Skip to main content

ed1709

Page 1


Diário da Cuesta

O JORNAL DE BOTUCATU

“QUEM AMA SUA CIDADE, CONSTRÓI A GRANDEZA

DA NAÇÃO”

Completando as edições do mês do aniversário do Botucatu, o DIÁRIO DA CUESTA apresenta os seus mais efusivos votos de sucesso para a Cidade dos Bons Ares e das Boas Escolas! Salve Botucatu! AVANTE!

171 ANOS DE HISTÓRIA,

CONQUISTAS E ORGULHO

DE UM POVO QUE CONSTRÓI SEU

DESTINO!

Diário da Cuesta 2

E D I T O R I A L

BOTUCATU: A PÁTRIA QUE VIVEMOS

“A mãe-pátria é a nossa cidade, no sentido de que elas, as cidades, as vilas, as fazendas compõem o país. Quem ama o seu torrão natal é um grande patriota, que idolatra o seu berço para enaltecer a grandiosidade da nação… Antes de vivermos para nós mesmos é preciso que vivamos para a nossa Pátria e ela se chama BOTUCATU!”

Agostinho Minicucci

Abril foi mais do que um mês no calendário. Foi um reencontro com a nossa essência.

Ao longo dessas semanas, o Diário da Cuesta assumiu, com responsabilidade e entusiasmo, o compromisso de revisitar a história de Botucatu — não como um exercício de nostalgia, mas como um ato de cidadania. Relembrar fatos, conquistas e personagens não é olhar para trás: é fortalecer o presente e iluminar o futuro.

Cada edição publicada foi um convite à reflexão. Cada página, um resgate daquilo que construiu os 171 anos desta terra singular, moldada pela força de seu povo, pela imponência da Cuesta e pela vocação natural para o desenvolvimento, a cultura e a inovação.

Botucatu não é apenas um ponto no mapa. É identidade. É pertencimento. É história viva.

Ao destacarmos momentos marcantes — sejam eles ligados à educação, à saúde, à comunicação, ao esporte ou ao empreendedorismo — reafirmamos que o progresso de uma cidade nasce do reconhecimento de suas raízes. Não há futuro sólido sem memória preservada.

E é exatamente aí que reside o sentido mais profundo desta jornada editorial de abril: exaltar a cidadania

Cidadania que se constrói no orgulho de ser botucatuense. Cidadania que se fortalece no conhecimento da própria história. Cidadania que se manifesta no

EXPEDIENTE

compromisso com o bem comum.

Celebrar Botucatu é, acima de tudo, reconhecer o valor de cada cidadão que, ao longo de mais de um século e meio, contribuiu para transformar esta cidade em referência regional e orgulho paulista.

Como bem sintetiza Agostinho Minicucci, a Pátria começa no local onde vivemos. E, para nós, ela tem nome, história e significado: Botucatu.

Que essa chama cívica permaneça acesa — não apenas em datas comemorativas, mas no cotidiano de cada um de nós.

Porque uma cidade forte não se constrói apenas com obras. Constrói-se com memória, identidade e amor pelo seu chão.

AVANTE, BOTUCATU! A DIREÇÃO.

DIRETOR: Armando Moraes Delmanto

EDITORAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO: Gráfica Diagrama/ Edil Gomes

O Diário da Cuesta não se responsabiliza por ideias e conceitos emitidos em artigos ou matérias assinadas, que expressem apenas o pensamento dos autores, não representando necessariamente a opinião da direção do jornal. A publicação se reserva o direito, por motivos de espaço e clareza, de resumir cartas, artigos e ensaios.

MINHA HOMENAGEM

BAHIGE FADEL

‘Nunca esquecerei de ti, oh minha terra, berço onde o amor nasceu...’. Os versos do poeta são reais pra mim. E pensando em seu aniversário, sinto-me feliz como um aniversariante. Feliz por viver aqui. Feliz por ter conquistado aqui o que sou hoje. Sinto-me parte desta cidade encrustada na cuesta e, por isso, recebendo constantemente uma brisa agradável .

Moro em Botucatu desde os onze anos de idade. Foi quando saí de Pardinho para morar na Pensão Santana , do Máximo Sanches . Meu pai queria que eu estudasse, e em Pardinho só havia o Grupo Escolar Napoleão Corule. Mas o primeiro contato com Botucatu , pra valer, foi um pouco antes. Eu tinha apenas oito anos e para cá vim para participar do desfile cívico em comemoração ao centenário da cidade. Naquele tempo, se não me falha a memória, Pardinho era, ainda, distrito de Botucatu. E os alunos do distrito foram convidados a participar da festa da cidade.

Depois, meus pais se mudaram para cá, pois não queriam ficar longe dos filhos Fomos morar na rua Amando de Barros , onde tínhamos uma loja: a Casa São João . Aliás, por causa do nome da loja, todos achavam que o nome de meu pai era João No início, ele explicava que era Ramez. Quando viu que não adiantava, resolveu deixar pra lá.

Aqui em Botucatu realizei quase todos os meus estudos . Aqui me tornei professor, profissão que exerço até agora . E cada dia na sala de aula é um dia de felicidade . Fui e sou professor de boa parte da cidade Costumo dizer que metade de Botucatu é de pessoas que foram ou são meus alunos e a outra metade é de pais ou avós de meus alunos Aqui também, por orientação

do amigo Progresso Garcia , tive minha curta experiência política. Foi o período de redemocratização do país. Foram seis anos de trabalho na Câmara Municipal , da qual fui presidente. Aqui também me tornei radialista. Pelas mãos de Plínio Paganini entrei na F-8. Por sugestão do amigo Elias Francisco me tornei Fadel Júnior , já que o Plínio havia dito que não contrataria nenhum radialista com o nome de Bahige . Seria necessário um nome artístico. Foi em Botucatu que me tornei Cidadão Botucatuense . Foi uma gentileza do amigo e vereador José Varoli , que apresentou o projeto de lei. E a boa vontade dos demais vereadores, que aprovaram, por unanimidade, o projeto.

Mas não é só por isso que amo tanto esta cidade Foi aqui que conheci a Mari Neusa , minha companheira desde os meus dezessete anos e a mãe de meus três filhos, que em Botucatu nasceram. Não me imagino vivendo sem ela. Somos apaixonados um pelo outro. Aceitamos os defeitos que cada um possui e procuramos aperfeiçoar nossas virtudes. Principalmente nossa capacidade de vencer dificuldades e permanecer juntos.

Conheci Botucatu quando a cidade tinha quarenta mil habitantes e era conhecida como a cidade dos ferroviários. A Estrada de Ferro Sorocabana era a que mais empregava. Não havia ainda a UNESP . Os botucatuenses eram obrigados a sair daqui, se quisessem fazer faculdade. Não peguei o apogeu das grandes indústrias do passado. Vi todo desenvolvimento acontecer. Vi chegarem as indústrias de agora. Tivemos sorte de ter grandes administradores. Assim, Botucatu se transformou no que é. Tranquila e desenvolvida. Moderna sem deixar de preservar as tradições. Lugar ideal para a gente usufruir dos bons ares e ser feliz.

Parabéns, Botucatu! Parabéns botucatuenses!

“Destino...”

Sou, como se diz por aí, nascido no mato. Nasci num canto de invernada, beirando um riozinho pequeno. Ele,de tão pequeno era chamado de Petiço, longinho da Água do Corvo, obrigató- ria pra nóis em nosso caminho de casa.

E por ali, naquelas bandas, conheci, criança ainda, o destino. Quando um cachorro antigo lá de casa “ morreu de um raio” ouvi, chorando, meu pai dizê” chora não,fio,era o destino dele morrê assim”.

Depois a Mariana, a muié mais bonita da colonia, foi embora e o Zé, o Zé da Mariana endoidô de vez. E andava pelos atalhos,trieiros, várzeas,grotas e estradas pobres, gesticulando, falando, rindo, chorando, sujo,cabeludo, magro, faminto.

No seu rancho, a mãe já bem véia, sofrida e aflita esperava por ele no final dos dias, na boca das noites quentes ou de tempestades. E amanhã, de novo, a mesma sina, a mesma tortura, o mesmo martírio.

E daí eu aprendia de novo que “era o destino dele”.

Cresci, deixei o canto de invernada onde nasci,deixei meu arruado, estudei, envelheci, mas o mistério do destino não me abandonou. Se o destino matou o cão e endoidô o Zé, por que sofria tanto nhá Rita, a mãe veinha dele? É o destino tão insensível assim que faiz mãe veinha sofrê tanta penúria?

Enfim, o que é o destino? É a sina de cada um? Ele permite as escolhas do famoso livre arbítrio?Tá o destino de cada um, traçado, como se dizia lá de onde venho?É dívida do pecado original a ser paga?

Às vezes penso que o destino absolve culpados e causas e justifica o que justo não é!

Outras vezes, penso que o destino esconde nossa resignação ao que não temos resposta e aquieta nossas incertezas na vida. Sim, aquelas que nos consomem.

E daí me pergunto: fui o dono dos meus atos,os humanos e os de homem, ou só cumpri o destino, esse roteiro oculto que norteia e desnorteia vidas?

E o amor? É o destino que ata e desata vidas? É ele quem encanta e desencanta, quem amarra e solta, quem faz a chegada e a partida?

A verdade minha é que de destino eu nada sei. Vez em quando murmuro pra mim mesmo “é o destino” , como se criança fosse, embora já não seja.É um jeito de ajeitá o que não tem mais jeito. Simples assim.

“Esmeralda”

Buscando uma coisa achei outra.

Estava atrás de um par de sapatos para uma festa, e no meio das coisas guardadas numa caixa, encontrei algo.

Um bloquinho de notas sobre a minha viagem a Portugal e uma estória sobre uma amiga.

Minhas anotações sobre Portugal onde passei uma semana chuvosa, em Lisboa e arredores.

Visitei Fátima, o circuito dos vinhedos, Nazaré e sua praia, Sintra e seu Castelo da Pena, a Quinta da Regaleira, Óbidos.

No fim das notas sobre essa viagem encontrei uma homenagem para essa amiga, a Esmeralda.

Morava ali na Cardoso, uma das ruas centrais de Botucatu aonde eu e minha família também moramos por muitos anos.

Eu a conheci nas minhas idas aos Correios, aonde ela trabalhou até se aposentar, para postar alguma carta, ou cartões de Natal.

E a amizade durou uma vida.

Era de uma grande família de imigrantes turcos ou libaneses?

Aliás, essa dúvida me lembrou de um dia que fui estudar com a amiga Mary.

O pai dela tinha um mercadinho lá no fim da Rua Amando.

Eles eram descendentes de turcos.

Naquele dia lembro que o pai dela, ali atrás do balcão discutia com um homem libanês na sua língua.

O que eu não sabia é que eles eram velhos e queridos amigos.

Fiquei até com medo que os dois fossem se pegar aos tapas, mas a Mary me tranquilizou rindo :-”Não tenha medo, é sempre assim quando se encontram”..

E a discussão era sobre suas origens turco e libanês.

Depois fui pesquisar o porque da encrenca.

Quando as famílias dos imigrantes turcos, sírios, libaneses, vieram para o Brasil, ali pelos idos de 1920, buscar melhores condições econômicas e de vida e fugir do domínio turco otomano.

Se estabeleceram trabalhando como mascates, comerciantes.

Trouxeram a sua maravilhosa culinária muito apreciada: coalhada, quibe, esfihas, as suas maravilhosas

azeitonas, seus doces típicos a base de muito mel, pistache, nozes, castanhas.

E aquela gente me lembrava os nossos ascendentes italianos com as enormes famílias, sempre a volta de uma mesa comendo, bebendo café, falando muito alto, discutindo e gesticulando como se fossem se matar.

A Esmeralda era também de família grande, gente de belos olhos claros e nariz grande, grossas sobrancelhas.

Morava numa casa de esquina a um quarteirão da Igreja de São Benedito.

As portas e janelas sempre abertas, os irmãos com os filhos entrando e saindo.

Esmeralda, era solteira e cuidou dos pais e irmãos, sempre por ali na janela nos parava para um dedo de prosa.

Frequentava o Banco como cliente e como já nos conhecíamos era por assim dizer, minha cliente especial.

Sempre muito séria, mas bem divertida ao contar-me seus causos, com voz baixa como me segredando.

Crítica mordaz de algumas situações, coisas e pessoas, que chegavam na Agência, e acabava sempre me fazendo rir embaraçada.

Lembro que andava muito a pé e carregava consigo algumas sacolas.

Dizia que as amigas comentavam que ao morrer precisaria de dois caixões: um para seu corpo e outro para as sacolas.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
ed1709 by diariodacuesta - Issuu