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Devarim 41 (ano 15, abril de 2020)

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DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI

Ano 15, n° 41, abril de 2020

Lavar as mãos sem lavar as mãos Rabino Sérgio R. Margulies

Espiritualizando e modernizando a lei ancestral Entrevista de Alyssa Gray a Joshua Holo

O passado é o futuro do presente Paulo Geiger

A Tosefta: Talvez o mais judaico dos livros Rabino Dario E. Bialer

Bruria, a erudita Rabino Uriel Romano

Genebra, da utopia para o projeto Paulo Geiger

Ironias do destino Vittorio Corinaldi

Entrevista com Jacques Fux

Nomear o que não tem nome Rabino Sergio Bergman

A mitsvá da mikve no século XXI Ester Silvia Dorfman

Caro Dr. Weizmann Mario Fleck

Um jovem carioca Gabriel Richards

Em Poucas Palavras


O medo e o sonho

Rastan/iStockphoto

EDITORIAL

É

a linguagem que molda a cultura ou a cultura que molda a linguagem? A resposta a esta pergunta tem mais repercussão que parece à primeira vista. Pois se for a linguagem que molda a cultura, bastaria adotar o linguajar politicamente correto para mudar o mundo. Se for ao contrário, a linguagem passa a ser a consequência das mudanças culturais que ocorrem por outros meios. O judaísmo é uma antiga civilização cuja trajetória oferece uma bela plataforma para a compreensão de como se dá o desenvolvimento das culturas. Ela evidencia que o desenvolvimento da linguagem vem à reboque das mudanças culturais. Por exemplo, os judeus não desenvolveram o ladino porque almejavam morar na Península Ibérica e sim porque já estavam morando lá. As palavras e expressões são inventadas conforme a necessidade cultural do uso. O que efetivamente molda a cultura (e depois disso a linguagem) são as regras criadas pelos diversos grupos sociais e implementadas através do convívio cotidiano. Por exemplo, na primeira metade do século XX dar palmadas nos filhos não era mal visto. Isto mudou radicalmente. Hoje, uma pessoa que declara aplicar moderados castigos corporais como reforço pedagógico é imediatamente estigmatizada. Os amigos se distanciam e os convites sociais minguam. O humano é um ser social e ser afastado ou mal visto pelo grupo é uma punição severa. Então a maioria se esforça

em entender e caminhar dentro das normas (e absorver a linguagem) criadas pelo grupo. É assim que a mudança cultural acontece. Não se muda a cultura pela mudança da linguagem. O crescimento dos atos antissemitas em nossos dias é fator de constante preocupação. Indignados com o fenômeno e na tentativa de refreá-lo, colocamos fora da lei livros e símbolos antissemitas e tentamos banir os discursos de ódio. Ou seja, tentamos mudar a cultura através do controle da expressão do antissemitismo (ou seja, da linguagem). É preciso reconhecer que o racismo (incluindo sua vertente antissemita) jamais vai desaparecer e que, então, os esforços têm que ser dirigidos para a contenção de sua proliferação e efeitos. E os esforços atuais não estão funcionando! Uma extensa pesquisa sobre a percepção do antissemitismo, conduzida em maio e junho de 2018 pela União Europeia, revela não apenas o aumento do assédio antissemita no continente, como também joga uma luz a respeito dos grupos dos quais partem os ataques.1 Nas páginas 12 e 13 do documento se lê: “A normalização do antissemitismo é também evidenciada pela ampla variedade dos perpetradores, que abrangem todo o espectro político.2 As categorias de perpetradores mais frequentemente menciona1 Foram entrevistados mais de 16.000 judeus em 12 países membros da UE, o que corresponde a aproximadamente 1,6% da população judaica destes países. 2 Experiences and perceptions of antisemitism / 2nd survey on discrimination and

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das nos mais sérios incidentes de assédio antissemita são: (i) 31% – Um desconhecido; (ii) 30% – Uma pessoa com uma visão muçulmana extremista; (iii) 21% – Uma pessoa com uma visão de esquerda; (iv) 16% – Um colega de trabalho ou de estudos; (v) 15% – Um amigo ou conhecido; (vi) 13% – Uma pessoa com visão de direita”.3 Importante entender que estes números não revelam a proporção de antissemitas em cada grupo e sim, tão somente, de onde partem os assédios. Ao mesmo tempo, como o primeiro, terceiro e quarto itens da lista não revelam a visão política do perpetrador, eles podem ser ignorados para a análise que faço a seguir. O segundo item da lista – pessoas com visão muçulmana extremista – preocupa, mas não surpreende. Como se sabe, o extremismo muçulmano se opõe agressivamente à existência do Estado de Israel e é virulentamente antissemita. Assim que, mesmo sendo a população muçulmana extremista uma pequena fração da população europeia, ela contribui com a maior quantidade de assédios. hate crime against Jews in the EU: https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_ uploads/fra-2018-experiences-and-perceptions-of-antisemitism-survey_en.pdf 3 The normalisation of antisemitism is also evidenced by the wide range of perpetrators, which spans the entire social and political spectrum. The most frequently mentioned categories of perpetrators of the most serious incident of antisemitic harassment experienced by the respondents include someone they did not know (31%); someone with an extremist Muslim view (30%); someone with a left-wing political view (21%); a colleague from work or school/college (16%); an acquaintance or friend (15%); and someone with a right-wing political view (13%). Notar que a soma dos valores não soma 100%, ou seja, existem respostas múltiplas. Um perpetrador pode ser uma colega de estudos com viés à direita.

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A surpresa está concentrada na comparação entre o terceiro e o último itens: pessoas com visão de esquerda e de direita. Era de se esperar que estes dois grupos apresentassem resultados semelhantes. Pois, por um lado, ambos são compostos por pessoas do mesmo arcabouço social (não é incomum que haja divisão esquerda-direita dentro de famílias, moradores de um bairro, apreciadores de arte, etc.) e, pelo outro lado, a quantidade de pessoas nos dois grupos parece ser equilibrada (conforme indicam os resultados das eleições europeias, onde a diferença entre o vencedor e o perdedor é quase sempre de poucos pontos percentuais – uma diferença de 11 pontos, como a da última eleição do Reino Unido, é considerada uma aberração histórica). Mas o equilíbrio não existe! A percepção que o assédio foi cometido por alguém de esquerda é 60% superior à da direita, o que é uma grande surpresa, principalmente para quem cresceu em contato direto com relatos pessoais, filmes e livros sobre a Shoá. Para os que, como eu, foram educados neste caldo de cultura, a extrema-direita é a materialização da frase que lemos no Seder de Pessach: “ela she bechol dor vador omdim aleinu lechaloteinu” (eis que a cada geração se levantam para nos destruir). O sujeito na frase é indefinido: “Quem se levanta?” Para as gerações pós-Shoá a resposta aflora sem hesitação: a extrema-direita. A pesquisa não mostra que há mais antissemitismo na esquerda do que na direita. Pode ser que nossos instintos estejam certos e que ele seja mais prevalente na extrema-direita do que na extrema-esquerda. Mas ela mostra claramen-


Nurulanga/iStockphoto

te que ele se manifesta mais descaradamente na esquerda. Por que será? Perdi o sono com essa questão. E cheguei a uma, inicialmente hesitante, conclusão baseado no que coloquei no começo deste texto: a esquerda sofre de menos censura social. A esquerda é percebida, inclusive pelos que aderem às propostas da direita, com tintas românticas. A visão à esquerda é percebida como um sonho bonito que, mesmo quando se prova irrealizável ou descamba para a ditadura, conserva o seu valor espiritual. É esta aura que, por exemplo (um dentre muitos), empresta credibilidade às alegações espúrias de um movimento como o BDS, composto majoritariamente por pessoas de esquerda, que propõe a aberrante comparação do apartheid sul-africano com as vitais medidas de segurança de Israel, um país que outorga direitos iguais a todos os cidadãos, a tal ponto que a minoria árabe se revolta ruidosamente contra a esdrúxula proposta de ser transferida para a soberania Palestina. Comparem também a quantidade de pessoas que vocês já viram passar com uma camisa de Che Guevara, um convicto extremista totalitário, com a quantidade de pessoas que usam a camisa de algum expoente da direita, mesmo a moderada e democrática. Até na Inglaterra há muito mais Guevaras que Churchills se exibindo pelas ruas. E, assim, sendo a esquerda vista com muito mais benevolência do que a direita, ela se sente menos inibida, o que por sua vez resulta num maior afloramento da violência em suas franjas extremistas.

A análise que a falta de inibição social faz eclodir a violência é comprovada pelo medo que a Europa tem das reações dos extremistas islâmicos, medo este que constrange as ações para contê-los. Penso que o episódio mais emblemático deste medo foi a declaração do Papa Francisco após o atentado ao Charlie Hebdo, quando ele quase justificou a violência dizendo que se uma pessoa, até mesmo um amigo seu, insultar sua mãe vai levar um soco. Se o Papa sente a necessidade política de justificar o extremismo islâmico, o que acontece com os que têm menos condição de se defender? Este temor inibe o repúdio inequívoco do antissemitismo prevalente no Islã radical-supremacista e, sem o freio da estigmatização, o fenômeno cresce sem controle. Então, me parece que os atos antissemitas estão crescendo no mundo por dois motivos: por um lado, a carta branca (motivada pelo medo) dada aos radicais muçulmanos e, por outro lado, pela maior predisposição de tolerância que temos face à esquerda radical (que se beneficia do olhar romântico derramado à esquerda em geral), predisposição esta que inexiste no caso dos grupos de extrema-direita. A contenção destes atos depende muito mais do inequívoco e incessante repúdio e combate social e legal às distorções aberrantes dos demonizadores de Israel, onde quer que se situem, do que do policiamento do discurso de ódio. Pois o segundo meramente deriva da nossa falha em entabular o primeiro. Raul Cesar Gottlieb – Diretor de Devarim

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Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 15, nº 41, abril de 2020 PRESIDENTE DA ARI

Gilberto Lamm

devARIm [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ARI, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.

RABINOS DA ARI

Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA

Raul Cesar Gottlieb CONSELHO EDITORIAL

Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO

Editora Narrativa Um

SUMÁRIO Lavar as mãos sem lavar as mãos Rabino Sérgio R. Margulies..................................................................... 5 A Tosefta, talvez o mais judaico dos livros Rabino Dario E. Bialer.......................................................................... 11

EDIÇÃO DE ARTE

Negrito Produção Editorial TRADUÇÃO

Kelita Cohen e Raul Cesar Gottlieb REVISÃO DE TEXTOS

Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA

Alien185/iStockphoto FOTOGRAFIAS

Nathalie Ventura, iStockphoto.com Colaboraram neste número: Alyssa Gray, Rabino Dario E. Bialer, Ester Silvia Dorfman, Gabriel Richards, Joshua Holo, Mario Fleck, Paulo Geiger, Rabino Sergio Bergman e Rabino Sérgio R. Margulies, Rabino Uriel Romano e Vittorio Corinaldi. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br devarim@arirj.com.br Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Site da Devarim www.devarim.com.br A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.

Nomear o que não tem nome Rabino Sergio Bergman......................................................................... 17 Espiritualizando e modernizando a lei ancestral Entrevista de Alyssa Gray a Joshua Holo............................................... 23 Bruria, a erudita Rabino Uriel Romano........................................................................... 31 Resgatando a mitsvá da mikve no século XXI Ester Silvia Dorfman............................................................................. 39 Genebra, da utopia para o projeto Paulo Geiger.......................................................................................... 45 Caro Dr. Weizmann Mario Fleck........................................................................................... 51 Ironias do destino Vittorio Corinaldi................................................................................. 56 Literatura brasileira em Israel Uma entrevista com Jacques Fux........................................................... 62 Um jovem carioca Gabriel Richards................................................................................... 66 Em Poucas Palavras.................................................................................. 68 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger.......................................................................................... 73


LAVAR AS MÃOS SEM LAVAR AS MÃOS Rabino Sérgio R. Margulies ElenaLux/iStockphoto

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ra o mês de outubro do ano de 1347. Navios chegavam da Criméia para a Sicília. Traziam, além de carga e passageiros, ratos. Esses ratos, por sua vez, traziam doença que se espalhava pela Europa, causando inúmeras vítimas. Em janeiro do ano seguinte – 1348 – a doença foi julgada eliminada. No entanto, com a chegada da primavera naquele ano, voltou a se alastrar de modo avassalador. Além das condições climáticas, a inexistência de um sistema sanitário – uma vez que o esgoto era eliminado nas próprias ruas a céu aberto – provocou muitíssimas vítimas. Os registros apontam 25 milhões de pessoas. Em qualquer período e lugar este número é assustador, e se torna ainda mais apavorante por corresponder a um terço da população europeia do século XIV. Era a peste bubônica, cuja causa era na época desconhecida. A ignorância foi instantaneamente preenchida pelo preconceito que atribuiu a culpa aos judeus. Judeus foram – como bodes expiatórios – acusados de intencionarem a morte de cristãos a ser executada através da feitiçaria e do envenenamento de poços d´água. A falsidade da acusação foi irrelevante diante do ódio que impregnava as massas. Um ódio alimentado pelo preconceito que destilava há tempos, tanto é que, anos antes, em 1337, judeus de Provença foram acusados de trazer doenças que se espalhavam pela Europa. E um ódio que contava com a complacência de muitos, como o Czar Ivan IV, que corroborava as agressões ao afirmar que “os judeus importam ervas danosas à nossos reinos”, e o Imperador Carlos IV, que deu imunidade às hordas que matavam, queimavam e torturavam judeus e suas comunidades. Muitos se aproveitavam para confiscar propriedades dos judeus e

Diante do medo, o ódio impregnado e o preconceito cultivado são forças que, manipuladas, podem sobrepor a razão e as hierarquias institucionais. E mais, alavancar o fanatismo.

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a nobreza do sistema feudal europeu para lar pela saúde sem recorrer à magia e feiEm torno de um terço aniquilar alguns de seus credores.1 tiçaria, lembra a Torá (Vaikrá/Levítico dos mandamentos A barbárie era tão intensa que o pró19:31). Curiosamente, os judeus foram prescritos na Torá são prio Papa Clemente VI tentou intervir acusados da feitiçaria que abominam. relacionados a regras negando a responsabilidade dos judeus A preocupação com a saúde se expanpela disseminação da peste. No entanto, à de saúde. O pressuposto de no texto bíblico além da Torá. No livro exceção de Avignon – localidade na Frandos profetas há referência da “casa mais destas leis é zelar pela ça que naquele período era a residência distante”, lugar de isolamento além dos saúde sem recorrer à papal – a mensagem do Papa não surtiu limites da cidade, indicando a necessidamagia e feitiçaria. efeito. A matança prosseguiu. Fica a lição de de um lugar de cuidado aos doentes e da história de como, diante do medo, o de evitar a proliferação de enfermidades. ódio impregnado e o preconceito cultivado são forças que, E com elas o pânico. A Bíblia reconhece o perigo: “hamanipuladas, podem sobrepor a razão e as hierarquias insvia pânico de morte” (1 Shmuel/Samuel 5:11). Este retitucionais. E mais, alavancar o fanatismo. Foi o que aconconhecimento é crucial para que não haja – tal como na teceu: junto com a peste bubônica floresceu a epidemia do peste bubônica – o pânico da insanidade que impede liódio acrescida do fanatismo de seitas, como o culto dos dar apropriadamente com as causas reais das pragas, pesFlamejantes, que tinham como propósito apaziguar a ira tes e epidemias. divina na intenção, dentro de sua crença, de cessar a peste É com intento preventivo que o Talmud – livro de deatravés de uma prática ascética. O incremento desse culbate rabínico das leis do judaísmo editado no século V – to, condenado pela Igreja, era também insanamente atritraz importantes ensinamentos profiláticos: buído aos judeus. • Lavar as mãos e os pés diariamente é o melhor dos A percepção preponderante era a de que o número de remédios (Tratado Shabat); judeus vitimados pela peste bubônica era menor do que o • Beber somente a água que foi fervida antes (Tratado restante da população, justificando as alegações dos perpeTerumot); tradores da perseguição. Os registros históricos não permi• Evitar multidões e ruas estreitas durante epidemias tem corroborar tal percepção. No entanto, os ensinamen(Tratado Baba Kama). tos judaicos enfatizam o cuidado com a higiene que torOs textos rabínicos acrescentam a relevância do cuidanam-se, ao serem ritualizados, obrigações religiosas, prádo ambiental e sanitário: ticas a serem seguidas. Diante deste cuidado é inevitável • A produção de couro (curtume) deve ficar afastada uma menor propensão para contrair doenças infectocondos limites da cidade e oposta à rajada dos ventos tagiosas, embora claro que isto não garanta de maneira al(Tratado Baba Batra); guma imunidade individual ou coletiva. • É proibido cavar poços perto de lixões e cemitérios (Tosefta/Tratado Baba Batra). *** Essas leis higiênicas e sanitárias podem parecer óbvias Em torno de um terço dos mandamentos prescritos na ao nosso olhar contemporâneo, mas grande parte das reTorá são relacionados a regras de saúde. Entre elas, leis socomendações atuais para lidar com a crise do coronavírus bre lepra e chaga e os cuidados de limpeza descritos no lie para evitar o agravamento das condições da saúde ecoam vro Vaikrá [Levítico]. O pressuposto destas leis é a adveresses ensinamentos milenares e antigos. tência que a responsabilidade da liberdade conferiu: não fazer como na terra do Egito antigo, o que significa ze*** Independentemente das circunstâncias – nas quais a aflição de antes se renova, as ameaças ressurgem ou novas sur1 Depois verificaram que sem os judeus o próprio sistema de crédito ficou comprometido e os juros mais elevados, fazendo com que os judeus, antes considerados gem, os pavores reaparecem ou novos aparecem – resgataindesejados, fossem convocados para retornar aos seus países. Os reis ainda utilimos as lições do passado para que possamos atuar no prezaram esta oportunidade para elevar seus proventos extorquindo dos judeus pagasente. Este foi o intento de Eleazar da cidade de Mainz na mentos por proteção.

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Alemanha no ano de 1357. Já passada a tro. No fundo, estes são dois dos alicerces Estes são dois dos peste bubônica – ainda que seus efeitos do judaísmo: lavar as mãos cuidando do alicerces do judaísmo: fossem sentidos –, escreveu, seguindo o corpo e não lavar as mãos em indiferenlavar as mãos cuidando costume judaico, um testamento ético aos ça aos outros. do corpo e não lavar as seus filhos. Nesse testamento, exortou-os Quem é Eleazar? Uma pessoa sima frequentar a sinagoga, ter conduta étiples. Que, sem passar pelas mesmas agrumãos em indiferença ca com judeus e não judeus, não se renras – embora cada época tenha a sua –, aos outros. der à maledicência, ajudar ao próximo e, talvez seja eu, você, cada um de nós. Que em particular, manter a casa limpa e asseada, item que ele Eleazar seja um pouco de cada um de nós pela capacidaenfatiza no testamento ter tido atenção especial. de de preservar e transmitir, em meio às dificuldades, os Quem foi Eleazar de Mainz? Uma pessoa simples que sagrados princípios do cuidado pessoal e do cuidado para vivenciou os horrores da peste bubônica e da perseguicom os outros. É a profilaxia ao vírus que ataca o corpo ção aos judeus. Uma pessoa simples que legou uma menvulnerável e a prevenção ao vírus que prolifera no espísagem de esperança e ética à nova geração ao pontuar a rito insensível. preocupação com a limpeza (higiene) e lembrar a imporO Rabino Sérgio R. Margulies serve na ARI – Associação Religiotância da conduta. Não deixou o pânico nem os traumas sa Israelita do Rio de Janeiro. prevalecerem sobre o valor de não ser indiferente ao ouWilkimedia Commons

Ilustração mostra matança de judeus na fogueira durante a Peste Negra na Europa, Crônica de Nuremberg, 1493.

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A TOSEFTA

TALVEZ O MAIS JUDAICO DOS LIVROS Rabino Dario E. Bialer Temos uma cultura fantástica! Ela não permite que aquilo que não foi considerado legal ou autêntico por uma geração seja desprezado, na esperança que sirva como lição para outras gerações. Nada é perdido! Nem as opiniões perdedoras, pois elas podem ter valor no futuro.

Rabi Avahu estava em Tveria. Os discípulos de Rav Yochanan notaram o brilho em seu rosto e disseram ao mestre: “Rabi Avahu deve ter encontrado um tesouro”. Ele lhes perguntou: “Por quê?”, eles responderam, “Eis que seu rosto está brilhando”. Rav Yochanan retrucou: “Talvez ele tenha achado um novo ensinamento na Torá”. Os discípulos de Rav Yochanan foram até Rabi Avahu e perguntaram: “Que novo ensinamento você aprendeu?”, ao que Rabi Avahu respondeu: “Uma antiga Tosefta”. Diz-se de Rabi Avahu: “A sabedoria de uma pessoa ilumina seu rosto”. Talmud Yerushalmi, Shabat Capítulo 8, Halachá 1 Talmud Bavli 54b

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Página anterior: A Tosefta para o Seder Mo‘ed, 1400-1499, exemplar da British Library.

embro de um episódio bastante traumático que aconteceu comigo enquanto ainda adolescente e que poucas vezes contei a alguém. Eu tinha 16 anos quando uma bomba do terrorismo islâmico, contando com a cumplicidade e a corrupção do governo argentino, destruiu o centro mais emblemático da comunidade judaica na Argentina. Ali me encontrava eu, numa montanha de escombros, tirando pedras e mais pedras de forma atabalhoada, procurando ansiosamente por algum indício de vida. Mas cada vez que minhas mãos encontravam um livro, e não importava qual era, se em espanhol, hebraico ou ídiche, livro de religião ou de qualquer outro assunto, eu fazia uma pausa e com cuidado colocava-o de lado, no intuito de salvá-lo também.

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Fiz isso algumas vezes até que um soltural da comunicação oral, expresso pelo Joga-se no lixo muita dado israelense, que tinha viajado desde a dito brasileiro: “Quem conta um conto riqueza. Perdem-se terra ancestral do povo do livro, se aproaumenta um ponto”. muitas oportunidades ximou de mim com um olhar de reproNesse sentido, o trabalho de Rabi pela impaciência e vação e falou: não é para isso que estamos Yehuda foi fundamental e superlativo, aqui. Estamos aqui para salvar vidas. mas também não podemos desconhecer pela soberba de pensar Concordei inteiramente com a crítica que foi arbitrário. Compilar é o exercício que “já sei e tenho do soldado e talvez por isso essa história de reunir numa mesma obra partes ou estudo o que preciso”. tenha ficado escondida na minha memótratos procedentes de fontes diversas e a ria até agora. Mas igualmente reconheço atividade de Rabi Yehuda envolveu tamque aquele jovem (eu) buscava preservar uma identidade, bém uma seleção. cuja sobrevivência também estava ameaçada e cujo destino Nos informa um texto de Alieza Salzberg: “Acreditarepousa na decisão de cada um que a toma em suas mãos. -se que o Rabi Yehuda ha Nassi compilou a Mishná tomanEu seguramente errei quanto ao momento e à urgêndo muitas decisões editoriais, incluindo mudanças no idioma, cia, mas não quanto à certeza de que não obstante o préno formato e dando voz às posições que melhor se encaixavam dio ter sido derrubado, se as palavras continuassem vivas em sua visão de mundo1.” A tarefa de Rabi Yehuda, além de preservar o compilaelas seriam uma pequena vitória sobre a bomba. do na Mishná, ao mesmo tempo confinou ao esquecimenSe a palavra, seja ela falada ou escrita, é a chave da conto o material que ele não incorporou à sua obra. Material tinuidade judaica, então o resgate do livro também tem este que era tão prolífico que superava em mais de três vealgo de missão sagrada. zes o volume do material introduzido na Mishná. E eu sei que foi exatamente isso que meus avós fizeram E assim, como a obra canônica tem como objetivo prequando, entre os poucos pertences que salvaram da Euroservar a palavra, o que fica de fora resulta apócrifo e porpa nazista, trouxeram alguns livros. E sei também que foi tanto desconsiderado e abandonado. esse mesmo senso de dever sagrado que impeliu alguns sáA definição para “apócrifo” é: “Texto religioso que cabios, há dois mil anos, resgatar a Tosefta da escuridão. Eles rece de autoridade canônica” (um conceito que se encaixa sabiam-se guardiões de uma luz que ainda tinha muito perfeitamente na Tosefta), mas no mesmo dicionário há um que iluminar. outro significado referente ao reino da literatura, segundo O que é a Tosefta e qual será aquela luz? o qual “apócrifo” quer dizer “obra ou fato não autêntico, falsamente atribuído a determinado autor; falso, suposto”.2 Tosefta significa literalmente “um adicional” ou “um Acontece que o judaísmo cimentou suas bases a partir suplemento” à tradição haláchica e hagádica. do pluralismo e da diversidade. Então, qual sábio poderia No final do século II da era comum, Rabi Yehuda ha dormir tranquilo sabendo que uma imensa montanha de Nassi, realizou a monumental tarefa de compilar Mishná, ideias e raciocínios, emoções e argumentos, tão interessano registro das discussões entre os rabinos, uma obra funtes quanto inéditos, acabariam se perdendo? damental que serviria como base para o que posteriormenQuando eles viram isso3, resolveram se dedicar à tarefa de compilar o material desprezado por Rabi Yehuda, que te viria a ser o Talmud. em qualquer outra cultura teria se perdido. Eles editaram a Até então a cultura que evoluiu do Tanach era transmiTosefta, o livro que reúne as opiniões rejeitadas pela Mishtida de boca em boca (por isso ela ainda se chama “oral” séculos depois de ter sido colocada por escrito), de mestre 1 https://www.myjewishlearning.com/article/Mishná-Tosefta/ – item “History of a discípulo. Rabi Yehuda entendeu que a vasta quantidathe Debate”. de de material disponível demandava uma editoração por 2 Essa definição é do dicionário eletrônico Michaelis. 3 De acordo com Talmud foi Rabi Hiyya, do circulo mais íntimo de discípulos do escrito, pois se sua conservação dependesse apenas da mepróprio Rabi Yehuda, quem tomou a iniciativa – ver Sahnedrin 33a – e entre os mória e repetição, em algum momento o material acabaeruditos há consenso que a Tosefta foi composta num período histórico bem prória se perdendo e/ou se corrompendo pelo fenômeno naximo ao da Mishná.

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Fragmento de Tosefta de uma geniza, Cambridge University Library.

ná, preservando versões não apenas tão relevantes quanto às da Mishná, senão que em muitos casos mais autênticas, pois são fontes mais próximas da tradição original, posto que não passaram pela caneta vermelha de Rabi Yehuda. Mais uma vez nos informa Alieza Salzberg: “Para as mentes curiosas dos rabinos talmúdicos, as opiniões não canonizadas não estavam fora dos limites, apesar de terem sido nomeadas baraitot – estrangeiras. O debate talmúdico ultrapassou a tentativa da Mishná de se revestir de autoridade legal, da mesma forma como o comentário sobre os textos judaicos continuou a florescer ao longo dos séculos4.” Em muitos aspectos, a Tosefta e a Mishná são idênticas, mantendo uma mesma estrutura, o mesmo idioma (hebraico), as mesmas regras legais e os mesmos Tanaítas (denominação dos rabinos daquele período) citados na Mishná. 4 https://www.myjewishlearning.com/article/Mishná-Tosefta/ – item “On Canonization”.

A história escrita também pelos perdedores Temos uma cultura fantástica! Ela não permite que aquilo que não foi considerado legal ou autêntico por uma geração (ou por um grupo de gerações) seja desprezado, na esperança que sirva como lição para outras gerações, Nada é perdido! Nem as opiniões perdedoras, pois elas podem ter valor no futuro. Diz-se que a história é escrita pelos vencedores, mas no caso do judaísmo, os perdedores também a escrevem. Este é um fiel retrato da cultura judaica. Uma cultura inclusiva e diversa, na qual os vencedores e os vencidos têm a mesma oportunidade de serem ouvidos. Um dos pilares do sucesso do Estado de Israel como uma “Start Up Nation” é o não esmorecimento diante dos fracassos, é a recusa em descartar os que falharam em suas primeiras tentativas, em considerar também o que foi rejeitado. A obstinação dos sábios que compilaram a Tosefta parece ter criado um dos motores que impulsiona o frené-

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tico desenvolvimento da ciência e da tecnear, que avança até chegar ao ponto máA Tosefta é o livro nologia que experimentamos hoje. sagrado do profano. Que ximo. Ela é um conjunto de construções, O judaísmo não se apressa em descarcom idas e voltas, com contradições, verentrelaça o apócrifo e o tar senão que se ocupa em reciclar. Jogar dades e outras verdades, e outras e outras. revelado, o rejeitado e o Todas verdades, mas nenhuma absoluta. fora o que acreditamos não precisar agora é símbolo de imaturidade. A Tosefta é o livro sagrado do profano. resgatado. O divino e o Temos a tendência a descartar muiQue entrelaça o apócrifo e o revelado, o humano dialogando no to rápido o que não se encaixa na nosrejeitado e o resgatado. texto. Os vencedores e sa visão de mundo. Descartam-se ideias, O divino e o humano dialogando no os vencidos. E resgata opiniões, experiências e relacionamentos. texto. Os vencedores e os vencidos. E reso que estava destinado Joga-se no lixo muita riqueza. Perdem-se gata o que estava destinado ao esquecimuitas oportunidades pela impaciência e mento. ao esquecimento. pela soberba de pensar que “já sei e tenho Há tanta beleza na vida, tanta verdatudo o que preciso”. de, tantas oportunidades que se perdem! Ninguém as enJá nossos sábios sabiam que para ter tudo era preciso xerga. Passamos por alto. Descartamos sem pensar duas veter um colega com quem discordar, com quem discutir, a zes condenando à escuridão o que poderia ter iluminado quem desafiar. Era preciso ser desafiado, exposto e testado. revelando-nos um mundo diferente. Qual empresa, qual comunidade, faz isto? Quem preA história da Tosefta é fascinante pois ela nos ensina que serva o que deu errado, quem preserva o que foi rejeitado ganhar e perder, que absorver e descartar, que abraçar e repela maioria? A minha resposta é: as que têm sucesso, pois jeitar, são de fato exercícios que praticamos de forma peras que aprendem com os erros têm condição de avançar. manente e simultânea ao longo da vida. Sabem o que me comove especialmente na Tosefta? Em qualquer outra cultura, as palavras da Tosefta jaOs sábios que recolheram entre as cinzas ensinamentos mais teriam sobrevivido. derrotados antes que fossem perdidos nas sombras apócriMas, no judaísmo, preservar todas as vozes, especialfas do esquecimento. Eles acreditavam no valor do resgate mente as dissonantes, é parte inseparável da vida. Desde sem se importar nem com o autor do texto nem com seu que o judaísmo se estruturou como povo, na saída do Egiconteúdo. Até mesmo os filhos e discípulos de Rabi Yehuto, ele se comprometeu a cuidar dos despossuídos, se ocuda ha Nassi constam da Tosefta, não obstante terem sido pou em preservar a voz das minorias, dos mais retraídos, excluídos pelo pai e mestre da narrativa oficial. Não imdos que não prevaleceram, qualquer que seja o motivo. portava aos “tosafistas” se o texto era a favor do ou contra Tantos discursos vão ficando pelo caminho, mas quano que pensavam. Ao costurar cada fragmento permitiram do um sábio os descartam outros vêm atrás e os recolhem que chegassem até nós todas as palavras. com paciência devolvendo-os ao lugar que lhes pertencem – ao altar da memória, do consagrado, para que ouO mais judaico dos livros tras mãos e outras vozes as possam continuar estruturando, um futuro de dialética e reflexão. Uma prática que dê Talvez por isso a Tosefta seja o mais judaico dos livros. sentido a tanto esforço e erudição. Porque ele ensina a mais judaica das lições: o valor do reA Tosefta é um livro antigo, muito antigo, mas é tamtorno, do arrependimento, das segundas oportunidades, bém um livro novo. Toda vez que nós, eu ou você, damos de que nada é definitivo, de que sempre há uma forma de valor à Tosefta, passamos a ser seus autores à nossa próvoltar. O valor supremo da esperança. Que nada nem ninpria imagem. E à imagem dos sábios. E à imagem de Rabi guém é condenado ao esquecimento. É isso que animou Yehuda. E à imagem de Deus. os compiladores da Tosefta e é isto que anima e distingue O Rabino Dario E. Bialer serve na ARI – Associação Religiosa Iso mundo judaico até hoje. raelita do Rio de Janeiro. A evolução não é necessariamente uma construção li-

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Revista da Associação Religiosa IsraelitaA R I   |  d e v a r i mDE   | CADA 15 UM O EXTRAORDINÁRIO


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NOMEAR O QUE NÃO TEM NOME Rabino Sergio Bergman

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ssim como o D’us1 de Israel se manifesta em múltiplas formas e seus setenta nomes são aproximações à sua essência como nomes que não o nomeiam, que não podem contê-lo ou abrangê-lo em sua onisciência, onipotência e onipresença, poderíamos dizer, da mesma maneira, que a Shoá manifesta a ausência mais absoluta de D’us. É de forma análoga, por oposição, o termo hebraico para nomear o que não tem nome. Como expressar esse horror devastador e colocar em uma palavra o assassinato sistemático em escala industrial de seis milhões de judeus – incluindo mais de um milhão e meio de crianças – que a tecnologia da morte alemã gerou sob o comando do nazismo – na Europa ilustrada e civilizada, diante da indiferença do mundo –, negando a dignidade humana e eliminando os outros pelo fato de serem diferentes? Foi uma perseguição que começou racista, continuou com a eliminação de pessoas com deficiência, estendida a homossexuais, ciganos e opositores do regime; e alcançou um nível de antissemitismo em escala sem precedentes. A Shoá2 devastou a vida judaica europeia e fez com que uma nação culta, 1 De acordo com a religião judaica, o nome de D’us não se escreve com todas as letras, pois não há representação Dele. Como a linguagem constrói a realidade, escrever a palavra “deus” significaria limitá-la em sua limitação e sua perfeição de ser, nomear o inominável, descrever o indescritível, humanizar o transcendente. É um valor positivo de respeito e de consideração. 2 Shoá é o termo hebraico usado no Tanach para nomear a destruição incontrolável; a calamidade; a catástrofe (aparece pela primeira vez em Yeshaiahu / Isaías 10:3).

Enquanto a Shoá expressa o que não tem representação possível em sua dimensão de horror, não há dúvida de que o termo geralmente usado para nomear essa experiência aterradora de degradação do ser humano é inaceitável. A Shoá não foi um holocausto.

Página anterior: Monumento ao Holocausto em Berlim, Alemanha. Foto: Nathalie Ventura

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que, degradada, permitiu que não apeUm holocausto, em sua etimologia Não foi holocausto o que nas os nazistas, mas toda a sociedade alese deu por encerrado há grega, significa algo completamente queimã – como a dos países ocupados –, parmado. Na esfera religiosa, é o sacrifício de 75 anos quando Auschwitz ticipasse com entusiasmo ou indiferenanimais, cujos corpos são completamenfoi liberado. Foi Shoá – ça da execução dos judeus pelo simples te consumidos no fogo como uma oferenfato de sê-lo. da à divindade. que não será uma ação O nazismo não eliminou apenas juA Bíblia menciona cinco tipos de samilitar de libertação, mas deus; mas o judaísmo foi a única razão crifícios (ofertas) a D’us: o holocausto, a cultural de evolução –, pela qual seis milhões de seres humanos oferta de cereais, a oferta de paz, a oferta que terminará quando a foram condenados. Eles não eram inimipelo pecado e a oferta expiatória. gos, não ocupavam territórios estratégi- humanidade for humana e São eles: cos, não opunham resistência ao domí•  Olá, holocausto, é voluntária, é uma todos assumirmos que o nio do Reich, mas eram, isto sim, testeexpiação de pecado não intencional, perigo ainda não acabou. munhas de séculos de perseguição e, ao expressando amor e devoção a D’us mesmo tempo, de resiliência e continui(Vaykrá / Levítico 1:3-17, 6:8-13). dade de uma civilização religiosa que põe à prova o desafio • Minchá, a oblação, é voluntária, expressa amor, graa uma humanidade que ainda não é humana. tidão e devoção a D’us (Vaykrá / Levítico 2:1-16, Enquanto a Shoá expressa o que não tem representa6:14-18, 7:12-13). ção possível em sua dimensão de horror, não há dúvida de • Shalom, a oferta de paz, é voluntária, expressa paz, que o termo geralmente usado para nomear essa experiêncomunhão e gratidão a D’us (Vaykrá / Levítico 3:1cia aterradora de degradação do ser humano é inaceitável. 17, 7:11-21, 7:28-34). A Shoá não foi um holocausto. Usar esse termo é uma li• Chatat, causado por pecado, é obrigatória, expressa cença que não podemos conceder. a confissão de um pecado não intencional específi-

Acima: Monumento ao Holocausto em Berlim, Alemanha. Foto: Nathalie Ventura Na página seguinte: Memorial exibe fotografias de judeus assassinados no Holocausto em antigo prédio do gueto de Varsóvia, Polônia.

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Monumento e fachada do Museu do Holocausto na cidade de Skopje, Macedônia.

co e busca o perdão de D’us e a purificação quando não há possibilidade de restituição (Vaykrá / Levítico 4:1-5 13, 6:24-30). • Asham, a expiação, é obrigatória, expressa a confissão de um pecado específico não intencional ou intencional, mas confessado voluntariamente, sendo a restituição possível e obrigatória (Vaykrá / Levítico 5,14:6,7, 7:1-7). Entendendo, então, que esses são os diferentes sacrifícios-ofertas especificados no Livro de Levítico, como é possível igualar a Shoá a essas categorias? Eu insisto: não podemos aceitar o termo holocausto. Não foi esse o caso. O que aconteceu é uma Shoá, uma catástrofe que arrancou a existência e a vida de maneira violenta e comovente, em uma confirmação retumbante de que a humanidade – por ação e omissão – perdeu esse atributo ao aniquilar com plena consciência e intenção outros seres humanos, apenas por serem judeus. Uma expressão exponencial de um antissemitismo que já tinha raízes antigas nos Pais da Igreja; e se estende até hoje em manifestações de negação. Não foi holocausto o que se deu por encerrado há 75 anos quando Auschwitz foi liberado. Foi Shoá – que não será uma ação militar de libertação, mas cultural de evolução –, que terminará quando a humanidade for humana e todos assumirmos que o perigo ainda não acabou. Não terminou para os judeus, nem até os dias de hoje, quando

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somos capazes de assistir em silêncio cúmplice como outros seres humanos são eliminados por serem diferentes. Todos juntos, e não por sermos judeus, mas humanos, somos testemunhas de que o monstro mudou, que continua a sofrer mutações e que vive ativo ou latente entre nós, sempre. Não esquecer é o que devemos aos mortos e à memória dos Shoá. Sergio Bergman é rabino e vive em Buenos Aires. Formado pela Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade de Buenos Aires (1986); Mestre em Educação, Sum Cum Laude, pela Universidade Hebraica de Jerusalém (1993); Mestre em Estudos Judaicos no Seminário Teológico Judaico (1992) e Mestre em Literatura Rabínica no Hebrew Union College (1993). Presidente da Fundación Argentina Ciudadana, uma organização da sociedade civil dedicada a promover a participação ativa e o envolvimento do cidadão. Recebeu inúmeros prêmios concedidos por organizações nacionais e internacionais em reconhecimento ao seu desempenho acadêmico e seu contínuo trabalho social. Ele é autor de sete livros, entre eles: Cidadão da Argentina com textos bíblicos, com prólogo do então cardeal Jorge Bergoglio. Foi legislador da cidade e se tornou o primeiro rabino do país eleito para uma posição representativa. Em 2013, ele atuou como deputado nacional. Com a ascenção de Mauricio Macri à presidência da Argentina em 2015, foi nomeado chefe do Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Nação. Traduzido do espanhol por Raul Cesar Gottlieb.


Wilkimedia Commons

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ESPIRITUALIZANDO E MODERNIZANDO A LEI ANCESTRAL Entrevista de Alyssa Gray a Joshua Holo

Introdução

O Talmud insiste que mesmo a pessoa pobre deve dar tsedaká. Isso diz algo sobre o que é este processo, pois ele empodera a pessoa com menos recursos e faz com que ela faça parte integral da narrativa judaica, que ela não seja diferenciada.

Caixa de tsedaká da sinagoga de Oberdorf, Alemanha.

T

ive a oportunidade de entrevistar a Dra. Alyssa Gray, professora de Talmud no Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, numa conversa que abrangeu os vértices mais inspiradores do Judaísmo Reformista. A riqueza do Judaísmo Reformista tem pelo menos duas raízes: a cultural e a intelectual. Dentro do quadro da cultura, ele assumiu uma atitude fundada na autoconfiança. Temos fé na profundidade e eternidade da nossa tradição literária e histórica. Portanto, não tememos o abraço de outras culturas, com suas próprias fontes de sabedoria, porque este abraço não nos ameaça; aliás, possibilita um intercâmbio de enriquecimento mútuo. Por outra parte, Judaísmo Reformista, e junto com ele toda a secular civilização judaica, se enraizou no Novo Mundo com uma base intelectual e acadêmica desenvolvida no Hebrew Union College (HUC). Lá estudiosos treinaram e ainda treinam os futuros rabinos, hazanim, morim, e líderes comunitários para o Judaísmo contemporâneo, para o movimento Reformista e além. HUC serve, também, como o berço intelectual das ideias que movimentam o entendimento atual da nossa tradição milenar. Em parceria com o HUC, as sinagogas filiadas à UJR (União do Judaísmo Reformista Latino-Americano) estão trabalhando para realizar uma instituição local com os mesmos propósitos. Esta entrevista, de dezembro de 2019, com a Professora Gray aborda a forma com que interagimos hoje com milênios de literatura e experiência judaicas,

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para dar mais significado aos nossos atos e escolhas diárias — começando com o espírito de generosidade embutida na mitsvá da tsedaká. A entrevista foi editada e adaptada especialmente para a Devarim. O original faz parte do College Commons Podcast, produzido pelo HUC e por mim, Joshua Holo, reitor do campus em Los Angeles. Ela tem acesso liberado em collegecommons.huc.edu.

Penso ser possível e desejável não pensar na lei judaica como sendo lei. Ela é o reino do comportamento judaico. É a descrição do que os judeus fazem.

JH: A religião, como entendido pela língua inglesa [e portuguesa] conota espiritualidade. Já a lei tem outras conotações. Pergunto, então, se há um desafio para os judeus se conectarem com sua tradição por causa da preferência da tradição pelo pensamento legal sobre o pensamento espiritual. AG: Temos que avaliar o significado dos termos “lei” e “legal”. A halachá descreve o caminho da conduta judaica. É a literatura que descreve os atos, o comportamento judaico. Digamos que você consiga voltar no tempo e fazer um podcast do College Commons com um dos nossos grandes juristas da Idade Média. Ao lhe perguntar o que ele faz quando escreve suas “Responsas” (respostas legais a perguntas), ele lhe dirá que está explicando a Torá. Ele está falando sobre a Torá, ele está falando sobre o reino de Mitsvot na Idade Média. O ponto ao qual eu quero chegar é que usar a palavra “lei” para definir “halachá” é uma construção moderna. Não é uma construção imprecisa, mas a questão que você insinua em tua pergunta deve levar em consideração outros aspectos. O “United States Code Annotated”1 é um código. Seus estatutos foram aprovados por uma legislatura, o Congresso dos Estados Unidos, eles foram assinados pelo presidente da nação. Já os grandes códigos da lei judaica foram produzidos por grandes estudiosos de forma autônoma. Eles são autores. A autoria deles não é igual ao nosso conceito moderno de autoria, ou seja, não é uma criação literária. Em alguns casos há um extenso trabalho de coleta, consolidação, filtragem e apresentação, mas eles são basicamente autores. Suas obras não são códigos. 1 O “United States Code Annotated” é a consolidação, codificada por assunto, da lei dos Estados Unidos. Ele é mantido pelo “Office of the Law Revision Counsel” da Câmara de Deputados dos Estados Unidos.

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Começamos no século 18 a pensar nestas obras em termos de legislação e existem hoje muitos estudiosos na área da lei judaica. Todos usam coloquialmente esse termo, mas ela não é lei no sentido moderno e essas compilações não são leis no sentido moderno. Existem diferentes definições de lei. Há o positivismo jurídico que diz que a lei é o que o soberano diz que é. Não tenho certeza se isso realmente funciona para a lei judaica. Penso ser possível e desejável não pensar na lei judaica como sendo lei. Ela é o reino do comportamento judaico. É a descrição do que os judeus fazem. Essas compilações são, como já argumentei outras vezes, uma excelente literatura! Elas incluem mensagens e percepções sobre como abordar as grandes questões da vida. Como pensar na vida. Não precisamos pensar nelas como sendo legislação. Olhando historicamente, ao analisar os processos que nossos juristas (eu sei que estou me contradizendo um pouco ao usar a palavra “jurista”, mas eu gosto mais dela do que dos termos concorrentes) usavam na época em que o Talmud da Babilônia se tornou aceito (entre o final do século 10 ao século 12) vemos que eles faziam interpretações. Eles interpretavam textos produzidos em épocas e locais diferentes e extrapolavam as mensagens desses textos trazendo-as para os seus dias, para a sua realidade. Ou seja, eles usavam processos que não são aderentes ao que classificamos como sendo o processo legal. Mas, mesmo se quisermos nos manter conectados ao modelo legal, se quisermos pensar na halachá como sendo o ato de um soberano, como sendo aquilo que um soberano nos promulgou, o objetivo final será identificar se essas são as mitsvot, se esses são os mandamentos de Deus. E essa maneira de trabalhar com esses mandamentos, de interpretar esses textos e de aplicá-los aos nossos dias é a nossa tentativa de discernir o que Deus deseja de nós, usando da melhor forma possível o nosso falível intelecto humano. Certamente muitos de nossos irmãos judeus veem a lei judaica como sendo um código tal como os demais códigos da atualidade, mas eu não penso que seja necessário ver a lei judaica desta forma. Para certos judeus liberais esta forma de pensar se tornou um obstáculo que, a meu ver, não precisa existir.


Monica Musatti Cytrynowicz

Caixa para coleta de doações para caridade dentro da Catedral de Quito, Equador.

JH: Eu gosto da sua aplicação de uma lente literária a esse conjunto de obras. Sem dúvida que há nelas uma preponderância das questões mais amplas da experiência humana e da conexão com Deus, que são ótimos temas literários. Contudo, embora não possamos chamar estas obras como sendo apenas do gênero legal, elas são implementadas como tal. Os autores se veem como juristas e como juízes num tribunal, eles estabelecem diretrizes a serem

seguidas e tomam decisões. Portanto, mesmo entendendo que a abrangência do gênero abre outras possibilidades, ainda acho difícil superar a natureza preponderante destas obras, que estão mais próximas de serem um compêndio jurídico do que boa literatura. AG: Você é um entrevistador muito bom, que não está me deixando fugir da questão central. Então volto ao tema usando uma passagem do Sefer HaChinuch, uma

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obra medieval de origem espanhola e de de). Quero entender mais sobre o seu liEssas compilações são, autor desconhecido. O livro é construícomo já argumentei outras vro e também observar o que a educação do como uma ficção na qual o autor está judaica nos ensina sobre a caridade. Ela vezes, uma excelente se dirigindo a alguém que ele chama de diz que o judaísmo não pratica caridade literatura! Elas incluem “Meu Filho”. A uma certa altura “Meu e sim tsedaká (justiça), que vai mais para Filho” questiona sobre a mitsvá de não mensagens e percepções o lado jurídico. Há uma mitsvá que te quebrar um osso na oferenda de Pessach. obriga a cuidar dos pobres e você cumpre sobre como abordar as “Por que precisamos desse nível de detagrandes questões da vida. a expectativa de Deus ao fazer essa prálhe? Por que não apenas contamos a histica, não importando o teu estado menComo pensar na vida. Não tória do Êxodo do Egito?”, pergunta ele. tal. Seu livro parece contestar isso. Queprecisamos pensar nelas ro lhe perguntar sobre isso à luz do que A resposta do autor responde a sua pergunta. Ele cita a frase “o humano é foracabamos de falar, o impulso entre o psicomo sendo legislação. mado por suas ações” e argumenta que cossocial e o espiritual, por um lado, e o nossos comportamentos nos educam molegal, pelo outro. ral e espiritualmente. Há uma espécie de esperança num AG: No primeiro capítulo do meu livro eu menciocírculo virtuoso – eu quero fazer a coisa certa, portanto cono brevemente o que eu acredito ser uma polêmica entre meço a fazer a coisa certa – eu quero fazer algo que, espea perspectiva judaica e a perspectiva cristã. O lado judaico ro, me trará mais perto de Deus, portanto faço o que em é “isso é tsedaká, é justiça” e a mensagem implícita é que centenas de gerações trouxe pelo menos alguns deles para esta visão é superior porque ela é ordenada, porque é jusmais perto de Deus. E espero que isso aconteça comigo. tiça. Já o lado cristão diz que, visto ser a prática ordenada, O cerne do argumento é que a ação educa as atitudes e as ela é inerentemente inferior à noção de Cáritas, de caridadisposições. Atitudes e disposições têm impacto sobre as de, de misericórdia, que surge voluntariamente na alma. ações. Então vemos que o lugar da lei nesse sistema é ajuEu deixo claro que essa polêmica existe e que ela é interesdar a nos comportarmos como as pessoas que sabemos que sante, mas logo vou além, dizendo que por razões de ecodevemos ser. Claro, como qualquer outra atividade humanomia linguística optei pela palavra caridade. Eu digo que na, ela não funcionará 100% do tempo. Mas nossos anum termo melhor seria “prestar assistência financeira ou cestrais nos legaram esse método porque ele funcionou. assistência em geral aos necessitados” mas isso seria certaHá uma mitsvá, um mandamento religioso, que obriga mente desajeitado e tive que optar por uma palavra. a dar tsedaká, independentemente da tendência da pessoa Entrando no assunto em si, a ideia de tsedaká como com relação à generosidade. Mesmo uma pessoa que não um comportamento ordenado inclui um elemento de seja naturalmente inclinada a ser generosa tem que fazê-lo. construção do caráter. Algo que sempre me impressionou Espera-se que com isso ela cultive um espírito de generosié a insistência do Talmud de que mesmo a pessoa pobre dade que supere a sua natureza. A esperança é que, ao me deve dar tsedaká. Obviamente, ela não vai dar da mesma forçar a praticar, espero chegar a querer fazer. E eu acho forma como alguém com mais recursos, mas ainda assim que isso funciona conosco, com os humanos. este é um mandamento religioso que vincula tanto o poPrecisamos de ação como forma de ajudar a nos edubre judeu como o judeu com recursos. E isso diz algo socar, ética, moral e espiritualmente. Fazer o que Deus quer bre o que é este processo, pois ele não apenas envolve a pesajuda a você se educar a tornar-se no que Deus quer que soa de menos recursos, mas ele a empodera, faz com que você seja. ela faça parte integral da narrativa judaica, que ela não seja diferenciada, o que é absolutamente vital. Os rabinos são JH: Obrigado por ter trazido a questão do alimento espimuito preocupados com não deixar a situação econômica ritual ou psicossocial que necessitamos para desenvolver prejudicar membros da comunidade judaica. uma categoria de pensamento que não é necessariamente Portanto, meu argumento definitivo em resposta à sua intuitiva. Eu quero, então, passar para um caso específipergunta inicial sobre o termo tsedaká é que é fascinanco: o objeto do seu novo livro, chamado Charity (Caridate ver sua multivalência, quantas tonalidades de significa-

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do ela assume na Bíblia e na Literatura Rabínica, e eu argumento que essas várias matizes de significado lançam luz uma sobre as outras, inclusive igualando-a à caridade. Tsedaká pode significar dar a alguém algo a que ele não tem direito inerente. Então, ao fazer tsedaká estou agindo em seu favor com uma espécie de graça. Esta não é uma ideia muito comum, mas está presente em algumas fontes rabínicas. JH: No cristianismo o conceito de graça é o de algo dado livremente sem componente transacional e contratual. E você está dizendo que a graça é a tsedaká que você dá a alguém à qual não deve nada, nem pela lei de Deus nem por troca contratual, mas simplesmente para dar, significando que a tsedaká contém esse componente relacional mais espiritualizado. AG: Sim, porque eu não sou obrigado a dar nada para aquele indivíduo naquele momento. Por uma outra matiz de significado, fazer tsedaká também é manifestar a minha justiça com relação a essa pessoa e também diante de Deus. E existem outros significados, como, por exemplo, não maximizar os subsídios, ou seja, me comportar com tsedaká em relação a alguém pode significar abrir mão de um direito que eu tenho, e assim por diante. Todos estes aspectos estão incluídos no conceito de tsedaká, e como os rabinos lidam com esses conceitos, a visão dos rabinos da terra de Israel versus a dos rabinos da Babilônia, é a minha matéria de estudo, é o restante do livro. JH: Certo! Inscreva-se como estudante de rabinato e saiba mais. O que você está dizendo é que esses outros usos da palavra tsedaká nos forçam a entender que seu significado é multifacetado e mais espiritualizado do que a maneira que aprendemos na escola judaica. AG: Correto. JH: Quero abordar outro tema. Você e eu somos professores na instituição de ensino superior do Movimento Reformista e, apesar de estarmos comprometidos com todos os nossos semelhantes, judeus e não judeus, temos um compromisso especial com esse fenômeno do judaísmo que chamamos de Judaísmo Reformista, no qual a autonomia se confronta com a obrigação. Negociamos constantemente entre estes dois polos. Quero perguntar a você sobre essa negociação, não em termos de uma regra

Caixa de tsedaká em prata decorada da sinagoga de Charleston, EUA, 1820. Coleção do National Museum of American Jewish History.

específica, mas por que os aderentes da Reforma devem aprender o corpus tradicional que você e eu ensinamos, que, exceto por alguns elementos de grandeza literária e de fácil acesso emocional, são fundamentalmente opacos e demandam anos de estudo para serem penetrados. Perdoe a grosseria, mas qual é a proposta de valor, em nosso contexto específico, do Talmud, dos códigos, etc. AG: Eu penso que da mesma forma como um ser humano não é saudável se não tiver um senso de si que inclua também as partes de sua vida sobre as quais sente mais ambiguidade ou ambivalência, uma cultura ou civilização não pode ser saudável se cortar uma parte do que a transformou no que ela é, se simplesmente decidir descartá-la. Alguns dos primeiros reformistas eram eruditos, eles estudaram a tradição, tinham a noção do que estavam aceitando e rejeitando, mas, para nós, como cultura e civilização, não penso que este corte seja saudável. A menos que tomemos a decisão de começar uma outra religião, religião que parecerá judaica em forma e conteúdo e que talvez seja adjacente ao judaísmo, o judaísmo da modernidade, que seria um herdeiro do judaísmo rabínico. Se tomarmos essa decisão, então podemos descartar aquele estudo, mas como não tomamos essa decisão, como nos considerarmos parte da histórica civilização judaica? Não poderemos ser saudáveis sem abraçar aquele estudo.

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Claramente, mesmo os currículos mais tradicionalistas não abrangem necessariamente todos os aspectos, mas precisamos nos envolver naquela literatura. O judaísmo que praticamos hoje, seja qual for o rótulo que colocarmos nele, é herdeiro daquela herança e devemos estudá-la. Agora, o que as pessoas fazem com ela e com a autonomia são temas sempre presentes e palpitantes, que você e eu não vamos resolver nessa conversa, embora eu tenha certeza que se tivermos mais tempo, sim, poderíamos resolver. Mas o certo é que fazemos parte do povo judeu e precisamos estudá-la. O que eu descobri anedoticamente é que os alunos que se interessam mais pelo estudo do cânone talmúdico e haláchico se encontram, por falta de uma palavra melhor, “obrigados” de uma maneira que não tinham antes. Isso não significa que eles se tornam ortodoxos em suas práticas ou crenças, mas eles levam mais a sério a noção de que a autonomia deve ser bem informada e eles abordam seu comportamento judaico com mais intenção, que é o ideal da Reforma.

Deus. Você Ovadiah, que escolheu esse caminho, tem esta ligação com Deus”. Eu tenho alunos que leem partes da carta a Ovadiah o Guer quando servem em tribunais de conversão. Ela é uma declaração muito, muito bonita, não apenas pela igualdade espiritual inerente a todos os seres humanos, mas também pelo esclarecimento de Maimônides ao povo de Israel que nós que nascemos de famílias judias, que somos judeus por herança, e aqueles que escolheram se juntar a nós, somos todos realmente uma única família. Ouvir isso de um personagem tão elevado como Maimônides é muito poderoso.

A ação educa as atitudes e as disposições, atitudes e disposições têm impacto sobre as ações. O lugar da lei nesse sistema é ajudar a nos comportarmos como as pessoas que sabemos que devemos ser. Nossos ancestrais nos legaram esse método porque ele funcionou.

JH: Peço que você termine esta entrevista com uma pepita de ouro, uma história ou ideia lindamente composta da literatura que você estuda e ensina, algo que a inspira. AG: Gosto muito de uma história que não tem nada a ver com a tsedaká. É de Maimônides, o grande jurista e filósofo do século 12, sua carta a uma pessoa apelidada de Ovadiah o Guer (o Convertido). Ovadiah estava abalado por conta de um rabino que fez críticas sobre a prática idólatra de seu passado. Ovadiah se sentiu muito mal e perguntou a Maimônides se poderia recitar a frase da reza “nosso Deus e Deus de nossos antepassados”. Maimônides se lança numa bela e fascinante explicação, onde ele basicamente diz: “Ovadiah, você não apenas pode, como deve fazê-lo. Na verdade, Ovadiah, você é ainda melhor do que nós, judeus hereditários; veja, nós somos descendentes de Abraão, Isaac e Jacó, mas você está ligado diretamente a

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JH: Essa é realmente ótima. Você conhece a história apócrifa de Louis Brandeis? AG: Não, não.

JH: Ela é assim: Louis Brandeis foi o melhor aluno de sua turma em Harvard no final do século 19, quando havia um antissemitismo difuso na universidade. Ele recebe algum tipo de honraria e ao agradecer o prêmio, vai ao pódio e diz: “Me desculpem por ter nascido judeu”. Todos se levantam chocados e começam a aplaudir pensando: “Ótimo! Ele tem vergonha de ser judeu”. E Brandeis continua assim: “Sinto muito ter nascido judeu, porque ao nascer judeu, me foi negado o privilégio de poder escolhê-lo”. AG: Uau, isso é fantástico, sim! Ele é maimonidiano nisso. JH: Mas tenho certeza que não é verdade, parece bom demais para ser verdade! Alyssa Gray, obrigado por se juntar a mim, foi realmente um prazer conversar contigo. AG: Obrigado Josh, obrigado por me receber. Alyssa Grey é professora de Talmud no Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion. Joshua Holo é reitor do Campus de Los Angeles do Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion. Transcrito, traduzido e editado por Raul Cesar Gottlieb.


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BRURIA, A ERUDITA Excerto do livro Mujeres del Talmud, publicado em 2019

Rabino Uriel Romano “As portas da sabedoria nunca estão fechadas” Benjamin Franklin

B

ruria é uma das poucas mulheres na literatura rabínica clássica que tem nome próprio e independência. Mesmo sendo em muitas ocasiões chamada “filha de” ou “esposa de”, em várias fontes Bruria aparece apenas com seu nome, mostrando assim a sua fortaleza individual e singularidade em um mundo cuja liderança é predominantemente masculina. Ela foi uma erudita em uma sociedade na qual o estudo e o ensino era um terreno exclusivo dos homens. Quem foi Bruria? Vamos descobri-la juntos. Há aproximadamente quarenta anos, Bruria era tomada como uma única personagem, filha do Rabi Hanania ben Teradion (um dos dez mártires assassinados pelos romanos) e esposa do grande sábio Rabi Meir. No entanto, através da análise crítico-literária e de uma revisão das fontes rabínicas sobre Bruria, o acadêmico David Goodblatt sugeriu que, historicamente, existiram em realidade três mulheres (a filha do Rabi Hanania ben Teradion, a esposa do Rabi Meir e Bruria), as quais foram então unificadas em uma única personagem mítica conhecida apenas como Bruria (Goodblatt, 1975, p. 68-85). Deixando de lado os debates acadêmicos a respeito, o mais importante é que os autores e redatores dessas histórias queriam transmitir uma mensagem (ou mensagens) a seu círculo e público através da figura de Bruria. Se houvesse rabinas há aproximadamente dois mil anos, Bruria certamente teria sido a maior do colegiado de mulheres eruditas e mestres da lei. Até mesmo o seu nome (ou quem sabe seu apelido) faz alusão à sua sabedoria: Ba-

Se houvesse rabinas há aproximadamente dois mil anos, Bruria certamente teria sido a maior do colegiado de mulheres eruditas e mestres da lei. No imaginário rabínico, ela representa o fascínio e o perigo de uma mulher erudita.

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rur-Iah, “Clareza divina”. Bruria não apeinício do século II EC.) não era um sáBruria não queria viver nas era capaz de compreender a lei de forbio qualquer. Era um dos eruditos mais no mundo destinado ma clara e transparente, como também de importantes do centro rabínico em Israel às mulheres, no lar e transmiti-la em forma límpida e simples. da sua época. Ele queria ir à cidade de na cozinha, criando os Bruria é lembrada como uma erudita que Lod. Ao se encontrar com Bruria, ele utinão tinha problemas em fazer escutar a liza quatro palavras para perguntar a ela seus filhos e cuidando sua voz e sua opinião em um mundo dodo marido. Ela quis viver que caminho deveria tomar. Bruria, sem minado pelas vozes graves dos homens. papas na língua, cita a ele um conhecido dentro das paredes das O Rabi Iochanan a menciona como uma provérbio misógino do Pirkei Avot atriacademias rabínicas, mulher de uma memória prodigiosa e de buído a Iosse ben Iochanan: “Não prolonnaquele mundo aguda inteligência, capaz de aprender e gues o diálogo com uma mulher” (1:5). De reter trezentas halachot de trezentos sáacordo com o pensamento rabínico clásdominado por homens. bios diferentes em apenas um dia (Pessasico, os homens não devem falar muito chim 62b). De acordo com o programa de estudos rabínicom as mulheres, senão o estritamente necessário, para não cos, cada estudante deveria aprender diariamente algumas se distrair dos seus estudos e para que a conversa não leve a poucas halachot para, então, repeti-las no Shabat. outra coisa… Bruria, com seu temperamento, diz ao Rabi Bruria não era apenas uma erudita, mas uma mulher Iossi Hagalili que ele deveria ter usado apenas duas palaque se fazia escutar. Quando os sábios discutiram acerca de vras (em hebraico) para perguntar a ela o caminho. uma questão envolvendo pureza ou impureza de um objeBruria é apresentada nessa história com a mesma duato, Bruria expressou sua opinião, que foi logo estabelecida lidade com a qual será apresentada em diferentes ocasiões como lei; inclusive o Rabi Ioshua disse: “Bruria falou corna literatura rabínica. No imaginário rabínico, ela repreretamente” (Tosefta Keilim Metzia 1:3). Em outra ocasião, senta o fascínio e o perigo de uma mulher erudita. Por um os sábios discutiram sobre quando exatamente um forno lado, os sábios admiram e enfatizam a sua erudição. Por estava suscetível a receber impureza ritual. Durante a disoutro, querem controlá-la e mostrar o quão perigoso isso cussão, é citada a opinião do filho do Rabi Hanania ben pode ser. Nessa história, o relator nos mostra uma Bruria Teradion, mas logo em seguida dão também a opinião de extremamente temperamental, erudita e violenta ao messua filha que, de acordo com a leitura tradicional não crítimo tempo. Ela tem a capacidade e a sagacidade para resca, era Bruria. E é então que o Rabi Iehuda ben Brava diz: ponder ao Rabi Iossi Hagalili instantaneamente, com uma “A fala da sua filha é melhor do que a do seu filho” (Tosefcitação do corpus da tradição oral rabínica. Em um munta Keilim Kama 4:9). Neste caso, Bruria não apenas não do de homens, Bruria não apenas não deveria comporteve medo de expressar sua opinião, como também não se tar-se daquela maneira tosca – uma característica tão imabsteve de criticar a posição legislativa do seu irmão. Com própria para uma mulher judia cujo lugar estava dominaessas informações em mente, passemos agora a apreciar as do pelo silêncio e a modéstia –, mas também deveria adohistórias mais famosas da mulher mais notória e recordatar para si os preconceitos de gênero e a misoginia rabínida do Talmud. ca para poder usá-la contra os sábios. Ela pediu a ele que falasse menos, sendo que é ela quem Irônica, zomba da inferioridade da mulher extende a conversa e o insulta, chamando-o “Galileu tolo”. E o pior de tudo: jamais lhe responde aonde está Lod! Rabi Iossi Hagalili ia pelo caminho e se encontrou com Bruria gosta de jogar com os limites, de mostrar seus coBruria. Ele perguntou a ela: Qual é o caminho que devenhecimentos e revelar-se superior ao establishment rabínimos tomar para chegar a Lod? Ela respondeu-lhe: Galileu co. Aparentemente, este não é um caso isolado, como veretolo! Acaso os sábios não disseram: “Não prolongues o diámos. Bem próprio da composição literária e organizacional logo com uma mulher”? Deverias apenas ter dito “Aonde do Talmud Babilônico, agora o editor insere outra história Lod?” (Eruvin 53b/54a) de características similares que têm novamente a Bruria e O grande Rabi Iossi Hagalili (Taná, terceira geração, seu temperamento como protagonistas.

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Atrevida, empodera-se dos espaços masculinos Certa vez, Bruria se encontrou com um estudante que estudava sussurrando. Ela o agrediu e disse-lhe: Acaso não está escrito: “Bem ordenado em tudo e bem seguro” (II Samuel 23:5), o que significa que se a Torá estiver ordenada em seus 248 membros, ela estará segura; caso contrário, não estará. (Eruvin 53b:25) Nesse segundo relato, Bruria irrompe o santuário masculino rabínico da academia de estudos. Ao que parece, ela transita por ali como se fosse sua própria casa, repreendendo a um estudante por estar estudando aos sussurros, quando a tradição rabínica ordena que os estudos sejam repassados em voz alta, para que os conhecimentos sejam incorporados. Bruria não queria viver no mundo destinado às mulheres, no lar e na cozinha, criando os seus filhos e cuidando do marido. Ela quis viver dentro das paredes das academias rabínicas, naquele mundo dominado por homens, e talvez por isso, ela tenha sentido a necessidade de se assemelhar a eles com o uso da violência verbal (como

Erudita, ensina com empatia Na vizinhança do Rabi Meir havia alguns malfeitores que constantemente o incomodavam. Em uma ocasião, Rabi Meir pediu misericórdia ao Céu para que Deus os exterminasse. Então Bruria, sua esposa, diz ao Rabi Meir: O que você está pensando [ao rezar pedindo que esses malvados morram]? E o Rabi Meir responde: Porquanto está escrito (Salmos 104:35) “Sejam exterminados os pecadores da terra”; no entanto [diz Bruria] ali não diz chotim (pecadores), mas chataim (pecados) [uma leitura possível no hebraico sem a pontuação das vogais]. E mais, ao final do versículo diz: “E não haverá mais malvados”; por esta razão, deve-se rezar para pedir que eles se arrependam. Finalmente, Rabi Meir pediu misericórdia por aqueles malfeitores e eles se arrependeram dos seus atos. (Berachot 10a)

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na história anterior) e física (no presente relato). No relato seguinte será o seu marido quem receberá dela uma admoestação e uma aula.


Cansado de sofrer bullying dos malvata facilidade, de repreender aos mestres, A forma masculina de dos do seu bairro, Rabi Meir rezou e pecomo Rabi Iossi Hagalili, ao seu próprio eliminar os problemas diu a Deus que aqueles malfeitores morirmão ou mesmo, seu marido. No entané eliminando quem ressem, que fossem exterminados de uma to, outorgar tanto poder a uma mulher os provoca. A forma vez por todas. Atenta, Bruria escutou e, também era potencialmente perigoso em como sempre, exibiu seus conhecimentos um mundo dominado exclusivamente feminina, muito mais bíblicos e, de passagem, admoestou a seu por homens. Talvez tenha sido esse periefetiva, elimina a marido. Primeiro, e em um tom mais elego que tenha levado a um certo sábio mefonte do problema. gante e cordial do que nas histórias antedieval a criar um final trágico a Bruria. riores, nossa Bruria demonstra não apeTemida e atacada em sua reputação nas conhecimentos bíblicos, mas também das nuances da gramática hebraica, oferecendo outra leitura possível àque“Porquanto certa vez ela zombou de um provérbio rale versículo. Bruria chama a atenção para o fato de não ter bínico “As mulheres têm a mente frágil” (b. Kidush 80b), vogais na Bíblia, e, por isso, onde o Rabi Meir lê “pecaseu esposo lhe advertiu que seu próprio final poderia testidores” (chotim), deveria ser lido “pecados” (chataim); e se ficar sobre a verdade daquelas palavras. Para pôr sua viristo é assim, não se deve pedir pela morte dos malvados, tude à prova, ele encarregou a um de seus discípulos que a mas para que suas maldades tenham fim, e dessa forma se seduzisse. Depois de várias tentativas, ela cedeu; e, de vercumprirá a segunda metade do versículo que diz: “E não gonha, ela se suicidou. Rabi Meir, torturado pelo remorso, haverá mais malvados”. fugiu de casa”. (Rashi a b. Avodá Zará 18b) A moral da história é profunda e poderosa. A forma Um final terrível para uma das heroínas do judaísmo masculina de eliminar os problemas é eliminando quem os rabínico. Agora, em que se baseia este relato/mito? Em um provoca. A forma feminina, muito mais efetiva, elimina a comentário de Rashi (s. XI d.EC) de uma passagem do trafonte do problema. Nessa história vemos uma Bruria muitado Avodá Zará, que diz: “Ele [Rabi Meir] se levantou e futo mais feminina, elegante e calma que volta a demonstrar giu à Babilônia. Alguns dizem que foi devido àquele incidenseu brilhantismo, convencendo e reeducando a seu marite pelo qual teve que fugir à Babilônia, enquanto outros dido com destreza e sagacidade. zem que teve a ver com o incidente relacionado com Bruria”. Às sextas-feiras a noite, na primeira refeição de ShaEle migra à Babilônia, o centro da comunidade judaica rabat, antes de começar o jantar, os maridos cantam às suas bínica mais importante fora da terra de Israel, devido aos mulheres Eshet Chail – o último capítulo do livro bíblitempos agitados vividos em Israel sob o domínio romano co de Provérbios, que diz: “Uma mulher virtuosa, quem e toda a intrincada situação pessoal que ele mesmo vivera. encontrará?” (31:1). Originalmente, esses versículos eram Aquele relato não menciona exatamente o que o motiuma referência simbólica à Shechiná, a parte feminina de vou a ir embora, e em nenhum outro lugar do Talmud enDeus. Mas, de acordo com um Midrash tardio do livro contramos referência a isto. Esse detalhe, somado ao fato de Provérbios, quando se perguntam a quem a mulher de que o Rabi Meir vai sozinho à Babilônia sem a sua afavirtuosa faz referência, entre as múltiplas respostas, dimada esposa, aliado a algumas outras questões socioculzem: a “Bruria”. turais, terá despertado a imaginação de alguns sábios, os Ela é apresentada como uma mistura de doçura, tato, quais criaram a história que Rashi compartilha. Ou talsabedoria e, especialmente, integridade. Uma mulher virvez tenha sido o próprio Rashi1 quem, em alguma noite tuosa como Bruria, quem poderá encontrar? Uma mulher de primavera, ao ler a passagem de Avodá Zará entre uma sábia, independente, astuta, com pedigree e com uma intaça de vinho e outra, imagina essa história descabida. Seja tegridade invejável, quem encontrará? Bruria despertava como for, este é o final de Bruria ensinado em todas as Yeverdadeira fascinação nos círculos rabínicos. Todos aqueles que escutavam suas histórias ou suas determinações legais se surpreendiam com a capacidade de uma mulher 1 Embora se deva dizer que Rashi, que não teve filhos homens, é lembrado (tamem citar a Bíblia ou as tradições orais rabínicas com tanbém) por ter ensinado Torá a suas filhas.

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shivot (escolas rabínicas) e escolas judaicas do assim e é por isto que ele cria/transmiO que aconteceria tradicionalistas. Repassemos então a histe essa história, para que fique como sinal se mais mulheres se tória em detalhe. para todas as mulheres que queiram imiatrevessem a ser como Qual foi o “incidente com Bruria”? tar a Bruria: não é uma boa ideia!2 Bruria? E se mais Diante desse cenário, as leitoras judias Rashi sugere que começou quando Bruria zombou do adágio rabínico que afirma mulheres abandonassem feministas dos séculos XX e XXI escolheram a Bruria como um modelo a ser imique “as mulheres têm a mente frágil”, no a cozinha para estudar sentido de que as mulheres caem mais Torá? E se mais mulheres tado, uma mulher a ser resgatada do mar do Talmud para ser trazida novamente à facilmente que os homens. O machislevantassem suas vozes vida judaica contemporânea: mulheres mo daqueles sábios os levavam a pensar e opiniões, contrariando eruditas, sábias, sagazes, dispostas a fazer que os homens não podiam ser enganaescutar suas vozes e dispostas a discutir dos, cativados ou seduzidos tão facilmenseus maridos, irmãos de igual para igual com os homens. Uma te como as mulheres. Pensavam que, ao e outros sábios? mulher virtuosa, quem encontrará? Viveserem pressionadas, estas cediam com famos em um mundo no qual encontramos cilidade. Bruria, como já a conhecemos, as brurias em toda parte e no qual as brurias se multiplinão ficaria calada frente a tamanho preconceito masculicam dia após dia, reivindicando para si os espaços que, ao no e por isso ironizou o ditado. Rabi Meir, guardião da longo de gerações, foi reservado unicamente aos homens. tradição rabínica, não poderia deixar passar que sua esposa zombasse dessa forma das afirmações dos seus colegas e Bibliografia mestres, e por isso adverte que “seu próprio final poderia Adler, R. “The Virgin in the Brothel and Other Anomalies: Character testificar que aquelas palavras eram verdade”. and Context in the Legend of Beruryah”. Tikkun 3/6 (1988) 28Ao buscar proteger a integridade e a verdade dos en32, 102-105. sinamentos rabínicos, Rabi Meir se descuida de sua muBoyarin, D. “Reading Androcentrism against the Grain: Women, Sex, lher e da sua relação conjugal, encarregando a um discípuand Torah-Study”. Poetics 12 (199), 29-53. Boyarin, D. Carnal Israel, University of California Press, 1993. lo a tarefa de seduzi-la. Ao começo, Bruria rejeita o asséGoodblatt, D. “The Beruryah Traditions”. JJS 26 (1975) 68-85. dio, mas finalmente cede. Rabi Meir tinha razão! As muIlan, T. Jewish Women in Greco-Roman Palestine. Peabody: Hendricklheres têm a mente frágil! A história mostrou que tinha rason, 1995. (Beruryah, 197-200) zão, embora isto tivesse custado a vida da sua própria muIlan, T. “The Quest for the Historical Beruryah, Rachel, and Imma Shalom”. AJSReview 22 (1997) 1-17. lher, o que lhe produziu um remorso tal que o teria levaWegner, J.R. “The Image and Status of Women in Classical Rabbinic do a fugir do seu lar para a Babilônia. Judaism”. In Jewish Women in Historical Perspective, ed. by J. BasEste é o trágico final de Bruria na mente e na pena de kin, 68-93. Detroit: Wayne State UP, 1991. Zion, Noam. Bruria and Rabbi Meir, the Odd Couple (Zion Holiday Rashi. Outros sábios que o antecederam (Rabenu Nissim Publications, Inc. 2018). Ben Yakov de Kairouan) comentaram simplesmente a passagem talmúdica alusiva ao caso, dizendo: “Rabi Meir e O Rabino Uriel Romano é argentino. Cursou seus estudos rabíniBruria tiveram que fugir à Babilônia depois que os romanos cos no Seminário Rabínico Latinoamericano. É licenciado em Ciênexecutaram o seu pai…” cias Políticas pela UBA e também alcançou um Mestrado em EstuO que levou Rashi a deixar para sempre nas margens dos Judaicos no Instituto Shechter. Hoje serve como rabino à codo Talmud esse trágico relato? A resposta pode estar na munidade Judaica Norte, em Nordelta, Argentina. ambivalência sentida pelos rabinos em relação a Bruria. Sua sabedoria e independência eram fonte de admiração Excerto e tradução do espanhol por Kelita Cohen. e temor. O que aconteceria se mais mulheres se atrevessem a ser como Bruria? E se mais mulheres abandonassem 2 Interessante notar que num dos lugares do Talmud onde se encontra o discurso sobre a fragilidade das mulheres, ele está na mesma unidade temática em que o rabia cozinha para estudar Torá? E se mais mulheres levantasno Meir é o seduzido por Satan, disfarçado de mulher. No relato de Rashí, os pasem suas vozes e opiniões, contrariando seus maridos, irpéis são invertidos e é o rabino Meir que tenta perverter sua esposa usando um esmãos e outros sábios? Rashi não podia imaginar um muntudante como isca.

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Formando rabinos/as na América Latina para a América Latina Estude sem sair de sua comunidade

O IIFRR faz uso do potencial da moderna tecnologia de ensino à distância, combinando seminários semestrais de inserção com estudo diário remoto. Junte-se aos mais de 20 estudantes que iniciariam sua formação em 2018 e que serão nossos futuros rabinos/as e líderes comunitários. As inscrições estão abertas para os que iniciarão sua formação em 2019. info@institutorabinico.org +54 11 4781 4070


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RESGATANDO A MITSVÁ DA MIKVE NO SÉCULO XXI

Ester Silvia Dorfman A ideia que proponho é resgatar o mikve como um local de oração individual, em vez de focar apenas nas regras aparentemente misteriosas da purificação do corpo, como modelo, como paradigma para ajudar as pessoas a encontrar significado em um ritual que nunca sentiram antes como seu.

Foto: Nathalie Ventura

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odas as tradições religiosas usam a água para denotar mudança e transformação. No judaísmo, esta tradição recebe o nome de mikve. A imersão ritual é uma tradição antiga, sua origem remonta à Torá e subsequentes comentários rabínicos. A piscina do mikve lembra o estado aquoso em que cada um de nós estava antes do nascimento. O ritual de entrar e sair de “maim chaim” (águas vivas) cria tempo e espaço para reconhecer e abraçar uma nova etapa da vida. Mergulhar é mergulhar em novas conexões com a criação e com nossa espiritualidade. A água faz parte de uma narrativa sagrada, como quando os hebreus atravessaram as águas do Mar Vermelho ao deixar o Egito, marcando sua transformação de uma tribo de escravos a um povo livre. As pessoas mergulham em um mikve para celebrar momentos de alegria, para marcar a recuperação após momentos de tristeza ou doença ou para comemorar transições e mudanças. Hoje, existem apenas alguns casos em que a imersão ainda é designada como mitsvá ou ato exigido pela lei judaica: para convertidos ao judaísmo, para noivas e para mulheres que observam nidá.1 O mikve também tem sido usado para outros propósitos ao longo da história judaica, por exemplo, por homens antes do Shabat e chaguim, por mulheres no nono mês de gravidez. Hoje, as pessoas podem mergulhar para comemorar uma grande variedade de transições e ocasiões: antes da leitura da Torá pela primeira vez; antes ou depois de uma cirurgia; na ocasião de serem ordenados rabinos; ao se tornarem avós; nos aniversários.

1 Estado da mulher desde o começo de seu período menstrual até a passagem pela mikve.

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Reza ao receber a 1ª menstruação2

“O mikve nos transporta para o passado quando mergulhamos no mundo da Criação. A raiz k-v-h que forma a palavra mikve aparece pela primeira vez em Gênesis 1: 9: “Que as águas sob o céu sejam coletadas [ikavu] em um só lugar”. Além disso, no verso seguinte, surge a expressão “mikve hamaim”, o nome dado aos mares, onde k-v-h conota “o encontro”. Este primeiro mikve está cheio de maim (água).

No manuscrito hebraico mais arcaico, a letra mem é uma linha em zigue-zague, desenhada como ondas que lembram a água. É interessante notar que, em muitas línguas, o fonema “m” está associado à “mãe” (ima, umm, madre, mamá, etc.). A pessoa que submerge no banho ritual completamente cercada por água, nua, sem barreiras e sem tocar nos lados, se assemelha ao feto no ventre da mãe. A imersão se torna um retorno às sensações do útero, um retorno à nossa fonte e um ato de renovação. Você não pode saber quem você é sem saber de onde você é. Esse retorno ao que aconteceu antes é, às vezes, uma maneira de amenizar os traumas do passado, para recomeçar a vida após uma experiência difícil. Por outro lado, às vezes é uma maneira de celebrar algo precioso na vida ou algo novo”.3 Quando as letras da palavra mikve (mem, kuf, vav, hei) são reorganizadas, a palavra komá é formada e ela significa “em pé” ou “em plena estatura”. Paradoxalmente, para alcançar nossa estatura de completa espiritualidade e retornar à nossa verdadeira essência interior, precisamos remover todos os tipos de roupas e objetos físicos e mergulhar nas águas, nus do ego. Quando alguém está submerso, os vínculos com a Criação e com nossa espiritualidade se estendem ainda mais. Quando lembramos que fomos criados à imagem de Deus, o mikve se torna um lembrete do infinito dentro do finito, do imortal dentro do humano, das opções ilimitadas oferecidas à humanidade. Não é de surpreender que a Torá seja comparada à água na literatura rabínica. Mergulhar na água também é mergulhar no “Universo da Torá”, a fonte infinita de transformação do mundo. Essa experiência do retorno ao útero nos reconecta com a fonte da vida e sua energia rejuvenescedora. Do estado primordial do “nada”, nasce um ego retificado e a capacidade de transformar nosso potencial puro no atual, nesse sentido a tevilá (o mergulho na mikve) reflete a criação de Deus do universo “algo a partir do nada”. Quando lembramos que fomos criados à imagem de Deus, o mikve se torna um lembrete do infinito dentro do finito, do imortal dentro do humano, das opções ilimitadas oferecidas à humanidade. A palavra mikve também pode estar relacionada à palavra tikvá, que significa esperança.

2 Parashat Hamaim – Imersão em água como uma oportunidade para renovação e crescimento espiritual, por Alona Lisitsa; Dalia Marx; Maya Leibovich, Tamar Dubdevani.

3 A Torá: Um Comentário das Mulheres, editado por Tamara Cohn Eskenazi e Andrea L. Weiss (Nova York: URJ Press e Women of Reform Judaism, 2008).

Antes do mergulho, dizem a mãe ou avó: “Você se junta hoje às mulheres do teu povo, às mulheres da tua família, quando teu corpo respondeu ao ciclo da lua. Que tuas luas sejam muitas e cheias de alegria E que seu corpo seja saudável e puro.” Responde a menina/mulher: “Eis que hoje me uno às mulheres de Israel, e mergulho em comemoração a esta nova etapa da minha vida.” Uma mulher judia pode mergulhar no mikve para ajudar num processo de cura, após um aborto ou tentativa de suicídio, ou ao quebrar uma promessa que gera culpa e estresse. Idem para um garoto/garota antes de seu bar/bat mitsvá. Novos rituais podem ser criados, nos quais membros das nossas kehilot, sem se sentirem religiosamente obrigados a mergulhar, abraçam a mikve como parte de sua prática espiritual individualizada. Os rabinos enraizaram nas leis a necessidade de purificar-se ritualmente após certas condições, como menstruação, emissão seminal masculina, certas doenças de pele ou contato com os mortos. Eliminar impurezas era uma condição prévia para entrar em contato com o sagrado, como se aproximar do santuário. Com a destruição do Templo, essas leis permaneceram obrigatórias para as mulheres e opcionais para os homens. Enquanto os judeus tradicionais continuam a usar o mikve para “pureza familiar”, a maioria dos judeus liberais raramente o faz. O que poderia incentivar os judeus liberais a mergulhar nas águas do mikve?

Criação

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Foto: Nathalie Ventura

Espiritualidade

Quando lembramos que fomos criados à imagem de Deus, o mikve se torna um lembrete do infinito dentro do finito, do imortal dentro do humano, das opções ilimitadas oferecidas à humanidade.

“A água aparece pela primeira vez no segundo verso da história da criação: “E então o espírito de Deus (ruach) deslizou sobre a face das águas” (1:2). Assim, desde o início, a água está sempre ligada ao divino, ao espiritual. A espiritualidade em relação à água não tem necessariamente a ver com “pureza”. A pureza estava originalmente ligada à missão do Templo; e, como ele não mais existe, a purificação não precisa ser aplicada à imersão contemporânea. Ir a um mikve não é apenas um meio de lavar o passado, de eliminar o legado de algum “pecado”, mas também de se preparar para o futuro. É assim que funciona quando usado para se preparar para o Shabat e festas ou momentos importantes da vida. Neste caso, é praticado por mulheres e homens. A lei judaica tradicional exige que apenas as mulheres vão ao mikve. No entanto, quando a imersão faz parte da vida sexual de um casal, ambas as partes o fazem, afirmando o compromisso de construir juntos. Fazer uma visita ao mikve como parte regular do ciclo de vida de um casal não implica uma negação da sexualidade, mas a decisão de um casal de estabelecer limites de tempo para ela.”4 4 A Torá: Um Comentário das Mulheres, editado por Tamara Cohn Eskenazi e Andrea L. Weiss (Nova York: URJ Press e Women of Reform Judaism, 2008).

O Talmud (BT. Yoma 69b) nos diz que sem paixão o mundo deixaria de existir. No entanto, a sexualidade, como a água, deve ser canalizada para que a vida floresça completamente. A paixão é estimulante, mas não é uma condição permanente. Além disso, pode ganhar intensidade quando os limites são estabelecidos, como é o caso da música, onde notas silenciosas sublinham a melodia. O tempo de inatividade (que pode ser limitado à menstruação no caso das mulheres), pontuado pelo mikve usado por ambas as partes, é uma forma de suspensão. Você pode deixar o espaço necessário para descobrir uma face diferente da outra, em uma tensão mais disciplinada. Em Gênesis 1, Deus cria o mundo separando as águas e depois retirando-as para dar espaço para que a terra e a vida apareçam. A raiz de acadia ku’u (um dos possíveis antecedentes da palavra hebraica kav) significa “esperar, esticar, sublinhar o estresse de perseverar ou esperar”. A expectativa é a estrutura romântica do amor e do desejo. O mikve reintroduz o outro como amigo; o amante é um amigo novamente, e o amigo é um amante. Assim também reintroduz a espiritualidade em nossas vidas de maneira habitual. Os sábios rabínicos capturam o poder dos hábitos em sua determinação de que rituais frequentes prevalecem sobre rituais pouco frequentes (BT Sukkah 54b, 56a; Psachim 114a; Meguilá 29b); e em ou-

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tros lugares. Somos chamados a não construir a vida no excepcional, mas a renovar o comum, talvez um dos segredos de estar junto com outro na sociedade. As leis de Taharat Hamishpachá, ou “de pureza familiar”, são frequentemente ridicularizadas como atribuindo vergonha à menstruação, como se as mulheres fossem ao mikve por estarem “contaminadas ou sujas”, contudo, a palavra hebraica usada no versículo de Levítico 15:24 não é a palavra meluchlach, que significa sujo, mas sim a palavra tamé, que significa impuro. Esta é a mesma palavra usada em referência à necessidade do Sumo Sacerdote de ir ao mikve (Levítico 21:24). Esta falta de pureza não tem uma conexão particular com as mulheres, nem está relacionada a estar fisicamente suja. A “pureza” tahará referida em ambos os casos indica um estado espiritual experimentado tanto pelo Sumo Sacerdote como pela mulher que menstrua. A verdade é que ir à tevilá (imersão) não é limpar, mas permanecer vivo. Por que digo isso? Os dois vão ao mikve quando encontram a morte e se apegam à vida. O Sumo Sacerdote deveria ir depois de entrar em contato com a morte (Levítico 21:1) ou antes de orar para que os pecados do povo fossem perdoados. Já a mulher menstruada honra o ovo que foi perdido, que nunca abrigará uma alma humana, ao abraçar um novo potencial de vida que agora pode confe-

rir ao mundo, honra a morte de oportunidades perdidas, mas valoriza a vida que cria novas eleições. Como modelo, faço uma tradução livre do poema (reza para após o período menstrual) da Rabina e Doutora Rachel Sabat Beit-Halachmi, Oração emergindo das águas da Tevilá: Deixe cada parte do meu corpo fazer contato com água viva e renovada para o bem e criação. Deixe meus dedos dos pés e minhas pernas dançarem. Deixe-me apressar suas mitsvot Transformá-los em obras do bem. Deixe meus braços estarem receptivos para quem precisa de conforto. Que minhas mãos possam escrever palavras verdadeiras e de ensino. Que meus dedos gerem música e que eu possa brincar com amor. Que minha boca se encha de palavras de compaixão e minha língua de caridade e graça. Que meus lábios falem palavras da Torá e oração e que meus olhos vejam as maravilhas de Deus. Quão grandes são suas obras! Que os olhos reflitam o amor e a gratidão do corpo. Me dê a benção do amor e da esperança para o próximo mês.

Antiga mikve em sítio arqueológico em Jerusalém, Israel. Wilkimedia Commons

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Na minha barriga, o ciclo de completitude e vazio, como as fases da lua. Que seja sua vontade que me renove no caminho reto. Vou renascer agora à imagem de Deus.5

A mikve é um lugar para os judeus se recuperarem após ou durante doenças ou em tempos de luto, todos os usos não tradicionais, incomuns e permitidos em outras correntes religiosas, um lugar onde judeus gays, lésbicas ou trans também eles poderiam participar de rituais físicos antigos sem se preocupar com o olhar discriminatório ou expulsivo.

Da responsa 5756/6 da CCAR6, lemos: “... como judeus liberais que procuram afirmar nossa conexão com nosso povo em todas as terras e idades, devemos manter a prática tradicional na ausência de uma razão convincente para abandoná-la ou alterá-la”. Simplificando, não vemos nenhuma razão tão convincente para dizer “não” ao uso do mikve. Não é ofensivo, degradante ou desigual em sua aplicação, de alguma forma que o torne inaceitável para o nosso entendimento do judaísmo. Primeiro, preserva nossa continuidade com a tradição judaica e o povo. Segundo, nos permitiria expressar nossa solidariedade com os judeus progressistas de Israel e em outros lugares que a usam regularmente. Terceiro, a adoção do mikve é uma declaração importante de nossa dedicação ao Klal Israel, a unidade do povo judeu. A questão não é que, ao exigir a imersão de nossos convertidos, tornamos nossas conversões aceitáveis ​​aos olhos dos judeus ortodoxos. Nada do que fazemos alcançará este objetivo. Mas, usando o mikve, uma prática que de forma alguma compromete nossos princípios liberais, damos um passo que convencerá muitos rabinos conservadores a reconhecer nossas conversões como válidas ... ” A ideia que proponho é resgatar o mikve como um local de oração individual, em vez de focar apenas nas regras aparentemente misteriosas da purificação do corpo, como modelo, como paradigma para ajudar as pessoas a encontrar significado em um ritual que nunca sentiram antes como seu; é um lugar para os judeus se recuperarem após ou durante doenças ou em tempos de luto, todos os usos não tradicionais, incomuns e permitidos em outras correntes religiosas, um lugar onde judeus gays, lésbicas ou trans 5 Parashat Hamaim. 6 CCAR (Central Conference of American Rabbis) Responsas “Uma reforma adequada – Mikve”.

também eles poderiam participar de rituais físicos antigos sem se preocupar com o olhar discriminatório ou expulsivo. Ou, por exemplo, pessoas após a mudança de gênero ou que queiram celebrar a obtenção do nome em hebraico, pessoas que vêm marcar eventos como o divórcio ou a recuperação do câncer. Quando falo sobre resgatar o mikve, falo sobre tirar o tabu de nossas cabeças que significa estar ligado ao monopólio judaico que determina como praticamos o judaísmo, uma nova maneira de criar um espaço acolhedor e incorporar o princípio judaico de Hiddur Mitsvá (embelezamento da mitsvá), reunindo homens e mulheres que desejam ingressar na cadeia do ciclo de vida para recriá-la e se conectar com seu caminho. Talvez o mikve moderno seja uma fonte de inspiração e renovação para os judeus de nascimento e para aqueles que desejam compartilhar nossa fé, que certamente forneça uma fonte de esperança para o futuro espiritual de muitos de nós; para alguns será apenas água e para outros, nosso depósito espiritual interno, sempre lá, sempre disponível, sempre pronto para a exploração de múltiplos e sagrados caminhos de encontro.

Bibliografia “Entrando no Mikve”, Jane Solomon. Revista do judaísmo reformista CCAR (Central Conference of American Rabbis) Responsas. “Uma reforma adequada – Mikve” Rabino Lance J. Sussman, PhD e “Mergulhe no judaísmo: Reforma e o mikve”, Rabino Avraham Arieh Trugman. Tamar Paley. Jovens adultos IMPJ. A Torá: Um Comentário das Mulheres, editado por Tamara Cohn Eskenazi e Andrea L. Weiss (Nova York: URJ Press e Women of Reform Judaism, 2008). Levítico-Vaykra (12: 1-8, 15:16 e 11:36). Gênesis – Bereshit (1: 2; 1: 9) Parashat Hamaim – Imersão em água como uma oportunidade para renovação e crescimento espiritual, por Alona Lisitsa; Dalia Marx; Maya Leibovich, Tamar Dubdevani.

Ester Silvia Dorfman é estudante do Instituto Iberoamericano de Formação Rabínica. Traduzido do espanhol por Raul Cesar Gottlieb.

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GENEBRA, DA UTOPIA PARA O PROJETO Paulo Geiger

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ste artigo foi escrito e entregue a Devarim dias antes da revelação do Deal of the Century, o plano de paz de Trump para Israel e os palestinos. Evidentemente os detalhes não eram conhecidos, mas podia-se intuir sua direção geral, considerando seu autor e as circunstâncias, algumas semanas antes das eleições em Israel. Este artigo não é, portanto e no entanto, um contraponto ao plano de Trump, mas uma indicação – mais do que isso, uma constatação – de que, seja qual for o plano, ele terá de ser transformado num acordo, e não numa imposição, mas também de que seja qual for o plano, ele pode ser a base de uma negociação e de um acordo. Sem isso, não haverá uma paz verdadeira, sustentável, construída sobre o consenso de que um acordo é melhor do que uma vitória momentânea enquanto o conflito perdura. O autor deste artigo não é contra o plano de Trump em si mesmo (embora não acredite que seja aceito pela outra parte do conflito, nem mesmo que seja aceitável para ela). Se foi lançado como ponto de partida para uma renovada negociação que leve a um acordo, bem-vindo seja. Se for aceito, realmente aceito, em sua integralidade, melhor ainda. Standing ovation. Mas de nada valerá como solução se for enfiado goela abaixo, imposto. Vitórias não substituem acordos, nenhuma das vitórias israelenses foi melhor que o acordo de paz com o Egito e com a Jordânia. O grande perigo é (Israel) não negociar com base nessa proposta, não fazer nenhuma concessão e se agarrar à proposta e a seus detalhes como o mínimo aceitável (culpando os palestinos pela recusa), e com isso avançar ainda mais no caminho, que a certa altura será sem volta, que leva ao fim da ideia de dois estados. O futuro de um só estado será o de ou não ser judaico ou não ser democrático, e o presente será o de uma imposição pela força, ou de sua própria destruição, se outras forças prevalecerem. As condições do acordo de Genebra não são melhores, para os israelenses, do que as do plano de Trump. Mas Genebra é uma prova de que no meio do caminho pode-se achar um ponto de inflexão que transforme utopia em realidade.

Por que Jerusalém, símbolo de espiritualidade, de múltiplos credos, não pode ser a cidade única de todos os seus habitantes? Roma resolveu. É uma cidade 100% italiana, todos os seus habitantes são cidadãos italianos, mas ela abriga um outro estado.

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o último número de Devarim (Seção Cócegas no Raciocínio – última página, em Devarim 40, dezembro de 2019) prometi apresentar uma utopia não em forma de sonho, mas em forma de projeto. Aqui pretendo cumprir a promessa. Não preciso imaginar um projeto, ele existe, imaginado por outros: um acordo firmado entre representantes de Israel e do povo palestino para uma solução definitiva do conflito, formulado, debatido, aprovado e publicado entre 2003 e 2005 em Genebra, Suíça. Um acordo não só genérico, não só de princípios e conceitos, mas detalhado em todos os itens que constituem o cerne, a superfície e as consequências desse conflito de cem anos. Evidentemente, não foi um acordo oficial, com o endosso das lideranças israelense e palestina. Se o fosse, já teria sido implementado, para o bem (de muitos) e para o mal (de muitos também). Mas não foi um acordo entre neófitos ou inocentes iludidos. O principal representante de Israel foi Iossi Beilin, que fora diretor do Ministério do Exterior. O dos palestinos, Yasser Abed Rabbo, várias vezes ministro no governo da Autoridade Palestina. Contou

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com o apoio explícito de Tony Blair, Jimmy Carter, Jacques Chirac, Bill Clinton, Vaclav Havel... Evidente, também, que os porta-vozes oficiais o repudiaram. Não é preciso aqui explicar por quê. Também é impossível dizer que, se o acordo tivesse sido implementado, hoje o conflito estaria resolvido e a paz instalada. É mais do que razoável e racional supor que não. Há muitos outros fatores que não estiveram em Genebra, que não assinaram o acordo e que provavelmente não iam ficar impassíveis diante dele. Irã, Hamas, Hezbollah, grande parte dos palestinos que se dizem moderados mas não aceitam a ideia de que Israel é o estado nacional do povo judeu, nem sua existência, radicais islâmicos, anti-israelenses e antissemitas de raiz (da direita, da esquerda e do centro), extremistas nacionalistas e religiosos dos dois lados e dos outros lados também. Sem dúvida, sua implementação suscitaria riscos e ameaças, o que não seria novidade nem inovação. O que, então, teria de positivo com toda a certeza? A percepção, exatamente cem anos depois, de que o conflito não é inevitável, de que há lugar para as duas realizações nacionais, de que o acordo que houve até 1920 entre Haim


Weizmann e o emir Feiçal – que reconhe•  Solução do problema dos refugiaMuita gente vai rir da ciam mutuamente o direito do outro a dos com direito de opção para resiingenuidade de acreditar um estado nacional – ainda é possível. dência permanente no território da no outro, o inimigo Tampouco quer dizer que TODAS as Palestina, ou em outro país. Israel declarado. Vai ver a cláusulas aprovadas então sejam as que aceitará certo número de refugiados vão realmente vigorar num acordo real. à sua discrição, número por ele estaarmadilha armada, a Algumas, mais polêmicas (assentamentos, belecido. Fim do status de refugiado emboscada sinistra. Jerusalém) certamente terão de ser revispara todos os refugiados palestinos, Mesmo a se acreditar tas. Novas lideranças poderiam renegociar onde quer que estejam. na boa fé recíproca, detalhes. Em 15 anos muita coisa mudou. •  Fim de todas as reivindicações, sob quem garante que no Mas a utopia virou projeto, e se o princíqualquer aspecto. pio que fundamenta qualquer solução é o futuro estas condições O acordo prossegue com todos os deda não eliminação do outro, física ou naserão cumpridas? talhes do processo de solução da quescional, base de qualquer projeto humatão dos refugiados, comitês de cooperanista e realista ao mesmo tempo, Geneção, utilização de rodovias, locais de significado religiobra não foi um sonho ingênuo de visionários românticos so, fronteira, água, relações econômicas, prisioneiros paou imbecis alienados. lestinos, mecanismo de resolução de disputas. E submeEntre todas as cláusulas (que são detalhadas no fundate o status final à aprovação do Conselho de Segurança mento e na aplicação), resumindo as decisões mais impor1 e da Assembleia-Geral das Nações Unidas (para outorgar tantes (para o acordo completo, procure o sr. Google ). Em itálico, temas que serão comentados no fim do artigo. validade e legalidade internacionalmente reconhecida no • Reconhecimento mútuo: cada estado reconhecerá o principal fórum internacional, como base de futuras decioutro como estado legítimo. sões e como recomendação ao reconhecimento por todas • Reconhecimento mútuo do direito de viver em paz, as nações-membros [isolando com isso as inevitáveis disfim do terrorismo e da violência; as partes não partisidências, como certamente a do Irã e de outros, e isolanciparão de coalizões ou acordos externos contra a oudo definitivamente organizações, como Hamas, Hezboltra parte. lah, BDSs, e alguns redutos de esquerda e direita antisse• Fronteiras de 4 de junho de 1967 com modificamitas, inclusive acadêmicos]). ções de comum acordo (são apresentados mapas deClaro que este plano, num primeiro momento, suscita talhados). Serão territórios invioláveis. Retirada dos mais rejeição do que apoio, e não só dos mais extremistas. israelenses dos assentamentos. Força multinacional Muita gente vai rir da ingenuidade de acreditar no outro, de segurança supervisionando o cumprimento do o inimigo declarado. Vai ver a armadilha armada, a emacordo. boscada sinistra. Mesmo a se acreditar na boa fé recíproca, • O estado palestino será desmilitarizado (apenas forquem garante que no futuro estas condições serão cumpriças internas de segurança). das? Além disso, reiterando o que já foi dito aqui, e me an• Não haverá incitamento de qualquer tipo à violência tecipando ao que muitos vão dizer balançando a cabeça, contra o outro ou a sua rejeição. claro que muitos dos princípios, e das soluções, teriam de • Retirada de equipamento e pessoal militar de Israel; ser renegociados. Mas se o objetivo mútuo for, realmente, haverá uma força de segurança israelense ao longo do o do fim do conflito, não é utopia supor que novas soluJordão por mais três anos, prazo extensível. ções possam ser encontradas. • Capital dos dois estados na área de Jerusalém sob a soPor exemplo, eu teria minhas sugestões, ou pitacos, se berania de cada um. O Muro Ocidental ficará sob soassim o quiserem, para as duas controvertidas e dolorosas berania israelense. questões dos assentamentos e de Jerusalém. No caso dos assentamentos, se a intenção é haver dois estados para dois povos, com respeito pela integridade ter1 https://geneva-accord.org/wp-content/uploads/2019/06/Portuguese.pdf

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ritorial do outro, e se os assentamentos, apesar da aprovação por Trump, forem enclaves israelenses, anexados a Israel sem a concordância palestina, seriam uma violação do acordo. Mas não a presença física de judeus. Se existem centenas de milhares de árabes palestinos que são cidadãos israelenses “assentados” em Israel (muitos deles há centenas de anos), por que não poderia haver judeus, como cidadãos de dupla nacionalidade (isto é, também como cidadãos palestinos) ou não (ou seja, apenas como cidadãos estrangeiros) assentados na Palestina? Pagando impostos à Palestina? Respeitando as leis palestinas [que teriam, por sua vez, de levar em consideração a particularidade desses cidadãos estrangeiros (cultural, religiosa, familiar etc.)]? E contanto que isso não constitua um processo em aberto para mais assentamentos, mais enclaves sem a concordância dos palestinos, mas que seja possível como em toda política imigratória de todo país. Se em Israel pode haver e há minorias não judaicas, inclusive árabes e islâmicas, por que a Palestina quer ser e teria de ser judenrein? Quanto a Jerusalém, não creio que seja uma boa solução uma cidade dividida entre duas nações por uma muralha. A última delas caiu em 1990. Naomi Shemer, em seu esplêndido verso “e em seu coração uma muralha”, an-

Paulo Geiger é membro do Conselho Editorial de Devarim.

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terior à unificação de Jerusalém, expressa a dor e o surrealismo dessa imagem e dessa condição. Por que Jerusalém, símbolo de espiritualidade, de múltiplos credos, não pode ser a cidade única de todos os seus habitantes? Porque, já viria a resposta, os palestinos a querem como capital, mas ela é a capital do povo judeu há 3.000 anos, e de Israel há quase 72. Como resolver isso? Roma resolveu. É uma cidade 100% italiana, todos os seus habitantes são cidadãos italianos, mas ela abriga um outro estado. Por que uma cidade 100% israelense não pode abrigar não um estado, mas a capital de outro estado? Como uma embaixada, um território estrangeiro dentro de uma área sob outra soberania? Amós Oz escreveu que para resolver problemas aparentemente insolúveis, basta um pouco de imaginação. E de humor também. Risco sempre haverá. A pergunta é se a recompensa vale o risco. Voltando ao começo, à questão da utopia: as possibilidades estão sufocadas pelas impossibilidades. Mas só se constrói um futuro com possibilidades.


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Library of Congress, EUA


CARO DR. WEIZMANN Mario Fleck

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m novembro do ano passado recebi o diploma de PHD Honoris Causa do Instituto Chaim Weizmann de Ciências. Fui informado deste prêmio com razoável antecedência, com muito orgulho e surpresa. De fato, tenho contribuído bastante para ampliar a visibilidade do Instituto Weizmann no Brasil, mas devo confessar que não tinha essa expectativa. Sabendo que deveria falar algumas palavras e conhecendo o grupo que compartilharia da ocasião comigo – outros agraciados, convidados e amigos –, pensei bastante no que deveria dizer. Gosto de ler biografias e procuro todas as oportunidades possíveis para entrar em contato com pessoas que considero especiais, seja por seu nível de inteligência, paixão por alguma causa ou impacto causado por suas iniciativas. Na impossibilidade de encontrar pessoalmente com o Dr. Weizmann, resolvi simular essa situação, através de uma carta – uma forma também de homenagem, já que ele era um amante da troca de correspondências e suas cartas acabaram preenchendo alguns tomos de livros assinados por pesquisadores e historiadores. Weizmann foi um personagem raríssimo, capaz de unir visão, política, diplomacia, ciência e realização, sempre dando o máximo de destaque à sua condição de judeu e sionista. Foi um enorme prazer pesquisar sobre sua vida nas biografias, na autobiografia e em outros livros. De fato, me encantou a oportunidade de escrever uma carta narrando

um pouco sobre a realidade de um mundo sonhado por um personagem tão especial – é como se tivesse surgido a chance de encontrá-lo para trocar ideias e aprender um pouco mais. Caro Dr. Weizmann, Eu gostaria que tivéssemos podido nos conhecer. Seria uma imensa honra e privilégio conversar com um dos principais arquitetos do mundo judaico de nossos tempos. Talvez, teria sido ainda melhor conhecê-lo hoje e trocar algumas ideias sobre essa fantástica e bem-sucedida organização que você criou há mais de 70 anos, e que eu e muitos outros apoiadores admiramos imensamente. Em preparação para escrever esta carta, aproveitei a oportunidade para fazer uma pesquisa e revisão de um pouco da história de seus dias. Fiz isso para compartilhar também, com a sua permissão, alguns elementos-chave de seus pensamentos que ainda prevalecem, pois se tornaram as raízes de uma construção única, viva e muito impactante. Para esse fim, entrei em contato com alguns de seus biógrafos, como Norman Rose, Yehuda Reinharz e, é claro, seus próprios escritos aos quais você denominou Tentativa e Erro. E também fiz um estudo sobre as cartas que você escreveu. Que personagem! Devo dizer que minha geração tem muito mais sorte que a sua e que devemos agradecer aos arquitetos da história judaica como você por nos permitirem ter o tipo de vida que temos hoje.

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O volume 4 de suas Cartas e TrabaSomos pioneiros no deserto, na agriculA maioria de nós aqui lhos, um maravilhoso trabalho de pesencontrou significado para tura e na indústria. Mas, aqui em Rehoquisa e organização realizado por Meyer vot, também estamos envolvidos em um suas vidas na potencial Weisgal, termina em 1906, quando você tipo peculiar de trabalho pioneiro – socontribuição para a tinha apenas 32 anos de idade e mostra mos pioneiros na ciência. Existem muium incrível nível de produção intelechumanidade desenvolvida tos problemas a serem resolvidos em nostual – você escreveu cerca de 300 carsa terra e muitas dificuldades a serem suneste antigo areal. tas por ano! Fico imaginando o que teperadas. Ainda existem muitos perigos a ria feito se tivesse vivido na era do Whatserem enfrentados. Para enfrentá-los, não sApp e das ferramentas de comunicação dos meus dias. devemos confiar apenas na força física. Temos uma poComo mencionei, vivemos em tempos melhores, no derosa arma que devemos utilizar com engenho e habilientanto é preciso enfatizar que, apesar de não termos atos dade, e com todos os meios à nossa disposição: ciência como os pogroms de 1905 na Rússia que tanto te preocué essa arma; o nosso arcabouço de força e a fonte de nosparam, por outro lado, vemos tiroteios em sinagogas nos sa defesa”. Estados Unidos e um renovado medo na Europa, princiDevo abrir um parênteses aqui para destacar o povo espalmente na França e na Bélgica, pelo ressurgimento do pecial que nós judeus realmente somos! Ben-Gurion foi o antissemitismo. Deve ser difícil para você entender que, principal orador na inauguração do Instituto Weizmann, mesmo após a criação de Israel, os judeus ainda enfrene a história nos conta que seu relacionamento com Weiztam atos assim, mas infelizmente cumpre-me dizer que Ismann havia sido um tanto complicado. Mas pessoas esperael se tornou O Judeu entre as nações! ciais não são criadas em ambientes sem líderes especiais e A Organização das Nações Unidas cuja criação você líderes especiais não são pessoas normais. Nós tivemos a testemunhou, após a terrível Segunda Guerra Mundial, sorte de ter tido na construção do Israel moderno figuras deveria ser a pedra angular para o relacionamento respeicomplexas como Ben-Gurion, Chaim Weizmann, Herzl e toso entre as nações, um centro de equilíbrio político, o Jabotinsky. Devemos aprender com eles as lições para sulugar onde os direitos humanos são vigiados globalmenperar as diferenças entre as lideranças que nos enfraquete e onde os carniceiros não mais prevalecem. Infelizmencem hoje. Jabotinsky e Herzl, tal como Moshe Rabeinu, te, Dr. Weizmann, esse não é o caso. Israel se tornou alvo não viveram o suficiente para ver o milagre da criação de de países antissemitas, que, usando de vergonhosos duIsrael, mas Weizmann e Ben-Gurion sim, e eles se reconplos padrões morais, o vilipendiam diuturnamente e ainda ciliaram no momento exato, a ponto de formar a primeira hoje, quando o país ultrapassa seu 71º aniversário, a instiequipe de líderes do novo país, se colocando solidariamentuição tolera membros que expressam claramente o desete à frente da primeira guerra pela sobrevivência do Estado. jo de destruir Israel, tal como faz o Irã. Mas voltando à minha carta... Mas deixe-me falar sobre o seu Instituto, o local e o Dr. Weizmann, eu gostaria que você estivesse aqui hoje, motivo de nos reunirmos hoje à noite. Em 2 de novempois, ao comemorarmos o 70º aniversário de sua instituibro, exatamente há 70 anos na semana passada, o Instição, constatamos que este lugar se tornou uma das fontes tuto Weizmann de Ciência foi inaugurado oficialmente. mais impactantes para o avanço da humanidade. As prinVocê se sentou no palco cerimonial, admirando sua prócipais realizações de seus laboratórios transformaram Israel pria criação, a transformação de seu sonho em realidade. numa grande nação, desde os dias pioneiros da agricultura A plateia reunia ainda convidados e amigos ilustres de aos dias do pouso na lua, na extinção de doenças, na extodo o mundo. Em um humor generoso e sincero, Benpansão da vida, na tecnologia de defesa e no conhecimen-Gurion, o principal orador, referiu-se às suas “duas coto de novos limites. Você não poderia estar mais certo naroas”, a coroa do Estado e a coroa do aprendizado. Você quele dia 2 de novembro. levantou-se para responder e, ignorando suas próprias Em seu livro Tentativa e Erro, você estabeleceu a visão anotações, disse o seguinte: sobre o que este lugar deveria ter como padrão de prática: “Vivemos, como vocês sabem, em um país pioneiro. O experimento de estabelecer um instituto de pesquisa

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Wilkimedia Commons

Professor Chaim Weizmann discursando em cerimônia de lançamento da pedra fundamental do Instituto Weizmann em Rehovot, Israel.

num país tão cientificamente atrasado quanto a Palestina está cheio de armadilhas. No entanto, existem várias maneiras de lidar com esses perigos. Primeiramente, com a seleção adequada da equipe e pela infusão nela do espírito de manutenção da mais alta qualidade. Todos devem se dedicar à busca coletiva pela excelência e não somente a publicar seus estudos. Em segundo lugar, com a implementação da política de manter os membros do Instituto em contato com o que está sendo feito na Europa e na América, não apenas lhes fornecendo uma boa biblioteca, mas também organizando múltiplos contatos pessoais. Estabelecendo como regra convidar cientistas de outros institutos para virem dar palestras em Rehovot, passando algumas semanas nos laboratórios, compartilhando suas experiências conosco e criticando os esforços dos jovens pesquisadores. Também trabalharemos na direção inversa, enviando nossos cientistas para o exterior. Se por acaso você estivesse conosco hoje poderia ver por si mesmo a qualidade das pessoas que trabalham aqui. Você ficaria impressionado com o número de idiomas di-

ferentes que eles falam e com o reconhecimento internacional deles. Ah! você também mencionou em sua autobiografia a preocupação que teve nos primeiros dias do Instituto devido ao fato de o lugar ser apenas de areia, sem árvores, e você invejou os campi de universidades inglesas e americanas. Sim, você começou a transformação da paisagem aqui e, se você já estava feliz com as primeiras transformações, eu gostaria que você pudesse dar uma olhada hoje! As almas dos que moram, trabalham ou apenas visitam, são refrescadas pelo paisagismo daqui. Ouso dizer que é de dar inveja a americanos e europeus. Você também expressou a preocupação estratégica de procurar descobertas científicas que ajudassem o país a se desenvolver, apesar das condições locais e regionais apresentarem desafios significativos. Muito bem, basta dar uma olhada e ver com seus próprios olhos o milagre que acontece neste lugar. Não apenas nas soluções para este país, mas as descobertas feitas aqui conquistaram a admiração do mundo todo e a maioria das empresas mais avançadas

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de todos os cantos do planeta vem para cá em busca de excelência, soluções e até para montar aqui seus próprios Centros de Pesquisa e Desenvolvimento. Você imaginaria que água e energia não são mais problemas em Israel? Você acreditaria se eu lhe disser que seu instituto está envolvido no projeto que enviou uma espaçonave israelense à Lua? Orgulhe-se, pois este local desenvolveu patentes e descobertas que hoje compõem a lista dos medicamentos mais vendidos em todo o mundo.

Isaiah Berlin: “Chaim Weizmann foi o primeiro judeu totalmente livre do mundo moderno, e o Estado de Israel foi construído à sua imagem. Ninguém jamais teve um comparável monumento construído para si em sua própria vida”.

Caro Dr. Weizmann, Talvez seja por causa de toda essa história que estamos nos reunindo aqui, todos os anos, cada vez com mais amigos, mais apoiadores, mais entusiasmo pelas realizações e descobertas, mais orgulhosos do que semeamos. A maioria de nós aqui encontrou significado para suas vidas na potencial contribuição para a humanidade desenvolvida neste antigo areal, nos sentimos parte da equipe, apesar de não sermos cientistas. A mera oportunidade de participar da jornada, sentados no banco de trás da equipe de cientistas deste Instituto nos dá muita energia. Desnecessário, mas importante, dizer, tudo isso também é um excelente reforço para o Sionismo de nossos dias. Graças a você, a nação judaica tem um lugar entre as nações, e que lugar mais digno e significativo é esse! Você poderia imaginar que o país que precisou de imenso apoio apenas para conseguir caminhar sobre as próprias pernas, se tornou o primeiro a responder aos desastres naturais que se abatem nos quatro cantos do mundo? Com sua visão e com a qualidade e dedicação de cada cientista, colaborador, patrocinador ou amigo, que teve o privilégio de participar dessa jornada, ela se tornou uma empreitada fabulosa. Nós, judeus de todas as partes, temos muito orgulho de Israel. Nós, amigos do Instituto Weizmann, estamos muito orgulhosos desse radiante diamante, nosso presente para o benefício da humanidade. E este lugar é todos os dias inspirado pelo seu nome. Como disse uma vez Sir Isaiah Berlin: “Chaim Weizmann foi o primeiro judeu totalmente livre do mundo moderno, e o Estado de Israel foi construído à sua imagem. Ninguém jamais teve um compa-

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rável monumento construído para si em sua própria vida”. E eu acrescento que este Instituto é hoje a imagem dos seus melhores sonhos se tornando realidade! Yehuda Reinharz, hoje o ilustre presidente do Conselho Internacional do Instituto Weizmann, escreveu na biografia de Weizmann: “[Ele] via o Sionismo como uma força política e moral aberta, flexível e poderosa o suficiente para abranger e unir todos os outros movimentos e ideias atuais no mundo judaico. Para ele, o Sionismo deveria assumir a principal responsabilidade pelo destino político, social, econômico e cultural de todos os judeus, onde quer que estivessem”. E eu repito … acredito que, para revalidar essa afirmação significativa, o Sionismo, na sua fase pós-criação de Israel, precisa repensar sua posição com relação a todo o espectro dos judeus. Pessoas que vivem nos tempos contemporâneos. A determinação de quem é judeu hoje, com as restritivas leis do ciclo de vida, estão mandando muitos para fora da porta, e, como escreveu Tal Keinan em seu livro God is in the Crowd1, precisamos reverter esse processo para manter a massa crítica extremamente necessária de judeus conectados em nossa geração. Hoje, a liderança do mundo judaico tem uma tarefa importante, da dimensão de seus colegas, Dr. Weizmann, e desejo que eles se inspirem no melhor de nossas gerações para nos levar a mais milênios de existência, assim como nossos fundadores, sábios e líderes. Antes de terminar, permita-me dizer que hoje aqui represento uma multidão orgulhosa e feliz de apoiadores que trabalham e incentivam atrás dos laboratórios e, no meu caso particular, seria negligente se não reconhecesse que não estaria aqui hoje recebendo uma homenagem tão honrosa sem grande ajuda de meus amigos brasileiros. Parabéns e obrigado! Mario Fleck é presidente dos Amigos do Instituto Weizmann na América Latina, membro do Executive e do International Board do Weizmann e presidente da CIP-Congregação Israelita Paulista de São Paulo. 1 Deus está na Multidão, livro em processo de tradução para o português (N.E.)


Presidente Chaim Weizmann e sua esposa Vera Weizmann na entrada do Instituto Daniel Sieff.

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IRONIAS DO DESTINO Vittorio Corinaldi

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ste é o título de um livro de desenhos (caricaturas) de minha autoria, recentemente lançado em Israel e que já teria sido lançado no Brasil se não fosse pelo Covid-19, que forçou o adiamento do evento. Trata-se de uma série de charges, que o encarregado de assuntos culturais do Kibutz Bror Chail me pediu para apresentar semanalmente num painel na sala de reuniões, nos anos de 1969-70. Esquecidas num armário por muitos anos, as charges foram “re-descobertas” pelo historiador e publicista Avraham (Tito) Milgram, que as considerou como documentos de um fenômeno social e de uma época hoje superados. O olho crítico da curadora de arte Galia Bar Or discerniu nelas também um valor gráfico, e a iniciativa dos dois levou à publicação dos desenhos num livro bilíngue (hebraico e português). O longo período passado desde a produção, a especificidade das situações descritas e as mudanças profundas ocorridas no movimento kibutziano em geral e em Bror Chail em particular, como kibutz de acentuada proveniência brasileira, tornaram necessário um texto explicativo que acompanha cada um dos desenhos nos dois idiomas. Como membro do kibutz por muitos anos, sempre me senti à vontade com a singular experiência comunitária. Tive a sorte de – como arquiteto – poder tra-

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balhar profissionalmente na formação da imagem física construída das comunidades kibutz. Infelizmente, a Ironia do Destino é que grande parte de minhas obras deixou de exercer a função para que foram criadas e, a exemplo do inigualável edifício social que se desintegrou, permanecem hoje em lamentável abandono, tristes testemunhos de uma época gloriosa que a atual geração não quis continuar. Algumas das caricaturas deixam intuir, atrás do olhar divertido e mordaz, as mudanças que já então começavam a se fazer sentir, prenunciando a crise que veio mais tarde, e que pessoalmente me levou a abandonar o kibutz. E todas revelam uma benevolente observação crítica das tensões e contradições que cotidianamente acompanhavam a vida da comuna. Também aqui pode-se encarar o que ficou do kibutz como uma realidade que justifica o ‫בי וגרפיה‬ título do livro. O kibutz foi‫כעבור‬ não.‫איטליה‬ só um,‫במילאנו‬ inédito experi‫שמונה‬ 1931‫ב־‬ ‫ויטוריו קורינלדי נולד‬ ‫לברזיל‬ ‫איטליה ולהגר‬ ‫לעזוב את‬um ‫משפחתו‬ ‫נאלצה‬ mento social, como também fator de,1939‫ ב־‬,‫שנים‬ ‫בעקבות החקיקה האנטישמית שהנהיג המשטר הפאשיסטי של‬ primeira importância na ‫ויטוריו‬ criação Esta‫ לרבות לימודי‬,‫בברזיל‬ ‫ עשה‬do ‫לימודיו‬ ‫ את רוב‬.‫מוסוליני‬ ‫סיים‬pela ‫שאותם‬coesão ,‫ סאו פאולו‬e‫באוניברסיטת‬ ‫ ערים‬de ‫אדריכלות ובינוי‬ do de Israel: disciplina ‫ עם סיום מלחמת עולם השנייה ולאחר שנודעו‬.1954 ‫בשנת‬ seus membros, que permitiu assumir po‫ כמו רבים מבני‬,‫ חש ויטוריו‬,‫בעולם זוועות השואה ותוצאותיה‬ sição de liderança nos ‫להצטרף‬ difíceis anos que‫הנוער היהודי‬ ‫לשורותיה של תנועת‬ ‫דחף עז‬ ,‫באותה עת‬ ‫במאבק‬ ‫חלק‬ ‫ליטול‬ ‫במטרה‬ ,‫ציונית־חלוצית־סוציאליסטית‬ ‫נוער‬ precederam a Independência (quando o 1955‫ הוא הצטרף לתנועת ״דרור״ וב־‬.‫להקמת מדינת ישראל‬ “Ishuv” judeu pouco superava os‫לגרעין‬ 600‫חבריו‬ mil‫עלה לארץ עם‬ ‫ברור חיל‬ ‫והתיישב בקיבוץ‬ ‫מהתנועה‬ ‫בקיבוץ‬ ‫דרכו‬ ‫מתחילת‬ .‫שנה‬ 40 ‫במשך‬ ‫חבר‬ ‫היה‬ ‫ שם‬,‫שבצפון הנגב‬ habitantes); pela contribuição que trouxe ‫החל ויטוריו לעבוד במחלקה לתכנון של התנועה הקיבוצית והיה‬ ao esforço de defesa, tanto no que toca ao ‫ במסגרת זו היה‬.‫ שנים‬10 ‫לאדריכל הראשי של המשרד במשך‬ ‫ פרויקטים‬,‫מעורב בתכנון פרויקטים רבים עבור קיבוצי התנועה‬ ‫ מוסדות‬,‫שהתפרסו על־פני תחומים מגוונים כתכנון מבני מגורים‬ ‫ באמצעות‬.‫ ותכנון יישובי ואזורי‬,‫ מתקני ספורט‬,‫ מבני ציבור‬,‫חינוך‬ ‫כתיבה ופרסום של מאמרים בארץ ובחו״ל ובאמצעות הרצאות‬ ‫שנשא בפני פורומים מקצועיים ובפני כלל הציבור פעל ויטוריו‬ ‫רבות להפצת ההיבטים המיוחדים של התכנון והאדריכלות‬ ‫ וזאת במטרה לעורר מודעות לייחודה של אדריכלות‬,‫הקיבוצית‬ ‫ פעילותו בתחום‬.‫זו ולמקומה בהקשר התרבותי־הישראלי הרחב‬ ‫התכנון הולידה אצלו עמדה וגישה ייחודית ביחס לחיי השיתוף‬


‫ויטוריו קורינלדי‬

Dror — Ontem e Hoje

‫צחוק הגורל‬

Vittorio Corinaldi Ironias do destino

Vittorio Corinaldi

‫ויטוריו קורינלדי‬ ‫צחוק הגורל‬

elemento humano, quanto ao fornecimento da base logística indispensável para a convocação e treinamento do que veio a se transformar no Exército de Defesa de Israel, no período em que o domínio britânico e a difusa hostil presença árabe não permitiam agir abertamente nesse campo; pela atuação pioneira na criação de um novo homem judeu, ligado à terra e ao trabalho manual na agricultura e na indústria; pela importância que teve a distribuição geográfica de suas comunas na definição das fronteiras do nascente estado, e pelo caráter igualitário que por longo tempo moldou os anseios da sociedade israelense. É natural que um tão forte contingente de fatores deixasse sua marca também na criação cultural daqueles anos: na literatura, nas artes plásticas e no teatro, na procura de formas atualizadas para a milenar tradição judaica e, mais do que tudo, na música e dança populares, que se apresentam como parte de um nascente sadio folclore. Neste quadro, encontramos também reflexos que retratam com humor a realidade do kibutz e a medem segundo uma ora jocosa, ora saudosa escala comparativa com o mundo “exterior” e com um passado radicalmente diferente para muitos. Bror Chail também se coloca nesse quadro, mas com o acréscimo de mais uma característica: a de ter nascido e continuar a ser conhecido como “o kibutz brasileiro”. E, então, ao lado dos aspectos gerais comuns a todos os kibutsim, ele guarda certos acentos muito dele próprio: a língua

Ironias do destino

‫דרור — בעבר ובהווה‬

hebraica nele é falada com o inconfundível sotaque cantado do português e com uma singular mistura de palavras e gírias brasileiras em meio ao discurso num hebraico às vezes ainda rudimentar; a cozinha mantém cardápios e sabores do país de origem, e a vida comunitária se desenvolve com visão antidogmática, bem humorada e benevolente, à moda do “jeitinho” brasileiro temperado pelo som e pelo ritmo da música brasileira e pelo cultivo do futebol. Hoje, muito de tudo isto se dissipou e pertence à história: história de Bror Chail – criação original do judaísmo brasileiro – e história do fenômeno kibutz em geral, que tem que ser preservado numa memória que possa inspirar futuros desenvolvimentos do tecido social israelense, num sentido de solidariedade e justiça que o kibutz quis fazer seus princípios. Ao lado de estudos e pesquisas, documentação acadêmica ou exercícios de desafio cultural, se também um inocente divagar no terreno da observação humorística, ilustrada com traço de consciente qualidade gráfica, puder contribuir para tal memória – teremos atingido uma modesta positiva ambição. Vittorio Corinaldi é engenheiro formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-SP), vive em Israel desde 1956. Foi membro do Kibutz Bror Chail e atuou em diversas funções ligadas a arquitetura, planejamento e organização dentro do movimento kibutziano.

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A VISITA DO MINISTRO O Kibutz Bror Chail saía da sua rotina quando celebridades e políticos brasileiros iam visitá-lo. Era praxe da embaixada brasileira incluir o “Kibutz brasileiro” no itinerário de visitas dos hóspedes oficiais. O respeito às regras do protocolo punha o Kibutz num clima de excitação coletiva para exibir uma fachada de ordem e limpeza desconhecida no cotidiano...

OS MACABEUS VÊM AÍ... A delegação brasileira da Macabíada é recebida no Kibutz com uma feijoada. A entrada dos esportistas é saudada pelos esguichos automáticos cadenciados num movimento giratório, que irrigavam o gramado. Esse dispositivo condicionava a passagem das pessoas ao ritmo da queda d’água, produzindo uma cena típica no ambiente kibutziano. O cardápio brasileiro tinha marca registrada em Bror Chail, não só nos eventos especiais, como era constante na gastronomia do Kibutz. O feijão com arroz e o bife à milanesa, servidos semanalmente no refeitório, eram apreciados tanto pelos chaverim como pelos cães dos que chegavam primeiro ao refeitório, para desgosto dos retardatários...

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ASSEMBLEIA-GERAL Ao contrário do que se costuma pensar, a exemplar democracia do Kibutz – privilégio em que todos sem exceção tinham poder para decidir sobre os destinos do coletivo – não gozava de excesso de popularidade... Atividades alternativas ou divertimentos concorriam com a presença de chaverim na assembleia a ponto de eles abdicarem do direito e privilégio de participar das votações que decidiam sobre o presente e futuro do Kibutz.

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KABALAT SHABAT Celebração do Shabat conjunta no refeitório. A cerimônia tradicional que precedia à refeição incluía leitura de textos em hebraico erudito, incompreensíveis para a maioria, que esperava ansiosa pela sopa, servida sempre fria quando a tigela era posta sobre a mesa. O prazer de voltar às origens e renovar a tradição judaica no espírito da vida coletiva kibutziana se chocava com o hebraico precário da maioria dos membros de origem brasileira, com o sentar de forma apertada, com o ruído das crianças impacientes e, para alguns, com a odiada expectativa de ter de servir a refeição ou lavar os pratos e talheres de todos.

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CHANUKÁ A comunidade judaica de Veneza doou ao Kibutz uma antiga e valiosa chanukiá do período renascentista italiano. Após anos em desuso causado pelo definhamento daquela comunidade, essa preciosidade ganhou nova vida no Kibutz, conforme o desejo dos doadores. Nos dias festivos, a chanukiá era acesa no refeitório na presença de toda a coletividade. O uso renovado da chanukiá no Kibutz, no entanto, não fazia jus à nobre tradição do objeto excepcional. Este ficava largado com os restos da refeição...

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A FESTA DE PESSACH A imagem reflete chaverim e visitantes na noite em que se comemorava a cerimônia de Pessach. O Kibutz renovou a tradição do Seder, adaptando a cerimônia e a leitura da tradicional Hagadá aos valores e cultura kibutzianos e trazendo um sentido atual. Os valores universais que diziam respeito à liberdade eram mais evidentes que os particulares religiosos. A noite do Seder no Kibutz atraía familiares, amigos e turistas. As visitas chegavam em massa para participar do festejo coletivo no refeitório, que mal conseguia conter a inusitada quantidade de comensais. — 67 —

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SEGURANÇA À MODA BROR CHAIL

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A percepção que urgia fortalecer a proteção e defesa do Kibutz aumentou após a Guerra dos Seis Dias, o que exigia boa manutenção e funcionamento do sistema de segurança. A rotina de trabalho, nos campos e na indústria, num estado de alerta permanente era fundamental. A gravura expõe o desleixo crônico que reinava em todas as camadas da vida comunitária no que tange à segurança. Surpreendentemente, e à luz do ditado “Deus é brasileiro”, o Kibutz não sofreu naquele período, tampouco depois, em consequência dos episódios violentos que assolavam outros kibutzim na região limítrofe à Faixa de Gaza, da qual o Kibutz faz parte.

PILOTOS SOVIÉTICOS NO EGITO A charge se inspirou numa notícia que circulou naqueles dias que informava sobre a presença de “instrutores” soviéticos destacados para auxiliar a Força Aérea egípcia. Na aeronave egípcia, se vê o símbolo das autoescolas de Israel, e o piloto árabe não parece inspirar demasiada confiança no instrutor russo. No espírito algo presunçoso da euforia que envolveu a aviação israelense depois da Guerra dos Seis Dias, ao lado do avião soviético se nota a presença de outro, porém israelense (conforme o estereótipo do “sabra”), que sobrevoa e ultrapassa a aeronave egípcia sobre o Canal de Suez. — 69 —

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LITERATURA BRASILEIRA EM ISRAEL Entrevista com Jacques Fux

E “Esta é a beleza da ficção. Você pode se apropriar de fatos reais, biográficos e mentirosos e misturar tudo, criar um grande amálgama que ninguém – nem o próprio autor – sabe ao certo o que é citação, intertexto, verdade ou ilusão.”

m fevereiro deste ano foi lançada em Israel a tradução para o hebraico do romance Antiterapias, do premiado escritor mineiro Jacques Fux. Em celebração desta “exportação” de cultura brasileira-judaica, entrevistamos o autor durante sua estada em Tel Aviv.

Devarim: Qual a sensação de ter um livro seu traduzido para o hebraico? O que você sentiu visitando Israel para o lançamento de Antiterapias? Foi muito diferente do que nas outras visitas? JF: Um sonho feliz voltar a Israel, agora lançando o meu primeiro romance. Foi com esse livro que tudo começou, por ter sido premiado na minha estreia1 e, assim, poder seguir com minha carreira literária. E, curiosamente, neste livro conto as minhas histórias no período em que morei no Kibutz Hatserim, as minhas histórias na Tnuá – Habonim Dror – na Escola Judaica Theodor Herzl em Belo Horizonte. A busca (e as muitas perdas) pelo amor, a Diáspora, o “ser judeu” e a minha formação enquanto leitor e autor. De volta a Israel, visitei muitos lugares e pessoas que apareceram no livro. Muito interessante essa mistura/amálgama entre as memórias, a literatura, o passado escrito e o presente redescoberto. D: Conte um pouco sobre você. Sobre a sua educação judaica em Belo Horizonte, em casa, na escola e na tnuá, e a sua posterior inserção no mundo da matemática e da inteligência artificial. 1 Antiterapias venceu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2013.

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Acima, lançamento em Israel do livro Antiterapias, de Jacques Fux.

JF: Sempre estive inserido no mundo judaico. Clube, escola, família e o Habonim Dror. Ah, a tnuá! Acho que foi a parte mais importante da minha formação, sem dúvida. Amigos, amores, saudades, lutas, engajamentos, discussões, machanot, shnat. Fui Maskir, sionista, um apaixonado pela cultura judaica e pela história. Estou impregnado de judaísmo, de valores e conhecimentos judaicos, mas não sou religioso. Tenho a possibilidade de conhecer muito sobre religião e valores judaicos sem ter fé, ou tendo uma “fé literária”. Minha formação foi bem eclética. Fiz engenharia elétrica, depois matemática, mestrado em computação, doutorado (e alguns pós-doutorados) em Literatura Comparada. Gosto de tudo, e sempre quis abraçar o conhecimento. Talvez seja por isso a minha escolha pela escrita – nesse mundo posso querer tudo, de todas as maneiras (como já disse o Pessoa). Eu admiro profundamente a Matemática e os matemáticos. Os grandes problemas e as grandes soluções, apesar de difíceis e quase impossíveis de se entender, revelam poesia e arte. Para mim, o pessoal das Ciências Exatas ou Duras (como se diz na França) é artista, apesar de muitas vezes não saber disso. Assim, almejando aumentar as minhas possibilidades artísticas e literárias, caminho como um intruso na Matemática. Dou aulas de Cálculo, Equações Di-

ferenciais e Álgebra e Inteligência Artificial, mas sempre tentando motivar os alunos pelos grandes problemas e pelas possíveis relações com a Literatura. A Literatura sempre me perturbou, principalmente quando li pela primeira vez Jorge Luis Borges. Eu lia e não entendia nada e me perguntava como aquilo poderia ser bom. O tempo foi passando e comecei a entender um pouco mais de Borges, encontrando ali algumas possibilidades matemáticas. Porém, desde pequeno, era um bom aluno nas ciências exatas e sempre imaginei que seguiria essa profissão. D: Por que a literatura? O que o atraiu para ela? JF: Encantado com Borges, e com sua matemática, lógica e ficção, fui atrás de outros escritores que também se utilizaram dessa área “exata” para escrever. Fiz uma tese de doutorado, que foi publicada sob o título: Literatura e Matemática, e escrevi muitos artigos acadêmicos. Apesar de gostar da academia, queria eu mesmo aplicar essas descobertas e constatações na minha literatura – e por isso me dediquei à ficção. A escrita ficcional é, mesmo que utilizemos regras e restrições, muito mais rica e sofisticada que a escrita acadêmica. Eu faço uso da teoria, mas constantemente a subverto e a contradigo, tudo isso como um recurso ficcional. E acho isso maravilhoso. O mais impor-

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tante é gostar de estudar. Gostar sempre como escondê-los e, portanto, se o cheiro Acho que a tnuá foi a de descobrir e aprender novas coisas. Fasparte mais importante da não for atrativo não há o encontro. Essa cinar-se com o conhecimento, com a poeideia foi corroborada por artigos científiminha formação. Amigos, sia e a beleza dos mistérios das diferentes cos publicados no início dos anos 2000. amores, saudades, lutas, áreas do saber humano. O conhecimento Outro aspecto que me chamou a atendiversificado me possibilitou abrir novos engajamentos, discussões, ção para escrever meus livros foi o fato de campos de estudo. Juntar áreas e pesquiexistir um mito sobre a hipersexualidade machanot, shnat. sas distintas. Assim, conhecendo um poujudaica. Se, como esse mito diz, é o povo quinho de algumas coisas, pude propor que mais transa e mais, é compulsivo sealguns estudos e abordagens diferentes dentro da ficção e xual, logo também, por raciocínio estatístico, tem que ser da literatura. Lugar onde me sinto feliz e quero continuar. o povo que também mais brocha. Este livro, então, discute a história da sexualidade em Foucault, em Freud em BatailD: Fale sobre seus livros, a tetralogia: Antiterapias, Brole, no judaísmo e nas minhas “próprias” relações sexuais. chadas, Meshugá e Nobel. Um pouco sobre cada um deNo meu terceiro livro ficcional Meshugá, como é dito les e como você construiu esse caminho. logo nas primeiras linhas, trato dos mitos e das crenças JF: De posse do que aprendi e descobri na minha tese atribuídas (pela cultura, pela História e muitas vezes pela de doutorado – a questão do uso “disfarçado” de regras e ciência) ao louco judeu, ou ao judeu como louco potenrestrições, dos problemas de acesso da memória, do testecial. Misturando dados históricos, literários e ficcionais de munho dos sobreviventes e da formação do meu cânone célebres personagens, o narrador entra na mente de seus literário –, resolvi escrever um texto ficcional. Foi algo inprotagonistas buscando construir seu próprio “ensaio sogênuo, sem muita expectativa, mas que acabou me lançanbre a loucura”. Este livro surge como uma continuação nado como escritor em virtude do livro ter recebido o Prêmio tural do Brochadas. Se lá resolvi dar um foco na questão da São Paulo de Literatura. Uma enorme alegria – e a certesexualidade, aqui, em Meshugá, decidi investigar a quesza de que estava no caminho que sempre sonhei – tomou tão da loucura. Uma das teorias mais disseminadas era que conta de mim. a loucura estava diretamente relacionada à tara sexual juO Antiterapias vai além dos próprios conceitos da audaica e também à ideia de o judeu ser um povo incestuotoficção. O livro embaralha a noção de gênero e reinventa so. Fui atrás dessas teorias – absurdas – e pseudocientíficas artifícios memorialísticos já que, muitas vezes, a memória e encontrei personagens e biografias “reais” para corrobodo narrador é uma memória literária e não pessoal – mas rar insanamente com essas suposições. que se confunde, de fato, com momentos vividos pelo auO livro, portanto, decide entrar na mente dessas figuras tor/narrador. Esse projeto, a meu ver, amplia a noção de “famosas” (Woody Allen, Bob Fischer, Ron Jeremy) e engênero, e subverte uma tentativa de classificação. tender a loucura deles – ou nossa? O livro é delicadamente Após Antiterapias, publiquei o Brochadas: confissões seconstruído, e os momentos ficcionais são tão engendrados xuais de um jovem escritor, a minha “Ilíada da impotênque chega a confundir o leitor levando-o a acreditar que se cia”, no qual intercalo relatos pessoais, troca de e-mails trata de “biografias”, o que não é verdade. e esboço histórico sobre o tema, dando assim um aspecO narrador de Meshugá é tragado, numa espécie de to ensaístico e um caráter híbrido ao texto. E de antemão efeito Zelig, por esses personagens que acabam sustentanaviso: “Tudo aqui é verdade, exceto o que não invento”. do ou ilustrando mitos que pretendia derrubar. Esta é a beEsse livro nasce de um pé de página do Freud no livro O leza da ficção. Você pode se apropriar de fatos reais, biográMal-Estar na Civilização. Nessa passagem, Freud nos fala ficos e mentirosos e misturar tudo, criar um grande amálsobre a questão dos odores e de como, pelo fato de nos legama que ninguém – nem o próprio autor – sabe ao cervantarmos e nos transformamos em seres bípedes, acabato o que é citação, intertexto, verdade ou ilusão. Dentro mos por recalcar o cheiro e privilegiar a atração pela “vido domínio do texto, do livro, do pacto, tudo tem sua rasão”. Daí surge a minha teoria dos desencontros – brochazão e sua autenticidade, mas não é necessário haver uma das – já que na hora do sexo os cheiros irrompem. Não há “comprovação”.

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“Eu admiro profundamente a Matemática e os matemáticos. Os grandes problemas e as grandes soluções, apesar de difíceis e quase impossíveis de se entender, revelam poesia e arte.” E, o que aconteceu de fato foi que o narrador Jacques Fux, que aparece no primeiro e no último capítulo, acaba introjetando todas as histórias de seus personagens e enlouquecendo. Em Antiterapias o narrador diz, ainda no primeiro capítulo: “A ideia do Nobel seria a visão que me desestabilizaria emocionalmente, como uma doce náusea, ainda bastante jovem. Deveria estar com tudo pronto para receber meu prêmio aos 33 anos. Mas a vida é cheia de obstáculos”. Aí se inaugura a tetralogia. A questão é que essa ideia acabou sendo criada – e os livros conversam bastante. Eu tinha que ganhar o Nobel no Antiterapias e, de fato, o ganhei em 2018. O Nobel é o meu discurso de recebimento! D: Antiterapias ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura, foi traduzido para o hebraico e está sendo considerado por editores em outros países. Este reconhecimento faz você pensar em se dedicar exclusivamente à sua escrita? JF: Antiterapias foi traduzido para o espanhol, e o Meshugá para o italiano. Infelizmente ainda não posso viver só de literatura – é um sonho. As pessoas leem pouco e compram poucos livros. Mas, sigo na luta e esperando que um dia possa viver só disso, me dedicando integralmente às letras. D: Você alguma vez leu a Torá como se estivesse lendo literatura? JF: Sim. Sempre! É um dos mais importantes livros de literatura! D: Finalmente, conte-nos um pouco sobre o livro infantil que você está lançando. Para que faixa etária você está escrevendo? Fazer literatura infantil é muito diferente do que escrever para adultos? O que o fez embarcar em mais esta empreitada?

JF: O livro começa com a citação de Guimarães Rosa, “Queria a língua que se falava antes de Babel”. Foi a partir daí o mote para a escrita da obra. A ideia que norteia o livro é a ideia da “Torre ou da Biblioteca de Babel”. A ideia de unificação, de entendimento, de paz e concordância entre os povos e os seres do nosso mundo. E, se a “língua” falhou – como no mito de Babel – a proposta é que a matemática – que clama por uma universalidade – nos ajude a unir a compreensão. Gosto de falar de grandes autores e grandes obras para crianças de todas as idades – nós, adultos, escritores ou leitores, também somos crianças que fazemos um pacto/contrato com o livro. E nos divertimos com ele. Então, falar de Rosa, Borges, Poe, Carroll, Perec – e muitos outros – é uma grande brincadeira para todos. O Enigma do Infinito é cheio de mistérios, palíndromos, lipogramas e enigmas, tanto nas entrelinhas quanto nas ilustrações. E, partindo dessa ideia da Torre de Babel, uma ideia mítica e mística, percorremos várias histórias, autores e mistérios, caminhando junto com o leitor por esse mundo fascinante dos mistérios das letras e dos números. O livro explica brincando esses conceitos. Falo das derrotas da “Torre de Babel” e falo, assim, falo sempre da A Torre da Derrota (que pode ser lido de trás para frente!). Conto do jogo da Torre de Hanói – que é bem simples – mas que, se jogarmos com muitas argolas, o jogo pode durar até o fim do mundo – ou até o dia em que as estrelas comecem a se apagar. É um grande barato! As ilustrações também são fantásticas. A ilustradora/ inventora/autora Raquel Matsushita recriou e reinventou enigmas, paradoxos e mistérios nas figuras. Cabe ao leitor descobri-los! Está repleto, e repleto de sonhos, desejos e infinitos. D: Muito obrigado e muito sucesso nas suas empreitadas!

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UM JOVEM CARIOCA

Gabriel Richards

T

enho 22 anos de idade, sou madrich do Movimento Juvenil Judaico Sionista Hashomer Hatzair, moro no bairro da Tijuca na cidade do Rio de Janeiro, curso História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, amo as artes e escrevo poemas. Como madrich do Hashomer Hatzair, não posso deixar de dizer que é um movimento que a cada dia me inspira, me ganha, me arrebata. Nele, o prazer da troca, da comunhão, da empatia, e de noção educacional freireana de que vivemos no mundo e com o mundo, não tem preço. Entender que nada se faz sozinho, que nada pode parecer impossível de mudar quando estamos diante de um desafio, é gracioso, me dá coragem. Nessa tnuá, tive contato direto com os valores e princípios judaicos com uma educação não formal potente e realizadora, judaica e sionista, que foram fundamentais na minha formação enquanto pessoa. Valores e princípios estes que me influenciaram a sempre almejar o respeito ao próximo e à diferença, a intelectualidade e a criticidade. E o poema que agora publico, certamente é uma extensão e fruto dessa educação ­shômrica transformadora.

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O que escrevi é algo que fala de corpo, dos sentidos humanos, de alma, afetos, imaginação. É tudo aquilo que em parte um jovem sente e tenta traduzir com palavras: eis um poema. Lembra o leitor, ou a leitora, que o diafragma existe e que se for usado para gargalhar, é uma boa! Propõe-se a alegria como um escape para aguentar o peso da realidade. Ou melhor: a alegria como ferramenta que detona e nos livra do que pode nos destruir enquanto sujeitos. E se legitima por intermédio de um sábio do século XVIII que gosto muito: o Baal Shem Tov. Fundador do Chassidismo, deixou como legado que o entusiasmo através do canto, da oração e da dança – e também de outras manifestações ordinárias – espantam o sofrimento na vida e aproxima o humano à dimensão do sagrado. O poema convida a quem o lê a enxergar, na recontextualização de nomes e personagens da Bíblia Hebraica e numa benção da tradição judaica, a possibilidade do rompimento como abertura, rumo a uma interpretação razoável, poética. Utilizando a repetição como técnica alusiva ao sagrado subjetivo e coletivo: uma maneira de explicitar o afeto e a intimidade com a tradição, o sagrado e o profano. Mescla caminhos explorando a imaginação.


Francescoch/iStockphoto

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oder ouvir. Que privilégio! Que poesia! Poder sentir. Quão envolvente é! Quão doce é o sabor! A produção de alegria é meu trabalho preferido. Gargalhar, mover no ritmo natural do próprio corpo o diafragma é para alguns, sinal de benção de D’us. Há um sábio judeu chamado Israel Ben Eliezer que viveu no século XVIII e dizia que saber viver, é viver com alegria. Eu concordo fervorosamente com essa ideia. O estado de alegria é o antídoto da devastação subjetiva. Do que é o eu saudável. Do que nos compõe enquanto sujeitos. Tudo aquilo cravado, magoado, estacionado, dilacerado, irrompe-se com o estado de alegria. Adão, Eva, Abraão. Romper. Romper. Rompeu. Romperá. Tudo que é sagrado rompe! Não percebes que o mistério feminino é rompido no milagre do encontro consentido com o cano que jorra sementes? Ou com o dedo que também rompe e pode gerar sementes de vida e prazer ao corpo? Baruch atá Adonai, elohêinu melech haolam, shehechiánu, vekimánu, vehiguiánu la zman haze. (Abençoado sê Tu, Adonai nosso Deus, Soberano do tempo e do espaço, que nos mantém com vida, em existência plena e nos fazes chegar a este momento.) Baruch atá Adonai, elohêinu melech haolam, shehechiánu, vekimánu, vehiguiánu la zman haze. (Abençoado sê Tu, Adonai nosso Deus, Soberano do tempo e do espaço, que nos mantém com vida, em existência plena e nos fazes chegar a este momento.)

Baruch atá Adonai, elohêinu melech haolam, shehechiánu, vekimánu, vehiguiánu la zman haze. (Abençoado sê Tu, Adonai nosso Deus, Soberano do tempo e do espaço, que nos mantém com vida, em existência plena e nos fazes chegar a este momento.) Itshak. Itshak. Hak. Hak. Hak. Ha. Ha. Ha. Ha. Rompeu. Uma sábia senhorita uma vez me disse que assim esse justo foi nomeado: porque sua mãe riu de D’us quando o mesmo lhe disse: Tu, varoa, mesmo com mais de 90 anos, terás um filho. E não é que a abençoada anciã caiu na gargalhada? Sendo assim, veio Itshak. O homem de D’us que gerou gargalhada em sua progenitora. Rompeu. Tudo que é sagrado se move e você precisa ver, você precisa crer. Você tem que se mexer. Você tem que tecer. D’us é alegria, irmão! Baal Shem Tov já falou! Ele ia subindo o morro com aquela roupa preta, sua barba proeminente e seu olhar cativante que me arrebatava. O que ele fez? Com o toque de sua mão na minha, com a força contra o morro que engendrava, como um cata-vento pega a energia do vento, ele me carregava com energia própria somada paradoxalmente a específica energia mecânica de D’us. Pena que era um sonho. Mas eu entendi o recado. O Baal Shem Tov queria que eu entendesse o que é a fé, e o que a alegria representada por ele naquele sonho era capaz de fazer. A alegria pode te puxar e te elevar ao mais alto e sublime dos morros. Onde o ar puro e os humildes na favela do meu corpo moram. Gabriel Richards é madrich no Movimento Juvenil Judaico Sionista Hashomer Hatzair.

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EM POUCAS PALAVRAS Oleg_Ermak/iStockphoto

HARRY POTTER E A LÍNGUA QUE NÃO MORRE

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eri Poter und der Philosofisher Stain é o título da mais recente tradução da célebre obra de J. K. Rowling. E Arun Viswanath, o autor da tradução, diz que já começou a traduzir o segundo título da série: Heri Poter un di Soides-Kamer. Sim, é isto mesmo! Harry Potter está sendo traduzido para o ídiche! O primeiro título corresponde ao Harry Potter e a Pedra Filosofal e o segundo ao Harry Potter e a Câmara Secreta. Quem diria que isto iria acontecer um dia? O ídiche mostra que as notícias sobre sua morte foram um tanto precipitadas. Ele ainda respira e, como se vê, aspira atrair leitores juvenis.

É

admirável a resiliência da democracia em Israel. Nas terceiras eleições para o Parlamento (Knesset) em menos de um ano, o percentual de comparecimento de eleitores foi o maior em mais de 20 anos: 71,52%. A terceira eleição produziu um resultado semelhante ao das duas anteriores, o que fez muitos preverem que o país caminhava para uma quarta eleição. Mesmo assim, não há uma única voz que questione o processo democrático e advogue pela sua obsolescência.

Além disso, é digna de nota a quantidade insignificante de votos (19 mil num total de mais de 4,5 milhões) que recebeu o partido supremacista judaico de extrema direita. A última colocação, que receberam nesse pleito, os coloca à margem da sociedade israelense. Realmente, necessitar de três (ou mais) eleições para definir um governo é exasperante, mas isto não está enfraquecendo a democracia israelense. ü

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POPULAÇÃO 3 X 0 GOVERNO

O tradutor é neto e filho de eminentes idichistas e como tal se esforçou muito para aprender e difundir o idioma, educando amigos e quantos mais conseguiu alcançar em todas as faixas etárias. Até que um dia sua esposa lhe disse provocativamente: “Você quer mesmo criar crianças que falam ídiche num mundo onde não há Harry Potter em ídiche?” Dentro da melhor tradição machista, onde a esposa tem sempre razão, ele não apenas concordou com ela, como pôs as mãos à obra. Melhor para nós todos, pois o ídiche é repositório de um imenso acervo cultural judaico, que não pode e não merece morrer. ü


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ULTRAJE REVOLTANTE

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m pequeno parágrafo perdido dentro das longas 181 páginas do plano “Peace to Prosperity”, apresentado no começo do ano pelo governo dos Estados Unidos, está tirando o sono de alguns cidadãos israelenses. O fatídico parágrafo propõe um redesenho das fronteiras de Israel, de uma forma tal que um conjunto de 10 cidades de imensa maioria árabe ao norte de Tel Aviv e vizinhas da linha verde (a linha de armistício da guerra de 1949) passe a fazer parte do novo Estado da Palestina. Quase todos os 250.000 moradores destas cidades se revoltaram. “Como é possível que esta fantasia tenha aterrissado no plano norte-americano?”, pergunta um professor de Direito da Universidade de Haifa, morador da cidade Baka-al-Garbia.

Sua indignação é a mesma de muitos, tanto que espontâneas manifestações de repúdio a essa parte do plano surgiram em sua cidade e em muitas outras. E não há a menor dúvida que este dispositivo do plano é muito problemático. Os árabes em Israel têm justas reclamações pois, lamentavelmente, os sucessivos governos de Israel não alocam fundos em suas comunidades nas mesmas proporções que nas comunidades de maioria judaica. É visível até ao mais distraído passante o desnível entre a qualidade da infraestrutura entre uma cidade árabe e uma judaica. Mas os árabes em Israel também têm elogios: contam com acesso pleno à educação de primeira qualidade, idem para os serviços de saúde, vivem numa democracia igualitária, não são

censurados, não têm medo da polícia, vivem onde bem entendem e se deslocam com a mesma liberdade do que os demais cidadãos do estado. Tudo o que almejam é aprimorar a alocação de verbas em Israel e não trocar seu país natal por uma Palestina ditatorial cujas últimas eleições aconteceram há quase 15 anos, que oferece serviços de péssima qualidade, é corrupta e infestada por milicianos. O “ultraje revoltante” do título da nota vai, então, para os que, mesmo tendo ciência dessa realidade, denunciem um suposto apartheid em Israel. A primeira coisa que vem à cabeça é: “Será que não percebem o quão antinatural é o segregado e oprimido se revoltar contra a sua libertação?” Mas depois cai a ficha: “O pior é que sim, percebem”. ü

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CONTRAPROPOSTAS PALESTINAS

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que indicam as contrapropostas dos palestinos às principais propostas de convivência entre os judeus e os árabes em Israel-Palestina? Vejamos a lista abaixo: 1937 – Comissão Peel Proponente: Reino Unido, a potência mandatária na região. • Resumo da proposta: divisão do território num Estado Árabe e num Estado Judaico. • Contraproposta palestina: nenhuma, pois a presença de um Estado Judaico na região é inaceitável. 1947 – Resolução 181 da ONU Proponente: ONU. • Resumo da proposta: divisão do território num Estado Árabe e num Estado Judaico. • Contraproposta palestina: ne-

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nhuma, pois a presença de um Estado Judaico na região é inaceitável. 1967 – Após a Guerra dos Seis Dias Proponente: Israel. • Resumo da proposta: abertura de negociações diretas para um acordo de convivência. • Contraproposta palestina: não à paz com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não às negociações com Israel (conforme a reunião da Liga Árabe em agosto de 1967, pois a presença de um Estado Judaico na região seria inaceitável). 1993 – Acordos de Oslo Proponente: Israel e palestinos. • Resumo da proposta: reconhecimento pelos palestinos do Estado de Israel, reconhecimento de Israel ao direito de autodeterminação dos palestinos, autogoverno palestino em áreas da Cisjordânia e na Faixa de Gaza, criação de um Estado Palestino a ser declarado após a conclusão de negociações sobre Jerusalém, aspectos de segurança e a questão dos refugiados palestinos. • Contraproposta palestina: não aplicável neste caso, pois houve um acordo. 2000 – Cúpula de Camp David Proponente: Estados Unidos da América. • Resumo da proposta: estabelecimento de negociações diretas entre as partes, com a mediação dos EUA, considerando que “nada será definitivo até que tudo esteja acordado” (uma tentativa de ultrapassar a dificuldade das fases posteriores aos Acordos de Oslo). • Contraproposta palestina: apesar de não existirem documentos escritos, é sabido que as negociações falharam porque os palestinos não concordaram em abrir mão do “direito ao retorno”, que garantiria o direito dos palestinos a morar em Israel (algo semelhante a você comprar um apartamento com direito a morar no apartamento do vizinho).

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2002 – Iniciativa Saudita Proponente: Arábia Saudita, reafirmada pela Liga Árabe em 2002, 2007 e 2017. • Resumo da proposta: um conjunto de 10 parágrafos sugerindo a normalização das relações entre Israel e os países da Liga Árabe em troca da retirada plena dos territórios conquistados por Israel em 1967 (incluíndo Jerusalém) e um “acordo justo” (sem definir qual seria) para a questão dos refugiados palestinos. • Contraproposta palestina: a OLP aceitou a proposta, o Hamas, que governa a Faixa de Gaza, a rejeitou reafirmando que a presença de um Estado Judaico na região é inaceitável. 2011 – Iniciativa Israelense Proponente: Partidos de esquerda de Israel. • Resumo da proposta: retirada de Israel da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (sem especificar se seria completa ou não), com a manutenção da soberania israelense no bairro judaico de Jerusalém e o estabelecimento do Monte do Templo como zona neutra. • Contraproposta palestina: Nenhuma. 2020 – Paz e Prosperidade Proponente: Estados Unidos da América. • Resumo da proposta: estabelecimento de um Estado Palestino em áreas da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, significativa ajuda financeira norte-americana a esse Estado, manutenção do exército israelense em áreas estratégicas da Cisjordânia. • Contraproposta palestina: Nenhuma. Como se vê, houve uma significativa evolução na posição dos palestinos, que até 1993 não aceitavam a presença de um Estado Judaico na região. O caminho é cheio de solavancos, mas de uma forma geral os palestinos e os árabes se movem em direção de um acordo... ü


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A GUERRA DOS SEIS MINUTOS

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onfirmando as previsões dos especialistas cujo ódio ao atual governo norte-americano enfraquece a capacidade analítica, a terceira guerra mundial aconteceu durante os poucos minutos do dia 8 de janeiro nos quais 16 mísseis balísticos (dos quais quatro falharam) foram lançados do Irã contra duas bases do exército iraquiano onde também estão estacionadas algumas tropas do ocidente. Uma hora antes dos ataques, o governo iraniano avisou o governo iraquiano sobre os locais onde os ataques ocorreriam e como seriam conduzidos. Também recomendou que nenhuma pessoa ou equipamento, militar ou civil, estivesse por perto durante os ataques para não haver casualidades. Os iranianos explicitaram que não iriam alvejar nenhuma instalação e que estavam avisando previamente para que não atingissem pes-

soas ou equipamentos em locomoção pela área. Os mísseis que não falharam cumpriram a sua dupla missão de se enterrar na areia do deserto e de permitir aos iranianos alardear em sua imprensa submissa que haviam vingado o assassinato do comandante da brigada Al Quds, atingido por um drone do exército americano cinco dias antes. A brigada Al Quds tem a nada simpática missão de espalhar a revolução dos Aiatolás pelo mundo, desestabilizando governos e comunidades ao redor do planeta, através da violência e do terrorismo. Seu comandante era considerado um terrorista por quase todos os governos do mundo democrático. Foi a guerra (mundial ou não) mais curta da história da humanidade. E ela teve um resultado bem interessante. Além dos mísseis iranianos, também foi enterrada na areia do deser-

to iraquiano a percepção “vendida” pelo governo norte-americano anterior que só haviam duas condições de lidar com o Irã: ou através da guerra total ou através do apaziguamento. Tendo este governo, então, optado pela alternativa do apaziguamento, cujo resultado foi o oposto ao pretendido, com a expansão das ações da brigada Al Quds, notadamente na guerra civil da Síria, na guerra civil do Iêmen e na desestabilização do governo libanês. Muito provavelmente o apaziguamento levaria a uma guerra total. O novo governo americano mostrou que há uma terceira alternativa: a dissuasão. Ainda é cedo para avaliar o resultado desta estratégia, mas já se pode dizer que até este momento a reação iraniana foi de contenção de seu esforço em desestabilizar a região pela exportação de sua “revolução” (leia-se governo teocrático shiita). ü

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UMA HISTÓRIA POUCO CONHECIDA

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ma matéria do excelente jornal israelense Times of Israel começa assim: “No final da década de 1930, o presidente das Filipinas, Manuel Quezon, recebeu mais de 1.200 judeus da Alemanha e da Áustria em um improvável paraíso no arquipélago do Pacífico. Com sua política de portas abertas, mesmo quando a maioria das nações as fechava aos judeus, esses judeus escaparam da crescente ameaça de Hitler e chegaram à capital das Filipinas. Não fosse a interferência do governo dos Estados Unidos, no entanto, poderia haver milhares de judeus resgatados. O embaixador filipino em Israel contou que, embora Quezon desejasse levar dezenas de milhares de ju-

deus para as Filipinas e instalá-los permanentemente na ilha de Mindanao, seus esforços foram frustrados pelo governo dos EUA, que o limitou a aceitar 1.000 judeus por ano, durante um período de 10 anos. O pouco conhecido resgate foi comemorado em 27 de janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto, nas Nações Unidas em Nova York, bem como no centro cultural recentemente inaugurado da embaixada das Filipinas em Tel Aviv, o Balai Quezon.” Em 1898, depois da derrota da Espanha na guerra Hispano-Americana, as Filipinas foram cedidas pela Espanha aos Estados Unidos, que governaram o país como um protetorado até a invasão japonesa em 1942. Assim, durante os anos 1930 o governo filipino não tinha liberdade para con-

ceder vistos, sendo obrigado a receber autorização do governo dos EUA para tal. O Departamento de Estado norte-americano aplicou nas Filipinas as mesmas políticas de restrição à imigração judaica em larga escala vigentes nos EUA. A matéria completa pode ser lida no site do jornal (timesofisrael.com), procurando pelo título “Little known Philippines’ WWII rescue of Jews was capped by US interference”. Ela relata sobre filmes e livros baseados no evento, bem como vários testemunhos pessoais. É uma história que merece ser conhecida, pois ela mostra que você tem que olhar para os dois lados da estrada ao atravessá-la, mesmo que seu avô tenha sido atropelado por um caminhão vindo da direita. ü

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cócegas no raciocínio

O PASSADO É O FUTURO DO PRESENTE

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O que é futuro? Aliás, o que são presente, passado e futuro? Lembrei-me de Heráclito, o filósofo grego que disse uma vez que um rio nunca é o mesmo, porque a água que estava aqui agora já não está mais, o ponto que era seu futuro é agora seu presente, o ponto em que estava presente há um átimo é agora seu passado. Assim também é o tempo. Só existe em forma de memória e de feitos do passado, e de um microssegundo chamado presente no qual o futuro se transforma em passado. A Torá também sabia disso. Em seu texto, um verbo flexionado no tempo futuro vira instantaneamente pas-

sado com o acréscimo da letra ‘vav’. Logo no primeiro parágrafo de Bereshit temos isso cinco vezes: vaiômer, vaiehi, vaiar, vaiavdel, vaikrá. Tudo que existe veio do passado. Tudo que somos, ou sabemos que somos, ou pensamos que sabemos que somos, é nosso passado. O futuro é só uma intenção, que se transforma em fato, em passado, a cada microssegundo. Todos nós, todos os algoritmos, todas as tecnologias, todos os bens (e males) visam a esse futuro que se transforma instantaneamente em passado, e só o passado é a intenção (nossa, dos algoritmos, das

Nathalie Ventura

ecentemente, conversando sobre esse tiroteio ideológico dentro da comunidade, onde sobram balas perdidas e achadas, meu interlocutor me disse que, referindo-se a mim e à minha geração (ou seja, a ideias e posições de minha geração, que para muitos somos como elementos estranhos que o corpo expulsa antes que eles o infeccionem), muitos dizem que representamos, ou melhor, somos, o passado. Sim, não há como negar, o mundo corre apressado em direção ao futuro, não há tempo, há que chegar logo lá, cortar todos os caminhos possíveis. Na era da informação, progresso não mais se refere ao aumento do bem-estar e à ampliação da dignidade, e sim a rapidez e eficiência, tecnologia, algoritmos em vez de gente, telas iluminadas em vez de rostos de pessoas. Controle absoluto de nossas mentes, nossas presenças, nossas vontades e nossas intenções. Pôr em risco florestas, ecossistemas, o próprio ar que respiramos, o ozônio que nos protege, para alimentar “nosso” (não o meu!) desenfreado “progresso” nas cidades. Saber tudo que acontece no mesmo instante, quase nunca compreendendo o que significa. O que importa é mais, mais informação, mais instantaneidade, mais riqueza o mais rápido possível, mais crescimento, sugar hoje e agora tudo que o hoje e o agora podem oferecer. Quem vai usufruir disso? E quem ou o quê vai pagar por isso? A Terra aguenta isso? Até onde, até quando, para quem? Isso não importa. Quem viver, verá. O futuro dirá. Em último caso, Elon Musk já está preparando a fuga para Marte.

Paulo Geiger

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cócegas no raciocínio

Foto: Nathalie Ventura

tecnologias) realizada, transformada em realidade. Sem o conhecimento do passado (saber quem somos e de onde viemos e o que fizemos de nosso futuro) e sem uma intenção de futuro não se sai do lugar. Mas para ter uma intenção de futuro é indispensável ter um ponto de partida, uma realidade, definida pelo passado. Todo esse papo pseudofilosófico é para dizer que nossas intenções, nossa pressa, nossa corrida célere só terá sentido quando se transformar em passado. E que o ponto de partida para isso é o passado que já existe. E para dizer, portanto, que “ser o passado” significa ter tido uma intenção de futuro que se realizou. E que a única forma de se avaliar a história, comparar ideias e ideologias, é comparar as intenções de futuro: as que se transformaram em passado e as que hoje se propõem a isso. Só assim se pode avaliar, por exemplo, o nazismo. Não é nos discursos de Hitler prometendo no futuro um Reich de mil anos. Mas no passado em que esse suposto futuro se transformou. Como identificar promessas de futuro que podem se transformar em passados semelhantes? Queremos promessas de futuro como as de 1984, de Orwell? Ou de Admirável mundo novo, de Huxley? Mas não me arvoro em filósofo, antropólogo, historiador ou profeta, portanto vou me restringir a meu próprio terreno, às intenções de futuro dos companheiros de

minha geração de jovens judeus sionistas chalutzianos, intenções que se realizaram no que hoje é o passado com o qual nos identificamos e nos identificam. Nossa intenção foi participar da construção de uma pátria para o povo judeu, há 2.000 anos no exílio e, na nossa época, recém-saído do Holocausto. Construção tinha significado literal, significava ir para lá, deixar Copacabana e a faculdade, redimir a terra, construir um país e uma sociedade. Ao mesmo tempo, defendê-los, servir no exército, estar pronto para lutar e até morrer. Ao mesmo tempo, revolucionar o caráter do povo judeu, fazê-lo de novo um povo de obreiros, que vive de seu próprio trabalho. Ao mesmo tempo, fazer desses valores uma forma de vida cotidiana, coletiva e cooperativa, sem classes, baseada na solidariedade e na igualdade. Ao mesmo tempo, ser um exemplo de um socialismo que não é o dos regimes e que pode conviver com outro regime, que vem de dentro para fora, não imposto e sim voluntário, sem senhores e sem mentores. Ao mesmo tempo, ser um fator, um exemplo para o mundo de uma sociedade igualitária possível, que não se impõe pela autoridade, pelo empoderamento, pela repressão. E ser parceiro de outros povos, reconhecer o ‘outro’ da ética grega, o que inclui nossos vizinhos, mesmo os que não têm o pedigree de uma história multimilenar. [Hoje chamam isso de

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‘esquerda’ (o que é uma medalha de mérito para a ‘esquerda’) mas embolam com outras ‘esquerdas’ que tiveram e têm intenções diferentes. E com isso a palavra ‘esquerda’, assim como ‘passado’, passa a ser derrisória.] Esta foi a intenção de futuro que se transformou no que hoje se chama de passado, porque realmente é. Devemos nos sentir diminuídos por sermos representantes desse passado? Que passado nos aguarda a partir das atuais intenções de futuro, lá em cima descritas? A imensa conquista do desenvolvimento científico e tecnológico nos deveria prometer um futuro/passado melhor, mas não é o que parece estar acontecendo. Não é preciso ler Yuval Noah Harari – nem assistir a esses filmes que mostram um futuro distópico assustador, que nos divertem quando na verdade nos advertem – para ter noção disso. A pergunta relevante é se o passado que parece estar se anunciando das intenções e das ações do presente será melhor do que o passado que nos trouxe até aqui. E se for melhor, para quem? E se não for para todos, por que seria melhor? Não é tarde demais. Mas até quando haverá tempo? Que passado nos trará o futuro de nosso presente? Eu me orgulho do passado que dizem que sou. Espero que as novas gerações possam um dia dizer o mesmo.


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