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Digesto Econômico nº 468

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AS EMPRESAS QUE VOARAM MAIS ALTO CHEGARAM AQUI. RESERVE JÁ SEU ESPAÇO.

ANUNCIE NO BALANÇO ANUAL MELHORES DOS MAIORES 2012. Essa é a oportunidade de colocar sua marca ao lado das empresas que mostraram que o céu não é o limite para crescer. Publicado em edição especial da revista Digesto Econômico, o Melhores dos Maiores é o ranking avalizado pela Fundação Getúlio Vargas e Associação Comercial de São Paulo, que será referência por um ano, até a próxima premiação em 2013. E para melhorar ainda mais, este ano tem uma atração especial: um novo troféu, criado para marcar época.

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Lançamento: 24/9/2012 Reserva: 13/9/2012 Entrega do material: 14/9/2012

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Não esmorecer para não desmerecer Masao Goto Filho/e-SIM

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amos início, com este número especial do Digesto Econômico, a uma série de pesquisas e publicações oriundas do manancial de informações sobre a Associação Comercial de São Paulo e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo. É verdade que nunca descuidamos de cultivar a memória de nossas instituições. Aproximando-nos, porém, dos 120 anos da ACSP e dos 50 anos da FACESP, queremos difundir muito mais um patrimônio que enriquece toda a sociedade na qual estamos inseridos e com a qual trilhamos a história. Trabalhar a memória empresarial não é simplesmente voltar-se para o passado. Cada vez mais, estamos convencidos que memória empresarial é o uso que uma empresa faz da sua história, do dinamismo da sua tradição. E, dependendo da nossa percepção e sensibilidade, saberemos agregar mais valor a nossa atividade. Para tal empreendimento, associamo-nos às iniciativas para a comemoração do significativo 80º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, mediante a publicação de parte da documentação sobre a destacada participação da ACSP no processo revolucionário. Com efeito, coube ao nosso presidente, Carlos de Souza Nazareth (1889-1951), ser um dos líderes civis do movimento constitucionalista e contagiar milhares de nossos afiliados no esforço de salvar o Brasil do arbítrio de um governo provisório, fruto do golpe que, em 1930, interrompeu a ordem constitucional brasileira. Venerar os que deram esforço, talento e até a vida pelo nosso povo é sem dúvida um imperioso dever de cada um de nós. Mas, após a decantação de tantos anos de serena, mas acurada pesquisa, queremos que esta comemoração - longe de simplesmente acertar as contas com o passado - esteja mais voltada para o futuro. As amargas lições que aprendemos servem hoje de alicerce sólido para uma constante luta: aprimoramento das nossas leis; combate ao confisco das riquezas do mundo da produção por uma burocracia estatal paralisante; segurança jurídica para o empreendedorismo; limitação do avanço da carga tributária injusta; banimento da ineficiência, do desperdício e dos privilégios que invalidam a meritocracia. Recordar os valores do combate ao autoritarismo é uma das melhores formas de resistência. E a resistência começa pela união dos que têm e divulgam uma memória perigosa: uma nação deve ser governada por leis justas, modernas e democráticas, e não por príncipes que se sentem iluminados por algumas centelhas de popularidade, colhidas pela distribuição dos frutos de um árduo trabalho que não é devido nem ao seu talento, nem aos seus braços. Boa leitura!

Rogério Amato Presidente da Associação Comercial de São Paulo e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo.

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ÍNDICE

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Não esmorecer para não desmerecer Rua Boa Vista, 51 - PABX: 3180-3737 CEP 01014-911 - São Paulo - SP home page: http://www.acsp.com.br e-mail: acsp@acsp.com.br Presidente Rogério Amato Superintendente Institucional Marcel Domingos Solimeo

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Na defesa do ideal de constitucionalidade

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A eclosão da Revolução

ISSN 0101-4218 Diretor-Responsável João de Scantimburgo Diretor de Redação Moisés Rabinovici Editor-Chefe José Guilherme Rodrigues Ferreira Editores Carlos Ossamu e Domingos Zamagna Chefia de Reportagem José Maria dos Santos

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Lutar por São Paulo

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Muita luta e trabalho, porém, o ideal foi vencido

Editor de Fotografia Alex Ribeiro Pesquisa de Imagem Mirian Pimentel Editor de Arte José Coelho

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Homenagem aos heróis

Projeto Gráfico Evana Clicia Lisbôa Sutilo Diagramação Evana Clicia Lisbôa Sutilo Artes Max e Zilberman Gerente Executiva de Publicidade Sonia Oliveira (soliveira@acsp.com.br) 3180-3029 Gerente de Operações Valter Pereira de Souza Impressão Log & Print Gráfica e Logística S.A. REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E PUBLICIDADE Rua Boa Vista, 51, 6º andar CEP 01014-911 PABX (011) 3180-3737 REDAÇÃO (011) 3180-3055 FAX (011) 3180-3046 www.dcomercio.com.br

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Obra de Elio di Giusto


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itenta anos depois, a Associação Comercial de São Paulo mantém intactos os ideais de 32.

Tenho a sensação que do fundo do passado surge a figura impoluta de Carlos de Souza Nazareth, que coloca nas mãos de Rogério Amato a bandeira das treze listras. Esta publicação reflete as glórias desta tradicional entidade profundamente ligada à história de nosso Estado. Oito décadas são decorridas e o pequeno escoteiro de outrora revive com emoção aqueles dias inesquecíveis. Cultuar 32 é perpetuar o que São Paulo tem de mais sagrado, e este livro é o testemunho de que a Associação Comercial de São Paulo continua vigilante em sua trincheira de civismo. Paulo Bomfim São Paulo, junho de 2012

Paulo Bomfim, nascido em 1926, dos mais conhecidos poetas e jornalistas paulistanos, membro da Academia Paulista de Letras, autor de dezenas de livros, defensor de vários prêmios literários, é conhecido também pelos poemas sobre o caráter brioso do Movimento Constitucionalista de 1932.

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Reprodução

Sempre na linha de frente: a Associação Comercial Hernâni Donato Membro do Instituto de História e Geografia de São Paulo, Academia Paulista de Letras, Instituto de Geografia e História Militar do Brasil

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asceu bem a Associação Comercial e Agrícola de São Paulo: no querer impulsivo de Antônio Proost Rodovalho. Falta-lhe, hoje, 117 anos depois do ato criativo, o devido reconhecimento. Mas onde quer se levante episódios significativos da História de São Paulo, seu nome irrompe, entre os mais ousados. Montou fábrica de papel pioneira em Caieiras. Mas não tinha como trazer o produto a São Paulo. A ferrovia passava por suas terras, mas não parava. Os donos da estrada preferiam ir buscar o café no distante interior e levá-lo a Santos. Rodovalho foi a eles: – Ou fazem uma estação ali, ou faço uma ferrovia daqui até lá. Fizeram a estação. Foi isso, medula destinada a grandes cometimentos. A 7 de dezembro, 1894, 300 empresários paulistanos lhe teriam significado que "ou nos unimos em entidade combativa, ou perecemos enquanto comerciantes". Havia mais problemas do que incentivos. E São Paulo, cidade se tornava metrópole. O Estado inundava o mundo com o seu café o qual retribuía fazendo quintuplicar a população em poucos decênios. Mais gente de origens diversas, mais ofertas, mais procuras. Mais comércio e consequentes problemas. Para enfrentá-lo, compreensão total, seria necessária uma instituição representativa do comércio e fixadora das obrigações do mesmo, em seu próprio meio e em face à sociedade. Rodovalho presidiu e foi sucedido por presidentes à sua altura. Em 1932, já simplesmente Associação Comercial de São Paulo, a entidade à plenitude de sua capacidade e à altura do que dela São Paulo esperou, momento assim glorioso quanto pesaroso da sua História. Cada vez que se rememora, faz-se uma oração. Façâmo-la pelos 806 que morreram nas trincheiras, dos 1.037 que gemeram nos hospitais, dos 64 artilheiros de Óbidos que morreram por metralha e afogamento em pleno rio Amazonas, pelos 300 degolados de Porto Murtinho, pelas dezenas de mortos constitucionalistas nos combates em pleno Rio Grande do Sul governista, pelos mineiros que com São Paulo lutaram em dois combates, pelos estudantes mortos em Belém, aprisionados em Salvador e no Rio de Janeiro, pelos que jazem no monumento do Ibirapuera, pelos que sofreram e choraram ante a derrota militar, falemos de um veterano que lutou hora a hora, dia a dia, desde antes do 9 de julho e que no ostracismo do banimento, cantou, em rua silenciosa da Lisboa noturna, de braço dado com Guilherme de Almeida, a Canção do Soldado Constitucionalista. Pois que, falar de Carlos de Souza Nazareth é falar da Associação Comercial de São Paulo de 1932. Mantida para defender interesses

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empresariais, a Associação Comercial ousa ir aos jornais, na cidade comandada e vigiada por gente afinada com o governo ocupante e assina uma proclamação: "Exprimindo sentimentos gerais de protesto contra as protelações infindáveis da solução do premente caso de São Paulo, a Associação Comercial de São Paulo convoca o comércio a fechar suas portas e a suspender as suas transações por 24 horas, a partir das 14 horas de hoje, se até este momento não tiverem sido satisfeitas as legítimas aspirações do povo paulista." Não pediu. Ciente da razão do pleito e da vontade popular a Associação intimou. O comércio parou, parando São Paulo, assustando o governo. O governo não cedeu. Dados lançados. Às 23h40 de 9 de julho, decidido o levante, o coronel Figueiredo faz-se acompanhar por um grupo reduzido - militares e líderes civis - e, "no grito", invade e toma o quartel da Região Militar. Ali, a batalha começou ali. Entre esses vanguardistas da guerra, Carlos de Souza Nazareth. Vale dizer: presente a Associação Comercial de São Paulo. A campanha continuou e sem muita vitória verdadeira nos campos. Não faltou, porém, ardor cívico, identificação, cuidados para com os soldados – e foram 46 mil os voluntários especialmente carecidos de atenções. A Associação Comercial ideou e executou a oferta a cada soldado de um capacete de aço. Mais do que outro símbolo qualquer relativo à gesta de 32, o capacete de aço é reconhecido e referido. Iniciativa e orientação de Alexandre Siciliano Júnior, foi produzido em larga escala e no final da jornada guerreira, aproximadamente 70 mil unidades haviam sido produzidos. O projeto tornou-se bem-querer especial da Associação Comercial, que montou departamento especial para o mesmo, entregue este trabalho a Leão Renato Pinto Serva. Por todo o Estado, em locais diversos, o povo contribuiu (e evitava-se doações de alto valor, pois a doação tinha o calor e o tom da adesão popular). Até o dia 16 de setembro, a quantia de 922.035$700 permitiu a feitura de 61.469 capacetes. Das 72 mil mulheres, de todas as idades, etnias e classes sociais que se voluntariaram para trabalhos auxiliares, 2/3 dedicaram-se especialmente à obtenção de recursos para os capacetes. É que elas tinham seu homem ou seu amigo ou seu parente ocupando lugar em alguma trincheira. E por fim, luzes apagadas em Campos Elíseos, era preciso organizar um governo provisório, para que a desordem não governasse a cidade em vias de ser ocupada pelo vencedor. A 3 de outubro, em um escritório de advogado, à rua Boa Vista 11, foram reunidas personalidades representativas para instituir comissão a discutir com o general Góis o futuro imediato do Estado. Na comissão, Antônio Gonçalves, diretor da Associação Comercial de São Paulo, a qual atuou até depois do fim.


Reprodução

A Revolução de 1932 estremeceu o poder de Getúlio Vargas, chamando a atenção para a urgência de se instalar um processo de redemocratização.

PAULO DE ASSUNÇÃO é graduado em Desenho Industrial pela Universidade Mackenzie, e História pelo Centro Universitário Unifai, com especialização em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Fez Mestrado (1995) e Doutorado em História Social (2001) na Universidade de São Paulo. Prosseguiu os estudos na Europa, doutorando-se novamente pela Universidade Nova de Lisboa (2003) e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Sorbonne, Paris (2010), onde também realizou o pós-doutoramento (2011). Lecionou em diversas instituições de ensino superior em São Paulo, das quais foi também coordenador de departamentos e pró-reitor acadêmico. Atualmente é professor titular da Universidade São Judas Tadeu, pesquisador do CNPq e da Biblioteca Nacional. Colaborador de várias revistas,

foi editor da revista Lumen. Desenvolve pesquisas nas áreas de História, Arquitetura e Urbanismo, Turismo, com dezenas de orientações de dissertações e teses. Autor de numerosos artigos para revistas nacionais e internacionais, capítulos de livros, apresentações em simpósios. Dentre seus livros, destacam-se: Negócios jesuíticos: o cotidiano da administração dos bens divinos (Edusp); A terra dos brasis: a natureza da América Portuguesa vista pelos primeiros jesuítas 1549-1596 (Annablume); São Paulo Imperial, a cidade em transformação (Akmé); Ritmos da vida: momentos efusivos da família real nos trópicos (Arquivo Nacional); Percepção da natureza e do espaço habitado brasílico na literatura de viagem (Arte-Livros); Olhar francês sobre Portugal (Manole); O Patrimônio (Loyola); Os jesuítas no Brasil colonial (Atual); História do Turismo no Brasil (Manole). MAIO/JUNHO 2012 DIGESTO ECONÔMICO

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Fotos: Reprodução

Os habitantes de São Paulo souberam aderir e aplaudir as ações daqueles que foram heróicos na Revolução.

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Não esmorecer para não desmerecer Pesquisa e texto: Paulo de Assunção Agradecimentos à Biblioteca da ACSP Reprodução

O idealismo movia a todos em torno da questão da constitucionalidade.

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Paulo Pampolin/Digna Imagem

A atuação da Associação Comercial de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932 Carlos de Souza Nazareth: presidente da ACSP e um dos líderes da campanha pró-Constituinte

Agliberto Lima/DC

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m 9 de julho de 1932 eclodia em São Paulo o maior movimento cívico armado do século XX que o Brasil vivenciou. A população do Estado tomava em armas para defender o direito da liberdade e da Constituição, que o governo provisório de Getúlio Vargas, instaurado em 1930, protelava em conceder. No decorrer de três meses de conflito ocorreu a união entre as camadas da sociedade em busca do bem comum. O animo dos paulistas fez que a bravura e o civismo despontassem a cada passo do conflito armado. As incertezas eram muitas e os riscos maiores. Porém, não se temia o amanhã, pois a causa de São Paulo era sagrada, sendo preciso enfrentar as adversidades e mostrar a capacidade e valor moral e espiritual do povo paulista. O idealismo movia a todos entorno da questão da constitucionalidade, um verdadeiro frenesi envolvia toda a sociedade paulista e conquistou apreço de outras regiões do País que estavam inconformadas com os desmandos do governo ditatorial. Neste movimento, a ACSP teve papel importante como elemento aglutinador das forças combatentes e como porta voz do anseio da sociedade paulista frente a um governo intransigente. Apesar da derrota da Revolução Constitucionalista de 1932 no front de batalha, os paulistas foram vitoriosos, pois, a bandeira da luta pela constitucionalidade não foi esquecida. Os habitantes de São Paulo souberam aderir e aplaudir as ações daqueles que foram heróicos no processo revolucionário. Momento da história brasileira e paulista que merece ser relembrado na busca dos ideais de fortalecimento da democracia.

Medalhas e anéis foram fabricados para lembrar a luta de São Paulo pela Constituição.

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Na defesa do ideal de

O povo paulista reivindicava a autonomia de São Paulo e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte

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Reprodução


constitucionalidade

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Integrantes da tropa do general Isidoro Lopes, um dos líderes da Revolução Constitucionalista.

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Em 3 de novembro de 1930, chegava ao fim o período conhecido como República Velha. Getúlio Vargas, liderando tropas dos Estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes. O descompasso entre a elite paulista e mineira se fazia presente há algum tempo, devido à quebra da política do café-com-leite. As eleições ocorridas em primeiro de março daquele ano colocaram em confronto as forças governistas e a oposição, da qual Getúlio Vargas era o líder.

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s primeiras décadas do século 20 apresentaram um novo quadro social e econômico, principalmente a partir da Primeira Guerra Mundial. O acelerado processo de industrialização, a crise da economia cafeeira, o crescimento dos movimentos fascistas e as greves dos trabalhadores exigiam mudanças rápidas. A década de 1920 apontava para a fragilidade da estabilidade política brasileira, viciada no jogo de alianças políticas e em eleições fraudulentas. O Movimento Tenentista (1924), a Coluna Prestes e a formação do Partido Democrático, que trazia esperanças de uma renovação da política paulista por meio de eleições (1), sinalizavam para uma crise inevitável. O que fica evidente era uma luta mais intensa pela disputa por cargos políticos, enquanto a população crescia, reivindicando melhores condições de vida, como aumentos salariais e limitação da jornada de trabalho. Como bem observa Edgard Carone, a conjuntura era marcada por um excessivo federalismo, pelo analfabetismo, pela falta de patriotismo, pela anarquia e por outros problemas que só davam maior dramaticidade à situação vivenciada no período pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1918) (2).

Movimento Tenentista Em 1924, a situação era de uma carestia elevada e incômoda, greves operárias e de instabilidade. Havia dificuldade na distribuição de água, no transporte, na limpeza pública, o que acabava por gerar movimentos sociais de insatisfação. Na madrugada de 5 de julho foi deflagrado um levante, conhecido como Movimento Tenentista, que deixou a cidade em alvoroço. A partir do quartel no bairro da Luz e dos Campos Elíseos ocorreram

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movimentos de militares com disparos de metralhadoras e carabinas. Enquanto isso, o bombardeio de bairros acontecia com a interrupção das comunicações telefônicas e da energia elétrica. O governador Carlos de Campos transferiu a sede do poder para Guaiaúna, nas imediações da Penha. Em pouco tempo, os revoltosos tinham dominado pontos estratégicos da cidade, mas entre eles não havia convergência de ações. A participação ou não de civis gerava polêmica entre os revoltosos, questionava-se a fidelidade dos mesmos (3). No dia 9 de julho, a Junta Militar comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes tomou conta do Palácio dos Campos Elíseos, declarando em seguida que o presidente Artur Bernardes não tinha competências para guiar o País. A intenção dos revolucionários era entregar o poder do governo estadual ao Conselheiro Antonio Prado, enquanto o governo do município continuaria com o prefeito Firmiano Pinto. Enquanto

Revolução de 1924: na madrugada de 5 de julho eclodiu o Movimento Tenentista. Na foto, o Mercado Municipal completamente destruído após um incêndio ocasionado por granadas.

(1) O Partido Democrático (PD) foi constituído a partir de um grupo dissidente do Partido Republicano

Paulista (PRP). FAUSTO, B. In DUARTE, P. Agora nós! Crônica da Revolução Paulista, com perfis de alguns heróis da retaguarda. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado; FUNDAP 2007, p. XVII. (2) CARONE, Edgard. A Primeira República (1889-1930). São Paulo: Difel, 1969, p. 231. (3) CORRÊA, Anna Maria Martinez. A rebelião de 1924 em São Paulo. São Paulo: Hucitec, 1976, p. 84.

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isso, Artur Bernardes declara "Estado de Sítio", com lei marcial, que definia pelo fuzilamento imediato de qualquer civil encontrado com armas contra o governo e as forças legalistas. Era uma medida drástica para conter a desordem. A população atônita sentia as consequências do embate. Logo começou a escassear alimentos e os saques passaram a fazer parte da rotina dos cidadãos. Muitos moradores dos bairros mais afetados, como Luz, Santana, Campos Elíseos e Bom Retiro, deixaram as suas residências em direção ao interior. A violência imperava com mortes, ataques aéreos e incêndios que ocorriam em diferentes pontos do município. O presidente da ACSP, José Carlos de Macedo Soares, via com preocupação a continuidade do movimento que atemorizava a população e desorganizava a vida econômica e financeira do Estado de São Paulo. Imaginava que o

O presidente da ACSP, José de Carlos de Macedo, via com preocupação a continuidade do movimento que atemorizava a população e desorganizava a vida econômica e financeira do Estado de São Paulo.

caminhar do conflito levaria à impossibilidade da exportação do café, da pilhagem aos bancos e, por decorrência, a exasperar mais as dificuldades que o povo enfrentava. Ressaltava que cabia às forças revolucionárias encontrarem um caminho para por fim ao levantamento que punha em risco a Nação brasileira (4). Em 27 de julho, o general Isidoro Dias Lopes, antevendo a derrota, enviou uma proposta de armistício às tropas legalistas, que contou com o apoio da ACSP. O governador Carlos de Campos recusou a aceitar o teor da mesma e os revolucionários enfraquecidos deixaram São Paulo. Para Ana Maria Corrêa, o que teria conduzido a um fracasso do levante era a falta de apoio popular e o comprometimento com os grupos dominantes. A estudiosa chama a atenção para o fato da falta de percepção da necessidade de apoio de grupos do interior e o não desligamento total com o governo do Rio de Janeiro (5). Terminava o movimento de 1924, que era o prenúncio do mal-estar que se abatia sobre parte

da sociedade, principalmente dos militares. Quadro que iria se altera com as transformações econômicas que aconteceriam pelo mundo (6).

Getúlio Vargas no poder A eleição de 1930 potencializou as insatisfações, apontando para o desgaste político da República Velha. A Aliança Liberal, que reuniu os segmentos insatisfeitos da sociedade, apoiou a candidatura para presidente de Getúlio Vargas e para vice João Pessoa. O resultado do pleito deu vitória a Júlio Prestes, mesmo existindo questionamentos sobre a lisura do processo eleitoral, com irregularidades cometidas por ambos os lados. Não restava outra saída a não ser a articulação dos derrotados na eleição. O assassinato de João Pessoa, em 26 de julho de 1930, por questões de ordem particular, foi um impulso para a organização dos insatisfeitos em relação à hegemonia paulista no poder central. A imprensa explorou o crime, cogitando que o mesmo teria sido realizado por questões políticas. Aliado a este fato, no seio da sociedade crescia o descontentamento em relação à crise econômica, devido à Grande Depressão (1929-1933), criando as condições necessárias para um levante (7). No Rio Grande do Sul, em três de outubro de 1930, ocorreu o estopim da revolta que se alastrou rapidamente por outros Estados. Uma semana depois, Getúlio Vargas apresentou o manifesto "O Rio Grande de Pé pelo Brasil", seguindo para a capital da república. No percurso o enfrentamento entre as tropas oposicionistas e governistas foi inevitável. Em 24 daquele mês, Washington Luís era deposto pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto. Em três de novembro, no Palácio do Catete, uma junta militar passou o poder para Getúlio Vargas, que se tornou chefe do governo provisório, gozando de amplos poderes. No poder federal estavam agora novos personagens em cena e um projeto político industrial mais intenso se fazia presente, acenando para o novo futuro da sociedade brasileira. Era anseio comum, que o progresso fosse pautado pelo respeito aos direitos dos cidadãos, como parte de um processo civilizatório brasileiro (8).

(4) APM. Belo Horizonte, 1924. (Cx. 14, AB-RP). In: BRAGA, Paula Louane Matos. O governo Bernardes

e a Liga das nações . Franca: Unesp, 2008. (dissertação de Mestrado), p. 75. (5) CORRÊA, Anna Maria Martinez. A rebelião de 1924 em São Paulo. São Paulo: Hucitec, 1976, p. 187. (6) CORRÊA, Anna Maria Martinez. A rebelião de 1924 em São Paulo. São Paulo: Hucitec, 1976. (7) DRAIBE, Sonia. Rumos e metamorfoses: Estado e industrialização no Brasil (1930/1960), p. 22

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Uma das primeiras ações tomadas foi a revogação da Constituição de 1891, seguida da dissolução dos Congressos Nacional e Estadual, das câmaras municipais e a nomeação de interventores para os governos estaduais, com exceção de Minas Gerais. A ação de Getúlio Vargas demonstrava claramente o interesse da centralização política e do controle econômico pelo governo federal, proibindo a contratação de empréstimos externos pelos Estados e o monopólio de compra e venda de moeda estrangeira pelo Banco do Brasil. O intuito era enfraquecer o poder dos Estados, exercendo controle sobre as instituições existentes. Foi definido também o exílio de Júlio Prestes, Washington Luís e outros membros da sociedade que pertenciam à estrutura de poder da República Velha. O pulso forte do poder também se fez sentir nos jornais que haviam apoiado Júlio Prestes, como a Folha da Noite, Correio Paulistano, A Noite e O Paíz, que tiveram suas sedes invadidas e parcialmente destruídas. Era o início de um período de intransigências, que passaria por lutas e distensões. Conforme a análise de Eli Diniz, a Revolução de 1930 era heterogênea e foi responsável por gerar antagonismos internos. Isto ocorreu, em parte, por falta de grupos hegemônicos no poder, o que comprometia o processo de mudanças que necessitavam ser feitas, principalmente no que dizia respeito ao desenvolvimento industrial (9). Para Sônia Draibe, a crise que envolveu os anos de 19291930 abalou as estruturas de uma burguesia mercantil-exportadora. Além disso, deixou evidente a fraqueza econômica e política da burguesia, num quadro marcado por um proletariado fragmentado e disperso (10). Para o Estado de São Paulo foi nomeado, como interventor, o tenente João Alberto Lins de Barros, pernambucano, que governou entre novembro de 1930 e julho de 1931. A sua atuação foi questionada pela sociedade paulista, ressentida pelo processo da revolução, que não poupou críticas ao desempenho sofrível do tenente, designando-o pejorativamente de "forasteiro e plebeu". Também foram nomeados o

general Isidoro Dias Lopes, para o comando militar da região, e o major Miguel Costa, para o comando da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que tinham atuado no movimento revolucionário de 1924. Em 25 de julho de 1931 assumiu o cargo de interventor o paulista Laudo Ferreira de Camargo, que foi forçado a governar sem nenhuma autonomia, apesar de possuir um secretariado escolhido dentre os membros mais destacados da sociedade paulista (11). A sua gestão foi curta, passando a ser insustentável quando Getúlio Vargas enviou o capitão João

A ação de Getúlio Vargas (sentado, à direita) demonstrava claramente o interesse da centralização política e do controle econômico pelo governo federal.

(8) Sobre o assunto ver: CAPELATO, Maria Helena. Os arautos do liberalismo. Imprensa paulista 1920-

1945. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 33. (9) DINIZ, Eli. Empresário, Estado e capitalismo no Brasil:1930-1945. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, pp. 25-31 (10) DRAIBE, Sônia. Rumos e metamorfoses: um estudo sobre a constituição do Estado e as alternativas da industrialização (1930-1960). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 28. (11) MATTOS, Carlos de Meira. "Porque São Paulo foi derrotado?" In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 31.

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Os paulistas desejavam mais liberdade e poder, e a comemoração do aniversário da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro, foi o marco para a manifestação pública contra as ações de Getúlio Vargas.

Alberto para São Paulo, exigindo mudanças no secretariado. Não restava outra saída senão a renúncia. Foi sucedido em 13 de novembro do mesmo ano pelo coronel Manuel Rabelo Mendes, que permaneceu no cargo até sete de março de 1932. A questão principal não se atinha ao intervencionismo no Estado de São Paulo, mas sim, a possibilidade dos paulistas definirem pelos seus desígnios, o que sinalizava para a necessidade de um novo modelo de gestão que fosse pautado pela colaboração e compromisso das classes. As negociações para manter a autonomia paulista no governo do Estado foram inúmeras, mas o governo federal não cedia e os ânimos se exaltavam. Apesar das novas nomeações para o cargo de interventor, João Alberto Lins e Barros continuava a exercer influência, junto à condução do governo do Estado. As mudanças de interventores sinalizavam para a tensão política do período, a falta de autonomia que estes possuíam para montar o secretariado e as diversas interferências no gover-

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no do Estado. Era ponto comum das insatisfações que os interventores, não paulistas, eram descompromissados e alheios aos interesses do Estado de São Paulo, o mais importante da federação. Os comícios e passeatas passaram a ser cenas comuns e que expressavam a insa-

O presidente da ACSP, Carlos de Souza Nazareth, em 17 de junho de 1931, dirigiu uma carta a Getúlio Vargas a fim de "exprimir as aspirações gerais das classes que representa pela volta do nosso País, no mais breve prazo, ao regime constitucional". tisfação popular. Os paulistas desejavam mais liberdade e poder, e a comemoração do aniversário da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro, foi o marco para a manifestação pública contra as ações arbitrárias de Getúlio Vargas. Os paulistas, como era comum, participavam da missa que era celebrada nesta efeméride, aproveitando a ocasião para protestar.


Reprodução

O Partido Republicano Paulista e o Partido Democrático de São Paulo, que até então possuíam divergências políticas, se uniram na Frente Única, que passou a reivindicar a autonomia de São Paulo.

De cerimônia religiosa passou a manifestação política, marcada por faixas e cartazes que questionavam o poder de Getúlio Vargas e a indignação geral.

Vozes paulistas As vozes dos paulistas se uniram na luta pela constituição e pelo Brasil. Em fevereiro, o Partido Republicano Paulista e o Partido Democrático de São Paulo, que até então possuíam divergências políticas, se uniram na Frente Única, que passou a reivindicar a autonomia de São Paulo, com a nomeação de um interventor civil e paulista, bem como convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Além disso, o processo de aceleração da indústria brasileira estava dependente das importações e o quadro de crise que se delineava mundial-

mente comprometia a política de desenvolvimento econômico (12). A Frente Única foi formada para defender a convocação imediata da Constituinte. O Presidente da ACSP, Carlos de Souza Nazareth, em 17 de junho de 1931, dirigiu uma carta a Getúlio Vargas a fim de "exprimir as aspirações gerais das classes que representa pela volta do nosso País, no mais breve prazo, ao regime constitucional". A ACSP representava a voz de "numerosos dos mais representativos do comércio e da indústria do Estado de São Paulo". Anseio de todos era que se convocasse o mais breve possível a Assembleia Constituinte, em moldes liberais. Tal situação era necessária para que fosse restabelecida a confiança econômicofinanceira do País, bem como ficassem salvaguardados os "interesses morais e materiais mais prementes da sociedade brasileira" (13).

(12) (13) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 8.

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A eclosão Agliberto Lima/DC

Agliberto Lima/DC

No decorrer do segundo semestre de 1931 e até fevereiro de 1932, Getúlio Vargas não promulgou uma nova Constituição. Crescia a insatisfação.

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da Revolução

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No decorrer do segundo semestre de 1931 e até fevereiro de 1932, Getúlio Vargas não se empenhou para promulgar uma nova Constituição para o Brasil. Novamente a ACSP veio a público manifestar a sua insatisfação contra o governo federal, alertando para que a entidade e povo de São Paulo saberiam cumprir com o seu dever. Os paulistas estavam unidos "afim de que a sua voz seja escutada e a sua força se faça sentir. Nunca, como agora, essa união se fez tão necessária para a salvaguarda dos interesses econômicos da coletividade, em vista dos problemas do momento, entre os quais avulta o do restabelecimento da ordem legal do País" (14).

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o Diário Popular, em 2 de fevereiro de 1932, foi publicada a entrevista com o recém-eleito Presidente da ACSP, Carlos de Souza Nazareth. Dentre as ações estratégicas para aquela gestão estavam delineadas: a aproximação das corporações congêneres, a defesa da Constituinte, a reforma aduaneira e outros assuntos relevantes para o comércio em geral. A sua atuação, segundo o texto, teria como preocupação traduzir o sentir da coletividade. Para ele, a entidade tinha como foco exprimir o pensamento das classes que representava. Por conseguinte, afirmava: "Desejo estabelecer maior aproximação com as corporações congêneres locais, de Santos e do Interior do Estado. Essa conjugação de esforços, prática até agora adotada pela Associação Comercial, tem dado os melhores resultados". O estabelecimento de relações não se restringia apenas às entidades congêneres, mas também a outras que representavam, de maneira expressiva, segmentos da sociedade. Era importante "tornar mais fortes estes laços de cordialidade, procurando estabelecer perfeita união de vistas entre todas as classes conservadoras e sociais, no interesse geral, principalmente neste momento quando tão graves problemas que nos dizem respeito reclamam solução imediata"(15). No que dizia respeito à campanha Pró-constituinte, Carlos de Souza Nazareth afirmava que a volta ao regime constituinte era importante para a organização econômica do País. Salientava que há um ano, ele próprio, afirmara na imprensa: "Sem o regime constitucional, não retomaremos o ritmo da nossa vida econômica". Passado todo esse tempo, a sua opinião não mudara e estava convencido que era urgente a retomada da normalidade, pois sem ela não seria possível a autonomia dos Estados, "cuja supressão tem acarretado graves agitações e profundos dissídios na família brasileira, afetando intensamente os interesses morais e materiais da nacionalidade; não se restabelecerá a confiança indispensá-

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vel à normalização da vida econômica e financeira do Pais". Lembrava que todos aqueles que "movimentavam as riquezas e auxiliavam direta e indiretamente a sua circulação, necessitavam urgentemente de paz, de tranquilidade, de ordem, de segurança e de garantias permanentes para o seu esforço, do qual depende o bem estar, a grandeza e a prosperidade do Brasil". Com uma visão clara como presidente de uma entidade de grande peso para a sociedade paulista, afirmava de maneira categórica que: "Não podemos, pois, deixar de tomar parte, a mais ativa, na campanha pró-Constituinte. Estou certo de que todas as associações representativas das classes conservadoras do Brasil, pensam do mesmo modo, pois, só um regime de plenas garantias jurídicas é possível de normalizar os negócios".

Manifesto Em 17 de fevereiro era publicado um Manifesto das associações de classe pela reconstitucionalização imediata, bem como pelo restabelecimento da autonomia estadual. Estas condições eram necessárias para o retorno à normalidade da vida nacional e para a reconstrução de São Paulo e do Brasil. A ACSP liderou este documento, que foi subscrito por outras instituições: Sociedade Rural Brasileira, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Instituto da Ordem dos Advogados de São Paulo, Instituto de Engenharia de São Paulo, Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, Associação dos Empregados no Comércio de São Paulo, Centro Acadêmico Onze de Agosto, Instituto Brasileiro de Contadores, Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, Liga de Defesa do Commercio e da Indústria de São Paulo, Grêmio Polytechnico de São Paulo, Centro Acadêmico

(14) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 8. (15) Diário Popular, 2 de fevereiro de 1932.


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Não podemos pois deixar de tomar parte, a mais ativa, na campanha pró-Constituinte. Estou certo de que todas as associações representativas das classes conservadoras do Brasil pensam do mesmo modo, pois, só em um regime de plenas garantias jurídicas é possível normalizar os negócios". Carlos de Souza Nazareth Presidente da ACSP

Em 17 de fevereiro de 1932 foi publicado um manifesto das associações de classe pela reconstitucionalização imediata, bem como pelo restabelecimento da autonomia estadual. Estas condições eram necessárias para o retorno à normalidade da vida nacional e para a reconstrução de São Paulo e do Brasil.

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Horacio Lane, Instituto Paulista de Contabilidade, Syndicato Patronal das Indústrias Têxteis do Estado de São Paulo, Centro das Indústrias de Malharia do Estado de São Paulo, Liga dos Commerciantes e Industriaes em Louça e Ferragens de São Paulo, Centro de Commercio e Indústria de Madeiras de São Paulo, Centro dos Comerciantes Atacadistas de São Paulo, Associação Comercial dos Varejistas de São Paulo, Liga Pró-Constituinte e Syndicato dos Industriaes e Commerciantes Graphicos de São Paulo(16). Pelas corporações que assinaram o documento, é possível identificar que ACSP era porta-voz de diferentes segmentos da sociedade que se manifestavam contrários à política getulista, convocando para o dia 24 de fevereiro de 1932 um grande comício pró-Constituinte, que seria realizado na Praça da Sé(17). A ACSP, exercendo o poder moderador e conciliador, buscando o equilíbrio, se unia a outras entidades e ao povo, agindo em função de "uma ação conjunta em prol da causa comum". No dia 18 de fevereiro foi publicado no jornal O Estado de São Paulo um novo convite ao povo paulista para participar do Comício da Liga Paulista Pró-Constituinte, sendo assinado por outras associações da capital e pelos jornais: O Estado de São Paulo, Diário Nacional, Diários Associados, Folha da Manhã, Folha da Noite, A Gazeta, Diário Popular. No dia 19 de fevereiro, o jornal O Estado de São Paulo divulgou trecho de uma nota publicada no dia anterior no jornal "A Noite", do Rio de Janeiro. Na matéria do jornal carioca, era apresentado que o problema que estava acontecendo em São Paulo, no que dizia respeito à nomeação do interventor, era mais amplo. Pois, as forças mais expressivas de São Paulo afirmavam que só apoiariam o interventor se ele se dispusesse a trabalhar para "o regresso imediato do País ao regime constitucional"(18). Fazendo menção ao comunicado publicado em São Paulo, o periódico carioca salientava que havia a assinatura de dezessete associações que davam seu apoio irrestrito à causa constitucionalista. Registrava também que os paulistas, há algumas semanas, não pagavam os impostos federais e estaduais, "como protesto contra a falta de solução do problema político"(19). Este movimento, segundo "A Noite", ameaçava espalhar-se por todo o Estado de São

Paulo: "Que fazer contra essa determinação? Impostos não se cobram à força". Referindo-se ao comício marcado para 24 de fevereiro, o impresso salientava que os desenrolar dos acontecimentos apontavam para: "indícios insofismáveis de uma situação grave que carece de imediata solução. O povo paulista tem razão. São justos os seus ressentimentos. Há quinze meses que vem sendo menosprezado nas suas tradições, na sua liberdade e nos seus interesses. E, no entanto, os paulistas nunca pediram mais do que um governo paulista e civil capaz de administrar o seu Estado. Pediram muito pouco. Mas nem assim foram satisfeitos"(20). A imprensa deu ampla cobertura ao assunto, registrando os telegramas que a ACSP re-

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(19)

À

O Estado de São Paulo, 18 de fevereiro de 1932.

(17) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 8. (18)

O Estado de São Paulo, 19 de fevereiro de 1932.

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O Estado de São Paulo, 19 de fevereiro de 1932.

(20) O Estado de São Paulo, 19 de fevereiro de 1932.

Convocação de comício da Liga Paulista Pró-Constituinte apoiado pela ACSP e diversas outras entidades de classe.


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cebeu, confirmando a conquista de novas adesões ao movimento. A Bolsa de Mercadorias de São Paulo registrava o seu apoio "incondicionalmente à frente única paulista e adere à bela iniciativa da Associação Comercial de São Paulo, autorizando-a a pôr seu nome entre os subscritores do manifesto". De maneira idêntica, se manifestaram as Associações Comerciais de Campinas e Santos, o Centro dos Intermediários de Café, a Policlínica, o Centro do Comércio e a Associação dos Proprietários, todos de São Paulo(21). A causa rapidamente ganhou novos adeptos, sinalizando para a euforia como foi abraçada. Novos telegramas chegaram à ACSP, prestando solidariedade à luta pela reconstitucionalização imediata e o pronto restabelecimento da autonomia estadual. No dia 23 de fevereiro, o Estado de São Paulo acusava o recebimento na ACSP da adesão da Associação

do Comércio Varejista de Santos, das Associações Comerciais de Botucatu, Amparo, São Manuel, da Associação dos Corretores de Imóveis de São Paulo, da Federação Paulista de Criadores de Bovinos, da Liga do Comércio e Indústria de Montes Altos(22). No dia seguinte, novos telegramas de apoio foram registrados, aderindo ao movimento: a Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, o Instituto Paulista de Arquitetos, da Associação dos Proprietários de Farmácia do Estado de São Paulo, do Automóvel Club de São Paulo, da Sociedade Internacional dos "Chauffeurs" do Estado de São Paulo, da Associação Paulista de Contadores, da Sociedade dos Amigos do Café Brasileiro, da Associação dos Industriais Metalúrgicos de São Paulo, da Associação dos Torradores de Café da capital e das Associações Comerciais de Catanduva, Araçatuba, Casa Branca e Mirassol(23).

(21) O Estado de São Paulo, 21 de fevereiro de 1932.

(23) O Estado de São Paulo, 24 de fevereiro de 1932.

A causa rapidamente ganhou novos adeptos, sinalizando para a euforia como foi abraçada.

(22) O Estado de São Paulo, 23 de fevereiro de 1932.

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O comércio fechou as portas, os bancos paralisaram as atividades e uma multidão parou para ouvir oradores de todas as classes.

No dia 24 de fevereiro, no jornal O Estado de São Paulo comunicava à população da cidade que o comércio da cidade encerraria o seu expediente às 16 horas, "afim de que patrões e auxiliares possam comparecer à reunião cívica em prol da constitucionalização do País". Os bancos, também aderindo à manifestação, tiveram o seu expediente encerrado ao meio-dia, como normalmente acontecia aos sábados(24). O Comício Pró-Constituinte reuniu milhares de pessoas na escadaria da Catedral da Sé, que estava sendo construída. O evento, que ocorreu no final da tarde do dia 24 de fevereiro, contou com a participação de pessoas de todos os setores da sociedade, vindos de diferentes partes do Estado. O comércio fechou as portas, os bancos paralisaram as atividades e uma multidão parou para ouvir os oradores que representavam todas as classes sociais. As faixas que foram erguidas no evento davam o tom da

indignação, destacando-se: "São Paulo unido exige a constituinte", "São Paulo para os Paulistas", "O esplendor de São Paulo dependente dos paulistas", "Constituição e justiça" e "Hoje como no passado paulistas avante"(25)). No dia 26, após o comício, e estimulado por um ambiente de fervor constitucionalista, chegavam à ACSP novos telegramas hipotecando o apoio ao movimento, como: do Centro Varejista de Iguape, da União dos Proprietários de Automóveis de Santos, do Centro de Comércio e Indústria de Itapira e de Taquaritinga, das Associações Comerciais de São José do Rio Pardo, Jaú e Sorocaba(26). No dia 28, mais adesões da: Associação dos Negociantes Alfaiates de São Paulo e da Loja Maçônica "Estrela do Oeste", de Ribeirão Preto. Neste momento, aproximadamente setenta "corporações de classe" manifestavam apoio à Frente Única paulista e novos comícios estavam previstos para outras regiões do Estado de São Paulo.

(24) O Estado de São Paulo, 24 de fevereiro de 1932.

(26) O Estado de São Paulo, 26 de fevereiro de 1932.

(25) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 11.

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(27) O Estado de São Paulo, edições de 1, 2, 3 e 4 de

março de 1932. (28) O Estado de São Paulo, 4 de março de 1932. (29) A Gazeta, 11 de março de 1932.

possibilidade de atender aos reclamos dos paulistas, sem perder o controle sobre o governo do principal Estado da federação. Faltava autonomia ao Estado para poder governar e cada vez mais ficava evidente que um conflito estava na iminência de acontecer. O envio de Osvaldo Aranha a São Paulo, como representante do governo federal, e a sua atuação para interferir na formação do novo secretariado, gerou mais insatisfação. A população irada saiu às ruas, lutando pelos seus direitos.

A posição da ACSP

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Nos primeiros dias de março, o movimento conquistou mais apoiadores como: a União Farmacêutica de São Paulo, o Centro dos Comerciantes de Artigos Fotográficos do Estado de São Paulo, o Grêmio Acadêmico da Escola de Comércio "São Luiz" de Campinas, o Centro dos Construtores e Industriais de Santos, a Liga Campineira de Esportes Atléticos, a Liga dos Empregados no Comércio de Santos, o Sorocaba Club, a Associação dos Lavradores de Jaú, do Centro de Proprietários de Veículos de Santos, e das Associações Comercial de Rio Claro e de Rio Preto (27) . Esta última fazendo registro expresso para que a "coirmã" ACSP fizesse o uso do "nosso nome em todas as iniciativas que tomar para incentivar o retorno do País ao regime constitucional, pois que esse fato representa o anseio do povo em geral"(28). A onda de insatisfação fez com que o operariado externasse a sua insatisfação e greves aconteceram. A crise econômica que pairava sobre a sociedade era um combustível que alimentava os insatisfeitos. O momento era delicado e faltou habilidade política para contornar as divergências, bem como predisposição para resolver a questão. Havia correntes que apoiavam o governo, que eram contrárias à elaboração de uma nova carta constitucional. A tensão aumentou quando em 3 de março foi assinado um documento pelos tenentes do Clube 3 de Outubro, dando apoio à ditadura. A nomeação, em março, do interventor paulista Pedro Manuel de Toledo não acalmou os ânimos, apesar de agradar diferentes segmentos da sociedade. Ele era paulista e atuara com deputado e ministro, tendo sido representante do Brasil na Itália, Espanha e Argentina. Ao ser nomeado interventor, contava com 74 anos. Getúlio Vargas identificara na pessoa de Pedro de Toledo a

A nomeação, em março, do interventor paulista Pedro Manuel de Toledo não acalmou os ânimos, apesar de agradar diferentes segmentos da sociedade.

A Associação Comercial do Rio de Janeiro, nesta ocasião, defendeu a causa da formação de um Partido Economista, ideia proposta por Seraphim Vallandro, presidente da instituição. Carlos de Souza Nazareth concedeu entrevista ao jornal A Gazeta, que publicou em 11 de março, a posição da ACSP sobre o assunto, bem como sobre outras questões prementes. A criação de um Partido Economista gerara grande alarde entre os partidos e a imprensa da época. As opiniões se dividiram entre favoráveis e contrários à constituição do partido. O jornalista da "A Gazeta" foi consultar a opinião de Carlos de Souza Nazareth, imaginando encontrar, conforme suas palavras, um "cansado homem de negócios, de nervos e cabeça mal policiados". Para sua surpresa, encontrou "um moço de clara inteligência e vontade firme". A fala do presidente da ACSP foi clara. Ele entendia que a entidade não deveria "imiscuir-se nas tricas e competições partidárias". Em resposta ao colega da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Carlos de Souza Nazareth declarava que a formação de um Partido Economista, "não encontra em São Paulo, pelo menos no momento, ambiente propício para ser lançado e que contra ele aqui se articulam objeções das mais sérias"(29). Segundo o presidente da ACSP, a situação que envolvia o momento não permitia que outro assunto ocupasse as mentes dos paulistas. O tema premente a ser resolvido era o do "pronto retorno ao regime constitucional e a próxima restauração da autonomia estadual", motivo

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Faltava autonomia ao Estado para poder governar e cada vez mais ficava evidente que um conflito estava na iminência de acontecer. O envio de Osvaldo Aranha a São Paulo, como representante do governo federal, e a sua atuação para interferir na formação do novo secretariado, gerou mais insatisfação. A população irada saiu às ruas, lutando pelos seus direitos.

que levara à constituição da Frente Única, considerada uma "união sagrada de todos os paulistas". Ressaltava que cerca de uma centena de associações haviam aderido ao projeto da constitucionalização e que a ACSP tinha atuado de forma a promover o "franco entendimento para uma ação conjunta em prol da causa comum". Exemplificava as ações dizendo que durante os últimos acontecimentos, dos quais havia resultado a formação do novo secretariado, a entidade tinha tomado uma participação ativa, "ao lado do povo, as associações de classe agiram em perfeita harmonia, como o sr. embaixador Pedro de Toledo e a 'Frente Única', tendo sido ouvidas, continuamente em todas as fases das negociações para a solução definitiva do caso paulista". Mencionava que a pedido de Pedro de Toledo, e com o apoio da "Frente Única", havia sido indicado três nomes tirados das fileiras da ACSP, "sem atenção à sua cor partidária, tendo sido um deles escolhido para uma das pastas". Para Carlos de Souza Nazareth, a ACSP deveria ficar "fora e acima dos partidos", o papel da entidade era o de ter uma "ação moderadora e conciliadora, agindo com (sic) um elemento de equilíbrio, sempre acatado pelos dois partidos, como representantes que somos de uma grande força, em que se reconhecem autoridade e insuspeição justamente por não estar envolvida em competições partidárias". Conjecturava que se a entidade formasse eventualmente um partido, não traria nenhum benefício à sociedade, mas sim "prejuízos para os interesses gerais". De forma enfática dizia: "Nossas opiniões deveriam ser respeitadas e não suspeitadas, visto que na resolução de todos os problemas que nos dizem respeito, temos em vista o bem geral"(30). O jornalista interpôs uma outra questão importante: "Vindo a Constituinte, acabará esse entendimento?" A resposta de Carlos de Souza Nazareth foi incisiva: "Penso que não". Justificava que a "aproximação com os políticos promete sobreviver à situação que a determinou e trazer os mesmos benefícios que esperam da constituição do Partido Economista, pois em contato com as associações de classe, os partidos serão melhor orientados sobre as necessidades da vida econômica do País". O presidente da ACSP vislumbrava que os políticos teriam muitos interesses em "agir sempre de acordo como associações de classe", pois não havia interesse na disputa política nem ambição, nem "nos senti-

mos preparados para exercer, tão diferente é a nossa esfera de atividade". Aos seus olhos parecia contraproducente gerar descompassos entre as forças econômicas e políticas do País, "com prejuízo para ambas". Acima de tudo estava o dever cívico, que cada membro da entidade deveria abraçar, de forma que pudessem ter "governos verdadeiramente representativos da opinião pública". Por conseguinte, entendia que as corporações de classe não deveriam "se envolver em competições políticas partidárias, conservando-se em terreno neutro, respeitadas por todos, a fim de lhes ser possível melhor colaboração com as forças políticas para que tenhamos boa administração e boa política, sem o que não teremos boa economia"(31). O momento exigia ação e esta foi tomada. Júlio de Mesquita Filho, Cesário Coimbra, Ataliba Leonel, Coriolano de Góis e outros políticos passaram a realizar mobilizações para a eventual luta armada, fazendo negociações com outros Estados para aderirem à causa da constitucionalidade. Enquanto isso, a ACSP recebia mais adesões à causa. Ao movimento juntaram-se o Centro Operário Católico Metropolitano e a Associação Comercial de Bauru(32). As relações entre as associações comerciais do Rio de Janeiro e São Paulo apontam para uma convergência de interesses. Em telegrama enviado pelo presidente da ACRJ, Serafim Vallandro, agradecia ao almoço oferecido pelos seus companheiros de São Paulo, afirmando que declararia sempre a "máxima importância e conveniência estreita" da colaboração entre as Associações Comerciais do Brasil, principalmente a de São Paulo e do Rio de Janeiro "na lida em prol do prestígio da classe. Vallandro pedia uma atenção aos pedidos que fizera durante o discurso, realizado naquela ocasião, referentes à formação do Partido Economista. Em resposta ao parceiro carioca, Carlos de Souza Nazareth respondeu destacando a importância do discurso proferido, no qual se fazia um quadro sobre a situação em que viviam as entidades de classe. Aproveitava o ensejo para comunicar que causa "magnífica impressão" a consciência que a ACRJ demonstrara a "respeito da necessidade de rápida reconstitucionalização do País e a entusiástica manifestação de aplausos com que esses conceitos foram acolhidos pela assistência". Tal manifestação pública era importante para reforçar os elos em torno da necessidade do reingresso da nação

(30) A Gazeta, 11 de março de 1932.

(32) O Estado de São Paulo, edições de 15 de março e 15 de abril de 1932.

(31) A Gazeta, 11 de março de 1932.

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(33) O Estado de São Paulo, 7 de maio de 1932.

(34) O Estado de São Paulo, 20 de maio de 1932.

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no regime constitucional e na normalização da vida do Estado de São Paulo e do Brasil, tendo em vista os efeitos funestos que as ações do governo ditatorial tem causado à situação financeira e econômica, afetando sensivelmente o "bem estar material e moral de toda a nação". Esta preocupação era a mais premente e os esforços da ACSP estavam concentrados nesta direção, o que significava afirmar que a constituição de um Partido Econômico não era o foco principal. Além disso, havia objeções à questão no âmbito da entidade, como ele próprio se manifestara publicamente(33). É neste contexto que a ACSP se apresentou como defensora do ideal dos paulistas. A falta de autonomia dos Estados era um dos pontos centrais da reivindicação dos paulistas, que se sentiam tolhidos de expressão e ação. Em 19 de maio foi enviado telegrama a Getúlio Vargas, assinado pelo presidente da ACSP, Carlos de Souza Nazareth, pedindo a atenção para a grave situação em que se encontrava o Estado, frente à crise da administração que se prolongava. Solicitava que fosse dado ao interventor Pedro de Toledo as autorizações necessárias para encaminhar as soluções no que dizia respeito à nomeação do secretariado. Afirmavase que a "interinidade dos auxiliares demissionários do interventor, enfraquecendo a ação do poder público justamente num momento em que se faz necessária enérgica repressão de tentativas de perturbação da ordem, está sendo aproveitada por agitadores, que estão exercendo sua atividade perturbadora do trabalho industrial, obrigando fábricas a parar e insuflando movimentos grevistas, destinados a enfraquecer o governo"(34). O documento foi encabeçado pela assinatura da presidência da ACSP, contando com corroboração da Federação das Indústrias do Estado de São Pulo, da Sociedade Rural Brasileira, da Associação de Bancos de São Paulo, da Associação Comercial de Varejistas, da Liga do Comércio e Indústria de Louças e Ferragens, do Centro de Comércio e Indústria de Madeiras de São Paulo, do Centro dos Comerciantes Atacadista, da Liga de Defesa do Comércio e da Indústria, do Sindicato Patronal das Indústrias Têxteis do Estado de São Paulo, da Associação de Comerciantes e Industriais Gráficos, Associação dos Torradores de Café de São Paulo, da Associação dos Proprietários de Padarias de São Paulo, do Convênio de Armazéns Gerais de São Paulo, da Associa-

ção dos Usineiros Paulistas, do Centro do Comércio de São Paulo, da Associação dos Proprietários de São Paulo, da Federação Paulista de Criadores Bovinos, da Associação dos Industriais Metalúrgicos, do Centro das Indústrias de Malharia de São Paulo, da Associação dos Proprietários de Farmácias, da Associação dos Alfaiates de São Paulo e da Associação dos Representantes Comerciais(35). Getúlio Vargas respondeu prontamente no dia seguinte, dando ciência do teor do telegrama, ressaltando que o problema seria resolvido naquela semana, e que ele demandaria a Pedro de Toledo que ouvisse os "representantes do comércio, indústria e lavoura de São Paulo"(36). Em 21 de maio, novo telegrama assinado por Carlos de Souza Nazareth foi despachado para Getúlio Vargas, ressaltando que o interventor Pedro de Toledo, identificado com os interesses de São Paulo, contava com o apoio não só do comércio, indústria e

No dia 23 de maio, a ACSP recebeu um telegrama de Getúlio Vargas, que dava conta que o ministro Oswaldo Aranha seguia para São Paulo a fim de agir para resolver os problemas que afetavam o Estado.

(35) O Estado de São Paulo, 20 de maio de 1932. (36) O Estado de São Paulo, 21 de maio de 1932.

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Manifesto distribuído pela ACSP convidando o comércio a paralisar suas atividades a partir das14 horas do dia 23 de maio de 1932.

l av ou ra , "mas de todas as demais classes sociais e correntes de opinião deste Estado, que anseiam por ver organizado um governo local estável e restabelecida a tranquilidade pública". Reforçavam que desejavam que a questão fosse solucionada naquela semana(37). No dia 23 de maio, a ACSP recebeu um telegrama de Getúlio Vargas, que dava conta que o ministro Oswaldo Aranha seguia para São Paulo a fim de agir para resolver os problemas que afetavam o Estado, levando instruções "para agir conforme meu despacho anterior, devendo as associações de que sois digno representante prestar-lhe todo auxílio e colaboração"(38). Neste momento, novas reuniões foram realizadas com os membros que representavam as diferentes associações, sendo definidas ações estratégicas, como: envio de telegrama a Getúlio Vargas, chefe do governo provisório, exigindo solução para a crise paulista, e a realização de um protesto público contra a si-

(37) O Estado de São Paulo, 22 de maio de 1932. Ver também: Digesto Econômico, julho 2003, p. 12.

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tuação em que se encontrava o Estado, rompendo de forma pública com o governo provisório. A definição era pela paralisação das atividades comerciais a partir das 14 horas, daquele dia. Não era mais aceitável a forma que estava sendo tratada a questão. No Boletim da ACSP foi publicado comunicado da diretoria dirigido ao comércio, com o seguinte teor "Exprimindo os sentimentos gerais de protesto contra protelações infindáveis da solução do premente caso de São Paulo, a Associação Comercial de São Paulo convida o comércio a fechar as suas portas e a suspender as suas transações durante 24 horas, a partir das 2 horas da tarde de hoje, se até esse momento não tiverem sido satisfeitas as legítimas aspirações do povo paulista"(39).

Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo e Alvarenga A indignação permeava todos os segmentos da sociedade que procurou externar a sua insatisfação, mais uma vez em praça pública, principalmente os estudantes paulistas. Grupos se articularam para fazer valer o direito de liberdade estadual, realizando passeatas e comícios contra o governo de Getúlio Vargas, vindo a invadir a sede da "Legião Revolucionária", organização favorável ao governo federal, localizada na proximidade da Praça da República. Neste episódio, ocorrido em 23 de maio, a população foi recebida à bala pelos membros da "Legião Revolucionária". A confusão se instalou pelas ruas do centro e as reações foram imediatas. Quatro jovens invasores foram assassinados: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Draúsio Marcondes de Souza e An-

(38) O Estado de São Paulo, 25 de maio de 1932. (39) In: Digesto Econômico, julho 2003,p. 12.


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Neste episódio, ocorrido em 23 de maio, a população foi recebida à bala. Quatro jovens foram assassinados: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Draúsio Marcondes de Souza e Antônio Camargo de Andrade.

tônio Camargo de Andrade. Outro estudante, chamado Orlando de Oliveira Alvarenga, foi ferido e faleceria meses depois. As mortes aqueceram os ânimos. A indignação aumentava e o tom dos discursos se tornou mais ácido. O brio da gente paulista tinha sido ofendido. Hinos eram cantados pelas ruas, exaltando a dignidade paulista. Reclamava-se pela autonomia do Estado e apontava-se para as ações ditatoriais. No dia 24 de maio foi constituída uma organização civil que teve como mentores Aureliano Leite, Joaquim de Abreu Sampaio Vidal, Paulo Nogueira e Prudente de Moraes Neto, Carlos de Souza Nazareth, dentre outros jovens acadêmicos de Direito, de Engenharia e Medicina, que foi designada pelo acrônimo M.M.D.C., em homenagem aos jovens idealistas. Naquele mesmo dia anunciava-se o "vibrante de enthusiasmo" do povo paulista de serem satisfeitas as suas aspirações, com a nomeação de um novo secretariado de governo, que fora comunicado a Getúlio Vargas, mas este não tinha se manifestado sobre o assunto(40). As mortes acirraram os ânimos fazendo que a organização M.M.D.C. passasse a treinar militarmente os voluntários para uma possível revolução, que tinha como bandeira principal o movimento de constitucionalização e a retomada do poder pela elite política paulista. Em meio à situação explosiva, os principais chefes procuravam o apoio de lideranças de outras unidades da federação, enquanto o governo ditatorial empreendida suas manobras para ata-

lhar os intentos de articulação dos exaltados. Em 28 de maio, o jornal O Estado de São Paulo, publicava o teor de um telegrama subscrito pelas associações de classe, hipotecando apoio ao novo governo de São Paulo: "As corporações representativas do comércio, indústria, lavoura, profissões liberais, mocidade acadêmica e outras classes sociais do Estado de São Paulo têm a honra de vir trazer a expressão de sua inteira solidariedade ao novo governo do Estado, assumindo o compromisso de prestigiá-lo integralmente para que seja possível levar a bom termo a tarefa de normalizar a situação de São Paulo"(41). A resposta do interventor à ACSP foi pronta, no derradeiro dia de maio. Agradecia as manifestações de solidariedade que:

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A Platea, 24 de maio de 1932.

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O Estado de São Paulo, 28 de maio de 1932.

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Homenagem a Carlos de Souza Nazareth, presidente da ACSP, no clube Comercial em 18 de junho de 1932.

"me trazem e ao meu secretariado as corporações representativas do comércio, indústria e lavoura, profissões liberais, mocidade acadêmica e outras classes do Estado, confortam-me sobremodo. Sem esse concurso precioso e indispensável nenhum governo será profícuo. Com ele contei e certo estava que não me abandonaria enquanto bem servisse a causa de nosso Estado e de nosso País. Ufano estou por esta manifestação inequívoca de apoio e de confiança, que procurarei não desmentir, no desempenho da missão, que me confiou o honrado chefe do governo agora provisório e vejo agora retificada pela opinião pública do meu Estado"(42). Na mesma ocasião, muitas entidades oficializaram, por meio dos seus presidentes ou representantes legais o apoio ao governo de Pedro de Toledo, demonstrando prestígio ao mesmo(43). Nos primeiros dias de junho, a imprensa publicou mais telegramas de entidades que hipotecavam inteiro apoio ao governo(44). Em 16 de junho, Pedro de Toledo e seu secretariado foram recepcionados pela ACSP, demonstrando que se buscava estabelecer uma via de conciliação, que estava longe de ser efetivada. Dois dias depois, o presidente de ACSP, Carlos de Souza Nazareth, foi homenageado no Clube Paulista, momento que serviu para mostrar a união da força da Liga Pau-

lista Pró-Constituinte, Associações de Classe, Centros e Grêmios Acadêmicos. Os discursos proferidos na ocasião destacaram o valor da contribuição da ACSP na defesa do civismo. Era louvada a atuação da entidade nas manifestações coletivas de ordem política, bem como era destacado o valor notável do espírito de sacrifício. O homenageado respondeu agradecendo aos elogios, reafirmando os laços de solidariedade que a entidade possuía com classes sociais que viviam em São Paulo. A trajetória dos paulistas tinha sido gloriosa, marcada pelas lutas e pela perseverança, o que fez do Estado de São Paulo uma potência que não podia esmorecer frente às imposições injustas que tinha que suportar. Os últimos dias do mesmo junho já apontavam para o fato de que a revolução era eminente e inevitável. Era preciso serenidade, que já havia sido ressaltada por Carlos de Souza Nazareth durante a noite que recebeu a homenagem. Nesta ocasião, ele afirmou que deveria partir de São Paulo "o grande gesto de paz, a palavra de transigência e de concórdia para maior grandeza do Brasil. Cabe à nossa terra a grandiosa missão de serenidade. Se os paulistas demonstraram o seu valor cívico sabendo ser soldado quando foi preciso, também sabe persuadir quando é mister congraçar e justo, quando deve julgar"(45).

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O Estado de São Paulo, 31 de maio de 1932.

(43) O Estado de São Paulo, 31 de maio de 1932.

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O Estado de São Paulo, nas edições de: 1o de junho; 2 de junho e 5 de junho de 1932. (45) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 15.


A gota d'água Em 7 de julho ocorreu a gota d'água que conduziria ao deflagrar da revolução. O general Bertholdo Klinger, que estaria incumbido de comandar uma das tropas paulistas revoltosas, foi demitido pelo governo provisório, do comando da Circunscrição Militar de Mato Grosso(46). A demissão não teria ocorrido exclusivamente pelo seu envolvimento com o possível movimento, mas principalmente pelas críticas duras que realizou à nomeação de Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso para o cargo de Ministro do Exército. Bertholdo Klinger era um respeitado militar gaúcho, que se aliara à causa, prometendo arregimentar seis mil homens, situação que não se consolidaria. Atuou no comando das tropas tendo ciência da dificuldade que era a ausência de apoio(47). O desenrolar dos acontecimentos fez com que o rompimento da revolução fosse antecipado, uma vez que se previa o início do movimento para a segunda metade de julho(48). A união faria a força e esta era importante para que os paulistas estivessem juntos para enfrentar as ações incongruentes de Getúlio Vargas. Em 9 de julho teve início o movimento armado, que tinha como intuito derrubar o governo provisório e estabelecer uma nova constituição. Os paulistas imaginavam contar com o apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, que acabou não acontecendo, nem tampouco a operação foi simples e rápida como se imaginara. As tropas da 2ª Região Militar e da Força Pública, sob o comando de Isidoro Dias Lopes e Euclides Figueiredo, deram início às manobras estratégicas em São Paulo. No seio dos oficiais militares a ação de Isidoro Dias Lopes foi bem acolhida, principalmente por causa das ações arbitrárias de Getúlio Vargas em não respeitar as ordens hierárquicas.

Na noite daquele dia, o interventor Pedro de Toledo foi surpreendido com uma reunião do seu secretariado, sem que a tivesse convocado. Era a comunicação da luta armada contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas. A pressão dos paulistas sobre o interventor fez que este aderisse à causa revolucionária, passando a conduzir o processo de rompimento e confronto com o governo federal. No mesReprodução

mo dia, Pedro de Toledo foi aclamado como governador de São Paulo. No dia 10 de julho, Carlos de Souza Nazareth participou do movimento de aclamação do governador no Palácio dos Campos Elíseos, onde milhares de pessoas acompanharam o evento. A euforia tomava conta da população que abraçou a causa paulista e passou a ser protagonista da revolução. A adesão de membros importantes da sociedade foi imediata, como Armando de Sales Oliveira, Júlio Mesquita Filho, Ibrahim de Almeida Nobre, Francisco Morato, Antônio de Pádua Sales, Bertholdo Klinger, Euclides Figueiredo, dentre outros. Pedro de Toledo, nomeado governador, foi guindado ao cargo de comandante da revolução.

Em 10 de julho de 1932, no Palácio dos Campos Elíseos, Pedro de Toledo é aclamado governador de São Paulo.

(46) MATTOS, Carlos de Meira. "Porque São Paulo foi derrotado?" In: Digesto Econômico, julho 2003,

p. 33. Ver: Correio da Noroeste, 6 de julho de 1932. (47) LIMA, Soraia Herrador Costa. Júlio Mesquita Filho: entre a máquina de escrever e a política. São Paulo: ECA-Universidade de São Paulo, 2008. (Dissertação de Mestrado), p. 25. (48) MATTOS, Carlos de Meira. "Porque São Paulo foi derrotado?" In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 33. MAIO/JUNHO 2012 DIGESTO ECONÔMICO

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Lutar por Reprodução

Paulo Pampolin/Digna Imagem

Apesar das dificuldades de lutar sozinho, acreditava-se que os paulistas bastavam para levar a frente o movimento.


S達o Paulo


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A partir de 10 de julho, teve início a campanha de alistamento voluntário, em diversas partes do Estado de São Paulo. A articulação, em outros Estados da federação, foi reduzida ou inexpressiva. O movimento revolucionário conquistou alguns antigos apoiadores da Revolução de 1930, que se sentiram insatisfeitos com a forma de governar de Getúlio Vargas. O apoio mais direto veio do sul do Mato Grosso, que manifestou o apoio irrestrito a São Paulo. Na imprensa do interior era noticiado: "Rebentou em São Paulo e outros Estados, um movimento armado, de caracter constitucionalista". Destacava que no Rio Grande do Sul e em Pernambuco foram depostos os respectivos interventores, tendo já aderido ao movimento Minas, Paraná e Mato Grosso(49). Apoios que não viriam de fato a se efetivar.

Jornal A Gazeta de 11 de julho de 1932: luta armada contra a tirania e pela Assembleia Constituinte.

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A

imagem do bandeirante emergiu como um símbolo importante do espírito lutador e resistente na defesa dos seus ideais. As negociações empreendidas, até então, não tinham surtido os efeitos desejados, era momento de agir. A contemporização e a espera não tinham gerado

resultados práticos, o que fazia necessário uma intervenção por meio de armas(50). No jornal A Gazeta de 11 de julho de 1932, a manchete anunciava a dimensão do movimento: "De São Paulo partiu o brado da Independência, de São Paulo também parte, agora, o brado da Constituição". O jornal fazia referên-

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Correio da Noroeste, 10 de julho de 1932.

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In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 22.


cia à luta armada contra a "tirania mais ignominiosa, mais brutal, mais degradante, que jamais sofrera a nação, em tempo algum". Dava conta que o movimento que se iniciou no dia 9 se alastrava com rapidez por todo o território paulista. Afirmava que o movimento a que a população havia aderido, com sincero entusiasmo, era um " protesto eloquente e significativo da índole liberal dos brasileiros contra os métodos boçais de opressão e de mandonismo com que falsos regeneradores do nosso caráter entremeavam, com requintes de um sadismo lombrosiano, a sua obra de destruição sistemática e persistente do patrimônio material e moral da pátria comum"(51). O jornal afirmava que o governo federal tinha rebaixado o Brasil a uma situação de uma "republiqueta governada por caudilhos", o que tinha abalado a credibilidade da nação no estrangeiro. Além disso, tinha implantado um "regime obscurantista, ultramontano e medievo, diante do qual empalidece a crônica arrepiante e sombria dos Felipes"(52). A Gazeta se levantou contra a censura imposta aos jornais e as arbitrariedades do governo getulista em relação ao periódico Diário Carioca e A Tarde, de Natal. Getúlio Vargas agia com "pusilanimidade" sendo-lhe atribuído falta de patriotismo, por permitir que o País ficasse ao descalabro. Na avaliação de A Gazeta: "São Paulo foi a grande vítima dessa aventura tenebrosa em que o outubrismo nos mergulhou. Saquearam o seu Tesouro, ocuparam-no militarmente, deram-lhe para interventor um moço independente e de poucas letras, asfixiaram-lhe as fontes de riquezas, acorrentando as suas classes produtoras a infamante cativeiro que ainda agora culmina na guerra de morte movida ao café pelo sr. Oswaldo Aranha".

tamente suprimidas pelo sítio perpétuo do outubrismo, e convocar imediatamente a Constituinte e, pois, restituir ao povo o direito de governar-se a si mesmo". A Platea anunciava na capa do jornal: "Terminados os trabalhos de preparação, iniciaremos hoje a marcha sobre o Rio de Janeiro, dissenos o coronel Euclydes de Figueiredo". As tropas se mobilizavam e a agitação ganhava força, era "vencer ou morrer"(53). Reprodução

Tal situação exigia que os paulistas reagissem, e eles assim o fizeram, mostrando bravura e que o Estado era digno de seu passado. Apesar das dificuldades de lutar sozinho, acreditava-se que os paulistas bastavam para levar a frente o movimento. Não havia espaço para a negociação, apenas para a capitulação do governo ditatorial. O movimento não visava a atingir pessoas, nem era pautado por ações mesquinhas. O objetivo era "restituir o País ao império da lei e da ordem, restabelecer as garantias jurídicas e legais dos cidadãos, violen-

Um dos pontos de concentração dos elementos que vinham se alistando no "Batalhão de Honra" era o Largo de São Francisco, que passou a ser um ponto importante na divulgação do movimento para os populares. Desde o primeiro momento era intensa a circulação de pessoas nos bairros, demonstrando uma satisfação geral(54). Na madrugada do dia 10, as forças revolucionários paulistas tomaram as linhas férreas, ficando o tráfego paralisado completamente. A preocupação se estendeu sobre os edifícios públicos estaduais e federais. No Largo do Palácio, atual Pátio do Colégio, ocorreu a aclamação do governador. Uma vibrante população ovacionou os líderes da revolução, com gritos de: "Por São Paulo livre", "Abaixo a Tirania", "Tudo pela constituição", " São Paulo não se abaixa", "Viva o embaixador Pedro de Toledo", "Viva o general Isidoro Dias Lopes" e " Viva o coronel Euclydes Figueiredo"(55). O primeiro ato do governador de São Paulo, Pedro de Toledo, em 10 de julho, foi:

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(54)

Por São Paulo livre

A Gazeta, 11 de julho de 1932.

(52) A Gazeta, 11 de julho de 1932. (53)

A partir de 10 de julho teve início a campanha de alistamento voluntário, em diversas partes do Estado de São Paulo.

A Gazeta, 11 de julho de 1932.

(55) A Gazeta, 11 de julho de 1932.

A Platea, 11 de julho de 1932.

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Prefiro morrer de armas na mão a ser governado por paulistas Getúlio Vargas

não sofra solução de continuidade, o serviço público determina que permaneçam todos no exercício de seus cargos, ofícios e funções, observando os regulamentos até agora expedidos"(56). Para o enfrentamento, com as tropas federais, era preciso um treinamento militar e apoio da sociedade que compareceu com recursos para viabilizar o projeto da constitucionalização. Em 12 de julho, Carlos de Souza Nazareth fez uma proclamação pública, pela Rádio Educadora, fornecendo um quadro sobre as circunstâncias: "No momento decisivo em que a Nação Brasi-

leira, com São Paulo, o Exército e a Força Pública paulista à frente, se levanta para reestabelecer no País o regime da lei, da ordem da disciplinas das garantias a todos os direitos, não pode o presidente da Associação Comercial de São Paulo deixar de dirigir ao comércio e à indústria uma palavra de incitamento para que todos cumpram rigorosamente na hora precisa, o seu dever para com a sociedade paulista e brasileira. Está declarada a luta e nela é forçoso que tomem parte ativa todos os paulistas e todos os que vivem em São Paulo. Comerciantes e industriais! Ficai a postos na vossa tenda de trabalho. Conservai os preços das vossa mercadorias, impedindo qualquer alta que possa criar dificuldades a população. Denuncie imediatamente os vossos "stocks", com absoluta exatidão, logo que seja publicado a respeito o edital da Prefeitura, não aproveitando o prazo que for concedido para o cumprimento dessa obrigação. Conservai o lugar e o salário dos vossos empregados e operários, que se alistarem como soldados da Ordem e da liberdade. Que todos possam seguir tranquilos para a linha de frente, sem que falte o pão para as suas famílias e sem que corram o risco de ficar desempregados. Finalmente, prestai, sem hesitação todo serviço que vos for solicitado para a vitória da grande causa nacional, seja ela qual for. Eis o vosso dever, comerciantes e industriais, brasileiros e estrangeiros, na hora decisiva em que se está preparando a vitória das aspirações mais prementes de todas as forças vivas da nação, em vésperas de afinal promoverem o restabelecimento no País das condições necessárias para se restaurar o ritmo normal do trabalho, só possível no regime da lei e do direito"(57). No mesmo dia era publicado um apelo das corporações representativas paulistas, com o seguinte teor: "hipotecando a sua inteira solidariedade ao movimento pró-reconstitucionalização do Brasil e ao governo de São Paulo, pedem ao comércio e à indústria que retomem imediatamente a sua atividade normal e concedam todas as facilidades para que os seus auxiliares possam prestar o seu concurso às autoridades, alistando-se nos batalhões que se vão incorporar ao Exército da Restauração da Ordem"(58). Getúlio Vargas, em mensagem lida pelo rádio, dizia que ele tinha a seu lado a Marinha e a guarnição do Rio de Janeiro e de todo o Norte, e que "prefere morrer de armas na mão a ser governado por paulistas". A declaração acendeu os ânimos, fazendo que o general

(56) A Gazeta, 11 de julho de 1932.

(58) O Estado de São Paulo, 12 de julho de 1932.

(57) O Estado de São Paulo, 13 de julho de 1932.

(59) Correio da Noroeste, 12 de julho de 1932.

"continuarem em vigor todas as leis por que o Estado se vem regendo, ratifica e confirma as nomeações de seus secretários de Estado, Chefe de Polícia, Prefeito Municipal de São Paulo, Diretor do Departamento Municipal, prefeitos municipais, Ministros do Tribunal de Justiça, Juízes, serventurários de justiça, delegados de polícia, oficiais e praças da Força Pública, funcionários públicos em geral, nomeados na conformidade das leis anteriores. Para que

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Getúlio Vargas, em mensagem lida pelo rádio, dizia que tinha a seu lado a Marinha e a guarnição do Rio de Janeiro.

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Bertholdo Klinger se pronunciasse num telegrama ao general Góes Monteiro, afirmando que a situação era pior do que há quatro anos. Era preciso agir(59).

Paulo Pampaolin/Digna Imagem

Dispostos a morrer Em 12 de julho as tropas do general Klinger eram acolhidas em meio a uma verdadeira apoteose. Na rua José Paulino e no Jardim da Luz uma multidão fazia vivas aos combatentes, com entusiasmo cívico. Pelo local passou um número expressivo de populares, que disputaram espaço para aclamar os corajosos paulistas ( 6 0 ) . No discurso proferido por Ibrahim Nobre ao general Klinger, era salientado: "Estamos dispostos a derramar o nosso sangue em defesa de São Paulo e do Brasil, dispostos a morrer para que possamos chegar ao Rio e sanear o Catete"(61). O Correio da Noroeste informava que as forças da ditadura vindas ao encontro das tropas constitucionalistas, tinham aderido ao lado paulista. A polícia mineira, aquartelada em Uberaba, estava solidária à Frente Única do seu Estado, apoiando São Paulo(62).

ACSP, base da revolução Paulatinamente a ACSP foi recebendo apoio de outras associações à causa, como fez a Associação dos Industriais e Metalúrgicos, o sindicato Patronal das Indústrias de Malharia do Estado de São Paulo, a Sociedade União dos Vaqueiros de São Paulo e de associações comerciais de outras localidades do Estado(63). Em 14 de julho, emitia um boletim, dirigido ao povo, para a organização de um Batalhão Patriótico para a defesa da integridade do solo paulista e constitucionalização do País(64). No mesmo dia era formado um Batalhão Universitário, que foi enviado para o sul do Estado, tendo como base a cidade de Itararé(65). A ACSP agiu de maneira rápida para estabelecer um plano de ação que desse apoio às ações revolucionárias. Alimentou o ideal revolucionário por meio de manifestos, proclamações e discursos, organizou o Exército Constitucionalista, bem como atuou nos serviços de assistência civil. Após reuniões com o

secretário da Fazenda do Estado, Dr. Paulo de Moraes Barros, ficou definido que a ACSP seria responsável pelo controle da receita e despesa da Revolução e da prestação de contas junto ao Tesouro. A ACSP ficava também incumbida de assegurar a vida do Estado, cui-

(60) A Gazeta, 12 de julho de 1932.

(65) LIMA, Soraia Herrador Costa. Júlio Mesquita

(61) A Gazeta, 13 de julho de 1932.

(62) Correio da Noroeste, 13 de julho de 1932. (63) O Estado de São Paulo,

(64) O Estado de São Paulo, 14 de julho de 1932.

Voluntários de todas as regiões do Estado e classes sociais respondem ao chamado pela causa constitucionalista.

Filho: entre a máquina de escrever e a política. São Paulo: ECA-Universidade de São Paulo, 2008. (Dissertação de Mestrado), p. 26.

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Para o enfrentamento, com as tropas federais, era preciso um treinamento militar e apoio da sociedade, que compareceu com recursos.

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dando para que medidas fossem tomadas no sentido de garantir o abastecimento. Além disso, ficava responsável por sugerir procedimentos para restabelecer o comércio de importação, exportação e mercado de câmbio, bem como passava a ser o elo entre o governo e as associações de classe. A definição de papéis e responsabilidade fez com que a ACSP se estruturasse para exercer a coordenação dos trabalhos, transformando a sua sede na Rua José Bonifácio nº 12, primeiro andar, das 9h às 11h, das 13h às 18h e das 20h às 22h, numa base do quartel revolucionário. Os trabalhos foram contínuos durante todo o processo revolucionário (66) . Para dar apoio às ações, foram criados departamentos a fim de

captar donativos em dinheiro, mercadorias e serviços pessoais. Também foi estabelecida uma central para controlar as ofertas de armazéns, veículos e utensílios por empréstimo. Não só a captação de recursos era importante, mas também a distribuição dos mesmos e a fiscalização do serviço de recebimento de donativos, que recebeu atenção especial. Pelo comunicado ao público era informado que vários departamentos tinham sido criados para "obter locais para alojamento de tropas; obter locais para depósito de gêneros, equipamento etc.; fornecer o pessoal necessário para quaisquer serviços, inclusive para substituir interinamente em estabelecimentos públicos e particulares os alistados no Exército Constitucionalista; fornecer transporte em automóveis e caminhões; fornecer gêneros alimentícios e quais outras mercadorias necessárias"(67). Outros departamentos foram constituídos, demonstrando um planejamento para atuação da entidade de forma positiva, como: o que auxiliava no serviço de alistamento nos batalhões civis; o de estatísticas de mobilização para serviços civis auxiliares de guerra; o de capacetes de aço; e o da Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo(68). Os donativos chegaram de diferentes partes, cada um, procurando dar o apoio possível ao movimento: "da Companhia Puglisi vieram 100 sacas de farinha de trigo, 100 latas de bolacha; da Companhia Manufatura de Fumo e Cigarros Castelloes, 10.000 cigarros; do Laboratório Paulista de Homeopatia Alberto Seabra, 2.000 tubos de pasta dentifrícia Alvidente; do Sr. J. Andreucci, o fornecimento de impressos"(69).

(66) O Estado de São Paulo, 14 de julho de 1932.

(68) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 17.

(67) O Estado de São Paulo, 14 de julho de 1932.

(69) O Estado de São Paulo, 14 de julho de 1932.

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A campanha de alistamento civil foi intensa, utilizando-se de cartazes que foram afixados à porta de estabelecimentos comerciais. Os estabelecimentos que aderiram ao movimento ostentaram nas suas fachadas cartazes como o seguinte teor: "Todos os nossos empregados alistados no Exército Constituinte têm assegurados os seus lugares e garantidos os seus ordenados integrais durante o tempo da incorporação"(70). De imediato a ACSP empreendeu esforços para obter locais para alojamento das tropas e para depósito dos equipamentos. Prontificava-se a fornecer pessoal para "quaisquer serviços, inclusive para substituir interinamente os alistados no Exército Constitucionalista, nas instituições públicas e privadas", assim como gêneros alimentícios, mercadorias ou objetos(71). Era importante garantir que as outras atividades prosseguirem dentro da normalidade para que a revolução obtivesse êxito, por conseguinte o papel da ACSP era importante como um elemento que contribuía para garantir a normalidade. Todavia, os meses de combate estavam longe de estarem dentro do que pudesse ser considerado normal. Apesar das atividades produtivas e públicas continuarem a ser realizadas, o ritmo delas foi alterado, bem como a rotina das cidades e famílias que aderiram ao movimento. No dia 15 de julho foi realizada na sede da ACSP uma reunião com os comerciantes e industriais a fim de serem debatidos assuntos relacionados ao serviço de abastecimento de gêneros. A reunião foi presidida por Carlos de Souza Nazareth, que solicitou a colaboração dos presentes no que dizia respeito à garantia do abastecimento, que tinha como objetivo final o êxito na relevante missão que era a revolução. Na reunião se pronunciou o intendente dos mercados, José Vergueiro Steidel, que afirmou encontrar o estado em condições excelentes de gêneros de primeira necessidade que asseguraria o abastecimento por um período de vários meses, reforçando: "A situação é absolutamente tranquilizadora a este respeito"(72). Ofertas da população chegavam à sede da ACSP, revelando o envolvimento da população. Alunas da Escola Normal Padre Anchieta (antiga Normal do Brás) fizeram a entrega dos seguintes donativos:

"1º. lote - 1 pacote com 240 ataduras diversas, 43 gazes simples, 38 pensos, 124 pacotes de algodão. 2º. lote - 2 caixas de pasta dental, 1 vidro de loção, 2 vidros de água oxigenada, 1 vidro de vaselina fenicada, 6 caixas de amido, 1 litro de água vulcânica, 2 litros de líquido Dakin, 84 sabonetes diversos, 3 pacotes de fósforos, 1 caixa de charutos, 68 maços de cigarros, 5 pacotes de café, 1 kg de farinha de trigo, 2 sacos de sal (pequenos), 2 pacotes de biscoito (pequenos), 1 pacote de bombons (pequeno), 5 latas de marmelada, 2 latas de banha de coco. 3º. lote- 1 grosa de pentes, 27 lenços, 37 pares de meias, 12 camisas de meia, 1 camisa, 1 cobertor, 7 canecas de alumínio, 2 canecas de louça, 5 canecas de ágate, 21 pratos de folha, 26 colheres, 1 concha, 12 tigelas, 4 garfos, 1 dúzia de copos, 10 lenços 2 pares de alpargatas, 2 latas de bolacha (com 10 kg cada)".(73) Outras ofertas: . As empresas Lion & Cia, Gabriel Gonçalves, Alvim & Freitas, Rieck-

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O Estado de São Paulo de 12 de agosto de 1932. E In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 18. (71) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 17.

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A campanha Ouro para o Bem de São Paulo visava arrecadar fundos para financiar a luta dos paulistas pela Constituição.

O Estado de São Paulo, 16 de julho de 1932.

(73) O Estado de São Paulo, 18 de julho de 1932.

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Caminhões e ônibus foram requisitados da população, transformados em carros blindados e enviados aos campos de batalha.

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mann & Cia, Alexandre Horstein & Cia e Irmãos Abouchar fizeram doações em dinheiro. As contribuições em mercadorias também foram comum como mostra as doações das empresas: M. V. Lévy Frères & Cia. (meias), Alves, Azevedo & Cia. (farinha de mandioca e biscoitos), Frederico Dalle Piagge (café torrado e moído), Brasifal S/A (cobertores), Ribeiro Marques & Cia (pares de perneiras), Said Simão Racy (feijão), Álvaro Guimarães (água mineral) e Duprat & Filhos (talões impressos). O Centro de Comércio de São Paulo também contribuiu com donativos (cerais)(74). As Associações Comerciais de Sorocaba, Botucatu, Rio Claro, Monte Alto e Bariri informavam que estavam providenciando para despachar "cavalos e muares para as tropas constitucionalistas, de acordo com o apelo formulado" pela ACSP(75). Face à demanda por caminhões e ônibus, conforme o edital feito pelo Serviço de Abaste-

cimento das Tropas em Operações, relativo a requisição dos veículos, a ACSP informava que até aquele momento o que se pretendia era realizar o registro dos referidos veículos. Tal ação visava controlar as requisições que eram feitas e para que estas fossem atendidas, sem "perturbar a vida do comércio e da indústria". Ressaltava que os proprietários dos referidos veículos permaneceriam, "na posse dos seus veículos, ficando apenas sujeitos a eventuais requisições", que seriam feitas de modo a não "desorganizarem os serviços de transporte dos estabelecimentos comerciais e industriais"76). Esta comunicação aos proprietários era importante para que o planejamento estratégico fosse atendido de forma mais adequada e garantisse a normalidade. A movimentação crescia, principalmente depois do Incêndio no Quartel General da Força Pública, em 16 de julho. O prédio foi devorado pelas chamas, causando uma morte e uma dezena de feridos(77).

(74) O Estado de São Paulo, 19 de julho de 1932.

(76) O Estado de São Paulo, 19 de julho de 1932.

(75) O Estado de São Paulo, 19 de julho de 1932.

(77) A Gazeta, 13 de julho de 1932.

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Agliberto Lima/DC

No fim da Revolução Constitucionalista, a sobra do ouro arrecadado foi doado à Santa Casa de Misericórdia, que construiu seu edifício.

Nazareth e o Manifesto à Nação A ACSP convocou as corporações representativas do comércio, indústria e lavoura para discutirem no dia 20 de julho, em reunião, a melhor formar de se realizar a distribuição dos donativos e como seriam realizados os serviços de assistência civil(78). As deliberações do encontro foram consubstanciadas no "Manifesto à Nação" que foi lido pelo presidente Carlos de Souza Nazareth em transmissão direta pelas rádios. O documento apresentava um balanço e alguns pontos importantes, como: a garantia da normalidade da ordem e serviços públicos; da concentração de esforços para a mobilização de recursos para o movimento revolucionário; da definição que todos os tipos de associações de classe, beneficentes, recreativas, esportivas, culturais, transformaram-se em departamento do quartel general revolucionário. Comunicava ainda que os auxílios materiais enviados pela população tinham sido elevados, e que circulava a contrapropaganda do separatismo a qual deveria ser combatida(79). Outras vozes se prestaram a defender a causa. Alcân-

tara Machado e João Neves da Fontoura, com frequência nos seus discursos pelas rádios, procuravam convencer os paulistas a aderirem ao movimento(80). Em 22 de julho, a ACSP publicou uma circular com informações sobre o "Bonus Pró-Constituinte". Pelo decreto no. 5.585, de 14 de julho, era autorizada uma emissão especial de "bônus do Tesouro do Estado para substituir as disponibilidades dos bancos juntos às filiais e agências e do Banco do Brasil no Estado de São Paulo". A emissão prevista seria no "máximo e exatamente aos depósitos que os bancos têm à sua disposição no Banco do Brasil". Tal emissão destinava-se a substituir o numerário das agências do referido banco, pois estas ficaram isoladas de sua matriz. O bônus que vigoraria por um período curto de tempo, tinha poder liberatório e deveriam ser recebidos como moeda corrente peloseuvalornominalnasrepartiçõespúblicas, bancos, comércio e público em geral, que passaria a vigorar de imediato. A circular ressaltava que "nenhum motivo poderia existir para não ser dado a esses bônus o melhor acolhimento porque, sendo da responsabilidade do Tesouro estadual e dos Bancos e representando valor de moeda existente no Banco do Brasil, em porcentagem de 100% não é de temer que venham a so-

(78) O Estado de São Paulo, 21 de julho de 1932.

(80) Correio da Noroeste, 20 de julho de 1932.

(79) O Estado de São Paulo, 23 de julho de 1932In:

Digesto Econômico, julho 2003, p. 18.

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frer qualquer depreciação"(81). No mesmo dia a imprensa também noticiava sobre as requisições de automóveis e caminhões. Tinha-se realizado na noite do dia 21 de julho, na ACSP, uma reunião para chegar a um entendimento sobre o assunto. Depois de um exame aprofundado, foram adotadas as seguintes medidas que seriam postas em prática: "1- Não serão requisitados os automóveis de carga e passageiro de proprietários que possuam apenas um desses veículos, 2- Os particulares que tiverem mais de um carro de passageiro poderão sofrer a requisição de todos os seus carros menos um. 3- Os proprietários de mais de um caminhão poderão sofrer a requisição de dois terços desses veículos. 4- Os "chauffeurs" profissionais que forem proprietários de carros de aluguel, de carga ou passageiro, somente sofrerão requisições no caso de ser insuficiente a requisição dos carros particulares 5- O Serviço de Abastecimento da Tropa em Operações providenciará, com urgência, para serem postos a disposição do comércio e indústria outros meios de transporte de carga dentro da cidade. 6- Para os carros isentos de requisição o Serviço de Abastecimento das Tropas em Operações fornecerá salvo-condutos, que devem ser retirados no escritório daquele serviço, a rua da Consolação, 18"(82). Em 22 de julho a população de São Paulo "ajoelhada e contricta" fazia a sua homenagem ao combatente Fernão Salles, morto em combate. Uma multidão seguiu pelas ruas o féretro. Era um coração paulista que "cessara de bater, mas cuja audácia e desprendimento em prol de um ideal sublime ficarão para exemplo da posteridade". Os gritos dos populares exaltavam a sua coragem e patriotismo durante o percurso que seguiu da sede do Clube Comercial, na rua Libero Badaró, até o Cemitério da Consolação. Antonio de Carlos Pacheco, ao fazer o discurso derradeiro, lembrava que a morte do jovem, "longe de abater o nosso espírito, desperta dentro de nós a vontade indômita de vencer. E quem vencerá heróis como tu que morrem sorrindo na defesa de uma causa sagrada?"(83). Esta era apenas uma das baixas sofridas, das muitas que aconteceram e que não foram registradas pela imprensa. A morte do coronel Júlio Marcondes Salgado foi noticiada em 23 de julho. Lamentava-se a perda de um ilustre militar. O general Bertoldo Klinger acompanhado de outros militares, inclusive do coronel, se dirigiu para Santo Amaro a fim de assistir à experiência de um novo morteiro. As operações foram feitas quando uma das granadas, em vez de projetar para fora do tubo, onde fora lançada, explodiu dentro dele. Com a explo-

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Longe de abater o nosso espírito, desperta dentro de nós a vontade indômita de vencer. E quem vencerá heróis como tu, que morrem sorrindo na defesa de uma causa sagrada?" Antonio de Carlos Pacheco, no enterro de Fernão Salles

são, "voaram estilhaços para todos os pontos e um deles apanhou o coronel Marcondes Salgado no pescoço, seccionando-lhe a carótida", causando morte instantânea(84). No desenrolar do movimento, diferentes problemas surgiram. A questão de "trocos" foi alvo da atenção da ACSP, que divulgou uma circular informando os associados sobre o "dinheiro miúdo" e sua utilização. Desta forma, foi criado o Departamento de Troco, cuja direção foi entregue a Almazor de Souza Fialho, alto funcionário da Caixa de Liquidação S. A. Santos - filial de São Paulo, que foi instalado na rua Álvares Penteado, nº 28, 2º andar, que estava sob o controle da ACSP. O Departamento de Troco só forneceria trocos para o pagamento de salários ou para os bancos. Para tanto, os pedidos deveriam ser feitos por escrito e seriam atendidos no dia seguinte. Cabia ao Departamento relacionar os pedidos e os registrar, enviando em seguida listas para os bancos, duas vezes por dia, para que fosse providenciado o troco. Conforme a disponibilidade do mesmo, o Departamento comunicaria a porcentagem que poderia ser atendida. Os bancos, que tinham agências nos pontos de concentração das tropas, poderiam encaminhar os trocos existentes ali, para a capital. Era importante a colaboração de todos, conclamando àqueles que tivessem excesso de moedas que levassem ao Departamento de Troco(85). A Comissão de Donativo criou, em final de julho, um distintivo para serem vendidos ao público, revertendo o seu produto para o benefício da causa. Os mesmos seriam vendidos pelo valor de 3$ réis cada um, contendo a reprodução da bandeira de São Paulo e a do Brasil, como a frase exaltação: "Pela Lei e Pela Ordem"(86). Alguns estabelecimentos foram autorizados a vender tais distintivos, dentre eles: Casa Lebre, Casa Henrique, Mappin Stores, Casa Fretin, Joalheria Adamo, Loja da China, Cia. Grande Manufactura de Fumos e Cigarros, Drogaria Ipiranga, Casa Fuchs, Cia. Melhoramentos de São Paulo, Casa Castro, Hotel d'Oeste, Casa Bevilacqua, inclusive em Campinas e Rio Claro. O dinheiro foi destinado para a compra de capacetes de aço, que protegia o combatente dos estilhaços das

(81) O Estado de São Paulo, 22 de julho de 1932. (82)

O Estado de São Paulo, 22 de julho de 1932.

(83) A Gazeta, 22 de julho de 1932. (84)

A Gazeta, 23 de julho de 1932.

(85) O Estado de São Paulo, 27 de julho de 1932. (86) O Estado de São Paulo, 28 de julho de 1932. In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 18.


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granadas e das balas dos fuzis que causaram inúmeras mortes(87). O fluxo de donativos em dinheiro e em gêneros alimentícios eram anunciados na imprensa, mostrando a adesão dos paulistas que progressivamente contribuíam para a constituição de um fundo de reserva para os combatentes. De todas as partes do Estado provinham doações que foram providenciais para a manutenção do confronto ( 88) . Para se ter uma noção mais clara das doações, a ACSP procedeu uma estatística completa de todos os donativos, feitos em dinheiro e em mercadorias. Tal trabalho tinha como intenção mostrar a "imensa extensão do auxílio material que toda a população do Estado está entusiasticamente prestando à vitória da grande causa nacional". A ideia era especificar as quantidades de cada mercadoria e o valor respectivo de acordo com os preços médios correntes de forma que fosse possível estabelecer em "quantos milhares de contos de réis se elevam as dádivas feitas espontaneamente pelo povo paulista para o triunfo da causa da lei e da or-

dem". Esta tarefa estava sendo feita pela Associação dos Empregados do Comércio de São Paulo, sob a direção do seu presidente João Francisco Ferreira Jorge. Desta forma, solicitava a todas as instituições que enviassem relatórios sobre o montante recebido em produtos e dinheiro para que fosse possível realizar o balanço(89).

(87) O Estado de São Paulo, 29 de julho de 1932.

(89) O Estado de São Paulo, 30 de julho de 1932.

Em 22 de julho, a população de São Paulo prestava homenagem ao combatente Fernão Salles, morto em combate.

Emprego garantido Para animar ainda mais a população, foram feitos 418 cartazes com os dizeres: "Todos os nossos empregados alistados no Exército Constitucionalista têm assegurado os seus lugares e garantido o pagamento de seus ordenados integrais durante o tempo da incorporação". Os mesmos foram afixados em empresas que os trabalhadores tinham se alistado e estavam no front, como: Irmãos Caruso & Cia, Cia. Souza Cruz, Martinelli S/A, Casa Prati, Fábrica de Tecidos Olinda, Fratelli Del Guerra & Cia, Oficinas Graphicas Sarcinelli, Torrefa-

(88) O Estado de São Paulo, 29 de julho de 1932.

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Evandro Monteiro/Digna Imagem

prensa, sobre o Serviço de Assistência às Famílias dos Combatentes, filiada ao M. M. D. C. (seção abastecimento), localizada na Praça da República, que tinha como objetivo prover as necessidades das famílias dos civis alistados no exército constitucionalista, atendendo aos pedidos que lhe fossem endereçados. A ACSP resolvera também realizar uma mobilização para a realização de serviços de natureza civil e conhecer o número de pessoas que contribuía com a causa. Desta forma, solicitava que lhe fossem enviados os registros sobre o número de "pessoas de cada sexo, que estão trabalhando gratuitamente, a seu serviço em trabalhos de qualquer natureza". Dirigindo-se, em especial, às oficinas de costura era solicitado que fossem fornecidos dados sobre o montante de peças prontas já entregues para o uso do exército constitucionalista ou para as instituições de assistência hospitalar etc., bem como o número de máquinas em serviço nas oficinas(92).

Nos meses subsequentes, o apoio logístico da ACSP foi fundamental no estímulo à população na defesa dos ideais paulistas, bem como na captação de recursos variados para os desafios que o confronto impôs. A adesão da sociedade civil e das entidades de classe foi expressiva, mostrando a união e a força norteadora que a ACSP assumia na consecução dos interesses dos paulistas.

O Serviço de Assistência às Famílias dos combatentes dava suporte às famílias de voluntários alistados no Exército Constitucionalista.

ção São Roque, Cia. Antártica Paulista, Cia. Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Banco de São Paulo, Companhia Brasileira de Concreto Centrifugado "Hume", Cardamone & Cia., Bromberg & Cia., Gasparian, Fellipo & Cia., Sampaio Moreira Filho & Cia., Casa Excelsior, Drogaria Paulista, Dunlop Pneumatic Tyre Company, dentre outras(90). Esta união era justificada pela luta pela constituição. Como destacou a manchete da Folha da Manhã, em 29 de julho, "Fora da ordem jurídica nenhuma civilização pode existir"(91). Em 31 de julho, a ACSP comunicava, via im-

O Departamento de Estatística publicou um Boletim de Informações sobre os Serviços Auxiliares de Guerra, apresentando as associações que se ocuparam do alistamento voluntário, recebimento e distribuição de donativos, confecção de fardamentos, propaganda e publicidade, dentre outros assuntos(93). A ACSP capitaneou os trabalhos de assistência, organizando a cooperação das entidades associativas a fim de garantir as estruturas necessárias para o auxílio à revolução. Para tanto, foi necessária a distribuição de atividades entre as entidades de maneira a organizar de forma mais ágil algumas operações. Novos donativos chegavam enquanto a movimentação das tropas nas fronteiras era

(90)

(92)

O Estado de São Paulo, edições de 28 e 29 de julho de 1932. (91) Folha da Manhã, 29 de julho de 1932.

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O Estado de São Paulo, 31 de julho de 1932.

(93) O Estado de São Paulo 1o de agosto de 1932.

In: Digesto Econômico, julho 2003, pp. 18-19.


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A ACSP liderou os trabalhos de assistência, organizando a cooperação das entidades associativas e garantindo as estruturas necessárias.

intenso, com avanços e recuos que nem sempre eram relatos nos periódicos, que acompanhavam os embates(94). Nas semanas seguintes paulistas e governistas se enfrentaram em diferentes regiões do Estado. A intenção dos paulistas era avançar em direção ao Rio de Janeiro, empreendendo a conquista da cidade de Resende, no Rio de Janeiro, para destituírem do poder Getúlio Vargas, da mesma forma que este fizera anos antes com Washington Luís. Para tanto, esperavam contar com o apoio estratégico de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, que declinaram do confronto e passaram a apoiar os governistas. O confronto foi intenso em Piquete, Cruzeiro, Campinas, Mogi-Mirim, Itapira e em diferente partes do Vale do Paraíba.

Sem apoio A falta de apoio dos outros estados à causa paulista foi sendo sentida com o evoluir do confronto. Apesar dos esforços em alimentar o ideal da revolução, para que esta tivesse um saldo positivo era importante a adesão de outras tropas e combatentes que não vieram. Os apoios político-militares ficaram aquém do esperado. Rapidamente os paulistas tomaram consciência que lutavam sozinhos contra as tropas do governo,

pois, de nada adiantava a simpatia de alguns líderes estaduais ao movimento, nem tampouco discursos inflamados que não redundassem em apoio efetivo para os combates. De forma isolada, combatentes vieram de outras partes do Brasil para engrossar as tropas paulistas. Vieram artilheiros de Óbidos, região do Amazonas, estudantes de Belém do Pará, Salvador e do Rio de Janeiro, mas não foram suficientes para impor a vontade da liberdade e da constituição(95). Enquanto isso, a ACSP agia para controlar a estocagem de mercadorias nas docas de Santos e nas ferrovias e alimentar a chama viva da luta. A entidade atuava ainda no sentido de garantir o trabalho de assistência às famílias dos combatentes e no auxílio ao desenvolvimento de novos equipamentos de defesa.

Departamento do Capacete de Aço da ACSP A aquisição de capacetes de aço para garantir a integridade física dos combates foi alvo das operações da ACSP, em conjunto com empresas paulistas, que concentraram esforços para levantar recursos, por meio do fabrico e venda dos distintivos "Pela Lei e Pela Ordem", assim

(94) O Estado de São Paulo, 1o. de agosto de 1932. (95) DONATO, Hernani. "O que foi a Revolução de 32?" In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 27.

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como do fabrico dos próprios capacetes. O êxito da venda de distintivos surpreendeu, como também o engajamento na produção dos capacetes. A experiência europeia mostrou a importância da utilização dos mesmos e era comunicado que os batalhões estavam providos destes(96). No jornal O Estado de São Paulo era anunciado à população que a venda dos distintivos fora um sucesso. Na manchete da página intitulada: "Capacetes de aço para os soldados da Constituição", tinha como destaque "Em menos de dois dias o povo paulista ofereceu mais de 10.000 capacetes aos defensores da lei e da ordem, já tendo sido feita a primeira remessa para as linhas da frente"(97). Os capacetes foram confeccionados conforme a orientação do general Bertholdo Klinger. A ACSP ficava encarregada do acompanhamento da fabricação e a comercialização dos capacetes, enquanto a distribuição ficava a cargo do Serviço de Intendência do Quartel Geral Revolucionário(98). Foi proibida aos fabricantes de capacetes de aço toda e qualquer venda isolada a batalhões ou a particulares. Os capacetes de aço só poderiam ser fabricados com a autorização do Departamento do Capacete de Aço da ACSP. Conforme levantamento feito pela entidade,

em 5 de agosto, o recurso com venda dos distintivos atingira 196:740$000 réis, o que permitia adquirir 13.106 capacetes(99). A cada dia o número aumentava. Apenas um dia após o anúncio era publicado que o valor arrecado chegara a 281:975$000 réis o que significava 18.797 capacetes. Na imprensa eram registrados os doadores, em algumas situações feitas por grupos como o dos funcionários: da Diretoria Geral do Ensino, da Secretaria do Serviço Sanitário e Departamento de Trânsito, dos Correios e Telégrafos, do Professorado Católico(100). Os donativos aumentavam e no dia 8 de agosto já se atingia o número de 21.681 capacetes(101). Foram registrados diversos casos de espírito estoico da população paulista. Dentre eles mereceu destaque o de uma empregada doméstica humilde, que tinha contribuído com grande parte do seu ordenado para a compra de dois capacetes. Era também digno de menção o feito de "dois pequenos paulistas" que enviaram uma carta a ACSP, com o seguinte teor: "O nosso cofrinho só tinha 29$200, mas mamãe adiantou os $ 400 que cada um de nós recebe nos domingos. São esses 30$000 que vão ai para dois capacetes. Viva São Paulo! Dois pequenos paulistas. José Tarcisio C. Lorena - Bento Lorena"(102).

(96) O Estado de São Paulo, edições de 2 e 3 de

(99) O Estado de São Paulo, 5 de agosto de 1932.

agosto de 1932. (97) O Estado de São Paulo, 4 de agosto de 1932. (98) O Estado de São Paulo, 5 de agosto de 1932. In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 20.

(100) O Estado de São Paulo, 6 de agosto de 1932.

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(101) O Estado de São Paulo, 8 de agosto de 1932. (102) O Estado de São Paulo, 7 de agosto de 1932.


Paulo Pampolin/Digna Imagem

"Ouro para o Bem de São Paulo", "Ouro para a Vitória" Anéis de ouro, moedas antigas, objetos como capacetes italianos usados fizeram parte das doações(103). O interesse da população em fazer doações em ouro levou a ACSP em reunião com banqueiros e outros representantes da sociedade paulista, no dia 9 de agosto, a discutir o assunto. Nesta ocasião foi criada a campanha "Ouro para o Bem de São Paulo" que tinha como objetivo obter recursos para manter a revolução. Desde os primeiros momentos da revolução, os paulistas fizeram doações de joias e objetos de valor que não podiam ser transformados rapidamente em dinheiro. Estas contribuições eram importantes para garantir os recursos necessários para a guerra, o que fez que ACSP organizasse um sistema mais adequado para a captação de recursos. É com este intuito que foi lançada a campanha "Ouro para a Vitória" que teve à frente Carlos de Souza Nazareth, que contava com o apoio da nova diretoria da ACSP composta por: José Ma-

A aquisição de capacetes de aço para os combates foi alvo das operações da ACSP, em conjunto com empresas paulistas, que concentraram esforços para levantar recursos, por meio do fabrico e venda dos distintivos "Pela Lei e Pela Ordem".

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(103)

O Estado de São Paulo, 7 de agosto de 1932.

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ria Whitaker, Numa de Oliveira, Vicente de Almeida Prado, José de Souza Queiroz, Monsenhor Gastão Liberal Pinto, Erasmo de Assumpção, Antonio Prado Júnior e Gastão Vidigal, dentre outros que fora empossada a 9 de agosto de 1932(104). A iniciativa tinha como referência as doações de ouro feitas pelos europeus durante a I Guerra Mundial. A abnegação da população, que entregava seus bens valiosos, mostrava o civismo. Tal exemplo, tinha conduzido a ACSP a ter esta iniciativa. Em matéria publicada no O Estado de São Paulo em 10 de agosto, destacava-se que: "São Paulo está fazendo neste momento, uma tão alta afirmação de civismo, que a campanha do 'ouro para a vitoria', só não terá êxito completo se não existirem aqui, o que é impossível, reservas de ouro e outros metais preciosos em quantidade suficientes para que as dádivas da população atinjam a cifras ponderáveis"(105). Acreditavase que nenhum paulista deixaria de contribuir, mesmo que fosse com uma pequena quantidade de ouro para a "vitória sagrada de São Paulo

(104) LIMA, Soraia Herrador Costa. Júlio Mesquita

Filho: entre a máquina de escrever e a política. São Paulo: ECA-Universidade de São Paulo, 2008. (Dissertação de Mestrado), p. 29. (105) O Estado de São Paulo, 10 de agosto de 1932. (106) O Estado de São Paulo, 10 de agosto de 1932. (107) O Estado de São Paulo, 12 de agosto de 1932.

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Desde os primeiros momentos da revolução, os paulistas fizeram doações de joias e objetos de valor

Agliberto Lima/DC

e do Brasil, na luta de vida ou de morte em que estaremos empenhados". Os donativos eram a expressão da "opulência de sentimento cívico dos paulistas"(106). A ACSP determinou alguns bancos, como o Banco Comercial, Banco do Comércio e Indústria, Banco do Estado, Banco Noroeste, Banco de São Paulo, para o recebimento das doações das joias que eram feitas em guichês determinados para isto. Os doadores, em reconhecimento à abnegação, recebiam um diploma de honra, onde constava o nome e a distinção de ter doado ouro para o bem de São Paulo. Membros de diferentes camadas sociais fizeram as suas doações, unidos em torno dos ideais da luta. A campanha conquistou notoriedade e passou a ser um símbolo do desprendimento e da defesa da liberdade. Nos cartazes que circularam, os dizeres neles contidos forneciam a dimensão da campanha: "O mais soberano espetáculo de generosidade, civismo e renúncia está representado na campanha do ouro. As proporções das ofertas, absolutamente espontâneas, sem esperança de compensação, superam os cálculos". A campanha teve início no dia 12, comunicando-se à população a importância da doação que seria útil à felicidade do povo paulista. Aqueles que fizessem a contribuição receberiam um comprovante provisório que seria oportunamente trocado por um diploma de honra que certificaria o doador, dizendo quantas gramas de ouro este havia doado "para o bem de São Paulo". Cada doador receberia também um anel, de ínfimo valor material, com a inscrição "Dei ouro para o bem de São Paulo". Além da sede localizada na rua José Bonifácio havia outras localidades, como a de Santos, que ficou a cargo da respectiva Associação Comercial. A imprensa aproveitou o ensejo para alertar à população que era: "destituída de fundamento a notícia ontem veiculada por alguns jornais e estações de rádio, de que uma comissão de senhoras, presidida pelo sr. Carlos de Souza Nazareth, está recebendo alianças de ouro, trocando por alianças de outro metal"(107). Provavelmente o alerta era feito, devido a ação de embusteiros que aproveitavam da boa vontade do povo para obter proveito próprio. No dia seguinte, os jornais estampavam nas manchetes o "esplendido sucesso" do movimento, registrando que 812 pessoas haviam oferecido as suas joias para São Paulo. Era des-


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tacado que a Cúria Metropolitana havia feito a doação de "mais de nove quilos de ouro", bem como os filhos do conselheiro Antonio Prado. Nas páginas dos periódicos foram publicadas imagens que mostravam os doadores nas filas para fazerem a doação. Era reforçado, que passado mais de trinta dias de guerra, a disposição dos paulistas para a luta continuava, sem esmorecimentos. Durante todo o dia 12 de agosto, um número elevado de pessoas foi aos bancos para fazer as suas doações, salientado que "do fundo de velhas arcas, muitos cofres foram retirados, e as relíquias que continham encaminhadas ao montão de ouro que nos bancos se ia formando para a constituição da reserva metálica de que São Paulo precisa". A população concorria com todos os tipos de joias e adereços de fino lavor e de valor histórico e sentimental. Sem hesitações, as doações chegaram, pois "para o bem de São Paulo, o paulista dá tudo o que possui". O movimento de pessoas promoveu um "espetáculo" emocionante, uma vez que casais ofereciam as suas alianças, senhoras ofereciam seus relógios de ouro, anéis cravejados de brilhantes, pulseiras etc. Os doutores e bacharéis ofertaram os seus anéis de formatura, outros as medalhas e moedas de ouro e de prata. Como o fluxo de doadores foi elevado, alguns menos pacientes deixaram as filas. Os mais perseverantes mantiveram-se no seu firme propósito de contribuir na causa paulista. Em Santos, os membros da Associação Comercial se reuniram para estabelecer um plano de ação para a coleta dos donativos, que também já tivera seus trabalhos iniciados. A população santista também se empenhara em aderir de forma expressiva. Em algumas localidades do interior do Estado já estavam funcionando os guichês para doação, nos bancos anteriormente divulgados. Em outras cidades, os preparativos estavam sendo elaborados para receber as contribuições(108). Pela rádio Record, o monsenhor Gastão Liberal Pinto fizera o seguinte discurso de adesão: "A história de São Paulo refulge entre as páginas mais brilhantes dos poemas escrito pela gente brasileira: ainda na pequenez de sua infância, São Paulo foi grande bastante para povoar dos heroísmos de seus filhos o imenso Brasil inteiro; São Paulo é a cúpula que se atira para o alto, erguida pela labuta afanosa em todas as províncias do trabalho"(109).

A campanha "Ouro para o Bem de São Paulo" tinha como objetivo obter recursos para manter a revolução. Estas contribuições eram importantes para garantir os recursos para a guerra.

Agliberto Lima/DC

O discurso ufanista apelava à alma cívica paulista e ao orgulho que marcava a história dos paulistas, desde o momento da descoberta das terras brasileiras. Coube aos "mamelucos de Piratininga" a composição de uma epopeia de conquistar e colonizar o território. Muitas foram as vitórias e outras estavam por vir. Todos tinham que estar atentos às responsabilidades numa sociedade em que a rapidez do progresso se fazia marcante. A causa que os paulistas abraçaram revelava o ideal que o povo estava impelido a atingir pela dedicação e sacrifício. A razão da luta era por que São Paulo queria "em primeiro lugar a grandeza de sua alma, manifestar-se nas franquezas e abnegação sem limites dos seu espírito generoso". Os antigos bandeirantes paulistas, dizia o religioso, foram em busca do ouro, empreendendo grandes gestos de heroísmo. Tiveram audácia, como os habitantes da cidade agora tinham em doar para o bem da causa. Afirmava: "É o mesmo sangue que corre nas veias dos paulistas de hoje, o mesmo amor enrija as energias, o mesmo ideal ilumina os horizontes, devotamento, abnegação e magnanimidade - quem ousa contestar? é o mesmo protagonista da epopeia de outrora que resuscita...".

(108)

O Estado de São Paulo, 13 de agosto de 1932.

(109) O Estado de São Paulo, 13 de agosto de 1932.

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Acreditava-se que nenhum paulista deixaria de contribuir, mesmo que fosse com uma pequena quantidade de ouro para a causa.

Terminava a sua fala acreditando que a "Campanha do Ouro" era o prenúncio de uma "idade nova, desta linda manhã de adolescência nacional"(110). Procurava-se reforçar uma identidade paulista, reforçando o passado glorioso de São Paulo. No poema "Non ducor duco" é expresso este sentimento:

(...)"Bandeirismo paulista". Esta lição, meu filho, Seduz, prende e entusiasma a todo o brasileiro. Procura, pois, saber esta lição com brilho. E, si alguém te indagar: "De que Nação és filho?" Responde, filho meu, responde: "Eu sou Paulista"!(111) As doações cresciam, e em 14 de agosto, a Campanha dos Capacetes de Aço atingia o montante de mais de 775 contos de réis, o que

(110) O Estado de São Paulo, 13 de agosto de 1932. (111)

Poema "Non ducor duco". Segundo referência impressa no panfleto, trata-se de poema da obra A Epopéia das Bandeiras,de Índio Tamoyo Prado.

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correspondia a mais de 51.000 capacetes(112). A entrega de peças em metais preciosos também aumentava, mostrando que a "alma coletiva está a postos, magnificamente aparelhada para todas as exigências da guerra". Exemplos de desprendimento eram registrados. Pessoas ofereciam seus pertences, como lapiseiras de ouro, alfinetes de gravatas, abotoaduras, relógios, cigarreiras etc. A espontaneidade e a pressa em contribuir eram registradas pela imprensa, que abriu espaço nas páginas dos jornais, visando ao mesmo tempo informar e convencer a serem feitas mais doações. As contribuições de famílias importantes da sociedade paulista eram destacadas, como a de Dumont Villares, da mesma forma como a feita por Plínio Barreto, presidente da Ordem dos Advogados, que enviara dinheiro e anéis de formatura de bacharéis em Direito que aderiam à campanha(113). Nas cidades de Campinas, Sorocaba, Taquaritinga também foram feitas doações expressivas, conduzidas pela associações comerciais locais. A cada dia, a Campanha do Ouro registrava o crescimento das doações e da comoção popular. Empresários, presidentes de entidades e religiosos vinham a público manifestar o seu apreço pela causa e conclamar o povo a aderir. Muitos deles, fazendo doações expressivas. Dignas de serem registradas foram as contribuições da condessa de Lara, que por meio do Banco Comercial, ofereceu um polpudo cheque; de Antonieta Penteado da Silva Prado, dama destacada da sociedade paulista, que depositara donativos e objetos de arte de ouro e platina; de José de Azevedo Marques, ex-ministro das Relações Exteriores, que doara as medalhas recebidas enq u a n t o e x e rc i a o c a rg o d e m i n i s t ro d o governo de Epitácio Pessoa; do maestro Antão Fernandes, que doara a sua batuta de ébano e prata com qual regia o hino nacional em ocasiões solenes(114). Estes, dentre outros exemplos, demonstravam a vontade de contribuir, como o de um menino Mário Gouvêa, aluno do Ginásio de São Bento, de São José dos Campos, que fazia a entrega de uma moeda de prata do império de 2$000 e de uma corrente com uma pequena medalha. Na carta que remetia os objetos, dizia: "Tomo a liberdade de por em vossas mãos essa

Panfleto, s/d. O Estado de São Paulo, 14 de agosto de 1932. (113) O Estado de São Paulo, 16 de agosto de 1932. (114) O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1932. (112)


(115) O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1932. (116) O Estado de São Paulo, 17 de agosto de 1932

(117) O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 1932.

(118) O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 1932.

DC

mente da vida política da cidade e do processo de transformação que conduziu à queda da monarquia e o estabelecimento do regime republicano. O ideal patriótico era evocado, o que permitia uma situação de transe que comovia a todos, como o registro de uma aluna do Colégio Sagrado Coração de Jesus, Lygia Maria dos Santos, escreveu a Plínio Barreto: "Sou pequenina, de 8 anos. Mas ontem fui também levar 'meu ouro' para o nosso querido São Paulo. Não é nada; mas é só o que eu tinha; é o primeiro anelzinho que meus pais me deram porque tirei o primeiro lugar no ano passado na minha classe. Fiz o que papai e mamãe fizeram, dando alianças e abotoaduras. Assim Deus abra mais ainda o coração da nossa gente, para sofrer com paciência todos os insultos dos invejosos Juarez Távora e Juracy Magalhães. Nossa Senhora Aparecida que nos proteja"(117).

a/ Lim be rto Ag li

pequena lembrança, para o bem de São Paulo. Quase que nenhum valor tem, mas para o meu infantil coração, muito representa, pois é recordação de meu saudoso Pai". Anna Mattos Gomes, esposa do capitão Ary Gomes, ofereceu à campanha o seu anel de noivado, enviando uma missiva que mostra seu orgulho, bem como o de sua família, de poder contribuir e participar do movimento. Afirmava: "Com alegria quero concorrer ao apelo de São Paulo, enviando o meu anel de noivado, que há vinte anos o conservava como recordação de um tempo feliz. Tenho esposo, filho e três sobrinhos na defesa de nossa integridade física e moral, entes que para mim representam a mais preciosa joia. Aceitais este anel, assim como São Paulo aceitou o concurso dos meus e que ele sirva para a nossa redenção"(115). Apelos eram feitos constantemente para que as contribuições aumentassem. Cartas, depoimentos, e comunicações solicitam a entrega de bens de valor. Em Santos, também eram registradas contribuições expressivas, o que era uma "oportunidade para externar a insopitável simpatia com que aplaudem os esforços dos que propugnam à felicidade da terra amiga que os acolheu, para cuja prosperidade na paz tanto concorreram também". Os gestos da população santista reforçavam a expressiva solidariedade que existia em Apelos eram feitos outras partes do Estado de São Paulo, como constantemente Campinas, Rio Claro e Sorocaba. Para ampara que as pliar a corrente em Ribeirão Preto, Rio Preto, contribuições São Manuel, Bebedouro, e Jaú foram organiaumentassem. zadas comissões para propaganda da campaCartas, depoimentos nha no interior(116). e comunicações No decorrer do mes de agosto, as matérias solicitam a entrega publicadas, principalmente no O Estado de de bens de valor. São Paulo e na A Gazeta, davam conta do movimento progressivo de doações. Expoentes da sociedade faziam contribuições diretas ou por meio da ACSP, enviando cartas que justificavam a sua adesão ao movimento. O ideal republicano era presente nas linhas escritas. Muitas das famílias tiveram, dentre os seus ancestrais, membros que participaram ativa-

O texto tinha como objetivo comover os leitores eventualmente indecisos. Apesar do teor da carta revelar uma consciência da realidade pouco comum a uma criança com oito anos de idade, ele servia de um exemplo a ser seguido contra os inimigos "invejosos" que desejavam a derrocada dos paulistas.

O Direito contra a Força Outros trechos e cartas completas foram publicados na imprensa, permitindo compreender como uma grande corrente se formou, sempre salientando o altruísmo do doador, que agia sem vacilar. O discurso do período mostrava que era a luta do Direito contra a Força, lembrando que São Paulo defendia o Direito da nação brasileira de um regime constitucional. Um dos doadores, Demétrio Justo Seabra, ao tratar do assunto fazia uma ilação que os acontecimentos vindouros viriam a confirmar: "Se a Força vencer, seremos definitivamente esmagados, nós os defensores da lei, já tão caluniados e menosprezados pelos interventores, encarnação do obscurantismo, da vaidade, do ódio". As palavras alarmantes davam o tom dramático do momento. Seabra ainda ponderava: "Estão em perigo a família paulista, as nossas famílias, a ubérrima e gloriosa terra de São Paulo, legada pelos maiores, e que precisamos defender pela palavra, por meios econômicos e com o nosso sangue, se necessário for"(118). MAIO/JUNHO 2012 DIGESTO ECONÔMICO

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Agliberto Lima/DC

Enquanto os ex-alunos do Colégio São Luiz, atendendo ao apelo feito, doavam as medalhas que conquistaram em lides estudantis, durante os anos de estudo, êxitos eram registrados no interior do Estado(119). A Campanha do Ouro obtinha resultados importantes em Santos, Campinas, Franca e Rio Claro e novas comissões eram formadas em Bauru, Catanduva, São João da Boa Vista e Araraquara ( 1 2 0 ) . Doações identificadas ou anônimas, grandiosas ou modestas, de engenheiros, médicos, políticos, diplomatas misturavam-se com as contribuições de equipes de futebol que dispunham dos troféus e medalhas conquistados nos campeonatos. Os paulistas mostravam o seu ardor e a identificação com a causa. Reprodução

Doações identificadas ou anônimas, grandiosas ou modestas, de engenheiros, médicos, políticos, diplomatas, misturavam-se com as contribuições de equipes de futebol.

Uma bela moeda brasileira O desprendimento dos paulistas não foi feito sem dor. Alimentava o espírito dos mesmos a esperança da sagrada vitória, tão sonhada quanto distante. A imprensa registrou o caso do "preto velho Graciliano Vicente Xavier" que não tinha nenhum anel, mas possuía "apenas, uma bela moeda brasileira, de ouro". A peça lhe fora dada quarenta anos antes pelo seu pai. Conforme relato: "Fora a única fortuna do pai: era, agora, a única fortuna do filho. Mas ao saber que São Paulo precisava de ouro, o velho preto Graciliano Vicente Xavier não hesitou um instante. Exumou-a do baú pobre em que a guardava e foi oferecê-la ao Banco de São Paulo para a campanha da Associação Comercial, em prol do 'Ouro da Vitória' "(121). Peças de valor histórico também foram doadas, como a medalha cedida por d. Albertina V. da Silva Gordo, viúva do senador Adolpho Gordo. A condecoração, fabricada em bronze, tinha sido oferecido ao finado marido pelo dr. Raul Paranhos de Rio Branco, plenipotenciário do Brasil em Berna. A medalha única tinha sido cunhada como homenagem dos paulistas ao Barão de Rio Branco, "que defendendo os direitos do Brasil conservou à Pátria comum o território de Palmas, descoberto e ocupado no século XVII pelo Bandeirantes de São Paulo". Com esta doação a viúva entendia que dava o melhor destino àquela condecoração(122).

(119) O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 1932. (120)

O Estado de São Paulo, 18 de agosto de 1932.

(121) O Estado de São Paulo, 19 de agosto de 1932. (122) O Estado de São Paulo, 19 de agosto de 1932.

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Foto do jornal A Gazeta do governador Pedro de Toledo se despedindo dos combatentes na estação ferroviária. MAIO/JUNHO 2012 DIGESTO ECONÔMICO

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Soldados e enfermeiras voluntárias hasteiam a bandeira de São Paulo: o povo paulista estava unido em defesa da liberdade.

ução

Arquivo/AE


Muita luta e trabalho, porém, o ideal foi vencido

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O trabalho das oficinas de costura também foi importante e intenso para atender às necessidades dos combatentes. Mulheres se dedicavam durante o dia e a noite para preparar as peças de fardamento para os soldados, demonstrando um ideal muito elevado na defesa da causa paulista. O esforço não era apenas físico, pois muitas delas gastavam dinheiro para trabalhar para o Exército Constitucionalista. Estimava-se, naquele momento, que o número de oficinas era de 17, que contava com 343 máquinas, e o de mulheres que trabalhavam nos domicílios era de 3.873. Para o transporte e serviços humanos havia 209 moços e meninos. Tal equipe possibilitou a confecção de 51.756 fardamentos(123).

D Trem blindado, uma invenção paulista: à frente um canhão; pelos flancos, metralhadoras pesadas; acima, holofotes.

entre as áreas de confronto, destacouse a região do Túnel da Mantiqueira, que dividia São Paulo de Minas Gerais. Esta área era considerada um dos pontos estratégicos das tropas paulistas. Elas se empenharam para defender o local, que permitia o controle do acesso à região Sul de Minas. No dia 17 de julho, o movimento revolucionário lutava contra as tropas legalistas na região. A ação das tropas getulistas foi inclemente, avançando pelo Vale do Paraíba. Cidades como Caçapava e Lorena foram tomadas. Na sequência das manobras militares, outras cidades rebeladas foram derrotadas, como Itapira, Atibaia e Bragança Paulista. As notícias que eram publicadas na imprensa do período davam conta dos avanços e recuos de guerra, se transformando numa forma eficaz de propaganda ideológica. As reportagens relatavam de maneira detalhada os confrontos e o núme-

ro de mortos. Atos heroicos foram ressaltados como forma de manter a chama da luta pela liberdade, porém, o preço pago era elevado. Em 1º de agosto, A Gazeta manifesta o desejo de mandar mais de um milhão de cigarros para soldados da Constituição, desta forma fazia um apelo aos leitores. Em artigo, salientava: "Enquanto fuma, o soldado, ao mesmo tempo que repousa das fadigas da luta, lembra-se daqueles que deixou, lá atrás, a orar por ele". Era preciso mandar cigarro(124) . No dia 3 de agosto, as tropas do coronel Pedro Dias de Campos ocuparam várias cidades do Alto Paraná(125). Em 5 de agosto era publicado na A Gazeta a matéria com o seguinte título: "Outro trem blindado que entra em ação em êxito". Conforme a reportagem: "São Paulo é uma Alemanha, a ditadura que se convença disso quanto antes e que evite, portanto, maior derramamento de sangue entre brasileiros pa-

(123) O Estado de São Paulo, 7 de agosto de 1932.

(125) A Gazeta, 3 de agosto de 1932.

Reprodução

(124) A Gazeta, 1o de agosto de 1932.

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Atos heroicos foram ressaltados como forma de manter a chama da luta pela liberdade.

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Os trens blindados eram temidos, o primeiro estava no setor de Buri, o segundo na frente Norte, e o terceiro a Oeste.

ra manter-se no poder mais algumas horas. Outro trem blindado, muito mais aperfeiçoado que aqueles que agem no setor Sul, entrou anteontem a operar na zona Norte. Êxito completo. O adversário foi destroçado e, espavorido, ante a surpresa. debandou para não ser dizimado. Outros trens blindados estão sendo ultimados e logo entrarão em ação"(126). Em 6 de agosto de 1932, A Gazeta defendia que a estação de Eleutério deveria passar a se chamar Fernão Salles, em homenagem ao bravo paulista morto no campo de luta. Foi a última estação que viu passar com vida o "bandeirante paulista". A redação de A Gazeta pedira à Diretoria da Estrada de Ferro Mogiana que fosse feita a troca porque todos estavam empenhados para "A grandeza de um Brasil, unido dentro da lei e da liberdade"(127). Dois dias depois, era noticiado que os " trens fantasmas" eram o terror das tropas ditatoriais. O trem blindado era temido em vários pontos, pois, o primeiro estava no setor de Buri, o segundo na frente Norte e terceiro no Oeste, na frente de Eleutério. Todos eles entrando em ação na hora oportuna. Segundo os registros, os ditatoriais ao verem os trens abandonavam suas posições, debandando(128). Em 11 de agosto era noticiado que seis batalhões tomaram parte na primeira refrega de Eleutério(129). No mesmo dia registrava-se a ação do trem blindado nos combates naquela cida-

de(130). Entre os dias 13 e 15 de agosto, os conflitos na região de Itapetininga e Buri foram intensos. Batalhas violentas aconteceram, causando danos materiais e perdas humanas. Os paulistas se viam tolhidos e as tropas federais avançavam. Em Eleutério, os repórteres do jornal A Platea acompanharam a luta da trincheira, registrando o "sensacional e impressionante estrondo das granadas da aviação constitucionalista e um arrojado instantâneo photografico"(131).

(126) A Gazeta, 5 de agosto de 1932

(130) A Gazeta, 11 de agosto de 1932. Ver também:

(127)

A Gazeta, 6 de agosto de 1932.

(128) A Gazeta, 8 de agosto de 1932 (129) A Gazeta, 11 de agosto de 1932.

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"Mais não dava, porque mais não tinha" O jornal O Estado de São Paulo afirmava que todos estavam vivendo "horas de epopeia". Os testemunhos que a população dava mereciam que fossem "contados às gerações que tiverem de empunhar o facho que os paulistas de hoje estão acendendo". Isto não era comum de acontecer e só acontecia raramente, por conseguinte todos deveriam ficar orgulhosos por lhe ter sido facultada a "felicidade de viver nos dias de hoje". Tal situação fazia com que os donativos aumentassem – medalhas, dinheiro, anéis de formatura, livros encadernados a ouro, joias de família chegavam de diferentes partes do Estado. Todos contribuíam como o sr. Frederico de Borba, que dizia "mais não dava porque mais não tinha"(132).

Correio da Noroeste, 11 de agosto de 1932. (131) A Platea, 15 de agosto de 1932.


A ACSP publicava dados estatísticos, procurando mostrar os contributos alcançados, fazendo também um balanço constante do que era amealhado. Os registros das produções das oficinas de costura, conduzida por mulheres, conforme apuração de 15 de agosto, apontava a existência de 49 delas na capital, que já tinham confeccionado gratuitamente 440.000 peças para o Exército Constitucionalista(133). A imprensa comunicava no dia 22 de agosto uma nota sobre a ACSP, informando que o montante de capacetes chegara a 73.564(134). Em 25 de agosto era noticiado que o famoso jogador de futebol Arthur Friedenreich continuava no front, são e salvo. Uma carta do grande campeão à sua esposa, que residia na rua Frei Caneca, 280, comprovava a mentira que circulava sobre a sua morte. O teor da carta era o seguinte: "Muitas saudades. Saúde a todos. A respeito dos dois soldados nada posso dizer, pois eles não pertencem aos batalhões que aqui se acham lutando heroica e gloriosamente. Peço, caso possível, mandar-me algumas latas de frios ou doces em conserva. Vou bem e com aquele entusiasmo que é de todos os paulistas empenhados na grande causa da Lei, do Direito e da Justiça"(135). No mesmo dia era noticiada a adesão dos bispos de Rio Preto e Assis, solidários ao movimento de patriótica iniciativa. Aproveitava-se para divulgar o anverso e reverso das medalhas comemorativas da Campanha do Ouro, que seriam oferecidas aos que doassem medalhas de ouro para o bem de São Paulo, desenho que tinha sido concebido por Wasth Rodrigues(136). A troca de alianças de ouro por alianças de ferro prosseguia e causava comoção a "espon-

As oficinas de costuras produziam uniformes de combate.

(132) O Estado de São Paulo, 21 agosto de 1932. (133)

Diário , 21 de agosto de 1932

(134) A Gazeta, 22 de agosto de 1932.

A Gazeta, 22 de agosto de 1932.

(136) O Estado de São Paulo, 22 de agosto de 1932. (137) O Estado de São Paulo, 23 de agosto de 1932. (138) O Estado de São Paulo, 24 de agosto de 1932. (139) O Estado de São Paulo, edições de 26 e 27 de

agosto de 1932 (140) O Estado de São Paulo, 28 de agosto de 1932.

Reprodução

(135)

taneidade dos pobrezinhos". Eles atenderam ao pedido da ACSP, recorrendo como "mãos jubilosas, o pouco que encontravam no fundo da arca" e o ofereceram à causa paulista. Era comovente ver a doação das "orphanzinhas do Orphanato Christovam Colombo" da Vila Prudente. Não tendo o que oferecer de valor, enviaram pequenos objetos de "pouco valor para uma causa santa e justa"(137). Em 24 de agosto, eram noticiadas as últimas contribuições feitas, dentre elas a taça "General Couto de Magalhães", toda de ouro, que fora oferecida pelo Jockey Club de São Paulo. Os donativos, por vezes, chegavam com cartas, cada uma delas fazendo menção aos objetos e ao seu valor histórico ou sentimental e os motivos que moviam à doação. Contribuições e gestos que deveriam ser imortalizados e foram pela imprensa nas colunas dos periódicos que publicavam as missivas, quando possível na íntegra(138). A exemplo do troféu do Jockey Club, outros chegaram, lembrando as disputas futebolísticas e esportivas que tinham permitido a um clube ganhar o prêmio. Prosseguia assim a empolgante Campanha do Ouro que se intensificava no interior do Estado e conquistava doadores em outras regiões do País(139). Em 28 de agosto, ganhou destaque o concurso de cartazes para a Campanha do Ouro da ACSP. Todos os interessados poderiam concorrer com desenhos feitos em papel 33x48 centímetros, que deveriam ser assinados com um pseudônimo. O desenho deveria ser entregue em um envelope fechado, onde deveria constar o pseudônimo e, dentro, o nome do artista. Davase a este a liberdade para a escolha da gravura e dos dizeres, podendo cada um concorrer com mais de uma proposta. Os três primeiros receberiam prêmios mais elevados, enquanto os demais, que recebessem menção honrosa, também seriam agraciados com valores menores. Os trabalhos premiados passariam a ser propriedade da ACSP e as inscrições seriam aceitas até o 1º de setembro, como o depósito do mesmo na sede da entidade(140).

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Salva de prata onde eram depositados anéis e outros objetos de valor. Eram as doações do povo paulista pelo ideal constitucionalista.

Em 30 de agosto era determinada a restrição do consumo de gasolina(141). As divergências internas ocorriam, tanto entre militares como entre civis. Entre os paulistas havia aqueles que desejavam a separação e independência de São Paulo como uma república, posição defendida por Alfredo Ellis Júnior, José Alcântara Machado, Monteiro Lobato e Costa Manso. Ideias que se desvaneceriam com o desenrolar dos acontecimentos. Neste mesmo dia era noticiada a doação feita pelo general Bertholdo Klinger, comandante da Segunda Região Militar, conforme carta endereçada a Carlos de Souza Nazareth, afirmava o comandante: "O único objeto precioso que possuo, não pelo que valha materialmente, mas pelo que para mim representa, é essa espada. Há trinta e dois anos que me acompanha. Recebeu-a o alumno Bertholdo Klinger em 1900, como premio de estudos; é a mesma que o general Klinger usa hoje e que pôs, com a sua vida e sua carreira, ao serviço do Brasil, através de S. Paulo. Ella objectiva dessa arte uma offerta já feita. Não pos-

Paulo pampolin/Digna Imagem

so escolher melhor intermdiario para encaminha-la ao nobre povo paulista de que a Associação Commercial de São Paulo que conseguiu o milagre de realçar serviços, num movimento como este que, cada um dando tudo o que tem, ninguém pode sobresahir. Deixando a cargo da Associação Commercial a escolha do destino que lhe deve ser dado...".(142) O número de combates governistas era maior do que o número dos paulistas. A estimativa de combatentes que atuaram nas batalhas aponta para mais de quinze mil homens de diferentes partes do Estado de São Paulo(143). Em 1º de setembro, a ACSP recebeu da ACRJ um telegrama manifestando a preocu-

(141)

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A Gazeta, 30 de agosto de 1932.

pação da entidade carioca com o desenrolar dos confrontos. Estavam preocupados em encontrar uma "solução honrosa, capaz de por um paradeiro a dolorosa situação que aflige todos os brasileiros sem exceção". Indagava como a ACSP receberia um entendimento, no sentido de estabelecer uma paz digna. A entidade paulista convocou uma reunião na sede da associação para debater o assunto com outras entidades envolvidas. A matéria foi discutida e a deliberação unânime foi o envio de outro telegrama em resposta, que afirmava que o "recurso extremo" utilizado era o "único meio de restituir ao Brasil a paz, a ordem e as liberdades públicas". A sociedade paulista, segundo o texto, tinha sido arrastada para a luta devido às intransigências do poder ditatorial e empreendia os maiores esforços para defender a causa do retorno imediato ao regime da lei e da liberdade no Brasil. A ACSP e as demais entidades também desejavam a paz e a cessação das hostilidades, mas o teor do assunto cabia ao governo do Estado de São Paulo se pronunciar(144). Não esmorecia o entusiasmo do povo paulista na campanha do ouro para a vitória, que prosseguia vitoriosamente. Clubes como o Palestra Itália, Corinthians Paulista, Associação Athletica Portuguesa e Paulistano, por meio de seus sócios e dirigent e s , f i z e r a m c o n t r i b u ições(145). Em 1º de setembro registrava-se a contribuição do secretário da Fazenda, Paulo de Moraes Barros, que fez a doação de três carabinas, que tinham sido oferecidas ao seu pai, Prudente de Moraes. A primeira, que merecia atenção especial, era uma carabina "Mauser" fabricada pela Manufactura Lowe, de Berlim, em 1894, que contava com impressão, a ouro, das armas da República Brasileira e dizeres elucidativos sobre aquele momento histórico. A segunda era um fuzil utilizado na Marinha, oferecido ao ex-presidente pela Manufactura de Mr. Werndl Steur, da Áustria. E a última era um mosquetão de cavalaria, Springfield. A ideia era que estas peças fossem colocadas à venda, a fim de que com os recursos obtidos fossem revertidos para a cam-

de 32?" In: Digesto Econômico, julho 2003,p. 26.

(142) O Estado de São Paulo, 30 de agosto de 1932.

(144) O Estado de São Paulo, 1 de setembro de 1932.

(143)

(145)

DONATO, Hernani. "O que foi a Revolução

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O Estado de São Paulo, 21 de setembro de 1932.


Reprodução

panha(146). No interior, o montante crescia a cada dia com doações em São Carlos, Sorocaba, Jundiaí, Viradouro, Garça, Campinas, São João da Bocaina, Parnaíba, Igarapava, Monte Azul, Ituverara e Rio Bonito(147). Neste mesmo dia realizava-se um espetáculo no Teatro São Carlos, promovido pelos guardas-civis da Água Branca. Era um festival artístico destinado à compra de capacetes de aço. Houve apresentação de uma comédia com música e a exibição de uma "fita cinematographica". Uma orquestra do Centro Musical Paulista apresentou-se durante os intervalos(148). No dia 2 de setembro, as demonstrações de amor a São Paulo continuavam. Os donativos chegavam, como uma "riquíssima sopeira" (que pertencera ao Marquês de Barbacena e que fora oferecida por Metternich, ministro de Francisco José), foi oferecida por um descendente do referido marquês. Odette Paes de Barros, membro de uma das famílias mais importantes, fez a doação de um "leque de tartaruga e

plumas brancas, da Proclamação da República"(149). A Casa Michel manifestara publicamente que faria gratuitamente, para seus fregueses, qualquer "trabalho para aumentar ou diminuir as alianças de ferro trocadas pela de ouro, em benefício da Campanha do Ouro para a Vitória". O Estado de São Paulo dava destaque às doações publicando o nome dos doadores e suas contribuições(150). As avaliações feitas sobre as doações mostravam que algumas peças tinham um valor artístico elevado, porém se desmontadas a quantidade de ouro era reduzida. Por decorrência, os analistas entendiam que se as peças fossem postas à venda, depois de "escrupulosamente avaliadas", tais joias poderiam produzir um "resultado muitas vezes superior ao que produziriam se fossem desmontadas"(151). Até aquele momento, o Departamento do Capacete de Aço tinha entregue mais de 90 contos de réis de donativos para aquisição das peças para proteger os soldados, beirando quase cem mil peças. O valor uni-

(146) O Estado de São Paulo, 2 de setembro de 1932.

(149) O Estado de São Paulo, 7 de setembro de 1932.

(147)

(150)

O Estado de São Paulo, 2 de setembro de 1932.

(148) O Estado de São Paulo, edições de 29 de agosto

e 2 de setembro de 1932

Entre os dias 13 e 15 de agosto, os conflitos na região de Itapetininga e Buri foram intensos. Batalhas violentas aconteceram na região.

O Estado de São Paulo, 3 e 7 de setembro de 1932. (151) O Estado de São Paulo, 3 de setembro de 1932.

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tário de cada capacete tinha sido reduzido, quando comparado com os primeiros orçamentos. Tal circunstância permitiu que a compra fosse maior e que parte dos recursos fosse destinada à aquisição de outros "utensílios úteis à proteção, segurança e conforto dos soldados"(152). Conforme a imprensa noticiava, "São Paulo pediu ouro e o ouro apareceu". O que era digno de mencionar era que bastara solicitar apenas uma vez para que o contributo acontecesse(153). Aqueles que não puderam contribuir com ouro fizeram contribuições de outro tipo. João Fernandes Basílio ofereceu "três casais de galinhas" para serem vendidos em benefício da causa, sendo um casal de carijós "ringles", um de "Rhode Island" e outro de gigantes negros. Os galináceos ficaram expostos para venda na sede do jornal O Estado de São Paulo(154). As mesmas foram vendidas logo e três dias depois noticiavase que fora obtido o valor de 450$ réis.

Exortações de religiosos, contribuições das categorias profissionais e de clubes, listas infindáveis de doadores e objetos ocupavam as páginas dos periódicos(155).

A ACSP mandou confeccionar diplomas de honra para serem entregues aos doadores de ouro, acreditava que a posse dos mesmos daria "sem dúvida, grande satisfação moral a todo cidadão que houver despojado de suas reservas de ouro em benefício de São Paulo"(156). Em 6 de setembro era registrado o êxito do concurso de cartazes para a campanha do ouro, promovido pela ACSP. Para a disputa se inscreveram 161 concorrentes, muitos deles do interior do Estado. Face ao número de trabalhos, deliberou-se pela exposição dos cartazes que ficariam expostos até a noite daquele dia, na rua Libero Badaró nº. 39 A, vindo a receber um número grande de visitantes. O júri que faria a avaliação dos trabalhos foi composto por José Wasth Rodrigues, Francisco Pati e José Gonçalves(157). A iniciativa obtivera sucesso e os cartazes, posteriormente, foram expostos em estabelecimentos comerciais da região da Praça do Patriarca e da Rua Direita(158).

Em 7 de setembro ocorreu o desfile da Guarda Civil da Capital(159). Tendo em vista que na data se comemorava os 110 anos da Independência do Brasil, os locais de doação estavam fechados. No dia seguinte, as atividades voltaram ao normal em todos os postos de recebimento, principalmente nos bancos. As provas materiais de apoio ao movimento, dignas de aplauso, chegavam de todas as partes do Estado e de outras unidades federativas, como Minas Gerais, de onde tinham vindo polpudas doações das senhoras mineiras(160).

(152) O Estado de São Paulo, 4 de setembro de 1932.

(157) O Estado de São Paulo, edições de 6 e 7 de

(153) O Estado de São Paulo, 4 de setembro de 1932.

setembro de 1932.

(154) O Estado de São Paulo, 4 de setembro de 1932.

(158) O Estado de São Paulo, 24 de setembro de

(155) O Estado de São Paulo, 5 de setembro de 1932.

1932.

(156) O Estado de São Paulo, 5 de setembro de 1932.

(159) A Gazeta, 7 de setembro de 1932.

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Reprodução

A imprensa acompanhava o desenrolar do conflito. Matérias publicadas nos jornais davam conta do avanço das tropas constitucionalistas.

Dois dias depois da efeméride da independência, era noticiado que o montante de dinheiro arrecadado permitia a compra de cem mil capacetes de aço: "A subscripção da Associação Comercial já se elevava ontem a mais de 1.500 contos"(161). Na mesma data era publicado: "Os exércitos Constitucionalistas entram vitoriosos no segundo mês de campanha". Na matéria afirmava-se que o dia anterior decorrera como os anteriores de forma favorável para os exércitos da Constituição. No setor norte houve grande atividade. Em Silveira ocorreram combates, "ter-

minando com o recuo das tropas ditatoriais, que tiveram durante a luta numerosas perdas". Em Batedor e Túnel, as tropas constitucionalistas continuavam firmes. Na região de Pinheiros também tinham ocorrido grandes combates, mas as forças constitucionalistas tinham conseguido manter as posições(162). Era destacado o trabalho da delegacia militar de Lorena e os trabalhos que vinha realizando. O tenente Armando de Figueiredo empreendera esforços para fazer desaparecer os boateiros e derrotistas. Principalmente naquela cidade, por se temer que pessoas infiltradas fizessem comentários que abatessem o ânimo da população(163). Também chegavam da Europa votos de apoio ao movimento, demonstrando admiração pelos paulistas(164). Em 11 de setembro o arcebispo metropolitano D. Duarte Leopoldo e Silva recebia um comunicado, para ser lido em público, sobre o compromisso de se fazer um monumento ao apóstolo São Paulo "após a vitória do movimento constitucionalista". A comissão organizadora da revolução, solicitava a autorização para que as listas de subscritores ficassem depositadas nas igrejas da capital, a fim de facilitar o recebimento das assinaturas. O teor do comunicado para ser divulgado à população era o seguinte: "O Povo Católico Paulista desejando ardentemente nesta hora grandiosa demonstrar, de forma indestrutível, a sua Fé inabalável e imorredoura gratidão ao grande Santo Apóstolo que deu o nome a esta terra e que foi até hoje seu guia e inspirador na paz como será sempre seu guia e defensor na guerra - Promete - pública e solenemente, pelos que subscrevem, contribuir por todos os modos para que, vitoriosa causa sagrada que o lançou à luta sangrenta de vida ou de morte, seja erigido no coração da cidade no largo da Sé, em frente à Catedral, um monumento inteiramente do granito paulista, em cuja base será perpetuada por alegorias a gloriosa memória dos que deram a vida pela lei e cuja figura central será a imagem, em proporções grandiosas do Apóstolo São Paulo, seu eterno protetor e grande chefe espiritual"(165). No dia seguinte, era registrado que a coluna major Romano Gomes prosseguia vitoriosamente a sua marcha na região de Vargem Grande e São João da Boa Vista, que haviam sido recuperadas, além de ter sido derrubado um avião da ditadura(166). Era um novo dia de glórias e vi-

(160) O Estado de São Paulo, 8 de setembro de 1932.

(163) A Gazeta, 9 de setembro de 1932.

(161)

(164)

O Estado de São Paulo, de 9 de agosto e A Gazeta, 9 de setembro de 1932. (162) A Gazeta, 9 de setembro de 1932.

O Estado de São Paulo, 10 de setembro de 1932.

(165) O Estado de São Paulo, 11 de setembro de 1932. (166) A Gazeta, 12 de setembro de 1932.

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tórias dos soldados da lei nas frentes do norte, sul e oeste - reconquistando a importante cidade de São João da Boa Vista, desbaratando também as tropas ditatoriais em Porto Murtinho(167).

Fronteiras fechadas Contudo, o fechamento das fronteiras do Estado dificultou a entrada de armamentos, principalmente o bloqueio do porto de Santos, que foi tomado pelos getulistas, no mesmo dia 12 de setembro. Tal situação fez que esforços se concentrassem no fabrico de armas, munições, máscaras de gás, veículos blindados (trens, carros e lanchas), canhões e na constituição de recursos para que as tropas pudessem lutar no front. O engenho dos paulistas fez que fosse criada a "matraca", que era um simulador do ruído das metralhadoras que enganava os inimigos, que pensavam estar sob o alv o ( 16 8) . Para ludibriar os oponentes, também foi criado o "canhão bresseriano" que era um canhão que não disparava, mas que enganava nas observações aéreas(169). Estes subterfúgios não escondiam o fato real: a inferioridade material das tropas paulistas. O que sobejava era o espírito da união, da defesa e o brio paulista. Era noticiado no dia 13 de setembro a vitória do 1ª. Companhia do 4º B. C. comandada pelo tenente Waldomiro Meirelles. As ações empreendidas por ele e seus soldados fizeram os ditatoriais recuar em direção a Paraty, sendo digno de exaltar a bravura e competência dos combatentes(170). Ações práticas também eram tomadas como a distribuição de cobertas de panos para evitar que os capacetes brilhasse e se aquecessem ao sol. Tal situação fez que muitos deles fossem obrigados a "besuntá-los de gordura e cobri-los de poeira ou terra"(171). Este tecido se adaptaria aos três tipos de capacetes que tinham sido fabricados até aquele momento. Além disso, os capacetes reluzindo ao sol e a lua, indicavam a localização dos soldados, o que tornava os soldados constitucionalistas alvo fácil dos inimigos.

(167)

A Gazeta, 12 de setembro de 1932.

(168) DONATO, H. A Revolução de 32. São Paulo,

Círculo do Livro/Abril, 1982. (169) DONATO, Hernani. "O que foi a Revolução

de 32?" In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 26. (170) A Gazeta, 13 de setembro de 1932. (171) (172)

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O Estado de São Paulo, 13 de setembro de 1932. O Estado de São Paulo, 13 de setembro de 1932.

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As doações do povo paulista permitiram a fabricação de milhares de capacetes de aço, peça fundamental para a proteção dos soldados.

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Neste mesmo dia foi erguido na Praça do Patriarca um monumento que era marcado pela figura do bandeirante. Era destacado que: "O desenho é perfeito. Não foi esquecido nenhum detalhe do personagem que através dos séculos tem sido o incentivo para a grandeza de São Paulo". A imagem do destemido desbravador do sertão era representada com "chapéu de abas largas que cobre-lhe a fisionomia austera de longas barbas brancas. Segue-se seu vestimento simples, deixando livres todos os seus movimentos e a bota de cano alto quase até aos joelhos do velho conquistador das selvas". A imagem do bandeirante, descobridor de ouro que fez a glória de São Paulo no passado, era aludida no monumento que mostrava o orgulho de contribuir com doações em ouro. Exaltava-se a representação do grande bandeirante que "tinha em suas mãos o prato de estanho, seu companheiro inseparável. O ouro que enche esse prato já passou pelo almocafre e pela bateia. Está limpo. Completamente isento dos detritos da colheitas". Esse mesmo ouro, simbolicamente representado, era aquele que estava sendo despejado nas arcas dos bancos de São Paulo, hora a hora. A grande corrente que se formara fazia que o povo se desprendesse dos bens materiais para conquistar a vitória(172). Houve polêmica sobre a criação do monumento, que conforme Paulo F. do Amaral fora concebido a partir do cartaz de sua autoria, que ganhara o prêmio da "Campanha do Ouro" e que contava com os dizeres "Ouro é Vitória" que fora criado por Badenes(173). Todavia, foi esclarecido ao público, em nota à imprensa, que o pintor J. Prado havia apresentado à ACSP "o 'croquis' do seu monumento antes de ser aberto o concurso, não tendo sido, pois, inspirado por


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nenhum dos cartazes, que só posteriormente foram idealizados e executados"(174). As lideranças tentavam convencer que não bastava apenas doar as alianças de ouro, mas sim tudo aquilo que "está em melhores condições para se transformar num gosto coletivo, de contribuição unânime". Não importava o peso da peça a ser doada, nem a beleza da mesma. Registros de doações expressivas de pessoas importantes, como o dr. Joaquim Celidonio, ministro do Tribunal de Justiça do Estado, figurava ao lado de doações de crianças como a de Paulo Ferraz Sampaio, de nove anos de idade, que doava espontaneamente suas economias e duas moedas de ouro antigas. As cartas das crianças que acompanhavam os donativos eram comoventes, como a de Mauro Wilton Carneiro, residente em Santa Cruz do Rio Pardo: "Tenho doze anos de idade e não podendo empunhar o fuzil para defender São Paulo, mando-vos, acompanhada desta, a minha diminuta contribui-

ção em ouro para o bem de São Paulo: uma corrente, um par de abotoaduras e um botão. Pouco representa a minha dádiva, mas fico satisfeito porque dei o que possuía. Prefiro ser livre sem ter ouro do que ter ouro e ser escravo"(175). A debilidade de recursos das tropas paulistas era visível e os comandantes anteviram uma derrota. Em 14 de setembro, os revolucionários enviaram ao almirante Protogenes Guimarães, Ministro da Marinha, uma proposta de armistício que foi concebida por Bertoldo Klinger. O primeiro contato dos negociadores, dos dois lados, só aconteceria quinze dias depois, sem que a deposição de armas fosse acordada. Enquanto isso, a imprensa paulista, tendo como intenção manter a chama acesa da luta, destacava as vantagens do exército paulista em diferentes frentes(176). Passado dois meses dos conflitos, Carlos de Souza Nazareth, fez um discurso pela Rádio Sociedade Record, destacando a importância da luta das trincheiras, devido às ações de des-

(173)

(176)

O Estado de São Paulo, 14 de setembro de 1932.

(174) O Estado de São Paulo, 16 de setembro de 1932. (175)

A debilidade de recursos das tropas paulistas era visível e os comandantes anteviram uma derrota. Em 14 de setembro, os revolucionários enviaram proposta de armistício.

O O Estado de São Paulo, edições de 27, 28 e 29 de setembro de 1932.

O Estado de São Paulo, 14 de setembro de 1932.

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respeito a São Paulo, pelo governo de Getúlio Vargas. Lembrava que os sons dos canhões eram o som da liberdade e que naquele momento "único acordo possível" era "o acordo da vitória!", ressaltando ainda que: "... A guerra em que hoje se empenha e que tem sido, há sessenta dias, um suceder ininterrupto de

(177) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 22. (178) In: Digesto Econômico, julho 2003, p. 22. (179) O Estado de São Paulo, 17 e 18 de setembro

de 1932 (180) O Estado de São Paulo, 19 de setembro de 1932.

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A imprensa, tendo como intenção manter acesa a chama da luta, destacava as vantagens do exército paulista.

maravilhas, não tem nenhum dos aspectos pejorativos que lhe emprestam a ditadura. Não temos que corar em presença da História, dos motivos que nos impeliram para a luta. Pelo contrário, a História é que terá de sentir-se orgulhosa deste grande povo, quando nas suas páginas de bronze, tiver de fixar os feitos memoráveis de nossa raça"(177). O governo federal, além de combater no front, fez reiteradas ações para apontar a fragilidade dos revoltosos, fazendo circular informações sobre o enfraquecimento dos mesmos e da necessidade destes solicitarem o armistício, conforme as imposições a serem feitas por Getúlio Vargas. A ação visava desarticular os revoltosos, ao mesmo tempo em que a população se sentia desprotegida. Após meses de confronto, a apreensão da população era geral e os civis procuraram fugir das principais zonas de combate. A dificuldade de abastecimento e a falta de gêneros contribuíam para aumentar a apreensão geral. Além disso, os fornecedores de recursos necessários para os combates acabaram por controlar o fornecimento de bens, enquanto o pagamento não fosse feito, apontando para as dificuldades financeiras do Tesouro do Estado. A fim de contornar a situação, a ACSP autorizou a transferência de recursos consideráveis da conta da Campanha do Ouro, como noticiou A Gazeta. No dia 16 de setembro, ocorria no Penha Teatro, na rua da Penha, nº 75, um festival dramático cuja renda seria destinada à compra de capacetes de aço. Todos os esforços eram necessários, neste momento crucial(178). Apelava-se por mais ouro, afirmando-se: "Paulista, a vitória é nossa!" . Era preciso que o paulista doasse ouro para São Paulo para que no futuro, após a vitória integral das armas constitucionalistas, a população voltasse a ter paz. Avisava-se que todos os ofertantes de ouro iriam receber, dentro de curto espaço de tempo, um anel simbólico, como aqueles que tinham se desfeito de suas alianças receberam(179).

O bombardeio de Campinas A notícia de que as primeiras contribuições do povo do Mato Grosso para o "Ouro da Vitória" era reforçada por donativos de estrangeiros, que davam novo ânimo ao movimento(180). No dia 19 de setembro era publicado o protesto das associações de classe de São Paulo junto ao ministro Afrânio de Mello Franco. Manifestavam-se contra "o ato estúpido e bárbaro, cruel e desumano que foi o bombardeio da cidade de


Arquivo/AE

Campinas, praticado por aviões a serviço do governo ditatorial". O ato dos aviadores deslustrara a civilização brasileira com um ato reprovado pelo direito internacional. O ataque à população civil de Campinas gerara comoção por causar terror e danos aos inocentes(181). O bombardeio de Campinas acabou por acender mais a ira e a consciência coletiva. A cólera tomou o espírito de todos os paulistas que repudiaram a forma de agir das tropas da ditadura. Protestos de várias entidades foram enviados ao governo federal reclamando do desumano bombardeio. Naquele mesmo dia, Paulo Setúbal tomou os microfones da rádio para irradiar a sua indignação. Chamava a atenção, como jurista, para o desrespeito ao Direito Internacional. Classificava o bombardeio de terrorista, e alertava para o fato de que se este procedi-

mento continuasse, o Brasil desceria ao nível das nações mais bárbaras. Ressaltava ainda: "Desumano e estúpido, o ataque aéreo a Campinas é, ainda, um ato de manifesta inutilidade. Não é com ele que as forças ditatoriais quebrarão o ânimo das tropas constitucionalistas e estabelecerão, no seio das populações civis o terror propício ao avanço dos exércitos que combatem a lei. O assassínio de populações inocentes, provoca apenas a indignação geral e redobra o ardor guerreiro do povo"(182). Em 21 de setembro era noticiado "O bombardeio de cidades abertas e de ambulâncias e hospitais da Cruz Vermelha". A Cruz Vermelha manifestava o seu protesto contra os métodos de guerra que estavam sendo usados, fazendo vítimas no Estado, como crianças indefesas, ambulâncias que transportavam doentes e pessoas abnegadas que atendiam aos doen-

(181)

(182)

A Gazeta, 19 de setembro de 1932.

Em 21 de setembro era noticiado o bombardeio de cidades abertas e de ambulâncias e hospitais da Cruz Vermelha, ação que gerou protestos veementes.

O Estado de São Paulo, 20 de agosto de 1932.

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tes(183). No mesmo dia, a incipiente força aérea paulista, que contava com seis aviões, conhecida como "gaviões-de-penacho" destruíram cinco aparelhos dos inimigos estacionados em Mogi-Mirim(184). Os gestos dignificantes de doação de ouro continuavam, enquanto o número de mortos crescia deixando exemplo de comportamento e conduta. Uma carta de uma família de Pindamonhangaba mostrava o brio paulista. Antonio Augusto de Barros Penteado e a esposa Celisa de Barros Penteado, pais de Lauro de Barros Penteado, morto a pouco dias davam o seguinte testemunho: "O nosso filho Lauro do batalhão '14 de julho', morto em combate em conseqüência de ferimento produzido por estilhaço de granada adversária, deu todo o seu sangue, até a última gota (morreu de hemorragia hora depois de ferido) para o bem de São Paulo. Os últimos momentos foram assistidos por um colega Epaminondas do Vale que, a pedido, registrou num pedaço de papel, quando era conduzido para o próximo posto de socorro, suas últimas recomendações. Esse companheiro valoroso fez a arrecadação dos objetos do extinto e nos mandou: não os queremos guardar como recordação do nosso saudoso filho. Quem deu o sangue também dá o seu pouco ouro, para o nosso bem. E assim remetemos a V. S. os objetos arrecadados e que aquele soldado paulista trazia, para que V.S. os entregue à Campanha do ouro"(185). O ataque a Campinas e as mortes impulsionaram o movimento de doações. Atendendo às sugestões da comissão de donativos de São Paulo foram confeccionados, a fim de serem vendidos em benefício do Movimento Constitucionalista, distintivos para lapela com a reprodução do brasão do Estado de São Paulo. Estas peças foram fabricadas em dois modelos, um de prata e o outro de metal esmaltado. Previa-se o fabrico também de alfinetes de gravata, e botões de punho para senhoras. As peças passaram a ser vendidas nos mesmos estabelecimentos comerciais que estavam vendendo os distintivos constitucionalistas(186). No dia 25 de setembro uma foto de primeira página era estampada, tendo seguinte título: "Os capacetes de aço no setor de Amparo"(187). Procurava-se encorajar o povo para novas doações. No mesmo dia, a ACSP comunicava que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro resolveu conceder um abatimento de 50% nos fretes de leite destinado a abastecer a cidade enquanto durasse o conflito. Conforme o registro: "Este simpático gesto da Companhia Paulista não deixará, certamente, de ser seguido pelas demais empresas ferroviárias do Estado,

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O Departamento da Campanha do Ouro tinha recebido numerosos objetos de metais não preciosos, como alpaca, níquel, zinco, bronze, latão, etc. Estes metais eram muito úteis e representavam também contribuição valiosa.

às quais também a Intendência Geral dos Mercados dirigiu um apelo visando a mesma redução de fretes"(188). A ACSP tinha feito um apelo aos criadores e pequenos produtores que intensificassem o envio de leite para a capital. As remessas deveriam ser enviadas, em grandes quantidades, para atender à demanda, devendo-se evitar desperdício. Tal ação visava a garantir a continuidade do abastecimento sem elevação dos preços(189). No dia posterior, três noticias interessantes foram divulgadas pela Record. O General Góis Monteiro fora ferido, ocorrera a morte de um oficial da ditadura e a fuga de outro, abandonando as tropas. A rádio tinha irradiado também que o comandante supremo das forças ditatoriais tinha sido ferido numa cidade do Vale do Paraíba(190). Importantes contribuições do Departamento do Capacete de Aço da ACSP foram feitas para os combatentes de Campos do Jordão. O rigor do inverno exigia o envio de "pullowers" e capuzes de lã, camisas, meias, perneiras, cachecóis, ponches, chocolates, biscoitos, cigarros, fósforos, conhaque e periscópios para trincheiras. Ambulâncias também foram providenciadas para atender aos feridos, sendo que as alunas do Curso Acadêmico Feminino do Mackenzie estavam empenhadas em levantar o montante necessário para tal fim(191). Em 28 de setembro foi comunicado que seria criado um Departamento de Donativo de Metais. O Departamento da Campanha do Ouro tinha recebido numerosos objetos de metais não preciosos, como alpaca, níquel, zinco, bronze, latão etc. Estes metais eram muito úteis para o fabrico de inúmeros artigos necessários e representavam também contribuição valiosa. As doações permitiriam a criação de uma reserva de metais para assegurar o abastecimento do Estado, na hipótese da guerra durar muito e esse material vir a faltar. Desta forma, a criação poderia atender às futuras necessidades e passava a re-

(183) A Gazeta, 21 de setembro de 1932. (184) LIMA, Soraia Herrador Costa. Júlio Mesquita

Filho: entre a máquina de escreve e a política. São Paulo: ECA-Universidade de São Paulo, 2008. (Dissertação de Mestrado), p. 27. (185) O Estado de São Paulo, 22 de setembro de 1932. (186) O Estado de São Paulo, 23 de setembro de 1932. (187) A Gazeta, 25 de setembro de 1932. (188) O Estado de São Paulo, 25 de setembro de 1932. (189) O Estado de São Paulo, 25 de setembro de 1932. (190) A Gazeta, 26 de setembro de 1932. (191) O Estado de São Paulo, 27 de setembro de 1932.


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As mulheres atuaram nos hospitais como enfermeiras, cuidando dos feridos no campo de batalha.

ceber os donativos na rua Álvares Penteado, 28(192). Naquele dia as forças de Romão Gomes dominaram toda a região de Jaguari. Destacavase que " As senhoras podem ficar descansadas; o inimigo jamais pisara em Campinas". Esta coluna enfrentou os adversários no combate da zona da Mogiana, registrava a imprensa: " Soldados e voluntários que a integraram escreveram, com o seu heroísmo imorredoura página nos combates daquele setor"(193). A participação feminina foi expressiva no decorrer dos combates. As mulheres contribuíram com a feitura de fardamento e agasalhos, bem como de material farmacêutico para serem enviados aos feridos. Atuaram também nos hospitais com enfermeiras cuidando dos feridos, bem como dando suporte as famílias daqueles que estavam no front de batalha. Em 30 de setembro as exéquias dos aviadores Gomes Ribeiro e Machado Bittencourt, promovidas pelo governo do Estado, Aviação Constitucionalista, Estado Maior das Tropas em Operações, Associação Comercial de São Paulo, dentre outras entidades, foram comunicadas a população. A missa de sétimo dia ocorreu na Basílica de São Bento, sendo oficiada por d. Duarte Leopoldo e com sermão do padre Leopoldo Ayres. Após a celebração, alguns

aviadores voaram para Santos, a fim de espalharem flores do povo de São Paulo sobre o local onde os combatentes haviam falecido(194). Pedro de Toledo, ao fazer uma avaliação do segundo mês da revolução, destacava a importância do movimento empreendido para mobilizar a indústria que produzia acima dos patamares convencionais para atender às novas demandas. A aviação teve papel importante na estratégia de guerra, servindo para ataque as cidades revoltosas. Os bombardeios foram intensos contra os combatentes e civis. Os registros fixados pela imprensa local computavam o número de mortos e alertava para o desrespeito a Convenção de Haia de 1907, principalmente após os ataques empreendidos contra a cidade de Campinas.

(192)

(195)

Reprodução

O Estado de São Paulo, 28 de setembro de 1932.

(193) A Gazeta, 28 de setembro de 1932. (194)

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O Estado de São Paulo, 30 de setembro de 1932.

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Momentos finais da luta por um ideal A iminência de um final inglório para São Paulo não esmoreceu o povo paulista na Campanha do Ouro. Em primeiro de outubro, uma ampla lista com o nome dos doadores era publicada, contendo registros desde meados de agosto(195). Naquele mesmo dia era noticiado que a cidade vivia horas agitadas, vários conflitos tinham acontecido e militares estavam mortos. A população nervosa ficou preocupada com as notícias de confrontos no bairro do Brás. As movimentações eram intensas e os confrontos chegaram a ferir civis. O comércio fechou as portas, tanto na área central como nos bairros. No período da tarde aconteceram várias passeatas e oradores fizeram comícios. O coronel Taborda, chefe da polícia, definiu pela proibição dos comícios, não permitindo reuniões nem passeatas(196). Eram os momentos finais da luta por um ideal. O número de mortos cresceu nos embates que se seguiram até 2 de outubro, quando as tropas paulistas foram derrotadas, pelo general Pedro Aurélio de Góis Monteiro. Os sinais de enfraquecimento indicavam que a via mais adequada para a questão era a solicitação de armistício. O

O Estado de São Paulo, primeiro de outubro de 1932. (196) A Gazeta, 1o. de outubro de 1932.


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governo, reunido com os comandantes militares e representantes das associações comerciais, chegou à conclusão que não havia mais condições de continuidade do confronto, tendo em conta a rendição da Força Pública Paulista, localizada em Cruzeiro, que sem alternativas depuseram as armas. As tropas governistas ocupavam a capital paulista e impuseram uma perseguição inclemente aos revoltosos: a Revolução de 1932 terminara. O saldo era um prejuízo material elevado e a perda da vida de mais de 600 paulistas. Apesar da derrota, a impressa destacara a abnegação dos paulistas em não esmorecer e sempre lutar, como no passado havia ocorrido com os bandeirantes, referencial a ser tido como um exemplo de perseverança(197). Era um consolo para os derrotados. Para o novo governo provisório foi nomeado o General Valdomiro Castilho de Lima. No dia 3 de outubro, dissolveu-se o M.M.D.C. A nova situação era que deveria dar assistência aos retirantes e às famílias dos combatentes. A direção comunicava ao chefe de polícia: "Por intermédio de v. exa. desejaríamos fazer chegar ao conhecimento do governo que o M. M. D. C., entre as suas atribuições mantinha a de dar abrigo e subsistência a milhares de famílias de soldados da revolução constitucionalista e de retirantes das diversas cidades ocupadas pelas tropas ditatoriais. E, como o M.M.D.C. foi reconhecido pelo governo do Estado, ora deposto, consequentemente desaparece com ele, não podendo mais cumprir essa assistência, que é mais uma obra da humanidade e de dever, além de imperioso moral. Esperamos que os novos responsáveis pela atual situação não deixem perecer essa gente, prontificando-se o M.M.D.C. a fornecer a quem de direito todas as informações imprescindíveis para a continuação de tão nobre mistér"(198). Em 5 de outubro, o governador militar do Estado reuniu os jornalistas expondo-lhes a atuação da milícia estadual na pacificação, sendo determinada a censura à imprensa(199). No dia seguinte, o general Klinger afirmou de forma altruísta: "Só posso dizer-lhes que assumo integralmente a responsabilidade desta revolução e só desejo que todos os castigos que aguardam meus companheiros recaiam somente sobre mim"(200). O momento era de desolação e de indefini-

(197) Diário Popular, 4 de outubro de 1932.

CAPELATO, p. 33. (198) A Gazeta, 3 de outubro de 1932. (199) A Gazeta, 5 de outubro de 1932.

Mais de 600 paulistas perderam a vida em combate na Revolução.

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ção sobre o futuro. Os principais líderes militares foram presos e conduzidos para o Rio de Janeiro, como também aconteceu com o presidente da ACSP, Carlos de Souza Nazareth. Preocupada com as punições que pudessem vir a ser impostas ao seu antigo presidente, a ACSP telegrafou parceiros do Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 1932, se pronunciando da seguinte maneira: "Urgente: Martins Filho - Rio Tendo sido chamado a essa capital pelo Governo Federal nosso Presidente Sr. Carlos de Souza Nazareth pedimos amigos providenciarem nada lhe falte efetuando por nossa conta despesas necessárias. Agradecemos ainda notícias, Seremos muito gratos sua aceitação nessa incumbência. Saudações Benedicto Sérvulo Sant'Ana - presidente em exercício"(201). A resposta se deu prontamente, aceitando a incumbência de tratar das negociações necessárias.

que manteve durante todo o processo de luta(203). O momento era de ebulição e ânimos exaltados e a ACSP, ciente da conveniência de acalmar a população, divulgou um manifesto em 14 de outubro, dirigido ao povo, aconselhando: "À população a maior calma e serenidade neste momento, a fim de que a ordem pública seja assegurada, como o exigem os altos interesses do nosso Estado e do Brasil, e formulam os seus votos para que serenem as paixões e se desarmem os espíritos, afim de que pais pacificado possa retomar o ritmo normal da sua vida de trabalho"(204). No comunicado distribuído na capital naquela data, assinado pelas mais diferentes entidades que apoiaram a revolta, apelava-se para "a heroica população de São Paulo no sentido de que se abstenha no atual momento de qualquer manifestação pública, mantendo-se em atitude de inteira calma". O documento ressaltava que era preciso que "os bons paulistas se lembrem que maus elementos desejavam a todo o transe perturbar a ordem, tirando disso partido em favor de suas insidiosas campanhas"(205).

Ovacionados

Líderes exilados

Em 11 de outubro é noticiado a partida para o Rio de Janeiro de outro grupo de constitucionalistas. A população paulista prestou homenagem aos presos chamados pelo governo central, dando demonstrações de carinho e simpatia . "Convidados" para irem para o Rio de Janeiro, pelo chefe da polícia, os detidos embarcaram na noite do dia 10. "Grupo de altas personalidades paulista que, tendo tido ação destacada na última luta armada em prol da reconstiucionalização do País, aguardaram serenamente os acontecimentos, permanecendo à disposição do governo central – proceder este que demonstra exuberantemente o seu alto civismo e a consciência que tem pela causa abraçada". O embarque foi marcado pelo sigilo, mas os prisioneiros foram saudados com vivas vibrantes ao embarcarem. O momento era de emoções intensas. Apesar de ser tarde da noite, os presos foram ovacionados, enquanto a composição do trem não saia da estação(202). A diretoria e o conselho consultivo da ACSP decidiram pela visita ao antigo presidente, Carlos de Souza Nazareth, como forma de apoio moral e manifestar a continuidade do apreço que este merecia pela postura firme e obstinada

O governo getulista puniu de forma rígida os revoltosos com o exílio de mais de setenta pessoas. Os principais líderes, como Carlos de Souza Nazareth, Altino Arantes, Pedro de Toledo, Júlio de Mesquita Filho, Francisco Mesquita, Ibrahim Nobre, Guilherme de Almeida, Paulo Duarte, Agildo Barata e Isidoro Dias Lopes foram deportados para Portugal, sendo embarcados primeiramente no navio D. Pedro I, passando em seguida para a embarcação Siqueira Campos. Nas fotos dos derrotados, a bordo da embarcação, o registro para a posteridade mostrava que apesar da derrota, os ideais paulistas estavam vivos e a dignidade dos combatentes também. Finda a revolução e estando em marcha as ações de punição, ocorreu, em 17 de outubro, a reunião das associações de classe de São Paulo para elaboração de uma moção de solidariedade ao presidente da ACSP. O encontro contou para representante da classe dos comerciantes, industriais, operários, contadores, engenheiros, proprietários, agricultores, estudantes e funcionários público que discutiram assuntos referentes àquela situação. Era a primeira vez que se fazia a reunião após o malogro da revolta e os reunidos

(200) A Gazeta, 6 de outubro de 1932.

(203) O Estado de São Paulo, 13 de outubro de 1932.

(201)

(204)

Ata da 2a Reunião do Conselho Consultivo. 12 de outubro de 1932, p. 234. (202) A Gazeta, 11 de outubro de 1932.

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O Estado de São Paulo, 15 de outubro de 1932.

(205) O Estado de São Paulo, 15 de outubro de 1932.

Finda a revolução e estando em marcha as ações de punição aos líderes, ocorreu, em 17 de outubro, a reunião das associações de classe de São Paulo para elaboração de uma moção de solidariedade ao presidente da ACSP.


Agliberto Lima/DC

reafirmavam o seu apoio a Carlos de Souza Nazareth(206). Várias entidades subscreveram a moção, destacando-se o apoio das Associações Comerciais de Presidente Prudente, Mogi das Cruzes, Rio Preto, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, bem como da Junta de Comércio(207). No dia 28 de outubro a imprensa noticiava que José Carlos de Macedo Soares, representante no Rio de Janeiro das associações de classe, daquele Estado, enviara um telegrama ao presidente em exercício da ACSP, Horácio de Mello, comunicando que: "Foi restituída a liberdade a todos os paulistas prisioneiros de guerra que se achavam nas Ilhas Grande e das Flores, exceção feita do ilustre dr. Francisco Mesquita que foi transferido para a Casa de Correção". Informava ainda que o Centro Paulista estava realizando a assistência a todos os necessitados(208). No dia seguinte, Carlos de Souza Nazareth escrevia mais uma vez, demonstrando a sua hombridade, dirigindo-se a todos os membros da ACSP, registrava o seu abraço a "todos amigos e companheiros diretoria pedindo transmitir diretorias demais associações não

esmorecer para desmerecer". No mesmo dia, a ACSP respondeu ao mesmo que já se encontrava a bordo do vapor D. Pedro I, afirmando: "Retribuímos calorosamente abraços desejando muitas felicidades querido amigo cuja ausência é grandemente sentida". O telegrama foi assinado por Horácio de Mello e demais membros da Diretoria da Associação Comercial de São Paulo(209). Em missiva dirigida ao Sr. Feliciano Lebre de Mello, escrita na Casa de Correição do Rio de Janeiro, Carlos de Souza Nazareth comunicava aos antigos companheiros o que lhe estava porvir: "Vou ser deportado! Cumpre até o fim o compromisso de honra que as classes conservadoras assumiram perante o povo de São Paulo, quando hipotecaram apoio incondicional ao Governo Pedro de Toledo. No depoimento que prestei, chamei, exclusivamente a mim, toda e qualquer responsabilidade que pudesse caber às classes conservadoras pela atitude que assumiram durante a revolução. Estou mais firme do que nunca. Para a felicidade do nosso país e o bom nome da nossa classe, suportarei todos os castigos que o Governo julgue por bem aplicar. Juro-lhe que não desmentirei o mandato que me confiaram os amigos"(210).

(206) O Estado de São Paulo, 19 de outubro de 1932

(209) Ata da 2ª Reunião Ordinária - 10 de novembro

(207)

O Estado de São Paulo, 25 de outubro de 1932.

(208) O Estado de São Paulo, 28 de outubro de 1932.

Os principais líderes foram presos, como aconteceu com o presidente da ACSP, Carlos de Souza Nazareth.

de 1932, p. 250. (210) Ata da 2ª Reunião Ordinária - 10 de novembro

de 1932, p. 249.

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O governo getulista puniu de forma rígida os revoltosos com o exílio de mais de setenta pessoas. Os líderes foram deportados para Portugal.

A derrota que se provou vitória A derrota imposta a São Paulo se deveu em grande parte ao isolamento do Estado que não contou com a adesão de outras unidades federativas. O fato é que todos clamavam pela necessidade de uma constituição que garantisse o direito de liberdade, porém, poucos de fato agiram ou estiveram dispostos a lutar por tal causa. Além disso, pode-se notar pelo que foi apresentado que o correr dos acontecimentos fez com que a revolução fosse deflagrada sem o planejamento estratégico estar devidamente concebido, bem como faltou uma melhor organização das forças militares. A morosidade com que as tropas se deslocaram contribui para que os revolucionários ficassem mais em posição de defesa do que de ataque. Deve-se tam-

bém ressaltar que a falta de experiência em combates deste tipo fez com que a maioria das ações fosse improvisada, faltando, por vezes, voz de comando e ousadia para que operações estratégicas fossem realizadas. Entre os militares havia divergências com relação aos procedimentos e também desavenças e rivalidades pessoais, que acabaram por prejudicar o êxito do movimento. Vários fatores tinham contribuído para o malogro da revolução. Sem dúvida, apesar das hesitações e falhas estratégicas militares, dentre outros problemas, o poder de mobilização da ACSP foi notório e reconhecido pela sociedade. A entidade foi capaz de reunir a população ao redor de uma questão cívica importante: a Constituição. A Revolução de 1932 estremeceu o poder de Getúlio Vargas, chamando a atenção para a urgência de se instalar um processo de redemocratização.

A luta dos paulistas pela constituição, que ceifou centenas de vidas, não foi em vão. Apesar da derrota, São Paulo conquistou o seu intento que era a promulgação da constituição que ocorreu em 1934 e a defesa de eleições sem fraudes, sendo criado para tanto a Justiça Eleitoral. A ACSP havia cumprido a sua missão.

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NAZARETH

Carlos de Souza Nazareth (l899-1951)

A

Rua Carlos de Souza Nazareth, na região central de São Paulo, parece homenagear a inquietude de quem lhe emprestou o nome. Esta característica de Carlos ficou particularmente assinalada durante o biênio 1932/33 em que foi o 18º presidente da Associação Comercial de São Paulo, no qual assumiu as responsabilidades de ser um dos principais líderes da Revolução de l932. Tinha 33 anos, a idade emblemática dos martírios, circunstância que faz saltar aos olhos seu frescor vivo e desassombradonas fotografias da ocasião. É de se perguntar porque decidiu cumprir tal destino. O escritor Liev Tolstoi (1818-1910) sugere uma resposta no livro "Guerra e Paz", quando Napoleão Bonaparte resolveu interrogar um jovem tenente austríaco, após vencer a batalha de Austerlitz, em 2 de dezembro de 1805. "Tão moço e já veio se meter conosco", indagou. "Não é necessário ser velho para demonstrar coragem", replicou o prisioneiro. Ao que o imperador completou. "Bem respondido". Mas no caso de 1932 havia algo a mais do que vencer uma guerra. Era preciso prevalecer o vigor de uma ideia consagrada pelos direitos centenários da civilização. É nessa fonte que Carlos de Souza Nazareth foi beber. Infelizmente os registros a respeito são precários, mas não é difícil de supor que ele a encontrou naquilo que se convencionou chamar de berço. E aqui emerge a figura do seu pai, Miguel Romão de Souza Nazareth. A notícia mais extensa a seu respeito, referente à sua morte, encontra-se na edição de 10 de agosto de l934 do jornal "Correio de S. Paulo". Ele é descrito como um imigrante português que aportou em São Paulo e que, ao falecer, ostentava um currículo marcado pelo esforço e empreendedorismo. Participou da fundação da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em sete de dezembro de l894 e, posteriormente, da Bolsa de Mercadorias. Também esteve entres os que criaram o Clube Commercial de São Paulo, onde seu filho iria viver um momento de glória, como se verá adiante. Carlos era o primogênito dos seus três rapazes, nascido em l899. Ao chegar à idade escolar, Miguel o matriculou no Ginásio Anglo-Brasileiro que era uma espécie de forja de figuras a terem destaque na condução da sociedade paulista. Não por acaso, foi, naqueles bancos escolares, contemporâneo de Adhemar de Barros, que viria a ser seu algoz na Revolução Paulista, e, mais tarde, prefeito da Capital e governador do Estado. A escola, em principio, fora criada para abrigar crianças e jovens da refinada colônia inglesa da Cidade. O colégio funcionou até l918 em um casarão da Avenida Paulista, esquina com a Bela Cintra, lugar em que está instalado o Colégio São Luiz. Certamente Carlos de Souza Nazareth figurou entre suas últimas turmas. Nessa altura já estava apto a trabalhar nas empresas do pai, confirmando a constatação de que sua trajetória

José Maria dos Santos

foi marcada pelas pegadas paternas. Era natural que fosse eleito presidente da Associação Comercial de São Paulo em 21 de janeiro de 1932. O jornal "O Estado de S. Paulo" informa que o pleito, na sede da entidade, então na Rua José Bonifácio 12, no Centro, transcorreu das nove da manhã às 17h e que o novo presidente iria ter no seu conselho consultivo figuras expressivas como José Carlos de Macedo Soares (l883-l968) e Gastão Vidigal (1889-1950) - ambos também futuros presidentes. Sua gestão começou e terminou com dias turbulentos. Já na sua posse, em 10 de fevereiro de l932, prenunciava-se a guerra que iria eclodir em julho daquele ano. Nesse período, em todos os momentos, ele colocou a Associação Comercial de São Paulo na vanguarda dos acontecimentos. Isto explica a razão de haver sido homenageado com concorrido almoço no Clube Commercial, no qual estavam representadas todas as forças vivas do Estado de São Paulo, de empresários a trabalhadores e estudantes, segundo publicou "O Estado de São Paulo" em página inteira na sua edição de 19 de junho de l932. O motivo da homenagem se deveu à sua atuação assomada "nas jornadas de Maio", cujo principal evento foi o fuzilamento de manifestantes em favor do retorno institucional à Democracia na esquina da Praça da República com Barão de Itapetininga. O fato resultou na morte dos jovens que originariam o MMDC e deflagrariam a Revolução dois meses depois. Podemos também encontrá-lo, com a guerra já aberta, ocupando o microfone da Rádio Educadora Paulista para instruir a indústria e o comércio no sentido de impedir a alta de preços, controlar os estoques e garantir empregos e salários aos trabalhadores que se alistavam para lutar.Estava entre os mais procurados pelo governo getulista após a derrota de São Paulo. Carlos de Souza Nazareth ficou preso na Casa de Correção do Rio até seguir para o exilio de dois anos em Portugal. Os caminhos da História são caprichosos e muitas vezes fazem dos derrotados de hoje os vencedores de amanhã. Em l934 Carlos de Souza Nazareth, legitimamente eleito, era deputado na Assembleia Constituinte que votou a buscada Constituição e o realinhamento institucional do País. Em l937, Getúlio Vargas daria golpe de estado que levaria à ditadura do Estado Novo. Desta vez o Estado de São Paulo, ainda lambendo as feridas, não tinha como reagir. Em 28 de março de l951 uma doença do coração, provavelmente agravada pela amargura dos anos de chumbo, deu fim à sua vida. Está no Obelisco, que celebra a Revolução de 32 no Parque do Ibirapuera. Era jovem, aos 52 anos. Tudo indica que esse traço esteve presente nos momentos mais importantes da sua vida. Temperou os seus caminhos.

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Homenagem aos heróis de 32

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onhecido pelos paulistanos como Obelisco do Ibirapuera, o Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista foi projetado pelo arquiteto Galileo Emendabile. Possui 77 metros de altura, ocupando uma área de 21 mil m². Em seu interior há uma cripta de 1.400 m², com painéis homenageando os soldados que morreram em batalha.

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DIGESTO ECONÔMICO MAIO/JUNHO 2012 Douglas Cometti/Folhapress


Foto do arquiteto Galileo Emendabile no interior do Mausoléu, onde se encontra uma cripta-igreja com 5 metros de altura e que comporta até 3 mil pessoas.

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Digesto Econômico nº 468 by Diário do Comércio - Issuu