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Que Sociedade do conhecimento é essa? Thiago Alves Moreira Nascimento 1 Meus caros amigos: com certeza, vivemos uma época de inovações tecnológicas, de possibilidades que, até bem pouco tempo atrás, eram impensáveis, e de uma dinâmica da informação tão rápida que mal conseguimos acompanhar. Desta forma, surgem estudos, ideias e conceitos novos o tempo todo. É normal. A humanidade produz coisas novas, sejam elas objetos ou conceitos, o tempo todo. Faz parte da humanidade essa produção. Dentre todos os conceitos atuais, um que toma cada vez mais força, embora não seja tão novo assim, é o que atravessamos um novo tipo de sociedade, baseado nas tecnologias da informação e na velocidade de propagação da informação que meios como a internet possibilitaram. Esta é a chamada “Sociedade do Conhecimento”. Mas, para começar, é importante que paremos antes e façamos a seguinte reflexão: o que, exatamente, sabemos sobre a chamada sociedade do conhecimento? Uma sociedade que funcionaria paralela a esta em que vivemos? Vamos caminhando, por enquanto, tendo por objetivo, responder a estas duas perguntas. Não é necessário ser um cientista genial para notar que os seres humanos tem alguma coisa que os diferencia dos demais animais. Poderíamos até ficar tentados a responder que “são seres racionais”, mas essa seria uma afirmação que não responderia corretamente a questão. O que diferencia os seres humanos dos demais é a capacidade de planejar seus atos na transformação da natureza, ou seja, do ato do trabalho. E que, durante o ato de transformar a natureza, o ser humano transforma a si mesmo ao mesmo tempo. Como? Ora, ele experimenta coisas que servirão para fazer algo, e descobre que estas coisas que ele utilizou servem para várias outras finalidades. Pra dar um exemplo prático, imagine um gato de seiscentos anos atrás. Agora imagine um gato nos dias de hoje. Eles se diferenciam em alguma coisa, em algum comportamento? Logicamente, o gato de seiscentos anos atrás já morreu e nem fede mais, mas o gato de hoje é a imagem e semelhança dele. Agora, utilize, no lugar do gato, o ser humano de seiscentos anos

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Professor da FECLESC/UECE. E-mail: thiago_com_h@yahoo.com.br


atrás e o de hoje. Imagine os costumes, os conhecimentos... A humanidade produz e acumula conhecimentos, que são repassados aos que virão. Esta é, inclusive, a função da educação: transmitir a humanidade a cada indivíduo, através da transmissão do conhecimento que foi historicamente construído e acumulado. Assim, a humanidade tem, cada vez mais, um conhecimento maior. No começo, há muito tempo atrás – quando o Hulk ainda era ervilha2 – os seres humanos começaram a transformar a natureza em seu benefício. Foi assim que surgiram e se desenvolveram a agricultura e a pecuária. Note que essas atividades estão ligadas à alimentação dos seres humanos. Essa era a grande carência da humanidade: a alimentação. A humanidade ainda tinha um caminho muito longo pela frente, para conseguir transformar a natureza em seu benefício de forma eficiente. Não havia alimentos com facilidade, então, todos eram obrigados a conhecer todo o processo de trabalho. Dando um salto no tempo, com o desenvolvimento dos meios de produção e das técnicas, o ser humano começou a produzir com mais eficácia, e então, começou, finalmente, a produzir mais do que a população precisava, produzia excedentes. Alguns gaiatos viram então a possibilidade de obrigar outros a produzirem para o seu sustento, sem precisar trabalhar. Surgiram as classes sociais. Aí vocês me perguntam: cadê a sociedade do conhecimento que você disse que ia falar? E eu respondo: tem paciência, fí de Deus, esse é o pano de fundo pra gente conversar sobre a “sociedade do conhecimento”. Voltando ao assunto, essa separação entre pessoas que precisavam trabalhar para se sustentar e as que não precisavam, funcionou também como condição para separar o trabalho em dois aspectos: trabalho manual e trabalho intelectual. Por trabalho manual, entendemos a própria mão-de-obra, o desprendimento de força, a transformação da natureza de forma concreta. Já por trabalho intelectual, entendemos o conjunto de conhecimentos relativos ao processo de produção. Antigamente, as pessoas tinham acesso ao trabalho de forma completa, ou seja, em suas dimensões intelectual e manual3. Na sociedade de classes, não é mais assim.

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Eu poderia dizer também “no tempo em que o Godzilla era calango”, dentre outras coisas.

Um autor italiano, do começo do século XX, chamado Antonio Gramsci, sobre isso dizia que todo trabalho tem em si uma dimensão intelectual, mas a questão recai sobre a função que cada classe desempenha na sociedade. No caso, a classe trabalhadora é essencialmente mão-de-obra (trabalho manual), enquanto a classe dominante é gerente-controladora do processo de trabalho (trabalho intelectual).


Dando outro salto – esse um pouco mais exagerado do que o primeiro –, chega um momento em que a classe dominante precisa instruir a classe trabalhadora, para que elas consigam exercer melhor a sua força de trabalho. Tem até um autor liberal famoso chamado Adam Smith que dizia que era necessário instruir os trabalhadores, porém, em doses homeopáticas. Ou seja, conhecimento aguado para os trabalhadores, tipo caldo de bila mesmo. Fazer uma leitura real do mundo não estava nas intenções que a classe dominante reservava aos trabalhadores. Continua assim até hoje. Com o desenvolvimento dos já mencionados meios de comunicação, e com os avanços tecnológicos da sociedade, se começa a ouvir algo como um novo tipo de sociedade, uma sociedade em que não se precisa mais ensinar, pois a informação está ao acesso de todos. Na verdade, seria mais importante ensinar as pessoas a buscar elas mesmas esse conhecimento que está aí, na figura mais importante desta sociedade: a internet. Diz-se agora que o conhecimento é produtivo, ou seja, que ele gera riqueza. Que a sociedade de classes foi superada, que basta que as pessoas consigam buscar essa informação elas mesmas que elas conseguirão superar a pobreza, dentre outras coisas. Sobre isso, Marx falava uma coisa que nos ajudará a refletir melhor: as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Ele não está dizendo que não existem ideias na classe trabalhadora, elas existem sim. Mas certamente, elas não fazem parte do pensamento dominante. Vide as grandes emissoras de televisão. Propagam ideias, conceitos, muitas vezes como se fossem verdades absolutas. Assim, o que é interessante deve ser propagado, e o que não é deve ser combatido. Por exemplo: greves por melhores condições de trabalho aos professores. Entrevistam as mães que acham uma irresponsabilidade professores deixarem de dar aula aos seus filhos, mas não mostram que esses professores mal tem vida com seus próprios filhos, pois trabalham dois turnos, e quando chegam em casa, trabalham mais ainda, planejando, corrigindo estudando. Na verdade, tudo que os patrões, o Estado, o mercado querem é ganhar em cima das costas do trabalhador, lucrar cada vez mais. A “Sociedade do Conhecimento” faz parte de uma ideologia propagada para transmitir a responsabilidade das coisas ruins para as costas do próprio indivíduo. Assim, VOCÊ tem que correr atrás. VOCÊ tem que adquirir os seus próprios conhecimentos. E, ainda, VOCÊ tem que aceitar ajudar ao próximo porque o Estado e o mercado não vão ajudar. A internet vai fornecer o conhecimento nesta nova aldeia


global, nesta nova ordem social que é a sociedade do conhecimento, ou sociedade informática. Na “sociedade do conhecimento”, professores não devem mais ensinar, já que o conhecimento está ao alcance de todos os que souberem buscar. As fronteiras entre os povos também diminuem, já que está mais fácil comunicar-se com pessoas de qualquer parte do mundo. Só que a ideologia dominante não fala algumas coisas. Só se tem acesso satisfatório quem tem recursos. O conhecimento não está ao alcance de todos, já que sabemos que a internet, principal meio que justifica essa “sociedade do conhecimento”, não está ao acesso de todos. Só pra ser mais claro, quantos de vocês precisaram de internet e foram pagar na lan house? Quantos conhecidos não tem a opção nem da lan house? E localidades que sequer tem internet, quantas conhecemos? Imaginemos agora que todas as cidades tem acesso à internet e à TV por assinatura, revistas e jornais, condições essenciais para a “sociedade do conhecimento”. Mesmo assim, todo o conhecimento produzido não está ao acesso de todos. Duvido que alguém tenha a receita da coca-cola. Duvido que alguém tenha aprendido medicina pela internet (embora essa seja uma ideia que qualquer dia, alguém vai tentar vender). Viram só? A “sociedade do conhecimento”, na verdade, se é essa que estamos agora, parece muito mais com uma sociedade do desconhecimento, da falta de conhecimento. E o que podemos fazer? Nós devemos exigir o acesso real ao conhecimento, escolas que realmente ensinem, professores que tenham condições dignas de trabalho e de preparação, condições de vida para os próprios estudantes. As novas tecnologias nos trazem um mundo de possibilidades, mas que sem o mínimo de conhecimento, afundam nas ondas da maré digital.


sociedade do conhecimento e midia