Skip to main content

Diário do Comércio - 25 e 26/12/2013

Page 1

São Paulo, quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

R$ 1,40

www.dcomercio.com.br

Jornal do empreendedor

Conclusão: 23h35

Ano 90 - Nº 24.028

Nada vai escapar das garras do Leão digital Para 2014, a grande novidade do Fisco é o e-Social, que consiste no envio de informações da área trabalhista no formato digital. É o Leão fechando o cerco. Pág. 11

Página 4

Tragédias da chuva sem trégua Pelo menos 35 pessoas já morreram por causa dos temporais no ES e RJ. Em São Paulo, ontem foi dia de alagamentos. Pág.8 Reuters/Osservatore Romano

Papa reza pela paz e pede ajuda de ateus

LEITURA

Bombas explodem e matam 15 durante missa de Natal e 35 num mercado em área cristã (foto). Pág. 7

Líder da Era Mao pede desculpas em público Filho de fundador do PC critica Revolução Cultural

Ahmed Malik/Reuters

NYT

A paz, longe do Iraque: bomba na igreja.

NYT

Em seu primeiro discurso de Natal, Francisco diz que é preciso abençoar os cristãos do Iraque vítimas da violência. Pede pela África, pela união entre Palestina e Israel. E exorta os ateus a lutarem pelo fim da violência. Pág. 7

10% 86% ACENDEM APAGAM Prestes a completar um ano na prefeitura, Haddad já tentou aumentar o IPTU, acabar com a inspeção veicular e criou as faixas para ônibus. E sofreu várias derrotas. O "poste de Lula", como ele mesmo se definiu, está aceso ou apagado? Acima, resultados parciais. Vote: www.dcomercio.com.br

Império do lápis não quer ser apagado A alemã Faber-Castell permanece competitiva enfrentando as novas tecnologias digitais. Pág. 14


DIÁRIO DO COMÉRCIO

2

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

Para o bem ou para o mal, os números foram antecipados e sinalizam um ambiente morno. Manuelito Magalhães Júnior

A QUEBRA DA

SXC

CONFIANÇA oberto Campos já defendia a poupança nacional como instrumento de desenvolvimento econômico. E dizia que era melhor termos sócios estrangeiros do que financiadores. Uma pena que não tenha sido ouvido. O Brasil só faz aumentar sua dívida interna e assiste o seu risco fazer crescer os juros pagos no mercado internacional. Basta constatar que os bancos oficiais, nos seus papeis perpétuos, chegaram a marca dos 10% ao ano, quando as instituições sólidas dos países desenvolvidos mal chegam aos 2%. E, depois, os ditos "nacionalistas" voltarão à defesa do calote sob a alegação de que "somos explorados pelos juros exorbitantes".

R

DOS TOMATES

ócios ficam cada vez mais difíceis para empreendimentos médios, que formam a grande fatia do mercado. Nosso mundo empresarial está reduzido a meia dúzia de conglomerados endividados e a outra de estatais aprisionadas à intervenção e à dominação do Estado. A Petrobras sempre foi o segundo melhor negócio do mundo, que é o petróleo mal administrado. Hoje, nem isso. A Eletrobrás, de excelência na gestão e na tecnologia, está esvaziada em suas fontes de renda, com seu patrimônio comprometido pelo fim das concessões. E os bancos oficiais, com uma alta concentração de financiamentos na infraestrutura e nas "parcerias". Nossa economia é respeitada, uma vez que não se pode ignorar uma população e um território de nossas dimensões. Mas não conseguiremos ter a credibilidade, }a qualidade de vida e a renda "per capita" da Holanda, da Bélgica ou de Luxemburgo.

S

AOS AIRBAGS m ano tão dado a trapalhadas, recuos, palpites e, digamos, pródigo em criatividades contábeis, como foi 2013, não poderia mesmo terminar sem mais desencontros. Alegar razões econômicas para tentar adiar a obrigatoriedade do airbag - medida prevista desde 2009 - foi,para dizer o mínimo, infantil. Airbags salvam vidas. É objetivo. A inflação sob controle (mesmo à custa de trapalhadas) pode salvar uma eleição. Foi nesse aspecto que o governo se agarrou para tentar beneficiar (mais uma vez) a indústria automobilística, em detrimento da segurança dos motoristas e passageiros de nossos carros. Foi um fim de ano desastroso para o ministro das finanças. Talvez ele mesmo precisasse de airbags para se proteger dos próprios aliados, quando declarou em um seminário em São Paulo que "nosso país cresce com as duas pernas mancas". Nem a oposição conseguiu produzir arranhões tão vigorosos na imagem do governo como a declaração jactada por sua excelência!

U

frase, que logo alcançou fama, referia-se a dois fatos que, na visão d o g o v e rn o , i m p e d e m u m crescimento mais vigoroso: a crise econômica mundial e o baixo financiamento ao consumo. Seria o caso de perguntarmos, de volta, ao ministro, se os demais países em desenvolvimento, que tem se saído melhor que o Brasil, estão tão sujeitos quanto nós às turbulências da economia global? Ou, olhando de outra modo, o que andam fazendo estes países, diferentemente de nós, para ficarem imunes às consequências da crise?

A

MANUELITO MAGALHÃES JÚNIOR Quanto ao consumo, será que tão somente o governo ainda não percebeu o esgotamento do modelo de crescimento baseado no consumo das famílias? Começamos o ano falando sobre a inflação. O tomate e seu preço astronômico, em determinado momento, viraram hit da rede mundial de computadores, acordando o Brasil para o problema da ascensão dos preços. omo o problema não foi enfrentado a contento, terminamos o ano tocando a mesma nota do samba. A inflação é, de longe, o maior risco econômico a impactar nas próximas eleições. E se transformou de pauta econômica em pauta política. Isso explica tanto esforço do governo em comprimir os preços administrados (gasolina, energia elétrica, transportes, etc), para estancar as consequências da hemorragia monetária, provocada por fatores que são muito "caros" ao governo, dentre eles a falta de responsabilidadefiscal, o des-

C

controle nos gastos públicos e a desorganização da economia, essa cada vez maior. Houve, é claro, tentativas de retomaro discurso e a iniciativa. Talvez por orientação de marketing, o governo,diferente de anos anteriores, tem mostrado algum equilíbrio em suas previsões, não se furtando a emitir sinais de que 2014 não será mesmo um ano para ficar na história, pelo menos não na econômica. epois de romper 2013 trombeteando previsões de crescimento acima dos 4% e ver o número mal ultrapassar os 2%, a previsão para 2014 é mais humilde, oscilando entre 2% e 2,5%. Menos mal, embora fique clara a intenção de polir este número até ficar parecido com ouro... Mas não será suficiente para afastar as nuvens sombrias sobre a economia. Dezembro se despede batendo recordes de estatísticas ruins. Segundo o Banco Central , nosso resultado para o setor externo, no período entre janeiro e novembro de 2013, é o pior desde que aquele órgão passou a registrar os dados, no longínquo ano de 1947. O déficit em 2013 já bateu na casa dos US$ 73 bilhões e as previsões são de fecharmos o ano com uma conta negativa superior a US$ 79 bilhões. Para 2014, a previsão do BACEN não faz rodeios e crava US$ 78 bilhões de déficit nas contas externas. A título de curiosidade, este ano o déficit da

D

Dezembro se despede com recordes de estatísticas ruins. E a inflação é o maior risco a impactar as próximas eleições.

Petrobras baterá em algo próximo a US$ 29 bilhões e para o ano que vem, na melhor das hipóteses, ficará próximo a US$ 23 bilhões. Desse jeito, não há exportação contábil (e criativa) de plataforma de petróleo que dê jeito no caixa da empresa, que precisa de dólares verdadeiros para pagar suas contas. E não há muito mais espaço para o governo atacar o bolso do contribuinte para aliviar o seu caixa. O próprio governo divulgou há pouco que, em 2012, enquanto oPIB cresceu 1%, a carga tributária cresceu mais de 2,4%, alcançando 35,9% do PIB.Nunca se pagou tanto imposto no país e nunca seproduziu resultados tão medíocres...Não é demais relembrarmos que, em meados deste ano, multidões foram às ruas reclamar "contra tudo isso que está aí". egra geral,esse é um momento propício para balanços sobre o ano findo e para previsões sobre o que se iniciará. Mas, pelo visto, para acertar o futuro, neste caso, basta olhar para o passado recente... Os dados convergem para um ano mais ou menos parecido com 2013, vez que a ordem é não fazer marola em ano eleitoral. Assim, para o bem ou para o mal, os números foram antecipados e sinalizam um ambiente morno, deixando as surpresas e sobressaltos para o ringue eleitoral. Mas, como eleição e emoção andam de braços dados, não custa, caro leitor, manter o seu airbag em dia, porque o embate será duro. Melhor estar preparado e feliz 2014! MANUELITO P. MAGALHÃES JÚNIOR É ECONOMISTA E DIRETOR DA COMPANHIA DE SANEAMENTO BÁSICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (SABESP).

R

ARISTÓTELES DRUMMOND País só faz aumentar sua dívida interna e risco Brasil eleva juros no mercado internacional.

Estamos mal avaliados em saúde, educação, tributação, portos, estradas e aeroportos. E já não somos atraentes para bons executivos ou cientistas em função da violência urbana. E sem falar nos riscos da corrupção... erminamos o ano razoavelmente bem, pelo quadro mundial estar indefinido. Mas em 2014 virá a conta, vêm as eleições, pode vir o desespero, do qual o caso do "air bag" é uma prova dos limites da caricatura a que chegamos. Nosso modelo é visivelmente "bolivariano", ignorando o conceito que nossos amigos preferenciais usufruem junto aos países mais respeitados. Nossos políticos exploram a fragilidade, quando não o desespero da população brasileira e continuam a agir em função da próxima eleição e não das próximas gerações. Não é mesmo à toa que faltam sócios ; ainda temos investidores financeiros, que correm o risco pelos juros altos, mas cuja capacidade de pagamento é cada vez mais alvo de dúvidas. Nosso risco é econômico, político e social. Somos um país que vem se aperfeiçoando na arte de perder oportunidades.

T

ARISTÓTELES DRUMMOND É JORNALISTA E VICE-DIRETOR DA

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO RIO DE JANEIRO SXC

Presidente Rogério Amato Vice-Presidentes Alfredo Cotait Neto Antonio Carlos Pela Carlos Roberto Pinto Monteiro Cesário Ramalho da Silva Edy Luiz Kogut João Bico de Souza José Maria Chapina Alcazar Lincoln da Cunha Pereira Filho Luciano Afif Domingos Luís Eduardo Schoueri Luiz Gonzaga Bertelli Luiz Roberto Gonçalves Miguel Antonio de Moura Giacummo Nelson Felipe Kheirallah Nilton Molina Renato Abucham Roberto Mateus Ordine Roberto Penteado de Camargo Ticoulat Sérgio Belleza Filho Walter Shindi Ilhoshi

Fundado em 1º de julho de 1924 CONSELHO EDITORIAL Rogério Amato, Guilherme Afif Domingos, João Carlos Maradei, Marcel Solimeo Diretor de Redação Moisés Rabinovici (rabino@acsp.com.br) Editor-Chefe: José Guilherme Rodrigues Ferreira (gferreira@dcomercio.com.br). Editor de Reportagem: José Maria dos Santos (josemaria@dcomercio.com.br). Editores Seniores: chicolelis (chicolelis@dcomercio.com.br), José Roberto Nassar (jnassar@dcomercio.com.br), Luciano de Carvalho Paço (luciano@dcomercio.com.br), Luiz Octavio Lima (luiz.octavio@dcomercio.com.br), Marcus Lopes (mlopes@dcomercio.com.br) e Marino Maradei Jr. (marino@dcomercio.com.br). Editores: Cintia Shimokomaki (cintia@dcomercio.com.br), Heci Regina Candiani (hcandiani@dcomercio.com.br), Tsuli Narimatsu (tnarimatsu@dcomercio.com.br) e Vilma Pavani (pavani@dcomercio.com.br. Subeditores: Rejane Aguiar e Ricardo Osman. Redatores: Adriana David, Evelyn Schulke, Jaime Matos e Sandra Manfredini. Repórteres: André de Almeida, Karina Lignelli, Kety Shapazian, Lúcia Helena de Camargo, Mariana Missiaggia, Paula Cunha, Rejane Tamoto, Renato Carbonari Ibellis e Sílvia Pimentel. Editor de Fotografia: Agliberto Lima. Arte e Diagramação: José dos Santos Coelho (Editor), André Max, Evana Clicia Lisbôa Sutilo, Gerônimo Luna Junior, Hedilberto Monserrat Junior, Lino Fernandes, Paulo Zilberman e Sidnei Dourado. Gerente Executiva e de Publicidade Sonia Oliveira (soliveira@acsp.com.br) Gerente de Operações Valter Pereira de Souza (valter.pereira@dcomercio.com.br) Serviços Editoriais Material noticioso fornecido pelas agências Estadão Conteúdo, Folhapress, Efe e Reuters Impressão S.A. O Estado de S. Paulo. Assinaturas Anual - R$ 118,00 Semestral - R$ 59,00 Exemplar atrasado - R$ 1,60

FALE CONOSCO E-mail para Cartas: cartas@dcomercio.com.br E-mail para Pautas: editor@dcomercio.com.br E-mail para Imagens: dcomercio@acsp.com.br E-mail para Assinantes: circulacao@acsp.com.br Publicidade Legal: 3180-3175. Fax 3180-3123 E-mail: legaldc@dcomercio.com.br Publicidade Comercial: 3180-3197, 3180-3983, Fax 3180-3894 Central de Relacionamento e Assinaturas: 3180-3544, 3180-3176 Esta publicação é impressa em papel certificado FSC®, garantia de manejo florestal responsável, pela S.A. O Estado de S. Paulo.

REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E PUBLICIDADE Rua Boa Vista, 51, 6º andar CEP 01014-911, São Paulo PABX (011) 3180-3737 REDAÇÃO (011) 3180-3449 FAX (011) 3180-3046, (011) 3180-3983 HOME PAGE http://www.acsp.com.br E-MAIL acsp@acsp.com.br


DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

3

MAIS DO QUE QUALQUER COISA, SER "COOL" É UMA QUESTÃO DE COMPORTAMENTO .

O presidente do "cool" ISHMAEL REED Divulgação

uando vivia em Nova York, no início dos anos 1960, o presidente John F. Kennedy era um herói para a turma artística do centro da cidade – não por conta de alguma conquista legislativa ou da política externa, mas porque havia perdoado o pianista de jazz Hampton Hawes. Hawes era um pianista de bebop com uma técnica tão brilhante com a mão direita que era admirado até por Art Tatum, considerado por muitos o maior pianista da história do jazz. Hawes havia recebido uma pena de 10 anos, na prisão de Fort Worth, por comprar drogas de um policial disfarçado. "Pouco depois do meu terceiro Natal na prisão, estava assistindo o presidente John Kennedy assumir a presidência", escreveu Hawes mais tarde. "Alguma coisa nele, sua voz, os olhos, a forma como estava ali, brilhante e sem casaco, orgulhoso no ar frio... Eu pensei que aquele era o cara certo: ele parece ter alma e talvez me escute". Hawes fez o pedido de perdão e foi dispensado de cumprir a pena em 16 de agosto de 1963. Os democratas têm uma maior afinidade com o jazz do que os republicanos. Até mesmo Jimmy Carter, que está longe de ser um " hipster", convidou Dizzy Gillespie para tocar na Casa Branca. Porém, entre os democratas, o presidente Obama é o que chega mais perto do estilo de bebop conhecido como "o cool".

Q

ons exemplos de "cool jazz" são, por exemplo, o saxofone de Lester Young e Stan Getz, seu protegido; o trompete de Miles Davis (em especial no disco de 1957, Birth of the Cool); o vibrafone de Milt Jackson e o estilo das canções de Billie Holiday, Sarah Vaughan e June Christy. Assim como o presidente, os músicos "cool" se comportavam com um porte real. Alguns membros da geração anterior eram obrigados a fazer palhaçadas de menestrel se quisessem viver daquilo. Os músicos "cool" exigiam respeito e, quando eram atacados, não estouravam; assim como o presidente, reagiam de forma estoica.Uma de suas palavras prediletas é "persistência", a atitude de seu herói, o saxofonista Sonny Rollins, o maior representante da geração bebop que continua em atividade. Durante algum tempo, em meados do século 20, o "cool" estava em toda a parte. Como jovens dos anos 50, meus amigos e eu falávamos "cool" e nos vestíamos da mesma forma. Para nós, se você não fosse "cool", era esquentado, quadrado, ou cafona. Por sinal, nós achávamos que Louis Armstrong era esquentado e cafona demais – até que ficamos sabendo de sua disputa com o presidente Dwight D. Eisenhower em relação à integração escolar. Armstrong tinha colhões.

vered California, tenha mostrado como a Lei da Saúde Acessível funciona quando é implementada da forma correta: minha filha mais velha recebeu um plano "silver", que reduziu drasticamente a mensalidade do plano de saúde apenas uma hora depois de ela se inscrever.) Uma das marcas registradas dos músicos "cool", como Spalding no início daquela noite, é a intensidade e o foco que se esconde por baixo do exterior despreocupado. O mesmo poderia ser dito a respeito de Obama naquela noite. O presidente falou repetidas vezes sobre sua versão do sonho americano, de que todos que trabalham podem ser bem sucedidos, não importa de onde você venha. Seus discursos mais recentes abandonaram a retórica do "amor durão" voltada exclusivamente para os negros; agora ele inclui milhões de brancos quando fala de uma "rede de patologias", algo que o cientista social Andrew Hacker notou pela primeira vez no livro Two Nations ("Duas nações"), publicado em 1992. Em determinado momento, alguém na plateia começou a protestar contra Obama, exigindo que ele fosse mais agressivo com as questões progressistas no legislativo. O presidente respondeu, sem pestanejar: "Muitas pessoas têm me dito isso nos últimos tempos, sobre qualquer problema. Assine uma ordem executiva e podemos fazer qualquer coisa". Isso porque a Constituição afirma que as coisas não podem ser assim. Então, o presidente do "cool" foi embora para fazer um outro discurso em Los Angeles.

B

ecentemente tive a oportunidade de ver o " presidente do cool" no San Francisco Jazz Center, um prédio de 64 milhões de dólares, inaugurado no início do ano. Estou em meu segundo mandato como poeta laureado na instituição e um dos meus poemas, When I Die I Will Go to Jazz ("Quando morrer vou para o

R

O jazzista Sonny Rollins: para Obama, uma inspiração e uma ajuda nos dias difíceis,mais conturbados, ou quando tem de tomar decisões difíceis.

m 2010, Obama entregou a Medalha Nacional de Artes e Humanidades para Rollins, o saxofonista. Muitas vezes, existe um abismo entre as pessoas que recebem a medalha e aquela que a entrega. Afinal, o que um presidente sabe sobre teatro ou arquitetura? Naquele dia foi diferente. Quando Sonny Rollins recebeu a medalha, o presidente disse que a música dele "ajudou a me inspirar, a enfrentar um dia difícil ou assumir riscos que eu não teria corrido em outras situações". É uma brasa, mora! – para usar uma expressão que hoje é considerada fora de moda, cafona. ISHMAEL REED É DRAMATURGO, AUTOR DA PEÇA "THE FINAL VERSION", QUE ESTÁ SENDO APRESENTADA NO NUYORICAN POETS CAFE, EM NOVA YORK. THE NEW YORK TIMES NEWS SERVICE/SYNDICATE –

E jazz", em tradução literal) foi instalado em uma das paredes do prédio ,em uma viela cujo nome é uma homenagem a Hawes, e por isso fui convidado ao evento. O pianista que apresentou a cerimônia, Herbie Hancock, é "cool". Ele foi acompanhado por outros músicos "cool", como o saxofonista Joshua Redman e a baixista Esperanza Spalding, que tocava tão intensamente que parecia grudada ao instrumento. Outra atração no evento foi a SFJazz High School All-Stars, formada por um grupo de estudantes brancos, negros e asiáticos. Um dos graduados, a jovem flautista Elena

Pinderhughes, se apresentou ao lado de um trio e se saiu muito bem. Contudo, a coisa estava esquentada do lado de fora. Manifestantes contra tudo, dos drones militares aos oleodutos, receberam a comitiva do presidente Obama quando ela chegou. epois de ser apresentado, o presidente Obama pulou rapidamente no palco. Alguns dias antes, alguém havia dito que ele parecia estar por baixo nos últimos tempos. Naquela tarde parecia fresco e tranquilo – em outras palavras, "cool" (talvez porque o programa de seguro-saúde do nosso estado, o Co-

D

ecebi do leitor RRS uma frase de Abraham Lincoln – servindo de contraponto a algumas outras ditas por chamadas "celebridades", entre elas o Rei Pelé, a quem respeito imensamente – e que tomo a liberdade de compartilhar com os leitores, servindo de provocação para que selecionem e me enviem outras no mesmo teor de que tomarem conhecimento. Alguns exemplos enviados pelo leitor: Xuxa disse: "Acho uma perda de tempo ficar criticando o governo com tanta coisa boa acontecendo." Pelé disse: "O dinheiro roubado dos estádios será recuperado com o turismo." Ronaldo Fenômeno disse: "Copa do Mundo não se faz com hospitais". E há cerca de dois séculos, Lincoln disse: "Às vezes é melhor ficar calado e deixar que as pessoas pensem que você é um imbecil, do que falar e acabar de vez com a dúvida."

R

Ao longo deste ano de 2013, a caminho de seu final, ouvi e li tantas frases de políticos, governantes, esportistas, celebridades, semicelebridades, apresentadores de TV etc, que se encaixam na definição do ex-presidente dos Estados Unidos, que imaginei como seria curioso, para fins instrutivos de saber calar a boca, tê-las colecionado. Certamente, escrevendo uma coluna por mais de trinta anos, como faço neste Diário do Comércio, o mesmo pode se aplicar a muita coisa que aqui já deixei registrado. provocação ao leitor é para que em 2014, já com meus votos de saúde e sucesso, as frases que se encaixem na definição perfeita de Lincoln me sejam enviadas. Inclusive, as que eu mesmo escrever. Assim vamos diminuindo o risco de dar credibilidade a quem fala sem pensar. (eu ao menos tento pensar antes) para nos afastarmos da mediocridade intelectual que assola o País.

A

SXC

MENOS CORRUPÇÃO E MEDIOCRIDADE

O Brasil vive e viveu também neste ano que se encerra dois tipos de epidemia. A primeira, já transformada em pandemia, é a corrupção. Grassou no solo pátrio o mais violento surto de corrupção de que se tem registro no âmbito do poder público. A iniciativa privada, com sua banda podre, contribui e a situação ganhou contornos de praga generalizada. Tudo e todos são e somos corruptos. Varia o grau. Mas o gênero está sedimentado na vida nacional e praticado

de forma incalculável nas esferas do poder público, e em todos os rincões do país tropical. A outra é a mediocridade. Sem querer assumir ares de superioridade ou veleidades supérfluas, não ficarei surpreso se for incluído nesse rol, que, igualmente, transformado em pandemia, faz do Brasil o paraíso da mediocridade, onde até postes são eleitos para cargos fundamentais. iceja território adentro o império do supérfluo, da fama perseguida a qualquer

V

custo, da busca do enriquecimento ilícito ou fácil, dos quinze minutos de glória e da ausência total de discernimento mínimo entre o razoável e o ridículo. Os meninos sonham e ficar famosos e ricos através do futebol e as meninas sonham em ficar famosas e ricas através da carreira de modelo ou atriz. Raramente, e isso incide mais nas camadas humildades, não se vê alguém sonhar em ser cientista, pesquisador, escritor ou especialista em algum ramo de progresso da humanidade. Até pela falta de condições. É compreensível porque os meios de comunicação de massa também incentivam com suas novelas tolas a fantasia de que o motorista pobre vai conquistar a empresaria rica e a faxineira sem estudo vai ver o médico famoso por ela se empolgar e querer se casar. Até é possível, mas nenhum autor pensa em promover nas pessoas a vontade de em vez de receber esmolas que as manterão pobres a vida

PAULO SAAB

inteira, ganhar condições iguais de acesso à informação, ao ensino e buscar melhora de vida pelo conhecimento e não pela fama sem sustentação. estímulo para que semianalfabetos se transformem da noite para o dia em famosos artistas é tão estimulador da mediocridade como a falta de políticas públicas voltadas para de fato melhorar a qualidade intelectual de nossa população. Meus votos para que 2014 seja menos corrupto e menos medíocre para nosso país.

O

PAULO SAAB É JORNALISTA E ESCRITOR


4

DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013


DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

5

Aceso ou apagado: votação continua. s leitores Diário do Comércio continuam participando da enquete que escolherá se o "poste" Fernando Haddad está aceso ou apagado. Ontem, a votação apontava que 86% das pessoas

O

consideravam o "poste" apagado e somente 10% aceso. O re s u l t a d o f i n a l s e r á d i v u l g a d o n o d i a 1 º d e j a n e i ro. Participe também e vote em www.dcomercio.com.br.

Evangélicos na política: 30% a mais em 2014. Bancada espera passar dos 73 para até 95 parlamentares e ocupar cerca de 18% das cadeiras disponíveis. Frente Parlamentar Evangélica da Câmara dos Deputados projeta um crescimento de 30% nas eleições do ano que vem. Espera passar dos atuais 73 parlamentares para até 95 – ocupando algo em torno de 18% das cadeiras disponíveis. Especialistas não acham difícil que isso ocorra, pois o grupo nunca teve tanta força como agora. E, em ano de sucessão presidencial, o poder de fogo desse setor da sociedade deve ficar ainda maior. Nas últimas eleições – em 2010, por exemplo – temas caros aos evangélicos, como o aborto, pautaram a disputa direta entre os candidatos Dilma Rousseff e Jose Serra (PSDB).

A

Juliana Knobel

Deputado Jean

Wyllys

"A presença dos evangélicos nunca foi tão grande. O debate (pautado pelo grupo) cresceu em eleições e no Legislativo", afirma a cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Maria do Socorro Sousa Braga. Para o único parlamentar assumidamente homossexual do Brasil, o deputado Jean Wyllys (PSol-RJ), os partidos ligados aos religiosos já estão se esforçando para pautar as eleições com a temática contra o casamento gay, o aborto e a criminalização das drogas: "Querem, de maneira geral, rebaixar o debate para questões morais e comportamentais", explica ele. FIDELIDADE Os evangélicos representam, atualmente, um total de 22% de toda a população brasileira, segundo o IBGE. O voto deles é marcado pela fidelidade aos seus líderes religiosos. "Há um confronto (dos evangélicos) em relação às questões morais e aos novos posicionamentos (de grupos LGBT). Nesse debate os evangélicos são reforçados por integrantes de outras religiões também, vários representantes católicos passam a apoiar as teses desses parlamenta-

Roberto Stuckert Filho

Proximidade do PT e evangélicos desagrada gays força dos políticos evangélicos, que se apoiam em cadeias de rádio e tevê, tem provoca um resfriamento nas relações entre o PT e os movimentos de defesa dos direitos gays. Para representantes dos movimentos de combate à homofobia, o novo cenário teria como causa o desejo de continuidade no poder do PT. ara manter sua base de apoio e garantir a reeleição, o governo da presidente Dilma Rousseff estaria fazendo cada vez mais concessões a setores ultraconservadores, representados na maioria, pela bancada evangélica. Do total de 97 proposições que tramitam no Congresso envolvendo assuntos relacionados aos gays, 38 são de autoria de petistas, segundo a pesquisa Estudo Sobre Direitos Sexuais, com patrocínio do Ministério da Justiça. Oswaldo Braga, coordenador de projetos do Movimento Gay de Minas, lembra que, em 2011, a presidente Dilma vetou a distribuição de material educativo sobre diversidade sexual em escolas; e, em 2012, mandou retirar do ar o vídeo que estimulava o uso de preservativo entre jovens homossexuais. "Os evangélicos pressionaram e a propaganda não foi veiculada", afirma. A prova mais recente da guinada petista teria ocorrido semana passada, no Senado. Ao votarem o Projeto de Lei 122 de 2006, que criminaliza a homofobia, assim como racismo e o antissemitismo, os senadores decidiram anexá-lo ao debate do projeto do novo Código Penal. Essa era a solução que menos interessava aos gays, porque vai arrastar o debate ainda por vários anos. (Estadão Conteúdo)

A Presidente busca melhorar relacionamento com religião e recebe evangélicas no Palácio. res", diz Maria do Socorro. A professora da UFSCar lembra que, no caso dos candidatos à Presidência, sempre há uma tentativa de aproximação estratégica com os grupos religiosos. Ela afirma que tal aproximação, porém, tem de ser feita de forma moderada a fim de não causar rejeição de outros eleitores. INTERESSES Além de questões como o aborto e o casamento gay, os representantes dos evangélicos no Congresso têm outras áreas de interesse, como a de concessões de rádio e de televisão – por causa de programas e canais, comerciais e comunitários, ligados às igrejas. Há ainda projetos específicos caros ao setor. Um deles é o que dá poder às igrejas para contestar leis junto ao Supremo Tribunal Federal. O texto já passou pela Comissão de Constituição e Justiça e aguarda agora o crivo de mais uma comissão antes de ir a plenário. A aprovação desse projeto será uma das prioridades dos evangélicos em 2014. O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado João Campos (PSDB-GO), afirma que a atuação cada vez maior dos evangélicos no campo da política vai acabar ajudando a impulsionar a expansão da bancada. Mesmo evitando falar em um candidato à Presidência

com apoio da frente evangélica, Campos afirma que o grupo não deve abrir mão de seus posicionamentos: "Sou do PSDB e meu candidato é o Aécio, mas não vou proteger ele, todos os temas relacionados com a defesa da vida, da família natural, à liberdade religiosa, que são valores da sociedade, os candidatos terão que se posicionar". FORÇA NA MÍDIA O pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), que ficou conhecido após comandar durante este ano a Comissão de Direitos Humanos na Câmara, se coloca como um dos responsáveis pelo eventual crescimento do número de deputados ligados a religiões no ano que vem. "A minha participação na Comissão despertou católicos, evangélicos e espíritas", afirma Feliciano, segundo quem já há uma forte procura de outros políticos para que ele apareça em parcerias em santinhos no ano que vem. O pastor-deputado Feliciano protagonizou, na presidência da Comissão de Direitos Humanos, uma série de polêmicas – sendo alvo de protestos constantes, no Distrito Federal e em outros Estados – e conseguiu aprovar no colegiado até projetos tidos como homofóbicos. O cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Gustavo da

Costa Santos, lembra que, apesar da alta exposição de Feliciano, sua atuação na Comissão de Direitos Humanos também gerou repercussão negativa em parte do eleitorado. "Toda sua exposição explicitou o quão caricato são essas figuras, como ele que assumiu a comissão para promover a pauta da sua visão de mundo da religião e não dos direitos humanos". DILMA SE APROXIMA Nem mesmo a presidente Dilma Rousseff escapou dos afagos evangélicos. Em julho deste ano ela recebeu 16 cantoras e bispas em audiência no Palácio do Planalto. O encontro foi organizado pelo ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella ( também evangélico). O ministro disse que o encontro foi solicitado pelas mulheres evangélicas, que queriam se aproximar e prestar solidariedade à presidente. "Ninguém veio pedir nada. Não teve pauta de reivindicação. Foi apenas encontro de mulheres."Participaram da aproximação o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, cantoras e a fundadora da Igreja Renascer em Cristo, a bispa Sonia Hernandes. Segundo uma das cantoras, Dilma "fez promessa de melhorias." (Agências)


DIÁRIO DO COMÉRCIO

6

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

Tinha medo de ser chamado de contrarrevolucionário, de usar chapéu de burro. Chen Xiaolu, filho de general e líder estudantil na Revolução de Mao. Gilles Sabrie/The New York Times

Jane Perlez The New York Times primeira vista, pelo menos, não existe muita coisa em Chen Xiaolu, 67 anos, que sugira uma vida a lamentar. Filho de um dos generais fundadores do Partido Comunista chinês, ele desfrutou privilégios em tenra idade e depois uma carreira de consultor empresarial que o levou a viajar ao redor do mundo. Agora, ele relaxa nos campos de golfe da Escócia, do sul da França e evita os ternos escuros e o cabelo preto de difícil manutenção dos chineses mais ricos, preferindo camisas informais e cabelo grisalho. Porém, por baixo do exterior genial existe a lembrança que o assombra há quase 50 anos. Lá estava ele, de volta ao ensino médio, membro novato do time de vôlei e líder estudantil na Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, ordenando que os professores fizessem fila no auditório, com orelhas de burro nas cabeças encurvadas. Ele ficou ali, empolgado e orgulhoso, enquanto milhares de alunos gritavam críticas aos professores. Então, de repente, um bando invadiu o palco e bateu neles até que caíssem todos no chão, com sangue escorrendo das cabeças. Ele não objetou. Simplesmente fugiu. "Eu estava assustado demais", relembrou recentemente durante uma série de entrevistas em um restaurante nos arredores da Praça da Paz Celestial, perto de sua antiga escola, a número oito, destinada a educar os filhos da elite de Mao. "Eu não conseguia e v i t a r. Ti n h a m e d o d e s e r chamado de contrarrevolucionário, de ter de usar chapéu de burro."

da no almoxarifado onde estava aprisionada, contou Chen. Contaram-lhe a respeito do suicídio e ele correu imediatamente até a sala, onde encontrou o corpo no chão. "Ela usou um barbante amarrado ao parapeito da janela, passou o nó pelo pescoço e a seguir se ajoelhou para se enforcar." Chen deu os detalhes rápida e silenciosamente, com um quê de vergonha nas palavras. No final das contas, ela foi integrante leal do Partido Comunista durante 30 anos.

À

PASSADO DE VOLTA Uma onda de confissões sobre a Revolução Cultural provinda de antigos guardas vermelhos, a maioria dos quais aposentados de formação modesta, surgiu nos últimos meses. Porém, foi a decisão de Chen de se manifestar em

Chen Xiaolu, de 67 anos, que foi líder estudantil na Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, fez um pedido de desculpas público.

BIOMBO CHINÊS Durante o tumulto inicial, Chen morava em casa com seus pais em Zhongnanhai, o grande complexo no centro de Pequim onde autoridades graduadas do partido recebiam casas tradicionais com quintais. Segundo ele, seu pai insistia para que a família não discutisse a Revolução Cultural em casa. " Tr o c a n d o e m m i ú d o s , meu pai falou que eu deveria participar da Revolução Cultural, mas sendo cuidadoso e prudente." Eles mantinham um "biombo chinês" de silêncio em relação à violência. "Nunca comentei nada com meu pai a respeito do suicídio de Hua Jia. Meu pai sabia que Reproduçãopoderiam me usar para torná-lo um alvo." A vida era fácil em Zhongnanhai. As crianças costumavam ser convocadas para ver Mao Tse Tung nadar em uma das duas piscinas de 50 metros – que era aberta no verão e coberta no inverno. Nas quadras, aconteciam as partidas de basquete. nos lagos, remava-se; e aos fins de semana, viam-se filmes.

Líder estudantil na Revolução de Mao enfrenta seus demônios Chen Xiaolu, filho de general fundador do partido Comunista da China, vem a público pedir desculpas por suas ações (violentas) durante a Revolução Cultural.

agosto, com um pedido de desculpas público, que atraiu mais atenção, elevando a esperança de que uma nação tão determinada em definir o futuro possa finalmente confrontar os horrores do passado. "Muitas pessoas estão pensando com carinho nos bons tempos da Revolução Cultu-

ral, dizendo que ela foi apenas contra autoridades corruptas. Contudo, muitas coisas aconteceram na Revolução Cultural que violaram os direitos das pessoas. A maioria na China não vivenciou a Revolução Cultural, e aqueles que a vivenciaram têm de contar às pessoas a seu respeito." O remorso de Chen se destaca por causa de sua estatura, antes e agora. Ele é bastante franco ao afirmar que como filho de Chen Yi, fundador da China comunista e ministro do exterior durante muito tempo, recebeu o manto de uma autoridade imensa durante os primeiros e decisivos dias da Revolução Cultural. "Eu tenho responsabilidade direta pelas denúncias e críticas, e trabalho forçado para a reeducação dos líderes escolares, e alguns professores e estudantes", Chen escreveu em postagem em um blog dos ex-alunos de sua escola, em agosto, que rapidamente rodou a internet. "Eu me rebelei ativamente e organizei as denúncias dos líderes escolares. Mais tarde, quando servi como diretor da escola do Comitê da Revolução, não tive coragem suficiente para brecar os processos desumanos." VELHAS FERIDAS "Minha desculpa oficial chega tarde demais, mas para a purificação da alma, o progresso da sociedade e o futuro da nação, é preciso fazer esse tipo de pedido de desculpas." O pedido provocou as mais variadas respostas. Pouco mais da metade dos comentá-

Posters da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Nos últimos tempos, antigos guardas vermelhos fizeram confissões sobre os acontecimentos da época.

rios no site dos ex-alunos era de elogios. Mas nos sites chineses, muitos questionavam por que era necessário remexer em feridas antigas. Em grande medida, a Revolução Cultural permanece escondida na China, enquanto governos sucessivos desestimularam discussões sobre o tumulto e o terror que Mao orquestrou para perpetuar seu governo – uma ação que quase arruinou o país. Deng Xiaoping repudiou a Revolução Cultural em 1979, e o Partido Comunista admitiu que fora um erro, mas nunca houve um relato completo. Aliás, um dos temas particularmente sensíveis para o partido vem sendo o número de pessoas mortas. Somente em Pequim, aproximadamente 1,8 mil pessoas morreram durante agosto e setembro de 1966. Essa foi a época do auge do frenesi, quando Mao usou estudantes pela primeira vez como guardas vermelhos para atacar o partido. É o que dizem os historiadores norte-americanos Roderick MacFarquhar e Michael Schoenhals. Segundo estimativas, de 1,5 milhão a três milhões de pessoas morreram na China durante uma década – de 1966 a 1976. Um historiador chinês da Revolução Cultural, Xu Youyu,

descreveu o pedido de desculpa de Chen como "muito incomum" porque os antigos guardas vermelhos – toda uma geração de chineses agora com 60 e tantos anos – geralmente justificam suas ações durante a Revolução Cultural e preferem enfatizar seu papel como vítimas e não como perpetradores. Estes raramente se desculpam em particular, que dirá em público. A fatídica cerimônia de críticas dos professores na sala de concertos Zhongshan, arredores da Cidade Proibida, organizada por Chen, foi brutal antes mesmo de começar, afirmou Huang Jian, presidente do grupo de ex-alunos. A caminho do auditório, os estudantes "brandiam chicotes", fustigando o diretor da escola, Wen Hanjiang, enquanto o arrastavam pelos braços e pernas, disse Huang. PASSADO BRUTAL Wen, agora com 89 anos e morando em Pequim, onde Chen recentemente o visitou, também foi brutalmente espancado no palco. De volta à escola, a atmosfera escureceu. A autoridade mais graduada do partido no estabelecimento, Hua Jia, cometeu suicídio. Ela tirou a própria vida depois de duas semanas de surras e de ser alimentada somente com migalhas de comi-

REVIRAVOLTA NO DESTINO Logo, no entanto, problemas atacaram o centro da família Chen. Em um discurso no começo de 1967, Chen Yi ousou criticar a Revolução Cultural. Mao Tsé Tung o jogou para escanteio, e o homem que havia saudado todo líder estrangeiro à nova China foi submetido a uma humilhante sessão de autocrítica e condenado a permanecer em casa. Depois que seu pai caiu em desgraça, Chen deixou de morar na mesma casa "para manter mais distância". No verão de 1968, Mao dispersou os estudantes pelo interior do país. O primeiro-ministro, Zhou Enlai, poupou Chen desse destino enviando-o ao exército. FIM DE CASO Em 1972, Chen Yi morreu de câncer intestinal – era um homem em frangalhos. Chen Xiaolu voltou do exército para participar do funeral. Do nada, Mao apareceu vestido de pijama e com um sobretudo para homenagear seu pai. Diante da família Chen, Mao o reinstalou no panteão dos grandes revolucionários e voltou a chamá-lo de "bom camarada". Naquela tarde, Chen bebeu cerveja com um amigo da escola, chamado Ji Sanmeng, e lhe mostrou um poema, contou Ji, sobre como seu pai, um herói, fora maltratado nos últimos cinco anos nas mãos de Mao e seus homens. A partir de então, a fé de Chen Xiaolu em Mao Tsé Tung se evaporou, embora ele nunca tivesse feito essa confissão publicamente.


DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

7

TURQUIA Caso de corrupção leva a demissão de três ministros. Novos nomes foram indicados. Ettore Ferrari/EFE

HAITI Dezoito pessoas morrem em naufrágio de veleiro com supostos imigrantes.

Papa pede união de todos pela paz Francisco apelou a ateus e fiéis de toda as religiões em nome da 'harmonia social' omemorando seu primeiro Natal como líder da Igreja Católica, o papa Francisco pediu ontem a união de ateus e crentes de todas as religiões como forma de espalhar a paz ao redor do mundo. "Eu convido até os descrentes para desejar a paz. (Juntese a nós) com seu desejo, um desejo que alarga o coração. Vamos todos nos unir, seja com preces ou desejo, mas todos pela paz", afirmou Francisco, sendo ovacionado pela plateia. Falando em italiano para cerca de 70 mil pessoas na tradicional mensagem "Urbi et Orbi", pronunciada a partir da varanda da Basílica de São Pedro poucas horas depois de celebrar a primeira Missa do Galo de seu pontificado, Francisco novamente apelou para a salvação do meio ambiente da "ganância humana". Pelo mundo -Francisco citou conflitos em vários lugares do mundo. Ele pediu pela "harmonia social do Sudão do Sul, onde as recentes tensões causaram inúmeras vítimas e são uma ameaça para a coexistência pacífica naquele jovem país". Acredita-se que milhares de pessoas morreram pela violência da guerra civil étnica entre as tribos Nuer e Dinka na nação africana que, após dé-

C Papa acena aos fiéis da varanda da Basílica de São Pedro após pronunciar sua mensagem natalina

Bagdá tem dois atentados no Natal Minoria cristã da capital iraquiana foi a principal atingida; 49 pessoas morreram. Ahmed Malik/Reuters

elo menos 50 pessoas m o rre r a m o n t e m e m ataques a bomba em um distrito de Bagdá. De acordo com informações da polícia e de médicos, dessas 50 pessoas, 15 teriam morrido quando um carro-bomba explodiu perto de uma igreja cristã no momento em que os fiéis deixavam um culto de Natal. Outra explosão matou 35 pessoas em um mercado. Pelo menos 52 pessoas ficaram feridas nos ataques. A igreja e o mercado ficam no distrito de Doura, no sul de Bagdá. Nenhum grupo reivindicou imediatamente a responsabilidade pelos atentados. Um porta-voz do governo e um sacerdote assírio afirmaram que o alvo dos atentados era o mercado, não a igreja. A violência no Iraque atingiu em 2013 os piores níveis em cinco anos com militantes su-

P

Mercado do distrito de Doura, em Bagdá, atingido ontem por bombas. nitas radicais ligados à Al Qaeda intensificando ataques contra o governo xiita do primeiro-ministro Nuri al-Maliki. A maioria dos ataques acontece em mercados, cafeterias e lugares públicos. Mais de 6.650 pessoas morreram desde o início do ano.

A comunidade cristã, que é minoritária no país (entre 400 mil e 600 mil pessoas, de acordo com cálculos do governo) tem diminuído devido aos frequentes ataques da Al Qaeda e de outros grupos extremistas do país, que consideram os cristãos "infiéis".

Rússia libera ativista brasileira Ana Paula Maciel mais 29 pessoas foram detidas em setembro, após protesto. Reuters

nocentada ontem pela justiça russa, a brasileira Ana Paula Maciel deve chegar a Porto Alegre (RS) nos próximos dias. Ana Paula integrava a tripulação do navio A rct ic Sunrise do Greenpeace que fez um protesto em setembro contra a empresa Gazprom. A justiça russa retirou as acusações contra os ativistas em virtude de uma lei de anistia aprovada na semana passada pelo governo russo. Vinte e nove dos 30 tripulantes foram notificados. O marinheiro italiano Cristian D'Alessandro não conseguiu concluir sua liberação por falta de tradutor.

I

Ana Paula Maciel: acusação de vandalismo retirada pela justiça russa.

Crise no Sudão do Sul se agrava; Europa envia emissário. Exército e rebeldes estão em confronto em zona produtora de petróleo presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, pediu ontem o fim dos assassinatos e das "desumanas atrocidades" tribais, enquanto as tropas do governo entraram em confronto com rebeldes leais ao seu antigo vicepresidente em uma região produtora de petróleo. As potências mundiais temem que a violência saia do controle e leve a uma guerra civil separatista entre etnias, e o Conselho de Segurança da ONU concordou na terça-feira em quase dobrar o número de tropas de paz na região. "Pessoas inocentes foram brutalmente assassinadas. As pessoas estão atacando os ou-

O

tros devido a sua filiação tribal e isso é inaceitável", disse Kiir, de acordo com uma conta oficial do governo do Sudão do Sul no Twitter. "Essas atrocidades recorrentes precisam cessar imediatamente". A violência explodiu na capital, Juba, em 15 de dezembro e se espalhou rapidamente, dividindo o país sem litoral e de 10.8 milhões de habitantes, entre as etnias Nuer e Dinka. As potências mundiais e os países do leste africano, ansiosos em evitar mais caos em uma região frágil, tentaram mediar entre Kiir, que é da etnia Dinka, e Riek Machar, um Nuer e líder dos rebeldes. A diretora de política exte-

rior da União Europeia Catherine Ashton informou o envio de um emissário para ajudar a encontrar uma solução política para a disputa e para reforçar os laços com países vizinhos. "É essencial que todos os líderes políticos se comprometam imediatamente com um diálogo político para resolver suas diferenças", disse Maja Kocijancic, porta-voz de Ashton. Em comunicado, a portavoz disse que Ashton pediu que o representante especial da União Europeia, Alex Rondos, vá até a região imediatamente para mediar as relações com países vizinhos e organizações locais.

cadas de guerra, se separou do Sudão em 2011 e é o mais jovem país do mundo. O papa Francisco pediu uma paz que "não seja de fachada", clamou pelo fim da violência na Síria. "Vamos seguir rezando ao Senhor para que o amado povo sírio se veja livre de mais sofrimentos e as partes em conflito coloquem fim à violência e garantam o acesso à ajuda humanitária". O pontífice também chamou pelo diálogo para encerrar os conflitos na Nigéria e na República do Congo. O papa jesuíta também pediu negociações entre israelenses e palestinos e que "sejam curadas as feridas do Iraque, atingido por frequentes atentados". Ontem, os cristãos foram vítimas de atentados em Bagdá [veja abaixo]. "Guerras destroem e machucam tantas vidas!", disse, afirmando que as vítimas mais vulneráveis são crianças, mulheres agredidas, idosos e também os doentes. Em seu discurso, o papa Francisco pediu a Deus para "cuidar das muitas crianças sequestradas, feridas e mortas em conflitos armados, e todos aqueles levados de sua infância e forçados a se tornarem soldados". O líder religioso também fez um apelo por uma "vida digna" aos imigrantes. "Menino de

Belém, toca o coração de todos os que estão envolvidos no tráfico de seres humanos, para que percebam a gravidade deste crime contra a humanidade", afirmou o pontífice, que mencionou a tragédia na ilha siciliana de Lampedusa, onde quase 400 imigrantes ilegais morreram em um naufrágio no início de outubro. "Que não observemos novamente tragédias como as que vimos neste ano com muitos mortos em Lampedusa, que não ocorram nunca mais", rogou o papa latino-americano, que é filho de imigrantes italianos, e cuja primeira visita oficial de seu pontificado foi justamente a esta ilha italiana, para dar alívio espiritual aos imigrantes. Na mensagem, o papa Francisco lembrou também as vítimas das catástrofes naturais e o "querido povo filipino", atingido pelo tufão Haiyan. Popularidade -Turistas de todo mundo se reuniram no Vaticano para as missas de Natal e alguns afirmavam que o motivo é a sensação de renovação que o papa Francisco deu à Igreja Católica. A a p rox i m a ç ã o d o p a p a Francisco dos ateus e de pessoas de outras religiões marca um contraste com a atitude do papa Bento XVI, que às vezes fazia com que não católicos se sentissem renegados.


DIÁRIO DO COMÉRCIO

8

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

Chuva não dá trégua em Minas e no ES Pelo menos 35 pessoas já morreram nos dois estados por causa de alagamentos e desabamentos. Chuvas devem continuar nos próximos dias. Nelson Antoine/Fotoarena

s chuvas devem continuar em Minas Gerais e no Espírito Santo, estados em que pelo menos 35 pessoas morreram em decorrência dos últimos temporais, e nas regiões norte e noroeste do Rio de Janeiro. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), podem ocorrer chuvas fortes nesses estados e a tendência é que elas continuem provocando desastres naturais nas áreas vulneráveis atingidas. A Defesa Civil do Espírito Santo registrou ontem mais mortes em decorrência da chuva que atinge o estado desde o início de dezembro. Às 21h, o número oficial de mortos chegava a 21 pessoas. As mortes foram registradas nas cidades de Itaguaçu (oito casos), Colatina (seis) e Baixo Guandu (quatro), além de Domingos Martins, Barra de São Francisco e Nova Venécia, com uma morte em cada. As últimas quatro mortes – três em Colatina, em um grande deslizamento de terra, e uma em Barra de São Francisco, onde uma enxurrada matou um jovem de 17 anos – ocorreram anteontem, mas só foram registradas ontem. O número de cidades afetadas também cresceu e agora são 50, conforme boletim da Defesa Civil. O governo estadual decretou situação de emergência ou estado de calamidade em 48 das 78 cidades capixabas. Ao todo, 48.601 pessoas tiveram que deixar as casas por problemas relacionados com as chuvas. Destas, 4.565 foram acolhidas em abrigos e 44.036 estão em casas de parentes e amigos. Na véspera de Natal, em sobrevoo por áreas alagadas, a

A

Tumulto na Rocinha m tumulto generalizado na Rocinha, zona sul do Rio, no local conhecido como Largo do Boiadeiro, deixou duas pessoas feridas ontem de manhã. O distúrbio teve início quando PMs da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da favela avistaram supostos traficantes no largo. Houve troca de tiros e, segundo a PM, "os bandidos" deixaram no lugar uma mochila com drogas. Ainda segundo a versão oficial, os PMs foram hostilizados e agredidos por moradores quando tentavam pegar a mochila. Um carro da PM chegou a ser apedrejado. Nesse momento, policiais teriam disparado tiros para o alto. Houve mais confusão ainda e foi preciso reforço da PM para conter os mais exaltados. (Estadão Conteúdo)

U

presidente Dilma Rousseff demonstrou preocupação com as fortes chuvas que assolam o Espírito Santo. "Num momento inicial o que nos interessa é não ter mortos. Você tem de salvar as pessoas e garantir um abrigo a elas. É isso que você tem de fazer diante do desastre", disse a presidente, referindo-se à prioridade dos trabalhos da Defesa Civil. Após sobrevoar as áreas atingidas, Dilma disse ter ficado impressionada com o volume dos alagamentos. "Aqui eu vi uma quantidade de água absurda. É impressionante", afirmou Dilma. Minas – Após uma semana de buscas, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) de Minas confirmou ontem que o corpo encontrado no dia anterior é o de Leandro de Souza Batista, de 7 anos, que estava desaparecido desde que a casa da família foi destruída por um deslizamento de terra no último dia 17. Com a confirmação da morte do garoto, chega a 17 o número de óbitos no Estado no período de chuvas deste ano. Leandro foi vítima do deslizamento de uma encosta na zona rural de Sardoá, no Vale do Rio Doce, que destruiu completamente a residência da família, causando a morte de mais cinco pessoas. Além de Sardoá, outros 23 municípios mineiros já decretaram situação de emergência por causa da chuva e foram registrados danos em mais 53 municípios que ainda não adotaram este tipo de decreto. Desde outubro, os temporais em Minas já deixaram 3.410 pessoas desalojadas e 744 desabrigadas. De acordo com a Cedec, 6.148 imóveis foram danificados e 67, destruídos. (Agências)

A rodovia litorânea ES-010, que liga Vitória a Nova Almeida e vista destruída pelas chuvas: situação de emergência no Espírito Santo. Paulo Preto/Folhapress

forte chuva que atingiu São Paulo ontem à tarde dificultou a volta do paulistano, que enfrentou filas de até 50 quilômetros nas estradas e pistas molhadas na Capital. A cidade registrou 15 pontos de alagamentos às 19h30 e todas as regiões ficaram em estado de atenção. A zona oeste foi a mais castigada, depois da cidade ficar 15 dias sem o registro de chuvas relevantes. A região da Pompeia ficou alagada entre

A

Tranquilidade nos Natal leva paz à aeropor tos Cracolândia feriado de Natal foi de poucos atrasos nos aeroportos brasileiros. Segundo balanço da Infraero, de 1.349 partidas programadas da 0h até as 17h de ontem, apenas 50 (3,7%) partiram mais de 30 minutos depois do horário. Os aeroportos com maiores índices de atraso foram o Galeão, no Rio de Janeiro, e o de Brasília, com sete casos cada um. O de Congonhas teve quatro registros. O índice de cancelamentos foi maior que o de atrasos. Segundo a Infraero, 119 voos deixaram de ser realizados ontem. No entanto, a maioria dessas ocorrências está relacionada ao feriado. Por causa do baixo movimento nos aeroportos, as companhias aéreas cancelam voos e remanejam os passageiros. (Agências)

O

Temporal provoca alagamentos na zona oeste e Marginal Tietê

Largo Coração de Jesus, na Cracolândia, no Centro, foi palco de uma celebração dupla ontem à tarde: católicos e batistas organizaram cerimônias para festejar o Natal e incentivar os moradores a largar as drogas. Enquanto o padre Júlio Lancellotti rezava uma missa, voluntários da Missão Batista Cristolândia cantavam músicas religiosas e distribuíam panetones aos usuários de crack. Durante a celebração, o largo, que é considerado o principal local de uso de drogas da região, viveu uma trégua e cachimbos de crack não foram acesos. Após a missa, foi organizado um auto de Natal, com uma encenação e a montagem de um presépio vivo com a participação de dependentes químicos. (Agências)

O

Alessandro Busascredito/Futura Press

DRUMMOND PICHADO – A estátua em bronze de Carlos Drummond de Andrade voltou a ser alvo de

pichadores, na madrugada de ontem, na praia de Copacabana, zona sul do Rio. Imagens flagradas por uma câmera da prefeitura mostram um casal praticando o vandalismo. É a segunda vez que a estátua é pichada.

17h e 19h (foto ao lado). O motorista também enfrentou trechos inundados nas Ruas Barão do Bananal e Turiassu. Por volta das 18h, os dois sentidos da Avenida Francisco Matarazzo estavam interditados. Houve ainda problemas na Marginal do Tietê, perto da Ponte das Bandeiras. Previsão – Para hoje, a previsão do tempo na região metropolitana de São Paulo é de calor com pancadas de chuva no fim da tarde. (Estadão Conteúdo)

Haddad quer construir em áreas residenciais

Marcelo Brammer/Estadão Conteúdo

prefeito Fernando Haddad (PT) enviou projeto à Câmara que libera a construção de creches e postos de saúde em qualquer bairro de São Paulo, até nas ruas sem saída e nas áreas de proteção permanente. A mudança vale para zonas estritamente residenciais (Z-1), incluindo bairros tombados como City Lapa e Pacaembu, na zona oeste, e Jardim Paulistano, na zona sul. Nesses locais, os esquipamentos públicos de saúde, educação e assistência social poderão ser construídos sem nenhuma restrição. Pelo projeto, Haddad acaba com qualquer tipo de limite de horário de funcionamento para escolas, que também não precisam ter mais área de embarque e desembarque. As creches poderão ser instaladas em ruas com largura inferior a 10 metros, restrição que hoje dificulta a construção de unidades de ensino infantil em bairros da periferia. Por determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo, até 2016 a gestão atual precisa cumprir sua meta de construir 243 creches e criar 155 mil vagas para crianças entre zero e quatro anos. A proposta altera a Lei de Zoneamento em meio ao debate sobre o novo Plano Diretor, em discussão no Legislativo. Na prática, essas novas regras deveriam ser estabelecidas na proposta em debate ou em audiências públicas do Legislativo, iniciadas em novembro. "É uma necessidade ur-

O

Haddad: prefeito quer liberar creches e postos de saúde nas Z-1. gente, não podemos esperar um ano e meio de (discussões do) Plano Diretor para facilitar a construção das escolas. Senão o governo não tem como cumprir sua meta para construir escolas", argumenta o vereador Nabil Bonduki (PT), relator do Plano Diretor e integrante da Comissão de Política Urbana da Câmara. "Hoje temos muitas escolas com dificuldades para funcionar, por causa da Lei de Zoneamento. Recebi ligação de uma liderança de São Miguel Paulista dizendo que uma escola lá vai fechar porque não cumpre o zoneamento", completou o vereador. Daniel Montandon, diretor do Departamento de Uso do Solo da Prefeitura, confirma que a nova regra, se aprovada pelos vereadores, acaba com qualquer restrição para a construção de creches e postos de saú-

de. "Nós tínhamos um entendimento de que o zoneamento criava restrições para equipamentos públicos essenciais, que não podem ser tratados como empresas ou alguma entidade do meio econômico", diz. A proposta foi elaborada para facilitar a construção de creches nas periferias. "O elemento de motivação maior foi acabar com as restrições que hoje existem para esses equipamentos", disse Montandon. Abrigos – A gestão Haddad também quer que os abrigos para moradores de ruas e dependentes químicos fiquem livres de restrições e possam ser erguidos em bairros residenciais do centro expandido. H o j e é c o m u m m o r a d o re s irem à Justiça para tentar fechar abrigos, pois acabam concentrando grande número de catadores de papelão e carroceiros. (Estadão Conteúdo)


DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

9

Voz Ativa Madrigal O mundo em 12 canções sacro-natalinas. Regência de Ricardo Barbosa. Sábado (28). 13h. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141. Tel.: 5080-3147. Divulgação

Réveillon em grande estilo Escolha o seu: nas alturas, numa casa tradicional, na balada. Ou em uma ceia caseira. Lúcia Helena de Camargo Luiz Ipólito/Divulgação

Fotos: Rogério Gomes/Divulgação

No alto, ambiente do Terraço Itália. Nos detalhes, pratos preparados pelo Figueira Rubaiyat. À esquerda, uma das sugestões do Pão de Açúcar. São algumas opções saborosas (e charmosas) para você curtir a passagem do fim do ano com bom gosto e em alto astral.

ano vai acabar. É preciso festejar, para afastar os males e começar 2014 com força renovada. Reunimos algumas sugestões de lugares para passar o Réveillon em grande estilo e conforto do lar. No topo de São Paulo Com dois tipos de ceias, o Terraço Itália, cartão postal da Cidade no 41º andar, os brindes serão com champanhe Veuve Clicquot à vontade durante toda a noite. Um DJ fará o som da pista de dança. A ceia começa com ostras,

O

continua com ravióli de ricota e ragu de lagosta. Depois, carrê de javali com crosta de amêndoas e cuscuz de legumes ou filé mignon com manteiga de trufa e batata gratinada. Para sobremesa, mil folhas com frutas do bosque e torta de chocolate com creme de damasco. As salas estarão abertas a partir das 21h. Estão incluídas bebidas como uísques, águas minerais, cervejas, refrigerantes, sucos e café Nespresso. Custa R$1.507,00 por pessoa. www.terracoitalia.com.br

Sob a figueira No restaurante A Figueira Rubaiyat o jantar de 31 de dezembro tem couvert especial, entrada, dois pratos principais e sobremesas, com opções como merluza negra com palmitos ao forno, baby pork da fazenda Rubaiyat confitado e desossado e salada de lagosta. No bufê de sobremesas, torta de pera, rocambole com recheio de amêndoas e a tradicional rabanada. O valor é R$350 por pessoa e R$175 para crianças de

6 a 12 anos, incluindo serviço, bebidas (água, sucos, refrigerantes e cervejas) e uma garrafa de vinho tinto ou branco (750 ml) para cada dois adultos. www.rubaiyat.com.br/ introducao-figueira Clima de praia Nas duas unidades do Coco Bambu, cuja decoração lembra bares do litoral, a celebração é à base de frutos do mar. O réveillon será animado pela Banda Mel no Anália Franco e Banda Action na unidade JK. Ingressos de R$380 a

R$ 420 por pessoa. Metade do valor é consumação. Crianças de 0 a 5 anos não pagam e de 6 a 10 pagam meia entrada. Para comer haverá camarão na manteiga acebolado, lagosta com arroz de mares (quatro caudas de lagosta grelhadas, salpicadas em alho frito), entre outros. www.restaurantecocobambu. com.br Em casa Prefere reunir a família em casa, mas sem ter o trabalho de cozinhar a ceia? O Pão de Açúcar vende 24

opções de pratos prontos, com preços por quilo. Os itens podem ser encomendados com até 48 horas de antecedência. Pernil, peru, tender e filé mignon em diversos preparos estão entre as receitas. Pode-se optar também pelos kits ceia, que servem 15 pessoas. A depender dos pratos escolhidos, custam de R$259 a R$ 559. Cliente do programa Pão de Açúcar Mais ganha 20% de desconto nos kits e 10% nos pratos avulsos. www.paode.acucar.com.br

LA BOHÈME NO MUNICIPAL. ATÉ DOMINGO (29), Ópera de Giacomo Puccini encerra temporada lírica do Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo. Tel.: 3397-0327.


DIÁRIO DO COMÉRCIO

10

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

Navegação precisa Perfeitos para a decoração em estilo náutico ou apenas para as pessoas que gostam de mapas e lagos, a série Below The Boat, criada pelo casal Robbie e Kara Johnson, dos EUA, é um verdadeiro estudo sobre a profundidade de lagos, baías e mares. Os mapas são feitos em papel colorido cortado a laser. Cada camada corresponde à profundidade das águas na região e as camadas são sobrepostas durante uma montagem manual e emolduradas em madeira. Entre os locais já mapeados estão o Cabo Cod, a baía de São Francisco, o arquipélago de Florida Keys, o lago Washington e outros pontos das duas costas dos EUA. Confira todos os mapas no site. www.belowtheboat.com

.C..ELEBRIDADES

.T..ECNOLOGIA

Justin Bieber anuncia aposentadoria Notícia foi muito comentada nas redes sociais no dia de Natal, mas seria só um truque de marketing. Hugo Correia/Reuters

estrela pop adolescente Justin Bieber enviou ontem uma série de mensagens contraditórias em sua conta do Twitter, anunciando que estaria se preparando para a aposentadoria. A notícia, que imediatamente repercutiu nas redes sociais - com fãs lamentando o fim da carreira do ídolo e aqueles que não gostam do cantor anunciando um "milagre de Natal" pode ser uma jogada de marketing. Sites como o da revista Billboard e o Just Jared afirmaram que o caso pode ser desmentido em breve e registraram a coincidência da notícia com

Visões do clima Combinando imagens da Terra produzidas pelas agências espaciais e dados sobre previsão climática, o engenheiro Cameron Beccario criou um sistema que permite visualizar as condições do tempo pelo planeta.

Erik S. Lesser/EFE

A

a estreia de um documentário sobre o astro, que acontece hoje nos EUA. O filme Justin Bieber's Believe seria também uma tentativa de recuperar a imagem do cantor, manchada depois de incidentes polêmicos em vários países nos quais se apresentou. Embora seu representante não tenha comentado sobre o assunto, uma fonte disse ao site E! que "é claro que não é verdade. " Depois que alguns dos quase 48 milhões de fãs de Bieber no Twitter se manifestaram, ele enviou uma mensagem dizendo: "Eu nunca deixarei vocês, ser um 'belieber' é um estilo de vida... Estarei aqui sempre".

http://goo.gl/lQn4HS

.M..ENSAGEM DE NATAL

Snowden faz alerta sobre celulares Edward Snowden divulgou ontem um vídeo em que alerta sobre o uso de celulares. "Temos sensores em nossos bolsos que nos acompanham em todos os lugares", disse. "Isso é um problema,

porque a privacidade é o que nos permite determinar quem somos e quem queremos ser." A "Mensagem de Natal Alternativa" foi transmitida no canal 4 de televisão da Grã-Bretanha.

.C..ASA

s

MELHOR DECORAÇÂO - Visitantes observam a iluminação com mais de mil lâmpadas na casa de Anthony Paradowski, que foi escolhida ontem a mais bela decoração natalina dos EUA.

.U..RBANISMO

Um jardim sobre o Tâmisa

A mesinha que vira mesona A mesinha de centro vira mesa de jantar em apenas alguns segundos, basta desdobrá-la. A ideia é do escritório de design Duffy London, que quis facilitar a vida de pessoas que têm pouco espaço em casa e

talvez não estejam dispostas a investir em muitos móveis. A mesa é feita em madeira maciça e tem espaço para até quatro pessoas. Por 795 libras esterlinas no site. http://goo.gl/4lyQ8T

Londres deve ganhar em 2017 uma ponte diferente. A ideia é dar à cidade um parque em forma de ponte que atravessará o rio Tâmisa e será ocupada apenas por árvores e plantas. Nada de carros. O projeto é do designer britânico Thomas Heatherwick. A Garden Bridge terá 367 metros de comprimento e começará a ser construída em 2015. A ponte ficará perto de uma das mais famosas pontes sobre o Tâmisa, a ponte de Waterloo, bem no centro da cidade, e será sustentada por duas ilhas artificiais. O ministro da Economia britânico, George Osborne, destinou 30 milhões de libras (cerca de R$ 145 milhões) para o projeto. www.heather wick.com


DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

11

IPI MAIOR; INDÚSTRIA LAMENTA O IPI incidente sobre vendas de carros (e móveis) será gradualmente aumentado a partir de janeiro. Para a Anfavea, haverá impacto no mercado.

Leão digital fecha o cerco em 2014 Para o próximo ano, a grande novidade do fisco é o e-Social, que consiste no envio de informações da área trabalhista no formato digital. Silvia Pimentel ano que termina foi fértil no campo tributário. Mudanças importantes nas legislações estadual e federal e a criação de novas ferramentas tributárias para prestar contas ao fisco marcaram 2013 e continuarão a mudar a rotina de trabalho de empresas de todos os portes. Para o próximo ano, a grande novidade que vai revolucionar a relação entre empregadores e empregados e de ambos com o governo federal é o e-Social, considerado o módulo mais complexo do Sistema Público de Escrituração Digital (Sped). No âmbito estadual, por exemplo, os produtos que chegam de fora do País passaram a ser tributados com alíquota única de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de 4% nas operações interestaduais, em vez de 7% ou 12%. A mudança veio com a Resolução 23 do Senado Federal cujo objetivo é colocar ponto final na guerra fiscal entre os Estados, dos quais alguns se valiam de incentivos fiscais para tornarem seus portos mais atrativos ao recebimento de produtos importados. Em nível federal, a Medida Provisória nº 627, aprovada pelo Congresso, modificou a forma de apuração de impostos e contribuições do lucro real, presumido e arbitrado. Os impactos dessa MP ainda estão sendo avaliados pelas empresas e o assunto virou prioridade na grade de palestras e cursos das consultorias, com novos desdobramentos para o próximo ano. As empresas também foram obrigadas a se adequar a mudanças na forma de se comunicar com o fisco, na esteira do Sistema Público de Escrituração Digital (Sped). Vários braços desse ambicioso projeto iniciado em 2006 para integrar e padronizar as informações entre os fiscos foram abertos, pegando primeiro as

O

grandes corporações tributadas pelo lucro real até chegar às empresas menores. Chega o e-Social – Pelo Sped, as companhias são obrigadas a entregar seus documentos fiscais em arquivos com formato digital. É a contabilidade nas garras do Leão. Em 2013, os Speds Contábil e Fiscal, a EFD Contribuições, além da NF-e alteraram a rotina dos contribuintes e dos escritórios de contabilidade. Para o próximo ano, a grande novidade é o

chamado Sped Social, ou e-Social, que consiste no envio de informações da área trabalhista no formato digital. Na opinião dos especialistas, trata-se da etapa mais complexa do projeto por envolver número expressivo de informações a serem repassadas e impõe uma gestão compartilhada nas empresas, além do fato de ser obrigatória para todas as companhias, incluindo as enquadradas no Simples e até os microempre-

endedores individuais (MEIs). Estima-se que o sistema vai atingir mais de seis milhões de empresas. Em 2015, autarquias do governo entram na lista da obrigatoriedade. “Mais do que uma obrigação legal, o e-Social representa uma grande mudança nas empresas já que impõe um alto grau de organização dos processos relacionados ao departamento pessoal e a gestão de pessoas, o que mudará a forma como as

organizações tratam suas relações trabalhistas”, afirma o gerente de produtos da WK Prosoft, Heverton Gentilim. O leiaute dos arquivos que compõem o e-Social já foi aprovado, conforme o Ato Declaratório Executivo nº 5/2013, publicado no dia 18 de julho. E a Receita Federal já divulgou quatro cronogramas diferentes para o início do projeto, que tem a participação da Caixa Econômica Federal, Instituto Nacional do Seguro

Social – INSS, Ministério da Previdência (MPS) e Ministério do Trabalho e Emprego (TEM). O último estabelece que as empresas tributadas pelo lucro real têm até o dia 30 de junho para realizar o cadastro no sistema. No mês seguinte, informações sobre a folha de salários e apuração dos tributos deverão ser enviadas no formato digital. Empresas do Lucro Presumido, Simples Nacional e Microempreendedores Individuais devem fazer o cadastro até o dia 30 outubro. E o envio das informações deve começar em novembro. Em janeiro de 2015 está prevista a criação do módulo de reclamações trabalhistas. Cadastro saneado – Embora o e-Social entre em vigor de fato só em 2014, as empresas já podem se preparar para usar o sistema. No portal WWW.esocial.gov.br está disponível o link “qualificação cadastral dos trabalhadores”. Com esse aplicativo, será possível identificar possíveis divergências entre os cadastros internos das empresas, o Cadastro de Pessoa Física (CPF) e o Número de Identificação Social (NIS). Para tanto, deverão ser informados CPF, NIS e data de nascimento do trabalhador. Após a verificação cadastral nas bases de dados, o aplicativo retornará o resultado para o usuário sobre a validação de cada campo informado (CPF, NIS e data de nascimento) com os dados constantes das bases CPF e CNIS, informando os campos onde há divergências e, em caso positivo, como proceder para corrigir. De acordo com Heverton Gentilim, há uma forte demanda em sanear os dados cadastrais existentes e complementá-los com os novos campos determinados pela Receita Federal. “Considerando a existência de um grande número de funcionários, o trabalho de ajuste de todos esses dados torna-se grandioso e de execução crítica. Por isso é tão importante que as empresas iniciem os trabalhos e conheçam desde já as novas exigências”, alerta.

"Contribuinte paga pela ineficiência" Leticia Moreira/Folhapress

i a s p i o re s v i r ã o , responde, pessimista, o jurista Ives Gandra Martins quando questionado sobre o que os contribuintes podem esperar para o próximo ano. Na entrevista abaixo, ele critica a má gestão do Estado e a situação atual das contas públicas. Se não fecharem, é o contribuinte quem pagará a conta. "O governo nunca mexe na esclerosada máquina burocrática".

D

Diário do Comércio – O ano de 2013 marcado por diversas alterações na legislação tributária. As mudanças ocorridas beneficiaram os contribuintes? Ives Gandra Martins – As mudanças foram sempre a favor do Estado perdulário e dos políticos e burocratas dominantes, seus maiores beneficiários. Pouco resultaram a favor dos contribuintes e nem a uma carga tributária menor, que aqui chegou a 35,82% do PIB e, mesmo assim, os serviços públicos são de baixíssima qualidade. O Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, não é atualizado há 19 anos. DC – O que os contribuintes

Minha avaliação é, pois, negativa quanto as mudanças, que se vierem, serão sempre a favor do fisco e contra os pagadores de tributos. DC – O governo está no caminho certo na condução da política tributária? IG M –É difícil responder, pois o governo não tem política tributária, mas política de mera arrecadação.

Ives Gandra: "Governo não tem política tributária, mas política de mera arrecadação". podem esperar para 2014? IGM – Dias piores virão. As contas públicas, por falta de gestão, na União e de grande parte dos Estados e Municípios, se não em 2014, mas certamente em 2015, terão que ser ajustadas. E como nunca o governo mexe na esclerosada máquina burocrática, quem paga por essa ineficiência é o contribuinte. O

principal erro é não querer reduzir despesas. Se enxugasse a máquina burocrática, que é uma multiplicadora de exigências cada vez mais d e s a rr a z o a d a s , c o n t r a o contribuinte, a carga poderia ser menor. As mudanças do Imposto de Renda irão proporcionar realmente um fértil campo, por sua complexidade, para no-

vos e cinematográficos autos de infração. A Resolução 13 do Senado para combater o escândalo das importações incentivadas sofre contestação na Justiça e ainda não se teve a solução da guerra fiscal do ICMS. Os nossos 12 projetos (Comissão de especialistas nomeada pelo Senado) continuam engavetados na Casa Legislativa da Federação.

DC – Quais são, na sua opinião, principais erros e acertos do governo do ponto de vista tributário? IGM – Sobre os erros, na filosofia do governo de um capitalismo do Estado em que tudo depende do governo, cabendo a sociedade sustentá-lo com uma carga tributária cada vez mais sufocante, o baixo PIB, os juros altos, a quebra da balança comercial, o descompasso do balanço de pagamentos, o dólar em permanente elevação são alguns dos pontos nevrálgicos que explicam a péssima performance governamental. Sobre os acertos, procureios, mas não os encontrei. DC – A reforma tributária é discutida há décadas e nunca tivemos uma alteração

profunda no sistema tributário capaz de minimizar a sua complexidade ou o número de impostos. Por que a dificuldade de fazer uma reforma de fato? O que poderia ser feito mais rapidamente, sem mexer na Constituição, para acabar com algumas distorções? IGM – Os quatro problemas maiores do sistema tributário brasileiro são: a guerra fiscal do ICMS; guerra fiscal do ISS; a complexidade da legislação tributária e a excessiva burocracia exigida para cumprimento das obrigações. Enquanto tais nós não forem cortados, continuaremos a perder competitividade no cenário nacional e internacional. DC – Qual é sua opinião sobre o Sped e o que recomenda para os contribuintes, sobretudo os menores, que estarão listados na exigência do e-Social? IGM – Tenho receio que seja mais uma forma de arrecadar, com propaganda populista. Sempre que o governo fala no social, engorda suas contas, perde o contribuinte e a máquina administrativa fica mais adiposa. (SP)


12 -.ECONOMIA

DIÁRIO DO COMÉRCIO

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013


quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

DIÁRIO DO COMÉRCIO

13

Loja-modelo ficará estacionada em ruas comerciais de São Paulo até março do próximo ano; depois, percorrerá diversas cidades do interior paulista.

Lições do Sebrae para os lojistas A entidade apresentou sua loja-modelo itinerante, na qual o varejista pode aprender técnicas e também se familiarizar com o uso de tecnologia. Fotos: Tina Cezaretti/Hype

Com 55 metros quadrados de área, a loja-modelo de varejo de moda feminina é itinerante.

Paula Cunha

Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-SP) criou uma loja-modelo itinerante de varexistem a t u al m e nt e jo de moda feminina, onde mosmais de 250 mil pe- tra técnicas de aproveitamento quenos empreende- de espaço físico da loja, criação dores varejistas na ca- de vitrines modernas e atratipital paulista e quase 900 mil no vas, e o uso de tecnologia. A loja foi apresentada na seEstado de São Paulo. Para sobreviver e se diferenciar em um mana passada no Largo da Conmercado tão competitivo eles córdia do bairro do Brás, na caprecisam não apenas gerir bem pital paulista. Com 55 metros seu dia a dia mas também ofe- quadrados de área e 15 metros recer produtos e atendimento de comprimento, conta com tuque se destaquem das atuais do o que uma unidade convencional possui, desde araras com práticas de mercado. Para ajudá-los nessas tare- peças de roupas, prateleiras e fas, o Serviço Brasileiro de tecnologia RFID, que contempla etiquetas inteligentes e contador de público que entra e sai do estabelecimento. Toda essa estrutura será utilizada por consultores do Sebrae-SP, que conduzirão os empreendedores interessados em uma visita de orientação sobre técnicas de utilização de espaço para dispor roupas e acessórios, bem como utilizar equipamentos específicos para medir o público que frequenta a loja e determinar quais Caetano: "Para atender micros e pequenos". são as áreas mais vis i t a d a s . Ta m b é m será possível rastrear o produto durante todo o processo de venda, da saída do estoque às mãos do cliente. Durante o evento de apresentação da loja-modelo, Bruno Caetano, presidente do Sebrae-SP, salientou a importância da capacitação para o varejo brasileiro em um momento de crescimento da competitividade e de a ma du re ci me nt o por parte dos consumidores, que estão mais exigentes e deCarrer: estrutura que ajuda a sanar dúvidas . mandam não só pro-

E

Lima: "Quero conhecer mais o trabalho que o Sebrae realiza".

dutos de qualidade e preços atrativos, mas também atendimento especializado. "O caminhão faz parte das feiras anuais do Sebrae, e a ideia de torná-lo itinerante surgiu para atender os micro e pequenos empreendedores que não conseguem participar dos eventos, já que muitos deles trabalham com equipes reduzidas e não podem abandonar suas lojas", explicou Caetano. Por isso, o veículo permanecerá estacionado em ruas comerciais importantes da cidade de São Paulo até março do próximo ano, e depois percorrerá diversas cidades do interior paulista. O espaço é aberto ao público em geral, pois a preocupação não é atender apenas os lojistas interessados em obter informações práticas, mas também as pessoas que desejam iniciar alguma atividade no ramo do varejo. "Informações corretas são decisivas para o sucesso ou o fracasso de um empreendimento", enfatizou o diretor superintendente do Sebrae-SP. Caetano também não fixou uma meta de visitação diária, mas acredita que haverá interesse em razão das vinte mil visitas ao caminhão durante os dois dias da feira do Sebrae deste ano, realizada em São Paulo. Para a iniciativa, o Sebrae-SP contou com o apoio de entidades ligadas ao varejo, como a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) através da Distrital Mooca, da Associação dos Lojistas do Brás (Alobrás) e da Subprefeitura da Mooca. Gustavo Carrer, coordenador do projeto no Sebrae-SP, explicou que a loja itinerante foi criada com "uma estrutura que ajuda a sanar as dúvidas mais frequentes dos varejistas". Entre elas, a organização de vitrines, apresentação do produto dentro da loja, iluminação para o dia a dia e para ocasiões especiais, criação de layout e automação. Segundo o coordenador, o espaço itinerante oferece soluções de maneira prática, além de técnicas que devem ser aplicadas em um empreendimento real. O espaço conta com balcões, vitrines, computadores para gerenciamento financeiro e de estoques e provadores. Todo o projeto foi realizado em dois anos. Atuação conjunta – Alencar Burti, presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-SP, lembrou que a iniciativa ressalta a missão do Sebrae de ensinar como empreender e que a loja é um espaço onde se mostra na prática a aplicação de técnicas de venda e de administração. Segundo ele, estas iniciativas são importantes não só para promover a

evolução do varejo e estimular o empreendedorismo, mas também "integrar o poder público com a iniciativa privada e as entidades de classe". Para ele, este processo de integração é fundamental para o crescimento econômico do País. Dentro desta perspectiva de atuação conjunta, o subprefeito da Mooca, Francisco Carlos Ricardo, lembrou que o processo de reestruturação do Largo da Concórdia foi possível porque se estabeleceu uma parceria da subprefeitura com os lojistas para a reali-

Burti: Iniciativa "integra poder público, iniciativa privada e entidades". zação de obras de infra-estrutura na região. "Estes bairros têm um grande potencial. O Sebrae-SP tem ajudado bastante os lojistas, e a subprefeitura está aberta a iniciativas para ajudar os micro empreendedores", afirmou. "A disseminação de novas técnicas de atuação no varejo é importante para dinamizar a atividade, e a loja modelo pode disseminar mais informações para os comerciantes locais", completou Francisco Antônio Parisi, superintendente da Distrital Mooca da ACSP.

Luiz Roberto Lima, que possui uma loja de vestuário também na Mooca, passava pelo bairro do Brás e decidiu visitar a loja itinerante, e se mostrou impressionado com o apuro visual do espaço e o equipamento de RFID (o medidor de fluxo de clientes). O comerciante constatou a necessidade de incrementar o visual da loja para atrair mais consumidores, e que precisa remodelar sua vitrine. "Nunca procurei o Sebrae, mas quero conhecer mais o trabalho que ele realiza com os lojistas", concluiu.


DIÁRIO DO COMÉRCIO

14

quarta-feira e quinta-feira, 25 e 26 de dezembro de 2013

O lápis é um produto muito arcaico que continua a ser indispensável e continuará vivo por muito tempo. Conde Anton von Faber-Castell

As crianças ainda vão escrever? O Império dos Lápis acha que SIM.

Fotos: Ben Kilb/The New York Times

A mundialmente renomada Faber-Castell é um símbolo da média empresa alemã: permanece competitiva no mercado global, enfrentando os asiáticos e as novas tecnologias digitais. Jack Ewing* conde Anton-Wolfg a n g v o n Fa b e rCastell é famoso por atirar lápis de madeira da torre de seu castelo em Stein, na Alemanha, no chão de pedra, metros abaixo. Entretanto, essa não é a mania extravagante de um aristocrata bávaro. O conde de 72 anos, o oitavo em uma longa linhagem de fabricantes de lápis, quer apenas provar a durabilidade dos produtos que carregam o nome de sua família. A família Faber-Castell fabrica centenas de milhões de lápis num cenário de conto de fadas, cortado ao meio pelo veloz Rio Rednitz, que já foi sua principal fonte de energia. Uma torrente de lápis de todas as cores flui das máquinas de uma fábrica centenária, com telhas de cerâmica e janelas em tons pastéis. A Faber-Castell é a maior fabricante de lápis de madeira do mundo e ainda faz uma ampla gama de canetas, gizes de cera e equipamentos para arte e desenho, bem como uma série de acessórios, como borrachas e apontadores. Cerca de metade da produção da empresa alemã é exportada, em sua maior parte para outros países da zona do euro. Isso significa que a Faber-Castell contribui, ao menos de uma forma singela, para o aumento do controverso superávit da balança comercial alemã – que concorre com a China ao maior do mundo. A Faber-Castell ilustra como empresas de médio porte – responsáveis por 60% dos empregos do país – permanecem competitivas no mercado global. Ela se concentrou no design e na engenharia, desenvolveu um gosto especial por transformar produtos comuns em artigos de luxo e mantevese convicta de que ainda faz sentido manter parte da produção na Alemanha. "Por que fabricamos na Alemanha?", questionou o conde durante uma entrevista no castelo da família nos arredores da fábrica. "Duas razões: um, para fazer o que há de melhor aqui na Alemanha e manter o know-how no país. Não aprecio a ideia de transferir o know-how dos meus melhores lápis para a China, por exemplo. Em segundo lugar, o 'Made in Germany' ainda é importante". Nem todas as fábricas da empresa ficam na Alemanha. Porém, quando a Faber-Castell, que é uma empresa limitada com vendas totais de 590 milhões de euros neste ano fiscal, fabrica lápis em lugares como a Indonésia ou o Brasil, ela o faz em suas próprias fábricas. Ao contrário de muitas empresas norte-americanas, co-

O

mo a Apple, que terceirizou quase toda sua produção para a Ásia, a Faber-Castell e muitas outras empresas alemãs fazem questão de manter uma parte considerável da produção na Alemanha. Elas acreditam que isso seja fundamental para manter uma conexão entre o design, a engenharia e o chão da fábrica. O resultado é um enorme superávit comercial. Durante os primeiros nove meses do ano, a Alemanha exportou 148 bilhões de euros em bens e serviços a mais do que importou – incluindo um superávit de 20 bilhões de euros somente no mês de setembro. Em t e rm o s a b s o l utos, esse é o maior superávit registrado em um único mês na história. O superávit com e rc i a l d a A l emanha é tão grande que está atraindo críticas até mesmo dos EUA. A Comissão Europeia está realizando uma revisão cuidadosa para avaliar se isso é saudável para economia da zona do euro. Críticos afirmam que a Alemanha deveria investir uma parte maior dos lucros com a exportação no próprio país, para estimular a economia local e, por extensão, do resto da zona do euro. Porém, empresas com a Faber-Castell estão mais preocupadas com sua capacidade de manter a competitividade global, deixando as preocupações com a macroeconomia para os burocratas de Bruxelas e Berlim. Existem ameaças em toda a parte, incluindo concorrentes cada vez mais sofisticados na China, a crise constante na economia da zona do euro e a imprevisibilidade das mudanças tecnológicas. E quando até crianças em idade pré-escolar sabem mexer no iPad, não existe certeza de um futuro colorido por lápis e canetinhas. "O maior desafio para a Faber-Castell é o desenvolvimento da escrita no advento das novas tecnologias digitais", afirmou Hermann Simon. Simon é um consultor de g e s t ã o q u e c r i o u o t e rm o "campeões escondidos", para designar empresas superfocadas de médio porte como a Faber-Castell, que estejam por trás do desenvolvimento da economia alemã. "As crianças ainda vão escrever? A Faber-Castell reconhece esse desafio". Sem dúvidas, o mercado es-

O conde AntonWolfgang von Faber-Castell, 72, é o oitavo de uma longa linhagem que privilegia a qualidade e o design, zelosamente cuidados pelos técnicos da unidade de Stein, na Bavária.

tá testando a Faber-Castell. Embora as vendas no último ano fiscal tenham crescido 3,5%, os lucros caíram 27%, para 24,2 milhões de euros, em parte por conta do custo da construção de novas fábricas na Ásia e na América Latina. A empresa afirmou em novembro que as vendas neste ano fiscal haviam sofrido uma queda de 9%, em parte por conta da depreciação das moedas de mercados como o Brasil e de poucas vendas no sul da Europa. Ainda assim, a Faber-Castell, fundada em 1761, quando os lápis com grafite eram uma novidade, já superou mudanças tecnológicas em outros momentos. Quando o Conde Anton assumiu os negócios em 1978, após a morte do pai, o Conde Roland von Faber-Castell, a empresa era a líder mundial na fabricação de réguas de cálculo, que foram jogadas no lixo após a invenção das calculadores eletrônicas. Então, nos anos 1980, o

Se você relaxa e fica satisfeito com seus produtos, está dando o primeiro passo em direção ao inferno; temos que mudar sempre. CONDE ANTON FABER-CASTELL

advento do design por computador acabou com o mercado de produtos de desenho industrial. Com ajuda do Boston Consulting Group e dos designers da própria empresa, o conde redefiniu a linha de produtos para dar mais ênfase aos produtos de maior valor agregado, de lápis de colorir para artistas a canetas-tinteiro vendidas por milhares de dólares. Produtos de alta qualidade são responsáveis por 10% das vendas da empresa.

"Precisamos mudar continuamente", afirmou o Conde Anton, que no dia da entrevista usava um terno risca de giz trespassado com uma gravata vermelha e um lenço branco no bolso. "Se você relaxa e diz 'Estou satisfeito com meus produtos', você está dando o primeiro passo em direção ao inferno". O pedigree do conde o difere dos donos de fábrica comuns. Porém, ser um aristocrata na Alemanha não quer dizer muita coisa, ao menos não oficialmente. A nobreza perdeu os privilégios após a Primeira Guerra Mundial e a maior parte dos condes e príncipes da Alemanha precisa trabalhar para viver. A Faber-Castell foi fundada por Kasper Faber, um aprendiz de carpinteiro. Seu bisneto, Lothar Faber, recebeu um título de nobreza em 1861 do Rei Maximiliano II da Bavária, depois de transformar a empresa na maior fabricante de lápis do

mundo. As gerações posteriores se casaram com o clã aristocrata dos Castell, criando o nome Faber-Castell. (Os lápis Eberhard Faber, reconhecidos por gerações de alunos americanos, eram feitos pelo irmão mais novo de Lothar, que abriu uma fábrica no Brooklyn.) Ainda assim, ser um conde ainda vale alguma coisa. A linha de produtos de luxo da empresa é chamada de Graf von Faber-Castell – "graf" é a palavra alemã para "conde". A empresa apresentou recentemente a caneta tinteiro Graf von Faber-Castell feita de jaspe, quartzo e ouro. Ela é vendida por quase US$ 10 mil. Até mesmo as caixas de lápis de cor de alta qualidade da Faber-Castell chegam a custar centenas de dólares. É esse foco no mercado premium que permitiu que as empresas alemãs sobrevivessem em mercados repletos de alternativas asiáticas de baixo custo. Os carros da Mercedes e da Audi são bons exemplos disso, mas as empresas alemãs também alcançaram níveis similares de sucesso com produtos mais comuns, como acessórios para cozinha da marca Rösle, bichos de pelúcia Steiff e meias Falke. "O setor de luxo do mercado ainda se preocupa muito e se dispõe a pagar mais por produtos de boa qualidade", afirmou Daniel Berch, diretor da empresa de pesquisa de mercado Pell Research, que estudou o setor dos lápis nos EUA. Embora esteja ciente da ameaça digital, o Conde Anton acredita que as pessoas sempre escreverão. As pessoas ainda usam lápis, canetas e marcadores para fazer anotações em documentos impressos, argumentou. E até nos países mais ricos as crianças usam lápis e canetas para aprender a desenvolver as habilidades motoras necessárias para ler e escrever. "De certa forma, o lápis é um produto muito arcaico que continua a ser indispensável e continuará vivo por muito mais tempo do que provavelmente imaginamos". Para garantir que isso continue a ser verdade na próxima geração, o filho de 33 anos do Conde Anton, o Conde Charles von Faber-Castell, formado na Columbia Business School, entrou recentemente para o departamento de marketing da Faber-Castell. "Primeiro, ele precisa aprender como funciona o negócio", afirmou carinhosamente o Conde Anton. *The New York Times


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Diário do Comércio - 25 e 26/12/2013 by Diário do Comércio - Issuu