ou quattro. Volta a paz normal ao orphanato. Não ha nada melhor. Mas ammanhan... Que é que se faz?

DIA DO BANHO NO CACHORRO [10.636]

Cadê meu campeão? Cadê meu craque, meu idolo, meu astro, meu galan, meu bamba, meu heroe, meu bambambam, meu principe valente, meu destaque?

Cadê meu cachorrão? Outro não ha que mais seja guardião, mais tenha affan de estar allerta sempre, de manhan, de tarde e pela noite, impondo um “nhaque”!

O “nhaque” elle dá mesmo é no seu cookie! Mas, quando o chamo para dar um banho, depressa foge! Sempre tem um truque!

Appenas um detalhe é que eu extranho... Na chuva, sae de boa! Nem encuque quem tenha algum bassê desse tamanho!

DIA DO ESTUDO DE COHORTE [10.654]

Alguns pesquisadores, affinal, puderam concluir que, mesmo só, quem possa conviver com seu totó irá sentir-se, mesmo, menos mal.

A polvora descobrem. Na actual vidinha, ja não temos a vovó, a propria mãe por perto. Quem tem dó da gente, si não for um animal?

Do nosso cachorrinho, só, teremos aquella companhia mais amiga que entenda aquillo tudo que queremos.

Não, esses scientistas, que se diga, estão attrazadissimos! Sabemos, mais que elles, como o nosso cão se liga...

DIA DA LINGUIÇA [10.697]

Devemos ter em mente esta premissa: Você quer aggradar algum bassê?

Então é muito simples! Tem você que estar sempre disposto a dar linguiça!

Nenhum outro petisco mais attiça a fome dum bassê! Ninguem que dê excappa dum lambeijo! Ja se vê que, para almossar, deixa de preguiça...

Na hora de comer ou do passeio, anima-se esse fofo salsichudo, mas sempre com cochilos de permeio...

Psychologos fizeram um estudo accerca dos bassês, mas eu não creio que muda alguma coisa. É gula, eis tudo!

DIA DO ANNIVERSARIO DE ELVIS [10.719]

Diziam que exquescia as lettras, ora cantando uma palavra, às vezes uma ja muito differente. Mas nenhuma fofoca se comprova, ainda agora.

Só que isso pouco importa. Quem adora esse idolo do rock encontra alguma noticia que faz, como se costuma dizer, furor. E o povo commemora.

Sim, Elvis se lembrava até da data que cada bassê delle tinha para fazer anniversario! Fonte exacta!

Agora ninguem lembra duma rara lorota sobre lettras. É mais grata aquella dos bassês. Nem se compara.

DIA DA ROUPINHA DO CACHORRO [10.754]

Primeiro, foi a touca para a orelha que, sendo compridissima, podia sujar-se e provocar até, por via infecta, a feridinha mais vermelha.

Depois, eis que a vizinha mais pentelha roupinhas acconselha... Covardia! Colletes, camisetas... A agonia não cessa! Até vestiram-no de abelha!

Coitado do bassê! Si não chorasse, no mundo não puzesse sua forte boquinha, até mais triste tinha a face!

Mamãe, emfim, notou que, desse porte, cachorro nenhum, tenha alguma classe ou não, obstenta roupa que comforte!

Um bollo com sabor de brigadeiro vi, Glauco, na vitrine! Eis que, temptado, comprei-o! Você sabe que meu lado chocolatra me faz vibrar inteiro!

Em casa, quero ser sempre o primeiro que come desses bollos um boccado! Deixei-o sobre a mesa. Ja affobado, tractei de me lavar, todo lampeiro!

Voltei para a cozinha, mas não deu mais tempo de evitar uma desgraça! Estava ja comido pelo Orpheu!

Orpheu é meu bassê, Glaucão! Quem faça com que elle se contenha não sou eu! Chocolatra tambem, tem minha raça!

DIA DO BOLLO DE CHOCOLATE [10.843]

DIA DOS DIREITOS ANIMAES [10.845]

Um cão é, sim, tambem um ser humano, tal como, um dia, Magri ja dizia. Não acho, pois, extranho que, por via legal, direitos tenha dum fulano.

Por isso, todo dia, a cauda abbano na hora em que meu dono me sacia com bifes e linguiças. Que seria dum pobre bassezinho ao léu mundano?

Exijo os meus direitos de bassê, sem duvida. Nanar e “bassear” são justos beneficios, ja se vê.

Mas nada ha que supere o paladar do bife, da linguiça, do patê de figado... São leis, la no meu lar!

DIA DO RABUGENTO [10.862]

Glaucão, tenho um bassê que é resmungão! Sim, sempre está de mal commigo, por não ter tanta linguiça ao seu dispor! Queria receber mais attenção!

Biscoitos elle ganha, mas, si não repete varias vezes, se indispor irá! Rabugentissimo, o meu Thor! Mas, mesmo assim, não quero um outro cão!

Si está de mau humor, elle, bufando, me lembra que quem fica no commando dos nossos mantimentos é o bassê!

Si está de bom humor, ainda quando ganhou mais um biscoito, me rosnando prosegue! Quer que trez ou quattro eu dê!

DIA DO KARAOKÊ [10.872]

Melhor karaokê não ha, Glaucão, que aquelle dos bassês! Que encantamento! Que fofos! Elles uivam no momento certinho, como sempre faz um cão!

Não gosta a vizinhança muito, não, mas acho tal momento cem por cento curtivel, menestrel! Ouvir nem tento os uivos de outros cães no quarteirão!

Ao som dos Beatles Barkers ou da Ritta Lee, cada basset hound modula a voz e manda ver, Glaucão, o que recita!

Na casa duns amigos, todos nós ficamos enlevados! Que bonita sessão! Hem? Ja pensou sendo uns forrós?

DIA DO RAPTO DE BASSETS [10.947]

Fugiu o meu fujão de novo, vate! Correu então à praça. Ja sabia que muito piquenique se fazia alli: foi procurar o bom combatte!

Notado foi, e logo. O bassê latte, pedindo por um naco, uma fatia, aquella linguicinha que sacia a gula do cão, fora algum tomate.

Levaram-no, depois. Quiz adoptal-o alguem dessa familia. Mas eu não cansei de procurar, nesse intervallo.

Achei-o. Devolveram, mas o cão fugiu de novo, vate! Esse é meu callo! Em casa, não tem tanta diversão!

DIA DO HIPPOPOTAMO [10.952]

Eu acho um hippopotamo o bichinho mais fofo do zoologico, Glaucão! Mais que o rhinoceronte, como não? Paresce um cavallinho mais gordinho!

Vontade não dá, Glauco (lhe encaminho aqui minha questão), de, como um cão, crear algum em casa? Passa a mão quem queira! Ah, que bichinho mais mansinho!

Não acha, menestrel? Ora, por que? Você não ama tanto os animaes? Não gosta dum fofissimo bassê?

Então! Um hippopotamo dá mais vontade de mexer! A gente vê que não irá morder, nunca, jamais!

DIA DO GATTO [10.958]

Não gosto dos bichanos! Tenho um cão que espera por mim, Glauco, que faz festa à bessa quando chego, não detesta carinho nem recusa a minha mão!

Cachorros nos perdoam quando não lhes damos attenção, si só lhes resta alguma migalhinha depois desta tão pobre e miseravel refeição!

Os gattos nos arranham si beijal-os quizermos, menestrel! Indifferentes são sempre e, delles, somos só vassallos!

Cachorros, não! Estão sempre contentes si estamos nós, e tristes si dos callos estamos, com o tempo, mais doentes!

DIA DE COMBATTE À DISCRIMINAÇÃO

RACIAL [10.974]

Eu gosto de bassês, Glaucão, mas acho tambem bom filho um cocker, labrador, dachshund ou beagle, mesmo si elle for velhinho, não importa femea ou macho!

Jamais tractei, porem, como capacho um desses viralattas, pois amor eu tenho aos caramellos! Nem suppor irei que para a rua algum despacho!

Sim, para mim são todos elles seres humanos, ou melhor, filhos de Deus! Com elles todos nós temos deveres!

Você tambem, Glaucão, ja teve seus filhotes adoptivos, que prazeres lhe deram, não foi? Nunca são plebeus!

OUTRO DIA DE “BASSEAR” [10.980]

Glaucão, o meu bassê, quando passeia, nos lixos tudo cheira! Até lhe digo que irá ficar, em casa, de castigo! Paresce viralatta! Coisa feia!

Até deixo que cheire minha meia, que fede mais que lixo! Mas, amigo, não quero que elle corra algum perigo comendo porcarias! Serio, creia!

Hem? Como? Quereria conhescer você meu cachorrão? Quer amizade com elle? Então teriamos prazer!

Não pense, todavia, que estará de boquinha aqui na meia! Não vae ter molleza assim, nadinha, meu cumpade!

DIA DO BISCOITO DE CACHORRO [10.988]

Maria, ammanteigado ou salgadinho, meu fofo bassezinho não dispensa nenhum! Eu sempre estoco na despensa pacotes mil, pois nunca sou mesquinho!

Sim, como “de cachorro” os taes allinho, pois, quando elle me vê comendo, pensa que ja não ha nenhuma differença entre elle e nós, humanos, coitadinho!

Si eu gosto dum biscoito, a conclusão mais logica será que elle tambem daquillo gostará, sendo meu cão!

Portanto, só darei ao meu nenen as coisas das quaes gosto, ora! Assim não magoo quem commigo está de bem!

DIA DA VALENTIA [11.015]

Cadê meu valentão, meu guardião attento, vigilante? E então? Cadê? Cadê meu caçador, que nunca vê perigo pela frente e é firme? E então?

Cadê meu grande heroe, meu campeão, meu idolo, meu astro, meu dublê, meu craque, meu galan, sim, meu bassê impavido, valente, emfim, meu cão?

Cadê meu salsichudo, que só tem, na vida, algum medinho -- tomar banho? E então? Cadê você, fofão? Não vem?

Tá certo. Que me fuja, nem extranho, mas, quando offerescer lhe vem alguem biscoitos, não sou eu que os abboccanho!

DIA MUNDIAL DO LIVRO INFANTIL [11.057]

Consegues tu, Glaucão, para a creança fallar em algum livro? Só si for fallando de bassês! Posso suppor que tenhas publicado coisa mansa...

Mais tarde, essa creança até que alcança teus themas mais pornôs, mas um auctor de livros infantis deve se expor o minimo possivel, sinão dansa!

Então A PREDILECTA DO POETA até foi adoptado num programma didactico de cunho official?

Percebes, menestrel? Em nada affecta a lyra, fescennina que se chama, si fores, às creanças, cordial!

DIA DO VIRALATTA [11.059]

O meu viralattinha caramello, Glaucão, não tem a classe do bassê cantado tantas vezes por você, mas digo-lhe: eu por elle tambem zelo!

Tambem elle costuma meu chinello roubar, tambem costuma na deprê ficar si estou tristonho! Que eu lhe dê biscoitos sempre pede! E como é bello!

Tão agil, tão experto! Um amoroso amigo não será, jamais, humano! Commigo concordou, caro Mattoso?

Bassês não menosprezo, mas não nano sem meu viralattinha! Mais manhoso qual é nem sei! Que importa si me enganno?

DIA DO CÃO GUIA [11.087]

Mas isso ja disseram! Um bassê não pode ser cão guia, pois, alem de não ter estatura, nunca tem perfeita direcção, logo se vê.

Andando em ziguezague, cada auê desvia-lhe a attenção. De longe vem um cheiro de linguiça? Ah, deixa, sem perdão, parado o cego, na deprê...

Na rua, a bassezada se interessa mais pelos bons aromas de comida que pelos cruzamentos que attravessa.

Sem chance fica aquelle que decida seguir algum bassê. Riria à bessa quem visse scena assim tão divertida...

MUNDIAL DO CACHORRO [11.092]

Francezes cães, inglezes cães, a gente conhesce todos elles, Glauco, mas suprema differença sempre faz a raça mais humana, mais carente!

Refiro-me ao bassê! Você não sente vontade de beijar, aggarrar nas orelhas compridissimas? Tem gaz, Glaucão, para brincar com elle? Aguente!

Aquelle salsichudo olha com jeito tão triste, tão pidão, que não resiste ninguem ao seu olhar! Eu me subjeito!

Biscoitos offeresço, faço chiste das suas tortas pattas, mas proveito quem tira é elle dessa cara triste!

DIA

DIA DO BEBÊ [11.102]

Achei bebê de gente engraçadinho, mas mais engraçadinho acho um bebê bassê, Glaucão! Só cego é que não vê! Alem do mais, é bem menos damninho!

Bebês humanos fazem cocozinho na fralda, mas você, sem mais auê, precisa trocar! Facil é você limpar a do bassê, que faz pouquinho!

Filhotes teem coxins rosados, são bastante brincalhões emquanto não estão nanando! Ora, acho uma gracinha!

Nenês, mesmo nanando, trampo dão! Transformam o papae num babacão, fallando um nenenez que me apporrinha!

DIA DA MUSA [11.160]

Não, minha musa nunca foi a bella nympheta, nem a thia solteirona que ser minha mulher, tonta, ambiciona. Nem todo bardo tal paixão revela.

Mas posso revelar: minha cadella bassê foi quem, pegando uma carona nos themas culinarios, fez a zona mais negra se tornar uma aquarella.

Emquanto viveu, Gypsy Lee me deu bastante inspiração para compor sonnettos, e momentos bons rendeu.

Agora, si pensar melhor eu for, terei que outra cadella, neste breu, chamar de minha musa, meu amor...

DIA DA PHOTO DO BICHINHO DE ESTIMAÇÃO [11.191]

Si a gente photographa algum bassê é certo que flagramos um saphado.

Repare nesses olhos! Bem lembrado! Parescem dum pidão! Hem? Quem não vê?

Repare nas orelhas! Vê você que, embora compridissimas, pro lado se mexem si elle escuta, de bom grado, palavras de interesse... “E então? Cadê?”

“Cadê minha linguiça, meu passeio? Cadê meus biscoitinhos de cachorro? Só photos minhas battem? Estou cheio!”

Às aspas, todos notam, eu recorro si delle pensamentos esses leio, até quando na gente deu exporro...

SONS AND DAUGHTERS DAY [11.229]

Ter filhos jamais quero, trovador! Prefiro ter bassês, esses amores que inspiram nossa vida! Si tu fores à minha casa, mostro-te esse amor!

De machos e de femeas sou tutor, ou dono, como dizem, mas as dores eu delles tomo. Nada de tutores nem donos. Sou papae. Sou, sim senhor!

Os chamo, de filhotes, não, de filhos. Estás pensando, Glauco, que não posso chamal-os assim? Sigo os estribilhos...

Que sejam só cachorros não endosso, pois elles, os bassês, teem mentaes brilhos e sabem que, por elles, eu me coço.

DIA DA MORTE DE ELVIS [11.237]

Não, Elvis não morreu, meu camarada! Hem? Quantas vezes tenho que fallar? Nem Lennon morreu, ora! No logar puzeram algum sosia, só, mais nada!

Assim, depois de toda a marmellada, puderam elles, vivos, com seu ar mais leve e triumphante, passear illesos por qualquer chique calçada!

Cansei de vel-os, Glauco, pois passeio por todo cantho, levo o meu bassê, que enxerga até phantasma, sem receio!

Mas fique descansado, pois você, que é cego, certamente irá, no meio dos idolos, sahir dessa deprê!

KISS AND MAKE-UP DAY [11.249]

Glaucão, si meu bassê fica de mal commigo, ja me sinto mal tambem! Quem é que tem razão? Elle é que tem! Não posso magoar um animal!

Eu fico mal, Glaucão, de forma tal que logo vou querer ficar de bem e só fazendo as pazes fico zen, voltando ao meu normal, que é cordial!

Só vejo uma maneira de ficar, de novo, de bem, mestre: si beijar bastante esse bassê que eu magoara!

E prompto! O cachorrão, que paladar tem para abbiscoitar biscoito, um ar sympathico faz! Lambe minha cara!

NATIONAL DOG DAY [11.251]

No dia do cachorro, o que se espera é ver muitos lambeijos ganhar quem tem beagle, labrador ou cocker, em festejos reunindo uma gallera.

Ninguem quer ter em casa alguma fera, somente esses bichinhos fofos, sem jamais nos exquescermos do mais zen, aquelle salsichudo. Ora, pudera!

Baixinho, orelha longa, patta torta, seu corpo compridissimo preguiça suggere, eis que com nada mais se importa.

Mas, quando um bom petisco o faro attiça, com festa nos recebe elle na porta, sabendo que ganhar irá a linguiça.

DIA DO PSYCHOLOGO [11.253]

Entende de bassês uma pessoa que estuda animaes, para, todavia, achar humana mente (Quem diria?) nos actos do bichinho. Não à toa!

Bassês bem ouvem nossa voz, que echoa por toda a casa, mas cabeça fria demonstram, mesmo quando a gente chia si não tiverem feito coisa boa.

Bassês somente escutam, isso ja foi dicto, o que lhes possa interessar. Ou seja, de comer o que se dá.

Ja para tomar banho, do logar não saem. Ouvir bronca? Ahi não ha um jeito, pois disfarsam. Não vae dar...

OUTRO DIA DA PREGUIÇA [11.259]

Pensei em levantar da cama, mas confesso que fiquei aqui deitado, poeta! Meu bassê tambem, coitado, deitar-se quer commigo e quieto jaz!

Nem ligo para aquellas linguas más que em tudo me criticam! Do meu lado estão os menestreis, cujo legado poetico um alento ja me traz!

Os celebres maldictos, todos, teem historico de incolume preguiça! Não fez exforço physico ninguem!

Nas lettras, o que sempre nos attiça, alem da beberagem, é ser zen, sem pressa levantar a propria piça!

DIA DO CACHORRO QUENTE DE CACHORRO [11.272]

Poeta, decidi que meu bassê meresce tudo quanto comer quero! Por isso obtive (e, para ser sincero, gostei) esse dogão, veja você!

É proprio p’ra cachorro: tem patê de figado no meio, sem ser mero enfeite, tem salsicha que eu espero de boa qualidade, tem purê...

Até experimentei... Sabe que fica gostoso mesmo? O fofo ja approvou! Agora a todos dou aquella dica...

Si tudo “de cachorro” for um show de estylo culinario, não ha zica: Dentadas nesse rango tambem dou!

DOGS IN POLITICS DAY [11.287]

Cachorros comprovaram que são bem politicos, por vezes, porque dão appoio popular a algum chefão local, tal qual um dono de armazem.

O gajo, candidato ja, mantem seu cabo eleitoral, um bassezão fofissimo, que encanta a multidão do bairro, com seu charme leve e zen.

Occorre que linguiça aquelle cara tem nesse seu emporio para venda, alem da refeição do cão... Sae cara?

Magina! É necessario que se entenda: Recursos, na politica, são para inglez ver, cão comer... Alguem apprenda!

OUTRO DIA DO PROTECTOR DOS ANIMAES [11.307]

Lembrando São Francisco, dizer quero que estou commemorando um bello dia, poeta, pois nasceu o meu cão guia na mesma data delle, que eu venero!

Você não tem cão guia? Acha severo demais o mau estado dessa via que, impropria para cegos, ficaria ao cão inaccessivel? Sou sincero...

Não ando por qualquer logar com meu cachorro, menestrel! Somente por aqui, no condominio! Percebeu?

Concordo, um bassezão, é de suppor, não guia assim tão bem! O meu Orpheu se liga só num cheiro ou num sabor...

NATIONAL CHOCOLATE DAY [11.342]

Ja tanto chocolate na folhinha achei, que em ephemeride não faço sonnetto mais nenhum. Mas um pedaço eu como si offerescem. Sorte minha.

Quem gosta desses doces ja adivinha que sejam “de cachorro”. Foi excasso, um dia, tal mercado, mas espaço ganhou e meu cão entra nessa linha.

Depois do panettone de bassê chegou o chocolate. Mas você errou si suppoz que era só ração.

É tudo “de bassê”. Só quem não vê não nota que elle pappa até pavê. Si for de chocolate, em dobro. Ou não?

NATIONAL CAT DAY [11.344]

Amigos, que gatteiros são, estão ja sempre suggerindo que eu adopte um gatto. Uma resposta ja foi motte: Exsiste gatto guia? Tenho um cão.

O gatto não nos deixa nem a mão passar pela cabeça. Alguem que bote no collo um gatto! Logo, de pinote, o bicho fugirá. Não, gatto não.

Cachorros, que ja tive, essa funcção não tinham de cão guia. Ainda assim, guiavam, sem parar, minha affeição.

Desculpem, meus amigos. Para mim, os gattos não teriam, não terão razão, pois sou demais carente, emfim.

DIA DO BANHEIRO COM PRIVACIDADE [11.363]

Cagar de porta aberta só será possivel si você mora sozinho, Glaucão, pois, do contrario, o seu bichinho entrar juncto deseja desde ja!

Quem tenha seu bassê sciente está de que elle necessita de carinho e exige companhia até no ninho sagrado da cagada, camará!

Por isso, trovador, o meu banheiro nem tranca tem na porta! Meu cachorro me segue e, de repente, entra primeiro!

Observa meu suffoco: quasi morro fazendo tanta força! Alem do cheiro, o cão curte, do troço, o som do jorro!

DIA NACIONAL DE DORMIR COM O CACHORRO [11.443]

À noite não consigo descansar. De insomnia soffro, mas, durante o dia, eu durmo piccadinho, uma alegria. Convido o meu bassê: “Vamos nanar?”

Bom somno não tem hora nem logar. Commigo o bassê nana, na macia caminha, no sofá, na lage fria, até, quando o calor nos faz suar.

Dormir com o cachorro não é tão tranquillo: elle se coça, empurra a gente da cama para fora, folgadão.

Mas elle sempre acceita, alegremente, si para nanar eu, que dormir não consigo, o convidei, na cama quente.

DIA NACIONAL DAS POMBAS [11.470]

Voando vae a pomba, appavorada. Mais uma, duas, voam. Todo o bando levanta voo. O panico vem quando, correndo, o bassê chega na calçada.

Mas ellas são malandras. Uma cada de volta vem, depois que esse nefando cachorro baixotinho foi fuçando em tudo, sem deixar excappar nada.

Assim sempre rollou. Marrenta, a pomba advista aquelle cão pelo caminho e graça quer fazer: delle ella zomba.

Um dia, vae voar e rir, mas tromba no muro. No chão tomba. Rapidinho, é caça ao caçador. A rede bomba.

DIA UNIVERSAL DO PERFECCIONISMO NO EVOLUCIONISMO [11.472]

Glaucão, o Creador bollou o cão depois de se inspirar numa figura mais proxima: a do lobo, cuja dura feição de ser feroz deu impressão!

Depois pensou melhor... A cara tão feroz ter poderia mais ternura! Assim o labrador creou, fofura que todos reconhescem no portão!

Mas era muito grande e não cabia nas camas, nos sofás... Eis que elle edita o cocker, cuja orelha se elogia!

Ainda descontente, Deus, um dia, consegue superar-se: abbaixa a dicta “salsicha”! Assim, perfeito, o basset cria!

DIA MUNDIAL DO MILAGRE PREVISIVEL [11.556]

Magrella, abbandonado, o bassê está no agguardo da adopção. Mas é ja quasi Natal e ninguem pensa, nessa phase phrenetica, nos bichos sem pappá.

Será? Pois este aqui deu sorte e ja achou quem o quizesse. Vae, em paz e sossego, bem comer, nem que extravase chodós quem tanta boia ao bassê dá.

Ja muitos commentaram: “Boa sorte, hem, teve esse bassê!” Mas a questão não é que um cão, mimado, se comforte.

Presente, quem ganhou mesmo, que importe frisar, foi a familia que esse cão adopta. Ha melhor anjo desse porte?

SONNETTO DA HYPERBOLICA PARABOLA [11.606]

Dengoso, o meu basset fazia manha si juncto o não levassemos à rua. “Mais infeliz do mundo” foi a sua maneira de fazer manha tamanha.

Mas, quando retornavamos, extranha mudança appresentava. Ja recua da pose de tristeza e não actua mais como quem affagos jamais ganha.

Então, “o mais feliz do mundo” o cão se sente, recebendo-nos com festa, e nós lhe damos beijos de paixão.

Assim se extende aos bardos a licção. Si emburra, algum tal clima manifesta que vem a Terra abbaixo. Um drama? Não.

SONNETTO DO BARULHO NA JANELLA [11.662]

Na rua a cachorrada não está podendo passear. Ficam em casa, lattindo la de dentro, o que bem casa com nossa paciencia, cheia ja.

Ja muito panellaço ouvi de la de fora. Não da rua que extravasa a raiva, mas do ghetto, como em Gaza, Varsovia, confinado no sofá.

Chineza, koreana ou hespanhola, a grippe não tem raça nem paiz. Aqui, pois, nosso povo é que é juiz.

Talvez para bassês ninguem dê bolla, mas, para quem defende seus civis direitos, a ração não tem matiz.

SONNETTO DAS QUEIXAS E RECLAMAÇÕES [11.712]

Alô! Seu Glauco? É Martha, mãe do Orpheu! Aqui tudo legal! Tudo, obrigada! Ahi tambem? Sim? Optimo! De nada! Mas sabe o que é, seu Glauco? Orpheu morreu...

Sim, ‘tava ja velhinho, sim, mas eu concordo c’o senhor. A cachorrada nos dá tanta alegria, né? Sim, cada bassê na nossa vida muita deu...

Mas elle reclamava, pois agora não dava p’ra sahir! Elle sentia, sim, falta do senhor... A gente chora...

Não chore, não, seu Glauco! Orpheu embora ja foi, mas ‘inda tenho uma alegria! Sophia, a bassê nova! Ja melhora...

SONNETTO DO CHINELLO [11.785]

Bassê espoletta, aquelle, que a farello reduz a licoreira de crystal!

A sua agilidade em tudo é tal que deve merescer... O que? Chinello!

Bassê, que não prefere caramello, mas mortadella! À falta, não faz mal, pois rouba qualquer doce, nacional ou importado! Pede o que? Chinello!

Bassê, que nem com vara de marmello lhe battem! Não se batte em animal, num bicho que... Meresce o que? Chinello!

Chinello, que por elle eu tanto zelo, tão fofo e comfortavel, por signal! Fazer o que? Roeu o meu chinello!

SONNETTO DA CARAPUÇA [11.928]

Si pela rua alguem gritar, bem alto, “Oi, corno!”, todo macho vae olhar. Tambem quando “Oi, veado!” outrem gritar, voltar-se vão os homens, eu resalto.

Si eu grito “Oi, puta!”, treme sobre o salto a mulherada toda do logar. Paresce brincadeira! Quer tentar? Funcciona mais que um firme “Isto é um assalto!”

Mas, quando você grita “Ai, coitadinho!”, ah, todos os bassês da vizinhança se voltam para quem tal phrase lança!

Eu proprio comprovei! Mesmo baixinho, si fallo “Coitadinho!” um ja ballança as longas orelhonas ou a pança...

SONNETTO PARA QUEM FAZ SALIVAR [12.034]

Glaucão, o meu basset tem a mania de vir cheirar meu tennis, minha meia, na hora em que tirei e cara feia faz minha mulher, todo sancto dia!

“Cachorro mais podolatra (diria você) não conhesci! Me deixa cheia de inveja a cabecinha!” Não tonteia um cego, de desejo, ou sou cricri?

Não fique chateado, Glauco! O meu chulé nem é tão forte! Não precisa chupar o dedo, de invejoso à guisa!

Garanto, o meu Orpheu, sim, ja fedeu bem mais que meu chulé! Si a gente pisa nas costas delle, sente a sola lisa...

SONNETTO DO SUPERBASSET [12.058]

E quanto ao supercão? Si for basset, terá superpoderes dum saphado cachorro, Glauco! Para seu aggrado, mais cheiros sentirá do que você!

Alcança altos armarios, caso dê vontade de comer algum boccado de doce, de biscoito, o que, levado da breca, rolla sempre, em meu apê!

Capaz será dum cheiro de linguiça sentir, onde estiver! O que será da nossa geladeira? Que injustiça!

Sofás alcança, quando se expreguiça! Na hora do passeio, poderá achar a lanchonette encontradiça!

SONNETTO DUMA MERENDA ESCHOLAR [12.120]

Até que emfim chegou a minha vez! Tornei-me professor e ver si colla eu quero minha idéa: a duma eschola de inglez para bassês, vejam vocês!

Um hound, que se chama Ralph, inglez ja sabe fallar, quando bem engrola o proprio nome! Hem? Outra boa bolla é Rudolph, um Rodolpho mais burguez!

Si “sausage” é linguiça, da salsicha qual termo preferir, a “frankie”, a “wienie”? Quem acha a traducção que mais combine?

“Dogão”, “cachorro quente”! Quem capricha na falla diz “hot dog”! Achou quem mime seu gordo salsichão? Não? Pois se anime!

SONNETTO

DA BASSETHECA [12.136]

Os videos no youtube mostram scenas incriveis de basset, Glaucão, em tudo mettendo o narigão, um abelhudo fuçando em nossas vidas, às dezenas!

Eu fui colleccionando, não appenas aquellas, mas até com filme mudo, caseiro, onde esse fofo salsichudo nos mostra as taes orelhas, não pequenas!

Basset se encontra, Glauco, nesta vida, andando até de skate ou, pela praia, surfando, sem da prancha que elle caia!

Comtudo, si fallarmos de comida, lhes mostrem a linguiça que, na raia, correr irá! Mais nada ha que o attraia!

SONNETTO TUTORIAL OFFICIAL [12.173]

Não, Glauco, não admitto ser “tutor”! Eu sou, do meu cachorro, mesmo o dono! “Tutor” é o cu da mãe! Me posiciono é contra a “correcção” sempre em vigor!

Que sanha que essa gente tem de impor palavras mais “gentis”, que eu não abbono! Que fique claro: nunca perco o somno por isso, só questão faço de expor!

Eu amo o meu fofissimo mascotte! Mas dono sou eu delle! Quem adopte que seja, tambem, dono, ora! Magina!

Me diga: Foi o Chicho o seu filhote saudoso? Não ha dono que um enxote! Não é? Quem um cão teve é quem opina!

SONNETTO DUM RASTEIRO INTERESSEIRO [12.210]

Por vezes o bassê, numa campestre morada, com desdem, nem liga para bichinhos outros... Outra vez dispara attraz dum animal dicto “sylvestre”...

Acharam “byzantina” a questão, mestre! Comtudo, ouvi ja gente que declara ser esse cão do typo que se enfara de todo cidadão que cães addextre!

Responde-me: bassês são caçadores assim, por natureza, por instincto, e tomam do terreno suas dores?

Verdade? Não confias, si tu fores com elle ao matto, ou mesmo num recincto? Me fallas só dum faro por sabores!

SONNETTO DUM PESADELLO-MODELLO [12.221]

Querido, que saudade! Estou ligada na tua condição, ahi, ceguinho, carente de cuidados, de carinho, sem sexo, sem amor, sem luz, sem nada!

Até ja me imagino ouvindo cada gemido teu, qual passaro sem ninho, de facto um assum preto, coitadinho, cantando de afflicção desesperada!

Não vejo, meu poeta, a feliz hora de estar ahi, cuidar do teu bassê, que deve dar trabalho quando chora!

Não chora? Nem trabalho dá? Tu fora me queres de teus braços? Nem que eu dê ahi nenhum pullinho queres? Ora!

SONNETTO DUM CASO BREJEIRO [12.275]

Glaucão, eu ensignei o meu bassê a, caso um cego veja, lhe rosnar! O cego, ao assustar-se, seu radar ja perde e que é feroz meu cão ja crê!

É muito divertido, meu! Você se expanta? Aqui no brejo, vacillar implica cahir n’agua! Salutar não é, pois que está suja a gente vê!

Fugir, desesperado, o gajo tenta e, logo addeante, cae na lamacenta lagoa! Não se affoga, mas só falta!

É farra appavorar quem se lamenta da perda da visão! Acha que penta sou, Glauco? Sou cruel, ou só peralta?

SONNETTO DO CACHORRO GATTUNO [12.348]

A camera flagrou quando um fofinho bassê no popular supermercado entrou, com seu rabão bem abbaixado, medinho demonstrando, coitadinho!

Glaucão, elle sabia qual caminho tomar até chegar aonde achado foi bello pacotão dum affamado biscoito! Como o achou bem adivinho!

É claro: pelo faro! Tresandante a queijo ou a linguiça, a tal bollacha eleita foi! Gostosa quem não acha?

Sahiu abboccanhando, triumphante, rabão erguido! Nem siquer se aggacha de medo mais! Alguem o bicco racha...

SONNETTO DA DOADORA [12.354]

Ai, Glauco! Uma surpresa quiz fazer eu para meu marido, no seu dia! Um lindo bassezinho parescia ser optimo presente! Que me diz?

Pois é, mas accontesce que feliz não fora a minha idéa! Quem diria? Meu homem era allergico (Sabia?) aos fofos cachorrinhos, tão gentis!

Então, infelizmente, eu obrigada serei a fazer uma doação!

A quem se interessar, eu dou noção:

Tem elle vinte e nove, está ja cada vez mais experiente e não diz não! De inglez é bom e teve educação!

SONNETTO

DO VOTO UTIL [12.365]

Quem vota no bassê vota na pizza, no bife, na linguiça! Dean nos grava e, em camera anthologica, tem brava performance, na frente da pesquisa!

Promette que em escadas ja não pisa quem nelle votar! Conta que estudava, que tinha boas notas, que jogava baskete e melhorar a vida visa!

Bassê que em eleições se candidata as discriminações combatterá!

Barrados os cães foram! Chega, ja!

Sim! Nos supermercados será grata a vinda dos bassês! Quem voto dá a um delles deixará que elle entrar va...

SONNETTO DO MARRON BASSÊ [12.381]

Glaucão, tenho um bassê todo marron! Você tem um, tambem marron bassê? Ja teve? Elle morreu? Porra, você devia arranjar outro! Um cão tão bom!

Preciso sempre estar, poeta, com meu fofo orelhudão! Você não vê o olhar delle, da cor do mel! Bebê paresce! Tem um pello de pompom!

Tem dotes o bassê! Você devia, tambem, adoptar, como seu cão guia, tal anjo, ousar andar onde eu palmilho!

Prefiro um filho desses! Quero, um dia, doar um a você! Ja não confia nos homens? Tal descrença compartilho!

SONNETTO AO CHICHORRO DA GAMMA [12.416]

Chichorro, o meu bassê, não foi um bicho commum, qualquer cachorro nessa linha rueira, nem tampouco um “salchichinha”, mas sim um “salchichão”. Chamei-o Chicho.

Agora, ao fallar delle, não espicho o pappo, pois me dá saudade. Vinha comer na minha mão a bollachinha gurmê, mais cara, nunca aquella micha!

Todinho marron, era differente dos outros salsichudos, tambem por saudosa formosura, alem da cor.

Sabia que estou cego. Transparente, seu olho me enquadrava, minha dor sentia. Só podia amor expor.

SONNETTO AO PRIMO BASILIO [12.417]

Tambem, como o Chichorro, foi Basilio da Gamma bassezão da boa raça, daquelles que, com força, a gente abbraça e delles lembra, aqui no triste exsilio.

A Dona Chicha teve muito filho (o Chicho, o Chocho, o Chucho); mais devassa, porem, foi sua mana, accabadaça de tanto ser mamãe de affogadilho.

Assim nasceu Basilio, todo preto, appenas, nas pattolas tortas, branco. Na praça, me encontrava alli num banco...

Agora que está morto, não commetto mais versos tão saudosos, mas arranco, por vezes, um soluço triste e franco...

SONNETTO AO CHOCHO, O RECHONCHUDO [12.419]

O Chocho, coitadinho, sendo tão branquinho, triste e timido, dos trez irmãos, todos fofissimos bassês, tem vida de qualquer mimado cão.

Os outros o perseguem porque são mais fortes e machões. Mas teem, talvez, inveja do que Chocho de cortez tem, feito um delicado caçulão.

Não rosna, não resmunga. Só nos vira as costas quando fica magoado. A gente, então, se deita do seu lado.

Até que elle se rende: não surtira effeito tanta manha. Algum aggrado nos pede e, satisfeito, sente enfado.

SONNETTO AO SALOMÃO, UM AMIGÃO [12.421]

O Jorge (na verdade, George) tem um fofo bassezão, mas reconhesce que é mal accostumado. Bem meresce a fama que tem, de “easy to spoil”, hem?

Si brinca com um outro, tambem sem vergonha que nem elle, reza prece a gente a São Francisco! Si eu pudesse contar tudo o que inventa tal nenem!

Não, coisa de comer jamais deixada ser pode pela mesa, pela pia!

Salô vasculha mesmo, todo dia...

Da gente nem espera que dê nada: Subindo vae na perna! Pede, enfia aquelle narigão, tem a mania...

SONNETTO DO CEGO E DE SEU CACHORRO [12.527]

Pensaram se tractar só dum cão guia, mas logo perceberam: o bassê andava em ziguezague. Sim, cadê a chorda na colleira? Não havia!

De nada addeantou sahir à via o cego com cão dessa raça. Vê qualquer um que elle irá pôr à mercê seu dono dos perigos, todo dia.

Em casa está, accamado. Foi attraz daquelle cão teimoso, que não faz questão de ser, da gente, egual babá.

Dois passos, e cahir foi nessas más calçadas. Se quebrou todo. Sim, mas ao menos uns lambeijos ganhou, ja.

SONNETTO DA PET THERAPIA [12.621]

Glaucão, por que será que essas creanças doentes, no hospital, precisam tanto da vinda dum bichinho? Meu expanto é que ellas sempre guardam esperanças!

Tu podes entendel-as, as alcanças nos sonhos que accalentam? Accalanto não ouvem, mas se accalmam sempre, emquanto tocarem orelhões, pattas ou panças!

No quarto, a creançada accorda, fica allerta, animadinha, ja sorri, ja brinca, appesar dessa triste zica!

Um cancer? O bassê se promptifica a ser o mais fofinho que um gury ja vira, antes da morte, é o que se explica...

SONNETTO DOS CIUMES DO CIUME [12.653]

Glaucão, não me conformo! O meu marido é muito ciumento! Não de mim, mas deste cachorrinho! Um bassê, sim! Mas... como sabes qual meu preferido?

Pois elle é que é culpado si eu decido ter este bassezinho! Sim, só vim a tel-o por ter elle num mastim seu maximo chodó, sua libido!

Sim, desse cachorrão elle estará querendo mais que cama! Acho que está, de facto, cahidão! Isso me affecta!

Por certo, me expliquei bastante e ja tu sabes que me sinto só babá dum fofo bebezinho! Sou discreta!

FILHO ADOPTIVO [12.863]

Glaucão, de companhia a gente sente carencia, você sabe. Mas agora o filho que eu não tinha achei urgente ter, mesmo um adoptado! Sem demora!

Glaucão, felicidade estava ausente de casa, mas emfim chegou a hora de braços abrir, beijos docemente dar nesse ser fofão que vem de fora...

Nos olhos do bassê percebo o brilho daquelle que será sempre meu filho, até que, então precoce, venha a morte...

Você chora, Glaucão? Eu ca me pilho, tambem, a chorar... Isso foi gattilho: Emquanto o bassê vive, temos sorte...

FILHARADA [12.878]

De filhos não queria saber nada o rispido marido, que mandava, grosseiro, na mulher. Mandava à fava alheios commentarios. Que mancada!

Mamãe ella queria ser, coitada, mas elle se negava, cara brava fazia. Fez, machão, que fosse escrava domestica a mulher, inconformada.

Mas essa situação se inverteria. Alguem presenteou com trez bassês o joven casal... Outro dia a dia!

Agora, quem carinhos nunca fez faz sempre! Quem chorava, ja sorria! Mais trez adoptarão depois, talvez...

SONNETTO DO GAROTINHO BONITINHO [12.969]

Pestinha, ah, como corre, pulla, grita aquella creancinha, “linda” aos paes, appenas! Mas até seus paes uns ais ja soltam... Affinal, quem não se irrita?

Que filho! Uma creança tão bonita, segundo os paes! Mactou os animaes do parque! Hem? Actos antinaturaes commette... Hem? Affinal, quem não se irrita?

Ah, desse jeito, um dia, aquelle tão bonito garotinho faz no apê a linda fogueirinha... Ah, que emoção!

Eu acho que concordo com você, Glaucão... Muito melhor é ter um cão! Sim, era preferivel ter bassê!

SONNETTO DA VOLTINHA AO QUARTEIRÃO [13.125]

Sim, saio, com a minha cadellinha bassê, que “bassear” sempre deseja. Você não vem tomar uma cerveja? Sahude tem melhor quem mais caminha!

Quem gosta de bassês pára, accarinha a fofa cabecinha. Ja fareja biscoitos, a damnada! Não se peja de extranhas mãos cheirar. Ella adivinha.

De queijo um pão alguem lhe deu. Agora que está mais satisfeita, vem embora commigo. Não é, Glauco, uma gracinha?

Si está chovendo, claro que ella chora!

Só põe o seu focinho para fora da porta. Ah, que vontade que ella tinha!

SONNETTO DO LADO BOM DA RUA [13.149]

Eu, quando vou à rua, mais me traz comforto, num soffrido coração, a voz dum basset hound. É que esse cão me faz sempre exquescer das coisas más.

Si estou accompanhado, o outro rapaz ja sabe: é p’ra parar. Faço questão de nelles dar ammassos. Taes cães são tão meigos! De beijal-o sou capaz...

Notou o rapazinho que me guia que eu gosto de bassês. Isso não nego. Não é que elle de todos ja desvia?

Fallou que foi mordido: “Só de cego aquelles salsichões gostam!” Não ia dar para accreditar... Que cruz carrego!

SONNETTO DA MANIA DOENTIA [13.154]

Ouvi fallar, Glaucão, duma boneca que imita direitinho uma creança de berço! Tão perfeita, que ja alcança o nivel dum humano! Com a breca!

Bebê do typo chora, ri, defeca, chichi faz, solta peidos, pulla, dansa! Mamãe põe no bercinho, não se cansa de fraldas trocar! Sae barato? Neca!

Mania por mania, a minha tenho! Prefiro um bassezinho que, bebê ainda, nunca cresce! Hem? Grande engenho!

Eu finjo que elle falla, até, que vê si estou doente e, como no desenho do Spielberg, tem poderes! E você?

SONNETTO DOS HOLOPHOTES NOS FILHOTES [13.183]

Fofissimo, o bebê mamma de banda na teta da mamãe. De banda nana, tambem, appós mammar. Elle nem anda, ainda. As orelhonas, ja as abbana.

Ninguem num bebezinho desses manda, pois, desde cedo, mostra-se sacana. Mal fica desmammado, ja desanda, nas carnes, a morder com toda a gana.

Às vezes, mais de septe, na ninhada, precisam da mamãe sugar a teta. Mais lindos que esses anjos não ha nada!

Emquanto salsichinhas são, sem treta, carinho ganham. Quando cresce, cada bassê que comportar-se nos prometta!

SONNETTO DUMA IDENTIDADE SUPERFLUA [13.188]

Glaucão, meu viralatta caramello ganhou green card! É serio! Tem até a photo delle, embora na ralé seus paes origem tenham! Sim, é bello!

Tem cara de malandro, lhe revelo, mas, ‘inda assim, otario ninguem é a poncto de chamal-o de Mané! A raça tem verbete, ja, no Lello!

E então? Não vae pedir que seu bassê tambem um documento desses tenha? Não mesmo? O que se passa com você?

Siquer seu passaporte nem se empenha você que se renove? Não que dê mais para viajar alem da Penha...

SONNETTO DUM MASCOTTE NO CONVESCOTE [13.219]

Mattoso, que eu lhe conte me permitta... Faziamos um bello piquenique, no bosque, eu e collegas... Claro fique: Levava cada qual sua marmita!

A minha até que estava bem bonita, com ovos e linguiça! Quem critique tal rango que consuma algo mais chique! Fallar dum nutrichato só me irrita!

Não é que essa linguiça defumada o faro despertou dum bassezinho? Dos olhos num piscar, não sobrou nada!

De todos os collegas excarninho juizo recebi, mas, adoptada, me trouxe essa fofura seu carinho!

SONNETTO AEROVIARIO [13.370]

Irmãos, fiquei sabendo que bassês não podem viajar num avião, excepto na bagagem! Isso não! Jamais acceitarei! Não sei vocês!

Eu sempre desses voos fui freguez, mas, hoje, só viajo com meu cão! “Supporte emocional”, dizem... Então, precisa vir commigo! Sem talvez!

Si fico com medinho na viagem, eu ganho mil lambeijos do bassê! Cachorros bem treinados assim agem...

Vocês viajam sem alguem que dê lambidas de carinho? Foi bobagem aquillo que fizeram! Quem não vê?

SONNETTO DORMITAVEL [13.422]

Nanar é tão gostoso! Meu bassê que o diga! Ah, si eu pudesse dormir tanto! Si hinverno, lhe colloco um quente manto por cyma! Ah, como nana meu bebê!

Você não dorme tanto? O que você faz para addormescer? Ouve esse canto khoral, gregoriano? Ja faz quanto tempinho? Muitos seculos? O que?

Assim tão velho, mestre, é que se sente você? Mas meu bassê só viverá mais dois ou trez anninhos, ja doente...

Melhor somno que a morte? Hem? Não, não ha! Appenas cochilamos, aqui! Tente pensar nisso, meu caro camará!

SONNETTO IRRECENSEAVEL [13.513]

Qual bairro de São Paulo que tem mais bassês? E la no Rio? Quem irá contar-me? Pelas redes, alguem ja contou onde encontrar mais animaes?

Gattinhos na Tijuca? Aonde vaes achar mais papagayos para la das praias, hem? Em Jacarepaguá? E micos? E tucanos? E pardaes?

Bassês em Curityba abundam, mas são poucos no sertão ou em Goyaz. Excedem em Floripa, até em Londrina...

Por causa da linguiça, tambem faz questão de ser Bragança a terra das maiores “basseatas”, hem? Magina!

SONNETTO DO DESMAMME [13.515]

Si, para ammammentar sua ninhada, aquella mamãe sempre estava prompta, agora não aguenta mais e, tonta, ja foge dos filhotes, não quer nada.

Estão para doal-os, pois é cada bassê bem brincalhão: por sua compta algumas armadilhas ja desmonta, taes como, do bercinho, uma beirada.

Emfim, se livra delles a mamãe, coitada, cujas tetas machucadas estão pelas mordidas dos bebês...

Até que novos filhos ella ganhe, quietona ficará, nas almofadas deitada: solidão sente, talvez...

SONNETTO DO PERSONALISMO [13.626]

Um dia, perguntei ao meu bassê si devo tomar banho. Respondeu o cão: “Claro que não! Faz que nem eu! Mantem o teu cheirinho, o teu buquê!”

O que é que irei fallar? Dizer o quê? É como um documento dum plebeu qualquer, de identidade, que tem seu valor na sociedade, ja se vê...

De facto, si eu puder minha morrinha manter, todos verão que tenho minha feição inconfundivel na cidade...

Um dia, ainda adopto, nessa linha canil, personalissima, a lindinha mania de mijar em muro ou grade...

SONNETTO DO TURISMO [13.645]

Glaucão, presenteei o meu bassê, no seu anniversario, com um bello passeio pela praia! Nem revelo as coisas que elle fez! Diga você!

Exacto: fez cocô! Quer que eu lhe dê mais dicas? Foi cagar bem no castello de areia dum moleque! Cara, appello à sua deducção: Fazer o quê?

O filho dum turista abburguezado escandalo fez! Veiu viatura, junctou gente... Foi feio o resultado!

Agora meu bassê, si me procura querendo “bassear”, daqui do lado nem saio: o meu vizinho tudo mura...

SONNETTO DO BAPTISMO [13.748]

Suggira, menestrel, um nome para aquelle bassezão que eu adoptei! Não vale suggerir nem Vanderley nem Socrates, nem Nero! Não tem cara!

A cara delle, Glauco, se compara a algum Bartholomeu, ou, si for rei, ao proprio Salomão! Tambem direi que fica bem Tristão, si nos olhara!

Alfredo, “Gordofredo”, Ralph ou Brutus, alem de Elvis ou Lennon, eu acceito! Até Sherlock e Chaves são astutos...

Hem? Acho que é Rodolpho o mais perfeito! Melhor ainda Chicho! Ficam putos os donos dum Beethoven, que eu rejeito!

SONNETTO DO LOBBYSMO [13.998]

Um lobby estou fazendo, no Congresso, a fim de que prohibam ao bassê identicos direitos que um bebê possue, em aviões, de ter ingresso!

Bassês são mesmo fofos e confesso que entendo por que sempre tem quem dê logar na janellinha ao cão, que vê vantagem quando vae ou no regresso...

Não, mestre! Esses bassês ficaram tão folgados, que preferem viajar na classe especial dum avião!

Tomaram totalmente meu logar e, quando reclamei, quiz um fofão daquelles uns lambeijos vir me dar...

Casa de Ferreiro

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
MANUAL DO TUTOR by ed.casadeferreiro - Issuu