Skip to main content

Cdm 64

Page 1

ano 21 - edição 64 | novembro de 2024

revista corpo da matéria CURSO DE JORNALISMO PUCPR

Desafios da vida trabalhadora Trabalhadores que exercem profissões invisíveis sofrem com estigmas sociais


2 revistacdm | editoria


editoria | revistacdm

3


Corpo da matéria Ano 21 - Edição 64 - Novembro de 2024 Revista Laboratório do Curso de Jornalismo PUCPR Pontifícia Universidade Católica do Paraná R. Imaculada Conceição, 1115 Prado Velho, Curitiba PR REITOR

Ir. Rogério Renato Mateucci DECANA DA ESCOLA DE BELAS ARTES

Ângela Leitão

COORDENADORA DO CURSO DE JORNALISMO

Suyanne Tolentino De Souza COORDENADORA EDITORIAL

Suyanne Tolentino De Souza COORDENADOR DE REDAÇÃO/JORNALISTA RESPONSÁVEL

Paulo Camargo (DRT-PR 2569)

COORDENADOR DE PROJETO GRÁFICO

Rafael Andrade

Alunos - 5º Período Jornalismo PUCPR Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Ana Carolina Martins Ferreira, Ana Clara Bernardi Moraes Gomes Carneiro, Ana Lúcia Sonntag, Ana Paula Virgulino, Andre Blatt Filho, Arthur Correia Zablonsky, Beatriz Mangili, Bernardo William Mariano Rodrigues, Caio Jordão Perez Calderaro e Silva, Davi Ozório Dias, Eduardo Ferreira Borges de Oliveira, Emilay Camili Aguiar de Oliveira, Evelyn Garcia Fagundes, Gabriel dos Reis Rodrigues, Gabrielle Tiepolo da Luz, Gustavo Angheben Ferreira Cardoso Magalhães, Helen Cristina da Silva, Isadora Gomes de Abreu, Isadora Lara Guerra, João Alexandre de Brzezinski, João Pedro Karas Butka, Krissians Gabriel Torres, Lais Caimi Marquardt, Lara Wilsek Pereira, Leticia de Moraes Seixas, Lucas Azevedo Magnabosco, Luiza Schmid Braz, Manoela Gouvea, Maria Fernanda Carvalho Pereira Rodrigues, Maria Gabriele Fachini, Maria Júlia Alves da Silva Neves, Maria Luísa Cordeiro, Maria Luiza Baiense Leite Santos, Mariana Leticia dos Santos Aquino, Mariana Machado de Almeida, Ryan Henrique Minela, Tayná Cauane Machado, Tobias Dietterle.

Imagem de capa: Bernardo William

4 revistacdm


SUMÁRIO

6 Cargos de aparência 12 Garotos da vida 16 Os inadotáveis 20 O que os olhos não veem 26 Racismo no futebol paranaense 30 Entre medalhas e intolerâncias 34 Quanto mais mulheres, mais mulheres 40 Casa, crise e conflitos 46 O + do LGBT 48 Quando o natural se torna tabu 54 Nudez julgada 58 O peso das palavras 64 Muito talento, pouco destaque 70 O autismo na sala de aula 72 A verdadeira inclusão 78 Tarde demais? 80 Mães solo sofrem com preconceito 84 O paradigma colonial 86 Resistência e fé: sobrevivendo 90 em meio ao julgamento Torcer como ato de resistência 96 Proibido pichar grafitar 100 À beira da vida 102 A agressão do preconceito 108 Batalha de rima 112 Punk é resistência 116 O silêncio Hollywoodiano 118 Por trás do invisível

revistacdm

5


Profissionais essenciais para a manutenção e zelo da cidade, como garis, faxineiros, motoristas e porteiros, são 50% mais propensos a sofrer preconceitos em decorrência do trabalho Bernardo William Tayná Machado Tobias DitterleT

editoria 6 revistacdm | economia


A

ntônio Alemão da Costa é porteiro, ele diz, por uma necessidade - de pagar as contas, cuidar da família, suprir o que faltar. Foi contratado para trabalhar em um prédio, também, por uma necessidade - de ter alguém para receber as encomendas, vigiar as câmeras e cuidar do local. Exerce uma função essencial, para si mesmo, e para os outros. Mas nos 21 anos trabalhando como porteiro, Antônio tem histórias de maus tratos para contar, em que relembra das vezes que sua função foi desmerecida. Quando procurava seu primeiro emprego, sempre questionavam sua profissão de escolha. “Não tem coisa melhor?”, diziam. Mesmo sendo trabalhos de indiscutível importância, relatos de discriminação, agressões, e abusos são 50% mais frequentes em profissionais de funções essenciais, segundo pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O órgão define como função essencial as profissões das áreas de: sistema de alimentação, saúde, segurança, limpeza e saneamento, transporte, trabalhadores manuais, setor de varejo e trabalhadores técnicos/ administrativos. São trabalhos como garis, porteiros, faxineiros, entregadores, motoristas, diaristas, comerciantes, garçons - em Curitiba, são cerca de 46% dos profissionais da cidade, ou mais de 400 mil pessoas, segundo a Relação Anual de Informações Sociais - parte da população muitas vezes desvalorizada e invisibilizada.

LIMPEZA DA CIDADE São cerca de 3 mil profissionais trabalhando na limpeza e manutenção de Curitiba, segundo a prefeitura. Aparecido Nunes, de 51 anos, exerce a função de gari e nem sabia que o número de colegas de profissão era tão grande. “Eu converso com muitos colegas da nossa comunidade. Mas eu sempre tô aqui limpando, e no dia seguinte tá tudo sujo de novo, né?”, brinca. Trabalhando das 14h30 às

22h30 na região do Passeio Público e Shopping Mueller, diz que o problema da sujeira não é o número de garis, mas o número de pessoas sem respeito pelo trabalho que faz. Se nem Aparecido, que trabalha com limpeza há mais de 19 anos, tinha conhecimento da existência de tantos garis pela cidade, muito menos teria a população que passa todos os dias pelas ruas cuidadas por estes profissionais. Conta que sente que as pessoas não o percebem, não olham no olho - apenas percebem quando é para o destratar ou desrespeitar. Uma vez, o gari conta, foi abordado por uma pessoa por ter limpado o lixo que ele havia jogado no chão. A pessoa gritou e o ameaçou, dizendo que era advogado, “pessoa importante”, e por já ter perdido uma carteira de identidade que foi varrida por um gari, ele não queria ninguém desse tipo “mexendo no lixo dele”. Até antes de trabalhar como gari, Aparecido teve de lidar com “pessoas importantes” que o destratam. Nascido em Santo Antônio de Platina, cidade paranaense na divisa com São Paulo, conta que veio para Curitiba após se alistar no exército. Por não ter completado o segundo grau ou feito faculdade, ele relembra que seus colegas se aproveitavam dele, e o faziam limpar e varrer os quartos e corredores do quartel. Diziam para ele que não iria muito longe sem ter estudado, e acabaria por ficar trabalhando como zelador do local. Então, decidiu sair do exército, e achar um outro caminho para si. “A humanidade acha que o valor da pessoa tá em quanto ela pesa. Se acha

“Relatos de discriminação, agressões, e abusos são 50% mais frequentes em profissionais de funções essenciais.”

Pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT)

economia | revistacdm

7


que você ganha um salário mínimo, não teve estudo ou oportunidade, não tem nenhum respeito por você”, desabafa Aparecido. Porém, diz que não há nenhum rancor para guardar dos anos em que passou no exército, ou dos

casa às 6h30 e às vezes só chega no local de trabalho às 8h00. Ela comenta que no seu caso em especial, costuma fazer as coisas um pouco mais lenta, mas esse é o seu tempo, seu jeito de ser. Hoje achou uma tranquilidade para

“São cerca de 3 mil profissionais trabalhando na limpeza e manutenção de Curitiba.” Prefeitura de Curitiba maus tratos sofridos como gari. Para ele, foi o pontapé que precisava para descobrir sua vocação. Se os outros acham que zelar pelo ambiente que todos compartilham é algo indigno, Aparecido vive com prazer em sua suposta infâmia - foi o caminho que achou para si. Mas se há algo obstruindo seu caminho, hoje, é o andar do tempo. Antigamente, tinha energia para limpar 30 andares de um prédio em que trabalhava como zelador. Hoje, já é difícil ter que subir a rua que leva do Passeio Público ao Shopping Mueller, sem que doa as juntas e a coluna. Mas ainda não pensa em se aposentar - diz que, enquanto ainda puder fazer seu trabalho, vai continuar. O estudo dele, da sua vida inteira, foi para fazer o que faz. “Eu faria faculdade pra fazer isso aqui. É meu trabalho, né? É minha vida, minha comunidade. Faz 32 anos que eu não piso numa escola, desde quando eu terminei o primeiro grau. Mas se dissessem pra mim, ‘você precisa de faculdade pra fazer isso aqui’, mas eu largava tudo, largava até de comer, para não perder isso aqui”, conclui.

LIMPEZA DE LARES Isabel Cristina de Souza, de 57 anos, trabalha de faxineira no prédio Avalon e vem de Itambaracá, interior do Paraná. Quando veio para Curitiba aos 27 anos, trabalhou em vários outros empregos, como desenhista e montadora em uma fábrica de chicotes, antes de ser faxineira. Sua rotina de trabalho é extremamente corrida, mora em Colombo e sai de

8 revistacdm | economia

fazer seu trabalho para ser bem feito, e costuma conversar com as pessoas do prédio, que muitos a tratam bem. Trabalhando em um prédio em que não há porteiro, às vezes Isabel tem de exercer essa função, recebendo encomendas para os moradores. Mas, apesar de ter uma boa relação com a maioria, há alguns que não querem que ela receba o correio ou que atenda pessoas que chegam ao prédio. Isabel conta que nunca sofreu preconceito ou maus tratos como faxineira, mas reconhece que há uma frieza para com os profissionais de limpeza. “Existe preconceito, sim. Claro que tem pessoas mais ricas que são humildes. Mas às vezes a pessoa se vê como mais estudada, com maior status, então para ela é como se você pudesse contaminar ela. Não quer relação, sabe?”, comenta. Marlei Ribeiro, de 63 anos, é amiga de Isabel e teve uma experiência diferente. Trabalha como diarista já faz 12 anos e conta que entrou nessa profissão por uma necessidade - porém, não financeira. Mãe de três meninas, durante toda a sua vida foi dona de casa, sempre cuidando dos afazeres de casa. Porém, quando as meninas cresceram, Marlei ficou sozinha em casa sem muito o que arrumar ou cuidar, e assim sentiu a necessidade de trabalhar. “Acabou que uma casou, deu um ano a outra também, e mais dois anos a outra. Acabei ficando com depressão depois disso, e aí para eu não ficar com depressão, para melhorar, eu comecei a trabalhar como diarista”, conta.


Outro episódio que conta também, é quando havia uma casa em que limpava tudo do melhor jeito possível, se esforçava e ainda assim sempre procuravam algo para criticar, sempre a diminuindo. Hoje a perspectiva já é diferente, e se assemelha mais com a experiência de Isabel. Tem mais oportunidades para sentar junto para fazer as refeições, é mais bem tratada. Apesar de gostar do que faz e trabalhar em casas que a tratam bem, o preconceito em geral com os mais de 6 milhões de diaristas do Brasil ainda é bastante comum. “Com certeza tem preconceito, desmerecimento. As pessoas comentam no ônibus, na época que eu pegava ônibus, desmerecendo a profissão. Aí conheço algumas diaristas que nem falam que são, porque têm vergonha de falar”, afirma Marlei.

NO TRÂNSITO Como comenta Marlei, o preconceito também acontece nos ônibus, e acontece com seus motoristas. Mas mesmo assim, Oseias dos Santos, motorista da linha Interbairros I, terá um ano de celebração pela frente. Em 2024, são 20 anos trabalhando como motorista de ônibus, e 30 anos de contribuição. Conta que já poderia até se aposentar, no ano em que também comemora 49 anos de idade. Mas, para ele, descansar ainda não está nos seus planos - trabalhando das 6 às 11 horas, no seu tempo livre sempre procura se matcular em cur-

Bernardo William

Ela diz que gosta do trabalho de diarista e que hoje limpa até o apartamento da filha. No entanto, diferente de Isabel, já ocorreu de ter lugar onde o tratamento era ruim. “Eu me sentia meio constrangida, sentia inferior”, pois almoçava somente depois dos patrões, que não permitiam ela participar da refeição. Assim, tinha que pegar a comida depois e esquentar no micro-ondas já que havia esfriado, e comer na cozinha, e não na sala de estar onde os patrões almoçavam. Em conjunto com o trabalho doméstico, Marlei conta que sua cunhada trabalha como cozinheira, mas não podia cozinhar para ela mesma, apenas para as pessoas da casa.

sos, assistir a aulas, se dedicar ao seu serviço de guincho particular, e, nos fins de semana, coordena aulas de Música em uma orquestra sinfônica. “Para falar a verdade, o bom do trabalho é o salário, por que não é bom ter que acordar às 4 da manhã todos os dias. Mas pior ainda é ficar parado, né?”, expõe o motorista.

Isabel Clistina trabalha há 11 anos no prédio Avalon, no bairro Juvevê.

Oseias começou exercendo a função de cobrador, e passou um tempo como tesoureiro, antes de se tornar motorista. Não foi fácil para ele se adaptar ao estresse do dia a dia, tendo que cumprir os horários em meio ao trânsito na cidade. Tampouco foi fácil lidar com a frieza das pessoas, que não o cumprimentam, e parece que só percebem sua presença quando comete algum erro. Conta que, quando acaba por passar de algum ponto, “todo o ônibus” faz questão de reclamar ou gritar, antes de pedir desculpas e seguir viagem. “Tem casos também que maltratam. Uma vez, entrou um passageiro relatando que eu havia buzinado para ele. Começou a gritar comigo, dizendo que iria quebrar meus dentes. Tive que chamar os seguranças, porque ele não queria descer do ônibus”, relata Oséias. Para ele, seu trabalho é desmerecido, principalmente nesses momentos de briga. Mas, apesar disso, ainda há prazer pelo seu trabalho nos momentos em que conversa com os passageiros, nos amigos que fez em sua profissão, e poder proporcionar uma vida estável e confortável para sua esposa e filhas.

economia | revistacdm

9


Bernardo William

Há quem diga que trabalhar como motorista é por falta de oportunidades, mas para Oseias foi por ter muitas escolhas. Ele é formado em duas faculdades, de Logística e Administração, que cursou nas horas vagas do trabalho, mas pelo baixo salário que ofereciam, prefere a função de motorista. “Mas devo fazer uma pós-graduação no ano que vem. Para ter uma segunda carta na manga, né? É sempre importante. Por isso que aprendi a tocar piano e saxofone. Se tudo der errado, vou tocar lá na Rua XV de Novembro, alguém lá deve me ouvir, né?, conclui.

SEGURANÇA Antônio Alemão da Costa, assim como Oseias, também tem sonhos para o futuro. Aos 64 anos, seu sonho é se aposentar de sua função de porteiro e ir vender balinha na rua. Não porque não goste de sua profissão, mas porque está cansado de ficar parado, e cansado de ser desmerecido - exatamente por ficar parado. “Acham que, por que eu fico aqui e não saio daqui, eu não tô trabalhando, só tô folgando. Aí se acham no direito de maltratar”, afirma.

É bastante ativo, mas o que faz no trabalho depende sempre das necessidades dos outros - que, muitas vezes, se importam apenas com si próprios.

O porteiro chega em sua guarita em um prédio no bairro Batel, todos os dias, às 14 horas para trabalhar. É uma guarita pequena, quase não sobra espaço para a sua cadeira. Não que precise dela, já que prefere passar as 8 horas de seu expediente de pé, andando de um lado para o outro. Antônio recebe encomendas, atende telefonemas, verifica as câmeras do prédio, conversa com os moradores.

Antônio diz ter uma relação boa com os moradores, mas, nos 21 anos trabalhando no mesmo prédio, já foi insultado e maltratado diversas vezes. Uma vez, em particular, Antônio conta que um morador brigou com ele por não ter impedido o roubo de sua bicicleta. “Porteiro não é segurança, vai que eles têm uma arma, né? Não tenho preparo para enfrentar o bandido. Mas ele disse que eu não prestei

“Uma vez, entrou um passageiro relatando que eu havia buzinado para ele. Começou a gritar comigo, dizendo que iria quebrar meus dentes.” Oseias dos Santos, motorista. 10 revistacdm | economia

Oseias é responsável pelo fluxo da linha de transporte público, Interbairros I.


atenção, e me agrediu verbalmente. Porteiro não é seu inimigo, não é para ser seu inimigo. Mas tem gente que trata assim, parece que não pensa no outro”, relembra. Antes de começar sua carreira, também foi desmotivado a seguir com sua profissão. Quando chegou em sua primeira entrevista de emprego, conta que a psicóloga perguntou para ele: “Por que você quer trabalhar como porteiro? Não consegue arrumar nada melhor?”. Já ouviu comentários como esses de muitas pessoas ao longo de sua vida, mas, para Antônio, a resposta para essa pergunta segue sendo a mesma que falou para a entrevistadora. “Porque eu gosto. O melhor é que supre minhas necessidades”.

vida. Antônio não teve oportunidades para estudar, mas seu trabalho pôde proporcionar mais escolhas para seu filho, que hoje está para entrar em uma faculdade. E, para ele, não há legado melhor para deixar em sua profissão. Antônio se sente satisfeito, e conta que por isso quer tentar a vida vendendo suas balinhas na rua. “Acho que já fiz o que tinha que fazer, então faria só para ajudar um pouco na renda. Vou lá, vendo minha balinha, se der ou não der certo, pelo menos converso um pouco. Aí volto pra casa, e durmo”, sonha. De uma profissão desmerecida para uma frequentemente ignorada, Antônio poderia dizer que a história de sua vida foi escrita em penumbras. Mas, teve outros planos. Supriu suas necessidades.

Hoje Antônio também tem de suprir as necessidades de sua esposa e de seu filho. Mas não acha isso um fardo que deve carregar - pelo contrário, considera o objetivo mais nobre de sua

Antônio atende um prédio de 64 apartamentos. Leia mais Confira entrevista feita com Pedro Carrano da organização Frente de Organização dos Trabalhadores (FORT)

ernardo William

portalcomunicare.com.br

economia editoria | revistacdm 11


Cargos de aparências

O mercado de trabalho ainda reprova a presença de pessoas com tatuagens, piercings e aparências não convencionais Isadora Lara Guerra, Krissians Torres, Lara Wilsek e Luiza Schmid Braz Fotos: Isadora Lara Guerra, Krissians Torres e Luiza Schmid Braz

editoria 12 revistacdm | economia


D

esde muito cedo, ainda na época da escola, Taisa Gruber se preocupou em buscar cursos de qualificação profissional para ter um trabalho que lhe rendesse o próprio dinheiro e uma maior independência dos pais. Nessas experiências, ela passou por diferentes áreas, do chão de fábricas às cozinhas de bares e restaurantes - sem contato direto com o público. Mais tarde, Taisa procurou uma vaga como secretária de um consultório de cardiologia. Apesar de ter um currículo adequado, bastante conhecimento na área e os primeiros contatos com a empresa, terem sido promissores, ela não conseguiu o emprego. Taisa Gruber é uma mulher capacitada, com extensa experiência profissional. Taisa é uma mulher tatuada, com piercings, alargadores, cabelo curto e que tem um estilo de se vestir convencional ao guarda-roupas masculino. É curioso pensar que algo tão comum hoje em dia ainda seja um problema ou uma justificativa para descredibilizar o trabalho de alguém. O caso de Taisa não é isolado.

A prática discriminatória contra essas pessoas já foi muito mais comum alguns anos atrás, mas isso não significa que ela ainda não seja um problema a ser combatido. A advogada trabalhista Beatriz Flügel Assad explica que, em princípio, as empresas não podem estabelecer critérios relacionados à aparência física para contratação de empregados. Ela destaca que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) proíbe a publicação de anúncio de emprego nesse sentido ou até mesmo a recusa de contratação ou promoção por tais motivos.

“A minha aparência invalidou tudo naquele mesmo segundo.” Taisa Gruber, publicitária

De acordo com uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto alemão Dalia, o Brasil é o nono país no mundo com mais pessoas tatuadas, as quais representam mais de 30% de sua população. A primeira entrevista do processo de seleção para a vaga na secretaria do consultório foi por telefone. Taisa tinha conhecimento básico em enfermagem, trâmite de guias, consultas e agendamentos e, nesse primeiro momento, a gerência gostou do perfil dela e até já haviam acordado o salário. Os donos do consultório queriam conhecê-la, então marcaram uma segunda entrevista presencialmente. Na sala da reunião, ela logo percebeu uma estranha reação da parte deles. “Eu percebi na hora o desconforto que eles sentiram por estar conversando comigo”, conta, “eles não paravam de olhar para as minhas orelhas, meus alargadores. Me olhavam de cima a baixo”. Rapidamente, a candidata que estava praticamente contratada não se encaixava mais na vaga. “A minha aparência invalidou tudo naquele mesmo segundo”.

As tatuagens de Taisa refletem seus gostos e sua personalidade.

economia editoria | revistacdm 13


Inclusive, vale destacar que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu repercussão geral, por meio do Tema 838, na impossibilidade de editais de concurso público estabelecerem restrições a pessoas com tatuagem, salvo situações excepcionais em que o conteúdo da tatugem viole os valores constitucionais. O ministro Luiz Fux se posicionou em julgamento do STF no sentido de que a exigência em concurso público de que os candidatos não tenham tatuagens contraria o art. 37 da Constituição Federal e os princípios da igualdade, dignidade da pessoa humana, liberdade de expressão, proporcionalidade e livre acesso aos cargos públicos. Por outro lado, Beatriz relembra que as empresas podem estabelecer códigos de vestimenta ou conduta quando for adequado. Ela cita como exemplos a exigência de que empregados de cabelos longos os prendam para trabalhar, ou que não utilizem barba e bigode longos, ou até mesmo que retirem piercings no local de trabalho. Mas a advogada reforça que apesar de algumas determinações por parte dos empregadores serem permitidas, é vedado por lei o tratamento discriminatório baseado em determinadas características do empregado.

Devido ao seu cabelo vermelho e suas tatuagens, Kelly é conhecida como sereia Ariel na escola que trabalha.

editoria 14 revistacdm | economia

Apesar das leis, na prátic nem sempre é assim, ao contrário de segmentos das áreas de cultura, artes, beleza, tecnologia, indústrias, comunicação e comércio, que muitas vezes até utilizam desses meios para atrair os clientes, muitas empresas ainda dão preferência a certas aparências. Especialmente em campos de atuação com cargos mais tradicionais, como setor financeiro, carreiras diplomáticas, serviço público, atendimento ao cliente, entre outros. Essa discriminação por parte das áreas mais tradicionais, também pode estar relacionada com a percepção do público sobre essas carreiras. Kelly Monteiro Pereira é coordenadora escolar e psicóloga, com um histórico profissional de muito respeito. Kelly tem 42 anos, diversas tatuagens, piercing no nariz e um cabelo vermelho neon. Relata que a experiência de


olhares e comentários é algo diário na sua vida profissional, e logo quando começou a atender em uma clínica de psicologia, demorou para que seus pacientes se acostumassem com ela.

Tatuagens no rosto, pescoço e mãos são as mais evitadas, segundo Boni. Regiões como a parte superior do braço e outras que podem ser facilmente cobertas por camisas são as mais escolhidas pelos profissionais. Porém, Um dos comentários mais marcantes a tatuadora reconhece que esta discripara Kelly, foi quando em frente a minação veio diminuindo nas ultimas sua clínica, uma senhora que estava decadas. Isso se deve ao fato de que a passando pela rua parou para pedir tatuagem vem se tornando algo mais informações a ela. Perguntou a Kelly comercial e comum para todos. ‘Está qual era sua profissão e, ao responder bem melhor do que antes; houve uma que trabalhava ali na clínica como psi- evolução, mas ainda existe o preconcóloga, a senhora respondeu: “Nossa, ceito’, afirma. nunca imaginei que alguém como você pudesse ser psicóloga, com esse cabe- De fato, está melhor do que décadas lo e essas tatuagens”. e anos atrás, mas o preconceito ainda está presente, sendo mais recorrente Essas percepções sociais sobre como pelo público mais velho, de uma geraalgumas profissões devem ou não se ção na qual as tatuagens e piercings parecer podem acabar contribuindo vinham com uma associação direta para a perpetuação desses estigmas à marginalidade. A evolução é um por parte das empresas na hora de processo lento e gradual, por isso as contratar. Na opinião da tatuadora pessoas com essas características ainGiovanna Boni, que trabalha nessa área da podem se sentir receosas na hora há quatro anos, acredita sim que exista de procurar um cargo. uma discriminação contra pessoas tatuadas no mercado de trabalho. Boni relata que percebeu através de seus próprios clientes o receio de não serem contratados devido às tatuagens, especialmente por pessoas que trabalham em escritórios e clínicas, como advogados e médicos. Porém, isso não impede os profissionais de fazerem tatuagens, eles apenas tendem a escondê-las mais.

Confira Ted Talk sobre o significado das tatuagens como uma forma de arte e expressão pessoal. portalcomunicare.com.br

economia editoria | revistacdm 15


Em meio a transformações sociais e tecnológicas, a prostituição masculina se moderniza, mas desafios persistem

Beatriz Mangili

Arthur Correia Zablonsky, Beatriz Mangili, Emilay Aguiar e Manuela Gouvea

editoria 16 revistacdm | economia

Beatriz Mangili

Garotos da vida


P

ara quem circula por Curitiba à noite, nos fins de semana, algumas ruas e regiões são transformadas. Na Avenida Presidente Vargas, existe um hospital, uma paróquia, um centro universitário e um Centro de Operações da Polícia… À noite, há uma concentração de profissionais da prostituição.

e percebi que poderia ganhar mais de R$ 1 mil em uma única noite, entrei pelo dinheiro.” Sobre a aceitação de sua profissão entre amigos e familiares, Henrique disse que é aberto com a maioria das pessoas próximas, embora nem todos saibam. “Sim, meus amigos e uma parte da minha família sabe. Nem todos, mas os mais próximos, sim. Um povo dá uma desconfiada, mas, no geral, todos que são importantes têm que saber.”

“Hoje em dia não existe da família e amigos, parceiros mais prostituição de rua, é Além românticos também precisam estar a par de como ele ganha a vida. “É aquele ditado, o combinado não bem menor do que já foi.” tipo sai caro”, explica. “As vezes, eu vou

-Henrique Karvalho , garoto de programa

“Hoje em dia não existe mais prostituição de rua. É bem menor do que já foi”, diz Henrique Karvalho, garoto de programa desde os 18 anos. A entrada de Henrique nesta profissão foi influenciada por um amigo mais velho, que já estava envolvido no trabalho e demonstrava um estilo de vida atrativo. “Ele já era um pouco mais velho que eu e os clientes deixavam com ele carro, apartamento e moto. Ele ganhava bastante dinheiro através disso.” No entanto, a primeira tentativa de Henrique não deu certo e, por um tempo, ele trabalhou em empregos convencionais, “Até que, com 23 anos, comecei a criar conteúdo e atrair mais clientes.” O aspecto financeiro também foi o que atraiu o Francisco (nome fictício), que preferiu não ser identificado para preservar sua carreira formal. “Acabei me tornando acompanhante porque, quando fazia faculdade, era DJ e frequentava várias baladas. Acabei conhecendo gente do meio (prostituição)

atender um cliente que é atraente, às vezes eu vou produzir conteúdo (vídeo e/ou fotos) com outro criador que é atraente, exatamente porque é meu trabalho trazer coisas legais pro meu portfólio” completa Henrique, sobre o que pode causar ciúmes em seu relacionamento.. “Normalmente, as pessoas não ligam de eu fazer o que eu faço, mas sempre rola aquele ‘atritozinho’ no relacionamento, porque eu posso (me relacionar fisicamente com outras pessoas) e a pessoa não pode.” De um lado, Henrique é transparente com sua família e amigos em relação à sua profissão como garoto de programa e criador de conteúdo adulto. E nunca enfrentou discriminação direta, pelo contrário. As pessoas costumam demonstrar curiosidade. “Não, jamais. Pelo contrário, quando conto para as pessoas, elas ficam bem entusiasmadas em saber como é, como funciona e que tipo de cliente eu atendo. As pessoas ficam bem curiosas, como se fosse uma profissão divertida. Mas, claro, a parte boa é a parte ruim.” economia | revistacdm 17


W Por outro lado, Francisco (nome fictício) mantém sua profissão entre conhecidos “Minha família sabe, mas no meu trabalho formal pouquíssimas pessoas sabem.”

PÚBLICO-ALVO Ao falar sobre sua clientela, Henrique revelou que atende principalmente homens, mas também mulheres e casais. “Em geral, sou bissexual. A maioria dos meus clientes são homens, especialmente homens casados e gays.” Mas Henrique faz o lembrete: é apenas um trabalho. “Você precisa atender porque você não tá ali pelo cliente, você tá ali pelo dinheiro. Alguns clientes eu queria riscar da lista e não atender, mas às vezes você precisa atender porque você precisa do dinheiro. Você precisa sobreviver.” Quanto à diferença no tratamento por clientes heterossexuais e homossexuais, Henrique explicou que seu estilo pessoal influencia a percepção dos clientes. “Todos os clientes, tanto ‘héteros’ quanto gays, acabam me vendo como hétero por conta do meu estilo Mandrake, do meu estilo ‘chavoso’. Às vezes, é mais fácil para eles me verem assim, mesmo que eu seja bi.”

PUBLICIDADE DE COMPANHIA Para divulgar seu trabalho, Henrique investe no marketing digital “Me

editoria 18 revistacdm | economia

conecto com os meus clientes através de um site e através das minhas plataformas digitais: Instagram, Twitter - esse é importante - e OnlyFans.” Quanto mais divulgação, melhor. É por meio dessas plataformas, que consigo me conectar com meus clientes. Principalmente pelo site, onde eles conhecem meu trabalho como garoto de programa e como criador de conteúdo para maiores de 18 anos.” Francisco, jornalista, mantém sua propaganda à moda antiga: boca a boca. Seu marketing é contido dentro da própria carteira de clientes “Eu trabalho só com público classe A (alta renda) e por indicações.” Sobre a abertura em relação à sua profissão, Francisco explicou que é bastante seletivo. “No meu trabalho formal, pouquíssimas pessoas sabem.” A discrição é essencial para manter suas duas carreiras separadas. Quando questionado sobre a clientela, Francisco revelou que a diferença no tratamento por clientes heterossexuais e homossexuais é notável. “Sim... os homens ‘héteros’ são sempre muito escondidos, desconfiados, sigilosos. Gays são mais abertos e gostam de mais contato.” A abordagem distinta de cada grupo reflete as diversas expectativas e níveis de conforto com a situação. Quanto ao tipo de serviço mais solicitado, Lucas mencionou que varia entre encontros íntimos e acompanhamen-

Beatriz Mangili


tos sociais. “Normalmente sexo, mas muitas vezes acompanhar apenas em eventos.” Esta versatilidade permite a ele atender a uma ampla gama de necessidades dos clientes.

É CRIME? No Brasil, não é crime se prostituir. Porém, tirar proveito da prostituição alheia é. Isso significa que pessoas que oferecem sexo em troca de dinheiro não estão cometendo crime, mas que se existir um intermediador entre cliente e profissional que recebe parte dos lucros, isso configura crime pelo intermediador. O termo legal para esse crime é “Rufianismo”, de acordo com o Código Penal ele se define por “tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça.” Ao mesmo tempo, quando profissionais do sexo são presos, é comum que se use a lei de Ato Obsceno ou Importunação Ofensiva ao Pudor. Por isso, o uso das redes sociais tem se tornado cada vez mais presente nas vidas dos profissionais de sexo. Em contato com um site de acompanhantes, foi esclarecido como essa plataforma virtual é capaz de tanto conectar clientes e profissionais, quanto não cometer o crime de rufianismo. “Nosso modelo de negócio é sustentado pela venda de espaços publicitários e acesso a conteúdos exclusivos” , explicam. A prostituição se modernizou, alguns problemas continuam os mesmos. Ainda existe grande preocupação pela segurança. “A plataforma possui 3 etapas de segurança: verificação de documentos para garantir que a pessoa é maior de 18 anos; a segunda é um vídeo no qual o acompanhante faz um giro de 360 graus; por último, a autenticação facial, feita pelo acompanhante a cada dois dias”, diz a plataforma.ai

Veja também Confira história da prostitução desde antigamente portalcomunicare.com.br

economia editoria | revistacdm 19


Os dilemas estruturais do Brasil que fazem a lista de adoção ser maior que o número de crianças e adolescentes para adotar Bernardo William Tayná Machado Tobias Dietterle

editoria 20 revistacdm | sociedade

Acridas

Os inadotáveis


O

ano era 2012, e uma ONG de acolhimento institucional para crianças havia pendurado cartazes no centro da cidade de Curitiba. Eles retratavam um grupo de 5 crianças - Taynara, Andréia, Cristofer, Emely e André - há 2 anos na espera por uma família adotiva, pois não se encaixavam nas preferências e padrões dos adotantes. O caçula da turma tinha três anos de idade, as crianças eram negras e pardas, possuíam deficiências, e, por serem irmãos, deveriam ser adotados em conjunto. Nos cartazes, um termo acompanhava as fotos dos irmãos: “Os inadotáveis”. Com expectativas e anseios, as 5 crianças viam muitas famílias passarem pelo abrigo de acolhimento, chamado de “casa lar”, mas, suas expectativas eram manchadas ao verem outras crianças sendo escolhidas em seu lugar. Cristofer, com 3 anos na época, quase não se lembra de como era o lar, mas lembra, sim, de que não queria morar lá, e sim ter uma família. Emely, com 6 anos na época, conta que relembra essa parte de sua vida como um borrão - a espera ofuscou as memórias boas que deveria ter de sua infância, na qual o pensamento que se sobressaía era apenas “por que tenho que passar por isso?”. Andreia, com 10 anos na época, tem uma memória mais vívida e remanescente do lar. Ela conta que havia um medo de que ela e seus irmãos iriam ser separados, ou mesmo, nunca iriam ter “a chance de conhecer alguém”, como relata. Ela se lembra de ver bebês, filhos únicos e crianças brancas serem adotadas, tendo a chance que a escapava. Relembrando seus sentimentos, observa que mesmo naquela época havia uma percepção de um padrão, de que havia características que os “pais querem”. “Muitas vezes acabava me sentindo incapaz de ter pais”, relata Andreia. Essas experiências não se reduzem a um grupo de 5 crianças, mas se assemelham a todo uma parcela da população de crianças que aguarda, muitas vezes por anos, por uma família que possa a acolher. São mais de 34 mil famílias registradas na fila de ado-

ção no Brasil, mas, mesmo assim, o número de crianças à espera de uma adoção ainda se encontra nos 4 dígitos - são mais de 4 mil crianças. A Vara da Infância e Juventude do Estado do Paraná esclarece, em seus cursos preparatórios para pais, o motivo dessa discrepância: as preferências dos adotantes. OS PRECONCEITOS “Adotar é se doar para vida de alguém. É um ser humano que você está acolhendo”, é o que comenta Adriana Milczevksy, presidente do Grupo de Apoio à Adoção Consciente, em fala sobre a importância de se incentivar a adoção de crianças. Formado há 15 anos, o grupo trabalha na preparação de pais e possíveis adotantes para realizarem o registro na fila de adoção do Paraná, na esperança de dar um lar para as mais de 400 crianças em abrigos de adoção no país. Promovendo palestras e projetos de conscientização, o objetivo do grupo é divulgar adoção que ofereça amor e dignidade. Mas é uma tarefa difícil, muitas pessoas adotam para realizar um desejo próprio, com uma lista de preferências em mente, escolhendo apenas as crianças que atendem às suas demandas. Para a presidente, o mais difícil é relembrar: “É um ser humano que você está acolhendo”. De acordo com o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), em 2023, das crianças aptas à adoção, os pré-adolescentes acima dos 12 anos representam dois terços de toda essa população, mas, ainda segundo a SNA, metade das adoções realizadas no ano passado reuniram crianças de 2 a 4 anos, enquanto 25% optaram pelas maiores. Em Curitiba, 2.300 famílias anseiam por um novo membro em seus lares. A capital do estado do Paraná hoje tem 19 abrigos que contam com mais de 400 crianças e adolescentes disponíveis. No entanto, destas, 70% são maiores de seis anos, o que não atende os pré-requisitos de muitos pretendentes. Além disso, quase 60% acompanham irmãos e mais da metade não é branca, como aponta a pesquisa do SNA.

sociedade | revistacdm 21


Mas os preconceitos não se limitam a faixa etária, a cor da pele também é um dos paradigmas desse processo. Das crianças aptas à adoção no ano passado, 53,3% eram pretas, e em contrapartida, de seis a cada dez candidatos a futuros pais, manifestaram preferência étnica no formulário. Na maioria das respostas coletadas, crianças brancas ficam em primeiro lugar na fila de prioridade, e representam 27% dos lares e abrigos. Já em

são, e wnessa tentativa de resolver o “problema” muitas ficam ansiosas. Além disso, não saber responder perguntas indiscretas de outras pessoas e lidar com a história pregressa são pontos que pesam para essas pessoas. Ela ainda conta que “boa parte do preconceito que existe nos adotantes, restrições quanto ao perfil, por exemplo, está relacionado ao contexto sociocultural no qual vivemos”.

“O preconceito dos adotantes está relacionado ao contexto sociocultural no qual vivemos.” - Renata Pauliv, terapeuta relação as crianças negras, que são a maioria, apenas 4,3% optam por elas. Esse desequilíbrio faz com que as filas para adoção fiquem estagnadas a cada ano que passa. Esses números trazem a realidade das crianças aptas à adoção, no entanto, pela maioria não atender os padrões desejados tendem a passar mais tempo do que o esperado sem uma família. Para Adriana, mais do que um preconceito dos futuros pais, é o medo dos adotantes de essas crianças e adolescentes não suprirem suas expectativas. Muitos chegam até o grupo para resolver questões que deveriam ser trabalhadas anteriormente, como um luto, ou gravidez que não foi bem sucedida. Adriana acrescenta que isso é um despreparo por falta de informação sobre esse ato, tanto da pessoa, quanto da família. Muitos têm medo do que os outros irão pensar, e justamente pela falta de entendimento sobre o que de fato significa uma adoção, acontecem esses empecilhos. Renata Pauliv, terapeuta ocupacional do Projeto Florescer, grupo de apoio que estimula reflexões sobre adoção, traz exemplos de preconceitos dos adotantes relacionados à aceitação e percepção da dificuldade da criança. Muitos pais têm uma vontade exagerada de resolver questões comportamentais, e não as aceitam como

22 revistacdm | sociedade

OS LARES Em Curitiba, são mais de 400 crianças acolhidas em abrigos e casas lares, que oferecem uma nova chance à crianças que sofreram de negligência, maus tratos, e relações familiares abusivas. Com o trabalho de tutores e psicopedagogos, os lares buscam trazer para as crianças uma rotina que se assemelha à de uma criança média curitibana, com idas à escola, brincadeiras e jogos, mas também ensinando obediência e disciplina. Fundado em 1996, com o objetivo de tirar crianças de situações de vulnerabilidade, o Lar Dona Vera é dividido hoje em três casas. Uma casa atende crianças de até dois anos, a segunda de dois a quatro, e a terceira de seis anos ou mais. No total, 40 crianças e adolescentes estão sob os cuidados do lar. Monica Tindó, de 66 anos e presidente do lar, traz muitas experiências que vive ao trabalhar diretamente com esse processo. Ela conta que existem pretendentes que depois de três ou quatro encontros já desistem de adotar, e os movimentos são os mais diversos, como por exemplo “a criança grita muito, ela riscou meu sofá, rasgou algum papel”. Além disso, ela também traz relatos sob o olhar das crianças que ali vivem. A maioria das crianças menores


sonham com seus futuros e idealizam muitos desejos,”Elas querem ir pra uma família que o pai seja muito alto, ou falam ‘eu quero que na minha casa tenha piscina, eu quero viajar muito, eu quero ter um quarto só pra mim”. Então, ali é feito um trabalho que as ensina sobre como ali também é uma família. Quando um novo membro é acolhido, passa pela terapia ocupacional, que busca integrar a criança à rotina do lar. A Associação Cristã de Assistência Social (ACRIDAS) também é um exemplo dos lares de Curitiba. Nessa instituição, são direcionadas crianças em acolhimento, que estão em medida de proteção pela Justiça. Ali, elas podem ir para adoção e também participar da ação “família acolhedora”, que é quando famílias se voluntariam para cuidar das crianças, mas se comprometem em não entrar na fila de adoção. Essa ação contribui no desenvolvimento familiar da criança para que ela esteja em sociedade. A assistente social da associação Thais Moroz, conta que muitas famílias procuram bebês ou crianças que não passaram por algum tipo de conflito, como violência ou pais dependentes químicos, por exemplo, mas a realidade do acolhimento é totalmente diferente. Isso explica o porquê a conta da fila da adoção não fecha. “De fato existe uma preferência muito grande em crianças menores”, afirma Thais. Ela conta, também, que a sociedade ainda tem uma visão muito limitada do perfil de crianças e adolescentes que moram em casas lares e abrigos. É muito raro ter crianças sem vínculo com as famílias de origem, pois a maioria desse grupo entra para a proteção do governo devido a negligência de cuidados. A psicóloga Jéssica Kafka, também funcionária do Acridas, conta que um dia pegou um carro de aplicativo com sua colega e comentou sobre o seu trabalho com a motorista, e então a ouviram falar sobre como “as crianças lá devem parecer uns bichinhos”. Esse comentário que chocou as duas reflete como existem estigmas a serem esclarecidos quando se trata de crianças

Acridas

institucionalizadas e propriamente da adoção. Jéssica e Thaís trabalham nessa área há sete e cinco anos, respectivamente, e observam que as crianças adotadas sempre são alvo de preconceitos. Quando as crianças por exemplo tem algum problema de comportamento na escola ou em casa, sempre é apontado o fato de ela ser adotada. No entanto, elas expõem que essas atitudes são normais, e o fato de não ser um filho biológico não justifica. Além disso, também contam que essas atitudes são uma das principais causas de devolução, o que mostra um despreparo das pessoas candidatas à adoção, mas reforçam, nos acompanhamentos das famílias, o quão importante é a conscientização sobre o que significa adotar. PAIS E FILHOS Laços afetivos de pessoas que já passaram por esse processo mostram como o ato de adotar enriquece as relações. Mariana Mendes é professora e tem um filho adotivo - o Lucas, de 11 anos - e conta que sempre sonhou com a maternidade. A adoção se tornou uma opção devido a problemas de saúde. Ela conta que a adaptação foi difícil, mas lutou para que seu filho pudesse ter um lar tranquilo, enfatizando que “foi amor à primeira vista” e se emociona ao dizer “imagine você amar um ser que não nasceu de você, mas nasceu para você.” Mariana conta que, quando chegou o momento da adoção, tinha preferências por adotar uma menina branca e com doenças tratáveis, mas seu perfil mudou totalmente quando conheceu o Lucas, e diz que foi ele que a escolheu. Apesar de sua realização, ela conta que sofreu olhares preconceituosos quando adotou o menino. “Houve alguns problemas com a sociedade, já que ele é negro e deficiente visual. Escutamos de familiares, de outras pessoas, que ficavam perguntando: ‘por que não uma criança branca? Por que uma criança deficiente visual?’”. Mas, apesar dessas situações, Mariana diz que o Lucas é uma criança feliz, e se sente plena ao poder ter “um ser tão puro lhe chamando de mãe”.

sociedade editoria | revistacdm 23


indrid Ewert

O professor e ativista da causa LGBTI+ Toni Reis também traz relatos emocionantes. No início dos anos 2000, ele e seu companheiro deram início ao processo, mas se sentiram discriminados ao juiz ordenar que adotassem apenas meninas pelo casal ser gay. Eles resolveram recorrer e se tornaram o primeiro casal a adotar pela Suprema Corte. Então os dois realizaram a adoção tardia, de dois meninos e uma menina. Além do preconceito sofrido pela justiça, também percebiam olhares tortos ao frequentarem restaurantes, shoppings e livrarias, devido as crianças serem negras, “o racismo estrutural infelizmente existe na sociedade”. Mesmo com todos os dilemas, Toni se orgulha ao falar dos filhos e da educação que pode proporcionar. Hoje Alice, Alysson e Filipe são autônomos e estão bem encaminhados. Toni, também relembra outro momento marcante que foi o desejo deles de terem uma religião, então foram batizados na catedral de Curitiba e até receberam uma carta do Papa os parabenizando, isso marcou muito a família. Mas, claro, não são apenas os pais que são impactados pela adoção. Os irmãos “inadotáveis” acabaram por ter a chance de conhecerem sua família. Hoje adolescentes, vivem há 10 anos com seus pais Ingrid Ewert e Marcos Mendez, e acharam no processo de adoção um novo lar. Cristofer, com 13 anos, relata que se sente “acolhido, amado e protegido”. Emely, com 16 anos, conta que passou por um período de relutância, perturbada ao pensar no modo como sua mãe tinha um rosto diferente e características distintas, mas, com o tempo, houve uma adaptação, e hoje diz se sentir em casa. Ingrid Ewert, pedagoga formada, também comenta sobre esse período de adaptação, e confessa que não foi fácil. Ela e seu marido sempre sonharam em adotar, mas deixaram o desejo em segundo plano após o nascimento dos três filhos biológicos, até serem comovidos pela história posta nos cartazes. Ela conta que tomar a iniciativa de adotar um grupo de 5 crianças fez com que as pessoas vis-

24 revistacdm | sociedade

Ingrid Ewert e sua família. sem o ato do casal com maus olhos, e ao procurarem escola para seus filhos, ouviram comentários como “crianças institucionalizadas não são bem vistas em lugar nenhum”. O preconceito que mais sofreram, como conta Ingrid, foi em relação ao número de adotados, muitos diziam “essa gangue vai matar vocês”, ou “eles vão se juntar contra vocês”. Além disso, também percebeu esse tipo de atitude em relação a cor da pele, a filha adotiva mais velha do casal é negra, e sempre que ela ia atender a porta, eles tentavam estar juntos, para evitar situações constrangedoras. Hoje, Ingrid e Marcos são presidentes e co-fundadores do grupo de apoio Chesed. Eles tiveram essa iniciativa pois, após a adoção, se sentiam muitos sozinhos por não terem com quem desabafar sobre as dificuldades que passavam durante a adaptação. Assim, no grupo eles reúnem outras pessoas que realizaram a adoção, ou filhos que passaram pelo processo, para falar sobre suas experiências e encorajar mais pessoas a realizarem a adoção sem preconceitos, que, como relata Andreia, hoje com 20 anos, mudou a trajetória de sua vida. “Lidar com o preconceito dos pais adotivos foi muito difícil, mas acredito que com o tempo mais pessoas irão ver que não existe crianças perfeitas, ou até mesmo pais perfeitos, mas sim crianças que, como qualquer outra, precisam de amor e carinho todos os dias”, completa Andreia Ewert.

Conheça O documentário “Adoção Tardia - Nunca é Tarde Para Amar” traz os problemas e esforços para dar um lar à crianças mais velhas portalcomunicare.com.br

Foto: Acridas


Fatos Detectamos que o jornalismo que você conhece está desatualizado.

Atualizar

Cancelar

O jornalismo passou por atualizações e a PUCPR acompanhou essas mudanças. A FATOS Narrativas Midiáticas conta com uma estrutura pioneira, considerada uma das melhores do Brasil, para desenvolver conteúdos jornalísticos de várias formas. Não é a toa que o portal tornou-se bicampeão da categoria "jornal/revista laboratório online." Se deseja trabalhar com o melhor do jornalismo, venha para PUCPR.

editoria | revistacdm 25


Arquitetura hostil em Curitiba exclui grupos vulneráveis dos espaços públicos; Projeto de lei busca promover a inclusão na cidade Álefe Carvalho, Evelyn Garcia e João Alexandre Fotos: Álefe Carvalho

Estrutura de metal com barras pontiagudas impede que sente-se ou acomode-se em murada de vitrine no centro de Curitiba.

editoria 26 revistacdm | sociedade

Nome fotógrafo

O que os olhos não veem


D

ivisórias em bancos de praças, pregos em muretas, pontas de ferro em parapeitos, parques cercados por grades… Estes são alguns dos diversos elementos presentes na paisagem urbana de Curitiba. Estas instalações podem causar certa ilusão: passam um ar de segurança e proteção para a população, porém, escondem um poderoso aparato de controle e segregação do espaço público que não garante segurança alguma. Débora Raquel Farias é arquiteta, urbanista e mestre em Planejamento Urbano. Ela explica que a inserção de elementos que impeçam ou dificultem a interação de grupos sociais com certos espaços é comum em grandes cidades e é chamada de “arquitetura

“Arquitetura hostil é um tipo específico de instalação que tenta fazer um controle massivo do espaço público.” Débora Rodrigues, arquiteta, urbanista e mestre em planejamento urbano

hostil”. O conceito é recente dentro dos estudos sobre administração e planejamento urbano. A arquitetura hostil pode ser identificada em diferentes formatos dentro da paisagem urbana de uma cidade, desde aparições agressivas, como pontas de ferro, pregos, arames, quanto sutis, como bancos de praça com descanso para os braços, o que impede que pessoas em situação de rua durmam nos bancos. Thomas Machado, 41, está em situação de rua na capital paranaense e relata que sente-se hostilizado pelas ruas da cidade. Muitas vezes, procura abrigo da chuva ou do frio em marquises e é expulso: “isso acontece em todo lugar, morador de rua sofre tanto quanto trabalhador, tem as mesmas dificuldades”. Ocasionalmente, a abordagem é mais empática. Alguns comerciantes e guardas municipais “respeitam porque nos conhecem, somos tranquilos”, e permitem que Thomas permaneça em locais cobertos. A aplicação desses dispositivos de hostilidade urbana é realizada tanto pelo poder público em áreas de lazer e convívio, como praças e parques, quanto por proprietários privados, como em vitrines e fachadas de lojas. “A medida é usada para afastar uma

Área coberta em fachada de prédio cercada por grades para impedir acesso à marquise.

sociedade editoria | revistacdm 27


No centro de Curitiba, não é raro encontrar estruturas de metal pontiagudas que impedem o descanso em vitrines.

parte da população considerada ‘indesejável’, como moradores de rua e adolescentes. A arquitetura hostil é um tipo específico de instalação que tenta fazer um controle massivo do espaço público, regulando o acesso a este espaço”, esclarece Débora. Para Thomas, o intuito de quem instala esses aparatos arquitetônicos é afastar quem está dormindo na rua: “eles acham que são melhores que a gente. Como que não pode sentar? Colocam um monte de ferrinho. Falta humanidade”, diz. Em 2020, Débora publicou a pesquisa “Sem Descanso: Arquitetura Hostil e Controle do Espaço Público No Centro de Curitiba”, na qual identificou 448 dispositivos de arquitetura hostil na região central da cidade. Ela destaca

editoria 28 revistacdm | sociedade

que a maior parte das instalações estão em condomínios e comércios: “Os proprietários desses estabelecimentos instalam estes dispositivos na fronteira onde termina a sua propriedade e se inicia o espaço público. A intenção é impedir aqueles que passam por perto de descansar aos arredores de suas dependências”. Esses aparatos de exclusão reforçam um sentimento de não pertencimento entre grupos sociais economicamente vulneráveis, uma vez que são impedidos de repousar nesses espaços. Para quem tem maior poder aquisitivo, porém, o sentimento ao afastar grupos vulneráveis é de alívio: muitos vêem os mais pobres como perigosos e violentos. O medo dos pobres foi relatado pela primeira vez na história pela


filósofa e escritora alemã Adela Cortina. Ela chamou de aporofobia a rejeição e aversão aos pobres e a pobreza. A hostilidade presente nas instalações arquitetônicas segregam e afastam os membros de diferentes classes sociais e exemplificam com maestria o que é a aporofobia. Os maiores excluídos do desenho urbano são as pessoas em situação de rua. Em Curitiba, são cerca de 3.500, segundo pesquisa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, de 2023, elencando a capital paranaense em sexto lugar no ranking de cidades com maior índice de pessoas em situação de rua no país. Impedidos de dormir nos bancos, canteiros e fachadas, são obrigados a procurar descanso fora do abrigo da chuva e do tempo. Débora identifica os efeitos de afastamento dos moradores de rua como apenas pontuais, uma vez que não tem como finalidade resolver um grave problema estrutural, apenas afastar as vítimas desse problema. “A pessoa quer resolver o problema na frente da propriedade dela, forçando esses grupos a encontrarem outro lugar para descanso. É uma medida imediatista e pontual e não tem a intenção de resolver o problema da falta de moradia para as pessoas nesta situação”. Não há legislação urbana da cidade de Curitiba que mencione diretamente a proibição da arquitetura hostil. Atualmente, tramita na Câmara Municipal um projeto de lei que visa proibir as instalações em espaços livres da cidade. O texto, originalmente apresentado pelo ex-vereador e agora deputado estadual Renato Freitas (PT), pretende alterar o Código de Posturas de Curitiba.

nismos de intervenção hostis, deverão ser desobstruídos, no prazo de 90 dias”. O que as pessoas que frequentam o centro da cidade pensam sobre arquitetura hostil? Cainã, 22 anos: “É falta de humanidade. As pessoas se preocupam com a estética do lugar, em manter o lugar limpo, e expulsam pessoas em situação de rua por isso. É uma falta de humanidade”.

Leia mais Conheça o estudo sobre arquitetura hostil em Curitiba que inspirou essa reportagem, de autoria da arquiteta, urbanista e mestre em planejamento urbano Débora Rodrigues. portalcomunicare.com.br

Emerson, 50 anos: “Todo mundo tem o direito de ir e vir, a rua é pública. É o que diz a lei. Claro que é errado [a arquitetura hostil]. Só porque ele tem um comércio, ninguém pode estar ali?” Leandra, 24 anos: “Certo isso [dispositivos de arquitetura hostil] não é. As pessoas não têm onde dormir. Atrapalha quem quer fugir da chuva… Por conta do COVID até, qualquer chuvinha é perigosa” Gabrielly, 18 anos: “Você não sabe porque a pessoa está nessa situação [de rua], não tem porque você impedir ela de fugir de uma chuva durante a noite, por exemplo, ainda mais quando tem tempestade, com granizo.

Dispotivos de arquitetura hostil revelam tentativa de controle do espaço público.

O projeto visa “vedar o uso de elementos construtivos hostis com a intenção de impedir ou dificultar o uso dos espaços livres de uso público de Curitiba”, definindo também que “espaços livres de uso público que já estiverem obstruídos por meca-

sociedade editoria | revistacdm 29


Racismo no futebol paranaense Pesquisa divulgada pelo Observatório racial do futebol, em parceria com a CBF, de setembro de 2023, mostrou que o Paraná é o segundo estado com maior registro de casos de racismo no futebol brasileiro

E

Caio Jordão, Eduardo Borges, Gabriel dos Reis e Gustavo Magalhães

m setembro de 2023, a pesquisa promovida e divulgada pelo Observatório racial do futebol, em parceria com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), fez um “raio-x” de casos de racismo no futebol pelo país. No estudo, foram entrevistados 508 atletas, homens e mulheres das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, além de árbitros e auxiliares de arbitragem. Todos participaram de forma totalmente voluntária e anônima. No total, 41,14% dos entrevistados se declararam negros - dentre esses, 41,8% disseram já ter sido vítimas de racismo, com a maioria afirmando que esses crimes ocorreram nos estádios (53,9%). Ainda na pesquisa, o estado do Paraná foi apontado como o segundo estado brasileiro com mais registros de casos de racismo no futebol. 18,45% dos casos registrados de injúria racial, inseridos no contexto futebolístico no país, aconteceram no ambiente do futebol paranaense. Apenas o Rio Grande do Sul, com 23,4%, está acima do Paraná. Essa “cultura” racista enraizada no Paraná, se dá muito pela construção histórica, não só da capital Curitiba, mas também do estado como um todo. De acordo com o professor e doutor em Sociologia pela Université Laval - Québec (Canadá)Lindomar Wessler Boneti, “(Esse alto número de casos de racismo) se explica pela posição ideológica que temos aqui. Uma sociedade extremamente conservadora, em decorrência da construção histórica do Paraná, vinda da cultura alemã, italiana e polonesa. Esse olhar

30 revistacdm | sociedade

vêm do mundo europeu, e isso se expressa na irritação em relação ao diferente. No futebol, se você torce para outro time, você é diferente.” Entretanto, o que normalmente acontece entre os “rivais”, chegou ao ponto de ocorrer entre os iguais. Por mais inacreditável que pareça, o racismo no futebol paranaense se mostra presente até entre integrantes da mesma torcida. Leticia Julia faz parte da principal torcida organizada do Coritiba, a “Império Alviverde”, e foi vítima de ofensas racistas vindas de uma também torcedora do Coxa. “Foi via rede social, ela falou ofensas como ‘macaca’ e ‘negrinha encardida’. Foi uma coisa muito dolorosa, e mais dolorosa ainda por ter vindo de uma mulher. Uma mulher ofender a outra pela cor da pele. Ela é torcedora do Coxa”, disse Leticia, sobre as ofensas recebidas.

ENTRE “DIFERENTES” No último domingo de abril, 28, no Estádio do Couto Pereira, Coritiba e Brusque (SC) se enfrentavam pela segunda rodada da Série B do Campeonato Brasileiro. Era o primeiro jogo do Coritiba como mandante na edição. O resultado? 1x0 para o Coxa. Porém, a vitória pouco importou. Das arquibancadas do Couto, no intervalo do jogo, uma triste derrota foi sacramentada. O fotógrafo Franklin de Freitas, editor de Fotografia do jornal Bem Paraná e também presidente da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Paraná (ARFOC - PR), foi alvo de um crime vindo da torcida


Igor Barrankievicz/GluckSports Photo

Franklin de Freitas, fotógrafo do Bem Paraná, que foi vítima de racismo no estádio Couto Pereira. mandante. Franklin foi chamado de “preto filho da p…” por um torcedor do Coritiba, que estava no setor Pro Tork, do Couto Pereira. “Eu estava fotografando próximo ao meio campo, na lateral, quando escutei um xingamento. Estranhei muito e resolvi olhar. Era para mim, um ato racista direcionado a mim. Rapidamente, chamei o segurança, que chamou o seu supervisor e prontamente tentou localizar o agressor, que acabou fugindo do local. Entrei em contato com a DEMAFE no estádio, e fiz o boletim de ocorrência. No dia seguinte o agressor foi localizado e foi chamado para depor. Ele negou os fatos, mas logo apareceram testemunhas que presenciaram o fato. O inquérito pela polícia ainda segue”, relatou Franklin, sobre o crime. No estado, a Delegacia Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos da Polícia Civil, é a delegacia wwque fica presente nos estádios, especialmen-

te em eventos de grande porte como jogos da série A e B, Copa do Brasil e Libertadores. A equipe é composta por um juiz, um promotor e um defensor público do Juizado Especial Criminal (Jecrim), formando assim um aparato para lidar com crimes que podem ser de até dois anos de prisão. O delegado da DEMAFE, Luiz Carlos de Oliveira, relata como a instituição opera e costuma lidar nesses casos de discriminação racial durante as partidas. “Nos casos de racismo flagrante, que possuem uma pena superior a dois anos, a DEMAFE encaminha os infratores para a central de flagrantes, responsável por processá-los. A principal função da delegacia é, portanto, identificar e encaminhar os casos de racismo para a devida punição.” Essas características se encaixam perfeitamente no caso sofrido pelo fotógrafo, que recebeu apoio dos demais torcedores do Coritiba e contará com testemunhas a seu favor nesse

“(Esse alto número de casos de racismo) se explica

pela posição ideológica que temos aqui. Uma sociedade extremamente conservadora, em decorrência da construção histórica daqui, vinda da cultura alemã, italiana, polonesa.” Lindomar Boneti, sociólogo sociedade | revistacdm 31


“Eu estava fotografando próximo ao meio campo, na lateral, quando escutei um xingamento. Estranhei muito e resolvi olhar. Era para mim, um ato racista direcionado a mim. Rapidamente chamei o segurança, que chamou o seu supervisor e prontamente tentou localizar o agressor, que acabou fugindo do local.” Franklin de Freitas, fotógrafo inquérito. Franklin contou que recebeu mensagens de apoio de grande parte da torcida, desejando forças e solidariedade nesse difícil momento. “O futebol e as torcidas são feitas por quem ama o time, quem sai de casa para realmente apoiar seu clube, e tem uma paixão pelo esporte, não faz esse tipo de coisa.” No outro lado da moeda, ficaram escancaradas as precariedades ainda presentes no combate ao racismo no futebol. De acordo com a Lei Vini Jr, sancionada em dezembro de 2023 no Paraná, o clube deveria ter comunicado sobre o crime ao árbitro da partida - que deve, ou pelo menos deveria, paralisar imediatamente a partida até que o agressor seja identificado e retirado do estádio. A Lei Vini Jr, leva o nome do atacante brasileiro que joga no Real Madrid (ESP) e acaba sendo obrigado a conviver semanalmente com insultos e ofensas racistas nos estádios espanhois. O objetivo da lei aqui no Paraná é combater o racismo em eventos esportivos, principalmente no futebol. “De acordo com alguns artigos da lei (Vini Jr) o clube já deveria fazer alguns procedimentos que não fez, como comunicar ao árbitro. Isso tem que ficar em evidência, a CBF, por ser a organizadora do campeonato, precisa aumentar a campanha contra o racismo “ - disse o fotógrafo. Além disso, para Franklin, a diretoria do Coritiba não se posicionou de maneira firme como deveria ser feito em casos como esse. “Posicionaram-se de uma forma bem superficial, fazendo somente uma nota falando sobre um suposto ato de racismo no jogo. Sendo uma nota muito política, não falando sobre o departamento

32 revistacdm | sociedade

jurídico e que iriam analisar as imagens”. Isso sem contar o fato de que sequer recebeu um pedido de desculpas pelo acontecimento. O delegado Luiz Carlos de Oliveira também comentou sobre essa falta de atitudes combativas ao racismo na prática por parte dos clubes, que possuem campanhas, mas parecem não praticá-las. “Os clubes normalmente fazem campanhas com faixas nos estádios, normalmente com mensagens contra o racismo e como agir nesses casos, mas eles acabam ficando à mercê das torcidas. O Athletico não permite que isso aconteça, mas em outros clubes acontece. Com isso, nós chamamos as torcidas organizadas e conversamos sobre o assunto, para alertá-los e conscientizá-los. O racismo, porém, nem sempre parte das organizadas, que por vezes possuem marginais e bandidos infiltrados nessas. Grandes vezes ele vem de pessoas intolerantes e frustradas que vão assistir a um jogo de futebol somente com esse intuito.”

“De acordo com alguns artigos da lei

(Vini Jr) o clube já deveria fazer alguns procedimentos que não fez, como comunicar ao árbitro. Isso tem que ficar em evidência, tanto a CBF, por ser um campeonato organizado por ela, precisa aumentar a campanha contra o racismo.” Franklin de Freitas, fotógrafo


Eduardo Borges

Sede da Império, torcida organizada do Coritiba, com um adesivo incentivando o combate ao racismo.

UM REFLEXO DA SOCIEDADE Em 2014, em entrevista à Gazeta do Povo, Nizan Pereira, médico, ex-secretário estadual da Saúde e de Assuntos Estratégicos e doutor em Educação pela PUC-PR (ao defender sua tese intitulada: “A Construção da Invisibilidade e da Exclusão da População Negra no Sistema Educacional Brasileiro”), já falava sobre o racismo, não só no futebol, mas no mundo esportivo como um todo e como isso nada mais era um reflexo do racismo estrutural que está enraizado na sociedade. Homem negro, que combate diariamente o racismo estrutural e que integrou o time de basquete da UFPR no final dos anos 1960, já teve de conviver com muitas ofensas racistas e com a sensação de estar sozinho nessa luta. Ele era o único negro do time. Dez anos após a entrevista para Gazeta, Nizan segue combatendo o racismo. Na visão dele, desde 2014, houve, sim, melhorias, porém, estruturalmente, isso pouco mudou. “Sou otimista com isso. Tenho certeza que mudou muito do ponto de vista da injúria e do racismo individual. Diminuiu não porque as pessoas deixaram de ter esses sentimentos e agressividade do ponto de vista racista. O objeto, a direção, mudou em relação às minorias. Essas pessoas hoje tem protagonismo. O Brasil avançou em relação à modernidade. E a modernidade é igual

à liberdade e à igualdade. Porém, estruturalmente, pouca coisa mudou”, disse o médico. Sensibilizado com as ofensas sofridas pelo fotógrafo Franklin, Nizan Pereira falou sobre como os clubes (no geral, sem especificar algum) costumam se portar em casos como esse. “A reação do caso do Franklin foi até ‘boa’. Não querendo particularizar um clube de futebol específico, mas se acontece isso em uma casa de show, por exemplo, os donos provavelmente terão uma posição muito semelhante à dos clubes. Se acontecer também em uma instituição ou corporação, a atitude é sempre a mesma. O posicionamento geralmente é de ‘não somos racistas e vamos averiguar o caso’. Eles não tomam atitudes antirracistas, pois podem acabar ‘ofendendo’ alguém, seja da direção, dos sócios ou dos patrocinadores. Nizan ainda diz: “Essas instituições refletem a forma geral com que as pessoas se relacionam na sociedade. O pensamento de não sou racista, mas também não sou antirracista é, sem dúvidas, um reflexo do racismo estrutural em nossa sociedade.

Confira Aúdio da entrevista com o fotógrafo Franklin de Freitas portalcomunicare.com.br

sociedade | revistacdm 33


João Butka

Entre medalhas e intolerâncias Atletas paralímpicos citam dificuldades estruturais na prática de modalidades paradesportivas e relatam episódios de preconceito João Pedro Karas Butka, Ryan Minela e Lucas Azevedo.

34 revistacdm | sociedade


N

o centro de Curitiba, bem ao lado do Passeio Público, está o Círculo Militar, um clube sócio-esportivo que tem grande apreço pelo esporte e oferece, a seus membros, a oportunidade de praticar diversas modalidades esportivas, como futsal, basquete, tênis e vôlei. Entre esses vários esportes convencionais, há também um não convencional, isto é, o vôlei sentado. O vôlei sentado surgiu em 1956, na Alemanha, e passou a ser disputado oficialmente nas Paraolimpíadas de Arnhem-1980, na Holanda. Em Toronto, no ano de 1976, apareceu como exibição. O esporte chegou ao Brasil em 2003. No entanto, só ganhou destaque mundial em 2004 nas Olimpíadas de Atenas. Em 2016, o vôlei sentado foi introduzido no Círculo Militar por Oliveira e, desde aquela época, a instituição fornece todos os recursos necessários à prática. Entretanto, essa modalidade ainda é o único esporte paralímpico do clube. O técnico diz que o fato de todos os paratletas terem uma das pernas amputadas, e não serem paralíticos e cadeirantes, facilita na hora de praticar o esporte.

de suas sessões de fisioterapia no Hospital Erasto Gaertner. O irmão de Delmar, Lindomar José Luft, que se comprometia a buscá-lo após o término das sessões, havia ligado dizendo que, dessa vez, iria se atrasar. Então, Delmar resolveu pegar um ônibus. O motorista era um antigo amigo do atleta. Por isso, parou no ponto e o esperou subir.

Desde 2008, Delmar conquistou o primeiro e segundo lugar em todos os campeonatos que competiu na regional sul do Brasil.

Nessa época, o paratleta estava recém-recuperando sua flexibilidade, comprometida pelo acidente, e ainda tinha dificuldade para andar de muleta. Por esse motivo, demorou um pouco para entrar no ônibus. Ao sentar no banco preferencial, uma senhora, que estava sentada ao lado, levantou-se e disse: “Deveria existir um ônibus só para deficientes”. ‘’Eu me senti mal. Comecei a chorar. Liguei pro meu irmão, desci no próximo ponto e ele

Ryan Minela

“A gente sabe quando a pessoa Na quadra, podemos encontrar ditá te olhando com versos atletas com várias medalhas e títulos, como Delmar Antônio Luft, de aquele olhar normal 55 anos, consultor Vip da Telefônica do Brasil e paratleta do Círculo Milie quando ela tá te tar. Ele já foi campeão das competições Estado Sul Brasileiro, Mundialista no Sesc e 1° e 2° lugar em todos os olhando com olhar Campeonatos Sul, desde 2018. Delmar pratica vôlei sentado desde diferente.” 2012. Antes de sofrer um acidente Delmar Luft, paratleta automobilístico, que o fez perder a perna direita, não praticava esporte algum, por causa da falta de tempo disponível em razão do trabalho. Como foi me buscar de carro para me levar para casa’’, conta Delmar. um dos processos que contribuíram para sua reabilitação, o vôlei sentado O técnico de vôlei sentado Marcelo foi tão importante que, hoje, é sua Francisco de Oliveira, de 44 anos, asprioridade máxima. segura que essas situações são muito Apesar de suas grandes conquistas, Delmar ainda sofre muito preconceito no dia a dia, por conta de sua deficiência. Alguns desses momentos ficaram gravados na memória, como no dia em que estava voltando de uma

comuns, pois boa parte da população não sabe lidar ou conversar com pessoas com deficiência. Por isso, julgam mais fácil isolá-las do restante da sociedade do que procurar outra perspectiva. “O maior preconceito que os

sociedade | revistacdm 35


João Butka

Oliveira conta que acredita que é precisso mais investimentos para o esporte paralímpico.

deficientes passam é parecer que este mundo não é para eles’’, aponta. Oliveira afirma que sempre se interessou pelo não convencional, por fazer algo diferente. Certo dia, um amigo deu a sugestão de dar aulas de vôlei sentado. Isso ocorreu em 2003, quando o esporte recém havia chegado ao território nacional. “Eu fui lá e falei: vou desenvolver isso. Todo mundo falava que eu era louco, pois não tinha mercado. Mas eu

“Se virasse lucro, virararia esporte.”

infraestrutura. Delmar revela que, no trajeto para algumas competições, a equipe de vôlei sentado teve que ir “amontoada” em uma van, pois não tinha dinheiro para pagar um ônibus para viagem. “Nós evitávamos comer nos postos da estrada, porque era muito caro. Levávamos comida de casa. Com isso, nós economizamos mais de 60% do dinheiro que ganhamos para a comida”, diz Delmar. Já ocorreu também de o Círculo Militar ter que reduzir o número de jogadores destinados a disputar determinado campeonato, pois o gasto com passagem e hospedagem era demais para levar a equipe inteira.

Marcelo Oliveira, técnico de vôlei

Os paratletas do Círculo Militar recebem o apoio do SESC, o que os ajuda bastante, mas ainda precisa de muito mais investimento.

fui tentando, até que, uma hora, deu certo. Foram sete anos trabalhando de graça. Foi na luta mesmo’’, relembra.

“Tá melhorando as coisas, mas já foi bem difícil”, reflete Delmar.

Oliveira começou a ser reconhecido em 2008, quando sua equipe foi campeã brasileira da Série Prata. A partir daí, foi convocado para a seleção e sua equipe passou a ir para mundiais, e a carreira começou a alavancar de maneira inesperadora.

Além do dinheiro reduzido, alguns paratletas têm dificuldade de locomoção por conta de uma infraestrutura não inclusiva nos clubes e ginásios. A falta de rampas e de um banheiro para cadeirantes atrapalha seu desempenho e a realização de outros esportes como os não convencionais.

Um grande problema enfrentado pelos paratletas é a falta de investimeto, tanto no esporte em si quanto na

‘’Para o esporte paralímpico acontecer, tem que ter as condições necessárias. Você tem que ter um banheiro

36 revistacdm | sociedade


Ele também conta que, por serem clubes e ginásios muito antigos, com mais de 60 anos, não dispõem de uma infraestrutura adequada para receber os paratletas.

O ESPORTE NÃO CONVENCIONAL Nilson Markoski, de 48 anos, é servidor público e pratica vôlei sentado no clube há três anos. Também é medalhista e já foi campeão paranaense, vice-campeão brasileiro e campeão brasileiro da série B. Nilson conta que sempre acompanhou o esporte e gosta muito de praticá-lo. “É um esporte muito inclusivo e social. A troca de vivências com pessoas com dificuldades iguais, do meu ponto de vista, é a parte mais importante”, pondera o atleta. Além do vôlei sentado, outro esporte não convencional bastante praticado é o tênis em cadeira de rodas. Cristian Pereira de Brito, músico de 33 anos, pratica desde 2015 e já foi campeão paranaense. Além disso, participa de torneios internacionais. Seu amor pelo tênis em cadeira de rodas está ligado ao fato desse esporte ser muito parecido com o tênis convencional. “As batidas são as mesmas, o jeito de jogar, o saque, os fundamentos são praticamente iguais. É praticamente igual”, conta Cristian. Para ele, o esporte foi essencial em sua recuperação, o esporte ajudou

na questão de saúde e na questão de ocupar a cabeça por ser algo de demanda bastante energia e tempo. “Acaba virando um objetivo de vida. Te dá motivação”, conta o músico. Infelizmente é muito difícil trazer os mais diversos esporte não convencionais “Por exemplo, a bocha, que é um esporte super inclusivo, você tem que ter toda uma estrutura para pessoas com paralisia cerebral. Você tem que ter um espaço para guardar material ou mesmo o basquete sobre cadeira de rodas, que é bem complicado, pois os materiais são caros’’, explica o técnico do time.

O PRECONCEITO A falta de conhecimento é um dos fatores que causa o preconceito. Nilson conta que muitas pessoas olham com estranheza para sua prótese e ficam a encarando na rua quando ele anda de calça curta. Também relata que já teve que fazer um desenho na prótese para que seu sobrinho não tivesse medo dela. O Brasil, hoje, é considerado uma potência paralímpica. Na Olimpíada de Tóquio, ficou em 7° lugar no ranking de medalhas. No total, foram 72 medalhas. Dentre elas, 22 de ouro, 20 de prata e 30 de bronze. Porém, apesar de várias conquistas, o esporte não convencional ainda carece de visibilidade. Oliveira argumenta que as olimpíadas e as paraolimpíadas deveriam acontecer simultaneamente. Por ser tratado como algo social, acaba não gerando dinheiro e, consequentemente, acaba não trazendo

Nilson conta que por pouco não foram campeões num jogo contra a seleção brasileira.

João Butka

acessível, tem que ter uma infraestrutura para receber esse atleta’’, explica o técnico Oliveira.

sociedade | revistacdm 37


visibilidade para o esporte. Nenhum atleta paralímpico recebe por ser atleta, e conseguir patrocinadores ainda é uma tarefa difícil. Apenas competições de alto rendimento são passadas na televisão brasileira.

NATAÇÃO PARALÍMPICA Na natação paralímpica, o preconceito também é uma realidade. A técnica esportiva Izabella Sabino, de 39 anos, dedica-se, há aproximadamente um ano, a treinar paratletas profissionais para competirem na modalidade, e todos os nadadores já sofreram preconceito em algum momento. O treinamento, que tem seis horas de duração, é promovido pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e ocorre na piscina da instituição. Começa às 8 horas com uma sessão de musculação. Depois, há um período de descanso e, em seguida, o treino efetivo de natação, que dura 1h30. Quando a natação paralímpica era um projeto incipiente na universidade, os paratletas, embora a instituição disponibilizasse a piscina para os treinos, não eram remunerados. Hoje, porém, o cenário é outro. Todos os sete nadadores que treinam na PUC-PR são contratados e disputam as principais competições paralímpicas do Brasil. Sabino diz que as maiores dificuldades que a equipe paralímpica enfrenta são referentes à locomoção e à acessibilidade. Exemplifica, contando um episódio ocorrido no Rio de Janeiro, onde motoristas de aplicativo e taxistas não param para cadeirantes, o que dificulta o trânsito pela cidade para suprir as demandas. Outro caso se deu em São Paulo: durante um apagão, os elevadores do prédio que hospedava os paratletas ficaram inoperantes e um dos nadadores, que teve a locomoção comprometida por uma paralisia cerebral, precisou descer cerca de oito andares usando a escadaria local.

38 revistacdm | sociedade

João Butka

A técnica evidencia seu sentimento de realização pela oportunidade de treinar pa-

ratletas: “Sempre foi um sonho poder treinar o paradesporto. E quando apareceu a oportunidade, não pensei duas vezes. Hoje, me encontro muito realizada. E não só realizada por estar no paradesporto. Eles [os paratletas] também me dão um retorno muito grande. A gente vem melhorando as marcas, vem conseguindo várias conquistas”. E ressalta que os esportistas paralímpicos “são pessoas que têm os seus direitos e podem estar dentro do esporte e competir como qualquer um. Claro que eles têm suas limitações e vão competir com pessoas que tem suas limitações. Mas eles têm total direito de estarem vivendo isso”. Um dos alunos de Sabino, Cleverson RIbeiro, de 27 anos, paratleta profissional, relata sua experiência com o esporte e revela casos de preconceito que sofreu. Ele pratica esportes desde os 6 anos. Já nessa idade, treinava motocross. No entanto, aos 10 sofreu um acidente de motocicleta durante a atividade esportiva e precisou amputar a perna esquerda. Isso não o impediu de se dedicar a outras modalidades. Tanto que praticou remo e canoagem, até, enfim, encontrar-se na natação. Apesar de hoje ser paratleta profissional, houve, durante sua jornada, uma série de obstáculos, dos quais o preconceito se sobressai. Certa vez, quando estava indo para uma competição de canoagem, Cleverson foi alvo de uma fala preconceituosa durante o voo de avião que transportava a equipe.

Professora diz que os paratletas treinam de segunda a sexta como qualquer outro atleta.


“Teve uma mulher que passou do lado e me empurrou. O meu técnico falou: ‘Cuidado, moça, o pessoal tem a perna amputada’. Ela falou: ‘Desculpa. Não sabia que aleijado podia ser atleta’. Foi algo que me abalou, que me marcou”, relembra o atleta. Também diz que, na escola, era comum que os colegas usassem termos pejorativos, como “saci” ou “sem-perna” para se referirem a ele. Apesar disso, a prática esportiva sempre o ajudou a enfrentar os preconceitos que insistiam em tentar desmobilizá-lo e atravancar seu caminho. “O esporte, para mim, hoje, é praticamente tudo”, sintetiza. Conheça: Para saber mais sobre como funciona uma partida de vôlei sentado, suas regras, tempo etc. Escaneie o QrCode.. portalcomunicare.com.br

João Butka

João Butka

Rotina: paratletas treinam de segunda à sexta das 8h até 12h. João Butka

sociedade editoria | revistacdm 39


Quanto mais mulheres, mais mulheres! Pouco presentes no esporte a motor, mulheres contam os desafios de ser mulher em um ambiente predominantemente masculino e conservador

Participantes do FIA GOT estágio em motorspost, realizado na Porsche Cup Brasil, conhecendo o autodromo de Interlagos Gabreille Tiepolo, Ana clara Bernardi e Ana Carolina Ferreira

editoria 40 revistacdm | sociedade


O

automobilismo é um esporte que desde sempre foi considerado masculino. As mulheres não tinham espaço para torcer, acompanhar, pilotar ou trabalhar na área. Atualmente, a presença feminina aumentou, mas está longe de ser a ideal. Elas estão cada vez mais inseridas no meio, porém, seguem tendo menos oportunidades que homens, enfrentando maiores barreiras, menores salários, menos incentivo e muito preconceito. A engenheira de competição da AMattheis Motorsport na Stock Car, Rachel Loh teve seu primeiro contato com o mundo automobilístico ainda na faculdade, através do projeto BAJA SAE. Foi a partir dele que ela decidiu que queria seguir carreira nessa área. Em 2005, ela se tornou a primeira engenheira de dados da Stock Car pela mesma equipe que está atualmente.

“Mulheres no grid nas mais diversas categorias servem de inspiração e referência.” - Rachel Loh

tras mulheres para as meninas que sonham em atuar no meio. “É muito importante ter referências na ativa. Não só a bia pilotando, mas várias mulheres no grid nas mais diversas categorias servem de inspiração e referência. Eu espero inspirar outras mulheres a seguirem a carreira de engenheiras no automobilismo.”

DESIGUALDADE Segundo o Relatório de Diferenças Salariais publicado pela Fórmula 1 em 2022, as mulheres representam apenas 30% dos trabalhadores. A categoria é a principal do ramo automobilístico mundial e conta com a segunda maior taxa de mulheres trabalhando com atletas masculinos. Além de ocuparem poucos cargos, elas recebem cerca 11% menos que homens em funções de menor impacto, e a diferença sobe para 20% em posições mais altas. Esse desequilíbrio diminuiu nos últimos quatro anos, saindo de 51% em cargos mais baixos e 72% nos mais elevados, para os números atuais. Na busca de tentar combater essa diferença no cenário brasileiro, Érika Prado, engenheira da TMG Racing na Fórmula 4, fundou o Girls Like Racing. O GLR é um projeto que tem como objetivo levar meninas que sonham em trabalhar com o automobilismo para conhecer a Stock Car, maior categoria brasileira do esporte.

A engenheira conta sobre os desafios e preconceitos que enfrentou no mercado. “No começo da minha carreira, as pessoas visitavam os boxes e sempre achavam que eu era do marketing ou de outra função de prestação de serviço ao público e pediam bonés e outros brindes. Quando eu falava que era engenheira da equipe, muitos achavam que eu estava mentindo e perguntavam se era permitido uma mulher estar naquele cargo. Acredito que até hoje algumas pessoas pensem assim, em muitas interações eu vejo as pessoas surpresas com a minha atuação, mas não falam mais abertamente.” Rachel também é engenheira da Bia Figueiredo, piloto da Copa Truck, e destaca a importância dela e de ou-

sociedade | revistacdm 41


lheres que estão presentes no esporte, há pouca visibilidade para as pilotos, engenheiras, mecânicas, é difícil ouvir falar delas. Então, a gente tem esse papel de vitrine, para mostrar essas mulheres e o de acolhimento para aquela mulher que sempre se sentiu sozinha, porque agora ela tem um espaço para fazer amigas e para frequentar o esporte que ela tanto ama. Érika enfatiza que o ambiente pode se tornar mais seguro, acolhedor e confortável para as mulheres, mas que elas próprias vão precisar agir para isso. “Quem vai fazer esse ambiente propício para nós, somos nós. Somente uma mulher vai indicar outra mulher

“A gente tem esse papel de vitrine, para mostrar essas mulheres e o de acolhimento para aquela mulher que sempre se sentiu sozinha.” - Erika Prado

O projeto surgiu em 2018, quando Érika e uma amiga estavam no GP do Brasil, acompanhadas por seus namorados da época. “Nós sentimos a necessidade de ter um grupo só de mulheres para ir às corridas, porque a gente tinha alguém que nos acompanhasse, mas algumas amigas minhas não iam por receio de ficaram sozinhas, e o ambiente na torcida não é muito acolhedor para as mulheres sozinhas.”

No início, o grupo era apenas para as mulheres irem juntas para o autódromo, mas com o passar do tempo, e com a adesão de cada vez mais mulheres ao Girls Like Racing, o projeto foi se moldando e se tornado um movimento. “Eu comecei a perceber que os homens se incomodavam com tudo. Eles se incomodavam com as mulheres produzindo conteúdo e falando de automobilismo. Para eles, uma mulher não sabia nada, não podia comentar nada. Essas atitudes foram abrindo meus olhos e me fazendo perceber o papel político de movimento que o Girls Like Racing tinha que fazer para mostrar que as mulheres estavam no esporte, sabiam do que estavam falando e gostavam realmente do meio.” Para a engenheira, o papel do GLR é mostrar referências de mulheres que trabalham no automobilismo para as meninas. “Pouco se fala sobre as mueditoria 42 revistacdm | sociedade

para um trabalho, somente uma mulher vai saber qual é o conflito que as outras passam. As mulheres têm que excluir a competitividade feminina, que é uma coisa que infelizmente ainda existe dentro do esporte. O que o patriarcado mais quer ver são as mulheres competindo entre elas, porque se a mulher estiver brigando com as amigas e colegas, ela não vai ter tempo para lutar pelos seus próprios direitos.”


dois anos, Isamara já cobriu algumas categorias, como a própria Fórmula 1, Fórmula E, Stock Car, Stock Séries, Fórmula 4 Brasil, TCR South America e Porsche Cup.

RESISTÊNCIA Carol Nunes é a primeira e única piloto trans do Brasil e uma das três pilotos trans do mundo. Desde sempre, ela precisou lidar com preconceito não só no meio automotivo, mas na vida.

Rachel Loh também está presente no Girls Like Racing, desde 2022, quando começou uma parceria da equipe AMattheis com o projeto para atrair mais mulheres ao automobilismo brasileiro. Além do GLR, Rachel também faz parte da Confederação Feminina de Automobilismo (CFA), que é responsável pelo FIA Girls On Track no Brasil.

Carol comenta que sempre teve vontade de correr e foi atrás desse sonho depois dos 20 anos. “Eu sempre fui apaixonada por automobilismo, sempre quis ser piloto, mas eu pensava que era um sonho inalcançável. Eu deixei essa vontade em segundo plano até meus 23 anos, quando decidi

“Para que haja um ambiente mais seguro e confortável, são necessárias cada vez mais mulheres na área.” O projeto FIA GOT tem - Isamara Fernandes como objetivo principal no Brasil inserir mulheres dentro do mercado automobilístico, em áreas como engenharia, mecânica, logística, comunicação e pilotagem. Rachel Loh, juntamente com Bruna Frazão coordenam o projeto que é presidido por Bia Figueiredo.

entrar para o automobilismo, entendi melhor como funcionava e sabia que era possível sim entrar de alguma forma, mesmo não correndo de kart

A jornalista Isamara Fernandes, do MotorSport.com, também foi convidada para participar do projeto FIA Girls on Track na Fórmula 1 em 2022. Ela agradeceu muito a oportunidade e também a Rachel, Bruna e Bia, pela experiência. “Para que haja um ambiente mais seguro e confortável, são necessárias cada vez mais mulheres na área não só do automobilismo, mas sim do jornalismo esportivo no geral, pois mulheres inspiram outras mulheres.” Participar do projeto foi um sonho realizado para a jornalista, “nos primeiros meses, eu sentia que estava na Disney, foi muito divertido, vi que cheguei no meu auge”. Trabalhando há sociedade | revistacdm 43


Sobre o preconceito, Carol diz que sofre constantemente e de diversas formas. “Muitas pessoas que assistem automobilismo têm preconceitos absurdos, já ouvi pessoas dizendo que eu não ia conseguir por ser mulher, ia bater o carro, ser desclassificada no treino. Já ouvi comentários preconceituosos dentro dos boxes comigo e com outras pilotos mulheres. Além disso, ainda preciso conviver com pilotos que foram abertamente preconceituosos comigo e seguem com patrocínio e correndo normalmente.”

desde criança, então, comecei a colocar em prática esse sonho.” A piloto enfatiza o quão difícil foi entrar no automobilismo. “Por não ter as condições financeiras necessárias para correr em uma categoria maior e não ter como alugar um carro para correr, eu decidi montar meu próprio carro e correr em alguma categoria mais acessível, então eu comecei pela Rio Climb Brasil.”

A piloto diz que utiliza desses comentários como motivação e conta uma história de quando foi subestimada apenas por ser quem é e se mostrou mais forte que os preconceitos. “Na Superliga, em 2021, um dos pilotos começou a questionar que eu não de-

“O automobilismo é um meio que já não temos muita oportunidade de modo geral, é um esporte muito difícil, e eu percebo que eu tenho Carol falou sobre o muito menos oportunidade sentimento de ser a primeira e única mulher trans no meio automo- do que as outras pessoas, bilístico brasileiro. “É uma responsabilidade justamente por ser uma gigantesca, porque eu virei uma referência pra muita gente da comunimulher trans.” dade LGBT+ no automobilismo e até fora dele. - Carol Nunes Eu sei que tem muita gente se inspirando em mim e me tendo como inspiração, então se eu falho na minha carreira, estou falhando com todas essas pessoas. O automobilismo é um meio que já não temos muita oportunidade de modo geral, é um esporte muito difícil, e eu percebo que eu tenho muito menos oportunidade do que as outras pessoas, justamente por ser uma mulher trans.”

44 revistacdm | sociedade

veria estar correndo com eles por ser uma mulher trans e queria de alguma forma que os organizadores da categoria me expulsassem de lá. Eu usei isso como combustível e foquei em ganhar todas as corridas, e se, não ganhasse, pelo menos estar à frente dessa pessoa. No final eu fui campeã da categoria e esse piloto nem sequer subiu no pódio.”


Carol enfatiza que o automobilismo precisa ser mais receptivo com as pessoas da comunidade LGBT+ e com as mulheres, trazendo essas pessoas para perto do esporte. “Como eu me tornei uma referência, acabei conhecendo várias pessoas que acompanham o meu trabalho e que disseram que gostariam muito de estar no automobilismo, mas não estão lá porque têm medo de sofrer preconceito. Tem uma parcela gigantesca de pessoas LGBT+ que são fãs do esporte, gostariam de estar lá e não estão. Eu acho que o automobilismo tem sim como ser mais aberto, receptivo e com diversidade, fazendo programas de inclusão e levando essas pessoas para as corridas.” A jornalista Isamara diz que é constantemente atacada em lives da MotorSport e lê mensagens dizendo que ela não deveria estar ali, juntamente com comentários maldosos sobre ter sido contratada para a empresa cumprir cotas, “sofri preconceito por estar ali, porque um cara não consegue aceitar que eu, como mulher, estou fazendo um trabalho tão competente quanto um homem”. Apesar da luta diária, Isa enfatiza que ser mulher no automobilismo é prazeroso, pois pode levar uma outra visão para o esporte, que os homens não tem, com uma pegada mais feminina. No começo, ela não conseguia lidar muito bem com a chuva de comentários negativos. A jornalista comenta que já pensou em parar de fazer vídeos e aparecer em lives por conta das ofensas, mas no final, percebeu que comentários e xingamentos não a definem. Em um de seus vídeos publicados, diversos homens começaram a atacar por conta do modelo de óculos que ela estava usando, “falavam que atrapalhava minha beleza. Eles se acham no direito de comentar sobre a nossa aparência pois se sentem superiores”.

Mesmo cumprindo seu papel de passar informações ao público, muitas pessoas ignoram o fato, e se sentem no direito de comentar sobre sua aparência. Patrícia Alencar, mecânica da equipe AMattheis, também já ouviu comentários maldosos sobre ser mulher no automobilismo, “perguntavam se não tinha um trabalho mais feminino para mim, já ouvi gente querendo saber se eu realmente sei trocar um câmbio, tirar uma roda”. Ser a primeira mecânica da Stock é uma experiência bem legal para Patrícia. Em outras categorias que ela iniciou sendo a primeira mulher mecânica, ela não saiu sendo a única. “É motivo de orgulho ser a primeira, mas será motivo de vergonha se só tiver eu.” Motivando as meninas que querem seguir na área, Isamara diz para continuarem na luta, insistindo sem desistir quando ouvirem comentários negativos. “É muito gratificante ver o potencial que cada pessoa tem, além disso, a resiliência é uma das principais bases para alcançar seus objetivos.”

sociedade | revistacdm 45


Casa, crise e conflitos Ana Carolina Ferreira, Ana Clara Bernardi e Gabrielle Tiepolo

P: Olá, me chamo A.S. tenho 26 anos, sou bissexual e estou com alguns problemas em meu relacionamento. Para contextualizar, me casei aos 19 anos, já estive em outros relacionamentos com homens e mulheres, mas o meu marido (32) foi o meu primeiro relacionamento sério. Quando me assumi para ele, aparentemente não ligou muito, mas hoje demonstra ciúmes. Estamos casados há 7 anos e entramos na famosa crise. Alguns dias atrás, ele me disse que tinha interesse em abrir o relacionamento, porém eu só poderia ficar com mulheres, caso eu ficasse com um homem, ele disse que consideraria uma traição. Quero salvar o casamento, mas sinto como se ele estivesse invalidando minha sexualidade. Como devo seguir?

E

xiste uma grande problemática em homens que fetichizam mulheres bissexuais, e isso envolve objetificação, invalidação da sexualidade, e dinâmicas de poder e controle.

Fetichizar mulheres bissexuais reduz sua sexualidade a fantasias sexuais, desconsiderando seus sentimentos, desejos e individualidades. Isso transforma sua sexualidade em um objeto de prazer para os homens, em vez de ser uma parte autêntica de quem elas são.

46

Além disso, pode ser usada como uma forma de controle, onde o parceiro masculino impõe condições sobre com quem a mulher bissexual pode ou não se envolver. Isso não apenas tira a liberdade da mulher, mas também reforça a ideia de que o homem manda na relação. Esses problemas destacam a importância de abordar a sua sexualidade de maneira respeitosa, reconhecendo e valorizando quem a pessoa é, em vez de reduzi-la a um mero fetiche ou fantasia. Para responder alguns questionamentos que surgem na tentativa de solucionar este problema, procuramos a sexóloga Andréa Rodrigues para desvendar a não monogamia.


ANRÉA RODRIGUES

NOSSOS LEITORES COMENTAM

P: Por que o homem sente a necessidade de abrir o relacionamento, mas impondo restrições à sua parceira?

1: Sou completamente contra relacionamento aberto, jamais abriria o meu, pois acredito que sai do padrão de família que acredito.

R: A necessidade de abrir o relacionamento pode surgir de diversas motivações para diferentes pessoas. Às vezes, um homem pode sentir essa necessidade por uma variedade de razões, como curiosidade, desejo por variedade sexual, ou até mesmo por questões emocionais, como a sensação de estar limitado ou sufocado. Quando ele impõe restrições à parceira ao sugerir abrir o relacionamento, pode haver várias razões implícitas. Uma delas pode ser o medo da perda, onde ele pode querer experimentar algo novo, mas ainda deseja manter a segurança e o conforto da relação atual. Ele pode temer que, se a parceira também estiver livre para explorar, ela possa encontrar algo que a faça questionar a relação existente. Outra razão pode ser o desejo de manter o controle, onde ele quer a liberdade para buscar novas experiências, mas ao mesmo tempo, quer garantir que a parceira não ultrapasse certos limites que ele estabeleceu.

2: Sou muito ciumenta e paranoica, me sentiria mal de ter que dividir a pessoa que amo. Inclusive, acredito que quem é poligâmico não ama de verdade. 3: Acredito que o mundo é livre e devemos amar quem quisermos, porém sem deixar invalidar nossa sexualidade. 4: Sou a favor, sou mulher e tenho relacionamento com um homem e uma mulher, e me encontrei na poligamia pois tenho muito amor pra dar e posso distribuir melhor para outras duas pessoas.

P: Como ela deve agir nessa situação?

Fora todos esses concelhos, o conforto e consentimento são fundamentais para qualquer arranjo que vocês decidam, então considere também a possibilidade de procurar terapia de casal. Um profissional pode ajudar vocês a navegarem por esses sentimentos e desejos de uma forma estruturada e respeitosa. Às vezes, um mediador pode facilitar conversas difíceis e ajudar a encontrar um terreno comum.

R: É crucial que ela aborde essa questão de uma maneira honesta e respeitosa. Antes de iniciar a conversa com o parceiro, é importante que ela reflita sobre seus próprios sentimentos e necessidades. Entender claramente quais são seus limites e desejos em relação ao relacionamento é fundamental.

Lembre-se, o relacionamento saldavél é onde seus desejos e limites sejam respeitados tanto quanto os dele. No final das contas, a decisão de abrir ou não o relacionamento deve ser uma escolha mútua e consensual, que faça ambos se sentirem seguros e valorizados e sua sexualidade sempre respeitada.

Se ela sente sua sexualidade invalidada e não consegue resolver a situação sozinha, pode ser útil buscar apoio de amigos, familiares ou até mesmo de um terapeuta. Ter alguém para conversar e oferecer perspectivas externas pode ser muito esclarecedor. Se o parceiro não estiver disposto a ouvir e respeitar os sentimentos e limites dela, pode ser necessário reavaliar o relacionamento e considerar se é saudável permanecer nele.

47


O + DO LGBT

A variedade de sexualidades e gêneros gera preconceito pelo tamanho da sigla e pela crença de que “não existem” Isadora Lara Guerra, Krissians Torres, Lara Wilsek e Luiza Braz

editoria 48 revistacdm | comportamento


M

arco Túlio Xavier da Rocha vive sua rotina normalmente aos 32 anos. Ele trabalha, tem sua família e seus hábitos do cotidiano. Mas o sentimento real e profundo de liberdade vem durante algumas horas de sua semana, quando coloca suas perucas, seus figurinos coloridos e seus saltos altos e passa a ser chamado de Poc Blogueirinha. Para ele, ser drag queen é uma explosão de arte, “é onde você caminha entre as vertentes e sem depender de nada, porque a arte é livre. A arte pode ser usada por qualquer corpo, por qualquer ser, então ser drag para mim é algo que me liberta muito, é algo que me faz feliz”. Apesar de não fazer parte oficialmente da sigla “LGBT+”, o movimento das drag queens é diretamente associado à comunidade, que é um universo muito amplo, a ponto de muitas vezes existir preconceito entre eles. Se dentro da comunidade existem problemas, fora dela isso é ainda mais comum. Apesar de ser libertadora e

gratificante para quem faz parte, essa expressão artística é vista com maus olhos por parte da sociedade. São barreiras impostas para conseguir um emprego regular, para entrar em um relacionamento e simplesmente para ser levado a sério. A intolerância sofrida por drags é muito similar aos preconceitos enfrentados pelos LGBT+, como exemplifica Poc Blogueirinha, ao relatar um encontro que teve com um homem, desmontada, e ao chegar na casa de Marco e o homem ver as perucas e saltos expostos disse: “não vai rolar, porque não fico com quem usa peruca”. A explicação de que “você não vai ficar com a minha drag, vai ficar comigo” não foi suficiente, era: “Ou você para de fazer a drag, ou a gente termina por aqui e cada um vai para o seu lado”. No século 21, a sigla LGBT+ dobrou de tamanho. Atualmente, a sigla oficial é LGBTQIAPN+, mas algumas correntes defendem que o seu desdobramento vai até as letras LGBTQQICAAPF2K+. A cada letra acrescentada, surgem mais comentários preconceituosos. As falas giram em torno do argumento Isadora Lara Guerra

Poc Blogueirinha em dia de performance em Curitiba. comportamento editoria | revistacdm 49


Acervo Pessoal

João Neto em momento de lazer. que essas identidades sexuais e de gênero são “mimimi”, apenas invenção de uma geração “desocupada”, e que quer “chamar a atenção”. Apesar da homofobia ser criminalizada no Brasil e do Supremo Tribunal Federal (STF) ter reconhecido que atos ofensivos praticados contra pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ podem ser enquadrados como injúria racial, o país ainda está longe de ser referência no assunto. Dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) apontam que, em 2023, o país registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+. Esse número coloca o Brasil como o país que mais mata essa população no mundo pela 14ª vez consecutiva. A ONG, que é a mais antiga da América Latina destinada a atender essa população, atenta que ainda pode haver subnotificação de casos, uma vez que a orientação ou identidade sexual das vítimas é omitida. As pessoas da comunidade que não são vítimas fatais, não estão imunes de enfrentar situações como discriminação, desmerecimento, comentários de cunho depreciativo e violência física e verbal. Esses são alguns dos episódios que aparecem diariamente em noticiários brasileiros.

editoria 50 revistacdm | comportamento

DEMISSEXUAL João Neto, de 30 anos, é demissexual hétero. Ele sente atração sexual apenas quando há envolvimento emocional com a outra pessoa - no caso dele, uma mulher. Para João, por desconhecimento ou preconceito, as pessoas encaram a demissexualidade não como uma orientação, mas sim como um comportamento. O que acontece é que esse tipo de sexualidade faz parte da área cinza da assexualidade (A+), sendo mais recente que as demais orientações da sigla. Para ele, “como os debates sobre assexualidade começaram bem mais tarde em relação a outras siglas da comunidade, ainda há muita falta de conhecimento por parte das pessoas sobre nossas vivências.” João relata que já passou por algumas situações preconceituosas por conta de sua sexualidade. A mais marcante foi quando compartilhou com um grupo de conhecidos sobre a demissexualidade e escutou que aquilo era algo retrógrado, assim como o celibato. Mesmo com tantas provas concretas de que o Brasil é um país preconceituoso quando se diz respeito à sexualidade e identidade de gênero, é comum se escutar que a situação “é exagero” ou “invenção da mídia”. Mas, contrariando quem nega a realidade, o LinkedIn divulgou no ano de 2022 um levanta-


mento que apontou que 43% das pessoas que se identificam com alguma sexualidade da sigla, informam já ter sofrido algum tipo de preconceito, principalmente piadas e comentários homofóbicos. Por trás da sigla, há apenas pessoas dispostas a expressarem quem realmente são, livre de preconceitos e sem o medo de ser vítima de algum tipo de violência.

PANSEXUAL Carla (nome fictício) tem por volta dos 20 anos, para manter sua privacidade, preferiu não se identificar, é panssexual. Ela pode desenvolver sentimentos e atração física por outras pessoas,

independente da identidade de gênero ou sexo biológico. Já perdeu amizades depois de se abrir sobre sua orientação sexual. Carla relata que há alguns anos, compartilhou sobre suas vivências com a mãe de uma amiga bem próxima, e o resultado veio alguns dias depois, quando a mesma amiga disse que ela não poderia mais frequentar a sua casa, já que sua mãe não gostaria que ela tivesse “esse tipo de amizade” por perto. Para ela, o problema não se deve a apenas uma razão, é “uma questão estrutural, social e não exclusivamente, mas também, geracional. E ainda falta para a sociedade entender que nenhuma sexualidade é mais importante, e merece mais visibilidade, do que a outra, todas merecem respeito” Acervo Pessoal

Fonte anônima participando da parada LGBT 2022. comportamento editoria | revistacdm 51


O estigma persegue quem se identifica com qualquer parte da sigla, seja ela LGBT+ ou LGBTQQICAAPF2K+, mas também quem se expressa através da arte. Acolher quem as pessoas são, seja por expressões culturais, como drag queens, ou por se identificarem

diversas mudanças e atualizações, de acordo com a necessidade de mais representatividade das demais identidades de gênero e opções sexuais. As duas letras mais recentes adicionadas à sigla são o P e o N, que representam

“Nenhuma sexualidade é mais importante, e merece mais visibilidade, do que a outra, todas merecem respeito.” Carla (Nome fictício) com alguma sexualidade ou gênero, não é apenas fundamental, mas sim o mínimo necessário para que a sociedade possa evoluir no lado humano, respeitoso e livre de barreiras.

os pansexuais e os não binários, pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher, coincidem com a sexualidade e o gênero de Letícia Nazari, de 20 anos.

Nos anos 1990, a primeira sigla relacionada ao movimento a ganhar força foi a GLS, que incluía gays, lésbicas e simpatizantes. Ao longo dos anos, o S foi retirado e a sigla passou por

Para elu, a questão do tamanho da sigla, pode ser tão positiva quanto negativa. “Por um lado, as letras serem adicionadas na sigla, traz sim uma visibilidade, com as pessoas interessa-

editoria 52 revistacdm | comportamento


Acervo Pessoal

das e questionando, ‘que letras são essas que foram adicionadas?’ e indo atrás de aprender. Mas pelo outro, senti que trouxe muito discurso de ódio, pessoas debochando e dizendo que é muita letra para decorar. Para mim, que vivo nessa bolha, é fácil, agora para as pessoas como o meu pai, que consomem um conteúdo totalmente diferente disso, olham e pensam ‘Meu deus o que é isso?’ e nos julgam ainda mais”.so, olham e pensam ‘Meu deus o que é isso?’ e nos julgam ainda mais”.

Conheça Confira filme Pray Away, sobre a “terapia de conversão”, movimento contrário à comunidade LGBTQIAPN+ portalcomunicare.com.br

Apesar de não binário, elu adora se maquiar.

Importância das bandeiras Apesar de muitas sexualidades e identidades de gênero ainda não estarem presentes na sigla, um grande símbolo para a maioria delas está em suas bandeiras. Para todos que se identificam na comunidade, as bandeiras realizam um papel fundamental de representação, empoderamento e reconhecimento. Além de servirem como um instrumento poderoso para promover conscientização nas mobilizações sociais. O primeiro estandarte foi criado para o Dia da Liberdade Gay de San Francisco, na Califórnia, por encomenda do ativista Harvey Milk para o designer Gilbert Baker em 1978. A bandeira original tinha as 7 cores do arco-íris, mais o rosa. A primeira mudança diminuiu as faixas para somente 6 cores. O jornalista, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autor do livro A Cor Como Informação, Luciano Guimarães explica, em entrevista ao Brasil de Fato, que “com cores de matizes básicos, intensos e vivos, cada uma carregada de simbologia e expressão próprias, essa bandeira consegue passar tanto uma mensagem de intensidade

e alegria quanto de lugar de todos, mais como lugar de direito do que busca pela inclusão, no sentido de reconhecimento da diversidade em si”. Depois, outras bandeiras foram desenhadas. O ativista Michael Page formulou a bandeira LGBTQIAP+ Racial, com uma faixa preta e uma marrom antes da vermelha. Em 2018, o designer Daniel Quasar redesenhou o símbolo com faixas em branco, rosa, azul, marrom e preto formando um grafismo em “v”, como se fosse uma seta da esquerda para a direita, que indica o progresso. No geral, entre ativistas e especialistas, a bandeira com 6 cores ainda é o símbolo mais forte de representação da comunidade. Guimarães argumenta que “desde o início, a representação não está no que cada cor simboliza, mas no uso da bandeira em si”, e complementa, “apesar disso, as faixas que apontam para a pauta racial podem ser interpretadas como uma camada a mais na defesa dos direitos LGBT”.

comportamento editoria | revistacdm 53


Quando o natural se torna tabu

O afeto materno de amamentar é muitas vezes camuflado, ou escondido, para não ser julgado Arthur C. Zablonsky, Beatriz Mangili, Emilay Aguiar e Manuela Gouvea

editoria 54 revistacdm | comportamento


Manoela Gouvea

V

ocê não quer um paninho?” ou “Nossa, você vai amamentar aqui?”. Estes são apenas alguns dos questionamentos e burburinhos que teceram uma teia de desconforto em direção a uma mãe porque tirou um lado de sua blusa e expôs seu seio para amamentar sua filha em um ambiente público. Sara da Rocha Miqueluchi, uma microempreendedora de 28 anos, teve que enfrentar não apenas essas perguntas, mas também o olhar incômodo da sociedade enquanto realizava, como dito por ela, “um grande ato de vínculo entre mãe e bebê”. Seu gesto é um reflexo da realidade compartilhada por inúmeras mães que, como ela, enfrentam esse preconceito e incompreensão em ambientes como shoppings, estabelecimentos comerciais e espaços públicos. Em meio às complexidades de um ato tão simples e natural, uma das maneiras de encontrar conforto reside em uma singela prática de cobrir o seio com um paninho. Essa “tradição”, passada de geração em geração, é o reflexo da experiência da mãe de Sara, Maria Antônia da Rocha Lopes, 54 anos, que abdicou de trabalhar e dedicou sua vida ao lar e em prol da maternidade. “Eu cobria, gostava de cobrir, me sentia um pouco mais confiante e confortável para amamentar. Eu sempre fiz isso. Hoje, vejo minha filha não cobrir, assim como a maioria das mães, mas eu cobria, isso era meu”, recorda ela.

inconsciente da sociedade e dos julgamentos.” Há nove anos, uma pesquisa realizada pelo Lansionoh Laboratórios, envolvendo 13.348 mães brasileiras, revelou que 47,5% delas já enfrentaram preconceito ao amamentar em público, um problema que, evidentemente, ainda persiste na atualidade. A discussão em torno do ato de amamentar em espaços públicos ganhou ainda mais relevância com a aprovação do projeto de Lei 1.654/19, proposto em 2019. Esse projeto de lei estabelece o direito das mulheres de amamentarem seus filhos em locais públicos sem enfrentarem discriminação ou constrangimento. Além disso, prevê que, caso esse direito seja violado e a mãe sofra danos em decorrência dessa violação, há a obrigação de reparação desses danos por parte daqueles que tenham causado ou contribuído para a situação.

ATRAVÉS DE GERAÇÕES O embate entre as gerações se revela como um grande aspecto neste tema, pois as formas de criação e os comportamentos das mulheres contrastam com os atuais, marcados por uma

“por uma questão cultural enraizada, impulsionada pelo pudor e pelos costumes de uma época em que o corpo deveria ser ocultado.” -Sara da Rocha Miqueluchi, microempreendedora

Apesar de parecer simples, cobrir-se durante a amamentação levanta questionamentos como: “Isto é uma precaução contra preconceitos?” ou “Isto é uma forma de evitar situações desagradáveis?”. Lara Duarte Nieshiyara, analista de sistemas, de 29 anos, relata: “Sempre que vou amamentar, tenho o costume de me cobrir. Acredito que venha justamente do inconsciente, do medo

gradual conquista de direitos antes negados. A crescente liberdade para discutir questões relacionadas à sexualidade e ao corpo feminino reflete uma mudança significativa em relação ao passado, quando tais temas eram envoltos por tabus.

comportamento | revistacdm 55


A complexidade dessa questão se estende até mesmo à amamentação, como ressalta Daniele Aggio Oyama, 39 anos, enfermeira especialista em neonatologia, pediatria e aleitamento materno. Ela observa que as gerações mais antigas carregam consigo uma aversão a exposição de seus corpos, o que se repercute em comentários como “Esconde esse peito” e “Cobre o seu seio e o rosto do bebê”. Essas situações, relatadas por suas pacientes, desencadeiam um embate no qual Daniele busca oferecer apoio e orientação. “Geralmente, são as mulheres mais velhas que sugerem o paninho, mas por uma questão cultural enraizada, impulsionada pelo pudor e pelos costumes de uma época em que o corpo deveria ser ocultado. Hoje, porém, desfrutamos de uma maior liberdade em relação ao corpo”, retrata Sara da Rocha Miqueluchi, uma microempreendedora de 28 anos. O ato de amamentar transcende um simples gesto, é fundamental para a saúde e desenvolvimento dos bebês. O dia 1° de agosto é considerado como o Dia Mundial da Amamentação desde 1992, uma data para celebrar a

importância deste ato. O leite materno, além de ser a principal forma de alimentação, é uma poderosa fonte de vitaminas, minerais e gorduras essenciais para o crescimento da criança. Mais do que isso, serve também como uma poderosa arma na prevenção de doenças. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é recomendado que os bebês sejam alimentados exclusivamente com leite materno até os 6 meses de idade. Embora a amamentação seja indispensável para a saúde dos bebês, as mães se veem necessário enfrentar um obstáculo peculiar, o preconceito ao amamentar em público. Este ato, que deveria ser visto como parte natural da vida e do cotidiano, é distorcido e, muitas vezes, sendo vítima de olhares e comentários julgadores. O que deveria ser um gesto de carinho e nutrição é associado a algo nojento ou sexualizado. A palavra “sexualização”, infelizmente, é fortemente atrelada ao contexto feminino em uma sociedade enraizada no machismo. Neste cenário, as mulheres encontram-se vulneráveis em qualquer momento, desde simplesmente caminhar sozinha na rua ou vestir roupas consideradas curtas. Agora, adicione a isso mais um aspecto: até mesmo mães são afetadas por essa sexualização quando optam por simplesmente amamentar seus filhos em locais públicos. Para Lara Duarte Nieshiyara, analista de sistemas de 29 anos, “o principal ponto de uma mulher alimentando em público são os olhares maldosos relacionados a sexualidade.”. No estado do Paraná, o direito de amamentar em público é assegurado desde 2015 pela Assembleia Legislativa do Paraná. A lei 18.536/2015 proposta pela deputada Claudia Pereira e pelo deputado Tercílio Turini, estabelece o direito de amamentar em qualquer estabelecimento, visando incentivar o aleitamento materno e o fortalecimento de laços entre mãe e bebê. Essa lei prevê multa

editoria 56 revistacdm | comportamento


conforme o artigo 56 do Código de Defesa do Consumidor, garantindo os direitos das mães e de seus filhos. O preconceito, definido como uma opinião ou conceito formado antes mesmo de conhecer verdadeiramente algo ou alguém, é uma carga pesada que influencia a consciência e os gestos de mães. Essas mulheres, reconhecidas por sua importância na vida de um bebê, enfrentam dificuldades ao expor seus corpos para desempenhar seu papel crucial na formação de vínculo entre mãe e filho. Uma iniciativa que surgiu para proporcionar segurança às mães é a implementação de salas de apoio à amamentação, especialmente em ambientes de trabalho. Em Curitiba, no ano de 2023, foi inaugurada a primeira sala com essa finalidade no Palácio Iguaçu. Essa medida faz parte do pacote de dez ações de Valorização da Mulher Administração Pública Estadual, destinada a oferecer um espaço adequado às mães, que atenda aos padrões necessários para seu conforto, além de servir um local para Banco de Leite. Nos espaços públicos ou shoppings, outro recurso que visa oferecer conforto às mães para amamentar são os espaços familiares. Esses locais contém fraldas, itens de higiene, trocadores, banheiros e até poltronas especialmente projetadas para amamentação. Alternativas para o conforto da mãe e bebê não são apenas necessárias, mas também cruciais. No entanto, o respeito pelo corpo da mãe é fundamental,pois é neste corpo que reside a capacidade de cuidar e nutrir a vida que se inicia. A exposição dos seios, longe de ser ser um ato trivial, é a expressão máxima desse cuidado.

Para mais dicas sobre amamentação e cuidados com os bebês acompanhem a Daniele Aggio Oyama no Instagram. portalcomunicare.com.br

Manoela Gouvea

Leia mais

comportamento editoria | revistacdm 57


Nudez julgada Por trás das câmeras, mulheres e homens vendem conteúdo adulto em plataformas digitais e lidam diariamente com o preconceito Maria Luisa Cordeiro | Maria Luiza Baiense Maria Gabriele Fachini | Mariana Machado Ilustrações: Carlos Pontes

H

oje é domingo. Letícia, formada em Direito, acordou às cinco horas da manhã a semana inteira para trabalhar como assessora do delegado na Delegacia Civil do Paraná, auxiliando nos processos e investigações de suspeitos, além de usar seu tempo livre para estudar para as três pós-graduações e uma especialização. Mas hoje é seu dia de folga. Hoje ela não é a Letícia, mas a Luma. Luma é empresária e modelo, e seu trabalho de hoje será produzir material para postagem em um site de conteúdos adultos. Luma e Letícia são diferentes partes da vida de uma mesma pessoa. Letícia começou a ser modelo com 14 anos e, com 18 anos, seu pai, que fotografa como hobbie, conseguiu para ela seu primeiro ensaio de nudez artístico. Durante as fotografias ouviu que não sabia modelar. Naquele instante, Luma nasceu com a determinação de se tornar a melhor do ramo. Ela cresceu e tomou gosto pelas fotos mais sensuais. Com a pandemia, em novembro de 2020 Luma começou a mapear um mercado que estava em crescimento exponencial: o de plataformas

58 revistacdm | comportamento

de conteúdo adulto, como Onlyfans, Privacy e até o Telegram. Após cinco meses de pesquisas, decidiu, em abril, que iria testar postar um pouco das 250 gigas de material que tinha guardado e não poderia ser publicado em suas redes sociais. Em poucas horas ela arrecadou mais de R$1.500, sem qualquer tipo de divulgação e cobrando $10 dólares a assinatura. Hoje é quarta-feira. Hoje é dia de usar suas redes sociais e produzir conteúdo respondendo seus 25 mil seguidores. A menina de cabelos pretos e olhos enormes é Loyola. Assim como Luma, ela também é produtora de conteúdo adulto. E hoje é apenas a ela que temos acesso, sua personalidade profissional, mas não sua vida pessoal, que por questão de privacidade prefere manter em anonimato. Loyola começou a produzir conteúdo entre o final de 2019 e começo de 2020. O seu gosto por fotos sensuais vem desde mais jovem, mas foi a partir dos 18 anos que começou a publicar seu trabalho. Para ela, o corpo é uma arte. Suas fotos e vídeos seguem uma linha de produção mais artística e profissional. Muito além do que seu trabalho, a produção de conteúdo é um gosto pessoal.


O SEU LADO DA HISTÓRIA Letícia já teve que enfrentar comentários e olhares por causa de Luma. Quando trabalhava na Delegacia da Mulher de Curitiba, já teve que ouvir de colegas que seu vestido solto que ia até o joelho não era apropriado, porque ela lidava com suspeitos de estupros e feminicídio. “Foi chocante ao nível de me encurralaram em uma sala para pedirem para mudar de roupa”, conta. No seu primeiro dia de trabalho em uma nova delegacia foi testada pelos colegas por não ser considerada eficiente como investigadora. Além de, claro, ouvir diversas insinuações que apenas conseguiu boas notas ou bons cargos porque estava transando com algum supervisor. Xingamentos e comentários machistas, como “puta”, “vagabunda”, prostituta”, infelizmente, já se tornaram até padrão para ela.

Para Loyola os obstáculos são os mesmos. Ela cresceu em uma cidade pequena do interior do Paraná e até hoje lida com as dificuldades da exposição do seu trabalho. Sua voz suaviza e embarga ao falar de seu passado. Trabalhou anos como voluntária no grupo de escoteiros da sua cidade, até o momento em que uma das participantes descobriu sobre suas fotos e compartilhou com todo o grupo. Loyola foi julgada e condenada sem nem ao menos ter a chance de se defender. Foi convidada a se retirar. Um espaço que antes era de amor e felicidade, da noite pro dia só sobrou preconceito e tristeza.

Acervo pessoal / Loyola

Letícia já até chegou a fazer boletim de ocorrência por difamação. Uma conhecida disse ao seu namorado da época que a viu num site para acompanhantes, o que Luma destaca que é mentira. “Eu já me exponho tanto, se fosse verdade não teria nenhum problema de admitir, mas não é”. Recorreu aos direitos e a processou por difamação, porém o caso foi arquivado. Em outro momento, Letícia

recebeu insinuações de um colega de trabalho casado e com filhos. Ao receber um “não”, ele começou a pedir sua demissão.

Loyola preza acima de tudo pela privacidade de sua vida pessoal

comportamento | revistacdm 59


Apesar das dificuldades, Luma consegue conciliar o trabalho com a vida pessoal Loyola transformou seu gosto pela cultura japonesa em sua profissão. Seu diferencial está nas fotos vestidas de cosplay, ou seja, fantasiada como um personagem de jogos digitais. Por mais que pareça ser um clima divertido e entretenimento, é dali que surgem as maiores chuvas de ódio. Ao postar uma foto com decote num grupo de Facebook de cosplay, em poucos minutos recebeu mais de mil comentários contendo apenas xingamentos. E ao contrário do que se pensa, a maior parte desse ódio e julgamentos moralistas vem de jovens de 16 e 17 anos. Em 2021, Luma passou pelo seu maior desafio. Sua conta no Instagram que já contava com 27 mil seguidores foi banida. Todas as suas lembranças, suas fotos, seus trabalhos e memórias pessoais desaparecem do dia para a noite. Ela teve que reconstruir todo o seu portfólio e hoje sua rede social conta com mais de 15 mil seguidores. Luma

60 revistacdm | comporta-

e Loyola já tiveram seus conteúdos “vazados” pela internet, ou seja, seus materiais foram compartilhados fora de suas plataformas sem o seu direito de imagem. Esse é um risco que elas aceitam correr por estar na internet. Para a mestranda em Direitos Humanos e Políticas Públicas, Ana Beatriz Starowsta, apesar da ascensão das plataformas digitais e do fato de muitas mulheres, inclusive famosas, terem divulgado os seus perfis nessas plataformas de conteúdo adulto em outras redes sociais, fazendo com que a atividade fosse mais notada, o estigma ainda é muito presente na nossa sociedade. A pesquisadora ainda destaca que muitas vezes produtores de conteúdo em plataformas digitais acabam se deparando com a falta de direitos trabalhistas e a dificuldade no acesso à justiça, “muitas mulheres com uma

mento

Fernando De Santis


rotina exaustiva de trabalho, para além de estarem sujeitas a uma série de riscos, cujo manejo incumbe às próprias trabalhadora, considerando que as plataformas se isentam de quaisquer responsabilidades”.

tando o concurso nacional. Em 2024 desfilou para uma escola de samba

“O machismo já lucrou tanto em cima de mim, me objetificando. Então agora eu lucro com o machismo.”

POR TRÁS DAS CÂMERAS Assim como Letícia, Loyola tem sua agenda muito cheia. Depois que começou seu trabalho nas redes sociais, ela entrou para a faculdade e ano que vem se forma em Publicidade e Propaganda e já tem planos para uma pós-graduação em Audiovisual. Além disso, suas experiências em social mídia e marketing digital do passado, hoje são de grande valia para o trabalho com redes sociais. Por fim, além de ser modelo, Loyola também trabalha como fotógrafa. Seus conteúdos explícitos não prejudicaram Luma com sua relação familiar e muito menos a afastaram de relacionamentos amorosos. Pelo contrário. Seus ex-namorados sempre a apoiaram, e por vezes a ajudavam com as fotografias e vídeos caseiros. “Isso quando também não participavam nos vídeos junto”, comenta. No início suas postagens eram apenas de fotos e vídeos sem mostrar o rosto, mas com o tempo foi se tornando mais “intensas”, até hoje se tornarem explícitas. “O machismo já lucrou tanto em cima de mim, me objetificando. Então agora eu lucro com o machismo, se eles vão me objetificar, tudo bem, você está me pagando”. Hoje Luma já foi tema de reportagem para a Suicide Girls - um site de referência em conteúdo adulto; capa da revista Sexy 2023, além de entrar para o grupo de modelos da playboy; e ser musa do Atlético Paranaense, dispu-

Luma, criadora de conteúdo em Curitiba, além de participar como ring girl (modelos que levantam as placas no início dos ringues de luta) e dar entrevistas para a televisão. Loyola também já posou três vezes para a Revista Sexy. E mais recentemente, ambas foram indicadas ao Multyfans Awards, uma competição que premia as melhores produtoras de conteúdo adulto. “Todo mundo conhece a Luma, mas nem todo mundo tem acesso à Leticia”. Luma é a figura forte, autoconfiante, determinada, ousada e intensa de Letícia. Letícia chora, ri, se lamenta do bullying que sofreu na infância por ser uma mulher amarela, se fortalece após um relacionamento abusivo e violento e busca superar o luto da perda de sua melhor amiga em 2021 pelo COVID-19. Luma recebe críticas, mas Letícia também recebe muitos elogios e defensores.

PARA ALÉM DAS FOTOGRAFIAS Hoje é segunda-feira. Em São Paulo, Carmona, além de tirar fotos para vender em sites de conteúdo adulto, já gravou cenas do seu próximo filme pornográfico. Ele entrou nesse ramo em 2016, passando a trabalhar como ator pornô apenas em 2020, com produções homossexuais, héterosexuais e transsexuais. Por trás do preconceito, revela-se um trabalho com muitas responsabilidades. “Você não pode só vagabundear também, procrastinar”, ele reflete, ciente de que cada momento desperdiçado é uma oportunidade perdida. “Porque é um autônomo, se vendeu ganha, não vendeu cê não ganha”.

61


Lucas Ramos Full

Essa abordagem cuidadosa e profissional representa uma mudança radical em relação ao passado da indústria. Mostra que as produções envolvem seres humanos reais, cujas vidas e dignidade merecem ser respeitadas e protegidas. E é nesse esforço contínuo pela profissionalização e responsabilidade que a indústria do conteúdo adulto se encontra. Também relata a diferença entre a criação de conteúdo e a prostituição. Em sua profissão na criação de conteúdo adulto, Carmona desfruta de uma liberdade que muitas vezes escapa aos trabalhadores do sexo. Ele pode escolher com quem trabalha e com quem contracena, um luxo que muitas vezes é negado àqueles que trabalham com prostituição, onde a escolha é frequentemente substituída pela necessidade e exploração.

Carmona defende a dignidade dos produtores de conteúdo No turbilhão do mundo artístico contemporâneo, persistem moralidades antiquadas e julgamentos implacáveis. Para muitos, a expressão sexual na arte ainda provoca julgamento. Mesmo em uma era que se orgulha de sua liberdade, o tema do sexo permanece um tabu. O produtor contempla os padrões da sociedade, que mantêm uma postura aparentemente “puritana”. Apesar disso, ele adota uma mentalidade “desapegada” em relação aos preconceitos e críticas, afirmando não passar por confrontos abertos em seu dia a dia. Um contraste direto com relatos de trabalhadoras do ramo. Carmona descreve o ritual meticuloso que precede qualquer trabalho na indústria atualmente. Antes que comecem as gravações, há uma série de procedimentos que devem ser seguidos. Exames médicos são trocados, garantindo a saúde e o bem-estar de todos os envolvidos. Conversas são realizadas, alinhando expectativas e limites, delineando claramente o que será explorado.

62 revistacdm | comportamento

Além disso, Carmona destaca o papel da atuação na criação de conteúdo adulto como um elemento que distingue ainda mais sua profissão da prostituição. Enquanto na pornografia, a atuação desempenha um papel central, não envolvendo necessariamente a “satisfação”, na prostituição essa distância muitas vezes não existe. Hoje é sábado, Tiago e Gaby Oliveira começam mais um fim de semana juntos, trabalhando em meio a sua vida de casal. Mais conhecidos como “Casal Kaliente” não são apenas parceiros na vida, mas também na produ-


Acervo pessoal / Gaby e Tiago Oliveira

Tiago e Gaby, casal que, juntos, produzem conteúdo para plataformas digitais ção de conteúdo adulto. Estão juntos há 12 anos, mas trabalham com a criação há oito. Relatam sua experiência com trabalho de produções principalmente bissexuais. Apesar de ser um conteúdo muito buscado na internet, também é uma fonte de controvérsia e preconceito. Em meio a uma enxurrada de ataques e críticas, falam sobre a importância de lidar com as adversidades e do impacto que isso tem não apenas em suas vidas pessoais, mas também em seu trabalho. Reconhecem a volatilidade da internet e a maneira como até mesmo ataques de ódio podem virar oportunidades. A controvérsia muitas vezes impulsiona o engajamento e aumenta a visibilidade de seu perfil, permitindo que eles “dêem a volta por cima” e usem dessas interações para sua vantagem.

promisso que buscam manter com constância para manter o cronograma organizado. No entanto, por trás da aparente calmaria de sua rotina, está uma compreensão profunda da importância do trabalho de divulgação. Tiago e Gaby entendem que, no mundo digital, a visibilidade é essencial para o sucesso. Assim, procuram se adaptar às ferramentas que têm à sua disposição. Luma, Loyola, Carmona, Tiago e Gaby. Histórias diferentes, porém com algo em comum: a união do gosto pela sensualidade e a exibição do corpo como profissão. Para eles, essa é a liberdade que procuram no mundo do trabalho.

No entanto, para Tiago e Gaby, a resiliência vai além do simples impulso na popularidade. É uma questão de viver autenticamente e expressar quem realmente são, sem se deixar abalar pelos padrões da sociedade. ”Demonstração de liberdade e livre arbítrio, só de você fazer alguma coisa que quebra o tabu de todo mundo é totalmente diferente”, afirma Tiago.

Veja também

Suas rotinas são corridas. Duas a três vezes na semana suas agendas estão reservadas para a produção, com-

portalcomunicare.com.br

Entenda como funcionam as plataformas digitais e aplicativos que trabalham com conteúdo adulto.

comportamento | revistacdm 63


O peso das palavras Como casos de preconceito linguístico afetam a vida de um migrante venezuelano e um sindicalista que veio do interior

João Butka Lucas Azevedo Ryan Minela

editoria 64 revistacdm | comportamento


E

dson Antonio dos Anjos, de 54 anos, nasceu em um sítio em Teixeira Soares, cidade do Primeiro Planalto no Paraná, localizada a 157 km de Curitiba. Após chegar à quinta série, hoje sexto ano do ensino fundamental, Edson abandonou a escola para trabalhar com o pai na lavoura. Depois de passar um tempo ajudando no cultivo, Edson começou a trabalhar de boia-fria (trabalhador rural informal) em uma fazenda da cidade.

chuveiro e conserto de máquinas elétricas, como geladeira e máquina de lavar roupa. Levou em torno de seis meses para concluí-los. Em 1986, Edson foi encaminhado, por meio de uma iniciativa de um centro de reabilitação, para trabalhar na Blount (hoje chamada Oregon Tool Industrial), empresa destinada

Acervo pessoal

Em 21 de julho de 1983, época marcada por um número intenso de chuvas, o jovem trabalhador, então com 14 anos, sofreu, na fazenda, um acidente que mudaria sua vida para sempre. Ao carregar um saco de milho, para ser inserido numa máquina que debuiava [debulhava] as espigas de milho, ele escorregou e caiu dentro dela. Enquanto gritava de dor, o debulhador triturava metade de sua perna esquerda, até que o primeiro operador da máquina chegasse para desligá-la e os outros trabalhadores também pudessem ajudá-lo. Por sorte, Edson foi resgatado e levado a tempo ao hospital mais próximo, em Ponta Grossa, onde foram realizados os primeiros atendimentos. Durante os cinco primeiros dias, o garoto ficou com a perna engessada, até que, ao tirar o gesso, os médicos perceberam que, infelizmente, não haveria recuperação e que seria necessário realizar uma amputação para salvar a vida do paciente. Em setembro do mesmo ano, após 25 dias internado no hospital, Edson foi levado a Curitiba para realizar o restante do tratamento no Centro de Habitação Profissional (COHAB). Na época, não existia distribuição de tratamento no estado do Paraná, ou seja, para realizar os tratamentos os cidadãos deveriam se deslocar até a única sede localizada na capital.

a produzir correntes para motosserras. Logo percebeu que a forma que aprendeu a falar a língua portuguesa na sua cidade não era benquista naquele ambiente de trabalho. Começaram, então, as piadas pelo jeito que Edson falava. Rapidamente, isso começou a incomodá-lo. Ele passou a se sentir extremamente envergonhado ao pronunciar termos ou expressões que havia aprendido no campo. “Barde, nois vai, nois fumo, de varde, eram algumas das palavras que eu costumava dizer”, exemplifica Edson.

Após iniciar terapia em Curitiba pela COHAB e conseguir uma prótese de madeira pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), ele retornou a sua casa para terminar o tratamento. Todavia, um ano depois, voltou a Curitiba visando adquirir uma prótese melhor. Foi quando decidiu fazer curso de datilografia, manutenção de

Após quatro anos trabalhando na Blount, Edson começa a trabalhar na unidade paranaense da Bosch, designada à produção de bicos e bombas injetoras para sistemas a diesel. Ali, tornou-se delegado e diretor do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC). Assim que começou a se destacar como sindicalista, as

Edson Antonio dos Santos também pratica võlei sentado desde 2017.

comportamento | revistacdm 65


perseguições pela sua forma de falar se intensificaram. “Eu acredito que muitos queriam me diminuir pela minha pronúncia acaipirada. Era comum que, às vezes, até os próprios amigos fizessem piadas

Primeiramente, convém entender do que se trata a língua, para então compreender por que ela é motivo de tanto preconceito. Certas características diferenciam os seres humanos das demais criaturas

“ Quando sei que vou precisar falar em cima do caminhão, tento ficar concentrado, porque não quero errar em minha fala. Tenho vergonha, medo de dizer algo de forma errada.” sobre mim por conta disso, o que me deixava muito chateado. O pior ocorria quando isso era usado para me desqualificar como representante. Sinto que, muitas vezes, funcionários tentavam me taxar de ignorante pela minha pronúncia”, revela Edson. O caso de Edson não é singular. Ao contrário, esse tipo de preconceito acomete muitas pessoas em todo o país. Conforme apontam dados do G1, 30% dos brasileiros dizem ter sofrido preconceito linguístico devido à classe social. Trata-se de um problema complexo e com numerosas nuances.

que habitam este planeta. Pode-se citar, por exemplo, o aparato cerebral extremamente sofisticado, os polegares opositores, que facilitam apanhar e manejar objetos, e o trabalho, que consiste em ações praticadas pelo ser humano capazes de transformar significativamente a natureza e, a partir disso, produzir algo novo. João Butka

PRECONCEITO LINGUÍSTICO O fenômeno social do preconceito se estende por múltiplas dimensões. Uma de suas manifestações se dá, inclusive, na esfera da língua. Bastante presente em países de numerosa diversidade cultural, como o Brasil, o preconceito linguístico é quando os diferentes modos de falar, de dizer, de escrever e, em síntese, de expressar motivam conflitos, discriminação, intolerância, ódio. A história de Edson é um exemplo sintomático de preconceito linguístico.

66 revistacdm | comportamento

Além desses fatores, é possível pensar ainda na cultura e em um de seus elementos centrais: a palavra. Ao contrário dos outros animais, o ser humano é dotado de linguagem.

Hoje, Edson dos Anjos é cordenador da pasta de diversidade do Sindicato dos Metalurgicos da Grande Curitiba (SMC).


A linguagem é um sistema semiótico, ou seja, um sistema de símbolos. Mais precisamente, de signos. E cada signo contém um significado. Além do mais, dentro da linguagem habitam outros sistemas semióticos, que podem ser separados entre verbais e não verbais. Mímica, música, pinturas, apresentações de dança e placas de trânsito são alguns exemplos de sistemas não verbais. Já a linguagem verbal é composta exclusivamente pela língua, seja em expressão escrita ou falada. A língua é o sistema semiótico que desfruta de maior prestígio e reconhecimento na sociedade. Por isso, foram elaboradas, ao longo do tempo, uma série de normas para ordená-la, discipliná-la, padronizá-la. Essas regras foram reunidas no que ficou conhecido como gramática normativa (ou formal). E o preconceito linguístico surge a partir dos desvios, das dissidências, dos desencontros com esse modo de pautar a língua. Segundo Rosane Nicola, professora de Sociolinguística na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), o preconceito linguístico começa no momento em que se “joga um juízo de valor negativo sobre a forma como a pessoa se comunica”.

região onde for falada, do contexto social e das pessoas que a falam. Nicola explica e exemplifica essa natureza mutante e contextual da língua: “Toda a língua varia. Ela tem falantes de níveis sociais diferentes. Por exemplo, toda a pessoa que está em um curso superior já é considerada falante culto. A escrita é a tecnologia da fala, mas a fala nunca é igual. Você não levanta de manhã e fala formalmente o dia inteiro. Você vai variando sua fala a partir das suas situações de contexto que você vive.” Para que se tenha uma dimensão da diversidade linguística da língua portuguesa, é importante dizer que existem nove países lusófonos, ou seja, países que têm o português como língua oficial. São eles: Angola, Brasil, Cabo

João Butka

E, de imediato, esclarece que, na ótica da sociolinguística, expressões como português certo ou português errado são vazias de sentido. “Em sociolinguística não existe certo ou errado. Existe adequado e inadequado”, afirma. Destaca também que a língua é permeada por relações de poder e de dominação social: “A comunicação não teria preconceito, mas os grupos sociais no poder usam o conhecimento que tem sobre a língua como uma arma. E refletem esse preconceito em relação às pessoas das comunidades de fala, que, no Brasil, têm menos condições e maior desigualdade social, econômica”. O preconceito linguístico está ligado a um conceito fundamental da sociolinguística: a variação. Existem inúmeras maneiras de falar português e, como dito, não há português certo ou errado, melhor ou pior, mas variantes da língua portuguesa, a depender da

Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal, Timor-Leste e São Tomé e Príncipe. No Brasil, em especial, a diversidade linguística é tão presente em razão do alto fluxo migratório impulsionado pelo processo de colonização. Somado a isso, há a influência dos povos aborígenes. Apesar de ter sido decretada a oficial, o português não é a única língua falada em território nacional. Mesmo hoje, existem, por exemplo, mais de 180 línguas indígenas no país. Além disso, há as línguas trazidas pelos imigrantes, que passaram a gradativamente se misturar ao português

A professora Rosana Nicola conta que não existe lingua certa ou errada e sim o convencional e o não convencional.

comportamento | revistacdm 67


por meio de um amplo processo de hibridismo cultural. E não é de hoje que os linguistas tentam entender como o preconceito ocorre na língua. O conceito de preconceito linguístico começou a ser investigado e desenvolvido nos anos 1960, a partir das pesquisas do linguista estadunidense William labov, um dos grandes nomes da sociolinguística. Aqui no Brasil, foi popularizado pelo linguista e escritor Marcos Bagno, que publicou, em 1999, o livro Preconceito Linguístico: o Que é, como se Faz. E, apesar de seu estudo ser recente, o fenômeno do preconceito linguístico existe há muito tempo. Na Grécia Antiga, havia uma profusão de dialetos espalhados por todo o seu território. Em determinado momento, os gregos decidiram que precisavam escolher uma língua oficial, que teria o nome do povo: a língua grega, falada pelo povo grego. A partir daí, é fundada a distinção entre idioma (a língua oficial) e as demais línguas, os demais dialetos, que, com o tempo, foram

Descaminhos da língua

José conta que também sofreu preconceito linguistico .

perdendo status, sendo desvalorizados porque considerados desviantes da língua instituída. Em paralelo, o grupo social que se expressa por meio do grego oficial passou a discriminar os outros grupos, que usavam outros dialetos como forma de expressão. Assim nascia o preconceito linguístico. A professora Nicola aponta que o maior motivador de preconceito linguístico, tanto no Brasil como no resto do mundo, é a pronúncia. O fator fonético tem grande potencial de estigmatizar os falantes. No contexto de Curitiba, isso também ocorre: “Curitiba tem muita influência de povos imigrantes, alemães, poloneses, italianos, franceses. Então, a gente sempre pronunciou o R com muita força. Antigamente, por exemplo, tinha muitos imigrantes alemães e poloneses. Era preciso pronunciar forte para eles entenderem certas palavras como ‘carroça’ A gente, como falante, ao se comunicar com o estrangeiro,

José Antonio Villamizar Florez, de 33 anos, nascido na capital da província estado Táchira, San Cristóbal, também sofreu preconceito linguístico. No caso dele, por falar outra língua. Quando morava na Venezuela, ele gostava muito de conversar, mas não apenas isso, “Eu nunca havia tido tanta dificuldade para me comunicar, eu falava bem em público”, conta José. Formado em Engenharia Ambiental na Venezuela, ele ministrava aulas em faculdades no país e era membro de uma ONG, onde se acostumou a falar em público. Em junho de 2023, um mês após se mudar para Curitiba, com pouco tempo no país e pouca afinidade com a língua portuguesa, José passou por uma experiência que mudaria sua afinidade com a comunicação.

68 revistacdm | comportamento

Certo dia, trabalhando como operador de caixa, José atendia uma mulher de 60 anos. Não estava conseguindo entender o que ela dizia. Quando pediu para ela repetir o que havia falado, ficou surpreso com a reação. Irritada e sem paciência, a mulher respondeu rapidamente: “Não sei como colocam estrangeiros para trabalhar aqui.” Ofendido, o trabalhador chamou a supervisora, que pediu para José se retirar, pois ela iria terminar o atendimento. “Foi um sentimento de frustração’’.revela José. Após o caso de preconceito, falar em público tem sido uma tarefa difícil para José. Buscando superar a ansiedade e o medo, José iniciou um curso de Português na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em dezembro de 2023. Atualmente, tem se dedicado muito aos estudos da língua para recuperar a confiança que tinha ao falar em público.


acaba mudando o jeito de falar para ajudá-lo a entender”, conta Nicola.

evitar falar expressões que aprendeu no campo.

Dentre as formas de pronunciar, a do dialeto caipira é a mais estigmatizante e o alvo prioritário do preconceito linguístico, principalmente por conta de características como o “R” retroflexo, que soa bem marcado nas palavras, e o rotacismo, que designa a troca do “L” pelo “R” — dois fenômenos muito comuns no modo de falar do metalúrgico Edson e de muitas outras pessoas nascidas nas regiões rurais do país.

“Eu procurava fazer as correções. Morando aqui na capital, eu buscava as devidas mudanças para que eu pudesse me sentir incluído. Porque, se você falasse muito errado, com toda certeza você seria excluído, você ia ficar fora dos meios sociais. Então, eu tive de me adequar ao meio que estava vivendo”, explica Edson.

Questionada sobre as maneiras de combater o preconceito linguístico, a professora Rosane Nicola acredita que a mudança se concretizará pela educação. Por isso, faz um apelo a uma transformação substancial no ensino da língua portuguesa: “Se você sempre considerar que alguém que está no campo é aquele que fala errado, vai manter o preconceito. A escola deveria ter como proposta ensinar gramática tradicional, sim, mas junto com as outras variantes, fazer comparações entre a variante padrão e as variantes não-padrão e dizer para o aluno: ‘Você pode usar esse tipo de expressão em tais situações e em outras, não’. Deveria ensinar o aluno a ser bilíngue na própria língua.”

Ainda hoje, o delegado sindical se sente receoso quando precisa falar em público. Teme cometer algum deslize e ser julgado por isso. As consequências do preconceito linguístico permanecem em Edson, refletidas em seu medo de desviar do “português correto”, um fantasma sempre à espreita. “Sinto que posso errar algumas palavras. E isso acaba me constrangendo”, confessa o sindicalista. Ryan Minela

O livro Preconceito Linguístico já está na 56ª edição.

É possível que, com essa transformação, casos de preconceito linguístico no ambiente de trabalho, como o enfrentado por Edson, diminuam. No entanto, o caminho até lá é longo e, para atravessá-lo, será necessária, ainda, muita conscientização. Rotineiramente, os colegas de Edson, diante de seus erros, em vez de ajudá-lo a corrigi-los, caçoavam de seu modo de falar: “Eles [meus colegas] conseguiam entender o que eu falava. Mas faziam questão de relembrar algumas palavras que eu falava errado, de relembrar que não era a maneira correta de fazer a comunicação. Eles tiravam sarro, pra me diminuir”, confessa o delegado. Em busca de se sentir parte de um grupo e ser aceito pelos colegas, Edson começou a estudar mais a língua portuguesa. Passou a prestar rigorosa atenção em seu vocabulário, a fim de

Conheça Artigo Academico sobre o preconceito linguístico. portalcomunicare.com.br

comportamento | revistacdm 69


Muito talento, pouco destaque Por: Isadora Lara Guerra, Krissians Torres, Luiza Braz e Lara Wilsek

O

s Jogos Olímpicos de Paris 2024 contam com a maior delegação feminina da história. Cem anos antes, nas Olimpíadas de 1924, também disputadas em Paris, entre os 3.089 atletas apenas 135 eram mulheres. Nessa mesma edição, somente algumas modalidades incluíam a participação feminina e não havia nenhuma mulher na delegação brasileira. Atualmente, o cenário esportivo feminino do Brasil contém diversas figuras relevantes no contexto mundial, mas por uma questão de visibilidade, acabam não recebendo o mesmo reconhecimento dado aos homens. Apesar da falta de investimento, disparidade de salários e premiações e menor valorização, as atletas brasileiras ainda conquistam resultados notáveis. Essas, são algumas das mulheres que representam o nosso país: JULIA SOARES - Atleta da seleção de ginástica rítmica. A curitibana Júlia Soares pratica o esporte desde os 4 anos de idade. Fez sua estreia internacional no Campeonato Pan Americano de 2021, no qual ajudou a equipe brasileira a conquistar o ouro e ganhou o bronze na trave. A ginasta também é medalhista de ouro da Copa do Mundo de Ginástica Artística de 2022, da etapa de Baku na modalidade Solo.

70 revistacdm | editoria

BEATRIZ FERREIRA - Boxeadora. brasileira de 31 anos, Beatriz é atleta militar e teve como principais resultados na carreira uma prata nas Olimpíadas de Tóquio de 2020, dois ouros em campeonatos mundiais de 2019 e 2023 e dois ouros pan-americanos. VALDENICE CONCEIÇÃO - Canoísta. A primeira mulher a conquistar vaga olímpica feminina para o Brasil. Sua principal conquista na carreira veio nos jogos Pan Americanos de 2015, oportunidade em que conquistou medalha de bronze.

ANA SÁTILA - Canoísta. Foi a atleta mais jovem da delegação brasileira nas olimpíadas de Londres, em 2012, com 16 anos na época. Desde então, conquistou um ouro, uma prata e um bronze em campeonatos mundiais, cinco ouros e uma prata em pan-americanos em canoagem slalom. BÁRBARA DOMINGOS - Atleta da seleção de ginástica rítmica. Grande nome do esporte do Brasil e mundial, a curitibana Bárbara Domingos é a primeira brasileira a ganhar ouro no Individual Geral de Ginástica Rítmica nos Jogos


Pan-Americanos e a primeira brasileira também a entrar para o grupo das 12 melhores do Campeonato Mundial de Ginástica Rítmica. REBECA ANDRADE - Principal nome da ginástica artística do Brasil atualmente. A primeira medalhista olímpica feminina da ginástica artística brasileira, e a primeira a ganhar duas medalhas em uma única edição olímpica, ao conquistar a prata no individual geral e o ouro no salto nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Natural de Guarulhos, Rebeca entrou na ginástica aos 4 anos, em um projeto social organizado pela prefeitura da cidade. E aos 13, já havia conquistado o prêmio Troféu Brasil, superando ginastas como Daniele Hypolito e Jade Barbosa. Em 2022, sagrou-se a melhor do mundo no individual geral. RAFAELA SILVA - A primeira atleta do Brasil a se sagrar campeã do mundo de Judô. Coleciona ainda 4 medalhas em jogos pan-americanos. Rafaela Silva faz parte do programa esportivo das Forças Armadas Brasileiras, com a patente de terceiro sargento na Marinha do Brasil. ANA MARCELA CUNHA - Nadadora. Venceu em seis oportunidades o prêmio de maior nadadora de águas abertas do mundo. Nos Jogos Olímpicos de 2020, foi campeã nadando na Baía de Tóquio. Considerada uma das maiores maratonistas aquáticas da história, coleciona quatorze medalhas em mundiais, sendo sete ouros.

TATIANA WESTON-WEBB - Surfista. A brasileira nascida no Rio Grande do Sul, mas criada nos Estados Unidos, é a principal representante do Brasil na World Surf League, tendo sido a única por muitos anos. Campeã de 4 etapas na carreira, o melhor resultado geral de Tatiana foi o vice-campeonato em 2021. BEATRIZ HADDAD MAIA - Tenista. Trouxe destaque novamente para o tênis de quadra nacional. Em 2023, tornou-se a primeira brasileira a alcançar a semifinal do torneio de Roland Garros na Era Aberta do tênis. Após essa conquista, entrou para o top 10 do ranking mundial feminino. Essas ainda não foram suas maiores vitórias. No final de 2023, foi campeã do WTA Elite Trophy e se classificou para os Jogos Olímpicos de Paris. MARTINE GRAEL E KAHENA KUNZE - Velejadoras. Bicampeãs olímpicas na categoria 49er FX (vela), velejam juntas desde 2009, e nos 15 anos de parceria, além das medalhas em Olimpíadas, conquistaram dois ouros e uma prata em jogos pan-americanos e um ouro, quatro pratas e um bronze em torneios mundiais. a Dupla brasileira é uma das melhores do mundo e grande favoritas nas competições que participam. SELEÇÃO FEMININA DE FUTEBOL - Seleção mais vitoriosa da história da Copa América feminina, com 8 títulos conquistados. Os feitos não param por aí, são 3 medalhas de ouro em jogos Pan Americanos, uma segunda colocação e uma terceira em Copas do Mundo.

editoria | revistacdm 71


O autismo na sala de aula Crianças e jovens diagnosticados com TEA (Transtorno do Espectro Autista) enfrentam dificuldades nas instituições de ensino

Caio Jordão, Eduardo Borges, Gabriel dos Reis e Gustavo Magalhães

M

arco Antônio, 19 anos, já estudou tanto em escola pública quanto particular, e foi diagnosticado com TEA aos 12 anos . “Na escola, não tinha ninguém pra me auxiliar lá.’. Hoje estudante universitário, ele conta que, em seu primeiro colégio, uma rede pública de ensino que preferiu não citar o nome, teve no máximo uma professora um pouco mais “atenciosa”. Sofreu bullying por parte de seus colegas de turma, que chegaram a trancá-lo sozinho em uma sala velha - “Fiquei chorando por um bom tempo até que um funcionário me encontrou”. Por conta desses tristes episódios, Marco conseguiu convencer sua mãe a mudá-lo de escola após muita insistência. Em seu novo ambiente escolar, foi muito bem acolhido, onde teve um grande apoio por parte de sua turma, professores e direção. Para ele, o fato de o colégio ser menor lhe proporcionou um acompanhamento de perto e facilitou o contato de seus pais com os professores: “Por ser (uma escola) menor, minha família tinha contato direto com professores e diretores, que, em sua maioria, me auxiliavam bastante.” Um dos temas que têm sido pauta recorrente nas instituições de ensino é o do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de como os colégios devem se portar diante das dificuldades que esses alunos passam em seu dia a dia. Sejam essas adversidades oriundas de uma difícil inclusão social, da parte pedagógica ou até mesmo do auxílio perante o preconceito que esses alunos enfrentam. De acordo com dados do ano passado, do site UOL, o Brasil passa por uma crescente onda de alunos com autismo matriculados nas

72 revistacdm | educaçao

escolas. Segundo o Censo Escolar do Brasil, entre os anos de 2017 e 2021, foi registrado um aumento de 280% no número de estudantes com TEA nas escolas públicas e particulares. Além disso, de acordo com a 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicada em 2014, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um Transtorno do Neurodesenvolvimento caracterizado por déficits nas áreas de comunicação social e por padrões repetitivos e restritivos de comportamentos, interesses e atividades. O TEA possui diferentes níveis, que tomam bases a partir do grau de apoio necessário para o indivíduo - variando entre leve, moderado e severo. Ao longo dos últimos anos, devido ao aumento expressivo no número de diagnósticos, a pauta do autismo e da inclusão escolar têm ficado cada vez mais em alta. Assim, torna-se um desafio nas escolas da rede pública e privada a implementação da inclusão escolar. Em 2016, foi criada a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que moldou os direitos em que as escolas das redes pública e privada devem prover aos seus alunos. Com essa lei, as pessoas diagnosticadas com o TEA foram asseguradas a ter um sistema de ensino inclusivo Com isso deve ser levado em consideração as necessidades de cada indivíduo, promovendo serviços, adaptações e atendimentos necessários para o aprendizado digno. Como reflexo do caso de alunos com autismo estão em ascensão no Brasil todo, no estado do Paraná definitivamente não é diferente. De acordo com o governo estadual, somente na rede


Eduardo Borges

Aluno autista brincando com carrinhos em uma pista de giz na escola pública de ensino pública do Paraná são 8.630 estudantes com o diagnóstico. Os alunos que precisam de apoio para o aprendizado são acompanhados no turno da série de matrícula pelos 2,2 mil professores capacitados que atuam na rede. Com esse aumento de crianças autistas no ensino, as escolas estão em busca de aprimoramentos para dar o devido suporte para esses alunos. Porém, com a busca por essas melhorias, fica ainda mais escancarada a disparidade existente entre o ensino ofertado pelas escolas privadas sobre as escolas públicas. Para trazer o debate sobre, serão listadas aqui as diferenças presentes nessas instituições.Maíra Oliveira, chefe do Departamento de Educação Inclusiva da SEED/ PR (Secretaria Estadual Educação do Paraná) crê que as escolas estaduais daqui têm feito um bom trabalho para acolher os alunos autistas nas redes de ensino. Os estudantes autistas

possuem o chamado Atendimento Especializado, onde contam com uma Sala de Recursos Multifuncionais amparados por Professor de Apoio, que estão ali para o desenvolvimento desse aluno. “É de extrema importância que eles participem de um estudo de caso criterioso que respeite suas condições para o aprendizado e oportunize, por meio de estratégias diferenciadas, seu acesso ao currículo com autonomia e independência e quando necessário a concessão de um professor de apoio especializado, que atue na mediação cognitiva, social e didática e promova seu desenvolvimento acadêmico e social.” Apesar dos avanços dos recursos educacionais e da melhoria na infraestrutura das escolas para lidar com esses alunos, Maíra comenta que o preconceito ainda é presente nas salas de aula, o que torna o ambiente escolar

“ Me lembro de terem me trancado em uma sala velha,

eu chutei tanto a portal de metal que ela dobrou. Fiquei chorando até alguém ter me encontrado. ” Marco Antônio, estudante universitário

educação | revistacdm 73


Caio Jordão

Aluno autista desenhando em uma tarefa escolar com tutora ao lado.

hostil e dificulta ainda mais a inclusão desses estudantes. De acordo com ela, as escolas da rede estadual de ensino vêm realizando um trabalho contínuo de conscientização e acolhimento.

tes terapêuticos (ATs), que desempenham um papel crucial no desenvolvimento desses alunos, possibilitando a eles um acompanhamento de perto em seus cotidianos no âmbito escolar.

“Os professores são acompanhados com atendimentos in loco específicos com objetivo de construir e planejar estratégias eficazes para o desenvolvimento da aprendizagem dos estudantes autistas, criando assim um ambiente inclusivo nas escolas, onde todos sejam respeitados e aceitos independentemente de suas diferenças.” Essas atividades envolvem os demais estudantes e até mesmo suas famílias, visando desmistificar estereótipos prejudiciais e, acima de tudo, gerar empatia - “acreditamos sim, que é possível construir uma educação mais inclusiva e igualitária para todos os estudantes paranaenses”.

Luiza Polonio, ex-acompanhante terapêutica de um colégio privado em Curitiba (a entrevistada preferiu não revelar a instituição de ensino), falou sobre a importância dos ATs para as crianças que necessitam desses profissionais durante o período de ensino.

MEIO PRIVADO Por serem instituições privadas que, consequentemente, pressupõem um maior investimento financeiro na área de estrutura , contratação de profissionais e o preparo dos mesmos, as escolas privadas geralmente são capazes de acolher de maneira mais atenciosa alunos com TEA. Sob essa visão, surge a figura dos acompanhan-

74 revistacdm | educaçao

“Partindo do princípio que as crianças com TEA precisam do suporte de um AT, por não possuírem a mesma autonomia que as outras crianças para realizar algumas atividades, é necessário um acompanhante para auxiliar a criança e maximizar seu aprendizado e sua socialização. O acompanhante terapêutico auxilia individualmente a criança tanto nas suas necessidades, assim como na aplicação de tarefas adaptadas.”Apesar de reconhecer que os colégios até fazem algo para “acolher” alunos com TEA, Luiza comenta que ainda é muito pouco, e que as escolas se limitam a fornecer e proporcionar somente o que lhes é obrigado, do ponto de vista legal. “Acredito que os colégios dão aquilo que está previsto por lei. Mas, mui-


“É necessário um AT para auxiliar a criança e maximizar

seu aprendizado e sua socialização. O acompanhante terapêutico auxilia individualmente a criança nas suas necessidades, como na aplicação de tarefas adaptadas.” Luiza Polônio, ex-acompanhante terapêutica tas vezes, isso não é feito da maneira mais correta ou ideal. Algumas escolas colocam um acompanhante terapêutico para auxiliar quatro crianças de inclusão ao mesmo tempo. Além disso, muitas escolas não fornecem os materiais e os recursos necessários para o aprendizado da criança autista, como os materiais adaptados.” As queixas da ex-acompanhante terapêutica, que além de estagiária é também estudante de psicologia, terminam falando sobre o despreparo e suporte das escolas para com esses profissionais e professores. “Há uma grande falta de capacitação por parte da escola. Os professores recebem uma criança com TEA em sua sala de aula e não possuem os conhecimentos necessários para lidar e ensinar as crianças que possuem dificuldade de aprendizado”. Isso acaba recaindo para os ATs, que são por grande parte das vezes, são estagiários e estagiárias de psicologia e pedagogia que ainda estão na fase de aprendizado. Além disso, Luiza destaca que existe também a falta de um suporte vindo de psicólogos formados para realizar um trabalho conjunto. No colégio onde trabalhava, não havia nenhum psicólogo no Centro de Inclusão. Fernanda Ferreira, que é professora do Colégio Positivo Júnior, também particular, conta que em sua sala de aula há duas crianças, de cinco anos, com autismo nível de suporte 1, e que cada uma das duas possui um AT para acompanhá-las em particular. Segundo ela, uma grande parte da importância desse profissional é auxiliar a criança nas atividades propostas pelos professores, além de incentivar esses alunos a terem interações sociais e trazer a eles uma sensação de segurança e acolhimento.

Por outro lado, a professora destaca a falta de uma ‘’sala de recursos’’, que capacitaria a criança e seu AT à se reorganizar em casos de emergências na sala de aula. Além disso, defende que a escola deveria oferecer uma melhor formação para que os professores de sala de aula e os ATs trabalhassem ainda melhor em conjunto, traçando estratégias e adquirindo conhecimento para trazer o bem-estar para o aluno autista. Por fim, Fernanda comenta sobre o caso que teve no início do ano, quando uma família tirou a filha de sua sala, por ter uma criança autista que “incomodava muito” durante as aulas. Episódios como esse deixam claro que esse preconceito contra os autistas ainda se faz presente nas salas de aula. Marco Boin, coordenador pedagógico do Colégio Marista falou sobre como funciona o acolhimento aos estudantes autistas e o que o Marista oferece para esses alunos. De acordo com o educador, o colégio não possui profissionais especializados para atender estudantes com TEA, mas sim uma professora docente que trabalha com todos os estudantes que possuem algum tipo de necessidade especial. Além disso, o tratamento especial inclui provas diferentes e materiais adaptados - “tentamos fazer o mais individualizado possível de acordo com as necessidades do estudante”. Para ele, o preconceito contra estudantes autistas é inexistente em sua escola, já que o Marista faz um acompanhamento de perto e costuma “ficar de olho” com esse tipo de coisa. “Aqui são todos bem tratados. Com adolescentes, é claro que pode ter uma brincadeira de mau gosto, mas em geral aqui costumam respeitar bastante, não tem muito preconceito

educação | revistacdm 75


Caio Jordão

Aluno autista brincando de cozinhar, junto de outras crianças em uma prática na escola quanto a isso.” Boin, que enfatizou bastante não ter nenhum tipo de preconceito com autistas por sua parte, diz ainda que esses estudantes são muito bem respeitados, além da escola contar com diversos projetos contra o bullying, principalmente contra esses alunos - “a gente procura que não haja (bullying) com ninguém, especialmente com eles”. Por fim, conta que o diferencial de sua instituição é em relação ao acolhimento, que é feito para que os alunos sejam, acima de tudo, felizes ali dentro.

nos possuem graus considerados mais graves. Em seu caso, por outro lado, o papel de lidar com esses alunos recai praticamente todo em seu colo, já que é ela que precisa buscar diferentes possibilidades para trabalhar com eles. “Não adianta apenas deixar esse acompanhante lá e não proporcionar tudo que um aluno autista precisa.”

E como se não fosse o suficiente “não se assemelhar” às escolas particulares em relação às amplas funções e colaborações dos ATs, as escolas públicas se assemelham na pior parte, a do preconceito. Rosângela cita que MEIO PÚBLICO isso infelizmente ainda é bem comum no dia a dia desses alunos: “O princiAssim como Fernanda, Rosângela do pal preconceito vem por parte de pais Carmo também é professora e possui e outros estudantes, que acabam não dois alunos autistas em sua sala. Ela, aceitando os comportamentos desses por outro lado, não conta com a ajuda alunos autistas. Além disso, fazem dos acompanhantes terapêuticos na também questionamentos e cobranças Escola Municipal Professor Guilherme para que a escola tome providências”. Butler. Rosângela conta que esses alu-

“Ainda existem muitas falas preconceituosas e estigmatizadas, principalmente vinda das próprias professoras. Não é incomum ver essas profissionais fugindo de casos de inclusão, chamando essas crianças de ‘bomba’.” Danielle Kozlowski, acompanhante terapêutica

76 revistacdm | educaçao


“Não são fáceis de conseguir, tem que fazer um ofício -

justificado com laudo médico - assim como relatórios para comprovar que o aluno realmente precisa desse atendimento. É necessário solicitar para a Secretaria de Educação disponibilizar o profissional para fazer esse auxílio.” Gisele Beatriz, coordenadora Danielle Kozlowski, que é acompanhante terapêutica de uma outra instituição pública - preferiu não revelar o nome - confirma que esse preconceito segue perdurando nos dias de hoje. Para ela, as crianças com TEA são muitas vezes vistas apenas como um problema para a sala e um trabalho a mais para a professora. “ Ainda existem muitas falas preconceituosas e estigmatizadas, principalmente vinda das próprias professoras. Não é incomum ver essas profissionais fugindo de casos de inclusão, chamando essas crianças de ‘bomba’”. Para Danielle, o que colabora para tudo isso é a falta de informações sobre o assunto, à medida que muitos só repetem falas genéricas sobre o TEA. “Na escola em que trabalho, as crianças são super receptivas e acolhedoras. Já os pais, muitas vezes excluem essas crianças das confraternizações da turma.”Gisele Beatriz, coordenadora da Escola Estadual Nossa Senhora da Salete, conta que sua escola possui quatro Professores de Atendimento Educacional Especializado (PAEE), que cuidam de quatro autistas graves. A escola tem também dez alunos autis tas que conseguem “se virar” sozinhos, considerados de pauta leve. Ela diz que o governo retirou a sala de recursos da escola, a mesma citada anteriormente pela professora do Positivo Júnior. Com isso, o atendimento especial têm diminuído e ficado cada vez mais difícil de ser colocado em prática. Isso acaba recaindo na dificuldade de solicitar outros PAEEs: “Não são fáceis de conseguir, tem que fazer um ofício justificado com laudo médico - assim como relatórios para comprovar que o

aluno realmente precisa desse atendimento. É necessário solicitar para a Secretaria de Educação disponibilizar o profissional para fazer esse auxílio”. Ao contrário das demais entrevistadas relacionadas ao ensino público, Gisele diz que esse preconceito já não se faz mais presente em sua instituição. Em sua opinião, acontecia pelo fato dos profissionais não saberem como lidar com essas crianças. “Fizemos muitas formações e nos capacitamos, tornando esse tipo de situação mais fácil de lidar”. Para ela, nos dias atuais é um grande prazer ter alunos e alunas autistas, já que acredita que a geração nova tem uma aceitação muito boa, além de ser trabalhado bastante a importância da inclusão. Por fim, ressalta que o diferencial entre colégios públicos e particulares, está na facilidade em conseguir um acompanhante terapêutico.Diante do exposto, fica evidente que ambas as redes de ensino, pública e particular, têm lutado para proporcionar um ensino digno às crianças autistas. Esses alunos necessitam de atenção especial e deveriam ter, sem dúvidas, acompanhantes terapêuticos para acompanhá-los, seja na rede privada tanto quanto na rede pública. Isso, sem dúvidas, será um jeito de ainda mais humanizar essas crianças, que acabam estando sempre suscetíveis ao preconceito, seja por parte de seus colegas, ou até mesmo os pais desses. Confira Confira aúdio da entrevista com a psicóloga Gisele Beatriz portalcomunicare.com.br

educação | revistacdm 77


André Blatt

A verdadeira inclusão Apesar dos avanços, as pessoas com síndrome de Down ainda enfrentam diversas barreiras, como o preconceito no mercado de trabalho Ana lúcia Sonntag, André Blatt, Davi Ozório e Isadora Abreu

Q

uando se fala sobre enfrentar preconceitos, João Vitor Mancini Silveira tem uma história a ser contada. O professor de Educação Física de 37 anos, tem síndrome de Down e dá aulas de natação em uma escola de ensino regular há dez anos. Mesmo lugar onde estudou desde a infância até a adolescência. Mancini relata que conviver com a síndrome de Down não foi uma tarefa sempre fácil. Ele relembra ter começado a encontrar o preconceito a partir da quinta série “Além da dificuldade em algumas matérias, alguns colegas de sala eram preconceituosos comigo. Mas tinha muito mais amigos que me apoiaram e me ajudaram. Sempre que tive problemas eu levava para coordenação e professoras e era acolhido”.

78 revistacdm | educaçao

Mais tarde, ele voltou a encontrar situações parecidas no mercado de trabalho, mas enfrentar a falta de inclusão foi uma motivação que ele buscou em si mesmo. “A inclusão também demora um pouquinho. Não aconteceu comigo essa questão de sofrer bullying e preconceito, mas sempre procurei me envolver nas coisas no meu trabalho, sempre que eu era convidado para participar das atividades, eu ia”. João Vitor reconhece que desenvolver suas habilidades cognitivas e de comunicação contou com a importante ajuda de pedagogas, terapeutas e fonoaudiólogas principalmente durante a infância, e agradece a sua mãe Roseli por ter o colocado em contato com essa rede. A atual presidente da associação Reviver Down, Roseli Mancini Silveira, adotou a causa, inspirada por seu filho. A instituição curitibana é focada no acolhimento e defesa de direitos do cidadão com Down. Em sua rotina, a Reviver proporciona meios de exercitar e desenvolver as habilidades interpessoais e de comunicação ainda na infância. “A ideia da Reviver é justamente mostrar para as crianças que, desde pequenas, elas podem muita coisa e isso influencia futuramente na hora de fazer faculdade ou entrar no mercado de trabalho, até porque a pessoa com síndrome de Down coloca

Joãa Vitor com uma aluna durante a aula de natação.


muito carinho e amor em tudo que faz”, diz. Roseli afirma que o pensamento de que a pessoa com síndrome de Down é incapaz, além de antiquado, é capacitista. De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há cerca de 300 mil brasileiros com síndrome de Down. Trata-se de uma condição causada pela presença de três cromossomos 21 em todas ou na maior parte das células da pessoa. Pessoas com a síndrome têm 47 cromossomos em vez de 46, como a maior parte da população, desequilíbrio que ocorre na gestação do bebê. As características associadas à trissomia do 21 são olhos amendoados, hipotonia muscular e maior propensão ao desenvolvimento de algumas doenças.

tunidades para se vincular ao projeto. Roseli e João Vitor defendem que para uma inclusão verdadeira é fundamental incentivar o treinamento e capacitação dos professores e profissionais acerca da convivência com pessoas com síndrome de Down. Atualmente, o Brasil possui algumas leis favoráveis à inclusão no mercado de trabalho, por meio de cotas ou subsídios como o Artigo 93 da Lei 8213/91. Mas um déficit notado principalmente por famílias de baixa renda é a falta de acesso a profissionais de apoio como pedagogos e fonoaudiólogos. Até alguns anos atrás, pessoas com alguma condição só eram contratadas para serviços considerados menos complexos, como empacotadores em mercados. Mas a luta diária pela inclusão digna e de melhores oportunidades no mercado de trabalho, que gerem boa remuneração, independência e o exercício de cidadania das pessoas com Down.

“Nós somos a simbologia do amor e merecemos ter mais voz na sociedade.” A trajetória profissiode João Vitor é um João Vitor Mancini, nal caminho de vitórias com sua professor compartilhadas mãe, que sempre esteve ao seu lado. Hoje, O preconceito pode ser facilmente notado pelas pessoas com síndrome de Down e suas famílias ou pessoas de convivência próxima. Roseli comenta que, muitas vezes, o medo desse preconceito faz com que as próprias famílias acabem excluindo essas pessoas dos ambientes de convívio social como uma tentativa de proteção. Os estereótipos e desconhecimento acerca das características dessa síndrome provocam uma falsa referência de incapacidade, estigma desafiado por pessoas como João Vitor e tantas outras pessoas com Down diariamente. A falta de apoio público ao desenvolvimento de iniciativas como o projeto Reviver Down garantia de direitos ainda é uma luta em progresso. “A Reviver não recebe verba nem do governo nem do município. Então, procurei amigos e pessoas da minha convivência particular”, explica Roseli, que continua na busca por mais opor-

professor e palestrante, ele usa sua história para dividir com outras pessoas uma mensagem sobre a síndrome de down. “A inclusão verdadeira nas escolas, no mercado de trabalho e nas demais instituições, por meio desse preparo e capacitação tem que ser vividos. É vestir a camisa mesmo. Com amor, dedicação e paciência. Isso tudo faz com que a sociedade em geral comece a enxergar as pessoas com síndrome de Down, como nós realmente somos. Envolvidos pelo amor, pela coragem, pela entrega e persistência. Nós somos a simbologia do amor e merecemos ter mais voz na sociedade.” Leia mais Conheça mais sobre o projeto “Reviver Down” portalcomunicare.com.br

educação | revistacdm 79


Letícia Seixas Maria Fernanda Carvalho Mariana Aquino

Tarde demais?

O ingresso em instituições de ensino por pessoas mais velhas é acompanhado de julgamentos e dúvidas

editoria 80 revistacdm | educaçao

Maria Fernanda Carvalho


A

jornada de Roseli do Rocio na retomada dos estudos foi marcada por determinação e superação. Mas, principalmente, por desafios. Ela decidiu retornar às salas de aula quando se sentia frustrada por preencher documentações com a informação “ensino fundamental incompleto”. “Eu não tive oportunidade de estudar quando era mais nova. Eu precisava trabalhar. E era uma época em que se a mulher sabia ler um pouquinho e escrever o próprio nome já estava ótimo”, relata a aposentada.

go. Mas eu fui estudar.”Sua rotina era intensa, conciliando os estudos com os afazeres domésticos e a criação dos filhos. Organizada, encontrava tempo para se dedicar aos estudos, frequentando aulas presenciais e buscando apoio dos professores sempre que necessário. Mesmo enfrentando dificuldades em matérias como matemática e química, Roseli buscava compreender os assuntos inclusive fora do horário de aula. Apesar de eventuais conflitos com colegas mais jovens, Roseli não se intimidava, defendendo seu direito à

“Eu não tive oportunidade de estudar quando era mais nova. Eu precisava trabalhar.”

Apesar das fortes resistências de seu marido, que não via necessidade em seus estudos, Roseli encontrou apoio em sua filha mais velha, que descobriu um método de estudo por apostilas em casa, com provas presenciais. Pelo ensino supletivo, ela completou o então ginásio, hoje conhecido como ensino fundamental, em um ano e meio. E, em mais três anos, completou o ensino médio.

Roseli do Rocio, aposentada

Decidida, Roseli fez sua matrícula, mesmo tendo já mais de 40 anos na época. “Quando mostrei minha carteirinha de estudante ao meu marido, ele ficou uma semana sem falar comi-

educação e incentivando aqueles que estavam na mesma jornada que ela. No final, sua persistência e esforço foram recompensados. Hoje, com 71 anos, Roseli pode preencher seu grau de instrução como “ensino médio completo”. A educação e o envelhecimento acabam se tornando dois paralelos na vida de milhares de brasileiros. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2022, levantado pelo InstiMaria Fernanda Carvalho

Roseli guarda, com orgulho, todos os registros de quando estudava. educação | revistacdm 81


tuto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) anualmente, a quantidade de novos alunos com 40 anos ou mais em instituições desta natureza no Brasil cresceu 171,1% entre os anos de 2012 e 2021.

sação de ser uma “estranha no ninho” entre os colegas muito mais jovens. Além de superar o estigma associado à decisão de retomar os estudos em uma idade considerada avançada pela sociedade.

Gláucia Miranda Pires tem uma jornada semelhante à de Roseli. Mas sua volta aos estudos foi pela busca de uma segunda graduação. Com 45 anos, dois filhos universitários e uma carreira na área administrativa, Gláucia encontrou-se diante de um questionamento crucial: “O que estou fazendo da minha vida? Qual é o meu propósito? E o que estou fazendo para alcançar o meu propósito?” Esse ponto de inflexão a impulsionou a romper com a inércia e a enfrentar os desafios que surgiriam ao decidir retornar aos estudos, especificamente, cursar Direito.

A então estudante encontrou apoio em pessoas próximas. Sua filha pôde compartilhar com ela métodos de estudos que utilizava para ajudar a mãe. “Meus filhos eram novos, e eles sentiram a mudança de uma mãe que ajudava na lição de casa e agora não tinha tempo para ajudar mais”, relata Pires.

Sua jornada acadêmica foi permeada por desafios que iam além do currículo acadêmico. Lidar com a falta de tempo, conciliar os estudos com as responsabilidades familiares e superar a resistência pessoal foram apenas algumas das barreiras enfrentadas pela advogada. Desde o momento em que tomou a decisão de voltar a estudar, Gláucia se viu confrontada com o olhar cético e muitas vezes desencorajador de alguns de seus pares. Ao ingressar na faculdade, Gláucia não apenas teve que lidar com o desafio acadêmico após anos afastada dos estudos, mas também enfrentou a sen-

Segundo dados mais recentes, de 2019, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua- Pnad, cerca de 11,1% dos brasileiros acima de 40 anos são analfabetos, o que leva a situação de que eles não chegaram à faculdade, mas já encontram severas barreiras para retomar os estudos: encaram a falta de autonomia por não saberem ler e escrever, são alvos de intolerância por tentarem estudar “tardiamente” e desdobram-se para conciliar trabalho e estudo. Em 2022, um total de mais de 500 mil calouros na mesma faixa etária ingressaram em faculdades, quase o triplo do número registrado em 2012, 221337. Há 900 mil adultos e idosos, a partir de 40 anos de idade, que estão matriculados em escolas no Brasil, sendo alfabetizados e aprendendo conceitos básicos de matemática e ciências. Arquivo Pessoal

Gláucia se formou em Direito em 2019.

82 revistacdm | educaçao


“Meus filhos eram novos, e eles sentiram a mudança de uma mãe que ajudava na lição de casa e agora não tinha tempo para ajudar mais.” A volta aos estudos não se concentra apenas no estudante, mas também na instituição de ensino em que ele ingressará. Alguns lugares estão preparados para receber pessoas mais velhas. Como foi no caso de Roseli, em que o centro de estudos era exclusivo para adultos que desejavam concluir seus estudos. Mas, em uma universidade, por exemplo, um estudante mais velho está junto de pessoas recém-formadas no Ensino Médio. Em Curitiba, existe o programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Atualmente, a rede municipal conta com 798 estudantes matriculados nessa modalidade de ensino, que permite a jovens a partir de 15 anos e adultos que não completaram o ensino regular retornarem aos estudos. A EJA - Fase 1, oferecida pelas escolas municipais, corresponde aos anos iniciais do Ensino Fundamental (do 1º ao 5º ano), com a possibilidade de conclusão em até 2 anos, por meio de aulas presenciais e práticas pedagógicas interdisciplinares. A matrícula na EJA requer apenas a apresentação da carteira de identidade (RG), e o início das aulas segue o calendário escolar estabelecido anualmente pelo Município, simultaneamente ao início do Ensino Fundamental. Essas iniciativas visam proporcionar oportunidades de educação inclusiva e acessível, promovendo a igualdade de acesso ao conhecimento e a reinserção no ambiente educacional para aqueles que porventura tenham interrompido seus estudos. O EJA tem seus serviços ofertados em diversos lugares, como o Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA), algumas escolas da rede estadual de ensino, as Unidades

Prisionais e nos Centros de Socioeducação e Ação Pedagógica Descentralizada (Aped). Jaqueline Teixeira é professora de português do CEEBJA CIC há 21 anos e afirma que os alunos enxergam o EJA como um ambiente de crescimento e socialização. Segundo ela, existem diferenças entre os alunos adultos e os mais jovens, mas faz parte do papel do professor usar isso como ferramenta no processo de aprendizagem. “A maioria dos estudantes adultos deixaram os estudos há muito tempo. Precisam conciliar trabalho, família e estudo, o que é extremamente desafiador”, ressalta a professora. Apesar dos obstáculos, Teixeira afirma que os alunos jovens e adultos são muito esforçados e apresentam excelentes resultados. A professora também relata que a maioria dos alunos são inseguros em relação a sua capacidade de ensino e que a escola tenta auxiliar nesse aspecto. Seja para o ensino superior ou para o supletivo, a trajetória da retomada dos estudos carrega desafios. As histórias de Roseli e Gláucia podem ser diferentes, mas compartilham a superação dos obstáculos e de qualquer preconceito estagnado. Afinal, os estereótipos não as definem.

Leia mais Confira quais escolas em Curitiba oferecem o programa de Educação de Jovens e Adultos - Fase 1 e 2. portalcomunicare.com.br

educação | revistacdm 83


OUTRAS FAMÍLIAS

Mães solo sofrem com preconceito Evelyn Garcia Álefe Carvalho João Brzezinski

N

os últimos anos, as dinâmicas familiares têm passado por profundas mudanças, e a maternidade solo emergiu como uma realidade cada vez mais presente e complexa em nossa sociedade. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas, mais de 11 milhões de mães brasileiras enfrentam o desafio de criar seus filhos sem a presença de um parceiro ou rede de apoio. Essas mulheres travam uma batalha diária que vai além dos desafios convencionais da maternidade. Muitas vezes deixadas à margem dos discursos do patriarcado, essas mães enfrentam uma série de estigmatizações sociais e sobrecargas emocionais. O preconceito, as dificuldades financeiras e a falta de apoio tanto paterno quanto de uma rede de apoio, contribuem para um cenário de luta durante a criação dos filhos. Nesse contexto, a responsabilidade recai exclusivamente sobre os ombros das mulheres, enquanto a sociedade continua a valorizar a figura do “pai provedor do lar”, marginalizando e menosprezando a mãe solteira, como se a sua condição fosse resultado de escolhas individuais, inconsequentes e imorais. Dentro desse contexto, a mulher precisa se desdobrar em diversas funções, conciliando seu tempo para

84 revistacdm | editoria


cuidar das crianças, do lar e da família e muitas vezes sacrificando total ou parcialmente seus cuidados próprios e aspirações pessoais. Os desafios financeiros se tornam uma realidade inegável para a maioria das mães solteiras, já que o estigma social associado à maternidade solo reflete no mercado de trabalho. Com possibilidades limitadas, ficam em uma situação de malabarismo constante entre prover as necessidades básicas de seus filhos e garantir sua própria subsistência de forma digna. Quando contratadas, essas mulheres são forçadas a aceitar jornadas flexíveis e empregos informais, ás vezes, mais de um, adicionando uma camada extra de complexidade à sua rotina já muito desafiadora. Moradora de Curitiba, Amanda Vitória Barreto Menezes da Silva, hoje com 22 anos e com um filho de 5 anos, conta sobre as batalhas que enfrenta diariamente. “Eu fui mãe muito cedo, tive que trocar de escola quando engravidei. Sofri bastante com exclusão e passei a ficar mais próxima de meninas que também estavam grávidas. Embora tenha concluído meus estudos, ainda enfrento uma incerteza sobre trabalho fixo, eu vivo de bicos (trabalho informal), porque quando meu filho fica doente ele só tem eu para cuidar dele e, além disso, quando falo na entrevista que sou mãe solo, já vejo que desclassificam minha candidatura na hora”, conta a jovem mãe. A maternidade solo não apenas impõe uma responsabilidade exclusiva às

mulheres, mas também as priva do apoio emocional necessário durante esse processo. A solidão, o estresse e a exaustão mental são companheiros constantes nessa jornada. Além disso, a pressão externa e interna para ser uma mãe perfeita, combinada com a constante luta para equilibrar as demandas garantem uma condição de desgaste psicológico profundo. Essa sobrecarga também se apresenta nas estatísticas nacionais, com mulheres trabalhando em média 7,5 horas a mais que os homens por semana, segundo um estudo divulgado pelo Ipea, com base nos dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. E quando a maternidade se dá em uma idade muito jovem, o preconceito e os desafios enfrentados pelas mães solteiras não se limitam apenas a elas próprias, mas também se estendem aos filhos, uma vez que a interrupção precoce dos estudos impacta na vida profissional e pessoal da chefa do lar, aumentando ainda mais o ciclo de desafios e fomentando os obstáculos no desenvolvimento da criança. A falta de recursos financeiros e de tempo da responsável pela criança pode limitar suas oportunidades de acesso a educação de qualidade, atenção e cuidados adequados. Além disso, muitos estudos afirmam que a ausência de um modelo paterno positivo tende a afetar a autoestima e identidade da criança até que chegue à vida adulta. É crucial que a sociedade reconheça e valorize a resiliência e a determinação das mães solteiras, em vez de perpetuar estigmas e preconceitos injustos. É sobre reconhecer a importância que elas têm para sociedade e como são batalhadoras em honrar todas as reponsabilidades, que deveriam ser divididas, nessa jornada árdua e de trabalho redobrado para a construção de cidadãos.

editoria | revistacdm 85


O paradigma colonial

A instituição por trás das violências que testemunhamos no dia a dia é desafiada por uma nova maneira de enxergar o mundo Foto: Site/Divulgação

T

empos mais simples: o revoluEvelyn Garcia Álefe Carvalho cionário Kwame Nkrumah, que João Alexandre liderou a conquista da indeBrzezinski pendência de Gana, ostentava numa ante-sala uma imagem enorme de si próprio libertando-se de correntes. No segundo plano, assistiam à cena três homens brancos: um capitalista, um missionário e um antropólogo. Ao mencionar a obra descrita originalmente pelo norueguês Johann Galtung numa palestra, Shiv Visvanathan, acadêmico indiano conhecido por cunhar o termo “justiça cognitiva” relata, no Capítulo 14 do livro Epistemologias do Sul, que “esta imagem representava para mim um exemplo clássico do nacionalismo lutando contra as depredações do capitalismo ocidental, da cristandade missionária e da ciência colonial”.

86 revistacdm | política

Décadas depois, as rachaduras dessa história começam a aparecer. “A pintura parece velha, bolorenta e quase constrangedora. Os movimentos nacionais, que já foram pensados como libertadores, tornaram-se ditatoriais”, escreve Visvanathan. Ele não foi o único a perceber isso. Em muitos lugares do Sul Global, diferentes acadêmicos concluem que, mesmo com o rompimento das relações formais de colonialismo, as violências estruturais que o caracterizavam passaram a ser reproduzidas dentro das nações agora independentes. É o que aponta Cézar Bueno de Lima, doutor em Ciências Sociais pela PUCSP e professor da PUCPR: “O fato do país sair da condição de dominado do ponto de vista político e instituir a própria democracia não significa que deixou de ser colonizado”.


Decolonialidade é tema recorrente das intervenções artísticas da artista brasileira Jota Mombaça. A imagem ao lado é da performance de 2022 “IN THE TIRED WATERING”, produzida em parceria com Anti Ribeiro, Puta da Silva e Sékou Semega em Veneza.

Mais do que um processo de exploração econômica, o Brasil sofreu do Século XVI em diante um brutal processo de genocídio e epistemicídio. As possibilidades de conhecimento e expressão individual e coletiva dos povos originários e dos escravizados foram sufocadas em favor dos conhecimentos e expressões europeias. “Aqui surgiu um tipo de classificação social próspera para a empresa colonial: a ideia de raça. A construção da diferença, da superioridade e da pureza de sangue da raça branca é um feito inédito”, escreve Luciana Ballestrin, doutora em Ciência Política pela UFMG, em seu artigo “América Latina e o Giro Decolonial”. Mesmo com avanços jurídicos e sociais para grupos marginalizados nas últimas décadas, algo de podre ainda empesteia esse país. Basta olhar para os índices de feminicídio, violência contra lideranças indígenas e encarceramento da juventude preta. O que fica claro é que, mesmo com o desmantelamento de ferramentas oficiais de hierarquização de raça, etnia e gênero, persiste uma pérfida ideologia de supremacia do homem branco ocidentalizado (talvez porque esse sujeito teve protagonismo na declaração de Independência e proclamação da República). Liberto de um pacto colonial e de um poder moderador, o povo brasileiro seguiu cativo, porém, das mesmas opressões sistêmicas que os portugueses trouxeram consigo nas caravelas. Com o fim do colonialismo, um novo capítulo, tão doloroso quanto, é inaugurado na periferia do mundo: a colonialidade.

COLONIALIDADE HOJE A colonialidade é o paradigma que ainda hoje orienta um mundo construído para atribuir utilidade e rótulos aos corpos, de maneira a limitar a liberdade dos indivíduos: “A colonialidade vai construir a gente numa ideia de que nossos corpos têm um fim, o trabalho. Se a gente pensar no masculino e no feminino, a gente tem o discurso da biologia, tentando buscar [nesses corpos] uma determinada leitura. E a partir disso há uma série de empreendimentos sociais. Há instituições que legitimam isso. [...] [Para essas instituições] ser mulher não é apenas uma autoidentificação. É todo um

consumo de uma indústria farmacêutica, de uma indústria cosmética, de uma indústria da moda”, explica Lucí A Guerra, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR que pesquisa políticas de narrativa e noções de escrita que confrontam o conhecimento hegemônico. “É uma sociedade que está organizada para que os brancos tenham uma posição e os negros estejam constantemente precários dentro deste sistema. Cida Bento vai falar do Pacto Narcísico da Branquitude, que é esse pacto do silêncio entre brancos que se lerão, se citarão e perpetuarão seu conhecimento”, complementa. Mesmo para quem se encaixa nos parâmetros que a colonialidade determina como adequados para transitar livremente nos espaços de poder, existe uma dinâmica de opressão. Guerra aponta que “a mulher cisgênero que performa a feminilidade exerce um esforço absurdo para poder estar nesse lugar. O homem cisgênero também. Eu tinha amigos na infância que eram heterossexuais e gostavam de fazer coisas manuais, como crochê e tricô, mas eles faziam isso num segredo absurdo, porque um homem produzir manualidades machucaria a masculinidade deles”. Houve um momento específico na vida de Lucí que a fez acordar para toda essa estrutura de instituições que limitam as possibilidades de vivências para determinados grupos. Certa vez, quando ainda estava no Ensino Médio e não tinha iniciado a transição de gênero, comentou com colegas que gostaria de prestar vestibular. “Ela virou para mim e falou ‘Você é bicha e pobre, o que você acha que tem de contribuição para a academia? O melhor que você faz é fazer um curso técnico ou ir logo trabalhar’. Gosto de contar essa história porque o que minha professora estava dizendo era que, por ser pobre, não poderia acessar um lugar. E por ser bicha, também não poderia acessar um lugar. Isso me fez perceber que, sendo uma pessoa precarizada tanto pela minha classe quanto pela minha condição de existência, práticas sexuais e identidade de gênero, havia um universo de possibilidades que eu não conseguia acessar”.

política | revistacdm 87


HOJE DECOLONIAL “Eu gosto muito de pensar que os corpos que não são possíveis dentro dessa realidade são corpos que constroem estratégias e tecnologias de permeabilidade, de poder caminhar em um mundo que não é feito para nós. Eu, enquanto travesti, ando num mundo que não foi feito para mim e vou realizando estratégias e alianças. Estou me relacionando com um lugar para tentar minimizar a precarização que esse mundo me oferece. Está além de pensar que sou uma pessoa precária, mas que vivo numa sociedade que precariza a minha vida”, afirma Lucí. Para além da pesquisa acadêmica, a existência de Lucí A Guerra tem tudo a ver com o questionamento da colonialidade: “Tenho buscado lógicas de refúgio dentro da minha escrita, um lugar que permita que eu encontre cura e noções de estudo que me fazem buscar o mundo com um certo lugar de ternura”, diz. Ela acredita que os tentáculos da colonialidade envolvem o processo de formação identitária e epistêmica de cada um de nós. “Descolonizar é a prática de outro tipo de cognição, é olhar o mundo através de outro tipo de cosmovisão. É entender que a colonialidade nos empurrou para uma construção de identidade que é opressiva porque não nos permite nos construir nas nuances da vida”, afirma. O professor Cézar Bueno de Lima também vai na mesma linha: “A decolonialidade pressupõe saber o lugar que você ocupa na estrutura da sociedade. Estamos na América Latina, na periferia. Periferia é um lugar que sofreu um doloroso processo de dominação. Reconhecer as diferenças e combater as desigualdades são questões importantes para nós, assim como ser inventivo, incluir novos aportes teóricos que transcendam esse muro elitizado, extremamente tributário, de uma concepção eurocêntrica de conhecimento”. Esse processo de reconhecimento do mundo e do indivíduo é essencial para a prática decolonial: “A sua cabeça está próxima das suas ancestralidades? Do seu mundo real? O ser colonizado é um ser que pensa com a cabe-

88 revistacdm | política

ça do ocidente. O ser descolonizado é um ser que pensa a partir de matrizes constitutivas de uma outra identidade”, questiona Bueno de Lima. “Essa outra identidade, no caso brasileiro, é saber que somos produto de uma mistura de povos. A herança europeia não é definitiva. Pensar a partir de uma perspectiva decolonial é trazer para o centro a mistura, e não a perfeição ilusória que foi criada sobre o ocidente branco, patriarcal, universitário, esse ser que, na verdade, não existe no mundo que faz sentido para mim”, afirma. A mudança de paradigma para a decolonialidade é muito mais do que um capricho teórico, mas, sim, uma urgência. A ordem mundial vigente na ciência, na economia e na cultura está rapidamente destruindo o mundo como o conhecemos e colocando em cheque a existência da raça humana - para além da perpetuação de opressões sistêmicas que no Século XXI insistem em castigar e marginalizar. Guerra relembra, porém, que não estamos partindo do zero ao construir um mundo novo: “não precisamos necessariamente construir uma nova alternativa à colonialidade. Os povos indígenas, os intelectuais indígenas, os intelectuais africanos já falam sobre isto há muito tempo. Sobre como nós já temos uma possibilidade de existência alternativa, uma possibilidade

“O pensamento colonial nos impede de experimentar a vida com liberdade ”

-Lucí A Guerra, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR


de existência de regresso, de contato com a natureza”.

Leituras

Guerra cita Ailton Krenak, filósofo, ambientalista e liderança indígena, para nos lembrar o que o “fim do mundo” realmente é: “quando pensamos nesta lógica do fim do mundo, não é o fim do planeta Terra, é o fim da nossa sociedade, da nossa relação com a Terra na forma como a sustentamos. Vou repetir a voz do Ailton Krenak. Ele deu uma entrevista recentemente dizendo que os xamãs já dizem há muito tempo que até o céu vai cair sobre nossas cabeças. Essa frase é muito sensacional, né? As estruturas que compõem o planeta Terra estão desmoronando lentamente, então o exercício da decolonialidade é um exercício urgente para perpetuar nossa existência”.

Assista

O que resta para nós que estamos do lado de cá da linha abissal e rejeitamos as imposições da colonialidade parece ser um processo de desconstrução dessas noções pré-estabelecidas que realizam a manutenção do status quo em prol da construção de um mundo menos hierarquizado, menos opressivo e menos autodestrutivo.

Confira abaixo autores que Lucí A Guerra indicou para quem deseja entender como construir novas realidades: -Octavia Butler (Kindred); -Abigail Campos Leal (EX/ ORBITÂNCIAS); -Franz Fanon (Pele negra, máscaras brancas); -Davi Kopenawa (A Queda do Céu); -Bell Hooks (E eu não sou mulher?); -Lélia Gonzalez (Lugar de negro). Acesse o QR Code e assista Jota Mombaça discutindo a obra “IN THE TIRED WATERING”. Vídeo em inglês com legendas automáticas para português. portalcomunicare.com.br

Site/Divulgação

Em “IN THE TIRED WATERING”, recitações rítmicas e o desenrolar de tecidos de algodão produzem uma reflexão sobre a água, suas formas e o cataclisma climático eminente.

editoria política | revistacdm 89


Resistência e fé: sobrevivendo em meio ao julgamento A resiliência de religiosos com a intolerância de uma sociedade muito influênciada pelo cristianosmo Ana Clara Bernardi, Ana Carolina Ferreira e Gabrielle Tiepolo

editoria 90 revistacdm | política

Gabrielle Tiepolo da Luz

Mãe Lilian comandando a gira do terreiro Vovó Benta


I

sabel Cristina, ou Mãe Cris da Oxum, é mãe de santo do candomblé e da umbanda. Sua casa, denominada Ile Asé Iba Omi Osun, contempla as duas religiões, com predomínio do candomblé. Ela tem 65 anos e há 46 tem vivências na umbanda, 25 deles como mãe de santo. Já o candomblé, ela vive há 15 anos. Mãe Cris explicou brevemente sobre as duas religiões e como elas são seguidas em seu Ile. “Na umbanda, existem muitas variedades que são seguidas e cultuadas. Para algumas pessoas, ela tem um grande sincretismo com a igreja católica, por cultuar os espíritos

Mãe Cris enfatiza que não se aprende nenhuma dessas religiões a partir de livros, e sim participando, acompanhando e conhecendo de perto a realidade delas. “Nós somos uma comunidade de resistência à cultura negra.”

RESISTÊNCIA Mesmo com a umbanda e o candomblé estando entre as cinco religiões mais seguidas no Brasil, segundo o IBGE, os números de denúncias de casos de intolerância religiosa não param de aumentar. Em 2018, 615 denúncias foram registradas no Disque 100. Em 2023, o número subiu para mais de 1.400 registros, contabilizando um aumento de 140%.

“Por ser branca, eu acabo Isabel já sofreu tipos de sofrendo menos com diversos agressões físicas e o patrimônio o preconceito do que uma contra de sua casa de candomblé. “Já fizeram no meu pessoa de pele negra sofreria. pichações Ile, jogaram pedras garrafas pet e já Infelizmente, essa é a realidade epuxaram o meu cabelo apenas por eu que vivemos no Brasil.” estar de branco.” Cris já sofreu - Mãe Cris de Oxum Mãe diariamente com de pessoas falecidas que evoluíram. Para outros, o entendimento é que são energias de encantados, ondinas e sereias, e tem também alguns terreiros que tem um conceito mais kardecista.” Isabel disse que a umbanda seguida em sua casa é a de caboclos, pretos velhos, exu e pomba gira. Sobre o candomblé, Isabel contou mais a respeito de suas origens. “É uma religião de matriz africana, mas que também pode ser considerada um pouco brasileira. Ele foi trazido e construído por mulheres africanas que vieram para o Brasil, foi criado a partir da realidade brasileira, que é muito diferente da realidade do continente africano. A forma de organização era muito distinta e, assim, acabou nascendo o candomblé, que cultua a nossa ancestralidade africana, a nossa conexão, já não é mais o culto afro.”

o preconceito de vizinhos e ataques ao Ile, que atualmente está em uma nova localização, nos fundos de uma rua. Segundo ela, ter se mudado para um lugar mais isolado, de certo modo, fez com que os ataques constantes diminuíssem consideravelmente. “Hoje, o espaço que estou é mais tranquilo, nos fundos de uma rua, isso dificulta ataques.” Isabel enfatiza que acaba sofrendo menos ataques por sua cor de pele. “Por ser branca, eu acabo sofrendo menos com o preconceito do que uma pessoa de pele negra sofreria. Infelizmente, essa é a realidade que vivemos no Brasil.” Mãe Cris fala sobre o sentimento dela em fazer parte tanto do candomblé quanto da umbanda e como a religião não se tornou apenas uma parte de

editoria política | revistacdm 91


INTOLERÂNCIA DENTRO DE CASA Cristiano Moreira Filho começou a frequentar a umbanda em 2016. Os ataques contra suas crenças vieram de onde ele menos esperava, sua família, “são sangue do meu sangue, e o preconceito acaba vindo de dentro, porque acabam achando que são coisas ruins, do diabo.”

sua vida e sim toda ela. “Desde o dia em que fiz minha escolha, [a religião] têm sido a minha fortaleza. No dia em que eu renasci para Orixá, nunca mais me senti sozinha, a minha vida tem sido a minha fé.” Isabel fala que, para ser Mãe de Santo, é preciso estar sempre disposto a deixar de lado sua privacidade e muitos momentos da vida pessoal para dedicar-se ao crescimento e ao Orixá de outra pessoa.

A religião tem ramificações, e Cristiano participa da vertente Pé no Chão. Contando mais sobre, ele trabalha com as 7 linhas, sendo cada uma delas um elemento da natureza, representando os Orixás.

“O preconceito acaba vindo de dentro, porque acabam achando que são coisas ruins.” - Cristiano Moreira A bisavó de Cristiano era mãe de santo. Quando ele era mais novo, ela contou a ele que sentia uma energia muito forte vindo dele, mas por ser criança na época, não entendeu muito bem o que significava. Anos depois, após a morte dela, o jovem começou a frequentar o terreiro. Além dele, a única pessoa de sua família que pratica uma religião diferente do catolicismo e do evangelicalismo é sua tia avó, que começou a frequentar o espiritismo após a morte de seu marido, e com as crenças, compreendeu melhor a perda. Em um churrasco familiar, sua tia avó contou que havia sonhado com a bisavó de Cristiano. “A minha tia sonhou que a bisa conver-

editoria 92 revistacdm | política

Freepik


sava com ela e avisava que na próxima vida, voltaria como neta dela, achei aquilo muito legal.” Meses depois, ele sonhou com ela também, que continuava avisando que estava voltando. No mesmo dia, a filha de seu primo nasceu: “Isso foi algo que me marcou, porque ela tinha me avisado que retornaria. Isso só me mostrou ainda mais o quão ligados nós somos”. Em 2019, Cristiano estava com depressão, e a religião o ajudou na cura. “Eu não conseguia ver saída, achava que a morte resolveria meus problemas, mas a umbanda me salvou, não só nessa, mas também em outras situações.”

Incentivando aqueles que querem conhecer a religião, o jovem acredita que é necessário ir para conhecer de verdade o terreiro, e assim quebrar os paradigmas impostos pela sociedade. Além disso, todos são iguais na umbanda, independentemente de orientação sexual, raça, idade. “A religião vem crescendo porque quebra diversos preconceitos, as pessoas tendem a se sentir seguras e bem vindas, pois todos são iguais.” Para que haja uma maior conscientização, o dia 21 de janeiro se tornou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, como forma de homenagear a Mãe Gilda, fundadora do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador (BA), após sofrer diversos episódios de intolerância, inclusive tendo sua casa invadida por um grupo de outras religiões.

Na semana seguinte, já em Salvador, para acompanhar o jogo entre Coritiba e Vitória, a torcida rival atirou no ônibus de Cristiano, em

editoria política | revistacdm 93

Freepik

No mesmo ano, antes de uma viagem importante com a torcida do Coritiba, ele foi ao terreiro e a entidade de Maria Padilha conversou com ele. “Ela não é muito de dar presentes, mas nesse dia, cortou um pedaço de seu vestido, e amarrou na ponta de uma faca, pediu que eu guardasse, não para usar, mas como algo que me protegesse”, contou.

sua direção, e por milímetros não o acertou: “Eu tenho certeza que o que me salvou foi o que Maria Padilha me deu.”


Gabrielle Tiepolo da Luz

SOLUÇÃO? Felipe Taborda de Lima,especialista em direitos humanos, destaca que a religião influencia em todos os aspectos da sociedade brasileira. “Se uma pessoa precisa afirmar que é ateia, demonstra a necessidade de afirmar que não segue religião alguma. Um ponto de muita perspectiva é a correlação da construção das leis diante Gabrielle Tiepolo da Luz

dos valores morais propostos, principalmente pelo cristianismo. Mesmo a moralidade judaico-cristã se mostra presente nas falas, no dia a dia da sociedade brasileira e em suma no mundo ocidental.” Taborda enfatiza também que, a relação entre intolerância e racismo se mostram presentes em como a sociedade trata práticas de intolerância e aponta maneiras de remediar este problema. “Há desdém e pouco caso no processo de resolução deste problema. Dois caminhos para sanar esta situação poderiam ser tomados, um processo investigativo e criminal mais rígido para quem comete tais crimes e a construção de uma educação que reforce a construção cultural do país, trazendo a importância da história africana para a juventude estudantil do Brasil.” O especialista explica que, a construção social do país está diretamente ligada a esse tipo de preconceito. Ele destaca que isso acontece desde os primórdios do país, com a chegada dos europeus impondo uma cultura “civilizatória”, no modelo eurocêntrico e cristão.

editoria 94 revistacdm | política


“Há desdém e pouco caso no processo de resolução deste problema. Dois caminhos para sanar esta situação poderiam ser tomados, um processo investigativo e criminal mais rígido para quem comete tais crimes e a construção de uma educação que reforce a construção cultural do país.” - Felipe Taborda “A escravização de africanos e indígenas foi uma construção ideológica de séculos, e isso reflete em como a cultura brasileira pende para o modelo europeu. A luta indígena e afro-brasileira são diárias. Somos uma sociedade que viveu praticamente 388 anos no modelo escravocrata, que

devastou culturas que não fossem convergentes com a conjuntura.”

A Constituição Federal de 1988, prevê no seu Artigo 5º, parágrafo VI que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;” porém, mesmo sendo constitucional, a intolerância religiosa se mostra evidente no Brasil, principalmente se tratando em intolerância contra religiões de matriz africana.

Freepik

Conheça Acesse as redes sociais dos terreiros citados na reportagem portalcomunicare.com.br

editoria política | revistacdm 95


Embora o futebol seja uma paixão nacional, os estádios brasileiros ainda não são ambientes seguros para as mulheres

Letícia Seixas Maria Fernanda Carvalho Mariana Aquino

editoria 96 revistacdm | política

D

aniele Graboski trabalha como manicure em um salão de Curitiba. Quando tem jogo do Coritiba Foot Ball Club, o destino dela após sua jornada de trabalho já é certo: o Estádio Couto Pereira. A torcedora não perde um jogo sequer, acompanha assiduamente seu time desde pequena por influência da família. “Ir ao jogo é um momento meu para relaxar e descontrair, mas muitas vezes é atrapalhado por inconveniências”. As inconveniências mencionadas por Daniele são os assédios que as torcedoras lidam constantemente em diversas formas. Esse temor evidencia-se na vida das apaixonadas por futebol, que desejam exercer o direito de acompanhar seu time de perto nos estádios. Esses espaços, predominan-

Maria Fernanda Carvalho

Torcer como ato de resistência


temente masculinos, ainda carecem das estruturas e do tratamento básico necessário para que elas se sintam seguras e bem-vindas. Daniele vivenciou uma situação na fila para entrar na arquibancada. Um torcedor a assediou verbalmente, o que gerou desconforto e insegurança. Como ela estava acompanhada, não houve maiores complicações. Entretanto, muitas mulheres não obtêm a mesma rede de apoio. Historicamente, o uso das palavras torcedora, torcedor e torcer passou a se popularizar após uma crônica de Henrique Coelho Netto - membro da Academia Brasileira de Letras e pai dos jogadores Mano e Preguinho. Em seus textos, dizia: “Enquanto eles jogam, elas torcem”. Frase, inclusive, que terminou marcada nas Laranjeiras e em ações do Fluminense. No início do século 20, a expressão passa a aparecer com maior constância nos jornais. Sendo citada pelo

Além disso, durante três décadas, entre 1941 e 1979, as mulheres foram proibidas de praticar o futebol, criando um novo afastamento natural nas torcidas, uma vez que foram excluídas do esporte. A empresária Bruna Azevedo desenvolveu uma paixão pelo futebol desde cedo. Incentivada pelos pais e começou a se envolver com a com o Pelotão Feminino, movimento feminino dentro da torcida organizada do Atlético Paranaense, quando era adolescente. Ela relata que a discriminação e o assédio ainda fazem parte da realidade das mulheres que frequentam os jogos de futebol. Destacando a existência de regras e barreiras impostas exclusivamente às mulheres, algo que não ocorre com a torcida em geral. “Apesar de tanta luta, infelizmente ainda é um ambiente extremamente machista.”, afirma. A torcedora relembra que, no passado, as tentativas de abuso eram mais frequentes e que atualmente, existe um aumento da postura combativa e de enfrentamento das mulheres diante das situações de assédio e abuso, o que em alguns casos intimida os agressores.

“Apesar de tanta luta, infelizmente ainda é um ambiente extremamente Feminino é machista.” OumPelotão grupo integrante

Fanáticos, torcida Bruna Azevedo, empresária da organizada do Atlético

Jornal do Commercio, por exemplo, em trechos que fazem referência justamente a essa performance e ao número de mulheres presentes nas arquibancadas. Mas, ao longo do tempo, as mulheres foram se afastando do ambiente futebolístico devido ao fato de que diante da necessidade de criar uma arrecadação em dinheiro nessas partidas, perdeu-se o costume dos sócios frequentarem jogos com isenção de pagamento, assim como suas famílias, portanto. E, assim, o futebol se masculiniza, escanteando mulheres e crianças das arquibancadas.

Paranaense. O movimento tem como objetivo principal proporcionar um ambiente acolhedor para que mais mulheres se sintam à vontade para frequentar os jogos e tenham uma voz mais ativa nesse meio. Fundado em 1995, atualmente o Pelotão conta com 60 participantes de diferentes idades. Na década de 90, o machismo nos estádios era extremo. As mulheres tinham dificuldade de circular pelo estádio sozinhas e eram constantemente assediadas e xingadas com palavras de baixo calão. Depois de muitas reclamações e desabafos, começou a movimentação que gerou o Pelotão Feminino que é o primeiro coletivo feminino do Paraná.

editoria política | revistacdm 97


Arquivo pessoal

Bruna participa do Pelotão Feminino, movimento dentro da torcida organizada Fanáticos.

Mesmo com o machismo ainda sendo uma realidade muito presente no meio esportivo, elas lidam com essa discriminação juntas, conquistando mais espaço para as mulheres e estando presente para mostrar a força do grupo. O movimento Gurias do Couto, de torcedoras do Coritiba Football Club, foi criado em 2019 e é um exemplo de iniciativa que busca tornar os estádios mais seguros e acolhedores para as mulheres. Bárbara Breda, administradora do Gurias do Couto, explica: “O Gurias do Couto não é uma torcida organizada, somos um movimento feminino. Essa é uma confusão comum. Já fomos chamados de torcida organizada, mas nossos objetivos são diferentes.” A criação do movimento foi impulsionada por um caso de assédio no estádio, o que evidenciou a necessidade de dar voz às mulheres dentro do

Couto Pereira e no futebol em geral. “A partir desse caso de assédio, vimos que as mulheres precisavam ter voz dentro do Couto Pereira e no futebol como um todo”. As ações do Gurias do Couto não se limitam ao futebol. “Fazemos muitas ações sociais, como campanhas de Páscoa, Dia das Crianças, e Dia das Mulheres, muitas vezes em colaboração com outros coletivos femininos e torcidas organizadas”, conta a administradora do movimento. Bárbara destaca a importância do movimento em proporcionar um espaço seguro e de apoio para as mulheres: “O movimento também é sobre isso, é sobre a gente ter um lugar seguro, um lugar de conforto onde podemos falar sobre tudo, receber apoio, conforto e afeto.” Bárbara Breda reconhece que ainda há um longo caminho a percorrer para que o futebol seja um ambiente seguro para as mulheres. “Ainda não

Arquivo pessoal

O Gurias do Couto é um movimento feminino das torcedoras do Coritiba Foot Ball Club editoria 98 revistacdm | política


viabilizar a sanção dessas condutas. A instalação de placas nos estádios com os termos da lei e com as penas referentes aos atos de violência e importunação contra mulheres, é uma das medidas adotadas no texto da proposição. Da mesma forma, o sistema de áudio e vídeo dos estáO colete rosa identifica as seguranças que dios também devem atendem as torcedoras. informar quanto às atitudes que devem acredito que o futebol proporciona um ser tomadas pela vítima para fazer ambiente seguro às mulheres. Estavaler seus direitos, prática já adotada mos numa caminhada rumo a isso”, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte. afirma. Ela destaca a importância de pequenas vitórias e da participação A capacitação de funcionários também ativa em questões políticas e legais: deve ser implantada pelas entidades “Temos um projeto de lei hoje na responsáveis pela administração dos Câmara de Curitiba, com a vereadora estádios. Esses funcionários ficam, Ana Júlia. Já participamos de audiênde acordo com a lei, autorizados a cias públicas com a vereadora Maria acionar a Polícia Militar (PM-PR) para Letícia. Trabalhamos muito nessa área política porque estamos falando que tome as medidas cabíveis nos de crimes”. casos em que se configure o flagrante de importunação e violência contra a mulher. PROJETO DE LEI NO COMBATE A

“O movimento também é sobre a gente ter um lugar seguro.” Bárbara Breda, estudante

VIOLÊNCIA NOS ESTÁDIOS

Para assegurar maior segurança às torcedoras nos estádios, recentemente, a Câmara Municipal de Curitiba levantou um debate para que houvesse uma maior ação efetiva do poder público para o combate da violência contra as mulheres no ambiente futebolístico.

Nesse sentido, o projeto de lei também prevê que os estádios forneçam espaços adequados para que a polícia desenvolva suas atividades. A necessidade de que os estádios tenham a cobertura de sistemas de vídeo que exibem o máximo possível de locais nas partes internas dos estádios também foi mencionada.

O objetivo desse projeto de lei é instituir uma campanha contra a importunação sexual nos estádios e estabelecer ações afirmativas. Além de garantir ações para prevenir, coibir e

Veja também Confira uma fotorreportagem com as torcedoras do Coritiba em um dia de jogo. portalcomunicare.com.br

editoria política | revistacdm 99


PROIBIDO PICHAR GRAFITAR

Apesar de hoje o grafite ser um movimento celebrado, com artistas presentes em todo o Brasil, ainda é comum que pessoas tenham preconceito em relação a essa prática e confundam o grafite com a pichação, enquadrada como infração pela Lei dos Crimes Ambientais. Em Curitiba, a burocracia e preconceito quanto a essa arte já levou a denúncias, multas e até a retirada de painéis que foram ícones na cidade, como o mural do “Jack Bobão”, e, recentemente, do cantor Ray Charles. Ambos são movimentos artísticos expressos por meio do espaço público, mas existe sim uma distinção prevista em lei no Brasil. No grafite, existe o consentimento do proprietário do imóvel/local na execução da arte, além da autorização

de órgão público, enquanto na pichação não há nenhum acordo entre as partes. Na cidade, há cada vez mais esforços para esclarecer esta distinção e facilitar o trabalho dos artistas de rua. Em 2023, foi sancionada a Lei do Grafite, cujo principal objetivo é facilitar a burocracia em torno da autorização dessa arte em murais da cidade, reconhecendo essa prática como manifestação artística com valor cultural e possuindo as suas regulamentações específicas, antes tratadas como publicidade pelo poder público, mesmo que não houvesse nenhuma intenção comercial nas obras. Hoje, o aval para realizar um trabalho de arte de rua em grafite na cidade compete à Secretaria Municipal do Urbanismo (SMU).

Inaugurada em 2021, a obra que foi exposta na fachada lateral do Museu Oscar Niemeyer, no Centro Cívico, é outro exemplo de uma arte na cidade que foi alvo de polêmicas e denúncias. Realizada pela dupla Os Gêmeos, pioneiros do movimento do grafite no país. Os artistas são de origem paulista, e possuem trabalhos expostos ao redor do Brasil e em vários países, como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. O icônico “Museu do Olho” da capital paranaense recebeu as obras dos artistas entre setembro de 2021 e abril de 2022, acompanhada de uma exposição de sua arte na fachada lateral do museu, retratando um personagem símbolo do estilo dos artistas. Por conta disso, houve muita discussão sobre o grafite e o que configura uma pichação segundo a lei, visto que a Secretaria

100 revistacdm | editoria

Daniel Castellano/AFP

Mural Os Gêmeos

Municipal de Curitiba recebeu denúncias onde moradores se queixavam da violação de um patrimônio cultural da cidade, por uma “pichação” que deveria ser retirada.


Inaugurado em 2013 no paredão do edifício Inter Walter Sprengel, na frente do Teatro Guaíra, o painel conhecido popularmente como “Jack Bobão” rapidamente se tornou um ícone na cidade. De autoria do artista Eduardo Melo, conhecido como Artestenciva, o painel foi feito em arte estêncil e trazia a figura de Jack Nicholson como o icônico personagem Jack Torrance, do filme “O Iluminado”, acompanhado das cores características do cenário do filme e uma tradução de sua repetida e famosa frase: “Só trabalho e sem diversão faz do Jack um bobão”. Apesar do mural atrair fotógrafos, turistas, e os olhos de muitos que passavam pelos arredores do Centro, o mural teve que ser retirado em 2022

Projeto Motion Layers

Mural Jack Bobão

devido a denúncias feitas à Secretaria Municipal de Curitiba. Na época, a Secretaria categorizava a obra como publicidade, e assim, estava intervindo de forma irregular próximo a área tombada, do Teatro Guaíra.

Kantco

Entrevista com Kantco

P- O Que te motivou a começar no grafite? R: Sempre fui apaixonado pelas artes visuais e sempre quis desenvolver muitos projetos nesse meio, através das minhas musicas no hip hop o mundo do grafite acabou se tornando parte fundamental pra mim. Eu decidi virar grafiteiro ja que via poucos trabalhos de arte no meu bairro, e foi isso que me motivou inicialmente, a ausência de cores pela minha rua. A partir disso, decidi colorir todo lugar que eu passava. P- Como você lida com o preconceito sobre o seu trabalho? R: Atualmente eu relevo muita coisa que falam e fazem com meus trabalhos na rua, porem até um tempo atras eu debatia muito sobre essa aceitação que as pessoas se recusam a ter com uma arte que está nos lugares de forma pura e genuína, são só cores sabe? Ainda pretendo estudar muito mais para entender cada detalhe do por que meu trabalho sofre essas recusas e trabalhos acadêmicos não.

P- Quais são suas maiores inspirações? R: O cotidiano do meu bairro, ver como cada pessoa é unica e completamente diferente uma da outra. Isso faz com que meus letreiros busquem essa autonomia, ser único esteticamente e em localidade, minhas referências moram perto de mim. P- Como você vê o papel do grafite na arte urbana/ comunidade? R: Tendo em vista essa marginalização que ocorre com a arte urbana, acredito que o grafite está ali como um pilar fundamental para que as pessoas enxerguem a imensidão que a arte é. Cada grafite é diferente um do outro, e isso cria a pluralidade que a sociedade precisa, se esse não te agrada, tenha certeza que um fará seus olhos brilharem. P- Tem alguma obra sua que está em exposição na cidade? Poderia comentar um pouco sobre o trabalho que realizou nela? R: Tem alguns letreiros meus perdidos por ai sim, eu geralmente trabalho com assinaturas e busco essa polinização do meu nome. Atualmente estou em busca de desenvolver personagens onde estudo a forma e cor desses trabalhos, sinto que tenho muita cor, ideia e vontade para essa cidade.

editoria | revistacdm 101


À beira da vida Ex-usuários de drogas, pacientes da Comunidade Terapêutica Ponte, contam seus relatos e experiênciais sobre sua jornada na recuperação do vício

O

O cheiro que passa por seu pulmão é tentador. E hoje, mais do nunca, o aroma parece cativante. Marcos só tinha o plano de ir jogar futebol com os amigos na quadra de areia próximo de sua casa, porém aquele cheiro que ele já conhecia de longe hoje estava mais forte. Foi quando olhou para o lado e viu conhecidos mais velhos sentados no muro do campinho de futebol, exalando aquele cheiro. E, ao contrário de outros dias, ele tomou coragem e foi perguntar o que era. “Qual é, o que que é isso que vocês tem aí?”, e foi ali, aos 12 anos de idade, que sua vida iria mudar radicalmente. Sua altura enganava sua idade, era mais novo do que parecia. Mas isso não importava, seus colegas termi-

102 revistacdm | saúde

naram de enrolar a planta na seda e acenderam o isqueiro. Naquele dia, o jogo de futebol foi diferente. O sol estava mais quente que o normal, os pés descalços estavam mais sensíveis à textura da areia e as piadas dos amigos eram mais engraçadas. O efeito da maconha em seu cérebro infantil foi o começo de uma luta que dura até hoje. Andrey começou nesse mundo obscuro, como ele mesmo descreve, aos 12 anos com inalantes. Sua mãe abandonou sua família quando ele tinha 2, e seu pai criou sozinho os quatro filhos trabalhando como vigilante à noite. Aos 14, por influência das amizades do colégio começou a fumar maconha, mas foi aos 16 que ele conheceu sua maior inimiga.

Maria Gabriele Fachini Maria Luísa Cordeiro Maria Luiza Baiense Mariana Machado Fotos: Maria Luisa Cordeiro


“Cara, perdão da palavra, foi amor à primeira vista. Porque no começo a droga era recreativa. Mas a cocaína foi a droga que devastou a minha vida”, conta com os olhos marejados. Foi a partir desse momento que Andrey começou a roubar e traficar para manter seu vício. Aos 18 foi preso pela primeira vez, dali em diante a droga tomou suas decisões. “Eu já passei por momentos… Eu já fiquei seis meses trancado dentro de um quarto. Só usando, usando”, mas esse não foi o fundo do poço. Andrey tentou suicídio duas vezes, a primeira com remédios, e a segunda colocou uma arma na boca, “A droga me tirou o tesão da vida. Ao mesmo que ela te joga lá em cima, ela te joga lá embaixo”. Ano passado Andrey perdeu seu irmão assassinado a facadas, acontecimento que até hoje o faz acordar de madrugada com pesadelos. Mas Andrey ainda pode contar com o apoio de seu pai. “Mesmo ele não conseguindo estar tão presente assim, ele sempre deu muito amor”. Seu pai financiou o uso da cocaína com medo do filho morrer numa biqueira, chegando ir buscar a droga para não vê-lo vender suas coisas para o traficante.

to. “Eu tentei fazer por mim e não deu certo. A droga tirou o meu amor próprio, então eu to aqui mais uma vez tentando. Mas eu estou esgotado. Estou extremamente esgotado, cada dia é uma luta”. Hoje com 28 anos, Andrey procurou ajuda. “Eu sou usuário, quer dizer, ex-usuário de cocaína. Isso que fala professor? Ex-usuário.” Ele ainda está se acostumando com o novo termo: ex-usuário. Ele está há 12 dias na comunidade terapêutica. E não está sendo fácil. Ao contrário dos outros colegas que já estão mais avançados no tratamento, Andrey está na fase inicial de desintoxicação.

DO USO À VENDA “Ah se pudesse voltar no passado…” Andrey e Marcos repetem ao mesmo tempo. Marcos, ou Marcola como é conhecido em Colombo, dos 12 aos 17 anos só usava maconha. Foi ao entrar no quartel que teve acesso a cocaína, “não gostava, mas usava mesmo assim para me manter acordado”, explica. Com 19 anos saiu do Exército e voltou para casa de sua mãe. Lá, abriu sua “biqueira”, um ponto de venda de drogas. O acesso facilitado a todas as outras drogas não o fez mudar de substância, a “verdinha”, como ele chama, ainda era sua preferida.

“Eu já tentei fazer por mim, e, por mim, não deu certo. Infelizmente, a droga tirou o meu amor próprio, então eu to aqui mais uma vez tentando.” A vida no tráfico não foi recompenCom 22 Andrey, 28 anos sadora. anos foi preso a As tatuagens coloridas do rapaz loiro, de bigode fino e alargador na orelha, chamam atenção ao longe. Na parte de trás da nuca o desenho mais importante, a agulha com tinta preta marca o nome Pietra, de sua filha de 4 anos. A voz da menininha loirinha, de olhos verdes e bochechinhas vermelhas dizendo “Eu te amo papai, você é lindo”, mesmo nos momentos em que ele se sentia um zumbi, é o motivo para hoje ele buscar tratamen-

primeira vez, depois com 23, outra com 25 e duas vezes aos 26 anos. Sua mãe acreditava que Marcos estava trabalhando em um supermercado, afinal era isso que ele contava para ela. O horário das 23h até às 6 horas da manhã, na verdade não era vendendo alimentos, mas um produto muito mais nocivo à saúde. Parecia ser mais um dia normal em 2021. O sol já estava próximo de se

saúde | revistacdm 103


pôr às 16h30 quando sua mãe saiu de casa para comprar o lanche na padaria próxima de casa. Do outro lado da rua, carros da polícia. Quando estava pagando pelos pães fresquinhos, as vizinhas começaram a gritar “teu filho, teu filho está sendo preso”. A senhora largou a sacola de pão na bancada e saiu correndo. Só deu tempo para o rapaz moreno de quase 1,90m de altura gritar “Não vem, mãe. Não vem”. Os mesmos carros de polícia que tinha visto anteriormente agora estavam carregando seu filho. Marcos estava sendo enquadrado por tráfico de drogas, além de tentar subornar os policiais, estar com um carro roubado, porte de arma, mandato aberto e falsidade ideológica por apresentar o nome do seu irmão no momento da abordagem. Sua última lembrança antes de ficar mais nove meses preso foi dentro do carro, vendo o rosto de sua mãe cheio de lágrimas, desesperada chorando abraçada em seu pai. Mas isso não o fez parar. Ao sair da cadeia voltou para os seus negócios. Até o momento que descobriu que sua ex-esposa estava grávida. Essa era a motivação que faltava para largar a vida no crime. Tentou diversos empregos, “os caras olhavam para mim e já pensavam: ‘Esse aí tem cara de bandido’, eu chegava em qualquer lugar e não me contratavam”. Depois de enviar inúmeros currículos e não receber uma ligação de retorno, ele voltou para o tráfico. Assim como Andrey, sua motivação para a mudança foi sua filha. Alicia Vitória fez um ano em abril, quando Marcos já estava acolhido na comunidade terapêutica. Seu ponto de virada foi quando ele estava dormindo com ela deitada em seu colo. Como mais um dia comum, ele fechou as janelas da casa e fumou. Ao acordar, olhou para a menina em seus braços e tomou um susto. Foi correndo até sua ex-esposa gritando “De quem é essa criança?”. A mulher pegava a menina no colo enquanto tentava acalmá-lo, “é a sua filha, Alicia”. “Eu não tenho filha”, ele respondeu. Após um tempo ele voltou a si e ficou assustado, não conseguia lembrar de sua princesinha, como ele a chama.

104 revistacdm | saúde

Sua memória estava péssima por causa da quantidade de drogas, mas não saber quem era a sua própria filha era demais. Faz três meses que está acolhido na comunidade. “Não é fácil. Não é tirar férias. Porque apesar de tudo, eu estava perto da minha família. Só que para ajudá-los, o que eu fiz? Dinheiro fácil, na hora fácil. Com o tráfico era fácil. Era tão fácil que eu não via que eu estava me perdendo”. Sua ligação com a família ainda é muito próxima. Seu pai é pastor e a mãe é missionária. Sua única preocupação agora é quando vai rever a sua filha e como será a sua vida ao sair dali. “Mesmo que a pessoa tenha feito tratamento, se a pessoa descobre que você é ex-usuário de droga tem muito preconceito. Antes eu tentava esconder. Eu não mentia só para eles, mentia para mim mesmo também”.

“EU SOU PAI” O homem, de 48 anos, está há três meses acolhido. Devido a sua família disfuncional, Argeu cresceu e foi formado a partir dos princípios da rua. Logo ainda na adolescência começou a cometer pequenos delitos. Era apenas um menino de 12 anos, acordava na manhã fria de Curitiba e saia para trabalhar. E assim como os adultos à sua volta, sentia que os finais de semana eram de descanso e merecia uma cervejinha com uma jogatina de baralho. Roubar dinheiro se tornou naturalizado, todos seus conhecidos faziam, por que ele não faria? Parou de estudar na sexta série e até os 18 anos, a rua era seu lar. Maconha era praticamente diária, cheirar cola para aquecer do frio era comum. “A minha formação psíquica, social, física, foi nesse contexto de uso de droga e nesse contexto de criminalidade, de marginalidade, na época eu lembro que a gente estava sempre à margem da sociedade num contexto geral. Não tinha acesso a políticas públicas, por exemplo, que desse para o adolescente uma boa educação”, conta. Ao atingir a maioridade começou a frequentar a igreja. E foi diante de


Deus que conheceu sua primeira esposa. Juntos voltaram a estudar e terminaram o segundo grau. A partir daí começou a viver, o que ele chama, uma vida normal. Tinha trabalho, casa, cuidava de sua família, e teve sua filhinha. “Sou pai da Ana Júlia, que nasceu em 2004”, é assim que Argeu se apresenta ao ser perguntado quem é você. Ele é pai. Pena que ela nunca o conheceu sóbrio. Ela nasceu em 15 de fevereiro de 2004. No mês de agosto ele conheceu o crack.

Para o professor, a maior diferença entre os acolhidos mais jovens dos mais velhos é a motivação, a maturidade.

Ele tinha apenas 28 anos e, após uma experiência negativa, procurou um buraco para se esconder. “Quando conheci o crack tinha toda estrutura, mas aí foi tudo embora”. Vinte anos atrás ele conheceu o crack, e hoje segue sem ver a família. “Na última ocasião que eu vim pra cá, eu vim através do CAPS [Centro de Atenção Psicossocial], eu tava morando na rua mesmo, dependendo da assistente social do município para me alimentar e ter condições básicas de vida, por exemplo como banho e comer”. A vida na rua não é e nunca foi fácil. Argeu define como uma realidade cruel, uma situação de vulnerabilidade

na mais simples definição. “Os braços do governo que são criados para atender essa população de rua, mesmo dentro dessas entidades, existe um preconceito de que as pessoas são niveladas por baixo. Eles não procuram entender se a pessoa tem uma educação. Como se todas as pessoas que morassem na rua não tivessem condições de sair dessa realidade”, conta triste com as memórias. A droga muda uma pessoa, mas ela não a transforma definitivamente. Argeu afirma que o que lhe falta é a primeira oportunidade, “como dependente químico, usuário de crack é um pouco pior, é colocado lá embaixo da prateleira, ele é discriminado pela sociedade, ele é maltratado pela polícia, ele é perseguido pelo traficante”. E o isolamento é inevitável, “é o tipo de pessoa que ninguém quer ter perto. Então ele vive ai a discriminação completa. E isso é uma coisa que a gente que vive nessa condição, acaba se acostumando”. Além do preconceito da sociedade, o dependente ainda passa pelo preconceito com si mesmo. “No fundo, quem pratica esse tipo de delito se auto reprova”. A luta para sair dessa situação

editoria saúde | revistacdm 105


é diária. Argeu descreve como uma escravidão, uma prisão que muitas vezes não parece ter saída. Ano passado Argeu decidiu mudar de vida. Com o auxílio do Bolsa Família conseguiu pagar uma parte de um aluguel e recomeçar sua vida. E nesses cinco meses sem usar a droga conseguiu manter contato com a sua filha. Porém, a doença é forte. “Quando eu tive uma recaída e tive que entregar a casa. Eu mandei um recado para ela, pedindo para conversar, ela me pediu um tempo. Um tempo depois não tive mais contato com ela”. Mais recentemente, na sua última conversa com Ana Júlia, ela, que cresceu num contexto religioso, o confidencializou que gosta de mulheres. “Independente de quem ela seja, eu tenho o maior interesse em me relacionar com ela, uma relação de pai e filha. E eu quero evoluir como pessoa, no sentido de ser pelo menos um amiguinho, eu só quero ser um amigo próximo da minha filha, da minha filhinha”, contou em sussurros enquanto comia seu lanche.

15 DE JUNHO DE 2017 Em 2019 Alex começou seu trabalho voluntário na Comunidade Terapêutica Ponte, em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Três anos mais tarde foi contratado e hoje é mentor e professor de Educação Física dos acolhidos.

editoria 106 revistacdm | saúde

Sua motivação para trabalhar veio ao entender sua própria doença e a busca para se manter em abstinência. Com 12 anos começou a fumar maconha, dez anos depois, se envolveu com o crack. Hoje com 41 anos está sóbrio e ajudando outros. Ele explica que a droga desestabiliza cognitivamente e exige muita força para não voltar. A recaída é a consequência de uma série de fatores. E disso Alex conhece bem. Ficou dois anos em um processo de recaída usando álcool e cigarro, entre 2015 e 2017. Nesse período ele trabalhava em outra comunidade terapêutica e se afastou, “eu tinha vergonha de falar de recuperação sendo que eu estava usando cigarro e álcool. Pode ser socialmente aceita, mas eu sempre fui a favor da abstinência total. Eu tava com essa reserva. Então, 15 de junho de 2017 eu joguei fora”, conta. A Comunidade Ponte tem capacidade para 24 acolhidos, mas hoje apenas 17 camas estão ocupadas, de homens de 18 a 59 anos. O plano terapêutico proposto pelo professor Alex é seguido com base num cronograma do começo ao fim. “Hoje um tratamento assertivo é o acolhido tomar a auto responsabilidade. Entender que é uma doença psicossocial. Ele começa a quebrar o preconceito com ele mesmo”, conta. A comunidade tem caráter religioso, confessional cristão, seguindo orientações do pastor Herbin Fuentealba, diretor e fundador, missionário chileno que veio para o Brasil com trabalhos

Argeu está há 3 meses em tratamento e é responsável pela manutenção da comunidade. Até hoje se sente culpado pelo vício, e busca entender o que o fez procurar pelo “pedaço de morte”, como ele mesmo chama.


evangelizadores. O senhor de cabelos brancos e sotaque espanhol, durante suas ações no centro de Curitiba viu diversas pessoas em situação de rua e dependentes químicos. Nesse momento, ele entendeu como um chamado de Deus para agir. A música gospel é a trilha sonora da nossa conversa

o pegaram e o levaram para o Parque do Passaúna, o espancaram. Levaram seus dentes, além de deixarem uma cicatriz de facada. Uma verdadeira tortura para saberem onde estava a droga. “Mas eu não pude falar por causa dos traficantes”. Diz Reginaldo que os policiais queriam matá-lo e só não o fizeram porque um dos agentes estava preocupado com as testemunhas. “Da próxima vez a gente pega ele de novo sem ninguém ver”, conta ter ouvido em meio a dor.

“Quando conheci o crack tinha essa estrutura, mas aí foi tudo embora.” Argeu, 48 anos com o pastor Herbin que explica: “o preconceito com pessoas pretas é ainda maior, mesmo se forem usuárias de drogas mais leves, ou com menos tempo de uso, elas são mais discriminadas do que as brancas”. Na comunidade os planos variam de no mínimo seis meses, para no máximo nove, de forma totalmente gratuita. Jair é outro monitor da comunidade. Possui mais de 30 anos em abstinência e está trabalhando na equipe desde 2022, com experiência em outras cinco casas de reabilitação. Morou na rua por muitos anos e traz a sua experiência como motivação. Entende as dificuldades e a força de vontade que é necessária para mudar de vida. “O que mais faz a pessoa desistir? Posso falar de um fator pessoal meu: o medo. Será que serei feliz sem a droga? É vencer o medo de ficar sóbrio, de encarar a vida sem estar anestesiado”, explica. Na segunda-feira fria, porém ensolarada em que fomos visitá-los, Reginaldo vivia seu último dia lá. O senhor de 49 anos e com alguns dentes faltando no sorriso é animado e brincalhão. Não é à toa. Não consegue esconder a felicidade em ter cumprido seu tratamento como o esperado. “Dá nojo de lembrar do uso da droga”, afirma ao falar sobre a cocaína, seu pesadelo. Vinte anos atrás ele teve acesso à droga, além do uso também traficava e por isso foi preso diversas vezes. Sua última experiência com a polícia foi traumatizante. Reginaldo conta que

Sobreviver a essa situação foi um entendimento de Deus para mudar de vida. Suas noites de sono mal dormidas com medo de ser preso novamente, não valia mais a pena. “Eu fiz meu tratamento da melhor maneira possível, fui dosando o meu tratamento pessoal com o meu tratamento espiritual e religioso”, conta orgulhoso. Seu pai é aposentado da Polícia Militar e pastor. E agora que está saindo busca retribuir toda ajuda. “Entrei dia 22 de dezembro de 2023, fazem cinco meses. E amanhã eu saio, para nunca mais voltar, se Deus quiser. Só volto para jogar bola com o pessoal”. Enquanto estávamos tomando café da tarde com os moradores, um grito ao fundo nos chamou a atenção. “Ei meninas! Eiii vocês”, era Reginaldo gritando para nós. “Só para avisar que estou saindo para ir ao dentista, vou colocar próteses nos dentes que eu perdi!”. Reginaldo ganhou esse tratamento dentário e vai poder sair amanhã sorrindo, deixando seu passado para trás.

Veja também Conheça a história do vício em drogas no Brasil. portalcomunicare.com.br

saúde | revistacdm 107


A agressão do preconceito Apesar dos avanços na conscientização, o estigma ainda persiste, perpetuando o ciclo de violência e silenciamento das mulheres que são vítimas e são tratadas como agressoras Ana Paula, Helen, Laís Caimi, Maria Júlia

editoria 108 revistacdm | saúde


R

egina Baronio é uma mulher na faixa dos 30 anos, de aparência forte e independente, mas que infelizmente se tornou vítima de violência doméstica, agredida pelo próprio marido. Embora as agressões físicas tenham sido o ápice desse tormento, o abuso começou de forma sutil, minando sua rede social para se limitar àqueles que conviviam com seu parceiro. Ela se viu isolada ao mudar para uma cidade onde não tinha nenhum suporte, conhecendo apenas ele. Além disso, antes mesmo da violência física, ele já exercia controle sobre suas finanças, apesar de serem sócios. Sempre que ela confidenciou às amigas sua intenção de denunciá-lo, recebia conselhos desencorajadores. Alertavam-na sobre os possíveis danos que poderia causar à vida dele, lembravam-na de sua paternidade e a questionavam se realmente era isso que desejava. Após a última agressão, a igreja que frequentavam acolheu-o calorosamente, enquanto ela foi abruptamente excluída, enfrentando comentários e indiretas tão evidentes que precisou deixar a congregação. Quando decidiu denunciá-lo, ela não esperava ter que repetir sua história inúmeras vezes para diferentes pessoas, tampouco imaginava que o sistema a deixaria desamparada. Em uma das vezes em que procurou a delegacia, foi obrigada a passar a noite lá, enquanto ele ficou sob custódia preventiva.

Contudo, logo após pagar fiança, ele a procurou e a agrediu novamente. Em 2023, o estado do Paraná testemunhou um preocupante aumento de 11,6% nos casos de violência contra a mulher em comparação com o ano anterior, de acordo com estatísticas fornecidas pelo Centro de Análise, Planejamento e Estatística (Cape). Esses dados revelam uma realidade alarmante, onde a cada dois minutos uma mulher se torna vítima de violência dentro das fronteiras estaduais, totalizando mais de 231 mil ocorrências documentadas ao longo do ano. Patricia Andrea dos Santos entra na ocupação, a casa Rosa Nunes, no meio da manhã, vestindo trajes simples e desgastados. De baixa estatura, seu rosto arredondado exibe olhos cansados, apesar do esforço para manter um sorriso no rosto. A tragédia de sua história se desenrola numa fatídica noite, quando os traficantes que dominam a ocupação de seu bairro a expulsam de casa. A partir desse momento, restava apenas ela, o marido e os filhos. Sem recursos para pagar aluguel e sem um lugar para ir, sem meios de sustento, sua única opção foi entregar os filhos a um abrigo e enfrentar a dura realidade de viver nas ruas ao lado do marido. Em uma noite dessas em que buscava refúgio nas ruas de Curitiba para dormir em segurança, ela foi vítima de uma agressão física e sexual por um homem que rondava o local. Ao

Emily Kaiser voluntária da Casa Rosa Nunes saúde | revistacdm 109


buscar auxílio nas autoridades policiais e jurídicas da Delegacia da Mulher, foi confrontada repetidamente. Teve que relatar sua história várias vezes a diferentes pessoas, sendo questionada sobre sua presença na rua naquele horário e insinuando que poderia ter

indivíduo. Porém, é comum nesses casos, uma autopercepção de serem indignas de respeito, amor e valor ao internalizar as mensagens preconceituosas sobre serem responsáveis pela violência, sentindo culpa e vergonha pela posição.”

“É comum nesses casos, uma autopercepção de serem indignas de respeito, amor e valor ao internalizar as mensagens preconceituosas sobre serem responsáveis pela violência.” Maria Clara Villatore, psicóloga evitado a situação. Ao invés de oferecer o suporte esperado, essas instituições a fizeram reviver seu trauma, culpabilizando-a e invertendo os papéis, colocando-a como a culpada pela violência que sofreu. Quando Maria descobriu que estava grávida de seu agressor, ela empreendeu esforços para obter o direito ao aborto legal, conforme previsto no artigo 128, inciso II, do Código Penal. No entanto, esse direito foi-lhe negado, sem justificativa além do preconceito. Maria preenchia todos os requisitos legais para garantir seu direito, mas novamente viu-se confrontada com a dor causada pelo preconceito arraigado na sociedade em que vivemos, uma dor que persiste muito além do trauma da agressão inicial. As mulheres que sofrem violência enfrentam não apenas a dor física e emocional, mas também o julgamento da sociedade, o que torna ainda mais desafiador buscar ajuda e justiça. A sociedade muitas vezes culpabiliza as vítimas, questionando suas decisões ou minimizando seu sofrimento. Em muitos casos, as mulheres são expostas durante o processo de denúncia e ficam sem esclarecimentos adequados. A psicóloga Maria Clara Villatore fala sobre como o preconceito afeta psicologicamente mulheres em vulnerabilidade. “Existe uma série de impactos psicológicos, que variam de cada

editoria 110 revistacdm | saúde

Villatore explica como a terapia pode ajudar a lidar com o estigma associado à violência contra as mulheres. “É importante criar um ambiente seguro, acolhedor, de compreensão e sem julgamentos, lidar com isso requer sensibilidade, compaixão e uma abordagem colaborativa, focada no fortalecimento e no apoio emocional.” Embora encontrem dificuldades, diversas mulheres buscam formas de lutar e se fortalecer, encontrando apoio mútuo em redes solidárias. Com o auxílio de profissionais e ao compartilharem suas experiências, elas não apenas buscam superar desafios pessoais, mas também inspirar outras mulheres que enfrentam situações similares. Apesar das políticas públicas em prol das mulheres no Brasil, a insegurança jurídica persiste, dificultando a busca por ajuda. Patricia Piasecki, advogada e mestre em Direitos Humanos, destaca a falta de preparo do judiciário para acolher vítimas, que muitas vezes enfrentam culpabilização e dúvidas ao denunciar agressores. Embora leis como a Maria da Penha e do feminicídio existam, a estrutura de apoio ainda é insuficiente, com Curitiba se destacando com uma casa de acolhimento única, mas necessária em todas as cidades do país.


A CASA ROSA NUNES No coração movimentado do Centro de Curitiba, na Rua 13 de Maio, ergue-se um casarão de aspecto antiquado, testemunha do tempo que parece ter sido esquecido. Sua pintura, outrora branca e imaculada, agora desbota em tons amarelados, revelando o abandono que o envolve. O portão de entrada, outrora majestoso, agora se encontra torto e corroído pelo tempo e pela ferrugem. Esta fachada decadente, de certa forma, espelha a condição em que a casa se encontra, ou se encontrava até muito recentemente: abandonada. Entretanto, por trás dessa aparência desoladora, pulsa uma energia de resiliência e esperança. O Movimento de Mulheres Olga Benário tomou posse desse casarão com uma missão nobre, oferecer apoio às mulheres que enfrentam a violência e buscam auxílio. Em meio às ruas agitadas, essa casa se tornou um refúgio, um ponto de encontro, e um centro de resistência contra a opressão que permeia nossa sociedade. Esse movimento desempenha um papel crucial na organização das mulheres, capacitando-as para enfrentar a violência e a opressão de gênero que persistem. Em todo o Brasil, casas de referência como essa têm surgido, ocupando imóveis ociosos que não cumprem sua função social. Nestes espaços, mulheres se reúnem para discutir, estudar e realizar atividades práticas voltadas para a promoção de mudanças sociais.

Na capital, a ocupação Rose Nunes foi inaugurada em 27 de março, marcando a 22ª ocupação desse tipo no país. Seu propósito é denunciar a ineficácia das políticas públicas no estado e a violência de gênero que persiste. Estas casas abrigam uma rede de profissionais voluntários, prontos para auxiliar as mulheres em situação de vulnerabilidade que buscam abrigo. O casarão, que permaneceu abandonado por quase uma década, agora abriga uma miríade de atividades transformadoras. Oficinas culturais, rodas de conversa, artesanato para geração de renda, aulas, cinema e debates são apenas algumas das atividades que ocorrem neste espaço. Seu propósito vai além do acolhimento; oferece serviços jurídicos, psicológicos e muito mais. Em um mundo onde as vozes das mulheres são muitas vezes silenciadas, essa ocupação serve como um farol de esperança e resistência. É um lembrete de que, mesmo nas ruas mais movimentadas, a solidariedade e a luta pela igualdade de gênero nunca devem ser suprimidas. Conheça Confia o folder com informações e detalhes sobre a casa de apoio Rosa Nunes e o Movimento Olga Benário portalcomunicare.com.br LLelldmFachada da ocuáção Rosa Nunesi

editoria saúde | revistacdm 111


Batalhas de rima: Combatendo os esteriótipos Ana Pauli, Helen, Laís Caimi, e Maria Julia

S

emanalmente nas quinta-feiras, às 20 horas, na praça dos Menonitas situada no bairro do Boqueirão, em Curitiba, a Batalha da Menô para a vizinhança. Pessoas da periferia e de diferentes idades se reúnem para ouvir intensas trocas de rimas. No feriado de Corpus Christi, cerca de 80 pessoas se reuniram para testemunhar um espetáculo de poesias. Uma fotógrafa, atenta aos detalhes, registrava cada momento, enquanto o apresentador carismático, conhecido como Levi, aquecia a multidão. Uma caixa de som no chão da quadra, produzia beats característicos do hip-hop enquanto os MCs se preparavam para compartilharem suas reflexões.

Enquanto a poesia ecoa na Batalha da Menô em Curitiba, a cena das batalhas enfrentam estigmas

editoria 112 revistacdm | cultura

O MC Gothe, 27 anos, explica a importância da cena das batalhas. “O mais interessante de fazer rap é que você aprende muito sobre resistência, sobre falar seu ponto de vista e não ficar calado perante a uma visão diferente da sua e sim conversar.” Ainda mais, Gothe conta sobre a necessidade de se preparar para abordar assuntos delicados, como racismo e liberdade de gênero nas batalhas. “Acontece às vezes de você se expressar mal, por que todos temos pensamentos falados e pensados, mas se você tiver noção e moral você não vai se preocupar em se expressar abertamente.”


Para o MC, o governo poderia estar apoiando com a estrutura dos eventos assim como faz com os esportes. “Quando eles querem fazer algo em prol do esporte, eles dão uma quadra, a bola, cone e treinamento. Eu acredito que investir na organização vai ser muito importante porque vai gerar eventos, que geram turismo e todo mundo sai ganhando. O movimento hip-hop surgiu nos guetos de Nova York na década de 70, transcendendo barreiras de preconceito e mostrando, por meio de letras, a luta de jovens negros. No Brasil, a cultura se popularizou a partir dos anos 80 com grupos como Racionais MC’s e RZO, que denunciaram a solidão de jovens negros de periferia, violência policial e desigualdade social. Influenciadas por essa cultura, surgiram as primeiras batalhas de rima no Brasil nos anos 2000, onde jovens trocavam rimas improvisadas ao som de batidas de músicas. As batalhas de rima são uma manifestação cultural significativa, abordando questões sociais e políticas. Apesar disso, enfrentam estigma e falta de reconhecimento. Os MCs, mestres de cerimônia, são vozes de expressão para aqueles que desejam romper com os padrões estabelecidos pela sociedade. Esses artistas frequentemente são julgados e marginalizados, mas representam uma parcela da população que nunca perderam a autenticidade e lutam pelo direito à liberdade de expressão em sua essência

A POLÊMICA Em abril de 2023, a deputada Ana Júlia (PT), encaminhou uma proposta de projeto que instituiu as batalhas culturais de rima como patrimônio cultural imaterial do Paraná. No mesmo dia, durante a sessão na câmara de vereadores da cidade de Curitiba, o vereador Eder Borges (PP) atacou o movimento hip-hop com falas racistas e fez um discurso preconceituoso em suas redes sociais contra a proposta da deputada Ana Júlia. O vereador se manifestou contra o movimento do hip-hop e o associou ao crime organizado. “É íntima a relação do hip-hop com o crime organizado e com a extrema-esquerda. Trabalhar que é bom nada, bando de vagabundo (…) Hip-hop é coisa pra detento. Para que serve o hip-hop? Para dizer aos nossos jovens que o crime compensa. É tudo o que há de pior, porque prega a segregação. Quantos manos viraram e adotaram essa cultura que é legal ser bandido por causa desses grupos de rap?”, afirmou o vereador na tribuna, data. Em entrevista realizada com a deputada, ela compartilhou a motivação por trás da criação do projeto de lei, que remonta a uma demanda surgida em 2020, antes mesmo de sua eleição como deputada estadual. Na época, um amigo em comum, advogado e frequentador das importantes batalhas de Curitiba, trouxe à sua atenção casos de violência policial recorrentes. “Diante dessa situação, trabalhamos

Laís Caimi

Plateia e Poetas da batalha de rima cultura | revistacdm 113


para intermediar entre as organizações das batalhas e as forças de segurança, estabelecendo um diálogo que resultou na cessação dos incidentes violentos.” No entanto, ela observou “À medida que resolvíamos as questões relacionadas à Batalha da Menô, surgiam outros casos, como na Batalha do Parigot, por exemplo. Ou seja, mudavam-se as pessoas e o CEP, mas o método de criminalização era o mesmo. Foi então que em 2022, logo após as eleições, estabelecemos que esse deveria ser um projeto prioritário assim que assumirmos o mandato, visando estender a assessoria e o mandato as mais diversas batalhas espalhadas pelo estado.” O que diz respeito sobre a fala de Eder Borges, Ana Júlia afirma: “O vereador mencionado é mais um na seita bolsonarista que enxerga o movimento de forma preconceituosa, utilizando o cargo para disparar uma série de preconceitos contra aqueles que não o reconhecem como representante popular, que não compactuam com essa visão de mundo retrógrada e que faz do parlamento um espetáculo circo dos horrores para o seu eleitorado. A ele, nosso repúdio e desprezo”. A deputada conclui afirmando que o Paraná é uma referência de nível nacional na cena das batalhas, todos os anos grandes nomes representam o estado no Duelo Nacional de Mc´s, que ocorre em Belo Horizonte. “As batalhas se tornaram referência dentro da cena hip-hop, milhares de jovens passaram a frequentar esses espaços, promovendo inclusão, cultura e entretenimento nos lugares mais extremos das periferias brasileiras, fortalecendo os jovens dentro do movimento hip-hop.” Existe um longo histórico de estereótipos em relação ao ambiente onde geralmente ocorrem as batalhas. Geralmente, feitas nas rodas culturais em comunidades, existe uma percepção negativa em relação a segurança do lugar, associado à criminalidade e à desordem.

114 revistacdm | cultura

A repressão por parte da polícia com as batalhas de rimas é algo enraizado. É comum que policiais interrompam esses eventos, abordando todos os presentes na roda de batalha. Seja por um enquadro policial ou por conta do barulho. “Era cotidiano que a polícia militar investigasse todas as pessoas que estavam na roda, formando um grande paredão de mais de 100 pessoas sendo revistadas e isso fazia parte da nossa rotina”, relatou a Poeta Gabriela, de 25 anos.

“Era cotidiano que a polícia militar abordasse todas as pessoas que estavam na roda, formando um grande paredão de mais de 100 pessoas sendo revistadas e isso fazia parte da nossa rotina“ Gabriela - Educadora social. Em relação à visibilidade das mulheres no contexto do hip-hop sempre existiu uma dificuldade para terem seu próprio reconhecimento na cultura. Sylvia Robinson, foi uma pioneira no hip-hop, fundou a gravadora Sugar Hill Records em 1979, mas ainda assim, não é amplamente reconhecida. No contexto brasileiro, a rapper Sharylaine foi a primeira mulher a gravar rap no Brasil, com um papel ativo no Fórum Nacional de Mulheres do Hip-Hop. Mesmo com essas conquistas, em 1993, a

MC AKarol 47


presença feminina no rap era vista como novidade, e a figura masculina continua dominando.

temos. Então, existe sim essa estranheza, porque é uma cultura predominantemente masculina.”

No cenário atual de batalhas de rima, a luta das mulheres artistas é ainda contestada por pessoas que estão inseridas no movimento. A MC AKarol 47, de 29 anos, conta como era a cena de batalhas quando começou a rimar a anos atrás. “Antes era patriarcal dominado por homens, principalmente na cena de curitiba. Havia poucas meninas que se inscreviam na chave, era muito difícil.”

A importância de ter mais ações governamentais de apoio à cena de batalhas de rimas faria muita diferença para derrubar o estigma que as batalhas enfrentam. A poeta Gabriela explica que a burocracia para poder obter recursos para a cultura do hip-hop dificulta o processo. “Muitas pessoas não terminaram o colégio, mas estão compondo essa cultura de forma brilhante e não sabem como funciona o processo de documentação para inclusão de projetos. Então acredito que desburocratizar o acesso aos recursos da cultura e trabalhar na inclusão do hip hop ajudaria muito a cena.”

A MC conta que criou um projeto junto com outras meninas chamado grupo Krill. Elas juntavam mulheres para treinar rimas, depois de um tempo elas começaram a incluir pessoas da comunidade LGBTQIA+. O Krill não existe atualmente, mas foi muito importante para que pessoas se sentissem preparadas e confiantes para participar de batalhas hoje em dia. A poeta Gabriela, conta também como ainda enfrenta um machismo estrutural nesses cenários. “Eu viajei recentemente para Londrina, teve um MC que falou para mim que eu o havia surpreendido por apenas rimar bem. Não sei se ele queria me elogiar, porque não esperam que as mulheres tenham a qualidade que

Após o encerramento da edição beneficente de Poesia da Batalha da Menô, Beatriz Fernandes, uma jovem de 21 anos, contou como ficou surpresa ao acompanhar sua primeira batalha presencialmente, pois não esperava a forma descontraída que os MCs abordam suas experiências e temas delicados. “Eu gostei bastante porque, quando você olha na internet, você tem uma imagem daquela batalha super politizada. A militância tá ali, só que de uma maneira confortável e atrativa.”

Saiba mais Confira um trecho da batalha de rima portalcomunicare. com.br

Beatriz Fernandes e Laura Costa cultura | revistacdm 115


PUNK É RESISTÊNCIA 116 revistacdm | editoria

Entre acordes de guitarra e solos de baterias, mulheres encontram no punk o estilo para se expressarem Maria Luísa Cordeiro | Maria Gabriele Fachini Maria Luiza Baiense | Mariana Machado

N

a vibrante cena da música underground dos anos 70, onde o rock predominava como a trilha sonora da rebeldia, as vozes femininas começaram a emergir, desafiando a dominância masculina. Embora bandas como Sex Pistols, Ramones e The Clash tenham dominado as paradas, artistas como Joan Jett,The Slits, X-Ray Spex e Bikini Kill formaram uma resistência, centralizando o feminismo no movimento punk.

JOAN JETT E THE RUNAWAYS A cantora americana Joan Jett, de 58 anos, foi um ícone à frente de seu tempo. Com a banda The Runaways, a primeira banda punk-rock formada apenas por mulheres. Jett não revolucionou o rock como também quebrou barreiras ao criar sua própria gravadora, a Blackheart Records, em Los Angeles. As Runaways foram pioneiras para a expressão feminina em um cenário predominantemente masculino.

VIVIENNE WESTWOOD E A MODA PUNK Simultaneamente, em Londres, a estilista Vivienne Westwood transformou a moda em uma forma de protesto. Nascida na capital britânica, foi a voz feminina mais potente da tribo punk. Aos 30 anos, junto com Malcolm McLaren, inaugurou a loja Let It Rock, que mais tarde se tornaria a icônica Sex. A loja virou um ponto de encontro para punks, onde Westwood disseminou o lema “do it yourself” (faça você mesmo),indo diretamente contra o consumismo e rompendo com a indústria

de massa. Suas criações, misturando elementos sadomasoquistas com um toque romântico de eras passadas, definiram a estética punk que transcenderia o movimento para influenciar a moda mainstream.

O MOVIMENTO RIOT GRRRL Avançando para os anos 90, o movimento Riot Grrrl emergiu em Washington, ressoando com uma urgência feminista no cenário punk underground. Iniciado por figuras como Kathleen Hanna, vocalista da Bikini Kill e da Le Tigre, o Riot Grrrl empoderava mulheres e clamava por protagonismo feminino na música. Fanzines como as de Hanna declaravam a revolução iminente: “All girls to the front. I’m not kidding,” um chamado frequente nos shows da Bikini Kill, simbolizando a


essência do movimento que desafiava a representação feminina e encorajava a expressão artística.

RIOT GRRRL NO BRASIL No Brasil, a chama do Riot Grrrl foi mantida viva pela banda Dominatrix, formada por Elisa Gargiulo, Marina Takahashi, Fernanda Horvath e Nina Pará. Desde seu primeiro show em março de 1995, no Victoria Pub, em São Paulo, Dominatrix construiu uma cena e inspirou uma geração de garotas a seguirem seus passos. Mesmo duas décadas depois, a banda continua a defender a causa, mostrando que o espírito do Riot Grrrl ainda pulsa forte.

LE TRUTAS, A REVOLUÇÃO CURITIBANA A cena musical curitibana pulsa com intensidade e resistência, trazendo à tona a história da Le Trutas, uma banda local apaixonada pela arte. Unindo Babi, Carol, Carla e Rômulo, juntos decidiram enfrentar os desafios de compor e se apresentar ao vivo. E assim, começou a sua história na vida musical.

gênero musical, mas uma forma de expressão. Uma paixão. A simplicidade do movimento o torna acessível e envolvente, convidando todos e qualquer um a participar Curitiba, embora acolhedora, ainda reflete certos preconceitos. Enquanto a banda nunca sofreu ataques diretos, deixam claro que se fossem uma banda de mulheres tocando covers de bandas masculinas, provavelmente teriam mais portas abertas. No entanto, permanecem autênticas e seguindo seu próprio caminho. A busca por fama e fortuna nunca foi o objetivo das Trutas. Buscavam, principalmente, se divertir e viver sua verdade por meio da música. Inspiradas por bandas como As Cigarras, aproveitam suas histórias pessoais para criar arte que é tanto um reflexo de suas experiências quanto um grito de resistência.

Um dos momentos mais épicos de sua carreira aconteceu em janeiro de 2021, na extinta Lavanderia. O show foi tremendo, com a plateia feminina dominando a roda de pogo e quase derrubando a casa. Seus shows tem essa característica em comum. É criado um espaço seguro e acolhedor, para que as mulheres possam se divertir de maneira livre e expontânea. Para eles, o punk não é apenas um

editoria | revistacdm 117


O silêncio Hollywoodiano

Letícia Seixas Maria Fernanda Carvalho Mariana Aquino

T

em se tornado comum cobrar posicionamentos políticos de celebridades e influenciadores, especialmente em questões de grande relevância e impacto global, como o conflito entre Israel e Palestina. Após o MET Gala de 2024, surgiu a hashtag #Blockout2024, um movimento que emergiu no TikTok e visa questionar o posicionamento político de famosos. Esse protesto online busca bloquear as celebridades que não compartilharam seus pontos de vista sobre os atuais conflitos geopolíticos.

118 revistacdm

Como resultado, celebridades como Selena Gomez, Beyoncé e Zendaya perderam milhares de seguidores nas redes sociais. Não são apenas os famosos que não se manifestam que sofrem consequências. Muitos que deram sua opinião perderam empregos e popularidade por conta disso. Isso aconteceu com a atriz Melissa Barrera, que fazia parte da franquia de filmes Pânico, mas foi demitida após fazer publicações sobre o conflito na Faixa de Gaza. Outro exemplo é a modelo Bella Hadid, filha de pai palestino, ela é muito aberta em suas redes sociais em relação ao seu apoio à Palestina. Hadid afirma ter perdido empregos, amizades e oportunidades de trabalho


por conta disso. “Não tenho medo de perder empregos como modelo e vou continuar a falar sobre a Palestina”, declarou a modelo. Esses posicionamentos não estão restritos às redes sociais e chegaram a fazer parte do tapete vermelho de diversos eventos da temporada de premiações de 2024. No Oscar, por exemplo, diversas manifestações políticas foram realizadas, incluindo o uso de broches vermelhos que simbolizam a campanha Artists4Ceasefire, um movimento composto por integrantes da indústria do entretenimento que se destacou ao escrever uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pedindo um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza. Além dos broches vermelhos, alguns atores, como Milo Machado-Graner e Swann Arlaud, usaram broches com a bandeira da Palestina.

Hunter Schafer também recebeu atenção ao ser presa durante uma manifestação pró Palestina. A atriz transexual que participou da série Euphoria teria invadido o Rockefeller Center, onde o presidente Joe Biden tinha uma entrevista no programa The Late Night Show. Schafer utilizava uma camiseta com a mensagem “Cessar-fogo agora”. A escolha desses artistas em utilizar suas posições de destaque para defender o que acreditam supera a preocupação com o número de seguidores. Em países em que o pensamento a favor de Israel é predominante, o posicionamento contrário gera descontentamento e revolta. Ao assumir o que pensam, celebridades são vítimas de ódio e boicote, tanto da indústria cultural quanto de seus fãs. Mas, cabe a elas a escolha de ir contra essa opressão e defender o que julgam como certo.

Bottom do cessar fogo utilizado por artistas em premiações.

Artistas também aproveitaram as entrevistas feitas no evento para se posicionarem sobre o conflito. “Queremos o cessar-fogo imediato e permanente em Gaza. Queremos paz e justiça para as pessoas na Palestina”, afirmou o ator Ramy Youssef.

“Zero prêmios para o silêncio! Derrube Hollywood.”

editoria | revistacdm 119


120 revistacdm | editoria


COM CRIATIVIDADE E ESTRATÉGIA, encontramos o que você precisa.

A Célula é uma agência acadêmica composta por alunos de comunicação da PUCPR, que desenvolve campanhas publicitárias, pesquisas mercadológicas, planejamento de campanhas, peças gráficas e conteúdos digitais, encontrando o que nossos clientes precisam.

editoria | revistacdm 121


FATOS

Novas formas de produzir notícia foram desbloqueadas. Confira antes que fiquem ultrapassadas. Aceitar

Recusar

O jornalismo passou por atualizações e a PUCPR acompanhou essas mudanças. A FATOS Narrativas Midiáticas conta com uma estrutura pioneira, considerada uma das melhores do Brasil, para desenvolver conteúdos jornalísticos de várias formas. Não é a toa que o portal tornou-se bicampeão da categoria "jornal/revista laboratório online." Se deseja trabalhar com o melhor do jornalismo, venha para PUCPR.

122 revistacdm | editoria


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Cdm 64 by eba_pucpr - Issuu