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MANUAL DO CREADOR

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MANUAL DO CREADOR

Glauco Mattoso

MANUAL DO CREADOR DE ARANHAS

São Paulo

Casa de Ferreiro

Manual do creador de aranhas

© Glauco Mattoso, 2026

Editoração, Diagramação e Revisão

Lucio Medeiros

Capa

Concepção: Glauco Mattoso

Execução: Lucio Medeiros

Fotografia: Akira Nishimura

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mattoso, Glauco

MANUAL DO CREADOR DE ARANHAS / Glauco Mattoso. –– Brasil : Casa de Ferreiro, 2026. 138 Páginas

1.Poesia Brasileira I. Título.

25-1293 CDD B869.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira

NOTA INTRODUCTORIA ou

THEMA DE POEMA [9214]

Lembraste bem, poeta. Aquella aranha gigante em casa cria a adolescente mais timida, mais linda, mais nympheta de certos condominios por ahi. Até minha vizinha passou por tal coisa. A filha della quiz crear aquelle escorpião, o parabutho, mas ellas se foderam. O bichano piccou-as e fugiu. Ao meu apê chegando, quiz piccar-me, mas mactei-o a tempo. Depois foram encontral-as ja mortas, a feder. Achei bem feito. Não achas que este caso dá poema?

DISSONNETTO DAS ESPECIES AGGRESSIVAS [1169]

O parque Trianon, compacta massa de matta em plena selva de concreto, compara-se a um oasis, fresco e quieto, num poncto onde area verde é tão excassa. O bosque poderia ser a praça propicia a quem caminha ou senta, excepto por unico detalhe: está repleto de aranhas, sempre à expreita de quem passa!

Que horror! Pela alameda arborizada eu vinha... Uma pelluda se pendura da teia e... Foi por pouco, por um nada! Quem teme, que é verdade tudo, jura!

A amiga a quem eu conto está chocada!

O bicho quasi exbarra-me, à procura de appoio para as pattas! Foi a fada madrinha, o anjo da guarda, ou sorte pura!

DISSONNETTO DAS ESPECIES PEÇONHENTAS

[1170]

Está Bello Horizonte, ao que me diz o amigo affeito às lettras, infestada demais de escorpiões, e não é nada ameno o que me conta esse infeliz: “Livrei-me, caro Glauco, por um triz da aguda e venenosa ferroada! À noite, ao me deitar, dei uma olhada na cama, e accreditar quasi não quiz! Debaixo do meu fofo travesseiro estava o aggigantado e repellente especimen! Tremeu-me o corpo inteiro! Quem passa por tal susto nunca mente! Eu juro que foi tudo verdadeiro! Mactei-o, mas não durmo mais!” Que augmente um poncto ao conto o douto auctor mineiro, mas mesmo uma aranhinha assusta a gente.

DISSONNETTO DAS ESPECIES ESTIMADAS [1173]

Por mais que o escorpião, por mais que a aranha nos mettam medo, sempre surge alguem achando que os bichinhos são tambem filhinhos do Senhor, e os arrebanha. O gajo não se abballa nem extranha si aquelle por seu braço accyma vem andando ou si esta chega perto, tem contacto com seu rosto e um beijo ganha!

Alheio ao ferrãozinho, elle tacteia as pinças do bichano e, da bichana, a bunda cabelluda até penteia! Que raio de mania mais insana! Normal é quem peçonhas taes receia! Emquanto ao arachnideo elle se irmana, eu fujo dum porão ou duma teia e o dedo não encosto em taturana!

DISSONNETTO DAS ESPECIES ASSUSTADORAS [1185]

Sirys e caranguejos nos inspiram um medo até difficil de explicar, talvez pela feição tentacular das pernas, que a uma aranha se refiram. Aquelles que um especimen ja viram, no mangue ou numa praia, vão ficar chocados para sempre! O enorme par de pinças abre, fecha... e elles deliram! Carnivoros, vorazes e aggressivos, os petreos aranhoides são capazes de inteiros devorar-vos, ‘inda vivos! Tremei, meus amigões, tremei nas bases! Tremei, vós que do medo são captivos! Tremei, vós que, descalços, ó rapazes, andaes pelas areias! Preveni-vos! Jamais exquescereis essas tenazes!

DISSONNETTO DO GRITO LANCINANTE [1191]

A avó beija a nettinha. Tanto a mima, que fartas guloseimas lhe prepara. A linda menininha sempre amara aquella, entre outros doces, obra-prima: Puddim de chocolate, que, por cyma, molhado está de calda! Emquanto appara na bocca a colherada, nem repara a infanta que uma aranha se approxima! Si foi caranguejeira ou foi epeira, é duvida que, inutil, se elimina. Subindo pela perna da cadeira, a fera alcança a coxa da menina. O berro echoa pela casa inteira! A calda respingou! Haja faxina! Levaram a menina, mas se exgueira, sem que ninguem a visse, essa assassina!

DISSONNETTO DA SCENA APPETESCIVEL [1192]

No fino restaurante, entre uma taça de limpido crystal e um pratto raso, alguem maneja o garfo que, ao acaso, espeta uma batata, um thallo ammassa. Ninguem percebe a aranha, que ja passa por baixo da cadeira! Vem do vaso de plantas naturaes, onde o descaso permitte que tal bicho um ninho faça! O grito assusta a todos: pelo braço da moça mais formosa a aranha sobe até chegar aonde ha mais espaço, na roupa que um fofão volume englobe! Questão de exaggerar jamais eu faço!

Aguça-se o interesse dum esnobe gastronomo que, ao frade egual devasso, só assiste: aquella gente que se affobe!

DISSONNETTO DA TARANTULA [1194]

Disseram que meu medo duma aranha é medo de boceta! Fosse assim, qualquer pessoa, tendo pingolim ou não, uma chochota achava extranha! Peor: até mulher jamais se accanha de panico sentir com o que, em mim, provoca calafrios! Mas, emfim, quem é que, nesse horror, não me accompanha? Só mesmo quem não teve nunca a chance de estar pertinho duma cabelluda, sem vir-lhe algum São Vito que lhe accuda, se gaba de que, frente a frente, advance! Machões me contam que isso ninguem muda. Não ha pagão possesso que se ammanse. Duvida da tarantula? Então danse, ao som da tarantella, a dor aguda!

DISSONNETTO DA PIZZA INDIGESTA [1196]

Em plena pizzaria, numa mesa do fundo, a parentada commemora. Atum, napolitana, queijos... Fora banana, vale até si é “portugueza”. Accyma, uma janella. A luz accesa attrae, de fora, a aranha, que demora até galgar a beira. Quem devora a pizza nem suspeita da surpresa! Descendo pelo cantho, a malfazeja advança na toalha adxadrezada, occulta attraz da borda da bandeja. Não faço narração exaggerada. Não, nada do que narro aqui sobeja. Tumulto! A mesa oscilla! Em cyma, nada restou! No chão, sem que ninguem a veja, a aranha excappa! A pizza está expalhada.

Cheliceras e palpos, pernas, tudo na aranha mette medo! Bunda grande, pelluda... e, si você, no susto, brande seu braço, o bicho fica mais raçudo! Attacca, e quem não tenha como escudo seu sancto protector, que ao demo mande os brios, dê no pé! Caso não ande depressa, o Alem advisa: “Não lhe accudo!” Às vezes gigantesca, ella dá pullo de gatto, cerca a victima, persegue, até que o gesto desta seja nullo! Quem medo ja sentiu, peço, não negue! Não usem, por favor, um termo chulo! Assim sonhei com ella: exhausto, entregue às garras da bichana, tremo, engulo em secco e deixo que ella me carregue!

DISSONNETTO DA FUGA SUBITA [1249]

Cagava a nymphetinha quando, rente ao vaso sanitario, a enorme aranha do pé se lhe approxima. Muita manha tem feito a adolescente, ultimamente. Recusa-se a comer, a boba, crente que assim mantem a forma. Nem se accanha ao ver-se pelladinha e, mal se banha, desfila e posa, dum espelho em frente. Agora, sentadinha na privada, exquesce, por um tempo, seu corpinho ao qual ainda falta algum carinho e exforça-se em cagar, compenetrada. A aranha, cujo pello é como o espinho, lhe roça a pelle pallida, coitada! A joven nympha corre, ‘inda pellada, e excorre-lhe o cocô pelo caminho.

DISSONNETTO DA MENOR AMBIÇÃO [1250]

Aranhas são podolatras! Emquanto no bolso escorpiões são encontrados, botinas e sapatos descalçados exercem nas tarantulas o encanto. Alheias ao chulé, teem ellas tanto desejo de ir la dentro, que até brados daquelles que as encontram, allarmados, nenhum temor lhes causam, nem expanto. Só deixa a aranha a toca quando o dono da bota batte o cano contra o chão, prevendo que ella alli durma seu somno. É sempre educativa a precaução. Mas falhas previsiveis eu menciono. Às vezes, desattento, elle o pezão enfia e, então, percebe! Eu só ambiciono ser pappamosca e andar em seu dedão!

DISSONNETTO DAS VIUVAS ENLUCTADAS [1290]

Na grande egreja gothica, gotteja, dos arcos ogivaes, agua chovida. Filtrada dos vitraes, vem reduzida a luz, mas a quietude é bemfazeja. A velha reza a sós. De lucto, almeja alguma paz de espirito. Da vida espera pouco. Advista, mas duvida que a coisa escura aranha mesmo seja. A vista lhe fraqueja. Alem do mais, tractando-se de especimes de antanho, aranhas não attingem tal tamanho. ao menos as tarantulas normaes! O padre ouviu o grito. Achou extranho que emitta a viuvez tão altos ais e, quando chegou perto, ja os vitraes de cores, sobre as duas, davam banho! No rosto da viuva, a aranha enseja alguma conclusão e nos convida a comparar das coisas a medida, si o porte do animal tanto sobeja.

DISSONNETTO DO PREÇO DA BANANA [1296]

A aranha negra attacca novamente! Agora está na feira: não se sabe bem como alli chegou, e aqui nem cabe querer saber si aranha imita a gente! Num cacho de banana ella se sente segura e comfortavel: que desabe o mundo! Ella não sae até que accabe de, quieta, cochilar commodamente! Mas, quando um comprador leva a banana p’ra casa, surge a aranha bem na hora do almosso! O melhor disso vem agora! Batata! A vovozinha é quem se damna! Cae fructa, cae fructeira, a velha chora de dor e desespero! Da bichana pretona, cabelluda, tropicana, terá recordações essa senhora!

DISSONNETTO DO SACRIFICIO PATERNO [1314]

Do parque as grandes arvores permeia os galhos um curioso emmaranhado de fios pendurados: o assustado passante percebeu ser uma teia! Em torno, a creançada se recreia aos gritos, desfructando o novo achado: aranhas a pullar por todo lado! Creança a tal perigo é mesmo alheia! Cotucam, com varinha, uma bichana, até que ella os attaque! A correria se segue, e tudo aquillo acham bacchana! A aranha não gostou dessa alegria. Impune ficará quem a attazana? Furiosa, ella se vinga: piccaria quem vem buscar os filhos e se damna, soffrendo em logar delles! Que ironia!

DISSONNETTO DAS CARANGUEJEIRAS CAMARADAS [1339]

Si Thomas Lux achou que salvaria a vida das tarantulas e, em troca, nenhuma dellas usa como toca sapatos ou chapéus, faz ironia! A chuva na piscina as jogaria, mas elle, que a justiça quer e invoca, à noite deixa a boia que as colloca a salvo até que nasça um novo dia... Então as cabelludas elle solta no matto, onde a Golias ninho faz. Feliz e confiante que leaes e gratas sejam, para casa volta. Mais tarde, elle verá que ellas jamais na vida o exquescerão, pois, como excolta, emquanto ‘inda nenhuma se revolta, dezenas, junctas, andam delle attraz!

DISSONNETTO DO MEDO MUDO [1342]

Si a aranha pode ser “caranguejeira”, exsiste um “caranguejo-aranha”, conta o alumno a seus collegas, quando, à beira da praia o carro chega e o sol desponcta. Nadaram de manhan e a tarde inteira. À noite, quando a turma ja se apprompta, no quarto, para o somno, alguem se exgueira, tramando a brincadeira que ammedronta. A lyra não compuz exaggerada: Um vivo caranguejo põem na cama daquelle que é mais timido. Elle exclama: “Soccorro!” E a turma cae na gargalhada. Na lyra, sou veraz, instante em cada: Voltando o brincalhão ao proprio leito, percebe, logo appós, sobre seu peito, enorme aranha andando, e nem diz nada!

DISSONNETTO DA PARADA NA ESTRADA [1373]

“Mamãe, minha tarantula excappou!” A phrase, por si mesma horripillante, me assusta mais ainda quando sou, num omnibus, nocturno viajante. Aos outros passageiros não passou em branco aquelle adviso: doradvante, ninguem mais dormirá! Me inquieto e dou em volta uma olhadella, instante a instante. {Soccorro! Motorista, para! Para!}

A voz que exgoelou é duma dona, nervosa senhorinha. A roupa clara contrasta com a aranha, que é pretona! Assim que estacionou no accostamento e acharam a bichana, appós a zona fatal que se formou, eu só lamento que, logo mais, de novo elle estaciona.

DISSONNETTO DO BICHINHO QUE SE MEXE [1387]

Bebês, engattinhando, na tomada bem rapido collocam o dedinho. A poncta da toalha, si puxada, da mesa tudo arrasta, rapidinho. Um delles pelo chão anda e se enfada de coisa inanimada. No caminho, advista uma aranhona sob a escada e della se approxima, coitadinho. Com isso se impressiona até você? A aranha, lentamente, move as pattas, alheia às attitudes insensatas taes como as brincadeiras dum bebê. Então nenhum descompto você dê, pois, quando a creancinha aquillo aggarra, mamãe logo attenção presta na marra, os olhos desviando da tevê.

DISSONNETTO DA BIBLIOTHECA EMPOEIRADA [1431]

O velho litterato continua, embora ja caduco, a, todo dia, achar que seu artigo contribua com dados para o jogo da utopia. Em busca duma idéa, vae à sua trancada bibliotheca, onde se enfia no meio da poeira: não recua emquanto mais um texto não copia. Nem nota que uma aranha ja passeia, emquanto olho ninguem ‘inda poz nella, sem pressa, em seu sapato e, pela meia subindo, alcança os pellos da cannella. Só berra, appavorado, quando sente aquillo que a “cosquinha” mais revela na pelle, mas ainda não na mente: que falta àquella salla uma janella.

DISSONNETTO DO PRATTO PRETO [1439]

Exsistem os carnivoros, e até quem coma a propria especie: o cannibal. Tambem como “anthropophago” alguem é chamado, mais preciso, por signal. E quem só come insecto? De ralé alguns o chamariam, mas o tal subjeito é um “entomophago”! Filé de abelha ou de bezouro lhe é normal. Mas... Ah! Tambem aranhas elle come! Contornos culturaes a questão ganha! Bundudas e macias, dão seu nome ao pratto que se chama “lasaranha”! Baratta até dispensa quem proval-o! Cultura singular não vi tamanha! Ainda não provei, porem estallo a lingua ante iguaria tão extranha!

DISSONNETTO DO TAMANHO DO MEDO [1442]

{Aranha pappamosca não assusta!}, me disse um garotinho. “Pois então augmente com a lupa!” E dei-lhe a justa razão para o pavor que ellas me dão. Inutil explicar quanto me custa buscar alguma coisa no porão ou ver si algo cahiu sob a vetusta estante, onde nem macho mette a mão. Pensar com sensatez eu não consigo. Qualquer cor ou tamanho, ella me inspira um medo irracional! Sinão, confira você, noutros sonnettos, o que digo. Mas sarro quer tirar elle commigo. Experto, o menininho dá risada e empurra a pappamosca que, assustada, correu, tal como eu corro, do perigo.

DISSONNETTO DA ARANHA PUNK [1455]

Si caricaturada, ella teria seus pellos em estylo mohicano, formando um topetão que se arrepia da cara até o bundão, sem couro ou panno. Porem, em cada patta, calçaria seu preto cothurninho, cujo cano lhe chega até o joelho. Nada exguia de pernas, se assemelha a um gordo humano. Somente um outro punk a vê na estica do rude visual que identifica os grandes figurões do movimento naquelle tão historico momento. Tachinhas, cincto, broches, alfinete. Mal nota taes detalhes quem porrete lhe desce, aos gritos: “Bicho mais nojento!” Nem sempre, em algum livro, o pau eu sento.

DISSONNETTO DA DESGRAÇA POUCA [1518]

Na rua, pouca gente. A noite é fria. Semaphoro vermelho. O carro para. La dentro, o pae, o filho, a mãe, a thia. Armado, da calçada chega um cara. A thia grita. Arranca, pela via vazia o motorista. Mas dispara um tiro o gajo e, logo addeante, arria ferido no volante quem ousara. Ainda rindo, tendo pouca pressa, o gajo foge a pé. Desgovernado, o carro sae da pista e tomba ao lado do corrego, onde ha matto e bicho à bessa. Maior complicação, então, começa. Sahindo do vehiculo, é piccada por varias aranhonas a coitada da thia: os outros ficam livres dessa.

DISSONNETTO DO COITO NA PENUMBRA [1627]

Em pleno “frango assado” está o casal. A chota, penetrada, se arreganha. O pau, indo e voltando, dá signal de que ja vae gozar onde se banha. A cama, sob os corpos, range e mal supporta o peso quando, assim que a sanha se abbranda, os dois se abbraçam no final. É quando, de repente, surge a aranha! Não pensem que exaggero nisto eu puz. Estava sob o estrado e, saccudida, resolve reagir, puta da vida, dispondo desse mar de corpos nus. Que faz a aranha? Alguem melhor deduz? Attacca e injecta, na primeira pelle que encontra, seu veneno! Antes que appelle a Deus, a moça grita e accende a luz.

DISSONNETTO DA REVISTA SCIENTIFICA [1631]

Na cappa da revista, a photo em cor, que a torna ‘inda maior, e faz seu pello bem nitido, resalta-lhe o negror e mostra ser temivel seu appello. Refiro-me à tarantula. Quem for abrir o tal artigo e tentar lel-o verá que fundamento seu horror de sobra tem, e nunca excede o zelo. Explica a tal materia como a aranha reage si estressada e mais se assanha si alguem tenta mactal-a e vem por traz, incauto, sem saber do que é capaz. Illudem-se os que querem convencer-nos de que, tal como occorre nos governos, é amiga, inoffensiva, e mal não faz. Pessoas, qual aranhas, são mui más.

DISSONNETTO PARA UMA PRAÇA QUE PERDEU A GRAÇA [1726]

A praça é uma gracinha: bem redonda. No centro o chafariz, sob a lattada, a faz convidativa. Quem lhe ronda a sombra arborizada é a creançada. O pato no laguinho ainda nada e, mesmo que uma moita espessa a esconda, a garça ‘inda se exhibe. Mas de nada addeanta tanta coisa, ante uma hedionda... Aranha! Aranha enorme e repellente! Aranha! Sim, aranha, que appavora tantos frequentadores numa hora de intenso movimento, antigamente. Quem é que medo della alli não sente? Foi vista ammeaçando o apposentado que, calmo, cochilava ali sentado e ja ninguem espera que ‘inda sente.

DISSONNETTO PARA UM SONHO DESFEITO [1863]

Na hora em que appagou a luz, estava a moça se lavando: tinha ja limpado seu cuzinho, e agora lava a estreita bocetinha, que não dá. Sem agua quente, fica a moça brava e tenta se enxugar. Quando ella está ficando quasi secca, o braço trava, de subito, seu gesto... Que será? Sentiu a coceirinha pela perna, de leve, e sua mente ja se assanha suppondo uma caricia meiga e terna que sempre desejou e que não ganha. Então voltou a luz e, horrorizada ficou com uma scena assim tamanha: percebe que a coceira é provocada por uma cabelluda e negra aranha.

DISSONNETTO PARA UMA CAMINHADA NOCTURNA [1866]

Appenas os pharoes dos carros: nada mais pode illuminar a rua escura, depois que um appagão transforma cada recantho da cidade em treva pura. Onde é que accaba o asphalto? Onde a calçada começa? Andar assim é uma tortura à pobre da velhinha, ja alquebrada e muito mal da vista, que não dura. Comsigo diz: “Sou mesmo uma azarada!” Tropeça, quasi cae... Mal se segura no muro... E ja comsigo mesma jura que à noite não sae mais, contrariada. Mas nega que esse azar a dissuada. Se appoia e vae seguindo... Na ranhura da pedra, appalpa a aranha, que lhe fura o dedo na agudissima piccada.

DISSONNETTO PARA UMA PACIENTE NAS ULTIMAS [1867]

A thia, moribunda, está internada. Tem como herdeiro um unico sobrinho que, sempre a visital-a, attende a cada pedido da velhinha, com carinho. Traz flores, traz biscoitos... E a coitada, feliz e aggradescida, dá um beijinho molhado em sua mão, que ja lavada está, mal sae do quarto o rapazinho. Vocês ja vão saber do que se tracta... Na noite do appagão, o joven entra no quarto e, emquanto a velha se concentra na caixa de bombons, solta da latta... A aranha! A aranha grande, enorme, ingrata, a gigantesca aranha, que caminha por cyma da coberta! Si a velhinha do susto excappa, qual veneno a macta?

ENTREVISTAS ALLARMISTAS [3096]

“No dia em que tivermos uma aranha do tamanho dum gatto, a humanidade está perdida!” A phrase persuade por causa do contexto que a accompanha. Não falla um personagem qualquer: ganha destaque porque em seria faculdade formou-se o scientista, embora brade um outro que essa hypothese é “patranha”. Um unico problema, eu creio, affecta a credibilidade dessa phrase: a fonte é que não era tão selecta. Mas toda a midia deixa que isso vaze! Não é, porem, só thema p’ra poeta. Que importa, emfim, que a these não se embase ou passe na tevê? Sei que é concreta! Fallou de aranha, em panico entro eu, quasi.

FERRÕES FERROVIARIOS [3130]

Os trilhos ja sumiram. Matto cobre a exstincta ferrovia. A região entrara em decadencia. Ganha o pão trampando na lavoura o povo pobre. Meninos brincam soltos. Um descobre, nas moitas, o dormente. Todos vão querer dalli leval-o e, agora, estão unidos p’ra que o exforço se redobre. Mal tiram do logar a grossa viga, sae um escorpião, mais um e mais um, antes que correr alguem consiga daquelles peçonhentos animaes. De longe, as mães escutam gritos. Paes accorrem. Si não fosse a mão amiga da velha curandeira, finaes ais seriam, claro, ouvidos, ha quem diga.

ELOQUENTE SEQUELA [3146]

Ouvi, no restaurante, uma senhora no pappo co’a commadre. Cochichava: “Livrae-nos Deus! Pelluda? Essa é a mais brava que exsiste!” E a accompanhante corrobora. Alguem, tambem à mesa, sem demora contesta: {Sei dum gajo que creava daquellas, e elle nega!} A phrase aggrava o clima: “Nada! Até pardaes devora!” A edosa treme: “Vamos ja mudar de assumpto!” {Cê tem trauma?} A velha exhibe, no braço, a cicatriz: “Foi no pomar. Mordeu de arrancar naco! Era... era um kibbe a bunda da bichana!” E no jantar ninguem mais falla: o horror disso os prohibe. Ouvindo, tento ainda ter um ar alegre. Meu pavor é que me inhibe.

PERIPATETICO PERIGO [3152]

O parque, densamente arborizado, vem desde a praça até chegar na beira do lago. O visitante que alli queira passar a tarde, é bom tomar cuidado... Concentram-se as pessoas num gramado, devido a advisos pela praça inteira, “EVITE ESTE LOCAL! CARANGUEJEIRA!”, nos ponctos onde o matto é mais cerrado. Allega que “a bichana é inoffensiva” o joven professor, que desaffia o adviso, com desdem ri da phobia alheia e da alameda não se exquiva. Com uma, enorme, cruza pela via, que, em vez de desviar-se, eis que, aggressiva, lhe pulla em cyma! Então era saliva? Alguem escuta gritos de agonia.

AUDIODESCRIPÇÃO DUMA CAMERA NA MÃO [3218]

Até tal poncto extende-se o jardim botanico, que assim me foi descripto: “Si alguem dalli passar, não tem mais fim o verde, ou seja, o incognito infinito.” Na frente, o bosque está todo murado. Floridas alamedas teem limite na margem do riacho. Do outro lado, o matto ver ao longe nem permitte. Advisa ao visitante a tabuleta: “Não passe deste poncto!” Mais addeante advista-se, na teia, uma gigante aranha, a ammeaçar quem se intrometta. Si estou alli, de prompto ja me evado! Incrivel que tal monstro o bosque habite! Maior do que uma pizza, allaranjado na bunda e, no restante, um tom graphite! Sciente é do pavor que causa em mim aquelle que me informa sobre o mytho. Quem falla duma aranha grande assim provoca-me e bem sabe como eu grito!

MUVUCA NA CUCA (1/5) [3223/3227]

(1)

“Você tem é phobia, Glauco!”, falla, a aranhas alludindo, um primo “mala”.

“Cadê que é tão feroz uma bichana daquellas! Só por causa do tamanho? Dos pellos? Da bundona? Ah, desencana!”

Affirma que diversas, ja, na mão pegou, uma azulada, outra laranja, e horriveis adjectivos elle exbanja emquanto lhes augmenta a proporção:

“Pernuda”, “brusca”, “bruta”, diz, sacana, “gorducha”, “trazeiruda”... Mais me assanho de medo, mais o gajo me attazana!

Si epeira, si armadeira, ou si mygala, não quero nem saber! Quero appagal-a!

(2)

Fazer-me terrorismo quer meu primo, pois sabe que a enfrental-as não me animo.

“Aranha não faz nada, Glauco! Eu pego na mão cada bichana gigantesca! E até na cara eu ponho, passo, exfrego...”

Me vendo extremescer, elle gargalha e cada especie explica no detalhe. Não ha como impedir que me acchincalhe: mais temo, mais dou asas ao canalha!

Casquinha até tirou de que estou cego: fingiu que, numa caixa, a pittoresca viuva negra tinha! Eu tremo, offego...

Precisa elle que alguem lhe faça um mimo. E “aranha” na “artimanha” eu tramo e rhymo.

(3)

Recorro ao Instituto Butantan?

Mas elles vão achar que sou tantan!

{Vocês terão ahi caranguejeira maior do que uma pizza? É que eu preciso... Sim, p’ra presentear... de brincadeira...}

“No dia em que tivermos uma aranha tão grande quanto um gatto, a humanidade está perdida!”: caso alguem me brade a phrase, que fazer? Quem batte, appanha!

Bichana desse porte numa feira de exoticos mascottes eu, com riso satanico, emfim acho: foi canseira!

Sae cara, essa bichana nada anan, mas dal-a ao meu primão compensa o affan!

(4)

Nem toco num monstrengo desses, mas adjuda-me um intrepido rapaz.

Fizemos um embrulho de presente com a caranguejeira, viva, dentro: meu primo acceita o premio alegremente.

Mas, quando abre o pacote, bem na cara lhe pulla o monstro! Eu, rindo, ouço, à distancia...

Excappa a fera, sem que alguem alcance-a, e o primo “audaz” seu panico excancara!

{Você mesmo não disse que não sente pavor, que adora aranha?} E eu me concentro, a ouvir a allegação que elle appresente.

“Vocês me pagam! Isso não se faz! Aquillo me mordeu!” E eu ri, mordaz.

(5)

Durou pouco o gostinho de vingança: em quem será que a aranha, agora, advança?

Ninguem a localiza? Mas é tão grandona! E agora? Aqui ninguem mais dorme! Cae fora, appavorado, o meu primão.

O intrepido rapaz que me adjudara tambem se retirou. Estou sozinho, temendo tropeçar, pelo caminho, no gatto, que a uma aranha se compara.

Gritaram do outro andar: logo a acharão. Porem, só de pensar naquella enorme tarantula, não durmo, desde então.

Paresce pesadello de creança, mas quem com bichos brinca não descansa.

AMIZADE COLORIDA [3257]

É magico phenomeno o jardim! Bem perto da roseira a aranha fez a teia, e diz: “Affastem-se, vocês!” Aquillo impressão causa, aguda, em mim. Está bem ao alcance do meu braço o seu cantheiro, proximo da grade do bosque. Na calçada, emquanto eu passo, cobiço a rosa. O medo, então, me invade. A cada dia, a rosa engorda, rubra. Com ella, engorda a aranha, accinzentada. Até que um meu amigo diz: “Que nada! Não tem segredo que ninguem descubra!” Faz elle, de repente, o que não faço e colhe a rosa, embora desaggrade às duas: morre a aranha de cagaço e a rosa é que a protege, na verdade. Assim, o que occorreu a saber vim: bastou a sós ficar, e a timidez mactou a aranha. Ou foi paixão, talvez? As duas coisas junctas vão, emfim.

SOMNIFERAS FERAS [3439]

Nem comptando carneirinho este cego, hoje, addormesce, nem si a cama em que eu me anninho comfortavel estivesse. Nem depois de tomar vinho, nem fazendo ao sancto a prece eu descanso um boccadinho. Passa a noite, cresce o estresse. Affinal, por que somente carneirinhos, essa classe de bichinhos, compta a gente? E si aranhas eu comptasse? Pesadellos, os prefiro, por mais panico que eu passe, si, accordado, a cada gyro do poncteiro, o sol não nasce.

AS OCCORRENCIAS ENGANNAM [3475]

Não ha macho que resista quando a coisa apperta e muda: de repente, o cara advista uma aranha cabelluda! E o sentido, digo, dista duma chota, aqui, desnuda: me refiro à realista e feroz mygala! Accuda! O machão, que se acha forte, se appavora ao ver o porte da bichana, no jardim. Num momento tão ruim, berra, então, talvez de dor, e a vizinha ha de suppor que só puta berra assim. Causou pena? Não a mim.

ARACHNOPHOBIA [3874]

Dellas fallo francamente e pavor ellas me dão. Mas conhesço muita gente que não falla dellas, não. Quer testar? Experimente commentar sobre o ferrão, as cheliceras, na frente de quem tenha essa adversão! Falle em como é cabelluda a tarantula, a mygala, a “caranga”, e como gruda numa victima, ao piccal-a! O subjeito fica mudo de terror, e quem se cala se delata. Disse tudo: mais exprime quem não falla!

PANICO SCENICO [3943]

“A tarantula” é o que estão a filmar. Num intervallo das filmagens, elles dão pela falta... De quem fallo? Sim, da propria! Todos vão procural-a... e procural-o, pois tambem o escorpião excappou por algum rallo. Mas sumiram! Ninguem dorme mais no estudio: aquella enorme e pelluda aranha expreita pelos quattro canthos! Eita! Quando acharem o bichano (e a bichana), é tarde: o damno foi a insomnia... Ah! Quem se deita no escurinho? Quem acceita?

BALLADA DA PICCADA [4020]

Uma aranha, quando picca, nos provoca immensa dor!

Qual, do nome, a exacta dica faz “tarantula” suppor?

“Tarantella” é o que ella indica! Quem piccado, acaso, for de dor dansa, e a dansar fica, sem parar! Vejam que horror!

Cabelluda, gorda e preta: que com ella não se metta quem lhe teme a justa fama que, faz tempo, se exparrama! Uma dessas, hoje em dia, mais afflictos nos faria: “rockenrollula” se chama a bichana, aquella dama!

O CAUTO CAUSO DAS MENORES MEMORIAS (1/6) [4191/4196]

(1)

É o poeta que exaggera ou está, de facto, vendo uma grande, enorme fera, um terrivel bicho, horrendo?

Gente, eu juro! Horrivel era! Nunca eu compro, nunca eu vendo um por outro! Quem me dera fosse gatto o que estou crendo!

Proporção, quando é tamanha no contorno duma aranha ultrapassa o proprio gatto!

Zeus me livre! Não delira, todavia, a minha lyra e o que conto é o facto exacto!

(2)

Eu estava no quintal, certa feita, do vizinho. Nem recordo agora qual foi tal anno, alli, certinho.

Mas por volta do Natal foi brincar o garotinho nessa casa... e foi fatal o episodio que eu sublinho.

Eu ganhara meu presente: o revolver innocente que se dava, de brinquedo.

Fui brincar la de bandido e mocinho... Me decido no quintal a entrar sem medo.

(3)

Muito matto no logar, lembro, havia, alem de lenha empilhada... De brincar de cowboy foi dada a senha!

Procurava eu encontrar um scenario que desenha o quadrinho mais vulgar. Ha gury que medo tenha?

Ao subir eu numa pilha de dormentes, da quadrilha fugirei, que me persegue!

Si essa lenha forma um muro, attraz della estou seguro, mas ammarro mal meu jegue!

(4)

Mal encosto minha mão na madeira, aquella extranha sensação eu tenho: são os cabellos duma aranha!

A bichana pulla, então, no meu peito! Foi tamanha a afflicção, que quasi não completei minha façanha!

Como um gatto, quando pulla no collinho, aquella fula aranhona me attaccou!

Eu ao solo fui jogado! Mas, si houvesse me piccado, ja nem vivo agora estou!

(5)

No que pulla, a aranha corre e se esconde na madeira! Não piccou! A gente morre quando a hora for certeira!

Não ha sacco que não torre si a menção não for ligeira e uma historia causa porre si estical-a a gente queira.

Concluindo, pois, eu digo que as creanças do perigo não teem, mesmo, noção plena.

No meu caso, a brincadeira com a tal caranguejeira deu, por sorte, em breve scena!

(6)

Mas não posso, aqui, deixar, ao tirar a conclusão, de dizer que tal logar tambem tinha escorpião.

Não cheguei a um exemplar ver do bicho, mas ferrão metteu elle, ouço fallar, ja de gente num montão!

Hoje, a casa do vizinho demolida foi: sem ninho fica a especie mais gigante.

Si, ao lembrar, eu me accovardo, talvez tenha um outro bardo mais coragem quando cante.

ANTIETHICA GENETICA (1/10) [4491/4500]

(1)

Um casal muito animado, os paes della. Sua irman é tambem: tem namorado rico, athletico e galan.

São bonitas ambas, dado serem gemeas: folgazan uma, sempre olhando o lado positivo; outra, a villan.

Kathia chama-se a que tem riso franco, está de bem com a vida e nunca briga.

Cynthia chama-se a que a cara fecha e a porta fecha para um amor, o amigo, a amiga.

(2)

Cynthia tranca-se no quarto! Deciphral-a é o que, aqui, tento. Poetiza? Isso eu descharto: não tem de Emily o talento.

Seja surto ou seja parto prematuro, tudo advento. [avento] Todo mundo está ja farto de suppor um argumento.

Nunca mostra o rosto a Cynthia! Muitos tomam por accincte a attitude misanthropa.

Sociavel, mesmo, é Kathia! Haja alguem que desaccapte-a, si cahiu no mel a sopa!

(3)

Um cachorro Kathia tem, sem fallar do namorado. Si tem Cynthia amado alguem, é segredo, esse, de estado.

Numa caixa, qual refem, Cynthia guarda com cuidado uma aranha, que lhe vem passear no braço dado.

Passa, a sós com a bichana, horas nessa doida, insana amizade confidente.

As más linguas fallam disso como um pacto, um compromisso entre pellos, bicho e gente.

(4)

Nem a propria mãe alli quer entrar mais, receosa. Cynthia appenas disso ri, a allisar sua lycosa.

Por aquillo que ja li, essa aranha é venenosa, mas, no caso desta aqui, com a dona ella se entrosa.

Piccará si ammeaçada, caso alguem o quarto invada, si estiver solta a bichana.

É melhor, por precaução, sem que Cynthia deixe, não entrar la, sinão se damna!

(5)

Pois não é que o tal cãozinho, encontrando entreaberta a fatal porta, bobinho, acceitou, temptado, a offerta?

No que entrou, viu o damninho bicho solto na coberta, a passar devagarinho. Dorme Cynthia e nem desperta.

Quando chega perto, o cão sente como si um ferrão agudissimo lhe entrasse.

Morrerá mais tarde, quando, mais sorrindo que chorando, o bebê de Kathia nasce.

(6)

Kathia perde seu mascotte mas mamãe é, toda attenta a quem chama de “filhote” e, entre beijos, ammammenta.

Ja nem ha quem bisbilhote no covil da rabugenta, rancorosa Cynthia, e bote rancor nisso! Quem a enfrenta?

Solteirona, agora thia de verdade, ella se enfia no seu quarto com a aranha.

Mais reclusa, agora, fica, remoendo sua zica, e attenção de ninguem ganha.

(7)

Cynthia vê que ninguem ia sentir falta della e sae de seu quarto: agora a thia cumprimenta a mãe, o pae.

Sorridente (Quem diria?), ella às compras até vae e ao sobrinho, de valia, dá presentes! Em si cae?

Talvez seja fingimento, mas mudou em cem por cento seu estylo secco e rude.

Kathia até nem jovial mais paresce agora, tal é da mana a juventude!

(8)

Mezes passam. O bebê pela casa ja passeia. A vovó chama, “Cadê meu nettinho?”, volta e meia.

Procurando fica e vê que está Cynthia, de mão cheia, se tornando babá... Crê quem quizer: que a velha creia!

A creança está no collo mais da thia que no solo apprendendo a caminhar.

Kathia, às vezes, com ciume, quer que o filho se accostume por si mesmo... Deu azar.

(9)

Numa dessas, o menino, irrequieto, sae da vista dos adultos e um vão fino duma porta aberta advista.

Não appenas o destino quer que a Morte não desista de rondar: um assassino gesto deixa alguma pista.

Caso Cynthia não tivesse tal descuido, agora a prece dos avós nem logar tinha!

Mas é tarde: o garotinho entrará no quarto e o ninho da lycosa ja exquadrinha!

(10)

Uma aranha-lobo fica mais feroz quando, em defesa do seu ninho, verifica que um menino é sua presa!

Sob a cama a “toca” estica seus limites: mão illesa ninguem mette alli, pois picca a lycosa com presteza!

Tanto fora o pote à bicca, que eu nem quero à scena rica de detalhes dar riqueza.

Dera Cynthia sempre a dica de que a aranha era uma crica em jejum de rolla tesa.

PAVOR COMPARTILHADO [4540]

Ja citei “caranguejeira” e outras dellas. Agonias provoquei em quem não queira ter tambem minhas phobias. Mas, confesso, esta é a primeira vez que escuto: “Tu sabias que a maior de todas beira meio metro, a tal Golias?” Minha nossa! Essa bichana que hoje é maximo modello doradvante me attazana toda noite, em pesadello!

Da Golias, então, tenho de fallar, quebrar o gelo, me expressar com todo o empenho, dar meu medo aos que vão tel-o!

UM CAUTO CAUSO À MANEIRA MINEIRA (1/10) [4541/4550]

(1)

Amigos meus de Minas me dão compta de indicio muito extranho e preoccupante. “Está, mesmo, augmentando (me garante da terra um trovador) e me ammedronta...

Os factos são, na midia, appenas poncta do tragico iceberg” -- ouvi, durante um pappo entre poetas. Tremo eu ante aquillo que a cabeça me põe tonta.

“O panico attingiu Bello Horizonte, provindo do Triangulo...” -- ouço, attento, e peço ao sonnettista que me conte.

“Lhe juro, Glauco, e nada eu accrescento alem da atroz verdade!” E minha fonte valida o assustador depoimento.

(2)

“É muito escorpião! (depõe o amigo)

Não eram assim tantos! De menino me lembro delles, logico! Imagino, porem, que hoje offerescem mais perigo...”

-- Que foi que accontesceu? Eu não consigo suppor que prolifere esse assassino assim, sem mais nem menos! Nem defino direito um monstro desses! Que castigo!

“Você define certo, Glauco, é praga do Egypto, é maldicção! Querendo, eu narro um causo que responde ao que me indaga...”

-- Pois quero, claro! Adoro algo bizarro! E o cara, si seu ego alguem affaga, suspense faz e accende outro cigarro.

(3)

“Pequeno. Era amarello, às vezes preto...” Assim começa o bardo a narrativa. “...Ja basta um desses, para quem se exquiva da fauna que em pau podre tem seu ghetto...”

Disposto a transformar tudo em sonnetto, pergunto: -- A mordedura é tão nociva assim? “Uma pessoa não sae viva (responde) si levar aquelle espeto!”

-- Então multiplicaram-se? O problema consiste nisso? -- Attento, delle escuto: “Não, Glauco, é bem peor! Escute e trema!”

“Alem de numerosos, é mais bruto seu porte, e bem maior! Fará poema você, meu caro, sobre o PARABUTHO!”

(4)

“Trazido foi das Africas, em data incerta. A cor vermelha o bicho tem aqui, mais adaptado. Ao Brazil vem, talvez, porque se nutre da baratta.”

“Baratta é o que não falta! Mas se tracta dum bicho venenoso, que ninguem consegue exterminar! A gente nem o macta, mal o expanta: é praga ingrata!”

“Nenhum insecticida faz effeito mortal no parabutho: appenas tonto o deixa! Isso me afflige quando deito!”

“Gordão, enorme... Glauco, eu nem lhe conto! Nem sob o travesseiro: é sob o leito que cabe, a ammeaçar-nos sempre prompto!”

(5)

Insisto no tamanho. “Chega a trinta centimetros! Paresce um lagostim!” Aquella informação provoca em mim terriveis calafrios. -- Hem? Não minta!

“Verdade, Glauco! A fera até tem pincta, direi, dum caranguejo: falta, emfim, o rabo e seu ferrão! As pinças, sim, dão medo! São pattolas! Falta tincta?”

-- Não falta. É a descripção sufficiente. Faltou só me contar como você se expoz a escorpião tão repellente.

“Si, Glauco, no que eu digo você crê... Entrei, sozinho, em casa. A noite quente estava e, quem não dorme, um livro lê...”

(6)

-- Que livro? “Não me lembro. Mas supponho que fosse de terror, o que mais leio. O somno, emfim, aos poucos vindo veiu e tive o pesadello mais medonho!”

“Sonhei que era baratta! Me envergonho si plagio fiz do Kafka, mas, no meio do sonho, vejo aquelle bicho feio attraz de mim! Que horror, Glauco, que sonho!”

“Eu era uma baratta gigantesca, mas, mesmo assim, fugia appavorado do immenso escorpião! Scena dantesca!”

“Eu chego até o porão, mas não me evado: o bicho me persegue, carne fresca procura, mas de insecto, não de gado!”

(7)

“Então, o parabutho me encurrala num cantho. Eu me debatto. Elle me aggarra. As pinças paralysam-me na marra. A morte não! Recuso-me a encaral-a!”

“Berrar eu tento, afflicto, mas a falla não tenho mais! Na aphonica boccarra o bicho aquella longa cauda exbarra, buscando penetrar-me e exporrar galla!”

-- Achei bem humorado comparar ferrão com phallo erecto e seu veneno com semen... Qual será seu paladar?

“O gosto ardido, amargo, nada ameno, me entope a bocca! Logo, estou sem ar, morrendo, e a ser comido me condemno!”

(8)

“Então accordo! Estou suando em bicca, sentado na poltrona! O livro, ao chão cahido, cujas paginas estão dobradas e ammassadas, tudo explica...”

“No braço do sofá, que ao lado fica do assento onde dormi, vejo o bichão me olhando: Glauco, o enorme escorpião não ia me metter na bocca a picca!”

“Iria me attaccar, mas de verdade! Pullei! No que pullei, o parabutho pullou tambem, com grande agilidade!”

“Foi coisa dum instante: emquanto eu lucto dalli para excappar, o bicho invade o assento da poltrona, resoluto!”

(9)

“Estou no chão. O bicho, na poltrona. Prepara novo bote. Está me olhando com raiva. Move as pinças, treme e, quando saltar vae, um instincto me impulsiona...”

“O livro do chão pego com mãozona bem rapida e, num subito commando do cerebro, automatico, lhe brando o braço armado, o golpe que o detona!”

“Mais golpes eu desfiro, hallucinado, até que o bicho pare de agitar-se! Então victoria eu berro em alto brado!”

“Maldicto! Desgraçado! Sem disfarse, assumo que chorei, assumo o lado covarde de quem foge da catharse...”

(10)

“O livro me salvou, essa leitura maccabra, que sorrisos me provoca de incredulo desdem! Uma beijoca meresce o volumão de cappa dura!”

“Depois tractei, procura que procura, de achar do parabutho a escura toca. Achei, mactei os outros, mas, em troca, ganhei um bello trauma, que perdura...”

Entendo a encucação desse poeta mineiro: outros poetas dicas dão do mesmo facto, e a gente os interpreta.

Talvez, mesmo contando tudo, não se sinta livre, quando o facto affecta a todos nós, refens do escorpião...

COBRAS, RATTOS E LAGARTOS [4554]

Fallar ouço que cobra come aranha! Que aranha come cobra eu nunca tinha ouvido! Acho que a falha é mesmo minha... Mas é o fim da piccada, hem? Coisa extranha! Desculpa o trocadilho, mas tamanha aranha a gente nunca que adivinha que exsista! Qual o nome da fofinha? Golias? Minha nossa! Essa me appanha! Me appanha de surpresa e mette medo! Quem é que ao ouvir isso não se abbanna? Não, gente! Olha o tamanho da bichana! Maior do que uma pizza! Eu retrocedo! Nem quero chegar perto! Alguem se uffana de nessa cabelluda pôr o dedo? Mas tento, em vão, fugir ao forte enredo! Caralho! Olha! Comeu a rattazana!

O ADVANÇO DA SCIENCIA [4577]

O estudo dos arthropodes não para. Ainda agora, alguem descobre alguma especie nova: a gente se accostuma com nomes differentes e os compara. Acharam uma aranha muito rara, que vive na Amazonia: se advoluma seu porte em meio metro, accyma duma bacia! Que não chegue aqui, tomara! O nome de Golias lhe foi dado, por causa do tamanho. Com certeza, dos passaros fazendo a sua presa, será caranguejeira, eu acho, instado. Que horror! A humanidade está indefesa! Eu fico, mais e mais, appavorado! Affeito a suggestões, me persuado de achal-as sob a cama ou sob a mesa!

ENTRADA FRANCA [4738]

Corrida de barattas? Meu Deus! Isso é coisa, minha gente, que se faça? Appostas fazer como? A quem a taça se entrega? Estou distante desse enguiço! Não para por ahi tal desserviço: na mesma exposição, uma desgraça bem pode accontescer, pois uma raça de aranhas não me deixa ser ommisso. São, vivas, as fataes caranguejeiras! E, como não bastasse, alguem colloca na palma da mão essas traiçoeiras bichanas! Ah! Só pode ser masoca! Não, nada disso! Fora as taes carreiras! Ficasse tal bichana em sua toca, mactassem a baratta, e tremedeiras não tinha este ceguinho que se choca!

SUSCEPTIBILIDADES FERIDAS [4739]

Me contam que uma aranha, si estressada, nervosa, irritadiça, inquieta, arisca, se torna perigosa... Bella bisca! Estresse? Não faltava, ora, mais nada! Aranha, agora, fica magoada? Se zanga? Emburra, quando não petisca seu pratto predilecto? Quem se arrisca a perto lhe ficar, si a desaggrada? Calculo si, estressada, uma bichana daquellas gigantescas se abbespinha dum modo como nunca ainda tinha e alguem, encalorado, alli se abbanna! A velha nem percebe que a damninha se irrita! Pelladona, areja a chana, achando, estando a sós, não ser sacana, e morre, só do susto, a coitadinha!

PESADELLOS VIGILANTES [4864]

Minha porta ninguem, numa hora dessas, chutar vem. Nunca um cego se accostuma com silencio assim, porem. Barulhinho que presuma ser de aranha, em mim ja tem mau effeito: o resto exfuma do meu somno... Aranha? Eu, hem? Accender luz, para mim, não resolve! Que canseira!

Que anxiedade! Fico, assim, da loucura, à noite, à beira!

De manhan, quando a empregada vem limpar, a casa inteira vae olhar: não acha nada da fugaz caranguejeira!

DISSONNETTO DUM TEMIDO APPELLIDO [5016]

Sapato elle costuma usar sem meia e cedo, appressadinho, está a calçal-o. Mas sente, bem no poncto onde arde o callo, mexendo-se, algum bicho, que experneia. Aranha? Escorpião? Elle receia que seja venenoso e que a piccal-o o bicho venha, quando, no intervallo daquelle instante, a coisa fica feia. Aguda, a dor perfura o nervo, até tornar-se insupportavel. Elle berra, saccode-se. O sapato sae do pé. Não digam que esta lyra, amigos, erra! Não digam que esta lyra feliz é!

Correndo, deixa o quarto e foge à guerra. Salvar-se irá. Chamado ser de Zé Gallinha vae tambem: um ferrão ferra.

SURPRESA NA SOBREMESA [5293]

A mesa está animada. Ja o jantar termina, mas ninguem dalli levanta. O assumpto da conversa inspira tanta polemica! E a celeuma tem logar... Aranhas, affinal, podem chegar a qual tamanho maximo? Se expanta alguem si, depois duma lauta janta, se toca nesse assumpto de amargar. “Ah, tem caranguejeira do tamanho dum gatto! Ja pensou? Nem chego perto! Foi vista no Xingu, não sei ao certo...” {Ouvi fallar dum caso mais extranho!}

“Não diga que a Golias vae, decerto, tal porte superar, que eu ja me assanho!” {Supera mesmo! E muito, nem me accanho e affirmo! Não duvidem quando allerto!}

DISSONNETTO DUMA NOTICIA FICTICIA [5339]

Foi achado, ao que sabendo eu fiquei, enorme insecto na Amazonia. O bicho horrendo mede... Credo! Está correcto? Meio metro? Não entendo!

Como pode? É um tetranetto prehistorico? Só vendo!

Ja fiquei, é claro, inquieto! Hem? Insecto, meu? Mas qual? Si um insecto attinge tal proporção, é natural que uma aranha a mesma attinja, ou alguma fera affim!

Si exsistir aranha assim, ser valente vão de mim pretender que diga e finja?

DISSONNETTO DUMA SCENA ATTERRADORA [5439]

Por fallar em bebês, uma exemplar caranguejeira excappou de quem arrhuma taes especies numa feira. A aranhona, por alguma fresta, entrou e quasi à beira do bercinho está! Ja rhuma para o bicho a mão certeira! Em taes themas, eu não erro: À creança, aquella aranha é brinquedo que se appanha com mão boba e se abboccanha!

A mamãe escuta o berro!

Vem correndo, mas encerro o sonnetto, pois me atterro com tarantula tamanha.

DISSONNETTO DUMAS ALVISSARAS E

DUMAS CHELICERAS [5470]

Por fallar em vida exstincta, e a feroz caranguejeira?

Risco corre? Que não minta quem crear boatos queira! Me affirmaram que ja pincta a provavel e certeira exstincção da aranha... Sinta só que drama! Brincadeira! Eu duvido que a bichana “desinfecte”! Não me enganna quem alvissaras expalha! Só será fogo de palha! Quando a gente nem espera, ella attacca! Como a fera tem cheliceras, não falha nos barracos da gentalha.

HORRENDAS LENDAS [5699]

Eu tenho meu basset. Gatto, um amigo. Mas ha quem tenha aranha cabelluda! Mascottes que nos lambem eu consigo beijar! Caranguejeiras... Não! Accuda! Fallar ouço que exsiste quem abrigo dá para a centopéa, que lhe gruda no braço, no pescoço, mas commigo apposto que isso é peta, da grahuda! Nas redes sociaes ha quem garanta que cobras e morcegos dão mansinha e terna companhia a quem definha, doente, numa cama! Virgem Sancta! Talvez queiram dizer que se addeanta, assim, o passamento, o fim da linha dum caso terminal... Senhora Minha! Fofoca venenosa? Ah, mas ha tanta!

SAVE A SPIDER [5713]

Fiz versos para a aranha, mas jamais salvei-a, porra! Alguem me salve della! Tem bunda cabelluda... Tem lethaes cheliceras... Aggride e me arrepella! Inventam, nessas redes sociaes, modinhas descabidas! A sequela não temem da piccada? Quaes os paes que querem do filhinho o dedo nella?

Perguntem à mamãe, ou à tithia, si deixa tal bichana passear tranquilla pela casa! Que seria da bunda do nenê naquelle lar?

Deixemos de frescura! Quem iria salvar alguma aranha, si mactar pudesse essa ammeaça! Ninguem cria problemas, si ja basta ter azar!

GOLIARDA QUE ACCOVARDA [5745]

As aranhas de tamanho variando vão, conforme o meu medo: não me accanho de dizer: “Nossa! Que enorme!” Mal lembrei e ja me assanho: na Amazonia, ninguem dorme si no sonho ellas teem ganho no tamanho, ja disforme. Tantos versos à bichana eu fizera! Mas jamais é bastante, si se damna quem a vê nos mattagaes. Pesadello que attazana terá aquelle que viu taes cabelludas na cabana onde esteve com seus paes.

PULLO DE SUSTO [5950]

Cagava molle quando notou ella, subindo pelo vaso, uma aranhinha de porte inoffensivo, que ja vinha tocando, quasi, sua bunda bella. Dansado uma animada tarantella a dama certamente que ja tinha. Porem o que succede (impressão minha) é que ella não sabia da sequela. Quem conta augmenta a compta. Brincadeira não era a proporção daquella aranha, que, em vez de pequenina, foi tamanha a poncto de egualar caranguejeira. A merda molle excorre, molha, cheira mal mesmo. Não, a dama nem extranha aquillo que limpar, quando se banha, irá. Mas sentir dores... Ninguem queira!

ARACHNOPHILIA (1) [6021]

Circulam, sobre Gina, alguns bochichos. Tem medo de baratta, porem não de aranha, a moça. Cabe explicação? Phobia alguem não teve de taes bichos? Sim, cabe. Ella cahiu, quando creança, num poço onde abundavam as barattas. Ficou traumatizada. A aranha mansa achou porque devora as insensatas barattas que apparescem. Confiança demais? Sim, pois aranhas são ingratas. “Cuidado, dona Gina!”, não se cansa o padre de advisar. “Aranha tem veneno!” Mas na moça não advança aquella que ella cria, que lhe vem comer na mão! De moscas enche a pança, caçadas pela Gina! Simples, hem?

ARACHNOPHILIA (2) [6023]

Tarantulas attingem grande porte. O padre ficou pasmo com tamanha bichana! Sim, pertence à Gina a aranha! Espera-se do padre que se importe. Bunduda, cabelluda e preta, aquella aranha foi creada em captiveiro. Tem Gina confiança plena nella, que advança nas barattas, mas, primeiro, recebe uma ração de moscas. Bella mascotte! E por que o padre está cabreiro? Scismou elle que a aranha se revela, um dia, traiçoeira e attacca a Gina. Visita a moça, insiste, mas sem trella ganhar da teimosinha! Que imagina o parocho? Será que appenas zela, sincero, pela vida da menina?

ARACHNOPHILIA (3) [6025]

Curiosos, os leitores saber querem. Perguntam-me si é Gina solteirona, bonita, s’inda é virgem sua conna... A todos elles, peço-lhes que esperem. Não sejam indiscretos! Eu aqui fallando duma aranha, e o leitorado querendo ver si a Gina tem, ou si não tem seu cabacinho! Sou tarado? Sou chulo? O que interessa é que não vi malicia nesse padre... Estou errado? Mas, quanto ao que appurei, ella tem dado sympathica accolhida ao sacerdote. Sim, toma, com a aranha, mais cuidado. Só resta adveriguarmos si a mascotte não fica ciumenta, si é do aggrado da fofa que outro bicho a dona adopte...

SERRA QUE FERRA [6213]

Te juro, Glauco! Mesmo que não queira ninguem accreditar, mesmo que rias de todas estas miseras phobias, te juro que essa achei na Canthareira! Achei phenomenal caranguejeira, Glaucão! Appavorado ficarias! Na matta nem tem graça moradias haver! Vendi ja minha casa à beira! Reserva florestal tive na minha varanda, Glauco, quando, um bello dia, aquella cabelluda vi na pia andando, como um gatto que caminha! Me viu, a tal bichana que, damninha, persegue suas victimas! Eu ia fugir, mas não deu tempo! Uma agonia guardei: não foi de nada a piccadinha!

PROBLEMAS CONJUGAES [6462]

Bunduda, Glauco! Tinhas que ver qual o porte da bichana, toda preta! Apperto passa aquelle que se metta com esse ferocissimo animal! Tens medo de tarantulas? Eu mal consigo pensar numa! Na gaveta esteve escondidona, a da salleta chamada “de vestir”! Horror total! Foi só minha mulher procurar uma calcinha limpa, a aranha lhe pullou na cara, Glaucão! Ufa? Nem te vou contar o problemão que a fera arrhuma! Mactal-a conseguimos, mas espuma de dores quem a fera ferroou! Ficou traumatizada! Razão dou que sua frigidez agora assuma!

Eu, medo duma aranha? Cê se enganna, ceguinho! Nenhum homem tem receio de bichos desse typo, por mais feio que eu ache esse jeitão duma bichana! Até pego na mão! Acho bacchana aquelle bundão preto, todo cheio de pellos, uns vermelhos pelo meio do corpo... Mais legal, só taturana! Agora, medo tenho, mesmo, della, da minha mulherzinha! Ahi veneno não falta, nem ferrão, meu! Nada ameno é seu poder de fogo na querella! Ah, Glauco, si de medo cê se pella da aranha cabelluda, acho pequeno tal drama! Não se case! Mais eu peno por ter uma megera achado bella!

MEDONHA PEÇONHA [6464]

NATUREZA MORTA (4) [6983]

Si vejo um percevejo, vate, eu macto! Si pulgas eu percebo, não excappa nenhuma! Até baratta vou, a tapa, mactando pela casa! Tambem ratto! Não, Glauco! Faz enorme expalhafacto quem pensa que protege, em todo o mappa, a fauna, a flora... Bollas! Por que tapa os olhos ao piolho, ao carrapato? Bah! Muitos desses bichos teem veneno, poeta! Não, não servem para nada! Aranha, por exemplo: uma piccada nos macta! Mesmo um bicho tão pequeno! Estás tremendo, Glauco? Não condemno a tua posição! Caso uma invada a cama em que te deitas, nem a fada madrinha vem salvar! É pavor pleno!

MOTTE GLOSADO [7568]

Si demais for o silencio, dá p’ra ouvir até uma aranha.

No silencio, a gente goza de total tranquillidade?

Bem, depende. Ninguem ha de ouvir calmo uns sons a sós! Ah!

E si fosse uma lycosa gigantesca, que me extranha? É melhor, si for tamanha a anxiedade, que eu dispense-o. Si demais for o silencio, dá p’ra ouvir até uma aranha!

MANIFESTO AMBIENTALISTA (1/4) [7905]

(1)

“Glaucão, meu caro, sabe aquella aranha gigante? Sim, aquella que se chama Golias, ella mesma! Sim, bem sei do medo que lhe inspira a tal bichana! Pudera! Até maior do que um prattão daquelles rasos! Glauco, a cabelluda ninguem pode mactar! Sabe por que?”

(2)

-- Caralho! Você sabe que tamanha bichana me intimida! Até na cama eu temo que se esconda! Ja fallei, não toque nesse thema! Não me enganna você, que é natureba! A gente não a macta porque exsiste lei que escuda os bichos de exterminio, ja se vê!

(3)

“Que nada, Glauco! Occorre que façanha tal nunca alguem tentou! Nenhum IBAMA prohibe, mas ninguem, com ou sem lei, nem chega perto della! Só se damna quem della se approxima! Eis a razão de estar proliferando! Quem estuda diz: -- Picca mesmo, adviso eu a você!”

(4)

-- Ja chega! Quer você ver si me appanha tremendo de pavor? Você reclama si eu xingo, mas me chama até de gay por causa da phobia! Mais bacchana seria si, por causa do tesão por pés, gay me chamasse! Não sou Buddha, não fico zen, sozinho aqui no apê!

CUIDADOS INSPIRADOS (1/3) [8069]

(1)

{Tarantulas soltou, o damnadinho, em pleno corredor dum hospital! Calculas, Glauco, o panico que cria um unico exemplar da cabelluda especie? Pois calcula varias dellas à solta, transitando pelas camas de cada enfermaria, cada quarto! Não achas que o menino se excedeu nas suas travessuras, Glauco? Diz!}

(2)

-- Sim, posso calcular. Eu ja adivinho o susto de quem soffra dalgum mal mais grave, preso ao leito, quando espia em torno. Ficará sua voz muda de expanto. Mal refeito das sequelas, da aranha não excappa. Me conclamas a dar algum palpite? Dum infarcto na certa morrerá quem ja soffreu daquillo. E quanto ao sadico pettiz?

(3)

{Ahi que está! Pegaram o damninho subjeito bem no flagra! Mas o tal moleque protecção tinha da thia ricaça! Ficou tudo em linguaruda fofoca, alguma morte em tagarellas intrigas! Abbafaram essas tramas e nada accontesceu! Eu não descharto que culpem um moleque mais plebeu por essa traquinagem infeliz...}

ECLOGA DESIDYLLICA (1/6) [8446]

(1)

-- Amada minha, musa mui querida dos versos que componho, por que tens tamanho medo destes mattagaes tão verdes e tão densos? A teus paes ja tive que explicar, sem mais porens, que aqui não ha perigo que te aggrida!

(2)

{Amado meu, querido, sei que lido com optimo rapaz, que ca não vens commigo para ter-me, entre mil ais, nas moitas, estuprada! Não sou mais creança, nem papae, com nhenhenhens, dirá si jamais devo ter sahido!}

(3)

-- Então por que, querida, tanto medo do bosque tens tu? Temes que algum bicho te attaque? Mas aqui não vive fera alguma! Esta floresta appenas era reserva ambiental, antes de lixo jogarem, de entulharem o arvoredo!

(4)

{Querido, esse é o problema! Como pode alguem fazer tal coisa? Tu não vês que junctam barattinhas? Onde vão barattas, as aranhas vão, e não supporto insectos! Sonho toda vez que sobre alguma aranha alguem fez ode!}

(5)

-- Entendo que uma aranha te incommoda, querida, mas prometto-te que nada permitto em ti doer! Appenas quero que fiques relaxada! Sou sincero si digo que uma aranha mal amada não pode de outra aranha oppor-se à foda!

(6)

{Estás correcto: aranha cabelluda nenhuma deixarei que a minha invada e appenas teu porrete agora espero que possa me accudir, sem lero-lero nem versos decasyllabos! Cansada estou de idyllios! Anda! Me desnuda!}

CHAOS NA FAUNA [9078]

Os bichos mais selvagens estão vindo morar juncto comnosco, Glauco! Os homens só querem destruir a selva delles! Assim elles accabam transmittindo mais virus de pandemicas doenças! Mas isso não é tudo! Não são só oncinhas, jacarés ou macaquinhos que estão urbanas areas invadindo! Tambem aranhas, Glauco, das maiores, as taes caranguejeiras ou tarantulas!

Ficou arrepiado? Ora, pudera! Noticias ja circulam de invasão em massa desses bichos peçonhentos! Accabo de trazer uma commigo: “Enorme escorpião foi encontrado debaixo de innocente travesseiro da filha dum politico grahudo...” Ah, Glauco! Quer que eu pare de ler? Mas nem sendo dum politico o problema?

Está bem! Ja percebo que você ficou preoccupadissimo com sua caminha, alli na hora de dormir...

SUMIÇO NA AMAZONIA [9167]

Ah, Glauco, por favor! Alguem que some, perdido na floresta da Amazonia, só pode ser maluco! Onde é que ja se viu adventurar assim na matta sozinho, só de barco? Uma distancia immensa, alli, separa cada aldeia! Alli só dá mosquito ou venenosa aranha, sem fallar em cobra, Glauco! Ainda que estivesse em companhia de gente experiente em selvas taes, seria verdadeira maluquice! Depois ficam fallando que esses indios ja podem ter mactado o cidadão! Magina! Aquelles indios cannibaes nem são, Glaucão! Na certa foi aranha, daquellas gigantescas e pelludas! O gajo com certeza foi piccado, morrendo, sem soccorro, la no meio da selva! Na cidade grande, eu acho, até pode morrer quem for piccado, mas morre soccorrido, pelo menos!

CONDEMNADO POR FAKE NEWS [9168]

É foda, menestrel! Veja si não, Glaucão: o Tribunal Eleitoral cassou o meu mandato! O que elles dizem é que eu, aos seguidores, propaguei só fake news accerca das aranhas que vivem na Amazonia, trovador! Mas disse eu, com razão, que essas aranhas, chamadas de Golias, cabelludas e pretas, teem veneno, sim, lethal e mactam sob horriveis dores, bardo! Fallei mentira? Diga si fallei! Você mesmo fallou: caranguejeiras arrancam até nacos quando mordem a gente, sem fallar na peçonhenta piccada, que nos macta rapidinho! Si fosse deputado, Glaucão, só por isso perderia seu mandato! Aquelle tribunal não dá molleza! Só falta nos cassarem si dissermos que exsistem lobishomens e vampiros!

ARACHNOPHOBIA DE ARAQUE [9194]

Você fallou bastante do seu medo daquellas aranhonas cabelludas, mas acham seus leitores que você tem medo, na verdade, é de boceta! Você ja respondeu, mas eu pergunto de novo: por que tanta paranoia? Aranhas tão lethaes não são, Glaucão! Bocetas, outrosim, são para a vida a porta de sahida, para não dizer de entrada, claro, dependendo do nosso occasional poncto de vista! Mas chotas são, alem de tudo, fonte de muito prazer, porra, não de medo! Hem? Como? São taes coisas differentes? “Aranhas só nos piccam, mas bocetas nos comem”, diz você? Pois eu retruco: Melhor morrer de gozo que de dores!

DIA DO AR PURO [10.297]

Em busca dum ar puro, comprei uma legal casa de campo! Natureza visivel, respiravel, com certeza! Mas logo um problemão quem não arrhuma?

Phobias quem tiver e não assuma irá se lamentar, pois vi na mesa aquella baita aranha! À luz accesa, maior me paresceu! Quer que eu resuma?

Piccado nem fui! Ella, a cabelluda tarantula, fugiu para a varanda! De noite, qual sanctinho nos adjuda?

Agora, quando vejo propaganda de casas desse typo, penso: Muda quem queira! Mas dalli, depois, debanda!

DIA DO BIOMEDICO [10.321]

Piccada de tarantula? Ah, menino! Nem queira saber como nos tortura! Alem, porem, daquella creatura feroz, outras aranhas imagino!

Maior caranguejeira ainda vi no fundão la da Amazonia! Quem procura achar vae a Golias! Mas é pura bobagem pensar nellas, eu previno!

Aranhas bem menores teem veneno capaz de mactar rapido! Mas nessa peçonha vi, de curas, um acceno!

Ja, Glauco, pesquisei peçonha à bessa! À parte essa phobia, sou quem crê no poder de tal veneno, uma promessa!

DIA DE COMBATTE À ARACHNOPHOBIA [10.393]

Segure esta, rapaz! Ei, abra as mãos! Assim... As duas palmas ... Isso... Veja que a aranha ainda sobra! Não deseja mexer nos seus pellinhos? Quantos nãos!

Medrosos, ja vi varios cidadãos que soffrem da phobia! Quem esteja querendo se livrar, tem, de bandeja, a chance de exhibir seus nervos sãos!

Soppese, si puder, esta Golias! Pesada, né? Mas fique sossegado! Só picca si estressada! Tem manias!

Não tema, que estarei eu do seu lado! Bem, acho que a bichana sympathias não teve por você... Piccou? Coitado!

DIA DO BICHINHO DE ESTIMAÇÃO [10.399]

Cachorros, gattos, todos elles são carentes dum amor e dum carinho. Alguem, porem, prefere ter bichinho feroz, um leopardo ou um leão.

Um porco, um elephante, sei que estão os jovens adoptando. Ja adivinho que esteja alguem querendo ter um ninho de cobras bem debaixo do colchão.

Alem de escorpião, exsiste quem adopte essa aranhona monstruosa, chamada de Golias. “Que é que tem?”

“É linda, cabelluda!”, alguem me goza. Depois que foi piccado, não me vem ninguem gozar da cara desdenhosa.

DIA DO ALLERGICO [10.453]

Soffrendo de rhinite você está? Mas isso não é nada, trovador! Tem gente que sentindo muita dor está, fora a coceira, meu xará!

Não, nada que resolva, siquer cha, exsiste, trovador! Mas, para pôr mais lenha na fogueira, vou lhe expor um caso que terrivel lhe será!

Aos pellos das aranhas, dessas taes tarantulas, tambem caranguejeiras, nós somos, sim, allergicos demais!

Tentaram ja, de todas as maneiras, remedios inventar, mas são fataes, tambem, suas piccadas costumeiras!

DIA DO ESCORPIÃO GIGANTE [10.529]

A atroz caranguejeira, a maioral de todas, é chamada de Golias. Nas mattas da Amazonia, levam dias os gajos para achal-a ao natural.

Mas esse escorpião, um animal mais raro, vive nestas cercanias. Verdade, menestrel! Tu não sabias? Um bicho que, em horror, não tem egual!

Chamado parabutho, tem a cor vermelha, até paresce um lagostim. Coitado si piccado um gajo for!

Estás appavorado? Para mim, não passa de mais uma aguda dor que aggrava a nossa vida, ja ruim...

OUTRO DIA DO URBANISTA [10.550]

O parque que exsistia aqui na rua ficou completamente abbandonado, Glaucão! Posso notar, por todo lado, crescendo o matto! Si isso continua...

As arvores encobrem sol ou lua! Está cada caminho ja tomado por moitas e mais moitas! Eu me evado dalli, pois o perigo nos accua!

Perigo... Você sabe muito bem do que é que estou fallando... duma aranha gigante, ja advistada por alguem!

Aquella maldicção nos accompanha! De tanto desmattarmos, mais alem, aqui pagar iremos essa sanha!

DIA DO JARDINEIRO [10.554]

Lobato nos contou aquelle caso famoso do Timotheo. Para não dizerem que não tenho um caso tão dramatico, num desses eu me embaso.

O gajo numa praça, sem ter prazo, cuidava dos cantheiros. O povão dizia que elle estava da razão “doente”, pois beijava cada vaso.

Beijava as flores todas. Mas a aranha com isso nada tinha. Vae dahi que foi piccado. Coisa nada extranha.

Extranho foi aquillo que eu ouvi.

Achado morto, nunca foi tamanha a marca dum “beijinho” por alli...

DIA DA ARANHA VENENOSA [10.563]

Alli no Butantan você verá, olhando os varios typos da bichana, qual é que tem veneno que mais damna e qual cuja piccada mais dor dá.

Aquella cabelluda alguem se uffana de ter na mão pegado muito, ja. Mas outra gigantesca assim não ha tal como uma Golias. Quem se enganna?

Portanto, leitor, fique sossegado. No maximo, uma aranha, quando picca, provoca algumas dores no coitado.

A menos que veneno tenha. Fica ahi bem mais explicito o recado: Melhor sahir de perto. Dada a dica.

DIA DO ECOTURISTA [10.572]

Em torno de Iguassu, daquellas tão famosas cachoeiras, Glaucão, ha um parque com oncinha, com gambá, com lindas aranhinhas, de montão!

Alli, bem preservadas, sempre estão especies quasi exstinctas! La vi, ja, um grande escorpião que, camará, causou-me uma fortissima impressão!

Centimetros tem trinta! Ja piccou dezenas de pessoas, mortalmente! Não volto la, que trouxa aqui não sou!

Pois é, Glaucão! Mas sabe que tem gente que nunca assassinou, siquer tacou a bota nelle? Hem? Gente consciente!

DO POVO DA FLORESTA [10.603]

Os povos da floresta não são só humanos, ou indigenas, poeta!

A todos o problema nos affecta, pois temos, dos bichinhos, que ter dó!

Vão desde esses que pegam no cipó até bichos rasteiros, que da recta não fogem, si ninguem deixar bem quieta a fauna florestal, que é meu chodó!

Aranhas na Amazonia, por exemplo! Deixemol-as tranquillas, nesse seu perfeito sanctuario, Glauco, ou templo!

Si ficam estressadas, ahi, meu, perigos aos humanos eu contemplo, que nunca vae suppor um europeu!

DIA

DIA DA DIVERSIDADE BIOLOGICA [10.655]

É sabia, menestrel, a Natureza! Ao lado da pombinha, da gattinha, da linda borboleta, tambem tinha que bichos haver, feios, com certeza!

Não fica alguma raça sempre illesa às outras! Sempre pincta a mais damninha, que estupra, que exfaqueia, que expezinha (si for mais deshumana) uma indefesa!

O bello passarinho, pois, convive com essa aranha gorda, monstruosa, que pode devorar um, inclusive!

A fructa venenosa com a rosa convive! Eu mesmo, Glauco, hontem estive colhendo uma plantinha milagrosa!

DIA DO PROTECTOR DOS ANIMAES [10.780]

Sim, Glauco! Protector sou da divina e sancta creação, da creatura sagrada que, mais candida, mais pura, na Terra a nos amar, só, se destina!

Protejo uma aranhinha pequenina que dizem ser enorme, mas não dura nadinha si, entre nós, vive quem jura mactal-a, ja que todas elimina!

Protejo um innocente escorpião, coitado, que só picca alguem que queira mactal-o ou nelle exbarre sua mão!

Protejo uma serpente que se exgueira de medo si está perto dum christão decente, em sua vida costumeira!

DIA DO ESCORPIÃO VENENOSO [10.814]

Horinha de nenê nanar. Agora mamãe quer ler um pouco, sossegada. Espera-se que o berço não invada um bicho tão horrivel, que appavora.

Mas elle invade. Enorme, fora a fora centimetros tem trinta. Ja piccada por elle foi aquella creançada do bairro, que morreu e está enterrada.

Por esse parabutho vermelhão piccado foi tambem o bebezinho, que berra, se debatte, mas em vão.

Mamãe accorrerá, mas ja adivinho que, estando separada, da pensão a perda tema, à parte seu carinho.

OUTRO DIA DO BICHINHO DE ESTIMAÇÃO [10.970]

Eu tenho uma tarantula, Glaucão! Precisa ver você só que fofinha!

A aranha, tranquillissima, caminha até pelo meu braço! Oh, que emoção!

Allergico aos pellinhos não sou, não! Tem medo você, cara? Ah, mas não tinha nadinha que ter medo, pois a minha bichana deixa até botar a mão!

Que fofa! Ah, você pode nella pôr a mão tranquillamente! Ella só picca si está muito estressada, trovador!

É raro, mas às vezes ella fica com raiva de quem tenha algum rancor de bichos taes! Appenas dou a dica...

DIA DO GUIA TURISTICO [10.976]

Glaucão, você precisa conhescer a nossa matta atlantica, logar incrivel, ecologico! Levar eu vou você, com todo o meu prazer!

Entendo que você não pode ver coisissima nenhuma, mas um ar mais puro sentirá! Vae se coçar um pouco, mas faz parte, é bom dizer!

Alem dos borrachudos, que você, passado um tempo, ja nem nota mais, ha coisas que nem sente quem não vê!

Aranhas, por exemplo! Os animaes nem ligam, desde que você não dê motivo para attaques mais lethaes!

OUTRO DIA DO AGENTE FISCAL [10.986]

Glaucão, fiscalizei aquella feira de bichos peçonhentos la da minha quebrada! Precisava ver! Ja tinha aranha até Golias a quem queira!

Tem cobra venenosa, das da beira do rio, tem serpente mais damninha que praga dos hebreus, tem barattinha atomica, até, Glauco, que mal cheira!

Não, vate, não pergunte si eu mulctei algum commerciante dessa bella e rara fauna, à venda contra a lei!

Appenas os advirto, pois bem sei o quanto dóe a minima sequela dalguma piccadella! Berros dei!

SAVE A SPIDER DAY [11.032]

Salvar alguma aranha? Mas salvar de quaes perigos, si ella representa o maximo perigo a quem enfrenta as trilhas duma matta ciliar?

Conhesço um franciscano que quiz dar adjuda à má tarantula cinzenta na beira do riacho, que tem lenta e calma aguinha suja, de mau ar.

A aranha cabelluda se affogar iria, mas foi salva pela boa acção dum bemfeitor tão exemplar.

Cês pensam que ella grata ficou? Soa ridiculo pensar que, sem piccar, queria aggradescer a tal pessoa!

DIA DA AMAZONIA [11.266]

No dia da Amazonia, a gente tenta pensar em muitas coisas da floresta, mas, para mim, aquillo que molesta é mesmo uma aranhona atroz, cinzenta.

Chamada de Golias, corpulenta, pelluda, gigantesca (Que me resta dizer?), essa bichana faz a festa comendo passarinhos: se sustenta.

Nem quero me suppor amazonense, por isso me limito, nesta data, a logo declarar: Ir la? Nem pense!

Quem queira convidar-me escuta a chata resposta, mas entende: Ninguem vence o medo duma aranha, alli, na latta...

NATIONAL BUG BUSTING DAY [11.350]

Não posso nem dormir direito, mano! Precisa ver! A minha cama fica forrada de bichinhos duma rica especie! Escorpiões, si não me enganno!

Gigantes não são elles, não! No panno escuro do lençol, se verifica que estão bem escondidos! Mas a zica de estarem alli implica maior damno!

Me piccam toda noite! Não tem jeito! Terei que fazer, Glauco, um pente fino, trocar, de cama, a roupa! Achou bem feito?

Por que? Só porque estou, desde menino, creando taes bichinhos? Não acceito que falle de mim como dum cretino!

DIA DO ACCIDENTADO NO TRABALHO [11.378]

Amigo meu, poeta tambem, tinha na sua poltroninha se sentado, em busca da palavra que, em estado de graça, lhe viesse, bonitinha.

Pensava, absorpto, nisso que apporrinha aquelle que escrever quer sobre dado problema psychologico ligado ao sexo, quando surge essa aranhinha.

Metaphora que seja da boceta, que importa? A aranha surge e, venenosa, ja tracta de piccar quem se intrometta!

Do trampo um accidente (escreve, em prosa poetica) accontesce si punheta batter quem de machão, em versos, posa.

OUTRO DIA DA SYLVICULTURA [11.394]

Glaucão, quero leval-o, qualquer dia, à matta alli da serra, ainda intacta reserva florestal! Sim, nessa matta a fauna se preserva! Quem diria?

Mosquitos incommodam, mas cabia usarmos repellente! Eis que uma chata especie de serpentes surge? Batta na cobra com a bota, sem phobia!

Entendo... Umas aranhas de tamanho gigante em você causam mor terror... Mas basta não tocal-as! Nem me assanho!

Emfim... Você recusa? Ah, por favor! Somente negativas é que eu ganho da sua parte? O que é que irei suppor?

DIA MUNDIAL DO SCIENTISTA [11.407]

Confio na sciencia cegamente, meu caro Glauco! Quando, pois, lhe digo que estamos, como humanos, em perigo, baseio-me em estudo competente!

Por isso digo: Vamos, certamente, bonito nos foder si, meu amigo, alguma aranha grande eu ja consigo medir, maior que um gatto, de repente!

No dia em que tivermos uma aranha tão grande, risco corre a humanidade, pois nunca se viu coisa assim tamanha!

Hem? Como? Uma gigante dessas ja, de montão, la na Amazonia, alguem appanha? Ja podem decretar calamidade!

DIA MUNDIAL DA VIDA SELVAGEM [11.413]

Hem, Glauco? Ja pensou? Que emocionante! No meio da Amazonia ter a casa em cyma dumas arvores! Se embasa a minha these, e a practica a garante!

Testaram e deu certo! Foi bastante difficil, mas depois que a gente casa a these com a practica mais rasa, ja nada restará que nos expante!

Selvagens animaes não são problema maior para quem riscos taes não tema, excepto si soffrer duma phobia!

Aranhas, por exemplo... Quem não queira topar com a feroz caranguejeira, na selva que não tenha a moradia!

SONNETTO DA CORRERIA PELA MATTA [12.322]

Aquelle pesadello recorrente que tenho, de que estou sempre pellado, perdido, num local bem affastado de casa, tive nesta noite, gente!

Mas, desta vez, estava totalmente nu, vejam, na Amazonia! A Zeus eu brado! Daquelle mattagal si não me evado, verei annoitescer! Sim, de repente!

Ahi, meus amiguinhos, é batata! Aranhas apparescem! Mas aranha daquellas communs? Não! Uma me arranha!

Fugir tento dalli! Corro na matta, tropeço... quando caio, ella me appanha de jeito! Faço figa, faço manha...

SONNETTO DO HORROR DOS HORRORES [12.654]

Não, Glauco, horror maior eu nunca vi! No video, o gajo fica ammarradinho, vendado, sem saber que um excarninho gruppinho vae servir-se desta aqui:

Collocam uma aranha nelle, ei! Ih! enorme, cabelluda, de damninho adspecto! Desvendado, o coitadinho, em panico, urra, berra! A turma ri!

Talvez tenha appostado, Glauco, nem deu para me inteirar! A gente nota, porem, que elle não ‘guenta aquella quota...

Você supportaria ser refem daquella joven, sadica patota? Nem mesmo si mandassem lamber bota?

VISÃO DO ESCORPIÃO [12.839]

Caçar insectos, esse parabutho não quer. No que elle insiste, em sua sanha malevola? Ah, deseja ver si appanha um cego, de surpresa! Agguarda, astuto...

Não tem, como uma aranha, aquelle hirsuto trazeiro, mas as fuças arreganha e suas pinças usa com extranha leveza, a tactear no meu reducto.

Tentou, ja, me piccar, com seu maligno ferrão, diversas vezes. Eu, exhausto, de medo morro, então, desde menino.

Appós sonhar com esse infame e infausto bichão, accordo em panico. Imagino que especie, essa, fim leve, em holocausto.

ARANHA ARREGANHADA [12.862]

Glaucão, me deparei com uma teia gigante no porão! Essas gigantes aranhas apparescem, volta e meia, aqui... São ammeaças preoccupantes...

Algumas fazem tocas, e receia a gente que tambem nossos pisantes lhes sirvam de casinha... Glaucão, creia, tão grande eu nunca vira aqui, não, antes!

Daquellas cabelludas não se tracta, Glaucão, caranguejeiras... Mas quem macta alguma? Ah, não, Glaucão! Não sou de nada!

Na teia não estava aquella aranha, mas eis que, de repente, ella arreganha os dentes para a gente... e vem, irada!

SONNETTO DOS BICHOS HORRIPILLANTES [13.026]

Entrou no quarto delle -- Sim, do Augusto dos Anjos -- um morcego! Mas que bicho incommodo! Porem, eu não espicho meu braço p’ra mactal-o! Só me assusto!

Dormir eu não consigo, pois a custo mantenho-me tranquillo! Nem exguicho a porra nesta noite! Faço um micho sonnetto, só! Não tenho um sonho justo!

Até pelo contrario: o pesadello que tenho é com aranha cabelluda! Nem queira algum leitor amigo tel-o!

Até que Satanaz, talvez, accuda e venha despertar-me, sinto, pelo inteiro corpo, que essa aranha gruda!

SONNETTO DO MOLEQUE CABULOSO [13.118]

Mattoso, todos querem me evitar! Si eu chego, vão sahindo de fininho! Commigo mattutando, ja adivinho: Alguem achou que eu possa dar azar!

Não vejo uma razão para affirmar que eu seja assim tão toxico ou damninho! Talvez seja por causa do carinho que eu ponho num especime exemplar!

Exacto, menestrel: tenho uma aranha daquellas gigantescas, a Golias! Ninguem ja viu bichana assim tamanha!

E então, Mattoso? Falla: tu bollias com tal caranguejeira? Achas que extranha demais é? Della temes as follias?

SONNETTO DUM SOBREVIVENTE DE ACCIDENTE [13.164]

Glaucão, me impressionou o triste estado do gajo que excappou dum accidente terrivel, de helicoptero, na quente floresta tropical! Pobre coitado!

Naquelles dias, elle foi piccado por tudo quanto é bicho repellente: aranha, centopéa, até serpente daquellas venenosas! Resultado:

Odeia, agora, toda conferencia climatica! Das selvas não quer nem saber! Tem mais é raiva da sciencia!

Até que dou razão, sim, para alguem com trauma tal! Tambem não me convence a versão de que elle esteja, agora, zen!

SONNETTO DUMA INFESTAÇÃO SEM SOLUÇÃO [13.197]

O cego desviou daquella aranha sem mesmo perceber que em seu caminho tamanho bicho vinha, direitinho, na mesma direcção. Uma façanha!

Soubesse elle que esteve essa tamanha bichana assim tão perto, ja adivinho que iria appavorar-se e, então, Glauquinho, estava fricto! O bicho obstenta a sanha!

Agora, até maiores do que um pratto, aranhas cabelludas pela rua transitam! É banal, eu ja constato!

Si desse jeito o drama continua, inutil será quando uma ja macto, pois logo outra me segue e, experta, accua!

SONNETTO INFESTAVEL [13.445]

Glaucão, o meu irmão ja na privada nem senta mais, tranquillo! Occorreu isto: Subiu-lhe pela perna (nisso insisto) a aranha gigantesca, ja estressada!

Até que entendo, cara! Quem não brada, na hora, por soccorro? Jesus Christo! Insisto no tamanho, não desisto: Commum não é tamanha aranha, nada!

Estamos na cidade, não no matto! Calcule si, por dentro do sapato, eu sinto uma bichana dessas, meu!

Si me encho de coragem, eu a macto, mas outras surgirão, e eu ja constato que, pelo jeito, o mundo se fodeu...

SONNETTO INTREPAVEL [13.446]

Na hora de trepar com minha amada, que foi que na parede vi, Glaucão? A aranha cabelluda! Meu irmão, egual àquelle bicho não ha nada!

Os pellos até brilham! E tem cada chelicera! A bundona do bichão maior é do que um kibbe! Eu mesmo não consigo crer que exsista tal malvada!

Só pode ser damninha a Natureza, creando um animal que, com certeza, agir irá com sanha malfazeja...

Quem é que ‘inda tesão, na luz accesa, consegue segurar? Tambem illesa, a chota della acção ja não deseja...

SONNETTO DEBIL [13.454]

Nas ultimas estava a minha thia, mas lucida, bem lucida, sim, ‘inda! Aquella mulher tinha sido linda, charmosa... Agora alguem o que diria?

Rhachitica, nem tinha voz! Um dia, meu primo resolveu que era bemvinda a morte della: tudo, ora, se finda! Chamemos de euthanasia, na voz fria...

Que fez elle? Bollou esta tremenda surpresa: a aranha negra! Não é lenda! Appenas collocou-a alli na cama...

A velha, assustadissima (Me entenda, Glaucão!), vendo chegar-lhe tão horrenda bichana, morreu! Coisa de quem ama...

SONNETTO

DO ALLARMISMO [13.549]

Não quero, menestrel, allarmar quem ja tenha algum pavor dessa bichana gigante, cabelluda, que se irmana aos monstros da ficção! Mas veja bem!

A aranha prolifera! Ja, tambem, foi vista aqui, nos altos de Sanctanna! Paresce que chegou da serra... Ah, gana tem muita! Vem com tudo, ora si vem!

Melhor não mexer nella... Quando ganha alguma cama, logo faz um ninho... Melhor não se metter com essa aranha!

Estamos infestados! A caminho estão, sim, muitas outras! É tamanha a fauna, que eu ja morro de medinho...

SONNETTO DO AMBIENTALISMO [13.865]

Estava ambientada aquella aranha debaixo do bercinho do bebê.

Alguem alli varreu. Prompto! Cadê que está calma a bichana? Ah, ja se assanha!

Irá vingar-se, claro. Sobe e ganha a fronha do bebê. Prompto! Você calcula a dor que sente quem a vê piccando o seu nariz. Não fará manha.

Será, mesmo, uma aguda dor e, caso ninguem soccorra aquelle bebezinho, a morte irá chegar a curto prazo.

Um bicho desses, sempre tão damninho, precisa ambientar-se, mas não faz o menor sentido juncto dum bercinho.

SONNETTO DO NANNISMO [13.947]

Mas essa aranha, Glauco, tão pequena, lhe causa tanto medo? Ora, ninguem de bichos tão nannicos medo tem, poeta! Acho ridicula tal scena!

Ocê vive empregando sua penna nos themas arachnideos e refem tornou-se da bichana, dessas bem pelludas... Não, ninguem, nisso, o condemna!

Mas, quando uma aranhinha dessas faz ‘ocê tremer de panico, Mattoso, vontade dá de ser assaz mordaz!

É medo de boceta? Não tem gozo um cego com mulheres? Com rapaz pelludo ‘ocê não fica tão medroso?

SONNETTO

DO GIGANTISMO [13.948]

Mas essa aranha, Glauco, tão gigante, lhe causa tanto medo? Ora, ninguem de insectos, mesmo os grandes, medo tem, poeta! Até me extranha que se expante!

Ocê vive exbanjando, ja, bastante suor com arachnideos e refem tornou-se da bichana, dessas bem pelludas... Si quizer, taes themas cante!

Mas, quando uma aranhona dessas faz ‘ocê tremer de panico, Mattoso, vontade dá de ser assaz mordaz!

É medo de boceta? Não tem gozo um cego com mulheres? Com rapaz pelludo ‘ocê não fica tão medroso?

Casa de Ferreiro

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