

Glauco Mattoso
MANUAL DO HUMORISTA
São Paulo
Manual do humorista
© Glauco Mattoso, 2026
Editoração, Diagramação e Revisão
Lucio Medeiros
Capa
Concepção: Glauco Mattoso
Execução: Lucio Medeiros
Fotografia: Akira Nishimura
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Mattoso, Glauco
MANUAL DO HUMORISTA / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 188 Páginas
1.Poesia Brasileira I. Título.
25-1293 CDD B869.1
Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira
NOTA INTRODUCTORIA ou DISSONNETTO CLASSICISTA [0187]
Os gregos e latinos são modello e herança do poeta gozador. Difficil não nos é fazer humor; difficil é deixarmos de fazel-o. Partindo de Aristophanes, que fel-o em phase de apogeu e de exsplendor, passando a Juvenal, onde o sabor piccante em Marcial ganha cabello, a satyra é fatidica ao poeta, tal como oppor um alvo frente a um missil. E si me perguntarem si é difficil fazer a poesia mais directa, direi que são os ossos do meu vicio, encargos duma tara mais abjecta. De duas, uma: ou facil seja a meta, ou é quasi impossivel nosso officio.
DISSONNETTO FLATULENTO [0192]
O peido, mais que o arrocto, inspira o riso gostoso, desbragado, gargalhado, da parte de quem pode ter peidado, emquanto os outros fazem mau juizo. Com base no meu caso é que analyso, pois, mesmo estando a sós, enclausurado, gargalho appós os gazes ter soltado e adspiro meu fedor, feito um Narciso. Me ponho a imaginar a reacção de alguem affeito a normas de ethiqueta, do typo mais esnobe e mais ranheta, colhido de surpresa ante o rojão. Meu sonho era peidar fumaça preta na mesa dum banquete, desses tão formaes e, appós a explicita expulsão, deixar que a gargalhada me accommetta.
DISSONNETTO GORDO [0328]
Emilio de Menezes approveita a lenda de seu porte arredondado. Com brilho, trocadilhos tem bollado e às vezes os limites não respeita. De bonde viajando, certa feita, sentou no mesmo banco, lado a lado com outro typo gordo advantajado, mas tanto peso o assento não acceita. “Primeira vez que vejo”, disse, “um banco quebrando, não por falta, por excesso de fundos!”, no seu tom jocundo e franco. Que gordo! Como gordo, foi confesso! Tão critico desdem eu não desbanco! Sem duvida, o segredo do successo do gordo é não deixar passar em branco a chance de gozar seu proprio sesso.
DISSONNETTO DA RESISTENCIA LUDICA [1287]
Palhaços, quando morrem, dão motivo até para a canção da banda ingleza. Mas quando o terrorismo como presa os visa, à humanidade é mais nocivo. Si disso depender, não resta vivo nenhum truão siquer, tão indefesa está a categoria ante a vileza dos “contras”, em seu vicio vingativo. São estes contra tudo que traduza humor, brinquedo, riso: o terrorista vê culpa até em creanças, e as accusa. Fascista, a tal Brigada Moralista de todos os maus methodos abusa. Mactando os comediantes, tem em vista calar a gargalhada. Mas a musa não morre: pede ao bardo que resista.
DISSONNETTO DO PAPAGAYO GONSALESCO [1626]
“Cocrette! Bicycreta! Cardeneta!”
Assim repete o louro, para expanto de quem pagou por elle nota preta: {Caralho! Falla errado e custou tanto!}
O dono, inconformado, antes que metta a mão no passarinho, volta ao cantho da loja, onde o comprou numa mutreta, e cobra de quem disse “Eu lhe garanto!”
Se excusa o vendedor, com voz amiga: “Que foi? Argum pobrema? Não me diga que o bicho não fallou! Não quero briga! Não gosta, me adevorve, e se arresorve!”
Depois de devolver o papagayo, dalli sae o freguez, tal qual um raio. Arranja o gajo, que não quer “trabaio”, um bicho que não falle e não extorve.
DISSONNETTO PARA UMA CHARIDADE QUE SAE CARA [2145]
Incrivel, mas é facto. Elle consegue comer da merda em publico, por grana!
Ninguem ammarraria alli seu jegue, mas todos querem vel-o, acham bacchana.
Divertem-se: “Isso é comico!” Ha quem negue?
Lhe trazem a “linguiça”, de que emana um cheiro insupportavel. “Vamos, pegue na mão! Ponha na bocca! Mostre gana!”
A turma ordena, grita: “Coma mais!”
Chegou, dos cagalhões, o mais massiço. Gargalham os rapazes, para os quaes um cego deve mesmo aguentar isso.
Exigem que elle ria: “Cê não gosta?
Não quer nos aggradar, mostrar serviço?
Então coma sorrindo! Tem mais bosta!”
E alguem traz mais um pouco de “chouriço”.
DISSONNETTO PARA O PORTEIRO DO MOSTEIRO [2309]
Me chama o padre Hilario? “Agora, não!”
Por que? “Precisa ouvir quem se confessa!”
Mas e depois? “Tem missa! E está com pressa, não pode se attrazar na confissão!”
Depois da missa, dá? “Não, meu irmão!
Talvez só p’ra ammanhan!” Porra, com essa eu não comptava! É coisa que interessa que eu trago, porra! Perco o tempo, então?! “Que traz nessa saccola?” Chocolate! Fiquei devendo ao padre esta encommenda! Si não entrego em mãos, mamãe me batte!
Tomara, aqui, que alguem me comprehenda! Não quero ser mais tempo quem empatte! “Ah, bom! É bem difficil que elle attenda alguem, mas dá, sim, desde que se tracte de urgencia! Eu vou chamar, tá? Não se offenda!”
DISSONNETTO PARA O TRACTO DUM TRACTANTE [2310]
A filha do alfaiate faz favor ao padre: ir passar roupa lhe promette. Cumprido o tracto, ao menos um boquette o padre pede à moça, sem pudor. Moedas lhe offeresce si ella for gentil: um monte dellas! E repete: “São suas, todas!” Ella acceita: mette na bocca a picca e prova-lhe o sabor. Appós gozar, e tendo a joven puta cuspido a porra, o padre um nickel só na mão lhe deposita. Ella relucta, ainda achando um gosto no gogó: {Mas… uma só, depois dessa labuta? Não eram todas minhas? Tenha dó!} Responde elle: “Serão, sim! Não discuta! Serão, uma por vez, é claro! Tó!”
DISSONNETTO PARA A BUÇA E A CARAPUÇA [2311]
Um padre, exaggerando no sermão que costumeiramente faz, se exalta emquanto à mulherada apponcta a falta maior no matrimonio dum christão: “Trahir! Nada peor que a trahição!”
No pulpito, exbraveja, pulla e salta. Suando, a cruz empunha, que é bem alta e grossa, ammeaçando as que la estão: “Cês acham que esta porra é só de adorno?
Não é, não: é porrete na cabeça da puta que o marido faz de corno e minha mão pesada aqui meresça!”
Peor é tal palavra que suborno, pois quem àquella egreja comparesça verá que estão, bastando olhar em torno, com medo todas que o bastão lhes desça.
DISSONNETTO PARA A EDUCAÇÃO DO CHRISTÃO [2318]
Meu filho, veja la, não faça feio!
Não deixe que ninguem lhe dê porrada!
Si alguem lhe der, você dá, para cada porrada, um ponctapé la bem no meio!
Si algum filho da puta ja lhe veiu pegar no pé, cagando regra, nada accapte e uma resposta dê, bem dada, mostrando que ja está de sacco cheio!
Si apposta uma cerveja, ou si for vinho, não pague! Si pagar, beba primeiro, não deixe a “irmão” nenhum nem um golinho!
Podendo, um garrafão cê seque inteiro!
Não, nunca arrede pé do bom caminho!
E, para ser christão, mas verdadeiro, no bolso leve sempre, bem junctinho ao terço, uma navalha de barbeiro!
DISSONNETTO PARA UMA CONFISSÃO PERDOAVEL [2353]
Ai, padre…! (a peccadora diz) Eu fiz besteira! “Então, que foi que você fez?”
Xinguei o meu marido, desta vez!
“De que?” De corno manso! “Que me diz?!
Só isso?” Sabe, padre? Eu tambem quiz mactar o meu gattinho siamez…
“Por que?” Quebrou meus potes de patês!
“Que mais?” Bem… practiquei uns actos vis…
“Quaes actos?” Eu… trepei com um rapaz…
“Rollou tudo?” O senhor mesmo deduz…
“Então foi pela frente e foi por traz?
O gajo comedor será de cus?”
Perdão eu peço pelo obsceno, mas…
Até na bocca, padre! “Oh, meu Jesus!
Peccou demais, menina! Va em paz, mas volte à noite: eu deixo accesa a luz…”
DISSONNETTO PARA UMA INCULTA MULCTA [2368]
É facto conhescido: os padres dão valor damnado à grana. O meu, astuto, a mulcta instituiu de meio puto àquelle que disser um palavrão. E minha vez chegou, pois, quando não ganhei uma partida que disputo nas chartas, eu ja xingo e já discuto, soltando um “Va tomar no cu, me’rmão!”
É foda! Na parochia, cada filho da puta é um dedo-duro: do que eu jogo e fallo o padre chato ouviu e logo ficou sabendo que eu sahi do trilho.
Vou la, chamo o vigario e dialogo, mas, p’ra pagar-lhe um puto, ja engattilho o rispido e anecdotico estribilho: “Ah, va você tambem, padre, eu lhe rogo!”
DISSONNETTO PARA UMA PROVA IRREFUTAVEL [2501]
Com cego não se brinca! Ao restaurante vae elle e, sem chardapio em braille, o jeito é um pedido ao garçon, que foi acceito: trazer-lhe uma colher suja, o bastante. Aquella da panella, isso. E, durante seguidos dias, elle, com perfeito paladar, prova e sabe o que foi feito na hora: accerta sempre e se garante. Para sacaneal-o, o garçon pede que Chica, a cozinheira, na chochota dê cheia colherada. A esposa accede. E o cego, que a colher na bocca bota: “Cê tá de sacanagem! Não me dede que a Chica aqui trabalha! Que chacota!” Por mais que um casamento, assim, azede, ninguem pode perder uma anecdota.
DISSONNETTO PARA OS GAGOS MULHERENGOS [2684]
É mu-muita cru-cru-cru-crueldade!
Mu-mulher, fi-fizeste-me um estrago! De nervoso, estou fi-ficando gago! E tu me ma-ma-mactas de saudade!
Eu fa-faço tu-tudo que te aggrade, mas ne-nem si-siquer ganho um affago! E quando eu, so-sozinho, va-va-vago pe-pelas ruas, acho um con-confrade: Mas elle é o con-contrario de mi-mim, pois sua ga-gagueira é intencional. ne-nem sempre elle fa-falla ma-ma-mal: si está com mu-mulher, não age assim. “Si, no sallão, eu acho aquella tal garota que procuro, o mal tem fim e ja não fica a vida tão ruim; si não, gaguejo, é na-na-natural!”
DISSONNETTO SOBRE UMA HISTORIA DE PESCADOR [2925]
Adoro a vida, quando estou pescando. O rio, aqui, se chama Gereré. Siry-pattola, aqui, vem no seu pé brincar de dar pinçada, e vem em bando. Não temo caranguejos, porem quando eu fui pescar no mar, cheguei até a ver daquelles baitas! Bote fé, amigo, no que agora estou contando! Meu barco está encalhado numa ilhota e, quando me dou compta, que é que eu vejo? Qual é a população que aquillo lota?
Exacto, meu amigo: caranguejo!
Enormes, todos elles! Mas, de bota, chutei-os fora! Como num despejo!
Duvida? Mas você não é quem vota naquelle que roubou tudo, sem pejo?
DISSONNETTO SOBRE A THERAPIA DO RISO [3029]
Si for lettra ruim “calligrafeia”, Millôr pegou: seu “Novocabulario” registra que um turista é “perdollario” si às compras, no exterior, demais passeia. Não é para extranhar que a gente leia ser “anglomeração” qualquer gregario magote de britannicos, e hilario é o termo a quem tiver humor na veia. Meu “abracadabraço” nunca nullo effeito causa a amigo que é do peito. Si é falsa a “chartomente”, ja calculo ser minimo o “equilebrio” do subjeito que, bebado, nem pode dar um pullo. Lembrando do Millôr, eu me deleito com essas pillulinhas. Fico fulo de novo só si passa logo o effeito.
DISSONNETTO SOBRE UM FIASCO SEM ASCO [3066]
Papeis os mais ridiculos eu faço na hora de comer uma fatia da torta de morango: o cego enfia na bocca, com os dedos, o pedaço. O creme me empastella e deixa um traço branquinho pela cara. Ha quem não ria, ao ver-me, da fatal physiognomia que obstento, semelhante à dum palhaço?
Na poncta do nariz vê-se grudado, inteiro, um vermelhissimo morango, e o comico retracto é remactado ao som duma bandinha de fandango. Sim, ja me conformei sendo gozado! Si forem me filmar durante o rango, que scenas flagrarão! Mais me degrado filmado emquanto chupo, e nem me zango.
FATAES NATAES [3089]
Natal! Que desejar, sendo sincero, a alguem que considero? Peço então que aquelle homem do sacco vermelhão penetre no buraco, dizer quero, da sua chaminé! Que ganhe, espero, algum peru carnudo e, pelo vão, lhe venha a pomba! Vão das pernas? Não! Da telha! E agoure sorte à hora zero! Emfim, neste Natal, eu lhe desejo, affora que Noel não seja avaro, exguichos, gritos, risos! Fique claro, refiro-me à champanhe! E vale o ensejo: Pendure a meia usada! Assim, meu caro, que a noite escurescer, eis o que almejo: trocar por nova a sua! Ahi, festejo cheirando a que ganhei, um mimo ao faro!
EXCARNEO E MALDIZER [3427]
Quem foi alvo do epigramma não se offende nem se humilha. Mas quem é que não reclama quando o alveja a risadilha? Dum politico a má fama o epigramma, em flagra, pilha. Risadilha attenção chama para a esposa, a mãe, a filha. A mulher se diz “modello”. A mãe tenta defendel-o, mas a filha o compromette, pois com crapulas se mette. Uma é pega dando a chota, outra a flagram quando bota tudo dentro num boquette. Quem a fode ‘inda é pivete…
CANTIGA DE AMOR [3505]
Te amo tanto, porem tu correspondes de mentira!
Nunca vi teu corpo nu!
Tua roupa ninguem tira!
Ninguem mesmo? Acho que o cu tu ja deste! E ha quem prefira tua chota, pois tutu sei que pedes, si és da lyra! Não, não negues! A Chiquinha, tanto tempo attraz, não tinha pejo algum e confessava ser mulher que se deprava!
Si não queres meu amor, deverei, talvez, propor que tu sejas minha escrava? Anda! A lingua, ahi, destrava!
CANTIGA DE AMIGO [3506]
Amigão te considero, mas não tens retribuido!
Tenho sido tão sincero que teus golpes nem revido!
Não dirás que eu exaggero, nem que teu orgulho aggrido, si soffreu meu cu severo damno desse pau comprido!
Tu, sem dó, por traz me arrombas, como a todas essas pombas desvirginas, e eu atturo, sem chiar, tamanho appuro!
Mas não venhas com cobranças, si mais fundo não alcanças: não tens pincto, ja, tão duro, meu querido, te asseguro!
CANTIGA DE EXCARNEO [3507]
Não me faças rir, amigo!
Como egual jamais te tracto, si o que quiz eu fiz comtigo, até gatto e até sapato!
Não revidas meu castigo porque és frouxo, otario nato!
Para a tua dor nem ligo!
Mais supplicas, mais te batto!
Si arrombei teu cu, tal como uma chota, é porque eu domo da vassalla até o vassallo!
Posso, pois, cantar de gallo!
E erecção, meu pau tem tanta, que foder-te até a garganta por traz posso, si te empalo!
Sei que piso no teu callo!
CANTIGA DE MALDIZER [3508]
Nem te conto, amiga! Aquella mulherzinha é vacca ao gado! E accreditas? A cadella faz cu doce ao namorado!
Aos fuxicos quem dá trella mais ainda é o tal veado que ao amigo, em vão, appella por estar sendo arrombado! Mas que gente mais vulgar, não concordas? Vou fallar francamente, entre nós dois, ora bollas, ora pois!
Que ninguem nos ouça, mas dessa moça e do rapaz dado o nome foi aos bois! Chuparão meu pau, depois!
PATHETICO PAPEL [3976]
Quando um cego é comediante, fica a duvida: será que elle é bom? Mas quem garante que está a graça onde ella está? Não será mais humilhante perceber que alguem que dá gargalhada a todo instante ri do cego, e não do pla? Sim, pois delle dão risada! Elle pensa que a piada que contou seja engraçada por si mesma, e as palmas justas. É preciso que se allerte: a platéa se diverte nelle: “O cego que se apperte! Eu relaxo delle às custas!”
DING DONG [4159]
Senhores, attenção! Temos aqui um typico gorilla, como estão podendo ver. Mas esse macacão cresceu demais, não acham? (Ninguem ri) Attentem só, senhores! Um saguy paresce, perto delle, mais anão ainda, uma pulguinha! Alguem a mão deseja pôr no bicho? E aquillo alli? Incrivel, cavalheiros! Vejam só que membro monstruoso! E fica duro si a gente mexe nelle, ó! Viram? Ó! É carne de verdade, eu asseguro! Que tal? Que estão achando do chodó? Que é isso? Essas correntes de aço puro se partem? Não resistem? Tenha dó! Não fujam! O macaco é manso, eu juro!
DISSONNETTO ORAL SEM SER VERBAL [4165]
Assim, “Ora, meu filho…”, por escripto, paresce até que o padre recommenda que sua ovelha reze. Não se offenda, portanto, quem tiver fervor convicto. Ouvindo, porem, soa-me exquisito, pois ha quem “Ora, bollas!” nisso entenda. Si alguem houver trilhado errada senda, na certa supporá que leva um pito. O padre a voz varia: ora diz “ora” dum jeito que impressão boa nos passe, em tom agudo, como si affirmasse a crença; ora, em tom grave, quasi chora. Que tudo é fingimento, em sua face está patenteado. Resta, agora, daquella mais catholica senhora que o padre escute “É foda!” e se embarace.
AUDIODESCRIPÇÃO DE FILME MUDO [4186]
A festa está animada. Muita gente chegando. Os trez amigos entram nessa. Na mesa da comida, alguem começa a se servir. Os trez entram na frente. Alguem reclama. Um velho, impaciente, empurra um dos amigos. A travessa de torta outro pegou e ja arremessa na cara delle. O tempo fica quente. Respinga massa numa dama. A dama revida e attira torta noutra. Vira bagunça. Leva torta quem reclama e leva quem se fira, caso adhira. A gente, rindo, lagrymas derrama. Os trez tambem guerreiam. Um attira seu pratto contra os outros. O programma termina assim. Foi tudo de mentira.
PROPRIEDADE DE EXPRESSÃO [4404]
Um padre não diz “Ui!”, siquer um “Ai!”. Jamais exclama “Porra!” nem “Caralho!”, siquer numa afflicção, num acto falho. São taes interjeições offensa ao Pae!
Será mais impensavel dizer “Vae p’ra puta que o pariu!”, mesmo si o ralho for contra, entre os pestinhas, o pirralho que empurra a estatueta, e o sancto cae. No exacto instante, um padre só diz “Oh!”, que, alem de ser euphonico o tal brado, é termo mais solenne e mais sagrado, quer seja de alegria, dor ou dó!
Diria o padre Sylvio, o padre Amado, ou mesmo o Julio um “Oh!” discreto, um só, que vem de la, de dentro do loló, si fosse no local massageado.
DE CEGA [4520]
As irmans cegas se dão, mas às vezes brigam: quando se extapeiam, os que estão ao redor ficam gozando. Uma tenta o bofetão accertar, mas erra, dando no ar os golpes. De rir não cessa, em volta, o alegre bando. “Vae, ceguinha! Dá pernada!” A platéa mais se antenna. “Desce o braço!”, a turma brada, divertida com a scena. Quando as cegas, emfim, param de brigar e fica amena a sessão, os que gozaram dellas fingem sentir pena.
SALVO PELO GONGO [4539]
Sentado na cadeira do barbeiro, entrego-me à perita mão que minha grisalha barba faz: limpa e lisinha a pelle vae ficar o dia inteiro. Porem, meu intestino traiçoeiro resolve expulsar gazes… Porra! Tinha que ser agora? O peido depressinha sahir quer… E o barulho? Oh, não! E o cheiro? Me mexo, me contorço na cadeira, tentando disfarsar: finjo que estou appenas me adjeitando… Ah! Ninguem queira… E o peido sae, bem alto! Metralhou! Paresce britadeira! E como cheira! La fora, expoucam fogos: Pou! Pou! Pou! Será que salvo fui pela festeira torcida do Timão? Sortudo sou!
GAZES COMBUSTIVEIS [4581]
Eu fico imaginando aqui: si o nosso fedido peido fosse fumacento, fogoso, até… Que sarro, hem? Nosso vento soltando a labareda… Que destroço! As calças virariam trappo… Posso até ver chammuscado o meu assento depois dum peido… E quando eu arrebento a colcha, até o colchão, si o peido engrosso? Estou vendo na mente: um estampido echoa no banquete! A mesa inteira assusta-se e suspeita! A fumaceira se expalha, preta, e deixa um ar fedido! Alguem viu, por detraz, minha cadeira querendo decollar, com seu ruido de rhoncho de motor, foguete erguido do solo… Mas não voa: appenas cheira!
A PORTA VINGATIVA [4670]
Sahiu, batteu a porta. Entrou, tambem. Ignora o sonnettão parnasiano que falla em maldicção. Mas qualquer damno aos outros elle tracta com desdem. E batte a porta. Batte, firme, nem que seja às dez da noite ou, salvo enganno, até de madrugada. O tal do “urbano silencio”, diz, é “coisa de gay zen”. Echoa em todo o predio o barulhão. Coitada da avozinha, da tithia! Até que, certa tarde, a ventania empurra a porta e prende, delle, a mão. Os dedos, no battente, quebram. Mia o gatto ou foi seu grito? Os outros dão risada. O zelador, um cidadão pacato, elle tambem se delicia.
VOX CLAMANTIS [4696]
Alguem suggere? Acceito suggestão!
Ahi, você! Qual sua alternativa? Nenhuma? Ora! E você? Por que se exquiva? Ninguem diz nada? Idéas não me dão?
Você, venha! Approxime-se! Uma opção qualquer sempre terá! Mais decisiva, a participação que me incentiva é mesmo a de vocês, que unidos são! E então? Nenhum palpite? Nesta hora preciso que me digam, em tom cru, si sou, de facto, um lider, sem tabu, si devo ou não ouvir quem collabora! Caralho! Que silencio, porra! Nu fiquei, me abri, pedi… Não fallam? Ora! Ninguem nesta birosca me assessora? À merda! Vão tomar todos no cu!
TRAHYRA MORTA [4721]
Me conta um pescador de historia prompta que, até depois de morta, uma trahyra ainda é traiçoeira. “O peixe abrira a bocca e estava immovel…”, elle conta. “Um homem de valor não se ammedronta!”, pensou. Barriga accyma o cara vira o peixe e, sem temer que o dedo fira, dos dentes toca, aguda, cada poncta. “Não é que a tal trahyra, de repente, fechou a bocca? Tempo nem deu para tirar a mão! E o peixe finca o dente!” Historia desse typo não é rara, pondero. Porem elle não desmente: “Perdi todos os dedos!” -- conta o cara. Cadê? Mostre! -- pedi. Me diz, contente: “Estão reimplantados…” Chega! Pára!
BUNDA DE SEGUNDA [4761]
Vi gente, ja, exquescendo até a cabeça, mas bunda eu nunca tinha visto! Aquella, perdida num brechó, me intriga e appella ao senso de quem tudo perca e exquesça!
Ainda que uma nadega envelhesça e murche mais que a outra, o que revela o sesso em promoção é sua bella, symmetrica harmonia, ao tempo advessa. É bunda feminina? Masculina?
Difficil de dizer. Tem muita dobra, covinha, muita curva… é o de roptina naquillo que de Deus foi feliz obra. Agora, deschartada, alli termina. De banha algum volume sempre sobra, convida-me a appertar, feito buzina. Sae caro o que o brechó por ella cobra!
COISAÇÃO COISISTA [4777]
Que coisa! Quando a coisa está coisada, ninguem acha que as coisas coisarão. Deixemos, pois, as coisas como estão, que é coisa de um tantinho assim, mais nada. Estou coisando tudo e, em breve, cada coisinha coisarei. Por isso, não preciso que me coisem. A questão é como descoisar a coisarada. Melhor coisificarmos a coisinha que pormos a perder a coisa toda. Eu mesmo não descoiso muito a minha, sinão ja vão dizer que a “cousa” é “douda”. Bem antes que essa coisa toda exploda, descoiso o que coisei! Alguem ja tinha coisado coisa assim tão coisadinha? Coisissima nenhuma! Que se foda!
UM CARPIDEIRO NO PICCADEIRO [4800]
Lotado está o vellorio. O morto tinha amigos, muitos. Era, pelo visto, no bairro o camarada mais bemquisto. Chegou até o padeiro, até a vizinha. De subito, entra alguem que não se allinha com esse lucto, mesmo em meio ao mixto povão: sim, um palhaço! Jesus Christo! Será prophanação? Quem adivinha? Nem tempo dá! Sorrindo está o palhaço e aquelle seu boccão, com apparelho dental, aquelle oval nariz vermelho, provocam desconcerto, um riso lasso. Gargalha a creançada. O mais fedelho até se mija! Sua mãe, no braço pegando da viuva: “O que é que eu faço?” “Sorria!”, da viuva ouve o conselho.
FESTA DO PEÃO [4914]
Um tapa! E me voou da mão o coppo!
Aquillo foi offensa! Foi offensa!
Não posso supportar! Quem elle pensa que chega a ser? Offensas eu não topo!
Peor! Si o coppo excappa, eu que me ensopo!
Você toleraria? Dá licença!
Um gesto assim não passa duma immensa doideira! E ainda dizem que eu me dopo!
Dopado estava o gajo! Elle é que estava!
Magina! Eu, segurando um coppo cheio e o gajo dando um tapa? Ah! Plantar fava!
Si fosse um gostosão! Mas era feio!
Horrivel! Chapadão! Doideira brava!
Tem macho mais charmoso no rodeio!
P’ra cyma de mim, não! Ninguem deprava assim a minha fama nesse meio!
TECHNOLOGIA DE PONCTA [4932]
Electroacupunctura! Ouviu fallar? Não? Cara, faz effeito mesmo! A gente se deita la, sem roupa, e um competente subjeito é quem virá nos applicar! Si sangra? Não, magina! No logar exacto é que elle espeta! A gente sente appenas a piccada e, de repente, paresce que nem quasi está sem ar! Ahi, vem choque electrico! À agulhinha está ligado um fio! Calma! Dê-me a chance de explicar! Sim, você treme todinho! Si é traumatico? Adivinha! Mas pense nas vantagens! Você geme, se afflige, se debatte, uma vezinha ou duas, e se accalma! Mas quem tinha pequenas dores, grandes ja nem teme!
NA RAIZ DA QUESTÃO [4977]
Não dizem mais que alguem “tomou no rabo”. Não usam phrases como “se fodeu”, “tomou no cu”, “levou ferro”, mas eu escuto appenas isto: “La vem nabo!” “É nabo!” “Vae ser nabo!” Ainda accabo achando que esse nabo é o que o plebeu entende por seu damno, seu mal, seu problema, seu azar… Gosta o Diabo! “Cenoura” não tem tanta força, nem “pepino” ou “mandioca”. Mas paresce que ao caso um vegetal melhor lhes vem à mente para aquillo que mais cresce. O nabo maior força nisso tem. É como si, fodido, alguem dissesse: “Não posso acceitar isso! Ah, não! Ninguem meresce! Só commigo isso accontesce!”
VOCAÇÃO
INVOCADA [5015]
A freira, do convento no jardim, costura, sentadinha, ouvindo o canto dos passaros. Naquelle logar sancto paresce tudo a prece ter por fim. Mas ella espeta o dedo… e grita assim: “Ai, merda!” Desboccada foi, e tanto, que fica emmudescida até, de expanto, com medo de que escutem. “Ai de mim! Caralho! Fallei merda!”, a freira brada comsigo, inconformada. Mais se expanta a cada palavrão, blasphemia a cada, embora sua fé nem seja tanta. Ja nem está, de facto, tão chocada. “Ah, foda-se!” A freirinha se levanta. “Eu nunca quiz ser freira, porra!” Irada, excarra o catarrhinho da garganta.
PIADA PRIVADA [5027]
Costinha contou esta: num banheiro, trancado, está o rapaz com caganeira. Mas logo vae chegar quem tambem queira cagar: notam que alguem chegou primeiro.
O tempo passa… Pensam: “Pelo cheiro, o cara ja fez tudo! E dá canseira! Será que vae passar a tarde inteira la dentro?” E batte à porta o mais grosseiro: “Cagada demorada, hem? Ninguem faz cocô que demorasse esse tempão!” {Aqui não tem papel…}, diz o rapaz, afflicto com aquella situação.
La fora, zombam delle as linguas más: “Problema seu! Pedisse! Você não tem lingua?” Elle responde: {Tenho, mas não sou contorcionista, meu irmão!}
“Ô
PADRE! MEU, QUE MERDA, PÔ!” ou SENSAÇÃO E TEMPTAÇÃO [5035]
O padre está sentado na privada, pellado. Nem tomou seu banho ainda. Lembrou-se da mulher que, loira e linda, temptou-o, mas com ella não quiz nada. Medita, emquanto agguarda que a cagada comece: appós trez dias, é bemvinda. Emfim, a Natureza vibra e brinda! Afflicto, o padre offega e um “Oh!” ja brada. Segura o barrigão e mais um “Oh!” lhe excappa: eis que expelliu o cagalhão maior, cujo diametro era tão demais, que em suas tripas dava um nó. Emquanto mais toletes, “Oh!”, lhe vão sahindo, elle repete: “Oh!”… Falta um só. Supplica, “Oh! Virgem Sancta! Oh! Tenha dó!” “Oh!”, geme, “Oh! Vade retro, temptação!”
CARNAVAL CARICATURAL [5087]
O Bloco da Bengala tem de tudo, dos casos orthopedicos aos mais difficeis de acceitar entre os normaes, do velho ao alleijado barrigudo. Os cegos são um caso à parte: agudo ou chronico, o problema vae dos taes “invalidos” ja natos aos fataes “marcados pelo azar”, que entram no entrudo. Às tontas pela rua, sae o bloco, sem rhythmo, desmarcando-se, indeciso. Trombando, tropeçando pelo piso falhado, entre os passistas me colloco. O publico, assistindo, cae no riso rasgado. Por ser victima, me toco. Mas, sempre a bengalar, não perco o foco: “Preciso me aguentar em pé, preciso!”
CANASTRINHO VERSATIL [5277]
Magina! Eu não sou bicha! Ja fallei milhões de vezes! Ganho o meu e faço papel de gay, de macho, de devasso ou sancto, seja um subdito ou o rei!
Novella é mesmo assim! Só porque um gay eu faço, agora o povo acha que eu caço machões pelas boates, que um ammasso procuro nos banheiros, eu ja sei!
Não, minha gente! É muita baixaria!
Sou puro, minha gente, eu asseguro! Expalham que flagraram quando eu ia chupar um marombeiro attraz do muro, mas isso é só fofoca de coxia! Jamais me pegarão! Si estava escuro, como é que vão dizer que, à luz do dia, fui visto a chupar rolla? Nunca! Eu juro!
SONNETTOS DUM HILARIO ANECDOTARIO (1/5)
(1)
Portuguez e papagayo são motivo de piada. Mas no conto eu é que caio, si um ceguinho não vê nada.
Sou vassallo e sou lacaio de quem, vendo tudo, brada: “Chupa, cego!” E só me saio bem si minha bocca aggrada.
Das piadas ri o povão, mas, dum cego, faz questão de tirar sarro o palhaço.
Elle manda chupar. Eu sei que graça elle entendeu ter um cego e me desgraço.
(2)
Sempre achei ser incapaz de maldades um palhaço, mas descubro que o rapaz é cruel, rude e devasso.
Quando está no circo, faz papel comico. Eu, que passo uma imagem triste, attraz das paredes outra faço.
Sei que pincta de vermelho seu nariz o rapazelho e abre a bocca num sorriso.
Mas, commigo, elle gargalha si a cegueira me attrapalha e confundo-me, indeciso.
[5426/5430]
(3)
Elle conta à creançada só piada sem maldade, mas a mim conta piada que me insulte e me degrade.
De ceguinho conta cada qual mais suja, que até frade faz corar. Dá gargalhada si me offendo: é fan de Sade.
“O ridiculo (elle diz) não está só no feliz trocadilho ou no bom chiste.”
“Elle está, principalmente, na afflicção que um cego sente, nas feições dum cego triste.”
(4)
Demorei para entender por que um cego a divertil-o mais se presta: elle quer ver outra mascara, em sigillo.
“Minha cara tem poder de causar riso, no estylo pastellão. Mas dá prazer seu carão: me desoppilo!”
Entendi que um cego tem expressão tola, de quem a vis coisas se submette.
Olhos baços, bocca aberta, jeito fragil, que desperta o tesão de impor boquette.
(5)
É bem novo na circense scena o joven, mas é lido. Fan de Sade, elle me vence em materia de libido.
Não me importo que elle pense que me presto ao divertido espectaculo. Convence meu papel, e nem revido.
Ser hilarios vocação é dos cegos, quando são dum palhaço o vivo espelho.
O rapaz descompta em mim a performance ruim e eu, mais velho, me adjoelho.
A APOTHEOSE QUE PASSOU DA DOSE [5518]
De cyma do palanque, se prepara o cynico politico. Olha aquella immensa multidão e ao sancto appella, temendo fracassar logo de cara. Começa a discursar. Ninguem se enfara si aquillo demorar? Toda a favella à praça comparesce! Até cancella um show a gringa banda que o marcara! Depois de meia horinha, applaude o povo. Mais duas horas, palmas ‘inda batte alguem. Mais trez, applaude alguem, de novo. O gajo pensa: “Ha quem me desaccapte? Só falta accreditar alguem que eu chovo!” Emphatico, o caudilho imita um vate e passa a declamar. Recebe um ovo na cara. Logo, accertam-lhe um tomate.
ODE À SATYRIASE [5584]
Palindromos propondo, um ja se gaba: “O Zé dá dez, ó!” -- falla, muito affoito. Indago-lhe: “O tio Zé dará dezoito?” O satyro tem fama alli na taba! Ignoro si Thio Zé tambem enraba ou molha só de frente seu biscoito. É facto que erecção elle tem braba, daquellas que supportam muito coito. Caralho! Tal tesão, que nunca accaba, eu sonho ter tambem, porem me ammoito, sabendo que não é qualquer vagaba que quero que pernoite onde pernoito. Sem phallo onde expalhar a minha baba, às vezes sou eu mesmo que me açoito. Mas basta do Thio Zé levar biaba, que eu abro o meu cabaço e não me accoito.
ODE À BOCCA PEQUENA [5585]
Dizendo “Roda, cu de educador!” Alguem fez um palindromo que nua porá a reputação do professor que em meio a seus alumnos se insinua. Será verdade? Pode alguem suppor um mestre tão discreto, que vem sua materia leccionando com louvor, o cu vulgarizando pela rua? Duvido. Talvez seja só rumor. Algum alumno senta-lhe tal pua, quem sabe, reprovado… Mas a dor desforra quem os outros prostitua? Não posso prejulgar. Vae que, si for olhar bem direitinho, o cara actua tal como eu proprio actuo: chupador sou, mas dou sim, tambem, si estou de lua.
CELLA ESPACIAL [5600]
Eu moro, vejam, numa verdadeira caixinha! Sim, de phosphoro! Os apês de classe media, aqui, de quem os fez reflectem a cabeça de toupeira! É tão pequeno o apê que, caso eu queira vestir um paletó, dou, toda vez, com minha mão no tecto ou, vão vocês rir mesmo, na parede! É brincadeira?
Me expremo, entre as poltronas e o sofá, si quero pela salla deslocar-me, e quando, na cozinha, tento achar-me, mal entro e minha mão queimada está! Nem caio mais da cama, pois não ha um vão tão largo assim! Não sei quem charme enxerga em tal apperto! Caso o allarme dispare, p’ra sahir daqui nem dá!
GESTO INDIGESTO [5623]
Baratta voadora? Disso Zeus
me livre! Caso desses, outro dia, na casa dum ceguinho uma agonia damnada provocou, amigos meus!
Contou-me esse coitado: deu addeus a todas as visitas, pois queria curtir a solidão, mas a alegria durou pouco, foi coisa de plebeus. Entrou pela janella, a desgraçada, em tudo se chocando! Um cego não consegue, nesses casos, fazer nada!
Na boba mão lhe exbarra a peste, então… Na testa, nas orelhas, quasi em cada centimetro daquelle cabeção!
Por sorte, elle, com uma só palmada, mactou-a! Mas na bocca accerta a mão!
MISCELLANEA DO CEGO GAGO [5830]
Po-po-porra! Que da-data sa-sacana! Fo-fodeu!
Não ba-basta esta in-gra-grata ga-gagueira, não, me-meu?
A memoria me relata, na cegueira, que este breu que ora vejo não empatta com um céu que ammanhesceu. Ga-ga-guejo, po-porem só na se-se-sexta-feira.
Mas se-sempre estou se-sem a luz, nesta ce-cegueira.
A gagueira só me vem quando vejo uma caveira.
A cegueira a gente tem que atturar a vida inteira.
MEME DA CAFETEIRA [5880]
Me foi recommendada a cafeteira legitima, italiana. Mesmo assim, alguem viu pelas redes que ruim aquella alternativa se nos cheira. Perigo de explosão? Ah, ninguem queira testar! Um só relato, ca por mim, ja basta p’ra assustar! A saber vim que pelos ares fora a casa inteira! Talvez exaggeraram, mas si entope a porra dessa valvula, sei la, que causa a tal pressão, não ficará o damno no café que nos ensope… As machinas da moda, por mais pop que seja a propaganda, vão, ja ja, ser alvo de tamanho bafafá que só coado resta algo que eu tope.
MEME DA SABONETEIRA [5911]
Não ouço commentarem, mas vocês notaram, certamente, que não presta a tal saboneteira que, se attesta, não prende o sabonete e feio fez. Maldosos ja disseram: portuguez algum a projectou. Quem não detesta aquella porcaria que ja, nesta cidade, não ganhou nenhum freguez? Do typo que, embutida no banheiro, affunda em azulejos, ella não tem beira alta que impeça algum sabão teimoso de cahir o tempo inteiro. Porem, é com certeza brazileiro do traste esse inventor, um veadão que gosta de pegar sempre do chão a barra, ja que leva no trazeiro.
DO PAU DOADO [5975]
Transplantes ja communs são, hoje em dia. Um penis de cadaver se transplanta num homem vivo, graças à mão sancta dum bom cirurgião da anatomia.
Noticia foi na midia: quem precisa de rolla nova agora excolhe cor, grossura, comprimento, pelle lisa ou aspera, conforme o doador! Caralhos mortos podem ter, à guisa de vivos, erecção, fazer amor! Fallou desse milagre seu auctor, um medico cubano, ou haitiano. Diz elle, franco: “Sente alguma dor, depois, o paciente, eu não enganno ninguem, mas lhes garanto, seu sabor ainda, a quem chupal-o, é phallo humano!”
MEME DA RISADA [6006]
Viuvas, joviaes nem sempre são. Ephemera, a belleza feminina se appaga, mas o riso se illumina. Algumas, certamente, mais rirão.
Ja vi chorar, em frente do caixão, aquella que maldiz a sua signa, mas, quando chega a festa, si junina, celebra com quentão e com rojão.
Mulher bonita, aquella nunca fora, porem foi sempre alegre! Seu marido, por outro lado, achava peccadora aquella que ri muito… Foi trahido?
Não sei, mas ja morreu, e sua dor a viuva esconde, tanto que tem rido!
Não quero ter a bocca accusadora, mas riso, neste caso, faz sentido.
MEME
DO CEGUINHO PUTO [6050]
Do cego uma senhora sente dó: “Tadinho de você! Tão bonitinho, mas cego…” -- diz a velha, com carinho. Quaes phrases prende o cego no gogó? O cego appella: -- Aqui! Dispenso o affago! E então? E o que a senhora mais queria? Que, alem de cego, eu fosse feio, gago, banguela e manquitola? Ora, tithia! Pé chato me faltava? -- ainda indago -Não basta esta cegueira? Que mania! -- Nem tenho excappatoria! Sempre pago o mico de ser cego! Até meu guia me goza e diz assim: {Porra! Me cago de medo de cegar! Bem que eu queria não ter este pé chato… Mas o estrago é pouco, ja que enxergo! É o que allivia…}
FARTUM NO CARTUM [6256]
Vae, abre teu sorriso, Glauco! Humor libera as endorphinas! Quem risada dá, para longe expulsa a malfadada noticia, a vibração ruim, a dor! Humor só não funcciona si a favor é feito para alguem que não quer nada com criticas ou presta-se ao que aggrada ao lider de plantão, ao dictador. Não sendo propaganda pamphletaria, da chronica, da satyra ou da mera e simples charge nunca vocifera ninguem de intelligencia mais primaria. Mas quando, Glaucão, uma tão hilaria figura mais delira que lidera, ahi não tem mais jeito! Quem nos dera chargistas mais ousados contra um pariah!
CARAPUÇA [6352]
Si pela rua alguem gritar, bem alto, “Oi, corno!”, todo macho vae olhar. Tambem quando “Oi, veado!” outrem gritar, voltar-se vão os homens, eu resalto. Si eu grito “Oi, puta!”, treme sobre o salto a mulherada toda do logar. Paresce brincadeira! Quer tentar? Funcciona mais que um firme “Isto é um assalto!” Mas, quando você grita “Ai, coitadinho!”, ah, todos os bassês da vizinhança que estejam passeando olham quem lança aquella phrase grave em seu caminho! Eu proprio comprovei! Mesmo baixinho, si fallo “Coitadinho!” ja ballança as longas orelhonas ou a pança algum bassê, que empina seu focinho…
CERTIDÕES DE BAPTISMO [6521]
Terá nome ideal um veadão?
Cacophato não houve mais feliz: Jacintho Pincto Aquino Rego, diz quem queira baptizar pelo calão! Em sendo um alpinista, à mente vem o nome que estaria apprimorando a sua profissão: Caio Rollando da Rocha, campeão como ninguem! No martello, colloco o motorista condizente: Prudente Passos Dias Aguiar, que confirma as theorias mais fataes de quem vive pela pista. Si for decorador, pelo Natal, que cuide dos presepios, se deduz: Armando Nascimento de Jesus! Glaucão, meu trocadilho ornou? Que tal?
NIPPONICO HEROE COMICO [6612]
Accabo de saber, Glaucão, que exsiste desenho no Japão em que um menino virou superheroe por fescennino detalhe, meio comico, mas triste… Seu superpoder, Glauco, sim, consiste em voo levantar, mas eu previno que sua propulsão… Eu, si elimino meus gazes, ao fedor ninguem resiste! Só que elle peida… fede… porem voa! Hem, Glauco? Ja pensou? Você, que vive peidando, voaria! Que se exquive dos moveis, de exbarrar noutra pessoa! Ainda bem que está sozinho! Soa até gozado: “Sabe, gente? Estive com elle, que peidou! Por Baccho! Tive que delle desviar! Voava à toa!”
THEORIA DA ASSESSORIA [6686]
Hem, mestre? Eu coço o sacco todo dia! Mas coço de verdade! É tão gostoso! Não achas, caro mestre, mui curioso ver como tal coceira principia? Passando vou a mão, ainda fria, nos pellos escrotaes, bem preguiçoso… Aos poucos, vou coçando, vem um gozo crescente, vae virando uma agonia!
Mais coço, mais os pellos o prurido provocam! Impossivel é parar! Não é como coçar o calcanhar, a testa, as costas… Passa a ser libido! Concordas? Caro mestre, não duvido que estejas a pensar: “Quem do logar a bunda não levanta quer coçar o sacco…” Mas entrei, sim, pr’um partido!
FADIGA QUE NOS LIGA [6690]
Cansei, poeta! Agora foi demais!
Cansei dessa vidinha de proleta!
Cansei do baixo astral que nos affecta!
Cansei de sustentar até meus paes!
Cansei de tantos uis, de tantos ais!
Cansei duma azafama tão abjecta!
Agora resolvi: vou ser poeta, assim como você, que é desses taes!
Você não é famoso no seu meio?
Você não tem amigos de egual fama?
Você não compartilha a sua cama, não tem seu apezinho sempre cheio?
Não mesmo? Ora, meu vate! Então alheio eu ando, pois você tambem reclama da vida, da sahude, da azafama!
Que merda! Mais em nada, agora, creio!
PALAVRORIO NO SANATORIO [6777]
Tarados entre si manteem contacto: tem sadico, masoca, até assassino, zoophilo, necrophilo… Termino com um pyromaniaco cordato. “Que tal fazermos sexo com um gatto?”, diz um. “Mas tortural-o tambem!”, fino, diz outro. “Sim! Mactal-o bom destino tambem seria!”, adduz um mais sensato. A vez é do necrophilo, que diz: “Tambem, depois de morto, vae a gente fazer sexo com elle novamente, né, turma?” Ao suggerir, sorri, feliz. Foi o pyromaniaco quem quiz, depois de tudo, um fogo bem ardente no gatto pôr. Por ultimo, um contente masoca diz “Miau!”, sem mais ardis.
Ai, Glauco! Uma surpresa quiz fazer eu para meu marido, no seu dia! Um lindo bassezinho parescia ser optimo presente! Que me diz? Pois é, mas accontesce que feliz não fora a minha idéa! Quem diria? Meu homem era allergico (Sabia?) aos fofos cachorrinhos, tão gentis! Então, infelizmente, eu obrigada serei a fazer uma doação! A quem se interessar, eu dou noção mais clara da fofura a ser doada! Tem elle vinte e nove, está ja cada vez mais experiente e não diz não!
De inglez é bom e teve educação! É culto, obediente e camarada!
AMOR MAIOR [6804]
Meu caro Glauco, certo do que digo estou quando comparo uma mulher à linda cadellinha! Quem puder que fique com o cão, que é mais amigo! O cão é mais leal! Não ha perigo de errar! Mais amoroso que qualquer esposa, namorada, noiva, affair! Meresce mais carinho, mais abrigo! É facil de testar! Você que prenda as duas no seu carro, ou antes, ponha no proprio portamalas! Nem vergonha demonstre caso uns cynicos offenda! Depois, libera as duas! Reprimenda nem faz a cachorrinha, que só sonha em ver você, lamber, e carantonha não tem! Com a mulher… Cê que se entenda!
O CEGO NO CIRCO [6984]
Na falta do palhaço, se contracta um cego para andar no piccadeiro, às tontas, tropeçar o tempo inteiro, cabeça nem sabendo onde mais batta. Pensaram que fingia, mas a grata platéa notou logo o verdadeiro ceguinho que levou coice certeiro na cara, ja de quattro, duma patta. A patta era dum homem disfarsado de burro. Mesmo assim, o calcanhar pegou em cheio, bem no maxillar do cego, das creanças para aggrado. Morreram de rir delle, que, coitado, levou foi um calote, pois pagar ninguem queria aquelle que pegar nem sabe numa espada, accidentado.
MOTIVO RELATIVO [7093]
Foi pelo buracão da fechadura um gajo visto, louco, a degustar dum outro o cu, naquelle familiar hotel, da moral publica mais pura. Depois disso, na hora do jantar, o gajo reclamou daquella dura especie de pellinho, de mixtura ao musculo, na sopa. Deu azar. Indaga-lhe o garçon, meio offendido: “Ué, mas o senhor nojo não sente daquelle cu, chupado loucamente! Por que dum pello sente? Faz sentido?” Responde o gajo: {Nojo certamente você teria caso, num lambido cuzinho, achasse, inteiro, um mal cozido pedaço de cebolla, ainda quente!}
ESCATOLOGICO ESPECTACULO [7196]
Ridiculo, Glaucão! Um humorista daquelles bem malucos affirmara que tudo que fizesse -- Está na cara! -tornava-se piada a mais na lista! Foi astro no theatro de revista, depois ficou lelé! Ja se compara seu caso aos absurdistas, que teem tara por peças de teor surrealista! Agora faz cocô no palco, o monte encara appós cagar e dá risada! Sorri, depois gargalha! Não ha nada mais torpe e mais pathetico que eu conte! O publico tambem gargalha, a fonte confirma, menestrel! Que palhaçada mais chula! Ainda come, dizem, cada tolete que outro actor em scena apponcte!
MOTTE GLOSADO (1/2) [7518]
Hoje eu vou de “sabbaderna”; ammanhan, de “dormingueira”.
(1)
Eu, emquanto tiver perna, danso e caio na gandaia. Tendo musica que attraia, hoje eu vou de “sabbaderna”. Não acceito da moderna, só da antiga, a mais pauleira. Mas, por mais que a gente queira bagunçar, o gaz accaba. A canseira vae ser braba ammanhan, de “dormingueira”.
(2)
Só dansar, claro, não basta, tem tambem a putaria!
Nunca a gente se sacia: mulher facil, mulher casta, sodomita, pederasta… Sem fallar na bebedeira!
A resaca a coisa cheira, mas depois a gente hiberna. Hoje eu vou de “sabbaderna”; ammanhan, de “dormingueira”.
MOTTE GLOSADO [7557]
Humorismo não exsiste si a favor alguem o faz.
Sempre é contra. A favor, não. Deve tudo, irreverente, criticar, sinão a gente desconfia do histrião.
Vale o mesmo ao bardo, então, caso queira ser mordaz e na satyra capaz de alegrar quem vive triste.
Humorismo não exsiste si a favor alguem o faz.
GLOSADO (1/4) [7620]
Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!
(1)
Eu sou cego, mas não veto as piadas de ceguinho, pois aos cegos mais me allinho que o politico e correcto. Si em meus versos interpreto os fodidos e me valho de ironia, que um paspalho moralista acha “offensiva”, quem com isso não conviva va tomar no cu, caralho!
(2)
Dependesse do careta, mais ninguem fazer podia humorismo ou poesia sobre negro, gay, muleta de alleijado… Que eu submetta à censura meu trabalho o careta quer! E eu malho o censor, pois não me acquieto! Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!
(3)
Phantasia de mulher, de cigano ou indio não pode usar um follião? Só porque o censor não quer? Um lettrista, si disser na marchinha o que um pirralho diz brincando, não é falho, só retracta o que é concreto! Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!
(4)
Que “melhor edade”, nada! Velho é velho! Cego é cego!
Si sou cego, não me nego a assumir que a molecada me deu trote e faz piada!
Si, anarchista, eu advaccalho tudo e todos, expantalho não me expanta! Nem me affecto!
Que o politico e correcto va tomar no cu, caralho!
MOTTE GLOSADO [7651]
Desenhar um cego é molle, si de bobo elle tem cara.
A melhor caricatura
dum ceguinho, sempre a faz quem se mostra mais capaz de ver nelle a picca dura bocca addentro. Lhe segura a cabeça alguem. A vara vae bombando fundo, para bem gozar, e o cego engole. Desenhar um cego é molle, si de bobo elle tem cara.
MANIFESTO SARRISTA (1/2) [7972]
(1)
“Permitta-me dizer: você provoca na gente, caro Glauco, uma tremenda vontade de gozar, de tirar sarro! Um cego tão escroto nunca vi! Cegueira, por si mesma, bom motivo de riso causa àquelle que vê bem, mas quando um cego o comico papel faz, como no seu caso, gargalhadas de gozo nem consigo reprimir! Pudera! Reprimir p’ra que? Bem faço!”
(2)
-- Sim, claro. Mas melhor faz si a piroca tirar você p’ra fora, não se offenda, e boa punhetinha batter. Narro ja muita scena assim, sobre quem ri da minha condição. Ja que me privo de tudo que você desfructa, sem problema aguento quando sou, ao bel prazer do seu humor, thema às piadas. Não perca, pois, a chance, que engolir consigo um pau, emquanto sou palhaço…
MANIFESTO TROCISTA (1/2)
(1)
[7980]
“Eu quero mais é que esse povo todo se foda! Quem mandou fazerem meu poetico cursinho, Glauco? Os caras achavam que eu seria algum poeta? Foderam-se! Tomaram no cu, Glauco! Bem feito! Sabes, Glauco? O que eu estou é mesmo só cagando e andando para o mundo litterario! Quero o bicco rachar de rir daquelles idiotas que pensam que ser bardo o cara apprende! Entendes, Glauco? O Olavo ja me disse que estava a fim appenas de trollar! Por isso resolvi que divertido será si eu imital-o nessa troça! Conhesces, Glauco, o caso do subjeito que disse que fallava javanez? Então! Annunciei minha officina e um monte de imbecis accreditou que sou um professor, Glauco! Não é gozado? Que se fodam, Glauco, porra!”
(2) -- Sim, li Lima Barreto. Não me fodo com elles, pois ninguem curso me deu de bardo ou trovador. Si minhas taras alguem quer ler em verso, nada affecta a vida no planeta. Não desfalco nenhum banco, não fraudo. Quem fallou que faço merda accerta mesmo, cara! Estou aqui p’ra isso. Justifico, portanto, o meu curriculo. Sabotas a scena litteraria, sim, mas quem de golpista te chamou disse tolice. Tu fazes dadaismo, cara! Achar
quem seja nosso otario não duvido que fique muito facil. O que endossa teu curso é isso. Dizes que é bem feito. De facto. Bem fizeste, como o fez quem, dando uma officina fescennina, comeu o cu de todos que no show do cara confiaram. Si ballé tu queres leccionar, danse quem morra…
MERDA FEDE A COMEDIA (1/2)
[7994]
(1)
Commigo vendo um video do Paulinho Cegueta, alguem me conta como faz um cego ao se limpar: depois que passa no rego, o papel cheira, até que reste appenas o perfume do papel. Na duvida, só mesmo na lambida dará para saber si merda alguma ficou, residual… Não é perfeito o methodo? Successo garantido, ao menos à comedia do “standup”…
(2)
Paulinho ja morreu e eu adivinho que sejam os que riram delle eguaes a tantos que risada dão, de graça, ao lerem os meus versos, pois o teste tambem ja fiz, ao caso fui fiel.
Aquillo que o ridiculo valida é facil de entender: tudo que estruma a bocca dum ceguinho é bom proveito àquelle que visão tenha. Duvido que ao riso dos normaes um cego excappe…
ENTENDA A LEGENDA!
(1)
(1/2) [8004]
Remedio contra a queda de cabello ou para emmagrescer faz propaganda que entendo por piada prompta, visto tractar-se de producto ja suspeito de cara! Deante deste annuncio, alguem tem duvida? “Não creiam em qualquer offerta falsa dessas por ahi!” Só falta accrescentar: “Confiem só na nossa falsa offerta!” Até sincera me soa, pois você perfeitamente, por autosuggestão, pode ter cura usando algum placebo, não é mesmo?
(2)
Pensando bem, a phrase dicta pelo politico flagrado tambem anda por esse bom caminho: “Não sei disto nadinha! Fui trahido! Si um malfeito fizeram, quem fez pague!” Entendam bem o espirito da coisa: “Quem fizer malfeitos, de esconder tracte! Escondi mal? Esse foi meu erro!” Sente dó de gente desse typo só quem era louquinho para estar entre essa gente capaz de desfructar da sinecura tirando o cu da recta sem tenesmo…
ANECDOTA CARIBENHA (1/3) [8015]
(1)
Escandalo causou à dictadura daqui que uma piada do Caribe virasse ska dansante e fosse tão famosa a poncto de isso ser problema aos nossos jumentissimos censores. Renato e Seus Blue Caps amenizaram o thema, que extourou pelas paradas à guisa de canção da Joven Guarda, daquellas innocentes e cafonas.
(2)
Um joven quer casar. Seu pae procura e pede permissão. O pae prohibe: “É tua irman, porem tua mãe não está sabendo.” O filho extranha o eschema. Namora outras meninas, de outras cores, e quer casar com uma. Mal lhe param os planos, pois os paes das namoradas tambem respondem isso. O que é que o agguarda, alem de procurar putas nas zonas?
(3)
À mãe o meninão então dá a dura noticia. A mãe, comtudo, um riso exhibe e diz: “Não te preoccupes, pois estão por fora! Quem quizer casar, não tema! Não quero que tu tenhas novas dores, mas devo te contar que me comparam a alguma puritana por uns nadas! Teu pae não é teu pae! Só tem cor parda, tambem, mas nada sabe! Te emocionas?”
PARTES PARCIAES (1/2) [8062]
(1)
{Estão muito folgados, Glauco, os taes ceguinhos modernosos! Querem dar nas artes marciaes um ar da graça! Não, Glauco, ja pensou? Cegos luctando judô, no karatê dando porrada! Quem pensam que são? Lembra até piada antiga, dos dois cegos frente a frente e alguem gritando “Faca não, ceguinho! Não vale faca, cego!”, só p’ra rir dos dois, no desespero, ja da lucta fugindo! Mas, na boa, Glauco, pode? Os cegos estão muito folgadões! Usando cellular fallante, tendo direitos de egualdade, emprego, como qualquer gajo normal! Onde é que vamos parar, Glauco? Você tem parte nisso?}
(2)
-- Não tenho parte nisso, não, jamais! Conhesço bem (Magina!) meu logar! Ja muito descrevi como desgraça tremenda a minha perda, qual nefando destino o meu! Não mudo, jamais, nada daquillo que fallei! Me vejo cada vez menos competente e independente! Não só não lucto, como dum pezinho appanho de qualquer moleque! Vir qualquer um pode, pela força bruta ou pela auctoridade, e ser quem fode a minha bocca, aquella que Camões prophana, de Bocage faz horrendo papel e de Delphino o melhor pomo defeca no poema! Si fallamos de cegos, na real, eu sou submisso!
PADRES PRECIPITADOS (1/2) [8079]
(1)
{Agora virou moda, Glauco! Todo bemdicto padre scisma de sahir voando num ballão! Não é possivel! Em vez de rezar missa, baptizar, fazer um casamento, o padre não consegue sossegar o rabo? Ja me irrita suspeitar que seja falta de foda, de enrabado ser por um robusto coroinha, com certeza! Você sonnettizou, Glauco, que eu sei, um caso brazileiro. O caso russo precisa dum poema, cê não acha?}
(2)
-- Commigo, não. Não sou eu que me fodo voando nisso. Todos podem ir à puta que os pariu! Querem do nivel do solo estar accyma? No logar não podem ficar quietos? Dou razão àquillo que se disse: que será bem feito si morrerem. Essa malta não tem o que fazer? Nada commum seu rabo satisfaz? Depois illesa desejam ter a pelle? Padre gay exsiste de montão. Mas si de bruço não basta ficar, elle se exborracha…
CULTO ECUMENICO (1/2) [8088]
(1)
Os dois espadachins olham-se com um odio mudo, usando a saudação de praxe, porem avidos de sangue. Começa a lucta. Advança aquelle, seu rival encurralando, que desvia dum golpe certeirissimo, o qual corta a vella pelo meio. Sobre a mesa enorme sobem ambos. Continua a lucta, alli por cyma mesmo. Pulla um delles para o solo novamente. Tambem desce o rival. Eis sinão quando aquelle perde sua leve espada. Ja prestes a morrer, elle se exquiva e pega pelo braço um opponente surpreso. Tambem deste voa longe a branca arminha. Prompto. Vão na mão.
(2)
Agora muda a scena. De bom tom não ha mais nenhum golpe, só chutão, pernada, parescendo bangue-bangue sem tiro. Um dos parceiros ja perdeu dois dentes. Outro berra, na agonia dum olho ja vazado. Pela porta affora, rollam elles. Indefesa, a moça sae correndo pela rua. Mas pede por soccorro. Quem ulula de gosto é a garotada. Juncta gente, torcendo para alguem ir se ferrando. Exhaustos, mutilados, ja sem nada podendo fazer, elles dão um viva à rude multidão. Sob o sol quente, abbraçam-se, se beijam. Um é monge buddhista. Seu amante é bom christão.
INFINITILHO DA PILHERIA (1/2) [8095]
(1)
{Glau, veja que engraçado! Você diz que ja não participa mais de eventos por causa desses chronicos symptomas de estresse, da cegueira, coisa e tal. Mas deu no facebook onde você iria debatter ou palestrar, leria seus poemas, cantaria, guitarra tocaria, dansaria, até sapateado bem capaz seria de exhibir! Donde lhes vem, a todos esses gajos delirantes, tal verve imaginaria? Você não se sente incommodado com as petas?}
(2)
-- Achei foi bem gozado. Mais feliz fiquei quando fallaram dos talentos que tenho para varios idiomas fallar, para fazer um recital bilingue, meus poemas ler. Cadê que leio coisa alguma? Superstar do rock até que eu bem que gostaria de ser, até com maxima alegria seria dansarino. Mas, rapaz, mal posso caminhar! Calcula alguem que faço tudo quanto ja fiz antes de cego? Bem, restou algum tesão, é claro, mesmo graças às punhetas…
ODE AO RISO (1/7) [8186]
(1)
Te ris si tens tesão do typo deste, fodendo dum cegueta a bocca muda e cuja bunda ainda nem comeste.
(2)
Te ris si, mendigando, pede adjuda o pobre que, outro dia, rico viste, pois viste não haver ninguem que accuda.
(3)
Te ris si, pela rua, não exsiste ninguem que adjuda à pobre velha preste, pois vês que, ao se quebrar, ficou mais triste.
(4)
Te ris si uma rasteira, facil, deste no joven que, alleijado, de muleta caminha, a convidar quem o moleste.
(5)
Te ris si, mesmo que este não se metta comtigo, o jogas onde podre esteja a aguinha accumulada na sargeta.
(6)
Te ris si, mesmo quando não te veja aquelle visual deficiente, tu cospes nelle em frente à propria egreja.
(7)
Te ris si no cu fodes, finalmente, até porque na bocca ja fodeste, um cego que fodido ja se sente.
ODE À PROSODIA [8188]
Questiono: O “O” tem som de “U”? O “O” que som tem? Si rapido, paresce ser inglez e illude o ouvido, como si francez “Comer suan faz suar?” fosse, tambem. “Si ca nevasse, ca se usavam skis” paresce russo, caso alguem consiga tambem rapidamente que se diga. “Ih, ó o auê ahi, ó!”, lento, diz o typico surfista que, feliz, advista pela praia a turma amiga. É tudo brincadeira que, porem, reflecte na prosodia, toda vez, aquillo que se escuta em portuguez e faz o ouvinte -- “O que?” -- perguntar -- “Hem?”
As phrases desse typo são subtis questões collegiaes. Alguem se intriga com isso? Algum linguista ja se liga no lado scientifico? Juiz
se faz do caso o vate e pede bis, pois isso a sua verve sempre instiga. Brincar de fallas pode o vate sem ser logico nem critico. Vocês dirão si, na cabeça do freguez, fazer philosophia ao caso vem.
PORTENHO PORTUNHOL PORNÔ (1/4) [8462]
(1)
Portunhol nos tem levado a deslizes que eu destacco. Pornographico eu entendo estes versos que punheta nos suggerem, desde quando uma duvida aqui paire:
(2)
Mira! Allá viene un tarado! Si, pelado, con su saco en las manos! Si, corriendo viene atrás de la buseta! La perdió y quedó dando puñetazos… pero al aire.
(3)
Um careca doido visto foi trazendo o paletó na mão: vinha elle correndo pois perdendo estava o seu microomnibus. Perdeu. Ficou dando ao ar uns socos.
(4)
A versão accyma, insisto, é plausivel, mas um nó deu naquelles que um horrendo nexo viram neste meu poeminha. Se fodeu quem achou uns chulos ocos.
EXCITANTE HUMORISMO [8500]
Dois cegos battem bocca. Ja me ligo de prompto no motivo dessa briga. Alguem viu e brincou sobre o perigo de um delles ser ladrão. A turma instiga: “Ahi, ceguinho! Então você não liga si o seu collega rouba a esmolla? Amigo, não quero provocar nenhuma intriga, mas isso é feio! Escute o que lhe digo!” A briga ja se aggrava. Até consigo ver ambos frente a frente. “Duma figa! Ladrão!” Da accusação cada mendigo, sabendo-se innocente, o outro fustiga. A turma se diverte: “Aquelle cego puxou a faca! Agora é que o collega se ferra!” Eu, ca commigo, logo offego de medo, no logar de quem se pega. Os dois saem correndo, e aqui me pego tambem a gargalhar com quem se entrega àquella diversão. Mas não sossego até que, em verso, invente o “Faca Cega”. Fixei o personagem, que meu ego ao menos desaggrava, pois navega o caso pela rede. Mas não nego que segue me excitando esse humor brega.
BOCCAS DESCARADAS [9182]
Você dizia, Glauco, que qualquer assumpto, qualquer thema, qualquer facto, ainda que dramatico ou que tragico paresça, tem humor por explorar. Concordo que motivo nunca falta. Mas, para mim, humor não é da compta daquelles comediantes mais hilarios, nem mesmo dos palhaços de gravata, tampouco dos satyricos poetas. Humor, meu caro Glauco, para ser motivo da mais louca gargalhada, está na cara seria dum politico que, rindo-se por dentro, allude, em sua promessa, à vida triste do povão.
CASOS IMMANICOMIAES [9232]
Fallaste ja, Mattoso, nos teus versos, bastante dos malucos. Acho os loucos varridos divertidos, sim, admitto, si forem menestreis inoffensivos, assim como tu mesmo, um humorista. Problema vejo quando o louco for do typo violento, como ja vi pela vizinhança. Aqui na rua conhesço um que, escutando vozes, berra a noite inteira, até ser castigado por todos com porrada a valer, ou cacete em alguem elle ‘inda dará. O hospicio, nesses casos, é logar mais proprio. No teu caso, não, Mattoso. Não passas dum ceguinho original.
PERCENTUAL? [9346]
Em cada dez, são quattro os que fariam um cego de palhaço, uma pesquisa revela. De dez, cinco forçariam o cego, ja sem roupa, a rastejar debaixo de chicote. Em cada dez, seis dizem que fariam o ceguinho chupar, oito fariam que bebesse chichi, nove fariam que comesse cocô. Dos pesquisados, dez em dez disseram que não querem ficar cegos de jeito nenhum. Margem de erro? Zero.
CHORO RASGADO? [9491]
Não é no carnaval, appenas, que eu as minhas phantasias concretizo, Glaucão! Sou masochista! Fica facil, portanto, ser palhaço todo dia!
Você tambem não passa por palhaço o tempo todo, ja que ficou cego?
E então? Para que, só no carnaval, pedirmos que nos pisem e nos zoem?
HUMOR HOSPITALAR? [9650]
Não vejo graça alguma nos palhaços que estão, nos hospitaes, fazendo humor àquelles que, de cancer, vão morrer! Morrer não tem nenhuma graça, Glauco! Desculpe si sou grosso, Glauco, mas quem sente dor não pode dar risada! Sei disso porque sinto dor aguda de corno, fora a dor de cotovello!
ASSEMELHADO? [9997]
Eu acho os cegos todos sempre eguaes, Glaucão, todos com cara de pateta, de bobo, de babaca, de palhaço! Por isso dá vontade de zoar, de enchel-os de porrada, menestrel! Mas, Glauco, por favor, hem? Não me leve a mal, pois como os outros eu não sou! Appenas deu vontade, mas eu não faria aquillo tudo que elles fazem!
FRANCO SALTIMBANCO [10.168]
É comico o palhaço, que tropeça nas proprias pernas, quando se exborracha. É comico o humorista: a gente racha o bicco si chulice emprega à bessa.
É comico o pettiz que prega peça nos outros, si levar uma bollacha. É comico o cacete que na racha não entra, quando a puta a rir começa.
Ridiculo, o politico se pega no tapa com collegas em plenario e, pego no flagrante, tudo nega.
Mas, muito mais ridiculo, ou hilario, na rua sou eu. Minha cara cega de todas as piadas é themario.
DIA DO RISO [10.222]
Si estou num ambiente mais fechado, com menos gente extranha ao meu redor, provoco só sorrisos. Na peor hypothese, gargalha alguem mais sado.
Mas, quando pela rua ando, coitado do cego que vos falla! Do menor tampinha ao marmanjão, provoco mor risada, da gallera para aggrado!
Si cara de palhaço tenho, ou si appenas a cegueira dá motivo ao sarro, nada ainda concluí.
Mas, quando dos moleques não me exquivo e levo uma rasteira, até chichi me fazem!Tenho sorte de estar vivo!
DIA DA CHARADA [10.388]
Hem, Glauco? O que é que o homem tem na frente, a mulher tem no meio e o gay não tem? A lettra “H”! Gostou? Você tambem se liga num enigma que eu invente?
Onde é que a mulher tem, naturalmente, cabello mais crespinho? Ora, ninguem duvida que é nas Africas! Porem, pergunta ainda tenho que é mais quente!
O que é que, em poesia, tem cabeça, alem de ter pé? Dessa você vae gostar! E, caso goste, me aggradesça!
Resposta: as suas obras, ja que é pae você daquella lyra mais travessa, que implica algum tesão, no qual recae!
DIA DO CARICATURISTA [10.470]
Fizeram de você caricatura fiel, poeta? Jura? Ainda não? É facil! Vou pedir a um amigão que faça! Ah, vae honrar sua figura!
Ninguem o retractou bem, você jura? Pois elle desenhar irá, com mão segura, a sua cara de cuzão, de cego chupador, feiura pura!
Você parescerá, questão eu faço de ver, com as feições que tem, de facto: aface mais perfeita dum palhaço!
De quebra, desenhar vae um sapato ao lado desse rosto sem um traço siquer de dignidade, é o que eu constato!
DIA DA NÃO AGGRESSÃO [10.473]
Disseram que de mim ninguem excappa? Mentira, Glauco! Ja fallei que não dei soco, nem porrada, nem tapão nas fuças de ninguem no nosso mappa!
Estão mentindo, Glauco! Numa nappa jamais dei algum murro ou saphanão! Appenas, nas pessoas em questão, dei foi um formidavel pescotapa!
Não sou que nem o Cyro, que por nada sae dando pescotapas em qualquer pessoa que esboçar uma risada!
Só prego um pescotapa si me der na telha, menestrel! Leva a pancada quem diga que eu não gosto de mulher!
Lembrar-se da alegria de creança a gente sempre lembra. Piolin, Torresmo ou Arrelia, para mim, são nomes que a memoria ainda alcança.
Fuzarca, Carequinha… Na ballança nós pomos os momentos, por assim dizer, que são felizes. Só ruim ficou essa dramatica lembrança…
Palhaço dos palhaços, quem é mais? Só pode ser o cego que, na rua, é thema das piadas mais banaes.
Si eu passo, cada hyena faz a sua chacota… Nem garanto que jamais eu seja quem aos cães se prostitua.
OUTRO DIA DO PERDÃO [10.622]
Zombei eu, ja, de todos! Perdoar ninguem me quererá, neste momento atroz em que estou, cego, quando tento ainda reerguer-me! Puta azar!
Agora, de mim todos a zoar estão! Pedir perdão? Mas meu tormento os deixa divertidos! Meu lamento lhes causa riso! Como supplicar?
Pedir irei perdão por ter eu sido ironico, mordaz, irreverente? Irão dizer que estou mais divertido!
Hem? Como faz você? Como se sente, Glaucão? Mais masochista? Pois duvido que possa perdoar essa má gente!
DIA DA CORRIDA DE SÃO SYLVESTRE [10.670]
Ei, tive idéa boa, trovador!
Você na São Sylvestre! Hem? Genial! Sim, cegos tambem correm! Hem? Que tal? Eu fico do seu lado, quando for!
Está com medo? Pensa que se expor irá para as platéas nessa tal corrida de infelizes, que geral seria a gargalhada? Ah, por favor!
Seus versos ao ridiculo ja tanto se prestam! Elles querem ver você suando, não trancado no seu cantho!
Ficar sempre escondido para que? Ah, vamos! Que se foda! Nem me expanto si, numas, até rapa alguem lhe dê!
DIA DO DESFILE DE SALTIMBANCOS [10.675]
Que scena, amigos! Quero versejal-a! Em meio aos saltimbancos que na rua faziam, sem pudor, aquella sua devassa passeata, mandei balla!
Despi-me, me pinctei, como se falla, “montei-me” e, como quem se prostitua em pleno carnaval, qual bicha nua e louca, vi-me em tal traje de gala!
Sahimos a dansar e saltitar, emquanto a turbamulta, divertida, gritava: “Ah, la vae elle tropeçar!”
De facto, me rallei pela avenida, soltei-me totalmente, em meu azar. Foi sonho, mas resume minha vida.
NATIONAL PASS GAS DAY [10.713]
Peidar, eu peido mesmo, menestrel! Mas gosto de peidar quando tem gente por perto, muita gente! Quem aguente não ha, mas esse é mesmo o meu papel!
Difficil é conter o riso! Ao bel prazer, expalho peidos, de repente! Depois, finjo que estou indifferente ou mesmo offendidão! Dou de Miguel!
Em casa, penso nisso: então gargalho à bessa, abertamente, p’ra caralho, lembrando dessas caras ammarradas!
Por vezes, entre amigos, eu expalho fedidas bufas! Elles o meu galho não quebram: ja levei umas porradas!
DIA DE REMOER A INVEJA [10.747]
Estou ha vinte e quattro horas sem luz, Glaucão! De inveja agora morro, quando a noite cae e eu fico ruminando meu odio! Tudo em volta me faz jus!
Ao lado, o quarteirão todo conduz a vida normalmente! Vejo um bando de gente, à luz accesa, conversando e rindo de mim, como ja suppuz!
Na geladeira, as coisas se estragando e, no serviço, tudo que é remoto parado! Que destino mais nefando!
Olhando da janella, às vezes noto que estão a gargalhar, ja commentando a serie de improvisos que eu adopto…
DIA MUNDIAL DO RISO [10.785]
Não posso ver um cego, menestrel, que caio na risada! Ah, que risada gostosa! Ah, caro Glauco, não ha nada mais comico! Desculpe si é cruel!
Si vejo um pela rua, sem fiel parceiro que o conduza, ah, faço cada maldade que você dirá malvada demais! Mas esse é mesmo o meu papel!
Eu tenho visão boa, não preciso duns oculos de grau! Nenhum defeito na vida tive! Então, nos que teem, piso!
Gostou do meu humor? Eu approveito qualquer occasião para meu riso mostrar! Mas de mim rirem, não acceito!
DIA
DA AGUIA [10.807]
Uma alfaiataria de interior, chamada de Aguia d’Ouro, visitada foi por um forasteiro que, do nada, pinctou nas redondezas, quiz se expor.
O gajo, que exigia algum rigor na lingua portugueza, vira cada errão assustador que não aggrada ninguem na capital, é de suppor.
“Impóio” por “emporio” viu. Tambem “ataio” por “attalho”. Foi, porem aquella uma excepção. Deu parabens.
-- Não, Aguia não! Agúia! -- deu-lhe, bem na latta, a correcção o dono. Vem ao caso nos lembrarmos desses… trens.
DIA DA GARGALHADA [10.820]
Não, Glauco, você sabe que eu não rio à toa. Não sou rico, por signal. Tambem não acho graça quando mal fazer vejo ao cachorro um velho thio.
Alguem, que seja curto de pavio e perca a paciencia, dá geral motivo de piada. Acho normal, mas, fora algum sorriso, mais não pio.
Só mesmo desembesto na risada si vejo um cego otario, na calçada, tentando desviar dalguma poça!
Ahi, Glaucão, conter a gargalhada não posso, caso o cara, à frente, invada a lama da sargeta! Ha alguem que possa?
DIA DA GYMNASTICA OLYMPICA [10.867]
Glaucão, você precisa practicar gymnastica, tornar-se parathleta! É simples! A principio, sua meta será pequena, andando devagar!
Aos poucos, a bengala abbandonar irá! Logo depois, na mais completa nudez, você verá que nada affecta seu exito, si passa a saltitar!
Você, que nem movia do logar as pernas, vae notar que sempre dá, bem facil, para largos saltos dar!
Talvez a marca olympica tão ja não possa alcançar, Glauco, mas um ar hilario ganhará! Quem não rirá?
DIA DA VIUVA [10.884]
Poeta, reparaste? Gargalhada gostosa a viuvez sempre provoca na propria viuvinha! Não te choca aquella alegre e ludica risada?
Ouviste fallar? Dizem que, emfim, nada obriga a mulher, que era da piroca ja molle do marido (uma fofoca geral), a chupadora! Que coitada!
Emfim, a viuvinha agora pode chupar qualquer amante, sem siquer saber que nome tenha quem a fode!
Por isso é que gargalha a tal mulher que, nova, enviuvou! Hem? Não te accode achar que engula a porra si quizer?
DIA DA NUDEZ [10.906]
Jamais conseguirei ficar pellado na praia, menestrel! Em minha casa, porem, a gente sempre se extravasa, andando pelladão por todo lado!
Occorre que vizinhos estão ja, do seu poncto de visão, eis que isso vaza, em photos registrando o que dephasa nas minhas partes intimas, mau fado!
Nas redes elles postam minha picca ja flaccida, a barriga advantajada, a bunda até quadrada, emfim, a zica!
Não fosse a decadencia, Glauco, nada eu tinha contra as photos! Tudo indica que querem fazer memes, dar risada!
DIA DO GRAPHICO [10.910]
Um lerdo funccionario, que imprimia, por partes, o DIARIO OFFICIAL, mexeu (foi sem querer querendo) mal nalguns controles basicos, um dia.
Em vez de se imprimir “democracia” (Explica quem um erro tão fatal?) sahiu foi “dictadura”. Falha tal depois não se corrige. Quem queria?
Tentaram emendar aquella gralha, mas dizem que peor ficou a falha, ja que “democradura” a lei previa.
No nosso dia, a coisa ‘inda attrapalha mas, sem achar melhor coisa que a valha, deixaram assim essa porcaria.
DIA DO RICO RISONHO [10.914]
Commenta-se que rico ri à toa e nunca discordei, pois dou risada das coisas mais banaes, Glaucão, de cada desgraça por que passa uma pessoa!
Risada dou da chaga, caso doa na pelle de quem por soccorro brada! Risada dou da gravida accamada que foi violentada numa boa!
Risada dou dos pobres, que não teem aquillo que me sobra, fora aquillo que jogo na lixeira! Ainda bem!
Gostosa gargalhada, sem vacillo, dou quando vejo um cego, que ninguem adjuda, si a turminha quer feril-o!
LAUGH AND GET RICH DAY [10.915]
Commenta-se que, caso você queira ser rico que nem eu, deve risada dar, mesmo sem motivo, gargalhada soltar ao ver quem come da lixeira!
Verdade pura, Glauco! Da maneira mais cynica, divirto-me com cada mendigo que mendiga, si elle nada consegue de comer, da morte à beira!
Mas, caso tal mendigo cego seja, não solto só risada! Dou porrada, dou chute, até na porta duma egreja!
Hem, Glauco? Você, quando a molecada lhe curra a bocca, nota que festeja algum burguez! Não nota, camarada?
DIA DO FREVO [10.917]
Os cegos dansam frevo! Não sabia, poeta? Sim, um delles vi na rua, abrindo um guardachuva, para a sua cabeça proteger da chuva fria!
Ao vento, o guardachuva ja queria fugir, mas um ceguinho não actua sinão como palhaço, numa nua comedia desastrada! A turma ria!
O cego se torcia, se inclinava, ja quasi que de cocoras ficava, tentando segurar o guardachuva!
Um frevo, sem querer, dansou, sem trava nenhuma de vergonha, que se aggrava ao riso geral! Cae como uma luva!
SABBADO DE CARNAVAL [10.920]
O Bloco dos Ceguinhos, hoje, está sahindo na maior animação. Os outros me convidam, mas eu não queria me exhibir. Raiva me dá.
Na rua, ficam rindo de quem ja perdeu sua visão ou sem visão nasceu. Todos mal dansam, pois estão mui faltos de equilibrio. Oh, sorte má!
Receio tropeçar, mas meu collega do lado, ousado, um passo grande ensaia e eu fico motivado. Quem sossega?
Batata! Ja não tarda p’ra que eu caia e escute, da platéa: “Aquella cega bichona se fodeu!” E tome vaia!
DIA DO GUARDACHUVA [10.921]
Em pleno carnaval, si a gente sae levando um guardachuva, todos vão achar que, logo, um frevo nos farão dansar. Ja me preoccupo, pois. Ai, ai…
Não é que venta forte? Quasi cae da minha mão aquella protecção, que eu tento segurar bem firme, em vão. A turma que me vê ja rindo vae.
Me encolho, me accocoro, me contorço, mas esse guardachuva aqui não quero perder… A turma ri do meu exforço.
É sempre assim. Risadas não tolero, mas, neste carnaval chuvoso, torço que venha vendaval menos severo…
DOMINGO DE CARNAVAL [10.922]
O Bloco dos Ceguinhos me convoca e tenho de estar, nelle, prompto para mais uma vesperal hilaria e rara, bem typica da scena carioca.
Aos olhos da platéa, que masoca achou-me e, como sadica, tem tara, terei que desfilar e minha cara expor à tragicomica fofoca.
Os cegos a meu lado mal conseguem dansar e, tropeçando, se exborracham, ao riso permittindo que se entreguem.
Àquelles que ridiculos nos acham me exponho, qual Sansão. “Que elles me ceguem!”, supponho, nestes sonhos que se excracham.
DIA DA CAMISETA BRANCA [10.923]
Vestindo camiseta branca, tenho que estar, no meu bloquinho, prompto para passar o mor vexame, pois a tara do publico é ver nosso desempenho.
No bloco, todos cegos são. Que engenho bollou sessão tão sadica? Tomara que eu passe, sem cahir, e minha cara preserve do sadismo mais ferrenho!
Qual nada? Me emporcalho na poeira da rua. Fica sujo o panno branco, tornando mais gozada a brincadeira.
Assim a tarde passo, sob o tranco dos outros, tropeçando, de canseira chorando, pois um bobo sei que banco.
OUTRO DIA DO ENFERMO [10.924]
No Bloco dos Doentes eu tambem consigo desfilar, pois o glaucoma cegou-me, permittindo que me coma o cu quem bem enxerga, com desdem.
Na rua, a tropeçar com elles, sem descanso, o dia passo. Quem se toma de magica coragem não embroma e dansa como pode. Dó quem tem?
Ninguem. Pelo contrario. Querem ver doentes se rallando, de muleta, pullando qual sacy. Sentem prazer.
Alguns sei que até gozam na punheta, emquanto nos contemplam. Meu dever é dar-lhes diversão. Que eu me submetta!
DIA DE NÃO CHORAR [10.925]
Quem é, no carnaval, que não sorri? Não posso, pois, chorar. Tenho que estar promptinho para, à tarde, desfilar, no Bloco dos Ceguinhos, por ahi.
Preparo-me. Me hydrato. Ja chichi fiz, antes de sahir. O singular bloquinho tem passagem no logar mais sujo da cidade. Quem não ri?
Diverte-se essa rude molecada com nossa vesperal. Dão mais risada si estamos tropeçando, si cahimos.
Melhor, para gozarem, não ha nada. Só falta se exporrarem, na sacada, os nossos vis vizinhos, até primos.
DIA DO ZELADOR [10.926]
No predio onde resido, o zelador é muito gozador. Elle se exbalda sabendo que eu, vestido só de fralda, terei que desfilar, de bom humor.
No Bloco dos Ceguinhos que me expor eu tenho. O masochismo só respalda aquillo que fallou Vovó Mafalda: “Creança sabe como causar dor!”
Se explica, pois, que toda a creançada daquelle condominio nos ver queira la fora, a tropeçar na caminhada.
O proprio zelador minha caveira quiz ver, mas sem maldade. Não ha nada melhor que essa sadia brincadeira.
DIA MUNDIAL DO CASAMENTO [10.927]
Até dum monogamico par fica exposta a popular reputação durante o carnaval. Todos estão dispostos a peccar, se verifica.
Olhando sempre para a alheia picca, disfarsa o bem casado cidadão. Na rua, alguns casaes sentem tesão appenas assistindo à nossa zica.
Nós, cegos, ao prazer nos ammarramos daquelles que, enxergando bem, risada gostosa dão, emquanto nos rallamos.
No Bloco dos Ceguinhos, sou de cada casal, como si fossem nossos amos, palhaço visual. Meu drama aggrada.
DIA DO CENTAVO PERDIDO [10.928]
No Bloco dos Ceguinhos, cada qual exquesce por um tempo que mendiga algum tostão dalguma mão amiga. Curtir querem um pouco o carnaval.
Amigos tenho nesse bloco. Mal sahimos a dansar, alguem me instiga a um pappo bom, depois. Tambem se liga aquelle colleguinha num oral.
Me conta que chupou quem ja lhe dera esmolla alli na praça. Assim, valeu fazer mais um contacto. Ora, pudera!
Commum, no carnaval, de philisteu fazer-se quem enxerga. Tal paquera tambem a mim paus sadicos rendeu.
DIA DO GARAGISTA [10.929]
Do predio, o garagista tambem gosta de ver nosso bloquinho desfilar. Por vezes, me provoca. Meu logar, diz elle, é viver mesmo nesta bosta.
Cegueira alheia, a phrase está ja posta, não arde nos olhinhos de quem dar risada adora ao ver-me tropeçar na rua, a cada amigo que se encosta.
Depois de me ver sendo la zoado, aquelle garagista, a rir, pergunta si estou sentindo falta dum aggrado.
Assim que sim eu digo, o cara assumpta de piccas e boquettes. Nem me enfado e tracto de mammar. Tudo se juncta.
DIA DO IMMIGRANTE KOREANO [10.930]
Vizinho, um immigrante koreano diverte-se me vendo dansar, todo sem jeito, no meu bloco. Sem engodo, lhe digo que me sinto mais mundano.
Das artes marciaes se diz uffano o gajo. Quando digo que me fodo levando um pé na cara, ja que appodo eu tenho de podolatra, acho um mano.
Sorrindo, o Koreano diz que quer testar em mim seu golpe mais levinho, tocando com o pé no que puder.
Assim, viro um parceiro do vizinho num jogo de poder. Sua mulher nem liga. Acha que versos escrevinho.
DIA DO ORGULHO ATHEU [10.931]
Em pleno carnaval, um peccador mais pode se orgulhar de ser atheu. Si for elle poeta, que nem eu, irá se exbaldar, sem qualquer pudor.
Me vendo um dia, quando fui me expor no Bloco dos Ceguinhos, esse meu collega atheu fallou que ja fodeu a bocca dum dos nossos, gozador.
Pergunto si elle, sendo atheu, se sente mais livre e solto para foder uma garganta de qualquer pobre invidente.
Responde elle que basta que se assuma fodido qualquer cego e, incontinenti, enfia a rolla, ja sem pena alguma.
TERÇA-FEIRA GORDA [10.933]
Na terça-feira gorda, alguns damninhos desejos se permittem afflorar, taes como os dos que curtem a vulgar performance do Bloco dos Ceguinhos.
Os cegos, desastrados, aos pouquinhos se movem, dansar tentam. Mas achar tamanha graça nesse singular desfile calha a jovens excarninhos.
Um desses debeis cegos me relata ter sido, logo appós a passeata, currado por um gruppo juvenil.
Fizeram-no chupar, uma mammata commum na torpe chronica da data mais typica aqui deste ebrio Brazil.
DIA DA COMPREHENSÃO [10.989]
Entendo, menestrel, que você nada vê, nada appreciar pode na vida, que está desilludido, que duvida de tudo, na cegueira desgraçada!
Entendo que você se desaggrada daquelle que, de boas, o convida ao cine para ver a divertida comedia, que provoca gargalhada!
Entendo que você fique mais puto na rua, quando toda a turma goza do cego! Na verdade, é jogo bruto!
Appenas não entendo quando posa você de escriptor! Pode? Que fajuto! Um cego, que nem lê, contando prosa?!
DIA DO COMEDIANTE [11.000]
Preferes tu, poeta, dos clichês battidos do sonnetto, dos bordões mais typicos, tornar-te só freguez, appenas imitando os de Camões?
Alguem seguir desejas, que ja fez milhares, mas que exbanja as allusões piegas, as breguices que talvez nem fiquem? Ou mais raro te suppões?
No caso de suppores ser mais raro, terás que performar uma persona burlesca, assaz ridicula, meu caro!
Mas, como tu ja fazes, nessa zona satyrica, papel de quem tem faro de cego, tua lyrica funcciona.
DIA MUNDIAL DA POESIA [11.041]
Hem? Outra data para a poesia? Não acha muita coisa, menestrel? Exsiste tanta gente que papel de bobo faça, ainda, ou que fazia?
É comico, meu! Quanto mais um dia excolhem para a coisa, mais miguel o meio litterario faz! Cruel destino, o dos que fingem alegria!
Palhaços são vocês! Da corte bobos! Só ficam divertindo os poderosos, servindo de cobayas para os lobos!
Da gloria dos applausos calorosos vaidosos ficam mesmo os homens probos! Poetas, nunca: passam por manhosos!
DIA NACIONAL DA ALEGRIA [11.070]
Apposentadoria não tem dia de prazo p’ra sahir? Salario pode, por vezes, attrazar? Alguem se fode na fila do hospital? Ora, sorria!
A compta de energia deveria baixar num appagão? Não se incommode! Os pobres, affinal, ninguem accode! Perdeu seu bom humor? Ora, sorria!
Sabia? A allegoria da alegria está naquelle trem que, no Congresso, promove esses bossaes! Então, sorria!
Você não conseguiu fazer successo siquer como poeta? Ahi, sorria! Tambem eu me fodi! Palmas nem peço!
DIA DO RISO MOMENTANEO [11.072]
Por ultimo quem ri, melhor rirá, dizia aquelle adagio popular. Eu isso, Glaucão, posso confirmar, pois muito caçoei dos outros, ja!
Um dia, fiquei cego, como está você neste momento, mas logar não tive entre poetas e meu ar da graça até parei de dar por la!
Naquelle bar poetico, somente quem tenha astral satyrico consegue ser tido, no gruppelho, como gente!
Coitado do humorista, alli, que cegue! Cahir vae do cavallo! Elle que aguente o riso dos confrades e se entregue!
DIA MUNDIAL DA DRAG QUEEN [11.198]
Mas sabe o que me excita nessa amiga, poeta? A natural descontracção, o humor advaccalhado, o lado não conforme com o sexo, o que me instiga!
Na cama, alguem procuro que se liga em sadomasochismo, submissão, mas acho, na politica, a questão mais ampla, mais complexa a nossa briga!
Por isso ellas exercem o papel mais critico, polemico, maluco de todos os que luctam, menestrel!
Jamais com queen nenhuma é que eu encuco! Encuco com machões que, no quartel, só fazem amizade com eunucho…
DIA DA PLATÉA [11.211]
Exsiste comediante sem platéa? É como um escriptor cego. O subjeito se expõe à gargalhada. Seu defeito nos olhos não tem jeito de epopéa.
Tem jeito de comedia, sim, pois é a imagem do palhaço o seu conceito de escravo masochista que tem peito só para a lyra suja, a mais plebéa.
Emquanto me colloco no papel do bobo que, ridiculo, desnuda a sua condição de menestrel…
A sadica assistencia, ja que muda não fica, ri da minha mais fiel figura, a do truão de voz boccuda.
DIA MUNDIAL DO ORGASMO [11.214]
Um dia perguntei-me: Quantos, nesta exacta data, neste mesmo horario, sentados na privada, vão cagar e o cocô fazer, tal como se faz festa?
Tambem a perguntar, aqui, me resta: E quantos seu orgasmo, neste hilario momento, vão gozando? O kalendario gozadas conjecturas nos empresta…
Assim como supponho quantidade immensa de cocô se accumulando na Terra, assim terei curiosidade:
E porra? Quanta porra que esse bando de gente exporra agora? E então? Quem ha de tomar no cu, cumprir tudo o que eu mando?
NATIONAL FAILURE’S DAY [11.235]
Não acho, não, que seja fracassado, poeta! Nada disso! Sou appenas um gajo que, sem sorte, vive scenas ridiculas! De facto, um azarado!
Estão ja me gozando, pelo lado hilario desta vida, as taes hyenas de sempre, que cabeças teem pequenas e idéas de gerico! Só me enfado!
Tá certo que, ja bebado, tropeço e caio pela rua, a certa altura do dia, até da noite, de regresso!
Mas isso não implica que insuccesso eu tenha a cada passo! Me segura meu anjo, pois a adjuda delle peço!
DIA DO LOCUTOR [11.276]
Você pode… ééé… fazer contacto… ééé… por diversos canaes: pelo nosso… ééé… email, ou pelo applicativo… ééé… que está cheio de gente… ééé… que tem coisas a propor.
Alem desses canaes… ééé… por favor, o ouvinte… ééé… poderá accertar em cheio naquelle… ééé… gostosissimo sorteio e, emfim… ééé… se tornar um locutor.
Agora a gente… ééé… sae prum intervallo. Na volta, explicaremos… ééé… melhor quem é que participa… ééé… Logo eu fallo.
Enviem as mensagens… ééé… De cor ja sabem: nove nove nove… ééé… Rallo a lingua aqui… Tem numero menor?
ASK A STUPID QUESTION DAY [11.296]
Poeta, perguntar, acaso, offende?
Então por que não deixam que eu questione si entrou na rachadinha algum aspone?
Por quanto um esquerdista a causa vende?
Juiz diz coisa alguma que se entende?
Bancaria compta alguem abre por phone?
Um rei da lyra ha clone que desthrone?
Se salva algum sonnetto que se emende?
Será que é de virada mais gostoso?
Ou soffre-se demais antes do gozo?
Um correligionario outro não trae?
Por que é que esnobam versos seus, Mattoso?
Não pode nenhum cego ser famoso?
Ou só si elle for gringo um premio sae?
WORLD
SIGHT DAY [11.315]
No dia da visão, darão risada dos cegos os que enxergam bem, é claro! Sim, para pensar, Glauco, quando paro, entendo o que motiva a palhaçada!
Fizeram de proposito! Foi cada gaiato suggerindo! O mais ignaro dos caras para a coisa teve faro bem sadico, bem ludico, mais nada!
Pensaram: “Si gozarmos do ceguinho, faremos com que sinta ainda mais a agrura da cegueira! Ah, que excarninho!”
Por isso, cara, achar que são normaes taes datas é besteira! Ja adivinho que estejam gargalhando dos teus ais!
COLOR DAY [11.331]
Eu vejo, Glauco, todo colorido o mundo, mas você ver ja não pode as cores e, do céu, ninguem accode seu choro supplicante! É divertido!
Sim, Glauco, me divirto, pois duvido que queira alguem ser esse que se fode assim! Acha, Glaucão, que se incommode quem queira só zombar do seu gemido?
Não era, menestrel, isso que quiz você escutar? Então! Estou aqui não é para dizer coisas gentis!
Alem do que lhe digo, sei que ri tambem dessa cegueira quem matiz enxerga, verde, em todo mimimi!
DIA DO EVOLUCIONISTA EVANGELICO [11.379]
Ulysses escreveu (o chimpanzé que, sendo litterato, tem talento) accerca duma fabula que eu tento saber si la na Biblia tem um pé.
Diz elle que, em Javeh botando fé, Adão, um macaquinho ciumento, com Eva se casou e, cem por cento machista, quiz saber della: “Qual é?”
Eis que Eva, a macaquinha, ja não era mais virgem! Adão, puto ja ficando, cobrou satisfacções do Pae. Pudera!
Porem Javeh, que em tudo tem commando, fallou: {Bah, virgindade é só chimera, rapaz! Va se entender com o seu bando!}
CLOWNS DAY [11.397]
Glaucão, ja lhe fallaram que você tem cara de palhaço? Na verdade, eu acho que qualquer cego terá de palhaço uma careta, bem se vê!
É o circo o seu logar, Glaucão! Cadê que irão reconhescer isso? Quem ha de fazer você dansar e, sob um Sade qualquer, nos divertir pela TV?
Suggiro que você, Glaucão, declame alguns sonnettos, numa perna só, tornando mais ridiculo o vexame!
O publico, que nunca sente dó, cahir na gargalhada vae! Me chame, Glaucão, para assistir! Ouviu, bocó?
DIA NACIONAL DO SORRISO COMPARTILHADO [11.405]
Amigos e eu, zombando dum ceguinho, trocamos nosso cumplice sorriso ao vel-o tropeçando nesse piso terrivel que elle encontra no caminho.
Um cego tão teimoso eu expezinho com gosto, mesmo! O cara algum adviso ja tinha recebido, mas juizo não teve e se fodeu bem bonitinho!
Tentar, só de bengala, caminhar, illeso, nesse typo de calçada, é grande insensatez, em vez de azar!
Fodeu-se! Exborrachou-se! Dei risada, é claro! Meus amigos tambem! Ar fizemos de ironia: nos aggrada!
DIA NACIONAL DA PIADA SURRADA [11.455]
Ao gynecologista o cego indaga: “Doutor, qual o tamanho dum clitoris?” Responde este: {Variam, dos menores àquelles mais compridos que uma adaga…}
O medico brincou, mas regras caga: {De dois a trez centimetros…} Peores momentos passa o cego: “Não me gores a vida! Me fodi, porra! Que praga!”
{Por que? Qual o problema?}, quer saber o medico. “Chupei um pau, então!”, o cego confessou seu desprazer.
Embora a piadinha seja tão simploria, assaz reflecte esse poder que impõe quem bem enxerga ao sem visão.
DIA PESSOAL DO CHORO HUMORISTICO [11.589]
“Não chora! Si chorar é que peora! Acceita, que dóe menos teu castigo!”, disseram ao me verem cego. Agora os chupo e “Sim, Senhor!” ainda digo.
Quem disse taes verdades commemora o facto de enxergar bem e commigo poder zoar. Humilde é quem só chora calado e chupa. Aos poucos, eu consigo.
Depois de certo tempo, me convenço: Alguns mais se divertem quando tento chorar, lacrymejar, usar o lenço.
Me dizem esses, rindo, que eu immenso prazer lhes proporciono si lamento meu drama. Desse humor terão mais senso.
DIA
GERAL DO ROCKEIRO PICCADEIRO [11.593]
Em vez de se mactar, quem para fora põe suas amarguras quer brincar: “Addeus, mundo cruel! Eu vou entrar pro circo! Vou virar palhaço, agora!”
Palhaço? Ora, palhaço tambem chora! Mas muito mais num circo tem logar trapezio, chorda bamba, malabar, leão que cabecinhas não devora…
Que mais? Illusionismo, claro. Quem performa não se macta, alli, no duro, appenas se degolla, sangue sem.
Si for um bardo cego, para alem da morte, engole rolla: com appuro, faz comico papel, como convem.
SONNETTO DO MIMIMI
[11.603]
{Sem essa, Glauco! Um cego não tem nada que estar se lamentando! Por aqui fiquei depois que tanto pappo ouvi de gente se dizendo desgraçada!}
{É só saber levar! Capaz é cada ceguinho de fazer tudo o que vi fazerem, de evitar fazer chichi no dedo ou para fora da privada!}
{Não acha, cara? A gente até se enfada! Conhesço um conformado, que sorri de tudo, faz comsigo uma piada!}
-- Bem, quando de mim riu a molecada, não pude rir tambem. Nem chorei si, calado, ouvi dos gajos a risada.
SONNETTO DO GAY MOMO [11.604]
De novo o Carnaval chegando vem!
De novo me trancar em casa vou, mas, sendo masochista como sou, irei phantasiar-me pejo sem.
Não visto phantasia de nenen, dum indio ou dum pirata. Ja ficou, emfim, fora de moda no meu show usar escuros oculos, tambem.
Aqui no meu sallão, nem venda ponho.
Só sirvo um gordão amo que conservo no rol das amizades, ou no sonho.
Momesco follião, do meu tristonho semblante elle excarnesce. Sou seu servo e penso no seu sceptro si me bronho.
SONNETTO DO LEITOR FEITOR [11.677]
Está faltando, Glauco, mais palhaço na praça! Ando bastante entediado! Bem, vamos la, me faça rir! Me enfado si não me divertir! Seja devasso!
Humilhe-se! Performe, emquanto faço chacota de você, meu dedicado escravo! Lamba a sola do calçado que eu surro, mais immunda a cada passo!
Em casa, ando descalço! Minha sola ficou encardidissima! Lhe exfolla a lingua, si lamber, é o que eu realço!
Chutal-o me diverte! Sim, é bolla você para mim! Sabe por que rolla? É cego de verdade, não é falso!
SONNETTO DO SENSIVEL DESNIVEL [11.724]
Você me criticou porque eu sorri? Tem gente, ja, a morrer que nem formiga? Que quer, meu caro Glauco, que eu lhe diga? Direi, então, appenas: E dahi?
Emquanto cago ou faço o meu chichi, eu penso: tanta gente minha amiga nem é! Não sou do typo que se liga nos outros, nos extranhos! E dahi?
Hem, Glauco? Lhe incommoda si eu sorrio? Mas, sendo um masochista, cê devia sonhar commigo nessa phantasia!
Caralho! Que foi isso? Um calafrio senti, Glauco, nas costas! Que seria? Dos mortos virá mesmo uma energia?
SONNETTO DO ADHESIVO [11.825]
Um cego, bengalando, pára à beira do largo calçadão. Quando o signal abrir, attravessar quer. Alguem, mal pensando, ja bollou a brincadeira.
Dispondo-se a adjudar no que elle queira, o gajo colla às costas do “mural” ceguinho um adhesivo que é fatal: o symbolo da faca na caveira.
Instados pela audaz provocação, os outros transeuntes olham para o cego com desdem, chutam-lhe a vara…
Jogado ja no chão, leva pisão o otario pelo corpo, pela cara… Escuta a rir a gente e vira arara…
SONNETTO DAS IMMUNDAS E JOCUNDAS [12.048]
Estou pasmo, Glaucão! A mulherada agora desandou a fallar tudo de sujo, de vulgar, de cabelludo que podem! Tenho ouvido, Glauco, cada!
Alem de fallar, soltam gargalhada de puta! Sim, daquellas que, em desnudo estado, desfilar vão num entrudo! E comtam -- Meu Jesus! -- cada piada!
Aquella do sacana papagayo, aquella do ceguinho porcalhão, aquella dum judeu, dum allemão…
Aquella do portuga ao ver um raio… Outrora a mulherada no balayo dos gattos não entrava, Glauco, não!
SONNETTO DUMA SEDENTARIA CHORADEIRA [12.137]
Glaucão, a quarentena ja demora demais para accabar e alguem está bastante entediado? Ficará ainda por mais tempo! Senta e chora!
Nas urnas, por azar, ficou de fora aquelle candidato que está ja por muitos perseguido, mas será eterno favorito? Senta e chora!
Teu time, que ja quasi commemora o titulo, perdeu no tapetão e perde na tabella? Senta e chora!
A tua visão, Glauco, só peora e cego ficas? Oras, hoje, em vão? Não resta alternativa! Senta e chora!
SONNETTO DO HOMEM QUE RI [12.181]
Hem, Glauco? Si de bicha alguem te xinga, depois outro te xinga de maricas, depois te enfia a turma algumas piccas, que fazes? És do typo que se vinga?
Appellas para a fé? Para a mandinga? Num delles te transformas? Cruel ficas? Performas as taes scenas que, tão ricas de excarneo, são eguaes às do Coringa?
Exemplo dei daquillo que comtigo fizeram… Mas responde: que castigo bollaste? Quaes torturas, Glauco, crias?
Concordas? No teu verso dás abrigo àquelles curradores? Ja me ligo! Te vingas, sim! Entendo que tu rias!
SONNETTO DUM CEGO EM PISOTEIO [12.273]
Morri de rir, Glaucão, daquelle inglez que foi pisoteado pelo gado! Que estupido, ora! Foi o resultado da falsa liberdade de vocês!
Vocês, sim, caro Glauco! O que elle fez, tambem cegueta sendo, foi gozado por todos que passavam! O coitado ferrou-se! E vae chegar a sua vez!
Quiz elle passear com seu cão-guia em area rural, onde cada vacca exige seu espaço! Que babaca!
Penou nos pés da vacca! Quem diria? Illeso o cão sahiu, mas foi de maca levado o cego! Todos riram paca!
SONNETTO DUM CEGO EM TIROTEIO [12.276]
Aqui nesta favella a gente mora com tudo que é cagão na vizinhança! Um cego eu excolhi! Commigo dansa na marra! Ah, dou risada a qualquer hora!
O cego percebi que se appavora com tiros, sente medo da mactança diaria das facções! Como creança brincamos com tal scena! A turma adora!
Ao ar nós disparamos toda vez que vemos o ceguinho caminhar sozinho! Todo mundo ri, no bar!
Depois procuro o cego, que ja fez um curso de massagem, e folgar meus pés nas suas mãos vou, sem pagar!
SONNETTO DA CARA FECHADA [12.351]
Sou muito sorridente, Glauco! Para amigos e inimigos dou risada ou mostro um sorrizinho si piada sem graça alguem me conta, todo “odara”!
Sim, Glauco, sou risonho, mas arara eu viro quando topo um camarada da minha cara rindo sem que nada eu faça! Ah, rilho o dente! Eu fecho a cara!
Si eu conto, todos rindo ver eu quero! Mas quando um babacão a rir demora, eu acho que me goza! Perco o lero!
Ah, boa gargalhada só libero si vejo um cego triste! Então vigora meu senso de sadismo mais sincero!
SONNETTO DA RISADA CONSUMMADA [12.949]
Glaucão, me diverti com essa scena de rua, alli no largo d’Anna Rosa! Mijei-me de rir! Ora, quem não goza dum cego que excorrega? Quem tem pena?
Na praça havia typo uma dezena de noias! Ao notarem a famosa bengala branca, riram! Ninguem dosa o sarro nessas horas! Quem condemna?
O cego, que pisara na titica, de cara ao chão cahiu! A molecada ainda deu-lhe chutes! Hem? Que zica!
Hem? Serio? Foi você quem na calçada damnou-se? É tarde, Glauco! Bem não fica, sei disso, ora! A risada ja foi dada!
SONNETTO DO PUBLICO CIRQUINHO [13.042]
Jogaram, na calçada, algum sabão appenas para verem o ceguinho achar mais um entrave em seu caminho. Calculem si rollou excorregão!
São sadicos, os jovens, hem? Não são? Ao vel-o se rallar, um excarninho khorinho ouviu o cego, coitadinho! Ao menos, apprendeu sua licção.
Commigo ja não rolla coisa assim. Passei, ja, por tamanha zoação que, experto, hoje na moita a ficar vim…
Alguem em minha bocca algum tesão ja teve, em plena rua. Para mim pesou mais, da platéa, a reacção.
SONNETTO DA CONDUCTA ABUSIVA [13.129]
Ouvi, do meu amigo mais gaiato, que é facil divertir-se com quem ja perdeu sua visão. Ninguem está ligando si se fode, é o que eu constato.
Mas elle não appenas ri. De facto, provoca a gargalhada geral, má conducta revelando. Que será que fica a planejar esse insensato?
Primeiro, uma bengala longe chuta. Depois, passa a rasteira no coitado. No chão este rasteja… Ah, que conducta!
Si encontra a bengalinha, para aggrado daquelle que bem vê, ja nova lucta o cego trava: até será pisado.
SONNETTO DA GAGUEIRA E DA CEGUEIRA [13.236]
{Gagá, Glaucão! Me chamam de gagá! Gagueira, até, me dá, de tão cabreiro que fico! Fo-fodeu, com-companheiro! Ga-gago fa-fallando vo-vou, ja!}
-- Sossegue! Quem assim não fallará si fica tão carente? Eu mesmo beiro o panico si chego num puteiro, levado pelos manos, meu xará!
{Me-mestre, é differente! Vo-você chu-chupa na ma-marra pi-pi-picca à be-bessa, pa-pagando um mi-michê!}
-- Mas velho sou, tambem! A gente fica, assim, mais vulneravel a quem dê porrada, alem de rir da nossa zica!
SONNETTO CONDEMNAVEL (1) [13.443]
Dizia Leo Lins o que interpreto. Bem, digo que “dizia” porque ja disseram ao subjeito que não dá mais para ser assim tão incorrecto.
A um gordo Leo disse e foi directo: “Cê quer emmagrescer? Mas nem será preciso perder tempo, camará, com tanta malhação…” Não ficou quieto:
“Sim, basta pegar AIDS! Então é só sahir com gays trepando por ahi…” Das varias minorias não tem dó…
P’ra cyma do humorista mimimi não falta, nem processo. Não, chodó por elle não terei. Porem eu ri.
SONNETTO CARICATURAVEL
[13.467]
Tu ja te imaginaste, em tua dura vidinha de cegueta, convidado àquelle show do gajo que tem dado exemplo de satyrica figura?
Pensaste? Elle fará caricatura da tua cara, Glauco! O resultado será que, por ser cego, de veado alguem deva ser feito! Não tens cura!
No palco, o comediante irá mandar que lambas os sapatos de quem queira subir e, frente às cameras, brilhar…
Piadas causará tua cegueira, mas pensa que teu nome popular será, mais do que, posthuma, a caveira!
SONNETTO CONDEMNAVEL (2) [13.471]
Um cego, que engenheiro se diz, vae ao show dum comediante, que na testa lhe batte e, frente ao publico, faz festa às custas do subjeito, que diz: “Ai!”
O publico ri. Ficha jamais cae ao sordido humorista, que detesta qualquer deficiente. Nada resta sinão notar que o povo se distrae.
“É foda, não? Um cego que engenheiro se diz! De que? De software? Mas então não pode funccionar, né, companheiro?”
Só falta applicar nelle um saphanão, um murro, uma rasteira… Até me inteiro de que elle foi pisado, ja no chão…
SONNETTO INDUBITAVEL [13.476]
Podolatra, ficou Vera Verão famosa numa “Praça da Alegria”. O texto que lhe deram só dizia que, muitos, grandes fans de fructa são.
No proprio pé quem curte refeição festiva, num pomar, desejaria provar cada fructinha. Todavia, a Vera teve disso outra noção.
“Sim, gosto de chupar no pé!”, disse ella. A phrase, eis que synthetica, revela, sem duvida, algo proximo de mim.
Não sei si alguem diria que ella fella tambem algo mais proprio, mas querella não faço, ja que fica bem assim.
SONNETTO INSOPHISMAVEL
[13.499]
Commenta Leo Lins: “Ah, toda vez que vejo um cego pela rua andando, vontade me dá, quasi que um commando por dentro, incontrolavel e soez…”
“Vontade de tomar delle (Vocês não acham graça?), sempre chutes dando, aquella bengalinha! Affinal, quando cahisse, lhe enfiava…” Que mais fez?
Nem disse desse jeito, nem metteu a vara no cu delle, todavia. Importa que isso pense, direi eu.
À parte esse sadismo, do meu guia eu mesmo ouvi tal chiste. Qual plebeu piadas taes não ouve todo dia?
SONNETTO
DO OBSCURANTISMO [13.671]
Eu acho obscurantista a decisão de tudo prohibir numa piada, poeta! Assim não sobra, não, mais nada que possa alegrar esse meu povão!
Eu optimo humorista sou, Glaucão! Mas quero de expressão essa allegada e inteira liberdade, camarada! Sinão, os meus leitores não rirão!
Tampouco no theatro, quando for momento de, dum cego, cotucar aquillo de que fora portador!
Gozei que, de glaucoma, vejo um ar demente em quem nos olhos tem a cor azul, sem que, na tela, a possa achar…
SONNETTO DO METEORISMO [13.693]
Glaucão, meus peidos rhoncham! Eu me encolho e explodo! Passo sempre essa vergonha! Seus gazes controlar, hem, quem não sonha? Ainda falla alguem que tem orgulho?
Exsiste esse sarrista! Não empulho ninguem, mas me contaram que quem ponha no pratto ovo cozido, de enfadonha historia, peidará! Tambem repolho!
Pheijão, batata doce… Eu ponho tudo no pratto, menestrel! Vou me privar? Meus habitos à mesa, ah, nunca mudo!
Si gostam, si não gostam do meu ar, problema delles, ora! Não estudo taes themas, sinão… Toca a gargalhar!
SONNETTO DO SARRISMO [13.718]
Mas, Glauco, precisamos tirar sarro de tudo nesta vida, quando dá! Por cyma si estivermos, camará, na cara não nos cae nosso catarrho!
Eu, quando pela rua vou, si exbarro num cego, por exemplo, tracto ja de boa cusparada lhe dar! Ah, é nessas brincadeiras que me ammarro!
O cego, que na cara a cusparada recebe, nem esboça reacção! É foda, pois não pode fazer nada…
Correr eu nem preciso! O que é que, então, eu faço? Fico olhando o camarada, choroso, se limpando com a mão…
SONNETTO DO HUMORISMO [13.783]
Nem todos acham graça, mas exsiste alguma razão, sempre, para riso! Rir alça meu astral! Rir é preciso! Impede que eu esteja, às vezes, triste!
Emquanto ‘inda enxergavas, tu não viste um gajo, na prisão, lambendo o piso?
Não viste esse que até perde o juizo soffrendo uma tortura? Ja não riste?
Não riste de quem, cego, cae na rua?
Não riste da nympheta que, currada, acharam quasi morta, ainda nua?
Então não achas graça mais em nada? Que falta de motivos, essa tua! Preferes chorar? Quero dar risada!
SONNETTO DO GOZACIONISMO [13.946]
Da vida a gente leva a gozação, poeta! Só me importa tirar sarro daquelles com quem, toda vez, exbarro na rua, tão fodidos que elles são!
Um cego, por exemplo… Fico tão feliz por enxergar bem e, no barro, empurro esse infeliz, esse bizarro especime, que inspira até pisão!
Ao vel-o ja atolado, na risada eu caio, mas, si tenta rastejar p’ra fora alli da lama, deixo nada!
Lhe metto o pé na cara! Do logar o cego não se evade e, vez mais cada, me inspira a gargalhada seu azar…

