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Devarim 40 (ano 14, dezembro 2019)

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DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI

Ano 14, n° 40, dezembro de 2019

Como ensinar Tanach na escola? Rabino Dr. Rani Jaeger

Rute: a força de uma mulher que define o curso de sua vida Berty R. R. Biron

Gói: muito mais do que apenas uma palavra Rabino Joseph A. Edelheit Entre o Abismo e o Abismar-se Rabino Sérgio R. Margulies

A parte que falta Rabino Dario E. Bialer

O poder carismático do judaísmo Abraham Munoz Bravo e Andres Boaz Munoz Mosquera

Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger

Amós Oz universal Paulo Geiger

Guer: a impossibilidade do fundamentalismo Raul Cesar Gottlieb

O humor nas fontes – Milta Dedbichuta Edy Huberman

Torá, a persistência do pergaminho no judaísmo Juliano Klevanskis


EDITORIAL

O

grande escritor russo Leon Tolstói começa a sua mais famosa obra, Anna Karerina (considerado por alguns o melhor romance jamais escrito), com a muitíssimo citada frase: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma em sua maneira”. Penso que a primeira metade da proposição de Tolstói não se sustenta fora do reino da literatura. Pois, sim, existem muitos tipos de felicidade, apesar que textos sobre trajetórias serenas são, realmente, um tanto insossos, sem sabor. Mas a segunda parte da frase acerta totalmente no alvo. Cada tragédia tem sua característica, cada sofrimento é único, não há uniformidade na infelicidade. Contudo, existe na cultura atual uma tentativa de desmentir Tolstói e igualar todas as tragédias ao desastre da Shoah. Polícia mal intencionada é “Gestapo”; governantes cuja política não agrada são “Hitler”; propagandistas tidos como desonestos são “Goebbels”; vítimas de discriminação são “Anne Frank”; muitas matanças são vistas como “genocídios”; locais de internação de imigrantes são “campos de concentração”, e assim segue a longa lista. A Shoah é espelho para tudo de ruim que acontece (e aconteceu) no mundo. É evidente que isto é uma tolice. A Shoah não foi a única tragédia provocada pela falência do sentimento humanitário e, nem mesmo, a maior delas. Estima-se que as campanhas imperialistas de Gengis Khan (séculos 12 e 13) causaram 40 milhões de mortes. Segundo o site Worldometers1, em 1200 a população mundial era de 360 milhões de pessoas. A matança dos mongóis foi tão significativa que o site registra o intervalo entre os séculos 13 a 15 como o único período da história da humanidade em que a população mundial decresceu (em 1400 a população havia caído para 350 milhões). Uma outra tragédia, esta mais recente, foi o comunismo. Não há, entre os historiadores, um consenso sobre os números de mortes provocadas pelos regimes totalitários comunistas da União Soviética, China e Cambodia. Eles variam dos 60 milhões aos 160 milhões. Qualquer que seja o número correto, se ele estiver dentro deste intervalo, é imenso. O filósofo francês Pascal Bruckner, no livro An Imaginary Racism – Islamophobia and Guilt, postula que a equiparação de todas as tragédias ao nazismo não é fruto de uma inocente desinformação e sim é um novo e perturbador tipo de antissemitismo2. Explica ele: 1 https://www.worldometers.info/world-population/world-population-by-year/ 2 An Imaginary Racism – Islamophobia and Guilt, ainda não traduzido para o português.

“De forma geral podemos distinguir entre dois principais tipos de antissemitismo: por um lado, o antijudaísmo religioso que é inspirado pelo cristianismo e pelo islamismo, partindo da acusação de o povo de Moisés ter matado Cristo, e ter persistido no erro ao não aceitar as revelações dos Evangelhos e do Corão… e, por outro lado, o provocado por ressentimento nacionalista, que acusa as minorias de agitação prejudicial à boa saúde do país. A partir de 1945, a estes dois agravos clássicos se somou um, inesperado, terceiro: a inveja do judeu como o deportado, o paradigma do infortúnio de Auschwitz. O sofrimento judaico se tornou a referência e a Shoah o evento fundacional com base no qual crimes contra a humanidade são concebidos”. (p. 74) Bruckner postula que por uma monstruosa má interpretação a Shoah se tornou um objeto de desejo, que fascina as pessoas por ser um recurso que podem usar em seu proveito. Ele cita como um exemplo entre muitos a declaração de Sir Iqbal Sacranie, secretário-geral do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, que propôs substituir o Dia da Memória do Holocausto pelo Dia do Genocídio, argumentando: “A mensagem do Holocausto foi ‘nunca mais’ e para esta mensagem ter efeito prático na comunidade mundial ela deve ser inclusiva… os muçulmanos se sentem ofendidos e excluídos por suas vidas não serem igualmente valiosas como as vidas perdidas no Holocausto”. Ora, não se nega que existiram outras tragédias, que a Shoah não foi a única. Mas cada uma delas tem sua motivação, sua responsabilização e sua prática tenebrosa. Ao esconder as características específicas da Shoah se tenta, mais uma vez, universalizar, ou seja, apagar a “judaidade” de algo que é essencialmente judaico. Esta universalização é a principal porta de entrada para o antissemitismo. Pois, sem remover o elemento essencialmente judaico do acontecimento, a cobiçada mensagem que emerge do evento jamais terá o proveito político pretendido. Cumpre, então, apagar o “judeu”. Por vezes a universalização da Shoah é feita com boas intenções, objetivando tornar a trágica experiência da Shoah numa plataforma educacional de desenvolvimento do sentimento humanitário. Ainda assim, é preciso cuidar em manter sua especificidade e não igualá-la a situações igualmente trágicas mas essencialmente diferentes. Assim, que cada vez que nos defrontarmos com estas equiparações absurdas, estejamos alertas, pois negar Tolstói e fazer como que todas as tragédias sejam a mesma resulta, no melhor dos casos, em aniquilação cultural. Raul Cesar Gottlieb – Diretor de Devarim

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Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 14, nº 40, dezembro de 2019 PRESIDENTE DA ARI

Gilberto Lamm

devARIm [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ARI, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.

RABINOS DA ARI

Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA

Raul Cesar Gottlieb CONSELHO EDITORIAL

Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO

Editora Narrativa Um

SUMÁRIO Entre o Abismo e o Abismar-se Rabino Sérgio R. Margulies..................................................................... 3 A parte que falta Rabino Dario E. Bialer.......................................................................... 11

EDIÇÃO DE ARTE

Negrito Produção Editorial REVISÃO DE TEXTOS

Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA

Nathalie Ventura FOTOGRAFIA

Nathalie Ventura, iStockphoto.com Colaboraram neste número: Abraham Munoz Bravo, Andres Boaz Munoz Mosquera, Berty R. R. Biron, Rabino Dario E. Bialer, Edy Huberman, Rabino Joseph A. Edelheit, Juliano Klevanskis, Paulo Geiger, Rabino Dr. Rani Jaeger, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, e Rabino Sérgio R. Margulies. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br devarim@arirj.com.br Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Site da Devarim www.devarim.com.br A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.

Como ensinar Tanach na escola? Rabino Dr. Rani Jaeger......................................................................... 17 Gói: muito mais do que apenas uma palavra Rabino Joseph A. Edelheit..................................................................... 27 Guer: a impossibilidade do fundamentalismo Raul Cesar Gottlieb............................................................................... 33 Rute: a força de uma mulher que define o curso de sua vida Berty R. R. Biron.................................................................................. 39 Amós Oz universal Paulo Geiger.......................................................................................... 45 Torá, a persistência do pergaminho no judaísmo Juliano Klevanskis................................................................................. 51 O poder carismático do judaísmo Abraham Munoz Bravo e Andres Boaz Munoz Mosquera...................... 56 O humor nas fontes – Milta Dedbichuta Edy Huberman..................................................................................... 63 Em Poucas Palavras.................................................................................. 68 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger.......................................................................................... 75


ENTRE O ABISMO E O ABISMAR-SE Rabino Sérgio R. Margulies Bestdesigns/istockphoto.com

O

primeiro verso da Torá é: Bereshit bará Elohim et hashamaim ve ethaarets, ve-haarets haitá tohu vavohu”. Traduzindo: “No início criou Deus os céus e a terra, e a terra era caos e sem forma”.

A letra Bereshit, a primeira palavra da Torá, começa com a letra beit, que tem som similar ao ‘b’. Uma vez que beit é a segunda letra do alfabeto hebraico, suscitados pelo questionador espírito judaico, os intérpretes do texto bíblico indagam: ‘por que a Torá começa com a segunda letra do alfabeto e não com a primeira?’ A resposta é: ……………………………………………………………… ……………………………………………………………………………… ……………………………………………………………………………… A resposta é justamente esta: o silêncio. A primeira letra do alfabeto hebraico é o alef, que não tem som. É uma letra silenciosa. O silêncio é difícil de aguentar. O silêncio é preenchido pelo som daqueles que nos procuram. Estes sons exigem atenção e requerem resposta. É mais fácil esquivar-se. O silêncio também nos confronta com os ruídos. É o som de nossos próprios ruídos internos. De nossas vozes interiores. Prestar atenção a estes ruídos e vozes dá trabalho e pode ser espinhoso. Diante deste desafio o receituário do imediatismo prescreve: abandone o silêncio, evite o exercício da escuta. Vá direto para a letra beit. ‘Vá direto, é mais simples!’, induz a tentadora sugestão dos atalhos que intencionam driblar os caminhos do comprometimento.

A primeira letra do alfabeto hebraico é o alef, que não tem som. É uma letra silenciosa. O silêncio é difícil de aguentar. O silêncio é preenchido pelo som daqueles que nos procuram. Estes sons exigem atenção e requerem resposta.

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De fato, o formato da letra beit é feressa há um mau presságio”. É o que o A narrativa da Torá chado para trás e aberto para frente dando menciona o dilúvio após escritor italiano Umberto Eco denomina a impressão de que é suficiente seguir para ‘eclipse do passado’. Líderes totalitários e o relato da criação. A frente. No entanto, começar sem referênpretensos gurus são exemplos da tentativa mensagem da Torá serve de anular o passado. Os longos caminhos cias tem grande chance de resultar em equívocos. Assim, o que parecia ser simda história são apagados para que se perde alegoria para a vida: ples – seguir adiante – revela ser ilusório. após o desmantelamento corram os curtos atalhos da manipulação. Aliás, frequentemente nos dopamos pelas das ilusões artificialmente Isto também vale para as relações do cotifórmulas fáceis abdicando das ponderadiano: família, amizade, comunidade, escriadas, o dilúvio ções que exigem reflexões profundas. Encola e trabalho são vínculos sagrados. Um eventualmente chega às dos nutrientes destes vínculos é a memótão, como aconteceu na descrição bíblica da criação do mundo, algo dá errado. A ria compartilhada. nossas vidas sem que bolha da ilusão faz puf! E vem o dilúvio. Preservar a memória não é duplicar o estejamos preparados. A narrativa da Torá menciona o dilúpassado. É extrair reflexões que fomentem vio após o relato da criação. A mensagem de modo criativo o amanhã. E assim, poda Torá serve de alegoria para a vida: após o desmanteladeremos criar. Não repetir. Se o passado é repetido não mento das ilusões artificialmente criadas, o dilúvio evenhá passado. Fica um eterno e contínuo presente. Significa tualmente chega às nossas vidas sem que estejamos prepaque as lições foram desdenhadas, não alavancaram o penrados, uma vez que o sustentáculo das referências foi nesamento e nem motivaram a criatividade. O tempo tornagligenciado. Neste sentido, pontuando a importância das -se um permanente – como nos recursos do computador lições do ontem para a construção do futuro, o escritor is– ‘control c’/ ‘control v’, ‘copia e cola’. raelense Amós Oz adverte: “quando o passado não intePara que o passado não seja âncora e sim propulsor,

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abraçamos o desafio de renovar e inovar. Mas o novo traz receio, diante do qual justificamos uma tradição ancestral para impor a paralisia. Esclarece o historiador israelense Yuval Harari que somente podemos falar da tradição ancestral porque os ancestrais estão mortos. Se estivessem vivos, provavelmente estranhariam a tradição que alegamos preservar em nome deles. Aqui o conceito de tradição é amplo. Refere-se ao modo de perceber – como se tudo fosse sempre igual – e a maneira de agir – como se tudo fosse automaticamente estabelecido.

Criar é superar o medo paralisante. De fato, há um medo inevitável numa sociedade dilacerada pela violência. Porém, há o medo autoinfligido, que é o medo do convívio, da criatividade, da expressão de ternura e do agradecimento.

O verbo Para o judaísmo nada é mais tradicional do que o impulso de criar, já exemplificado no primeiro verso da Torá: bará, que significa ‘criou’. Criar é deixar o amor fluir. Enquanto o ódio, a vingança, a raiva e o rancor são corrosivos e contraem nossas veias, amor e bom humor fazem o sangue correr, geram energia transformadora. Criar é ter coragem. Ou como diz a expressão em hebraico: chutspá, atrevimento, audácia, ousadia. Criar é superar o medo paralisante. De fato, há um medo inevitável numa sociedade dilacerada pela violência. Porém, há o medo autoinfligido, que é o medo do convívio, da criatividade, da expressão de ternura e do agradecimento. Diante das ideias represadas e do afeto aprisionado nos perguntamos: como são os relacionamentos que constituímos? Quais são os vínculos que construímos? Será que estes vínculos e relacionamentos são elos que formam uma corrente que nos achincalha ou são elos de uma corrente que nos fortalece?

O sujeito Um ensinamento judaico propõe: a desavença afasta a presença divina, os elos de amor aproximam a presença divina. E assim, após o ato de criar envolto com amor, a Torá cita Deus/Elohim. Importante: a Torá somente menciona Deus após o verbo [Bereshit bará Elohim / No início criou Deus]. Normalmente as frases seguem a ordem: sujeito, verbo e objeto. Aqui sujeito e verbo são invertidos para

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que seja enfatizada a importância da ação. Isto é um remédio à empáfia da prepotência. O que importa não são as bravatas ou as vantagens que contamos e, sim, o que buscamos fazer. E se der errado, reciclamos com aprendizados novas realizações. As ações são nosso registro e não as cenas artificiais para parecer bacana. Estas cenas são como tocos de madeira envernizados por fora e ocos por dentro. Não tardarão, como a Torá na narrativa da criação alerta, em desmoronar como Babel. Se as ações são nosso registro e as atitudes as vigas inabaláveis da construção da vida, também é importante perguntar: o que deixamos de fazer? O que deixamos de realizar por descaso, negligência, preguiça ou por não nos considerarmos capazes? A fim de validar a capacidade de todas as pessoas, um dos costumes judaicos é lembrar que qualquer criança poderá anunciar a chegada da era messiânica. Este costume intenciona reconhecer o potencial de cada um para que ninguém se sinta pisoteado pelo desprezo ou preconceito. Cada um carrega um potencial especial que urge ser cultivado, pois através dele são escritas páginas de uma vida ampla e plena.

O objeto Esta amplitude da vida é expressa pela continuação do verso com a palavra shamaim / céus. Certas palavras em hebraico encontram somente a forma plural, por exemplo, shamaim [céus] e chaim [vidas]. É a abrangência da vida e seu potencial. A abrangência da vida é o desbravar da diversidade. Se estivermos perdidos nos emaranhados labirintos da vida, como se não houvesse saída, aprendemos que a diversidade proporciona alternativas. Gera soluções. Isto é judaísmo: riqueza das ideias e valorização do pluralismo. Isto é a pujança econômica e cultual do Estado de Israel: geograficamente minúsculo e sem vastos recursos naturais, é uma nação composta de várias nações. Judeus oriundos dos quatro cantos do mundo com diferentes visões e concepções. O perigo é a aniquilação da abrangência da vida como se um fosse soberano em relação ao outro. Cha-


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mamos Deus de Melech / Rei para lembrar que soberano um só e ninguém de nós – nenhum humano – é este um. Ou melhor, Um.

O adjetivo

Por que a Torá começa com a segunda letra do alfabeto hebraico? Porque antes do início já era dado, de um lado, o resignar-se com o caos, e, de outro, o deslumbrar-se que nos confere a chance de constantemente criarmos e recriarmos a vida.

O verso da Torá prossegue: ve-haarets haitá [e a terra era] tohu va-vohu. O termo tohu va-vohu significa caos e sem forma. Caos é a desordem que suga os propósitos. Refletimos: quantos propósitos são esquecidos? Quantas metas são relegadas? Quantos sonhos são abandonados? Frustrações acontecem, mas que não sejam quedas definitivas e sim solavancos temporários. Ao invés do imobilismo, nos fortalecemos. Nos revigoramos de modo diferente de antes compreendendo a mensagem da Torá: ‘era caos’. Era! – e não mais é, porque nos imbuímos das oportunidades de revitalização. O comentarista bíblico Rashi (1040-1105) observou que a palavra tohu é etimologicamente oriunda do verbo que significa espantar-se. Os intérpretes sugerem que

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pode ser tanto o espanto pelo inesperado: o caos, quanto o espanto pelo esperado: o deslumbrar-se com o que está à nossa espera para ser realizado.

O ad[antes do]vérbio

Por que a Torá começa com a segunda letra do alfabeto hebraico? Porque antes do início já era dado, de um lado, o resignar-se com o caos, e, de outro, o deslumbrar-se que nos confere a chance de constantemente criarmos e recriarmos a vida. Antes havia o caos. O abismo. Se no abismo nos resignarmos não há início. Somente o antes que nunca será potencializado nem realizado. Antes igualmente havia o maravilhar-se. O abismar-se. Uma convocação que dá sentido e significado à vida. Este é o início da vida. É o nascer espiritual de um corpo já existente.

O Rabino Sérgio R. Margulies serve na ARI – Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro.


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A PARTE QUE FALTA Quem sou? O que estou buscando na vida? Quanto me reconheço no espelho? Carl Jung falava sobre a busca pelo “si mesmo” [pelo autoconhecimento]. Ele dizia que por aí toda a vida passa sem que se consiga atingi-lo. Contudo, uma vida dedicada à procura por este “si mesmo”, esta faz sentido. Porque o sentido não está no encontro, o sentido está na busca.

S

hel Silverstein foi um judeu de Nova Iorque que teve um grande destaque como cartunista de livros infantis que se caracterizavam por desenhos de traços simples e mensagens profundas que encantam as crianças mas cativa ainda mais aos adultos que contam cheios de emoção suas histórias. Recentemente foi traduzido ao português seu livro A parte que falta, que aborda perguntas existenciais que confrontam a angústia constante do ser humano, dividido entre o que ele deseja ser e o que realmente ele é. O protagonista da história é um círculo ao qual falta uma parte e não era feliz. Então, ele parte em busca de encontrar sua outra parte. Enquanto rolava, ele cantarolava: “Busco a parte que falta em mim...” Por estar incompleto, não conseguia rolar muito rápido, mas podia parar e conversar com uma minhoca ou sentir o aroma de uma flor. Às vezes ultrapassava um besouro, às vezes um besouro o ultrapassava. E o melhor momento era quando uma borboleta aparecia e pousava no seu rosto.

Rabino Dario E. Bialer

E ele seguia adiante em busca da parte que sentia que lhe faltava. Atravessou oceanos, montanhas acima, montanhas abaixo. Foi para todos os cantos rodando o mundo todo. Até que um dia … achou um triângulo que parecia perfeito! − Achei a parte que faltava em mim −, cantou todo feliz!. − Espera aí −, disse a parte. − Eu não sou a parte que te falta … Não sou parte de ninguém! Sou parte completa! E ainda que eu fosse a parte que falta em alguém, não acho que seria a sua! Ele ficou arrasado. Não é fácil se sentir rejeitado. Então desolado, foi embora e continuou a rolar solitário. Tempos depois, achou uma outra parte. Mas era muito pequena e não funcionava. Depois, achou outra, que era grande demais. Uma era muito pontuda, a outra quadrada. Nada estava dando certo, até que um dia apareceu uma parte que encaixou perfeitamente. É tão bom quando você encontra a sua parte! Só que não a segurou forte o suficiente, e a perdeu. Na vez seguinte que encaixou com outra parte, para não perdê-la a segurou com tanta força

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Ilustrações do livro A parte que falta, de Shel Silverstein.

que a quebrou. Mas ele não desistiu. Continuou em frente, com sol, com chuva, com neve, vivendo aventuras e caindo em buracos. Até que finalmente achou a parte perfeita!!!! − Oi − disse o círculo. − Oi − disse a parte. − Você é a parte de alguém? − Não que eu saiba. − Bem, talvez você queira ser de si mesma, certo? − Posso ser de alguém e ao mesmo tempo ser de mim mesma. − Bem, talvez não queira ser minha. − Talvez eu queira… E sem falar mais nada, tentaram e tentaram... e funcionou, se encaixaram! E então, nosso amigo o círculo foi embora. Rolou, rolou, rolou. Não parava de rolar. Agora que estava completo podia girar bem rápido. Só que indo tão rápido pela vida não dava mais para parar e conversar com uma minhoca ou sentir o aroma de uma flor. Andava rápido demais para que a borboleta pousasse nele e nem cantar podia agora que estava completo (pois estava com a boca cheia e tudo o que saía dele era “achmmm a partmmm que faltmmm mm mim …”). Então, parou de rolar, e com cuidado, tac!, soltou a parte no chão, começou devagarinho a rolar para longe, e com voz suave voltou alegre a cantar: “Oh, busco a parte que falta em mim, a parte que falta em mim. Ai-ai-io, assim eu vou, em busca da parte que falta em mim ...”. É fácil se identificar com essa história. A todos nós falta uma parte. Várias partes eu diria. E também seguramente nos sobram outras. Temos partes bem resolvidas, outras que precisam de muito trabalho, e tem outras partes que, é evidente, nos faltam. E resulta inevitável, ao ler o livro,

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não pensar nelas, e não questionar a busca pela qual passamos a vida. Quando a parte que falta é a alma, essa procura se torna um processo de muita angústia causada pela solidão. Estou me referindo aqui ao pior sentido da palavra solidão. Porque há uma solidão necessária. Nos momentos de transformação, por exemplo. Mas caminhar sem alma, sem rumo, leva a uma solidão que é a ausência do outro. Mesmo na multidão. Uma solidão profunda e dolorosa, e assim saímos ao mundo em busca de coisas, experiências e pessoas que nos façam sentir completos, tentando desesperadamente preencher esse vazio dentro de nós. E então chega Iom Kipur e nos diz: Você não precisa compulsivamente procurar se encher. Experimente fazer o contrário, experimente se esvaziar. Tente sentir hoje como seu corpo reage ao jejum, como é a sensação física dessa falta, e leve esses ensinamentos para tua vida, porque muito do que fazemos no dia a dia é ir tapando buracos, buscando placebos para não sentirmos o vazio. Ansiosos? Comemos demais. Cansados? Tomamos café. Um pouco deprimidos? Atacamos o chocolate. Entediados? O celular está sempre à mão! Que tal experimentar parar de se encher de coisas para afogar as angústias, contemplar as perdas, a dor que essas ausências nos causa, e me aceitar imperfeito e incompleto, tentando compreender o tamanho do vazio na minha vida. Viktor Frankl1 costumava dizer que a melhor prova da necessidade da água é ter sede. E que, da mesma forma, a necessidade de decifrar o sentido da vida é a sensação de vazio que experimentamos quando não o fazemos. Não é fácil conviver com nossas carências, no entanto, quando mergulhamos a fundo na proposta de vivenciar


o vazio, em dias como Iom Kipur, comtro. Se fizermos isso vamos fracassar, porTemos partes bem preendemos que no vazio estamos cheios que o outro nunca poderá preencher toresolvidas, outras que de nós. Que somos completos na nossa das as nosssas necessidades, não importa precisam de muito incompletude. Que somos seres incomquão maravilhoso seja. trabalho, e tem outras pletos cuja incompletude não pode estar Quando nos relacionamos com o ouancorada num terceiro. E que o espaço tro, normalmente, o “desoutramos”. Não partes que, é evidente, vazio é absolutamente necessário para o acedemos ao outro em sua “outridade”. nos faltam. E resulta novo acontecer: novos amores, novas exSenão que o exprimimos até que caiba na inevitável, ao ler o livro, periências e novas descobertas. definição do que nós gostaríamos que ele não pensar nelas, e não Quando desconhecemos nossa somfosse. Não pensamos no que o outro nos questionar na busca pela traz na sua diferença, senão nas nossas nebra e quando esquecemos que somos parte de um todo que nos dá identidacessidades, a partir da parte que nos falta. qual passamos a vida. de e significado, o ego se torna o centro. Nesse sentido, o livro descreve fantasTodos nós saímos ao mundo com uma ideia do que penticamente bem. O outro que me falta é sempre na medisamos que somos. da do meu espaço vazio. Ele deve se encaixar milimetricaConstruir uma vida com sentido é aprender que o ego mente no espaço dessa fatia de pizza, senão não serve. Se é parte de nós, mas que somos mais que isso. Somos tamfor um pouco maior, ou menor, ou mais quadrada, ou mas bém nossas sombras e nossas faltas, e isso, ao invés, de nos pontuda, ou mais redonda, não funciona. angustiar, deve nos incentivar a construir. A falta deve ser Na vida real as peças não se encaixam tão perfeitamente geradora de desejo e não de frustração. assim. Ou você conhece algum vínculo no qual os dois se Rabi Nachman dizia que o dia em que nascemos é o encaixam perfeitamente? E é por isso que, quando estamos dia em que Deus decidiu que esse mundo não podia mais em um relacionamento em que tudo está travado, dizemos: existir sem a nossa presença. Somos chamados a fazer algo, Por que você não muda? mas não sabemos o que é. Temos que descobrir. Você tem Por que você não se adapta? o tempo de vida que te foi dado para explorar e nessa exPor que você não tenta fazer do meu jeito? ploração encontrar significado. Você não encontrará sigIsto acontece porque a conexão se estabelece a partir nificado de uma vez por todas. Na vida, há momentos de da carência de cada um, de suas necessidades, e portanto sentido que podem ter a ver com o que fazemos, com os reo outro ‘deve ser’ idêntico ao modelo imaginado em noslacionamentos que criamos, com a maneira como expressas cabeças. samos nossos valores. Mesmo na hora de sofrimento o sigOs meus problemas; nificado pode aparecer.2 As minhas preocupações; O que não devemos fazer é depositar toda a responsabiAs minhas ansiedades; lidade de nossa felicidade e do sentido de nossa vida no ouMinhas decepções;

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Meus medos; Meus desamores; As minhas brigas ... A vida tão ensimesmada (tudo tão autorreferencial) é inviável. Frits Perls, criador da oração gestáltica, disse assim: Eu sou eu Você é você Eu não estou nesse mundo para suprir todas suas expectativas E sei que você não está nesse mundo para suprir as minhas. Porque eu sou eu E você é você. E quando você e eu nos encontramos é maravilhoso é quando nos encontrando não nos encontramos .... não há o que fazer.3 Não é simples lidar com as perdas e com a dor. Aceitar que ir em busca do que nos falta também significa aprender a soltar. Desapegar. Perder. Às vezes nos quebramos e partes que pensávamos que eram indivisíveis do nosso ser vão ficando pelo caminho. A quebra mais tremenda na história – nos revela a Torá – foi o rompimento das tábuas da Lei. O objeto mais tangível do Divino em nosso mundo, Moshe as quebra contra o chão e os fragmentos se espalham. Deus, vendo essa imagem, exclama: “Yasher koach, she shibarta”. Parabéns por tê-las quebrado! Temos que aprender a quebrar para aprender a viver. Onde se quebra o Divino, pode penetrar o humano. Quando quebramos o absoluto nas nossas vidas, quando quebramos as garantias, as ilusões de eternidade, podemos enxergar a nossa vida fragmentada e nos reconciliar com isso. O Midrash nos conta que alguém que viu Moshe quebrar as tábuas recolheu um a um cada fragmento e quando, mais tarde, Moshe desceu do Sinai com as segundas tábuas e a arca sagrada foi construída, ambas, as completas e as quebradas, foram colocadas juntas e carregadas pelo deserto durante 40 anos. As quatro tábuas, cada uma com sua característica e sua história, sendo preservada. O Midrash inclusive acrescenta que, tempos depois, durante os 400 anos de existência do primeiro templo de Jerusalém, no kodesh hakodashim, junto com os dez mandamentos continuavam cuidando dos fragmentos sagrados das primeiras tábuas quebradas.

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Como ensina o mestre chassídico Rabi Menachem Mendl de Kotz: Ein shalem ioter mi lev shavur / Não há nada mais completo do que um coração partido. O que lembra do ensinamento da Tosefta4, que o meu mestre David Hartman gostava de citar: “Faça para você um coração com muitos compartimentos, um lev com chedrei chedarim, compartimentos de todas as formas, onde caibam tanto as palavras de Hilel como as de Shamai, e valorize cada pensamento, cada reflexão e cada emoção”. Corações com espaços diversos para que caibam todas as formas possíveis, completos sem importar quanto lhes falte; inteiros apesar de cada fragmento que fomos perdendo ao longo do caminho.... O maravilhoso do judaísmo é não acreditar na perfeição. Nenhuma das rezas nos livros de orações diz: Deus, me faça perfeito! Perfeito só Ele. Nós somos humanos e incompletos. Não procuramos a perfeição mas almejamos atingir a melhor versão de nós. Abraçar todas nossas faltas, descobrir a origem da nossa dor, contemplar o que está quebrado, e antes de sair pela vida desesperados em busca de outras partes, recolher com paciência os fragmentos de quem somos, respirar fundo, enxergar nossa vida e sentir que as partes que nos faltam, as perdas e quebras pelas quais passamos, tudo isso nos faz únicos e nos direciona a uma felicidade muito mais verdadeira. Uma felicidade que, provavelmente, não vai ter a forma perfeita que imaginávamos quando saímos ao seu encontro, uma felicidade sólida mesmo que fugaz, que talvez se pareça mais com uma borboleta que surge de forma inesperada, e pousa suavemente no seu rosto, por um instante.

Notas 1 Renomeado psicoterapeuta da escola de Viena. Durante o Nazismo foi preso no campo de Theresienstadt. Posteriormente funda a logoterapia e a terapia existencial. Seu livro O homem em busca de sentido é uma obra imperdível. 2 Sergio Sinay, reportagem no jornal Sophia online, https://www.sophiaonline.com. ar/entrevistas/sergio-sinay-el-sentido-esta-en-la-busqueda/ 3 Similar à versão do mestre chassídico, o Rebbe de Kotzk: Se eu sou eu porque você é você / E você é você porque eu sou eu / então nem eu sou eu nem você é você. / Mas, se eu sou eu porque eu sou eu / e você é você porque você é você, / Então eu sou eu, / Você é você / E nós podemos sentar e conversar. 4 A Tosefta (literalmente “suplemento”) é uma coleção de ensinamentos do período da Mishná (segundo século da era comum), que não foram incluídos na Mishná, mas que, mesmo assim, são considerados relevantes para estudo.

O Rabino Dario E. Bialer serve na ARI – Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro.


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Feliz Ano Novo. Juntos, vamos celebrar 100 anos pelo povo de Israel.

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COMO ENSINAR TANACH NA ESCOLA? Rabino Dr. Rani Jaeger

A

alta tecnologia elevou o status da matemática, as telas mataram os livros e o hebraico israelense está se afastando do Tanach1 – estes são apenas alguns dos desafios que os professores de Tanach enfrentam. Este artigo foi escrito a partir de uma perspectiva israelense, mas muitos dos atuais desafios em Israel parecem ser semelhantes aos da Diáspora. Em Simchat Torá, que ocorreu há algumas semanas, encerra-se e logo em seguida reinicia-se o ciclo sinagogal de leitura da Torá.2 Durante esse período, as escolas também estão começando de novo, retornando à Torá e aos profetas. No entanto, para os alunos, retomar o estudo da Torá parece bem menos emocionante que o feriado. Em pesquisa conduzida pelo Ministério da Educação de Israel, as aulas de Tanach receberam baixas avaliações de interesse – bem abaixo das “matérias sagradas” matemática e inglês –, que abrem as portas do mercado de alta tecnologia. Além do mais, a simpatia pela matéria ficou baixa até mesmo em comparação com as outras matérias do grupo de humanas. A crise no ensino do Tanach, da qual a pesquisa é apenas uma das manifestações, reflete o declínio de seu status não apenas nas instituições e no ensino, como também na sociedade israelense em geral. Para lidar com esta situação, é preciso entender de onde viemos e de lá tentar traçar um futuro.

Seria um total paradoxo se o Tanach fosse colocado no centro do currículo da escola estatal laica, que se originou de intuição revolucionária, e seria transformada em núcleo conservador, ao tornar os estudos bíblicos na principal fortaleza da educação laica.

Sem nostalgia O status do Tanach na educação judaica tradicional é um assunto complexo e multifacetado. A visão predominante é que seu status no “cheder” 3 era

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baixo e que ele era usado principalmente como um meio para ensinar Halachá4, enquanto o Talmud Babilônico era considerado o livro central dos judeus. Investia-se pesadamente no estudo do Talmud, mas ainda assim os judeus conheciam o Tanach, através dos olhos do Talmud e do Midrash, da infinidade de versículos incluídos nas rezas e também, é claro, pela leitura sinagogal da Torá, das Haftarot5 e das Meguilot6. Mesmo se aceitarmos a qualificação secundária do status do Tanach, permanecem questões culturais e sociais interessantes: Será que havia um “Tanach completo” nas estantes das casas ou apenas um Chumash7 com os comentários de Rashi8, que é o que se estudava nos níveis iniciais da escola? Acaso isto também se aplica à educação sefardi9 ou lá o Tanach tinha status mais relevante? Ou talvez a afirmação do status menos elevado do Tanach na educação judaica do passado é apenas o resultado de uma moderna incompreensão anacrônica, desconectada da situação descrita por Bialik10, na qual a “Torá” tinha um status superior: Originalmente, o Tanach era um conceito universal, quase cósmico. Dos livros de “Jó” a “Provérbios” a “Torá” e

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“Sabedoria” era uma coisa só... No período talmúdico, esse conceito foi ainda mais aprofundado, ele atingiu um nível extraordinário. Basta mencionar o ditado: “A Torá precedeu a criação do mundo”... “Deus olhou para a Torá e criou o mundo”, ou seja, a Torá era “a entidade mais elevada” do mundo… Assim, portanto, existem “duas entidades” no mundo: natureza e Torá.11 Quaisquer que sejam as respostas a essas questões, existe um amplo consenso de que o ensino do Tanach viveu uma “época de ouro” com a ascensão do movimento educacional moderno, principalmente junto à educação sionista, cuja culminância aconteceu nos primeiros anos do Estado de Israel. O Tanach deu aos sionistas um sentimento de pertencimento à terra, que fez parte do processo de rebelião contra a tradição diaspórica; de retorno à época da soberania nacional; e de vivência plena exclusivamente em hebraico. “Havia uma conexão mútua entre o livro e a realidade, em que o Tanach era uma interpretação exaltada do presente, assim como o presente era uma interpretação ilustrativa do Tanach12.” Não há dúvida de que a profunda relação de Ben-Gu-


rion com o Tanach teve importante imO ensino do Tanach viveu E não as mantenho promessas que Deus pacto na posição central que este veio a deu a Abraão. uma “época de ouro” com ocupar na cultura israelense pós-fundação do estado. “Israel eterno”, escreveu Ben- a ascensão do movimento Abraão, Isaque e Jacó agora descansam educacional moderno, -Gurion, “se impregnou desses dois: o Esquietos em suas tumbas, tado de Israel e o Livro dos Livros” (AnuáMas eu não desejo cavar minha sepultura principalmente, junto rio do Governo, 1954). A menção ao Taao lado deles; à educação sionista. nach no parágrafo inicial da Declaração Porque eu não sou areia à beira-mar, de Independência fez com que ele se torE não mantenho as promessas que Deus nasse um componente fundamental da consciência polídeu a Abraão. tica de muitos israelenses. Deve-se notar que o Tanach, O Tanach como um problema como obra nacional, serve como fundamento à interpretação tanto do passado como da conexão do país com o fuApesar de sua aura pública, o Tanach nunca deixou de turo, conforme a visão dos profetas de Israel, que, suposser um grande problema na educação judaica, principaltamente, molda o arcabouço de valores do Estado Judeu. mente na sionista-socialista. É irônico que o texto colocaPara alguns estudiosos, o fim da “época de ouro” do Tado no centro do currículo seja o livro no qual Deus está nach aconteceu na Guerra dos Seis Dias. A mudança popresente mais do que em qualquer outro livro da bibliotelítica que se seguiu à guerra, a partir de meados da década ca. O livro descreve eventos mundanos, que incluem famíde 1970, transformou o Tanach de livro fundamental da lia, país, governo e história, no entanto, nesse mesmo livro cultura judaica numa arena de combate, onde se enfrenhá um Deus que dá a vida, supervisiona e pune. E isso letam a esquerda e a direita religiosa do “Gush Emunim”13. Contudo, essa controvérsia por si só não explica o declínio vanta uma dificuldade fundamental: no valor do Tanach. O processo parece estar relacionado O que é o Tanach para nós, do movimento “chalutsi”15, comunista, marxista-leninista? Quais são os objetivos educacioprincipalmente à decadência mundial das grandes ideolonais que buscamos alcançar com seu estudo? Para nós ele não gias. Não há um momento preciso que se possa identificar é o “Livro dos Livros” suficiente para a transmissão dos valocomo sendo o que mudou o status do Tanach na sociedade res fundamentais de nossas vidas, pois não podemos (sem disisraelense. A justaposição do livro com a realidade, como torção e abstração, beirando a desonestidade intelectual) igapontei anteriormente, perdeu tração num processo lento norar seu caráter religioso… e contínuo, que aconteceu numa era de percepção de deA religião no Tanach... é um conceito de vida perfeita clínio das grandes consciências históricas. O Tanach pasque honramos, por seu grande poder criador e de fé, contusou a ser visto, na melhor das hipóteses, como um reposido, este conceito não faz parte da nossa visão e é por isso que tório de linguagem oca e retórica antiquada, ou como um não podemos abordá-lo com exclusividade. Normalmente, artifício nacionalista na pior delas. Hanoch Levin14 marca severamente este conceito: educadores que tentam “salvar” o Tanach seguem por um caminho de atualização excessiva e relacionam visões moderAqui está toda a terra que Deus prometeu a Abraão, nas a passagens do Tanach. Assim, retratam o profeta Amós a ele e à sua semente, que será [tão numerosa] como a areia como “o inventor da luta de classes”, Isaías como “o pai do à beira-mar; socialismo” e certas passagens do livro Devarim / DeuteroMas eu não sou areia à beira-mar, nômio como um “manifesto libertário”. Embora os motivos E não as mantenho promessas que Deus deu a Abraão. para essas abordagens sejam nobres, o resultado é, por um lado, uma distorção histórica, e, por outro, uma deturpação Nunca sonhei com Hebron e não me preocupo com Nade conceitos modernos. Para nós, a Bíblia é um dos livros blus, mais importantes e cruciais que usamos para moldar o arcaO que me preocupa é viver a vida inteira; bouço espiritual que queremos para nossos filhos, mas não é Porque eu não sou areia à beira-mar, o único livro a ser utilizado para este fim. (Moni Alon, Ca-

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minhos para a Cultura e a Educação, Deapresentar algumas reflexões sobre possíPara alguns estudiosos, partamento de Educação do Hashomer o fim da “época de ouro” veis diretrizes de ação. Hatzair, 1953.) 1. A crise do ensino bíblico não do Tanach aconteceu na As palavras de Alon não se dirigem pode ser apartada do declínio geral na Guerra dos Seis Dias. A ao público religioso, e sim ao sentimento apreciação das ciências humanas. Às predominante na esfera secular. Isso invezes, expressões verbais revelam o verdamudança política que dica que a suposição de que o Tanach foi deiro valor das coisas. Assim é o caso do se seguiu à guerra, um elemento óbvio na educação do Esinfeliz termo “matérias multidisciplinaa partir de meados tado de Israel pode ser verdadeiro no níres”, usado no sistema educacional com da década de 1970, vel das declarações, mas não no decisivo relação a história, literatura e Tanach. É transformou o Tanach e concreto encontro entre o professor, o uma terminologia que expressa a desvaaluno e o Tanach. É nesse encontro que lorização de tudo o que é belo, profunde livro fundamental da se cria – ou não se cria – a afinidade entre do e empolgante nessas áreas e serve apecultura judaica numa o texto antigo e o aluno, e ele está minanas para diferenciar qualitativamente paarena de combate. do por dificuldades e desafios. lavras de números. Assim que, o sentimento de crise que Não tenho dúvidas de que, juntamentemos hoje não se deve (apenas) ao “declínio das gerações” te com a ênfase na importância da Bíblia, uma frente das ou à falência das ideologias mas sim a contradições funáreas humanas deve ser criada com um pensamento comdamentais. Isso é evidenciado pelo fato de que uma linha partilhado. Este movimento permitirá o desenvolvimencontínua de “discussões sobre a crise” pode ser rastreada to de uma pedagogia compartilhada por todas as matérias até a década de 1920 e até a gerações anteriores. Isto evidessa área. A ideia é que o ensino da Bíblia não pode se saldencia que um olhar firme para a questão é um desafio var pelo uso de slogans como “O Eterno Livro dos Livros” fundamental. sem se envolver no discurso das humanidades em geral e Sem reconhecer a profundidade do desafio, o ato eduda cultura judaica em particular. Certamente, as especificicacional pode se concretizar – como aconteceu nas décadades do estudo da Bíblia devem ser consideradas, no endas de 1970 e 1980 – em reduzir a carga de exposição ao tanto, urge colocá-las no continuum da literatura judaica, Tanach e investir esforços na pesquisa de métodos literáda literatura e do judaísmo. rios (encontrar paralelismos, apontar para diferentes ex2. A crise da leitura e o desafio da linguagem. Essa pressões, etc.). Tais métodos, com toda sua relevância, poquestão perpassa toda a cultura contemporânea e deve-se dem transformar o ensino “da Bíblia” no ensino “sobre a enfatizar que no ensino da Torá há um desafio e potenBíblia”, evadindo o necessário diálogo crítico entre o alucial especiais: lidar com a linguagem bíblica é mais semeno-leitor e a Bíblia. lhante ao desafio do ensino da literatura clássica do que ao desafio do ensino da cultura judaica. Os livros didáticos Sobre as crises do presente da cultura judaica, a filosofia judaica e até os ensinamentos da Torá Oral16 giram em torno de eixos conceituais. O É claro que nos encontramos em diferentes circunstânprincipal esforço desses livros é construir eixos de discuscias culturais e sociais e o desejo de repetir o passado não são, conectar as ideias com suas fontes e extrair argumentaé uma posição educacional que resulta de forma positiva. ções intelectuais diferentes e até contraditórias. Uma granAlém disso, seria um total paradoxo se o Tanach fosse code parte do estudo é dedicada a ponderar essas ideias e valocado no centro do currículo da escola estatal laica, que lores, enquanto convida o aluno a se posicionar de forma se originou de intuição revolucionária, e seria transformaautônoma na discussão. Este processo procura fazer com da em núcleo conservador, ao tornar os estudos bíblicos que o aluno se veja como parte de uma comunidade interna principal fortaleza da educação laica. pretativa multigeracional. Em outras palavras, entendenQuais são, então, as características do atual desafio do do os vários argumentos, o aluno pode formular uma poensino do Tanach? Vou listar algumas delas e, em seguida, sição individual e informada. Nesse processo educacional,

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o aprofundamento da linguagem do texto tem uma parte relativamente pequena. No ensino da Bíblia, estamos em um campo completamente diferente, onde valor, cultura e pedagogia são importantes a ponto de influenciar a própria linguagem. Está claro para nós que não queremos converter “Bereshit” em “Começo”, ou seja, não queremos traduzir a palavra e sim carregar nela todo o arcabouço de significados da tradição judaica. A grande preocupação do falecido poeta Haim Guri, que chamou de “desconexão associativa”, deveu-se à perda da conexão dos israelenses comuns com a linguagem bíblica: “Como os alunos entenderão a poetisa Rachel, que escreveu sobre a dor de Nevo, se não sabem o que é Nevo?17" O alerta de Guri acontece frente à preocupação com a literatura judaica, o que será dela sem o conhecimento da Torá? Essa preocupação pode prender o professor da Torá na situação difícil: se ele optar por aprofundar na interpretação da linguagem, ela “o afogará” nesta tentativa, mas se for diretamente para a discussão da ideia por trás dela, estará contribuindo para aprofundar a desconexão associativa resultante da interrupção da corrente da linguagem.

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Em outras palavras, diferente de outras matérias nas humanidades – história, cidadania e sociologia –, como na literatura, a linguagem bíblica não é uma cortina que procuramos elevar para alcançar a essência, mas um objetivo em si. Como atravessar essa cortina sem que ela se enrosque por um lado e se rasgue pelo outro? 3. O poder do hebraico. A questão da linguagem é especialmente importante para os que têm em seus corações o conceito de “centro espiritual” de Achad Haam18. Hoje, poucas comunidades no mundo judaico têm uma tradição e um desejo de manter uma educação que crie uma produção de escritos em hebraico. E sem o conhecimento do hebraico é difícil ver a possibilidade de renovação de um dos elementos vivos mais importantes da cultura judaica – o Midrash. O Midrash envolve essencialmente conceito e linguagem, continuidade e novidade, e é totalmente dependente da língua hebraica. Há um maravilhoso pensamento judaico em inglês, alemão, espanhol e francês. Mas um novo Midrash pode existir apenas em hebraico. O ensino da Bíblia é uma parte importante da insistência em não abrir mão da profundidade da memória que está em hebraico. É por isso que é um elemento tão impor-


tante no projeto mais amplo de reavivar e também a capacidade e coragem de criO Tanach passou a ser a cultura judaica e no esforço para desenticar. Assim, a formação dos alunos e seu visto, na melhor das volver uma conexão criativa entre o pascrescimento têm um forte elo na cultura hipóteses, como um sado e o presente. judaica contemporânea, que é ao mesmo repositório de linguagem tempo enraizada e livre. 4. O leitor como comentarista. Uma das características bem conhecioca e retórica antiquada, Onde encontrar professores? das da “Época de Ouro” da educação isou como um artifício raelense foi o salto sobre dois mil anos de nacionalista na pior delas. Onde será encontrado o professor que criação judaica. A reconexão com o Tasabe fazer tudo isso? Eles existem, mas nach como um épico nacional, por um não são muitos. A questão é como capacitar professores lado, e a negação do exílio e da tradição rabínico-halápara que atinjam esses níveis? chica, pelo outro, criaram um espaço literário-cultural A partir dessa questão nasceu o Projeto Tanach do Insque é descrito como um “salto da Torá para o Palmach19 num piscar de olhos”. Seu dano foi pesado: além de detituto Hartman em colaboração com o Ministério da Edusistir de seções inteiras da cultura judaica, foram esquecação e a Fundação Filantrópica. cidos tanto o Tanach como fonte da cultura interpretaO objetivo desse projeto é desenvolver um discurso hutiva, como a “lei oral” no sentido amplo da expressão. A manista judaico-israelense centrado no Tanach através da maneira como a Torá foi lida e interpretada geração após comunidade de professores de Tanach das escolas públigeração em novas circunstâncias históricas, acompanhacas. Queremos equipar esses professores com a capacidade da pela evolução de diferentes sensibilidades morais, relie o conhecimento necessários para levar os alunos ao Tagiosas e sociais, não chegou às mãos dos leitores modernach de maneira relevante, profunda e crítica. Para fixar o nos do Tanach em Israel. Tanach em seu mundo, como um pivô para sua identidaA leitura de Ben-Gurion é valiosa por permitir que o de judaico-israelense. estudante sinta a maneira como a “Torá brilha em sua próPara atingir esse objetivo, concluímos que são necessápria luz”. No entanto, retirar a interpretação da Torá da rias três áreas de ação principais, cada uma das quais requer própria Torá colocou Israel sob o risco de uma leitura funinvestimento por si só e integração com as outras áreas: damentalista. Isso não ocorre apenas porque se removeu a 1. Os professores devem compartilhar um espaço fixo e necessidade de lidar com as várias camadas de leitura, mas intenso para discutir a visão bíblica do mundo, destacando porque se criou uma representação incorreta de opção por questões relevantes para o ensino na escola, como o Deus uma leitura simples, sem suposições ou preconceitos subda Bíblia, dilemas morais no texto bíblico e, com ele, o stajacentes. Em outras palavras, o encontro do estudante istus das mulheres no Tanach e muito mais. raelense apenas com a Torá obscurece o fato de que um 2. É imperativo colocar o Tanach no amplo contexto comentarista não é apenas uma personalidade talentosa da identidade judaica e ajudar o professor a desenvolver como Radak ou Rashi20, mas que todo leitor é um potenuma compreensão pessoal e profissional da importância cial comentador do texto. da Torá e seu lugar na identidade judaica. Cada vez mais A discussão sobre nossa relação interpretativa com a nos é claro que é necessário discutir novamente: Por que Torá deve ser expressa no início do ensino judaico. O recoo Tanach? Por que agora? As várias respostas para isso são nhecimento do aluno como intérprete não apenas o extrai essenciais para que os alunos entendam o estudo do Ta­ do texto, mas, se feito corretamente, educa o aluno para nach (pulem na água ...) e têm implicações diretas nas mauma posição essencial ao nosso tempo: ouvir é estar atenneiras que o professor usa para ensinar uma visão do Tato a outros tipos de vozes. nach (e nadem). O “Livro dos Livros”, sua leitura e interpretação po3. Melhorar a pedagogia de ensino do Tanach e enfrendem desenvolver a capacidade do aluno ver o mundo a tar seus novos desafios de ensino, como a linguagem bíblipartir de diferentes perspectivas, localizar sua proximidaca, o lugar do leitor como comentarista, o ensino experide e distância em relação às mesmas, desenvolver empatia mental e o lugar da Torá na vida escolar.

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Desde o primeiro ano do empreendimento, aprendemos que a integração desses modos de ação leva os professores a melhorar e aumentar gradualmente a qualidade do ensino. Por outro lado, obviamente há muito trabalho pela frente, pois o desafio é grande e significativo. Saber que a remuneração deste esforço é a conexão de toda uma geração com o Livro dos Livros dá sentido ao trabalho. Espero que, conforme o Salmo 126:5, “Os que plantam com esforço, colherão em alegria”.

Notas 1 O Tanach (mnemônico de Torá, Neviim e Ktuvim / Pentateuco, Profetas e Outros Escritos) é o conjunto de livros que se denomina a “Bíblia Hebraica”. Neste texto, “Tanach” e “Bíblia” têm o mesmo significado. 2 A Torá, literalmente “ensino” ou “teoria”, é o Pentateuco, ou seja, os primeiros cinco livros do Tanach, que são lidos em ciclo semanal ao longo do ano nas sinagogas. 3 Cheder, literalmente “quarto”, é a denominação da tradicional escola judaica religiosa. 4 Halachá, literalmente “caminhar”, é a denominação do conjunto das regras religiosas de conduta. 5 Haftará (plural Haftarot) é o nome da porção semanal de trechos selecionados de Neviim, lidos semanalmente na sinagoga. 6 Meguilá (plural Meguilot) são cinco livros de Ketuvim, cada um específico para leitura sinagogal numa das festas judaicas. 7 Chumash, um termo que deriva de “chamesh” / “cinco”, é o nome que se dá ao livro que contém o conjunto das leituras sinagogais (ou seja, a Torá, os trechos do Neviim e os cinco livros de Ketuvim lidos na sinagoga). 8 Rashi é o acrônimo de Rav Shlomo Itschaki (1040-1105), considerado o principal comentador medieval da Torá. 9 Sefardi – relativo aos judeus que depois da destruição do segundo Templo se fixaram na Península Ibérica. 10 Chaim Nachman Bialik (1873-1934), um dos pioneiros da moderna poesia em hebraico e membro da vanguarda dos renovadores da cultura judaica.

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11 Bialik – “O renascimento cultural na terra de Israel”. 12 Uriel Simon, “Perguntas atuais à luz do Tanach, O Tanach à luz das perguntas atuais”, p. 22. 13 Gush Emunim, literalmente “corpo (grupo) dos crentes”, movimento político religioso-nacionalista que advoga a colonização dos territórios ocupados em 1967. 14 Hanoch Levin (1943-1999) foi autor, poeta, diretor de teatro, mais conhecido por suas obras teatrais. O poema citado foi escrito em 1969. 15 Chalutsi, literalmente “pioneiro”, é o nome do movimento sionista que advogava o trabalho na terra como fator fundamental para a refundação do Estado de Israel. 16 Torá Oral é o compêndio de todos os ensinamentos passados de geração em geração através dos sábios. Desde a destruição do Segundo Templo até a Era Medieval. 17 Segundo a tradição, Nevo é o nome do monte no qual Moisés veio a falecer. 18 Achad Haam (pseudônimo de Zvi Guinsburg) foi o pensador sionista responsável pela ideia que Israel deve ser um centro cultural para além de um centro político. 19 Instituição predecessora do Exército Israelense existente na Palestina, antes da criação do Estado de Israel e que deu origem ao Exército de Israel. Nessa passagem, essa instituição é usada como um marco histórico. 20 Dois importantes interpretadores da Torá.

Rabino Dr. Rani Jaeger é Doutor em Cultura Judaico-Isralense pela Universidade Bar-Ilan, rabino ordenado pelo Instituto Shalom Hartman, pesquisador e membro do corpo docente e chefe do Ritual Center no Shalom Hartman Institute. Ele foi um dos fundadores do Programa Be’eri do Instituto de Educação em Identidade Judaico-Israelense Pluralista e um dos fundadores da Beit Tefilah Israeli, uma sinagoga secular no coração de Tel Aviv. Traduzido do hebraico por Rodrigo Baumworcel e Raul Gottlieb. Com exceção das referências às citações incluídas no texto, as demais notas são dos tradutores.


O EXTRAORDINÁRIO DE CADA UM

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GÓI: MUITO MAIS DO QUE APENAS UMA PALAVRA Rabino Joseph A. Edelheit

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uitos de nós já viveu uma ou todas as seguintes situações: Você está num evento social com muitas pessoas bebendo, rindo e conversando. Você ouve alguém dizer: “Você ouviu dizer que o fulano / fulana está namorando um ‘gói’”? Você chega ao Kabalat Shabat na sua sinagoga, esperando encontrar os amigos quando ouve alguém apontar e dizer: “Por que ele trouxe esse gói para os serviços?” Você está chateado com a forma como alguém o tratou e, ao contar a um amigo sobre sua experiência, o amigo compartilha sua preocupação e acrescenta: “Sim, claro, isto é uma lição para todos nós: ‘Góim’ simplesmente não nos entendem!” As palavras Gói, Góim e Goishe são usadas por muitos sem pensar se elas criam algum problema. O entendimento básico é simples, ela significa “um não judeu” e às vezes é usada para contrastar com “um Yid” ou “um Yidish”, significando um judeu. É tão comum ouvir essa palavra que, se você tentar interromper as pessoas ou interpelar a todos que a usam, suas tentativas provavelmente criarão algum caos social. Rashi (Rabi Shlomo ben Itshak 1040-115) interpretou o sopro Divino que completou a criação do primeiro humano como outorgador da capacidade única de linguagem aos humanos. Diferente do que acontece com qualquer outro

As palavras Gói, Góim e Goishe são usadas por muitos sem pensar se elas criam algum problema. O entendimento básico é simples, ela significa “um não judeu” e às vezes é usada para contrastar com “um Yid” ou “um Yidish”, significando um judeu.

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animal, a comunicação humana se baseia No hebraico bíblico, “gói” é um subsAtravés de séculos da na seleção intencional da linguagem. A tantivo e é totalmente neutro. Nos textos história da diáspora capacidade de usar palavras quando querabínicos, há uma mudança consciente. europeia, os judeus remos conversar acarreta numa poderosa O dicionário Jastrow de hebraico rabíniintegraram uma consequência ética a partir das palavras co define a palavra “gói” como multidão e que escolhemos. pessoas com exemplos específicos de genautoconsciência que A maioria das pessoas não pensa nas muitas vezes está ligada tio e idólatra. Em várias fontes em ídiche, origens ou implicações de seu vocabuláa palavra significa apenas: não judeu, um à definição invertida e rio diário, ou seja, somos muitas vezes iggentio. Nas fontes ídiche, gói geralmentotalmente negativa. norantes, não temos entendimento, sobre te implica grosseria ou estupidez. Quem Essa realidade negativa algumas das palavras que usamos. É por comenta que alguém está se comportancausa dessa ignorância que escrevo este diária do “gói” se refere, do de uma maneira gói (goish) ou tem céensaio na esperança de fornecer a educaobviamente, à maioria da rebro de gói (goishe kopf ) não está fazenção necessária para mudar o comportado um elogio. população responsável mento de muitos em nossa comunidade. O Dicionário Eletrônico Michaelis por sua discriminação e Somos responsáveis ​​pelo que escolhemos define “gói”: como: “Segundo os judeus, constante rejeição social. povo ou pessoa que não é de origem jue seu impacto sobre os outros, independentemente daqueles que afirmam que daica ou não pertence a essa comunidapalavras que não pretendem ser cruéis, ofensivas e vulgade”. A chave para essa definição é a referência linguística res podem ser usadas. de que a palavra tem uma conotação “para os judeus”. Ou Na primeira vez que a palavra “gói” é usada no Tanach, seja, o substantivo neutro e abrangente da Bíblia se desenGênesis 12: 2, ela significa “nação” e se refere à promesvolveu através de séculos de uso, por meio de várias adapsa que Deus está fazendo a Abrão: “Farei de ti uma grantações de linguagem, e se transformou numa palavra utilide nação [gói gadol] e te abençoarei; Eu farei grande o teu zada exclusivamente para definir não judeus. nome, e você será uma bênção”. Dois estudiosos israelenses, Ishay Rosen-Zvi e Adi

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Ophir, escreveram artigos importantes e agora um livro sobre o desenvolvimento dessa singular palavra. Gói: os outros de Israel e o nascimento dos gentios. Eles argumentam de maneira persuasiva em um dos primeiros artigos, “Gói: Rumo a uma genealogia”, que os rabinos intencionalmente criam uma nova categoria de identidade com o termo “gói”. Um dos exemplos mais surpreendentes é a exigência de dizer três bênçãos por dia, a primeira das quais é: “Obrigado a Deus por não me fazer um ‘gói’”. “R. Yehuda diz: Um homem deve recitar três bênçãos todos os dias. Bem-aventurado Aquele que não me fez um gentio [gói] ... Um gentio, pois todos os gentios nada são para Ele. Ele as considera como menos que nada (Isaías 40:17). Justificação e raiva são supérfluas com o nascimento do gentio: os góim são simplesmente góim, enquanto o judeu – e esse é o ponto – é o seu diametralmente oposto”.

As fontes rabínicas estão cientes de quão poderosa essa bênção diária pode se tornar numa diáspora em que os judeus se tornam cada vez mais impotentes. Em outra passagem, Rabi Meir é citado como tendo mudado a bênção para o positivo: “... por me fazer judeu”. Há muitos argumentos sobre qual redação deve ser usada e qual forma cumpre o mandamento. Uma fonte tradicional argumenta que, se alguém diz: “Quem me fez judeu”, essa redação afirmativa priva o recitador da oportunidade de recitar as brachot de “escravo” e “mulher” porque elas seriam abrangidas e incluídas na construção positiva. A bênção no formato negativo não está inclusa em nenhum Sidur da Reforma ou de movimentos progressivos. Yair Furstenberg, professor de Talmud da Universidade Hebraica em uma revisão de “Gói”, observa que, “ao contrário de todas as pesquisas anteriores, eles argumentam

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que somente na literatura rabínica os geno sagrado e o profano, o apropriado e o O uso da palavra “gói” tios (= Gói) adquiriram o status de Outro impróprio são construídas na estrutura faz com que os judeus absoluto, conformado em oposição direta da linguagem”, escreve ele, usando ‘ídise sintam superiores. ao judeu. Em contraste com as primeiras che’ para significar judeu.” (Andrew SiIndependentemente do tentativas de lidar com grupos estrangeilow-Carroll 22 de abril de 2019 – Jewish ros ameaçadores, o generalizado e abstraque alguém pretenda, ela Telegraphic Agency) to Gói rabínico não tem outra qualidade Nos mais de 46 anos como rabino, não é um termo neutro, além de não ser judeu. Ele não tem históaprendi em primeira mão com não jumas um que humilha rias, culturas ou características étnicas e, deus que ouviram a palavra usada e enoutra pessoa. As palavras independentemente dos comportamentenderam por contexto, se não por deque usamos iluminam os finição, o que o judeu quis dizer! Com tos e origens particulares dos diferentes grupos de não judeus, o Gói rabínico gevalores que prezamos, o muita frequência, os não judeus aos neralizado é, por definição, o absoluto oposrespeito pelo outro exige quais se qualifica por esta palavra acabato dos judeus”. (a ênfase é minha) rão se tornando parte de uma família juque abracemos o outro A partir dessa base textual, através de dia, alguns até se tornarão judeus. Testecomo se estivéssemos séculos da história da diáspora europeia, munhei pessoas que adotaram o judaísolhando para um espelho. mo dizendo a quem as chamou de “gói’ os judeus integraram uma autoconsciência que muitas vezes está ligada à definicomo isto foi doloroso. Muitas das pesção invertida e totalmente negativa. Essa realidade negativa soas sobre as quais esse termo é usado tornam-se apoiadiária do “Gói” se refere, obviamente, à maioria da popudores significativos do destino judaico. Eles se tornam lação responsável por sua discriminação e constante rejeipais de crianças judias, que mandam para escolas e acamção social. Isso se perpetua pelos pogroms e é depois confirpamentos judaicos. Eles se tornam a fonte de influência mado pelo extermínio pelos “góim” dos judeus europeus. quando essas crianças vão para Israel e, eventualmente, A sociologia judaica contemporânea agora é honesta começam suas próprias famílias judias. sobre o poder da palavra, independentemente de qual sigEm português, a palavra “judiar” significa maltratar alnificado as pessoas pretendem atribuir a ela. Rebecca Einsguém. Quando a ouvimos, alguns de nós paramos e assutein Schorr publicou em 21 de agosto de 2017 um artigo mimos o risco social de desafiar a pessoa, explicando que no jornal judaico The Forward no qual afirma: “Em outras ela é muito ofensiva. Talvez as mesmas pessoas que penpalavras, dizer que a palavra gói historicamente não tem sam que um “gói” seja estúpido ou inferior devam experisido insultuosa é simplesmente incorreta. Há muito temmentar como é ser o objeto de ataques verbais. po ela é usada pelos judeus em um sentido negativo quanO uso da palavra “gói” faz com que os judeus se sindo se fala de não judeus, que não são confiáveis ​​e cujos vatam superiores. Independentemente do que alguém prelores são deficientes”. tenda, ela não é um termo neutro, mas um que humilha Outro comentário social judaico observa: “… a palaoutra pessoa. A linguagem é um ato único de ser humano. vra ‘gói’ tem muita bagagem histórica e linguística para Quando escolhemos usar palavras vulgares e cruéis, estaser usada casualmente como ‘não judeu’ ou ‘gentio’. Comos diminuindo a natureza essencial de ser humano. As meça com as ofensas óbvias – como ‘goishe kopf ’ ou ‘cépalavras que usamos iluminam os valores que prezamos, o rebro gentio’, que sugere (generosamente) um tolo ou respeito pelo outro exige que abracemos o outro como se ‘shikker iz a gói’, um gentio é um bêbado. ‘Goishe naestivéssemos olhando para um espelho. ches’ descreve os tipos de coisas que um judeu presumiJoseph A Edelheit é Rabino, Professor Emérito de estudos religiodamente zomba, pois apenas um gentio desfrutaria desos e judaicos na St. Cloud State University (EUA) e Rabino da conlas, como caçar, velejar e comer pão branco. Mas mesgregação Bet Tikvah de Maringá, Paraná. mo em seu sentido simples, a palavra é uma arma naquilo que o idishista Michael Wex chama de “vocabuláTraduzido do inglês por Raul Cesar Gottlieb rio da exclusão”. “As diferenças entre o ídiche e o goish,

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GUER: A IMPOSSIBILIDADE DO FUNDAMENTALISMO Raul Cesar Gottlieb Como definir corretamente o sentido das palavras do texto? Uma viagem pelos diversos usos da palavra hebraica “guer” na Torá (escrita e oral) exemplifica esta dificuldade.

Fotografias de Nathalie Ventura

A

Wikipedia em espanhol define: “Fundamentalismo é o nome que recebe a corrente religiosa ou ideológica que promove a interpretação literal de seus textos sagrados ou fundamentais (sobrepondo [esta interpretação] a uma interpretação contextual), ou a aplicação intransigente e estrita de uma doutrina ou prática estabelecida. Desta forma, ele [o fundamentalismo] considera um certo livro como autoridade máxima, diante do qual nenhuma outra autoridade pode ser invocada, [autoridade esta] que deve ser imposta como leis às sociedades democráticas”1. A partir da observação que todas as religiões que eu conheço têm correntes fundamentalistas, eu imagino que todas as religiões do mundo as tenham. Mas o que mais me interessa é o fundamentalismo judaico, que é normalmente expresso pela frase “Está escrito na Torá tal-e-tal coisa, logo é assim que tem que ser”. Há duas leituras possíveis para a palavra “Torá” na frase acima. De uma forma estrita, Torá é o livro conhecido em grego como “Pentateuco”, ou seja, os primeiros cinco livros da Bíblia, cuja autoria a tradição judaica atribui a Deus. Entretanto, também há uma forma mais ampla, na qual a Torá é considerada como o conjunto dos escritos religiosos judaicos desde o Tanach (que nossa tradição chama de “a Torá escrita”) até o Talmud (chamado de “a Torá oral”).

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O entendimento mais amplo faz com hebreus, que, além de direitos, comparÉ evidente que, em que a Torá seja, na verdade, um grande tilham obrigações, tal como em Vaykrá / todos os idiomas, as guarda-chuva que admite revisões, incluLevítico 17:15: palavras adquirem novos sões e modificações na doutrina. Em ouQualquer humano, cidadão ou significados e novas tras palavras, a existência da dinâmica que “guer”, que comer o que tiver morrido gerou o Talmud exclui a possibilidade de [de morte natural] ou tiver sido abatido nuances, conforme as fundamentalismo no judaísmo. por uma fera, deverá banhar suas roupas circunstâncias políticas Contudo, há os que congelam o jue se banhar. e culturais evoluem. daísmo no Talmud, cuja compilação foi Há uma proibição contra comer um O que é errado, e finalizada no sexto século da era comum, animal que não tenha sido abatido para e desta forma advogam por um judaísmo profundamente desonesto, fins de consumo e para se redimir deste fundamentalista centrado não em apenas ato a pessoa deve se purificar com um baé impor uma única um livro e sim num conjunto de livros. nho e lavando suas roupas. Mas não é isto leitura autorizada para Esta é uma percepção tão válida como que nos interessa nesta frase e sim a defios textos (quaisquer que nição binária do status político. A palavra todas as demais. Mas ela inclui uma difisejam), intercambiando culdade gigantesca. Como definir correque traduzi como “humano” nesta frase o significado das tamente o sentido das palavras do texto? é “nefesh”, literalmente “alma”. Qualquer Uma viagem pelos diversos usos da palaalma significa qualquer pessoa, qualquer palavras conforme a vra hebraica “guer” na Torá (escrita e oral) humano. E a Torá chama a atenção para conveniência política. exemplifica esta dificuldade. Como a pao status político: existe o cidadão e o não lavra “guer” foi abundantemente utilizacidadão, chamado de “guer”, estrangeiro. da em toda a literatura judaica é relativamente fácil entenMas, tal qual acontece em todos os países modernos, der tanto seu significado original como a forma como ele não há apenas uma categoria de estrangeiro. Há o que tem foi modificado com o tempo. residência fixa e o que está de passagem. A Torá deixa isto claro em Bereshit / Gênesis 23:4, quando, num momento Guer – o estrangeiro onde a terra de Canaã ainda não estava sob domínio dos hebreus, Abraão assim se define perante aos hititas, que tiA primeira aparição de “guer” na Torá está logo em nham o domínio da terra: seu começo. Em Bereshit / Gênesis 15:13 Deus fala para Eu sou “guer” e “toshav” entre vocês.Vendam-me uma Abrão (ele ainda não tinha mudado de nome para Abraão): sepultura para que eu enterre a minha falecida. Saiba agora que seus descendentes serão “guer” numa terAlém de “guer” (estrangeiro), Abraão também é ra que não lhes pertence; eles serão escravizados e afligidos por “toshav” (residente). E ele não tem onde enterrar a esposa quatrocentos anos. a não ser na terra que ele reside. O contexto é a previsão que Deus faz sobre a escraviGuer – o convertido dão dos filhos de Israel no Egito e o significado de “guer” é claro: estrangeiro; uma pessoa que não nasceu no local; A Torá define as leis de conduta do povo de Israel numa que é alheia à cultura local. Os direitos do estrangeiro são situação em que ele se autogovernava e em que o status definidos em vários locais, tal como em Vaykrá / Levítinacional e o status religioso eram simbióticos. Contudo, co 19:33-34: esta já não era a situação na época do Talmud, quando os Quando um “guer’ residir na tua terra, você não agirá romanos governavam a região e os judeus tinham que se com ele de forma errada. O “guer” que residir contigo será submeter às suas leis, mantendo, contudo, uma indepencomo um dos teus cidadãos: você o amará como a você dência religiosa. mesmo, porque vocês foram “guerim” na terra do Egito. E, a partir desta nova situação, a palavra “guer” comeNa primeira citação, os hebreus eram os “guerim” (pluça a assumir outras caracterizações. O estrangeiro já não é ral de “guer”). Já nesta segunda, os “guerim” são os não

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toda e qualquer pessoa que vive dentro do território das tribos de Israel, pois agora existem os romanos (que não seguem nenhuma das leis judaicas), os judeus (que as seguem), e os que seguem algumas leis, mas não todas. O novo contexto exige uma nova legislação, e o Talmud a estabelece. Ao comentar sobre a frase da Torá, “Quando teu irmão empobrecer, você deverá sustentá-lo, como um “guer toshav” [estrangeiro residente] ele viverá sob você”, o judaísmo (em Sifrá Behar 5:1) cria duas categorias para o estrangeiro e o residente, interpolando significados que estão ausentes do texto da Torá. O Talmud explica: Guer é uma pessoa que aceita todas as mitsvot (ou seja, um convertido, uma pessoa que não é judia de nascimento e que segue as leis judaicas) e Toshav é a pessoa que não come comida kasher, mas que não é um idólatra (ou seja, uma pessoa que segue as leis de Noé2). A partir daí a palavra “guer” assume o significado de “convertido”. Por esta razão, o processo de conversão se denomina “guiur” e em muitas traduções da Torá vamos encontrar “guer” traduzido como “prosélito”, palavra que o dicionário define como “aquele que se converteu a uma religião diferente da que tinha”3 (uma tradução que cons-

titui um anacronismo, pois no tempo da Torá o significado da palavra não tinha nenhuma conotação religiosa).

Entra em cena o Estado de Israel Por séculos a soberania judaica foi perdida. Contudo, quando ela foi recuperada, começamos a ver a palavra “guer” ser usada em seu significado original, conforme se deduz deste texto do Rabino ortodoxo Moshe Avigdor Amiel (Rússia-1882 e Tel Aviv-1946), ex-Rabino Chefe de Tel Aviv: “A Torá não trata apenas dos membros do povo judeu, ela abre suas asas sobre os membros de outras nações, que vêm procurar abrigo entre nós, mesmo se este abrigo resultar em algum sofrimento para a comunidade judaica em geral. Isto é evidente pelas leis referentes ao “guer” da Torá… “Haverá apenas uma Torá para o natural e para o “guer” entre vocês” (Shemot / Êxodo 12:49). Esta lei é de certa forma danosa para os assuntos do estado. A comunidade judaica, mesmo em seus melhores dias, sempre foi pequena, fraca e cercada por inimigos e opositores, que por razões políticas ou religiosas muitas vezes tentaram a destruir e até mesmo eliminar. Portan-

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to, um pequeno país cercado por inimipor uma única leitura autorizada para os O fundamentalismo é gos que legisla de forma igualitária para impossível numa cultura textos (quaisquer que sejam), intercamo estrangeiro e o cidadão está pondo em biando o significado das palavras conforque jamais congelou risco as suas fundações. Contudo, a Torá me a conveniência política. O fundamenseus textos (sagrados correu este risco para assegurar a liberdatalismo é impossível numa cultura que jade daqueles que escolherem se estabelecer mais congelou seus textos (sagrados ou ou não) e cujo idioma, neste nosso pequeno país”. não) e cujo idioma, como todos os decomo todos os demais, O generoso Rabino certamente não mais, sofre um contínuo processo de evosofre um contínuo está tratando dos convertidos e sim dos lução. processo de evolução. cidadãos não judeus (na maioria árabes, Sempre que a justificativa para alguma muçulmanos e cristãos) do novo estado. ideia ou ação for um seco “porque está esTodas as versões para outros idiomas deste texto traduzem crito na Torá”, lembre das múltiplas facetas e versões do “guer” como “estrangeiro”. “guer”, da transformação do termo “goi” (discutido no artigo do Rabino Edelheit), e lembre-se que cada leitura é A desonestidade do fundamentalismo uma interpretação. É evidente que, em todos os idiomas, as palavras adquirem novos significados e novas nuances, conforme as circunstâncias políticas e culturais evoluem. Não há nada de errado em ressignificar “guer” como “convertido” no momento em que a cultura judaica, que na época da Torá aglutinava o status nacional e o religioso, passa a necessitar distinguir entre religião e cidadania. Igualmente, não há nada de errado em voltar atrás no tempo e, no século 20, produzir documentos políticos, como o do Rabino Avigdor Amiel, resgatando o significado de “guer” na Torá. O que está errado, e profundamente desonesto, é im-

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Notas 1 https://es.wikipedia.org/wiki/Fundamentalismo (usei a definição espanhola por não existir esta definição em português). 2 O judaísmo define sete preceitos fundamentais, considerados essenciais para a manutenção de uma sociedade decente. Estes preceitos (chamados de “Leis de Noé”) são: não adorar ídolos, não blasfemar contra Deus; obrigação de estabelecer tribunais de justiça; não matar; não cometer adultério; não roubar e não comer carne cortada de um animal vivo. 3 https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/prosélito/

Raul Cesar Gottlieb é diretor da revista Devarim e chair do Movimento Reformista na América Latina.


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RUTE: A FORÇA DE UMA MULHER QUE DEFINE O CURSO DE SUA VIDA Berty R. R. Biron “[...] tu és uma mulher de valor.”1

A importância da maternidade é clara na etimologia do hebraico: a palavra ben, que significa “filho”, compartilha a mesma raiz do verbo livnot, que significa construir. Em hebraico, portanto, ter um filho significa construí-lo como pessoa.

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omo se sabe, nenhum livro influenciou tanto a humanidade quanto a Bíblia. Esta obra encontra-se entre os maiores best-sellers de todos os tempos da literatura universal. Pedra fundamental do judaísmo, é uma obra inspirada por Deus. Como documento religioso, as narrativas do Tanach estão estreitamente ligadas à literatura. Embora apresentadas de forma lacônica, preservam os elementos essenciais à compreensão da saga do povo hebreu, em que História, Teologia e Literatura se entrelaçam no Texto Sagrado. É importante ressaltar que essas narrativas foram escritas por homens e, por isso mesmo, trazem, intrinsecamente, marcas de um ponto de vista masculino sobre o contexto de atuação da mulher.2 Talvez por isso a mulher apareça de forma esmaecida. No entanto, ao se mergulhar numa leitura mais atenta, pode-se perceber que a figura feminina emerge do texto e ganha importância na constituição de um dos pilares fundamentais do judaísmo – a família. Convém assinalar a importância atribuída à maternidade. O livro Gênesis é atravessado de maneira quase obsessiva pelo tema da esterilidade, em oposição à fecundidade. Lembremos a história das matriarcas, marcada pela dificuldade em conceber. A importância da maternidade é clara na etimologia do hebraico: a palavra ben, que significa “filho”, compartilha a mesma raiz do verbo

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livnot, que significa construir. Em hebraico, portanto, ter um filho significa construí-lo como pessoa. Eis aí a relevância do tema, uma vez que a educação das crianças era, e ainda é, uma responsabilidade da mulher, que participa de uma sociedade patriarcal, tecida com alguns elementos matriarcais. Voltemos nosso olhar para Abraão e Sara, originários de Ur, na Caldeia, onde cabia à mulher, por exemplo, em caso de esterilidade, escolher a concubina que asseguraria ao marido a descendência. Esse costume foi assimilado por Abraão e Sara e mantido pelos patriarcas durante algumas gerações. Também à mulher estava reservado o direito de nomear seus filhos, dispor dos próprios bens, assinar contratos e até pedir o divórcio. Essas observações nos permitem afirmar – guardadas as devidas proporções – que, na vida familiar, social, econômica, política e religiosa do povo judeu, a mulher representava um papel importante. Entretanto, permanecia dependente do marido, baal – que significa, em hebraico, “dono”. Assim, ao se referir a ele, a mulher empregava a palavra derivada baali, ou seja: “meu dono”. Na falta do marido, a responsabilidade sobre a mulher transmitia-se ao pai e/ou ao irmão.

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Há relatos bíblicos em que grandes mulheres desempenharam importantes papéis na formação e na configuração do povo judeu, como Rute. Mas apenas duas nomeiam um livro inteiro: Ester e Rute. A história de Rute contempla o casal Naomi e Eliméleh, que se desloca de Belém em busca de meios de sobrevivência nas terras de Moab, onde se estabelece. Seus dois filhos se casam com moabitas: Hilion desposa Orpá e Mahalon casa-se com Rute. Nenhuma delas consegue gerar filhos. Transcorridos dez anos, Eliméleh e os filhos falecem, deixando viúvas Naomi e suas noras. Vale lembrar que, por meio do casamento, Orpá e Rute passam a pertencer aos respectivos maridos; na viuvez, essa relação de pertencimento se transfere para a sogra, Naomi, que resolve partir para Belém, retornando à sua origem. Diante dessa situação, Naomi decide dissolver a relação formal com as noras. Com a perspectiva da separação, elas choram, pois sua vontade é permanecer ao lado da mulher que consideram sua mãe. A caminho de Belém, Naomi insiste em que suas noras retornem cada qual para “a casa da mãe”. Observe-se que esse é um fato inesperado numa cultura patriarcal, em que


a palavra casa3 representa mais que o espaEm Rute, o que surpreende é que, em Há relatos bíblicos em ço onde o homem abriga a família; casa é vez de valorizar a volta à casa da mãe, ela que grandes mulheres também o território onde o homem reaprivilegia Naomi, uma mulher de outra desempenharam firma sua identidade e poder. No momennação, com costumes e crenças diferentes, importantes papéis to da decisão de Naomi, a expressão casa e que não tem bens materiais a lhe ofereda mãe, em lugar de “casa do pai”, sinalicer. O que se afigura a Rute, no momenna formação e na za uma valorização do papel da mulher.4 to, é uma vida sem futuro, na pobreza. configuração do povo Sendo a casa o lugar onde e a partir Mesmo assim, insiste em seguir Naomi, judeu, como Rute. Mas do qual a mulher exerce sua influência, que então se vê obrigada a usar de clareapenas duas nomeiam um parece natural a associação entre mulher za e espírito prático ao sentenciar: as duas livro inteiro: Ester e Rute. noras moabitas, com a viuvez, não estae casa em alguns textos do Tanach, como no livro Provérbios5: “A mulher sábia ediriam mais vinculadas a ela, legal ou finanfica sua casa; a tola, porém, a derruba com suas próprias ceiramente, e, com isso, nada mais lhes restaria a não ser mãos.” (Provérbios, cap. 14, v. 1, p. 690) retornarem a Moab, o que de fato faz Orpá, mas não Rute, A palavra casa (bait/beit) é polissêmica, ou seja, abrange que persiste na decisão de acompanhar a sogra, num disuma grande diversidade de significados, entre os quais cicurso claro e veemente: “[...] – e Rute disse: Não me obritamos os seguintes exemplos: Beit Knesset (sinagoga), Ben gues a abandonar-te, a desistir de te acompanhar, pois, Bait (filho da casa, ou seja, pessoa muito ligada à família), aonde fores, eu irei também; aonde te alojares, ficarei tamBeit Sefer (escola), Beit Avot (lar de idosos), Beit Din (casa bém; teu povo será meu povo e teu Deus será meu Deus! da justiça), Beit Holim (casa de saúde, hospital), Beit MaOnde pereceres, morrerei eu também, e lá serei enterrada. lon (hotel), Beit Kevarot (cemitério). Entre os nomes de E possa o Eterno agir para comigo de tal forma que socidades, é interessante citar Bet-Lehém (cuja forma latinimente com a morte sejamos separadas!” (Rute, cap. 1, v. zada é Belém), onde se desenrola parte da trama de Rute. 16-17, p. 739) Convém observar que a expressão casa do pai aparece Essa afirmação traduz uma profunda e genuína sintono Tanach com grande frequência. Um dos exemplos renia entre Rute e Naomi. fere-se a Abraão: “E o Eterno disse a Abrão: ‘Vai-te de tua O livro de Rute é um belo retrato de uma autêntiterra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que ca conversão, única nas Escrituras Sagradas. Ela enconte mostrarei’”. (Gênesis, cap. 12, v. 1, p. 19) tra seu lugar entre os hebreus, pois, além de se harmoniNo entanto, casa da mãe é empregada apenas quatro zar com eles, revela também uma verdadeira conexão es6 vezes: uma no Gênesis, duas no Cântico dos Cânticos e uma piritual com essa cultura (“teu povo será meu povo”), com vez no Livro de Rute. suas tradições (“teu Deus será meu Deus”). A primeira menção à casa da mãe se dá no Gênesis, na Os nossos sábios comentam que Rute redime várias fipassagem em que Rebeca, após encontrar Elieser, o fiel serguras do passado, a exemplo de Moab, nascido de uma revidor de Abraão, em frente à fonte das águas e dar de belação incestuosa de Lot com suas duas filhas, fato esse que ber a ele e aos camelos, recebe como presente as joias tradá origem a dois povos: os amonitas e os moabitas, conzidas para a futura esposa de Isaac: “E a moça correu e reforme se lê no Gênesis7. Por ocasião do êxodo do Egito, esses dois povos malatou, em casa de sua mãe, estas palavras.” (Gênesis, cap. nifestaram falta de humanidade para com os hebreus, ra24, v. 28, p. 30) zão pela qual, de acordo com o Deuteronômio, amonitas No Livro de Rute, vamos encontrar Naomi aconselhane moabitas sofreram, mais tarde, a proibição de entrar na do as noras a voltarem para seu povo, com a esperança de congregação do Eterno até a 10ª geração.8 que, na casa de suas mães, elas garantam para si novos maApesar de descender de moabitas, Rute tem qualidatrimônios: “E Naomi disse a suas noras: Ide, retornai à casa des muito bem conceituadas entre os sábios hebreus, ende vossas mães, e que o Eterno seja bondoso para convosco tre as quais se destaca a modéstia. Além dessa característicomo fostes para comigo e para com os falecidos.” (Rute, ca, sobressaem a coragem, a bondade e a força espiritual de cap 1, v. 8, p. 739)

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Rute, que influem decisivamente no seu a determinação de uma mulher em preEm Rute, o que acolhimento no seio do povo de Israel. servar os laços afetivos com a sogra, insissurpreende é que, Sua pureza de alma transcende a genealotir em permanecer com ela e assumir com em vez de valorizar a gia e ensina que o compromisso com os humildade um futuro incerto. Com essa volta à casa da mãe, ideais é mais importante que a ascendêndeterminação, Rute muda completamencia biológica. te seu destino. ela privilegia Naomi, A determinação em assumir uma Os sábios associam a decisão de Rute uma mulher de outra nova identidade, uma nova fé, permiteà do patriarca Jacó ao sair da terra de Canação, com costumes -nos afirmar que a história de Rute ilusnaã. Eles afirmam que a partida de uma e crenças diferentes, tra um processo em que o indivíduo enpessoa justa deixa um vazio. A pessoa ese que não tem bens contra seu lugar na família, na religião e pecial é a “luz que brilha”, a “glória” de nas conexões históricas. Rute se torna, asmateriais a lhe oferecer. um lugar. A partida de Rute, dizem os sim, o arquétipo da convertida. sábios, esvazia Moab de uma pessoa de Fiel ao compromisso assumido com o monoteísmo, grande valor – um importante elogio, não feito até então Rute abandona o politeísmo de Moab. E é digno mencioa nenhuma outra mulher na literatura rabínica. nar que a antiga centelha de Lot (sobrinho de Abraão) arPara melhor entender como, a partir dessa decisão de deu invisível durante gerações, tendo encontrado lugar na Rute, foi sendo tecida uma nova e decisiva história para figura emblemática de Rute. as gerações futuras, voltemos à narrativa. Naomi e Rute Narrativa única nas Escrituras Sagradas – pois focalichegam a Belém no início da colheita da cevada. Em busza uma família de mulheres lutando num mundo predoca de sustento, Rute vai para os campos. Por acaso, cheminantemente masculino –, o Livro de Rute contém três ga a uma parte das terras que pertencem a Bôaz, parente 9 personagens principais: a própria Rute, Naomi e Bôaz , o de seu sogro, Eliméleh. Bôaz, tendo ouvido falar sobre a rico fazendeiro que, ao se unir a Rute, acolhe Naomi, ofeconduta de Rute em relação a Naomi, trata-a com bonrecendo a ambas sua proteção. dade, permitindo que seus servidores deixassem cair alguO Livro de Rute constitui a história de uma cultura e de mas espigas para que também ela as recolhesse, como devalores femininos. Os textos midráshicos exaltam em Rute terminava a lei da peá (que obrigava a deixar uma parte o hesed10, palavra que significa bondade, caridade, caracteda colheita para ser recolhida pelos fragilizados da socierísticas identificadoras dessa mulher singular. Junto ao Lidade: órfãos, viúvas e estrangeiros). vro de Ester, o de Rute é um dos poucos em que a mulher Terminada a colheita, Naomi orienta Rute a se aproprotagoniza a história. Mas não há indicação de que tenha ximar de Bôaz: “Deves então banhar-te, perfumar-te, vessido escrito por uma mulher, embora a narrativa esteja pretir tua melhor roupa e dirigir-te ao celeiro”. (Rute, cap. 3, dominantemente centrada nos discursos de Rute e Naomi. v. 3, p. 740) Ao refletir sobre a história de Rute, é possível evocar as Comovido com esse gesto, Bôaz procura os meios lenarrativas a respeito de várias personagens bíblicas, como gais de se unir a Rute e assim dar continuidade à linhagem Abraão, que vivencia uma situação de partida – a ruptura de Eliméleh, ameaçada de extinção. Convém lembrar que, de um homem com o meio social de que depende; ruptucom essa união, Bôaz cumpre a Lei do Levirato, segundo ra com sua pátria, seu lugar de nascimento – a difícil, mas a qual se um homem morresse sem deixar descendência, necessária, saída da casa do pai. Não uma simples viagem sua viúva deveria ser recebida em matrimônio pelo parenpara novas terras, mas a passagem do politeísmo ao monote mais próximo em linha colateral. teísmo: a gênese de um povo – o povo judeu! Da união de Rute com Bôaz, nasce Obed, em Belém. Assim como Abraão, Rute sente-se compelida a deiObed se torna pai de Jessé e avô de Davi. Dessa forma, xar a segurança de sua pátria, da família; compelida a emuma semente de Moab, filho de Lot, é implantada na lipreender uma ruptura com os valores culturais e religiosos nhagem real de Israel, apesar da proibição de casamentos de seu povo – os moabitas. Mas lembremos que, na cultuentre judeus e outros povos. ra patriarcal daquela época, assume especial singularidade Nesta citação, ouçamos a voz do povo de Belém, que

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presenciou o enlace de Rute e Bôaz: “Que o Eterno faça com que esta mulher, que entra hoje em tua casa, seja como Rahel e Lea, as construtoras da Casa de Israel, e a faça prosperar em Efrat e se tornar famosa em Bet-Léhem! E que pela semente que o Eterno fizer frutificar nesta jovem possa tua casa se tornar como a de Pérets, filho de Tamar e Judá”. (Rute, cap. 4, v. 11-13, p. 741-742) Essa bênção proferida pelo povo traduz a importância da linhagem da Casa de Israel, edificada pelas matriarcas Raquel e Lea, que, no livro de Rute, são exaltadas e dignas de servir como exemplo. Assim, o livro de Rute pode ser entendido como o livro das mulheres da Bíblia. A trajetória de Rute, a persistência em assimilar a cultura e o monoteísmo judaico, a lealdade com que ouve as orientações de Naomi, o compromisso que assume com o povo de Israel, tudo isso ilustra e justifica sua inserção no mundo judaico. Sem o saber, Rute segue os passos de Sara, Rebeca, Raquel e Ana na luta para vencer a infertilidade e alcançar a maternidade. E dessa forma, Rute – a única personagem bíblica feminina a quem foi dada a escolha de seu destino – gera um filho que inaugura a Casa de Davi.

Notas 1 Rute, cap. 3, v. 11. Cf.: Bíblia Hebraica. Tradução por David Gorodovits e Jairo Fridlin. São Paulo: Editora e Livraria Sêfer, 2006, p. 741. 2 A leitura dos relatos bíblicos parece evidenciar uma atuação masculina mais pronunciada e vigorosa. Esse destaque torna-se mais visível ao se constatar que, de acordo com levantamento feito por estudiosos, são citados na Bíblia cerca de três mil nomes masculinos, enquanto os femininos somam aproximadamente duzentos. Apesar de numericamente em desvantagem, a figura feminina marca presença no Tanach. Cf.: Bitton, Michèle. Poétesses et lettrées juives: une mémoire éclipsée. 3 ed. Paris: Publisud, 1999, p. 17.

3 Even-Shoshan, Abraão. Novo Dicionário da Língua Hebraica. 4. ed. Israel: Am Oved, 2000, p. 65-67. 4 Este termo – casa da mãe – leva-nos ao ambiente interno (doméstico) ou familiar, que circunscreve as atividades de praticamente todas as mulheres israelitas naquele tempo. Em tal ambiente, são ouvidas as vozes das mulheres, cuja presença é valorizada e cujos atos exercem uma profunda influência sobre as demais pessoas. Naquele contexto, aparentemente as mulheres israelitas têm um papel igual ao de seus maridos, senão maior, quando se trata de arranjar casamento para os filhos. 5 Cf.: Bíblia Hebraica. Tradução por David Gorodovits e Jairo Fridlin. São Paulo: Editora e Livraria Sêfer, 2006. 6 No Cântico dos Cânticos, a mulher, ao levar seu amado à casa da mãe – o lugar em que nasceu e recebeu o “ensinamento” materno –, pretende envolvê-la nos arranjos de seu romance: “Levar-Te-ia e introduzir-Te-ia na casa de minha mãe, e Tu me ensinarias; e Te daria de beber do vinho aromático e do mosto das minhas romãs.” Cf.: Bíblia Hebraica. Tradução por David Gorodovits e Jairo Fridlin. São Paulo: Editora e Livraria Sêfer, 2006. Cântico dos Cânticos, cap. 8, v. 2, p. 736. 7 Cf.: Bíblia Hebraica. Tradução por David Gorodovits e Jairo Fridlin. São Paulo: Editora e Livraria Sêfer, 2006, cap. 19, v. 31-38, p. 25. 8 “Nenhum amonita nem moavita entrará na congregação do Eterno; os descendentes destes, nem na 10ª geração entrarão na congregação do Eterno, eternamente, pelo mau conselho que deram e porque não vos receberam com pão e com água no caminho, quando saístes do Egito, [...].” Cf.: Deuteronômio, cap. 23, v. 4-5, p. 202. 9 Os povos do Antigo Oriente Próximo e do Mediterrâneo acreditavam na força dos nomes e os relacionavam às pessoas por eles identificadas. Vejamos como aparecem no livro de Rute: Bôaz (“nele reside a força” ou “homem de firmeza e força”), Naomi (“agradável”), Eliméleh (“a mim pertence a realeza”), Mahlon (“o doente”), Hilion (“aquele que chegou logo ao fim”), Orpá (nuca). Cf.: Brenner, ­Athalya (Org.). Rute a partir de uma leitura de gênero. Tradução de Fátima Regina Durães Marques. São Paulo: Paulinas, 2002, p. 175. 10 Cf.: Even-Shoshan, Abraão. Novo Dicionário da Língua Hebraica. 4. ed. Israel: Am Oved, 2000, p. 228.

Berty Ruth Rothstein Biron é Doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Membro do Polo de Pesquisa ­sobre Relações Luso-Brasileiras do Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura. Colaboradora da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro (ARI) e da Wizo.

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A MÁGICA DE OZ – O PENSAMENTO DE AMÓS OZ Neste número: Amós Oz universal

Trechos selecionados e editados por Paulo Geiger

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m homenagem ao legado do escritor israelense Amós Oz publicamos em Devarim uma trilogia de excertos de alguns de seus livros. No primeiro artigo desta coletânea focamos na política: o conflito israelense-palestino e o fanatismo. No segundo o foco recaiu sobre o judaísmo. E neste terceiro e último centramos em sua criação literária em torno de temas universais: a vida; o erotismo; a sexualidade. Encerramos assim os 12 meses de luto que a tradição judaica recomenda, talvez como uma terapia para a recuperação da direção depois de uma perda muito dolorosa. Contudo, não obstante a recomendação, o sentimento de perda profunda perdura. O resultado das duas eleições ocorridas desde o falecimento de Amós Oz mostraram apenas um tímido afastamento das posições mais fanáticas e extremadas na política israelense. A ausência de sua voz ainda é muito sentida (e talvez sempre o será) entre todos que acreditam no diálogo, no compromisso e na transformação como forma de resolver os dilemas da vida. Agradecemos a Companhia das Letras e a Wilye Agency (UK) por terem generosamente permitido a publicação de todos os excertos desta série.

Fotografias de Nathalie Ventura

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Trechos do livro Uma certa paz (Companhia das Letras – 2010) A paisagem, o início Ainda descalço e zonzo, saiu à varanda, para respirar o ar puro noturno. Thia saiu atrás dele. Não estava chovendo, não se viam estrelas, um silêncio negro e molhado pairava nos arredores do kibutz. Começou a fumar um último cigarro na escuridão. Em torno de cada um dos lampiões acesos ao longo das cercas juntavam-se os vapores da bruma em trêmulos círculos de um brilho estranho, doentio. Um sapo coaxou em uma das poças, e parou. Nas alturas, transparente, solitário, um negro vento vindo do mar penetrou as trevosas copas dos pinheiros. Ionatan Lifschitz começou a medir intimamente a profundeza da noite que o aguardava, o medo do imenso espaço a se estender daqui em diante, escuro e deserto: a solidão de pomares na desfolha, a solidão da aldeia abandonada, a solidão das fortificações, posições, trincheiras, escavações, bunkers, campos minados, esqueletos de blindados carbonizados, terras de ninguém, estações de guarda abandonadas nesta noite de inverno. E a conspiração da terra, que se vai abaulando aos poucos, primeiro em suaves dobras íngremes, depois o arredondado das colinas e depois as corcovas que se elevam abruptas e eis que toda ela está tomada pela forte convulsão das montanhas. Cadeias montanhosas, codilheiras, penhascos escarpados, uádis, canyons, domos estourados e banhados de escuridão, e depois o primeiro deserto e o longo vale e de novo declives e cumes. Edom e Moab e Amon e Guil’ad e Khoran e e Golan e Bashan, e dali em diante elevados planaltos desertos, aridez após aridez de areias e de pedra, e acima de tudo estendem-se as trevas do grande silêncio: lá repousa uma pedra solitária e outra pedra solitária e outra pedra solitária e mais, em vão, sem o toque da mão de um ser da criação do mundo, até o fim dos dias sem um toque de mão, um deserto abandonado às unhas uivantes dos ventos, e depois outras montanhas, de picos nevados sempre batidos por tempestades furiosas, e em suas encostas cres-

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cem milhões de ervas rasteiras e não há ninguém, desfiladeiros ocultos, e não há ninguém, sulcos cavados por inundações, monstros de basalto negro, eminências de granito, estepe infinita e não há ninguém, rios imensos que cortam silenciosos a escuridão, mordem suas margens como se tivessem dentes, florestas eternas nas quais tiras de musgo se estendem e se entrelaçam nas espessas copas, largos vales e não há ninguém, vegetação agreste, e não há ninguém, uma noite ampla e profunda reina em toda a terra. Houve uma vez a cólera bíblica ardente de outrora a jorrar como torrente de lava sobre a terra inteira e agora já há muitas eras aquela cólera amainou e passou. A Bíblia passou, e só a mudez de uma doença silenciosa se estende sobre toda esta terra que se eriça na quietude de um gigantesco animal, a grande terra se esparrama e nada lhe importa. Nós, nossas casas, nossas mulheres, as guerras de vida ou morte que entre nós ocorrem sem parar, todas as nossas palavras, nada importa ao animal-terra indiferente terra de mudez sonolenta cadáver de terra gelada. Não odeia, não ama, estranha ao mundo e testemunha de todas as nossas penas e todas as nossa penas lhe são estranhas. Planícies e mais planícies difusas espraiam-se na calada do vento e depois delas outras planícies e algures finalmente começam os espaços da água, o próprio oceano, uma massa de água fria a se encurvar, também ela indiferente e deserta do homem. Águas de trevas, e mais águas de trevas. Para além dela o céu também é negro, e não há ninguém, não há vivalma até o fim de todas as neblinas, espaço escuro e gelado, taiga celestial ou tundra. Só um total imbecil tentaria em vão procurar na extremidade de todos esses silêncios um sinal de vida ou proximidade, ou alguma forma de calor ou de encantos do Chade. Tudo em vão. O mundo está frio. E vazio. Se há outros mundos com certeza neles também é como aqui ao pé da varanda, com certeza neles também um grande cão dormita esparramado e só espera a morte. Meu cigarro acabou. Thia, para dentro. Preciso começar a me organizar. Já tenho de me mexer. (páginas 221-223)


[...] Ainda por longo tempo depois de Beer Sheva o deserto continuava a florescer em grandes campos de cereais onde não se via ninguém, como que puxados a verde-pastel sobre as suaves colinas, em toda a amplidão alcançada por olhos lacrimejantes do vento carregado de areia. Era um tom profundo de verde, batido aqui e ali por uma rajada de vento, brilhando aqui e ali em poças de um fulgor ofuscante, empalidecendo com a distância e querendo tocar no azul do horizonte, como se lá, em algum lugar, finalmente se chegasse a um compromisso entre a cor do céu e a cor das espigas. E conciliação. Existe amor no mundo, muito muito longe daqui, num lugar onde o céu pousa suavemente sobre a terra dos campos. E lá tudo acaba da melhor maneira possível e numa paz derradeira. Entre aqui e esse lugar ondulam silenciosamente ondas sem fim de cereais num espaço imenso. Sem casas. Sem árvores. Sem gente. Campos e mais campos solitários. Ondulação de anseio e saudade. Um sopro silente. Ondulação sem som e sem resposta a não ser o ronco do motor. Planícies e a suavidade das colinas, planícies e respingos de luz até o fim da terra, e só a estrada a atravessar tudo isso como uma flecha negra. Esta é a vida. Este é o mundo. Este sou eu. Esta é a imagem do amor. Apenas fique deitado em repouso, e receberá. Só fique deitado, e lhe será dado. Tudo está a espera, tudo está em aberto e tudo é possível. Eis que chegam os encantos.(página 283)

O delicado erotismo em Amós Oz E foi uma transa como ele nunca tivera em toda a sua vida. Sem degradação nem vergonha, mas com selvageria e suavidade e uma sofisticada precisão. Toda a noite e até o amanhecer. Como se tivesse uma irmã gêmea cujo corpo se fundisse com o seu num molde só. ... Por causa do frio do deserto não despiram suas roupas, e se enfiaram vestidos e rindo entre os ásperos cobertores de lã. Ele ergueu-se sobre os cotovelos para ver o rosto dela ao luar, curvou-se e beijou seus olhos, que não se cerraram, e de novo se apoiou nas duas mãos e inclinou-se e a contemplou longamente, e ouviu a voz dela dizer-lhe Você é bonito e triste, e também um terrível mentiroso. Com a ponta do dedo ele contornou os lábios dela e a curva de seu queixo, devagar, e ela tomou e envolveu as duas mãos dele com as suas e escondeu um seio em cada mão. Ele não teve pressa. Ionatan calou-se e fez amor passo a passo, concentrado e lúcido, como a se orientar cuidadosamente numa desconhecida amplidão desértica, no meio da noite. Até que Michal esgravatou entre camadas de cobertores e fardas, achou e libertou seu membro, e beijou-o à luz do luar e brincando chamou-o de nomes que ele mencionara antes, filósofo errante, maluco, em busca de sinais de vida. Então os dedos dele abriram caminho e chegaram a sua nudez mais íntima, e ele a dedilhou, lenta-

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mente, compenetrado, até que ela começou a se encurvar e se arredondar de encontro a ele, e ele riu e lhe disse, O que foi? Você não tem tempo? Ela respondeu com uma mordida e arranhões. Ionatan, em sua voz mais grave, lhe disse: Você se chama mulher. E eu – homem. E abriu os botões de suas fardas desajeitadas e percorreu seu ventre e suas coxas e aconchegou em suas duas mãos um seio e depois o outro com delicadeza e com um furor contido, no ponto exato entre a brandura e a força, até que ela lhe implorou Venha logo venha seu louco já não aguento mais venha. E ele disse Fique quieta, qual é a pressa, e seu membro, como o bastão de um cego atacado de fúria, tateou em volta, fuçou, e como uma serpente arrastou-se procurando caminho entre as camadas da roupa dela, e curvou-se golpeando-lhe o ventre e o declive do ventre até que de repente foi inadvertidamente capturado, e deslizou, afinal, para seu ninho. Parou então, batido de mel, e houve uma trégua. E frêmito. Depois, sua noiva começou a mover-se embaixo dele como o mar, e mordeu-lhe a orelha com os dentes, e arranhou suas costas em todas as direções dentro de suas roupas, e implorou-lhe Venha depressa, eu morro. Então Ionatan inflamou-se e penetrou-a com força, e outra vez, e de novo, e golpeou dentro dela, e gemeu e bateu e forçou como a demolir muralhas poderosas e com seu ímpeto a atordoou inteira e arrancou de seu ventre um grito choroso e de repente, como um cão ferido, gritou ele também e começou a uivar e a derramar lágrimas e semente, como se todas as suas feridas se tivessem aberto e seu sangue escorresse e jorrasse. Em toda a sua vida nunca se abrira assim, a doçura desse desejo aturdiu a raiz de seu membro e de lá se espraiou em seu ventre, em suas costas e subiu por sua espinha até a nuca, até a raiz dos cabelos e f­ ez-lhe estremecer os pés e ela lhe disse Meu bebê você está chorando de lágrimas e olhe, você está todo arrepiado, e olhe, seus cabelos estão em pé. E beijou-o na boca e no rosto. E ele lhe disse, ofegante, Não terminamos, pois tenho mais. E você

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é doido, ela lhe disse, você é doido mesmo. E ele lhe tapou os lábios com a boca, e a teve uma segunda e uma terceira vez. Doido, não tenho forças para você. Mulher, ele lhe disse, em toda a minha vida eu não soube que uma mulher é assim. E ficaram deitados e abraçados e viram a lua ir-se embora. (páginas 290-292)

Trecho do livro Do que é feita a maçã (Companhia das Letras – 2019) Sobre a mulher e a sexualidade e o abuso Sei, por exemplo, que a sexualidade da mulher – em geral, e isto agora é uma generalização, e a generalização é sempre injusta – a sexualidade da mulher é para mim muito mais rica e mais complexa do que a sexualidade do homem. A diferença entre a sexualidade do homem e a da mulher é, talvez, mais ou menos como a diferença entre um tambor e um violino. Cresci num mundo sem mulheres. A mulher que me deu à luz, que eu amava tanto, que nos deixou quando eu tinha doze anos e meio, na verdade já estava se afastando muito antes de se matar. O que ela deixou para mim no tocante a mulheres foi talvez um sentimento nebuloso e confuso de que mulher é uma coisa quebradiça e vulnerável, algo no qual se tem de tocar com mais cuidado do que num objeto de vidro, e de que mulher é uma coisa feita de sonhos, de saudades, de sensibilidade e de dor. É uma herança muito ruim. Não é o modo certo de um jovem tomar conhecimento do mundo feminino. Mas quando eu era um menino, e também quando já era um rapaz, não sabia que esse modo não era bom. Como se em cada mulher estivesse colado uma etiqueta invisível: “Cuidado, frágil”. Não tive irmãs, era filho único. Meus primos eram todos homens, e além disso ainda me mandaram para uma escola religiosa para meninos, “Tachkemoni”. que era um pouco


do tipo desses infernos católicos descritos por James Joyce em Retrato do artista quando jovem e Dublinenses. Todos os dias de minha infância eu sabia sobre garotas muito menos do que sabia sobre índios, por exemplo. Toda linha no mundo é arbitrária. Quando está escrito na estrada: até 90 km/h, e daí se eu guiar a 91 ou 92? Seria mais perigoso? Se o professor na escola que seu filho brevemente vai frequentar disser a ele que é permitido andar com o botão superior da blusa aberto, mas não com quatro botões abertos – que diferença faz se for um botão ou se forem dois? Dois ou três? Não há fronteiras que não sejam arbitrárias. Eu acho que se tem de traçar uma fronteira em algum lugar, uma fronteira entre sexo e abuso, sexo e humilhação, sexo e exploração, sexo e depreciação e ofensa. E essa fronteira passa, mais ou menos, na linha que existe entre concordância e coerção. Verdade, nem sempre mesmo esta linha é nítida o bastante. Ou nem sempre se consegue marcá-la com bastante força. Mas não tenho uma proposta melhor do que a de investir na marcação dessa linha, e de sua definição. Porque a coerção não começa e termina com a força bruta. Existe todo um arsenal de coerções, existe também chantagem e manipulação e promessas vãs e suborno. E passaram-se mais alguns anos até que eu aprendesse que tudo que eu achava que tinha descoberto aos quinze anos sobre a sexualidade feminina – era só meia-verdade. Que o diapasão da sexualidade feminina pode ser muito mais parecido com o diapasão da sexualidade masculina do que eu então imaginava, quando li Madame Bovary e Anna Karenina. Esses livros foram escritos por homens, certo que por homens esclarecidos, mas assim mesmo homens do século 19 que também eram prisioneiros dos clichês sobre a relação entre feminilidade e delicadeza ou fragilidade. As diferenças que então eu descobri que havia entre a sexualidade feminina e a masculina também eram diferença não permanentes. Às vezes como a diferença entre um tambor e um violino, mas às vezes um dueto de tambores, ou dueto de violinos. Às vezes assim, às vezes assado. E não é que para uma mulher seja

de um jeito e para outra não. Aprendi que o que eu pensava ter aprendido aos dezesseis anos dos livros que li em Hulda era correto e importante e novo, mas não era tudo. Com os anos aprendi mais coisas sobre feminilidade, coisas que Anna Karenina e Emma Bovary não vão lhe ensinar, nem mesmo Jane Austen ou Virginia Woolf. Mas aqueles livros foram um primeiro estágio, e sem eles eu não ganharia meu primeiro batismo de mel, e não teria progredido com os anos para os estudos de segunda e terceira graduação. Não vou repetir aqui, isso está escrito em De amor e trevas. Mas como disse a irmã mais velha de meu amigo de Jerusalém, aquela que me surpreendeu tentando espiá-la quando eu tinha doze anos: “Amós, se você aprender como pedir, não vai precisar mais espiar.” Eu te contei que durante toda a minha infância cresci como um analfabeto em erotismo, cheio de preconceitos. Eu era como milhões de homens por aí afora, que adoram sexo mas odeiam as mulheres. Milhões de homens assim andam pelo mundo, suados, resfolegando, caminhando pelas ruas com a língua de fora. Eu os encontro o tempo todo; na fila do posto de saúde e nos exercícios de reservistas do exército eles me cercavam por todos os lados. Tudo que tinham para me dizer era como é boa uma trepada e como mulher é uma coisa horrível. Todas a suas piadas eram sobre esses dois assuntos, com variações. Quantas piadas e anedotas e histórias e bazófias de alcova... Mais e mais uma vez, como arrombar o cofre, e como logo depois disso se livrar rapidamente do cadáver. Não quero me gabar de que de repente virei uma espécie de rabi Akiba do amor, que até os quarenta anos de idade era um ignorante total e veja só o que saiu dele. Minha história não é sobre isso. Sobre o que é, então? Sobre uma curiosidade infatigável. A curiosidade é uma mina de ouro sensorial. É também uma qualidade erótica maravilhosa. Curiosidade. (páginas 45-48-56-71-77) Paulo Geiger é editor, membro do conselho editorial de Devarim e tradutor das obras de Amós Oz.

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TORÁ, A PERSISTÊNCIA DO PERGAMINHO NO JUDAÍSMO Juliano Klevanskis O Talmud regulamenta a confecção e a escrita da Torá, processo que acompanha de forma incólume a evolução da língua que culminou, no fim do século XIX, no hebraico moderno. O formato do objeto nunca se altera, não havendo, assim, uma revolução na técnica.

Disse o Senhor a Moisés: “Escreva essas palavras; porque é de acordo com elas que faço aliança com você e com Israel”. Moisés ficou ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão e sem beber água. E escreveu nas tábuas as palavras da aliança: os Dez Mandamentos (Êxodo 34:27,28).

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Torá (o Pentateuco) faz parte do conjunto de livros denominado Tanach (Bíblia Hebraica). Gershom Scholem explica como ela desempenha sua função sagrada no judaísmo, servindo de elo no pacto entre Deus e o homem: A Torá é para eles um organismo vivo, animado por uma vida secreta que corre e pulsa sob crosta de seu significado literal; cada um dos inumeráveis estratos desta região oculta corresponde a um novo e profundo significado da Torá. A Torá, em outras palavras, não consiste apenas em capítulos, frases e palavras; ela deve ser encarada antes como a encarnação viva da sabedoria divina que eternamente emite novos raios de luz. Não é apenas a lei histórica do Povo Eleito, embora também o seja; antes a lei cósmica do Universo, como a sabedoria de Deus a concebeu. Nela, cada configuração de letras, possua ou não sentido na linguagem humana, simboliza algum aspecto do poder criativo de Deus, ativo no universo.1 Assim, a Torá é um objeto sagrado; materialmente, são pergaminhos que formam um longo rolo cujas extremidades são presas a hastes de madeira. Apenas o sofer – escriba considerado devoto, conhecedor das leis judaicas e especialmente treinado – pode transcrevê-la, processo completamente manuscrito que se estende por mais de um ano, geralmente com o emprego de plumas de aves e tin-

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ta especialmente preparada para a tarefa. em 1757, época do bispo católico poloAssim, o judaísmo Se qualquer caractere transcrito não cornês Mikołaj Dembowski. Acrescento os consolida a experiência responder exatamente ao formato consiepisódios de pogroms no Leste Europeu, dos escribas hebreus e a derado original, o pergaminho é considenos séculos XIX e XX, e a Shoah, no sécusabedoria das narrações lo XX. Esses foram processos ininterruprado inválido. Antes de escrever as quatro letras hebraicas que representam o descotos de aniquilamento de pessoas e de desantigas. A Torá é a nhecido nome de Deus, o sofer deve seguir truição de textos que se estenderam por principal referência do o ritual religioso de se banhar em uma basemanas, meses ou anos. povo judeu. De acordo nheira chamada mikveh. Uma Torá pesa O Talmud (Tratado Shabat 16:1) diz com a tradição milenar em média 15 kg e a leitura, nas sinagogas, que: “Nenhum dos livros sagrados deve judaica, deve haver um consiste em ato público que pode aconser queimado [...]. Indiferentemente da tecer três vezes por semana. Derrubá-la é lugar separado, portanto, linguagem na qual for escrito, se se torconsiderado falta grave, na qual todos os nar inútil para o uso, dever ser escondisagrado, para a escrita, membros da congregação devem perfordo”6. Assim, esta passagem adverte que o a leitura, o aprendizado e pergaminho sagrado, após o desgaste pelo mar um jejum diurno de 40 dias. o ensinamento da Torá. E manuseio, deve ser colocado num lugar Há diferentes opiniões rabínicas sobre até para o seu descarte. especial e jamais ser destruído. quais são exatamente os mandamentos reSegundo Jacó Guinsburg, o Talmud é lacionados à Torá, bem como as formas o mais famoso livro dos judeus depois da Bíblia. É uma de se cumpri-los. Há por exemplo a proibição de se vencompilação de escritos de diferentes épocas, sobre inúmeder uma Torá, salvo para promover o aprendizado ou para ros temas, por numerosos intérpretes da Bíblia e da Lei se casar; bem como discussões se apenas homens seriam Oral. A coletânea talmúdica constitui uma verdadeira enobrigados a escrever. Segundo Rabbi Moshe ben Maimon ciclopédia da legislação, do folclore, das lendas, das dispu(Maimônides)2, é uma mitsvá 3 escrever uma Torá, pois assim apreende-se a partir do versículo “E agora, escrevei tas teológicas, das crenças, das doutrinas morais, das tradipara vós este cântico, e tu, e tu ensina-o aos filhos de Israel; ções históricas da vida judaica. [...] Divide-se em Talmud ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por tesde Jerusalém ou da Babilônia, conforme o lugar em que foi temunha contra os filhos de Israel”4. O Talmud (Shabat redigido. Subdivide-se em Mishná e Guemará, cada qual 108a) não encerra a discussão sobre a permissão do uso de com diversos tratados e ordens.7 Mishná significa lição e repetição. Sobre ela, Guinspele de peixe kasher (apto, em hebraico) para escrever uma burg diz que é o “nome dado à coletânea de leis e preceitos Torá. De acordo com o Shulchan Aruch, a Torá somente orais [...] a partir da destruição de Jerusalém por Tito”, e pode ser escrita na pele (couro) de um animal ou pássaro que se divide em “6 ordens e 63 tratados, formando o núkasher; não pode ser escrita na pele de um animal ou páscleo e a primeira parte do Talmud. Seu ordenador codifisaro não kasher ou na pele de qualquer peixe.5 Infelizmente, a Torá foi vítima de perseguição ao loncador foi o Rabino Iehudá ha-Nasi, o patriarca”.8 Guemago da história. Lucien Polastron, em Pessoas do livro, lisrá significa comentário, exegese. Essa é a segunda parte do ta os vários episódios de queima de livros judaicos, em geTalmud, onde os rabinos interpretam os textos da Mishná. ral por ordem papal: Gregório IX em 1239; Clemente IV O Talmud regulamenta a confecção e a escrita da Torá, em 1263; João XXII em 1320; Alexandre V em 1409; Júprocesso que acompanha de forma incólume a evolução da lio III em 1553. Assim, Polastron nos mostra a rotina de língua que culminou, no fim do século XIX, no hebraico queima de livros: na Síria de Antíoco IV em 167 a. C.; na moderno.9 Pois só há um padrão, uma forma de produção, que será repetida ininterrupta e indefinidamente. O forFrança de 1240 a 1250; época da rainha-mãe Branca de mato do objeto nunca se altera, não havendo, assim, uma Castela; no reino de Aragão em 1263; no reinado de Ferevolução na técnica. A composição do design formal e os lipe, o Belo, de 1299 a 1309; em Cremona e em outros textos propriamente ditos não se alteram, o processo de reinos italianos em 1569; em Veneza e em Creta nos anos construção material é peculiar a uma substância e a uma 1500; no Império de Maximiliano em 1514; em Podólia

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forma. O que o sofer faz, a cópia exata e fidedigna dos pergaminhos, é de natureza diferente do que os copistas e escribas fizeram ao longo da história do livro dito ocidental; neste caso há versões diferentes de palavras e sentenças – mesmo em virtude da evolução da língua – alterações textuais, inserção de epílogo e prólogo, etc. Há milhares de gerações, os soferim copiam, meticulosa e ortodoxamente, os rolos da Torá, escritos por outros soferim, evitando incorrer em erros ou em simples alterações nas letras, em sua forma, pontos ou coroas situadas acima delas. Ben Sira, no Eclesiástico 39, 1-11, elogia o trabalho do sofer: Diferente é aquele que aplica a sua alma, o que medita na lei do Altíssimo. Ele investiga a sabedoria de todos os antigos, ocupa-se das profecias. Conserva as narrações dos homens célebres, penetra na sutileza das parábolas. Investiga o sentido obscuro dos provérbios, deleita-se com os segredos das parábolas. Presta serviços no meio dos grandes e é visto diante dos que governam. [...] Muitos louvarão a sua inteligência e jamais será esquecido. Sua lembrança não se apagará, seu nome viverá de geração em geração. As nações proclamarão a sua sabedoria e a assembleia proclamará os seus louvores. Se vive muito, seu nome será mais glorioso do que mil outros, e, se morre, isto lhe basta. Assim, o judaísmo consolida a experiência dos escribas hebreus e a sabedoria das narrações antigas. A Torá é a principal referência do povo judeu. De acordo com a tra-

dição milenar judaica, deve haver um lugar separado, portanto, sagrado, para a escrita, a leitura, o aprendizado e o ensinamento da Torá. E até para o seu descarte. Segundo a Ética dos Pais (ou Pirkei Avot), nono tratado da Mishná, “Moshê recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu a Yehoshua; Yehoshua aos Anciãos; os Anciãos aos profetas; e os Profetas transmitiram-na aos Homens da Grande Assembleia”.10 A crença religiosa é de que Moisés transcreveu sobre o pergaminho o que Deus teria lhe dito. Daí então surgiria o primeiro rolo da Torá. Em seguida Moisés teria escrito outros doze rolos para que fossem entregues aos líderes de cada uma das doze tribos.11 Mesmo que a tradição deixe espaço para interpretações, mesmo que no Talmude haja discussões entre rabinos a respeito da autoria da parte final do Pentateuco, pela perspectiva religiosa Deus é o primeiro escritor da história, e de gêneros mistos, e teria ditado a Moisés, seu copista.12 Assim a criatura, Moisés, se torna porta-voz do sagrado que o transcende e transcende o seu texto. A criatura se torna criador tanto do texto quanto do livro. O capítulo 1, versículo 26, do Gênesis, primeiro livro do Pentateuco, trata, dentre outros temas, da origem do homem, e corrobora com essa ideia: E disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem segundo a nossa semelhança; e domine sobre o peixe do mar, e sobre a ave dos céus, e sobre o quadrúpede e em toda a terra, e em todo réptil que se arrasta sobre a terra!13”

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6 Mishná, p. 64. Segundo Leland Riken, a Bíblia apreSegundo Leland Riken, 7 Guinsburg, Nova e velha pátria, p. 376-377. senta uma experiência de criação e per8 Guinsburg, Nova e velha pátria, p. 374. a Bíblia apresenta uma cepção de imagens dentro de nós, e po9 Rabin, Pequena história da língua hebraica; Rabin, Ressurgiexperiência de criação mento da língua hebraica. de-se visualizar e experimentar os abun10 Talmud Avot 1:1. e percepção de imagens dantes episódios narrados através dos sen11 Kitov, Livro do Conhecimento Judaico, p. 543-545. tidos. Tradicionalmente há uma preocudentro de nós, e pode-se 12 Está escrito em Êxodo, 31:18, a respeito da entrega das tábuas da lei a Moisés: “E deu a Moisés, ao acabar de falar pação maior com questões hermenêuticas visualizar e experimentar com ele, no monte Sinai, duas tábuas de testemunho, tárelacionadas a interpretação do que com buas de pedra, escritas com o dedo de Deus” (Melamed, os abundantes Torá, p. 156). Está em Deuteronômio, 10:1-5: §1) Naquequestões técnicas de descrição do texto. le tempo disse-me o Eterno: Talha para ti duas tábuas de episódios narrados Com a tradição judaica, há uma espedra, como as primeiras, e sobe a Mim ao monte, e farás para ti uma arca de madeira. 2) E escreverei nas tábuas as através dos sentidos. pécie de “instrução de escrita e de leitupalavras que estavam nas primeiras tábuas que quebraste, ra” que traz para o jogo da escrita/leitue as porás na arca. 3) E fiz uma arca de madeira de cipresra elementos de cunho sagrado, divino, e elementos encite e talhei duas tábuas de pedra como as primeiras, e subi ao monte com as duas tábuas em minha mão. 4) E escreveu sobre as tábuas como a primeira escritura, os clopédicos normativos. A Torá está sob o cuidado de nordez pronunciamentos que vos falou o Eterno no monte, no meio do fogo, no dia mas religiosas e se configura como o elemento principal da congregação, e as deu o Eterno a mim. 5) E virei-me e desci do monte, e pus as tábuas na arca que eu havia feito; e ali estiveram como me ordenou o Eterno” do jogo simulador em que sutilmente controla não ape(Melamed, Torá, p. 323-324). nas a recepção da obra como todas as instâncias da vida 13 Melamed, Torá, p. 14. cotidiana. A instrução da escrita serve ao sofer e a instru14 Unesco, O Correio da Unesco, p. 34. ção da leitura ao leitor. Referências Bibliográficas A Torá serve como ponte entre o passado e o presente. O crítico Jorge Enrique Adoum, em Juventude Milenar Guinsburg, Jacob. Nova e velha pátria. São Paulo: Perspectiva, 1966. do Livro (1972), mostrou que na Assíria as tábuas de barKitov, Eliahu. Livro do conhecimento judaico: o ano hebreu e seus dias sigro com inscrições que não mais interessassem eram utilizanificativos. Editora Sêfer, 2017. Melamed, Rabino Meir Matzliah. Torá: a lei de Moisés. São Paulo, Temdas para pavimentar as ruas.14 E hoje, em todo o mundo, po Israelita Brasileiro: 1996. livros considerados velhos ou de pouco valor são jogados Mishná, Essência do Judaísmo Talmúdico. Trad. Marisa Murrag, Marly no lixo ou queimados. Isso torna os manuscritos hebraiDroge, Sílvia Morgenstern e Théa Sequerra. Rio de Janeiro: Editocos tão simbólicos para a história, a memória e a cultura. ra Documentário, 1973. Polastron, Lucien X. Livros em chamas: a história da destruição sem fim A liturgia judaica protege o sentido do pergaminho. das bibliotecas. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013. Este é o caso da Torá, obra lida em público, em rito reliRabin, Chaim. Pequena história da língua hebraica. Sociedade das Ciêngioso, que permanece em seu formato dito original, com cias Antigas, 1973. lugar central na metafísica judaica. O conjunto de manus______ et al. Ressurgimento da língua hebraica. Bnai Brith, 1970. Ryken, Leland. How to read the Bible as literature. Zondervan, 1984. critos é da ordem do maravilhoso, apresentado aos fiéis em Scholem, Gershom. As grandes correntes da mística judaica. Trad. Dora um espetáculo que vai além das vestimentas e dos gestos Ruhman, Fany Kon, Jeanete Meireles e Renato Mezan. São Paulo: religiosos e misteriosos. A Torá representa assim a persisPerspectiva, 1972. Unesco. “A Juventude milenar do livro”. In: O Correio da Unesco. Rio tência do pergaminho na cultura humana.

de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, dez. 1972.

Notas 1 Scholem, As grandes correntes da mística judaica, p. 15. 2 Sefer HaMitsvot Asin n. 18 em Sefer HaChinuch n. 613. 3 “Mitsvá: Mandamento; preceito religioso; são chamados também de ‘mitsvot’, os atos de; Abrir as portas da arca na sinagoga [petihá]; por os ‘rimonim’ sobre as varas superiores do rolo da Torah; levar o rolo da Torah ao estrado e devolvê-lo à arca sagrada [olahat sefer Torah]; segurar o rolo da Torah [etzhaim] enquanto um outro tira a capa que envolve o rolo e desamarra ou amarra a faixa etc. [Guelilá]; alçar o rolo da Torah e mostrar a Escritura Sagrada à assembleia dos crentes [Hacamat Sefer Torah]” (Melamed, Torá, p. 477). 4 Dt 31:19. 5 Shulchan Aruch YD 271:1.

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Juliano Klevanskis Candido é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários (PósLit) da Faculdade de Letras (Fale) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), bolsista da Capes e pesquisador do Núcleo de Estudos Judaicos (NEJ) da UFMG. É membro da Comissão Cultural do Instituto Histórico Israelita Mineiro (IHIM), professor de hebraico e escritor. Publicou a coletânea de contos Novos fármacos & outras histórias (Scriptum, 2019).


O PODER CARISMÁTICO DO JUDAÍSMO

Abraham Munoz Bravo e Andres Boaz Munoz Mosquera Enquanto a inércia da História procurava reduzi-la às cinzas do passado e, portanto, ao esquecimento, a “civilização” judaica se elevou como um monumento carismático para o futuro.

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través de uma história multicultural, multiétnica e internacional, o povo judeu conseguiu sobreviver graças à sua essência evolutiva, embora ancorado em princípios morais básicos. Essa seria a chave para a mobilidade de sua ideologia e moralidade. Assim, ao longo dos anos, o povo judeu desenvolveu parâmetros sociais que o tornou “intelectualmente móvel” e, portanto, resiliente à dialética histórica de supressão de povos, culturas e civilizações, por conta da “sede” de novidades históricas e, apesar disso, ele continuou a manter lealdade à sua tradição. Enquanto a inércia da História procurava reduzi-la às cinzas do passado e, portanto, ao esquecimento, a “civilização” judaica se elevou como um monumento carismático para o futuro. Dentro da evolução histórica devoradora em que os judeus estiveram imersos, eles ainda puderam caminhar e respirar graças à adaptabilidade natural do espírito judaico. Sua sobrevivência, portanto, sempre deve começar a ser examinada a partir de uma abordagem filosófica e sociológica, na qual elementos éticos persistentes culminam na inspiração recorrente dos líderes comunitários de todas as épocas. Metafisicamente falando, uma dialética com princípio, oposição e novidade parece ecoar a aparente linearidade da história como um fenômeno temporal – como poderíamos entender a sobrevivência “incomum” dos judeus, de sua civilização, ao longo da história? Sob um plexo conceitual ético-filosófico e suas ramificações culturais? E, no caso de os judeus serem uma exceção antropológica, que exceções os judeus incorporam como entidade histórica? Moisés, Josué e os juízes foram a gênese da dialética histórica judaica – do

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carisma do judaísmo, de sua mobilidade intelectual; e David e Salomão são aqueles que lhe dão forma poética – não apenas lírica, mas dramática e épica. Essa gênese, teoricamente, termina com as três guerras entre Israel e os assírios, as três guerras entre Judá e Babilônia, que é precedida por uma guerra civil entre Israel e Judá, que “finalmente” derrota o povo judeu como um projeto ético. Assim, poderíamos pensar que a teoria historiográfica se alinha à realidade histórica, uma vez que as dez tribos de Israel nunca mais foram vistas na História e a população de Judá foi exilada na Babilônia. No entanto, as aparências não são a realidade, pois algo acontece entre a derrota de Israel em 722 aec e a derrota de Judá em 586 aec que dispara uma tendência incontrolável na dialética judaica histórica, que dá vigor a uma tendência de valor moral e que impulsiona o carisma e a mobilidade. Essa tendência moral planta elementos seminais transformadores, talvez reformadores, que, no devido tempo, germinarão repetidamente permitindo que os princípios morais “revelados” ao povo judeu continuem sendo a inspiração de uma autoconsciência histórica. Isso criaria uma resistência invisível à inércia fagocítica da História e, ao mesmo tempo, um selo de au-

tenticidade e funcionalidade para a sobrevivência do povo judeu nesta História. Para isso, faremos uma breve análise em cinco partes. Primeiro, em 638 aec, o rei Josias reconhece a necessidade de uma nova legislação social; uma reforma religiosa, moral e legal – o espírito judaico exigia uma melhor distribuição da riqueza econômica, a destruição de ídolos, a proibição de cultos a Baal e Astarte, o estabelecimento de uma lei de direitos sociais, etc. O rei Josias aplicou essa série de regulamentos proclamando a descoberta de um livro escrito por Moisés e por ordem do próprio Deus, Devarim / Deuteronômio, que veio catalisar um poder, uma autoridade de natureza carismática. O sociólogo alemão Max Weber definiu o poder carismático como uma das três formas de autoridade, as outras duas sendo tradicionais ou costumeiras e legais ou racionais. O judaísmo abrangeu tudo e devemos apreciá-lo na forma de um símbolo poético de tal magnitude qualitativa, que, consequentemente, “forçou“ Israel a, motu proprio, obedecer à autoridade do livro a ponto de criar um ideal superior capaz de superar qualquer medo de ameaças físicas. Por sua vez, as ideias poéticas de pregação, patriótica, moralista, de homens de

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estado e de justiça social dos Profetas definiram e formalizaram esses princípios judaicos, fazendo com que, após a destruição do Primeiro Templo, os exilados da Babilônia fizessem transcender a imagem (o ritual) à palavra (a emuná – no sentido da fé). Após a destruição do Segundo Templo, o ventre da nova moralidade judaica foram as sinagogas que, dedicadas ao estudo e ao raciocínio, substituíram os sacrifícios por orações a Deus. Esse renascimen-

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to não procurou tempo e lugar, apenas aconteceu, como resultado do amadurecimento espiritual do povo judeu, mas com valores universalmente aplicáveis ​​devido à necessidade ético-política imperativa de que as pessoas necessitam para serem resilientes na história humana. Dimont afirma que “[a] religião judaica ... tornou-se uma mercadoria exportável, resistente e invisível”, mas o que acabamos de traçar neste parágrafo é apenas o começo do pro-


gresso catalítico da moralidade judaica. a pelo menos permitir o estabelecimenApós a destruição do Segundo, os reis Nehemias e Esdras Segundo Templo, o ventre to de uma academia judaica em Yavne, a lideraram outra transformação crucial noroeste de Jerusalém. Ele e seus discípuda nova moralidade para o retorno dos judeus da Babilônia: los formularam “leis e jurisprudência” por judaica foram as proibiram casamentos mistos para evitar meio das responsabilidades, a fim de atena assimilação e incluíram Devarim / Deusinagogas que, dedicadas der às necessidades da miríade de comuteronômio de Josias como parte dos cinco ao estudo e ao raciocínio, nidades espalhadas entre as nações. O que livros de Moisés, do Chumash, que, por substituíram os sacrifícios a escola Ben Zakai tinha para que sua ausua vez, se tornou divino e sem a possibitoridade fosse reconhecida, apesar de não por orações a Deus. lidade de correção. Esta última fonte de ter aparente poder político para executar energia-chave e inesgotável para a contío conteúdo regulatório de cada responnua discussão judaica sobre a divindade e sua natureza. O sum? – O «poder carismático” judaico, inspirado na Lei resultado, independentemente de sua divindade ou não, é de Moisés, era suficiente para que esse conteúdo fosse abque oitocentos anos após a morte de Moisés haviam consorvido pelas comunidades judaicas na diáspora. Esse corsolidado a “judaidade do judeu” – sua essência intelectual pus legis permitiu aos judeus florescer na diáspora e “renasque era carismática e móvel – e um novo sistema de desencer” a civilização judaica. Os Zuguim e os Tanaim revivevolvimento e evolução de princípios morais, tornando-se ram a Torá com sua análise que Yeuda HaNassi codifica na “bens normais” sociais e universais. Mishná, que se “completa” pela Guemará e pelo Talmud Terceiro, a tradução grega dos cinco livros deu uma que nascem desta sem deixar jamais de olhar para a Torá. A nova volta simbiótica ao judaísmo. O filósofo judeu PhiMishná foi desenvolvida usando o método da razão grega lo contrastou a essência da religião judaica, como prática, para explicar a revelação judaica, para trazer a prática das com a essência intelectual da filosofia grega e explicou a mitsvot da Torá para a realidade cotidiana e tem como obrevelação judaica sob um prisma neoplatônico. Deus injetivo cobrir todos os aspectos da vida humana. A Mishná fluenciou o mundo através de logotipos, isto é, a palavra. A serve como um exemplo para decisões futuras e, mais im“Fonte Divina” da alma humana permite aos homens deportante, demonstra que as leis da Torá têm uma aplicação cifrar a natureza da divindade através do espírito de profeprática. Isso foi fundamental após a destruição do Seguncia ou através da meditação mística interna. A Torá havia do Templo. A Mishná não é o desenvolvimento de novas se tornado a “linha direta” com Deus, e o Judaísmo o insleis, mas a coleção de tradições existentes. Para fazer isso, trumento para alcançar a perfeição moral, dentro da socieos judeus aplicaram o pensamento platônico, a lógica arisdade, pesquisando a Torá por novos significados das múltotélica e a ciência euclidiana ao seu modo de raciocinar tiplas realidades contemporâneas, do presente, que às vesobre a divindade e a vida cotidiana humana. zes seria implacável com o ser humano. Tudo isso através Novamente, isso deu novas perspectivas para a interda contínua “batalha” entre a hermenêutica geracional e pretação da Torá, enraizando ainda mais o caráter evolutia literalidade imóvel do texto dos cinco livros. Essa busca vo judaico. A passagem da lei oral para textos escritos cone crítica contínua mantiveram a religião judaica moderna tribuiu para criar uma estrutura invisível para a governanatualizada e afastaram-na de qualquer moralidade escrava ça do homem e enraizar o mencionado “poder carismáti“nietzscheriana”; isso é especialmente visível nos movimenco” e serviu como um instrumento interpretativo para a tos Reformista e Conservador. Talvez isso contribua para o sobrevivência dos judeus por mil e quinhentos anos, injefato de explicar que as leis judaicas, Halachá, são normas tando Deus nas atividades diárias, expandindo os interesevolutivas baseadas em princípios funcionais baseados na ses dos judeus para o raciocínio científico e teórico e criandignidade humana e na defesa do nome de Deus. do o judeu como um indivíduo universalmente adaptável Quarto, após a destruição de Jerusalém pelo Império e com princípios capazes de serem usados ​​pelas nações, Romano, os judeus foram viver na diáspora e o judaísdestacando sua mobilidade e transcendentalidade tempomo continuou sua evolução no exterior de Israel. O Rabiral e geográfica. Contudo, pouco a pouco, se referenciava no Yochanan ben Zakai convenceu o imperador romano mais ao Talmud do que à Torá, e isto tornou-se uma ca-

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misa de força para as ideias universais do continuamente, que direcionam os pasTikun Olam e emuná judaísmo, para sua mobilidade, limitando sos para que as ações de Tikun Olam tecomo ferramentas reais seu espírito evolutivo. Os karaitas rejeitanham emuná – entendidas como confiane tangíveis servem para ram a autoridade do Talmud e seu desafio ça e não fé. Tikun Olam e emuná como fez com que o judaísmo, mais uma vez, se aplicar os valores judaicos ferramentas reais e tangíveis que servem reinventasse, encontrando maneiras de se para aplicar os valores judaicos inspirainspirados por Deus de redefinir através do desenvolvimento de maneira prática e humana dos por Deus de maneira prática e humidrashim, códigos, comentários, melhomana no mundo, a fim de iluminar a suno mundo, a fim de rias gramaticais hebraicas e em tornar a blime jornada de revelação contínua atrailuminar a sublime jornada Torá mais acessível, assim como interprevés da vida cotidiana, desde o mundano, de revelação contínua tar as leis de uma maneira menos literal das manifestações diárias, uma maneira e com uma hermenêutica mais humana. através da vida cotidiana. de adicionar essa rotina diária dos dias da Quinto. A Haskalá, ou “Iluminismo semana ao santo – mossif mechol al haKoJudaico”, foi um movimento intelectual na Europa (1770desh – e, é claro, da busca incansável da justiça social, in1880) inspirado no Iluminismo Ocidental, mas com um dependentemente de quando ou onde, mas sendo implacaráter judaico baseado na racionalidade, que incentivou cável ao desânimo. Tudo isso lembrando ao Rabino Taros judeus a estudar assuntos seculares, a aprender línguas, fon sobre nossa temporalidade e a obrigação que temos de ingressar em outras profissões manuais e liberais e fazer fazer boas obras e obras, que sempre podem transcender: parte dos meios produtivos modernos e industriais. A acu“Você não é obrigado a concluir a tarefa, mas também não mulação do exposto levou o “poder carismático” a alimené livre de desistir” (Pirkei Avot 2: 21). tar o povo judeu mais uma vez e torná-lo um crítico social Buber insistiu que os judeus alemães assimilados não e instigador da justiça social com base no conceito amplo precisavam se tornar alemães para serem modernos, pois e “revolucionário” de Tikun Olam. Isso provocou a reafirser judeu era uma maneira de ser moderno, um sinal de mação da mobilidade histórica dos “princípios judaicos” e modernidade moral e social. Seguindo a lógica buberiana, mais ainda da cultura judaica, de seu universalismo; o que, as leis judaicas seriam modernas, pois conteriam princípios no entanto, finalmente não foi suficiente para parar os moevolutivos intrínsecos, embora seja nosso trabalho, às vezes vimentos antissemitas, que resultaram na Shoá. difícil, mantê-lo vivo destacando seus elementos de moAs leis de Abraão, Moisés, Josias, Esdras e Nehemias, dernidade, buscando sua ética e moral, esse “poder carisBen Zakai e o Talmud, bem como a posição crítica dos kamático” e “mobilidade intelectual”. Isso com o nosso traraitas, os rishonim e as luzes de Haskalá, a Shoá, o Estabalho de escrutínio e pesquisa, em resumo, do estudo indido de Israel e as experiências da diáspora criaram normas vidual e comunitário dessas leis que eventualmente só pouniversais móveis que destacam a moralidade e a justiça, dem nos levar à compreensão e aplicação de uma maneira bem como a ética, para preservar não apenas judeus como evolutiva e transcomunitária com uma vocação universal. judeus, mas também a humanidade através da promoção Abraham Munoz Bravo é estudante de filosofia na Universidade contínua da justiça social, ou seja, um continuum de comde Tel Aviv (TAU) e autor de El Granizdo del Caique. Ele recebeu o plementaridade de mishpat e tsedaká. O “poder carismátiprêmio Serge Lazareff por seu trabalho em Lawfare. co” dessas normas inspira o povo judeu a vaguear por uma história fagocítica de culturas e civilizações e desde sempre, Andres Boaz Munoz Mosquera é advogado, ex-aluno da Facule também agora, a fazer outros povos e civilizações aplicádade de Direito e Diplomacia Fletcher (Universidade Tufts) e do se-las, consciente ou inconscientemente. Tudo o que foi exminário Beutel do Hebrew Union College (HUC). Atualmente, ele é posto acima mostra que o padrão bem-sucedido da mobiestudante rabínico do Instituto Ibero-Americano de Formação Ralidade judaica repousa no contínuo ressurgimento da étibínica Reformista (IIFRR). ca dos patriarcas judaicos, na justiça social dos profetas e na moralidade e ética da Torá. Essas são as ideias transforTraduzido do espanhol por Raul Cesar Gottlieb. madoras e reformadoras que devemos lembrar e praticar

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Formando rabinos/as na América Latina para a América Latina Estude sem sair de sua comunidade

O IIFRR faz uso do potencial da moderna tecnologia de ensino à distância, combinando seminários semestrais de inserção com estudo diário remoto. Junte-se aos mais de 20 estudantes que iniciariam sua formação em 2018 e que serão nossos futuros rabinos/as e líderes comunitários. As inscrições estão abertas para os que iniciarão sua formação em 2019. info@institutorabinico.org +54 11 4781 4070

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textos do iifrr

O HUMOR NAS FONTES Milta Dedbichuta – Como um coração alegre é mais predisposto a aprender, debater e entender

Edy Huberman Segundo Eliahu Toker, o humor judaico é “um humor pluralista, que desconsidera as verdades absolutas, que ri afetuosamente das próprias fraquezas e medos, de Deus e até das nossas próprias mães. É o humor de um povo desobediente que mostra... sua cativante e teimosa aptidão para a alegria”.

“Assim fazia Raba: antes de começar o estudo, ele dizia algumas palavras de humor para animar os corações de seus alunos.” – Talmud Bavli, Masechet Shabat 30b

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ode ser que eu tenha uma visão tendenciosa e subjetiva da realidade, mas para mim não há nada mais sério do que humor. O riso – espontâneo, sincero – nos permite focar no mundo em que vivemos de uma perspectiva mais saudável. O gatilho do riso é o inesperado, o que sai da ordem antecipada, que muda o ponto a partir do qual observamos a realidade. E cada um desses pontos foi, ao longo da história, uma parte essencial da vida judaica. Associar o humor exclusivamente ao ligeiro e ao superficial pode ser um dos piores erros que cometemos, sobretudo quando tentamos dissociá-lo do estudo e da total compreensão dos marcos que compõem nossa história e tradição. Aflora então a questão: existe o que chamamos de “humor judaico” ou ele é simplesmente uma construção teórica? E, se realmente existe, faz parte de nossa tradição, nos acompanhou desde nossas origens como povo ou é uma invenção da modernidade? Em geral, acreditamos que o humor judaico é a maneira que encontramos como coletivo para enfrentar os desafios nada pequenos que a história nos impôs. Uma espécie de escudo de defesa que nos permitiu passar séculos e séculos de segregação, perseguições e massacres. Mas eu entendo o “humor judaico” não apenas como um conceito que devemos desconstruir para entender,

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textos do iifrr mas também como um extenso territógria, é aceito. A zombaria, a risada desdeO Talmud nos diz que é rio atemporal em que habitamos desde as preciso ser alegre antes nhosa e dolorosa, não. A partir daqui enpróprias origens de nosso povo. Este é um tendemos que o humor como desculpa de começar a estudar território no qual, sendo nômades, podepara humilhar o outro não é humor, mas, um assunto de halachá mos nos estabelecer permanentemente. simplesmente, violência disfarçada. 1 Segundo Eliahu Toker , o humor juO riso marca o nome do nosso see acrescenta que é daico é “um humor pluralista, que desgundo patriarca “Itschac”7. Um nome na preciso também ser considera as verdades absolutas, que ri alegre antes de ir dormir, Torá é transcendental, denota a essência de quem o usa. E somos filhos e herdeiros afetuosamente das próprias fraquezas para ter bons sonhos. daquele homem cuja essência primária é o e medos, de Deus e até das nossas próriso antes mesmo de sua concepção. prias mães. É o humor de um povo deEm Bereshit, Deus diz a Abraão que ele confirmará a sobediente que mostra... sua cativante e teimosa aptidão aliança perpétua com ele e com seus filhos. Podemos, enpara a alegria”. tão, dizer que, por analogia, o humor e o riso são parte irQuando falamos de humor judaico, geralmente redurevogável dessa mesma aliança. zimos nosso horizonte a comediantes judeus americanos Essa risada inicial, primária e natural não é a única pre– a base da comédia stand-up –, ao humor israelense – sente no Tanach. duro, sarcástico, com um alto nível de crítica social e poEm Tehilim / Salmos8 lemos que na era messiânica “... lítica –, e às diferentes expressões locais do humor judainossa boca ficará cheia de riso e nossa língua de alegria” co latino-americano. e também algo que era e ainda é um modo de encarar a No máximo, voltamos ao final do século 19 e início do vida: “Aqueles que semeiam em lágrimas eles colherão com século 20, ao humor do teatro ídiche, a Sholem Aleichem2, 3 às histórias de Chelm ... Mas existe um humor judaico que alegria ...” nos acompanha desde nossas origens? E, além disso, qual E como a alegria e o humor não se incomodam com é a relação de nossas fontes com o humor? gênero, em “Eshet Chail”9, a mulher virtuosa diz “Vá tis4 choc leiom haacharon” / “E ria até o último dia”. Há quem Rebe Nachman de Breslav disse que a ciência descreve o exterior de um fenômeno, enquanto que a Torá descreve entenda que este “último dia” corresponde ao da chegaseu interior. Então, o que a Torá diz sobre o riso? da do Mashiach, daí podemos interpretar que o riso tamVamos pensar nas origens e bases do humor no judaísbém será um preâmbulo à sua chegada. Outros interpremo. O riso é uma maneira de desafiar e questionar a realitam que se refere ao último dia de sua vida e, então, esdade, de se abstrair do concreto e nos dar uma plataforma tes entendem que o riso assusta, até o medo da morte (ou diferente para olhar, analisar e entender o mundo. “malach hamavet”, o anjo da morte). Na dúvida, fico com Somos essencialmente questionadores. Nossa história, as duas interpretações: o riso, assustando o medo e perminossas fontes e nossos sábios – cada um a seu tempo – detindo-nos enfrentar o incerto, o desconhecido e o assussafiaram ao subverter a ordem imposta e ao renovar o pretador com maior segurança e integridade é, consequenteconcebido, a força motriz da ordem. O judaísmo, como mente, um preâmbulo de tempos melhores. tal, desenvolveu, transformou e adaptou suas práticas e Mas o que acontece quando todos esses textos são masuas leis para se adaptar às realidades em mudança pelas terial de estudo? Existe uma contradição entre o texto em quais teve que passar. si e sua interpretação? Devemos encarar o estudo de texO riso, sem dúvida, faz parte da nossa história a partir tos apenas com sobriedade e solenidade? Por acaso o riso desta mesma origem. diminui sua identidade? Abraão e Sara riem das notícias de um filho. Um, Para tentar esboçar uma resposta, trago a fonte que, 5 6 Abraão, com alegria , e o outro, Sara, com escárnio . A devido ao agradável impacto que gerou em minha leitura, reação divina a ambos é diferente: o riso de Abraão é bemusei como título deste texto. No tratado do Talmud, Sha-vindo, mas não o de Sara. bat 30b, se discute exatamente este tema e se usa como O riso franco, saudável, que é a expressão de uma aleexemplo Rabá, um dos grandes sábios da era talmúdica10.

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É assim que Rabá, o estudioso, costumava, antes de começar a ensinar seus alunos, fazer uma “Milta Debdichuta”, um comentário humorístico e, continua o Talmud, “ubdichei Rabanán”. Podemos traduzir isso como “os sábios (seus alunos) se alegram”, mas Rashi11 explica como “ele abria seus corações com o calor da alegria”. Na mesma página, o Talmud nos diz que é preciso ser alegre antes de começar a estudar um assunto de halachá12 e acrescenta que é preciso também ser alegre antes de ir dormir, para ter bons sonhos. É bem conhecida a citação de Rav Ilai que diz: “O homem é conhecido por três coisas: seu copo, seu bolso e sua raiva”13. Contudo, geralmente esquecemos o fechamento da citação “e [Rav Ilai] acrescentou: e também por sua risada”. Ou seja, já naqueles tempos era importante saber do que uma pessoa estava rindo para entender seu caráter. Além dos comentários pontuais, é um prazer perceber o humor, a ironia e o sarcasmo com que nossos Sábios renovaram o Judaísmo após a destruição do Templo. Nesse ponto, especificamente, há uma enorme diferença em nossa percepção de estudo e ritual. Em geral, as-

sociamos estas atividades à formalidade, seriedade e circunspecta sobriedade. Geralmente assumimos que o espaço destinado ao humor deve ser mantido fora dos limites da religião. Contudo, no judaísmo, esses limites quase nunca existiram. Vemos isto mais claramente ao analisar a perspectiva de outras religiões. Todos nos lembramos de O nome da Rosa14, onde tudo o que acontece naquela abadia do século 14 é motivado pelo medo ou pela demonização do riso. Para o bibliotecário da abadia, Jorge de Burgos15, o riso é tomado como um elemento subversivo que, como força de libertação, viola o poder de Deus. Em um ambiente rígido, totalitário e extremamente dogmático, não há lugar para o riso, não há espaço para o humor como elemento básico do questionamento, muito menos em sua função primária como ferramenta de libertação. É muito claro no texto escrito por Eco e colocado na boca do monge bibliotecário: “O aldeão que ri, enquanto ri não se importa com a morte, mas depois que sua licença termina a liturgia impõe novamente, de acordo com o design divino,

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o medo da morte”. Que terrível! A dominação e o controle do indivíduo, do litúrgico, para impor novamente o medo. O humor e o riso são, na realidade, a expressão pública de um tema mais amplo: a busca constante da alegria. E aqueles que, antes mesmo da era pós-iluminista de humor ídiche, fizeram da alegria ritualística um modo de vida, foram os chassidim. A revolução chassídica colocou a alegria entre os principais valores judaicos. Entenderam o serviço a Deus como uma fonte de alegria e não como um fardo. Essa é precisamente uma de suas maiores realizações e o meio mais contundente que usaram para difundir suas ideias. A alegria, como tal, não é reservada para o mundo vindouro, ela é uma parte fundamental do nosso trânsito por esta vida e por este mundo. Rebe Nachman de Breslav explicou: “As pessoas ficam tristes porque nada está indo bem, mas não percebem que nada está indo bem porque estão tristes!” Por sua parte, o Rebe de Kotzk16 explica: “A beleza da alegria é que ela tem o poder de separar o homem de todos os tipos de problemas”. Nesse sentido, é notável o humor dos ditos, sentenças e até das maldições do judaísmo da Europa Oriental. E, nesse sentido, quero citar a Baal Shem Tov17, que disse: “Humor é aquela coisa que guia a mente de uma pes-

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soa de um lugar de consciência estreita para um lugar de consciência ampla”. E se Baal Shem Tov disse isso, quem sou eu para negar? Essa mesma consciência ampliada, essa percepção do mundo além dos limites da minha própria existência, e até do tangível, é o que nos permite ter abstração suficiente para transformar o humor, o riso e a alegria em uma ferramenta transmissora da cultura e tradição. Somos um povo amplo, diversificado, respeitoso e, às vezes, questionador de pessoas de nossas próprias leis e costumes. Saber rir de quem somos, do que fazemos, das circunstâncias pelas quais estamos passando “dos eventos únicos em que estamos envolvidos ... e de como nos desenvolvemos”18 e até nossos erros, contradições e anacronismos fazem parte da nossa identidade. É o ethos19 judeu por excelência. Ainda há muito a dizer e analisar: o humor no mundo sefardita, na Espanha da Inquisição, os personagens integrados na cultura árabe, o humor pós-iluminista, o humor durante o Shoá (por mais estranho que pareça, sim havia!), o humor judeu americano (em toda a extensão do termo), o “humor científico”, personificado em Albert Einstein e Isaac Asimov e, é claro, o humor israelense ácido, pican-


textos do iifrr te e politicamente incorreto. Mas isto será para uma ocasião posterior. O que posso desejar, então, para nós todos? Que possamos nos dar a oportunidade de encontrar humor, alegria e riso para entender nosso judaísmo a partir de uma perspectiva atual, conectada com nossas raízes, a partir de um lugar de consciência ampliada. Como diriam nossos sábios, este artigo está terminado, mas não fechado.

Notas 1 Eliahu Toker (1934-2010): escritor, arquiteto e docente argentino. Cultor da literatura ídiche, sua obra literária foca quase que exclusivamente na vida judaica argentina, enfatizando a cultura idichista. Muitos de seus livros se referem ao humor como um elemento essencial da cultura judaica. 2 Scholem Aleichem (Sholem Yakov Nochumovich Rabinovich, nascido em Pereiaslav, Ucrânia, Império Russo, 2 de março de 1859 e falecido em Nova York, Estados Unidos, 13 de maio de 1916) foi um humorista judeu russo popular e escritor de literatura em ídiche, incluindo romances, contos e peças teatrais. Ele promoveu vários escritores e foi o primeiro a escrever histórias infantis em ídiche. Suas obras têm sido amplamente traduzidas. O musical “O violinista no telhado” (1964), baseado nos contos sobre o personagem Tevye, o leiteiro, foi a primeira peça comercialmente bem-sucedida que tratou da vida de um trabalhador judeu da Europa Oriental. Ela se tornou um ícone do teatro musical. 3  Contos de Chelm: livro de Isaac Bashevis Singer, escritor polonês judeu, Prêmio Nobel de Literatura em 1978. O livro é um compêndio de histórias de humor do mundo judaico da Europa Oriental, desenhado com a caneta impecável de seu autor. No mundo sefardita, há um paralelo que é a vila de “Maqueda”. Em ambos, se exacerbam as características do “tolo” não mais restritas a um personagem, e sim ao povo como um todo. 4 Rebe Nachman de Breslav, chassídico e cabalista nascido na Ucrânia em 1772, seguidor e pilar do movimento chassídico bisneto do Rabi Israel Baal Shem Tov. É conhecido por focar grande parte de seus ensinamentos na alegria. 5 Bereshit / Gênesis 17:17: Abraão se curvou com o rosto no chão e riu, pensando: “Pode uma criança nascer de um homem de 100 anos? Pode Sara, aos 90 anos, gerar uma criança? 6 Bereshit / Gênesis 18:12: Assim sendo Sara riu intimamente, pensando: “Agora que estou murcha terei eu prazer com meu senhor tão velho”. Bereshit / Gênesis 18:15: Então Sara negou isso, pois estava com medo, e disse: “Eu não ri”; mas [Deus] disse: “Ah, você riu sim!” 7 Itschac, que dizer “rirá” 8 Tehilim / Salmos 126 9 Eshet Chail, a mulher virtuosa, final do Livro Mishlei / Provérbios. O poema descreve a mulher ideal e foi composto pelo rei Salomão, segundo os exegetas ele foi inspirado por sua mãe, Bat Sheva. 10 Raba bar Nahmani: conhecido no Talmude simplesmente como Rabá. Ele era um amorá (um dos sábios compiladores que viveram aproximadamente entre os anos 200 a 500 da era comum, cujas discussões e debates foram canonizados na Guemará) que morava na Babilônia. Rabá era aluno de Rav Huna em Sura e de Judá bar Ezequiel em Pumbedita. Era um grande estudioso, conhecido por sua capacidade de discutir textos, resolver contradições e encontrar aplicações, o que lhe deu o apelido de oker harim (cortador de montanhas), pois seus estudos mostram o poder daqueles que erguem montanhas e esfarela-as uma contra a outra. Ele era um professor excepcional e costumava iniciar cada conferência com uma piada ou anedota engraçada, para que seus alunos estivessem de bom humor. 11 Rashi é o acrônimo para Rabi Shlomo Itschaki. Ele era um judeu francês sábio, nascido e morto em Troyes, França (1040-1105). Rashi é considerado o mais elevado comentarista da Bíblia e do Talmude, e também como um dos maiores

estudiosos e legisladores nas questões da halachá (lei judaica), além de especialista na língua hebraica. 12 De acordo com Rashi você deve proferir um comentário bem-humorado ao iniciar o estudo. 13 Tratado Eruvin 65b. Em hebraico, copo, bolso e raiva (denotando a forma como se alimenta, a forma como usa seu dinheiro e a forma como se controla) são palavras de sonoridade semelhante, o que traz uma graça especial ao dito. 14 “O nome da Rosa”, publicado em 1980, é um romance de mistério histórico escrito por Umberto Eco, escritor italiano, filósofo e professor universitário (19322016). Situado no ambiente religioso turbulento do século 14, o romance narra a investigação realizada por Frei Guilherme de Baskerville e seu aluno Adso de Melk em torno de uma misteriosa série de crimes numa abadia no norte da Itália. 15 Jorge de Burgos: O personagem do monge espanhol é um velho cego, curvado e reverenciado pelos demais monges, que o temem tanto quanto o respeitam. As características do personagem são uma clara homenagem do autor a Jorge Luis Borges. 16 O Rebe de Kotzk: Menachem Mendel Morgensztern, de Kotzk, mais conhecido como Kotzker Rebe (1787-1859) era um rabino e líder chassídico. Nascido em uma família não chassídica em Goraj, perto de Lublin, na Polônia, ele foi atraído pelo chassidismo em sua juventude. Era conhecido por ter adquirido um impressionante conhecimento talmúdico e cabalístico desde tenra idade. Ele era conhecido também por suas filosofias incisivas e concretas e por suas palavras engenhosas. Ele parece ter pouca paciência com a falsa piedade e com a estupidez. 17  O rabino Israel Baal Shem Tov (também conhecido pelo acrônimo “Besht”) foi o fundador, no século 18 na Europa Oriental, do movimento chassídico. O Baal Shem Tov foi um líder que revolucionou o pensamento judaico e introduziu uma nova vida numa nação desanimada. Os efeitos de seus ensinamentos ainda são sentidos hoje, tanto por seus seguidores diretos, conhecidos como Chassidim, como pelos seguidores de todas as outras correntes do pensamento judaico, que foram profundamente afetados por seus ensinamentos e filosofia. 18 Les Luthiers, “Cantata del Adelantado Don Rodrigo Dias de Carreras”, “Mastropiero que nunca”, 1996 19 Ethos: o Dicionário da Real Academia Espanhola, define a palavra “ethos” como “Conjunto de características e modos de comportamento que compõem o caráter ou a identidade de uma pessoa ou comunidade”.

Bibliografia Tanach. Talmud Bavli, Tratado Shabat p. 30b. Talmud Bavli, Tratado Eiruvin, p. 65b. Diálogo autobiográfico, Ephraim Kishon em conversa com a Yaron Lunodon Maariv Publishing – Echo Artzi 1993 (publicação em hebraico, título traduzido livremente). El nombre de la rosa, Umberto Eco, Ed. Lumen, 1980. La felicidad no es todo en la vida, Rudy y Eliahu Toker, Grijalbo, 2001. Jewish Comedy: A Serious History, Prof. Jeremy Dauber, W.W. Norton & Company, 2017. ¡Gogl, Mogl!, el gran libro del humor judío, Rudy y Eliahu Toker, Ed. Sudamericana, 2009. Pu, pu, pu La dicha del idish: dichos, refranes y proverbios populares, Graciela L. de Eidelsztein, Ed. Sudamericana, 2010. Me gustaba más cuando era hijo, Marcelo Birmajer, Seix Barral, 2009. Orgullo Goy, Romina Montoto, Autores de Argentina, 2016.

Edy Huberman reside em Buenos Aires e é aluno do Instituto Iberoamericano de Formação Rabínica Reformista. Traduzido do espanhol por Raul Cesar Gottlieb.

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COMOVENTE

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eclaração do primeiro ministro da Autoridade Palestina, Mohammad Shtayyeh, em julho passado no The Times of Israel: “Se uma solução que contemple dois estados não for conseguida, Israel vai sofrer uma ‘morte demográfica’ e não vai conseguir existir como um estado democrático”. É comovente testemunhar a preocupação pelo nosso bem-estar por parte daqueles que dedicam a vida à tarefa de nos exterminar. E causa dupla comoção ouvir que, caso Israel venha a ter maioria árabe, não vai mais ser um país democrático. Será que a liderança Palestina entende o que fala? ü

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OS FATOS NÃO PODEM ATRAPALHAR O DISCURSO

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ina Shnerb, moradora na cidade de Lod, região central de Israel, onde fica o aeroporto Ben-Gurion, tinha 17 anos quando foi assassinada por um ataque terrorista palestino em 23 de agosto deste ano. Junto com sua família ela visitava um local turístico próximo de Ramala quando a bomba explodiu, tirando sua vida e ferindo seu pai e seu irmão. A mídia palestina noticiou seu assassinato qualificando Rina como uma “colona” e uma “soldada”. Ela não era nem uma coisa nem a outra. Lod não é parte dos territórios conquistados em 1967 e ela nunca

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serviu no exército. Então, por que qualificá-la assim? Ora, para apoiar o discurso palestino que não existe terror contra civis e que Rina era um alvo legítimo, por ser uma militar e também por viver em território sem status definido (que o mundo chama de “ocupado”). Com isto, ao invés de lamentar mais uma morte de civil inocente, o governo palestino (sim, porque o governo palestino controla sua mídia) pôde usar o assassinato de Rina para reforçar seu discurso “vitimológico”, tomando sempre muito cuidado para não deixar os fatos atrapalhá-los. ü


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A ESCOLHA DE 1929

H

á exatos 90 anos (em agosto de 1929) os palestinos resolveram enveredar pelo caminho da violência contra a população civil, adotando o terrorismo como forma preferida de diálogo com a população judaica da região. O local escolhido para a abertura do protocolo foi a cidade de Hebron e os interlocutores foram 67 judeus ortodoxos, que não faziam parte do moderno movimento sionista visto que moravam na cidade há séculos, e que foram assassinados em 2 dias de carnificina. O “modus operandi” palestino não mudou muito nestes 90 anos. A revolta popular foi insuflada pela falsa notícia de que os judeus pretendiam explodir a mesquita de Al Aksa em Jerusalém. O alvo foi a parte mais indefesa da população judaica. Muitos árabes mostraram humanidade e compaixão, correndo riscos ao esconder e salvar judeus, contudo eles não tiveram força para curvar a violenta decisão da liderança. Uma vez exercida uma escolha, fica impossível determinar o que aconteceria se ela não tivesse acontecido. Contudo, é simples identificar a cadeia de eventos que derivou das escolhas do passado. E a escolha da liderança palestina de 1929 impacta a vida de árabes e judeus desde então. Seria muito bom que mais e mais pessoas entendessem que a incompetência do agressor não o converte em agredido. ü

APOCALIPSE ADIADO

A

pesquisa no Google com a sentença “the disappearence of reform jews” produz uma série de resultado com previsões apocalípticas. “Reform is disappearing while the Orthodox community is growing”, diz o site do Arutz Sheva. O site Makor Rishon tem uma entrevista com o ortodoxo Yaakov “Katzele” Katz onde ele diz “I don’t see a way to save Reform Jews from assimilation”. O Ynet publica um estudo do Dr. Adam Ferziger, um perito no estudo das denominações judaicas modernas, onde ele afirma “In the next generation, US Jews will disappear”. E assim vai. Será mesmo? Pois eis que a maior comunidade reformista do mundo está na América do Norte. São milhares de sinagogas com milhões de associados. E não é que ela está

crescendo? O Times of Israel de 9 de outubro passado informa que um estudo do Steinhardt Social Research Institute identificou que a população judaica dos EUA cresceu 10% nos últimos 7 anos e que existem hoje cerca de 7,5 milhões (com uma margem de erro que faz este número variar entre 7,1 e 7,8 milhões) de judeus no país. “A profecia do desaparecimento dos judeus americanos não está se concretizando”, disse Leonard Saxe, diretor do instituto que realizou a pesquisa. Claro que se pode contestar a quantidade, pois a pesquisa não é um censo porta a porta. Mas os 10% de crescimento são incontestáveis, visto que o instituto realizou pesquisas com a mesma metodologia em 2012 e os números lá eram 10% menores. ü

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UMA CENA INUSITADA

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ukot no Kotel (Muro das Lamentações) em Jerusalém. Muitas pessoas se aglomeram na esplanada em frente ao Muro com seus conjuntos de “lulav e etrog” (o nome simplificado para as quatro espécies – arbá haminim – que a tradição judaica prescreve para a festa). Ainda em frente ao Kotel, mas a coisa de uns 150 m à direita da esplanada principal, se encontra uma outra pequena esplanada. Oculta da vista de quem está na esplanada principal, temos uma modesta plataforma de madeira com quatro mesas para orações e celebrações familiares, além de dois armários onde se guardam Sifrei Torá (rolos do pergaminho da Torá) e livros de oração. É a área igualitária do Kotel. A esplanada central é grande,

imponente, porém dividida. A esplanada igualitária é modesta mas não obriga segregação por gênero. E neste espaço menor acontece uma cena inusitada. Uma famíla de judeus ortodoxos – a esposa, o marido, duas meninas e um menino – chegam ostentando seu conjunto de lulav e etrog e se dirigem para próximo do Muro. Lá conduzem o ritual prescrito. Cada membro da família, os homens e as mulheres o realizam. Depois vão embora. Passam-se mais dois minutos e aparece mais uma família ortodoxa e a cena se repete. Em seguida chegam duas famílias de uma vez só. E assim segue o dia. Todos realizam o ritual e as orações em família. De forma igualitária. A Rabina Sandra Kochman – que já serviu na ARI do Rio de Janeiro e hoje é a responsável pelo “Kotel igualitário”

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– explica: “Eles não chegam aqui porque a esplanada central está lotada. Eles vêm aqui porque é o único local no Kotel onde podem rezar juntos, o que estamos vendo é um ato de amor e de união familiar”. Um outro observador da cena religiosa em Israel completa: “O cenário judaico religioso em Israel está mudando. Por um lado muitos dos ‘não religiosos’ querem religião, porém não nos termos da Rabanut Rashi (o rabinato central ortodoxo). Por outro lado, muitos jovens judeus ortodoxos querem uma religião mais igualitária”. E ela (que pertence ao movimento liberal Masorti / Conservador) conclui: “Ainda vai levar uns 10 a 20 anos para a situação amadurecer. Nós temos que ter firmeza para sermos atores nessa reconfiguração”. ü


TORÁ E BIOLOGIA

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revista Science de 30 de agosto de 2019 publicou um estudo que explora a associação da homossexualidade e os genes das pessoas. A introdução do estudo diz: Nas sociedades humanas e em ambos os sexos, cerca de 2% a 10% dos indivíduos relatam praticar sexo com parceiros do mesmo sexo, exclusivamente ou além do sexo com parceiros do sexo oposto. Estudos com gêmeos e familiares mostraram que o comportamento sexual do mesmo sexo é parcialmente influenciado geneticamente, mas pesquisas anteriores dos genes específicos envolvidos foram insuficientes para detectar o real tamanho desta influência. Quem quiser ler o estudo completo pode acessá-lo em https://science. sciencemag.org/content/365/6456/ eaat7693 Supomos que a grande maioria dos leitores de Devarim não vai conseguir entender o estudo, ou está interessado em avaliar a metodologia aplicada. Contudo, suspeitamos que todos estão interessados na conclusão. Eis o seu início:

O comportamento sexual do mesmo sexo é influenciado não por um ou poucos genes, mas por muitos. A sobreposição das influências genéticas com outras características fornece insights sobre a biologia subjacente do comportamento sexual do mesmo sexo, e a análise de diferentes aspectos da preferência sexual enfatiza sua complexidade. A Torá, em Vaikrá / Levítico 18:22, diz: Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é abominação. A demonstração científica da associação entre a genética e o comportamento homossexual talvez permita mais uma atualização das leis da Torá, tal como aconteceu, por exemplo, com a poliginia1, que era permitida pela Torá, mas que foi posteriormente banida do judaísmo. A lei judaica abre exceções no cumprimento de mitsvot por motivos biológicos. Por exemplo, Tosafot, 1 Poliginia é uma forma de poligamia, onde o arranjo matrimonial envolve um homem e várias mulheres. A outra forma de poligamia é a poliandria, que envolve uma mulher e vários homens. O judaísmo no tempo da Torá permitia apenas a poliginia.

em Bava Kama 3b, indica que uma pessoa cega pode cumprir a mitsvá de ler a Torá, recitando-a de cor. Os que têm visão só cumprem a mitsvá se a leem do pergaminho (mesmo que a saibam de cor). É muito claro que Vaikrá 18:22 se baseia na percepção que a homoafetividade é uma abominável opção individual. Mas no momento em que a ciência determina que este não é o caso, visto que a homoafetividade não é uma questão de escolha e sim de biologia, fica urgente reabrir o debate a respeito. Nossa tradição registra intensos debates a respeito de todos os aspectos do judaísmo. Debates estes que perduram há séculos e que são a fonte da vitalidade da nossa cultura. Esperemos, então, que as novas descobertas científicas a respeito da homossexualidade afetem este debate, e o passar dos anos inclua desdobramentos importantes sobre a interpretação de Vaikrá 18:22 em todas as correntes judaicas.2 ü 2 Um adendo para quem ficou curioso: a Torá não menciona nada a respeito da homossexualidade feminina. Apenas o ato (e não o sentimento ou o impulso) homossexual masculino.

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MOEDA FORTE

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m 2019, o shekel israelense se valorizou 6,6% perante o dólar até novembro. E isto não aconteceu porque a moeda americana se desvalorizou no mundo, muito ao contrário, a economia americana vai de vento em popa. Caso não haja nenhuma surpresa nas últimas semanas do ano, o shekel terá sido a moeda mais forte do mundo em 2019. Israel é realmente um país que desafia o raciocínio dos que acreditam na imprensa. É acusado de genocídio dos palestinos, mas a população palestina cresce numa taxa mais rápida do que a israelense. Sofre as sanções econômicas do BDS (movimento que defende o Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel) e sua economia se fortalece continuadamente. Ou seja, acreditar na imprensa é igual a andar de moto sem capacete: uma atitude arriscada. ü

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Sport Club Corinthians Paulista realizou no dia 6 de novembro um emocionante ato em memória da Kristallnacht, a Noite dos Cristais, considerada um marco do recrudescimento da perseguição aos judeus na Alemanha nazista. O triste dia 9 de novembro de 1938 deve seu nome às centenas de sinagogas destruídas e lojas atacadas em diversas cidades alemãs, deixando um rastro de vidros partidos, mortos, feridos e presos em campos de concentração. Em uma partida disputada contra o Fortaleza pelo Campeonato Brasileiro, o time paulista inseriu Estrelas de David no uniforme dos jogadores e colou Estrelas de David em uma parte das cadeiras do seu estádio. Na arena Corinthians, Andor Stern,

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CORINTHIANS LEMBRA O HOLOCAUSTO 91 anos, sobrevivente do Holocausto e torcedor corintiano, assistia o jogo, posava para fotografias e dava entrevistas. As camisetas dos jogadores foram leiloadas e a renda revertida para o Memorial do Holocausto em São Paulo. A homenagem do Corinthians teve como objetivo difundir a mensagem da necessidade da luta contra o preconceito e a intolerância. Iniciativa mais do que bem-vinda no mundo do futebol, que – apesar das campanhas e iniciativas da Fifa e de diversas entidades esportivas – continua a testemunhar o racismo aberto contra jogadores negros em países como a Itália e a Ucrânia e gritos homofóbicos da torcida, incluindo os estádios brasileiros. ü

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cócegas no raciocínio

LEÕES E HIENAS; LOBOS E CORDEIROS O

atualidade, embora possam ser a massa ignara que vai quebrar cristais, matar judeus e incendiar sinagogas. Teorias eugênicas também caíram por terra, se não completamente, quase. Os velhos motivos se esgotaram, e o antissemitismo precisa de um motivo para ser uma ideia, uma ideologia. Que possa incendiar pessoas sem ser reconhecido como preconceito, ou racismo. E o grande motivo do antissemitismo contemporâneo é o antissionismo, ou anti-israelismo. De novo, não é preciso aqui explicar por quê, a explicação está pronta e anunciada: Israel e, por extensão, os judeus seriam entidades opressoras, racistas, que impedem um povo de se autodeterminar, ocupam territórios, cercam populações, promovem apartheid. Isso ‘justifica’ que antissemitas façam explodir sedes comunitárias em Buenos Aires, matem judeus em Pitsburgh e alhures, ou tentem incendiar uma antiga sinagoga no Colorado. A pergunta da vez, considerando esta cause, é se é possível fazer algo para eli-

miná-la. Para desmistificar esses conceitos. Não será com retórica. A guerra da informação está perdida. Interesses, radicalismos, preconceitos, marketings milionários, pura ignorância substituem fatos por versões e convencem – ou servem de pretexto a – os que estão predispostos a serem convencidos ou os que buscam os pretextos para justificar o que seria injustificável: penalizar o único estado do povo judeu no mundo (a ponto de pôr em dúvida sua legitimidade) com decisões condenatórias na ONU, BDS, boicotes culturais e, por extensão, um renovado antissemitismo em escala planetária. Um único fotograma de um longo filme está sendo tratado como se fosse todo o filme. O fotograma é a presença militar de Israel em territórios que seriam os de um estado palestino, certas restrições impostas, como medidas defensivas, ao acesso a Gaza, muros, ou cercas, antiterror, etc. O filme é a história completa do direito histórico (um filme de 3.000 anos) do povo judeu a um estado nacional em Erets Israel, direito em forma

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mundo carece de utopias. Dessas possibilidades tão cercadas de impossibilidades que se tornam sonhos aparentemente irrealizáveis. Dessas soluções que os pragmáticos que ‘têm pés no chão’ chamam de ingênuas, românticas, se não ‘subversivas’, ‘retrógradas’, ‘contra a corrente da história’ (ou do progresso), etc. Mas a caminhar como está caminhando, com toda a sua ciência, toda a sua tecnologia, todo esse aproveitamento máximo de todos os recursos, toda essa big data que nos impulsiona para onde achamos que queremos ir quando estamos na verdade sendo conduzidos para onde não deveríamos querer, o mundo não parece estar indo para um bom lugar. Pequenas fogueiras reais estão se acendendo, grandes fogueiras reais parecem estar se anunciando, nunca a estabilidade de um mundo tão ‘avançado’ pareceu tão ameaçada. No nosso caso particular, dos judeus, o quadro é especialmente sombrio. Não me refiro a estatísticas, elas são uma das evidências do recrudescimento do antissemitismo, mas sim à tendência de polarização, de maquineização, de radicalização de discordâncias, em todos os níveis. Em todos os contextos: político, social, econômico, cultural, até esportivo. Historicamente, o povo judeu é o primeiro da fila para sofrer as consequências de uma radicalização. Et pour cause. Não precisamos, neste espaço, explicar como e por quê. O antissemitismo não tem uma causa objetiva. Atualmente, nem mesmo a original acusação de deicídio. Nem a de usar sangue de cristãos para fazer matsá, de envenenar poços, de serem prestamistas usurários por excelência, de conspirarem tenebrosamente nos protocolos de sábios para dominar o mundo. Hoje em dia só mentecaptos ou ignorantes vão atrás disso, eles não serão os líderes de movimentos antissemitas na

Paulo Geiger

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de sonho e projeto durante 2.000 anos, de ideia e realização sionista na modernidade; a história da decisão da ONU em 1947, a recusa árabe a dois estados para dois povos, o terrorismo e o boicote a Israel antes da ocupação, a Carta Palestina de 1964, engavetada mas não rejeitada, que descreve detalhadamente todas as etapas da eliminação de Israel, as ações e ameaças explícitas subsequente a essa Carta, que foram motivo da guerra de 1967, a recusa dos palestinos, em várias tentativas de acordo, a reconhecer Israel como estado nacional do povo judeu, os projetos do Irã, do Hezbollah e do Hamas, hoje, de ‘eliminar Israel do mapa’, a lenta substituição de uma possível solução acordada do conflito pela negação da legitimidade da própria existência de Israel. Nenhuma tentativa de acordo funcionou no passado, nos inúmeros planos e intenções. E não vai funcionar com os que usam aquele fotograma, conscientemente, como pretexto para justificar um anti-israelismo (e antissemitismo) visceral, atávico, fanático. Radicais (e nem tanto) de direita e de esquerda. Islâmicos fundamentalistas. Interesses geopolíticos. Antissemitas de raiz. Nesse contexto não cabem utopias, as possibilidades são zero. Eles sempre terão um motivo, uma cause, para serem anti-israelenses, consequentemente antissionistas, e originalmente antissemitas. Em meio a essa retórica do ódio, dão sua contribuição de inocentes úteis muitas academias, esquerdas obtusas – que veem em ditaduras e teocracias repressoras uma causa melhor do que a de um país democrático, estado de direito, único estado de uma nação mais que trimilenar – e simples desavisados ‘politicamente corretos’ em busca de ‘vítimas’ a serem redimidas e as encontrando num fotograma de um longo filme. Além disso, há resistência entre judeus fundamentalistas, ou ultranacionalistas, ou que, não sem motivo, descreem das intenções da outra parte e consideram qualquer solução, fora do status quo atual, uma armadilha fatal. Sim, há e ha-

verá resistências, de muitos lados. Mas o próprio Estado de Israel é fruto de uma utopia que venceu todas as resistências. Assim, na busca de uma utopia redentora, há que reconhecer: nenhuma solução, nenhum acordo será capaz de terminar com o conflito e suas consequências da noite para o dia. Nem determinará o fim do antissemitismo, que, como sempre, buscará outras explicações ‘objetivas’. E não é apenas como solução para o antissemitismo que essa solução é necessária. Ela é necessária para uma visão proativa de futuro judaico, democrático e justo para o estado judeu e o povo judeu, considerando principalmente o bem do estado e do povo judeu, consentâneo com o judaísmo e a ideia sionista. Não é pretender ser magnânimo, ou politicamente correto. É zelar por continuar a ser um povo e um estado judaico na plena acepção do que significa ser judaico. Sem ilusões. Qualquer que seja a solução acordada, a paz e a concórdia não vão se instalar com assinaturas numa folha de papel. Israel não vai dissolver nem dar descanso a seu exército, ao Shabak, ao Mossad. Não vai desarmar Patriots, Iron Domes, David Slings. Nenhum acordo de paz trará a paz de imediato. Enquanto houver islamismo radical no Irã, enquanto houver Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica e outros similares. Enquanto qualquer acordo for, para os palestinos, apenas um passo na direção da ‘libertação total da Palestina’ – como está especificado no item 4 do Programa Político por Etapas da OLP, de junho de 1974 . O que seria então essa utopia redentora tão cercada de impossibilidades? O que ela poderia fazer nas circunstâncias

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atuais? A resposta: criar um ponto de inflexão que, talvez, suscite uma mudança de direção. Uma possibilidade entre as impossibilidades. Uma tentativa de impor uma realidade que se imponha simplesmente por existir, por se mostrar melhor como futuro até que se consiga um presente melhor. Que consiga conquistar aos poucos corações e mentes desconfiados, desarmar, por inócuos, projetos excludentes de eliminação do outro, seja qual for o um e o outro. Que dentro de x anos, ou x gerações, por ser possível, traga finalmente uma paz e uma convivência verdadeiras. Que, segundo Ruy Barbosa, é aquela que emana do coração dos povos. Que responda à pergunta que realmente importa: qual queremos que seja nosso futuro nacional, como judeus, como humanistas, como democratas? Como povo, nação e estado? Quanto a isso, permito-me relembrar um confronto amigável com o saudoso Manuel Tenembaum z’l, diretor-executivo do Congresso Judaico Mundial na América Latina. Num mesmo evento comunitário, ele apresentou a imagem do povo judeu como a imagem do Leão de Judá, poderoso e temido, dominando a floresta, imagem heroica e atraente para um povo e um estado cercados de inimigos (e hienas). Eu, em outra apresentação, sobre o futuro do povo e do Estado de Israel, evoquei a visão de Isaías, do lobo como o cordeiro e da espada transformada em arado etc. Alguém observou que a visão do leão era mais realista. Eu respondi que se educarmos as novas gerações israelenses e judaicas tendo esse futuro como objetivo, e não o de Isaías, esta terá sido a grande vitória de nossos inimigos: nossa confirmação não como o que somos e queremos ser, mas como aquilo que eles dizem que somos e queremos ser, justificativa para nossa extinção. É uma utopia. Utopias não são sonhos, são projetos, talvez improváveis, mas baseados na construção proativa de um futuro desejado, não na defesa reativa de um presente compulsório. No próximo número tentaremos desenhar essa utopia em forma de projeto.


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