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MANUAL DO ESTUDANTE

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M A N U A L DO ESTUDANTE

Glauco Mattoso

MANUAL DO ESTUDANTE

São Paulo

Casa de Ferreiro

Manual do estudante

© Glauco Mattoso, 2026

Editoração, Diagramação e Revisão

Lucio Medeiros

Capa

Concepção: Glauco Mattoso

Execução: Lucio Medeiros

Fotografia: Akira Nishimura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mattoso, Glauco

MANUAL DO ESTUDANTE / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 122 Páginas

1.Poesia Brasileira I. Título.

25-1293 CDD B869.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira

NOTA INTRODUCTORIA ou

COVIL ESTUDANTIL

Do bullying que soffri quando creança são vivas as lembranças. Foi dahi que veiu o meu motivo creativo nas lettras, ao invés da reacção mais typica das victimas: vingança ou, muito mais frequente, simplesmente um trauma a ser, na vida, carregado. Mas, como o saldo disso me foi ludico e erotico, os leitores brindo com poemas: neste livro, uns collecciono que fallam justamente do local propicio para trotes e zoeira, ou seja, as escholares classes onde começam os abusos contra aquelle que, sendo “differente”, se colloca no posto de escravinho dos demais. O resto todos sabem. Bom proveito.

DISSONNETTO ESTUDANTIL [0052]

O trote é tradição na academia, mas ja foi mais cruel na Edade Media. A vida de calouro era a tragedia do “escravo”, emquanto o “dono” o usava e ria. Soffri na propria carne essa agonia, porem contrariei a encyclopedia no dia em que tramei uma comedia fingindo entrar naquella engenharia. Calouro disfarsado, fui tractado que nem um bicho manso que se enxote, se pise, chute e surre com chicote, lambendo o veterano pé suado. É claro que não fiz nenhum fricote! Comptei, porem, com esse resultado: assim é que eu queria ser usado! Fui eu quem lhes passou o maior trote!

DISSONNETTO SOCRATICO [0057]

Os gregos cultivavam sapiencia: Um joven tinha em seu educador alguem que dava o maximo valor aos fetidos signaes da adolescencia. Chupava o professor com paciencia o phallo do moleque, até suppor que é porra mel, urina até licor e esmegma o puro nectar da appetencia. Como era philosophico ser grego, com esses meninões poder brincar! Alli por certo houvera algum logar onde eu, embora cego, achasse emprego... Ja sei, minha funcção era sugar, sem nunca do dever pedir arrego, o que sobrou do joven no seu rego e seu chulé saber saborear.

DISSONNETTO CORRIQUEIRO [0264]

Andando de bengala na calçada, o cego passa em frente duma eschola na hora em que um inquieto rapazola tropeça-lhe na vara e esta é largada. O joven cavallão se desaggrada: na vara pisa, e o cego, como esmolla, que tracte de abbaixar-se onde está a sola, emquanto outros moleques dão risada. O cego appalpa o tennis do estudante. Só falta pôr a bocca sobre o couro. Offega e sente o cheiro do pisante. Que peso, o do vexame e do desdouro, lhe passa pela mente nesse instante! Ja velho, tem seu dia de calouro. Não foi no Bandeirantes nem no Dante, mas vale o mau exemplo, o mau agouro.

DISSONNETTO INFERNAL (1) [0350]

Nos Estados Unidos, trote é barra. Calouro la está abbaixo de engraxate. “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!” Quem entra em faculdade é boi na farra. Rasteja em mijo e lambe o chão na marra. Careca e “maquillado”, ganne e latte, de quattro, aos pés do “dono”, que lhe batte e, bocca addentro, cospe, exporra, excarra. “Hell week” é como chamam a semana durante a qual novatos são vassallos emquanto o veterano os attazana. Republica é “fraternity”, e chamal-os de irmãos, allegoria americana, não é trote, é galope. São cavallos. Aos bichos, nesse inferno, quem se irmana? Só mesmo quem pisados tem os callos...

DISSONNETTO SUPERIOR [0357]

Chegando à faculdade, me deparo, ao vivo, com o trote. Não na minha, porem na engenharia, alli vizinha. Calouros nesse tempo pagam caro. Um typo de engraxate não tão raro os fazem performar: um delles tinha que usar a lingua em vez da flanellinha! A scena me desperta o velho faro. Disfarso-me de bicho e, noutro dia, mixturo-me aos demais, até ser pego. Agora virei alvo da follia! Engraxo o veterano mais labrego, lambendo-lhe a poeira que cobria os tennis. Mas, fingindo, peço arrego. Ainda me visita a phantasia tal scena, que jamais me dá sossego.

DISSONNETTO AMMESTRADO [0647]

Defronte aos academicos vitraes, emquanto outros calouros, na chegada, dispunham-se a soffrer “rallo” e “chispada”, tractados como “bichos” e animaes... Um delles, que deixara longe os paes, não quiz ser boi na farra e cão de cada folgado veterano que lhe brada: “De quattro! Latte! O rabo! Abbanna mais!” Excappa e se recusa, mas mais tarde, sem vaga na republica e sem clima, succumbe o molecão. Sem autoestima, de falso heroe converte-se em covarde. Ja manso, a rebellar-se nem se anima. No ouvido vermelhão, o calor arde. Agora cumpre, e lambe sem allarde a sola do “doutor” que está por cyma.

DISSONNETTO DOUTRINADO [0648]

Cantou Piracicaba inteira o caso do “bicho” que do trote se exquivara. Pouquissimos, porem, sabem que o cara agora abbaixo está dum reco raso. Embora uns tractem trote como attrazo, ou rito de passagem, ou só tara, o facto é que nenhuma these acclara um thema envolto em cumplice descaso. Si alguem, como o tal “bicho”, resistia à idéa de engolir excarro ou mijo, tal como me occorreu, que ja transijo, lavagem cerebral o anesthesia. Entendo-lhe o segredo, e não exijo que estrille ou que questione aquella orgia cruel dos veteranos, ja que um dia será, como “doutor”, tão duro e rijo.

DISSONNETTO DOMESTICADO [0649]

Recemchegado, o “bicho” verifica que vae passar por trotes humilhantes. Acceito é na republica, mas antes será feito de cão, no que isso implica: Andar de quattro e nu, solada e bicca levando a toda hora; ouvir rompantes e gritos dos “doutores”; repugnantes porções comer no chão qual ração rica. Chinellos ao “doutor” levar na bocca; lamber-lhe os pés descalços e o sapato; nos callos com a lingua dar um tracto; gannir de muita dor; graça, achar pouca. Lattir, abbannar rabo e ‘inda ser grato; jamais deixar a bocca ficar oca; rosnar jamais; bem alto e com voz rouca jurar que é “bicho” e escravo dum pé chato.

DISSONNETTO RITUAL [1021]

A bocca do calouro serve para, alem do mais, tirar do veterano o tennis, como um cão. Trabalho insano, si um nó seu dente nunca desaptara! Cadarços affrouxados, se prepara o “bicho” p’ra morder, sem causar damno, assim que o tennis sae, o grosso panno da meia que, suada, uncta-lhe a cara. E quanto mais se exforça, mais o cheiro penetra-lhe a narina, ja que offega de cara contra as meias e se exfrega nos pés do outro rapaz o tempo inteiro. Lamber, depois, a sola do collega paresce inevitavel, costumeiro pedagio de passagem, mas, primeiro, recua: a obediencia é quasi cega.

DISSONNETTO DA RESPOSTA (7) [1104]

Caramba! Dos Esteites ja li facto egual, em que o calouro é cavalgado, appanha e, na charrette ou num arado, attrellam-no, a puxar um “boy” gaiato. Você daria, então, o mesmo tracto ao cego? Montaria ou como gado iria utilizar este coitado? Fazer o que? Você manda, eu accapto! Me vejo, ja, na rua, escuto o riso feliz dos seus collegas de gandaia e a scena americana aqui repriso. Supporto o peso, sirvo de cobaya, si assim você se sinta mais Narciso que nunca, e um invidente em trote caia! Calouro de improviso, nem preciso entrar na faculdade e levo vaia.

DISSONNETTO REPISADO [1210]

No inglez se chama “bullying”, mas aqui é o acto de “zoar”, verbo que inclue, alem da “zombaria”, algo que influe tambem physicamente no gury. A turma não appenas xinga e ri; diverte-se naquillo de que fui a victima ideal: collegas “mui amigos” me pisavam, e eu lambi. Lambi sola descalça, até calçada, conforme ja contei. Levado eu era ao matto, appós cahir numa emboscada. Lambi, mas me vinguei! Não virei fera, mas tudo devolvi, pois ponho em cada sonnetto um pé que nunca se supera e faço-me refem da molecada tal como sou poeta da gallera.

DISSONNETTO DA MANIFESTAÇÃO DE REVOLTA [1272]

Sahindo do trabalho, à faculdade pretende chegar cedo o rapazola. Qual nada! No trajecto para a eschola, fogosa multidão a rua invade! Mais uma passeata na cidade ja bem congestionada... Não controla ninguem a situação, que ja extrapola, e nada os baderneiros dissuade. Os omnibus não andam. Desembarca o joven passageiro e, revoltado por causa dessas aulas que desmarca, adhere ao movimento que, inflammado, depreda e quebra tudo! Mas tem parca noção de onde se encontra, ou de que lado. Accaba que elle mesmo é quem mais arca com seu rebelde estresse e com seu brado.

DISSONNETTO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL [1273]

Rebeldes estudantes vão, em bando, cruzando o campus, rhumo à reitoria. Os animos, de furia ou de euphoria, reflectem-se nas ordens de commando. Na ausencia da reitora, justo quando desfructa de licença por um dia, a turma de anarchistas desaffia seu cargo, pelo predio penetrando. Occupam, festejando, o gabinete da austera educadora! Em sua mesa expalham salgadinhos e sorvete! Alguem limpou a bunda (Que torpeza!) com folhas assignadas! Do banquete restou, alem do lixo, a luz accesa. Depois, os jornaes grypham o lembrete: Fará quem, dos alumnos, a defesa?

DISSONNETTO DO RUSSO E DO RUÇO [1475]

Quiz a Universidade de Moscou ser como o Empire State em seu adspecto. Eu fico, então, pensando aqui si sou dum predio tão historico o architecto. Prevejo, nesse immenso arranhacéu, um panorama egual ao que um piloto teria: a reitoria, no chapéu do predio, aba será; o olho, canhoto. Porem, no topo mesmo, no mirante, situa-se a charteira do estudante, do alumno da mais alta disciplina, talvez litteratura fescennina... Seria o graduando em poesia que, quando sonnettasse, alli teria visão, si não do mundo, da neblina, si for nephelibata, alguem opina...

DISSONNETTO DO CORPO DISCENTE [1513]

Aquelle professor não dá bandeira, mas gosta de meninos. Mal na salla entrou, vê que se senta, na charteira da frente, um molecote cuja mala maior é que de adulto! De maneira discreta, põe-se o mestre a contemplal-a. Ninguem evita, mesmo que não queira, olhar como advoluma-se e se entalla. Nas calças do garoto, o grande porte daquella adolescente e viva vara paresce até que augmenta! Firme e forte, aguenta o professor, que se sentara. Procura, entre as alumnas, qual attrae os olhos do moleque e sua tara, mas dellas foge o foco e, então, lhe cae a ficha: é o proprio mestre que elle encara!

DISSONNETTO DO CORPO DOCENTE [1514]

Difficil situação! A classe inteira agguarda repetir-se aquella falla monotona do mestre. A brincadeira cessou: a turma toda ja se cala. Tentando desviar, o olhar se exgueira à mala do moleque, e se arregala. “Quem leu o que passei na sexta-feira?” Si veiu alli dar aula, o jeito é dal-a. {Eu li!}, diz o membrudo. {Entendi tudo!} Por pose mais formal que alguem fizesse, o mestre se perturba, mas o escudo é sua posição: “Então comece!” O alumno se levanta. Agora, sim! Si ainda tinha escrupulos... Exquesce! O penis salienta-se! {Ja vim sabendo o que o senhor quiz que eu fizesse...}

DISSONNETTOS DO CATHEDRATICO SYMPATHICO (1/2) [1565/1566]

(1)

Da PUC, ou da UNICAMP, ou doutro campus, da UERJ ao uspiano ou federal, perguntam-me de Pedro Ulysses Campos, o critico que achou, em mim, o tal. Teria publicado, entre outros trampos, “Apostolos e apostatas”, no qual distingue, em poesia, os pyrilampos dos astros que teem brilho “official”. Tem obra ampla, abrangente e singular. Na “Genealogia da poesia” o lucido ensaista acha e desfia raizes, ramos, rhumos, no pomar. Com elle, estou num alto patamar. Situa-me no galho que mais prezo: aquelle em que o macaco typo rheso contenta-se em no proprio pau mammar.

(2)

Seria um heteronymo o tal mestre?

Quem sabe? Em meio a tanta faculdade privada, federal, rural, campestre, qualquer phantasma forma-se e se evade. Mas creio ter o cara algo que preste escripto e publicado. Vão, mais tarde, os pares achar nelle um inconteste paredro, que de si não fez allarde. Seu caso ja suscita a theoria. Alguns ja me apponctaram como sendo aquelle que por traz desse colendo e sabio professor se esconderia. Que these suspicaz! Por que seria? Por que? Só porque falla de mim bem? Será que é verdadeiro appenas quem vê nelle um typo em minha galleria?

DISSONNETTO DA DEFESA DE THESE [1643]

Sonhei que minha these defendia e a banca era formada só por quem ja tinha fallescido: a poesia julgada pelos que, de facto, a lêem. Luiz, Gregorio, Emilio... A turma lia meus versos e o que nelles se mantem: em termos de thematica, a ironia e em termos de rigor formal tambem. Melhores professores, quem almeja? Bocage, ou Madragoa, me questiona si quero ser lembrado pela conna que falta ou pelo pé que me sobeja. Entrego uma resposta de bandeja. “Da conna”, digo, “todos teem cuidado e o pé tem muito callo a ser tractado...” E todos votam que approvado eu seja.

DISSONNETTO PARA UMA SCIENCIA EXACTA [1765]

“Que merda de materia!”, um estudante que tira baixas notas della falla. Apposto que vocês, no mesmo instante, pensaram: “Mathematica!” É kabbala! O cara até ja quer sahir da salla na hora dessas aulas! Revoltante é como o professor, ao ensignal-a, diz della: {Ha occupação que mais encante?}

Daquillo os quadros negros estão cheios: parentheses, colchetes e até chaves. No livro, tornam cada vez mais graves e mais perturbadores os receios. Eu proprio, reprovado, reprovei-os. É como dois e dois que reprovado será mais um alumno, que, coitado, achou taes hieroglyphos tão feios.

DISSONNETTO PARA UMA SCIENCIA HUMANA [1766]

“Appenas uma coisa a gente apprende ao estudar historia: nada a gente apprende ao estudal-a!” Assim entende o proprio professor, intelligente. Guevara, Pinochet, Perón, Allende... Da America Latina ninguem tente tirar licções, pois nada ha que desvende as leis do collectivo inconsciente. Ninguem, ao leccionar, se compromette. Herodoto, Thucydides... Quem é capaz de interpretar com toda a fé aquillo que no tempo se repete? Eu nunca achei quem guerras interprete. Paresce tudo inutil! Duma guerra se sabe ainda menos quando encerra que quando começou... que nos affecte.

DISSONNETTOS PARA UM PARALYTICO VERIDICO (1/2) [2343/2344]

(1)

Uma paralysia é tão damninha que incute na creança o sentimento masoca. No momento, estou attento ao caso do menino que engattinha. De quattro, não: de rastro! Que excarninha imagem! Quem perder o movimento nas pernas, só rasteja, como o Bento: em volta delle forma-se a rodinha.

Diverte a molecada que no skate o timido garoto, com as mãos, se exforce, o corpo sobre a prancha deite e ralle seus bracinhos pelos vãos. Aquillo dos collegas é deleite. Na escada, a prancha micha mesmo! Os sãos moleques dão risada: elle que acceite sujar-se, entre os degraus, de pó nos grãos!

(2)

Não basta tirar sarro: a molecada quer mesmo é que o Bentinho se degrade. Assim, cada moleque como Sade se sente, ao encontral-o alli na escada. “Tá sujo ahi, capacho?” Ao Bento nada humilha mais que estar, pouco à vontade, aos pés de quem não mostra piedade e gosta de chutar ou dar solada. “Tá forte o cheiro ahi?” E, emquanto a bicca cotuca sua bocca, um de chinello lhe exfrega o pé na cara e rindo fica, um pé que é tão fedido quão magrello. A scena, a mim, paresce ‘inda mais rica. Ao Bento, sem defesa, um parallelo commigo até que calha, e tiriryca tambem fiquei, mas hoje os gajos fello.

PENA EM SCENA [3412]

No Youtube, o video attesta o que, em verso, eu sempre digo: veterano faz a festa quando ao “bicho” impõe castigo. Ao calouro só lhe resta se humilhar mais que mendigo: supportar, do queixo à testa, um solado nada amigo. Sem lambidas dar em falso, lambe tennis, pé descalço e, um detalhe que eu realço, de poeira está o pé sujo, pois percorre muita rua. E São Carlos perpetua a verdade nua e crua: “bicho” é mesmo um cão sabujo.

PRIMEIRAS LETTRAS [3525]

Na chartilha, que é pudica, não se diz “B” de “boceta”, “C” de “cu”, nem “P” de “picca”, nem de “pau”, nem de “punheta”. Numa eschola, bem não fica que na gatta o gatto metta nem contar que a dona Chica mostra a chota a algum cheireta. Um poeta que eu conhesço ja de cara o balde chuta: vira tudo pelo advesso e diz “Ivo viu a vulva”! Suppor cabe si a tal chana, si não for dalguma puta, é da avó, da mãe, da mana, e si a dona é ruiva ou fulva...

TROTE RURAL [3993]

Inventaram um “rodeio de gordinhas”: o estudante uma excolhe e monta em cheio no seu lombo, triumphante. A collega, no recreio, se revolta contra o guante do rapaz, que ao chão só veiu porque a “rez” saltou bastante. “Pulla, vacca! Pulla, gorda!” Antes que ella a mão lhe morda, grita, sadico, o rapaz, que de bom actor se faz. Ja mordido, elle se vinga: de “dentuça” agora a xinga, e ninguem a deixa em paz. Quem evita as linguas más?

DEMAGOGIA NA PEDAGOGIA [4445]

Não pode ser verdade! Ouvi fallar que agora, nas escholas, ja se ensigna ser certo “a gente vamos” e a menina dizer “as meus amigas”! Exemplar! Tambem “nós vae”, “os livro” e “seje”, a par de “menas”, “presidenta”, alguem termina dizendo que está certo, em sabbatina, fallar ou escrever! Em que logar?

Aqui, neste Brazil que eu não acceito! Aqui, “neste paiz”! O portuguez fallado no Brazil vae, desse jeito, ficando mais errado cada vez!

Linguistas e grammaticos teem feito cavallo de battalha dos porquês e, em vez do certo, gostam do defeito!?

Será que é dois e dois egual a trez?

MYSTICA EUPHEMISTICA [4683]

Agora, os bullyingueiros são, em classe, quem manda e quem desmanda. Ai do coitado que, sendo differente, foi visado por esses vandalinhos! Que mal passe! Sadismo é um sentimento que renasce a cada geração. Expezinhado, às vezes o mais fracco assume o lado masoca, aos pés se presta a dar a face. Me contam que, do typo, muitos são os casos. Os entendo, pois tambem fui victima, levei muito pisão, de sadicos moleques fui refem. Pisou no menininho o meninão. Appenas não chamavam “bullying”, nem achavam que “zoar” fosse assim tão damnoso... Era normal zombar de alguem.

COMICA COMICHÃO [4746]

Levava, na caixinha, pó de mico o alumno gozador. Chegou à classe mais cedo, antes dos outros. Caso entrasse alguem, pegava em flagra o tico-tico! O pó não é fubá, porem: não fico alli, si sou alumno! Vejo a face afflicta dos collegas quando nasce coceira pelo corpo, e racho o bicco! É justo o que deseja o gozador: ver gente se coçando e se rachar de tanto rir! Melhor que causar dor! Até nos professores um logar lhes coça: bem na bunda! Quando um for coçar-se, da cadeira vae pullar! Só xinga quem não tenha bom humor? Quem livre está daquillo vae amar!

BRINCADEIRA DERRADEIRA [4757]

{Duvida? Eu sou capaz de chegar la na casa da “fessora” e dar um tiro na porta e na janella! Não, nem firo ninguem, só vou dar susto!} “Ora, então va!” Discutem os meninos. Quem será que assume tal façanha? Dão um gyro os quattro pela quadra. Em seu retiro, a velha, ja de ferias, lendo está. Tão calma, aquella candida senhora! Cochila na poltrona. O livro pende, aberto, no seu collo. Então, de fora, irrompe um barulhão. Ninguem entende. -- Foi tiro? Foi rojão? -- Todos, agora, accorrem, todo mundo a luz accende. Mactou um, sem querer, outro. E elle chora. As armas, todavia, alguem defende.

PROFESSOR A RIGOR [4856]

Com a classe o professor paciencia ja não tem. Um alumno é causador da baderna, accusa alguem. Porem, seja la quem for, tem o mestre que ser “zen”, pois ninguem ha de suppor que aggressor seja, ninguem! Mas aggride, o mestre! Soca o menino! Aquillo choca quando a midia denuncia a flagrante covardia.

Só não choca quando o cara que aggrediu é o que appromptara a bagunça... Que ironia! Nesses casos, ninguem chia...

RITTA, A PROFESSORA QUE SE IRRITA [4965]

Pudera! As classes, hoje, ja não teem respeito algum com mestres! Nesta aqui, cantando vae a turma: “Abacaxi... xi... xi...” Não para ahi: mais coisa vem! Rittinha, a professora, não contem a raiva: irritadiça, nem sorri, tentando descobrir qual o gury que anima a cantoria. Sabe quem?

O Charlie, claro! O Charlie Brown, que canta, primeiro: “Detefon é que mais macta a filha duma pulga...” Ai, Virgem Sancta! E Charlie encerra: “...a mãe duma baratta!”

A turma faz o khoro. Que addeanta a Ritta se irritar? “Fessora chata!” Vaiando, toda a classe se levanta, em lucta transformando uma bravata.

CENSURA QUE PERDURA [5001]

Depois que um professor foi demittido na eschola dum catholico patrão appenas por usar o palavrão poetico, de nada mais duvido! Quem disse que fallarmos da libido em verso não seria maldicção no seculo em que estamos? “Não estão vencidos os censores!”, tenho ouvido. Conhesço quem verseja sem vacillo. Com muitos pellejei, annos attraz, e agora os vejo victimas daquillo que a Egreja attribuiu a Satanaz! A eschola em que lecciona, ao demittil-o, papel da Inquisição ainda faz! Nos cabe resistir, ao nosso estylo, ainda que enfrentemos linguas más!

NOVAS TURMAS [5069]

Entrou o professor na salla. Estava a classe na algazarra. Ouviu risada em grossa voz, zoando, e viu que cada marmanjo se attrazava alli, na oitava. Tentou se impor, fazendo cara brava, e nada: gargalhava a molecada. Zangou-se, ammeaçou, como aula dada, cobrar toda a materia que lhes dava. Mas, antes que sahisse, uma rasteira prostrou-o. Viu os tennis ao redor da cara. Cafungou-lhes na biqueira. Sentiu, até, das meias o suor. Aos olhos juvenis da classe inteira, notou que um pé daquelles bem maior seria que seu proprio. Esteve à beira da morte, aos pés dum bando “de menor”.

OUTRO CALOURO ESCHOLADO [5123]

Escuto e Ritchie conta: na Inglaterra, collegio interno é sadico, uma barra. Não são os professores que, na farra, castigam com chicote, quando um erra. O alumno, si mais novo, é quem se ferra na mão dos veteranos. Ninguem barra quem surra, quem humilha, quem excarra nos fraccos e indefesos: guerra é guerra!

“Calculem quanto bullying eu, baixinho, dentuço, eu, orelhudo, alli soffri! Não fosse a minha musica... tadinho!” Pensei commigo: o Ritchie fez por si aquillo que podia. Eu escrevinho, agora: não compuz som, mas ouvi. Emquanto faço versos, um damninho collega abusa doutro, por ahi.

GATTA QUE EMPATTA [5166]

Suando está, por tudo quanto é poro, o joven, que chamar seu nome espera a bella professora. Ouve a panthera chamar por Odorico Deodoro. Levanta-se e declama: “Ah, como adoro o ardor primaveril, a primavera florida, que abre as asas à paquera! A folha, eu a desfolho; a flor, defloro!”

Sorrindo, a mestra explica que o poema, na forma, ficou certo. O resultado está bom, mas “paquera” appropriado não é nesse contexto e nesse thema. Dodô se senta. Está todo exporrado nas calças, mas nem acha que é problema. “Caralho! Jesus Christo! (elle blasphema por dentro) Ai, si eu te pego! Onça, cuidado!”

DISSONNETTO DUNS GOLPES GRUPPAES [5313]

Da primeira chicotada desviou-se. Quasi excappa. Porem, antes que se evada, outra estalla feito tapa. Excorrega. Um pé, de chapa, no nariz dá-lhe a lambada. Ja de sangue a roupa empappa. Por soccorro elle ja brada. Como um “bicho” a soffrer trote ou detento nas galés, leva surra de chicote e, de quebra, uns ponctapés.

Pouco caso não fizesse!

Evitasse dar olés!

Relho agora a turma desce! Pode um homem contra dez?

DISSONNETTO DUM TRAUMA QUE TRAVA [5351]

Professor, agora, appanha dos alumnos! Si um moleque nota baixa delle ganha, perde o medo e perde o breque! Não se inhibe nem se accanha: nada impede que sapeque nelle a surra que, tamanha, difficulta que defeque! Sociaes são as questões. Quando a surra é na peripha, o moleque ainda grypha ponctapés com palavrões!

“Seu cuzão!” Tome pisões.

“Seu veado!” Pé na cara. “Puto! Bicha!” Ninguem sara dum chutão em seus colhões.

DISSONNETTO DUMA GANGUE SATANISTA [5352]

Mathematica ensignava a garota gostosona.

Ja mandou o emprego à fava e a materia não lecciona. Quiz ser firme, quiz ser brava, mas notou que não funcciona. Uma turma prompta estava para curra dar na dona. Por ter dado baixa nota, pau levou delles na chota, na boquinha e até no rabo!

Foi estupro mesmo brabo!

Só por isso? Não! Tambem por ser gatta: foi refem dos Zerados do Diabo!

De enfrental-os não me gabo!

ODE À BOCCA PEQUENA [5585]

Dizendo “Roda, cu de educador!” Alguem fez um palindromo que nua porá a reputação do professor que em meio a seus alumnos se insinua. Será verdade? Pode alguem suppor um mestre tão discreto, que vem sua materia leccionando com louvor, o cu vulgarizando pela rua? Duvido. Talvez seja só rumor. Algum alumno senta-lhe tal pua, quem sabe, reprovado... Mas a dor desforra quem os outros prostitua? Não posso prejulgar. Vae que, si for olhar bem direitinho, o cara actua tal como eu proprio actuo: chupador sou, mas dou sim, tambem, si estou de lua.

EDUCAÇÃO À DISTANCIA [6075]

Ao vivo, o molecote estuda deante da tela de seu novo cellular. Remotamente, para leccionar com emphase, se exforça alguem bastante. O mestre, em attitude provocante, faz mimica, torcendo o maxillar, abrindo bem a bocca cavallar, a lingua a lhe espichar, egual bacchante. Assanha-se, de facto, o molecote, mas, nessa quarentena, a prole toda se juncta alli na salla. “Que se foda!”, decide-se em commum. Alguem que note! O joven quer mostrar, tambem, seu dote. Abbaixa as calças, tira a rolla, açoda a mão battendo bronha. Se incommoda a mãe. Ninguem notou o seu decote.

MOLDURA [6269]

Glaucão, estão dizendo que é fajuto todinho o meu curriculo! Magina! Fodão eu sou na minha disciplina! Si querem duvidar, eu fico puto! Admitto que alguns titulos eu chuto que tenho, mais ou menos, que escrevi, na tal these, varios plagios, officina nenhuma dei nem tive esse instituto! Mas isso todos fazem, Glaucão, ora! Implicam só commigo? Por que só commigo? Só porque virei chodó maior de todo lobby que vigora? Até quem é rival me condecora! Causei muito despeito! No brechó fallaram que eu comprei meu rococó diploma na moldura! Ah, meu! Sae fora!

SUSPENSO [6280]

Seu Glauco, estão querendo me expulsar! Sim, do collegio, só porque eu fallei do negro, da mulher, até do gay, aquillo que merescem escutar! Mulher tem que rallar e ser “do lar”! Ao negro não tem nada que ter lei de quotas, de racismo, la nem sei que mais, e gay precisa se curar! Trez dias eu peguei de suspensão e querem me expulsar por causa disso! Calcule si meu tempo desperdiço fallando o que dum cego penso, então! Fallar nem vou, seu Glauco! Um cego não precisa que se falle! Elle é submisso à gente, que ver pode! Mais enguiço ja tenho com quem pede punição!

JOGO PUERIL [6387]

Sem ter o que fazer que mais aggrade na tarde de domingo, vão brincar, no quarto de dormir da faculdade, aquelles estudantes, de pisar. Pisar, sim! Vendam olhos. No logar que fora do tapete, um à vontade ficou. É feminino o calcanhar que está sobre seu queixo, ou não? Será de... De macho, não! Fingindo que rejeita beijar um pé de macho, o meninão acceita quando sente que o dedão na bocca tem a forma mais perfeita. Pensando de menina ser, acceita lamber, até! Retira a venda. Então percebe ser do gajo mais bundão e faz que se offendeu com a desfeita.

ZERO EM COMPORTAMENTO [6396]

Fessora, não me venha com licção de casa, redacção nem sabbatina! Está tudo mudado! Disciplina é coisa para nota? Não é, não! Magina! Só porque dei pescoção, tabefe e ponctapé noutra menina, agora acha a senhora que me ensigna a ser bem comportada? Que illusão! Si perco o meu controle, eu na senhora applico um golpe baixo, uma rasteira e piso-lhe na cara, caso queira botar-me desta salla para fora! Duvida? Somos todas nós, embora pequenas, da pesada! Ja na feira battemos num ceguinho! Brincadeira é, para nós, surrar alguem que implora!

Glaucão, ja te contei que professor deixei de ser? Tá louco! Sim, na salla cheguei a ser pisado por quem falla mais grosso com a gente! Vou depor: Terriveis jovens! Ordem eu quiz pôr na classe, mas quem tenta controlal-a vê logo que só falta alguem a balla ao mestre reagir, Glauco! Um horror! Cercaram-me e jogaram-me no chão! Vi perto dos meus olhos cada tennis enorme! E era menina quem infrenes impulsos exhibia de aggressão! Pensaste? Cara, atturo humilhação até dum meninão! Não me condemnes, porem, si não te peço que me enscenes teus casos de pisões dum sapatão!

ACCERTO DE CONTOS [6418]

Seu Glauco, o senhor sabe como faço, na cama, antes do somno? Batto bronha, é claro! Nada disso me envergonha! Ao menos nisso perco o meu cabaço! Mas quero lhe contar meu passo a passo emquanto me punheto... Quem não sonha com uma namorada na qual ponha a rolla? Ja me achou meio devasso?

Espere só, seu Glauco, até que eu diga que não é sempre em minas, não, que penso!

Tambem tenho um prazer cruel, immenso, pensando num collega duma figa!

Sim, elle me bullyinga! Minha briga com elle se resolve, pois compenso na bronha! Ahi me vingo! Nelle prenso a bota até que erguer-se não consiga!

Pois é, seu Glauco! Perna ja não tenho! Agora me tornei um cadeirante, mas, quando menorzinho, foi, durante um tempo, num pranchão meu desempenho! Ah, tinha que ver, porra! Fui ferrenho athleta, ou parathleta! Quem garante é minha patotinha de estudante, por isso é que, seu Glauco, depor venho! Sim, houve sarro! Ousei de jacaré andar: só com os braços, impellia a prancha! A turma toda de mim ria! Pisavam-me nas costas, sim! Pois é! Um delles adorava pôr o pé na minha cara! Puta covardia! Achando que, de bruços, uma enguia eu era, de chichi me enchia, até!

MAGOA DA TABUA [6420]

ZOADO MAGOADO [6421]

Por que mais quer saber, seu Glauco, disso? Naquella minha prancha de rodinha a gente se excarrancha, bem na linha do piso! Dava aquillo grande enguiço! Me vendo desse jeito, tão submisso, alguem sempre pisava, gosto tinha, sabendo que um perneta se abbespinha mas fica nisso: um verme irritadiço! Alguem me punha o pé na cara, assim dizendo: “Nem tem perna! Nem tem pé! Não pode nem calçar a chanca, até! Ahi, não tem inveja, não, de mim?” Soltava a gargalhada. Achei ruim, mas elle me chutou: “Você não é humilde! Quer levar um bello olé na bocca!” Fez beijar, lamber... Fez, sim!

RIDICULO CURRICULO [6470]

Glaucão, no meu curriculo o “mestrado” é coisa consequente e natural! Sou “mestra” a meus alumnos! Tenho tal conceito, que me emposso, de bom grado! Meus pares me graduam! Do meu lado estão todas as “bispas” e geral é minha approvação! Me deu aval um cabo, sem fallar nalgum soldado! Mas ficam fofocando, Glauco, os taes “doutores academicos”, um bando de illustres invejosos! No commando não querem uma filha de bons paes! Moral e bons costumes eu jamais de lado deixarei! Mas vou levando com jeito, né? Farei, de vez em quando, alguma vista grossa às bacchanaes!

VELHOTA PATRIOTA [6545]

Te posso corrigir, sim! Fui docente! Ouviste, Glauco? Nunca alguem colloca num verso os palavrões que na malloca se escutam! Entendeste? És indecente! Eu era professora dura! A gente, em classe, prohibia aquella troca de insultos, que envergonha, que nos choca! Terei que ser censora novamente! Sou dura, sim! Castigo bem severo meresce quem se vale, em portuguez, do linguajar mais torpe e descortez na hora de escrever! Punir-te quero! Não vês que impatriotico o teu lero se torna? Amor à patria, cada vez mais, acho necessario! Tu não vês?

Terás que receber é nota zero!

CALVARIO DOS CARECAS (1/2) [6692/6693]

(1)

Tu, Glauco, que escreveste este tractado historico do trote estudantil, pensaste no detalhe triste e vil que exsiste entre algum cego e alguem vendado?

Atroz coincidencia! Num estado qualquer americano, o varonil calouro perde, como no Brazil, a masculinidade de bom grado!

A perde coagido, na verdade, pois ser escravo vira condição em toda “confraria”, pois, sinão, não entra alli ninguem da faculdade!

O “bicho”, na Hell Week, que se degrade, que chupe, ja vendado, seu “irmão”, o sado veterano que ja não precisa mais chupar e está à vontade!

(2)

Não achas crucial esse cruel detalhe de vendado ser o bicho no trote da “fraternity”? Mais micho que um bicho, só recruta no quartel!

O bicho fica prompto para, ao bel prazer do veterano, quente exguicho levar na bocca, a qual latta de lixo se torna nesse sordido papel!

Na bocca do coitado o mijo quente despeja seu collega veterano que, como o calourão, em qualquer anno passado ja bebeu e se resente!

O trote perpetua -- Ah, ninguem tente mudar a tradição! -- aquelle insano costume, escreves tu, mas não me enganno: Feliz como masoca ha muita gente!

BICHARADA NA BALLADA [6827]

Ballada de estudante é sempre bella baderna, a boa chance de babar nuns tennis, si um calouro der azar de ser o lambedor que paga aquella. Mas pode ser a sorte de quem mella a sunga quando lambe cada par de tennis pobre e podre, em seu logar de typico masoca astral na tela. Ahi junctou a fome com aquillo que dizem ser vontade de comer! Si todo veterano tem prazer de bichos ver zoados, é tranquillo! Calouros masochistas a curtil-o, o tennis que mais facil foi lamber cor teve que é difficil de saber qual fora quando novo, ou qual estylo.

TERROR DA CLASSE [6839]

Tivemos um attrito feio, minha primeira professora e eu, que sei que sempre transgredia qualquer lei e posso ser chamado de “pestinha”! Ainda sou rebelde, Glauco, sim! Ha quem diga que não topo um negro ou gay, que piso nas mulheres, que zoei de todo cego ou surdo colleguinha! Assumo, sim, poeta, que bullyingo taes typos, inferiores ja que são! Você, Glauco, perdeu sua visão? Em gente do seu naipe é que me vingo! Vergonha? Não terei siquer um pingo! Que faço? Ora, desforro o meu tesão guardado, reprimido! Dou pisão, porrada braba! Achou que appenas xingo?

INSTITUTO SÃO THOMÉ DE SANCTA FÉ (1/3)

(1)

[6936/6938]

Os cegos, perfilados de joelho no pateo do orphanato, em oração, dão graças ao Sanctinho. Outros dirão: “Por sermos cegos, gratos? Mau conselho!” Mas oram, obrigados. Um gruppelho assiste e dá risada: teem visão normal, os monitores. Gratos são, pois pode, quem quizer, usar o relho. Um delles usa. Batte num ceguinho teimoso, que o xingou. O cego jura ser bom, pede perdão. A picca dura lhe chega, agora, à força no focinho. Que chupe, então! Um joven excarninho sorri. Gozou gostoso. Farra pura, mandar nesses ceguinhos em escura roptina, adjoelhados ao Sanctinho!

(2)

O joven monitor goza, folgado, na bocca dos ceguinhos. Faz questão de sempre ter o relho bem à mão: “Os cegos são uns chucros! (diz) São gado!” Emprego não surgiu outro. Frustrado, ganhando uma merreca, a diversão ao menos arranjou, nesse sertão, sem nada que fazer, naquelle enfado... Os outros monitores engraçado acharam o jeitão descontrahido do joven colleguinha. Divertido foi verem um ceguinho castigado. “Dá toda disciplina resultado egual! Mandar chupar, eu não duvido, funcciona!” Falla assim um assumido algoz dos que, nas trevas, teem seu fado.

(3)

Os cegos trabalhavam: manuaes serviços, um qualquer artezanato. Assim rollava a vida no orphanato, até que esse rapaz fez algo mais. O novo monitor, com seus normaes instinctos juvenis, bollou o tracto que cegos dão nos pés de quem é grato por ter boa visão: funcções oraes! Agora, cada cego faz na sola de todo monitor o seu serviço buccal: limpar cascão, empregar nisso a lingua, bollação que fez eschola. Vaidoso, o monitor que tudo bolla diz: “Cego tem que estar sempre submisso, sinão fica teimoso! Um compromisso do typo o faz melhor, mais o controla!”

THESE DE DOUTORADO [6970]

Não és um “postmaldicto”, vate? Então! Eu sou, ja, postdoutor! Sim, defendi diversas theses dessas, por ahi! De sobra tenho postgraduação! Meu thema? Ah, sim! Me lembro de que não foi nada accerca disso que de ti se falla, Glauco! Creio que escrevi foi sobre nossa falta de instrucção!

Estás a rir, poeta? Tenho cara, agora, de palhaço? Sou doutor, sou mestre e bacharel! Quem vae suppor que posso mentir, vate? Eu viro arara! Não podes duvidar si quem declara é o proprio titular! Do meu fedor tu nunca duvidaste! Sentes por teu faro que é concreta a minha tara!

O CEGO E A PROFESSORA [6973]

Em vez de, para cegos, uma eschola, aquella abriga alguns, os juncta ao dicto alumno “normalzinho”. {Não admitto que battam no ceguinho!} Quem controla? Severa, a professora canta a bolla, pois basta que eu advirta a alguem: {Bonito não é batter num cego!} e logo incito um joven a fazer isso que rolla: Pegaram o ceguinho na sahida: -- “Então a professora fallou para a gente não zoar? Agora, cara, é mesmo que zoamos! Cê duvida?” E battem, chutam, pisam... Repetida, a phrase “Lamba ahi!” soou amara, pois tennis de moleque, se repara, é cheio das sujeiras da avenida!

O CEGO E SEU COLLEGA

[6979]

Nas aulas, o collega do cegueta annota tudo. Nunca grava nada. O cego tem memoria bem treinada e tudo grava, à falta da canneta. Licção de casa fazem junctos. “Eta chulé damnado, o desse camarada!”

Se excita o cego, caso o cheiro invada as suas ventas. Goza na punheta. Sim, Glauco, fui eu, esse colleguinha!

Chulé tive, terrivel, você não iria accreditar! Tinha tesão o cego si eu soltasse essa morrinha! Emfim me confessou que punhetinha battia appós fazermos a licção! Feliz, eu lhe propuz: Me chupe, então! Primeiro, no dedão! Depois, na minha...

SANITARIO SANATORIO (4) [7124]

Rollou numa republica, segundo relato dum calouro (cujo nome ommitto) que passou alguma fome e teve que engolir um grude immundo... Em carcere privado (Mas que mundo cruel!) ficou, vendado! Ouviu: “Ei, tome! E tracte de comer, hem? Quem não come no pratto raso, come no mais fundo!” Serviram, no pheijão, um cocô duro (que estava ammollescendo) com arroz! Um pouco de chichi tambem lhe poz no pratto um veterano, Glauco! Juro! Hem, Glauco? Ja pensou? Você no escuro, ouvindo gargalhadas, os cocôs dos jovens vae comendo! Que pornôs imagens aos que enxergam! Tesão puro!

SANITARIO SANATORIO (6) [7126]

Tambem numa republica, de cão fizeram o calouro que lhes tinha proposto, ja, adoptar a cadellinha que estava alli na rua! Babacão! “Você vae ser o nosso! Vae, no chão, ficar o tempo todo, lamber minha frieira aqui no pé, dar lattidinha pedindo por comida, seu bundão!” O bicho foi, alli, de facto, um bicho! Passava longo tempo um chulezão lambendo, como todos os cães vão fazer no pé que eu, rindo, lhes espicho! Si eu fosse veterano, comer lixo faria aquelle bicho, Glauco! Ou não? Faria até comer um cagalhão cagado por mim mesmo, por capricho!

SUINA DISCIPLINA [7152]

Caguei nas calças, sim! Mamãe trocara a minha roupa, appós, mas attrazado cheguei naquella eschola cujo sado regime castigava até com vara! Tentei justificar o que rollara, mas tudo peorou, pois engraçado achou o professor e, por seu lado, algum cruel bedel mostrou ter tara!

Fiquei, sim, de castigo, mas castigo acharam, differente, para mim!

Ao lado da privada, a levar vim respingos dos collegas, sem abrigo!

Mijou em mim até meu inimigo na classe, que curtiu feito um festim a minha posição! Confirmo, sim, que estava de pau duro pelo umbigo!

BIBLICAMENTE FALLANDO [7191]

Alguem, biblicamente, com “mestrado” nos titulos, ensigna, alli na sua egreja, a seus discipulos e actua bem, como “professor”, para seu gado... Poz isso no curriculo um saphado pastor, só porque estava, ja, de lua, disposto para agir na falcatrua, mammando nas venaes tetas do Estado! “Sou mestre em termos biblicos, embora não tenha nem cursado faculdade!”, fallou, e sua falla persuade incautos jornalistas, Terra affora! Não, Glauco! Quando eu cago, cago! Bora fallar serio! Nem “biblica” a metade da merda que caguei é! Mas quem ha de dizer que, em vez de Christo, o Demo adora?

MASTIGUINHA [7225]

Poeta, a “mastiguinha” acho que faz effeito bem nojento num novato! Eu era veterano e fui um chato! Dos bichos abusei sem dó, tenaz! Comida mastigada a gente nas tigellas dos calouros ia, a jacto, cuspindo, Glauco! Os bichos que no pratto comiam tambem nunca tinham paz!

Cuspiamos no pratto, na tigella, até no chão! Calouro que ficasse com nojo sujaria a sua face ainda mais no piso! Scena bella! Sentiam um apperto na goela, mas tinham que engolir! Até na classe lhes davamos a gosma! Recusasse alguem, levava chutes na cannella!

BOCHECHINHA [7228]

Tambem a “bochechinha”, Glaucão, era usada pela gente para dar bebida à calourada, cujo bar passava pela nossa bocca, à vera! Glaucão, dos veteranos a gallera curtia à bessa! A gente que, em logar de liquidos tragar, só bochechar queria, ja a beber tudo os fizera! Tomavam guaraná com baba, vinho com baba, até cachaça com a nossa saliva mixturada, numa grossa espuma catarrhada, sim, tudinho! Calouro que recusa, mais damninho castigo vae soffrer, para que possa sentir do mijo o gosto: sob a troça, irá de bocca à rolla abrir caminho!

MOTTE GLOSADO (1/2) [7461]

Eu primeiro fui da classe mas na vida estou attraz.

(1)

Nunca a alguem que me adjudasse eu pedi quando na eschola. Sem ter sido o mais gabola, eu primeiro fui da classe. Mas, por mais que o tempo passe, não consigo as horas más exquescer, e um cego jaz para sempre preterido. Com as artes hoje eu lido, mas na vida estou attraz.

(2)

A cegueira me attrazou, mas eu era até precoce. O biographo que esboce seu estudo vê que sou quem na infancia se fixou e bandeira disso faz. Quanto a um timido rapaz que a turminha descabace, eu primeiro fui da classe, mas na vida estou attraz.

MADRIGAL COLLEGIAL (1/3) [7801]

Si todos que soffressem bullying nas escholas se vingassem, Satanaz seu pau não deixaria nunca em paz.

(1)

Verdade é que punhetas elle batte por tudo que é tragedia, mas não ia sobrar tempo nem porra si, num chat da funda rede, cada alumno fria vingança architectasse! Elle que tracte de estar, pois, preparado para a orgia!

(2)

Agora virou moda. Quem só latte não morde, mas a victima que, um dia, currada foi por jovens do quilate daquelles que exporraram na macia boquinha deste cego, caso macte uns dez, expanto ja não causaria.

(3)

Seu tempo perde aquelle que combatte o bullying. Si nalguma academia ainda ha trote, sempre eu, como vate, do thema tractarei, mas poesia nenhuma será como o disparate de quem achou que a coisa accabaria.

MADRIGAL AUCTORAL [7805]

O filme sobre um cego não será real si não deixar impressão má daquillo que passou e passará. Si eu fosse director do filme, assim o titulo seria, certamente: “Não volto, não, sozinho!” Para mim, um bullying não será sufficiente. O drama dum ceguinho não tem fim, por mais empoderado que elle tente suppor que seja. A sorte é tão ruim que annulla seus intentos de ser gente. Ha casos similares, dos quaes vim a ouvir a descripção: o cego sente na pelle, não appenas no latim, o que é ser, na cegueira, adolescente. O cara soffre mesmo! Por tintim contei, nos meus sonnettos, sobre a mente de quem o curra, como um tal Pedrim currado foi. Mas falta-lhe uma lente. Proponho que alguem filme tudo, emfim, que aqui, em peripheria tão carente, se passa. Não somente quando “Sim!” lhe diz o namorado, outro innocente.

MADRIGAL ININTELLECTUAL (1/7) [7814]

Será que necessito ser doutor em algo para a alguem tanto me impor a poncto de provar o meu valor?

(1)

Depende. Professor si eu quizer ser terei que graduar-me num assumpto, a menos que eu leccione poesia.

(2)

Querendo scientista ser, dever terei de muitos tractos ao bestunto dar para a coisa, a menos que eu sorria.

(3)

Si for economista, meu poder só vale quando muita grana adjuncto, a menos que eu só falle em theoria.

(4)

Si padre eu for, meu verbo vae valer depois que reparei nalgum defuncto sorrindo da fugaz theologia.

(5)

Politico si for, me defender irei caso responda ao que pergunto eu mesmo da mendaz democracia.

(6)

Gastronomo que seja, vou comer sanduba só de queijo com presuncto suppondo não ser simples iguaria.

(7)

Poeta sendo, sinto ja não ver que estou aqui sozinho, tendo juncto commigo todo mundo, todo dia.

MANIFESTO HEDONISTA (1/6) [7932]

(1)

“Não vale punhetar-se, Glauco! Agora adulto, sou correcto e não faria de novo tudo aquillo que fiz quando de cegos monitor fui no instituto. Contar lhe posso, Glauco, mas não vale tocar punheta, vamos combinar!”

(2)

-- Me conte, então. Não vamos fazer hora. Apposto que dos cegos você ria com gosto, pois conhesço o seu desmando no tracto com os outros, sempre bruto. Ao menos eu lhe peço que me falle sem pappas como agiu em tal logar.

(3)

“O cego tinha a minha edade, embora menor e mais franzino. Delle, um dia, ouvi resposta torta. Ja fui dando porrada, até fazer aquelle puto pedir perdão! Agora, que se ralle! Primeiro, elle terá que adjoelhar!”

(4)

“Mandei-o pôr a lingua para fora. Tirei o pau, a pelle puxei. Via seu nojo do sebinho. Ao meu commando, lambeu toda a cabeça: -- Chupe, ou chuto a sua bocca! Quero que se eguale ao cão, ao veadinho mais vulgar!”

(5) -- Então elle sentiu, antes da tora na bocca, algo na lingua? Que seria? Ja sei. Você exfregou, foi deslisando o pau na baba delle. Até lhe escuto as ordens de lamber aquelle braille de ponctos amarellos, sem parar...

(6)

“Foi mesmo assim! Emquanto um cego chora e chupa, a gente goza de alegria por ter boa visão! Mas va tirando da chuva o cavallinho! Nem discuto! Sem chance! Com você, mesmo que estalle a lingua, nada faço similar!”

INFINITILHO IMPATRULHAVEL (1/2) [8096]

(1)

{Glau, sabe o que rollou em Curityba? Pegaram os collegas um ceguinho, alumno que ja bullying atturava, levaram ao banheiro do collegio, fizeram que chupasse e em plena cara mijaram! Do occorrido foi lavrada a queixa na policia, mas... Seria capaz aquella victima de ter alguem reconhescido? Ficou tudo pendente, Glauco, nada se appurou! Depois, aquelles mesmos que na curra gozaram, gozariam mais ainda, zombando delle, em khoro gargalhada lhe dando pela frente! Só por voz ninguem indiciado poderia ser como auctor do trote no ceguinho, siquer das piadinhas, Glauco! Pode?}

(2)

-- Não ha patrulhamento que prohiba tal trote, nem a curra. Ja adivinho o gosto que sentiu, de quem não lava a pelle, esse ceguinho. Privilegio assim eu tive. Nada se compara a tal humilhação. Somente cada um pode saber como uma agonia transforma-se em prazer, mas num prazer masoca. Não, nem todos desse mudo boquette fallarão tal como vou fallando. Uma fofoca appenas burra noção expalhará. Jamais bemvinda, a triste experiencia desaggrada a muitos moralistas, mas a nós, os cegos, restaria a poesia, retracto do oppressor mais excarninho, que nossa voz não prende emquanto fode.

BALLADA DA MOLECADA (1/4) [8199]

(1)

Primeiro, elles bullyingam o collega ceguinho, que chamaram de Mané. Dão gritos perto delle, com um “Pega!” simulam que um cão quasi no seu pé está, ficam a rir si elle excorrega. O cego não reage, docil é. Indaga a Deus por que seus olhos cega.

(2)

Depois, passam a dar-lhe tapas por detraz, depois até lhe dão rasteira. Cahido, alguem no rosto o pé lhe pôr é facil. Lhe caçoam da cegueira, dizendo que distinguem cada cor. O cego de chorar ja fica à beira. Alguns o chamarão de Chupador.

(3)

Um dia, a molecada delle quer que chupe, que a chupar caralho apprenda. O cego quer fugir, mas nem siquer dois passos dá. Por baixo na contenda, accaba adjoelhado. O que puder fará com sua bocca, até que attenda a todos e se exmere em seu mester.

(4)

Agora, Chupador ja nem discute nem tenta fugir. Chupa alguem que mande. Não chora nem se queixa caso escute piadas dum piá, pequeno ou grande. Lembrar-se de quem delle bem desfructe irá, pois logo uns versos elle escande, cantando que levou pisão e chute.

RHAPSODIA AZEVEDIANA DE ALUIZIO (1/13) [8361]

(1)

Amancio soffre, em CASA DE PENSÃO, um rude e gruppal bullying, quando em classe brigou, e o professor deu permissão.

(2)

Collegas o aggarraram e na face cuspiram-lhe. Xingada foi a sua mãezinha, sem que a offensa revidasse.

(3)

A mãe, de facto, o mima. Se attribua a isso uma implicancia contra si. Mais vezes topa a turma que o accua.

(4)

Um dia, Amancio cresce e sae dalli de casa, rhumo à Corte, desde o Norte. Addeus deu à ralé que delle ri.

(5)

É quando desenvolve um chulé forte, sentido na republica em que mal se hospeda, sem mãezinha que o comforte.

(6)

Suadas, suas meias dão signal do cheiro ja de longe. Qual collega iria supportar odor egual?

(7)

Appenas um, na ausencia delle, exfrega a meia no nariz e se masturba. Até que Amancio, em flagra, emfim o pega.

(8)

Agora quem bullyinga, em vez da turba, é elle. O fetichista ja se obriga, submisso, a lhe lamber o que o perturba.

(9)

Botinas descalçadas, quem consiga metter na sola a lingua será raro, mas cede o masochista aos pés sem briga.

(10)

Amancio então percebe que alguns faro teem para seu chulé, formando excolta fiel e afficcionada, e cobra caro.

(11)

Conclusa a faculdade, Amancio volta à casa da mamãe e se recorda daquelle que o lambeu. Suspiros solta.

(12)

Não tarda, reencontra quem dá chorda àquelle assumpto: adulto, falla agora com elle um dos que estavam na hostil horda.

(13)

Então, Amancio vinga-se. Lhe implora o novo escravo pelo chulezão e paga, até, pois cobra elle por hora.

COMMOVENTE HUMANISMO (1/3) [8481]

(1)

Em alta voz, alguem lê para mim noticia dos castigos no instituto de cegos juvenis, que teem por fim melhor disciplinar e como puto ter cada meninão que for ruim.

(2)

A dura punição funcciona assim: Os cegos engattinham. Mais astuto, um delles pelo faro chega, emfim, ao pratto de cocô, que come. O ducto oral deglutte tudo, por tintim.

(3)

Mais rapido quem seja, a saber vim, se poupa de soffrer o tracto bruto: açoite, expancamento, que seu rim extoura, o pulmão fura... Ao cabo, escuto que, alli, os rebeldes chupam pingolim.

ATTRITOS E CONFLICTOS [8514]

No pateo do internato, o cego mais novato aos demais cegos, que são menos scientes da questão, expõe seu poncto de vista sobre a perda da visão: “Sim, temos, nós tambem, nosso direito! De sermos bem tractados! Sim, de termos funcção, utilidade, serventia perante alguem que enxerga normalmente! Nós somos tão capazes quanto alguem que enxerga! Precisamos é que nosso direito reconhesçam! Sim, feliz um cego quer ser, ora! A gente pode! Humanos tambem somos, como Deus creou nossos irmãos! O que eu discuto é a falta de respeito, de cuidado, de amor e de comforto! Isso é o que exijo!” Alguem até propõe que o gruppo vote e eleja tal rapaz como de fé amigo ou portavoz, e ja se aggruppa mais gente ao seu redor, qual numa egreja. Teem dura disciplina, porem, taes asylos e punidos por pequenos delictos os ceguinhos são. Confronto de idéas? Mais crueis penas terão! {Eu sou o monitor aqui! Respeito exijo! Quer mais relho? Meça os termos da sua falla, cego! Cê queria molleza? Ja, adjoelha aqui na frente! Ser util, quer você? Pois chupe, bem gostoso, o meu caralho, que eu lhe addoço a lingua! Ahi, sentiu? Então cê diz que um cego sonha? Cego só se fode! Você quer ser feliz, seu trouxa? Seus deveres ja lhe mostro, cego puto! Aqui sou eu que enxergo! Ser chupado meresço! Cê só chupa e engole mijo!} Depois de boa surra de chicote, o cego rebellado ja não é.

Agora a Deus é grato quando chupa sem relho levar, maximo que almeja.

NEM NEM NO ENEM [10.196]

Glaucão, eu estudar não quero, não, e, como não trabalho, me distraio nalgum vestibular. Fiz, por ensaio, a prova mais difficil: redacção.

O thema foi a fome, em que questão não faço de fingir. Assim me saio melhor. Nas pheijoadas, como paio, linguiça de primeira, tudo “bão”.

Dos pobres tenho pena? Não, magina! Na certa nota zero vou tirar si, sendo franco, o crivo me elimina.

Sim, só me diverti! Vestibular é coisa que commigo não combina, pois tenho boa vida, aqui no lar...

DIA DO DIRECTOR DE ESCHOLA [10.254]

Aqui no bairro, Glauco, dirigi, sem muita auctoridade, essa precaria eschola. Nem siquer de “secundaria” a chamo. Não ha nivel, por aqui.

Mas esses maus alumnos são, por si, peores que bandidos! Temeraria conducta, a do ceguinho que, em hilaria sessão, foi estuprado, como ouvi!

Segundo me informaram, o cegueta passou por maus boccados! Oralmente, serviu, poeta, à guisa de punheta!

Desculpe si empreguei um indecente vocabulo, mas, caso me prometta sigillo, outras eu conto, mais à frente...

DIA DO SUPERVISOR DE ENSIGNO [10.268]

Notei que, entre os alumnos, a mais brava das gangues se formou. O meu trabalho não era leccionar, mas um attalho mostrar aos professores, eu achava.

Ao nivel dos pivetes, nem oitava nem quincta attenderia, pois caralho faziam chupar outros que eu nem calho de estar adjectivando... Um nó me trava!

Das victimas, quem pena me infundia mais era aquelle cego, coitadinho, que quasi que curravam todo dia...

Bastava que estivesse no caminho dos jovens, e porradas levaria até que boquettasse direitinho...

DIA DE COMBATTE AO BULLYING [10.343]

Num filme sobre cegos, bem se nota a alegre distracção da molecada emquanto cerca a victima, que nada fazer pode e soffrer vae sua quota.

A victima, no caso, da chacota dos jovens, é mais velha: foi currada e entende que, de novo, vae de cada moleque lamber uma suja bota.

O cego, um estudante de internato, bem sabe que esses jovens nem collegas seus são, mas dum collegio não barato.

Na rua, se mixturam todos. Bregas canções ouvindo, alem do riso, o chato é que esses querem ver que elle erra, às cegas.

DIA DA EDUCAÇÃO À DISTANCIA [10.366]

Prestar vestibular? Mas para que? Se inscreva ja na nossa faculdade! Pagar mensalidade? Mas quem ha de gastar tanto, si vive em miserê?

Na nossa faculdade, você lê na tela tudo! Cursa o que lhe aggrade, estuda si quizer! Ninguem lhe invade o quarto p’ra dar toques a você!

Só paga as appostillas e diploma terá, reconhescido pelo MEC! Verá que nosso curso não embroma!

Accesse ja, se inscreva ja, moleque! Quem quer presencial e enorme somma investe, não terá, de opções, tal leque!

DIA DO THEOLOGO [10.379]

Pastor eu sou, Glaucão! Mas, outro dia, prenderam-me! Que escandalo! Foi chato! Queriam me accusar de estellionato, magina! Na prisão eu ficaria?

Jamais! Porem, emquanto não sahia, lembrei-me de ter sido bem sensato, pois fiz theologia, vate! Exacto, cursei eu à distancia! Não, não ria!

Ainda que remoto, o meu diploma valeu-me estar em cella especial! O curso nem custou tão alta somma!

Até lhe recommendo! Si seu mal não cura a fé, você, quem sabe, embroma alguem no seu perfil official!

DIA DO ORIENTADOR EDUCACIONAL [10.456]

Glaucão, nenhum prudente educador aguenta aquella arisca molecada! Tentei eu segurar algum, mas nada podia convencer um a se expor!

Coitado do ceguinho! Professor foi elle de sciencias e, de cada moleque, levou chute, bordoada, rasteira, tudo quanto cause dor!

Bastava ammeaçar dar baixa nota e toda a turma vinha para cyma do cego, com porradas e chacota!

Mas, hoje, nenhum mestre se approxima dos jovens, sinão lambe suja bota e vê que, para arroubos, não ha clima!

DIA DA UNIVERSIDADE PUBLICA [10.520]

Do trote não excappa, pobre ou rico, quem passe no geral vestibular. Em publico, na rua, vão rollar as scenas com as quaes me identifico.

Calouros são expostos a tal mico desnudos, de joelhos, a rallar a lingua nos pisantes de quem ar de sadico tem, como um typo Kiko.

Os jovens que, mimados, entram numa difficil faculdade, são os mais carrascos no poder. A cobra fuma!

Vi scenas de novatos, animaes perfeitos, humilhados. Quem assuma seus gostos tem papeis, alli, normaes.

DIA DA PIPOCA [10.788]

Na porta do collegio, o pipoqueiro ficava, a nos temptar. Cada cartucho, minusculo, nos era mesmo um luxo, por causa de excassissimo dinheiro.

Collega alli, mais velho, meu parceiro tornava-se e a pipoca nosso bucho enchia. Agora adulto, sempre puxo, na mente, por um gesto costumeiro.

Meu idolo, o moleque que pagava aquella pipoquinha, me cobrava, depois, algum trabalho para nota.

Commigo mesmo, emquanto elaborava o texto (esta memoria ainda grava), estive eu a lamber a sua bota.

DIA DO GREMIO ESTUDANTIL [11.050]

Um uspiano gremio foi fundado em nome deste cego, o COLIGLAMA, que ja, neste verão, ninguem conclama a algum sarau, nem these de mestrado.

Vicente Pietroforte, para aggrado de poucos meus leitores, fez a chamma nascer. Pornographias ha quem ama? Alli terá logar algum legado.

Fallei, numa sessão inaugural, daquelles fescenninos e bastardos poetas que me deram tal aval.

Mas hoje, entre milhares de outros bardos, um cego não será commercial jamais, pois nelle jogam muitos fardos.

DIA DO PROFESSOR [11.320]

Não posso! Desisti de leccionar, Glaucão! Esses marmanjos compostura não teem! Entrei na salla, mas quem jura que iria alguma aulinha poder dar?

Magina! A molecada no logar sentada nem ficava! A certa altura, jogaram-me no chão e quasi fura meu olho um podre tennis cavallar!

Pisaram-me na cara, gargalhada soltando! Da licção que dei, de casa, disseram que não iam fazer nada!

Poeta, nosso ensigno ja dephasa faz tempo! Todo o quadro se degrada! Nenhum plano na practica se embasa!

DIA MUNDIAL DO ESTUDANTE VAGABUNDO [11.371]

Eu acho redundancia, Glauco! Tenho um filho que estudante é! Não faz nada, aquelle inutil! Gasta, da mezada, ja tudo só com drogas! Franzo o cenho!

O dia passa à toa, sem empenho siquer nessas materias de empreitada mais util, menestrel! O que lhe aggrada é tennis ganhar! Nisso elle é ferrenho!

Você que sabe! Lavo minhas mãos! Presentes quer lhe dar? Então terá que, em seus pezões, lamber os sujos vãos!

Michê faz elle, claro, camará! Lhe pague bem, dê tennis, sem christãos principios, e chulé bom sentirá!

DIA PESSOAL DA MENINISCENCIA [11.532]

Nos annos oitentistas, duma sola mandaram-me o contorno, com canneta, traçado no papel. Aquella colla não peço mais a alguem que me remetta.

Depois que fiquei cego, me consola appenas uma scena na punheta: lembrar-me do pé chato que, de eschola, collegas tinham, sola suja, preta.

Um delles me pisou e, como balla, chupei-lhe o dedão grego. Não se eguala tal sola à que é, nos classicos, descripta.

Pés chatos, expalhados, vão na valla commum ser exquescidos. Mas me emballa, no sonho, a phantasia mais bonita.

SONNETTO DO COLLEGA DE COLLA [11.895]

Alphonsus, na visão que tem de inferno, suggere que teria Satanaz mostrado num papyro o que elle traz escripto, o seu segredo mais interno.

Mas, hoje em dia, methodo moderno tem elle para, aos olhos dum rapaz fanatico, occultar intenções más nos minimos rabiscos dum caderno.

Satan traça signaes nas entrelinhas das nossas appostillas de estudante! Sim, Glauco! Reparei nisso bastante!

Foi colla! Assim mais altas foram minhas as notas do collegio! Quem garante que delle não vem tua voz vibrante?

SONNETTO DA EDUCAÇÃO REMOTA [11.922]

Ah, Glauco! Mas que raiva que me dá! Alguem, no apê de cyma, tem a mais mimada filha, creia, que jamais na vida vi! Lembrei, me ennervo, ja!

A peste não diz “não”, diz “na”! Será por falta de insistencia que seus paes escutam a teimosa? Quaes normaes ouvidos a toleram? Alguem ha?

Diz “na, na, na, na, na!” mesmo si tem, nas aulas à distancia, que ficar na tela, de seu mestre para azar!

Não, Glauco! Uma vontade até me vem de estar, daquelle mestre, no logar, appenas para a peste expaventar!

SONNETTO

DO MENTOR AMADOR [12.031]

Quem disse que philosopho precisa ter feito faculdade, mano? O cara que estuda a São Thomaz ja se compara! Só temos que fazer boa pesquisa!

Ja pago sou, de Socrates à guisa, no meu monetizado perfil, para bancar um Aristoteles que exara sentenças duma logica precisa!

Sou au-to-pro-cla-ma-do, tá ligado? Disseram que a Platão não devo nada! Só falta me chamarem na Esplanada!

Mas, Glauco, não serei jamais chamado de “mestre” e de “guru”! Me desaggrada um titulo do typo! Palhaçada!

SONNETTO DUMA MERENDA ESCHOLAR [12.120]

Até que emfim chegou a minha vez! Tornei-me professor e ver si colla eu quero minha idéa: a duma eschola de inglez para bassês, vejam vocês!

Um hound, que se chama Ralph, inglez ja sabe fallar, quando bem engrola o proprio nome! Hem? Outra boa bolla é Rudolph, um Rodolpho mais burguez!

Si “sausage” é linguiça, da salsicha qual termo preferir, a “frankie”, a “wienie”? Quem acha a traducção que mais combine?

“Dogão”, “cachorro quente”! Quem capricha na falla diz “hot dog”! Achou quem mime seu gordo salsichão? Não? Pois se anime!

SONNETTO DUMA PEDAGOGIA DA AGONIA [12.192]

O methodo de Milgram eu queria testar nos meus alumnos, Glauco! Ouviste fallar? Ao electrodo não resiste quem erre na licção de todo dia!

Pensaste? Cada alumno ammarraria eu numa cadeirinha! Dedo em riste, lhe faço uma pergunta que elle, triste, não sabe responder, nem saberia!

Errou? Não respondeu? Levou um choque electrico, mais forte... Elle se açoda, se estressa, até que, soffrego, se toque!

Hem? Sou ou não bom mestre? Se colloque alguem no meu logar, e será foda, mais sadico! Percebes meu enfoque?

SONNETTO DO REMINISCENTE ADOLESCENTE (1)

Sim, posso fazer minhas umas linhas que escreve, em MUSSOLINI, esse menino ceguinho, como eu mesmo me imagino em tempos de collegio: o mariquinhas.

Fidalgo, seu auctor, certas gracinhas homophobas repelle. Mas, franzino, eu nunca as repellia. Meu destino de cego foi cumprido de gattinhas.

Xinguei quem me zoou, mas elle, irado, na cara me exmurrou! “Cego veado! Agora vae pagar! Ja, de joelho!”

Seu cheiro no nariz senti, ennojado. Nos labios, seu caralho. “Desgraçado! Então, quer appanhar? Quer levar relho?”

[12.486]

SONNETTO DO REMINISCENTE ADOLESCENTE (2)

Sim, Glauco! Puz a rolla do collega na bocca, suas ordens cumpri sem poder de reacção! Fodeu-me bem no fundo da garganta, sem refrega!

Brincou elle com minha afflicção cega, battendo-me no rosto, com desdem. Fodeu-me varias vezes, sem ninguem saber. Si perguntarem, elle nega.

Tornei-me seu secreto fellador durante todo o curso. Rastejei, lambi seus tennis, era a sua lei...

Agora só relembro, Glauco, por desejo seu. Tractado como gay, um cego não tem chance... Só chupei...

[12.487]

SONNETTO DO MOTTE MYCOTICO [12.758]

O “scholar”, pesquisando o meu fetiche, na practica quiz tudo comprovar. Seus pés, dos vãos d’artelho ao calcanhar, lambi, feito um salame em sanduiche.

Por certo o professor, quando me fiche, dirá que tenho sujo paladar, pois podre frieirinha fui achar em ambos os mindinhos. E elle: “Vixe!”

Fazia annotações emquanto minha linguona appresunctada se mettia por entre dedos fartos de morrinha.

No texto publicado, em theoria, descripto fui tal como uma damninha mycose: dá coceira, mas vicia.

SONNETTO DA CENSURA EDUCACIONAL [12.910]

Glaucão, os professores estão cada vez mais diversitarios! Não, não pode! Exsistem só dois generos, accode o ORVIL, não essa zona desbragada!

Linguagem neutra? Nada disso, nada! Menino, vista azul! Menina, só de roupinha cor de rosa! Se incommode quem for de esquerda! Assim, só, nos aggrada!

Teremos que infiltrar alumnos bem reaças, que dedurem quem levanta questões ideologicas, porem!

Aquelle educador vae, na garganta, sentir nosso cothurno! Verá quem commanda! Ah, que elle deixe de ser anta!

SONNETTO DO DIREITO AO ESTUDO [12.922]

Tu podes estudar em faculdade da tua preferencia, menestrel, comtanto que tu pagues! No quartel fallamos disso! O ORVIL nos persuade!

Ensigno superior, si gratis, ha de torrar todo o orçamento! Sou fiel às causas da direita! Por meu bel pensar, vou suggerir mensalidade!

Que todos paguem, ora! Só quem for mais pobre terá bolsa! Assim se faz justiça ao estudante, ao professor!

Não achas, menestrel? Tu, com teu gaz poetico, devias, sim, compor mais versos, que ao assumpto tragam paz!

SONNETTO DO MOLEQUE TINHOSO [13.055]

Seu Glauco, me chamaram de cappeta! Appenas porque gosto de furar os olhos dumas moscas, meu azar augmenta! Até que inventam muita peta!

É claro que eu queria ser quem metta um prego, mas num olho singular: aquelle dum collega que, exemplar alumno, dá-me inveja! Ah, que vendetta!

Seu Glauco, si eu pegar de jeito o cara, alem de lhe vazar os olhos, faço que chupe meu caralho, uma atroz tara!

Ficar como o senhor irá! Palhaço farei delle, na rua, rindo, para que riam, como riram do seu passo...

SONNETTO DO MOLEQUE INVEJOSO [13.112]

Enorme inveja sinto do pezão daquelle meu collega, alli na salla! Nas aulas, elle espicha, alem da mala, a lancha! Causa tanta confusão!

Caralhos vi, seu Glauco, que não são tão grandes quanto o delle, mas se ralla de inveja quem tal prancha acha que escala terá duma de surfe, meu irmão!

O tennis do subjeito tem tamanho dum barco! Ora, almejei aquillo tanto! Verdade? Então vantagem eu que ganho?

Prefere meu pezinho, sem expanto, cincoenta, appenas? Puxa! Até que extranho, mas posso visital-o, no seu cantho!

SONNETTO MIGRATORIO [13.330]

Não! Chega de estudantes extrangeiros! As universidades cheias ja estão desses alumnos e não dá mais para aguentar tantos novos cheiros!

Está nosso paiz, como os primeiros do mundo, saturado! Quem irá encher tantas barrigas, camará? Não bastam os milhões de prisioneiros?

Alem disso, os alumnos baderneiros demais são! Sempre fazem arruaça! Prefiro os meus soldados! São ordeiros!

Melhor seria, Glauco, si essa raça de ignaros immigrantes, costumeiros causões, não occupassem mais a praça!

SONNETTO UNIVERSITARIO [13.358]

Não vejo um bom motivo, Glauco, para os trotes prohibirmos. Um novato precisa seu pedagio pagar. Macto alguem? Mutilo alguem? Nem se compara!

O trote não é coisa assim tão rara e sempre exsistiu. Claro que eu constato que deve, sim, lamber o meu sapato um bicho desses! Quem negar ousara?

Não podem prohibir que meu calouro rasteje, todo humilde, e exfregue sua linguinha, do sapato, pelo couro!

O trote é tradição, Glaucão! Na rua veremos sempre uns bichos, sem desdouro nenhum, lambendo! O rito continua!

SONNETTO DO PEDANTISMO [13.792]

Tiveste professora assim pedante, Mattoso? Fui alumno duma tão cricri, tão moralista, que questão fazia de exhibir pose elegante!

Uns versos recitava, quer de Dante, Petrarcha, de Camões ou de quem não nos fosse familiar! Mas palavrão, em classe, era assaz torpe e degradante!

Com labios retorcidos, declamava appenas, de Gregorio, uns versos mais devotos e elevados, que inventava...

Tentassemos dizer uns mais carnaes, daquelles de Bocage, cara brava mostrava, mais até que nossos paes...

SONNETTO

DO RIGORISMO [13.970]

Rigor demais, no verso, quem deseja? Si formos, Glau, seguir esse caminho, ficamos à mercê do mais mesquinho padrão, duma panella, duma egreja!

Escholas litterarias, de bandeja, nos deram falsas pistas! Foi damninho o quadro que causaram! Não allinho a lyra a quem cricri demais me seja!

Um dia, a professora nos passara, à guisa de licção de casa, aquella metaphora perfeita da ave rara...

Queria que invocassemos a bella imagem desse passaro, mas, para desgosto seu, a abutres demos trella...

PONCTUAL CASO DE ALICE [conto 5 de PROMPTOS PONCTOS]

Magina, Glauco! Um cego... professor? Magina! Professores cegos não conseguem leccionar, mas nem na China! Estava ja ficando louco quem, num bairro de peripha, teve idéa de vir com esse cego numa classe de eschola secundaria, appresentando à gente, como sendo professor de inglez, aquelle cara de bengala, trazido pelo braço, que nem mesmo andar nos corredores conseguia sozinho! Ora, putissima fiquei! Ninguem accreditou. A gente estava calada quando o teacher anterior com elle entrou na salla para dar aquella absurda, comica noticia: agora quem iria dar as aulas de inglez seria aquelle imbecil cego! Na frente, ‘inda, do teacher, só sorrimos baixinho, uns com os outros, mas depois, nas aulas posteriores à sahida do velho professor, quando o ceguinho tentou, sem ter adjuda, começar do poncto no qual tinhamos parado, a classe ja sorria abertamente, contava piadinhas sobre cegos em alta voz, soltava gargalhadas, fazia a mais geral das algazarras. É claro que esse cego, o Jorge, estava sciente de que iria aguentar muito desdem, “capacitismo”, como chamam agora a zoação com quem não tem visão ou de qualquer deficiencia padesce. Mas não dava para appenas o Jorge se fingir de morto ou surdo emquanto toda a classe interrompia

a sua fallação titubeante. Nós eramos, na salla, a maioria, meninas que, chamadas de “novinhas” no meio duns meninos ja mettidos a machos folgadões, não respeitavam ninguem que impor quizesse quaesquer regras. Sahiu Jorge da salla, retornou trazendo o director para nos dar aquelle sermãozinho de moral accerca de egualdade de direitos dos pobres alleijados, cadeirantes, malucos, retardados, tal e coisa, appenas peorando o vergonhoso estresse que passava, ante nós, Jorge. Ainda quiz o cego proseguir no poncto leccionado, mas a gente gozava delle como si estivesse fazendo um estandape de palhaço mambembe, gaguejando um jargão vago. O cego se encheu, disse que daria um zero bem redondo para quem não fosse da materia sabedor no proximo homework e retirou-se, às tontas bengalando pelo pateo. Tiramos todos nota zero, claro. Ficamos revoltados, mas nós cinco, eu, mais a Tatiana, a Vera Lucia, Vicente e Raphael, nos reunimos a fim de nelle darmos uma bella licção, sim, de moral, duma moral bastante differente desse pappo politico ou correcto dos adultos. Pegamos, de emboscada, aquelle cego de merda alli no poncto onde esperava seu omnibus, sozinho, o babacão. Pensava que podia assim andar na rua, tomar sua conducção, aonde bem quizesse ir ou voltar?

Achava que estaria sempre prompto alguem para adjudal-o por ahi? Fingimos, sim, que iriamos dalli leval-o para a proxima parada que, mais illuminada, agglomerava mais gente, que podia lhe indicar qual omnibus servia, tal e coisa. Sem nem desconfiar que nossa voz estava, alli na classe, entre essas mais sarristas e estridentes, Jorge deu o braço para a Vera. Só notou que estava num local mais hermo quando o Rapha ja tomava a sua vara dobravel, sem a qual um cego não consegue se mexer numa calçada. Mal Jorge quiz gritar, Rapha applicou-lhe um golpe dessas artes marciaes que fez seu corpo gordo se expalhar por terra, attordoado de terror. Nós todos lhe puzemos os pés, para que não se levantasse. Elle pediu soccorro, mas Vicente lhe pisava na bocca, de maneira a abbafar um gemido mais audivel. Eu fallei que, caso não ficasse quieto, nós iriamos mactar a ponctapés um cego vagabundo, feito um cão. Então elle entendeu a situação. Sem gritos, implorou que não fizessemos aquillo, que não tinha grana alguma, que pena nós tivessemos dum cego e tal e coisa. Ahi nós resolvemos com elle divertirmo-nos um pouco, brincarmos de estuprar um indefeso refem no captiveiro. Rapha fez, primeiro, que lambesse sua sola dum tennis encardido de estudante. A lingua do ceguinho deslisou,

debaixo de risada, pelo sujo solado de borracha ja battido. Eu mesma lhe mandei que me limpasse a sola da alpargata. A Tatiana tambem quiz de capacho fazer sua nojenta lingua. Logo depois, elle ficou adjoelhado para ser fodido, sim, fodido pelo Rapha, que estava a fim de nelle desforrar os lances em que fora alvo de bullying por parte dos collegas mais marrentos. O cego recusou-se: não queria chupar um molecote de voz fina, que estava adolescendo mas ja tinha tesão accumulado. Só cedeu depois de ser surrado por Vicente, que sua propria vara de cegueta usava como um relho para bichos. “Ahê, cego veado! Vae chupar o Rapha agora mesmo! Vae ou não?” {Eu chupo! Não me batte! Eu chupo! Chupo!} Chupou, e chupou mesmo, um caralhão maior do que eu suppunha num menino franzino. Vicentinho tambem quiz gozar na bocca delle. Eu assistia morrendo de rir, idem Tatiana e Vera, até que, emfim, elle engoliu a porra do Vicente. “Cego serve é para chupar rolla! Ahê, sacou?”, Raphinha commentava, a gargalhar. O cego, todo sujo de poeira, ficou alli parado quando nós deixamos o local. Deve ter tido trabalho para achar, de novo, o poncto dos omnibus, sem sua bengalinha ridicula, quebrada pelo Rapha. Ficamos preoccupados só com um detalhe: nossos nomes elle tinha

ouvido, poderia accusar, caso quizesse, seus algozes. Mas não quiz. Ficou com medo, o trouxa, de ser mais currado numa proxima, talvez. Nem ia precisar que se fizesse justiça pelas vias burocraticas, pois Jorge nem voltou a leccionar alli, nem accusou ninguem, o otario. Bem feito! Foi bem feito, Glauco! Ou não?

Casa de Ferreiro

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