DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI
Ano 15, n° 42, agosto de 2020
O Perigo do Silêncio Rabino Clifford Kulwin
Mais Tradicional, Mais Radical Entrevista com a Rabina Dalia Marx
Exil[h]ado
O inferno moral dos justos
Sérgio R. Margulies
Ruth Kelson
Pornografia e Shoá
Dois Povos – Dois Estados?
Jacques Fux
Vittorio Corinaldi
As Crianças Coronavírus e os Charedim
A cabala e o Ministerio del Tiempo
Nancy Hartevelt Kobrin
Juliano Klevanskis
Pandemia, ciência, política e religião
A viagem de Ayelet Gundar-Goshen
Renata Leborato Guerra e Ilan Gottlieb
Indo ao resgate do filho rebelde Pablo Schejtman
Jacques Fux
Anixação Paulo Geiger
God is in the Crowd Deborah Fleck e Mario Fleck
Nili
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EDITORIAL
Q
ual o “segredo” da eternidade de Israel? O que faz dos judeus o único povo que consegue traçar uma linha ininterrupta de sua cultura desde a Idade do Bronze até a Idade da Informação? Uma linda frase no Tanach foi adaptada para explicar o fenômeno. “Netsach Israel lo ishaker” (a Eternidade de Israel não falhará). No contexto original, o profeta Samuel está comunicando ao rei Saul que seu reinado está chegando ao fim. No diálogo do Tanach, “Netsach Israel” representa Deus e Ele está dizendo, através de Seu profeta Samuel, que não vai mais admitir o comportamento indigno de Saul. Já no contexto adaptado (a adaptação das frases é uma linda e costumeira prática do judaísmo rabínico), a frase significa que Israel é eterno por conta de decreto divino. As iniciais da frase formam o sonoro mnemônico “nili”, que foi muito usado pelo Sionismo moderno para anunciar o renascimento da independência judaica. Dentre outros usos, em 1945 os judeus liberados dos campos nazistas fundaram um “Kibutz Nili” na Alemanha, onde se preparavam para a nova vida em Israel; em 1953 imigrantes do Iraque, da Tunísia e Turquia fundaram o moshav “Givat Nili” no norte de Israel, Nili se tornou um popular nome próprio em Israel e até aqui, no nosso Rio de Janeiro, há um grupo da WIZO que adotou esta bela sigla para seu nome. Mas, da mesma forma como o Midrash nos garante que o Mar Vermelho só se abriu depois que o primeiro he-
breu se aventurou para dentro da água, a concretização da eternidade de Israel depende de uma ação humana em paralelo ao decreto divino. E, a meu ver, a ação humana que mais ajudou Israel a sobreviver desde a Antiguidade é o impulso criado por nossa tradição que nos ordena combater a vitimologia e os efeitos deletérios da autocomiseração, da piedade por si próprios. Os dois maiores desastres do povo judeu foram a dispersão forçada pelos romanos na segunda metade do século I ec e a destruição do judaísmo europeu no final da primeira metade do século XX ec. Em ambos os casos a devastação foi brutal e os judeus tinham todo o “direito” de se cobrirem de autocomiseração e demandarem reparações dos perpetradores, assim como, no contexto político do século XX, também do mundo por sua criminosa indiferença. Em outras palavras, não seria de estranhar que tivéssemos adotado a atitude dos países que culpam o colonialismo por todas as suas atuais mazelas ou dos grupos que culpam a opressão que sofreram no passado pelos males que afligem o seu presente. Mas nós, judeus, adotamos uma atitude estranha, que eu gosto de chamar de “atitude Nili”. Mesmo sem deixar de culpar os opressores e sem jamais perdoá-los, também desenvolvemos a capacidade de olhar para dentro e desenvolver habilidades que, mesmo não evitando a sanha dos inimigos, nos capacitam a sobreviver aos ataques.
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No caso da dispersão pós-destruição do Segundo Templo, os rabinos do Talmud estabeleceram que a tragédia aconteceu por conta da desunião do povo. Segundo eles, foi a “sinat chinam”, o ódio sem sentido, gratuito, que desencadeou a tragédia e não o inevitável expansionismo do Império Romano. Provaram isto através de uma história que me parece francamente fantasiosa, mas que teve o imenso efeito benéfico de desenvolver uma inquebrantável solidariedade entre as diversas comunidades judaicas. Esta característica se mostrou vital para um povo espalhado em milhares de pequenos centros minoritários convivendo embutidos em sociedades muito maiores e mais poderosas. Quando uma das células do povo se quebrava, os sobreviventes sempre contavam com quem os recebesse como irmãos em outras partes do mundo. Não é à toa que chamamos os rabinos do Talmud de “nossos sábios”. A cadeia que começou pela história do Talmud ecoou entre os judeus cariocas que nos anos 1930-1940 faziam plantão no porto do Rio, esquadrinhando as listas de passageiros a procura de nomes judaicos, para abrigar estes desconhecidos e lhes encaminhar ao mercado de trabalho. Esta atitude contrasta vivamente com a imensa lista de profissões proibidas ainda hoje aos descendentes dos árabes palestinos que procuraram abrigo no Líbano depois de 1948. Em uma geração, os filhos dos refugiados do na-
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zismo se formavam médicos, engenheiros e advogados no Brasil. Já no Líbano, os palestinos subsistem em subempregos e vivem em campos de refugiados até hoje. Já antes da destruição do judaísmo europeu, os judeus estavam criando o conceito de um Estado Judaico como antídoto para o persistente antissemitismo. Depois da tragédia, esta prioridade foi colocada no topo da lista e nasceu o Estado de Israel, que tem conseguido evitar a repetição das tragédias oriundas das perseguições antissemitas. Mais uma vez a solução foi colocada na frente da recriminação dos culpados pela barbárie. Em outras palavras: a doença persiste, mas nós a analisamos e criamos um remédio, que, se não cria um mundo perfeito, pelo menos mitiga os efeitos do mal. Eu acredito que muitos dos conflitos que testemunhamos hoje seriam mitigados pela construção de narrativas alinhadas com “atitudes Nili” por parte das lideranças dos grupos que foram prejudicados no passado mais recente. Narrativas que impulsionem os grupos a procurar em si mesmos as formas de ultrapassar os dolorosos reveses que a história lhes impôs. Os judeus conseguiram fazer isso lutando contra milênios de antissemitismo persistente. Espero que o exemplo dos nossos sábios ilumine a humanidade. Raul Cesar Gottlieb – Diretor de Devarim
devarim [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ari, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.
SUMÁRIO Exil[h]ado Sérgio R. Margulies...............................................................................5 Rabino Joachim Prinz. O Perigo do Silêncio Rabino Clifford Kulwin......................................................................11
Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 15, nº 42, agosto de 2020 PRESIDENTE DA ARI Gilberto Lamm RABINOS DA ARI Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA Raul Cesar Gottlieb CONSELHO EDITORIAL Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO Editora Narrativa Um EDIÇÃO DE ARTE Negrito Produção Editorial REVISÃO DE TEXTOS Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA Jcomp/iStockphoto FOTOGRAFIAS Nathalie Ventura, iStockphoto.com COLABORARAM NESTE NÚMERO Rabino Clifford Kulwin, Rabina Dalia Marx, Deborah Fleck, Ilan Gottlieb, Jacques Fux, Juliano Klevanskis, Mario Fleck, Nancy Hartevelt Kobrin, Pablo Schejtman, Paulo Geiger, Renata Leborato Guerra, Ruth Kelson, Rabino Sérgio R. Margulies, e Vittorio Corinaldi. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br devarim@arirj.com.br Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ
Mais Tradicional e Mais Radical. O Novo Sidur do Movimento Reformista de Israel Entrevista com a Rabina Dalia Marx...................................................17 As Crianças Coronavírus e os Charedim. Uma Oportunidade de Aprender e Educar? Nancy Hartevelt Kobrin......................................................................23 Pandemia, ciência, política e religião Renata Leborato Guerra e Ilan Gottlieb..............................................29 Reação Inusitada. Pornografia e Shoá Jacques Fux.........................................................................................33 O inferno moral dos justos Ruth Kelson........................................................................................40 Dois Povos – Dois Estados? Vittorio Corinaldi...............................................................................47 A cabala e o Ministerio del Tiempo Juliano Klevanskis...............................................................................53 Indo ao resgate do filho rebelde e desobediente Pablo Schejtman..................................................................................59 Resenha de livro A viagem sensorial de Ayelet Gundar-Goshen Jacques Fux.........................................................................................64 Resenha de livro God is in the Crowd ou Deve Haver Judeus? Deborah Fleck e Mario Fleck..............................................................66 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger........................................................................................69
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EXIL[H]ADO Rabino Sérgio R. Margulies É mais fácil para um judeu sair do exílio do que o exílio sair dele – Sh Levin (1867-1935)
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exilado despejado do lugar, alienado do tempo e desenraizado de sua condição ao fugir leva o que pode. Buscando reverter os trapos que a vida se tornou, anseia pela normalidade possível. Se pouco – às vezes até nada – traz consigo, envolve-se com as referências inalienáveis da identidade que o constituem como ser. Carrega os estilhaços da vida despedaçada para reconstituí-los como viável em outra situação. Ser exilado é uma condição entranhada na jornada judaica. Segue de lugar em lugar para que possa simplesmente ser o que é, realizar o desejo básico de viver com liberdade, ter a chance de concretizar sonhos e de, se preciso, lidar com a frustração dos sonhos fracassados. Ser exilado é sentir-se fraco, pois à mercê dos que decidem ao sabor de seus desejos ou interesses, expulsar, rasgar direitos e suprimir a dignidade. Estes exilados, no entanto, em reversão se fortalecem com uma esperança renovada. Não uma esperança envolta pelo desvario ilusório, e sim lapidada pelas árduas lições da história. Estas lições são preciosos instrumentos para construir a vida e, quando necessário, reconstruir. Ser exilado é carregar as bagagens da vivência pessoal e coletiva inconfiscáveis pelos déspotas. Com esta bagagem aporta num novo lugar. Ao abrir a bagagem que carrega também se abre para incorporar o que brota da sociedade na qual se estabelece. Vive, então, a dualidade de trazer o passado e vislumbrar
Líderes espirituais das comunidades judaicas sempre residiram e trabalharam sem distanciamento dos constituintes de suas congregações.
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um futuro. Para poder alavancar o potenA santidade não está no judaicas sempre residiram e trabalharam cial que o futuro esperançosamente armasem distanciamento dos constituintes de exílio do mundo – numa zena, abastece-se das referências do passuas congregações e sem afastamento das caverna real ou simbólica sado. Este passado evita o sentimento de pressões do cotidiano que afetam a todos. – e, sim, na vontade de solidão diante dos desafios que enfrenta. Esta concepção aprofunda a capacidade Para cultivar este passado reproduz, sob a atuar neste mundo a cada de atuação religiosa ao abranger as vicisforma de núcleos comunitários, os modia. Santidade não é ser situdes que todos enfrentam. O ensinadelos e costumes de seu lugar de origem um náufrago desgostado mento do Capítulo da Ética dos Pais, ‘não ou pelo menos de algum de seus lugares se separe da tua comunidade’, se aplica a com a realidade que de origem. Simultaneamente, em movitodos e, neste sentido, também aos seus encontra refúgio numa mento oposto, segue para integrar-se na líderes. De outro modo, o líder e a conova sociedade. É o estado líquido do exmunidade estariam exilados uns dos ouilha de isolamento. -exilado: congela em seu convívio comutros, como se cada um fosse uma ilha isonitário o passado e absorve a fluidez do vapor de uma solada do convívio. ciedade porosa. O filósofo Martin Buber (1878-1965) exprime com esSeres exilados: não mais um indivíduo e sim uma copecial beleza que a santidade encontra-se nos afazeres do munidade, uma congregação. Dois mundos: o de ontem cotidiano e no convívio. A santidade não está distante e e o de hoje, o lugar que já foi e o que é. O que em dado sim próxima, e até, quem sabe, nem próxima, já conosco: momento faz sentido, com o transcorrer do tempo pode“Come-se em santidade, saboreia-se a comida em santidará não mais fazer, e, assim, estes espaços comunitários que de, e a mesa torna-se um altar. Trabalha-se em santidade, reproduziram no novo lugar o antigo, tornam-se ilhas do elevando as centelhas escondidas em todas as ferramenexílio, daí a expressão exil[h]ados. tas. Anda-se em santidade através dos campos e as suaves Enquanto o exílio era imposto pelo desespero, manter melodias das espécies, que emitem sua voz para Deus, enuma ilha isolada do contexto maior que aufere liberdade é tram nas canções da nossa alma. Bebe-se em santidade um uma decisão que contradiz a missão religiosa de levar os vacom outro e com as companhias, e é como se eles lessem lores humanitários para o mundo. Esta concepção se coada Torá juntos. Dança-se em roda em santidade e o brilho duna com a determinação do código de leis Shulchan Arureluz no encontro. Um marido une-se com sua esposa em ch (séc. 16) de estabelecer a necessidade de janelas na sinasantidade e a Shechiná (presença divina) repousa neles”. goga, pois através delas há uma troca entre os mundos inComo o vivo pode negar o vivo? – Talmud terno e externo, entre o mundo sacro e o mundo profano.
Nenhuma religião é uma ilha – A. J. Heschel (1907-1972) O sagrado e o profano. Um vivenciado ritualisticamente no templo e outro no cotidiano mundano. Categorias vistas como estanques, como se o ambiente se tornasse sagrado ao estar à margem das questões ordinárias. A suposta pureza religiosa ficaria assegurada ao se isolar dos assuntos corriqueiros. É a vida religiosa exilada do mundo. É o templo visto como uma ilha à parte. O judaísmo compreende que a espiritualidade não é uma esfera afastada da concretude do dia a dia. Ao contrário, a dimensão do sagrado encontra expressão através da realidade vivida. Assim, o rabino Abba Hillel Silver (18931963) observa que os líderes espirituais das comunidades
A santidade que se isola da vida provoca o exílio da religiosidade da vida e, aí, a santidade deixa de ser santidade. Torna-se refúgio da incapacidade de fazer brotar as sementes do sublime que existem em cada situação. Ao invés de reclusão, a santidade é inclusiva, pois vislumbra a construção da vida através de conexões. Uma passagem da tradição judaica lembra que o rabino Shimon Bar Iochai (séc. 2), ao fugir da perseguição dos antigos romanos, passou anos numa caverna. Ao sair dela estranhou e criticou a dedicação de tantos aos assuntos mundanos. Então, uma voz celestial o repreendeu e o ordenou a voltar para a caverna. Após esse novo período, ao deixar a caverna apreciou as tarefas de cada um e as obras realizadas. Este episódio ensina que a santidade não está no exílio do mundo –
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numa caverna real ou simbólica – e, sim, vislumbra o futuro a ser lapidado e não o O estreitamento que na vontade de atuar neste mundo a cada retorno a um tempo que não existe mais recusa as perguntas e dia. Santidade não é ser um náufrago desou sequer existiu. modula as colocações é gostado com a realidade que encontra recomo uma orquestra de Traduttore, traditore fúgio numa ilha de isolamento. um só instrumento. Mas A antropóloga Marta F. Topel, proO ditado italiano, num jogo de pafessora da USP, descreve a frustração de o judaísmo é uma sinfonia um jovem com a visão religiosa que não de múltiplos sons: escuta lavras, diz que a tradução é uma traição. A tradução que tenta reproduzir o origiresponde as relevantes questões da vida: e reverbera a vida. nal num outro idioma é uma traição, pois “Minha crítica aos rabinos é não só que cada língua tem suas peculiaridades. Tamnão respondem as suas perguntas, mas bém a tentativa de transpor uma linguagem espiritual de não deixam você fazer perguntas”, e conclui que falam do um lugar e de um tempo para outro pode ser uma traditefilin, mas não do sexo. Este estreitamento que recusa as ção se desconsiderar que cada lugar e época exigem uma perguntas e modula as colocações é como uma orquestra linguagem própria. Assim, também – num novo jogo de de um só instrumento. Mas o judaísmo é uma sinfonia de palavras –, a tradição é traída. múltiplos sons: escuta e reverbera a vida. A tradição é traída quando, ao invés, sugere o rabino Como uma língua, a religião perece se cessa de mudar Richard Hirsch (1926-), de trabalhar para espiritualizar a – Zangwill (1864-1926) política cede à politização da espiritualidade. Neste sentido, quando a prática religiosa é subserviente aos interesHá o exilado geográfico que, ao deslocar-se de um lugar ses que contradizem a essência de seus valores há a traição para outro na busca de melhores condições de vida, foca de traduzir para a espiritualidade multifacetada a polarizana integração à sociedade que o acolhe. Há o exilado espição e há a traição da tradição que abdica da missão de esritual, que desenvolve uma identidade defensiva. Mesmo tabelecer o convívio apregoado pelo profeta bíblico Malaque integrado como cidadão, cria uma singularidade rechi [Malaquias]: “Então os tementes a Deus conversaram clusa, separada das questões que emergem no mundo em uns com os outros e [aí] Deus atentou e ouviu”. Que não que se insere. É uma polarização interna. sejamos como ilhas afastadas uns dos outros para que a diEsta identidade defensiva e ilhada em si mesmo ergue mensão divina não seja exilada de nós. como referências um passado mítico e absoluto. É o refúO Rabino Sérgio Roberto Margulies serve na Associação Religiogio ilusório que nega a realidade. O próprio sonho – tão sa Israelita do Rio de Janeiro (ARI). judaicamente acalentado – de transformar esmorece, pois
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Que o toque do Shofar seja um momento de reflexão e aprimoramento para que, juntos, possamos escrever um futuro cada vez melhor.
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RABINO JOACHIM PRINZ O PERIGO DO SILÊNCIO
Rabino Clifford Kulwin As palavras de Prinz – seu legado – são hoje tão relevantes quanto eram na época, lembrando-nos, como aos presentes em 1963, do perigo definitivo – o perigo do silêncio.
E
m agosto de 1985 deixei o Rio de Janeiro e minha posição como rabino assistente na ARI. Voltei para os Estados Unidos, para fazer doutorado em história judaica e começar a trabalhar com a WUPJ (a organização guarda-chuva internacional das comunidades Reformistas, Reconstrucionistas e Liberais-inglesas em todo o mundo). Passariam 15 anos antes de eu voltar ao rabinato congregacional, desta vez no Temple B’nai Abraham, em Livingston, Nova Jersey. No Rio, servi a uma congregação fundada por um grande rabino alemão, Heinrich Lemle, cujo impacto na ARI perdura mesmo depois de sua morte há mais de 50 anos. O Temple B’nai Abraham foi fundado 100 anos antes da ARI, mas também possui a marca de um grande rabino alemão em seu púlpito, Joachim Prinz, que estudou no Seminário Teológico Judaico de Breslau alguns anos antes de Lemle. Os 13 anos de Prinz como Berlin Gemeinderabbiner (rabino comunitário) foram memoráveis. Ele era um novo tipo de rabino. Em um documentário recente (2014) sobre ele, uma mulher idosa que cresceu em Berlim declarou: “Ele era para nós o equivalente a um rock-star de hoje”. E o brilho em seus olhos deixou claro que ela quis dizer exatamente o que disse. E ela realmente não estava exagerando. Ele ultrapassou limites. Prinz ia patinar no gelo com “seus” jovens; algo inédito para um rabino alemão na década de 1930. Ele foi um professor e palestrante sem igual; o erudito Gunther Plaut, outro renomado rabino alemão que também veio para as Américas, descreveu
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“Quando eu era o rabino da comunidade judaica em Berlim sob o regime de Hitler, aprendi muitas coisas. A coisa mais importante que aprendi nessas circunstâncias trágicas foi que fanatismo e ódio não são o problema mais urgente. O mais urgente, o problema mais vergonhoso, mais vergonhoso e mais trágico é o silêncio.”
Prinz como “o mais procurado predicador O rabino Prinz ultrapassou Jackie Levine, um robusto nonagenádo país”. Com um poderoso dom de orario membro do Temple B’nai Abraham, e limites. Ele ia patinar tória e um novo estilo de fala direta sobre um discípulo de Prinz, diz no documenno gelo com “seus” judaísmo e assuntos de interesse atual, ele tário: “Não consigo enumerar o número jovens; algo inédito era especialmente atraente para os jovens, de pessoas que conheci, especialmente em mas pessoas de todas as idades se reuniam Israel, que creditam a Prinz tê-las convenpara um rabino alemão em seus cultos de Shabat. “Se você não escido a sair da Alemanha”. Em uma conna década de 1930. tava na fila às 7h30 para o serviço das 9 versa recente, Jackie me contou que muihoras”, lembrou Plaut, “é improvável que conseguisse ser tos diziam claramente: “Ele salvou a minha vida”. admitido no santuário, sempre lotado”. O próprio Prinz, é claro, não foi embora. Sua missão Curt Silberman, confidente de Prinz, membro do Temera cuidar dos judeus alemães, o rebanho que Deus havia ple B’nai Abraham, me contou a piada que dizia que as lhe dado. Apesar de várias prisões, ele continuou a falar. elegias de Prinz na Alemanha eram tão notáveis que “as Em um Shabat, Prinz levantou uma cópia do Der Sturmer pessoas morriam apenas pela vontade de serem enterradiante de uma congregação lotada em sua sinagoga de Berdas por ele”. lim. Apontou para os desenhos racistas dos judeus, cariO rabino Prinz incorporou uma rara combinação: seu caturas com narizes grandes e lábios grossos. Enquanto os calor pessoal e carisma garantiram-lhe uma carreira pastosempre presentes agentes da Gestapo observavam, ele perral de enorme sucesso, enquanto que sua oratória e bravuguntou aos congregantes: “Olhem para si mesmos. Olhem ra levaram milhares de fiéis a segui-lo, mesmo quando ele um para o outro. É assim que somos?” desafiava o status quo. Ele esforçou-se bravamente para reforçar a autoestima E desafiar foi efetivamente a sua marca. Prinz comjudaica, mesmo durante o planejamento dos nazistas de preendeu as consequências da ascensão nazista ao poder despojar a comunidade de sua dignidade (e de seus bens) antes de qualquer outro líder judeu. Ele sabia o que via caminho para a Solução Final. ria pela frente. Ele estava convencido de que os judeus Prinz estava comprometido com os judeus da Alemanão tinham futuro na Alemanha e, do púlpito, em disnha. Ele permaneceu o máximo que pôde, mas sua francursos e escritos públicos e em conversas pessoais, ele os queza testava a paciência da Gestapo. Sua saída, em 1937, exortou a sair. aconteceu, no melhor dos casos, dias, mas muito prova-
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velmente horas antes do que teria sido sua última prisão e morte certa. Quando seu navio, o SS De Grasse, da French Line, partiu para o porto de Nova York em agosto, Prinz deve ter dado um enorme suspiro de alívio. Stephen S. Wise, fundador da Free Synagogue da cidade de Nova York e um dos rabinos mais importantes da América, tornou-se o anjo da guarda de Prinz. Ele organizou um tour de palestras de Prinz pelos Estados Unidos e, mais tarde, apresentou-o aos representantes do Temple B’nai Abraham, então em Newark, Nova Jersey. Isso foi tudo o que era preciso. Pelo restante de seus 86 anos, Prinz seria o rabino da congregação, depois o seu rabino emérito. Um novo país e um novo idioma poderiam ter dado a um rabino menor uma pausa. Mas não a Prinz. Ele mergulhou rapidamente em sua nova vida. Do estado moribundo em que a encontrara – endividada e com uma congregação dizimada – ele rapidamente construiu o Tem-
ple B’nai Abraham como uma das maiores e mais proeminentes sinagogas do país; centenas de fiéis se aglomeravam semanalmente no enorme edifício renascentista grego da Clinton Avenue para ouvi-lo falar. Ao se adaptar à nova vida, Prinz aprendeu sobre sua nova terra. E, como sempre, sintonizou-se com aqueles que a sociedade tratava com mais severidade. Ele se lançou no movimento americano pelos direitos civis, a luta para garantir que os cidadãos negros desfrutassem das mesmas oportunidades, proteções e privilégios que os cidadãos brancos. Em uma terra onde escolas, ônibus e até banheiros eram segregados, havia muito a superar. A causa impactou Prinz; despertou o mesmo ultraje moral que o nacional-socialismo alemão. Como rabino de uma grande sinagoga americana, cargo que mais tarde acumulou com o de presidente do Congresso Judaico Americano (AJC), Prinz transformou sua indignação em ação,
O DISCURSO DE JOACHIM PRINZ
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e dirijo a vocês como um judeu americano. Como americanos, compartilhamos da profunda preocupação de milhões de pessoas com as vergonhas e as desgraças da desigualdade e da injustiça, que zombam da grande ideia americana. Como judeus, levamos a esta grande demonstração, da qual milhares de nós orgulhosamente participamos, uma experiência dupla – uma do espírito e outra da nossa história. No reino do espírito, nossos pais nos ensinaram há milhares de anos que, quando Deus criou o homem, ele o criou como próximo (“Neighbor”, em inglês) de todos. Vizinho não é um termo geográfico. É um conceito moral. Significa nossa responsabilidade coletiva pela preservação da dignidade e integridade do homem. De nossa experiência histórica judaica de três mil e quinhentos anos, dizemos: Nossa história antiga começou com a escravidão e o desejo de liberdade. Durante a Idade Média, meu povo viveu mil
anos nos guetos da Europa. Nossa história moderna começa com uma proclamação de emancipação. Por essas razões que não é apenas a simpatia e compaixão pelo povo negro da América que nos motiva. É, acima de tudo e além de todas essas simpatias e emoções, um sentimento de completa identificação e solidariedade nascida de nossa dolorosa experiência histórica. Quando eu era o rabino da comunidade judaica em Berlim durante o regime de Hitler, aprendi muitas coisas. A coisa mais importante que aprendi nessas circunstâncias trágicas foi que fanatismo e ódio não são o problema mais urgente. O problema mais urgente, mais vergonhoso, mais vergonhoso e mais trágico é o silêncio. Um grande povo que criou uma grande civilização tornou-se uma nação de espectadores silenciosos. Eles permaneceram calados diante do ódio, diante da brutalidade e diante do assassinato em massa.
Os Estados Unidos não devem se tornar uma nação de espectadores. Os Estados Unidos não devem permanecer calados. Não apenas a América negra, mas toda a América. Deve falar e agir. Do presidente até o mais humilde de nós, e não pelo negro, não pelo bem da comunidade negra, mas pelo bem da imagem, da ideia e da aspiração da própria América. Nossos filhos, o seu e o meu em todas as escolas do país, prometem todas as manhãs lealdade à bandeira dos Estados Unidos e à república pela qual ela representa. Elas, as crianças, falam fervorosa e inocentemente desta terra como a terra da “liberdade e justiça para todos”. Creio que chegou a hora de trabalharmos juntos – pois não basta esperar juntos, e não basta rezar juntos, trabalhar juntos para que o juramento dessas crianças, pronunciado todas as manhãs do Maine à Califórnia, do norte ao sul, possa se tornar uma realidade gloriosa e inabalável em uma América moralmente renovada e unida.
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Como rabino de uma grande sinagoga americana, cargo que mais tarde acumulou com o de presidente do Congresso Judaico Americano, Prinz transformou sua indignação em ação.
desempenhando um papel tão importante no movimento quanto possível a qualquer líder branco. Habitualmente, Prinz voltava à Europa todo verão para se reconectar com seus muitos amigos e colegas de trabalho na liderança europeia judaica do pós-guerra. Mas em 1963 ele interrompeu sua visita. Durante sua ausência, seus colegas da liderança do movimento pelos direitos civis planejaram o que seria a Marcha por Empregos e Liberdade (March for Jobs and Freedom), planejada para acontecer na capital do país. Mais de 250 mil pessoas acabariam se reunindo em frente ao Lincoln Memorial. Os esforços estavam em andamento há meses, e as bênçãos do presidente John F. Kennedy no verão garantiram que ele ocorresse. Por causa da marcha, Prinz chegou em casa três semanas antes do previsto. Ele e seu filho Jonathan voaram para Washington na noite anterior e provavelmente foi só então que soube que falaria imediatamente antes do renomado Reverendo Martin Luther King Jr. A perspectiva teria assustado um homem menor; provavelmente ela só deixou Prinz ainda mais disposto. Em Washington, Prinz recebeu o esboço do discurso que sua equipe da AJC havia preparado. E ele não gostou do texto. Ninguém sabe exatamente o que Prinz achou censurável. Provavelmente ele não discordou da mensagem. Mas, sem dúvida, o poder oratório de Prinz, testemunhado
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por gerações de judeus alemães e americanos e imortalizado por escrito por Philip Roth, viu que as palavras que ele recebeu não se adequavam a ele. E isso tinha que ser consertado. Tarde da noite, no quarto que ele compartilhava com Jonathan no Statler-Hilton, escrevendo do zero nas folhas de papelaria do hotel, Prinz elaborou um novo discurso. Ele registrou exatas 479 palavras... e isso de um rabino cujos sermões regulares do Shabat costumavam durar uma hora ou mais. Prinz rejeitou a premissa de que os judeus entendiam a situação dos negros porque eles também haviam sofrido discriminação. Prinz sabia que a comunidade afro-americana via os judeus simplesmente como parte da comunidade branca maior; melhor posicionada, com vidas mais fáceis, muito mais privilegiada. Ele invocou a imagem da escravidão bíblica e se referiu aos “mil anos” de judeus nos guetos europeus, mas falou principalmente como um cidadão americano, um americano que havia visto o horror absoluto de perto. “Quando eu era o rabino da comunidade judaica em Berlim sob o regime de Hitler, aprendi muitas coisas. A coisa mais importante que aprendi nessas circunstâncias trágicas foi que fanatismo e ódio não são o problema mais urgente. O mais urgente, o problema mais vergonhoso, mais vergonhoso e mais trágico é o silêncio.” Em sua voz única, mais próxima a um orador de Ox-
Prinz se lançou no movimento americano pelos direitos civis, a luta para garantir que os cidadãos negros desfrutassem das mesmas oportunidades e proteções que os cidadãos brancos.
ford ou Cambridge do que a de uma pesúltimos anos, cada vez mais a mídia e os Prinz discursou soa cujo idioma nativo era o alemão, acadêmicos veem focando em sua vida e imediatamente antes Prinz alertou os americanos para que não obra. E quem leu ou ouviu aquelas 479 do Reverendo Martin deixassem acontecer em seu país o que palavras em Washington sabe que isso é Luther King Jr. na aconteceu na Alemanha nazista. Ele teve totalmente merecido. o cuidado de não dizer que sua própria Como Prinz, eu fui rabino em dois March for Jobs and herança lhe permitia entender o desafio Freedom, em Washington, países e em dois idiomas. Isso dá uma que a América negra enfrentava, mas que perspectiva especial. Os países são difepara um público de sua própria experiência havia lhe ensinarentes. As culturas são diferentes. Os ma250 mil pessoas. A do o que era necessário fazer para resolles que atormentam cada sociedade são perspectiva teria ver o desafio. diferentes. Mas a necessidade de boas pesPrinz acreditava que a razão principal soas agirem, e não se calarem, é universal. assustado um homem do sucesso dos nazistas não estava na inCinquenta anos se passaram desde o menor; provavelmente teligência de seu plano maligno ou no immarço em Washington. Aqueles 50 anos ela só deixou Prinz pacto de sua retórica, mas se deu porque não viram nenhuma melhoria nos males ainda mais disposto. os numerosos bons alemães ficaram em sique atormentam nosso mundo. As palalêncio. Prinz acreditava que o racismo tevras de Prinz – seu legado – são hoje tão ria sucesso nos Estados Unidos se os numerosos bons amerelevantes quanto eram na época, lembrando-nos, como ricanos continuassem em silêncio. Ele acreditava que as aos presentes em 1963, do perigo definitivo – o perigo pessoas eram em geral boas em ambos os países. Seu pecado silêncio. do não foi a crença, foi o silêncio. Clifford Kulwin é Rabino Emérito do Temple B’nai Abraham, NJ, Quando Prinz terminou seu discurso, a plateia rugiu USA. Previamente ele foi diretor de Desenvolvimento Internacional em aprovação. O racismo que ele descreveu não havia sido da World Union for Progressive Judaism e, no começo dos anos adulterado em sua feiura, mas sua mensagem foi positiva e 1980, Rabino Assistente na ARI – Rio de Janeiro. animadora. Eu já vi isso antes, ele disse. Isso pode mudar. As observações de Prinz naquele dia foram um dos Traduzido do inglês por Raul Cesar Gottlieb grandes discursos da história da oratória americana. E, nos
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MAIS TRADICIONAL E MAIS RADICAL O novo Sidur do Movimento Reformista de Israel
Entrevista com a Rabina Dalia Marx
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ão fosse pela pandemia, o novo Sidur (livro de rezas) do Movimento Reformista de Israel – chamado Tfilat Haadam (A Reza dos Huma nos) – já estaria em uso neste momento. A Rabina Dalia Marx, coor denadora do projeto, concedeu uma instigante entrevista à Devarim, na qual aborda tanto as características do novo Sidur como um visão geral da reza judaica e seus textos. Dalia Marx é Rabina Reformista, professora de Liturgia Judaica e de Mi drash no Hebrew Union College de Jerusalém e também no Seminário Avra ham Geiger de Potsdam (Alemanha), duas prestigiosas instituições de forma ção rabínica e também de chazanim. No ano passado ela publicou um livro de dicado ao ciclo anual judaico, chamado Bazman (No Tempo), que está sendo traduzido para o alemão a partir do original em hebraico. O livro inclui inú meras vozes judaicas: as antigas e as novas, vozes sefaraditas e ashkenazitas, de mulheres e de homens, mostrando quão amplo e quão profundo é o judaísmo.
Eu penso que um Sidur unificado é muito relevante porque marca uma posição. É uma declaração de quem nós somos. Além disso, ele é, quase sempre, o primeiro material estruturado que uma pessoa recebe ao se aproximar de nossas comunidades.
Em 2018 nossa comunidade publicou um novo Sidur de Kabalat Shabat, que veio substituir o Sidur anterior, em uso há aproximadamente 30 anos. Então, nós entendemos que de tempos em tempos é necessário renovar os livros de reza e gostaríamos de saber quais foram os objetivos do Movimento Reformista de Israel (IMPJ) ao criar o Tfilat Haadam e o que o movimento espera alcançar com o livro. Dalia Marx – Eu trabalhei como voluntária no projeto a pedido do IMPJ e tive uma parceira ao longo de todo o percurso, a Rabina Dra. Anona Lisitsa, com a qual foi muito agradável trabalhar. O movimento chegou a um enten-
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Páginas do novo Sidur com poemas alternativos / complementares de Amos Oz, Leah Goldberg e Marcia Falk, além de linguagem adaptada aos gêneros masculino e feminino.
dimento de que nós estávamos precisanA forma como rezamos é zes, mostramos o trabalho em progresso, do de uma nova liturgia, porque a liturgia o nosso maior referencial ouvimos o que eles tinham a dizer e a suantiga já não atendia às necessidades das gerir e fomos acomodando todas as vode identidade religiosa, nossas congregações. Havia uma quanzes, o que, evidentemente, não foi nada tidade considerável de necessidades que ele mostra na prática, fora fácil, mas no final eu acredito que consenão eram atendidas pelo Sidur antigo. O das grandes declarações, guimos produzir um Sidur que atende a movimento tinha, então, dois caminhos, todos. Você pode ter liturgia muito tradiquem somos, como reformular o Sidur antigo ou partir para cional e também liturgia muito inovadora pensamos e como agimos. usando o mesmo livro. Em vez do movialgo completamente novo e a decisão foi pela na segunda alternativa. mento impor um Sidur a todas as comuNos esforçamos para fazer um Sidur que atenda a tonidades, as comunidades criaram um Sidur para todas as das as comunidades, o que proporcionou um desafio adivozes do movimento. cional, visto que cada comunidade é diferente da outra. O O processo não foi simples, tínhamos uma grande piconceito da reza da Beit Daniel em Tel Aviv é muito diferâmide de colaboradores: os dois editores, uma comissão rente do conceito da Kol Haneshamá em Jerusalém e ambas de rabinos, todos os rabinos do movimento, todas as cosão muito diferentes das congregações dos kibutzim, e assim munidades, o movimento juvenil com todos os seus capípor diante. Não existem duas comunidades iguais. Cada ratulos. Claro que a decisão final coube aos editores, mas fobino e cada comunidade tem a sensação do que o judaísmos muito criteriosos no processo de permitir que todos mo reformista é, mas a verdade é que as visões são diferense expressassem e de ouvir todas as expressões. tes. Por exemplo, a Beit Daniel valoriza a cultura israelense, Mas se cada comunidade tem uma visão singular, por que com poesia e textos modernos, já a Kol Haneshamá é mais fazer um Sidur unificado e não incentivar cada comunichassídica e envolve mais Piutim (cânticos) em suas rezas. dade a fazer o seu? Nós consideramos todas as vozes e criamos um procesDalia Marx – Eu penso que um Sidur unificado é so que se aproxima do que se chama hoje de “Wisdom of muito relevante porque marca uma posição. É uma declathe Crowd”.1 Fomos em todas as comunidades várias ve-
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ração de quem nós somos. Além disso, ele é, quase sempre, o primeiro material estruturado que uma pessoa recebe ao se aproximar de nossas comunidades. O movimento reformista exige que as pessoas tomem decisões individuais, e para isto elas têm que ser bem informadas. Quando uma pessoa chega até nós e pergunta “quem são vocês?” temos que dar um livro para ela se informar. Mas não temos que começar com um livro sobre teologia, ou halachá, ou regras de conduta e sim com um de liturgia, com um livro de rezas, com um Sidur. A forma como rezamos é o nosso maior referencial de identidade religiosa, ele mostra na prática, fora das grandes declarações, quem somos, como pensamos e como agimos. Por isso o Sidur unificado é tão importante. Mas é claro que cada comunidade vai ter a capacidade de acessar o pdf do Sidur e criar versões particulares e evoluir. A continuação deste projeto tem que ser a criação de um app que proporcione a criação destas versões e também de um website que contenha informações sobre as rezas e os textos do Sidur. Suas diferentes versões ao longo do tempo, a história de sua evolução, o contexto histórico de quando foram escritos, alguns pensamentos e algumas percepções sobre os textos, a discussão teológica sobre eles. Um sábio do 14o século, David Abudraham, famoso por seu livro sobre rezas e bençãos judaicas, disse que ele nunca viu dois Sidurim que fossem idênticos. Muitas vezes penso nele quando nos indagam: “Com que autoridade vocês estão mexendo em rezas que foram prescritas há milênios?” O nosso Sidur é mais um elo numa grande cadeia e com certeza não vai ser o último elemento desta cadeia. Não existe o perigo do judaísmo perder a sua identidade? Como um visitante da América Latina ou de outras partes do mundo se sente ao participar de uma reza com um Sidur que ele não reconhece como sendo seu? Dalia Marx – Bem, estamos traduzindo o Sidur para o inglês para atender aos visitantes e eu adoraria que ele fosse traduzido para outros idiomas, principalmente para o espanhol e o português, visto que eu tenho uma grande relação afetiva com a América Latina, pois meu marido é argentino. De qualquer forma, mesmo sendo muito “israelense”, com muitos textos adicionais de autores queridos em Israel, como Leah Goldberg e Amos Oz, a espinha dorsal do Sidur é a reza tradicional, dentro da sensibilidade re-
Este livro percorre o caminho “de Hannah a Hannah”. Ou seja, da Hannah do Tanach, a mãe do profeta Samuel que, segundo os nossos sábios, abriu o caminho para a reza, à Hannah Szenes, que estabeleceu a reza como natural no ser humano.
formista. Isto é, não temos nada que ofenda a nossa maneira de pensar. Assim que, evidentemente, não incluímos o texto que agradece a Deus por não nos ter feito mulher, ou não judeu, ou escravo. Não incluímos textos que advogam a vingança contra os inimigos. Pedimos pela paz no mundo e não apenas para Israel ou os judeus, não ansiamos pela volta dos serviços sacrificiais no Templo, ansiamos pela “salvação” [uma época messiânica de harmonia] e não pelo “salvador” [um Messias personificado]. Um bom exemplo disso que estou falando é o Alêinu, uma reza central em nossa liturgia, mas com um texto que pode ser muito mal interpretado e que é usado por grupos extremistas de Israel em seus crimes de ódio contra os não judeus. Em alguns destes crimes, as frases do Alêinu foram
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pintadas em spray em igrejas e mesquitas e essas frases são, portanto, impossíveis de serem usadas em nossas orações, porque nosso público israelense liberal as conecta diretamente com esses grupos, que considera odiosos. Não podemos oferecer um Sidur com esta carga política. Então, mudamos o Alêinu modificando as construções que estão em negativo para o positivo, tentando manter a mesma semântica. Eu gostei muito do resultado. Nossa versão (com os versos novos em itálico) diz2:
Um bom exemplo disso que estou falando é o Alêinu, uma reza central em nossa liturgia, mas com um texto que pode ser muito mal interpretado e que é usado por grupos extremistas de Israel em seus crimes de ódio contra os não judeus.
Devemos louvar o Senhor de todas as coisas, E outorgar grandeza ao Criador do universo. Que nos deu a Torá da verdade, E plantou em nosso meio vidas eternas. Que nos escolheu para unificar a santidade E nos aproxima de Seu serviço. E nós nos curvamos, prostramos e agradecemos frente ao Rei, o Rei dos reis, o Santo Bendito seja. Que é muito semelhante à versão tradicional, pois reformulamos apenas as frases que abriam a possibilidade de um entendimento negativo com relação aos não judeus: Que não nos fez como os demais povos, E não nos dispôs como as famílias da terra. Que não compartilhou nossa porção com eles, Ou nosso destino com o dos demais. Há também uma adição irreproduzível em português, que é uma opção com conjugação feminina para os verbos na última frase do trecho. No hebraico, os verbos são conjugados em masculino e feminino, então damos, ao longo do livro, a alternativa da pessoa conjugá-los conforme a sua sensibilidade. Em linhas gerais, o que fizemos com o Alêinu foi feito com todas as rezas. Ligeiramente modificamos as partes sensíveis, mantendo a estrutura e, portanto, o reco-
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nhecimento universal dos textos. Poemas e composições adicionais foram incluídos à margem das páginas, em outras cores, num resultado gráfico muito bonito. Assim que eu espero que todos se sintam em casa com o nosso novo Sidur, inclusive os visitantes de todas as partes do mundo.
Bem, não é apenas o judeu liberal israelense que não gosta do Alêinu. Na maioria dos Sidurim reformistas do mundo ele foi modificado, não no texto em hebraico, mas na tradução. Isto que vocês fizeram com o Sidur israelense no texto hebraico, a Reforma já faz há muito tempo, mas apenas no texto da tradução. Dalia Marx – Esta é uma questão muito importante e a modificação da tradução é algo bem antigo na Reforma. Abraham Geiger3 já fez isto no século 19. Quando, no passado, eu conduzia serviços religiosos de Iom Kipur nos Estados Unidos, eu tinha a estranha sensação de estar enganando o público, porque, de um lado, o texto em hebraico era muito duro, ele dizia “nós não somos nada, não somos mais que carne e sangue e uma soma de más inclinações”, e, de outro lado, o texto em inglês traduzia isto como “nós temos que perdoar os outros, nós temos que nos perdoar”. Em Israel isto não é possível. Não é que não gostemos desta solução, mas sim que ela não é uma opção para nós. As pessoas aqui entendem a reza. O israelense não percebe a reza como um mantra, ele entende o texto e não gosta de muitas partes dele. Então nós temos que levar a linguagem muito à sério. Por isso fazer um Sidur em Israel é tão complicado. Pois estamos limitados por dois lados, de um lado, para ser aceitável, a linguagem não pode conter declarações repugnantes para a nossa sensibilidade, e pelo outro lado, para a reza ser reconhecida como judaica, ela não pode se afastar muito do texto tradicional. Então, se eu fosse reduzir a nossa entrevista a uma frase eu diria que o nosso desafio é ser o máximo tradicional e, ao mesmo tempo, o máximo radical e criativo. O texto tem que ser reconhecível, mas não pode conter discriminação de gênero ou de alguma outra espécie, tem que valorizar o judaísmo dentro da nossa ideologia e visão teológica, tem que ser decisivamente sionista e tem
que mostrar respeito e responsabilidade pelo mundo todo e não apenas por Israel. Esta não seria uma receita para todo o Movimento Reformista e não apenas para Israel? A cada ano aumenta o número de judeus que falam hebraico. Em 1850 apenas os eruditos eram versados no idioma, hoje a situação é muito diferente. Dalia Marx – Sim, é verdade que esta pode ser uma receita para a valorização da reza no Movimento Reformista no mundo todo, mas ela exige fortes doses de compreensão da dinâmica do judaísmo, de conhecimento das fontes e de compromisso. E sem dúvida que temos que trabalhar para reforçar estes três traços em nossas comunidades mundo afora. Como você vê a relação deste Sidur com a sociedade israelense em geral? O livro vai ser vendido nas livrarias em Israel? Dalia Marx – Se o livro fosse atender apenas as dezenas de comunidades reformistas em Israel, eu não teria dedicado seis anos de trabalho voluntário nele. Fiz o trabalho porque eu acredito que nós temos algo a oferecer aos judeus em Israel e também fora de Israel. Eu penso que este Sidur é a nossa “carteira de identidade”, algo que nos identifica para a sociedade como um todo. Por isso ele se chama Tfilat Haadam (A Reza dos Humanos) que remete ao ser humano no princípio da criação, antes de sua divisão em gêneros, nacionalidades, religiões e outras identidades. Mas este nome também remete a algo muito próximo de todo israelense, pois é parte de um belíssimo poema de Hannah Szenes4, recitado nas escolas, nos memo-
riais da Shoá, um texto que ressoa fortemente na psique do israelense. O poema5 representa a possibilidade de rezar mesmo que você não queira se identificar como religioso ou como ortodoxo. Rezamos porque somos humanos. Os israelenses que ouvem a expressão Tfilat Haadam conectam com tudo isto. Na semana passada, ouvi de uma jovem e muito talentosa rabina, Debi Shuach Chaim, algo que não tinha me ocorrido. Que este livro percorre o caminho “de Hannah a Hannah”. Ou seja, da Hannah do Tanach, a mãe do profeta Samuel que, segundo os nossos sábios, abriu o caminho para a reza, à Hannah Szenes, que estabeleceu a reza como natural no ser humano. Esta expressão é um paralelo, com tons femininos, à expressão “de Moshe [Rabeinu] a Moshe [Maimônides]” que percorre o caminho da evolução da lei judaica. Muito bonito! Muito obrigado por seu tempo, pela maravilhosa conversa e esperamos poder em breve evoluir e conseguir usar o material deste livro na América Latina também.
Notas 1 Segundo a Wikipedia, “wisdom of the crowd” (a sabedoria da multidão, em tradução livre) é a opinião coletiva de um grupo de indivíduos em oposição à de um único erudito. Este processo (que não é novo) está sendo colocado em foco por sites de informação como Wikipedia, Yahoo! Answers, Quora, Stack Exchange e outros, que se apoiam na sabedoria coletiva da humanidade. 2 O itálico foi introduzido pela revista Devarim para distinguir os trechos modificados. No Sidur não há esta distinção. 3 Rabino alemão (1810-1874) considerado o fundador do Movimento Reformista. 4 Nascida em 1921 e uma das heroínas do moderno Estado de Israel, assassinada por fuzilamento pelos nazistas em 1944 quando em missão militar de resistência na Hungria. 5 Meu Deus, meu Deus, / que nunca deixem de existir, a areia e o mar, / o murmurar das águas, / o trovão dos céus, / a reza dos humanos.
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AS CRIANÇAS CORONAVÍRUS E OS CHAREDIM Uma oportunidade de aprender e educar?
Nancy Hartevelt Kobrin Agora, quando todos nós experimentamos a pandemia mundial de coronavírus, a “leitura nas entrelinhas” está agitando a mente das crianças charedim em Jerusalém, especialmente em Bnei Brak e muitos outros enclaves charedim em Israel.
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embrei-me de uma cena do filme Witness (Testemunha) de 1985, sobre um menino amish de oito anos que, depois de testemunhar um assassinato, é arrastado para o mundo moderno. Em uma cena, o menino está em um banheiro público com seu pai, vestido com roupas amish tradicionais pretas. Enquanto a criança olha para a multidão confusa de estranhos, ele vê um judeu ultraortodoxo charedi, vestido com seu traje religioso austero preto. O garotinho tenta entender esse outro homem e descobrir onde ele “se encaixa” no esquema das coisas. Foi dito, então, que a semelhança externa era uma ilusão e havia uma diferença real em substância. No entanto, a analogia falha em levar em conta a experiência interna do jovem garoto amish e a dos judeus ultraortodoxos. Ambos os grupos – amish e judeu – têm mundos internos muito diferentes, ricos, profundos e complexos. Suas distintas heranças históricas influenciam as fantasias e emoções que vinculam pensamentos conscientes e visões de mundo e, para cada indivíduo, a visão interna de seu senso particular de evolução pessoal. Os psicólogos nos ensinam que as crianças tendem a “ler nas entrelinhas” quando começam a ter contato com o mundo além da mãe e da família. Ao entrarem nas casas de outras pessoas, elas se perguntam: O que realmente está acontecendo aqui? Quão semelhante ou diferente é este lugar do meu? Como essas outras crianças são tratadas – como eu, ou não? Há uma infinidade de perguntas não formuladas que surgem quando uma criança absorve o ambiente estranho como uma esponja, na tentativa de descobrir o mundo e tentar se sentir seguro nele.
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Agora, quando todos nós experimentamos a pandemia mundial de coronavírus, essa “leitura nas entrelinhas” está agitando a mente das crianças charedim em Jerusalém, especialmente em Bnei Brak e muitos outros enclaves charedim em Israel. Essas mentes jovens tragicamente encontram o trauma do coronavírus ou o que foi chamado de “Haredi Hurricane Katrina”.1 De fato, essas crianças já devem ter ouvido seus pais conversando sobre os filhos de seus parentes judeus na cidade de Nova York que estão de luto por seus pais, conforme relatado nos sites dos charedim.2 Muitas das bem-informadas discussões sobre como as comunidades charedim na América e em Israel serão alteradas por essa experiência tenderam a se concentrar em três áreas – tecnologia, obediência a rabinos e economia/ mercado de trabalho.3 De acordo com o Times de Israel: “O efeito real do vírus pode ocorrer aos poucos, ao longo do tempo e como parte de uma mudança mais ampla na cultura charedi. Não é um terremoto, mas seria um ponto de inflexão?”4 No mínimo, para qualquer criança uma crise como essa é de fato um terremoto psicológico. Será que essas crianças irão se referir umas às outras como sobreviventes da Covid-19, de maneira semelhante às crianças sobreviventes do Holocausto, que se referem a si mesmas como
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primeira e segunda geração? É uma possibilidade concreta. Além disso, e ironicamente, muitos também são da geração do Holocausto, pois os charedim quase foram aniquilados durante a guerra junto com suas yeshivot, casas de estudo. Embora, sem dúvida, muitos experimentem, infelizmente, as sequelas psicológicas e a retraumatização do impacto do coronavírus em suas comunidades fechadas, há uma possibilidade positiva de mudança que não foi mencionada até agora. Que eu saiba, ninguém mencionou o impacto da presença de membros da Força de Defesa de Israel, que tiveram pelo menos um contato pessoal fugaz com a comunidade e seus filhos. Assim, sob o coronavírus, foi permitido ao mundo exterior entrar na comunidade. As comportas parecem estar se abrindo. Como psicanalista, não tenho dúvidas de que as crianças charedim estão tentando entender o que está acontecendo ao digerir tudo o que estão vendo, ouvindo e sentindo. As crianças charedim, muitas das quais vivem abaixo da linha de pobreza e em bairros lotados, foram ensinadas a chamar soldados das IDF (Forças de Defesa de Israel, na sigla em inglês) de nazistas. A ignorância e o medo entre os adultos foram transmitidos à sua geração. De repente, porém, meninos e meninas veem os soldados israelenses sob uma nova luz, como apoiadores em potencial que
lhes trazem comida, suprimentos e ajucia e conhecem bem as importantes traAs crianças charedim, dam os doentes em suas famílias. Sua vidições médicas medievais judaicas da Esmuitas das quais vivem são de mundo está certamente passando panha e do Oriente Médio. Existem até abaixo da linha de pobreza por uma profunda alteração. rabinos contemporâneos que escreveram e em bairros lotados, Quando uma criança vive abaixo da tratados sobre ciência.8 Então, por que eles não ouviram as linha da pobreza e não recebe o direito foram ensinadas a chamar autoridades por semanas preciosas dua um currículo básico que a educa para soldados de nazistas. De o mundo moderno, ela fica com muitas repente, porém, meninos e rante o surto inicial? Eu escrevi, em um artigo anterior sobre populações emocionecessidades psicológicas não atendidas. meninas veem os soldados nalmente religiosas9, que eles estavam em Por esse motivo, esses soldados israelenisraelenses sob uma nova profunda negação e se retiraram em seu ses estão ajudando inconscientemente esmundo religioso insular para conforto. O sas crianças a aliviar as ansiedades que luz, como apoiadores. que escrevo agora também é aplicável a existem ao seu redor e acalmar as preocutodas as crenças religiosas que estão tão profundamente pações específicas que absorvem pelos olhos de seus pais arraigadas em suas tradições que falharam em ver o escrie sentem no terreno emocional tácito da família e da vito na parede em relação ao coronavírus. Nas comunidazinhança. Naftali Moster trabalhou incansavelmente em des cristã ou muçulmana, é claro, os detalhes da negação Nova York através de sua organização Yaffed5 para estabelecer um currículo moderno para os Haredim. serão diferentes. Aqui, abordo algumas das questões mais Recentemente, tive o privilégio de ser voluntária com a importantes em relação à população charedi em Israel em 6 Sarel em um grupo enviado a Tsrifim (Bahad-16), o Corelação ao exército israelense. mando de Frente Interna da IDF (Pikud HaOref). Tendo A negação é uma curiosa defesa psicológica nascida da conhecido os soldados especialistas que lidam com desasexperiência da primeira infância com a mãe durante a fase tres e sabendo também que os paraquedistas do Batalhão de apego. Meu colega Norman Simms e eu escrevemos 890 e as brigadas de comando da 98ª Divisão foram enuma monografia referente em parte à questão da negação viados para os hotspots charedim, percebi que estas mis(lançamento previsto para novembro de 2020, com dosões não apenas foram sabiamente estratégicas para a conwnload gratuito em MentalitiesJournal.com). A negação tenção do vírus, mas também entendi que se produziu é transferida para a idade adulta de maneiras profundas, um encontro psicológico profundo entre o mundo secucomo acabamos de testemunhar com os rebeldes charedim lar e os charedim.7 que não ouviram os avisos sobre a Covid-19. Esse fracasAs lembranças traumáticas que esses garotos charedim so faz parte do que foi chamado de efeito de apego (Loveguardam podem perfeitamente terem sido temperadas ao nheim, 2018), encontrado principalmente em associação testemunhar atos de bondade amorosa do “outro”, os solà liderança carismática e a uma mentalidade de grupo que dados israelenses. Pela primeira vez em muitas de suas jopermanece assustada demais para questionar. O Rebe Chavens vidas, eles encontram judeus de todas as diferentes deredi é apenas um imperador vestindo roupas invisíveis? A nominações religiosas, desde os reformistas aos ortodoxos negação é uma estratégia defensiva para proteger o eu frágil modernos e aos seculares, unidos a drusos, cristãos e mue subdesenvolvido de seus terrores que são profundos. Esçulmanos, homens e mulheres servindo juntos como solsas emoções poderosas surgem de necessidades psicológidados israelenses. É um momento educativo, que as IDF cas não atendidas – especialmente a necessidade de serem sabiamente aproveitaram. experimentadas, exceto como objeto para outra pessoa. Mas, o que deu errado no mundo charedi que fez seus Para que não esqueçamos, mesmo esses rebeldes charabinos e o ministro da Saúde, um charedi, não levar a redim que falharam com os membros de suas comunidasério a pandemia de coronavírus até que as notícias de des foram, em geral, criados em isolamento social e pobreNova York chegassem a eles, onde muitos de seus correliza e, portanto, têm suas próprias ansiedades residuais de gionários estavam morrendo? É ainda mais curioso, connecessidades psicológicas não atendidas, necessidades insiderando que os charedim, em geral, entendem a ciênconscientes que alimentaram e construíram, uma postu-
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ra grandiosa e narcisista altamente defenEste ensaio foi publicado pela primeira vez Precisamos lidar com siva. Eles também são das gerações sobreem inglês no site https://americascivilwaressas crianças, que viventes do Holocausto. Por causa da nerising.org/the-coronavirus-and-haredi-chilse tornarão a próxima gação nas últimas semanas, muitos chadren-an-educable-moment-dr-nancy-hargeração, agora, para que tevelt-kobrin/ redim morreram. Essa tragédia ainda está em processo para as crianças. No entanse tornem cidadãos mais Dra. Nancy Hartevelt Kobrin é psicanalista com to, os olhos dessas crianças foram abertos engajados e ativos em e sua realidade foi profundamente altepleno funcionamento para doutorado em Literatura Islâmica. Ela estudou no Rio de Janeiro e em Lisboa. Fez aliá de St. rada pelos soldados das IDF que as estão a melhoria da sociedade. Paul Minnesota e vive em Tel Aviv. Publicou os ajudando. Esta é uma janela de oportuniseguintes livros: The Banality of Suicide Terrodade para todos nós abrirmos a discussão rism, Penetrating the Terrorist Psyche, The Maternal Drama of the sobre como melhorar as condições de vida dessas crianças Chechen Jihadi, The Jihadi dictionary e The Last Two Jews of Moassustadas, oferecendo-lhes melhores oportunidades edugadishu Living under Al Shabaab’s Fire. cacionais, melhores ambientes de vida, juntamente com ajuda psicológica. Traduzido do inglês por Giovanni Yannai Dossena Frank. Até o ano 2065, prevê-se que 49% das crianças israelen10 ses serão Haredim. Precisamos lidar com essas crianças, Notas que se tornarão a próxima geração, agora, para que se tornem cidadãos mais engajados e ativos em pleno funciona1 http://www.middleisrael.net/_ultra_orthodox_katrina_10_apr_20_/ 2 https://www.timesofisrael.com/more-basic-than-a-crisis-of-faith-will-the-virus-umento para a melhoria da sociedade. Assim como a obserpend-ultra-orthodox-society/ vação sobre o menino amish e o homem charedi na cena 3 https://en.idi.org.il/articles/31256. 4 https://www.timesofisrael.com/more-basic-than-a-crisis-of-faith-will-the-virus-udo filme Witness, temos que nos perguntar: é tudo superpend-ultra-orthodox-society/ ficial e carente de substância? Pode haver uma maneira de 5 https://www.yaffed.org manter diferenças culturais e ainda assim viver pacífica e 6 https://www.sar-el.org 7 https://www.haaretz.com/israel-news/.premium-israeli-soldiers-are-sure-they-recooperativamente em um mundo ou nação compartilha-saving-this-ultra -horodox-coronavirus-hot-spot-1.8750121 dos? A crise do coronavírus nos encoraja a mergulhar fun8 https://www.timesofisrael.com/more-basic-than-a-crisis-of-faith-will-the-virus-upend-ultra-orthodox-society/ do nos problemas psicológicos que assombram as comuni9 https://itct.org.uk/archives/itct_article/the-danger-of-the-coronavirus-in-emotiodades charedim, bem como a sociedade israelense em genally-religious-populations ral. É uma rara oportunidade de mudança que nós todos 10 https://www.jewishpress.com/news/israel/report-by-2065-49-of-israeli-children-will-be-haredi -so-quem-irá-trabalhar / 2019/11/12 / não devemos ter medo de abraçar.
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PANDEMIA, CIÊNCIA, POLÍTICA E RELIGIÃO Renata Leborato Guerra e Ilan Gottlieb
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a vigência de uma pandemia, a ciência deveria ser a estrela-guia da humanidade ao fornecer as informações necessárias para lidarmos com um agressor invisível e mortal. Mas, supreendentemente, na maior pandemia que as gerações atuais já viveram, a ciência foi uma das que mais sofreu agressões à sua imagem, credibilidade e integridade. Esse fenômeno certamente merece um estudo, pois, dependendo de como digerirmos o papel da ciência nessa pandemia, poderemos ter tempos vindouros de absorção e nutrição pelo progresso que ela nos proporciona ou, contrariamente, de regurgitação e consequente desnutrição. O conhecimento científico foi o fator primordial que permitiu que a humanidade chegasse ao formidável estágio em que se encontra hoje. Como um barco à vela que mareia ziguezagueando ao vento, a humanidade vem cambaleante vencendo a entropia da natureza, usando a ciência como bússola. Prolongamos assustadoramente o tempo de vida das pessoas, controlamos doenças que matavam em abundância no passado, reduzimos a uma fração as mortalidades infantil e materna de apenas 200 anos atrás. Em 1798, Thomas Malthus explicava que as mortes de milhares de pessoas por escassez de comida eram inevitáveis e que só iriam piorar, porque “a população cresce exponencialmente e os meios de subsistência crescem aritmeticamente”. Revoluções científico-tecnológicas o provaram errado. Desde o nascimento da agricultura há aproximadamente 10 mil anos, os seres humanos vêm modificando geneticamente sua comida, selecionando os grãos mais resistentes, mais
O momento atual é o melhor que já vivemos na história da humanidade. Incrível como a ciência, principal instrumento que nos fez chegar até aqui, seja tão incompreendida.
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produtivos e de crescimento mais rápido. provarmos que não há vida fora da TerVerdades absolutas Entre 1961 e 2009, a quantidade de terra ra deveríamos vasculhar todo o Univerintroduzidas no mundo utilizada para agricultura aumentou 12%, so, algo impossível. Para comprovar a hipela religião qualificam enquanto a quantidade de comida produpótese contrária (chamamos isso de hia cultura onde zida aumentou 300%, reduzindo a fome pótese nula), basta achar um extraterrese a miséria a uma pequena fração do que tre. Cientificamente, não podemos dizer afloram as verdades era há apenas 100 anos. que não há vida fora da Terra, mas apenas transitórias da ciência. Às vezes, pode não parecer, mas o moque, procurando sistematicamente, ainda mento atual é o melhor que já vivemos na história da hunão encontramos evidências de que há vida, ou seja, uma manidade! Incrível como a ciência, principal instrumento verdade transitória. Como disse Popper: “Nenhum númeque nos fez chegar até aqui, seja tão incompreendida. Ciênro de observações de cisnes brancos pode comprovar a teocia não é um objetivo, mas um caminho; não é fé absoluria de que todos os cisnes são brancos. Apenas um cisne ta, mas incerteza bem informada, não é crença, mas fato. negro já prova essa teoria errada”. Fato com incertezas incorporadas e não verdade abA diferença entre verificabilidade e refutabilidade soluta. pode parecer um detalhe teórico menor, mas faz comA ciência é uma forma de testar e compreender o munpleta diferença, pois resolve um dos maiores problemas do natural, a partir do desenvolvimento cultural no sécuda interpretação da ciência que é a indução humana, ou lo XVII que valorizou o pensamento crítico, e aprimorada seja, interpretação de resultados de estudos científicos a ao longo do tempo. Envolve o emprego de observação cuipartir de hipóteses que apenas confirmem alguma ideia dadosa, seguida por formulação e testagem rigorosa de hipreconcebida. Parece que essa pandemia trouxe de volta póteses que possam explicar essa observação. Esse procesà superfície as discussões do Círculo de Viena de mais de so deve ser repetido por diferentes investigadores para que um século atrás. Ideias preconcebidas por indução humaos achados sejam confirmados, cada um colocando um na poluíram a discussão sobre eficácia e segurança de mepequeno tijolo no muro do conhecimento, sustentando e dicamentos, estratégias sociais de combate ao vírus e posendo sustentado pelos outros tijolos. Foi a isso que Isaac líticas governamentais. Newton se referiu quando disse “se hoje eu enxergo mais Vejamos o exemplo icônico da hidroxicloroquina nos longe, foi me apoiando no ombro de gigantes”. dois primeiros meses da pandemia. Aqueles que, antecipaUm dos estudiosos mais importantes do método ciendamente, eram contra o uso deste medicamento concluítífico foi Karl Popper (1902-1994), um austríaco que faram que “a hidroxicloroquina tem maior risco de morte zia parte do famoso “Círculo de Viena”. A dominante dispor arritmia cardíaca”, baseados em estudos que não tivecussão da época era sobre a demarcação da ciência, a linha ram tal postulação como hipótese verdadeira ou falsa. Por que separa teorias científicas de outros campos como meoutro lado, aqueles que, antecipadamente, eram a favor do tafísica e mitologia. medicamento concluíram que “a hidroxicloroquina dimiPare agora e pense: Como você definiria o que é ciênnui a mortalidade pela Covid”, baseados em relatos (e não cia? A definição dominante na época usava o critério da estudos) que, da mesma forma, não tiveram tal postulação verificabilidade: as postulações científicas deveriam ser vecomo hipótese verdadeira ou falsa. rificáveis. Por exemplo, a postulação “não há vida extraterHá ainda duas questões imprescindíveis para a interrestre” pode ser verificada, enquanto a postulação “a alma pretação dos achados de um estudo. A primeira diz resé imortal” não pode ser verificada e, portanto, está fora do peito à possibilidade de vieses (erros sistemáticos ou aleaescopo científico. tórios) que potencialmente contaminam os resultados de Popper defendia, no entanto, que a refutabilidade era um estudo, e a segunda, ao grau de incerteza associado ao melhor critério que a verificabilidade. Por este critério, o resultado encontrado. Ambas estão intimamente ligadas, objetivo da experimentação é rejeitar que a hipótese do de forma que, quanto maior o número de vieses de um escientista seja falsa. Este duplo negativo complica a frase, tudo, maior o grau de incerteza nos seus resultados. Exismas é possível simplificá-la com um exemplo. Para comtem diferentes tipos de estudos, cada qual com seu grau
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de possibilidade de vieses e consequente importância, analogamente representada por diferentes tamanhos de tijolos no nosso muro do conhecimento. Mas temos que notar que mesmo os estudos mais robustos ainda apresentam algum grau de incerteza, pois eles corrigem os erros sistemáticos, mas erros aleatórios apenas podem ser estimados. Os estudos com menor possibilidade de vieses devem preferencialmente ser utilizados para a tomada de decisão, mas tais estudos exigem mais tempo, recursos e estrutura. Diante da urgência em meio a uma pandemia, estudos minimamente bem desenhados, ainda que representando pequenos tijolos, podem ser utilizados para pautar decisões, desde que reconhecidas as suas limitações, e apenas até que melhores dados sejam apresentados. Ao contrário da religião, a metodologia científica, de fato, pressupõe que não há verdades absolutas, apenas transitórias. Ao mesmo tempo, e de forma paradoxalmente irônica, é a verdade absoluta da dignidade de todo ser humano, criado igualmente à semelhança de Deus, e também a verdade absoluta da transcendência de Deus, que está fora da natureza e, portanto, não a influencia, que permite a investigação humana quanto ao funcionamento da natureza e a proposição de métodos objetivos para domesticá-la. Essas verdades absolutas introduzidas no mun-
do pela religião qualificam a cultura onde afloram as verdades transitórias da ciência. O aspecto transitório da ciência a fortalece porque não permite acomodação. Diante de um problema real e iminente, devemos, de forma isenta, usar os dados científicos disponíveis para tomar decisões, sabendo que informações futuras podem nos fazer mudar de direção, sem que a decisão inicial tenha sido errada, e sem que isso signifique a falência do método científico. O que se deve evitar a todo custo é a utilização de fragmentos de informação científica desconexos para provar um determinado ponto político. Política é atividade humana, para a qual a ciência é absolutamente cega. Não devemos deixar o mau uso da política sequestrar a ciência. Há um legado fantástico a ser extraído dessa pandemia. Momentos como esse, quando temos a atenção mundial sincronizada, é oportunidade única de evoluirmos como humanidade. Que esse infortúnio de 2020 sirva como ocasião para discutirmos as diferenças entre informação e conhecimento, entre religião e ciência, entre ética e oportunismo, entre política e politicagem. Renata Leborato Guerra e Ilan Gottlieb são médicos pesquisadores e vivem no Rio de Janeiro.
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REAÇÃO INUSITADA Pornografia e Shoá
Jacques Fux O cenário, a memória e a segunda geração
A grande mudança em relação à memória da Shoá ocorreu em 1961 com o julgamento de Adolf Eichmann. As testemunhas, até então caladas, foram convidadas a falar sobre o que passaram.
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om o fim da Segunda Guerra Mundial, uma geração de vítimas transtornadas, traumatizadas e perdidas busca por seus antigos pertences e moradas, mas os encontra em posse de outros donos. Alguns sonharam em imigrar para a Palestina que estava, até então, com as fronteiras fechadas em virtude do domínio inglês. O mundo não conhecia suas histórias, seus traumas e a grande tragédia dos Campos de Extermínio e por isso os questionavam constantemente, perguntando-lhes se eles se deixaram abater e se teriam sido fracos, entregando-se sem lutar. A ignorância, o silêncio e o desconhecimento ainda reinavam nessa Era anterior ao testemunho. A grande mudança em relação à memória da Shoá ocorreu em 1961 com o julgamento de Adolf Eichmann. As testemunhas, até então caladas, foram convidadas a falar sobre o que passaram. Os jovens finalmente ouviram e começaram a acreditar no que de fato tinha acontecido e essas revelações chamaram a atenção da mídia, tanto em Israel, quanto em todo o mundo. Essa catarse coletiva foi unificadora e, a partir daquele momento, Auschwitz passaria a representar um sentimento de união e vínculo judaicos, mesmo diante da enorme diversidade cultural. Essa transformação do sobrevivente, silenciado e mal visto, em um herói que resistiu não foi simples, principalmente para a comunidade de Israel. Os filhos dessa geração, conhecidos como segunda geração de sobreviventes, cresceram com o mito Auschwitz velado. É característica da relação dos sobreviventes com seus filhos uma certa dificuldade de relacionamento, carinho, excesso de zelo e muito silêncio. Vergonha, trauma e limitação para contar o que acon-
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À esq., capa de um livreto de uma série editada em Israel no início dos anos 1960, que eram conhecidos como Stalags, que misturavam erotismo, pornografia e violência durante o nazismo. À dir., capa do livro Daniela, do escritor Ka. Tzetnik, que escrevia um gênero que alguns chamam de ficção-documentário.
teceu constituem paradigmas difíceis de serem enfrentados pelos sobreviventes. Assim, esse silêncio despertou medo, obsessão, invenção e fascínio nessa nova geração que crescia sem muito entender pelo que tinham passado seus pais: O desejo da juventude pela verdade sobre fatos da vida que os adultos parecem sempre esconder, e a simultânea curiosidade sobre o fascínio em relação ao sexo e à violência, transformara-os em um público particularmente receptivo para as representações do que poderia ser chamado “sinceridade explícita”, ou seja, a manipulação consciente ou inconsciente de leitores e telespectadores acerca dos seus próprios medos pelo não dito, pelos seus impulsos e por suas obsessões (Bartov, 1997, p. 47). Permeados por histórias, livros, relatos truncados e muitas dúvidas, a segunda geração atinge a puberdade sem compreender seus pais e Auschwitz. Eichmann então é capturado, o julgamento começa e as testemunhas finalmente passam a contar suas histórias e experiências, já que o objetivo político do julgamento de Eichmann era exatamente esse. Os testemunhos falavam catarticamen-
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te e a sociedade, assim como esses jovens da segunda geração, escutavam e fantasiavam o que tinha acontecido. Portanto, é nesse contexto conturbado, traumatizado por pais silenciados e filhos ansiosos por carinho, por entendimento e por desejo de saber, que se cria esse imaginário pornográfico na sociedade israelense. Inicialmente por meio dos Stalags – livretos de conteúdo pornográfico nazista – e da literatura de Ka. Tzetnik – sobrevivente que escreveu livros com conteúdo similar – e posteriormente pela exploração cinematográfica – nazisploitation – e artística de Boris Lurie, a fantasia pela Shoá caminhou em uma direção distinta e ainda pouco explorada. Esse fenômeno de enfrentar o silêncio e o tabu nazista por meio da utilização de imagens e recursos pornográficos também se estendeu para a filmografia. Seguindo essa mesma corrente de exploração sexual do conteúdo nazista, alguns cineastas italianos, no fim dos anos 1960 e no começo dos anos 1970, produziram filmes sádicos, que recontavam as histórias narradas nos Stalags e nos livros de Ka. Tzetnik.
A pornografia da guerra: Stalags
A série Stalag foi um fenômeno de vendas durante os primeiros anos da década de 1960, sobretudo entre os filhos dos sobreviventes da Shoá que estavam, também, interessados nos testemunhos apresentados durante o julgamento de Eichmann.
Segundo Michel Foucault (1984), a pornografia e o erotismo do Nazismo estariam presentes em todos os lugares, especialmente nos Estados Unidos, na França e Alemanha. No entanto, Foucault se esqueceu de analisar (talvez por desconhecimento) a pornografia e o erotismo encontrados na série de livretos distribuídos em Israel no início dos anos 1960, conhecidos como Stalags. Os livretos chamavam a atenção especialmente pela narração de cenas de tortura, sadismo, dominação e sexo. Esses livretos apresentavam oficiais femininas da SS vestindo uniformes sensuais e explorando sexualmente soldados aliados capturados durante a guerra. Autores sugerem que a literatura foi escrita originalmente em hebraico (Pinchevski; Brand, 2007; Bartov, 1997; Libsker, 2007), porém com uso de anglicismos e personagens com nomes americanos e ingleses com o intuito de atrair maior público. A série Stalag foi um fenômeno de vendas durante os primeiros anos da década de 1960, sobretudo entre os filhos dos sobreviventes da Shoá que estavam, também, interessados nos testemunhos apresentados durante o julgamento de Eichmann. A explicação para essa questão foge um pouco às teorias tradicionais. Foucault argumentou acerca da banalização da imagem nazista, da utilização em toda parte da figura de Hitler, da suástica e de Auschwitz, porém seu estudo foi a posteriori e estaria mais relacionado à nazisplotation. Sontag (2002) discutiu, em seu famoso texto “Fascinating Fascism” (“Fascinante Fascismo”) o fascínio e encanto do cinema nazista, a partir da visão, sobretudo, dos filmes de Leni Riefenstahl. Para ela, a erotização e o fetiche estariam relacionados às relações de poder. O uniforme dos SS, que foi muito utilizado nos Stalags e nos filmes com conteúdo nazista pornográfico, também foi visto por Sontag como um signo erótico de poder e virilidade. Além disso, Sontag relaciona o Fascismo ao sadomasoquismo – enquanto o Fascismo é um teatro, o sadomasoquismo é a participação ativa nesse teatro com conteúdo sexual. Apesar de explicar alguns pontos em relação ao fascínio e ao sadismo dos Stalags, as teorias de Sontag não sustentam as relações culturais e complexas da recém-sociedade israelense.
Já Friedlander apresentou o seu estudo sobre o “kitsch and death” (“cafona e morte”) que seria “uma sobrecarga de símbolos: um cenário barroco: uma evocação de uma atmosfera misteriosa, do mito e da religiosidade que envolvem uma visão da morte anunciada como uma revelação que se abre para o nada – nada além de atrocidade e da noite” (Friedlander, 1993, p. 45). E mostrou que, talvez, a melhor forma de falar sobre essa experiência seria pelo silêncio. Em relação ao sucesso dos Stalags, o silêncio traumático foi um fator importante para entender o problema, mas o conceito de Friedlander não se enquadra diretamente nessa questão. Já Primo Levi (1988) se empenhou na busca pelo entendimento das questões relativas à Shoá e, em seu último livro, apresentou sua polêmica revelação acerca dos “afogados e sobreviventes”, segundo o qual os sobreviventes teriam sido aqueles que receberam algum tipo de privilégio, o que se aproxima um pouco com as teorias controversas de Ka. Tzetnik, fonte para os Stalags. Assim, é necessário ir além dessas teorias consagradas, tentando entender melhor o cenário cultural que permitiu o surgimento e sucesso desse fenômeno. Durante o julgamento de Eichmann, em 1961, começou a circular a primeira versão dos livretos conhecida como Stalag 13. O livreto conta a história de Mike Baden, um piloto inglês que fica preso em um dos Campos nazistas. De repente preso, Mike Baden se vê na mão de um regimento SS composto somente de mulheres, com roupas e corpos provocantes, que o exploram sexualmente. O livreto narra ainda muitas práticas sadomasoquistas e, ao final de tanta exploração e tortura, os prisioneiros conseguiam se libertar e passariam a ser os torturadores e exploradores sexuais da SS. Aqui aparece uma relação importante: as vítimas buscavam e conseguiam vingança, que perpetravam com extrema crueldade. Com o sucesso da primeira tiragem (cerca de 80 mil revistas foram vendidas, de acordo com Pinchevski e Libsker), uma outra série é lançada – Stalag 217, que clamava ser “a verdadeira, honesta e brutal história da vida dos prisioneiros confinados por mulheres sádicas [...] mulheres cuja essência toda é baseada no desejo transbordante pelo
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sangue dos outros, a fim de obter prazer do viril que se revoltava e se vingava dos A sociedade israelense, sádico de sua dor e explorar a masculiperpetradores nazistas. portanto, é criada sob nidade dos prisioneiros totalmente entreSe por um lado aparece a justiça ofia névoa da Shoá e a gues” (Pinchevski; Brand, 2007, p. 389). cial representada pelo Estado, por outro, partir de suas limitações aparece esse desejo velado dos sobrevivenA série continuou até 1965. Os Stalags têm basicamente o mesmo tes e dos que receberam essa postmemory de representação. O enredo. Soldados paraquedistas americapela vingança e pelo prazer de perpetrar testemunho, e todas nos ou britânicos, que, ao atacar os exércia dor aos carrascos nazistas, como narraas suas implicações e tos nazistas, são presos e levados aos Camdo nos Stalags: “Os Stalags podem ser litraumas, produziu esse pos Alemães Permanentes – Stammlager. dos como uma reencenação de mais um fenômeno ainda pouco Nesse local, um grupo de mulheres SS, drama, o do direito de punir. Essa questão com roupas insinuantes, seios avantajados estudado, mas importante manifestou o que foi rejeitado de forma e uniformes sedutores, torturavam e estupara entender a questão consistente no julgamento – que a punipravam esses soldados aliados. ção seria inseparável da economia do prasádica do Nazismo. A geração que se atraiu pelos Stalags zer” (Pinchevski; Brand, 2007, p. 393). encontrava nas torturas, nos abusos e no Um dos Stalags, por exemplo, apresentasadismo os seus próprios pais. Assim, para entender o suva em seu epílogo uma citação do Deuteronômio que juscesso dos Stalags é necessário compreender a questão do tificaria essa busca pela vingança: “A mim pertencem a vinsadomasoquismo (dominação e poder) e sua representação gança e a recompensa” (Deuteronômio, 32:35). nesse contexto conturbado da sociedade israelense. SubO que se encontra nos Stalags é, portanto, mais que versão, silêncio e mistério levaram essa nova geração a se uma questão somente sexual e de violência: é uma quesinteressar por essa prática: “O que aparece através do satão de inversão de ordem e poder. domasoquismo é a subversão, mais que a afirmação de um A sociedade israelense, portanto, é criada sob a névoa poder social codificado. Isto ocorre pela dramatização de da Shoá e a partir de suas limitações de representação. O momentos e situações onde o poder submisso é mais visítestemunho, e todas as suas implicações e traumas, produvel” (Pinchevski; Brand, 2007, p. 393). ziu esse fenômeno ainda pouco estudado, mas importanUma primeira forma de analisar o sadismo é pensar na te para entender a questão sádica do Nazismo. Entretanto, possibilidade da representação de algo impensável ou inuresta estudar ainda uma outra fonte primária dessa quesmano que subverteria a moral (Kerner, 2011). O termo, tão: a literatura de Ka. Tzetnik. criado a partir das experimentações do Marquês de Sade, O prisioneiro – Ka. Tzetnik 135633 – e seu livro além de apresentar um catálogo de perversões e libertinaHouse of Dolls gem, polemiza a questão e “ilustra como o raciocínio estrito sistematizado promove uma desumanização das vítiAntes da chegada e do sucesso dos Stalags, um outro mas, e elimina todo sentimentalismo humano a partir de autor já criava polêmica. Ka. Tzetnik havia publicado em atos de crueldade” (Kerner, 2011, p. 102). 1953 o livro House of Dolls, de forte conteúdo erótico, Em relação à sociedade israelense, o que represenque descrevia um suposto bordel que se encontrava em ta o sadomasoquismo nesses livretos é o questionamenAuschwitz, conhecido como Joy Division, onde os soldato das relações de poder, seja diante do Estado autoritádos nazistas teriam relações sexuais com prisioneiras jurio e poderoso, seja diante dos pais traumatizados e sidias. O autor já havia publicado, em hebraico, outros lilenciados: “Em tais casos, a prática cultural do sadomavros polêmicos e também de forte conteúdo sexual, relasoquismo serve como uma resposta à maneira de lidar tando sua passagem por Auschwitz: Salamandra (1946) com as relações de poder socialmente codificados” (Kere Piepel (1961). ner, 2011, p. 102). Ao ser chamado como testemunha durante o julgaPor meio da erotização e do sadomasoquismo, os Stamento de Eichmann, o verdadeiro nome do pseudônimo lags representavam o imaginário da relação do soldado alia-
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de Ka. Tzetnik foi revelado: ele se chamava Yehiel Dinur e era sobrevivente de Auschwitz. A sua participação no julgamento de Eichmann foi uma das cenas-chave desse penoso processo. O sobrevivente contou sua própria história e revelou ser o escritor Ka. Tzetnik (KZ, abreviação de Konzentrationslager, prisioneiro que tinha o número 135633). Visivelmente transtornado ao testemunhar e relembrar o que chamou das “crônicas de outro planeta”, Dinur desmaiou durante seu testemunho e teve que ser carregado para fora do tribunal. Anos mais tarde, em uma entrevista concedida ao 60 Minutos, o escritor argumentou que o mais pavoroso em Auschwitz, e que de fato reviveu durante aquele momento do seu testemunho, foi compreender que ele próprio (ou todo ser humano) teria sido capaz de fazer o que os nazistas (na figura do temível e banal Eichmann) fizeram: “Eu fiquei com medo de mim mesmo... Eu vi que era capaz de fazer exatamente isso. Eu sou… exatamente como ele. Eichmann está em todos nós” (Libsker, 2007). Ao escrever sob o pseudônimo de Ka. Tzetnik, Dinur queria escrever em nome de todos aqueles que vivenciaram os terríveis acontecimentos de Auschwitz e que não foram
mais que um número nessa grande indústria da morte. Seus livros foram os primeiros a circular em Israel com o tema da Shoá e escritos na nova língua do povo e do Estado de Israel. Diferentemente dos Stalags, os livros de Ka. Tzetnik, apesar de lidos, não foram um grande sucesso de vendas, já que a sociedade ainda se encontrava no momento de silêncio em relação a esse tema. A literatura de Ka. Tzetnik, a meu ver, pode ser vista como uma tentativa de ampliar o campo de ação da literatura de testemunho. Assim como ousou Georges Bataille ao discutir os limites da linguagem, Ka. Tzetnik foi além da desumanização do ser humano, que encontramos nos Campos, para narrar acontecimentos além dos limites da linguagem e do entendimento humano. O autor, ao escrever o que alguns chamam de ficção-documentário, apresenta o indivíduo da forma mais cruel e crua possível, capaz de realizar as coisas mais absurdas e inconcebíveis enquanto seres supostamente racionais. Esses membros da “zona cinzenta” – afogados e sobreviventes – atestaram os limites dos ambientes concentracionais nazistas e da crueldade humana. Além da literatura, Dinur ficou marcado como uma
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importante testemunha no julgamento de Ao violar tabus e tratar da fiança e animosidade, a luta de todos conEichmann, pois o escritor criou, naquele tra todos” (Sofsky, 1997, p. 24). pornografia, Ka. Tzetnik momento, uma concepção de Auschwitz Ka. Tzetnik construiu seus personaestaria tentando atingir como sendo “outro planeta”: “Isso é uma gens de uma forma que ninguém desejava e aumentar os limites crônica de um outro planeta Auschwitz” ver e acreditar ser possível. O ser humano, (Libsker, 2007). Essa questão foi (e ainsim, seria capaz de chegar ao fundo, à dee o alcance da língua e da é) muito discutida, já que não foi em sumanização total, à categoria de Muçuldo testemunho? O não outro planeta que a indústria alemã conmano totalmente entregue. Mas, segundo narrável estaria mais seguiu criar, com tamanha eficiência, essa o autor, o ser humano ainda seria capaz próximo na experiência indústria do extermínio. Giorgio Agamde algo muito pior: perder qualquer capaverbal descrita por meio cidade de discernimento moral, de comben, por exemplo, problematiza a questão ao dizer que ainda vivemos nesse mundo panheirismo e de humanidade. As narda perversão sexual? que produziu, e é capaz de produzir, norações heroicas acerca dessa essência huvamente, Auschwitz: “A matriz escondida mana que ainda seria preservada, mesmo e o nomos de um espaço político no qual ainda estamos vidiante das grandes tragédias e privações, foram refutadas vendo” (Agamben, 1998, p. 166). veementemente pelo polêmico escritor: “De fato, nos liAo violar tabus e tratar da pornografia, Ka. Tzetnik esvros de Ka. Tzetnik, os casos mais extremos de estudo da taria tentando atingir e aumentar os limites e o alcance da existência darwinista são aqueles detentores de função que, língua e do testemunho? O não narrável estaria mais próansiosos para preservar as suas posições, perdem todos os ximo na experiência verbal descrita por meio da perversão restos de empatia e solidariedade e cruelmente atacam cosexual? “Na literatura representativa de Ka. Tzetnik, ele é legas de cela que representam um obstáculo ao seu status” transportado para uma terra selvagem, onde traços nor(Milner, 2008, p. 135). mais humanos que constituiriam os seus determinantes geDinur havia escrito e publicado um livro de poemas néticos de humanidade não têm lugar nenhum” (Milner, antes da Shoá. Após a Shoá, evento que marcou profun2008, p. 135). Discutir os limites do próprio ser humano damente seus escritos, sua vida e a criação de um novo e se ver apenas como um sobrevivente que teve a sorte de personagem – Ka. Tzetnik –, Dinur dizia que seu livro não ser um perpetrador é uma questão crucial e muito disde poemas não tinha mais sentido algum e que deveria cutida na obra de Ka. Tzetnik. ser queimado. Assim, pegou emprestado seu próprio liA fascinação pela imagem pornográfica, pela desumavro na biblioteca e devolveu apenas as cinzas do seu pasnização do ser e pelo sadomasoquismo como forma de desado, das suas crenças e das suas próprias palavras. Resacordo diante do poder, levou os jovens a se interessarem lendo a famosa frase de Adorno – “escrever um poema secretamente por esse tipo de literatura: após Auschwitz seria um ato de barbárie” –, Dinur desKa. Tzetnik apresenta assim a desumanização como uma considerou a própria poesia escrita antes da Shoá já que, redução dos seres humanos e de seus mais íntimos valores a para ele, as palavras antes da Shoá não significavam abnada, a objetos negociáveis no sistema de câmbio do Campo. solutamente nada. A diferença entre o humano e a matéria foi eliminada nesAssim, a literatura de Dinur, ainda pouco estudada, é ta zona cinzenta em que uma política de escassez total leva importante para entender toda a questão do testemunho, à exploração das partes humanas e de seus restos (Milner, dos próprios limites do ser humano e como uma forma de 2008, p. 137). ligação entre essa pornografia sadomasoquista dos Stalags Qualquer tentativa de manter alguma sombra de hue os novos filmes de exploração sadiconazista que seguimanidade e de solidariedade, compaixão, lealdade e amiriam nessa mesma linha. zade é descartada nas obras de Ka. Tzetnik, já que, segunJacques Fux é matemático e escritor, autor de Antiterapias (Scripdo o autor, o “poder absoluto” desumaniza as vítimas: “O tum, 2014), Meshugá: um romance sobre a loucura (José Olympio, Poder Absoluto lança seres humanos a um estado natural, 2016) e Nobel (José Olympio, 2018), entre outros. um universo hobbesiano de roubo e corrupção, descon-
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O INFERNO MORAL DOS JUSTOS Ruth Kelson O nazismo fora constituído principalmente por estes homens banais, que apenas deslizam sobre a superfície dos acontecimentos e se deixam levar adiante. É a sua normalidade que é monstruosa.
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pergunta sobre o Mal acompanha a humanidade desde os seus primórdios e proveio quase que necessariamente das religiões. O assim denominado “O Problema do Mal” foi enunciado da seguinte forma: “Como pode um Deus bom criar um mundo cheio de sofrimento inocente?” A Teodicéia, ou seja, “a justiça de Deus”, termo criado por Leibniz no século XVII, tenta responder esse paradoxo, explicando e justificando Deus diante da existência do mal no mundo. Em 1961, a filósofa judia alemã Hannah Arendt acompanhou em Jerusalém, como repórter da revista The New Yorker, o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, acusado de ser o encarregado de coordenar o transporte dos judeus de toda a Europa para os campos de concentração, aonde seriam exterminados. No livro que escreveu a respeito: Eichmann em Jerusalém, ela introduziu uma nova concepção de Mal, diversa da concepção usual do Mal Radical, que seria uma inata propensão ao Mal e o que denominou de “Banalidade do Mal”. Nesse livro alertou que o pior Mal, o de maior alcance e destrutividade, geralmente não é cometido em condições da monstruosidade patológica do agente, porém, de sua banalidade, do abandono de si mesmo e de sua responsabilidade moral. Durante o julgamento, observou que Eichmann, assim como a totalidade dos nazistas anteriormente julgados, alegou em sua defesa que unicamente cumprira com o seu dever. Que não podia ser responsabilizado por seus atos,
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pois as ordens de Hitler, que sem dúvida executou o melhor que pôde, possuíam força de lei no Terceiro Reich. Para o sistema legal nazista então existente, ele nada fizera de errado. E não se arrependia: “Arrependimento é para criancinhas”. Quando perguntado quanto à sua consciência, respondeu que ela só lhe pesava quando não cumpria o que lhe fora ordenado: embarcar milhões de homens, mulheres e crianças para a morte, com grande aplicação e o mais meticuloso cuidado. Para Hannah Arendt, Eichmann foi um burocrata obediente, o típico agente da “Banalidade do Mal”: alguém que não pensa. Abdicou do pensamento e de seu julgamento moral e anulou-se como pessoa, exercendo a atitude burocrática e corriqueira da simples e irrestrita obediência, na base de pequenas ambições, oportunismo, indiferença moral e um desejo feroz de conformidade a qualquer preço. Apesar da monstruosidade de seus atos, dele não se podia extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca. Ele não era nem pervertido, nem sádico, nem insano, mas terrível e assustadoramente normal. E era normal na medida em que “não era uma exceção dentro do regime
nazista”. Não era movido por nada pior do que o desejo de agradar a seus superiores fazendo bem o seu trabalho, movido principalmente por desejos mesquinhos de sucesso pessoal. Orgulhava-se de exercer a “obediência incondicional” que jurara a Hitler. O nazismo fora constituído principalmente por estes homens banais, que apenas deslizam sobre a superfície dos acontecimentos e se deixam levar adiante. É a sua normalidade que é monstruosa. Disse Arendt: “Os criminosos nazistas renunciaram voluntariamente a todas as qualidades pessoais, como se não restasse ninguém a ser punido ou perdoado. Durante seus julgamentos no pós-guerra, quase todos alegaram não serem os responsáveis pelos crimes e que apenas obedeciam as ordens” de Hitler. A consciência de Eichmann falava com a voz da sociedade respeitável à sua volta. Para os assassinos e seus cúmplices, bastava que tudo acontecesse de acordo com a vontade e a palavra do Führer, às quais foram incapazes de opor seu próprio julgamento. O que significa que o maior mal possível foi cometido por um “Ninguém”, isto é, por um ser humano que se recusava a ser uma pessoa. Para Arendt, ser uma pessoa é
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distinto de ser meramente humano. Falar ria-prima eram seres humanos e o produPerguntou Hannah em personalidade moral é uma redundânto final, a morte. Arendt: “Como estes cia. A Personalidade é o resultado quase Pois foi a comunidade organizada que alemães comuns automático do pleno exercício da capacicoordenou os esforços para implementar foram transformados dade de pensar. o objetivo ordenado por Hitler: a Solução E, no entanto, esse Ninguém era o tíFinal, o genocídio judaico. Diante dele, as nos perpetradores do pico funcionário do Holocausto que, ao igrejas oficiais quase sempre mantiveram extermínio em massa? abdicar de sua liberdade e autonomia, silêncio. Diante da desumanidade orgaQuanto tempo leva uma praticou a pior forma de mal, um mal nizada, todos os departamentos da buropessoa mediana para sem raízes e sem arrependimentos, um cracia estatal, todos os ministérios e todo superar sua repugnância o serviço público cooperaram. mal que um burocrata pode realizar, um fantoche pode realizar, alguém que não O Holocausto foi um sucesso tecnoinata pelo crime?” pensa pode realizar: o mal na forma da lógico e organizacional de uma sociedaBanalidade do Mal. de burocrática preocupada com os procedimentos correEm uma carta à Gershom Scholem ela escreveu: Mitos, as minúcias e a obediência às leis segundo regras mennha opinião agora é que o Mal é apenas extremo e não possui suráveis e impessoais. nem profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele O extermínio em massa dependeu de habilidades e hápode invadir tudo e assolar o mundo inteiro precisamente porbitos que melhor se desenvolvem e medram na atmosfeque se espalha como um fungo na superfície. Essa é a sua bara do escritório, na tediosa rotina burocrática. A burocranalidade. Apenas o Bem tem profundidade e pode ser radical. cia tende a transformar homens em funcionários, meros Para Kant, filósofo alemão nascido no século XVIII, a dentes da engrenagem administrativa, e, assim, a desumacapacidade de distinguir o certo do errado pertence ao donizá-los. Tornados apenas um elo intermediário numa camínio da razão. É a faculdade do pensamento que impedeia de ações, distanciam-se das consequências finais de de o mal. E o faz por uma questão de dignidade humana, seus atos. E o comportamento moral passa a equivaler a de respeito por si próprio. O padrão da verdade para o hoconformidade e obediência social às normas observadas mem emancipado, aquele que “ousa pensar”, deve ser o eu pela maioria. e não o mundo. Ao transgredir este imperativo, a pessoa se Nenhum horror perpetrado pelos tecnocratas alemães contradiz a si mesmo, à sua razão, e por isso se despreza. era inconsistente com a visão consagrada da ciência de que Portanto, a liberdade é o pressuposto para o julgamenos valores são inerentemente subjetivos, de que as ações to moral. Kant definia a liberdade como obediência à Lei não têm valor moral intrínseco e de que a ciência deve ser Moral que um sujeito autônomo dita para si mesmo. A heinstrumental e livre de valores. Não lhe cabe ver a humateronomia significa abdicar desta liberdade ao permitir que nidade dos objetos humanos. O processo tecnológico gaalguém pense ou aja por si. nha autonomia de quaisquer propósitos morais, sendo-lhe Diferente da ordem política legal de determinada codesnecessária qualquer outra justificação além do reconhemunidade que não requer integridade moral, mas apenas cimento de que a tecnologia disponível a tornou possível. cidadãos respeitadores da lei, a ordem moral é obrigatória É o poder que diz o que é certo – e este é o senso comum para todos os homens. E quando lhe é tirada ou quando ele de nossa moderna sociedade racional. O Holocausto foi abdica de sua autodeterminação, da escolha de si próprio, o um morador legítimo da casa da modernidade. homem vira meio. Deixa de ser sujeito, torna-se coisa, obPerguntou Hannah Arendt: “Como estes alemães cojeto destituído de sua humanidade, de sua essência. muns foram transformados nos perpetradores do extermíZigmund Baumann, em seu livro Modernidade e Honio em massa? Quanto tempo leva uma pessoa mediana locausto, mostra como o Holocausto foi um produto legípara superar sua repugnância inata pelo crime?” timo da mentalidade racional da civilização moderna para Os assassinos, na maioria, não eram sádicos ou crimia solução de problemas. Auschwitz teria sido uma extennosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sissão mundana do moderno sistema fabril, em que a matétemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer fí-
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sico com o que faziam. Segundo Arendt, o problema que se apresentava na consecução da “Solução Final” não era tanto como superar a consciência moral dos agentes, mas sim a natural piedade animal que afeta todo homem normal em presença do sofrimento físico. Era recomendado evitar recrutar para os grupos de extermínio ou como guardas dos campos de concentração os mais sádicos ou os mais fanáticos. As iniciativas individuais eram desencorajadas. O esforço era manter toda a “tarefa” num quadro estritamente impessoal, prático e eficiente, preservando a sanidade mental e os padrões morais dos subordinados. A lealdade à sangrenta tarefa devia derivar da lealdade à organização. Instintos inferiores, disfuncionais para a capacidade de agir, eram indesejáveis. Uma multidão de indivíduos vingativos e homicidas não igualaria a eficiência de uma pequena, mas disciplinada, burocracia estritamente coordenada. A disciplina substituía a responsabilidade moral. Negar autoridade à consciência pessoal tornava-se a mais elevada virtude moral. A responsabilidade moral pertencia única e exclusivamente ao chefe, o Führer, e o caráter moral da ação era invisível ou propositalmente encoberto. Burocratas compunham memorandos, redigiam planos, participavam de conferências. Podiam destruir todo
um povo sentados em suas escrivaninhas. As ligações causais entre as suas ações e o assassinato em massa eram difíceis de distinguir. A distância entre as intenções e as realizações práticas era preenchida por uma infinidade de atos insignificantes em que cada um fazia coisas em si mesmas inofensivas. Os dilemas morais saíam de vista e se tornavam cada vez mais raras as oportunidades para um exame cuidadoso e uma opção moral consciente. Esta é também a característica da guerra moderna: torna as vítimas psicologicamente invisíveis através da distância e do uso da tecnologia. Como distinguir o certo do errado independentemente da lei se a maioria do ambiente já prejulgou a questão? Arendt indaga: “Não são apenas os bons que são incomodados pela má consciência, que é rara entre os criminosos reais?” Contra a esmagadora maioria do povo alemão que acreditava em Hitler, havia um número indeterminado de indivíduos isolados, conscientes da catástrofe nacional e moral e que sobreviveram à decadência moral de toda uma nação. Que, sem jamais fraquejar, se opuseram a Hitler. Eles podiam ser encontrados por toda parte, em todos os estratos da sociedade, entre as pessoas simples, assim como entre os educados. Tinham de decidir sobre cada caso quando ele surgia. Diante da impotência de agir, os
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que resistiram, ou pelo menos se abstiveram, foram os únicos capazes de julgar por si mesmos. Para Arendt, exige-se que os seres humanos sejam capazes de diferenciar o certo do errado, mesmo quando tudo o que têm para guiá-los seja apenas o seu próprio juízo, que pode estar inteiramente em conflito com a opinião unânime de todos à sua volta. A responsabilidade é individual. Não existe culpa coletiva ou inocência coletiva. A Moralidade se manifesta na insubordinação face aos princípios socialmente sustentados e numa ação em desafio ao consenso social. Mesmo se condenada pelo grupo, a conduta individual deve ainda assim ser moral. A autoridade e a responsabilidade pelas opções morais repousam na pessoa. A conduta de inspiração moral não pode ser atrelada a nenhum propósito, ela é autônoma, é um ato gratuito. É o não pensar que impede o juízo, bloqueia a capacidade que temos de dizer “isto é certo” ou “isto é errado”. Os resultados do pensar são incertos e não verificáveis. O pensar é como o véu de Penélope: desfaz toda manhã o que tinha acabado na noite anterior. Os diálogos de Sócrates são aporéticos, não produzem definições nem resultados. Provocam as pessoas a pensar,
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sem dar em troca a verdade. A busca de significado dissolve e examina de novo todas as doutrinas e regras já aceitas. O pensamento tem um efeito destrutivo e solapador em todos os critérios estabelecidos, nos valores e nas medições do bem e do mal, nos costumes e nas regras de conduta. Ficam somente perplexidades. É o diálogo socrático entre eu e mim que leva os homens a absterem-se de fazer o mal. Disse Sócrates: “É melhor estar em desacordo com o mundo todo do que estar em desacordo comigo mesmo”. Preciso deste acordo, pois falo e vivo comigo mesmo. O eu é a única pessoa de quem não posso me separar, com quem estou fundido. Para Arendt, o horror inexprimível do Nazismo teria nascido da autonegação do homem, da abdicação de sua responsabilidade como pessoa, da renúncia à sua autonomia, abandonada nas mãos do primeiro louco que se apresentou. Os homens, isolados uns dos outros, o Um das sociedades totalitárias e da sociedade de consumo é realmente um Nenhum, a massa, o indiferenciado, o que aponta a morte da individualidade, apesar da retórica extremamente individualista do mundo contemporâneo. Para Sócrates, somente as coisas merecedoras de amor podem ser pensadas: a sabedoria, a beleza, a justiça, etc. A
feiúra e o mal aparecem como deficiênPara Derrida, a abominação ao acaso Para Arendt, o horror cias, falta, não têm raízes próprias, neinexprimível do Nazismo e à contingência motivou a longa marcha nhuma essência que o pensamento posda humanidade para uma ordem perfeita teria nascido da sa apreender. O Mal consiste em ausêne imutável, para a norma arrogante do deautonegação do homem, terminismo e da transparência cognitiva cia, privação, negação, em algo que não é. Apenas as pessoas investidas de Eros, desdo mundo. Necessitamos escapar do senda abdicação de sua se amor desejoso de sabedoria, beleza e tido unívoco e restaurar o valor do inderesponsabilidade como justiça são capazes de pensamento. pessoa, da renúncia à sua terminado em sua justa condição de base É o Bem que é radical, porque tem raíde todo ser. Expor a impostura das tentaautonomia, abandonada zes, profundidade, o que equivale a dizer tivas de eliminá-lo de todo. nas mãos do primeiro nuances, contradições, luzes e sombras. Nos totalitarismos nazistas e stalinistas As ideologias que alimentaram a horrenlouco que se apresentou. só existiam certezas, determinismos, leis da maldade dos totalitarismos, achatando da natureza ou da história. Atualmente o a realidade em um rígido determinismo, eram totalmente bastão da autoridade está investido nas mãos da ciência, banais e superficiais. que se diz a detentora da última palavra no que diz respeiArendt constatou que Eichmann não pensava, ou seja, to à verdade. O que faremos se a ciência determinar o dede que havia abdicado de sua autonomia em favor da obesaparecimento de pedaços inteiros da natureza ou da hudiência a Hitler. Ele concedeu a Hitler o poder de pensar manidade? O que faremos se ela nos der o modelo inconpor si. Este é o comportamento típico da “Servidão Votestável de como a natureza deveria ter sido feita e arroluntária”, que alivia o peso das massas de ser um alguém. gantemente empreender esta engenharia reparadora? Ao Tornando-se um Ninguém, ele abdicou de si mesmo, e se tentar possuir e domar o inabarcável, nós nos empobrecetornou com isto agente deste Mal Banal, um Mal que não mos terrivelmente. se responsabiliza por si mesmo. Para Zigmund Baumann, as únicas forças capazes de Para o judaísmo, os 10 mandamentos são impositiconter e isolar o destrutivo potencial genocida da modervos, são referências fixas e indiscutíveis. Porém, mesmo a nidade são o pluralismo, que devolve ao indivíduo a resTorá, considerada sagrada, é aberta a infinitas interpretaponsabilidade moral pelas suas ações, e a ambiguidade, ções, como se vê no Talmud. Faz parte da tradição judaique a mentalidade moderna acha tão difícil de tolerar. Em ca afirmar que quanto mais santo, quanto mais elevado é Modernidade e Ambivalência ele cita Hans Jonas: “... o hoo sábio, o Tsadik, mais ele se sente responsável pelas conmem autêntico está sempre lá e esteve lá durante toda a histósequências de suas ações e por tudo o que acontece à sua ria conhecida, nas suas alturas e profundezas, na sua glória e volta. Ele é atormentado, vive um inferno moral, pois sua em seu tormento, na sua justiça e culpa – em suma, em toda consciência é mais alargada e assim também sua autoexia sua ambiguidade, que é inseparável da sua humanidade”. gência. Ele não tem “um outro” em quem jogar o peso de Ruth Kelson, médica, fez mestrado em Ciências da Religião na suas responsabilidades. Não tem um Führer que seja sePUC-SP em 2011 com o tema da Banalidade do Mal de Hannah nhor de sua vontade. Ele se indaga constantemente: está Arendt. Trabalho apresentado no Seminário NEMES da PUC-SP certo o que fiz? É justo? em 28/11/2014. Para Zigmund Baumann, Deus deu aos homens através de Moisés um texto para interpretar e não uma coleBibliografia ção de proposições definidas. O processo de interpretação é interminável, jamais pode acabar, nunca chegará ao fim. Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, Companhia das Letras, 1999. A dádiva de Deus para conosco foi a da ambivalência e a Zigmund Baumann, Modernidade e Holocausto, Jorge Zahar Editora, capacidade de viver com ela. 1998. Susan Neiman considera que a integridade requer esta Zigmund Baumann, Modernidade e Ambivalência, Jorge Zahar Editora, 1999. afirmação da dissonância e do conflito. Significa reconhecer Susan Neiman, O Mal no Pensamento Moderno, Difel, 2003. que nunca estamos metafisicamente à vontade no mundo.
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DOIS POVOS: DOIS ESTADOS? Vittorio Corinaldi O povo judeu tem muito trabalho a fazer em seu próprio seio: se libertar das amarras de um obsoleto judaísmo ortodoxo, retornar à sua vocação de justiça e liberdade, reviver a ligação vital Israel-Diáspora num diálogo de linguagem atualizada, tolerante, realista. E Israel terá que negar a validade da atual subcultura política, ignorante das bases éticas que inspiraram os líderes do renascimento nacional e do almejado Estado.
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ois Povos. Dois Estados: nestas palavras se sintetiza em essência a solução para o conflito de mais de um século entre judeus e árabes no disputado território de Israel/Palestina. O que para muitos parece um axioma indiscutível, por ser a opção mais verossímil dentre as possíveis vias de saída do conflito, pode, porém, ser analisado por ângulos diversos, e segundo critérios que variaram em épocas diferentes e em condições que passaram por transformações de ambos os lados. O Sionismo, que se afirmou como um movimento de relevância política no panorama mundial a partir da ação visionária e ao mesmo tempo prática de Theodor Herzl, surgiu numa época em que em várias partes da Europa em meados do século XIX se formavam novas nações na onda de guerras e movimentos de unificação de pequenos estados e fragmentos de territórios que compunham impérios e monarquias já não condizentes com os acontecimentos históricos num mundo em crescente industrialização e mudança. Esse fenômeno, caracterizado por um acentuado espírito de entusiasmo patriótico e nacionalista, se manifestou por exemplo na formação da moderna Alemanha ao redor da Prússia sob a liderança de Bismarck, e no “Risorgimento” italiano encabeçado por Cavour e Mazzini, e que se revestiu também de aspirações de liberalismo social. À diferença, porém, daqueles, o movimento Sionista não contava com a existente base territorial que se incorporou à expressão concreta das reivindicações daqueles povos. E foi buscá-la na ressurreição da memória ideal do país de Sion.
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Pouca atenção podia chamar então a existência de uma depauperada população árabe na remota província otomana da Palestina. Mesmo assim, desde aqueles inícios houve vozes que se pronunciaram em favor do estabelecimento de um estado binacional, pressentindo o contingente de atrito que viria a se criar com a crescente imigração judaica e as inevitáveis contradições éticas que se seguiram. Figuras ilustres como Martin Buber ou Gershon Sholem se contam entre estas. As condições objetivas que se criaram ao redor deste assunto no decorrer do século XX provêm de vários fatores: *O aparecimento na região das novas potências coloniais (Grã-Bretanha e França, cujas políticas após a queda do Império Otomano foram sempre de defesa de seus interesses, mas com visível preferência pela causa árabe, que tinha atrás de si toda a massa dos povos do Oriente Médio e seu potencial econômico. As raras exceções a esta regra, como a Declaração Balfour, não contradizem a tendência geral). *As duas guerras mundiais, que trouxeram abalos à estrutura geopolítica da região. *O Holocausto do povo judeu, o trauma profundo, que deu ao movimento de redenção nacional um caráter de trágica urgência. *A criação do Estado de Israel, que foi o coroamento de um esforço heroico de salvação, sobrevivência e construção num irrepetível momento histórico. *A hostilidade dos países árabes naquele momento e por muitos anos a seguir, que conferiu a esse esforço legitimidade internacional e consenso solidário no mundo judaico. Todos estes fatores fizeram calar qualquer discurso de coexistência. Ademais, os sentimentos nacionalistas judaicos ganharam força depois da vitória militar da Guerra dos Seis Dias (1967), e abriram o campo para ideais messiânicos da “Grande Israel” e o movimento dos assentamentos na Cisjordânia. Este, iniciado por um inadvertido consentimento do Movimento Trabalhista, recebeu ilimitado fomento com a subida ao poder da direita do Likud, chegando à realidade de hoje, que é de uma presença difusa da colonização judaica em pleno meio de densa população árabe. Seja qual for a fórmula a que se queira chegar para responder aos desejos das duas partes, é evidente que tal presença só pode criar obstáculos para o entendimento. Apesar das repetidas declarações em favor da fórmu-
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la dos dois Estados para os dois povos (a mais lembrada das quais é a famosa afirmação feita anos atrás em conferência na Universidade Religiosa Bar-Ilan), Netanyahu e o Likud nunca tomaram qualquer iniciativa nesse sentido, e vêm jogando a responsabilidade pela prolongada interrupção de negociações sobre a Autoridade Palestina, com o fabricado argumento da recusa desta em reconhecer Israel como Estado judeu: um típico recurso da direita sionista, que desde os tempos do Revisionismo e seu líder Jabotinsky põe mais peso sobre afirmações declarativas do que sobre a ação pragmática: pois que importância prática teria um tal proclamado reconhecimento (que, de qualquer modo, o lado palestino teria dificuldade em externar) quando a realidade do Estado judaico é viva e funcional, e não necessita de frases retóricas para ser sancionada? E mesmo sabendo que o lado árabe nunca primou por uma equilibrada interpretação das circunstâncias de momento político e não deixou de ter sua parte na obstrução das negociações, o impasse vem servir os verdadeiros interesses da direita, na qual o ramo dos partidários da inspiração divina para o assentamento na Terra Prometida exerce uma forte pressão sobre o Likud e o governo para impedir qualquer medida em direção a um Estado palestino. Ele é alimentado pelo imprevisível comportamento do presidente americano Trump, e pelo apoio dos crentes evangelistas, que moldam sua atitude política segundo o inflexível ditame missionário de sua leitura da Bíblia. A posição unilateral de Trump encontra naturalmente plena aprovação de seu amigo Netanyahu: que governo israelense iria se opor à transferência da embaixada americana para Jerusalém, desde sempre a capital do Estado em que nenhum país quis até agora estabelecer sua representação? Por que iria se opor à anexação jurídica e prática dos assentamentos e do solo usurpado sobre o qual se erguem, se os Estados Unidos a apoiam – ora velada, ora abertamente, em conformidade com momentâneas considerações eleitorais? Por que recusar um projeto decididamente tendencioso como o “Deal” proposto pela administração americana, redigido por conselheiros em boa parte judeus refratários à presença de uma consistente população árabe? Por muito tempo, o lado árabe não cooperou para realmente levar avante qualquer projeto de solução. Depois da assinatura do acordo de Oslo em cerimônia solene, Arafat não se apressou em transformar seus termos em atos de prática aplicação – ora se entrincheirando na questão dos
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refugiados, ora se sujeitando à intransigência de grupos islâmicos radicais, ora contemporizando em passos de criação de confiança mútua. Com isto, ao mesmo tempo em que os assentamentos se reforçavam no agarramento ao solo palestino, tomava vulto a ideologia fanático-religiosa pregada por rabinos militantes de um fascismo clerical que, com sua retórica de incitação, foi capaz de conduzir ao inimaginável assassinato de Rabin. Agora, a divisão de mandatos na Knesset, obtida depois de três turnos de eleições e da mais inexplicável reviravolta do partido “Azul e Branco” sob pretexto da emergência pela “Corona”, denota uma clara maioria para a direita, e um clamoroso enfraquecimento da esquerda. Esta mantém um ínfimo potencial de influência apenas graças ao bom resultado obtido pela Lista Árabe Unida. A este propósito, convém observar o que se passa entre os árabes de Israel. Sua trajetória na sociedade israelense apresenta um balanço de integração e desenvolvimento econômico. Em certas profissões, como a Medicina e a Farmacologia, sua posição é de destaque e essencial dentro do esquema nacional de saúde. O mesmo pode-se notar em vários outros setores. Esta tendência é paradoxal se considerarmos a longa linha de discriminação e limitações a que vêm sendo submetidos desde a “Autoridade Militar” (“Memshal Tsvaí”) dos
primeiros anos da independência (abolida pelo primeiro ministro Levy Eshkol no período de seu exercício). A incitação assume proporções preocupantes nos anos de poder do Likud, e obteve sua máxima expressão na inútil e desnecessária “Lei da Nacionalidade” recentemente aprovada. Foi o que levou à fusão dos numerosos pequenos partidos árabes, que pleiteavam – cada um com seu determinado acento – a representação daquela minoria. Mas levou também a um surto de simpatia de uma parte do eleitorado judeu, descontente com a crescente limitação das liberdades democráticas e a ofensiva contra o poder judiciário. Uma colaboração árabe-judaica que nascesse de um teórico partido conjunto poderia sugerir um modelo para uma solução de convivência. Mas que perspectivas podem realmente se ver para a almejada implantação dos dois Estados? Em base à referida situação eleitoral e à persistência do endereço de direita da maioria do público israelense, o Estado palestino não tem probabilidade de surgir num futuro visível. Por outro lado, não se pode deixar de pesar uma série de novas considerações, que se fazem necessárias sob um prisma global. O próprio conceito de nação está hoje sujeito a dúvidas e contestações devido à mudança de realidades – uma das quais, e não a desprezível dentre elas, é a expansão da
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atual epidemia de “Corona”: esta não respeita fronteiras, nem diferenças raciais, sociais ou nacionais. Os efeitos econômicos e sociológicos que se anunciam para os anos a vir afastam para um grau de surrealismo fantasioso aspirações messiânicas e ilusões de grandeza ou superioridade como aquela propagada pelos rabinos e seus discípulos das “yeshivot” do Sionismo religioso radical. O quadro que se descortina é o de uma agravada continuação da ocupação militar, da usurpação de propriedade, da limitação brutal de movimento dos cidadãos, do tratamento cada vez mais violento e indiscriminado na busca de “terroristas” – classificação que abrange todos aqueles que protestam (às vezes em condições de desespero) contra a situação intolerável de seu povo. Esta é a visão que a direita cultiva de um Estado binacional. O único veículo de protesto agora acessível é o Partido Árabe Unido. Se ele se demonstrar capaz de patrocinar uma coexistência com a maioria judaica de Israel, pode-se sonhar com a paralela imagem de uma coexistência da minoria judaica no Estado palestino: numa atmosfera de respeito mútuo, cada um dos lados poderá manter seu legado cultural e sua identidade. A materialização deste sonho poderá se chamar “Estado binacional” ou “Dois estados para dois povos”, em função do detalhado caráter
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que venha a assumir o almejado acordo. E poderá evoluir para uma fórmula definitiva que somente uma nova geração saberá enunciar, depois de um período de controlada experiência. Até que esta aparentemente utópica imagem se concretize, o povo judeu tem muito trabalho a fazer em seu próprio seio: se libertar das amarras de um obsoleto judaísmo ortodoxo, retornar à sua vocação de justiça e liberdade, reviver a ligação vital Israel-Diáspora num diálogo de linguagem atualizada, tolerante, realista. E Israel terá que se desfazer de um governo corrupto, nocivo, repleto de personalidades medíocres, porta-vozes de interesses setoriais ou individuais que formam sua plataforma. Terá que negar a validade da atual subcultura política, ignorante das bases éticas que inspiraram os líderes do renascimento nacional e do almejado Estado: o Estado que agora, há 72 anos de sua proclamação, é solicitado a pesar com consciência e honestidade a justificativa de sua existência. Vittorio Corinaldi é arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-SP), vive em Israel desde 1956. Foi membro do Kibutz Broch Chail e atuou em diversas funções ligadas à arquitetura, ao planejamento e à organização dentro do movimento kibutziano.
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A CABALA E O MINISTERIO DEL TIEMPO
Juliano Klevanskis
O
s assinantes da Netflix, provedora global de filmes e séries de televisão, que devotamente seguem a série espanhola de ficção histórica El Ministerio del Tiempo veem-se diante de um inusitado enredo: o ministério é uma instituição governamental secreta que se reporta diretamente ao primeiro-ministro espanhol e suas patrulhas vigiam as portas do tempo para que a história não mude.1 No quarto episódio da primeira temporada, intitulado “Una negociación a tiempo”, a série se edifica sobre uma tradição rabínica, designada pelo termo Cabala. Um dos protagonistas do episódio é um fictício cabalista espanhol. O episódio mostra que o Ministério do Tempo foi estabelecido em 1491 pela rainha Isabel I (apelidada de “Isabel, a Católica”) depois de obter o Libro de las Puertas diretamente do Rabino Abraham Levi em troca de proteção para ele e sua família contra a Inquisição. Mas o inquisidor Tomás de Torquemada o condena a morte. O advogado da família do rabino, no tempo presente, encontra documentos que provam que a rainha nada faz para protegê-lo e exige uma alta remuneração ao ministério em troca de silêncio. Assim, três agentes do ministério – os personagens Amelia Folch, Julián Martínez e Alonso de Entrerríos – são enviados a 1491 para salvar Levi. A série segue as façanhas das patrulhas do ministério, que lida com incidentes causados por viagens no tempo. Alguns dos episódios, que mesclam história real e fictícia, remetem-nos ao período de ouro do misticismo judaico. Desvencilhando-nos da ficção, Gershom Scholem, filólogo e historiador da mística judaica, define o conceito de Cabala:
Em alguns episódios de Ministerio del Tiempo é possível refletir sobre imagens a partir da mescla de dois aspectos que Jorge Luis Borges considerou essenciais no tratamento da literatura fantástica: a viagem no tempo e o labirinto.
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“Este movimento, com cujas etapas e A série aborda a história shom Scholem, creditam ter sido “escrito tendências principais precisaremos famiprovavelmente entre o século III e o IV”.3 espanhola e assuntos É possível dividir o seriado em dois tiliarizar-nos, tem se desenvolvido desde caros à história judaica: pos de episódios. O primeiro tipo apreos tempos talmúdicos até os dias de hoje; Cabala, Inquisição, senta uma sequência de temas ligados a seu desenvolvimento foi ininterrupassuntos judaicos, como o nazismo e a to, embora de forma alguma uniforme, Shoá. O uso destes cabala. Nesses, o fio narrativo é a vida e e muitas vezes dramático. Vai do Rabi temas em uma série Akiva, que, segundo o Talmud, deixou televisiva talvez banalize principalmente a obra de Abraham Levi, sobre a qual se baseiam as viagens no temo “Paraíso” da especulação mística são e assuntos mais profundos po, e que se encontra dentro do universo salvo, tal como nele penetrara – o que do que a TV consegue da Cabala. No restante do seriado, há dinão se pode, na verdade, dizer de todos versos temas caros à história da Espanha, os cabalistas –, ao falecido Rabi Abraham lidar, mas, ao mesmo seus personagens e fatos importantes. Isaac Kook, o líder religioso da comunitempo, populariza-os. No terceiro episódio da primeira temdade judaica na Palestina e um esplêndiporada, intitulado “Cómo se reescribe el do espécime de místico judeu”.2 Assim, os criadores do seriado inserem a obra Libro de tiempo”, aparece o tema Nazismo. Heinrich Himmler, um las Puertas, de Abraham Levi, no rol de manuscritos mísdos principais líderes do regime nazista, é informado da ticos judaicos. Vale observar que aqui os criadores do seexistência de uma porta no Mosteiro de Montserrat e viariado poderiam estar remontando a importantes rabinos ja até lá. Ao mesmo tempo, há o encontro entre Adolf Hicabalistas espanhóis, dentre eles Avraham Abuláfia, autor tler e o ditador Francisco Franco em Hendaye. O episódio de “Livro do Justo”, “A Vida do Mundo”, “Luz do Intelecalerta para o perigo de os nazistas dominarem o mundo e to”, “Livro do Sinal”, “Palavras de Beleza”, obras do sécureescreverem a história. A patrulha composta por Amelia, lo XIII, e autor de comentários ao “Guia dos Perplexos” e Julián e Alonso é incumbida de evitar isso, enquanto Erao “Livro da Formação”. Esta última é uma das obras prinesto Jiménez e Irene Larra vão para Hendaye, onde Himordiais da Cabala, atribuída ao patriarca Avraham (cerca tler e Franco negociam a participação da Espanha na Sede 1800-1600 AEC), embora muitos, dentre os quais Gergunda Guerra Mundial.
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No segundo episódio da terceira temporada, intitulado “Tiempo de espías”, reaparece o tema Nazismo. Os agentes viajam para 1943 para garantir o sucesso da “Operação Mincemeat”. O enredo vai fazer com que Hitler defenda a Grécia, ao invés da Sicília, fato crucial para a derrota nazista. Os personagens Ernesto e Lola são capturados e torturados pelos nazistas, depois enviados a um pelotão de fuzilamento. O cenário é o campo de concentração de Gurs, nos Pireneus franceses, construído em 1939 para reunir exilados espanhóis do regime de Franco e que acabou como prisão para judeus presos pelos alemães. Este é o campo de concentração no qual a filósofa Hannah Arendt ficou presa, juntamente com seu marido, Heinrich Blüche, quando a França foi invadida pela Alemanha, na Segunda Guerra Mundial.4 No nono episódio da terceira temporada, denominado “El cisma del tiempo”, os Anjos Exterminadores – espécie de conspiração do mal – mantêm o rabino Abraham Levi como refém. Levi escapa ao ano de 1417, aparecendo no castelo de Peñiscola, onde se reúne com o Papa Bento XIII. Os agentes do tempo trabalham para libertar
Levi e Bento com a ajuda dos últimos Cavaleiros Templários de 1317. Há muitos caminhos e épocas que se cruzam, tal qual um labirinto. Em alguns episódios de Ministerio del Tiempo é possível refletir sobre imagens contidas na narrativa (o misticismo e diferentes espaços judaicos) a partir da mescla de dois aspectos que o escritor argentino Jorge Luis Borges considerou essenciais no tratamento da literatura fantástica: a viagem no tempo e o labirinto. A viagem no tempo linear que conhecemos é uma marca da narrativa de Borges. Os contos “A casa de Asterión”, “Abenjacán, o Bokari, morto em seu labirinto” e “Os dois reis e os dois labirintos” conduzem o leitor por diversos labirintos.5 E este tempo labiríntico remete à definição, de Ricardo Foster, da identidade do judeu forçado à conversão ao cristianismo, pela mesma Inquisição que vitima o personagem Avraham Levi: “O marrano é aquilo que não representa e, ao mesmo tempo, representa aquilo que não é. Na impossível resolução desse conflito que cinde sua vida, esse ex-judeu cristianizado, que secretamente retorna às suas origens, esboça as linhas labirín-
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ticas de uma identidade cujo ponto de partida é o estalido, a fragmentação em mil pedaços de uma biografia que jamais poderá se reconstituir, precisamente nesse lugar onde mais se insiste na fidelidade à lei de Moisés”.6 Os protagonistas da série são agentes de um ministério cuja missão é a manutenção da história espanhola, algo de certa forma análogo à tradição cabalista que, apesar das adversidades históricas, luta pela sobrevivência de suas obras, ao longo de uma história marcada por guerras e censuras, obras que perpetuarão pontos de vista, marcas, cicatrizes e monumentos. A série aborda principalmente a história espanhola, mas também assuntos caros à história judaica: Cabala, Inquisição, Shoá. O uso destes temas dentro de uma série televisiva contemporânea talvez banalize assuntos mais profundos do que a TV consegue lidar, mas, ao mesmo tempo, populariza-os. Quanto à Cabala, a atual busca entre judeus e não judeus pela tradição mística judaica é um fato que não pode ser negado. Uma possível razão para explicações espirituais mais profundas é a tentativa de entender grandes tragédias como a Galut, Inquisição, os pogroms e a Shoá. Mas essa busca deve ser cuidadosamente direcionada. Infelizmente, há um amplo mercado para todo tipo de “produto místico”. O termo Cabala designa “tradição” ou “recebimento”: quem se dedica ao seu estudo é conhecido como Cabalista ou mekubal. A Cabala é a interpretação mística da Torá e foi aos poucos revelada por grandes sábios como Arizal (Rabi Yitschak
Juliano Klevanskis é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários (PósLit) da Faculdade de Letras (Fale) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), bolsista da Capes e pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG. É membro da Comissão Cultural do Instituto Histórico Israelita Mineiro (IHIM), professor de hebraico e escritor. Publicou a coletânea de contos Novos fármacos & outras histórias (Scriptum, 2019).
Referências Notas 1 A série Ministerio del Tiempo foi exibida na Televisión Española (TVE) em 201516 e na Netflix a partir de 2017. 2 Scholem, A mística judaica, p. 193. 3 Scholem, A mística judaica, p. 76. 4 Stolcke, Pluralizar o universal, p. 93-112. 5 Nascimento, Borges e outros rabinos, p. 154. 6 Foster, A ficção marrana: uma antecipação das estéticas pós-modernas, p. 10-11.
Foster, Ricardo. A ficção Marrana: uma antecipação das estéticas pós-modernas. Trad. Lyslei Nascimento; Miriam Volpe. Dentzien. Belo Horizonte: UFMG, 2006. Nascimento, Lyslei. Borges e outros rabinos. Belo Horizonte: EDUFMG, 2009. Scholem, Gershom. A mística judaica. Trad. Dora Ruhman [et al.]. São Paulo, Perspectiva: 1972. Stolcke, Verena. “Pluralizar o universal: guerra e paz na obra de Hannah Arendt”. Mana, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 93-112, Apr. 2002.
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Luria), Maharal de Praga (Rabi Yehuda Loewe), RaMHaL (Rabi Moshe Chaim Luzzatto), Baal Shem Tov (Rabi Yisrael ben Eliezer), entre outros de abençoada memória.
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INDO AO RESGATE DO FILHO REBELDE E DESOBEDIENTE Pablo Schejtman Exigência
Ao mesmo tempo em que reconhecemos na Torá uma fonte inesgotável de significados, entendemos que estes podem ser atualizados.
A
ordem dada no livro de Devarim / Deuteronômio é direta, e o procedimento a ser seguido com um filho rebelde e desobediente é detalhado nessa mesma passagem. Se, mesmo depois de ter sido punido, ele continuar a desobedecer, seus pais o apresentarão perante a cidade e o deixarão à mercê dos anciãos. Eles deverão declarar publicamente seu mau comportamento e seus vícios. Por fim, ele será apedrejado até a morte. A sequência descrita envolve reconhecer o problema dentro de casa e aplicar um corretivo. Caso não haja mudanças na conduta, deve-se recorrer ao espaço comunitário e se submeter à sentença da autoridade. A cessão definitiva do destino do próprio filho ao beit din (tribunal), por si só, já desperta desconforto no leitor. Entretanto, a execução do garoto por apedrejamento recebe nossa imediata reprovação. Ao mesmo tempo em que reconhecemos na Torá uma fonte inesgotável de significados, entendemos que estes podem ser atualizados. O caso em questão – o episódio do filho sorer u’morê (Devarim / Deuteronômio 21: 18-21) – demanda de nós um esforço de ressignificação.
Desequilíbrio Se um chefe de família tiver um filho rebelde e desobediente, que não der ouvidos ao seu pai ou à sua mãe e não lhes obedecer mesmo depois que eles o disciplinem.1
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Um filho rebelde e desobediente. Mas quem é esse filho? Em princípio, ele é um insurgente “contra Deus e contra seus pais (se estes forem pessoas tementes a Deus)” (Ibn Ezra sobre Deuteronômio 21:18:21). Sorer u’morê está imerso em uma longa história de degradação da autoridade parental, a tal ponto que “sua contumácia removeu qualquer esperança de que seu estilo de vida viesse a se modificar” (Sforno sobre Deuteronômio 21:18:21). Parece ser alguém cuja rebeldia vai além do escopo familiar. Depois que eles o disciplinem. Nossos Sábios definiram um protocolo estrito para essa punição. “Eles deverão discipliná-lo: ele será advertido diante de duas [testemunhas] e será açoitado diante de três; e se, mesmo depois de ter sido açoitado, ele não lhes der ouvidos, deverão obrigá-lo a se apresentar perante o beit din” (Sanhedrin 71a; Sifrei Devarim 218:11).
Denúncia Seu pai e sua mãe o pegarão e o levarão para fora até os an ciãos da sua cidade, no local público de sua comunidade. Seu pai e sua mãe o pegarão. Observe que, em cada estágio, quer da punição no âmbito privado (Dt. 21:18), quer da exposição pública perante a cidade (Ibid. 21:19) – ou, como veremos a continuação, o ato declaratório (Ibid. 21:20) – a Torá conjuga a atividade dos pais na terceira pessoa do plural. Durante os três primeiros versos de uma sequência de quatro, eles – o pai e a mãe, como uma unidade – serão sempre os tomadores de decisão e os agentes. Além disso, o filho “não se torna um ‘sorer u’morê’, a menos que ambos assim o determinarem (que assim o desejarem)”. (Midrash Agadá Deut., 21:18:2) O levarão. Essas duas pessoas, novamente qualificadas em 21:19, como seu pai e sua mãe, não o conduzem com gentileza, senão que preferem tomá-lo e levá-lo [retirá-lo] de casa. Além disso, aquele que foi retirado sequer é um filho deles, no momento em que o texto faz referência a “ele, isso”, por meio de um otô, que, apesar de estar sintaticamente correto, é um termo impreciso. Embora sua afiliação natural tenha sido confirmada, entre o primeiro e o segundo passuk, o ‘ben sorer u’morê’ foi objetificado, transformado em uma pessoa absolutamente incapaz, que não poderá recuperar a capacidade de tomar decisões sobre si mesmo.
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Nesse aspecto, a descrição bíblica coincide com as prescrições clínicas atuais nos casos de pessoas que padecem de compulsão e dependência química. Em ambos os casos, o sujeito indicado deixa de ser reconhecido por seus parentes, tornando-se um estranho no ninho, alguém ou algo que desperta em sua família o sentimento do sinistro (Freud, 1919). É comum encontrar em tais famílias o desejo de expulsá-lo, de se livrar dele. Se agora voltarmos à situação descrita no primeiro versículo da série (surdez voluntária, desobediência e punição inócua), esse ‘otô’ pode ser entendido de maneira mais ampla e sistêmica. O privado tornado público representa um cenário familiar completo (outro otô), isso, no qual estão envolvidos não apenas um, mas todos os membros da família. Segundo o passuk, esse drama íntimo, essa ferida interior aberta ao mundo, é dirigida a dois públicos. Um deles é o contexto comunitário, aparentemente informal: minha rua, a esquina, o bairro – aquele espaço comum, próximo e significativo. No local público de sua comunidade. Nada aqui acontece em segredo. Ao contrário, a Torá prescreve uma exibição de desordem familiar e da insuficiência de ambos os pais diante dos olhos da vizinhança. Essa vem a ser uma primeira esfera de exposição, talvez antecipadora do apedrejamento coletivo. A segunda, os anciãos da sua cidade.2
Cessão Eles dirão aos anciãos da sua cidade: “Este nosso filho é desleal e desobediente; ele não nos dá ouvidos. É um glu tão e um beberrão”. Esta declaração dá permissão ao apedrejamento. E dirão ... não nos dá ouvidos. Reconhecemos em nossos Sábios um esforço para manter os regulamentos, limitando ao extremo a sua aplicabilidade. Em Sifrei Devarim 20:4, por exemplo: “Se um deles (pai ou mãe) tivesse uma mão decepada, ou fosse coxo, mudo, surdo ou cego, [isto] faria com que [o filho] não se tornasse um soror u’morê. Está escrito ‘e eles o tomarão’ e isto não seria possível se tivesse a mão decepada; ‘e eles o levarão’, o que não seria possível se fossem coxos; ‘e dirão’, e não se fossem mudos; ‘este, nosso filho’, e tampouco se fossem cegos, ‘não dá ou-
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vidos à nossa voz’, e não se fossem surdos outra maneira, será digno da pena de morBeneinu reconhece o (nesse caso, não poderiam ouvir sua recusa pertencimento irredutível te”. (Sifrei Devarim 220: 3; Sanedrin 72a) em prestar atenção ao que dizem). Ele é adO caráter preventivo do apedrejamene a responsabilidade vertido diante de três (juízes) e são aplicato é respaldado pelo Midrash. Por um mútua dentro do núcleo das chibatadas. Se ele voltar ao seu erro, ele lado, usando o critério da redução de daserá julgado por vinte e três, mas não será familiar. E assim possam nos: “Previamente, ele é julgado com base apedrejado, a menos que os três primeiros recuperar para si um filho. em seu comportamento futuro: porquanto é estejam entre eles, uma vez que está escrimelhor que ele morra enquanto é inocente to ‘Este, nosso filho’, cujas chibatadas foram e não sendo culpado [por pecados mais graaplicadas na sua frente – por aqui, somos ensinados que se um ves]”. Por outro lado, a penalidade é justificada pela extradeles morrer, ele não poderá ser apedrejado”. polação dos limites da família para os fundamentos da sociedade: “Uma variante: ‘sorer’ – contra as palavras de seu Execução pai; ‘u’morê’ – contra as palavras de sua mãe. ‘Sorer’ – contra as palavras da Torá; ‘U’morê’ – contra as palavras dos profetas. Por isso o conselho da sua cidade o apedrejará até a mor ‘Sorer’ – contra as palavras das testemunhas; ‘U’morê’: contra te. Assim você varrerá o mal de seu meio: todo Israel ou as palavras dos juízes”. (Sifrei Devarim 218:7) virá e temerá. Tentando resolver a contradição entre o conceito de “nidon al shem sofo” e “ba-asher hu sham” (‘onde está agora’, Em circunstâncias ordinárias, os tribunais judaicos apeGênesis 21:17, Rosh Hashaná 16b), R. Eliyahu Mizrahi nas decretariam a pena de morte como uma punição sevesugere que esse filho tivesse começado a trilhar um camira por crimes já cometidos, considerados pela Torá como nho de rebeldia. sendo antissociais. Existem diferenças significativas entre o Apesar da insistência nas razões das leis ben sorer u’morê, presente caso e outras situações de crime capital na lei. Seas regras devem ser consideradas de uma forma tão estrigundo a Mishná, o que esse filho recebe é “nidon al shem ta que não podem ser aplicadas na prática. De fato, parece sofo” (julgado a partir do seu fim). provável que elas nunca tenham sido aplicadas. Rambam também o entende dessa maneira: “A morRessignificação te determinada pelo Tribunal de Justiça acontece em casos relevantes: quando a fé se debilita ou quando se comete um No apedrejamento, o caráter exemplar importa, como grande crime, a saber, idolatria, incesto, assassinato ou ações determina o passuk “e todo Israel ouvirá e temerá”, e o Sique levam a esses crimes. É decretado ainda mais quando se frei Devarim (220:1) esclarece: “Quer dizer que toda a poviola o Shabat (Êxodo 31:15); ...um falso profeta e um anpulação da sua cidade o apedreja? A intenção é, na verdacião rebelde são executados por causa da desordem que caude, [que aconteça] na presença de todas as pessoas da sua sam; quem bate no pai ou na mãe é assassinado por sua grancidade”. O apedrejamento permitiria “learchik et haadam de audácia e porque faz ruir a constituição da família, que é meaverá” (afastar o homem da transgressão). a base do Estado. Um filho rebelde e desobediente é exeMas, em face da óbvia inviabilidade dessa solução, pocutado pelo que poderia se tornar, porque provavelmendemos recorrer a outro princípio: o de shalom bait, ou seja, te será um assassino...” (Maimônides, 1190, III. 41:11). promover a paz no lar em um contexto mais amplo, conNa mesma linha de raciocínio, Rashi esclarece (sobre forme foi expressado no Talmud, Shabat 23b: “De igual Deuteronômio 21:18:3) que “o filho rebelde e desobedienmaneira, se [em uma família de baixa renda] se encontrar te é executado por causa do destino ao qual necessariamente diante de um impasse entre comprar óleo para acender uma conduzirá o curso da sua vida (não porque seu crime atual o lâmpada para sua casa ou vinho para a santificação [kidush] faça merecedor da morte)... A Torá entendeu sua última disdo Shabat, a lâmpada da sua casa tem prioridade, por cauposição: no final, deteriorará a propriedade de seu pai e bussa da paz no lar [ao evitar que essa família venha a jantar cará em vão os prazeres aos quais está acostumado, ficará à esno escuro] ”. preita na encruzilhada e roubará as pessoas, e de uma ou de
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A esse respeito, trazemos o começo de Sanedrin 88b: “Aquele filho rebelde e desobediente, cujo pai e mãe queiram perdoá-lo por seu comportamento de glutonaria e embriaguez, podem fazê-lo”. Para tanto, uma proposta de significação possível se encontra na releitura do versículo 21:20, o terceiro de nossa série. Lá vamos nos aprofundar na expressão beneinu (nosso filho) que os pais expressaram a uma só voz. Desde esse ponto de vista, beneinu é a peça que faltava, é a cerimônia de retomada da paternidade e da maternidade, que estiveram ausentes no otô do passuk anterior (21:19). Beneinu reconhece o pertencimento irredutível e a responsabilidade mútua dentro do núcleo familiar. Talvez, parar em beneinu possa inibir a entrega, restringir a tentação dos pais de denunciar e renunciar ao ben sorer u’moré. E assim possam recuperar para si um filho. Recapitulando: a família tinha partido do centro da sua interioridade, passando do espaço privado para o público. Ela avançou ao buscar os cohanim ou o juiz (ou a autoridade competente) que havia naqueles dias e foi-lhes demandado que esclarecessem seu veredito (ou sua indicação), a ser executado de acordo com tudo o que ensinassem (Deut. 17: 9-11). Cabe então às instituições metaforizar a morte por apedrejamento que começa em 21:21. Elas, as instituições, devem traduzi-la como o tratamento mais adequado entre os disponíveis nestes dias. Ela deve ser entendida como o fim de um ciclo no qual a instituição e a comunidade intervêm ativamente. E ain-
da mais: deve-se reinserir, retornar seus proscritos e seus condenados. A recuperação ocorre, por exemplo, quando uma certa dinâmica familiar disfuncional se esgota, dando lugar a uma nova dinâmica. Ou quando paramos de depositar o Mal em alguns, a fim de justificar a sua aniquilação. Ou ainda, quando decidimos transformar uma certa ordem social que se sustenta no medo. Pablo Schejtman é estudante de Rabinato no IIFRR – Instituto Iberoamericano de Formação Rabínica Reformista – e membro da SIC – Sociedade Israelita do Ceará. Traduzido do espanhol por Kelita Cohen.
Notas 1 Traduções conforme a edição em português do livro A Torá do rabino W. Gunther Plaut, a ser lançado pela UJR em 2021. 2 A tradução da Torá utilizada inverte a ordem das expressões “os anciãos…” e “local público…” para melhor legibilidade em português.
Referências Berger, Sh. (2017) Sanedrín 71a-b: castigo preventivo. A partir del Talmud Bavli Koren con comentario del rabino Adin Steinsaltz, URL: https://steinsaltz.org/daf/sanhedrin71/ Freud, S. (1919). Lo siniestro. Obras completas de Sigmund Freud. Madrid: Biblioteca Nueva, 1973. Maimónides, M. (1190). Guia de descarriados, Barcelona, Obelisco, 1997.
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resenha de livro
A VIAGEM SENSORIAL DE AYELET GUNDAR-GOSHEN Em Uma noite, Markovitch, autora descreve vida bucólica por meio da sinestesia
Jacques Fux
D
“
Uma noite, Markovitch De Ayelet Gundar-Goshen, Editora Todavia, 2018.
urante o dia, Rachel Mandelbaum ajudava o marido no açougue, o cheiro de sangue a envolvendo como um perfume. À noite, sentava-se na cama e tricotava, com os pontos bem apertados, para que não se esgueirasse um único pensamento sobre o passado. Porém, uma vez por mês, largava o tricô e saía silenciosamente da cama. Avraham Mandelbaum gemia num polonês antiquado, Rachel acariciava sua cabeça com mão hábil e saía de casa. Lá fora, a Palestina dormia. A terra respirava pesado, com seu hálito de cheiro de terra, laranjais e palha. E no meio de tudo aquilo Zeev Feinberg a estava esperando. Ela fechava os olhos e ele beijava seu pescoço. O bigode dele arranhava sua pele delicada, transparente. Mas Rachel não afastava o pescoço. Ao contrário: mais e mais ela se esfregava nos pelos duros. E, para além dos laranjais, da palha, do porto, do grande mar, vinha-lhe a lembrança do bigode de um soldado austríaco, Johann era seu nome, e do cheiro do vinho que emanava de seus lábios quando a beijava, e do sangue em suas veias quando a deixava tonta numa longa valsa vienense. Naqueles momentos os olhos de Rachel Mandelbaum ficavam úmidos, assim como sua vagina.” O cenário é bucólico, com uma narrativa original, sedutora e extremamente poética: estamos em Israel/Palestina, em um kibutz – uma sociedade socialista que trabalha a terra, colonizando uma sonhada pátria – num período antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial. O povo judeu, vindo de todas as partes do mundo, luta para formar uma verdadeira nação – para se reconstruir das cinzas do grande trauma e reivindicar, finalmente, um lugar na existência.
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resenha de livro Esse singular processo de transformação e afirmação ocorre também no nível pessoal e individual. As pessoas – mesmo os soldados e os guerreiros sanguinários – querem amar, querem viver os prazeres do corpo, da alma e experimentar os sentidos e as sensações da pele. Mas o passado, as perdas e as dores estão sempre – e tanto – presentes, como feridas fantasmas. O belo livro da escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen se inicia na época do domínio inglês na Palestina e, por isso, o período da imigração ilegal dos judeus para a terra de sonho – muitos fugindo dos pogroms, outros sentindo o cheiro das cinzas que logo virão, alguns buscando o devaneio bíblico de Canaã. O Irgun – grupo operacional militar clandestino que lutava contra o mandato inglês sobre a Palestina e pelo estabelecimento do Estado judeu – tem uma ideia: enviar jovens para a Europa para lá se casarem com mulheres judias solteiras, em um evento organizado, resgatando-as, por uma brecha da lei, das perseguições e trazendo-as de volta a Israel, onde prontamente se divorciariam. O plano é um sucesso, se não fosse por conta de Markovitch, um zé-ninguém que tem a sorte de se casar com a mulher mais linda que já existiu. Ele decide não se divorciar dela – no judaísmo “tradicional/religioso”, se o marido não dá o divórcio, conhecido como guet, a mulher estará para sempre presa ao esposo. Além da história e dos conflitos internos e externos, a narrativa é recheada de sabores, odores – sensações e sentidos que saltam aos olhos e evocam o poder da palavra. O leitor é transportado para um mundo onírico de perfumes doces e frutados, de lembranças carinhosas, saudosas e traumáticas. O livro é um exímio estudo/escola do manusear da linguagem que desperta/irrompe o poder da essência e das percepções humanas. A narrativa nos conduz com brilhantismo para muito além dos apenas cinco sentidos que inutilmente nos classificam. “Mas esses perfumes, essa lírica, esse encantamento deslumbrante da linguagem só se faz/fez possível em virtude de uma esplendorosa tradução. Se o processo de tradução, como diria o grande crítico e pensador Walter Benjamim
em seu mais famoso texto: “A tarefa do tradutor”, é também um processo de traição e criação, Paulo Geiger engrandeceu a palavra de Ayelet. Sua versão nos abalou (“os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar”, como diria Quintana) por transpor/verter para o português uma balada hipersensorial. A hercúlea tarefa de um dos nossos mais importantes tradutores foi exitosa.” Ayelet é múltipla: é leitora e herdeira de Proust, quando ele diz: “O cheiro e o gosto das coisas permanecerão para sempre, parados no tempo, prontos para nos lembrar”; tem uma intimidade profunda com o poeta Baudelaire, quando ele descreve o segredo do perfume: “E muita flor exala a medo / Seu perfume como um segredo / Na mais profunda solidão”; é a carinhosa e delicada menina de Bartolomeu Campos de Queirós, quando ele canta os sentidos: “Por meio dos sentidos suspeitamos o mundo. (…) Com os olhos nós olhamos a vida. Olhamos as águas rolando entre pedras, peixes, algas. (…) Com os ouvidos nós escutamos o silêncio do mundo. (…) Com o nariz sentimos os cheiros do mundo. (…) Com a boca sentimos o sabor das coisas… (…) Quando alguém especial nos olha nós nos sentimos tocados. (…) Em cada sentido moram outros sentidos”. Mas Ayelet ainda é mais: a delicadeza de sua forma/linguagem/literatura desvenda as sensações premonitórias, as constatações silenciosas e veladas, as investigações da alma e da aura, os mergulhos no passado e as ruínas das aspirações do destino. Nascida em Israel em 1982, a autora Ayelet Gundar-Goshen estudou Psicologia na Universidade de Tel Aviv e trabalhou como editora de notícias em um jornal. Seu livro de estreia, Uma noite, Markovith, ganhou o Prêmio Sapir e já foi traduzido para mais de dez línguas. Uma leitura indispensável. Jacques Fux é matemático e escritor, autor de Antiterapias (Scriptum, 2014), Meshugá: um romance sobre a loucura (José Olympio, 2016), Nobel (José Olympio, 2018), entre outros. Resenha publicada originalmente na revista digital Dom Total (domtotal.com) e reproduzida aqui sob gentil licença da revista.
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resenha de livro
GOD IS IN THE CROWD OU DEVE HAVER JUDEUS? Deborah Fleck e Mario Fleck O contexto
S
God is in the Crowd: Twenty First Century Judaism De Tal Keinan
omos parte da mais privilegiada de centenas de gerações de judeus. Não fomos vítimas diretas das tentativas de aniquilação de nosso povo – embora tenhamos escutado as tristes histórias de nossos parentes que sobreviveram à tragédia da Shoá – e nossa geração não viveu na pele os dramas das perseguições, expulsões e tentativas de extermínio que se sucederam ao longo dos séculos. Temos o privilégio de conviver com Israel como nação independente, livre para exercer a autodeterminação do povo judeu, tão sonhada e rezada por quase vinte séculos. Curioso, porém, é que esse mesmo povo, por fim libertado e com o destino em suas mãos, no modo mais sólido possível, vive um drama paradoxal: a maior ameaça à sua sobrevivência deriva justamente de suas decisões internas. Com tantas opções e distrações criadas pela veloz modernidade e com tamanha facilidade de integração na sociedade maior, o espaço para o judaísmo vai ficando cada vez mais comprimido. Assim, verificamos a existência de um ciclo vicioso, segundo o qual a indiferença nos leva ao desconhecimento e essa combinação, por sua vez, nos leva ao desinteresse pelo passado, pela nossa herança e pela conexão com essa corrente milenar que afetou tanta gente e contribuiu de forma tão crítica para outras religiões, para a humanidade e para muitos conceitos que hoje tratamos como universais.
O autor Neste livro, Tal Keinan apresenta sua história de vida e faz também uma avaliação da atual situação do povo judeu. Ele provoca o leitor com uma reflexão de suma relevância ao contemplar tendências tanto qualitativas como quantitativas a respeito do destino de nosso povo. Tal nasceu nos Estados Unidos e não teve uma educação judaica durante a infância. Ele e os irmãos (de quatro casamentos de seu pai) chegaram a reali-
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resenha de livro zar “uma espécie de Bar Mitsvá”, mas não frequentaram escolas judaicas. A educação judaica não era uma prioridade para seus pais, até porque os pais deles também não tinham se preocupado com isso. Como imigrantes, sua maior preocupação era, na verdade, se integrar à sociedade americana, o que só foi possível de fato para a geração de Tal.
O gatilho Quando Tal era estudante, o capelão (cristão) de sua escola promovia encontros entre os alunos judeus, nas sextas-feiras, provocando conversas sobre o Shabat. Essa situação inusitada começou a atiçar a curiosidade dele, que logo percebeu que tinha uma ligação com um povo, apesar de não conhecer sua história. A partir de então, sentiu o ímpeto de descobrir e buscar conhecer toda essa herança.
Olhos que se abrem Depois de ler toda a base literária judaica e o essencial da história moderna do povo judeu, incluindo a história de Israel, Tal se viu motivado pelo valor que começou a enxergar neste legado: “Nós contribuímos para a construção das fundações da modernidade, fomos os autores que trataram da grandes questões que até hoje definem as sociedades em que vivemos. Nossos ancestrais foram os autores do monoteísmo e construtores da civilização ocidental, contribuindo para os fundamentos da justiça, do cristianismo, do socialismo, da psicanálise e da Teoria da Relatividade. Nossas contribuições para a medicina, literatura, música, arte e as ciências formam um tecido definitivo, sem o qual a humanidade contemporânea seria irreconhecível”. Conforme foi aprofundando seus conhecimentos, Tal sentiu-se envergonhado de sua ignorância. Como se estivesse até então traindo uma responsabilidade: “Eu não apenas era conectado a esse povo, mas também um elo da corrente que une seu passado ao seu futuro”. Ele se encantou com a realidade desse povo que, apesar das dimensões minúsculas, e de todas as intempéries passadas, conseguiu manter viva a corrente por duzentas ge-
rações. O exemplo de Tal nos faz refletir sobre a responsabilidade que temos com essa corrente: é nossa a opção de mantê-la ou quebrá-la. A história do povo judeu mostra que, apesar de enormes esforços de assimilação e integração, nunca conseguimos convencer os outros de que éramos tão alemães ou poloneses quanto nossos concidadãos. Seguimos sendo tratados como judeus primeiro, apesar de tudo, nos mais variados contextos. Para nós, a conciliação entre o particularismo e o universalismo parece ser um alvo inalcançável.
Israel Na sua jornada em busca do conhecimento e do tempo perdidos, Tal decide fazer aliá e vai servir o exército em Israel, passando pelos mais complexos testes e tornando-se piloto de F-16. Em Israel, a experiência mostra um outro quadro de vulnerabilidades: divisões de poder, conflitos entre as subtribos e ônus excessivo sobre os ombros de uma parcela da população, que de fato se dedica a construir e defender o país. Esse cenário vai aos poucos minando o maravilhoso encontro da história deste povo com sua tão sonhada emancipação, definitivamente conquistada e não mais apenas concedida.
O dilema Com noventa por cento do povo judeu dividido em partes iguais entre Estados Unidos e Israel, duas distintas ameaças combinam-se perigosamente. Nos Estados Unidos, o judaísmo deixou de ser suficientemente atraente para a massa crítica de judeus necessária à sobrevivência do povo. Seguindo o ritmo atual, a previsão é de que o judaísmo americano não ortodoxo acabará em três gerações. Em Israel, a comunidade judaica estaria dividida em três distintas categorias conflitantes e difíceis de serem reconciliadas: territorialistas, teocratas e secularistas. O significado de nação judaica é distinto para cada uma delas, e seus sistemas de educação e de vida também diferem bas-
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resenha de livro tante entre si. Além de fragilizar o novo Estado, essa fragmentação acabará contribuindo para o afastamento da comunidade americana, cada vez menos interessada na centralidade de Israel para o judaísmo. Os secularistas, que representam a maior parte da start-up nation e da economia em geral, formam também o pilar de sustentabilidade das forças armadas que defendem o país, mandam seus filhos para o exército e sustentam um pesado orçamento militar. Esse ônus desproporcional, aliado às imposições e idiossincrasias vindas dos demais grupos, faz com que haja uma migração significativa dessa população para os Estados Unidos. De forma brilhante, Tal nos alerta que esses jovens israelenses são a última fronteira entre a autodeterminação dos judeus como povo e a volta ao mundo da Diáspora que tantos traumas nos causou. Nesse cenário, a tendência seria então a sobrevivência exclusiva dos ultraortodoxos, tanto nos Estados Unidos como em Israel. Porém, enquanto nos Estados Unidos a redução do judaísmo a apenas esse grupo tem poucas implicações, em Israel a situação é muito diversa. Ali, sabemos o destino que podem ter esses ultraortodoxos se forem os únicos que restarem, sem capacidade de defesa e sustentação econômica – o risco é catastrófico e sangrento.
A proposta Para aqueles que se importam com o futuro do nosso povo, o desafio, segundo Tal, é oferecer um modelo de judaísmo atraente o suficiente para a maioria dos judeus, capaz de manter fidelidade com as tradições, sem deixar de estar inserido na modernidade. O modelo precisa ser inclusivo, de modo a não deixar ninguém de fora – todos deveriam ter seu espaço, além de aceitar, respeitar e conviver com as diferenças. Os denominadores comuns precisam ser fortalecidos – os alicerces do judaísmo estariam na busca permanente por justiça, na importância da educação, na riqueza do debate e do contraditório, na valorização das tradições e dos rituais e principalmente no fortalecimento do senso de comunidade. A proposta de Tal para lidar com essas questões sugere dois grandes eixos: 1. Educação – considerada a base de sustentação do interesse na continuidade da corrente, requer um inves-
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timento significativo de recursos. Ele sugere a criação de um fundo global, abastecido com uma fração da renda de todos os judeus, que permitisse a toda a comunidade, em todas as gerações, ter acesso ao melhor nível de educação tanto judaica como universal. Acreditando na sabedoria das massas (wisdom of the crowds), ele aponta que elas saberão definir o cardápio da educação e realizar suas melhores escolhas individuais. 2. Governança – Tal propõe o estabelecimento de uma autoridade maior, capaz de governar todo o povo judeu, por onde quer que ele esteja espalhado. No escopo dessa estrutura estariam todas as ações que afetam os judeus como um todo – definições dentro e fora de Israel, como a Lei do Retorno, o caráter judaico de Israel e a definição de quem é judeu, incluindo as regras de conversão. Nosso entusiasmo com a tese de Tal Keinan neste livro atingiu seu ápice no ponto em que ele fecha o circuito sobre a importância do judaísmo para cada um de nós individualmente, para cada uma de nossas comunidades e também para a sociedade maior. E aqui não se trata apenas de uma opção individual. Torna-se essencial analisar as consequências de nossas decisões nesses três planos. Nas palavras de Tal, “se os judeus não conseguirem encontrar coletivamente seu menor denominador comum, organizar-se ao redor dele como uma comunidade e identificar valor nisto como indivíduos, pode ser que já tenhamos encontrado a última geração de judeus como assim os conhecemos”. Yehuda HaNassí, o grande compilador da Mishná cerca de dezoito séculos atrás, ficaria fascinado ao verificar que aquela proposta de judaísmo chegou tão longe. Somos nós atualmente os custodiantes desse legado que atravessou tantos desafios para chegar até nós. Caso Rabi Yehuda para cá retornasse para nos fazer uma só pergunta, talvez ela devesse ser: “Quem são vocês para colocarem o ponto final?” Na nossa opinião, essa é a provocação mais intensa que Tal nos propõe em seu livro. Nós, leitores, precisamos responder: deve haver judeus? Qual deve ser minha atitude diante de minha resposta e de suas consequências? Deborah Fleck é sócia da Pretexto, empresa especializada em traduções de livros ficção e não ficção, além de outros tipos de texto. Mario Fleck é presidente da CIP – Congregação Israelita Paulista.
cócegas no raciocínio
ANIX1AÇÃO
Paulo Geiger
O
s motivos pelos quais uma anexação unilateral de parte da Cisjordânia agora, sem um acordo definitivo, é totalmente desnecessária, prejudicial a Israel hoje, e contra os interesses, no futuro, de um Estado de Israel judaico, sionista e democrático .
1. Nix: Termo usado para a recusa de se aceitar ou permitir algo; exprime veto, rejeição (traduzido e adaptado de www.merriam-webster.com/dictionary). Nix é também uma Deusa da Morte, a primeira rainha do mundo das Trevas. Conhecia o segredo da imortalidade dos Deuses podendo tirá-la e transformar um Deus em mortal (deuseseherois.webnode.com.br). 2 O rabino Eric H. Yoffie foi presidente, de 1996 a 2012, da Union for Reform Judaism (URJ), o braço congregacional do movimento do judaísmo reformista nos E.U.A., que representa 1,5 milhão de judeus em 900 sinagogas nos Estados Unidos e no Canadá.
Mbolina/iStockphoto
A síntese declaratória acima, em sua afirmatividade, estabelece como premissa uma posição inequívoca contrária à anexação. Para não dizer isso eu mesmo, cito o rabino Eric Yoffie2, para quem ela não é apenas um erro, é uma total estupidez (Haaretz, 6 de julho de 2020): Até o momento em que este artigo está sendo escrito, não se sabe exatamente se e quando e em que condições haverá, ou não, anexação de territórios da Cisjordânia. Não se sabe quais serão as prioridades de um Israel ainda mais ameaçado pela Covid-19, como agirão seus líderes, qual a força da reação a esta intenção na sociedade israelense. A bem da verdade, é bom lembrar que a ideia da anexação do vale do Jordão não é nova, foi apresentada logo após a ocupação da Cisjordânia (então anexada à Jordânia), em 1967, por Ygal Allon, do Achdut Avodá, partido de centro-esquerda. Escusado dizer que mais de 50 anos depois todos os fatores mudaram, mas não os que impediram que a proposta fosse então adotada... Os apologistas da anexação unilateral, parcial ou total da Cisjordânia (aka Iehu-
dá ve Shomron), ou os que simplesmente a aceitam, estão convictos de que ela pertence por definição bíblica (ou divina) ao povo de Israel, ou então não veem outra alternativa possível para a segurança de Israel, tendo em vista fatores políticos, estratégicos e geográficos. Esses fatores são, entre outros, desconfiança [aliás, justificada] quanto às intenções dos palestinos a partir de um estado independente com fronteiras a poucos quilômetros de Tel Aviv e do aeroporto Ben Gurion, o risco de uma futura dominação pelo Hamas, a possível aliança com o Hezbollah (o que traria indiretamente o Irã para o coração demográfico de Israel), a existência, a partir do vale do Jordão e do norte do mar Morto, de uma linha territorial direta até o Irã via Jordânia e Iraque etc. etc. etc. – São argumentos sérios que não devem ser desconsiderados, mas as consequências da solução que advogam podem ser ainda mais perigosas e danosas à existência de um Israel judaico, sionista e democrático. Na avaliação desse perigo e desses danos, vamos minimizar (mas não desconsiderar de todo) inicialmente, por um momento, as possíveis reações externas. Relativizemos momentaneamente, como exercício, todas as consequências imediatas, por parte de terceiros, a uma possível anexa-
ção [vamos citar essas consequências mais adiante], inclusive com base no duvidoso wishful thinking de que com o tempo tudo isso talvez se assente como a poeira da história, restando o fato consumado. Então, pensando agora apenas em nós mesmos, será isso (anexação unilateral, sem qualquer acordo, mesmo que de ‘apenas’ uma parte da Cisjordânia) o que devemos querer como ‘nossa’ solução para o conflito, ao menos como uma etapa da solução, na configuração, mesmo que parcial (por enquanto) do status futuro do estado nacional do povo judeu? A anexação é necessária? Conveniente? Desejável? Ela resolve, atenua o conflito, nos aproxima de uma solução verdadeira? Aumenta nossa segurança? Na introdução, antecipamos nossas respostas: a anexação é desnecessária, prejudicial a Israel hoje, contrária aos interesses, no futuro, de um Israel judaico, sionista e democrático. Resta demonstrar por quê. A anexação é desnecessária O único possível argumento de que a anexação seja necessária agora, como medida unilateral, ‘goela abaixo’ dos palestinos, seria o de que é urgente garantir a segurança de Israel ao longo da fronteira oriental da ‘Palestina’, tendo em vista a crescente ten-
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cócegas no raciocínio são com o Irã. Porque é essa fronteira que dá acesso terrestre aos territórios da Jordânia, depois os do Iraque, chegando ao Irã. Nenhuma outra alegação teria sentido, pois a anexação não muda em nada as condições sobre o terreno. Nenhuma outra ameaça ou perigo vem do fato de o vale do Jordão estar incluído na ‘Cisjordânia’ sob o regime de ocupação israelense até um acordo definitivo, inclusive sobre fronteiras. Além disso, na verdade, o vale do Jordão já está sob o controle de forças israelenses, a área da suposta anexação (30% da Cisjordânia) está coberta de assentamentos israelenses, e a presença de palestinos já é limitada a algumas dezenas de milhares. Sob o ponto de vista da segurança, a anexação é, portanto desnecessária sob qualquer aspecto, o demográfico e o militar. Ela responde, sim, a um obscuro projeto político, ou, para alguns, até mesmo político-religioso, que interfere na configuração atual e futura do Estado de Israel, e no seu caráter. Não responde a uma necessidade, e sim a um projeto da ultradireita nacionalista/religiosa israelense, que não é benéfico para o estado de Israel nem para a nação judaica. Como alegaremos na terceira resposta. A anexação é prejudicial a Israel hoje As mais que prováveis consequências imediatas e a médio prazo de uma anexação, parcial ou total, são todas prejudiciais ao atual status político, econômico e de segurança do Estado de Israel. Por muitos e diferentes motivos: Ela sinalizaria a renúncia de Israel a uma solução negociada, ao impor pela força uma solução unilateral à qual se opõem os palestinos, quase todos os governos do mundo, inclusive os que apoiam Israel, parte da sociedade israelense e do povo judeu, a opinião pública mundial. Em consequência disso, Israel estaria ainda mais isolado no mundo, dando força aos argumentos dos que, hoje injustamente, acusam Israel de fomentar o apartheid, o racismo e o expansionismo, de descumprir acordos, de oprimir os palestinos. É mais do que provável que houvesse um retrocesso no processo de lenta normalização das relações de Israel com parte do mundo ára-
be e islâmico, inclusive com países com os quais já tem relações estabelecidas, como o Egito e a Jordânia. Sem falar na decepção e desencanto de muitos judeus e sionistas de vida inteira, abrindo (ou aumentando) uma lacuna na identificação de parte do povo judeu, em Israel e no mundo, com o estado nacional do povo judeu. Israel teria de ‘anexar’ também mais dezenas ou centenas de milhares de palestinos (no caso de uma anexação parcial) ou milhões de palestinos (no caso de uma anexação total), assumir a responsabilidade por eles, ou, pior, caso não recebam a cidadania israelense por recusa ou por imposição, ter de governá-los como refugiados palestinos ou estrangeiros sem status civil. Esta hipótese caracterizaria Israel como Estado não democrático, visto que haveria desigualdade de direitos e deveres entre os cidadãos. Irônica, mas tragicamente, uma anexação parcial da Cisjordânia poderia levar a um estado palestino no restante da Cisjordânia, sem o frame de um acordo de compromissos e responsabilidades mútuas, sem garantias internacionais, isto sim, um pesadelo para a segurança de Israel em todos os sentidos. Tudo isso em troca de qual benefício a curto e médio prazos, a não ser o de satisfazer as visões messiânicas dos extremistas nacionalistas-religiosos que alegam um status bíblico ou a suposta vontade divina como argumento histórico e geopolítico? O próprio conceito da anexação é contra os interesses, no futuro, de um Israel judaico, sionista e democrático Aqui é preciso analisar a diferença conceitual entre uma anexação parcial da Cisjordânia (x %) e uma anexação total. A anexação parcial é um ato puramente discricionário, de força, de imposição, não necessário e não conveniente, com as consequências acima analisadas. Ela não resolve o conflito, é uma apropriação, na verdade uma desapropriação. A anexação total, por sua vez, seria uma tentativa de solução definitiva do conflito, produto de uma visão ideológica, geopolítica. O que aqui vamos examinar é se esta solução é do interesse de um Israel judaico, sionista e democrático.
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Poder-se-ia alegar que todas as possíveis consequências a curto e a médio prazos acima descritas serão um dia relegadas a um passado distante diante dos fatos consumados impostos goela abaixo. Isso aconteceu antes na história, como na colonização das Américas e da Oceania, na conquista árabe do norte da África e do Oriente Médio, na configuração das fronteiras de muitos países da Europa Central e das Américas, you name it. Restaria então perguntar se o que teremos – passado o desconforto de, em nome de nossos “direitos”, termos ignorado os direitos de outros – será realmente de nosso interesse como povo, nação e estado. Porque a anexação não será apenas de territórios, será, principalmente, de pessoas também, palestinos, no caso. E há três consequências possíveis para a anexação de palestinos num Grande Israel, considerando que, segundo os processos demográficos mais prováveis, os palestinos serão um dia maioria nesse estado ampliado. 1) No regime democrático de uma pessoa um voto, se houver maioria palestina, um dia o estado deixará de ser judaico. A língua oficial deixará de ser o hebraico, a bandeira será verde e branca e não azul e branca, o hino não será o Hatikva (com sua menção à ‘alma judaica’). 2) Para manter judaico um estado com minoria judaica, ele deixará de ser democrático, talvez até mesmo tenha de se valer de apartheid. 3) E se houver um equilíbrio demográfico, um estado binacional, esse estado, para ser democrático, teria de abrir mão, voluntariamente, de uma identificação com o judaísmo (e com o povo judeu, deixando de ser sionista). Isso não é uma certeza, claro, mas é a perspectiva mais plausível do que seria um estado para dois povos, consequência da anexação. A situação atual, sem anexação, não constitui uma solução. Mas ela deixa em aberto a possibilidade de um acordo que inclua fronteiras, assentamentos, populações, segurança, desenvolvimento econômico, paz. Um tal acordo seria – será – sim, uma solução. Destruir essa possibilidade com uma anexação unilateral é um tiro no pé de um futuro desejável.
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