Skip to main content

Devarim 43 (ano 15 -Dezembro de 2020)

Page 1

DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI

Ano 15, n° 43, dezembro de 2020

Escola em tempos de pandemia André Frank

Meu amigo, o Rabino Dr. Henrique Lemle Charles Steiman

A literatura de Mordechai Geldman e de Aharon Appelfeld Textos de André Sena e Jacques Fux

Cercas de confiança Rabino Sérgio R. Margulies

A vida do rabino Breno Casiuch

O trabalho rabínico nas comunidades judaicas Hernán Rustein

Perguntas sem resposta Vittorio Corinaldi

Marajó – Você sabia? Íria Ferreira Chocron

O humano vale a pena? Rabino Dario Bialer

Para fora do bem e do mal Marcia Rozenthal

Onde estava Deus? Francisco Caruso

Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger

O sistema jurídico na Bíblia Hebraica Wremyr Scilar


EDITORIAL A R OUPA N O V A D O R E I 1

A F ARS A DO BDS 2

O Prólogo Um bandido, fugindo de outro reino, decidiu se esconder e fingir ser um alfaiate nas novas terras. Muito malandro, o bandido, o “novo alfaiate” conquistou a todos e até conseguiu uma audiência com o Rei.

O sofrimento do povo Palestino é real. Conduzido por líderes

“Nas terras distantes de onde vim, inventei uma forma de tecer a melhor de todas as roupas!”, disse o farsante alfaiate. E continuou: “Consigo tecer uma roupa que somente os inteligentes conseguem ver!”

Após a falha da segunda tentativa árabe de aniquilação de Is-

que usam suas tragédias, pessoais e coletivas, para auferir proeminência e dinheiro, os Palestinos não conseguem ultrapassar o trauma causado por seu negacionismo ao Estado de Israel.

rael, e a consequente ocupação de Gaza e da Cisjordânia, a estratégia destes líderes foi a de não negociar a retirada israelense (conforme declarado na Resolução de Cartum), perenizar a situação e se apresentar ao mundo como representantes de um povo oprimido, cujo sofrimento só poderia ser negado por pessoas insensíveis.

O Patrocínio O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele.

Felizmente, não faltam pessoas sensíveis no mundo, pessoas engajadas na reparação de injustiças, reais ou apenas percebidas. Assim que a causa das lideranças Palestinas se popularizou.

O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis. Todos passavam na frente da alfaiataria e ele não parava de fazer sua performance: puxava panos, cortava o ar, olhava com cara de quem poderia fazer melhor, refazia e pendurava nada no mancebo. E assim o fez por semanas, enquanto recebia o dinheiro do rei. Claro que todas as pessoas que passavam pela janela alegavam ver o tecido, para não parecerem estúpidas.

Numa excelente estratégia de comunicação, os Palestinos conseguiram ligar o apartheid sul-africano com a ocupação israelense, o que fez brotar o BDS “boicote, desinvestimento e sanções” contra os produtos do Estado de Israel, visto que o boicote contra a África do Sul foi um dos fatores que quebrou o racismo institucional daquele país. Saeb Erekat, um dos líderes Palestinos, recém-falecido, foi um dos principais impulsionadores do BDS, advogando pelo boicote em inúmeros foros, por mais de duas décadas. (Continua na próxima página)

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  1


A apresentação das provas Até que um dia o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do suposto “alfaiate”. Quando o falso tecelão mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: “Que lindas vestes! Fizeste um trabalho magnífico!”, embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei.

Matti Friedman, ex-correspondente da AP em Israel, nos informou, com abundância de evidências, sobre o viés da cobertura jornalística do Oriente Médio. Os correspondentes dos grandes órgãos da imprensa são instruídos a divulgar os fatos sob lentes que colocam Israel em má posição. Por exemplo, até mesmo a formidável super representação dos profissionais árabes no sistema de saúde israelense consegue ser retratada pela BBC como um fato negativo, pois a mesma representação não está presente no setor de tecnologia.

Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse as vestes especiais.

Assim, as pessoas que enxergam o mundo pelas lentes da imprensa adquirem a impressão que Israel é um país brutal, insensível e racista, o que reforça o apelo do BDS.

O contato com a realidade Durante o evento, contudo, uma criança, inocente e sincera, gritou: “O rei está com a banguela de fora!”. O grito é absorvido por todos, a sinceridade e o olhar da criança tocou a todos. Os burburinhos começaram e todos começaram a confessar que não enxergavam a nova roupa do rei.

Em 8 de outubro passado, Erekat anunciou que havia contraído Covid-19. Alguns dias depois, com a piora considerável de suas condições, ele se transferiu, numa ambulância israelense, para o hospital israelense Hadassa, em Jerusalém, onde sabia que seria tratado com a mesma eficácia dispensada a todos os pacientes. Infelizmente, mesmo o melhor tratamento do mundo não permitiu que ele se recuperasse.

O rei, sempre incomodado por nunca sentir nem o peso da roupa, se encolhe por um segundo. Há versões que dizem que o bandido foi punido, mas há também versões em que o rei faz pose, ostentando sua “roupa” e fazendo todos ficarem em dúvida se havia mesmo ou não uma vestimenta.

A ironia da decisão de Erekat foi percebida por muitos observadores árabes que desnudaram a monstruosa hipocrisia da liderança palestina. A hospitalização de Erekat no Hadassa é mais um sinal da farsa dos líderes palestinos, que incitam seu povo contra Israel e que correm para lá sempre que sentem necessidade. (Continua na próxima página)

Notas 1 Conto de Hans Christian Andersen, retirado da Wikipedia, “A Roupa Nova do Rei”. A subdivisão do texto em blocos com subtítulos é minha. 2 As informações deste texto constam dos artigos “An Insider’s Guide to the Most Important Story on Earth” de Matti Friedman, publicado pelo Tablet Magazine em agosto de 2014, e “Palestinian Calls for Boycotting Israel, Then Asks Israel To Save His Life”, de Bassam Tawil, publicado pelo Gatestone Institute em outubro de 2020.

2  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


A conclusão

Mikolajn/iStockphoto

No conto de Andersen, a criança simboliza a pessoa sem ideias preconcebidas e cujo freio social não a impede de falar abertamente sobre o que vê e, assim, desnuda a farsa aos olhos de todos. Contudo, em sua aguda percepção da natureza humana, Andersen não cria apenas o final feliz, pois ele sabe que nem todos são capazes de abandonar antigas convicções, mesmo quando o farsante é desmascarado à vista de todos.

Já no meu texto, são os jornalistas árabes, citados no texto de Bassam Tawil, que mostram a realidade ao mundo. Mas a minha percepção da natureza humana não é igual à de Andersen, eu ainda espero por um final feliz para o conflito árabe israelense, pois, conforme os “Acordos de Abraão” demonstraram, a hipocrisia da liderança palestina é cada vez mais percebida no mundo árabe. Raul Cesar Gottlieb Diretor de Devarim

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  3


devarim [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ari, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.

Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 15, nº 43, dezembro de 2020 PRESIDENTE DA ARI  Gilberto Lamm RABINOS DA ARI  Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA  Raul Cesar Gottlieb CONSELHO EDITORIAL  Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO  Editora Narrativa Um EDIÇÃO DE ARTE  Negrito Produção Editorial REVISÃO DE TEXTOS  Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA  SolStock/iStockphoto FOTOGRAFIAS  iStockphoto.com COLABORARAM NESTE NÚMERO  André Sena, André Frank, Breno Casiuch, Charles Steiman, Rabino Dario Bialer, Francisco Caruso, Jacques Fux, Hernán Rustein, Íria Ferreira Chocron, Marcia Rozenthal, Paulo Geiger, Rabino Sérgio Margulies, Vittorio Corinaldi, Wremyr Scliar. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br devarim@arirj.com.br Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Site da Devarim  www.devarim.com.br

SUMÁRIO Escola em tempos de pandemia André Frank..........................................................................................5 Meu amigo, o Rabino Dr. Henrique Lemle Charles Steiman..................................................................................10 A vida do rabino Breno Casiuch.....................................................................................19 Do geral ao particular: O trabalho rabínico nas comunidades judaicas Hernán Rustein...................................................................................23 Cercas de confiança Rabino Sérgio R. Margulies.................................................................29 O humano vale a pena? Rabino Dario Bialer............................................................................35 Para fora do bem e do mal Marcia Rozenthal................................................................................41 Onde estava Deus? A dignidade da vida diante da máquina da morte Francisco Caruso.................................................................................47 O sistema jurídico na Bíblia Hebraica e seu legado para a Humanidade Wremyr Scliar.....................................................................................53 Perguntas sem resposta Vittorio Corinaldi...............................................................................59 Marajó - Você sabia? Íria Ferreira Chocron...........................................................................63 Mordechai Geldman: o poeta israelense do desassossego André Sena..........................................................................................70 Resenha de Livro: Meu pai, minha mãe, de Aharon Appelfeld Jacques Fux.........................................................................................76 Em Poucas Palavras................................................................................79 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger........................................................................................87

A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.

4  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


ESCOLA EM TEMPOS DE PANDEMIA André Frank Coscaron/iStockphoto

M

obilizar adolescentes ao estudo, debate e reflexão pode se revelar uma tarefa bastante difícil. Contudo, há um tema que sempre despertou com certa facilidade o interesse de meus alunos: o estudo da Shoá – a tragédia dos judeus na Segunda Guerra Mundial. O caráter profundamente dramático dessa catástrofe, a conexão familiar que temos com suas vítimas e a proximidade cronológica com os nossos tempos ajudam a explicar o magnetismo que o assunto exerce, mas destaco aqui um fator adicional que identifiquei ao longo de minha trajetória docente: o grande número e ampla variedade de dilemas éticos enfrentados pelos participantes daquele período. Muitas vezes, o contexto extremado da Shoá exigiu que indivíduos e instituições precisassem responder a questões nunca antes colocadas, em um curto espaço de tempo, e com implicações terríveis não importando o caminho escolhido. Através da análise de tais situações, aprendemos mais sobre a própria natureza humana – especialmente sobre o potencial de, mesmo enfrentando as maiores adversidades, sermos fiéis a uma escala de valores pessoais. Acredito que, também por conta disso, adolescentes – que vivem um processo de formação identitária e precisam elencar os valores que direcionarão os primeiros passos de suas jornadas adultas – encontram na Shoá a possibilidade de observar com clareza o que cada bandeira oferece para aqueles que as levantam. Durante a Shoá e em diversos outros períodos da história, um valor específico foi repetidamente alçado pelo povo judeu às maiores colocações, rivalizando mesmo com o inquestionável valor da vida: o valor da educação. Desafiando as vontades de Antíoco, Adriano ou Hitler, inúmeros judeus arriscaram ou mesmo abriram mão de suas vidas para seguirem ensinando e apren-

Diante desse cenário tão dramático e complexo questionamos: o quão essencial a escola pode ser no contexto da pandemia? A qual nível de risco podemos sujeitar a nossa sociedade em prol da continuidade do processo de aprendizagem de nossos filhos?

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  5


dendo. Movidos pelo mandamento bíNo último mês de setembro, na cidade Para a criança, a blico de “veShinantam LeVanecha”, pela do Rio de Janeiro, após meio ano de porescola não é mera força da cultura judaica ou simplesmentões fechados, a retomada das atividades “preparação para a te por suas consciências, tais indivíduos escolares presenciais teve início em meio a vida”. Para a criança, a passaram a ser lembrados como heróis um acalorado debate público e sob granpela memória coletiva judaica. de insegurança jurídica, com variadas inescola é vida em si. Diferentemente de muitas civilizações terpretações de múltiplos instrumentos antigas, o povo judeu não inclui em seu rito de passagem legais de diferentes instâncias executivas e judiciárias. para a vida adulta demonstrações públicas de força ou viNesse cenário, apenas nove escolas se lançaram à rearilidade, mas de erudição – diante de todos os demais, a bertura de suas unidades – duas delas eram escolas judaicriança lê um livro: O Livro. cas. Considerando que a comunidade judaica represenCientes do amor judaico pelo conhecimento, os difeta menos que 0,4% da população do Rio de Janeiro, enrentes algozes que se levantaram contra os nossos antepasxergo esse acontecimento como sendo muito representasados nunca se satisfizeram em apenas queimar seus cortivo. Antissemitas de plantão farão uso retórico desse epipos, mas faziam questão de lançar às chamas inúmeros dos sódio para tentar engordar suas teorias de que o povo juseus livros também. As comunidades judaicas espalhadas deu tem natureza agitadora, truculenta e impetuosa. Senpelo mundo seguem tornando palpável o grande valor que do o diretor-geral de uma das referidas escolas, é de se esconferem à educação ao insistirem na criação e manutenperar que minha leitura seja absolutamente diferente. Sinção de suas próprias escolas, Batei Midrash, movimentos to que ainda é muito cedo para avaliar plenamente os efeijuvenis e outros variados e inovadores projetos educaciotos positivos e negativos do movimento das nossas escolas, nais, mesmo que sustentar tais instituições e iniciativas se mas não tenho dúvidas que ele originou-se do gigantesco revele uma tarefa árdua e dispendiosa. valor que a civilização judaica, em todas as suas vertentes, Hoje, vivemos um período excepcionalmente sensível confere à educação. e desafiador decorrente da ainda arrebatadora ação da CoO quão essencial é a escola no contexto da pandemia? vid-19. Lamentamos as mais de um milhão de vidas perTão essencial quanto sempre foi e talvez ainda mais. Muididas ao redor do mundo e as demais mazelas decorrento me entristece que o debate sobre a reabertura das escotes desta pandemia. Somado a isso, é difícil encontrarmos las passou a receber maior atenção da grande mídia apenas algum campo de atividade humana que não tenha sido em função do processo de retomada econômica do Rio de fortemente impactado pelo advento do novo coronavírus. Janeiro. No momento em que escrevo esse texto, a maior Testemunhamos forçosas (e talvez perenes) transformações parte dos alunos da rede pública de ensino continua sem em nossas esferas pessoais, familiares, comunitárias, profisacesso à educação formal e o questionamento mais recorsionais, entre tantas outras. rente dos órgãos de comunicação segue sendo “como os A cada dia surgem novos dilemas, muitas vezes emeradultos podem exercer suas atividades profissionais a contengenciais, e tanto a resiliência quanto a escala de valores de to se as crianças não podem ser deixadas nas escolas?” A percada um vêm sendo colocadas à prova. Diante desse cegunta é pertinente, mas acredito que não deveria ser vista nário tão dramático e complexo questionamos: o quão escomo a mais importante. A escola não faz falta, pois a presencial a escola pode ser no contexto da pandemia? Quansença das crianças no lar dificulta o ofício dos pais. A esto tempo, dinheiro e esforço devemos investir para oporcola faz falta pois, nela, as crianças descobrem, exploram, tunizar o acesso à educação formal para cada uma das nossocializam e conquistam; enfim, vivem. Para a criança, a sas crianças? A qual nível de risco podemos sujeitar a nossa escola não é mera “preparação para a vida”. Para a criança, sociedade em prol da continuidade do processo de aprena escola é vida em si. dizagem de nossos filhos? Há crianças das quais nos despedimos de forma trágiAo tentar responder esses questionamentos, me vejo esca e prematura, sem que elas tenham completado sequer sencialmente movido pela primazia conferida à educação dezoito anos. Por vezes, nesses momentos de pranto, nos pela Tradição e Cultura Judaicas. Sei que não sou o único. vemos considerando que tais jovens poderiam ter se tor-

6  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


FamVeld/iStockphoto

nado “novos Alberts Einsteins” ou “novas Maries Curies”. Entendo e compartilho desse lamento, mas temo que, ao nos limitarmos a ele, esqueçamos do valor intrínseco da pessoa humana mesmo em tenra idade. Não falo apenas de crianças prodígio como as descritas pelo Midrash – o jovem Avraham que desafiou a idolatria de seu pai, a jovem Miriam que restabeleceu os casamentos entre os israelitas no Egito. Não penso somente nas vozes juvenis que tocaram o coração do mundo, como as de Anne Frank ou Malala Yousafzai. Toda e qualquer criança preenche o mundo com brilho e esplendor advindos da sua própria existência e sua dignidade precisa ser devidamente resguardada. Como o diretor da presente revista tão elegantemente resumiu durante o período de confecção deste texto: “As crianças não são 'adultos em formação' e, sim, seres humanos completos, dentro de suas limitações físicas, que, de uma forma ou de outra, todos temos”. Cientes de tais limitações inerentes ao período da infância, o mundo adulto precisa assumir coletivamente a responsabilidade por zelar pelo melhor interesse das crianças e, na atualidade, o acesso à escola é fator indispensável para cumprir com esse princípio.

Graças ao grande comprometimento, adaptabilidade e determinação de incontáveis professores espalhados pelo mundo, muitas escolas conseguiram, de forma emergencial, desenvolver surpreendentes programas de Ensino à Distância (EAD) para a Educação Básica. Contudo, mesmo dentro dessas escolas privilegiadas, por variados fatores socioeconômicos, emocionais e cognitivos, muitos alunos não se viram em condições de usufruir a contento de tais programas. Mesmo nas piores crises, há espaço para reconhecermos oportunidades e nossa torcida é que o período de pandemia possa, ao menos, provocar discussões há muito postergadas e acelerar avanços de variados setores, incluindo o da educação. O EAD na Educação Básica, por exemplo, sempre foi um tabu mas já começa a ser visto como uma ferramenta potencial para a democratização do ensino. Todavia, devemos reconhecer que essa modalidade não atende à necessidade de todos. Mesmo no Ensino Superior, em que o EAD é devidamente legitimado e amplamente oferecido, nem todos os estudantes se adequam à sua alta exigência de autonomia e organização pessoal. As crianças que não têm condições de estudar em EAD, por qualquer motivo

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  7


Ljupco/iStockphoto

que o seja, precisam ser lembradas. De fato, a curva de contágio aumenMesmo no Ensino O Tratado de Avot contém duas pasSuperior, em que o EAD é ta à medida que aumenta a circulação de sagens aparentemente contraditórias no pessoas. Mas então, combinemos o sedevidamente legitimado que diz respeito a postos de comando. Por guinte: adultos, nos últimos meses, tee amplamente oferecido, mos voltado a viver – de forma contida, um lado, “em um lugar onde não houver línem todos os estudantes de forma gradual, mas temos voltado a deres, trate você de ser líder” (2:5) mas, por outro, “odeie cargos de liderança” (1:10). viver – e não apenas nos esforçado a sose adequam à sua alta Procurando conciliar as duas fontes, pobreviver. Nos disponhamos a, nos próxiexigência de autonomia demos entender que somos encorajados a mos três meses, fechar novamente os bae organização pessoal. assumir responsabilidade pelo bem coletires, as academias e os shoppings. Os savo, especialmente quando somos os mais lões de beleza, os templos, os pontos tucapacitados para tal, mas, ao mesmo tempo, devemos esrísticos. Os cinemas, as praias, as pistas de dança. E, petar atentos aos riscos que circundam o poder e cientes do los próximos três meses, abramos as escolas. Nos mobilipeso incluído ao abraçarmos esse papel. zemos e providenciemos todos os espaços, equipamentos Os últimos meses não têm sido gentis com nossos líe treinamentos necessários para a reabertura das escolas ser deres. As tomadas de decisão se tornaram tarefas ainda a mais segura possível – para todas as crianças –, indepenmais difíceis durante a pandemia. Contudo, mesmo dotadentemente de idade, origem, cor de pele ou condição fido dessa compreensão e ciente de minha perspectiva liminanceira. Façamos uso da nossa criatividade, engenhosidatada e tendenciosa, não consigo evitar a sensação de que, de e boa vontade. Articulemos pontes e não nos afundeem vez de conferir a devida antecedência à pauta da edumos ainda mais em abismos políticos. cação, os governantes locais mantiveram-na entre as últiDevemos fazer os devidos sacrifícios para não colapsar mas de suas listas. o sistema de saúde, mas, sempre quando de curva achataNa cidade do Rio de Janeiro, já vimos retornar todas as da e leitos dando vazão, oportunizemos o ensino presenatividades comerciais, culturais e sociais com a única excescial. Estendamos a liberdade de escolha para as famílias. são das escolas públicas. Essa situação não atenta só conQue cada um possa viver de acordo com sua própria escatra os pressupostos judaicos e filosóficos previamente menla de valores, sempre quando isso não fere os direitos escionados, mas contra o próprio senso comum e as oriensenciais dos demais. Estendamos também às crianças o ditações de importantes organizações de saúde. Assim como reito de viver e não apenas o de sobreviver. declarou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom GheAndré Frank é o diretor-geral da Escola TTH Barilan do Rio de breyesus: “Dadas as consequências devastadoras em crianças, Janeiro, Mestre em Educação Judaica pela Universidade Hebraijovens e na nossa sociedade como um todo, a decisão de fechar ca de Jerusalém e Mestrando em Gestão Escolar pela USP. Graescolas deve ser um último recurso, temporário, e apenas a níduado em Design pela Universidade Mackenzie e pós-graduado vel local, em áreas com intensa transmissão”. Adicionalmenem História Judaica pela Universidade Federal do Rio de Janeite, o famoso código de conduta já determinava há muito ro (UFRJ). tempo: “Mulheres e crianças primeiro”.

8  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  9


MEU AMIGO, O RABINO DR. HENRIQUE LEMLE

Charles Steiman O legado de Lemle transcende seus contemporâneos e suas gerações. Aprisioná-lo nos seus anos de vida ou exclusivamente na sua atuação rabínica seria um equívoco irreparável para a história da presença dos judeus no Brasil e reduziria o seu papel no Judaísmo hoje.

N

ão conheci Dr. Lemle. Eu tinha oito anos quando ele faleceu em 1978, e minha família não frequentava a sinagoga da ARI. Era aluno de um colégio comunista, aprendia iídiche na escola, frequentava o Shomer Hatsair. Conhecia as histórias da Bíblia como relatos históricos e acontecimentos folclóricos. As festas eram oportunidades de reunir a família e comer os quitutes de receitas herdadas de um passado remoto na Europa Oriental. Deus ou religião nunca foram um grande tema. Mas Dr. Lemle – assim teria me dirigido a ele, como todos os que gozaram da sua convivência – mudou minha vida! Ter acesso à filosofia e aos ideais do Judaísmo reformista através de seus líderes espirituais e laicos, dos congregantes e das atividades, ao me aproximar da ARI na década de 1980, me encantou. O legado de Lemle – assim o chamo na minha intimidade de pesquisa – transcende seus contemporâneos e suas gerações. Aprisioná-lo nos seus anos de vida ou exclusivamente na sua atuação rabínica seria um equívoco irreparável para a história da presença dos judeus no Brasil e reduziria o seu papel no Judaísmo hoje. A vida de Lemle não deve ser relatada como um fio contínuo de sofrimento; o sofrimento é inerente às situações pelas quais ele e muitos de seus contemporâneos passaram – segregação, aprisionamento, exílio. Mas cada etapa de sua vida sedimenta um estágio de sua visão, que ele incessantemente transformou em missão. A ARI é expressão concreta de sua visão comunitária e congregacional.

10  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Dr. Lemle (segundo, da esquerda) integrou a delegação ao Congresso Judaico Mundial, de 27 de junho a 6 de julho de 1948, em Montreux, Suíça: “Seu espírito chalutsiano [pioneiro] de proximidade com Israel, que manteve aliás por toda a vida, tornou-se uma luz de esperança nas trevas da perspectiva nazista”.

Em um documento do início de 1972, Lemle aborda os temas da liturgia como foram instituídos na fundação da ARI na década de 1940, que por sua vez eram herança da tradição do Judaísmo reformista alemão. Lemle, entretanto, corrobora os ajustes que foram feitos ao longo dos anos, porque “a situação da vida moderna trouxe problemas técnicos com relação a certas determinações

da tradição. Não nos podemos enganar sobre o fato de que a grande maioria de nossos congregantes usam condução em Shabat. A nossa orientação ficou assim determinada: “Tudo que contribuir à verdadeira beleza do Shabat, Oneg Shabat, terá que ser admitido”. E enfatiza, “nós não temos outra orientação senão esta: o que nos inspire para Kidush Hachaim, a santificação da vida, a santifica-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  11


ção de nossos sentimentos e a santificação Lemle casou-se em maio de 1934 com “A nossa orientação de nosso relacionamento com os outros ficou assim determinada: sua prima, Margot Rosenfeld – as mães – este é o dia do Shabat. E assim conseeram irmãs. O pai de Margot pode ter tudo que contribuir à guimos também aquilo que parece ao ser sido uma das duas primeiras vítimas fatais verdadeira beleza do humano moderno tão difícil, o relaciodo regime nacional-socialista. Em março namento mais pessoal com aquilo que é de 1933, quatro jovens foram espancados Shabat, Oneg Shabat, a Ordem Suprema, com o Ser Supremo, em Creglingen, dois deles morreram. Seterá que ser admitido.” com Deus”. Essa postura contundente é o gundo o Prof. Dr. Rupp da Universidaque torna tão natural e indiscutível, nesde de Würzburg, se “houvesse uma lista tes tempos desafiadores de pandemia, congregarmo-nos de nomes dos mais de seis milhões de judeus assassinados, através das tecnologias disponíveis. Hermann Stern e Arnold Rosenfeld figurariam no topo Lemle nasceu em 30 de outubro de 1909. No seu pecomo as primeiras vítimas da Shoá”. queno vilarejo Fischach, no sul da Alemanha, Lemle preLemle foi investido como rabino no púlpito da comusenciava a chegada dos prestamistas e caixeiros viajantes nidade de Mannheim, em 1˚ de abril de 1933. Ninguém judeus da Europa Oriental falando iídiche e trazendo bupoderia ter previsto, ao marcar a data festiva da sua posgigangas e muitas notícias e novidades, não as de jornais, se, que este seria um dia trágico para os judeus na Alemamas as sociais: listas de moças solteiras, ofertas e demannha: o dia do boicote aos consultórios, escritórios e estadas, falecimentos, os bastidores. Em um universo de aprobelecimentos de judeus. ximadamente 500 mil judeus alemães, no início da décaSua atuação em Mannheim foi brilhante e notória. O da de 1930 havia cerca de 50 mil judeus poloneses vivenjovem Rabino Dr. Heinrich Lemle, como ainda se chamado em território alemão. va antes de mudar para Henrique no Brasil, descreve em Ao chegar ao Brasil em dezembro de 1940, Lemle se um currículo de 1938: “Alguns meses depois visitou-me o deparou com uma comunidade judaica ashkenazi predoRabino Dr. Caesar Seligmann e me convidou, em nome minantemente da Europa Oriental: poloneses, russos, lida Diretoria da comunidade de Frankfurt, a vir para essa tuanos. Agora eram esses a maioria! Ele fez disso um ingrande e tradicional comunidade como rabino. Foi-me centivo à sua missão e não um obstáculo: aprendeu iídioferecida a oportunidade de experimentar algo inusitado. che! Concentrou seu trabalho na propagação da mensaEu deveria atuar diretamente com jovens como o primeigem do Judaísmo liberal, com acolhimento de novos gruro Rabino para a Juventude. A juventude judaica daquela pos de origem, e menos nas separações étnicas. Além de época vivia o seu ser judeu como um empecilho para todos fortes laços de amizade com judeus do Leste europeu, foi os seus planos de futuro”. Ele assume o púlpito como Ratambém entre os judeus marroquinos e portugueses, já esbino para a Juventude em Frankfurt, em junho de 1934. tabelecidos e integrados, que Lemle encontrou os interloLemle lista entre seus afazeres “aulas, aconselhamento, cutores com seu país de exílio. planejamento profissional, liderança dos grupos juvenis e Em seu livro O Drama Judaico, de 1944, definido à de escoteiros, aconselhamento para emigração, aconselhaépoca como o primeiro livro escrito no Brasil por um jumento para pais e cursos para mães”. Por trás desta lista de deu sobre os judeus, Lemle manifesta gratidão: “Já há vátarefas está a mais difícil de sua carreira: além de seu trabarias gerações, florescem, no Centro e no Norte do país, lho no púlpito e nas aulas, Lemle precisava aconselhar facongregações de brasileiros israelitas, imperturbados na mílias a se separarem, pais a abrirem mão de seus filhos e observação da sua religião. Estes filhos do Brasil alcançadeixá-los ir como única forma de salvá-los, jovens a abanram posições respeitadas na sociedade e na economia brasidonarem os sonhos de uma carreira profissional ou acadêleiras, ao mesmo tempo em que se destacaram por sua lealmica nas renomadas universidades alemãs e um futuro de dade à fé israelita. Fizeram, desta maneira visível, mais um títulos e honras, para aprenderem a manejar tratores e tratraço do caráter verdadeiramente democrático deste país; a balhar a terra para uma possível imigração para a Palestina. fidelidade à religião judaica não os impediu em nada de seO empenho de Lemle não foi em vão. Além do êxito rem classificados entre os filhos mais patrióticos do Brasil”. vivenciado pessoalmente na ARI até seu falecimento em

12  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Dr. Lemle era conhecido como um excepcional orador e “concentrou seu trabalho na propagação da mensagem do Judaísmo liberal, com acolhimento de novos grupos de origem, e menos nas separações étnicas”.

1978, ele pôde recolher ao longo da vida provas reais de sua obra. Em março de 1945 é publicada, no Boletim da ARI, uma carta [aqui resumida] que recebeu de um soldado diretamente da frente de combate: “Querido Dr. Lemle: O Sr. ficará surpreso ao ter notícias da frente ocidental e não creio que se lembre imediatamente de mim. Frequentei o seu curso de Bar Mitsvá, em 1937. Há pouco, li sobre o Sr. no Aufbau [jornal sobre sobreviventes e exilados]. Vejo que o Sr. continua, no Brasil, uma atividade que há tanto tempo começou. Às vezes desejo poder ouvir suas palavras: aqui, sem dúvida, extremamente necessárias. Em 1943, me alistei no Exército Americano. Estava ansioso por entrar em combate e obtive bastante do que queria, quando desembarquei nas praias da Normandia logo após a invasão. Aprendi a viver num buraco, sempre à sombra da morte, cujos olhos duros eu fitei mais de uma vez. A guerra é uma coisa horrível; aprendi a odiá-la e mais ainda os nazistas por causa dela. Cordialmente, Private Fred Karfiol”. Fred morreu nos Estados Unidos, aos 66 anos, em dezembro de 1990. Que impulso formidável esse jovem soldado prestou ao ânimo de Lemle e aos associados leitores dos boletins! Sobretudo nos anos em que o destino do povo judeu ainda estava incerto e os exilados só tinham acesso a notícias esparsas e desesperadas através daqueles que aqui conseguiram aportar. Em 1935, com a promulgação das leis racistas na Alemanha, o cerco se fechava. O espaço de convivência, ou até mesmo de sobrevivência social dos judeus, era estrangulado gradativamente com proibições, segregação e censura. Para o judeu alemão que tinha uma vida cotidiana integrada, um cidadão que se orgulhara ou talvez ainda se orgulhasse de pertencer àquela grande nação, a mensagem era clara: você não é um de nós. Você é der Jude, o judeu. Aos dirigentes das comunidades judaicas nos seus últimos estertores, administrando um contingente sob o choque das novas circunstâncias e, em especial, aos que trabalhavam com a juventude, aquela era uma época de atuação igualmente austera e sensível. O trabalho de Lemle com a juventude na e da ARI, seu rigor absoluto com a oferta de atividades e a inclusão dos jovens nas esferas de liderança comunitária não eram apenas um valor judaico da continuidade, do grande elo das gerações. Era uma questão séria de sobrevivência. Naquele momento na Alemanha, os jovens eram a última chance de salvar o Judaísmo

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  13


europeu e, para isso, deveriam ser enviados para o futuro como numa cápsula do tempo. “A evolução histórica do atletismo judaico e do esporte em Frankfurt am Main é interessante porque nela se espelha uma época de extrema resistência e profundos problemas, que foram superados de forma bem-sucedida através de empenho pessoal e determinação”, relembra Richard Blum em 1977 em seu livro sobre o grupo Bar-Kochba, uma agremiação atlética do Macabi da Alemanha. Não resta dúvida que Lemle estava entre esses homens e mulheres que se empenharam pessoalmente. E, assim como nos anos de 1934 e 1935, a comunidade judaica de Frankfurt realizou seus próprios jogos olímpicos em 1936. Desta vez, com especial significado, pois dava aos desprezados do esporte nacional a chance de se exibir e disputar. Em nota que relatou sobre este grande evento no Boletim da comunidade de Frankfurt de janeiro de 1937 lê-se: “Durante a entrada dos atletas para a abertura dos terceiros Jogos Atléticos Internacionais Macabeus no hipódromo de Frankfurt em 29 de novembro de 1936, o Rabino Dr. Lemle enfatizou em seu discurso que as palavras, em hebraico, para Aufmarsch e Aufruf têm a mesma raiz. Assim, surge da energia vital e vibrante uma força de congraçamento”. Tudo me leva a crer que estas duas palavras, Au-

fmarsch – que aqui significa desfile – e Aufruf – chamamento, convocação –, pelo uso do prefixo Auf, que em alemão indica movimento ascendente, referiam-se à palavra hebraica aliá, usada para imigração para Israel. Mais cedo em 1936, em 12 de janeiro, no necrológio a um membro da comunidade de Frankfurt, Hermann Schwarz, no novo cemitério judaico da cidade, Lemle já divulga a ideia da imigração, de fazer aliá, sem usar as palavras imigração, Palestina, Israel ou outras relacionadas ao tema. Era uma época de extrema observação e suspeição. Ele ressalta em seu discurso: “Trágico nos parece que, em sua hora derradeira, seus filhos estão distantes naquela outra terra e lá choram por ele. Talvez amenize um pouco a tragédia saber que para ele houve a última e autêntica alegria judaica que pais de família podem vivenciar. Enquanto aqui ele sofria em sua última estação de dor, enquanto aqui preocupações amargas o consumiam – estava sendo fundada lá, na outra terra, uma nova vida, um novo futuro para seus filhos, no qual ele mesmo vai sobreviver. A última carta de lá pode ter sido o motivo de sua última alegria na vida. Assim, constroem-se pontes de lá para cá, da terra da vida e da terra do futuro das novas gerações até o lugar de descanso eterno do pai imortalizado”. 1937 é conhecido como um ano relativamente calmo,

CRONOLOGIA DE HENRIQUE LEMLE Z’L 30 de outubro de 1909 Nasce em Augsburg, sul da Alemanha, filho de Samuel e Regine, nascida Ney (ambos mortos em Theresienstadt) 1919–1928 Ensino primário e secundário no Gymnasium Augsburg 1928–1929 Seminário Rabínico e Universidade em Breslau 1929–1930 Universidade em Berlim 1930–1931 Universidade em Würzburg 1932 Doutorado na Universidade em Würzburg 1929–1933 Formação na Hochschule für die Wissenschaft des Judentums (HWJ – Academia para Ciência do Judaísmo), Membro do Comitê de Ouvidores da HWJ

1933 É consagrado rabino pela HWJ. Rabino-itinerante em Nordhausen (Harz, Alemanha) 1933 Rabino em Mannheim Maio de 1934 Casa-se com sua prima Margot Rosenfeld 1934–1938 Rabino para juventude e professor no Philanthropin e Docente no Jüdischen Lehrhaus (Casa de Estudos Judaicos) em Frankfurt am Main. Atuou ativamente no Aufbauwerk Palästina, movimento de imigração para a Palestina 1936 Nasce seu filho Alfred Novembro de 1938 Preso no campo de concentração de Buchenwald, libertado três semanas depois por

14  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

intervenção de Lady Lily Montagu da World Union for Progressive Judaism (WUPJ), que lhe enviou um contrato de trabalho para rabino na Inglaterra Dezembro de 1938 Imigração para a Inglaterra com a esposa Margot e o filho Alfred. Colaborador da Woburn House e da West Central Liberal Synagogue em Londres 1939–1940 Rabino na Congregação Liberal de Brighton and Hove 1940 Internação como enemy alien (inimigo estrangeiro) na Ilha de Man, Inglaterra Dezembro de 1940 Imigração para o Brasil, enviado pela WUPJ


sem grandes efemérides por parte do gole sobre Pobre Terra Prometida?, em que “Em pouco tempo ele verno nacional-socialista. As leis racistas ele chega à conclusão de que, na Palestihavia conquistado já haviam sido implantadas em 1935, os na, reencontramos de forma concentrada jovens e adultos, jogos olímpicos de 1936 já haviam exe exacerbada todos os conflitos e problecom sua voz suave posto ao mundo os traços de caráter do mas da Europa e da América. São as mesgoverno hitlerista. Aos olhos da história, mas doenças e choques que todos vivene simpática, com 1937 foi um ano de acomodação e adenciam. A Palestina não é uma pobre Terra palavras de sabedoria, samento: a infraestrutura da guerra vinha confiança e entusiasmo.” Prometida, mas muito mais uma terra de sendo implantada longe dos olhos da opicontrastes, de contrastes acirrados, uma nião pública, a ideologia nacional-sociaterra de encontros e de sínteses”. lista era condensada e quem podia, ainda, tratava de ir emNa brochura de 1979 Em Memória ao Grão-Rabino bora. Ou não! O governo não deixava muito claro quais Dr. Henrique Lemle, o publicista Ernesto Strauss revela seriam os próximos passos. As grandes potências munuma lembrança de sua infância: “Meu irmão e eu estávadiais ainda tinham uma crença ingênua ou uma política mos sentados nos degraus de mármore da majestosa sinade olhar para o outro lado, e ignoraram com consciência goga de Frankfurt, que todo Erev Shabat ficava lotada. Enou cautela as movimentações dentro do Reich. tre os rabinos havia uma grande atração, o recém-contraMargot Lemle relata em suas memórias sobre uma vitado Rabino Dr. Lemle z’l, no início de sua carreira, como sita do casal à Palestina em 1937, para sondar a possibiRabino para a Juventude. Em pouco tempo ele havia conlidade de estabelecer-se lá. Duas referências a esta visita quistado jovens e adultos, com sua voz suave e simpática, à Palestina foram publicadas no boletim da comunidade com palavras de sabedoria, confiança e entusiasmo, semde Frankfurt: uma palestra em dezembro de 1937 e outra pre dentro daquilo que o tempo de então permitia. Uma em janeiro de 1938. Aqui Lemle, aos 28 anos, já se revela destas sextas-feiras ficou gravada em nossa memória de um visionário e não um mero observador: “A apresentameninos de aproximadamente 10 anos. O Rabino Lemle ção ideológica da noite foi feita pelo Rabino Dr. H. Lemhavia retornado de uma viagem a Israel. Com entusiasmo,

4 de abril de 1941 Lidera o primeiro serviço religioso pelo rito liberal no Rio de Janeiro, com convite a toda comunidade em alemão, hebraico e ídiche, realizado no Grande Templo Israelita, à rua Tenente Possolo 13 de janeiro de 1942 Participa da fundação da ARI. Teve desde sua chegada influência significativa no desenvolvimento do Judaísmo liberal no Brasil 1958 Recebe o título de Cidadão Carioca da Câmara Municipal do Rio de Janeiro 1973 Recebe o título de Benemérito do Estado da Guanabara

Até 1976 Professor na Faculdade de Filosofia da Universidade Nacional, posteriormente na Faculdade de Teologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e fundador e mestre da cátedra de Letras Hebraicas e Estudos Judaicos na UFRJ. Vicepresidente da Organização Sionista do Brasil. Governador de Honra da Universidade Hebraica de Jerusalém. Membro e diretor da World Union for Progressive Judaism e do World Jewish Congress. Fundador do Centro Maimônides, instituto de formação de professores de religião. Idealizador, cofundador e primeiro

presidente do Conselho Deliberativo da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj). Cofundador e membro do comitê executivo da Confederação Israelita do Brasil (Conib). Cofundador e membro da Asociación de Comunidades y Organizaciones Israelitas en Latinoamérica (CENTRA), de que originou o movimento juvenil Chazit Hanoar. Membro da Central Conference of American Rabbis, da Rabbinical Assembly of America, da B’nai Brith e do Rotary Club 22 de setembro de 1978 Falece no Rio de Janeiro

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  15


Os Jogos Olímpicos realizados pela comunidade judaica de Frankfurt am Main em novembro de 1936 deram “aos desprezados do esporte nacional a chance de se exibir e disputar” numa “época de extrema resistência e profundos problemas, que foram superados de forma bem-sucedida através de empenho pessoal e determinação”.

ele rejubilava com a visita à Terra Prometida. Israel seria a solução para toda a desgraça que já se delineava aos remanescentes [na Alemanha]. Seu espírito chalutsiano [pioneiro] de proximidade com Israel, que manteve aliás por toda a vida, tornou-se aos silenciosos ouvintes uma luz de esperança nas trevas da perspectiva nazista, que apresentava sombras cada vez mais obscuras”. Nessa mesma brochura, Austregésilo de Athayde despede-se do amigo Rabino, exaltando que “os seus livros, as suas prédicas, os seus ensinamentos, pela palavra e pelo exemplo, consagram uma figura excepcional, que deve ser recolhida na história do Judaísmo como uma manifestação da Presença Divina em nossos tempos”. Tanto as palavras de Austregésilo de Athayde como as de Ernesto Strauss confirmam o compromisso existencial de Lemle com sua nova pátria, o Brasil, e seu comprometimento transcendental com sua pátria ancestral, Israel. Tal-

16  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

vez a relação de Lemle com os profetas vá além da admiração, quiçá uma relação de identificação – profetas vêm luz na escuridão. Charles Steiman é associado da ARI, ativista da Comissão de Identidade e Memória e dirige Heritage & History. Com sede em Zurique, H&H é uma instituição de pesquisa histórica e produção editorial especializada no registro de eventos pessoais e comunitários das diferentes populações judias europeias de língua alemã que emigraram para o Brasil durante o século XX, em decorrência da perseguição do regime nacional-socialista. Uma tarefa fundamental de H&H é ressaltar a contribuição cultural, científica e econômica desses imigrantes na sociedade que os acolheu. Fonte: Heritage and History AG e Biographisches Portal der Rabbiner (BHR), Steinheim Institut für deutsch-jüdische Geschichte (Portal biográfico dos rabinos, Instituto Steinheim de história judaico-alemã, www.steinheim-institut. de:50580/cgi-bin/bhr)


Inscreva o seu nome no livro que vai revolucionar o estudo da Torá no Brasil

A edição em português do Chumash editado e comentado pelo Rabino Plaut expõe a riqueza do milenar das várias vertentes do pensamento judaico de uma forma instigante e abrangente, gerando mais identificação, informação, senso crítico e engajamento. Homenageie seus entes queridos inscrevendo seus nomes nesta edição histórica e contribua para a formação judaica dos nossos jovens.

Saiba mais em www.plaut.com.br

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  17


Allvisionn/iStockphoto

18  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


A VIDA DO RABINO

Breno Casiuch

L

á pelos idos da minha juventude, quando comecei a refletir sobre os caminhos profissionais que poderia seguir, cogitei estudar para virar – quem sabe algum dia?! – rabino. Felizmente, ou infelizmente, a vida me ofereceu outros rumos e acabei optando por seguir na direção do mundo corporativo, dos contratos e litígios. No entanto, desde que essa possibilidade passou pela minha consciência, volta e meia, especialmente quando o horário permite e consigo ir à sinagoga para o shabat e lá chegando aceno de longe para o rabino que reza solitário no púlpito, me vejo às voltas refletindo a respeito de como deve ser a vida do rabino? Afinal, o rabino pensa no bem de todos, mas quem pensa no bem do rabino? Rabino não é presidente, mas precisa saber liderar. Servir de liderança espiritual e religiosa para indivíduos tão diversos quanto aqueles que integram o microcosmo da comunidade judaica, deve demandar uma dose cavalar de esforço, paciência e bom senso, que talvez nem o mais experiente e astuto dos políticos possua. Não há espaços para erros ou passos em falso. Saber fazer política comunitária é uma arte. É entender que para uns o problema é quantos pães serão ofertados no cafezinho e que outros estão preocupados em aumentar o número de associados vinculados à instituição. É conseguir, a despeito dos ensinamentos do ditado popular, estar disposto a discutir religião 24 horas por dia e sete dias por semana.

Ainda que seja objeto de debate, há quem afirme que o termo “rabino” decorre da palavra rebe, que significa “grande” ou “sábio”. Não há, portanto, pequenas aspirações para o rabino.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  19


Rabino não é jornalista, mas precisa Curiosamente, ao mesmo tempo em Rabino não é professor, saber contar histórias. Suas prédicas não que é tratado como popstar, o rabino premas precisa saber dar podem ser simples, objetivas, cartesianas; cisa ser acessível a todos. Ele precisa esconselhos e ensinar. Para suas respostas não podem ser binárias sob tar sempre pronto para um abraço ou um pena de parecerem simplórias. Elas preci- cada problema formulado, aperto de mão. O grande problema é que, sam ser parabólicas, metafóricas, tortuocomo bons judeus que somos todos, conele precisa conhecer o sas, mágicas e complexas. Precisam ir, volfundimos a acessibilidade rabínica com fundamento religioso tar e ir novamente até chegarem ao seu fiintimidade. O rabino é sempre nosso meda possível resposta nal extasiante. Precisam confundir e eslhor amigo. Aquele a quem podemos cone, de quebra, algumas clarecer ao mesmo tempo. Precisam ser tar tudo. E cobrar também. Como um arhistórias interessantes profundas e cheias de perguntas retóricas. tista a quem pedimos um autógrafo, pois E na maior parte das vezes, ao contrário julgamos conhecê-lo de tanto que o vesobre o tema. dos grandes escritores, eles precisam ler mos, o rabino precisa aparentar sempre seus textos em voz alta para todos, ao vivo e em cores. felicidade – e se por algum motivo isso não ocorrer, oy vey. Rabino não é professor, mas precisa saber dar conseNão me lembro, talvez por falta de intimidade, de ter vislhos e ensinar. Para cada problema formulado, ele precito algum rabino triste, soturno, cabisbaixo, chorando. Isso sa conhecer o fundamento religioso da possível resposta e, pareceria errado. Rabinos não podem transparecer fragilide quebra, algumas histórias interessantes sobre o tema. E dade. Precisam ser fortes a todo momento. como todo bom judeu, precisa saber as inúmeras posições Rabino vota? Ele é republicano ou democrata? Pode divergentes. E histórias interessantes para essas também. existir rabino de direita? Nesse caso, qual seria o papel do O rabino precisa ser sensível e distante. Ele precisa entenEstado na correção das desigualdades sociais? E rabino de der os problemas das pessoas e compreender que os mesesquerda para quem o livre arbítrio não seria assim tão immos problemas podem demandar conselhos e soluções disportante? Afinal, o rabino é coxinha ou comunista? Taltintas dependendo do mensageiro. Ao mesmo tempo, ele vez centro. Rabino no “Centrão”, então? Acho que não... deve transparecer uma imagem altiva e de distanciamento. Rabino não é jogador de futebol, mas seus momentos Rabino não pede conselhos. Ele os dá. E de graça. E semde glória também ocorrem à noite e nos finais de semana. pre que é chamado. Embora não seja médico, ele é sempre O seu trabalho é o descanso dos outros. Até mesmo no dia chamado a oferecer a cura. Ainda que seja objeto de debasanto, ele labuta. Sexta-feira é o dia do shabat. Sábado é o te, há quem afirme que o termo “rabino” decorre da paladia de casamento. Todas as manhãs há as rezas matinais. vra rebe, que significa “grande” ou “sábio”. Não há, porEle trabalha nos feriados religiosos, assim como nos feriatanto, pequenas aspirações para o rabino. dos laicos. E tal como um atleta – expostos a vitórias e derRabino não é celebridade, mas é tratado como uma. rotas –, o rabino também precisa conviver com turbilhões Ele sujeita-se ao escrutínio da comunidade e ao julgamende sentimentos antagônicos. Se em um dia celebra um cato eterno das pessoas, e ele precisa estar razoavelmente samento e comparece a uma circuncisão, no outro preciconfortável a respeito disso. Há vida pessoal do rabino? O sa comparecer a um hospital para confortar uma família rabino dirige, tem apartamento, paga contas, toma multa com um parente doente ou até mesmo a um enterro. Eu de trânsito, irrita-se com atendente de telemarketing, xincostumo ficar confuso quando saio de uma reunião e enga, mente, assiste futebol nas noites de quarta-feira, reclatro em outra logo em seguida – imagine comparecer a um ma do valor dos impostos ou vai ao cinema? Confesso que casamento e logo após a um enterro. Se fosse eu, é possível se eu visse um rabino correndo na Lagoa, descansando no que desejasse mazal tov ao defunto e enterrasse a esposa. clube ou talvez até falando que assistiu a uma série policial E há os aspectos mais mundanos. Rabinos não ganham do Netflix, acharia que algo cósmico está fora de lugar. Talbônus, mas são cobrados por performance. Rabino não faz vez mais do que celebridade, o rabino é tratado como uma greve, rabino não pode almejar cargos mais altos, rabinos entidade. Ele não pode transparecer alegria exacerbada ou não são sindicalizados. Com quem o rabino almoça em tristeza profunda. É simplesmente o rabino. uma segunda, uma terça ou uma sexta-feira? Não há happy

20  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Acervo ARI-RJ

hours ou festas de final de ano. Quais são Rabino não é celebridade, treita tentando não cair para os lados, ao os desejos profissionais de um rabino? E mesmo tempo em que precisa segurar mas é tratado como mais importante ainda: quem é o seu chesua kipá para que ela não caia no chão. uma. Ele sujeita-se ao fe? O presidente da sinagoga, seus memComo, em meio a essas funções, deveres, escrutínio da comunidade bros associados, o conselho, sua consciênobrigações e realizações, é possível achar cia ou “apenas e tão somente” Ele? tempo e inteligência para oferecer respose ao julgamento Em meio a tantas dificuldades, sejam tas a tantas perguntas difíceis? O que é eterno das pessoas, elas mais profundas ou meramente suDeus? O que é a religião? De onde viee ele precisa estar perficiais, há de se perguntar, então, por mos e para onde vamos? Como se equilique alguém decide virar rabino, assumin- razoavelmente confortável brar entre as contradições inatas à religião a respeito disso. Há vida em um mundo cada vez mais orientado do essa vida repleta de ônus, limitações e desgastes? Talvez seja uma questão de vopela ciência e pela tecnologia? Será que, pessoal do rabino? cação, de dom mesmo, de caráter. A pesao conversar com seus filhos sobre uma soa não vira rabino – ela sempre foi. Talvez, as satisfações aula de biologia, ele tenta convencê-los de que o big bang que essa posição gera superem em muito os problemas e a evolução das espécies são teorias conspiratórias? Que o dela decorrentes. Talvez, exercer atividades rabínicas aproser humano e os símios não são parentes distantes? Como xime-o de uma paz interior. Quem sabe o exercício dessa se modernizar em um ambiente naturalmente propenso à função preencha um senso de propósito, de dignidade, de tradição? Como incentivar os jovens a buscar a religião e humanidade – há pessoas que se preocupam com si e seus como oferecer conforto aos mais velhos? Como oferecer próximos e há pessoas que se preocupam com os outros. respostas às perguntas existenciais mais profundas? Talvez seja tudo isso junto. Confesso que não sei. Talvez por isso eu não seja raVamos concordar que a vida do rabino não é fácil, porbino… que ele é, antes e acima de tudo, um equilibrista que caBreno Casiuch é advogado e sócio da ARI. minha, sempre de terno e embecado, em uma linha es-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  21


Lucia Gajdosikova/iStockphoto

22  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


DO GERAL AO PARTICULAR O trabalho rabínico nas comunidades judaicas

Hernán Rustein O judaísmo não é “uma entidade” que possui uma “essência”, mas uma “família de comunidades”. O importante não é o conteúdo do debate, mas a sua ocorrência em si mesma. O fundamental é que a família se reúna para conversar, independentemente de como a mesa é armada.

E

m Bereshit 18, conta-se que Deus recebeu notícias de um comportamento imoral cometido pelos povos de Sdom e Amorá.1 Sua reação imediata foi checar a veracidade da informação. Será que Deus não sabe tudo? Que necessidade tem de verificar? A opinião do comentarista medieval Abraham ben Meir Ibn Ezra a esse respeito é que, talvez, Deus saiba tudo de uma maneira geral (dérech kol), mas desconhece as particularidades (dérech chélek). Será que a função rabínica responde pelo judaísmo como um todo? Ou por cada judia ou judeu em particular? Reformulando a pergunta, será seu papel ensinar às pessoas a maneira correta de viver uma vida judaica? Ou criar uma vida judaica junto com as pessoas? Minha proposta para as próximas linhas é explorar a atribuição rabínica em relação ao judaísmo em geral, e em relação às judias e judeus em forma particular.

Dérech Kol – O escopo geral do trabalho das rabinas e dos rabinos A primeira coisa que devemos esclarecer é que o que chamamos de “judaísmo” se refere ao campo de ação da atividade rabínica. Junto com o rabino Dana Kaplan e o teólogo Michael Satlow, propomos que “não há qualquer crença ou prática particular” que possa ser chamada de “núcleo” judaico. O judaísmo não é “uma entidade” que possui uma “essência”, mas uma “família de comunidades”. Segundo essa corrente de pensamento, o que as une é o fato de participa-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  23


Zilber42/iStockphoto

rem “de um discurso contínuo sobre determinados textos e práticas rituais”. O importante aqui não é o conteúdo do debate, mas a sua ocorrência em si mesma. O fundamental é que a família se reúna para conversar, independentemente de como a mesa é armada.2 O rabino Mark Washofsky, especialista em halachá, argumenta que essas conversas se caracterizam como sendo “persuasivas”. Cada pessoa entra no diálogo judaico e compara seus próprios argumentos com os das demais, querendo influenciar as concepções alheias. Esses diálogos foram sendo registrados na literatura haláchica, cujo desenvolvimento persiste ainda hoje. Os contornos das comunidades vão sendo estabelecidos à medida em que essas discussões evoluem ao longo do tempo. Algumas congregações escolherão um princípio de autoridade que determine a resposta correta. Já as “liberais e pluralistas”, por outro lado, manterão o processo de persuasão aberto. Os consensos irão acontecendo, contudo, sem qualquer pretensão de torna-los definitivos.3 É importante aproveitar este ponto para desmistificar a ideia de que o judaísmo reformista não é haláchico. Nas palavras do próprio Washofsky:

24  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

“Historicamente, o judaísmo tem se expressado sobretudo por meio de mitsvá (dever religioso) e maassê (ação sagrada). Nós, judeus, interpretamos o pacto do Sinai (brit) como um chamado à ação e respondemos a ele na forma de uma práxis, um sistema de atos concretos que abarca quase todos os aspectos da existência humana e funciona como um mecanismo, através do qual santificamos nosso mundo e nossas vidas. A halachá é a substância dessa práxis, e os textos haláchicos – o Talmud e o enorme corpus de comentários, códigos e responsas rabínicas que dele derivam – são sua fonte literária. (...) Essa tradição de bases e argumentos construídos ao longo de dois mil anos é a que nos referimos quando dizemos ‘halachá’, e nenhuma expressão religiosa que, sinceridade, defina-se a si mesma como ‘judaica’ pode prescindir dela (...) Apesar de que o judaísmo reformista se relacione com a halachá, a lei judaica opera em nosso movimento de um modo diferente ao que acontece na ortodoxia ou em outros segmentos do mundo judaico. (...) Nossa ênfase é posta no pluralismo, através de uma variedade de abordagens com relação à prática religiosa, que se sobrepõe à uniformidade; razão pela qual, embora nossos textos haláchicos ofereçam informações e argumentos, eles não constituem


determinações legais impositivas, no sentiDérech Chélek – As particularidades A tarefas de rabinos e do tradicional”.4 rabinas se desenvolverá da tarefa rabínica Um judaísmo sem essências e com disem comunidades que Há 200 anos, o rabino Samuel Holcussões abertas em torno de seus textos continuarão um debate dheim advertiu que a atividade rabínie práticas pode parecer um vasto territóca não se limitava ao ritual. “Junto com rio para o desenvolvimento da tarefa raancestral em torno de bínica. Existe algo dentro da comunidade práticas e valores. A Torá a instrução acerca das leis cerimoniais e outros atos religiosos, [a profissão rabíque seja inadmissível? O rabino Donniel e a literatura haláchica nica] consiste principalmente em buscar Hartman propõe duas categorias de “dessão os textos em torno propagar dentro de sua própria comunivios intoleráveis” que ele identifica na literatura haláchica: min (inimigo) e meshu- dos quais essas conversas dade, através do ensino e do exemplo, a religião e a moralidade em sua ampla e mad lekol haTorá kulá (aquele que nega serão consideradas completamente a Torá). judaicas. As comunidades benéfica extensão”. Para Holdheim, fortalecer a quem está fragilizado, escutar Aqueles que não estão “atacando atiliberais procuram manter aqueles que necessitam de uma escuta, vamente ou desmerecendo a vida judaiesses debates abertos, transmitir calma, difundir a justiça e ofeca e os compromissos de qualquer meme não os fechar fazendo recer conhecimento onde há ignorância bro da comunidade”, bem como aquesão tarefas fundamentais de quem exerce les para quem “qualquer componente da uso de autoridade. a função rabínica. tradição de 3 mil a 4 mil anos de valo“[Aquele que ocupa uma posição rabíres e vida judaicos seja irrelevante” esnica] deve se esforçar para despertar e restaurar, criar e protão “fora das fronteiras do judaísmo”. Em suma, enconmover, estabelecer e preservar em todos os corações um sentramos aqui uma generosa delimitação do que pode ser so de justiça e responsabilidade, de religião e moralidade, de considerado judaico. Podemos diferir substancialmente amor a Deus e ao ser humano, de amor por seu rei e seu país, em nossas práticas e crenças. Podemos não ser capazes de fidelidade inviolável à lei e àqueles que a executam, e fade compartilhar os mesmos espaços de oração ou a meszer com que a virtude e a religião possam governar em todos ma comida. Podemos até ser tão diferentes a tal ponto os lugares.” de não podermos nos casar entre nós. No entanto, enHá um componente obrigatório profundamente huquanto uma pessoa considerar que uma parte da nossa mano e ético nessa empreitada. É como se o conteúdo dos tradição lhe é significativa e não fizer nada para atacar debates judaicos estivesse a serviço dessa tarefa principal; ativamente a vida judaica de outrem, isso a torna parte mais universal do que judaica, e com as individualidades do judaísmo.5 Com isso, parece que delimitamos um pouco o camassumindo um protagonismo.6 Abraham Geiger também sinalizou um caminho no po de ação das rabinas e dos rabinos. Sua tarefa se dequal a atividade rabínica deveria estar atenta às particulasenvolverá em comunidades que continuarão um debaridades de cada comunidade e daqueles que a constituem. te ancestral em torno de práticas e valores. A Torá e a li“É algo muito nobre abdicar-se até mesmo do maior dos teratura haláchica são os textos em torno dos quais essas prazeres, a saber, seguir as próprias ideias com ousadia e, conversas serão consideradas judaicas. As comunidades em sentido contrário, acomodar-se com tentativas sempre liberais procuram manter esses debates abertos, e não os renovadas de conquistar algum lugarzinho para essas ideias fechar fazendo uso de autoridade. Enfim, é inadmissível (...) para ser precisamente eficaz na esfera mais estrita do que alguém queira participar de nossas comunidades e exercício da própria influência”. Para Geiger “é difícil ser não encontre nada relevante de tudo o que foi proposrabino”: sua posição demanda dele desbravar novos camito ao longo desse desenvolvimento histórico. Tampouco nhos. Em uma comunidade haverá pessoas que não irão é possível que alguém seja parte, se busca desmerecer ou querer nenhuma mudança, mas também haverá aqueles atacar as convicções, valores e práticas de outro membro que não podem esperar mais por elas. O ofício rabínico é da comunidade.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  25


detectar o que a comunidade precisa e tentar conduzi-la, aos poucos, por esse caminho.7

A atribuição rabínica nas comunidades judaicas As rabinas e os rabinos não resguardam nenhuma essência. Não são estes os guardiães dos segredos de qualquer verdade. Eles não determinam a validade das práticas judaicas e nem mesmo das suas próprias ideias. Nem estabelecem quem pode pertencer e quem não pode. Antes, são as comunidades as que constroem a vida judaica. Elas são as que debatem e escrevem os textos da nossa tradição. Respeitando-se mutuamente, as pessoas criam e recriam os espaços comunitários. Então, o que corresponde ao fazer rabínico? A busca por uma melhor maneira de fazer com que essas conversas ocorram. Para que os espaços de escuta sejam habilitados. Para que cada um encontre o seu lugar e respeite o lugar da outra e do outro. Assume-se a responsabilidade de estudar e trazer nossos textos para a mesa. De compartilhar nossos ritos e de renová-los. De ser honesta e hones-

Hernán Rustein vive em Buenos Aires, é estudante de rabinato no Instituto Ibero-Americano de Formação Rabínica Reformista e atua no Templo Libertad. Gentilmente traduzido do espanhol por Kelita Cohen.

Notas 1 Nomeadas nas traduções bíblicas para o português por Sodoma e Gomorra (N.T.). 2 Kaplan, D. (2013). The New Reform Judaism: Challenges and Reflections. Filadelfia: JPS (ver a introdução). 3 Ibidem, ver capítulo 6. 4 M. Washofsky “The Jewish Path”, em Kaplan, D. (2017). A Life of Meaning: Embracing Reform Judaism’s Sacred Path. Nueva York: CCAR Press. 5 Hartman, D. (2007). The Boundaries of Judaism. Londres: Bloomsbury Publishing (grifo nosso). 6 Plaut, W. G. (2015). The Rise of Reform Judaism: A Sourcebook of Its European Origins (JPS Anthologies of Jewish Thought). Lincoln: University of Nebraska Press. (Ver capítulo 10). 7 Ibidem.

ShaharKlein/iStockphoto

26  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

to com seus próprios sonhos e buscar o pragmatismo para realizá-los da melhor maneira. Ser uma rabina ou um rabino não é estar a serviço do judaísmo. É estar a serviço de cada pessoa. Para que dérech chélek, desde as peculiaridades, o judaico viva e se enriqueça.


Pierluigipalazzi/iStockphoto

28  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


CERCAS DE CONFIANÇA

Rabino Sérgio R. Margulies Salomão Ibn Gabirol, poeta judeu que viveu na Espanha no século 11, conta: Perguntaram a Sócrates: “´Por que nós não vemos em você até mesmo a menor das apreensões?” Ele respondeu: “Porque eu nunca reivindiquei a propriedade de qualquer coisa que me entristecesse se eu perdesse”. E completou: “Tudo requer uma cerca”. E ele foi indagado: “O que é uma cerca?” E Sócrates respondeu: “Confiança”. Bem, o questionamento continuou: “O que é uma cerca de confiança?” “Uma cerca de confiança”, explicou, “é não temer nada”. ... O que significa aceitar as experiências tal como vêm e vão.

Reconhecer as cercas relevantes da vida é um ato de apreciação de quem olha e admira o que está à sua disposição, como os recursos materiais, o conhecimento e a espiritualidade.

C

onfiança: essencial para a construção de uma vida saudável constituída por vínculos de convívio e para que sejamos genuinamente humanos sem devorar uns aos outros. Confiança é um valor crucial para que o amor floresça e o trabalho frutifique. A confiança é gradativa e constantemente construída. Pode ser comparada a um ato de tecelagem. Fio após fio sendo costurado para que o tecido da vida seja criado. Por outro lado, é facilmente minada pela hipocrisia que camufla os interesses das agendas ocultas. Assim, tal como um tecido desfia a confiança, também pode desmantelar desintegrando o caráter humano. Neste caso, a ética – sustentáculo da confiança – torna-se apenas um discurso que apazigua a consciência dos incautos sendo utilizado para encobrir a prática maliciosa dos que enganam sem pudor.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  29


E no início era a cerca...

Confiança é o convívio fundamentado por valores éticos comuns que permitem o enriquecimento através da preservação das múltiplas singularidades. Isto é comunidade.

Um neném é colocado em seu berço, que tem cerca. É um ato de proteção. Outras cercas – não necessariamente visíveis – são erguidas para que sejam reconhecidos os limites do que se pode e do que não se deve. São erguidas através das regras de convivência, dos valores que balizam a realização dos projetos, da ética e decência moral. Neste sentido, as cercas que limitam são simultaneamente ampliadoras da capacidade de estar com o outro, de constituir família, ter amigos e de se engajar em produtivos processos de criação. A cerca limita a ganância e potencializa a ambição de realizar, protege a reputação e contém a voracidade destruidora. A cerca é como um caminho: abre estradas que são pavimentadas pelo respeito e pela dignidade colocando grades protetoras para evitar as quedas no penhasco do desrespeito e da indignidade. Reconhecer as cercas relevantes da vida é um ato de apreciação de quem olha e admira o que está à sua disposição, como os recursos materiais, o conhecimento e a espiritualidade. A apreciação é completada pelo reconhecimento de quem está à disposição, estendendo a mão, provendo apoio, incentivando, escutando e aconselhando, caminhando junto, e mesmo quando estiver longe se fará presente. Então, se é tão saudável, por que a cerca da confiança é quebrada? Por que – como Martin Buber (18781965) nos permite questionar – as conversas genuínas fundamentadas na confiança dão lugar a diálogos que ocultam mensagens, escondem intenções e mascaram propósitos ocultos? Por que as vigas da confiança – bases do desenvolvimento e do crescimento – são substituídas pela corrosiva suspeita? Estas perguntas convidam a lembrar os propósitos da vida.

O lembrete Um ensinamento da tradição judaica sugere que o ser humano deve carregar num bolso um papel escrito ‘o mundo foi criado para mim’ e, no outro bolso, um papel escrito ‘vim do pó e ao pó retornarei’. Afirmar que ‘o mundo foi criado para mim’ exprime confiança para com o que somos. Este é o conceito bíblico de betselem Elohim, ser-

30  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

mos a imagem e semelhança divina. Uma imagem não estética, não de forma, e sim de constituição do que somos. Este potencial de confiança própria é abalado pela autodesqualificação que nos apequena diante de nós mesmos. A autodesqualificação instiga a insegurança interna que indaga como nos contos de fadas diante do espelho: ‘Há alguém mais belo do que eu?’ O medo da inferioridade alavanca a perversidade que cria as maçãs envenenadas para aniquilar as ameaças que julgamos serem externas, mas que na verdade residem dentro de nós. O veneno está dissimulado nas abordagens e narrativas que prometem confiança e entregam o ódio potencialmente assassino. Ensina a mensagem do filósofo que a cerca da confiança é uma cerca de ‘não temor’. Este ‘não temor’ evita que o possível medo interno seja transferido ao outro a fim de que não seja destilado o ódio através do veneno disfarçadamente entregue pela maçã.

O complemento do lembrete A mensagem de alerta ‘do pó vieste e ao pó retornarás’ expressa a consciência da vulnerabilidade e intenciona frear a pretensão de sermos proprietários do mundo. A pretensa soberania anula a confiança e transforma os outros em vassalos por meio de conturbados interesses de subserviência. Lembrar que ‘do pó vieste e ao pó retornarás’ ajuda, como se conclui do ensinamento do filósofo, a aceitar o que a vida traz e leva. Isto reforça o senso de realidade, crucial na condução da vida e na capacidade de fazer face às inesperadas circunstâncias. Isto impede o processo de autovitimização para então, com confiança, afinar os instrumentos a fim de que encontrem uma nova harmonia quando tudo mais parece desafinar.

Comunidades e tribalismo Confiança é uma parceria. Ninguém detém o todo. Não almeje, menciona o filósofo, a parte que não te pertence a fim de que não haja lástima se perdida for. Confiança é o convívio fundamentado por valores éticos co-


Oversnap/iStockphoto

muns que permitem o enriquecimento através da preservação das múltiplas singularidades. Isto é comunidade. Num mundo marcado pela polarização, comunidades são espaços amplos de acolhimento e integração. São espaços que valorizam a diversidade que germina o crescimento e fermenta o aprendizado por meio da troca com o diferente, convidando a criatividade na busca de soluções. São espaços que permitem o encontro consigo próprio através do encontro sem temor com outro. Em contrapartida, as estruturas de convivência que adotam o tribalismo, tolhem. Nelas, a pertinência é determinada pela submissão à ideia imposta. A insubmissão leva à condição de pária ou a exclusão. Sejam grandes ou pequenos grupos, sofisticados ou simples sistemas, a mensagem manipulativa é direta: ‘O mundo foi criado para mim e no meu mundo você se enquadra. Se não se enquadrar, dele sai’. Uma vez que, neste processo de tribalismo polarizado, não há o reconhecimento de outro mundo, pois todos os demais são ditos como ilegítimos, não submeter-se pode ser fatal. Daí a urgência de prevenir a proliferação de grupos de exclusão, como as seitas.

Seitas A seita manipula e anula o indivíduo, amoldando-o à sua estrutura. Para atingir este intento se aproveita da vulnerabilidade (‘do pó vieste e ao pó retornarás’) e promete a salvação através da proteção que a seita diz prover. A promessa de salvação e de proteção – mesmo que ilusórias e manipuladas – faz com que a seita exerça atração. A sedução inicial é acompanhada da destruição das estruturas psíquicas dos indivíduos para então serem reconstruídas por novos modelos incutidos. A seita não é o espaço da expressão da identidade. Ao contrário, anula a identidade e a substitui pela dependência. Enquanto a identidade pavimenta um caminho de escolhas responsáveis, a dependência esmaga a capacidade de decisão e impõe a obediência. Enquanto uma comunidade é construída através da pertinência, o membro da seita é um adepto. A comunidade fomenta o aprendizado e a seita, a aceitação. Na comunidade o amor – sem temor, como diz o filósofo – é a veia vital, na seita, o terror é o motor. Na comunidade o líder ensina e propõe questionamentos para que a au-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  31


Anastaciia Petrova/iStockphoto

tonomia de cada pessoa seja fortalecida. A seita manipula e anula o No medo exasperante ficamos tão Na seita, o guru professa a liberdade, mas indivíduo, amoldando-o à preocupados com nossa própria ansieaprisiona a mente (quando não o próprio dade e ambição que não percebemos o sua estrutura. Para atingir corpo é ameaçadoramente destituído da quanto o valor da confiança, sustentácueste intento se aproveita lo da vida, está solapando. Cada um – naliberdade de ir e vir). A comunidade provê raiz, a seita desenraiza. A comunidade da vulnerabilidade (‘do pó ção, grupo ou indivíduo – tomado pela cria vínculos, a seita os rompe. O líder da vieste e ao pó retornarás’) ansiedade de perder o que não lhe pertencomunidade intenciona criar elos, o guru ce é dominado pelo temor e olha somene promete a salvação os rompe. Daí a diferença – utilizando a te para o seu umbigo como se o mundo através da proteção rima dos termos em inglês – entre fellotivesse sido criado somente para si (e não que a seita diz prover. wship e followship. também para todos os demais). Fellowship é companheirismo, apoio Após o corte do cordão umbilical o e incentivo. Followship é ato de seguir. Quem questiona nutriente virá de outra fonte. Sucessivas novas fontes sepode seguir com confiança, já quem é direcionado a seguir guirão para nutrir a vida em todos os sentidos como, por sem a chance de perguntar talvez sequer saiba que não conexemplo, alimento, afeto, segurança e realização. Estas fia e sequer perceba que (novamente com termos que rifontes têm como origem a confiança. Qualquer sistema mam, mas de significados distintos) deixa de ser uma pesque nutra a vida – seja lá quem e quantos forem envolvisoa autônoma para se transformar em autômato. dos – somente tem sua sustentabilidade assegurada se houver confiança. As palavras contemporâneas do Dr. Daniel O umbigo Orenstein, do Instituto Technion, em Israel, ecoam o filósofo antigo: “Confiança é um componente fundamental “As nações do mundo estão tão preocupadas com suas ande toda sustentabilidade e resiliência”. siedades e ambições que não percebem que a própria funSérgio R Margulies é rabino e serve na ARI – Rio de Janeiro. dação da vida civilizada está sendo minada.” Rabino Mordechai Kaplan (1881-1983).

32  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


PRESENCIAL OU REMOTO ATUANDO NO NOVO MUNDO

R. Dona Mariana, 123 Botafogo

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  33


Brankospejs/iStockphoto

34  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


O HUMANO VALE A PENA? Rabino Dario Bialer O progresso é também assunto de um grande debate filosófico. A Grécia Antiga não acreditava no progresso. O mundo está submetido a um processo cíclico pelo qual tudo se repete.

L

embro perfeitamente da minha primeira aula na universidade. Lembro da sala lotada com centenas de alunos. Lembro da maioria fumando e tomando chimarrão, lembro de ver os que chegavam tarde sentando no chão por falta de cadeiras, mas o que lembro especialmente é da fala do professor naquela aula introdutória de sociologia geral. Ele começou a falar maravilhas do Império Romano. Como as cloacas e as estradas foram algumas das enormes contribuições dos romanos para o desenvolvimento da civilização. Eu fiquei chocado. Simplesmente não podia entender do que estavam me falando. Primeiro pensei que era um erro. Que estavam falando de outro povo e eu havia entendido errado. Mas, quando, em determinado momento, o professor repetiu o nome dos romanos, aí eu pensei algo bem argentino: “Ah, esse cara não entende nada!” (era o meu ego falando, seguramente). Claro que eu não pensava que ele não sabia nada de sociologia ou de história, pois minha arrogância não chegava ao ponto de imaginar que ele era um ignorante. O que eu pensava é que ele não sabia nada da outra parte, dessa que eu entendia, a história judaica... O certo é que me senti muito mal nessa hora. Mais ele falava bem dos romanos, mais aumentava a minha dor e indignação. Até que explodi! Levantei a mão para explicar já não apenas ao professor, mas para as centenas de colegas à minha volta que olhavam e ouviam obnu-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  35


bilados pelo carismático professor, e griNaquele momento, eu pensei que Como os nossos sábios tei para o mundo que não era verdade o realmente existia uma verdade, que obdefiniriam o progresso? que eles estavam ouvindo! Que os romaviamente era a minha, e que o outro a Para Shamai, o progresso nos eram ruins! Que eles nos aniquiladesconhecia e, por isso, falava como fasempre terminará em ram! Que os romanos destruíram o Temlava dos romanos, mas tinha certeza que, plo de Jerusalém! quando ouvisse a minha verdade, ele iria desastre. O mal é um Os colegas me olhavam sem entender mudar de opinião. destino inevitável. Para do que eu estava falando. E, tudo bem, eu Hoje eu penso que aquela verdade que Hilel, embora nossos não esperava que eles entendessem. eu sentia palpitante dentro de mim não impulsos ocasionalmente excluía a verdade do professor, mas que Já o professor ... ele sim conhecia a nos empurrem para história, ele sabia. Reconheci isto em seu as duas são faces da mesma moeda. Penolhar antes mesmo de ele me responder semos por exemplo no sentido da palavra o mal, nossa vontade com duas palavras, que passados 25 anos progresso.1 Imagino que a maioria tem pode conquistá-los. uma sensação positiva quando pensa no ainda não esqueci: progresso. Quem não gosta de progredir? – E daí? Considere o primata que encontrou pela primeira vez E creio que ele deve ter visto a dor no meu rosto, pois uma pedra afiada. Essa pedra mudou o curso da história seguramente, por misericórdia, decidiu acrescentar algo à ao usá-la para cortar carne ou couro curtido. Aquela pedra sua resposta: tornou-se uma flecha e uma lança, uma espada de bronze, – Aquilo foi um dano colateral ao progresso inegável uma espada de aço, uma catapulta, o primeiro mosquete, que os romanos trouxeram para a civilização. canhão, rifle, metralhadora, granada, lança-chamas, tanDano colateral... que, míssil e arma nuclear. Um progresso claramente exSabem? Durante muito tempo continuei lembrando ponencial. Será que essa corrida armamentista era necessádessa história.

Ivansmuk/iStockphoto

36  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Wikimedia Commons / Foto: Isabella Pick

ria ou inevitável como parte do próprio progresso? As armas nucleares já estavam escritas na história da humanidade na época em que uma pedra afiada foi encontrada? O destino do progresso é inevitável? Em algum momento no passado, um ancestral descobriu que a concha de um animal podia carregar água. Essa concha foi transformada em potes de barro. Um pouco mais tarde, tripas de animais. Com a descoberta do vidro polido, os líquidos foram contidos com muito mais eficiência, surgiram as cantinas de alumínio, e no final da linha veio o plástico abençoado, tão barato que é usado e descartado. E, então, há mais plástico no oceano do que aquilo que você pesca. E novamente nos perguntamos: O plástico é uma consequência necessária e inevitável do progresso? O plástico era nosso destino inexorável? Ou, nas palavras de Heschell2: “É nossa civilização um caminho para o desastre, como muitos de nós estão propensos a crer? É a civilização essencialmente um mal, para ser rejeitada e condenada? A civilização técnica é o produto do trabalho, do exercício do poder pelo homem tendo em vista a produção de bens. Começa quando o homem, insatisfeito com o que está disponível na natureza, empenha-se em uma luta com as forças da

natureza a fim de intensificar sua segurança e aumentar seu conforto. Para usar a linguagem da Bíblia, a tarefa da civilização é submeter a terra, ter o domínio sobre a besta. Quão orgulhoso nós ficamos amiúde ante nossas vitórias na guerra com a natureza, orgulhosos ante a multidão de instrumentos que conseguimos inventar, a abundância de mercadorias que temos podido produzir. Contudo, nossas vitórias vieram a assemelhar-se a derrotas. A despeito de nossos triunfos, caímos vítimas do trabalho de nossas mãos; é como se as forças que conquistamos nos tenham conquistado.” O progresso é também assunto de um grande debate filosófico. A Grécia Antiga não acreditava no progresso. O mundo está submetido a um processo cíclico pelo qual tudo se repete. Já em tempos do Iluminismo, o francês Voltaire (16941778), com base na razão humana, mantém uma visão extremamente otimista do progresso. O grande filósofo Immanuel Kant (1724-1804) pensava que o progresso não é automático ou contínuo. O influente filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844–1900) recuou e negou a ideia de progresso e voltou ao conceito cíclico grego. Para filósofos como Hegel e Marx, o progresso só é alcançado por meio do conflito.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  37


Font83/iStockphoto

E mais próximo aos nossos dias, Yuval Harari alerta: “Um projeto central consiste em proteger a humanidade e o planeta como um todo dos perigos inerentes ao nosso poder. Conseguimos controlar a fome, as pestes e a guerra graças, enormemente, a um fenomenal crescimento econômico, que nos provê de alimento, medicina, energia e matérias-primas abundantes. Mas esse mesmo crescimento desestabiliza o equilíbrio ecológico do planeta de maneiras que só estamos começando a investigar”.3 “O gênero humano atrasou-se no reconhecimento desse perigo, e até agora pouco fez para combatê-lo. A despeito de todos os discursos sobre poluição, ameaça global e mudança climática, a maioria dos países ainda terá de fazer sérios sacrifícios econômicos e políticos para melhorar a situação. Quando chega o momento de optar entre crescimento econômico e estabilidade ecológica, políticos, executivos e eleitores sempre preferem o crescimento. No século XXI, teremos de fazer melhor do que isso se quisermos evitar a catástrofe.” Como vemos, não há consenso sobre a ideia do progresso, e eu diria que isso acontece, pois o impacto que tem no mundo é consequência inseparável das ações do ser humano. Os rabinos vão mais longe na discussão e, em vez de questionar se o progresso é bom ou ruim, se perguntam se o homem é bom. Por dois anos e meio, sem trégua, a escola do sábio Shamai e a escola do sábio Hilel discordaram. Qual assunto

38  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

mereceu tamanha relevância? A criação do homem. O humano vale a pena? Shamai afirmava que teria sido melhor se o ser humano não tivesse sido criado. Ao contrário, a casa de Hilel sustentava que era preferível que o ser humano tivesse sido criado do que se não tivesse sido criado. Ninguém ganhou e eles tiveram que apelar para uma votação. A votação favoreceu Shamai: é preferível que o homem não tivesse sido criado. Mas Hilel acrescentou: Shamai, você pode estar certo. Mas agora que ele foi criado, você deve passar a examinar as suas ações.4 Esta é uma passagem singular. Os rabinos abandonam suas discussões regulares sobre a lei e passam a discutir o dilema mais fundamental: a própria existência da humanidade. Shamai vê a bestialidade e a brutalidade dos assírios, babilônios, persas, helenos e romanos. Um império após o outro traz amargura e destruição. Shamai vê o mundo e tira uma conclusão: o ser humano é essencialmente mau. A existência do ser humano é um equívoco. Hilel, o eterno otimista, responde: de que adianta argumentar se a criação do homem é boa, visto que já nascemos. Shamai é filosófico. Hilel é pragmático. Como os nossos sábios definiriam o progresso? Para Shamai, o progresso sempre terminará em desastre. O mal é um destino inevitável. Para Hilel, embora nossos impul-


sos ocasionalmente nos empurrem para o mal, nossa vontade pode conquistá-los. Mas, além das discrepâncias, um princípio é estabelecido: Se deixado à sua natureza, o indivíduo cairá em desgraça. Nossa tendência é negativa. Só o progresso guiado por valores se transforma em futuro. O progresso sem um guia moral nos enganará. Shamai se desespera, mas Hilel acredita que as garrafas de plástico, as armas e tudo o que compromete o bem-estar do planeta são evitáveis. O ser humano escolheu isso entre tantas outras escolhas à sua disposição.

Como controlamos nossos impulsos?

Freud explica a libido como uma energia que engloba tudo o que tem a ver com amor. É uma força profunda na psique. A busca por poder e conquistas surgem disso. Vemos que os rabinos anteciparam Freud em dois mil anos. Entenderam que uma estratégia deve ser criada para controlar o impulso do mal.

Nos conta um midrash em Bereshit Rabá: “Cansados ​​pela imposição do mal, os rabinos se juntaram, o pegaram e o prenderam. Imaginem o júbilo! Mas o impulso do mal apareceu aos sábios na forma de um leão em chamas e alertou os sábios ... fique claro que se me matarem o mundo acaba. Eles o mantiveram numa gaiola por três dias e então algo estranho aconteceu, nenhuma galinha em Israel botou um ovo. Os rabinos arrancaram seus olhos e foram forçados a libertá-lo novamente. Dessa forma, o incesto foi reduzido em Israel.” Esta passagem nos ensina várias coisas. Podemos suprimir o impulso do mal, mas a um preço alto: nossa vida criativa. O negativo e o criativo são um. Agora, por que as galinhas não botam ovos? O ovo representa a energia de procriação. É por isso que cegam o leão. Para diminuir as tentações que surgem ao olhar. Inveja e paixões. E é por isso que o incesto é limitado por cegá-lo; como energia criativa maliciosa. Esta passagem magnífica se desdobra em um Midrash, ou semão rabínico, onde Rabi Nachman, em nome de Shmuel, explica que o impulso do mal é chamado na criação de “muito bom”, porque sem ele as casas não seriam construídas, as famílias não seriam criadas ou procriadas. Faça a ligação com o que meu professor de sociologia disse. Em outras palavras, o mau impulso é perigoso e tentador, mas essencial. É o motor do progresso. Ele se manifesta no desejo de competir e vencer. O desafio é que o progresso está enraizado naquela força que cria e destrói.

Lendo as fontes rabínicas, penso em Freud e a libido. Freud explica a libido como uma energia que engloba tudo o que tem a ver com amor. É uma força profunda na psique. A busca por poder e conquistas surgem disso. Vemos que os rabinos anteciparam Freud em dois mil anos. Os rabinos entenderam que uma estratégia deve ser criada para controlar o impulso do mal. Assim, lemos no tratado de Yoma: O Abençoado seja Ele disse a Israel: Eu acredito no impulso do mal, mas acredito na Torá como seu antídoto. Se eles estudarem a Torá, eles serão protegidos. O mal como mal se vence quando não temos uma atividade de grande valor que o transforme. A mesma força negativa e conquistadora é canalizada em batalhas de estudo formidáveis, sem trégua, entre os rabinos. Os rabinos entenderam que o progresso traz em seu seio uma semente de destruição. Mas o impulso do mal é ruim apenas na medida em que o usamos para o mal. O mal não é um destino, mas uma possibilidade. Não somos ruins. Nós às vezes agimos mal. Os rabinos, em sua infinita sabedoria, tratavam o mal como uma energia e não como a essência do homem. Nenhum de nós é ruim em seu âmago. Só temos que encontrar maneiras positivas de canalizar nossa energia. O progresso é a energia total da humanidade. O progresso é impulsionado pela energia negativa e criativa (positiva) da humanidade. O mundo sempre teve e tem a opção de ser bom. Como ensinava Heschel: A fé do judeu não é um meio de sair deste mundo, mas um meio para estar dentro deste mundo; a solução do problema mais debatido da humanidade não será encontrado na renúncia da civilização tecnológica, mas na obtenção de algum grau de independência dela.

Dario E. Bialer é rabino e serve na ARI – Rio de Janeiro.

Notas 1 Inspirado numa aula do meu amigo, colega e mestre, o Rabino Alfredo Borodowski. 2 A. J. Heschell. O Schabat: Seu significado para o homem moderno. São Paulo, Perspectiva. 3 Yuval Harari, Homo Deus. São Paulo, Companhia das Letras 4 Talmud Bavli, Tratado Eruvin.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  39


Benjavisa/iStockphoto

40  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


PARA FORA DO BEM E DO MAL Marcia Rozenthal

A

palavra Yetser, do hebraico, pode ser traduzida como “inclinação”, que pode ser para o bem (yetser hatov), ou para o mal (yetser hará); sua raiz é a mesma da palavra hebraica, yetsiritiut, que significa criatividade; ou seja, o livre arbítrio e a criatividade derivam da mesma raiz etimológica. Ambos dependem da mesma fonte: Liberdade. Mas, afinal, não somos livres? Então por que nosso povo tanto cultua a liberdade?

O princípio “Então o Eterno Deus fez crescer árvores encantadoras para os olhos e boas para frutificar; e no meio do jardim, a Árvore da Vida e a Árvore de Todo o Conhecimento”.1 “Então o Eterno Deus levou o homem e o colocou no Jardim do Éden para trabalhá-lo e mantê-lo. Em seguida o Eterno Deus ordenou ao homem, dizendo: “Você pode comer tudo o que quiser de toda árvore do jardim, mas da Árvore de Todo o Conhecimento você não poderá comer, pois no instante em que comer dela, estará condenado a morrer”.2 “Então os olhos de ambos se abriram e, ao se darem conta de que estavam nus, costuraram folhas de figueira umas às outras e fizeram saias para si mesmos”. 3 Então o Eterno Deus disse: “Vejam, os humanos são como nós, conhecedores de todas as coisas”.4

A herança cultural, de origem judaica predominante no ocidente, legou uma certeza atávica de que o Homem é dotado do livre arbítrio e, com isso, da possibilidade e responsabilidade pela escolha de seus atos. Isso tem grandes implicações em fundamentos, regras e valores que regem a conformação destas sociedades humanas.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  41


Benjavisa/iStockphoto

Esse relato atinge e penetra, como um raio, nas profundezas da realidade e da solidão humana; nele, vemos a preocupação de Deus, com o uso que Adão e sua descendência fariam com a conquista do conhecimento do bem e do mal, e também com a potencial saga trágica que o Homem optou seguir, ao comer o fruto da árvore proibida. Essa passagem é capciosa. O pecado da desobediência, a meu ver, já era inevitável; a proibição pressupõe escolha – reprimir, ou não, a vontade. Para escolher a atitude a ser tomada, de forma consciente, o Homem precisou passar por uma situação de conflito (a serpente representa a tentação) ao se deparar com suas inclinações – Yetser hatov / Yetser hará, para traçar seu caminho. Foi, então, que o Homem passou a ter o ônus e os bônus de ser o dono de seu destino. E foi assim que se quebrou, para sempre, a percepção paradisíaca do mundo, que existia quando o Homem não tinha consciência dos perigos e da responsabilidade. Para escrever sobre este momento ímpar, o dito “pecado original”, é preciso tocar no vórtice da visão judaica de

42  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

civilização, talvez a nossa maior contribuição para a formação do homem ocidental: “Sabemos” que somos livres para escolher e para interferir no nosso destino. Entretanto, isto está longe de ser um consenso e aqui falo como cientista. Em vista disto, os convido a margear a obscura fronteira entre a ciência e a religião, e a penetrar neste terreno nebuloso.

Ciência e crença: O nó górdio O Homem conserva, na sua intimidade, uma intuição, uma convicção inata de que ele existe como entidade única e que, através do seu corpo, percebe, compreende e age sobre o meio externo. Dentro deste seu mundo secreto e particular, o Homem vivencia uma natureza independente e distanciada da rigidez do tempo e do espaço e, portanto, da realidade externa, que está atrelada às propriedades e leis da natureza. O Homem pode vivenciar um tempo que se dirige em qualquer sentido, e que corre em velocidades varia-


das; ele pode criar espaços e distâncias, sim, o caráter determinístico do comporA visão determinística que podem ser estendidas ou retraídas; entende que todo evento tamento das partículas mais elementares pode, ainda, vivenciar realidades fantaem situações especiais; porém, probabilié causado por um siosas e até mesmo fantásticas e, também, dade não significa escolha, e, sim, chance evento que o precede, é capaz de moldar concepções e entende um evento ocorrer. dimentos originais que percorrem o seu Assim sendo, a “sensação” do livre arpodendo assim ser pensamento, em paralelo às informações bítrio, para as ciências da natureza, perprevisto (Karl Popper), advindas do dito mundo real. Isso sugeportanto, a ideia do livre manece no terreno da ilusão. Para elas, o re que o Homem “parece” conjugar dois Homem é constituído de “matéria viva”, arbítrio é uma ilusão. universos paralelos – o físico e o mene ele responde às suas leis. tal –, o que faz com que a relação entre O que as ciências nos dizem sobre a “matéria viva”? o cérebro e a mente se torne um tema bastante singular. A herança cultural, de origem judaica predominante A ciência nos acena com elementos interessantes, que no ocidente, legou uma certeza atávica de que o Homem nos permitem perceber algumas características curiosas, é dotado do livre arbítrio e, com isso, da possibilidade e inerentes à natureza da matéria. Esses conhecimentos poresponsabilidade pela escolha de seus atos. Isso tem grandem nos dizer muito sobre a natureza humana, ou sobre des implicações em fundamentos, regras e valores que reparte dela, já que somos constituídos de matéria e vivegem a conformação destas sociedades humanas. mos neste mundo. Paralelamente a este paradigma, a ciência moderna tem a maior parte de suas áreas de conhecimento e atuação Sobre a “personalidade” da “matéria viva” apontadas, justamente, para o sentido contrário: o do deEstudos multidisciplinares vêm convergindo para alterminismo e do materialismo. Prevalece a ideia de que a guns pontos interessantes, que ajudam a entender a relanatureza é, em última análise, uma máquina de grande ção entre o ser vivo e o meio ambiente. A matéria pode se precisão e, portanto, subjugada às leis da matéria; estão inorganizar em estruturas dinâmicas, vivas e capazes de intecluídos neste contexto o próprio Homem e, naturalmenragir com o meio ambiente. Estas estruturas são fechadas, te, o seu cérebro, que é visto como o senhor de seus sentie precisam ser mantidas dentro de uma faixa de equilíbrio mentos, pensamentos e ações. interno, que lhes garanta a sobrevivência. Em síntese: a visão determinística entende que todo A exposição a novas experiências pode ser um desafio à evento é causado por um evento que o precede, podendo sobrevivência de um organismo; mas é, justamente, o que assim ser previsto (Karl Popper), portanto, a ideia do livre permite a aquisição dos aprendizados, que reforçam o poarbítrio é uma ilusão. der de sobrevivência e também a capacidade de adaptaO determinismo pressupõe que o futuro, em todos os ção destes seres. seus aspectos, já está definido, e o Homem não é a cauO mecanismo adaptativo se processa através da estrusa de seus atos. turação de aprendizados, que “facilitam” e “aceleram” as É bem verdade que as novas descobertas da física, no respostas aos novos perigos. Isso explica por que bactérias início do século XX – incluindo o princípio da incerteza se tornam resistentes aos antibióticos; os insetos resistentes de Heisenberg, as teorias da física quântica e da relativiaos inseticidas; o nosso sistema imunológico cria defesas dade, a matemática do caos –, frustraram a ideia de que o específicas para organismos agressores; e nós criamos dehomem poderia ter acesso à realidade absoluta. Com isso, fesas comportamentais para nossa proteção e sobrevivênelas provaram que existe um limite para a previsibilidacia. Vemos, então, um aspecto da “personalidade” da made dos eventos da natureza pelo Homem, embora mantéria; uma tendência à indolência, quando não há ameatenham o caráter determinístico dos fenômenos naturais. ça externa, e à repetição de padrões, que são os aprendizaA física quântica abriu uma nova janela, na medida em dos, enquanto estes se mostram eficientes. que constatou que, na essência da matéria, os comportaPara sobreviver, a “matéria viva” busca a praticidade mentos são imprevisíveis e indetermináveis, retirando as-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  43


do uso da experiência acumulada, em dePode-se fazer um esforço das consequências trazidas pela ideia de trimento da criatividade, a qual requereSeleção Natural. de imaginação para ria também exposição ao risco, e esforço A Teoria da Evolução das Espécies de avaliar o que deve ter para se desviar de caminhos já seguros e Charles Darwin é filosoficamente abransido o drama ímpar da conhecidos. gente e é amplamente aceita no mundo Pode-se ainda vislumbrar o “caráter da ciência. Está impressa, nas suas entreliespécie humana ao ser reativo” da “matéria viva”. Ela pode ser caagraciada com recursos nhas, qual seria a real “índole” da matéria, paz até de modificar o meio, para garanlinguísticos e simbólicos se considerarmos nossos “estranhos” pretir sua sobrevivência; mas não lhe é próceitos “intuitivos” de Moral e Ética. e, principalmente, ao prio o ímpeto, o desejo de criar proativaEm resumo, a evolução das espécies é tomar conhecimento mente um padrão comportamental, apeo resultado de um processo de competinas para realizar ou transcender a natureção cruenta entre diferentes seres, consde si e do mundo. za de suas experiências. truindo um cenário onde os termos forEm suma, a matéria não é livre; ela não escolhe, porte e fraco têm um valor capital. Numa visão realista, poque é prisioneira de seus automatismos, através dos quais de-se dizer que a evolução das espécies é um longo proela reage ao meio. cesso que se desenrolou no tempo em larga escala, para o qual foi derramado, impiedosamente, grande quantidade Sobre a “índole” da “matéria viva” de sangue, que jaz embebido no tecido do passado da hisOs darwinistas trazem, sem dúvida, contribuições retória da vida. levantes quanto à importância do uso de mecanismos efiNesta perspectiva darwinista, pode-se dizer que noções cientes para a sobrevivência ao descortinarem as profuncomo compaixão, humildade, justiça, bem e mal não per-

Jorm Sangsorn/iStockphoto

44  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


tencem à natureza da matéria. Mais surpreendente ainda é a constatação de que toda a complexidade e espetaculosidade da vida tenha se desenvolvido num ambiente de disputa truculenta, implacável e inclemente. O método que a natureza tem seguido para dar forma ao mundo foi o de uma guerra surda e constante pela sobrevivência e, principalmente, pela fecundação e procriação. Para falar sobre a “índole” da matéria, basta observar sua finalidade e as ferramentas utilizadas para alcançá-la: sua essência é amoral, competitiva e extremamente ambiciosa. Em última análise, a sobrevivência da “matéria viva” depende do seu ímpeto de conquistar, de se expandir e de se perpetuar a qualquer preço.

De volta à história de Adão e Eva Dentro deste contexto, pode-se fazer um esforço de imaginação para avaliar o que deve ter sido o drama ímpar da espécie humana ao ser agraciada com recursos linguísticos e simbólicos e, principalmente, ao tomar conhecimento de si e do mundo. Assim como os ruídos primordiais da história do Universo reverberam até hoje sinais e ondas no Cosmo, os resquícios deste drama parecem ecoar até hoje na alma humana. Durante seu desenvolvimento ontológico, o Homem, em algum momento, se percebeu consciente dentro de seu meio. Certamente ele vivenciou a situação curiosa de ter sido jogado, praticamente despido, dentro do seu já conhecido meio. Este ambiente já era dominado pelo seu patrimônio de aprendizados de comportamentos adaptativos, mas se tornou novo e inusitado para o seu patrimônio conceitual. A consciência da vida e da morte, da dor, do medo, do futuro, das diversas manifestações da natureza, passaram a habitar o seu imaginário, a instigar sua curiosidade e a empurrar o Homem em direção à busca do entendimento de si e do mundo, o qual ele agora poderá transcender, e sobre ele interceder.

Concluindo A história de Adão e Eva nos faz crer que o Homem é composto por duas naturezas, em eterno conflito, à medida que se tornou consciente dos mesmos: O “yetser hará” – relacionado aos comportamentos automáticos, não planejados e reativos, que visam à sobrevivência no mundo – inerente à sua dimensão material; e o “yetser hatov” – derivado da capacidade humana de transcender e discernir o bem e o mal. A transcendência, a capacidade de reflexão e escolha são premissas básicas para a formação de princípios éticos e morais, para a proatividade e para a criatividade. A ciência ainda não dá suporte para a existência destes atributos, porém profissionais de várias áreas (inclusive médicos, juízes, advogados, educadores) se baseiam neles em muitas das suas práticas profissionais. Uma última reflexão: Findos os seis dias da Criação, foi designado um dia para ser santificado. O Homem necessita de momentos de isolamento do automatismo da vida para se desligar do funcionamento no “modo matéria” e se conectar com o “modo divino”. É na sintonia do Shabat que ele tem a Liberdade para escrever a sua própria história e traçar o seu destino. Marcia Rozenthal é Neuropsiquiatra, Doutora em psiquiatria pela UFRJ, pós-Doutora em Ciências da Computação pela COPPE-UFRJ e Professora Associada da Escola de Medicina e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Notas 1 Bereshit / Gênesis 2:9, segundo o livro Torá – Um Comentário Moderno, de Gunther Plaut, cuja tradução para o português será lançada pela UJR no primeiro semestre de 2020. Literalmente, a “árvore de todo o conhecimento” é “a árvore do conhecimento do bem e do mal”, explicando Plaut que “bem e mal” neste trecho é um merisma que tem o significado de “tudo”. 2 Bereshit / Gênesis 2:15-17, segundo a obra citada na nota anterior. 3 Bereshit / Gênesis 3:7, segundo a obra citada na nota 1. 4 Bereshit / Gênesis 3:22, segundo a obra citada na nota 1. O hebraico para “conhecedores” tem origem na raiz ‫ת–ע–ד‬, com o significado de “conhecer, penetrar, experimentar”.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  45


GrumpyLivesHere/iStockphoto

46  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


ONDE ESTAVA DEUS? A dignidade da vida diante da máquina da morte

Francisco Caruso “Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar para defendê-la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento.” (Primo Levi)

A

barbárie dos campos de concentração nazistas ainda espera por explicação racional – caso isso seja factível. É possível que uma pessoa que tenha sido reduzida a um corpo sem cabelos, pelos, roupas, nome e fé – seja no humano, seja no divino – tenha encontrado forma moral de resistência em meio a esse martírio inominável? A história de um sobrevivente – que, à semelhança de personagem da literatura, negou-se a dar consentimento – oferece-nos possível resposta. Advertência inicial. Não sou homem que tenha fé religiosa. No entanto, assim como o escritor italiano Primo Levi (1919-1987), declaro minha inveja por aqueles que creem, todos. Declaro, ainda, por eles, minha sincera admiração. Compartilho, por isso, o drama daqueles que, submetidos às maiores atrocidades, se viram obrigados a questionar e, eventualmente, renegar sua fé. É possível infligir ao ser humano dúvida mais atroz? Não há afronta maior a qualquer sentido que se possa dar ao termo “humanidade” do que a indigna existência do Holocausto. Nunca conseguiremos compreendê-lo. Talvez tenha razão uma sobrevivente húngara ao dizer que apenas os mortos poderiam falar sobre ele. Tal barbárie foi imposta ao povo judeu pelos nazistas, mestres em criar e retomar slogans cínicos como “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) e, o pior de todos, “Gott mitt uns” (“Deus está conosco”). Que Deus compactuaria com tamanha barbárie? Nunca na história se havia matado em escala industrial. O projeto? A famigerada Solução Final. A grande maioria dos 6 milhões de vítimas judias encontrou a morte, depois de sistemática perseguição e muito sofrimento, pelo sim-

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  47


ples fato de existirem. Idosos, mulheres e O motivo pelo qual decidi escrever Quando seu campo foi crianças. Alguns, confinados em campos estas linhas é que, nesse sentido, o deliberado, Jack Fuchs de concentração/extermínio eram obrigapoimento do sobrevivente Jack Fuchs, foi atendido pela Cruz dos a se submeterem a infindável e sádico nascido em Lodz (Polônia), tocou miVermelha, pele e osso. processo de bestialização do ser humano. nha alma. Mesmo correndo o risco de Tudo lhes era tirado. Família, casa, pernão conseguir, gostaria de tentar traduNesse momento da tences, sonhos, futuro, como muito bem zir em palavras esse momento e os senentrevista, esboça ressalta Primo Levi, no seu clássico livro timentos que em mim despertaram para levíssimo sorriso e É isto um homem? (Rio de Janeiro: Rocpoder compartilhá-los. recorda que, naquele co, 1988, p. 39). Antes, no entanto, gostaria de reproexato e longínquo Em Auschwitz, tiravam-lhes, também, duzir aqui conselho que Primo Levi receos cabelos, os pelos, as roupas, a dignidabeu, em Auschwitz, de outro prisioneiro, momento, disse a si de, o nome – este trocado por número no que marcou a ele (a mim) e, de certa formesmo: “Agora, eu braço esquerdo. O último desafio, antes ma, tem a ver com esse momento: posso morrer”. de tirar-lhes a vida, era roubar-lhes a fé, “Sim, somos escravos, despojados de não importa se no humano ou em Deus. qualquer direito, expostos a qualquer inÉ este o último elo a ser quebrado para que os opressores júria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos possam se considerar vencedores. resta uma opção. Devemos nos esforçar para defendê-la a Quantos seres humanos, submetidos a essa humilhatodo custo, justamente porque é a última: a opção de reção e degradação, não se perguntaram: “Onde está Deus?” cusar nosso consentimento”. E ele, em seguida, vai comMesmo não sendo judeu e não tendo fé, essa pergunta tira pletar o raciocínio dizendo que é essa recusa que pode eviminha paz de espírito desde quando a ouvi pela primeitar que se comece a morrer: “Portanto, devemos nos lavar, ra vez. Frequentemente, a remoo. Penso no drama de pessim; ainda que sem sabão, com essa água suja e usando o casaco como toalha. Devemos engraxar os sapatos, não soas religiosas que tiveram que enfrentar esse trágico dileporque assim reza o regulamento e, sim, por dignidade e ma. Primo Levi declarou várias vezes que não há palavras alinho. Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não na linguagem de cidadãos livres para descrever certas coisas em homenagem à disciplina prussiana e, sim, para contiou situações nos campos de extermínio. De forma análonuarmos vivos, para não começarmos a morrer”. ga, acredito que o conceito de Deus das pessoas livres não Por outro lado, em seu primeiro dia no Lager, o jovem comporte tamanha atrocidade. Elie, ainda sem compreender o significado de ser mandaSei que nunca teremos resposta capaz de elucidar e do para a esquerda ou para a direita, foi obrigado a seguir, muito menos de aplacar a dor e angústia sintetizadas nesatordoado, por caminho que o levou a passar perto de uma sa pergunta, formulada seja em Auschwitz, seja em qualfossa com enormes labaredas, nas quais bebês estavam senquer outro Lager. Inquirir sobre a existência de Deus ou do queimados. Experimentou sentimentos de total abansobre sua omissão é ainda muito mais penoso para uma dono (“A humanidade não se interessa por nós”, A Noite, pessoa religiosa, como foi o caso emblemático de Elie Wiep. 40) e de revolta. Revolta com relação a Deus. Por que sel (1928-2016), escritor judeu sobrevivente dos campos ele, que sempre foi muito religioso, deveria louvá-lo nade concentração e ganhador do Nobel da Paz de 1986. quele inferno? Aquelas chamas, das quais esteve a apenas A consciência de que não pode haver réplica para essa dois passos, delas e do suicídio, começavam a calcinar a fé questão e que esta continuará assombrando a humanidaem seu coração; mesmo assim, naquele exato momento, de – ou, pelo menos, assim deveria ser – não me impede superando a revolta, conseguiu murmurar “Itgadal veitkade procurar, em tudo que leio ou ouço sobre a Shoah, aldash shmê rabá...” (traduzido como “Exaltado e santificagum indício, alguma pista que diga à minha alma que aldo seja o Seu grande Nome”) (A Noite, p. 41). guém possa ter chegado perto de, ou arranhado, resposta, Em outra ocasião, ao presenciar o enforcamento de ainda que por seus atos conscientes ou inconscientes. Isso uma criança, Wiesel ouviu atrás dele um homem pergunme traria certo conforto ao espírito.

48  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


tar duas vezes: “Onde está Deus?” Na seSentado em uma poltrona, com os Com os olhos um pouco gunda vez, ele sentiu uma voz dentro dele vermelhos, levantando um dois braços nela apoiados, seu depoiresponder: “Onde Ele está? Ei-Lo – está mento não demostrava qualquer emoção. pouco o olhar apertado aqui, na forca” (A Noite, p. 72). A esse Olhos pequenos, quase fechados, voz grapara o alto e para o lado, ve, fala pausada. Expressava-se mais com ponto ele confessa a morte do espírito: “Não me interessava por mais nada as mãos do que com palavras. Suas mãos se questiona sobre por além do meu prato de sopa diário, do se tocavam e se separavam; seus dedos se que então não disse: meu pedaço de pão seco. O pão, a sopa... entrelaçavam e, em alguns momentos, “Agora, posso viver!” eram toda a minha vida. Eu era um coradquirindo mais vida, se movimentavam po. Talvez menos ainda: um estômago famais firmemente, quase como se Fuchs minto”. (A Noite, p. 60). estivesse recorrendo a uma memória motora em sua narraDistribuído em DVD pela Universal (1995), o filme tiva. Ele conta que passou quatro anos no Gueto de Lodz “Rompendo o Silêncio” (Broken Silence) – apresentado e foi um dos últimos a serem deportados. Todo seu esforpelo diretor norte-americano Steven Spielberg e pela Surço se concentrava em ficar junto da família e de amigos e viviors of the Shoah Visual History Foundation – nos traz não ser deportado. Esse era seu maior medo, não a morte. cinco filmes, de cinco países, com cinco visões. O primeiQuando seu campo foi liberado, Fuchs foi atendido ro deles – “Algunos que vivieron”, do diretor argentino pela Cruz Vermelha, pele e osso. Depois de ter sido barbeaLuis Puenzo – apresenta entrevistas com sobreviventes do do, ter seus cabelos cortados e passado por desinfestação, Holocausto. Entre elas, uma me chamou particularmenganhou pijamas e, pela primeira vez, poderia dormir em te a atenção, pois lançou luz sobre a pergunta “Onde Ele uma cama. Nesse momento da entrevista, esboça levíssimo está?”: a de Jack Fuchs (1924-2017), como já adiantei. sorriso e recorda que, naquele exato e longínquo momen-

Foto: Roney Cytrynowicz

Monumento ao Holocausto na estação de trem de onde eram efetuadas as deportações em Lodz, Polônia.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  49


Foto: Roney Cytrynowicz

Monumento às crianças assassinadas no Holocausto e na Segunda Guerra Mundial, em Lodz, Polônia.

to, disse a si mesmo: “Agora, eu posso morrer”. Com os olhos um pouco vermelhos, levantando um pouco o olhar apertado para o alto e para o lado, se questiona sobre por que então não disse: “Agora, posso viver!” Ao ouvir esse testemunho, imediatamente veio-me à mente a intervenção de Deus que impediu o sacrifício de Isaac. Perguntei-me se não era essa mesma mão que tinha afastado a forca do pescoço de Jack ou qualquer outra coisa que o opressor pudesse usar para lhe tirar a vida. Morrer, sim; mas não pela vontade de seus carrascos. Provado ao extremo, como Abraão, Fuchs optou, para usar a expressão de Levi que recordamos aqui, por se recusar a dar seu consentimento para sua morte, que lhe era constantemente imposta pelos nazistas. Sua resistência e gigantesca força de vontade em continuar vivendo acabaram recolocando sua morte nas mãos de Deus. Como homem livre, mais do que a vida, recuperou um futuro. Naturalmente, isso inclui a morte, que o levou há pouco – como

50  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

há de ocorrer a todos. Ele fez o que pôde para salvar sua vida e logrou êxito. Nessa determinação, muito além do que o humano pode esperar, vejo algo de divino. Afinal, ele salvou uma vida, a sua, e, como diz o Talmude, “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Portanto, Fuchs nos dá lição inesquecível ao dizer para si mesmo, apenas por deitar-se em uma cama – talvez, o primeiro ato banal que o fez se lembrar de sua nova condição de homem livre –, que “Agora, eu posso morrer.” Exatamente nessa frase, sem lógica e inesperada para muitos, por mais paradoxal que pareça, vejo a presença de Deus, mais do que naquela forca. Francisco Caruso, doutor em física pela Università degli Studi di Torino (Itália). É pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Professor Associado do Instituto de Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, membro do Pen Clube do Brasil e ocupa a cadeira 33 da Academia Brasileira de Filosofia.


FORMANDO RABINAS/OS NA AMÉRICA LATINA PARA A AMÉRICA LATINA

O IIFRR faz uso do potencial da moderna tecnologia de ensino à distância, combinando seminários semestrais de inserção com

ESTUDE SEM SAIR DE CASA

estudo diário remoto. Junte-se aos mais de 20 estudantes que iniciariam sua formação em 2018 e que serão nossos futuros rabinos/as e líderes comunitários. As inscrições estão abertas para os que iniciarão sua formação em 2021. info@institutorabinico.org +54 11 4781 4070

cejmishkan@gmail.com


Chert61/iStockphoto

52  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


O SISTEMA JURÍDICO NA BÍBLIA HEBRAICA E SEU LEGADO PARA A HUMANIDADE Wremyr Scliar

O

sistema jurídico na Bíblica Hebraica, constituído por um conjunto normativo, não tem uma definição que possa se adaptar a modelos orientais da sua época e tampouco às teorias dos atuais sistemas jurídicos. A sua compreensão necessita de critérios específicos, inclusive para a demonstração de que no Livro se contém realmente um sistema fundamentado em valores que se conformam mediante princípios filosóficos, religiosos, políticos, sociais e humanos. Enquanto assim, esse sistema também é narrativo de uma crônica histórica, a qual se molda concretamente e a partir de fatos com a própria criação legislativa do normativismo da Bíblia Hebraica. A normatividade desse sistema encontra-se inicialmente em um texto conciso, direto, imperativo e cogente, denominado de Dez Mandamentos, ou Exortações, mas que representam claramente comandos enclausurados em normas. Os Dez Mandamentos, para início de afirmação, é a primeira constituição ou documento fundante de uma nação que se conhece. Ele dá início à organização política da nação hebraica. Prefere-se substituir a ideia de Estado por nação. De fato, a ideia de Estado não era conhecida na antiguidade, como atualmente é definida, empregada pela primeira vez por Maquiavel, em O Príncipe, na Renascença. O Decálogo já seria suficiente para configurar a partida de apoio para a comprovação da existência de um sistema jurídico. Enriquecedoramente, outras 613 normas catalogadas por Maimônides (o maior dos filósofos, segundo Goethe), os textos discursivos dos profetas e demais escritos, completam o que denomina-se de Bíblia Hebraica. Posteriormente, os dois Talmudes terão a

Os dois Talmudes terão a função da suplementação, especialmente hermenêutica, do complexo texto bíblico, que Heinrich Heine definiu como a religião portátil dos judeus.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  53


função da suplementação, especialmente resposta de Moisés é a primeira lição soO Decálogo é hermenêutica, do complexo texto bíblico, bre o sentido da legitimidade e da justirevolucionário quando que Heinrich Heine definiu como a reliça da normatividade: existem leis que esdecreta observar o gião portátil dos judeus. cravizam, mas essa nova lei é a libertação. sábado como dia de A descoberta dos Manuscritos do Mar Os Dez Mandamentos Morto, em 1947, a oeste da parte norte absoluta abstenção de desse mar, no Wadi Qumram, de cerca de qualquer trabalho. A Os preceitos dos Dez Mandamentos 1.100 rolos, contendo 1.500 livros, em palavra shabat é a única se dividem em religiosos e civis. O pri11 cavernas (recentemente foi identificado calendário semanal meiro deles é a crença de um Senhor únida mais uma), que formam uma bibliotehebreu que foi adotada co, reafirmando o monoteísmo. O signica de todos os livros sagrados, exceto Esficado é de que a lei ditada nos Mandater e Neemias, mas em compensação com latinizada no ocidente. mentos tem uma qualificação teológica e um acervo de livros próprios regulamenfilosófica que rompe com as estreitas sendas do conhecido tares e ritualísticos de uma seita que ali vivia, denominada e da futura normatividade humana. qumranitas, afiliada aos essênios, é a comprovação final da Todos os reis e imperadores publicavam as leis como historicidade dos textos normativos. suas, auto atribuindo-se um caráter divino. Os imperadoOs documentos escondidos nas covas preservados em res romanos, mais tarde, mandavam cunhar moedas que ânforas lacradas, alguns em bom estado, escondidos ao os homenageava como divinos. O Código de Hamuraperigo da aproximação das legiões romanas no ano 70 da bi, gravado em colunas, declara no seu topo a criação diera comum, tem idade comprovada de elaboração entre vina do rei. os séculos III antes da era comum e século I a II da era Os Mandamentos têm caráter superior, inalterável, imatual. Eram cópias de exemplares mais antigos, podenpositivo para todos do povo, desde o rei até o mais humildo-se atribuir mais alguns séculos à sua existência. Eles de dos pastores ou agricultores. A sua infringência era mais se constituem na mais importante e emotiva descoberdo que um delito punível pelos homens, era um pecado e ta arqueológica mundial, guardados no Santuário do Lia mácula social sobre o infrator. vro em Jerusalém. Dos Mandamentos, examinam-se dois, que são realOutra questão que decorre da compreensão desse sismente politicamente inovadores. Distintos dos demais cótema normativo é quanto à organização da nação hebraidigos legais orientais, inclusive do Hamurabi, o Decálogo ca, com base nesses textos normativos. Mas essa não é exaé revolucionário quando decreta observar o sábado como tamente uma questão jurídica, é intrinsecamente históridia de absoluta abstenção de qualquer trabalho. A palavra ca ou sociológica. shabat é a única do calendário semanal hebreu que foi adoO sistema assim instaurado a partir dos Dez Mandatada latinizada no ocidente. mentos tem uma personagem que o comanda: Moisés – o Além do respeito ao descanso pelo trabalho semanal, príncipe e profeta primeiros do povo. O início do seu moele introduz uma forma concreta de respeito pela naturevimento de rebelião contra a escravidão no Egito é o deza e pelo meio ambiente. O homem é natureza, da terra e sencadeamento de revolução que não apenas liberta o povo das águas depende a sua sobrevivência. Ele respeitará a naem busca de um caminho libertário, mas o seu retorno à tureza como respeita todos os demais valores. Algo jamais terra e o nascimento de uma nação-organização. imaginado entre outros povos que já possuíam organizaMoisés foi não apenas o legislador e primeiro príncipe ções mais avançadas. do povo. Ele mostrou um caminho, percorreu-o liderando O último mandamento determina não cobiçar a muo povo, e a sua constituição, a unidade, e a terra reconquislher do próximo nem seus bens. O que aos outros pertentada são os mais notáveis feitos históricos da sua liderança. ce, não faças com eles o que não gostaria que fizessem conQuando desde o Monte Sinai, com as pedras gravadas, tigo (a regra de ouro). Aceitar e conviver, tolerar e integrar o povo lhe pergunta se ficara tanto tempo para trazer ape– esse um dos significados do mandamento. Mas há outro: nas uma lei, como aquela que os escravizara no Egito, a

54  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Chameleonseye/iStockphoto

O Santuário do Livro, no Museu de Israel, em Jerusalém, que abriga os Manuscritos do Mar Morto.

como todos estão submetidos aos mandamentos, também o rei, a aristocracia e a hierarquia religiosa a eles estão submetidos. Todos devem se submeter ao respeito pelo que é dos outros. Alguns autores entendem que cobiçar significa até mesmo pensar. Portanto, mesmo sem concretização, o delito já estaria cometido, o que demonstra a sua gravidade. Os hebreus adotam o rito permanente, contínuo pelo respeito ao sábado. Na Babilônia havia um dia determinado para descanso, mas ele era anual, ou esporádico. Quando gregos e romanos ocupam Israel, fazem troça de muitos preceitos judaicos. Assim como as tropas, também historiadores e filósofos gregos ou romanos não compreendiam o caráter de resguardo do sábado.

Os direitos políticos Os hebreus não tiveram a preocupação de organizar minuciosamente a sociedade política. A finalidade da lei era a concretização da justiça, da liberdade e da fraternidade – para que todos fossem iguais no tratamento devido pela lei.

Não se encontram grandes obras públicas – mesmo o segundo templo está muito aquém dos palácios romanos ou gregos. Suas cidades são simples. Exceto uma era de grande prosperidade ao tempo de Salomão, com frotas de navios, minas, alianças políticas, mercadores e câmbio de mercadorias por todo o Mediterrâneo, não se pode afirmar de uma opulência econômica ou urbana. Entende-se que o primeiro dos direitos (assim como os atenienses) era o da liberdade. Isso pode ser compreendido pelas orações e pela festa principal (Pessach) quando a lembrança da escravidão e a proibição do rei de permitir um novo arresto populacional pelos caminhos do Egito era uma imposição normativa. Ser livre entre os seus irmãos de povo – um valor preservado decorrente de uma experiência histórica no Egito. Qual a lembrança que Moisés faz herdar ao povo: ter assistido a castigos físicos aos escravos a ponto de reagir pessoalmente e arriscando a própria vida, o que faz determinar-se em romper em definitivo com a escravidão na terra egípcia. A liberdade, modernamente, é um princípio de direito humano, mas à época era o preâmbulo da libertação e da

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  55


determinação própria do povo. Ambroma do exercício da democracia mas a esAmbos os princípios, gio Donnini, historiador italiano, marxiscolha autorizada pela confirmação da neda democracia e da ta, demonstra sua surpresa com esse princessidade de legitimar a liderança mosairepública, encontramcípio adotado pelos hebreus. Ele é dissoca para novas etapas na caminhada. se em Deuteronômio. nante de todas as sociedades circundanA república nasce da imposição de tes, mais avançadas e mais estratificadas. que o escolhido tenha uma vida discreO rei era uma pessoa Surpreendido, homenageia a prática de lita e ilibada, com poucas mulheres, prata comum, escolhida por berdade entre os hebreus. ou ouro, nem cama de marfim, nem muiseus conhecimentos e Um povo de agricultores e pastores tos cavalos (símbolo de poder), que tenha experiência de vida e seus escravizados invoca o direito natural à liuma cópia da Lei e faça a sua leitura diaberdade e o transforma em princípio ins- exemplos, posteriormente riamente. Que seja imparcial no seu reitaurador de uma nação. Ela só irá nascer ratificado pelo Conselho nado, não se conduzindo nem para um pela revolução impensável de um povo (Sinédrio) de Estado, ou lado ou para outro. voltar-se para a conquista da sua liberAmbos os princípios, da democracia e Senado, também com dade, caminhar na passagem do deserda república, encontram-se em Deuterofunções judicantes. to durante quarenta anos, onde obtém nômio, 17, 14 a 20. O rei era uma pessoa uma lei. comum, escolhida por seus conhecimenO grito antes sufocado e a insurgência pela liberdade, tos e experiência de vida e seus exemplos, posteriormeno êxodo no deserto em direção à terra, a lei e a liderança: te ratificado pelo Conselho (Sinédrio) de Estado, ou Senenhuma nação nasceu com esses predicados de coragem, nado, também com funções judicantes. Isso permite, sedeterminação e formação política. Os direitos políticos tegundo Frank Krüsemann, extrair-se a ilação de que aquerão dois vetores normativos importantes. E eles também le que nomeia pode também destituir. Ao rei só restava são a surpresa no mundo oriental e após, no mundo ociadministrar, a lei já estava outorgada, imutável, imodifidental. Muitos milhares de anos antes da república romacável, aplicável a todos, a começar pelo próprio rei. Acima na e da democracia ateniense, sob a liderança de Moisés, dele, politicamente, quem o escolhia e lhe concedia o asainda durante a passagem pelo deserto, são estabelecidas sento: o Sinédrio. duas normas essenciais na formação política do povo heAliás, os poderes do povo eram exíguos. O Sinédrio breu: a democracia e a república. empalmava as funções mais relevantes e somente julgava A democracia nasce da afirmação normativa de que, se quando o acusado havia cometido crime de sangue. Isso o povo quisesse um rei, deveria escolher entre seus irmãos. também ocorre muitos séculos antes da república romana, É advertido de que essa decisão poderá ser um erro políticujo valor principal não eram os predicados do eleito, mas co: filhos na guerra, corveia, tributação. a sua responsabilidade pelas coisas públicas (respublica). Então, independente de uma casa real ainda não nasciCom os Dez Mandamentos, religiosos e civis, o prinda, o povo escolherá entre irmãos (cujo significado é o da cípio da liberdade, da democracia e da república, além do igualdade), em decisão equânime, entre os que compõem cumprimento da lei por todos e sua obediência e perenio povo. É o nascimento da democracia. Não tem signifidade, configuram-se os direitos políticos que constituem e cado importante de que a escolha será feita pelos anciãos, fundam a nação hebraica. A Lei traz o valor fundante, mas que representavam as tribos. Moisés já havia conquistado ela é uma função de justiça e liberdade. a liderança, agora será escolhido príncipe. Wremyr Scliar é Professor, Doutor, Mestre e Especialista em DireiO sufrágio é apenas uma forma de democracia, exerto Público pela PUCRS, Conselheiro Substituto Emérito do Tribucida na Ágora, 70 vezes ao ano entre os cidadãos ateniennal de Contas do RS, aposentado; Presidente do Conselho de Étises, que somavam apenas 7.000 pessoas, em um total de ca – Governo RS; Fundador e primeiro Diretor da Escola Superior habitantes muito maior. Estrangeiros, escravos (a imende Gestão e Controle Francisco Juruena do TC RS; e detentor da sa maioria), mulheres e menores estavam excluídos do esComenda Oswaldo Vergara – OAB-RS. crutínio. Entretanto, o valor entre os hebreus não é a for-

56  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


A PA RCEI RA

www.sh.com.br

CERT A

0800 899 8903

O T E J PRO

O T R E C R A D U E S FAZ

ecimento de A SH é líder no forn e escoramentos formas, andaimes m a maior rede de n o B ra s i l , e c o n t a c o érica do Sul. atendimento da Am s oferecendo São mais de 50 ano a n ç a a t ra v é s qualidade e segur as e de de soluções modern meira. engenharia de pri ceiro de Em busca de um par a o b ra ? c o n fi a n ç a p a ra a s u m a SH! Escolha você també

#EuEscolhoASH

N O S S A E S T R U T U R A É F E I TA D E G E N T E


A Praça Itschak Rabin, em Tel Aviv.

SeanPavonePhoto/iStockphoto

58  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


PERGUNTAS SEM RESPOSTA Vittorio Corinaldi A vitória militar da Guerra dos Seis Dias (1967) reviveu no judaísmo ortodoxo velhas aspirações a uma messiânica reconstituição do esplendor do Reino Bíblico. O culto da Terra de Israel se sobrepôs ao da dignidade humana e desencadeou fantásticos “veredictos” de condenar a quem ousasse pesar a hipótese de dividir essa terra com outro povo que a habita.

U

ma pergunta que se apresenta com frequência a quem observa ou estuda os acontecimentos históricos é: “O que teria sido se…” O que teria sido se Colombo não tivesse feito sua viajem através do Atlântico, que levou o Ocidente para a América? O que teria acontecido se Felipe e Isabel não tivessem expulsado os judeus da Espanha? O que teria sido diferente se Chamberlain não tivesse apaziguado Hitler em Munich? No que poderia ter mudado o destino do judaísmo europeu se os Aliados tivessem concordado em bombardear os campos de extermínio e as vias férreas que levavam a eles? Ainda mais radicalmente, e se o Estado de Israel tivesse sido fundado 15 anos antes, em 1933, garantindo o refúgio negado pelos países do mundo a todos os judeus da Europa? E – em linha com a comemoração dos 25 anos do trágico evento que teve lugar nos dias em que escrevo – o que teria sido se três tiros assassinos não tivessem posto fim à vida de Itschak Rabin? Neste caso, antes de analisar os efeitos políticos que teria tido a continuação das negociações de Oslo, cabe tentar compreender como pôde se realizar aquilo que até então ninguém acreditava possível: o atentado ao primeiro-ministro de Israel pela mão de um agressor judeu.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  59


Peterspiro/iStockphoto

Memorial no local do assassinato do primeiro-ministro Itschak Rabin.

A resposta a esta pergunta não se concentra apenas na desprezível figura do assassino Igal Amir; não transparece no cínico sorriso com que ele é visto em fotos publicadas em diferentes ocasiões desde o processo que o condenou à prisão perpétua: um sorriso que corresponde a sua fanática convicção na justificativa de seu feito. A resposta tem que ser procurada em fontes que se encontram além da pessoa cuja ideologia e inclinações de alma podem ser objeto de investigação em outra sede. E ela sim provém do incentivo recebido de pretensos rabinos do setor ortodoxo, que se autodesignaram como autoridades de um ressuscitado obsoleto direito supostamente baseado na Torá. A vitória militar da Guerra dos Seis Dias (1967) reviveu no judaísmo ortodoxo velhas aspirações a uma messiânica reconstituição do esplendor do Reino Bíblico. O culto da Terra de Israel se sobrepôs ao da dignidade humana, e desencadeou fantásticos “veredictos” enunciados em arcaica linguagem bíblica, de condenar a quem ousasse pesar a hipótese de dividir essa terra com outro povo que a habita. Sobre este alicerce de suposto direito nasceu e proliferou o movimento dos assentamentos na Judéia e Samária (Cisjordânia), e ganhou impulso um ofensivo racismo

60  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

judeu. Um contínuo discurso de incitação inspirado em tendenciosas interpretações do texto religioso se tornou regra corrente, levando a uma perigosa cisão na opinião popular, e ameaçando repetir o crime político de 1995. Os regimentos de militantes “da kipá de crochê”, inspirados de fanático apego a esse ideal da Grande Israel, se lançaram a uma investida ao mesmo tempo sobre o território e sobre os recursos orçamentários desproporcionais, extorquidos de um governo ideologicamente solidário com seus propósitos. Aliás, a extorsão orçamentária não é uma prerrogativa exclusiva desses militantes: ela é uma característica geral do setor ultraortodoxo, em todas as modalidades de seitas e partidos religiosos que compõem a coalizão mais inflada e mais inepta que tenha surgido na história dos governos de Israel. Esta inépcia vem se revelando de forma inequívoca no tratamento da crise da epidemia de corona: diante da preocupante situação da saúde e da economia, normal seria que o governo desse a esses campos uma absoluta prioridade, evitando quaisquer cálculos partidários e eleitorais. Foi inclusive com esse argumento que Beni Gans cindiu o Partido “Branco e Azul” (que havia consegui-


do significativo resultado na última eleiÉ verdade que a intransigente recusa O que teria acontecido ção) – na ingênua ilusão de que o estado do homem de confessar o absurdo de tal se em 1948, no limiar de emergência exigia uma fusão de forordenamento no século XXI tem levado da proclamação do ças com o que também o Likud concormuitas mulheres “charediot” a um tipo Estado, Ben Gurion não daria. E embora formalmente exista uma de revolta feminista a seu modo, buscoalizão em que ambos os partidos decando autonomamente empregos fora tivesse sancionado veriam ter voz paritária, Netaniahu atua de casa, e distinguindo-se por exemplo a fórmula do “Status consistentemente de forma individual e Quo”, com que – pensou na técnica de computação. São então as centralista, driblando os ministros branmulheres que concedem ao setor religio– neutralizaria a então cos-azuis e orientando toda a ação polítiso aquela dose de “modernidade” com pouca relevância dos ca, não para o combate à epidemia e suas que sobrevive às pressões da realidade circonsequências, e, sim, para se esquivar “charedim” na premente cunstante – enquanto os homens conticom maquinações politiqueiras dos pronuam no “sagrado” parasitismo que os situação do momento? cessos a que está convocado por graves cofres públicos sistematicamente concoracusações de corrupção. dam em financiar. Nisto ele se fia no apoio dos partidos ultraortodoxos, O mesmo critério moral que lhes faz justificar a recusa que vêm sendo o principal freio a medidas eficazes conde servir no exército e o regime de escravização da mulher tra a epidemia. O preço desse apoio é uma discriminação permitiu inventar o conceito de “Gói de Shabat”, o não jupreferencial em assuntos em que os “charedim” não condeu a quem se encarrega de acender a luz e fazer as tarefas cordam absolutamente em abrir mão: o pleno funcionasupostamente proibidas no dia do descanso (que deve vimento de suas escolas, “ieshivot” e “Talmudei Torá”, a gorar também para o gentio, segundo o mandamento…), despeito das limitações impostas às demais escolas do seou o grotesco cerimonial anual da “Venda do Chamets…” tor geral; a insistência em manter as rezas nas sinagogas a um cidadão árabe na véspera de Pessach: demonstrações com pouco respeito às regras de separação e ao número de um ritual avesso à verdadeira natureza do judaísmo, que máximo de congregados; a realização de eventos de grané universal e respeita o ser humano como tal. de concentração, seja nos feriados religiosos, seja em caPara finalizar esta resenha de um fenômeno insistentesamentos ou datas importantes ligadas com lendários “admente presente na atual realidade israelense, o tema volta morim” das cortes chassídicas; seja (mutatis mutandis) em para uma pergunta no espírito do início deste escrito: O enterros. Também se pleiteia uma abolição das multas a que teria acontecido se em 1948, no limiar da proclamaque estão sujeitos comércios e empreendimentos por não ção do Estado, Ben Gurion não tivesse sancionado a fórcumprir limitações que lhes podem ser fatais, e que por mula do “Status Quo”, com que – pensou – neutralizaria definição deveriam se aplicar igualmente às atividades da a então pouca relevância dos “charedim” na premente sicomunidade religiosa. tuação do momento? Como explicar que o grande líder O fugir das obrigações decorrentes do convívio social é de larga visão tenha desprezado a possibilidade (que se deum hábito arraigado no público “charedí”. Ele é apresenmonstrou real) de um aumento de influência daquele anatado como sendo contrabalançado pela reza e pelo estudo crônico fator nos destinos do país e do povo? da Torá, sobre os quais se assentaria a milenar sobrevivênA História não gosta de perguntas desse tipo. Mas no cia do povo judeu. O mais citado e o menos sintomático que toca a um sadio desenrolar da futura sociedade isde qualquer consideração moral é a recusa do serviço miraelense, terá que lhes dar respostas. litar. Igualmente insustentável dentro de padrões atualiVittorio Corinaldi é arquiteto formado pela Faculdade de Arquitezados de comportamento é a total inatividade econômica tura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-SP), vive em do homem (destinado a um “estudo” permanente das esIsrael desde 1956. Foi membro do Kibuts Broch Chail e atuou em crituras), e o completo depositar do sustento familiar sodiversas funções ligadas a arquitetura, planejamento e organização bre a mulher, relegada a uma vida de ausência de direitos dentro do movimento kibutsiano. e exaustiva servibilidade às tarefas domésticas.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  61


Acervo Museu Nacional / UFRJ

62  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


MARAJÓ – VOCÊ SABIA? Íria Ferreira Chocron Introdução

O

s processos migratórios que foram relatados em diversos estudos históricos sempre foram acompanhados de muitas questões impulsionadoras para que o deslocamento dos povos acontecesse. Os judeus carregam em sua longa e sinuosa trajetória muitos períodos marcados por perseguições e repressões, sendo movidos por questões sociais, econômicas e, principalmente, religiosas. As grandes dispersões dos judeus fizeram com que eles fossem se espalhando ao redor do mundo, disseminando a sua rica cultura e fortalecendo os seus costumes. Dentre os lugares em que eles se instalaram, a região Amazônica e, mais especificamente, a Ilha de Marajó, teve a honra de ter recebido muitas famílias judias, que ajudaram, fortemente, no desenvolvimento econômico e cultural da região. Para entender um pouco mais sobre a chegada dos judeus na Ilha de Marajó será necessário voltar um pouco na história e compreender as passagens vividas pelos judeus, mapeando todos os trajetos que eles fizeram até a chegada ao Brasil e na região Amazônica. A base histórica que será utilizada para criar uma sequência cronológica até alcançar o ponto desejado, a chegada e instalação das famílias judias na Ilha de Marajó, será iniciada a partir da expulsão no primeiro século da era comum dos judeus da região dos antigos reinados de Judá e Israel pelos romanos (que, na tentativa de apagar a ligação judaica com a região, a renomearam como “Syria Palaestina”), também chamada de “Segunda Diáspora judaica”. Eles foram se espalhando ao redor do mundo, formando bases entre os países da Ásia, Europa e África. Durante muito tempo, as famílias judias, que estavam se instalando nas regiões citadas, acreditavam que estariam vivendo em locais onde pudessem seguir a sua cultura e religião de forma livre, porém, em alguns locais, não era isso que acontecia.

A presença judaica na região amazônica, especificamente na Ilha de Marajó, aconteceu um pouco antes do início do ciclo da borracha. Época na qual as riquezas do local estavam sendo amplamente exploradas.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  63


Javarman3/iStockphoto

Na Espanha, por exemplo, os judeus viveram de uma forma mais “tranquila” durante 300 anos, até que a “Santa Inquisição” trouxe comportamentos repressores e intolerantes. O Rei, que tinha um grande apoio do Papa, iniciou uma jornada de perseguições aos praticantes de religiões diferentes do catolicismo, como era o caso dos judeus. Foi um longo e tortuoso período, no qual as famílias judias estavam, mais uma vez, sendo impedidas de viverem livremente a sua cultura e religião. Diante disso, muitos judeus, que não cederam às pressões e a ideologia que a “Santa Inquisição” propunha, entenderam que a única forma de serem livres era saindo dessas áreas onde a intolerância religiosa estava sendo praticada. O local escolhido por uma parcela dos judeus foi a região do Marrocos, onde viveram por um tempo e ficaram conhecidos pelo nome de “Sefaradis”, que provém do nome hebraico para Espanha, ou seja, “Sefarad”. Marrocos, assim como outras regiões correspondentes, tinha o islamismo como religião predominante, o que foi um dos gatilhos para que os judeus, mais uma vez, sofressem perseguições e outras injustiças por estarem seguindo as suas tradições religiosas. Essas atitudes repressoras religiosas foram tendo reflexos em outras questões, como no impedimento dos judeus gozarem dos seus di-

64  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

reitos, tornando-os marginalizados em relação ao restante dos cidadãos marroquinos. Partindo desse ponto, eles começaram a levar uma vida totalmente injusta e precária, onde muitas famílias começaram a passar fome e serem colocadas em guetos. Concomitantemente a esses episódios de repressão e abusos, entre 1859 e 1860 Marrocos e Espanha travaram uma guerra chamada “Guerra Hispano-Marroquina”, provocada pela definição das fronteiras da cidade de Ceuta, uma possessão espanhola encravada no território do Marrocos. O governo marroquino, além de continuar com as ações de intolerância religiosa e opressão, insuflou a população contra os judeus alegando que estes apoiavam os espanhóis na guerra, o que, tendo em vista o histórico de perseguição e repressão que o país exercia sobre os judeus, era uma forma simples de esconder seus fracassos. O Brasil, por sua vez, estava em um momento de expansão em relação à exploração das riquezas. Diante disso, houve uma abertura dos portos às nações amigas, fazendo com que os judeus começassem a ver o Brasil como uma oportunidade tanto de crescimento profissional quanto para ser um lugar onde eles poderiam ser livres para seguir a religião judaica. Devido a esses fatos e acontecimentos, as famílias judias começaram mais


uma saga de mudanças e deslocamendo magnífico legado e dos ensinamentos Apesar das migrações tos, chegando ao Brasil e se instalando valiosos que todos deixaram na região. dos judeus para outros em locais que apresentavam, na época, estados brasileiros Aben-Athar grande prosperidade e liberdade. A reapós o declínio da gião amazônica foi uma das regiões que A família Aben-Athar fazia parte do os judeus escolheram. Por esse motivo, borracha, ainda é muito grupo de judeus que mudaram um pouco ainda hoje é possível encontrar seus descomum encontrar a o caminho padrão da maioria dos judeus cendentes e também as influências deicultura judaica viva que chegaram no Brasil. A família se estaxadas pelos antepassados. tanto nos descendentes beleceu em Gurupá. Marcos Jayme AbenA presença judaica na região amazôquanto nos demais -Athar era proprietário de seringais na renica, especificamente na Ilha de Marajó, gião e também mantinha um comércio de aconteceu um pouco antes do início do moradores da região. produtos variados. Outro membro da faciclo da borracha. Época na qual as rimília, Amadeu Aben-Athar, também marcou história em quezas do local estavam sendo amplamente exploradas. Gurupá. Ele era conhecido como “Jabá”, devido ao proAs famílias começaram a chegar ao Brasil, sendo que, duto comercializado, e era regatão, percorrendo os locais muitas vezes, o marido vinha primeiro, conseguia recurpróximos da região levando suas mercadorias. sos e então trazia a mulher e os filhos, que estavam à sua O filho de Jabá, Max Cardoso Aben-Athar, ao faespera no Marrocos ou em outra região que também estalar sobre seu pai, demonstra bastante o orgulho que ele va sofrendo algum tipo de perseguição religiosa ou opressente: “Meu pai foi um dos regatões que viajavam no são. A capital, Belém, foi considerado o ponto de entrario Amazonas”. A partir desse relato é possível sentir os da dos judeus, porém, muitos foram se espalhando pelas grandiosos ensinamentos e tradicionalismos judeus que cidades vizinhas, onde tinham mais opções de trabalho. os antepassados deixaram para seus descendentes, dando Por mais que Breves tenha sido a cidade na qual a maioa certeza que toda a luta e perseverança valeram a pena ria se instalou, outros locais da região também foram exe ainda está viva. plorados, tais como: Muaná, Melgaço, Gurupá e Portel. Apesar das migrações dos judeus para outros estados braCastiel sileiros após o declínio da borracha, ainda é muito comum encontrar, como já falado, a cultura judaica viva A família Castiel também fez história em Gurupá, potanto nos descendentes quanto nos demais moradores da rém, antes de chegar na região, eles moravam no alto do região, que acabaram agregando alguns costumes dos jurio Moju. A família era grande e bastante unida. Os reladeus aos comportamentos locais. tos da família serão iniciados por Alegria Castiel, que era Famílias na Ilha de Marajó filha de Isaac Serfaty e Sol Serfaty. Ela é esposa de Moyses Castiel, seu primo, com quem teve 12 filhos. A maAs famílias e os descendentes dos judeus são a chave triarca Alegria fazia questão de manter os valores familiapara compreender ainda mais como aconteceu toda a pasres e também as tradições judaicas, por isso era costume a sagem desde a chegada na Ilha de Marajó, passando pela família realizar reuniões para que os rituais judaicos fosbusca por trabalho e liberdade religiosa até as dificuldades sem mantidos. Eles seguiam tanto a religião e os preceiencontradas quando a extração e o comércio da borracha tos judaicos que o filho de Moyses Castiel, Miguel, aprecomeçaram a declinar. sentou em seu registro de nascimento uma emenda para Seria grandioso poder contar a história de todas as faque o nome do seu filho fosse modificado para Mair. A mílias que viveram na região, porém, não é segredo que comunidade sefaradita de Belém afirmava que este nome muitos documentos e registros históricos acabam se pernão estava de acordo com os preceitos religiosos judeus, dendo conforme o tempo passa, mas as histórias das famípois o seu significado “Quem é como Deus?” era entenlias que serão apresentadas servirão como representações dido como um insulto aos poderes de Deus.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  65


Devido ao seguimento fiel aos previúvo e tinha três filhos. Logo que chegou Há nove meses, criei o ceitos, muitas famílias judias que moraem terras brasileiras, não demorou muiProjeto Marajó Sefardi vam na região aproveitavam as datas imto para que ele se casasse com Maria Pocom o objetivo de alargar portantes da comunidade para se enconnina, uma brasileira que seguia a religião a pesquisa para outras trarem com as demais famílias da região. católica. O local que eles escolheram para A família Castiel ajudava na organização cidades do Marajó e criar iniciar a vida de casados foi a região do rio dos encontros, que eram feitos em casas Macaco, nome esse definido pelo próprio um espaço dedicado à vizinhas, pois não existia uma sinagoga. Abraham, que, ao chegar na região, avismemória, vivências e Alegria afirma em seus relatos que a vitou uma quantidade enorme de macacos histórias desses judeus vência em Gurupá foram tempos difípróximos ao rio. marroquinos, uma ceis, pois foi nessa época que ela perdeu Abraham seguiu o padrão de trabalho alguns de seus filhos, além da hostilidade que os judeus estabeleciam ao chegar ao espécie de museu que das pessoas da região acerca da conduta Brasil, criando um comércio de estivas e teria sede em Breves. religiosa da família. miudezas. O patriarca fazia questão de seMesmo com todas as dificuldades e guir todas as tradições judaicas, realizandesafios que eles enfrentaram, toda a família deixou um do os rituais e também não esquecendo de nenhuma data legado muito importante para a região, abrindo caminhos dentro do calendário judeu. Todos da região o chamavam e oportunidades para o desenvolvimento local, enriquede “Velho Abraham” e o seu rigor perante as tradições jucendo a cultura. daicas era visto com muita admiração pelos moradores locais. Ele mudou-se para Belém, onde permaneceu até a Bothebol sua morte. A sua passagem pela região foi tão forte que até hoje é possível encontrar pessoas contando a sua história e Simão Amôr Bothebol, patriarca da família, nasceu no também enaltecendo a sua devoção religiosa. Marrocos e veio para o Brasil se instalando, primeiramenAthias te, no estado do Ceará. Casou-se com uma brasileira, Altina Maria da Conceição, e teve seis filhas: Ester, Sarah, A história da família Athias será contada a partir de Simi, Lea, Alegria e Raquel. Simão, buscando manter as Fortunato Athias, que nasceu em 1867, em Rabat. Seu tradições judaicas e também pensando no futuro das filhas, pai era Maluf Athias, um comerciante de especiarias, e sua pois queria que elas se casassem com judeus, levou toda a mãe Alegria Athias. A língua materna de todos eles era o família para Breves, região que estava sendo base para muiárabe. Assim como muitos relatos históricos, a história de tas famílias judias. Fortunato Athias no Marrocos acabou ficando perdida no Em razão da grande comunidade judaica na Ilha de tempo, pois ele veio para o Brasil muito jovem, realizando Marajó, Simão conseguiu que quase todas as suas filhas todo o processo sozinho. Toda essa ação de deslocamento se casassem com judeus, mantendo a tradição ainda mais de um país para o outro prova que ele era um jovem desforte. Alegria Bothebol casou-se com Quintino Miranda temido e que estava em busca da sua liberdade religiosa e e, por ele não ser judeu, ela teve uma vida repleta de privatambém de bons caminhos profissionais. Ele chegou em ções. A história da família ainda está viva na região através Belém, mas logo foi para o Macapá trabalhar em uma das dos descendentes que Simão e Altina deixaram. firmas aviadoras da época. Ele passou por um período de Chocron muita solidão, então não demorou muito para que ele encontrasse a sua primeira mulher, com quem teve o seu priAbraham Mojluf Chocron, nascido em Teutan, no meiro filho, José Athias. Marrocos, foi o patriarca da família Chocron. A sua vinda Após alguns anos, a mãe de José faleceu. Passado o pepara a América teve como país inicial a Argentina, onde ríodo de luto, ele encontrou Meriam Roffé, com quem se viveu um tempo antes de se estabelecer no Brasil. Ele era casou seguindo a tradição judaica. Fortunato já estava es-

66  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Melissahelddesigns/iStockphoto

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  67


tabelecido profissionalmente e levava uma vida estável, então ele, a esposa e o filho mudaram-se para Macapá, sendo lá o local do nascimento dos filhos que teve com Meriam. Apesar de terem passado um tempo de forma estável, os Athias tiveram alguns acontecimentos marcantes e tristes. O primeiro foi a ruína dos negócios, pois o declínio do ciclo da borracha fez com que muitos judeus fossem à falência. Nessa época eles já estavam morando em Livramento do Ituquara, localidade conhecida por fazer parte do município de Breves, na Ilha de Marajó. O segundo acontecimento foi a triste história de seu filho Maluf, que morreu após tomar um líquido venenoso em uma das viagens que fez com o pai. Toda a família ficou arrasada com a história, mas a religião judaica serviu como força para que eles pudessem seguir em frente. Os outros filhos continuaram tomando conta do negócio do pai em Ituquara, e Fortunato e Meriam mudaram-se para Belém, onde viveram os últimos anos de suas vidas.

Sarraf Abraham Sarraf, descendente de judeus marroquinos e sefaraditas portugueses, foi casado com Elisa Baruel. Eles tiveram seis filhos: Samuel, Simão, Júlio, Piedade, Lea e Helena. O filho Samuel, considerado o patriarca da família, foi casado com Mercedes Bentolila, jovem judia que veio do Marrocos para se casar. Antes de chegar ao Pará, na região de Belém, eles viveram uma temporada no Rio de Janeiro, devido aos trabalhos de Samuel. No Pará, Samuel trabalhou como comerciante na região ou “regatão”. Ele era destemido e adentrava os rios, igarapés e furos da região amazônica para realizar a venda e a troca de produtos. Seu trabalho, que acontecia juntamente com o auge do ciclo da borracha, ia muito bem até que empresários locais começaram a entrar na concorrência. As casas aviadoras praticavam uma luta desigual contra o trabalho de Samuel, mas mesmo diante de tanta dificuldade, a prosperidade profissional aconteceu. Nesse tempo, uma triste notícia pairava sobre a família, pois a matriarca Mercedes viera a falecer. Apesar das dificuldades e tristeza em relação à morte de Mercedes, a família conseguiu seguir em frente com seus trabalhos. Samuel teve um novo relacionamento, com a paraense cristã Maria Lemos, e eles tiveram um filho. Samuel estava em busca de direcionar os filhos do primeiro casamento profis-

68  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

sionalmente, então decidiu se mudar para Breves, na Ilha de Marajó, fixando-se na região do Rio Jaburu. A família conseguiu uma propriedade chamada Paraíso do Jaburu e lá viveram por muitos anos. Todos os filhos de Samuel seguiram a profissão do pai. A região de Breves, como já falado, possuía muitas famílias judias, e foi nesse encontro que Samuel teve um novo casamento com Sarah Bothebol, filha de Simão Amôr Bothebol. Eles tiveram cinco filhos: Fortuna, Raquel, Leonor, Estrela e Simão. Com o declínio da borracha e as mudanças que a vida proporciona, os filhos e netos foram crescendo e seguindo rumos diferentes em algumas regiões do Brasil.

Considerações finais Todas as histórias apresentadas foram relatadas com o máximo de respeito às famílias, que tiveram papeis fundamentais na formação da cultura local, além de outras questões que envolvem o desenvolvimento social e cultural. A Ilha de Marajó e região é um ponto de importantíssimo valor para o País, então a divulgação das histórias das famílias que fizeram parte dessa construção é indispensável para que elas sejam preservadas e ganhem a atenção merecida. O estudo da presença judaica no Marajó é fruto da vontade de conhecer nossa história e a história de nossos antepassados. Por volta de 2002, ao fazer a pós-graduação em Estudos do Imaginário Social da Amazônia, pela Universidade Federal do Pará, me deparei com a fascinante jornada dos judeus que adentraram na Ilha de Marajó no século XIX, dentre eles, meu próprio avô. A partir de então, com este projeto de pesquisa, fui aprofundando o estudo e fazendo trabalhos escolares com meus alunos dos ensinos médio e fundamental. Há nove meses, criei o Projeto Marajó Sefardi com o objetivo de alargar a pesquisa para outras cidades do Marajó e criar um espaço dedicado a memória, vivências e histórias desses judeus marroquinos, uma espécie de museu que teria sede em Breves. Além disso, estou em fase de preparação de um livro sobre esse tema. Eu e minha equipe, formada por descendentes de judeus, fazemos palestras e apresentações on-line sobre o tema. Íria Chocron é professora da rede pública estadual, reside em Breves-PA e pesquisa a presença judaica no Marajó há mais de 15 anos.


MORDECHAI GELDMAN: O POETA ISRAELENSE DO DESASSOSSEGO. André Sena Mordechai Geldman é um dos grandes hermeneutas de nosso tempo da opera pessoana, especialmente do desafiador Livro do Desassossego, criado por Pessoa na figura de um de seus heterônimos, Bernardo Soares.

C

onheci a poesia de Mordechai Geldman há muitos anos na então Mediateca da Maison de France, no Rio de Janeiro. Além do seu acervo possuir um excelente documentário sobre o escritor vanguardista David Shahar, autor de Le Palais des vases Brisés (O Palácio dos Vasos Quebrados), uma das sagas mais geniais da literatura prosaica israelense, eu havia acabado de ler um artigo sobre literatura israelense no site do Ministério das Relações Exteriores de Israel, onde a promessa de uma poesia sabra absolutamente ativa e pujante aparecia de forma evidente para mim. Poucos dias depois recebia de um amigo um exemplar em francês de uma obra genial do poeta Israel Eliraz, com poemas seus comentando a obra do gênio do romantismo alemão Friedrich Hölderlin. Os versos de Eliraz abriram minha caixa de Pandora no que se refere à poesia contemporânea em Israel, da qual então eu conhecia apenas Yehuda Amichai, recentemente traduzida por Moacir Amâncio. À época, encontrava-me igualmente envolvido com a poesia contemporânea árabe, sobre a qual falei em uma biblioteca do Rio de Janeiro, especialmente abordando autores como Abdel Latif Laabi, Mahmoud Hmoundane, e poetas palestinos como Fadwa Tulqan (de quem o general Moshe Dayan era um ávido leitor) e Nathalie Handal, que atualmente vive nos Estados Unidos. Mordechai Geldman, um dos mais celebrados poetas israelenses, dentro e fora de Israel, apareceu pela primeira vez diante dos meus olhos no pequeno fragmento de um grande poema intitulado “Bomba”, que abordava, no iní-

70  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Delpixart/iStockphoto

cio da década de 1990, a questão dos atentados em Israel. A concretude do poema me impressionou pela combinação delicada entre versos que descreviam aridamente a explosão de um terrorista suicida próximo a um prédio residencial em uma cidade israelense qualquer e o humanismo dos versos que evocavam o verão israelense e a singeleza de uma criança, vítima do terror. Ao ler “Bomba”, minha busca por Geldman se tornou diária e meu envolvimento com a poesia árabe e com outros poetas israelenses foi aos poucos dando lugar a uma obsessão, qual seja, a de conhecer cada vez mais os escritos e a biografia deste vulto poético que se revelava crescentemente mais íntimo e intrigante, na medida em que sua obra é absolutamente marcada por três forças de investigação e de criação, que imprimem nos seus versos imagens de um colorido e de uma força peculiar: o Teatro, a Literatura e a Psicanálise. Difícil mensurar em que medida ter nascido dentro de um campo de sobreviventes do Holocausto, instalado na cidade de Munique em 1946, pode ter algum significado mais potente no futuro autor de poemas como Linha e A Tua Beleza, ou de obras como O Shakespeare Psicanalítico,

coletânea de poemas mais recentes, dentre os quais o formidável poema Livro, todos textos que carecem ainda de boas traduções para o português brasileiro. Arrisco que não se pode criar uma linha direta entre esse dado biográfico de Geldman e a sua caleidoscópica trajetória como autor, que crescerá e se educará em Israel (para onde se muda com a família com apenas três anos de idade), especialmente no sofisticado ambiente intelectual de Tel Aviv. Como explicar por exemplo sua paixão declarada pelo gênio português Fernando Pessoa? Mordechai Geldman é um dos grandes hermeneutas de nosso tempo da opera pessoana, especialmente do desafiador Livro do Desassossego, criado por Pessoa na figura de um de seus heterônimos, Bernardo Soares. O poeta israelense do qual estamos falando talvez tenha captado como poucos os elementos centrais desta obra de Pessoa, que provoca no leitor a vontade de captar as angústias da realidade a partir dos afetos da consciência, apreendendo o real de forma sensível, mas sem recorrer à tentação de qualquer tipo de idealização do cotidiano. Geldman projetará suas percepções acerca da obra de Pessoa em um interessante trabalho que irá desenvolver

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  71


com uma companhia de teatro árabe-israelense, que promove suas atividades nos arredores de Tel Aviv, chamada Yaffo21. Com o título provocador Autobiografia de um homem que jamais existiu, Geldman introduz a obra de Fernando Pessoa em Israel com um recorte estético em torno da música e da performance dramática. Essa não será a única obra teatral da qual será curador ou criador. As publicações da poesia de Geldman em Portugal e o interesse do público português por sua poesia se devem a essa leitura crítica e tradução para o público israelense da reflexão literária pessoana.

Nossa trajetória nesse mundo assemelha-se à composição de um poema, como dirá Geldman nos versos seguintes, onde afirma que poemas são “pontos iniciais em busca de pontos finais”, em um jogo de espelhos apontando para a vida como uma conversa entre origem e finitude.

Linha: entre os extremos e a chuva das palavras Em uma interessante coletânea de poemas de Geldman chamada Years I walked at your side (Anos em que caminhei ao teu lado) podemos encontrar um de seus mais notórios escritos: o poema Linha, criado em 1993, no qual o poeta nos propõe uma espécie de ontologia da escrita, especulando sobre a natureza do poema/poesia, suas dimensões e limites tanto de criação como de alcance, além de uma transposição entre o poema e a própria vida. Em seus versos iniciais, Geldman nos propõe analisar e refletir sobre os diversos aspectos em torno do traçado de uma simples linha reta. Em Linha, o autor nos recruta (mais do que simplesmente convida) ao exercício da abstração, na busca das fronteiras geométricas do exercício gráfico, mas também da produção de sentidos: “qual é o fim da linha? / o que há na própria linha?” pergunta Geldman, provocando o leitor em uma espécie de indagação orientada ao absurdo. E o que há na própria linha? Uma estrada montanhosa, um túnel escuro A artéria de um polvo ou uma amostra de tinta? A metaforização da experiência existencial humana na expressão geométrica de uma linha reta implica na percepção dos limites desta mesma experiência (ou de sua condição ilimitada), na medida em que linhas vão ao infinito e são desprovidas de uma origem localizada. Há aqui

72  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

uma mensagem poética dotada de uma força dialética evidente: nossa trajetória nesse mundo assemelha-se à composição de um poema, como dirá Geldman nos versos seguintes, onde afirma que poemas são “pontos iniciais em busca de pontos finais”, em um jogo de espelhos apontando para a vida como uma conversa entre origem e finitude. Linha é um poema relativamente curto, mas que pode ser ilustrado pela ideia banalizada de que os melhores perfumes se encontram em frascos pequenos. Seria a vida humana uma linha tremulante entre dois pontos?, interroga Geldman? Ou, mais ao final do poema, um simples movimento ascendente de letras?, apelando aqui para a nossa extraordinária capacidade de produzir linguagem e emular mensagens, estabelecer laços de comunicação e produzir com isso famílias, grupos mais complexos, povos e civilizações? Não há dúvidas de que em Linha nosso poeta está interessado em investigar as fronteiras do discurso como uma das mais belas e poderosas atividades humanas: a linha desenhada é, como a linguagem e os discursos, uma criação humana, mas sua condição geometricamente infinita escapa das mãos do próprio homem. Como a vida, segundo os místicos e os poetas. Multifacetado, Mordechai Geldman se revela inteiramente diverso em outro poema seu sobre o qual refletiremos mais adiante.

Bomba: entre o descritivo, a superação e a redenção A obra Poets on the Edge: An Anthology of Contemporary Hebrew Poetry, organizada por Tsipi Keller em 2008, nos apresenta um Mordechai Geldman inteiramente diferente do que vimos em Linha. O poeta nos apresenta um texto mordaz, marcadamente político e atualizado no duro chão do cotidiano israelense. Como sugeriu o intelectual Ilan Greilsammer em Repensando Israel, nenhum Estado nacional teve sua existência mais questionada em todo o século XX do que Israel, e o poema Bomba, de meados da década de 1990, confirma esse argumento. Bomba expressa um texto dramático, porque a concretude israelense é dramática; compreendendo-se aqui a


Wikimedia Commons

Bomba

2 poemas de Mordechai Geldman

De súbito, sem qualquer aviso ou toque de sirenes ouviu-se um longo e perfurante assobio e ao término do assobio, uma bomba que caiu sobre o meu prédio num estrondo ensurdecedor criando um vazio geral no lugar onde só tinham apartamentos. Quando o silêncio desceu e a poeira baixou dei por mim que eu já não tinha nem família nem posses, um relógio Seiko descansava no meu pulso, na minha carteira: um cartão de crédito e as roupas leves que eu vestia combinavam com o verão que então começava no país. Comecei a procurar um pouco pelas ruínas encontrei algumas fotografias do filho do vizinho, jogador de basquete, uma calcinha estampada de morangos de alguma menina, um álbum de música lírica, pratos empoeirados e um cachorrinho esmagado que mais parecia uma meia, e pelas lágrimas que enchiam meus olhos eu pude ver que toda a cidade era um amontoado de pedras. triste embora ágil, me afastei em busca de um terreno baldio e disse: chegou a hora da terra. melhor sentar em algum campo, escutar o vento, o vento que sopra dos quatro cantos sem muros que o bloqueiem. o campo que conversa com o sussurro do vento, dando de presente ao andarilho um coração, um lugar. e nas noites azuis e estreladas você dormirá deitado em bosques murmurantes. e nas profundezas dos teus sonhos você se perguntará se foi lógico ou eticamente justificável aquele artefato que você acionou e que detonou uma explosão tão destrutiva. (An anthology of Contemporary Hebrew Poetry. Suny Press, 2012. Traduzido “artesanalmente” pelo autor do artigo.)

Linha Desenhei uma linha Qual é o fim da linha? Uma casa, um inseto ou uma mão negra? E o que há na própria linha? Uma estrada montanhosa, um túnel escuro A artéria de um polvo ou uma amostra de tinta? E talvez o poema seja O ponto inicial em busca do ponto final? Uma linha tremulante entre dois pontos? Ou letras que sobem e ao subir contornam a profunda descida do poema? (Years I walked at your side: selected poems. Excelcior Editions, 2018. Traduzido “artesanalmente” pelo autor do artigo.)

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  73


ideia de drama como algo que engendra necessariamente caminhos de superação, diferentemente do gênero trágico; na tragédia há necessariamente a presença do insolúvel, do imutável, o que não ocupa lugar na poesia de Geldman. Embora Bomba seja uma espécie de poema-denúncia, composto em meio a uma série de atentados suicidas dos quais importantes metrópoles israelenses foram alvo no período posterior à primeira Intifada, há um componente de redenção inexorável em Geldman que aponta para a necessidade de encararmos a mais cruel das realidades com certo lirismo, contudo um lirismo desprovido de qualquer vestígio fatalista diante da vida. Crueldade e redenção (resolução) encontram-se dialogicamente presentes no poema Bomba, que, como o título sugere, descreve de forma bem realista (nos seus primeiros blocos de versos) um atentado terrorista dentro de um conjunto residencial de uma cidade qualquer em Israel. O tema da exposição da população civil israelense à violência e ao terror, resultados do radicalismo político, são o fio condutor deste poema em seus versos iniciais, justamente

De súbito, sem qualquer aviso ou toque de sirenes ouviu-se um longo e perfurante assobio e ao término do assobio uma bomba que explodiu em meu prédio num estrondo ensurdecedor criando um vazio geral no lugar onde só tinham apartamentos A oposição entre o vazio geral e a situação anterior, onde o espaço era preenchido por pessoas em suas tarefas domésticas e cotidianas, é gritante. Apesar da concretude dos versos há aí uma certa busca por uma imagem narrativa quase surreal. Basta recorrer a qualquer vídeo na internet que retrate um atentado suicida que saberemos de imediato que o que se sucede a uma explosão não é o vazio: há sangue, pedaços de corpos, destroços; nada mais distante da ideia de um vazio geral, como sugere o poema. A imagem da vacuidade integral utilizada por Geldman em Bomba poderá aqui apontar para a ideia de ani-

Delpixart/iStockphoto

74  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

os que me cativaram anos atrás e me levaram à leitura da obra deste gigante da poyesis hebraica de nossos tempos.


quilação absoluta do ser, a pior das mortes, como sugeriria Melanie Klein: a morte simbólica, mais truculenta do que o desaparecimento meramente físico. Imagens como estas surgirão em poemas posteriores de Mordechai Geldman, como os publicados na obra Teoria do Um, editada em Portugal há alguns anos. Entretanto, o poema Bomba merece ainda mais um comentário. Poema-denúncia, como dito anteriormente, mas também poema-surpresa. Geldman nos revela na segunda metade do poema um personagem oculto, do sexo masculino, que, diante do vazio geral causado pela explosão, busca refúgio do outro lado da rua, à sombra de uma árvore em meio ao calor do verão israelense. O personagem se confunde a princípio com o próprio narrador do poema, mas de súbito aparece descolando-se na cena poética, em justaposição ao primeiro, estabelecendo um intrigante diálogo entre os dois. Triste embora ágil Me afastei em busca de um terreno baldio (...) você se perguntará se foi lógico ou eticamente justificável aquele artefato que você acionou e que detonou uma explosão tão destrutiva. Os versos acima não são contínuos, mas estão relativamente próximos na estrutura de Bomba. Curiosamente o primeiro dístico nos sugere que é o próprio narrador do poema quem fala sobre si mesmo, descrevendo uma reação sua diante do ocorrido. Contudo, sem qualquer aviso prévio, Geldman nos confronta logo em seguida com a própria figura do terrorista; já não é mais de si mesmo que se tratam os versos, mas de um outro a quem o narrador admoesta e exorta à admissão da culpa e a um exame de consciência. Bomba se encerra nos revelando o próprio perpetrador do atentado, ao mesmo tempo em que aposta na lógica e na ética como mecanismos redentores, ainda que o pior já tenha acontecido: mais característico do sein israelense, impossível. As imagens que atravessam o poema buscam dar o ritmo necessário que nos conduz ao assassino, desde o início, mesmo que pareçam banais demais em uma cena de explosão e morte tão violenta. Algumas merecem especial atenção, e demonstram o apreço que Geldman alimenta por elementos cênicos (o que confirma sua paixão pelo Teatro e pela dramaturgia): um relógio Seiko, uma calcinha com moranguinhos estampados, um álbum de foto-

grafias de família e uma carteira com cartões de crédito são alguns desses elementos cênicos presentes no poema que compõem o vazio geral pós-atentado. A indignação que o poema provoca aumenta quando constatamos a presença de objetos que nos lembram o que até então era vivo/vida. E é precisamente essa descrição árida que nos guia até o final do poema, quando a figura do terrorista nos é revelada com a mesma concretude sensível. Bomba não é apenas um soco no nosso estômago enquanto leitores; é uma apresentação que nos localiza entre a perplexidade e uma pletora de perguntas. A Biblioteca Nacional durante muitos anos produziu e disponibilizou ao público brasileiro uma das mais importantes revistas sobre poesia do país: Poesia Sempre. Criada em 1993, a revista nos brindava com ensaios, dossiês, entrevistas, artigos sobre artes plásticas e naturalmente amplo e farto material poético. Um de seus fascículos, publicado em 1997, dedica-se exclusivamente a poetas israelenses contemporâneos, com belíssimas traduções de uma das mais dedicadas tradutoras hebraístas brasileiras, a professora Nancy Rozenchan, da Universidade de São Paulo. Infelizmente Mordechai Geldman não figura entre os poetas contemplados naquele volume de Poesia Sempre, o que nos coloca a desafiadora tarefa de apresentá-lo o quanto antes ao público brasileiro. Recentemente dei um curso sobre Geldman, a convite de uma instituição cultural judaica no Rio de Janeiro, com uma resposta efetivamente positiva por parte do público. O que pode significar que a universalidade poética deste autor, que o fez navegar pelos mares de Fernando Pessoa, que se confirma pela sua interdisciplinaridade lírica entre o Teatro, a Música, a Psicanálise e a Literatura, poderá ser na verdade uma sofisticada contribuição para a cena cultural em nosso país. André Sena é Doutor em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro desde 2009 e Professor de Relações Internacionais.

Referências Geldman, Mordechai. Years I walked at your side: selected poems. Excelcior Editions, 2018. Keller, Tsipi (org.) Poets on the Edge: An Anthology of Contemporary Hebrew Poetry. SUNY Press, 2012. Greilsammer, Ilan. Repenser Israël. Ed. Autrement, 1993. Klein, Melanie. Inveja e Gratidão. Um estudo das fontes do inconsciente. Imago, 1974. Poesia Sempre. Ano 5. n. 8. Rio de Janeiro, 1997.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  75


resenha de livro

MEU PAI, MINHA MÃE

Jacques Fux Nota biográfica e importância

A

Meu pai, minha mãe Autor: Aharon Appelfeld Editora Carambaia, 2019

ppelfeld nasceu em 1932, em Czernowitz, Bucovina, área sob o domínio do Império Austro-húngaro, conhecida como “a pequena Viena do Leste”. Filho único de pais assimilados, teve, no entanto, contato com o mundo religioso através de seus avós. Com o início da guerra, a família foi capturada e levada para um gueto nazista em 1939. Logo após a chegada, sua mãe foi assassinada. Appelfeld e seu pai foram enviados para um campo de concentração na Ucrânia, onde foram separados. Um achou que o outro tinha sido morto. Porém, em 1960, Aharon encontrou com seu pai após ver o nome em uma lista da Agência Judaica. Ambos tinham chegado em Israel e o “reencontro foi tão emocionante que Appelfeld nunca foi capaz de escrever a respeito”. Seu estilo e sua importância literária são comparados por muitos críticos a Kafka, porém poucos livros dele foram traduzidos para o português. O crítico israelense Gershon Shaked escreveu sobre a obra de Appelfeld: Um “réquiem pelo povo judeu que foi exterminado” (“Requiem for the Jewish People that was Killed”) e “o mais judeu dos escritores israelenses” (de acordo com Nancy Rozenchan). Meu pai, minha mãe é um presente concedido aos leitores brasileiros pela editora Carambaia, na brilhante e comovente tradução do grande escritor e professor da USP, Luis Krausz.

Tensão, memória e normalidade ante a catástrofe Quando o resenhista se comove durante seu trabalho, será que ainda é possível escrever ou deve se entregar unicamente à emoção? Será que deve friamente descrever a biografia de Aharon Appelfeld – que nasceu nos arredores de Czer-

76  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


Yevhen Kobylinskyi/iStockphoto

resenha de livro

nowitz, hoje na Ucrânia; que seu pai era descobre que o texto que gostaria de ter “O silêncio é o segredo industrial e que, quando os soldados aleescrito está no belo Meu pai, minha mãe? de toda arte. Em meio mães chegaram, mataram centenas de ju“No instante em que os olhos da crianao silêncio, enxergamos deus, entre eles a mãe de Aharon; que o ça se erguem por sobre a escuridão dos melhor e ouvimos mais.” anos, surge algo como a promessa de noescritor e o pai foram levados a um campo de trabalhos forçados, e o jovem convas visões. Palavras claras e um refinamenseguiu fugir para as florestas da Ucrânia, passando dois to luminoso da linguagem, que havia anos se encontravam anos escondido, mendigando trabalho e cortando lenha ocultos em seu interior, revelam-se. O espanto exaltado da para uma prostituta e, mais tarde, se juntando ao exércicriança remove, num instante, a poeira que os anos acuto soviético; e que, quando a guerra terminou, ele foi para mularam sobre as imagens e sobre as pessoas, e elas sura Itália e de lá para o que em breve se tornaria Israel, chegem à sua frente como quando lhe foram reveladas pela gando sozinho e quase mudo em 1946 – ou será que o reprimeira vez e então, com todo o seu coração, você desesenhista aceita-se um leitor apaixonado pela história, e deja que essa graça não acabe nunca”. O escritor se comove, cide caminhar junto, de mãos dadas e com um aperto no assim como se comoveu ao ler Proust. coração, se transportando para um passado sombrio e ao Em tempos de abstenção completa da poesia – e de mesmo tempo encantador? uma enxurrada de intolerância – o resenhista-leitor-escriE quando esse mesmo resenhista-leitor é também um tor se depara com a delicadeza de uma obra que narra a escritor obstinado em busca das próprias memórias de inextinção de um passado e a reconstrução de uma memória fância, das palavras, de fatos, amores e invenções – e ele enevoada, ainda que extremamente vívida. Meu pai, minha

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  77


resenha de livro mãe é um trabalho de suspense: ante a caturas sangrentas e aterrorizantes, eu ficatástrofe que se aproxima – e que o narraria feliz em sonhar. Perguntei a Mamãe dor sabe muito bem o que irá se passar –, se seria possível calar os sonhos. Mamãe o livro descreve pessoas, relações, interase espantou com minha pergunta e disse: ções. Conta uma história de umas férias ‘Isso é algo que não está ao nosso alcande verão, à beira do rio; narra as memóce. O sono e os sonhos não estão à nosrias de um menino, de um jovem escritor sa disposição. Um homem não pede para vivendo entre a sensibilidade, religiosidasonhar. Ele simplesmente sonha’. ‘E isso de e o amor de sua mãe, e a racionalidade é um presente ou uma maldição?’, pere a descrença de seu pai – ambos já perdiguntei. ‘O sonho é um presente de Deus dos em um passado destruído. e é possível ser abençoado por ele. Deus O leitor-escritor ressurge novamente, nos presenteou com dons em abundânemocionado. “Escrever um livro é uma cia. Nós enxergamos, ouvimos, sentimos jornada que se estende por muitos dias. o gosto e o cheiro e também sonhamos. O Ao longo dela, como em todas as jorque seria de nós sem esses dons?’” nadas, haverá dúvidas, equívocos, penO resenhista se perdeu, mas sabe que samentos desesperados, sono intranquitem que falar um pouco mais sobre o liMeu pai, minha mãe é lo. O contato com a própria intimidade vro: Meu pai, minha mãe se passa em e com as figuras que o acompanham ao um trabalho de suspense: 1938 durante o mês de veraneio da famílongo dos caminhos percorridos é uma lia burguesa. Pai, mãe e filho vivem as úlante a catástrofe que mistura entre pessoas que você conhetimas férias antes da Guerra que dizimaria se aproxima – e que o ceu de perto e outras que passaram à sua grande parte daqueles judeus. O livro, de narrador sabe muito bem estilo reticente e delicado, traz um narrafrente e que desapareceram de sua vida.” o que irá se passar –, o Ele, escritor, compartilha com Appelfeld dor vidente: ele sabe do futuro catastrófia dura tarefa da escrita... e das espinhosas co, mas nunca perde o olhar poético e sulivro descreve pessoas, reminiscências. til com o qual analisa o tempo e os seus relações, interações. De volta à labuta, o resenhista biograpersonagens. fa: Com o fim da guerra, e já na Palestina/ O escritor já não sabe mais quem e Israel, Aharon, agora com dezessete anos, ingressa no exércomo escreve – “Mas a falta de palavras é sempre uma descito e começa a estudar literatura e filosofia. Ele desconhevantagem? Mais de uma vez, nos primeiros anos de minha ce o hebraico, fala apenas pouco ídiche, e sua língua mãe – escrita, a falta de palavras adequadas me deixava ofegano alemão – é desprezada. Quem é ele, então? Apenas mais te, me sufocava. Só com o passar do tempo aprendi que a um inocente e ingênuo estrangeiro que a História acaba de falta de palavras, a gagueira, frases toscas, todos os defeiatestar a impossibilidade da assimilação ou um incipiente tos da má escrita podem ser vantagens. Frases longas, disescritor em busca de uma língua poética para seu trabalho? tintas e fluentes às vezes ocultam o vazio. A abundância de O escritor-resenhista irrompe: ele está ansioso, admipalavras ordenadas frequentemente está cheia de excessos” rado e angustiado para compartilhar antropofagicamente –, porém, tem consciência que a literatura é justamente as o silêncio do outro com o qual agora se congrega: “O simuitas e infindáveis lacunas que só podem ser preenchidas lêncio é o segredo de toda arte. Em meio ao silêncio, enpela ficção. Ficção essa, narrada em Meu pai, minha mãe, xergamos melhor e ouvimos mais”. que nos açoita ao recalcar a dor, a história e o passado de O silêncio é o silêncio dos mortos. Dos fantasmas. Dos Aharon Appelfeld. crimes e do genocídio kafkiano. Autor-resenhista-escritorJacques Fux é matemático e escritor; autor de Antiterapias (Scrip-leitor sabe disso: “Não sou capaz, porém, de calar meus tum 2014), Meshugá; um romance sobre a loucura (José Olympio sonhos. Eles irrompem em meio ao sono e preenchem 2016), Nobel (José Olympio 2018), entre outros. completamente. Se não fosse pelos monstros e pelas cria-

78  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


em poucas palavras

EM POUCAS PALAVRAS UM ERRO DO GOVERNO DE ISRAEL m setembro de 2007, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou a “Declaração dos Direitos dos Povos Nativos” / “United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples” (A/RES/61/295). A declaração inclui o direito à preservação de território, idioma, religião e herança cultural dos povos nativos ainda existentes no mundo. 144 países aprovaram a resolução, 4 se opuseram, com 11 abstenções. Israel não participou da votação, pois ela coincidiu com o dia de Rosh Hashaná daquele ano. E também não a endossou a posteriori. O Povo Judeu é, sem dúvida, um dos mais antigos povos nativos, ainda habitando sua antiga pátria, o berço de seus antepassados Isaac e Jacó, a terra para a qual Moisés e Josué conduziram o Povo Judeu (naquela época chamado “hebreu”), onde o Rei Salomão construiu o Templo, onde o rei Davi governou a partir de Jerusalém e o rei Herodes residiu, e a terra onde Jesus de Nazaré viveu e conduziu sua vida. Desde tempos imemoriais, até os dias atuais, tem havido uma presença judaica contínua na área, com amplos registros históricos e cada vez mais abundantes evidências arqueológicas. Assim, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Nativos representa um claro reconhecimento dos direitos históricos do Povo Judeu em todas as esferas estabelecidas na Declaração. A Declaração se refere a povos que sofreram “injustiças históricas

Mizoula/iStockphoto

E

como resultado, inter alia, de sua colonização e expropriação de suas terras, territórios e recursos”. Isso é relevante para injustiças históricas como aquelas sofridas pelo povo judeu ao longo de sua longa história, incluindo exílios, banimento, dispersão e conversão forçada e diáspora. Por todas as razões acima, a lógica presumiria que o Estado de Israel deveria endossar tal declaração que reconhece os direitos nativos do Povo Judeu, à luz do fato de que eles são, de fato, o nativo, primeiro povo, natural da terra. Na verdade, o Alcorão, o Novo Testamento e a Bíblia Judaica reconhecem a ligação básica do Povo Judeu com sua terra. Os palestinos afirmam que são descendentes dos canaanitas, mas isto não tem base histórica, principalmente à luz do fato de que

a ocupação do Islã na área ocorreu apenas no século VII da era comum. A premissa do processo de paz é o reconhecimento mútuo dos direitos básicos de cada parte. Assim, as negociações no processo de paz não podem deixar de levar em consideração os direitos do Povo Judeu, conforme estabelecido na Declaração da ONU de 2007. Inclusive tratando os habitantes judeus da Cisjordânia governada pela Autoridade Nacional Palestina como habitantes nativos da região. É de se esperar e esperar que o Governo de Israel reconheça a importância e centralidade da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Nativos e, finalmente e sem qualquer demora ou desculpa, anuncie seu endosso a este importante e documento internacional. ü

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  79


em poucas palavras SINAGOGA PÓS-COVID s congregações que não aderem à visão que usar eletricidade seja um dos trabalhos proscritos durante os dias de Shabat e de Chag se adaptaram rapidamente ao isolamento social recomendado para a mitigação dos efeitos nocivos da Covid-19. Elas passaram a transmitir suas tfilot pela internet e, com isto, não apenas mantiveram a segurança de seus membros, como também preencheram o vazio deixado pela impossibilidade de participação num minian. Já antes da Covid, algumas sinagogas transmitiam a imagem de seus serviços religiosos pela internet e, em tempos mais remotos, via rádio. Porém, estas eram transmissões nas quais o espectador ou ouvinte conseguia tão somente ver ou escutar o que acontecia na sinagoga. Ele não participava, apenas assistia. O que aconteceu durante a pandemia foi diferente. As congregações se esforçaram por desenvolver caminhos multidirecionais, fazendo com que houvesse interação entre as pessoas em tempo real. Ainda é cedo para avaliar quais marcas a implementação destas iniciativas deixarão para o futuro pós-pandemia. Mas algumas características da “sinagoga pós-Covid” parecem já estar delineadas: Não retornaremos ao modelo de tfilá apenas presencial. É inegável que no dia seguinte em que o distanciamento social deixar de ser mandatório, os minianim presenciais retornarão, pois o humano é um ser gregário e o contato remoto rouba muito da emoção do encontro e da solenidade das rezas. Mas dificilmente o minian presencial vai abolir o minian remoto, com sua vantagem de inclusão de pessoas com dificuldades de locomoção, inclusive por residirem em bairros distantes, ou engarrafados, ou até mesmo em outras cidades (em cidades, tais

Toltemara/iStockphoto

A

como o Rio de Janeiro, que contam com uma expressiva “diáspora”, esta característica tem muito valor). Então, o que vamos ter é um modelo híbrido presencial-remoto, mas, diferentemente da transmissão de sentido único anterior, com a participação da comunidade que está remota. Alguns mais ousados (exagerados?) disseram que este novo modelo vai causar a “terceira onda” do judaísmo, pois a mudança será tão impactante como a causada pelo fim dos serviços baseados em ofertas a Deus no Templo. Mesmo que o impacto não seja tão grande assim, vai ser muito frequente termos telões nas paredes frontais das sinagogas, permitindo que a comunidade local veja e escute a comunidade remota, o que é sem dúvida algo revolucionário. Igualmente, parece ser inevitável o aparecimento de livros de reza em formato digital, projetados em tela individual ou coletiva, o que abre o caminho para formatos dinâmicos (inclusive com a capacidade de introduzir textos novos a cada tfliá) e muito diferentes dos atuais. Outro impacto da “sinagoga-Covid” é a ampliação do público das sinagogas, tanto pela agregação das pessoas com dificuldade de locomoção acima citadas, como pela facilidade de “experimentação” do judaísmo sinagogal entre judeus e até mesmo entre não judeus interessados em judaísmo. Esta ampliação está sendo claramente sentida nas tfilot remotas

80  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

conduzidas atualmente, que têm, em todas as sinagogas, um público muito superior (acréscimos de 2, 3, 4, 5 vezes) ao do público tradicional (mesmo nos casos onde este público tradicional já era significativo). O que este aumento vai provocar ainda não está claro, mas parece óbvio que ele terá um impacto positivo. Finalmente, e talvez o impacto mais significativo, a sinagoga remota introduziu um elemento competitivo nas tfilot. O mitpalel (a pessoa que está rezando) tem na frente de si um enorme leque de alternativas e vai, fatalmente, escolher a que lhe é mais atrativa, mesmo que ela esteja em outro continente. A competição é muito salutar para a economia, ela resulta em produtos e processos melhores, inovadores e mais baratos e acessíveis. É a liberdade de competição estabelecida após a quebra da centralização econômico-ideológica estatal da Idade Média, que impulsionou o mundo para o nível de conforto que temos hoje, para o espetacular avanço das condições de saúde e a dramática redução da pobreza experimentada nos últimos séculos. O que será que a competição vai produzir no mundo religioso judaico e não judaico? As pequenas lojas de bairro (ou seja, as pequenas e dignas sinagogas de locais com poucos judeus e poucos recursos) fatalmente sucumbirão para os grandes supermercados (ou seja, as grandes e dignas sinagogas dos locais com grande número de judeus e recursos) que se fizeram disponíveis nas casas de seus membros? Ou será que haverá uma composição “antimercado” com as grandes congregações entendendo o seu sagrado dever de cuidar do povo judeu como um todo? Esta parece ser a grande questão para o mundo religioso pós-pandemia. ü


MarkRubens/iStockphoto

em poucas palavras

A REALIDADE NUA E CRUA

O

“Saban Forum” é um encontro anual entre líderes de todas as correntes políticas e sociais dos Estados Unidos e de Israel, organizado pelo Center for Middleast Policy do Brookings Institute. O tema de seu encontro de dezembro de 2016, às vésperas da posse de um novo governo dos Estados Unidos, foi óbvio: “Os desafios da administração Trump no Oriente Médio”. Na ocasião, o então Secretário de Estado, John Kerry, declarou com a voz, grave e solene, e o dedo em riste de quem tem todas as certezas do mundo o que segue: “Não haverá paz em separado entre Israel e o mundo árabe. Quero deixar isto muito claro para todos vocês. Eu ouvi alguns políticos proeminentes de Israel dizendo: ‘Bem, o mundo

árabe está numa posição diferente hoje e devemos nos aproximar deles e negociar diretamente’.” “Não, não e não”, exclama ele. Em seguida faz uma pausa dramática e movendo as palmas de ambas as mãos na direção do público num gesto de afastamento, olha fixamente para a câmera por cima dos óculos e prossegue em tom de quem está revelando a verdade absoluta: “Posso reafirmar para vocês que mesmo nas minhas conversas mais recentes, da semana passada, quando falei com líderes da comunidade árabe: não haverá progresso e paz em separado com o mundo árabe sem envolver os palestinos e tratar da paz com os palestinos”. Ao falar isto ele levanta momentaneamente o tom de voz,

colocando ênfase na palavra “sem” (without), para continuar em seguida: “Todos devem entender isto. Esta é a realidade nua e crua (the hard reality)”. Quatro anos depois desta conferência, três países árabes estabeleceram relações pacíficas com o Estado de Israel, sem tentar resolver a questão palestina em suas tratativas. A realidade nua e crua é que John Kerry, o arrogante, presunçoso e equivocado negociador do terrível acordo dos Estados Unidos com o Irã, foi um péssimo Secretário de Estado no que diz respeito ao Oriente Médio, incapaz de entender a situação da região um milímetro além das aparências exteriores e das ideias (mal) preconcebidas. ü

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  81


em poucas palavras

Wikimedia Commons

O MEL DA TERRA

O

kibuts Keturá, cravado no meio do deserto, a 40 km de Eilat, é um tradicional desenvolvedor de inovações (pode-se ler mais sobre o kibuts e sua economia inovadora na Devarim número 11, de 2010), assim que o anúncio de seu “Centro de Agricultura Sustentável”, sobre a criação de um novo tipo de tâmaras, não foi um ponto fora da curva para eles.O que ninguém esperava era que inovação fosse na verdade muito antiga! Numa demonstração da incrível resiliência da natureza, os cientistas de Keturá conseguiram revitalizar sementes de tâmaras de 2.000 anos atrás, encontradas em Metsadá. Mas como as sementes eram de uma árvore macho elas não produziram frutas. Quis a sorte que mais tarde se encontrassem sementes da mesma época, porém de uma árvore fêmea. Estas sementes foram encontradas em uma das cavernas de Qumran. Os cientistas lograram polinizar a árvore fêmea de Qumran (apelidada

por eles de Hana) com a árvore macho de Metsadá (apelidada Matusalém) e ela passou a dar frutos! Assim nasceram tâmaras filhas de Hana com Matusalém, que teoricamente são iguais às tâmaras ingeridas pelos personagens da Torá. A Dra. Sara Sallon, uma das responsáveis pelo projeto, descreve assim o sabor desta nova fruta: “Adorável! As tâmaras Madjoul [um tipo moderno de tâmaras, muito popular na região] são um tanto pegajosas para o meu gosto, mas estas são menos melosas, mais secas, mais suaves e com um gosto residual que me faz pensar na terra do leite e do mel”. 15 vezes a Torá faz menção à terra de Israel como sendo a terra na qual flui o leite e o mel, assim que a afirmação da cientista traz prontamente à cabeça a discussão ainda não resolvida sobre a natureza daquilo que a Torá chama de “mel”. Alguns dizem que não haviam

82  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

abelhas na Terra de Israel naquela época, então a substância citada na Torá não era mel e sim um xarope muito doce feito de tâmaras, chamado “silan” em hebraico e, segundo a Wikipedia, muito popular nas cozinhas da Líbia e do Irã. Há também a questão da impossibilidade haláchica do produto de um animal impuro – a abelha – ser considerado casher. O que faz o site do Chabad informar que o mel da abelha é um fenômeno singular dentro da casherut. Mas nada disso apaga a maravilha que é conseguir reviver os sabores do passado, através da manipulação de sementes milenares. Uma das frases mais intrigantes da Torá, a pungente exortação de Jeremias ao final de suas Lamentações: “Renove nossos dias como antigamente!” parece ter sido respondida (ao menos parcialmente) por meio da ciência desenvolvida no deserto de Israel. É fabuloso. ü


em poucas palavras QUEM PROVOCOU A GUERRA DE 1948-49 ontam os livros de história que em 15 de maio de 1948, no dia em que Israel declarou sua independência, o novo Estado foi atacado pelos exércitos do Egito, da Jordânia (então chamada Transjordânia), da Síria e por forças expedicionárias organizadas no Iraque. Mas, segundo um interessante artigo do professor Meir Zamir, publicado no jornal Haarets1, houve um quinto interveniente direto que incentivou o ataque dos árabes. Este quinto interveniente não pegou em armas, mas, por meio de uma bem-sucedida atividade diplomática, convenceu os países árabes, então reunidos numa conferência em Damasco, a abandonar a via diplomática e se lançar abertamente numa guerra do tipo “blitzkrieg” (guerra relâmpago) para a qual prometeu apoio secreto aos árabes. Alguns extratos do artigo: Ben-Gurion descobriu já em julho de 1947 sobre um complô britânico envolvendo líderes iraquianos para incitar a guerra. A inteligência francesa informou-o de que militares e oficiais de inteligência britânicos seniores no Cairo e em Bagdá estavam trabalhando secretamente para frustrar a decisão do governo de Sua Majestade de evacuar a Palestina, desencadeando uma guerra geral entre judeus e árabes. Ficou claro para ele [Ben-Gurion] que os sucessos militares do Yishuv contra as forças palestinas e o Exército de Libertação Árabe permitiram aos oficiais britânicos superar as rachaduras e rivalidades profundas entre os líderes árabes. Eles conseguiram persuadir os árabes a unir forças e ir à guerra para evitar o estabelecimento de um estado judeu, ou pelo me1 Intelligence Documents Reveal What BenGurion Learned on the Eve of Declaring Israel’s Independence – Haaretz.com – 18 de maio de 2020.

8213Erika/iStockphoto

C

nos confinar sua área apenas à planície costeira. Na véspera de 12 de maio de 1948, reunião de Minhelet Ha’am, Ben-Gurion recebeu informações de fontes francesas de que os oficiais da inteligência britânica e o Alto Comando britânico no Egito haviam conseguido persuadir o rei Faruq a reverter sua posição anterior e se juntar à coalizão de guerra árabe. O rei tomou a decisão por conta própria e forçou seu primeiro-ministro, Mahmud Fahmi al-Nuqrashi, sobrepujando sua oposição e a de figuras importantes do governo, senadores, a família real e o Alto Comando egípcio. Pesquisas nos arquivos do exército francês, do ramo de inteligência, e do Ministério das Relações Exteriores revelaram muitos detalhes sobre como o pessoal da inteligência britânica e generais no Egito manipularam Faruq para se juntar à guerra contra Israel. Entre outras táticas, os agentes britânicos fizeram uso do movimento da Irmandade Muçulmana. Milhares de membros da organização atacaram e saquearam propriedades judias e estrangeiras e protestaram nas ruas das cidades, exigindo que o rei ordenasse ao exército que tomasse medidas para salvar a Mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém e os muçulmanos da Palestina. Oficiais da inteligência britânica também tiveram sucesso em Damas-

co. Os líderes árabes se reuniram lá na segunda semana de maio para discutir se aceitariam o apelo americano para estender o mandato britânico por 10 dias a fim de tornar possível um acordo árabe-judaico, ou decidir ir à guerra e chegar a um esquema coordenado para a invasão. De acordo com informações fornecidas por uma importante figura síria, os britânicos obrigaram o regente iraquiano, Abd al-Ilah, e o rei Abdullah a substituir o general iraquiano Ismail Safwat por outro general iraquiano, Nur a-Din Mahmud, que era mais complacente do ponto de vista britânico. O relatório também indica que o chefe da Liga Árabe Azzam, Jamil Mardam e Riyad al-Sulh, os primeiros-ministros da Síria e do Líbano, respectivamente, e o mufti de Jerusalém, Amin al-Husseini, estavam prontos para aceitar a proposta americana de estender o Mandato, mas cedeu à pressão do monarca jordaniano, cujos representantes os informaram que a Legião Árabe (Exército Jordaniano) invadiria a Palestina de qualquer maneira. A postura de Abdullah obrigou os outros líderes árabes a apoiar uma invasão, para que não fossem vistos por seu próprio povo como menos comprometidos do que o rei jordaniano com a defesa dos árabes da Palestina. Os presentes na reunião de Damasco, alguns dos quais colaborando secretamente com os agentes da inteligência britânica, não tinham dúvidas de que Abdullah estava agindo sob as ordens de seus patrocinadores ingleses. Devarim convida a todos para dois exercícios de imaginação. O primeiro: “Quantas mortes teriam sido evitadas e qual seria a configuração do Oriente Médio caso a Inglaterra não tivesse provocado a guerra árabe isralense de 1948 e não tivesse fomentado o ódio entre árabes e judeus?” E o segundo: “O que fazer para se proteger dos aspectos nefastos do jogo político das grandes potências?” ü

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  83


em poucas palavras O PERIGO MAIS SÉRIO

Wikimedia Commons / National Photo Collection of Israel

N

ão é preciso ter dom profético para prever que 2020 será caracterizado no futuro como “O ano do corona”. Tudo o mais que aconteceu no ano será colocado em segundo plano. Israel não será uma exceção, mas lá talvez haja uma hifenização: “O ano do Corona – quando o conflito entre os ultraortodoxos e o restante da população se agudizou”. Os ultraortodoxos (que se autodenominam “charedim”) são 10% da população, mas participaram em 40% das hospitalizações. Supõe-se que isto tenha sido causado pela desobediência às regras de afastamento social. Sinagogas, yeshivot e mikvaot continuaram a funcionar, o que irritou o restante da população, já estressada há anos pelas isenções ao serviço militar e pelos incentivos fiscais recebidos pelos charedim. Talvez esta irritação resulte numa reação política. Talvez não. Mas, qualquer que seja o caso, é oportuno revisitar a entrevista de 1952 entre Ben-Gurion (o primeiro ministro de Israel) e o rabino Avraham Karelits, também conhecido como “Chazon Ish” (“A visão do homem” – título de sua obra magna), o mais importante líder da comunidade charedi na época. O âmago da mentalidade que faz os charedim se sentirem merecedores de tratamento especial em Israel é evidenciada na entrevista: BG: Eu vim conversar com você sobre um assunto e perguntar como judeus religiosos e não religiosos viverão juntos nesta terra. Os judeus vêm de muitos países, centenas e milhares, com diferentes tradições,

de diferentes culturas e diferentes visões de mundo. O Estado enfrenta o perigo externo, pois os árabes ainda querem nos destruir. Devemos aproveitar ao máximo tudo o que os diversos setores da população têm em comum, mas há um grande perigo de explodirmos por dentro. Além de todas as diferenças de culturas e visões de mundo, há uma questão fundamental: os religiosos são judeus e os não religiososo são judeus: como eles viverão juntos? CI: Existe uma lei talmúdica: Quando dois camelos se encontram num caminho estreito que só dá passagem para um camelo, o que está carregando uma carga tem o direito de passagem. O camelo sem carga deve abrir caminho para ele. Nós, pessoas religiosas, temos o pesado fardo do estudo da Torá, da observância das leis judaicas e da observância do Shabat e da manutenção da comida casher. É por isso que outros precisam abrir o caminho para nós. BG: E os judeus não religiosos não estão também carregando uma carga? E o povoamento da terra não é um fardo pesado? E a drenagem dos terrenos alagados, a conquista dos terrenos desolados, a salvaguarda do Estado, não são um fardo pesado? Esta é uma carga muito pesada. Mesmo os judeus que não são nada religiosos, como os do HaShomer HaTsair (movimento juvenil judaico secular, socialista, sionista), se engajam na colonização da terra e protegem você. CI: Eles são sustentados porque nós aprendemos Torá. BG: Se aqueles jovens não os estivessem protegendo, os inimigos teriam destruído vocês. CI: Pelo contrário, devido ao nosso aprendizado de Torá, eles podem viver, trabalhar e defender. BG: Eu não descarto a Torá, mas se não houver humanos vivos, quem estudará a Torá?

84  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

CI: A Torá é a Árvore da Vida, o elixir da vida. BG: Proteger a vida também é um mandamento religioso. “Os mortos não louvam ao Senhor.” Mas, qualquer que seja o caso, como vamos viver juntos? CI: Eu vejo a profanação do sábado, carros e caminhões no sábado, pessoas indo para a praia em vez de rezar, estudar Torá e viver judaicamente. É irritante e chocante ver tal profanação do sábado em nossa terra ancestral. BG: Eu não vou para a praia no sábado, mas esses trabalhadores que trabalham a semana toda não merecem um mergulho no mar no sábado? Isso é direito deles; você não pode forçá-los a estudar Torá, mas eles também são judeus e fazem muitas coisas importantes – defesa, etc. Você não pode forçá-los a guardar o sábado. CI: Acreditamos que um dia chegará e todos guardarão o sábado e orarão. BG: Se eles quiserem, não vou me opor a isso, mas eles não podem ser forçados. Não deve haver coerção religiosa nem coerção antirreligiosa, cada pessoa viverá como achar melhor. Itschak Navon, o assistente de Ben-Gurion, que fez as anotações acima, acrescentou logo após a última frase: Cada um deles manteve suas posições e as repetiu várias vezes sem se aproximarem. Depois que eles partiram, Ben-Gurion disse ao seu assistente: Este é um judeu inteligente, com olhos lindos e inteligentes, [e ele é] modesto. É interessante saber de onde vêm seu poder e influência. E como vamos viver neste país? A “reunião dos exilados” não é algo simples. Há muitas coisas que podem quebrar nossa sociedade, mas essa é a questão mais importante. Este é um perigo mais sério do que qualquer inimigo externo. ü


em poucas palavras Photovs/iStockphoto

PEQUENO ENSAIO SOBRE MAOZ TSUR

D

eus é sempre referenciado por seus atributos, visto que Seu nome é desconhecido e, portanto, irreproduzível tanto de forma escrita como oral. No mais popular canto de Chanuká, Deus é referenciado por um de seus atributos para força: “Tsur” que significa literalmente “Rocha”. “Ó poderosa Rocha de minha salvação, louvar-te é um deleite”, diz o verso inicial do hino.

Este mesmo atributo viajou no tempo e aterrisou no mais importante documento judaico da era moderna: a declaração de independência de Israel. Seu último parágrafo começa assim: “Envoltos na confiança à Tsur Israel, nós assinamos esta proclamação …”. ‫מתוך בטחון בצור ישראל‬ “Tsur Israel” foi o ponto de equilíbrio encontrado entre judeus laicos, que não admitiam uma menção

direta a Deus no documento, e religiosos, que não assinariam a declaração sem esta menção. A capacidade do povo judeu de encontrar o equilíbrio entre as suas muitas vertentes é, inegavelmente, uma das forças de Israel. Porque apenas alguns representantes assinaram fisicamente a declaração, mas espiritualmente todos o fizemos, ao longo das gerações. ü

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  85


em poucas palavras O MUNDO SEM ISRAEL

E

Não precisamos de muita imaginação para vislumbrar o que tal derrota significaria para os 600 mil judeus que viviam no país. Em todos os casos em que os árabes conseguiram derrotar os defensores judeus, o resultado foi ou a expulsão deles de suas casas (como aconteceu na cidade antiga de Jerusalém) ou o massacre (como foi o caso em Kfar Etsion). Durante a guerra, centenas de milhares de árabes fugiram de suas casas – a maioria com a impressão equivocada de que os judeus fariam com eles o que eles queriam fazer com os judeus. Se o resultado tivesse sido diferente, o que se seguiria significaria o extermínio, com os judeus remanescentes sendo tratados como cidadãos de segunda categoria, tal qual acontece até hoje com os palestinos no Líbano. E, evidentemente, seus lugares históricos teriam sido profanados. Mas o impacto na vida judaica teria sido muito mais amplo do que “apenas” isso. A criação de Israel mudou a vida de cada judeu em todo o mundo. Sionistas e não sionistas passaram a se sentir mais seguros. Sem Israel, os milhões de judeus da ex-União Soviética jamais teriam se levantado para exigir seus direitos após meio século de opressão. Embora nos preocupemos com um renascimento do antissemitismo em nossos dias, quando Israel substituiu os tradicionais estereótipos e bodes expiatórios antissemitas, sem ele o destino dos judeus contemporâneos seria incomensuravelmente pior. Os que cresceram no mundo pós1948 simplesmente não têm ideia do quanto mudou a maneira com que os judeus são vistos ​​e tratados. Israel não foi apenas o local de refúgio para sobreviventes do Holocausto e do quase um milhão de judeus do mundo árabe e muçulmano; a criação de um lar para o povo judeu também tor-

86  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

Kaetana_istock/iStockphoto

xercícios de ficção do tipo “e se” estão por trás de programas de televisão de sucesso, tal como “The Man on the High Castle”, que imagina o cenário atual caso os alemães e japoneses tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial. E aqui mesmo, nesta Devarim, o colaborador Vittorio Corinaldi faz um “e se” a respeito do assassinato de Rabin. Embalados nesta onda, vamos fazer um “e se” Israel tivesse perdido a guerra de independência de 1948-49. Incialmente, é relevante apontar que muitos desejaram que o resultado daquela guerra tivesse sido diferente. No cerne da nakba, a narrativa do desastre Palestino, e do princípio central do nacionalismo palestino, está a crença de que a criação de Israel foi um crime que se não tivesse sido consumado o mundo estaria muito melhor. Mas como seria o mundo hoje sem Israel? Com toda a certeza não haveria um estado árabe independente no território do antigo Mandato Britânico para a Palestina. Os árabes que lá habitavam não o demandavam e se o recém-nascido Israel tivesse sido derrotado, teria sido devido aos esforços de invasores estrangeiros: a Legião Árabe liderada pelos britânicos da então chamada Transjordânia, bem como as forças do Egito e da Síria. O território do Mandato teria sido dividido entre eles, assim como foram divididas as partes do Mandato que ficaram sob controle árabe após a guerra (sintomaticamente, a Transjordânia abandonou o sufixo “trans”, depois de ocupar a Cisjordânia em 1949). A criação de Israel serviu, no mínimo, como um freio à barbárie dos ditadores e monarcas vizinhos. Os cidadãos árabes de Israel têm direitos democráticos que seus vizinhos nunca gozaram e, numa boa suposição, não gozarão num futuro previsível.

nou mais fácil para os judeus viverem como iguais, mesmo optando por permanecer na dispersão. Para seus detratores, Israel é uma decepção porque não consegue viver de acordo com os padrões irreais de moralidade, que jamais foram alcançados por qualquer democracia em guerra, como tem sido a realidade de Israel nesses últimos 72 anos. Mas, além desta insensata cobrança, ele continua a ser a única democracia no Oriente Médio, bem como um refúgio para as artes, as ciências e a tecnologia de vanguarda que iluminam o mundo. Enquanto os atolados no mundo de fantasia do antissemitismo anseiam por um mundo no qual Israel nunca existiu, a esperança de sua erradicação é uma manifestação de ódio e não um exercício de ficção. ü


cócegas no raciocínio

O SACRIFÍCIO DE ITSCHAK

Vinte e cinco anos do assassinato de Itschak Rabin

Paulo Geiger

P

arte deste artigo foi escrito 25 anos atrás – logo após o assassinato de Itschak Rabin em 4 de novembro de 1995 – para o órgão interno do Fundo Comunitário do Rio de Janeiro, mas, se minha memória ainda alcança 25 anos, não chegou a ser publicado. E se foi, a parte aqui repetida não perdeu a atualidade, em minha opinião. Ao contrário, ela ecoa fortemente a época de polarizações e radicalismos em que vivemos. A parte acrescentada consiste, precisamente, nesses ecos contemporâneos de uma quase [no caso de Rabin, sem o ‘quase’] tragédia bíblica que ainda nos ameaça, a menos que um anjo salvador torne a conter a consumação de tragédias perpetradas em nome de uma suposta vontade divina, ou uma suposta verdade absoluta, ou uma suposta razão econômica, racial, religiosa ou ideológica. Somos todos Itschaks. Na Bíblia, o sacrifício de Itschak não chega a se consumar. Deus não quer sua morte como preito de fidelidade à sua suposta vontade, e, por decisão divina, no espírito divino, a fidelidade a Deus [ou a qualquer crença, ideia, ideologia ou interesse] não se expressará no sacrifí-

cio de Itschak. Os que invocaram no passado [e alguns, ainda hoje] a vontade divina [ou crenças, ideias, ideologias ou interesses], explícita ou implícita, para justificar o assassinato de Itschak Rabin são os verdadeiros traidores do judaísmo explícito das mitsvot, e implícito dos valores éticos que elas expressam. Nos dias que antecederam o assassinato, Rabin, primeiro-ministro de Israel, por ter assinado os acordos de Oslo, era apontado pela direita e pela facção religiosa radical israelense como traidor (mosser), e cartazes com sua imagem sob o desenho de uma mira de arma de fogo, ou num uniforme nazista, eram colados e distribuídos por todo o país. Os líderes da direita nacionalista, num comício na praça Tsion, em Jerusalém, incitavam a multidão contra ele. Impossível dissociar estes fatos dos motivos que levaram Igal Amir a pô-lo sob a mira de sua arma e apertar o gatilho. Os que admitem que atos terrroristas de judeus contra a vida humana, contra um líder e um patriota na nação judaica, contra a estrutura democrática do estado judaico e a percepção humanista do povo judeu, possam atentar contra uma atuação política legitimada por essa democracia e

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  87


cócegas no raciocínio esse humanismo – porque contestada por quem se arvora em intérprete de uma suposta verdade, uma suposta vontade divina (que a Bíblia afinal desmentiu) – estão admitindo também, implicitamente, que outras percepções de supostas verdades absolutas sejam motivo para compreensíveis jihads, guerras santas, ou até mesmo holocaustos. Agora, vinte e cinco anos depois, e cada vez mais, toda ideia diferente faz de seu portador não um adversário, mas um inimigo, e os discursos de ódio proliferam com reverberações que, uma vez mais, supostamente, invocam a vontade de Deus, ou do progresso, ou da pureza racial, ou do crescimento econômico, ou da ‘justiça histórica’, ou de uma verdade religiosa única e excludente. O fundamentalismo religioso e o radicalismo ideológico e político são irmãos gêmeos do totalitarismo [de qualquer cor] e do fascismo; se uma ideia, por pretender ser a expressão da vontade divina ou de uma verdade incontestável, se transformar na justificativa para a destruição [física ou não] de seus oponentes, voltaremos à idade das trevas e do obscurantismo. É o contrário da visão judaica que, a partir de inequívocos mandamentos e mitsvot, construiu durante séculos

um sistema aberto de interpretações para que, ao longo do tempo, o espírito vivo da vontade de ser judaica pudesse se adaptar a todas as circunstâncias e oferecer opções concretas para a sobrevivência do judaísmo. Nossos sábios mostraram o caminho: reiterar a pergunta, sempre em busca das respostas [diferentes uma da outra] que, a cada momento e realidade, mantenham o espírito da ética e da fé judaicas. Mudar, se preciso, para ser o mesmo. E foi isso que aconteceu no decorrer da história: os suicidas de Massada e os que se submeteram aos romanos em Iavne, chassidim e mitnagdim, cabalistas, messiânicos, místicos, iluministas, os que morreram al kidush haShem e os cristãos-novos de Belmonte, Herzl e Achad Haam, sionistas e bundistas, os que se revoltaram nos guetos, os chalutsim e os fundadores de Tel Aviv, todos representam concepções diferentes de comportamento judaico, visando à integridade e à preservação do judaísmo. Este é o judaísmo. E deu certo. O legado de Itschak Rabin, que motivou e ainda motiva grande parte dos israelenses e do povo judeu, é uma visão otimista e corajosa de um futuro de paz para a nação judaica. Futuro compatível com a essência dos valo-

Excertos do discurso de aceitação (Doutor Honoris Causa, Universidade de Jerusalém, junho 1967) • Sinto-me pleno de reverência ao estar aqui diante dos professores de nossa geração, neste antigo e magnífico lugar com vista para nossa capital eterna e os locais sagrados da história primeva de nossa nação. • Eu considero que estou aqui na qualidade de representante de todas as Forças de Defesa de Israel: dos milhares de oficiais e dezenas de milhares de soldados que conquistaram para o Estado de Israel a vitória da Guerra dos Seis Dias. • É oportuno perguntar o que levou a Universidade conceder a mim o grau de Doutor honorário em Filosofia; a um soldado em reconhecimento por seus serviços de guerra. O que os soldados têm a ver com o

mundo acadêmico, que representa a civilização e a cultura? Qual a relação dos que estão profissionalmente ocupados com a violência com os valores espirituais? • A resposta, penso eu, é que, através desta honra que vocês conferem através de mim aos soldados, vocês expressam sua apreciação ao caráter especial das Forças de Defesa de Israel, que são em si uma expressão da especificidade do povo judeu como um todo. • O mundo reconhece que o Exército de Israel é diferente da maioria dos outros exércitos. Embora sua primeira tarefa, a de manter a segurança, seja de fato militar, ele também desempenha numerosas tarefas

dirigidas à paz. Tarefas construtivas, e não destrutivas, que são realizadas com o objetivo de fortalecer os recursos culturais e morais da nação. • Hoje, no entanto, a Universidade está nos conferindo um grau honorário não por conta dessas coisas, mas em reconhecimento à força moral e espiritual do exército, demonstrada precisamente no combate ativo. Pois estamos todos aqui neste lugar apenas em virtude do que surpreendeu o mundo. • A guerra é intrinsecamente dura e cruel, e sangue e lágrimas são seus companheiros. Mas a guerra que acabamos de travar também trouxe exemplos maravilhosos de coragem e heroísmo raros, e as mais comoventes (Continua)

88  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


cócegas no raciocínio

Wikimedia Commons

Centro Itschak Rabin, em Tel Aviv.

expressões de fraternidade, camaradagem e até mesmo grandeza espiritual. Qualquer pessoa que não tenha visto uma tripulação de tanque continuar seu ataque, mesmo que seu comandante tenha sido morto e seu tanque quase destruído, que não tenha visto sapadores arriscando suas vidas para libertar companheiros feridos de um campo de minas, que não tenha testemunhado a preocupação por um piloto que caiu em território inimigo e os esforços incessantes feitos por toda a Força Aérea para resgatá-lo, não conhece o significado da devoção entre os camaradas. • A nação foi exaltada e muitos choraram quando souberam da captura da Cidade Velha. Os jovens

“sabras”1, e certamente nossos soldados, não têm gosto pelo sentimentalismo e evitam qualquer demonstração pública de emoção. Neste caso, no entanto, a tensão da batalha e a ansiedade que a seguiu se juntaram à sensação de libertação, a sensação de estar no coração da história judaica, e quebraram a casca externa de dureza, despertando fontes de sentimentos e descoberta espiritual. Os paraquedistas que conquistaram o Muro encostaram-se nas pedras e choraram. Foi um ato que, em seu significado simbólico,

1 “Sabra” é o nome da fruta do cactus e é como os israelenses gostam de se definir: espinhosos por fora, mas doces por dentro.

tem poucos paralelos na história das nações. Nós, do exército, não temos o hábito de falar em linguagem rebuscada, mas a revelação daquela hora no Monte do Templo, uma verdade profunda que se manifestou como se fosse um raio, superou todas as reservas habituais. • Há mais para contar. A euforia da vitória apoderou-se de toda a nação. No entanto, entre os próprios soldados, um fenômeno curioso pôde ser observado. Eles não conseguiram alegrar-se de todo o coração. Seu triunfo foi marcado pela tristeza e pelo choque, e há alguns que não conseguiram se alegrar de forma alguma. Os homens na linha de frente viram com seus próprios olhos (Continua)

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  89


cócegas no raciocínio res judaicos, razão de ser da continuidade do povo judeu e do recriado estado nacional judaico. Rabin foi um general vitorioso, um patriota, um defensor de Israel. Sua visão de que uma paz contratual, contanto que definitiva, representava um futuro melhor para Israel, de acordo com a ética e a visão humanista judaicas, não fazia dele um traidor. Como não faz com que sejam traidores os que ainda hoje defendem a ideia de que um acordo definitivo, mesmo à custa de alguns quilômetros quadrados, é melhor para Israel e as futuras gerações de israelenses do que uma imposição de soberania em detrimento das aspirações de um povo que habita a mesma terra há treze séculos. Porém, novamente, o patriotismo que exige sacrifícios é confundido com traição, e de novo vozes de intolerância e de ódio reeditam os estigmas que levaram ao sacrifício de Itschak Rabin. A visão pacifista de Rabin não era ingênua. Ele reconhecia os perigos, não confiava em que uma assinatura em acordos comprometeria todos os palestinos, o Irã, o Hezbolá, o Hamas, os islâmicos radicais, os antissemitas e anti-israelenses. Era general e sabia ler um mapa, o futuro mapa de dois estados, estrangulando Israel em sua faixa

mais populosa. Sabia que qualquer acordo não seria o fim do conflito, mas o começo de um processo que, possivelmente, levaria ao fim do conflito. Conhecia os riscos. Mas teve a coragem dos bravos, porque o prêmio compensaria os riscos, e pagou com a vida por isso. O legado de Rabin consiste em refletir sobre os caminhos que queremos seguir como povo, como religião, como estado judaicos. O povo judeu sempre conviveu com divergências internas quanto ao caminho a seguir, mas a direção era sempre a mesma. Hoje em dia, estamos falando da mesma direção? O que queremos ser, para nós mesmos, em nossa integração com o mundo e com o universo em que vivemos? O que aprender de nossa história, de nossas fontes, de nossos textos, de nossa tradição? Ter a coragem de enfentar riscos para construir um futuro que seja a confirmação de nosso legado, esta a mensagem de Rabin para as gerações de hoje e de amanhã. O sacrifício de Itschak não era necessário, não era a vontade de Deus, nem abriu caminho para um caminho melhor. Que não tenha sido inútil. Que sirva de advertência quanto aos inspiradores e incitadores de ódio do pre-

Excertos do discurso de aceitação (Doutor Honoris Causa, Universidade de Jerusalém, junho 1967)  Cont. não apenas a glória da vitória, mas também seu custo, seus camaradas caídos ao lado deles encharcados de sangue. E sei que o terrível preço que o inimigo pagou também comoveu profundamente muitos de nossos homens. Será que é por conta de seu ensinamento, e não por sua experiência, que nunca habituou o povo judeu a exaltar a conquista e a vitória, que eles as receberam com sentimentos tão mistos? • O heroísmo exibido na Guerra dos Seis Dias em geral foi muito além do ataque único e ousado no qual um homem se lança para a frente quase sem refletir. Em muitos lugares aconteceram batalhas longas e desesperadas: em Rafah,

em El-Arish, em Um-Kal Um-Kataf, em Jerusalém e nas Colinas de Golan. Nesses lugares, e em muitos outros, nossos soldados mostraram um heroísmo de espírito e uma coragem de perseverança que inspiraram sentimentos de admiração e exaltação naqueles que os testemunharam. • Falamos muito de poucos contra muitos. Nesta guerra, talvez pela primeira vez, desde as invasões árabes na primavera de 1948 e as batalhas de Negba e Degania, as unidades das Forças de Defesa de Israel em todos os setores estavam na situação de serem poucas contra muitas. Unidades relativamente pequenas entraram em redes longas e profundas de

fortificações, cercadas por centenas e milhares de tropas inimigas, através das quais tiveram que abrir caminho por muitas horas. Eles seguiram em frente, mesmo quando o momento estimulante da primeira carga havia passado, e tudo o que restou para sustentá-los foi sua crença em nossa força, na ausência de qualquer outra alternativa, na compreensão do objetivo pelo qual a guerra estava sendo travada, e na necessidade imperiosa de reunir todos os recursos de força espiritual para continuar a lutar até o fim. Assim, nossas forças blindadas irromperam em todas as frentes, nossos paraquedistas abriram caminho em Rafah e Jerusalém, nossos sapadores limparam os campos minados (Continua)

90  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I


sente. E que inspire os bravos, dispostos a assumir riscos para a construção segura e lúcida, sem ilusões, de um futuro condizente com o legado judaico e seu papel no mundo. O futuro de um estado que seja judaico e democrático. Vivendo em paz com todos os estados e povos do mundo. Fazendo as concessões necessárias, sem abrir mão de sua segurança e de seus princípios. Itschak Rabin mereceu ver tal futuro como resultado de sua visão e de seu trabalho. Os israelenses e o povo judeu de hoje em dia merecem também.

Wikimedia Commons

cócegas no raciocínio

Post scriptum Pessoalmente, por duas vezes Rabin impressionou-me fortemente. A primeira, no início da década de 1960, em 1964. Eu vivia em Israel, tinha 29 anos e era, naturalmente, reservista de Tsahal. Minha divisão realizou um grande exercício no norte (a época era de grande tensão com a Síria), e na cerimônia de conclusão iria falar Itschak RaMenorá em frente ao Parlamento de Israel, onde se lê a frase bíblica: “Não pelo exército nem pela força e sim por Meu espírito”.

sob o fogo inimigo. As unidades que penetraram nas linhas inimigas após horas de batalha lutaram, recusando-se a parar, enquanto seus companheiros caíam à direita e à esquerda deles. Essas unidades foram levadas adiante, não por armas ou técnicas de guerra, mas pelo poder dos valores morais e espirituais. • O que nossos soldados mostraram não foi apenas frieza e coragem na batalha, mas uma fé apaixonada na justiça de sua causa, o conhecimento pleno que apenas sua resistência pessoal e individual contra imensos perigos poderia salvar seu país e suas famílias, e que a alternativa para a vitória era a aniquilação. • Em todos os setores, nossos coman-

dantes de todas as patentes mostraram-se superiores aos do inimigo. Sua desenvoltura, sua inteligência, seu poder de improvisação, sua preocupação com suas tropas e, acima de tudo, sua habilidade em liderar seus homens para a batalha: estas não são questões de técnica ou equipamento. Não há explicação inteligível, exceto uma – sua profunda convicção de que a guerra que travavam era justa. • Todas essas coisas têm sua origem no espírito e terminam no espírito. Nossos soldados prevaleceram não pela força de suas armas, mas por seu senso de missão, por sua consciência da justiça de sua causa, por um profundo amor por seu país e por sua compreensão da pesada

tarefa que lhes foi confiada: assegurar a existência de nosso povo em sua pátria, e para afirmar, mesmo à custa de suas vidas, o direito do povo judeu de viver sua vida em seu próprio estado, livre, independente e em paz. • O exército que tive o privilégio de comandar com esta guerra veio do povo e volta ao povo: um povo que se eleva acima de si mesmo em tempos de crise e prevalece sobre todos os inimigos na hora da prova por sua força moral e espiritual. • Como representante do Exército de Defesa de Israel e em nome de cada um de seus soldados, aceito seu conhecimento com orgulho. Traduzido do inglês por Raul Gottlieb.

Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

|  d e v a r i m   |  91


cócegas no raciocínio À esq., Itschak Rabin, chefe do Estado-Maior. Abaixo, as sepulturas de Léa e Itschak Rabin.

92  |  d e v a r i m   |  Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I

Wikimedia Commons

Wikimedia Commons / National Photo Collection of Israel

bin, recém-empossado como Ramatkal, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Em meio aos outros oficiais, baixo e corpulento, não parecia ser um poderoso comandante. Até começar a falar com sua voz de baixo profundo, serena, pausada, penetrante. O impacto foi imediato. Conferi depois com meus companheiros de batalhão. Toda aquela parafernália militar, aquele jogo de mocinho e bandido, foi tratado pelo comandante supremo como a forma errada mas única possível de manter o certo: nossa existência física em nossa terra, nossos princípios, nosso futuro de nação judaica. Rabin começou a falar como general, mas quando terminou era o estadista, pacifista, humanista que sempre foi, inclusive como primeiro-ministro assassinado. Na segunda vez eu o ouvi numa gravação de seu discurso, em junho de 1967, logo após a Guerra dos Seis Dias, ao aceitar o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Hebraica de Jerusalém: http://archive.jewish

agency.org/news/content/23540 (ver box). Quem acessar o link e ler o discurso, feito poucos dias após a vitória que fez dele um dos grandes líderes de todas as guerras na história em defesa do povo judeu e do estado judeu, e mesmo sem ouvir aquela voz grave e pausada falando em hebraico, vai reconhecer não o general vitorioso, mas o líder humano e humanista, o homem da paz, o já então estadista. Poucas vezes um chefe de governo de qualquer país teve em seu funeral a presença de tantos e diversos líderes mundiais de primeira linha, entre reis, príncipes, presidentes, primeiros-ministros e chefes militares de tantas nações, inclusive de países árabes, como a Jordânia e o Egito. [Há vários vídeos no Youtube]. Não foi o funeral de um traidor, mas de um grande líder, de um pacifista, de um homem cuja visão de um futuro para sua pátria não cabe no estreito campo visual dos radicais e extremistas de qualquer cor, partido ou ideologia.


PARA USO DOS CORREIOS Mudou-se Desconhecido Recusado Falecido End. Insuficiente Reintegrado ao serviço postal em __/__/__ __/__/__ __________________

Remetente: Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro Rua General Severiano 170 22290-040 - Rio de Janeiro - RJ

AS S I N E A D E VA R I M G R AT U I TA M E N T E www.devarim.com.br

Caminhos Judaicos SUA ESCOLHA BEM INFORMADA NA PALMA DA MÃO


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook