Skip to main content

DC Saúde - 23 de Março

Page 1

DiáriodeCoimbra

23 DE MARÇO DE 2010 TERÇA-FEIRA SUPLEMENTO QUINZENAL

DCSaúde NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

DIRECTOR ADRIANO LUCAS

Ferticentro já realiza fertilizações com óvulos doados Tratamento é última esperança para centenas de casais com infertilidade de causa feminina

tes. Estabelecida que está a lei e a regulamentação da PMA, e tendo em conta a elevada procura, «resolvemos agora avançar para esta forma de tratamento», refere, garantindo que todos os requisitos legais estão salvaguardados. De acordo com o responsável, a Ferticentro tem feito alguma divulgação junto de mulheres jovens – com mais de 20 anos e menos de 35 – no sentido apelar à doação de óvulos. Apesar de ser atribuída uma com-

Andrea Trindade

A quem se destina? O processo é seguro tanto para a dadora como para a receptora, que nunca vão saber a identidade uma da outra, já que tudo decorre dentro do anonimato. Podem beneficiar de tratamentos com recurso a óvulos doados as mulheres cujos ovários deixaram de produzir óvulos ou

“DOAR CÉLULAS NÃO É MUITO DIFERENTE DE DOAR SANGUE OU ÓRGÃOS E, NO FUNDO, A DADORA ESTÁ A CONTRIBUIR PARA UM NOVO CICLO DE VIDA DE CASAIS, PARA A FERTILIDADE”

D.R.

Inaugurada a 19 de Março de 2002, a clínica de procriação medicamente assistida (PMA) Ferticentro já ajudou a nascer mais de 700 crianças, concretizando o sonho de casais que, de outra forma, não conseguiriam ser pais. No seu 8.o aniversário, o centro divulga mais uma hipótese de tratamento, no caso para as mulheres com falência ovárica, oferecendo a dezenas de casais da região Centro a hipótese de recorrer a óvulos doados para conseguir uma gravidez. Vladimiro Silva, administrador da Ferticentro, explica ao Diário de Coimbra que o procedimento já existia em clínicas privadas de Lisboa e do Porto, bem como na vizinha Espanha, para onde, até aqui, a clínica de Coimbra enviava os seus clien-

declara, lembrando o peso do problema da infertilidade na nossa sociedade e o drama vivido por tantos casais.

A PROCRIAÇÃO medicamente assistida tem permitido concretizar o sonho de milhares de casais

pensação económica à dadora, calculada com base no salário mínimo nacional e nos dias em que a mulher tem de estar disponível para os tratamentos, Vladimiro Silva entende que esta é uma dádiva que deve ter por base o altruísmo. «Doar células não é muito diferente de doar sangue ou órgãos e, no fundo, a dadora está a contribuir para um novo ciclo de vida de casais, para a fertilidade»,

que os produzem sem viabilidade para fecundação. São mulheres menos jovens, que já tinham entrado em falência ovárica quando finalmente decidiram ter filhos, outras que foram surpreendidas com uma menopausa precoce – algumas logo pelos 30 anos –, mulheres que tiveram de submetidas a tratamentos de radioterapia ou quimioterapia ou que sofrem de determinadas doenças genéticas. l

Ferticentro já ajudou a nascer mais de 700 crianças

Estima-se que a infertilidade afecte um em cada sete casais nos países desenvolvidos. Ajudar os casais a concretizarem o sonho de ter um filho é precisamente o objectivo da Ferticentro, criada há oito anos em Coimbra, sendo a primeira clínica privada dedicada à procriação medicamente assistida (PMA). Juntando a diferenciação técnica e clínica ao atendimento personalizado e à privacidade, já ajudou a nascer mais de 700 crianças. Com a direcção clínica assumida por Isabel Torgal, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e chefe de Serviço de Ginecologia dos HUC, a Ferticentro conta com cerca de duas dezenas de colaboradores: especialistas em ginecologia, obstetrícia, urologia, andrologia, psiquiatria, endocrinologia, biologia, farmácia, entre outros.. A Ferticentro – Centro de Estudos de Fertilidade está na Urbanização Panorama, no Monte Formoso. l


II

23 DE MARÇO DE 2010 TERÇA-FEIRA WWW.DIARIOCOIMBRA.PT

DiáriodeCoimbra

“A lista de casais em espera Textos de Andrea Trindade A Ferticentro só iniciou o processo de doação de ovócitos (ou óvulos) no final do ano passado, tendo começado pela sensibilização de potenciais dadoras, mas a lista de casais interessados nesta nova oportunidade de tratamento já é grande. «Neste momento estamos a acompanhar 14 casais, alguns já estão em tratamento e outros esperam que surja uma dadora com características compatíveis, e já conseguimos uma gravidez», refere Vladimiro

Silva, farmacêutico e responsável pelo laboratório. Com efeito, explica, as dadoras devem ter o mesmo tom de pele, a mesma estatura, cor de olhos e cabelo do casal que vai receber o óvulo, bem como grupo sanguíneo compatível. Lembrando que as técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) praticadas na Ferticentro – e em outras unidades privadas do país – já recorriam a esperma doado, Vladimiro Silva considera que este é um passo no sentido de dar as mesmas oportunidades aos casais em

FOTOS: CARLOS ARAÚJO

A clínica realizou três tratamentos com ovócitos doados e já conseguiu uma gravidez, revela Vladimiro Silva

OS OVÓCITOS doados são, por vezes, a única solução para mulheres inférteis, diz Vladimiro Silva

Taxas de sucesso ascendem aos 50 por cento Os ovócitos recolhidos a partir dos ovários da dadora são depois fecundados com espermatozóides em meio laboratorial; os embriões assim obtidos são transferidos para o útero da mulher – a Ferticentro transfere, normalmente, dois embriões –, conseguindo-se uma gravidez em cerca de metade dos casos. «Um casal jovem e sem qualquer problema de fertilidade, tentando a gravidez por método natural,

tem uma taxa de sucesso de cerca de 25 por cento», repara o responsável da clínica. Em 100 tratamentos por este processo de fertilização in vitro, recorrendo a óculos doados, 50 casais engravidam, 37 de uma criança e 13 de duas crianças. A Ferticentro pretende avançar ainda este ano com a doação de esperma. «Temos recorrido a bancos estrangeiros, nomeadamente de Espanha e Dinamarca, mas estamos a reunir condições para fazer as colheitas aqui e a conservação, já que as análises de despiste de doenças devem ser repetidas ao fim de seis meses», adiantou Vladimiro Silva. l

que a causa de infertilidade está ligada à mulher, e à sua incapacidade de produzir óvulos viáveis. O desejo destes casais terem filhos é enorme e vários estudos comprovam que «a qualidade da relação parental que se estabelece é idêntica à dos casais que têm filhos sem estes tratamentos». De resto, acrescenta o especialista, «no caso da mulher, o ovócito é doado, mas o novo ser é alimentado pela sua placenta, o bebé cresce durante nove meses no seu ventre, há a experiência do parto, da amamentação. O vínculo que se estabelece é em tudo igual ao de uma mãe genética». No que se refere às dadoras, devem ter entre 20 e 34 anos, ter a possibilidade de comparecer na clínica com regularidade durante o período de tratamento, ser saudável e não ter história de doenças de transmissão sexual, genéticas ou outras. «Doar ovócitos é um acto de altruísmo notável», considera Vladimiro Silva. As mulheres têm de ser submetidas a um processo de estimulação dos ovários, durante o qual tomam medicamentos injectáveis, fazem algumas ecografias e análises clínicas, e no final é feita uma punção folicular para recolha dos ovócitos a partir dos ovários. Total anonimato O processo decorre dentro do total anonimato. A lei portuguesa determina que a doação de ovócitos seja «um processo voluntário, de carácter benévolo, em que as dadoras recebem uma compensação económica destinada ao reembolso das despesas efectuadas ou dos prejuízos directa ou indirectamente resultantes da dádiva». A Ferticentro, segundo o administrador, fixou um valor com base no salário médio nacional e partindo do princípio que a mulher tem de estar disponível pelo menos duas semanas para tratamentos. A clínica dá preferência a dadoras que já tenham tido filhos, não só porque assim se prova a sua fertilidade, mas também porque psicologicamente a dádiva é melhor aceite. Quer a dadora, quer os casais, recebem toda a informação técnica e aconselhamento psicológico ao longo do processo.


23 DE MARÇO DE 2010 TERÇA-FEIRA WWW.DIARIOCOIMBRA.PT

DCSaúde

é grande”

III

PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA

Alguns dos tratamentos disponíveis na clínica Estimulação ovárica com coito programado – Quando existe problema ovulatório da mulher e sem problemas masculinos simultâneos. Inseminação intrauterina (IIU) – Deposição de espermatozóides no interior da cavidade uterina no período da ovulação da mulher; pode ser feita com esperma do companheiro ou dador. Fecundação in vitro (FIV) – Os ovócitos são recolhidos a partir dos ovários e fecundados com espermatozóides em meio laboratorial. Os embriões assim obtidos são depois transferidos para o útero da mulher. Microinjecção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI) – É usada no tratamento de infertilidade de causa mas

UMA BATERIA de análises garante a total segurança do processo «A bateria de análises é extensa para garantir que o processo decorre dentro da máxima segurança. E cada dadora pode fazer um máximo de três doações, intervaladas por um míni-

mo de seis meses», nota Vladimiro Silva, frisando que a doação não avança sempre que for detectado algum problema de saúde, nomeadamente risco de infertilidade. l

METADE dos tratamentos resultam em gravidez culina grave e consiste na microinjecção de um único espermatozóide em cada ovócito obtido.

Transferência de embriões criopreservados – Se os embriões criados durante um ciclo de FIV ou ICSI não foram todos transfe

ridos para o útero, os casais podem decidir pela criopreservação para uma segunda gravidez ou nova tentativa. l


DCSaúde

23 DE MARÇO DE 2010 TERÇA-FEIRA REDACÇÃO E PUBLICIDADE RUA ADRIANO LUCAS 3020-264 COIMBRA TELEFONE 239 499 900

ÚLTIMA PÁGINA SUPLEMENTO QUINZENAL DO DIÁRIO DE COIMBRA ÚLTIMA PÁGINA SUPLEMENTO QUINZENAL DO DIÁRIO DE COIMBRA ÚLTIMA PÁGINA SUPLEMENTO QUINZENAL DO DIÁRIO DE COIMBRA ÚLTIMA PÁGINA

Crianças e jovens dormem menos e pior

D.R.

Neurologista Teresa Paiva alerta para um “problema grave” que vai ter consequências na saúde MUITAS CRIANÇAS entram na escola às 8h30 e chegam a casa às oito da noite A neurologista e especialista em doenças do sono Teresa Paiva considera que existe «um problema grave» no sono das crianças e jovens portugueses que vai, no futuro, trazer consequências como obesidade, hipertensão, diabetes, insónias ou depressões. Contactada pela agência Lusa por ocasião do Dia Mundial do Sono, que se assinalou na sexta-feira, a autora do livro “Os Mistérios do Sono” adiantou que vários estudos em jovens, realizados tanto pela neurologista como por outros especialistas, apontam «para problemas graves». «Uma criança que não durma bem ou um adolescente que não durma o suficiente tem um risco acrescido de obesidade, hipertensão, diabetes, e tem piores sucessos escolares. Têm um risco acrescido de insónias e de depressão e isso são coisas terríveis para uma criança ou um adolescente», alertou Teresa Paiva. No entender desta neurologista, e actualmente directora do Centro de Eletroencefalografia e Neurofisiologia Clínica (CENC), há «imensas coisas que levam a que os miúdos não durmam»,

Com quatro anos devem dormir 12 ou mais horas Os pais devem garantir que os filhos dormem as horas suficientes, ultrapassando o «erro gravíssimo que é acharem que as crianças devem

nomeadamente os equipamentos informáticos ou de comunicações, «desde os SMS, os menssangers, os ipods, as playstations, os computadores, os programas de televisão». «Tudo isso leva a que os jovens estejam assoberbados por tecnologias que não existiam antes e isso é certamente um dos factores dominantes», explicou Teresa Paiva. Existe também, por outro lado, «um nível de exigência de eficiência nos jovens que é muito grande em termos escolares». Ter horário para deitar Na opinião de Teresa Paiva, a sobrecarga horária a que as

dormir as oito horas de um adulto». «Uma criança de 10 anos precisa dormir 10 horas, uma criança de seis anos precisa dormir cerca de 11, 12 horas, uma criança de quatro ou cinco anos precisa dormir 12, 13 ou até 14 horas. É muito mais do que as oito horas dos adultos. E os adolescentes precisam de dormir nove horas», revelou a especialista do sono. l

crianças e os adolescentes estão sujeitos também tem muita influência na quantidade e na qualidade das horas dormidas. «Entram na escola às 8h30 e entram em casa às oito da noite. São doze horas. É uma violência e isso tem influência em imensas coisas, nomeadamente no mau rendimento escolar», defendeu.

«Muitas vezes, verifico que as crianças estão a trabalhar 60 horas [por semana], como um adulto. Como é possível? Não pode ser. Uma criança tem de se divertir», acrescentou. Teresa Paiva explicou que o «sono é vital» e que é ele que «controla o metabolismo», a psicologia ou a cognição. A falta de horas de sono pode ter como consequência nos jovens o insucesso escolar. A neurologista defendeu a necessidade de dormir a horas e ter horários e sublinhou que a falta de horas de sono «vai ter consequências» imediatas e a longo prazo. Se nada se fizer, dentro de uns anos, «Portugal vai ter um problema de saúde pública gravíssimo» com o uso de medicamentos hipnóticos e antidepressivos para compensar a falta de sono. l


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
DC Saúde - 23 de Março by Diário Coimbra - Issuu