DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI
Ano 14, n° 38, abril de 2019
Em memória de Amos Oz Paulo Geiger e Vittorio Corinaldi
Robert Alter e a Bíblia como Literatura David A. M. Wilensky
Feminismo. Para quê? Marcia Rozenthal
Nada Mais Samêach!
Das Dez Pragas aos Dez Mandamentos
Rabino Sérgio Margulies
Ricardo Gorodovits e Raul Gottlieb
Shtisel: Continuidade e Assimilação
Guivat Haviva: uma Sociedade Compartilhada
Rabino Dario Bialer
Rafael Stern
O que Pensarão?
O Renascimento da Língua Hebraica
Hernán Rustein
Ruth Josephson
EDITORIAL
N
a etimologia do hebraico, encontramos algumas pistas que nos indicam a formação do pensamento judaico e a composição, por meio de palavras, de uma trama filosófica que nos permite ver o mundo de forma muito particular, intrigante e especialmente instigante. A língua hebraica atribui três palavras para designar a Lua, duas masculinas, outra feminina. A palavra mais utilizada é Iareach. Se a palavra for decomposta, identificaremos o prefixo “iá”, que representa Deus (como em “haleluiá” – que significa literalmente “louvem a Deus”) e a raiz da palavra “ruach”, que significa espírito (o espírito soprado por Deus no homem, conforme a tradição bíblica). A Lua seria, portanto, um espírito divino, objeto que, talvez, num passado pré-judaico tenha sido adorado, e que, com o tempo, se transformou em fonte de inspiração para a aventura humana, orientando viajantes, estimulando apaixonados, alimentando poetas. Iluminando a noite, a Lua foi também identificada como Levaná, palavra feminina, cuja origem imediata é “lavan”, a cor branca. Mas, como os meandros da língua nos conduzem por caminhos nem sempre tão diretos, a mesma raiz é utilizada na palavra “leveiná”, que significa tijolo, o que nos permite olhar para a Lua observando-a como um corpo celeste, concreto e inanimado (sem alma), sem significado espiritual, apenas uma das tantas partes do universo. Como boa parte de nós há de lembrar, “leveiná” nos remete a Pessach, onde uma música infantil nos lembra como nosso povo escravizado assentava um tijolo sobre o outro na construção das obras para o Faraó. Não é surpresa, então, encontrar a terceira palavra que representa a Lua, Sahar. Sua raiz faz-nos encontrar “sohar”, prisão ou aprisionamento, com a qual percebemos a Lua aprisionada à noite, cumprindo seu inevitável destino, em sua eterna órbita ao redor da Terra. Minha conclusão é que, de certa forma, o judaísmo nos propõe, através da Lua, uma reflexão sobre o paradoxo humano, o espírito aprisionado na matéria. Nosso pensamento passeando livre por todas as nossas utopias e po-
tenciais, enquanto o dia a dia nos restringe a um caminho muito mais estreito e por isso mesmo tão desafiador. A partir desse desafio, por um momento, fixemo-nos na Lua, Levaná, e nos deixemos levar pelo jogo de palavras que suas letras nos permitem desenhar. E logo chegamos a “livnot”, construir, e também a “biná”, entendimento. A construção do entendimento, origem e meta da ciência. E aqui nosso caminho nos leva ao encontro da Lua e da ciência, por meio de Bereshit, a nave não tripulada, projetada e construída em Israel, enviada à Lua. Com verdadeiro sabor judaico, todo o projeto, conduzido por cientistas e engenheiros brilhantes e visionários, mantém ao lado de todo o esforço técnico o desafio educacional que pretende perenizar nos jovens israelenses o sabor da descoberta, a motivação para a ciência, a capacidade de se maravilhar incessantemente com o mundo a nossa volta. Não se trata apenas de vencer um desafio, mais um para o pequeno Estado de Israel. Mas também de reunir ao corpo concreto da nave, por meio de uma cápsula que nela viaja, os valores espirituais e intangíveis da nação judaica: canções, histórias, uma cópia da declaração da independência, o Hatikva, o Tanach. A cápsula nada agrega ao aspecto científico da empreitada. Mas é exatamente esta cápsula que vai permitir que, tal qual nossos antepassados, que formularam o idioma hebraico, quando à noite, olhemos para cima, vejamos algo que está além do que nossos olhos alcançam. Seja no esplendor da Lua cheia, no mistério que se adivinha na Lua nova ou na expectativa da metade de seu ciclo, a enxergaremos por inteiro, parte tangível do mundo que nos cerca e ao mesmo tempo metáfora de sonhos e deuses, rainha noturna dos infindáveis mistérios do universo. Nesse momento, a Lua nos serve de espelho, em cujo reflexo se conciliam, para formar o Homem, uma alma em expansão, matéria em contração e uma permanente busca de sentido para a existência. Ricardo Gorodovits – Conselho Editorial de Devarim
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Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 14, nº 38, abril de 2019 PRESIDENTE DA ARI
Gilberto Lamm
devARIm [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ARI, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.
RABINOS DA ARI
Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA
Raul Cesar Gottlieb CONSELHO EDITORIAL
Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO
Roney Cytyrnowicz / Editora Narrativa Um EDIÇÃO DE ARTE
Negrito Produção Editorial REVISÃO DE TEXTOS
Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA
Da-Kuk/iStockphoto.com Colaboraram neste número: Rabino Dario E. Bialer, David A. M. Wilensky (JTA), Hernán Rustein, Marcia Rozenthal, Paulo Geiger, Rafael Stern, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Ruth Josephson, Rabino Sérgio R. Margulies e Vittorio Corinaldi. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br (www.devarim.com.br) Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Telefone: 21 2156-0444 A contracapa de Devarim é uma criação baseada no slogan do Movimento Reformista de Israel – IMPJ. A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.
SUMÁRIO A Mágica de Oz – O Pensamento de Amos Oz Paulo Geiger............................................................................................ 3 A Bíblia Como Literatura. Robert Alter Completa sua Monumental Tradução da Bíblia Hebraica David A. M. Wilensky.......................................................................... 11 Nada Mais Samêach! Rabino Sérgio Margulies....................................................................... 17 Continuidade e Assimilação. De Shtisel a Gerson Cohen Rabino Dario Bialer.............................................................................. 23 Das Dez Pragas aos Dez Mandamentos Ricardo Gorodovits e Raul Gottlieb...................................................... 31 Guivat Haviva: Viva a Alternativa de uma Sociedade Compartilhada Rafael Stern........................................................................................... 40 Faróis que se Extinguem Vittorio Corinaldi................................................................................. 49 Feminismo. Para quê? Marcia Rozenthal.................................................................................. 55 O Renascimento da Língua Hebraica Ruth Josephson..................................................................................... 61 O que Pensarão? Hernán Rustein..................................................................................... 66 Em Poucas Palavras.......................................................................... 74 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger.......................................................................................... 80
A MÁGICA DE OZ – O PENSAMENTO DE AMOS OZ Neste número: O conflito Israel/palestinos e o fanatismo
Trechos selecionados e editados por Paulo Geiger Nadtochiy/istockphoto.com
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sta é a primeira de uma série de três coletâneas de textos de Amos Oz que, a partir deste, serão distribuídas em três números de Devarim. São excertos esparsos de alguns de seus livros traduzidos para a Companhia das Letras. Eles foram escolhidos pelo critério de representar o escritor (seu estilo literário, seus recursos de expressão), o ser humano (suas ideias sobre as forças e as fraquezas humanas, a mulher, a sexualidade), o judeu (sua visão do judaísmo) e o ativista político (defensor de uma paz construída sobre concessões mútuas, uma voz contra o fanatismo, um humanista). Oz é profundo na percepção e descrição literária da realidade israelense (sua paisagem física, humana e cultural), seus méritos e suas idiossincrasias, seus problemas políticos religiosos e sociais. Essa profundidade se expressa em textos simples, marcantes, cheios de metáforas, analogias, alusões, reiterações (como ele mesmo diz), elipses, entrelinhas. Um convite à imaginação a partir de uma imaginação fecunda, mas firmemente calcada na realidade das coisas como são, e nas possibilidades de como poderiam ser. Os excertos foram agrupados por temas: conflito e fanatismo; judaísmo; literatura. Os temas desta primeira coletânea são: conflito Israel/palestinos e fanatismo, nos livros Como curar um fanático – CCF (São Paulo, Companhia das Letras, 2015) e Judas (São Paulo, Companhia das Letras, 2016), respectivamente referenciados por [CCF] e [Judas] após os excertos. Nossos agradecimentos à Companhia das Letras por ter generosamente permitido a publicação desses excertos.
Se eu vir em minha vida o Estado de Israel e o Estado da Palestina convivendo um ao lado do outro como vizinhos decentes, ficarei satisfeito mesmo se o amor não prevalecer.
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Foto de Monica Musatti Cytrynowicz
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Excertos Quando meu pai era um menininho na Polônia, as ruas da Europa estavam cobertas de grafites, “Judeus, voltem para a Palestina” ou às vezes pior: “Yids sujos, se mandem para a Palestina”. Quando meu pai revisitou a Europa cinquenta anos depois, os muros estavam cobertos com novos grafites, “Judeus, fora da Palestina”. [CCF, p. 37] *** O conflito israelo‑palestino não é um filme do Velho Oeste. Não é a luta do bem contra o mal, é antes uma tragédia no mais antigo e mais preciso sentido da palavra: um choque entre o certo e o certo, um embate entre uma reivindicação muito poderosa, profunda e convincente, e outra muito diferente mas não menos convincente, não menos poderosa, não menos humana. [CCF, p. 36] *** Precisamos de um doloroso compromisso. A palavra “compromisso” tem uma terrível reputação na Europa. Especialmente entre jovens idealistas, que sempre veem compromisso, um acordo de concessões mútuas, como oportunismo, como algo desonesto, furtivo e duvidoso, um sinal de falta de integridade. Não em meu vocabulário. Para mim a palavra “compromisso” significa vida. E o contrário de compromisso não é idealismo, é fanatismo e morte. Precisamos de um compromisso. Compromisso, não capitulação. [CCF, pp. 38-39]
guerra não é a generosidade ou a fraternidade ou o perdão. Não, o contrário da guerra é a paz. As nações devem viver em paz. Se eu vir em minha vida o Estado de Israel e o Estado da Palestina convivendo um ao lado do outro como vizinhos decentes, sem opressão, sem exploração, sem derramamento de sangue, sem terror, sem violência, ficarei satisfeito mesmo se o amor não prevalecer. E, como nos lembra o poeta Robert Frost, “Boas cercas fazem bons vizinhos”. [CCF, pp. 42-43] *** Tenho sido nos últimos anos muito crítico ao movimento nacional palestino. Alguns motivos são históricos, outros não. Mas na maior parte das vezes tenho feito críticas ao movimento nacional palestino por ter fracassado ao não se dar conta de quão autêntica é a conexão judaica com a terra de Israel. Fracassado por não se dar conta de que Israel moderno não é um produto de um empreendimento colonialista, ou ao menos fracassado por não dizer isso a seu próprio povo. Devo lhes dizer que sou igualmente crítico a gerações de sionistas israelenses que foram incapazes de imaginar a existência de um povo palestino, um povo real, com direitos reais e legítimos. Assim, ambas as lideranças – do passado e também do presente – são culpadas ou de não ter compreendido a tragédia ou de não ter ao menos contado aos seus povos. [CCF, p. 45] ***
Estive no campo de batalha duas vezes, na primeira como soldado da reserva numa unidade de tanques na frente egípcia, no Sinai, em 1967, e depois na frente síria, na guerra de 1973. Foi a experiência mais horrível de toda a minha vida, e ainda assim não tenho vergonha de ter lutado nessas duas guerras. Não sou um pacifista no sentido sentimental da palavra. Se eu sentisse que haveria mais uma vez um perigo real de meu país ser completamente varrido do mapa e meu povo ser chacinado, eu lutaria de novo, mesmo sendo um idoso. [CCF, pp. 40-41]
Espero que a Europa aprenda a enxergar a ambiguidade do conflito árabe‑israelense em vez de só vê‑lo pintado de preto e branco, e sempre perguntando quem são os mocinhos e quem são os bandidos, como se isso fosse um filme de faroeste. Enquanto Israel está ocupando a Cisjordânia e oprimindo os palestinos, centenas de milhões de zelotes muçulmanos estão comprometidos com a destruição de Israel. Se focarmos em Israel e Palestina, então Israel é o brutal Golias e a Palestina é o heroico Davi, mas se ampliarmos o campo e enxergarmos 1 bilhão de muçulmanos que têm como objetivo a destruição do pequeno Israel, você terá uma ideia diferente de quem é Davi e quem é Golias. [CCF, pp. 96-97]
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Em minha concepção, o contrário da guerra não é o amor, e o oposto da guerra não é a compaixão, e o avesso da
O pai de Atalia sonhou que judeus e árabes pudessem amar uns aos outros se apenas se eliminasse o mal‑enten-
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dido entre eles. Mas nisso ele errou. Entre judeus e árabes não há e nunca houve mal‑entendido. Pelo contrário. Já faz algumas décadas que entre eles há uma compreensão total e absoluta. Os árabes nativos do lugar se agarram a esta terra porque ela é sua única terra, não têm outra para seu lugar, e nós nos agarramos a esta terra pelo mesmo motivo. Eles sabem que nós nunca poderemos desistir dela, e nós sabemos que eles não desistirão dela nunca. Essa compreensão mútua é, pois, bem clara e irretocável. Não há e nunca houve mal‑entendido entre nós. [Judas, pp. 157-158] *** Ele era desses que acredita que tudo que se exige dos que estão brigando é que se conheçam melhor, e eles logo começarão a gostar um do outro. Só precisam tomar juntos um copo de café bem forte e bem doce e ter uma conversa amigável – e logo o sol vai brilhar e os que se odeiam cairão em lágrimas no pescoço um do outro, como no romance de Dostoiévski. E eu lhe digo, meu caro, dois homens que amam a mesma mulher, dois povos que reclamam a mesma terra, mesmo se beberem juntos rios de café, esses rios não irão apagar seu ódio, e muitas águas não o varrerão. E ainda lhe digo mais, não obstante tudo que eu lhe disse antes, felizes os sonhadores, e maldito aquele que lhes abre os olhos. É verdade que os sonhadores não irão nos salvar, nem eles nem seus discípulos, mas sem sonhos e sem sonhadores essa maldição que paira sobre nós seria mil vezes mais pesada. Graças aos sonhadores, nós também, os sóbrios, talvez fiquemos um pouco menos petrificados e desesperançados do que estaríamos sem eles. [Judas, p. 158] ***
breve desaparecerá a peste do nacionalismo e todos os Estados hão de passar e se extinguir no mundo, pelo menos até que se realize a visão de um mundo sem Estados, pelo menos enquanto cada povo tiver grades em suas janelas e ferrolhos e fechaduras em suas portas – não é justo que o povo judeu também tenha uma pequena casa com grade e fechadura, exatamente como todos os outros? Sobretudo depois que um terço desse povo foi aniquilado há poucos anos só porque não tinha casa nem porta com fechadura nem um pedacinho de chão que lhe pertencesse. Nem um exército nem armas para se defender? Quando chegar o dia, quando finalmente todos os povos derrubarem as paredes que os separam – então, por favor, certamente, nós também iremos derrubar com satisfação as paredes que construímos à nossa volta e nos juntaremos com alegria e júbilo à grande comemoração. Embora, com uma cautela neurótica, talvez dessa vez não sejamos logo os primeiros no mundo a abrir mão da fechadura e das grades. Talvez dessa vez sejamos os terceiros no mundo, ou os quartos, em nosso bairro. Por maior segurança. E se é para ser como todos, continuou Shmuel a discutir intimamente com o pai de Atalia, a pergunta é: onde neste mundo poderia ser a terra dos judeus senão em Erets Israel, que foi sua única casa alguma vez no mundo? Uma terra onde há bastante espaço para dois povos, que poderiam nela viver um ao lado do outro, em amizade e cooperação? E quem sabe um dia ainda possam viver aqui os dois sob a bandeira de um socialismo humanista, de uma economia comum, de acordos federativos, e de justiça para todos os homens? [Judas, pp. 292-293] ***
Os que estão dispostos a mudar, os que têm a força para mudar, sempre serão vistos como traidores pelos que não são capazes de qualquer mudança, que têm um medo mortal de mudanças, não entendem o que é mudança e abominam toda mudança. Shaltiel Abravanel sonhou um lindo sonho1, e por causa desse sonho houve quem o chamasse de traidor. [Judas, p. 286]
Parece que o século XX sobressaiu nos dois casos. Regimes totalitários, ideologias mortíferas, chauvinismo agressivo, formas violentas de fundamentalismo religioso por um lado e, por outro, a idolatria por uma Madonna ou um Maradona. Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da humanidade: “o jardim de infância global”, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos. [CCF, p. 72]
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E mesmo supondo que Shaltiel Abravanel tenha razão em seu conceito de que todo o Estado nacional é uma tragédia e uma peste, mesmo que tenha razão ao dizer que em
A essência do fanatismo reside no desejo de forçar outras pessoas a mudar. A inclinação comum para fazer seu próximo melhorar, ou para corrigir sua esposa, ou para dire-
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cionar seu filho, ou para endireitar seu irmão, em vez de deixá‑los serem como são. O fanático é a menos egoísta das criaturas. O fanático é um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo. Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar. O fanático se importa muito com você, ele está sempre pulando em seu pescoço porque te ama de verdade, ou então está em sua garganta caso demonstre ser irrecuperável. [CCF, pp. 73-74] *** Pode‑se facilmente contrair fanatismo mesmo quando se está tentando vencê‑lo ou combatê‑lo. Basta ler um jornal ou assistir ao noticiário na televisão para ver quão facilmente as pessoas podem se tornar fanáticas antifanáticas, zelotes antifundamentalistas, cruzadas do antijihadismo. Por fim, se não conseguirmos vencer o fanatismo, tal-
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vez possamos ao menos contê‑lo um pouco. Como eu disse, a capacidade de rir de nós mesmos é uma cura parcial, a capacidade de nos vermos como os outros nos veem é outro remédio. A capacidade de existir em situações em aberto, até mesmo aprender a desfrutar de situações em aberto, aprender a desfrutar da diversidade, também pode ajudar. Não estou pregando um relativismo moral total, certamente não. Estou tentando desenvolver a necessidade de cada um imaginar o outro. Divagar em relação ao outro quando brigamos, fantasiar sobre o outro quando reclamamos, imaginar o outro exatamente no momento em que achamos que estamos 100% certos. [CCF, pp. 79-80]
Nota do editor dos trechos 1 Propôs a Ben-Gurion que, em vez em proclamar um Estado e entrar numa guerra que poderia levar à destruição da população judaica em Erets Israel, fizesse um acordo com os árabes para uma partilha não de território, mas de presença nacional no território comum.
Paulo Geiger é editor, membro do conselho editorial de Devarim e tradutor de obras de Amos Oz.
Sameach
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A BÍBLIA COMO LITERATURA Robert Alter completa sua monumental tradução da Bíblia Hebraica
David A. M. Wilensky Alter é a primeira pessoa a completar uma grande tradução em inglês de toda a Bíblia Hebraica sozinho.
Texto publicado em 21 de novembro de 2018 pela Jewish Telegraphic Agency – JTA.org – e reproduzido em português sob autorização expressa da JTA à Devarim. O texto não pode ser reproduzido sem a autorização por escrito da JTA.
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uando Deus começou a criar o céu e a terra, e a terra então era confusão e desperdício e trevas sobre as profundezas e o sopro de Deus pairava sobre as águas, Deus disse: ‘Haja luz.’ E houve luz”.1 Assim começa uma monumental nova tradução literária da Bíblia Hebraica pelo erudito Robert Alter, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Sim, “confusão e desperdício” – mais sobre isso depois. A maioria das traduções completas da Bíblia são feitas por equipes de tradutores. Alter é a primeira pessoa a completar uma grande tradução em inglês de toda a Bíblia Hebraica sozinho. Ele começou, apropriadamente, com Gênesis, publicado em 1997. Desde então, aos trancos e barrancos, ele traduziu vários outros livros da Bíblia. E no mês que vem2, sua tradução completa em três volumes será lançada, completando décadas de trabalho. “As versões de Alter não se destinam a substituir a versão do Rei James3; elas são destinadas a nos afastar de sua familiaridade, com o objetivo de nos ajudar a ver o texto bíblico mais de perto e com precisão”, escreveu o poeta e crítico literário Adam Kirsch.
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Os resultados foram amplamente adhebraica”, disse Alter. “Então peguei um Há duas abordagens mirados, mas também amplamente debahabituais para a Bíblia: dicionário e decidi que iria memorizá-lo.” tidos. O falecido romancista John Updike Isso prosseguiu por um bom tempo, ou ela é uma revelação não era fã, escrevendo no The New Yorker porque, como se vê, há muitas palavras sagrada ou ela é um que, ao tentar “alcançar a fidelidade absoque começam com alef. “Eu escrevia cada luta” ao original hebraico, Alter “estabelepalavra que não sabia, não importando o artefato histórico. ce um inglês bastante estranho”. quão obscura fosse, em cartões de memóMas Alter olhou para Mas outra romancista, Cynthia Ozick, ria, e eu as estudava”, ele disse. Alter ia toa Bíblia como arte. adorou a tradução dos Cinco Livros de dos os dias ao Bronx para praticar na pisMoisés. ta de atletismo, e o ônibus era um lugar “Os poetas vão se alegrar”, escreveu ela. “A linguagem perfeito para estudar. “Depois de um ano e meio, mal ende Alter ascende a uma pureza rara através de uma simplicontrei palavras que não conhecia”. cidade que iguala à simplicidade do hebraico.” O estudo da língua hebraica tornou-se parte central Ron Hendel, professor de Bíblia Hebraica e Estudos de sua identidade judaica, mas durante a maior parte de Judaicos na Universidade da Califórnia em Berkeley, que sua carreira acadêmica profissional ele permaneceu firmefoi o editor-chefe de The Hebrew Bible: A Critical Edimente ancorado no mundo do inglês e de outras literatution4, situa a tradução de seu colega num nível ainda ras ocidentais. Em 1962 ele obteve um doutorado em limais elevado. teratura inglesa em Harvard. Em 1967, ele se mudou para Alter fez “a melhor tradução da Bíblia para o inglês de a Universidade de Berkeley, onde está desde então, atualtodos os tempos”, disse Hendel, que lecionou cursos com mente como professor de literatura hebraica e comparada. Alter. “E fazer isso sozinho é uma conquista incrível.” Até a década de 1980, ele trabalhou em romances europeus, norte-americanos e da Israel moderna, pesquisanHebraico no ônibus do autores como Franz Kafka, Saul Bellow e S.Y. Agnon. E então veio a Bíblia. “Escrevi uma peça agressiva queixanAlter, de 83 anos, foi para o que ele chama de “uma tído-me de que os estudiosos da Bíblia passavam o tempo pica escola judaica” numa sinagoga afiliada ao Movimentodo caçando as palavras originadas no Acádio5 escondidas no texto, mas não sabiam como ler uma história”, disto Conservador em Albany, Nova York. Na época de seu se Alter. “Eles estudavam uma série de coisas úteis. Fatos bar mitsvá, ele não era um menino prodígio. históricos, arqueologia – eles pesquisavam algumas línguas “Eu conseguia ler o alfabeto hebraico, conhecia cerca antigas: Acádio e Egípcio. Mas estilo era algo que nunca de 35 palavras e consegui ler a minha haftará”, disse ele. era estudado.” “Depois disso, eu estava prestes a abandonar o hebraico Alter imaginou que a peça, publicada na Commentary6, completamente”. seria um pontinho, um pequeno blip em sua carreira. Mas duas sinagogas conservadoras da área se reuniram “Mas então comecei a receber uma imensidão de carpara oferecer estudos mais avançados. tas”, disse ele. Ele havia atingido um ponto nevrálgico. “Eu era um cara competitivo, então fiz um grande es“Eu tinha mais algumas ideias sobre o assunto, então conforço. Foi um curso sério”, disse Alter a J. numa entrevista tinuei nele.” em sua casa em Berkeley Hills, onde ele trabalha em um Então, em 1982, ele escreveu The Art of Biblical Narrapequeno escritório com uma ampla visão de Berkeley, da tive.7 Há duas abordagens habituais para a Bíblia: ou ela é Baía e de São Francisco. uma revelação sagrada cuja existência deve ser tomada pelo Enquanto estudava na Columbia University, ele conseu valor de face ou ela é um artefato histórico a ser dissetinuou estudando hebraico no Jewish Teological Seminar cado e contextualizado. do Movimento Conservador, um pouco acima na mesma Mas em The Art of Biblical Narrative, Alter propôs uma rua. E lá ele teve uma ideia. terceira via: analisar a Bíblia como uma série interconecta“Foi o tipo de coisa louca que você faz quando tem 18 da de obras literárias usando as ferramentas da análise lianos: eu decidi que queria ter domínio completo da língua
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A edição da Bíblia Hebraica, de Robert Alter, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley.
terária, tal como ele vinha fazendo com os romances ocidentais até aquele ponto de sua carreira. Na época isto foi revolucionário. Ele olhou para a Bíblia não como texto sagrado, não como história, mas como arte. O livro foi imediatamente reconhecido como sendo uma joia, foi saudado por críticos e colegas como sendo revolucionário. Ganhou o Prêmio Nacional do Livro Judaico de 1982 na categoria de “Pensamento Judaico”. Em termos de volumes acadêmicos, foi uma sensação de vendas. Foi impresso mais ou menos continuadamente desde que foi publicado. Hendel afirma que a abordagem literária de Alter para a leitura da Bíblia contribuiu significativamente para o modo como a Bíblia é ensinada hoje em contextos acadêmicos.
Uma encomenda improvisada Um livro sobre o estilo literário da Bíblia está muito longe de ser uma bela tradução em três volumes da coisa toda. Você espera que um compromisso de peso como esse tenha sido uma meta vitalícia. Mas Alter não se propôs a fazê-lo. Na verdade, o projeto foi mais ou menos um acidente. Um editor da Norton8 se aproximou dele para fazer uma edição crítica de “talvez algo sobre Kafka porque eu acabara de escrever um livro que envolvia Kafka”. Talvez algo sobre a Bíblia, disse Alter de improviso. Gênesis, talvez. “Contudo, há o problema que todas as traduções existentes estão realmente erradas”, disse ele ao editor. “Se eu
fosse fazer isso, eu teria que fazer minha própria tradução.” Alter disse, sem pensar duas vezes sobre onde ele estava se metendo. “Eu lia a Bíblia em hebraico desde a minha adolescência, e a beleza do hebraico falava comigo de todas as maneiras”, disse ele. “E eu queria ver se conseguiria refletir esta beleza em inglês, de uma forma melhor do que aquela disponível para os leitores de inglês até então.” O que nos traz de volta a “confusão e desperdício”.9 O termo hebraico é “tohu vavohu”. Em seu comentário, Alter escreveu: “Tohu por si só significa ‘vazio’ ou ‘futilidade’, enquanto que vavohu não aparece em nenhum outro lugar na Bíblia e foi cunhado para rimar com o tohu e reforçá-lo, um efeito que eu tentei aproximar em inglês por aliteração”. Daí, “welter and waste”. Compare a elegância de sua solução, trazendo para o leitor inglês a sonoridade da poesia original em hebraico, com a tradução da 1985 Jewish Publication Society de tohu vavohu: “unformed and void”.10 O Gênesis de Alter ficou melhor do que ele esperava e foi bem recebido. E ele me contou: “Então eu disse: ‘Acho que vou fazer mais um’”. Esse outro foi The David Story, que incluiu os livros de Samuel 1 e 2, em grande parte centrados na vida do rei Davi. Publicado em 2000, o David da tradução é um verdadeiro personagem literário, falho e heroico. Em 2008, Alter expandiu sua tradução de Gênesis e fez Os Cinco Livros de Moisés: Uma Tradução com Comentários. Em 2009 veio O Livro dos Salmos. Em 2011, Os Livros de Sabedoria: Jó, Provérbios e Eclesiastes. 2014:
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Israel Antigo: Os Antigos Profetas: Josué, Juízes, Samuel e Reis. 2016: Forte como a Morte é o Amor: O Cântico dos Cânticos, Rute, Ester, Jonas e Daniel. Suas traduções são lidas por uma ampla gama de audiências, judeus, cristãos e outros – acadêmicos e seus alunos, leitores de literatura, devotos do Bom Livro.11
fica. Alter, contudo, oferece uma nova tradução. Na história, Sansão carrega 30 dessas roupas não classificadas depois de golpear os homens que as usavam. Ao comparar o termo com a única outra ocorrência dele na Bíblia, Alter identifica-o como uma espécie de armadura – uma tradução que traz um novo significado à história. A imagem de Sansão carregando 30 conjuntos de armaduras reforça sua lendária força sobre-humana. Alter acredita que ele é a única pessoa que traduziu este termo com precisão. “Tenho 100% de certeza de que estou certo”, disse ele. Seu colega Hendel disse que Alter triunfa como tradutor e crítico. “Seu trabalho em ler a Bíblia será tão duradouro quanto sua tradução. São obras de gênio”, disse Hendel. “Serão parte de seu legado a longo prazo, tanto quanto as traduções.” Alter está confortável quanto a isso. “Um amigo me disse uma vez que a validade de um livro de crítica literária é de seis ou sete anos. Mas The Art of Biblical Narrative está em impressão contínua há 37 anos”, disse ele. E certamente uma tradução inteira da Bíblia estará estrelando por pelo menos tanto tempo. “Então está bem”, disse Alter, satisfeito.
“Eu queria ver se conseguiria refletir esta beleza em inglês, de uma forma melhor do que aquela disponível para os leitores de inglês.”
A visão geral The Hebrew Bible: A Translation with Commentary12 está orgulhosamente à mostra em uma mesa de centro na casa de Alter, e com um bom motivo. O produto final é um conjunto de caixas – bonito e colorido, com obras de arte adaptadas de uma série de dez tapeçarias projetadas no final dos anos 1970 pelo artista israelense Mordecai Ardon. O conjunto de caixas reúne todas as suas traduções anteriores, além de alguns livros que ele estava adiando – incluindo trabalhos que ampliam sua visão da Bíblia como literatura quase a ponto de ruptura, pequenos pedaços do quadro geral, mas uma tarefa difícil de traduzir. “Ouça, os primeiros nove capítulos de Crônicas 1 não são mais do que uma lista de nomes”, disse ele. “Você não pode chamar isso de literatura. E o que há para fazer como tradutor? Não muito além de transcrever os nomes. Você tem que fazer isso, porque você não pode decidir deixar de fora parte da Bíblia”. Alter também não tem em alta conta o Levítico, com suas longas passagens sobre a conduta sacerdotal e os procedimentos para o abate ritual. “Eu nem gosto de ir a açougues, e aqui estou eu traduzindo instruções para cortar os animais”, disse ele. Mas pergunte sobre seus favoritos, e Alter praticamente passa por todos os itens do índice. “Eu amo Gênesis”, ele começou. “E eu amo a história de Salmos e Davi. E depois há livros posteriores. Kohelet fala muito forte para mim. E Jó, claro, a poesia é incrível” ... E depois há seu orgulho pela tradução de uma palavra misteriosa na história de Sansão, uma que aparece apenas duas vezes na Bíblia: “halitsa”. É consenso que se refere a roupas, às vezes traduzidas como túnica ou simples vestimenta, mas há muito tempo que os tradutores têm bastante trabalho em identificá-la de forma mais especí-
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Notas do tradutor 1 No original: “When God began to create heaven and earth, and the earth then was welter and waste and darkness over the deep and God’s breath hovering over the waters, God said, ‘Let there be light.’ And there was light”. 2 Dezembro de 2018. 3 A King James Bible é uma tradução para o inglês da Bíblia (Hebraica e Cristã), publicada no século 17, que se tornou a mais utilizada versão da Bíblia para este idioma. 4 A Bíblia Hebraica: Uma Edição Crítica, coletânea não traduzida para o português e editada pela “Society of Biblical Literature”. 5 Língua semítica falada na antiga Mesopotâmia, pelos assírios e babilônios. 6 Revista mensal norte-americana, focada em religião, judaísmo e política. 7 Traduzido para o português e editado em 2007 pela Companhia das Letras, sob o título A Arte da Narrativa Bíblica. 8 W. W. Norton & Company, uma editora norte-americana. 9 Veja a nota 1: “confusão e desperdício” é “welter and waste” em inglês. 10 “Sem forma e vazia”. 11 No original “The Good Book”, que é um apelido inglês para a Bíblia. 12 A Bíblia Hebraica: Uma Tradução com Comentários ainda não traduzido para o português.
David A. M. Wilensky é correspondente da JTA. Traduzido do inglês por Raul Cesar Gottlieb.
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NADA MAIS SAMÊACH! Rabino Sérgio Margulies
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s eventos que descrevem a narrativa de Pessach começam com a anulação da história, conforme as palavras da Torá: “E um novo rei – que não conhecera Iossef [José] – se levantou sobre o Egito”. Iossef, que foi o segundo homem mais poderoso do Egito antigo e administrou os anos de fartura e de penúria, tornou-se desconhecido. Foi esquecido como se nunca tivesse existido. Este novo rei – um Faraó que de modo similar a tantos outros faraós – considerava-se divindade. Antes de deus1 nada poderia existir, senão somente deus (ou deuses). O Faraó, assim, anula a história prévia: o anterior a ele era desconhecido, como se inexistente ou irrelevante. A anulação da história é acompanhada do aniquilamento da memória. Isto destitui o senso de humanidade, pois tal como um indivíduo desprovido de sua memória perde a identidade e a capacidade de constituir vínculos, um povo sem memória fica desumanizado. Assim, a escravidão – na perversa ótica do Faraó – é coerente ao tratar desumanamente com os humanos desumanizados. O Faraó como divindade coloca-se além da condição humana. Neste processo a relação transcorre entre o escravocrata desumanizado e o escravizado desumanizado. Então surge Moshé [Moisés]. Ele é o ser humano que tenta resgatar o sentido de humanidade do povo escravizado. Surge como líder através da convocação divina. Deus que o convoca não tem face visível sendo assim o único verdadeiro não humano. É o Deus que, conforme relato da Torá,
A abertura do mar simboliza o rompimento da bolsa d’água no nascimento. Nasce um povo livre. A liberdade é repleta de incógnita. Diante das incertezas, este povo precisa constituir suas referências.
1 Em minúsculo para caracterizar o elemento idolátrico.
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se apresenta como o Deus dos patriarcas Avraham [Abrahão], Itschak [Isaac] e Iaakov [Jacob] valorizando as conexões que constituem parte essencial da memória. O diálogo entre Moshé e o Faraó fracassa. Não há como ser bem sucedido o apelo de liberdade de um ser humano dirigido a quem se considerava entidade superior à dimensão humana, não há como criar um canal de comunicação entre aquele que tem o respaldo da memória e quem a anula, não há elo de compreensão entre o ser humano que tem nome – Moshé – e aquele que por se crer entidade divina somente tem título – Faraó.
ro evaporar com a morte de seu primogênito. Por sua vez o povo judeu enxerga o nascimento. A abertura do mar simboliza o rompimento da bolsa d’água no nascimento. Nasce um povo livre. A liberdade é repleta de incógnita. Diante das incertezas, este povo precisa constituir suas referências. Faz isto por meio da antítese. As pirâmides – que apontam para o céu e acumulam riqueza fixa não utilizada – são substituídas pelo Monte Sinai em cujo topo a Torá é recebida para direcionar-se a terra, onde os seres humanos vivem. A riqueza da Torá é o ensinamento disseminado a todos, em qualquer lugar.
*** A pressuposta divindade do Faraó é testada no embate com Deus – verdadeiro e único – através das pragas. Algumas pragas afetam as fontes de sustento: água, rebanhos e plantações, além da praga da escuridão que cessa a luz solar essencial para o florescimento das sementes na terra. Estas pragas comprometem justamente o que Iossef havia zelado: o abastecimento. Assim, as pragas fazem ressurgir a relevância daquele que foi esquecido. A memória é restituída para que a história renasça. O Faraó, que antes fez desaparecer o passado, vê o futu-
*** E começamos a celebração do Seder. Recitamos a Hagadá. A palavra Seder significa ordem. A ordem é necessária para que em nosso turbilhão diário não sejamos escravos presos aos grilhões da imposição barbárica. Seder é ordem para que sejamos capazes de fazer face aos desvarios de nossa sociedade e para que não sintamos a aridez como se no deserto da vida nos encontrássemos. Seder é ordem para que nem tudo seja possível. Quando tudo é possível somos reféns do caos. Seder é ordem para que nos livremos do medo que o caos gera. Seder é ordem para reforçar os
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laços de convívio. Por isto, seguimos com complementar através de outras pessoas. Então surge Moshé ordem a leitura da Hagadá. Abrir-se para o outro exige – similar à tra[Moisés]. Ele é o ser Hagadá significa narrativa. Da palavra vessia pelo mar que se abriu – coragem. humano que tenta Hagadá, através das letras hebraicas, forAbrir-se genuinamente para o outro é um resgatar o sentido de ma-se o termo negued que significa neato de amor. Quem quer ser amo, não gação/oposição. Liberdade é poder conama. O Faraó – amo impositivo – não humanidade do povo tradizer e abraçar outra ideia sem que a ama. Quem genuinamente ama não busescravizado. Surge ordem – essencial para a preservação dos ca amo. Busca parceiro. como líder através da vínculos de convívio – sucumba. A narSeder é uma vivência de parceria com convocação divina. rativa aberta às conversas convida o quesamigos, família e comunidade. Com eles tionamento, daí o canto do manishtaná. compartilhamos tanto as histórias antigas Um canto que refuta o sistema faraônico fechado ao diáque pertencem a todos, quanto as novas que elaboramos. A logo questionador. Quem questiona são as crianças. Enhistória não contada deixa de existir. Não contar a história quanto as crianças livres cantam, as crianças da crueldade é reproduzir o Faraó. Contamos as histórias e assim, como vítimas do Faraó foram tragicamente mortas pela praga. ensina o escritor Isaac Bashevis Singer (1904-1991), não nos tornamos bestas. Sejam as bestas despóticas que emu*** lam o Faraó, sejam os bestializados resignados à condição Moshé, protagonista da narrativa contada, não tem seu de escravos. A fim de evitar a repetição dos erros cometinome mencionado na Hagadá para que ninguém receie dos por aqueles que combatemos e no intuito de não inem ser ofuscado. O importante são os ensinamentos que corporar a atitude daqueles contra os quais lutamos, cana liderança de Moshé transmite para que cada um exerça tamos avadim hainu – fomos escravos. seu potencial. A liberdade convoca para nos aperfeiçoarmos abraçando um propósito. A liberdade vem acompa*** nhada da responsabilidade, sem delegar a alguém o que Tal como o povo hebreu ao longo de sua jornada pelo denos cabe. Tarefa difícil e, por isso, requer apoio. Este apoio serto reclamava, nós também frequentemente reclamaé representado pela quebra da matsá. Um pedaço é esmos. Ora reclamamos de modo justificado, ora simplescondido. Procuramos este pedaço tal como buscamos nos mente por ingratidão. E reclamamos tão mais intensamente
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com aqueles que nos dão liberdade – nosA ordem do Seder não se mescla com o futuro projetado entresos parceiros de vida – e menos, por óbvio laçando as histórias das gerações. Nestas é linear, o passado temor, com os que exercem seus papéis de histórias, além de narradores, nos tornalembrado se mescla modo similar a um Faraó. Para que o anmos os personagens. As comidas típicas com o futuro projetado como matsá, marror e charosset represenseio de liberdade flua com o senso de gratidão, cantamos daienu – isto nos basta. tam situações vivenciadas pelos escravos à entrelaçando as Recitamos Eliahu hanavi [o profeta histórias das gerações. busca da liberdade. Incorporamos – liteElias] cuja mensagem, conforme sugere ralmente colocamos no corpo – a históNestas histórias, nossa tradição2, aproximará as gerações ria que, deste modo, não é somente a desalém de narradores, fortalecendo os vínculos. Vínculos são crição do que aconteceu, e sim nossa prónos tornamos os reforçados através das histórias compartipria narrativa. lhadas: de um lado, as antigas que criam personagens. uma memória que nenhum Faraó conse*** gue eliminar, e, de outro lado, as novas que vão sendo criaO Seder pode se tornar longo, por isso as crianças são condas. Se do Faraó embalsamado na pirâmide há somente vidadas a procurar o pedaço de matsá escondido – afikohistórias antigas, já inspirados por Moshé, sepultado em man – a fim de se manterem despertas. Uma vez que o Selugar desconhecido, criamos novas histórias. Novas históder descreve nossa própria narrativa vale refletir por que rias que as novas gerações livremente contam para as antitantos carecem da determinação de construir sua histógas gerações em sincronia com as histórias que as antigas ria sob os pilares de referências sólidas e cedem à tentação gerações contam para as novas gerações. Quem sabe Eliahu das soluções fáceis. Estas soluções fáceis são seduções que hanavi, sentado invisivelmente na cadeira a ele destinada escravizam a mente. Com a consciência despertada pelo 3 na mesa do Seder, se regozija em ver novas Hagadot senalarme da história lembramos, contamos e criamos. Nada do elaboradas através do elo entre as gerações realizando mais samêach – feliz – do que a liberdade de lembrar e conassim o trabalho que seria anunciado por ele. tar, de sonhar e criar. A ordem do Seder não é linear, o passado lembrado 2 Tanach, Malachi [Malaquias] 3:24. 3 Plural de Hagadá.
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O Rabino Sérgio R. Margulies serve na ARI-Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro e leciona no IIFRR-Instituto Ibero-Americano de Formação Rabínica Reformista.
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CONTINUIDADE E ASSIMILAÇÃO De Shtisel a Gerson Cohen
Rabino Dario Bialer Manter e copiar o judaísmo dos avós para transmitir aos filhos absolutamente não é o modelo predominante na história judaica. Como posso ser bem-sucedido em transmitir a tradição do passado para o futuro se esqueço do presente?
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htisel virou um sucesso de audiência logo após sua aparição no Netflix e, como tantas vezes acontece na comunidade judaica, não há consenso. Muitos adoraram acompanhar as histórias em que Akiva, Shulem e Giti, entre outros, vivem o amor, as ilusões e as perdas, e para outros foi chocante a rigidez com a qual mulheres e crianças são tratadas no seio dessa família haredi (ultraortodoxa) do bairro de Geula em Jerusalém.1 Já eu me encontro entre os que se deliciaram em ir descobrindo como os personagens de Shtisel vão pouco a pouco manifestando suas imperfeições, seus anseios e temores, numa trama que poderia perfeitamente estar acontecendo numa sociedade secular, mesmo que com costumes e prioridades bem diferentes. Existe uma evidente distância entre valores que entram em jogo na comunidade haredi e na nossa, mas os relacionamentos familiares, a educação, o bem-estar dos filhos e a busca de conquistar um lugar no mundo, são temáticas que nos perpassam a todos. Por isso, penso eu, Shtisel é tão bem-sucedido em aproximar dois mundos tão diversos. Mas, independentemente de gostarmos mais ou menos do seriado, de nos envolvermos e comovermos com as histórias de amor, humor e drama, Shtisel apresenta um modelo que transcende aquele que vive naquele círculo.
1 A ultraortodoxia chegou a Israel nos anos 1930, quando o rabino bielorrusso Avraham Karelitz (conhecido como “Chazon Ish”, que é o título de seu mais influente livro) se instalou na cidade de Bnei Brak, atraindo muitos haredim para o mesmo local. Ainda hoje os haredim vivem confinados em cidades ou bairros de população uniformemente haredi.
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Um midrash do segundo século da pa Oriental e eram a roupa corrente num Gerson Cohen fala era comum, formulado por Bar Kapapassado bem recente, de não mais do que sobre a benção da ra, diz: Por conta de quatro fatores o Povo 250 anos (um período curto no confronassimilação na vida de Israel foi libertado da terra do Egito: to com os 3.000 anos de judaísmo). judaica. Para ele, a eles não alteraram seus nomes [mantiveram Também a questão dos nomes não é seus nomes hebraicos]; eles não mudaram o muito simples, se bem que menos evidenassimilação na dose seu idioma; não se envolveram em maledi- certa é positiva. Há que te. Quantos Moisés vocês acreditam que cências e se mantiveram afastados da licenhá em Mea Shearim, Geula ou Bnei Brak? haver uma certa dose ciosidade sexual. (Vaikrá Rabá 32 / Shir Muitos, não é mesmo? Mas acontece que de inoculação seletiva. Hashirim Rabá 104) os nomes Moisés, Aaron ou Pinchas eram Uma versão posterior deste midrash já os nomes mais chiques da aristocracia do reduz os fatores a apenas três: que mantiveram seus nomes; antigo império egípcio; a filha do Faraó nomeou o granque continuaram falando o mesmo idioma; e que mantide líder do nosso povo conforme a cultura na qual ele foi veram a sua forma singular de vestir. criado. Ao focar na preservação dos hábitos e costumes, Tanto a primeira como a segunda versões caminham os haredim demonstram a sua legítima preocupação com por uma linha ideológica recorrente para explicar como a continuidade do judaísmo. Mas seguramente a preservao judaísmo consegue se perpetuar de geração em geração, ção não é o único caminho para a continuidade. muitas vezes em contextos bem adversos (como o do peVamos pensar apenas no idioma. Quando, fugindo do ríodo da escravidão no Egito). Esta linha associa a continazismo, o judeu chega na América e forma suas novas nuidade judaica com tradição, com repetição, com consersociedades, a grande maioria dos judeus queria ardentevação dos costumes e preservação dos hábitos. mente integrar-se à nova nação e não criar barreiras entre Não é por acaso que a segunda formulação reforma o eles e os demais. Os filhos dos imigrantes continuaram a midrash, abandonando os aspectos espirituais da primeira falar ídiche, já que esta era a linguagem de seus pais. Já os redação (maledicência e licenciosidade) e mantendo o dos netos não tinham mais serventia para o idioma e o ídiche costumes (nomes e idioma) e ainda reforçando este conperdeu sua razão de ser, apesar de sua beleza e da paixão ceito com mais um item (roupas). de seus professores. Se vamos levar a mensagem do midrash ao pé da letra, Onde o ídiche ainda está vivo? Ora, entre os grupos Shtisel, que representa tão bem o modelo de manter tudo que preservam um esquema social semelhante ao que tiigual para garantir a continuidade, tem muitos problemas! nham em seu lugar de origem. Os judeus que ainda quePois a verdade é que nem o idioma, nem as roupas rem viver atrás das paredes continuarão a utilizá-lo. Para nem os nomes foram mantidos ao longo da história jueles, o ídiche não será um hobby, mas oxigênio e cotidiadaica. E mesmo assim nos consideramos todos, indepennidade. E também um símbolo de resistência a um mundentemente da linha religiosa ou cultural, herdeiros das do que eles consideram ameaçador. tribos libertadas do Egito. Alguns anos atrás um colega meu passeava com sua faOs haredim falam entre si o ídiche, idioma que não mília pelas ruas de Jerusalém. Era uma tarde de verão, inveio do Sinai e sim da Europa da Idade Média. O Talmud suportavelmente quente, estavam esperando abrir o sinal foi escrito em aramaico, idioma semítico próximo ao hepara continuar seu passeio quando o pequeno filho do braico, mas de forma nenhuma idêntico a ele. Até o formeu amigo, vendo um homem ultraortodoxo todo agasamato das letras foi modificado. A escrita do hebraico hoje lhado perto deles, pergunta: utiliza letras muito diferentes das letras hebraicas antigas. − Papai, aquele homem não sente calor? Evidentemente as roupas também mudaram e muito. − Não sei, por que não vai e pergunta para ele? Moisés não subiu ao Monte Sinai com um capote preEntão a criança de seis anos vai, puxa o paletó do hoto e um solene shtreimel (chapéu de pele), conforme se mem e lhe pergunta: vestem os haredim retratados em Shtisel. As atuais rou− O senhor não está com calor? pas dos haredim têm origem no clima gelado da Euro− Calor? Eu? Não! Eu estou ótimo, estou ótimo!
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A resposta daquele homem não é uma anedota engraçada e sim uma declaração de princípios de alguém que rejeita o mundo que o cerca. Em sua mente e espírito ele não está no verão de Jerusalém do século 21, mas no frio da Bielorussia do século 18. O historiador israelense Moshe Samet (1934-) argumenta que a modernidade trouxe consigo duas poderosas bandeiras: o universalismo e o secularismo. Esse processo acabou penetrando nas bases da sociedade judaica tradicional gerando duas grandes tendências: a primeira se apegou à antiga civilização rabínica, enquanto a segunda se apegou à modernidade, adaptando-se a ela em seu estilo de vida e em muitos casos mudando-o por causa dela. Sobre esse tema dissertou Gerson Cohen (1924 1991), historiador e professor na universidade de Columbia, diretor do Jewish Theological Seminary e uma das mentes mais brilhantes que o judaísmo norte-americano produziu no século passado, numas aulas proferidas no Hebrew Teachers College em Massachusetts no ano 1966, e quase sem querer isso se tornou o seu escrito mais celebre: “A benção da assimilação na história judaica”. Ele diz que, historicamente, há dois modelos possíveis para pensar a vida judaica. Um modelo é o isolamento. Viver fechado, para dentro, olhar apenas para o meu umbigo, minha família, meu clã, meu grupo. Na história judaica este
é o modelo da guetoização. Encastelar-se nos costumes do passado como garantia para a continuidade. Mas há, afirma Cohen, um outro modelo muito presente na história das comunidades judaicas e que ele afirma ser mais sustentável, que é o que ele chama o modelo da assimilação; uma estratégia da abertura com manutenção de identidade. Penso eu que isto faz sentido, pois, apesar de podermos controlar (ao menos parcialmente) o nosso entorno, seguramente não conseguimos controlar o entorno onde não vivemos. Então mais cedo ou mais tarde vamos ter que nos adaptar a um outro ambiente exterior e, então, é melhor estarmos abertos do que fechados. Nossa festa de Purim não nos mostra exatamente isto? Caso Mordechai não estivesse integrado no palácio do rei, Ester não seria a rainha, os judeus não saberiam da trama de Haman e o desastre seria inevitável. Gerson Cohen fala sobre a benção da assimilação na vida judaica. A benção, não a maldição. Para ele, a assimilação na dose certa é positiva. Há que haver uma certa dose de inoculação seletiva, afirma ele. A escolha da palavra “inoculação” é emblemática. Esta palavra tem um contexto na medicina, onde indica o que se coloca na vacina para gerar anticorpos no seu organismo. Ou seja, é uma parte do mundo exterior que trazemos
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para dentro do nosso corpo com o objeti200 anos atrás numa cidade da Europa O judaísmo deve ser vo de fortalecer nossas defesas contra uma relevante aqui e agora Central na Jerusalém judaica e indepeninvasão destrutiva. dente dos nossos tempos, não garante a para nós. Se for apenas Vejam que não se pode entender o jucontinuidade e, ao contrário, gera muitas uma homenagem para vezes, conforme mostra Shtisel, mais andaísmo rabínico, do qual o Talmud é o principal emblema, sem a cultura grecogústia do que felicidade. os nossos pais e uma -romana. É importante notar também que o herança para os nossos A cultura grega permeia todo o Talgueto foi, na maioria dos casos, uma imfilhos, vamos fracassar. posição aos judeus do passado. Eles não mud. Nos nomes, nas palavras, nos personagens e também em algumas instituiescolheram aquele modelo de sociedade, ções, tais como o sanhedrin, o conselho de sábios com poapesar de terem conseguido não apenas sobreviver, mas deres legislativos e judiciários, que é um conceito grego, também florescer sob a opressão. Desenvolveram algumas definido por uma palavra grega. Ou o prozbul, regra para coisas muito bonitas, sendo, talvez, a principal delas uma facilitar os empréstimos pessoais, instituído no período fisociedade solidária e também uma halachá que exercia um nal do Segundo Templo, que traz para o judaísmo não apepapel importante para a coesão social. Mas é fato que no nas um rótulo grego, mas também uma visão societária dimomento em que as portas foram abertas a maioria optou ferente da estabelecida pelo Tanach. Até mesmo as regras por deixar aquele modelo. Ou seja, o isolamento não gada mais querida tradição rabínica – a hermenêutica, as 13 rantiu a continuidade. formas de interpretação que ensina Rabi Ishmael, derivam A estratégia da “inoculação seletiva” nada tem de orida cultura grega. É tão forte a influência do grego no peginal! A guetoização voluntária retratada na série Shtisel ríodo talmúdico que temos um dicionário inteiro de tertem mais originalidade, é mais revolucionária do que a 2 mos e conceitos gregos incorporados à lei judaica. integração defendida por Gerson Cohen e praticada pela Vejam a Espanha Islâmica onde viveram expoentes grande maioria do mundo judaico. Pois manter e copiar como Saadia Gaon – que traduziu a Torá ao árabe –, Maio judaísmo dos avós para transmitir aos filhos absolutamonides – que escreveu em árabe e combinou o pensamente não é o modelo predominante na história judaica. mento aristotélico com o judaico –, Nachmanides – que Até porque as chances de dar certo são escassas. Como debateu com os expoentes do cristianismo católico –, posso ser bem-sucedido em transmitir a tradição do pasYehuda Halevi – que nos legou a história dos Kuzari, um sado para o futuro se esqueço do presente? povo asiático que se converteu ao judaísmo pela força dos O judaísmo deve ser relevante aqui e agora para nós. argumentos e não das armas. A lista de inoculações que tiSe for apenas uma homenagem para os nossos pais e uma vemos em nossa história é gigantesca. E até mesmo em asherança para os nossos filhos, vamos fracassar. Pois heransuntos mundanos, pois ninguém acredita que no Sinai coças são um presente do passado, mas para serem transmimíamos guefilte fish ou burekas de queijo, não é mesmo? tidas adiante devem ser conquistadas. É necessário admiCada modelo tem seus custos e seus benefícios. O que nistrá-las e atualizá-las, a fim de evitar que percam valor (e se deve fazer é avaliar, a cada momento de nossa história, isto vale tanto para heranças materiais como espirituais). qual modelo resulta num saldo francamente positivo. AsCada exegeta, cada comentarista, cada sábio que intersim como na história de Mordechai, no período Talmúpretou a lei no seu tempo, tentou reformular um judaísdico e na Espanha Islâmica houveram momentos em que mo relevante para sua geração. Para ele. Para seu entorno. a assimilação na dose certa foi fundamental. Não estaríaPara seu tempo. Judaísmo não é um discurso para a posmos aqui sem ela. teridade. É para aqui e agora. Cada geração tem a responTudo isto nos leva à constatação que continuidade não sabilidade de assumir os vazios, as ausências, as riquezas, é sinônimo de repetição. Reproduzir o estilo de vida de os valores, os desafios, tudo como se estivesse sendo descoberto agora mesmo. Isso é o que chamamos de “revelação continuada”. Ou, conforme a expressão rabínica favo2 A dictionary of Greek and Latin legal terms in Rabbinic Literature, do Rabino Darita de Gerson Cohen: “Dibra Torah behovê; dibru hachaniel Sperber, editado pela Universidade Bar Ilan em 2012.
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chmim behovê” (A Torá falou no presente; os sábios falaram no presente.) Em Os Judeus e as Palavras Amos Oz se dirige aos “Judeus modernos, oscilando nas bordas entre a fé e a apostasia, fizeram perguntas mais sombrias: ‘identidade’ é um conceito moderno; suas crises são crises modernas. Tão logo você deixa as certezas infantis da tradição judaica, o abraço paterno e o aprisionamento da educação rabínica, a conjunção maternal de nutrição e ritual – enquanto ainda se lembra deles – você se descobre às margens solitárias da atormentada modernidade, com todas as suas simulações dinâmicas e perdas irrecuperáveis”. E agora vem o mais relevante do discurso do escritor israelense: “Uma geração portanto espremida entre a velha sinagoga e o novo mundo amplo, entre autoridade e incerteza, entre Iluminismo e Holocausto. Todas essas trajetórias interceptadas pela fé e sua rejeição. Haim Nahman Bialik foi pego nesse labirinto, como também foi Isaac Bashevis Singer e quase todo pensador e autor dessa primeira grande massa de judeus moderna” (p. 47). Há uma tensão entre o gueto que afasta e o mundo moderno que nos absorve e dissolve a individualidade, numa massa amorfa, global e uniforme.
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A esses antagonismos o judaísmo sempre soube responder com Torá e, fundamentalmente, com comentários, com palavras comprometidas com o tempo presente. Essa é a nossa responsabilidade. Construir um judaísmo relevante para o nosso tempo, nosso contexto e nossa sociedade. Que fale nossa língua, que nos identifique, nos interpele e nos comova. Que mexa conosco. Isso é um judaísmo relevante hoje. A continuidade do judaísmo só pode ser consequência disso. Nunca pré-requisito e nunca dogma. Devemos aprender a confiar mais nas próximas gerações. Não devemos lhes dar tudo bem mastigado como quando eram recém-nascidos. Confiar nas novas gerações. Confiar no valor desse legado, e lhes permitir que interpretem e interpelem do seu jeito. Essa é a “benção da assimilação” que Gerson Cohen citava. Essa é a vida. Essa é a arte que se transforma em obra quando nos atrevemos a desafiar o nosso pai e damos o passo imprescindível para sair do gueto. Dario E. Bialer é rabino e serve na ARI-Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro.
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DAS DEZ PRAGAS AOS DEZ MANDAMENTOS Ricardo Gorodovits e Raul Gottlieb
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ensem num ator de teatro. A cada noite encena a mesma peça. Se ele o fizer de forma mecânica, atendo-se ao texto e às marcações anteriormente ensaiadas e exaustivamente repetidas, sem buscar o elemento novo que fará daquela apresentação algo especial e diferenciado, não dará, nem ao público, nem a si mesmo, o melhor de si, sua mais genuína emoção. Não haverá verdadeiro prazer, nem crescimento. Não se criará um laço real entre a narrativa e os que dela participam, seja como atores, seja como espectadores. Não será diferente no nosso Seder de Pessach, assim como não será diferente na celebração de todas as festas judaicas do calendário. Buscamos a cada ano novas perspectivas que nos mantenham conectados com as narrativas que conhecemos tão bem, que nos exijam reflexão e nos permitam cumprir a orientação que recebemos: sentirmo-nos como se cada um de nós tivesse também saído do Egito em direção à liberdade. Recitar a Hagadá meticulosamente e cumprir todas as etapas do ritual não será suficiente para satisfazer o legado da nossa tradição. A cada ano, a cada festa, temos que introduzir novas reflexões. Também podemos inovar no ritual, mantendo, contudo, a centralidade temática de cada festa. Uma das abordagens possíveis sobre a festa de Pessach – que celebra a saída dos hebreus do Egito – é a sua ligação com a festa de Shavuot – que celebra a entrega dos dez mandamentos no Sinai. Esta ligação está consagrada em nossa tradição pela contagem do Omer, dos 49 dias entre as duas festas.
Os Dez Mandamentos são o contraponto referencial das dez pragas, estas na negação e destruição de uma sociedade injusta, aqueles na afirmação e construção de que há um caminho para a fruição de uma sociedade plena em justiça.
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A cada noite, desde o segundo dia de Pessach até o dia anterior a Shavuot, se introduz em nossas orações uma frase (precedida por uma brachá, para denotar a intencionalidade do ato) que indica o progresso da contagem dos dias, criando assim uma corrente indissolúvel entre as duas festas. Nenhum outro par de festas de nosso calendário tem esta ligação. Até mesmo nos Iamim Noraim (os “dias temíveis” entre Rosh Hashaná e Yom Kipur) não se faz uma contagem. O que, então, terão Pessach e Shavuot em comum, para merecerem esta ligação? Uma resposta talvez esteja nos dois célebres “números dez” presentes em ambas: as dez pragas e os dez mandamentos. Pensemos, portanto, nas duas coleções de dez itens. As dez pragas representam a destruição do universo imperial e escravizador egípcio, no qual os hebreus estiveram imersos por centenas de anos. A desconstrução daqueles deuses, de seu rei, de sua riqueza e de seu poder. As dez pragas são a negação do Egito, desse estereótipo do mal que se manifesta pelo esmagamento das liberdades indivi-
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duais que o Egito simboliza na Torá. Uma cultura em cujo poder, se não estivermos solidamente sustentados por outro conjunto de referências, acabamos por acreditar. E esse novo conjunto de referências é encontrado ao final da contagem do Omer: os Dez Mandamentos. Apesar de serem considerados mitsvot, e portanto obrigações, em hebraico os Dez Mandamentos são denominados Asseret Hadibrot: as dez declarações (literalmente “os dez dizeres”). São os elementos de construção de um novo quadro referencial, ao qual somos obrigados, não pela punição possível por eventuais transgressões, mas pelo pacto que firmamos ao aceitá-los e por sua essência positiva para autoconhecimento e para a plenitude da convivência com o outro. Os Dez Mandamentos são o contraponto referencial das dez pragas, estas na negação e destruição de uma sociedade injusta, aqueles na afirmação e construção de que há um caminho para a fruição de uma sociedade plena em justiça. Parece natural, portanto, buscar um comparativo entre ambos, e, de fato, ao longo dos tempos muitos compa-
rativos foram feitos, tal como o do Rabi- O Shabat é um momento cômodo. Diz a Torá: “… toda a água do no Michael Shelomo Bar-Ron.1 de mergulho do homem Nilo se transformou em sangue … E todos Os comparativos que conhecemos os egípcios tiveram de cavar perto do rio em sua percepção de analisam as duas listas na mesma ordem. para beber água, pois não podiam beber Contudo, nos parece mais interessante finitude, de identificação a água do Nilo …”. Os egípcios não poque elas sejam comparadas na ordem indiam beber a água do Nilo, mas podiam com toda a Criação à versa, pois, enquanto as pragas crescem sua volta, conclamando beber água de outras fontes. Os peixes em intensidade até a destruição final da morreram, mas havia outro tipo de copara que façam parte opressão faraônica, os mandamentos comida disponível. de seu mundo também meçam no auge e decrescem em relevânAssim, o primeiro par de nossa lista coo outro, o diferente, o cia, caminhando desde uma primeira soloca lado a lado duas situações desconforlene afirmação universal até um mandaestrangeiro, bem como táveis, mas nenhuma delas causa um mal mento eminentemente íntimo e pessoal. irreparável. Os mandamentos chegam ao todos os seres vivos. Isto faz sentido, pois as construções refim recomendando o controle aos maus almente caminham de dentro para fora. pensamentos, que podem limitar a capaInvariavelmente começa-se com as bases na qual o edifícidade de cada indivíduo assumir o controle de seu desticio se apoia e se termina com o acabamento exterior das no; as pragas começam com um simples alerta: a opressão paredes. Já as destruições trilham o caminho inverso: cotem seu preço para todos os que com ela são coniventes. meça-se pelas muralhas exteriores e vai-se avançando peNão mentir – Sapos [M9 − P2] las várias camadas, até chegar à desmontagem do centro. Assim que nos parece razoável que, ao buscar um paraO segundo degrau da escada coloca lado a lado o manlelo entre as pragas e os mandamentos, o façamos de fordamento de não prestar falso testemunho (ou seja, não ma invertida, comparando o décimo mandamento com a mentir) com o da proliferação e invasão dos sapos nas caprimeira praga, depois o nono mandamento com a segunsas do Egito. da praga e assim por diante até o ápice, onde estarão lado Diferente da inveja, a falsidade causa um efeito pera lado o primeiro mandamento e a décima praga. nicioso na sociedade. Não se restringe àquele que mente, Foi o que fizemos a seguir. mas atinge um grupo mais amplo de pessoas, que podem Não invejar – Sangue [M10 − P1]2 tomar atitudes equivocadas a partir da manipulação do mentiroso. Contudo, para que ela tenha este efeito é preO décimo mandamento – não invejar, não cobiçar – ciso que se acredite na mentira e isto nem sempre aconteregula algo que não causa dano algum a terceiros. O que ce, pois fontes fidedignas podem adquirir mais valor. pode sim causar o dano é alguma ação deletéria provoOs sapos estavam em toda parte: “… entrarão em seu cada pela inveja. Caso os mandamentos anteriores (não palácio, em seu quarto e em sua cama, e nas casas de seus cormentir, não roubar, não trair, não assassinar) sejam cumtesãos e de seu povo, em seus fornos e suas panelas …”, descrepridos, a inveja se torna inócua para a sociedade. Ela cauve a Torá. E isto é algo que efetivamente causa um grande sa um sentimento ruim na pessoa invejosa e pode gerar a estorvo. Mas, tal qual a mentira, os sapos podem ser afasimobilidade daqueles que veem nos outros a razão para tados e mantidos à distância. suas dificuldades. Não roubar – Piolhos [M8 − P3] Da mesma forma, a primeira praga – as águas do Nilo se tornaram sangue – também não foi mais que um inNa terceira praga a terra, a base do sustento humano, se transforma: “… e insetos cobriram as pessoas e os animais; 1 http://www.torathmoshe.com/2015/02/ten-plagues-for-ten-statements-at-sinai/ todo o pó da terra se transformou em piolhos por toda a ter2 Para maior clareza, numeramos os pares adotando M para denotar os mandamenra do Egito … a terra ficou arruinada por causa dos insetos”. tos e P para as pragas.
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Em vez de alimentos a terra passa a produzir coisas imprestáveis e repugnantes. O roubo tem um efeito semelhante. O contato, a colaboração e a solidariedade entre as pessoas deve produzir benefícios para todos. Mas quando as relações resultam na subtração de propriedade a interação solidária entre as pessoas passa a ser pautada pela desconfiança e se torna imprestável e até mesmo repugnante. Ao chegarmos neste terceiro degrau, já podemos perceber uma sociedade que se dissolve e se torna inviável, e outra que, respeitadas as regras estabelecidas, compõe um conjunto harmônico e viável.
O terceiro mandamento cria, portanto, um homem livre, com responsabilidades individuais bem definidas. E a liberdade é a base das sociedades prósperas, imunes à destruição econômica das sociedades opressoras.
Não trair – Enxame de insetos/animais [M7 − P4] É difícil determinar a natureza exata da quarta praga, pois a Torá a descreve como “mistura” (arov), mas não define o que compõe este coletivo. Nossa tradição a define como sendo de animais selvagens, mas ora os trata como “feras”, ora como animais peçonhentos. Provavelmente esta imprecisão é intencional e denota grupos de animais descontrolados que saem de seu comportamento habitual. Da mesmo forma, o adultério é uma metáfora de toda situação na qual o humano deixa prevalecer seus instintos animalescos em detrimento do controle que deve exercer para permitir a vida respeitosa numa sociedade que colabora harmonicamente para o bem comum. O mandamento contra a traição visa impedir que a desconfiança prevaleça nos relacionamentos e bloqueie a cooperação que faz o ser humano se distinguir dos animais. Aprendemos que cada um é responsável pelo outro, estabelecendo-se um elo de confiança construtiva. Responsabilidade em hebraico é “arevut”, mesma raiz de “arov”, quem sabe já sinalizando que a quarta praga se vincula à quebra da responsabilidade e da solidariedade humana.
Não matar – Peste [M6 − P5] A grande maioria das traduções da Torá traduz o sexto mandamento como sendo “Não matarás”. Porém, a tradução fiel para este mandamento é “Não assassinarás”.
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O assassinato está um degrau acima da traição, por causar um dano irreversível, atentando contra o bem mais precioso do ser humano. Igualmente os efeitos do assassinato são mais agudos que os da traição: a desconfiança nos relacionamentos e a cessação da cooperação entre as pessoas é muito mais intensa. Em paralelo ao assassinato temos a quinta praga, a peste entre os animais, uma traição da natureza que mata os seres que estão sob o cuidado dos homens, que se rendem ao desespero diante de sua impotência para a preservação da vida.
Honrar aos pais – Sarna (úlceras) [M5 − P6] Desde a terceira praga – oitavo mandamento trilhamos um caminho que, do lado dos mandamentos, tratou de controlar as ameaças à solidariedade e à cooperação e do lado das pragas fez crescer a desconfiança na sociedade opressora. Chegamos agora ao par quinto mandamento e sexta praga. O mandamento trata do ponto máximo na solidariedade, que é o relacionamento entre uma geração e a que a precedeu. O instinto faz com que os pais cuidem dos filhos de forma natural. Mas quando os pais envelhecem a necessidade deste cuidado troca de sinal e sua concretização já não é natural, justificando, então, que haja um mandamento que estabeleça regras de conduta neste relacionamento. Há portanto uma relação que se torna completa pela existência em dois planos distintos, um mais tangível, outro intangível. Um por elos naturais, outro por elos construídos pelo homem. Já a praga parece ter dupla função. Por um lado, impede definitivamente qualquer tipo de interação entre os humanos, pois se todos estão doentes ao mesmo tempo não há quem cuide do outro. Por outro, agravando esta situação, a sarna provoca chagas e ulcerações, que, apesar de tomar a todos, faz com que um não queira olhar para o outro. Portanto, há um duplo impedimento no estabelecimento de qualquer relação, novamente um tangível e outro intangível, exatamente no caminho oposto do que o mandamento estimula.
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Lembrar e guardar o Shabat – Granizo [M4 − P7] O par quarto mandamento – sétima praga e o par que vem a seguir, terceiro mandamento – oitava praga, guardam algumas semelhanças. Ambos têm, a nosso ver, um foco na capacidade humana de associação em sociedades organizadas, que buscam simultaneamente a riqueza, por meio de sua livre capacidade criativa e produtiva, e o bem estar social, equilibrando a ocupação do espaço e do tempo, o exercício do controle sobre a natureza alternado com a percepção de fazer parte deste mesmo tecido natural, no que aqui optamos por denominar como coesão social. O mandamento de lembrar e guardar e lembrar o Shabat é um dos mais revolucionários da Torá. A noção de que as pessoas podem ter (ou precisam de) uma semana com seis dias produtivos e um de descanso é contraintuitiva, visto que o ciclo da natureza é incessante (sendo então incessante a necessidade de cuidar dos campos e dos animais) e que se acumularia mais riqueza, que se traduz em
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mais bem-estar quanto mais elástico for o horário produtivo. Mas o Shabat não se define apenas pela questão econômica, pela ação individual e pela interrupção das tarefas produtivas. O Shabat é um momento de mergulho do homem em sua percepção de finitude, de identificação com toda a Criação à sua volta, conclamando para que façam parte de seu mundo também o outro, o diferente, o estrangeiro, bem como todos os seres vivos. A parada semanal é algo que nenhuma outra cultura da antiguidade abraçou. Os romanos tachavam os hebreus de preguiçosos, por conta do Shabat. Mesmo assim, os hebreus dobraram a aposta criando um ano inteiro de descanso para a terra após seis anos de cultivo. É a extensão do conceito a uma parcela ainda mais ampla da natureza, sua porção inanimada. Todos reconhecem hoje os benefícios e a necessidade da pausa na produção, tanto para as pessoas como para a terra. Mas nem todos percebem que o Shabat está muito além desta pausa, reproduzindo em si um microcosmo do
conceito de coesão social que mencionalavra humana, em lugar de utilizar-se esta A opressão sempre mos acima. terá um fim, enquanto voz para tecer a melodia compartilhada Do outro lado, a sétima praga tamda coesão social. que a liberdade bém está diretamente ligada à estrutura O terceiro mandamento cria, portantriunfará, por mais social e à economia. Só que com o sinal to, um homem livre, com responsabilitrocado. O desastre provocado pelo gradades individuais bem definidas. E a liatribulado e doloroso nizo foi total: “Por toda a terra do Egito o berdade é a base das sociedades próspeque seja o caminho. granizo destruiu tudo o que estava exposras, imunes à destruição econômica das to, fosse humano ou animal; também dessociedades opressoras. truiu toda a erva do campo e despedaçou todas as árvores”. Não idolatrar imagens – Escuridão [M2 − P9] Com o granizo, a inexistência da coesão social da sociedade opressora tornou-se definitiva, não haveria mais volta. Estamos a um degrau do ápice. O edifício da sociedaO empobrecimento material e espiritual causado pela inde justa está quase todo pronto ao mesmo tempo em que sistência da manutenção do sistema repressor e controlase aproxima a derrocada da opressão. A praga da escuridor contrasta com o enriquecimento das sociedades de lidão causou “uma treva [tão densa] que podia ser tocada” e vre economia e livre pensar. ela paralisou os egípcios: “As pessoas não podiam ver umas Banalizar o nome de Deus – Gafanhotos [M3 − P8] às outras, e por três dias ninguém se moveu”. Contrastando com uma escuridão tangível (que pode ser O que não havia sido destruído pelo granizo, foi destocada) temos um mandamento que exclui a possibilidade truído pela oitava praga: “Gafanhotos invadiram toda a terde qualquer tangibilidade da luz divina. Um mandamento ra do Egito … em uma densa massa … e devoraram toda erva que introduz a imaterialidade e, portanto, a imutabilidado campo e todo fruto das árvores que haviam sobrevivido ao de da Fonte das leis básicas da sociedade. Os dez mandagranizo, e não restou verde algum, árvore ou erva do campo, mentos emanam de Deus e a ausência radical de Sua repreem toda a terra do Egito”. sentação e compreensão o coloca fora do alcance da maComo o texto da Torá indica, há uma continuidade nipulação humana. Suas leis não podem ser modificadas. direta entre a sétima e a oitava pragas. Ambas destroem a “Não assassinarás” é incondicional e não há razão de Estabase econômica da sociedade opressora, quebrando a coedo que possa modificar este decreto. Idem para o descansão social e indicando que os resultados positivos para o so do Shabat e para todo o restante da lista. escravizador são apenas passageiros. Deus é mantido no escuro para que a humanidade alDo outro lado, o terceiro mandamento proíbe banalicance a claridade da liberdade e da justiça. Do outro lado, zar o nome de Deus: “Vocês não jurarão de maneira vã pelo o faraó é a representação em forma humana do deus Sol, nome do Eterno, seu Deus”. sua luz absoluta impedindo-lhe a visão. Seu poder absoluSe comprometer em nome de Deus reduz a responsato o cega, a opressão provoca a escuridão. O opressor cobilidade individual, pois atribui a força da palavra (e, por meça por não enxergar o oprimido como um ser igual a consequência, das ações) a algo que lhe é externo, como ele. E como nenhum de nós é igual um ao outro, a tendênse suas decisões não fossem efetivamente suas. Ao vincucia é o ciclo se ampliar até o ponto em que nada mais é vilar essas decisões e suas consequências a Deus você está se sível e o opressor sozinho já não vai mais para lugar algum. eximindo de sua parte no pacto que criou nossa religião. Eu sou o Eterno – Morte dos Primogênitos [M1 − P10] Por consequência, sucesso ou fracasso, busca da coesão social ou seu distanciamento da mesma, deixam a esfera huChegamos ao auge das duas listas. De um lado a ruptumana para serem atribuídos a Deus. Reduz-se a relação do ra total com o passado, uma vez que, na Torá, os primogêhomem com Deus a uma submissão de criado, em lugar nitos simbolizam a continuidade e, portanto, sua aniquide elevá-la à liberdade de criatura. Reduz-se a relação entre lação representa a descontinuidade da transmissão da culos homens a uma rede esgarçada pelo pouco valor da pa-
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tura egípcia. O Egito não acaba com a morte dos primogênitos, mas a geração que se segue às pragas não é a herdeira da geração anterior, ela tem que se reinventar do zero. Em contraste temos a eternidade de Deus, o Criador do mundo que, segundo nossa teologia, não tem nem fim nem começo. Que existia antes do Bereshit e que é para sempre. Ou seja, a opressão sempre terá um fim, enquanto que a liberdade triunfará, por mais atribulado e doloroso que seja o caminho. O homem foi criado para viver conforme o seu livre arbítrio, para celebrar os pactos que julgar melhores para si, dentro de um bem definido contexto, de respeito à dignidade e aos direitos de todos. E vejam que o Egito de hoje não é herdeiro dos Faraós. Mas os judeus de hoje não apenas preservaram a herança de Abraão, Isaac, Jacó e Moisés como ampliaram (e continuam ampliando) a sua visão de mundo.
Conclusão O estabelecimento da comparação entre as pragas e os mandamentos, em ordem invertida, permite vislumbrar a escada que leva de um lado à derrocada da sociedade e do outro lado à sua perenização. Conseguimos enxergar cinco gradações:
Degraus
Destruição
Construção
1–2
Incômodo
Conforto
3–6
Desconfiança
Solidariedade
7–8
Derrocada da coesão social
Florescimento da coesão social
9
Perda da visão
Ampliação da visão
10
Descontinuidade
Eternidade
Fizemos este exercício sem a pretensão de buscar verdades absolutas nem de negar a validade de qualquer outra forma de comparação. Procuramos tão somente adicionar um pouquinho de beleza e significado ao nosso texto fundacional e às nossas festas. Esperamos que você encontre valor em nossa reflexão e ficaremos ainda mais felizes se você derivar significados para além do que apresentamos neste texto. Ricardo Gorodovits é engenheiro, ativista comunitário e membro do conselho editorial da Devarim. Raul Gottlieb é engenheiro, ativista comunitário e membro do conselho editorial da Devarim.
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GUIVAT HAVIVA: VIVA A ALTERNATIVA DE UMA SOCIEDADE COMPARTILHADA
Rafael Stern Este é o primeiro ano letivo da Escola Internacional de Guivat Haviva. 55 alunos, de 17 países, vivem juntos. Aproximadamente metade destes alunos são israelenses, sendo 25% judeus e 25% árabes.
O
córrego Haviva nasce nos arredores de Jenin (cidade palestina na Cisjordânia), atravessa as montanhas da Samaria (cheia de assentamentos judaicos), adentra o território de Israel entre o kibutz Magal e a vila árabe-israelense Yama, e desemboca no mar na cidade judaica de Hedera. Tudo isso em menos de 30 quilômetros de extensão. Como a maioria dos córregos em Israel, seu fluxo é intermitente – só tem água durante as inundações dos breves meses de inverno. E justamente numa das margens deste córrego tão complexo e amável (esta é uma das traduções do nome ‘Haviva’), é que árabes e judeus de cidadania israelense decidiram criar um grande núcleo do conceito de “Sociedade Compartilhada”. Criado em 1949 pelo movimento kibutziano, da ala do Hashomer Hatzair, o centro de Guivat Haviva recebeu o nome de uma paraquedista eslovaca (Haviva Reik) que, após se mudar para Israel em 1939 e residir no kibutz Maanit, se alistou na brigada judaica de paraquedistas do exército britânico para combater o nazismo e ajudar na fuga de judeus da Eslováquia. Acabou sendo capturada e posteriormente executada pelos nazistas no final de 1944, enquanto ajudava um grupo de judeus a se refugiar nas montanhas. Durante muitos anos, Guivat Haviva serviu como um importante centro de formação e educação dos kibutzim da região, contando também com um centro de memória do Holocausto e um arquivo de documentos do movimento kibutziano. Mas o local não recebeu apenas o nome da notória integrante do movimento Hashomer Hatzair e do córrego que passa no local. A conexão de Guivat Haviva com o seu entorno se manifestou desde muito cedo também com a sua mão estendida à população árabe que densamente habita aquela área.
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Assim, já há muitas décadas, Guivat Haviva funciona como um centro para criar uma sociedade israelense mais coesa, engajando comunidades divididas em ações coletivas em prol de uma democracia israelense próspera e sustentável. Baseia-se em conceitos como responsabilidade mútua, igualdade civil e uma visão compartilhada do futuro. Para isso, o “Centro para uma Sociedade Compartilhada” de Guivat Haviva atua como um polo de engajamento, interação, apoio e empoderamento dos setores árabes e judaicos da sociedade israelense. Os projetos já bem estabelecidos de Guivat Haviva incluem encontros culturais e religiosos entre árabes e judeus, educação em conjunto através de seminários e parcerias entre escolas, clube de culinária, clube de mulheres empresárias, treinamento de professores e servidores municipais, ensino mútuo do árabe e do hebraico, projetos de recuperação ecológica do entorno, um parque industrial compartilhado, manutenção de arquivos históricos em conjunto e serviços de emergência médica. Guivat Haviva é também tradicionalmente conhecido por seu bem consolidado centro de estudos da cultura e do idioma árabe, com uma grande gama de opções de duração e níveis de cursos, que muitos judeus israelenses procuram como forma de abrir as portas para acessar seus vizinhos. Ao todo, cem mil pessoas já circulavam anualmente
pelo campus de Guivat Haviva participando de todos esses projetos. Esta longa e tradicional atuação para a união entre árabes e judeus rendeu a Guivat Haviva o prêmio da Unesco pela “Educação Para a Paz” em 2001. No entanto, apesar de o conflito árabe-israelense apresentar aspectos muito únicos, diversas outras regiões no mundo vivem conflitos, e o diálogo e a troca de experiências podem se mostrar benéficos e inspirar todos. O conflito entre árabes e judeus é fundamentalmente mais um conflito humano. E no mundo globalizado atual, um conflito local pode ter influências globais muito além da compaixão que humanos podem sentir ao ver outros humanos sofrendo. O mote “pense globalmente, aja localmente” não se aplica – em Guivat Haviva, o lema é “pense globalmente, aja globalmente”. Por isso, e para engajar um público bem jovem por mais longo prazo, Guivat Haviva lançou uma iniciativa bastante ousada, ainda que seja mais um passo adiante em uma caminhada num solo bem firme, sedimentado por uma longa experiência na área. Em setembro de 2018 começou o primeiro ano letivo de uma escola internacional, onde estudantes de diversos países do mundo moram e estudam juntos todas as disciplinas de Ensino Médio seguindo um currículo escolar internacional, tendo como pano de fundo a resolução de conflitos.
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A Escola Internacional de Guivat Haviva Este é o primeiro ano letivo da Escola Internacional de Guivat Haviva. 55 alunos, de 17 países, vivem juntos, estudam e se engajam em diversas atividades extracurriculares. Aproximadamente metade destes alunos são israelenses, sendo 25% judeus e 25% árabes. Os outros 50% vêm de países como Sudão do Sul, Libéria, Georgia, Kosovo e outros lugares com histórico de disputas e conflitos. A escola segue o currículo do “International Bacclaureate Diploma Program”, que inclui todos os tópicos de escolas tradicionais (de Ciências Naturais a História), mas com um foco internacional. As disciplinas são oferecidas de forma teórica e experimental, e os estudantes têm a oportunidade de escolher o nível de aprofundamento em cada matéria. Os professores são árabes e judeus israelenses, mas o idioma oficial da escola é o inglês. Além das aulas, os alunos também precisam realizar um projeto de pesquisa orientado por um professor, serviços comunitários, educação física e estudos de filosofia da ciência. Além das atividades curriculares e extracurriculares, no tempo livre os alunos ainda podem se inscrever em aulas de fotografia, cerâmica, dança, linguagem de libras, ioga, pintura, entre outras. Os estudantes também se organizam em uma espécie
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de grêmio estudantil para realizar projetos extracurriculares. Esses comitês são bem diversos, abrangendo áreas como política, sustentabilidade, engajamento social, cultura e comunidade. Quando eu estive na escola e almocei com os alunos, o comitê de sustentabilidade estava discutindo que dia eles se encontrariam com o membro do Parlamento de Israel, que tinha concordado em apoiá-los em uma iniciativa. Vi nesses alunos o brilho nos olhos que é essencial para realizar as grandes coisas de que o mundo precisa. O sentimento geral entre os estudantes é de que, como eles são a primeira turma da história dessa escola, eles não têm ideia do que vai ser no final dessa experiência, mas têm a certeza de que estão participando de algo grandioso. Essa é a fórmula ideal para aliar as aspirações juvenis de realizar algo grande com uma oportunidade prática de uma aventura que, sim, é capaz de mudar o mundo. Com todas essas atividades curriculares e extracurriculares, professores especializados e o fato de que os alunos vivem na escola, o custo anual por aluno é bastante alto (cerca de 30 mil dólares). Apenas 25% desse custo vem da mensalidade paga pelas próprias famílias dos alunos, enquanto que outros 25% vem do Ministério da Educação de Israel. Por isso, a escola baseia metade de seu orçamento em doações, que veem dos lugares mais surpreendentes, como do governo alemão. Mas o que talvez seja mais
interessante é que, atualmente, a maior parte das doações vem das famílias árabes-israelenses que vivem na região. A maioria dos alunos árabes que conheci na escola foram enviados por um encorajamento profundo de seus pais, que talvez enxerguem nisso uma oportunidade que eles não tiveram de se integrarem na sociedade israelense, se sentirem parte legítima do país, à vontade para circular, ir para a universidade e fazer amigos de todos os tipos e origens. Abed Azab é professor de química na escola. É árabe, de cidadania israelense, e durante a juventude estudou num ensino médio judaico em Hedera. Me contou o quanto foi difícil no início, quando saiu de sua escola árabe e se viu numa turma que seguia o currículo judaico de ensino.1 Mas, no final, foi incrível, e ele entendeu que queria coexistir com os judeus. Seguiu uma carreira acadêmica, fez doutorado em química e atualmente, além da pesquisa e de ser colunista do jornal Haaretz, faz questão de integrar o corpo docente da escola, por acreditar profundamente na visão de uma Israel para todos os seus cidadãos. Ele quer dar a novas gerações o gosto que ele teve de sentir, o elo de ligação entre árabes e judeus através da educação escolar. 1 Em Israel, o sistema educacional é dividido entre quatro setores: secular (judaico), nacional-religioso (judaico), ultraortodoxo (judaico) e árabe (que inclui drusos e beduínos, entre outros grupos ainda menores).
O mapa do caminho para a paz Em dezembro de 2017, Guivat Haviva enviou para o parlamento israelense (Knesset) um documento intitulado “O Mapa do Caminho Para a Paz”. A entrega do documento foi acompanhada de uma reunião com 15 parlamentares, e o Grupo da Knesset Pela Promoção da Sociedade Compartilhada Entre Judeus e Árabes adotou o documento como a base para as suas atividades do ano de 2018. Para garantir a implementação das medidas recomendadas, Guivat Haviva está planejando promover reuniões especiais das comissões parlamentares nas áreas de educação e desenvolvimento econômico, e se reunir com o presidente de Israel (Reuven Rivlin), para garantir que suas demandas serão escutadas pelos principais tomadores de decisão. O processo de elaboração desse documento durou dois anos, e incluiu mais de 40 reuniões (metade delas em árabe e metade em hebraico), com diversas pessoas (árabes e judeus) dos setores público e privado, além de representantes da sociedade civil. As pessoas eram divididas em cinco grupos, e cada um abrangia uma área de atuação diferente: educação, desenvolvimento econômico, governança, uso da terra e representação cultural (essa divisão foi baseado nos “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”
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da ONU). A etapa das reuniões foi seguida por uma consulta pública on-line, da qual participaram 20.500 pessoas (4 mil judeus e 16.500 árabes). Os resultados dessa consulta pública foram compilados em um último encontro dos grupos de trabalho, e então o documento foi finalmente elaborado. O “Mapa do Caminho Para a Paz” traz diversos passos concretos para a implementação de uma sociedade compartilhada entre judeus e árabes. Como recomendação geral, a tomada de decisão e implementação desses passos devem incluir os parlamentares árabes na Knesset, que atualmente estão muito à margem da tomada de decisões centrais, por diversos motivos. Alguns desses passos incluem: • Inclusão no currículo obrigatório para formação de professores módulos de “sociedade compartilhada”. Ou seja, para se tornar professor em Israel, a pessoa terá que passar por um currículo teórico e prático, que inclua contato e encontros com uma multiplicidade de identidades e de narrativas. • Segundo uma recomendação do próprio presidente de Israel, professores de cada setor da sociedade deverão dar aulas em escolas dos outros setores. • A criação de feriados nacionais seculares compartilhados (como “Dia da Eliminação da Discriminação Ra-
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cial”, “Dia da Reconciliação”, “Dia Internacional da Democracia”). • A recomendação de políticas públicas promovidas por diversos ministérios e órgãos governamentais com o objetivo de fomentar o desenvolvimento econômico das populações árabes, através da instalação de sedes de empresas, maior integração com conselhos regionais judaicos, estímulo ao interesse da população árabe por empregos ligados à alta tecnologia, melhoria do sistema de transporte público de cidades árabes pequenas para grandes centros econômicos em Israel, entre outros. • A proporção de mulheres árabes no mercado de trabalho é de 32%, em relação a 74% dos homens árabes e 80% das mulheres judias.2 O documento propõe, portanto, recomendações específicas visando aumentar consideravelmente a inclusão das mulheres árabes no mercado de trabalho. “Se Israel quiser ser uma sociedade multicultural, com espaço para as pessoas de todas as tribos, se quiser passar de uma situação de inimizade e conflito para parceria, então todo o 2 As razões para tais discrepâncias são múltiplas e incluem barreiras culturais da sociedade árabe, tanto quanto barreiras no próprio mercado de trabalho, falta de ofertas próximas, falta de infraestrutura de transporte...
sistema educacional, da infância até a universidade, deve facilitar encontros sérios, diálogo contínuo, e o cultivo de uma mentalidade multicultural fundamentada em tolerância e inclusão dos membros das diferentes tribos. O conhecimento pessoal, íntimo, é a chave para a criação de um diálogo humano com membros de outras tribos. “Esse processo de encontro não pode ocorrer através de uma autonegação. Ele exige, de um lado, um foco mais preciso nos valores coletivos do próprio grupo, e de outro lado um reconhecimento da existência dos sistemas de valores e de crenças do outro, numa jornada para encontrar áreas de consenso que permite um acordo na determinação de valores comuns de comportamento. “... Sem [o reforço da identidade do próprio grupo], os membros do grupo estão sujeitos a temer que o encontro provoque um enfraquecimento de sua identidade. Apenas um encontro que honre a identidade própria e pessoal de cada participante pode suscitar confiança e reduzir o medo do encontro com o outro.” (Trecho do documento “O Mapa do Caminho Para a Paz”) No dia 24 de julho de 2018, Guivat Haviva recebeu o status de Organização Consultiva no Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC). Quando uma organização passa a fazer parte do ECOSOC, ela passa a ter acesso a programas, agências e fundos de financiamento especiais da ONU por diversas vias. Membros do Guivat Haviva podem agora, por exemplo, assistir como observadores reuniões da Assembleia Geral e do Conselho de Direitos Humanos.
Deve haver outro caminho O tradicional festival de música Eurovision mobiliza milhões de espectadores da Europa e do mundo. Cada
país europeu (e alguns agregados especiais, como Israel) enviam uma música para representar o país, nesse festival que acontece em maio, e que, este ano (2019), vai acontecer pela terceira vez em Israel (devido à vitória no ano passado da israelense Netta Barzilai). Em 2009, as enviadas para representar Israel foram as cantoras Noa (Achinoam Nini, judia israelense), e Mira Awad (árabe israelense). Elas levaram a música “There Must Be Another Way” (“Deve Haver Outro Caminho”), cuja letra original é em árabe, hebraico em inglês. Elas ficaram em 16º lugar no concurso, de um total de 25 países. Mas talvez a maior vitória foi levar para o mundo uma mensagem de paz, de “sociedade compartilhada”, que talvez ainda não fosse na época e nem hoje uma realidade total em Israel, mas sem dúvida já havia desde então um embrião, gente disposta a construir junto esse futuro. No mesmo ano de 2009, Mira e Noa foram agraciadas com o “Prêmio pela Paz Haviva Reik”, criado pela organização Guivat Haviva para honrar anualmente aqueles que se engajam na busca pelos direitos humanos, compreensão mútua e a paz. Um dos aspectos curiosos da união das duas cantoras é que, devido à sua ascendência iemenita, Noa possui traços físicos mais relacionados ao Oriente Médio e Mira Awad tem pele, cabelos e olhos claros, parecendo uma judia ashkenaziá. Quem não as conhece, mas sabe que a dupla é formada por uma judia e por uma árabe, pode facilmente pensar que a árabe é a Noa e a judia é a Mira. Mas, enfim, numa sociedade compartilhada, isso não faz a menor diferença. Ambas são israelenses, ambas são humanas. Rafael Stern é geógrafo e doutorando no Departamento de Ciências Espaciais e da Terra do Instituto Weizman para a Ciência, em Rehovot, Israel. Na próxima página, a letra da música “Deve Haver Outro Caminho”
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D EV E H AVE R O U T R O CA M I N H O Letra e melodia: Achinoam Nini, Gil Dor e Mira Awad
T H E R E M U ST B E AN OT H E R WAY Letra e melodia: Achinoam Nini, Gil Dor e Mira Awad
Deve haver outro Deve haver outro caminho
There must be another Must be another way
Seus olhos, irmã Dizem tudo o que o meu coração pede Chegamos até aqui Através de um longo caminho Um caminho tão difícil, de mãos dadas E as lágrimas caem, escorrem em vão Uma dor inominável Nós esperamos Somente pelo dia que virá depois
Einaich, achot Kol ma shelibi mevakesh omrot Avarnu ad ko Derech aruka, derech ko kasha yad beyad Vehadma’ot zolgot, zormot lashav Ke’ev lelo shem Anachnu mechakot Rak layom sheyavo achrei
Deve haver outro caminho Deve haver outro caminho
There must be another way There must be another way
Seus olhos dizem Que virá o dia em que todo o medo vai sumir Nos seus olhos a determinação De que existe a possibilidade De continuar o caminho Como vai se alongar Por não haver um endereço para a tristeza Eu clamo para o céu tão teimoso
Aynaki bit’ul Rakh yiji yom wu’kul ilkhof yizul B’aynaki israr Inhu ana khayar N’kamel halmasar Mahma tal Li’anhu ma fi anwan wakhid l’alakhzan B’nadi lalmada l’sama al’anida
Deve haver outro caminho Deve haver outro caminho Deve haver outro Deve haver outro caminho
There must be another way There must be another way There must be another Must be another way
Vamos passar por um caminho longo Um caminho tão difícil Juntas, para a luz Seus olhos dizem Todo o medo vai sumir E quando eu choro, eu choro por nós duas Minha dor não tem nome E quando eu choro, eu choro Para o céu inclemente e digo Deve haver outro caminho
Derech aruka na’avor Derech ko kasha Yachad el ha’or Aynaki bit’ul Kul ilkhof yizul And when I cry, I cry for both of us My pain has no name And when I cry, I cry To the merciless sky and say There must be another way
E as lágrimas caem, escorrem em vão Uma dor inominável Nós esperamos Somente pelo dia que virá depois
Vehadma’ot zolgot, zormot lashav Ke’ev lelo shem Anachnu mechakot Rak layom sheyavo achrei
Deve haver outro caminho Deve haver outro caminho Deve haver outro Deve haver outro caminho
There must be another way There must be another way There must be another Must be another way
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FARÓIS QUE SE EXTINGUEM Vittorio Corinaldi
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a cacofonia do atual discurso da sociedade israelense, a voz de Amos Oz se erguia clara e límpida acima do grosseiro linguajar dos políticos e da vulgaridade generalizada de uma imprensa sensacionalista e tendenciosa, ou da mídia eletrônica infestada de entrevistas banais, debates ruidosos e confusos, programas medíocres de “reality” e uma enxurrada de publicidade promotora de incontrolado consumismo. Não é só sua valiosa contribuição literária e publicística que foi cortada com seu falecimento. Não se interrompeu somente sua inigualável capacidade narrativa no retratar a realidade israelense através de um prisma humano que lhe confere validade universal. Com ele se calou uma das últimas expressões de razão e consciência moral que deveriam reger – e uma vez regiam – o desenrolar da vida pública de Israel. Sem descer ao nível da propaganda política e partidária que está na base do presente vocabulário da maioria dos representantes da atividade legislativa, executiva ou cultural, Amos Oz nunca se escondeu atrás de escusas manipulações intelectuais, nem tentou camuflar suas opiniões com roupagens de dupla aparência para agradar a todos os setores que seus escritos pudessem atingir. E suas palavras sempre foram de condenação da violência, do fanatismo, da demagogia, do poder absoluto e corrupto, da negação de liberdade de crença e opinião; e em favor da aceitação do diferente, do respeito à minoria: qualidades que a atual atmosfera política classifica pejorativamente como “esquerdistas”, numa
O kibutz foi uma das mais elevadas manifestações do espírito humano, talvez uma das mais significativas que tenha partido do povo judeu na época moderna.
Na página anterior e nas seguintes: Fotos do Kibutz Hulda nos anos 1930. Crédito das imagens: National Photo Collection of Israel.
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deformação proposital da verdadeira naNão é um mero acaso ção e um novo homem judeu; sobre a imtureza do conceito de esquerda. portância que estes tiveram na instituição que de sua moradia Amos Oz foi enterrado, com cerimode uma força de defesa ativa e no espírino kibutz, Amos nial espontâneo, isento do mecânico inato do novo exército também como fator Oz tenha lançado mistoso ritual ortodoxo, no cemitério do de coesão social; sobre a criação de uma Kibutz Hulda, do qual foi membro por entidade física de características urbanas seus manifestos muitos anos. próprias e únicas, expressão construída do de humanidade. O lugar do túmulo acrescenta um coesingular tipo de agrupamento social; soficiente simbólico à memória e à persobre o apoio voluntário que o nascente Esnalidade do falecido. Porque o kibutz, como a figura de tado de Israel encontrou na estrutura coletiva do kibutz Amos Oz, também deve ser visto hoje como uma luz que nos difíceis primeiros anos de penúria econômica e absorse apaga no cenário israelense e judaico. E não é um mero ção de massas de “olim”. acaso que de sua moradia no kibutz, Amos Oz tenha lanO princípio de não remuneração individual pelo traçado seus manifestos de humanidade. Porque o kibutz foi balho, que infelizmente não resistiu às pressões e à conuma das mais elevadas manifestações do espírito humano, corrência do ambiente externo, era um postulado essentalvez uma das mais significativas que tenha partido do cial que por muito tempo regeu os destinos da comuna kipovo judeu na época moderna. E o seu ocaso se assinala butziana. Enquanto aceito em virtude de um reconhecicom particular amargura no momento em que desaparece mento altamente consciente, sobreviveu a essas pressões e alguém que o inspirava e que nele se inspirava. à oposta afirmação muito difusa, de que a natureza humaMuito se falou e escreveu a respeito do kibutz: sobre na se orienta para a concentração privada da propriedade o exemplar alicerce de igualdade em que se baseia; sobre e para comportamento individualista. a filiação livre e voluntária de seus membros; sobre a deO período “heroico” do nascimento dos primeiros kimocracia participatória destituída de hierarquias arbitrábutzim nos transporta para a figura de A. D. Gordon, o rias com que se rege; sobre seu inédito sistema educatiinspirador de uma doutrina de profunda dimensão ética, vo e a influência que teve na formação de uma nova geraque punha o trabalho (e em especial o trabalho da terra)
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como dever e direito de cada indivíduo na sociedade, e o exemplo pessoal como regra pacífica de comportamento. Sua adesão ao Kibutz Degania já em idade avançada, que, porém, não lhe impediu de agir justamente dentro desta linha, fez dele um orientador e um profeta da “religião do trabalho”, que moldou a estrutura e o funcionamento da célula kibutziana. A seu lado, como portador de mensagem da livre associação dos homens do trabalho em organismos de democrática e essencial defesa de direitos, e como líder natural de uma geração sedenta de um significado antirretórica para seus impulsos de renovação, Berl Katzenelson foi o mestre unanimemente reconhecido do pioneiro socialismo humano dos primórdios do Estado, e como tal também figura de inspiração ideológica e espiritual para o então nascente movimento kibutziano. A Israel de hoje rejeitou o endereço que aqueles homens de desinteressada dedicação, e tantos outros que atuaram naqueles anos decisivos, apontaram para uma sociedade justa e igualitária, “Or lagoim” (Luz para os povos) como a queria Ben Gurion. E voltou-se para o caminho da livre concorrência, da cultura do mercado, da propriedade não controlada. Os êxitos econômicos imediatos dessa po-
lítica desviaram a identificação com aqueles valores originais para a filosofia do consumismo e para diferenças sociais, sobre as quais facilmente germinam sementes de nacionalismo, de retórico elitismo e até mesmo de racismo. Toda a essência do Sionismo se vê hoje ameaçada por essa corrente. Dela não escapou o movimento kibutziano. Desfalcado de uma liderança à altura de seu conteúdo, e dos apoios e incentivos com que podia contar quando o poder político lhe era solidário, o kibutz teve que recorrer a instrumentos financeiros estranhos a seu costume, o que levou, nos anos 80, muitas das suas comunidades a uma séria crise, agravada por uma hostilidade de fundo ideológico da nova administração de direita. O vital princípio da igualdade absoluta de todos os membros, e a elementar fórmula de “cada um conforme suas aptidões, a cada um conforme suas necessidades”, se viram atingidos e gradativamente substituídos pela remuneração diferenciada das diversas atividades e pelo pagamento pelos serviços oferecidos pela coletividade, que até então não fazia uso do dinheiro em suas relações internas. Os meios de produção (fossem eles agrícolas ou industriais), originalmente de propriedade comum e administrados como parte do patrimônio coletivo, foram transfor-
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mados em empresas autônomas, responsáveis por seus destinos econômicos cada uma de per si. A moradia, direito outorgado igualitariamente, foi privatizada e o solo loteado em parcelas exclusivas para cada família. Este passo levou a seguir a um incontrolado surto de construção particular de dúbio gosto e racionalidade, no qual se destruiu o peculiar fluente tecido urbano e a amistosa escala que caracterizavam o espaço do kibutz. Hoje, com exceção daqueles kibutzim que por seu sucesso econômico puderam se permitir manter a estrutura coletivista com um alto nível de vida, quase nada resta do original conceito do kibutz. Apesar da insistência de continuarem a se autodefinir como tais, a maioria dos kibutzim mais se parecem a suburbanos condomínios fechados, mantendo ao máximo algum limitado remanescente de ajuda mútua, principalmente devido à população mais velha, que tem dificuldade em enfrentar os vários aspectos da privatização. Encerrou-se assim um capítulo que era um dos orgulhosos marcos da identidade israelense. Hoje se procura preencher esse vácuo com uma ufanista divulgação de nossa capacidade científica e tecnológica. Ainda nos vangloriamos dos numerosos Prêmios Nobel que a cultura ou a ciência israelense tem angariado – a despeito da vulgarização populista propagada por ministros ignorantes de um governo tendenciosamente hostil a genuínas manifestações do espírito. Ainda contamos com um poderoso exército, que paradoxalmente põe freio a aventurosos desejos de políticos
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inescrupulosos, e mantém a um custo cada vez mais difícil a qualificação de exército da alta moralidade, obrigado como está pelo desígnio da autoridade civil a tarefas de policiamento alheias à sua verdadeira função de defesa, deturbada pela longa ocupação do território palestino. Ainda temos um Poder Judiciário independente, último obstáculo às iniciativas antidemocráticas e anticonstitucionais de um governo orientado por interesses pessoais ou setoriais. Mas o título de “única democracia do Oriente Médio” com que insistentemente nos decoramos, só corresponderá a uma completa verdade se se puser fim – por um improvável resultado das urnas – à legislação repressiva e discriminatória que se alastrou e continuará se alastrando se se confirmarem os atuais prognósticos eleitorais. Na treva dessa esperança, aguardamos com velado fatalismo a mão que reacenda o farol apagado de Amos Oz; a conjuntura histórica que repita condições para o renascimento de uma experiência humana como o kibutz. E, acima de tudo, o retorno à grande vocação do Sionismo de reconstruir a entidade nacional judaica dentro dos valores de justiça e tolerância trazidos das milenárias fontes de nossa cultura e alimentados pelo evangelho de profetas como Amos Oz, para benefício próprio e de todos os homens. Vittorio Corinaldi é arquiteto formado pela FAU-USP. Mora em Israel desde 1956 e atuou como arquiteto no quadro do escritório central de planejamento do movimento kibutsiano, tendo sido seu arquiteto-chefe por dez anos.
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curiosidades do hebraico
FEMINISMO. PARA QUÊ? Marcia Rozenthal Na maior parte da história da ciência ocidental, inicialmente restrita ao campo da filosofia, a mulher foi reduzida a um ser frágil e sem controle sobre seus instintos, cuja função primordial seria a reprodução.
O
s judeus sempre deram muita importância às palavras, valorizando sobremaneira a função e o peso que elas têm por representarem, de forma sintética e simbólica, um conjunto a partir das características mais marcantes de suas partes. O reconhecimento destas características exige agudeza no discernimento e profundidade na compreensão daquilo que é nomeado. A Torá conta que, após criar Adão, Deus lhe trouxe todas as criaturas do Céu e da Terra, para que ele lhes desse um nome. Como nada do que consta nesse livro é por acaso, pode-se dizer que nomes não se referem a meras convenções ou conveniências. Também fica claro que Adão, primeiro ser humano, provável protótipo de nossa espécie, teria a capacidade de identificar as características e a essência de cada criatura, e de representá-las por palavras. Podemos observar que também os nomes dos personagens bíblicos, longe de serem aleatórios, têm, como característica, um profundo significado relacionado às suas histórias ou missões.
Conceito de feminilidade e as palavras Esta introdução serve de base para enfocarmos, a partir do estudo das palavras, um tema bastante atual, que é o conceito de feminilidade. Este termo é, sem sombra de dúvidas, extremamente controverso e motivo de muitas querelas em nossa sociedade.
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curiosidades do hebraico Podemos começar observando que o bilidade de migrar pelo corpo e, depenA mulher foi órgão que melhor expressa a feminilidade, dendo do local que se instalasse, diferencompreendida pelo por estar presente apenas na mulher, é o tes sintomas surgiriam (p. ex. obstrução povo judeu de modo útero. Sigamos, pois, a história da nomendo ar, angústias, perturbações variadas). bastante distinto clatura deste órgão na cultura ocidental. Essa ideia permaneceu por quase seiscenA medicina grega usava três termos daquele que vimos nas tos anos. A título de curiosidade, o chapara nomear este órgão: Mitra, Hystéra e culturas grega, romana mado “útero errante”, usado por HipóDelphys, os quais constam ainda na tercrates, ocorreria principalmente nas “sole as que se derivaram teironas e viúvas”, a quem ele receitava minologia utilizada na biologia e medicidelas. Ela ocupou na modernas (p. ex. endometriose, histegravidez e um marido. um papel digno no rectomia, útero didélfico). O termo histeria se cristalizou, semA partir do termo Hystéra foi tamcenário cultural, o que pre designando uma doença misteriosa, bém cunhado o termo histeria, que é a deixou numa posição muito estudada pela variedade e inconsatribuído, provavelmente de modo indetância de suas manifestações. É fato que forte e fundamental vido, à Hipócrates. Os gregos entendiam isto acentuou a histórica conexão entre para a estruturação que o útero seria um ser vivo, aparente“doença” e feminilidade. Só como exemmente autônomo e possuído do “deseplo, em 1758 Raulin escreveu, sem qualsocial e familiar. jo de fazer crianças”. Acreditavam que, quer pudor: “Essa doença, na qual muquando o útero era privado desta possibilidade, ele polheres inventam, exageram e repetem todos os diferenderia se irritar e entrar em estado de fúria. Teria a possites absurdos de que é capaz uma imaginação desregrada,
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curiosidades do hebraico
por vezes tornou-se uma epidemia contagiosa”. A histeria era assim tida, como uma doença exclusiva das mulheres, derivada do mau funcionamento do aparelho sexual feminino. Posteriormente, a histeria foi conduzida para o grupo das doenças nervosas e, mais tarde, na época de Charcot e Freud, para o campo dos transtornos mentais. Foi objeto de estudos importantes da Psicanálise, que manteve esta mesma designação, embora sob um novo prisma, que transcende o escopo deste artigo. As classificações psiquiátricas mais recentes aboliram esta terminologia, que foi substituída pelos grupos dos transtornos conversivos e dissociativos. Em resumo, podemos dizer que, na maior parte da história da ciência ocidental, inicialmente restrita ao campo da filosofia, a mulher foi reduzida a um ser frágil e sem controle sobre seus instintos, cuja função primordial se-
ria a reprodução. A frustração desta “missão” a colocaria sob o risco de desenvolver sintomas sem sentido e causar transtornos aos conviventes. Em contrapartida, os homens podiam desfrutar de uma posição confortável, em que teorizavam sobre uma “fraqueza”, da qual eram biologicamente refratários.
Judaísmo e o conceito de feminilidade Vejamos agora como a cultura judaica representou a feminilidade, seguindo o mesmo paradigma, que é entendimento do simbolismo expresso na palavra útero. A palavra hebraica que designa útero é Rechem, raiz de outra palavra, Rachamim, que significa misericórdia. Essa particular relação entre essas palavras é quase poética, pela forma natural como se encaixam, e pela beleza deste conjunto – palavra–significado. O útero, que carrega e pro-
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curiosidades do hebraico tege o feto até o nascimento, é a representação visceral da palavra misericórdia; é através dele que a mulher doa, incondicionalmente, tudo o que o feto precisa, protege-o e deposita sobre ele sua força criadora e afirmativa, comprometida com a vida. Assim, a misericórdia – Rachamim – é uma representação feminina e o útero é a sua representação física. A mulher é assim entendida como uma verdadeira força da natureza, que promove a vida através da doação incondicional. A mulher foi compreendida pelo povo judeu de modo bastante distinto daquele que vimos nas culturas grega, romana e as que se derivaram delas. Ela ocupou um papel digno no cenário cultural, o que a deixou numa posição forte e fundamental para a estruturação social e familiar. Vale ainda uma outra curiosidade. A palavra misericórdia, que resulta da combinação dos termos do latim – miserere (compaixão) + cor (coração) + dare (dar) –, localiza este sentimento no coração, e não no útero. Na cultura judaica, o coração é a sede da razão.
Este texto pretendeu expor um aspecto da visão da feminilidade na ótica da cultura judaica. Também visou a ressaltar o peso dos nomes que damos às coisas. Entendemos que esta é uma missão bíblica, que nos foi dada por Deus, desde o princípio da nossa existência. Erros podem ser nefastos, como aqueles abordados no correr deste artigo. Nosso povo tem uma longa história. Acumulou nestes milênios um imensurável cabedal de conhecimentos e entendimentos, que sempre estiveram disponíveis para serem compartilhados com o mundo, de forma incondicional. Isso não é misericórdia? Certamente, no caso particular do tema abordado neste artigo, poderíamos ter trazido um feixe de luz onde ainda restam trevas. Marcia Rozenthal é médica – Neuropsiquiatra, Doutora em Psiquiatria e Professora. Associada da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UFRJ.
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Conclusão
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O RENASCIMENTO DA LÍNGUA HEBRAICA
Ruth Josephson
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urante cerca de 1.300 anos, entre a época de Josué e a conquista da Palestina pelos romanos (1150 aec - 135 ec), os judeus falaram hebraico. Depois passaram a falar outras línguas. Como e por quê? Já quando dispersos na Babilônia (desde 586 aec) parte do povo falava línguas “estrangeiras”: lá era o aramaico; no Egito, no período dos gregos, a língua dos judeus era o grego. E até mesmo em partes da própria Palestina, os judeus falavam aramaico e grego. Apenas na região de Judá predominava a língua hebraica, que já se havia distanciado da língua bíblica, tendo adquirido novas formas. Com a destruição de Judá pelos romanos (70 - 135 ec) e a migração de seus habitantes judeus para outros lugares, o hebraico deixou de ser utilizado, sendo substituído, gradativamente, pelo aramaico. Só há uns 120 anos voltou o hebraico a ser uma língua falada. Por outro lado, nos 2.000 anos de Diáspora, os judeus continuaram a ler e a escrever o hebraico. A literatura escrita neste período foi rica e vasta: códigos de lei, filosofia, ciências, textos humorísticos, poemas religiosos e seculares, peças de teatro, guias de viagem e livros de história. E houve até países, tais como a Inglaterra, onde cartas e documentos particulares eram escritos em hebraico. Além disso, havia os que, às vezes, também falavam o hebraico: há relatos de que judeus em terras longínquas, não tendo uma língua em comum, falavam hebraico entre si quando não queriam que “outros” os entendessem. Judeus ortodoxos (muito religiosos) falavam hebraico aos sábados.
Ninguém pensava em fazer do hebraico uma língua falada para uso cotidiano. Sendo os judeus o “povo do livro”, qual a importância da língua falada comparada com a língua das escrituras?
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Ninguém, porém, pensava em fazer do hebraico uma língua falada para uso cotidiano. Sendo os judeus o “povo do livro”, qual a importância da língua falada comparada com a língua das escrituras? Ainda na Idade Média, línguas não eram sinal de nacionalidade, que inexistia no sentido moderno do termo. Mesmo quando, mais tarde, povos europeus começaram a lutar por sua independência e pelo uso de línguas nacionais como oficiais de seus países, os judeus não consideravam a si próprios como todos os outros povos: embora tenham criado literatura moderna em hebraico, eles não exigiam que fosse dado “status” oficial à “língua do passado”. O hebraico atuava estritamente nos campos da religião e da literatura. O único lugar no qual o uso do hebraico falado era comum em pleno século XIX, era em Jerusalém, ainda sob domínio turco, onde se concentravam judeus das mais diversas comunidades: havia os que falavam iídiche, os que falavam árabe e aqueles que falavam ladino. A única língua comum que todos entendiam um pouco era o hebrai-
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co, embora também naquela época ninguém tivesse pensado em torná-la a língua nacional do lugar. Esta situação perdurou até 1881, quando chegou à região um jovem lituano que, ainda na Lituânia, elaborou a ideia da nacionalidade judaica, em que o hebraico seria a língua falada cotidianamente. O nome, autoatribuído1, deste jovem era Eliezer ben Yehuda. Abandonando a Lituânia, mudou-se para Paris e lá começou a divulgar seus ideais revolucionários. Quando encontrava judeus da então província turca que viria a se tornar o Estado de Israel, dirigia-se a eles apenas em hebraico. Ao imigrar para Jerusalém insistiu não apenas em lutar, mas também em vencer a luta, por dois princípios que jamais tinham sido expressos até então: • O hebraico fosse a língua falada nos meios familiares; • O hebraico fosse a única língua ensinada nas escolas. Eliezer ben Yehuda pôs ambos em prática. Seu filho, Itamar ben Avi, foi o primeiro menino judeu que, em sua 1 Seu nome ao nascer era Eliezer Ytzhak Perlman.
casa, só ouvia e falava hebraico. Também Em 1953, já com maior número de memO único lugar no qual nas classes e escolas nas quais Eliezer lebros, o comitê passou a se chamar “Acadeo uso do hebraico cionava as aulas eram administradas somia da Língua Hebraica”. O Comitê da falado era comum em mente em hebraico. Língua, assim como a Academia da Línpleno século XIX era Nas vésperas da Primeira Guerra gua Hebraica, muito fizeram para divulMundial, ocorreu a chamada “Guerra gá-la, para corrigi-la entre seus falantes e em Jerusalém, sob das Línguas” entre os judeus que habitadomínio turco. A única entre os que a escreviam, e para ampliávam a região do futuro Estado de Israel. -la, criando palavras novas. língua comum que Naquela época, jardins de infância, escoAté hoje integram a Academia eruditodos entendiam um las e seminários de professores estavam tos, escritores e professores, todos eleitos pouco era o hebraico, nas mãos de judeus provenientes da Alepara seu cargo em caráter vitalício. Eles manha. No início eles ajudaram a divulembora naquela época publicaram e continuam publicando digar o hebraico. Com o passar do tempo, cionários profissionais necessários para as ninguém tivesse porém, passaram mais e mais para o uso mais diversas atividades, tais como músipensado em torná-la corrente do alemão, introduzindo-o em ca, anatomia, mecânica, eletricidade, fía língua nacional. suas escolas, apesar do protesto da gransica, etc. Até mesmo, fruto do trabalho de maioria dos professores. Este procesde uma equipe composta por cientistas so só foi interrompido às custas de manifestações de proe linguístas, um dicionário científico foi compilado pela testo, reuniões tumultuadas e até mesmo o pedido de deAcademia, com vocabulário baseado em hebraico antigo missão em massa dos professores no país inteiro, a partir e linguagem atual. do momento em que se decidiu que o idioma a ser usaNos dicionários hebraicos de hoje encontram-se palado no “Technion” em Haifa (escola técnica para estudos vras com mais de 3.000 anos, ao lado de palavras criadas superiores) seria o alemão. há 1.000 anos, que, por sua vez, estão junto de palavras Alunos e professores lutaram contra esta tendência e a criadas na atualidade. O falante natural do idioma não mobilização geral estendeu-se a extremos tais que comernota diferença de uso nas palavras e formas, quer sejam ciantes se negavam a vender seus produtos para quem não elas novas ou antigas. se dirigisse a eles em hebraico. O impacto da “guerra das Como curiosidade, quero mencionar que a Bíblia usa línguas” foi enorme e ele trouxe muito prestígio ao heapenas cerca de 8.000 palavras, das quais 2.000 aparecem braico, que passou a ser usado em todo o mundo judeu, uma única vez, apesar de que na época já existiam cerca de tanto na região que se tornaria o Estado de Israel quan30.000 palavras. Isso, porém, é compreensível posto que to na Diáspora. a Bíblia não é uma enciclopédia e sim trata de um númeÉ certo que, embora o hebraico tinha deixado de ser ro limitado de assuntos, para os quais o vocabulário utililíngua falada por 1.700 anos, a atividade literária foi inzado foi suficiente. tensa nesse período e, devido à grande variedade de temas Pesquisadores afirmam que, em qualquer língua, abordados, a língua hebraica pôde se desenvolver consi1.000 palavras correspondem a 85% da linguagem enderavelmente. contrada num texto comum. Entre as 1.000 palavras Foram criadas dezenas de milhares de palavras. Em mais corriqueiras do hebraico, cerca de 800 são do pe1889 quatro judeus formaram o primeiro comitê responríodo bíblico. Isto significa que a importância das palasável por todos os assuntos ligados a questões da língua hevras dessa época não deve ser medida por seu número braica. Um destes quatro era Eliezer ben Yehuda. Foi este dentre as 60.000 existentes, mas pela proporção na lincomitê que introduziu pela primeira vez livros contendo guagem usada na prática. palavras úteis e novas para o uso cotidiano (e mais tarde, Desde o renascimento da língua, há mais de um sédicionários). culo, calcula-se em mais de 15.000 o número de palavras Este “Comitê da Língua” atuou desde 1889, duranrenovadas, inclusive no campo da terminologia técnica. te o período turco e durante todo o mandato britânico. Os jornais em hebraico, publicados em Israel e na Diás-
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pora, tiveram grande influência no de- Entre as 1.000 palavras grande movimento imigratório. Chegasenvolvimento e na propagação da língua ram a Israel muitos profissionais liberais e mais corriqueiras do falada. Nos jornais de Ben Yehuda havia sua integração dependia do conhecimento hebraico, cerca de uma coluna fixa com propostas de palada língua hebraica, indispensável no seu 800 são do período vras novas para os leitores. Por exemplo, campo de trabalho. Foi encarando este aspalavras como meias, guarda-chuva, sorpecto que, em 1949, o Ministério da Edubíblico. Isto significa vete, revólver, calçada, restaurante e ascação e Cultura criou o primeiro Ulpan que a importância sim por diante. Os jornais traziam noem Jerusalém, o Ulpan Etsion. Cada curdas palavras dessa tícias do país e do mundo, falavam de so tinha duração de seis meses, logo após a época não deve ser assuntos como política, economia, agrichegada dos Olim ao país. Em bem pouco cultura, ciência, divulgando assim mais e medida por seu número tempo, Ulpanim foram estabelecidos por mais a linguagem em uso. todo Israel. O Ulpan teve ecos tão positidentre as 60.000 As transmissões pelo rádio da “Voz de vos que até no exército, em plena guerra, existentes, mas pela Israel” começaram na época do Mandacriou-se um acampamento militar espeproporção na linguagem cial para Olim, que durante um mês reto Britânico, em 1936. O hebraico falausada na prática. do no rádio tornou-se um modelo e até cebiam uma “bagagem” linguística básica hoje é a linguagem que mais gente tenta antes de começar o serviço militar. imitar. Em 1968 começaram a falar hebraico pela televiA língua hebraica falada hoje é a mistura da língua bísão. O rádio, a televisão e a internet são os meios de maior blica com a da Idade Média com a linguagem atual. O ivrit penetração e influência no desenvolvimento linguístico do (hebraico) ensinado no Ulpan é a língua falada na rua e no povo. Em Israel sua importância é especialmente significatrabalho, a linguagem do jornal, do rádio e da televisão. O tiva, devido ao fato de se concentrarem pessoas provenieninício de seu uso cotidiano foi um suporte primordial para tes de todos os cantos do mundo, sendo que a língua veo renascimento nacional judaico em nossa época. O ivrit lha-nova é aprendida constantemente. tornou-se o idioma comum entre os habitantes de Israel e A contribuição da mídia na ampliação dos conhecitambém o elo com as comunidades judaico-sionistas dismentos linguísticos e na aquisição de uma cultura comum, persas pelo mundo. mas homogênea, é de capital importância. Ruth Josephson mora em Jerusalém e é professora de hebraico. Com o surgimento do Estado de Israel, começou o
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O QUE PENSARÃO?
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Desejamos deixar de perceber o judaísmo como sendo um ancião dizendo “não”, para que se assemelhe a alguém que, olhando com entusiasmo para as bibliotecas, diga “sim” com criatividade, fundamento e alegria.
− A ilusão não se come − disse ela. − Não é comida, mas alimenta − respondeu o coronel. [Gabriel Garcia Marques]
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lgo fica muito claro durante as aulas regulares e as reuniões presenciais dos estudantes do Instituto Ibero-Americano de Formação Rabínica Reformista: há muita emoção e entusiasmo. O desejo de todos parece ser o de criar uma alternativa que conduza a uma vida judaica cheia de sentido, baseada fortemente em nossos textos e que encontre uma maneira de incluir e atrair aqueles que sempre se sentiram excluídos ou que não se identificaram com o que o atual mundo judaico da nossa região tem para oferecer. Parar de perceber o judaísmo como sendo “um ancião dizendo não” (Kamenetz, p. 48), para que se assemelhe a alguém que, olhando com entusiasmo para as bibliotecas, diga sim com criatividade, fundamento e alegria. Características estas que são compartilhadas por todos os nossos professores e que se tornam palpáveis em cada aula e a cada troca entre os alunos. Este artigo apresenta algumas ideias do pensamento filosófico judaico contemporâneo, conforme discutido em nosso grupo. Como estudante rabínico, meu interesse não está no rigor técnico da análise, mas em mostrar como esses conceitos ressoam nas buscas e motivações atuais daqueles que estão liderando esse particular momento da gênese institucional.
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II Suspeito, no entanto, que eu não era muito capacitado a pensar. Pensar é esquecer as diferenças, generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes, havia apenas detalhes, quase imediatos. [Jorge Luis Borges]
Martin Buber, um convite à justiça Uma das maiores motivações que experimentamos e compartilhamos é a da vontade de entender, respeitar e estabelecer relações empáticas e significativas no nível individual e comunitário. Uma verdadeira empatia, no sentido de tentar entender o que nossas comunidades e aqueles que desejam ingressar nelas, ou desejaram sem sucesso, estão sentindo e pensando. Os textos de Martin Buber foram profundamente motivadores nesses aspectos. As “palavras básicas” para Buber são o EU-TU ou EU-ISSO. Ao dizer ISSO, limito algo, quando digo TU entro em relação com algo (Eu e Tu, pp. 11 e 12). O ISSO eu experimento, é um acúmulo de informações que se remetem ao interior do indivíduo, não ao mundo mas ao
que ele experimenta (p. 13). Assim, no campo relacional existem três níveis. Um abaixo da linguagem: quando entro em contato com um elemento da natureza, posso vê-lo como um objeto contabilizável, classificável, ou posso – entrando em relação com ele, e sem deixar de contá-lo ou classificá-lo – vê-lo como um todo, composto e existente em minha frente. Um segundo nível toma a forma da linguagem: evitando ver uma pessoa apenas para caracterizá-la e situá-la tempo-espacialmente – ao evitar experimentá-la como ISSO, ELE ou ELA –, mas estabelecendo uma relação de reciprocidade com um TU. Buber aponta a complexidade desse processo “profundamente dual” (p. 22), no entanto o destino de todo TU é recair em um ISSO naqueles momentos em que a linguagem dos objetos se torna presente. Finalmente, no último nível há a falta de linguagem. No último nível há um testemunho do TU, quando nos sentimos convocados e respondemos, não podemos dizer “TU”, mas respondemos com todo o nosso ser “construindo, pensando, atuando” (p. 14). Não há em Buber um plano de exclusão da linguagem ou da experiência, mas sim a ideia que devemos responder com todo o nosso ser,
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textos do iifrr e servir ao chamado da maneira que apareça. EU e TU estamos relacionados, essa forma não existe de maneira objetiva, mas está presente em nosso dia a dia. (pp. 13 a 17). Essa presença nos permite encontrar um novo relacionamento entre o “EU” e o “TU”, que não mais recairá em um “ISSO” através da mediação da linguagem. Até agora, temos a sensação de sermos convocados por um apelo à ação e constante reflexão junto aos outros. Um convite para a construção conjunta. Um Outro que aparece e que devemos senti-lo. Ação e reflexão sobre a linguagem e suas reviravoltas, suas lógicas e suas limitações. Um sentimento para o Outro que excede sua definição. Em Eclipse de Deus, esses conceitos permitem que Buber explore a base do comportamento ético, “o sim e o não” (p. 117) do ser humano em constante relação com os outros. Se TU só pode deixar de ser um ISSO na ausência de linguagem, apelando para o relacionamento com o absoluto, a ética só é possível se o indivíduo entrar em relação com seus colegas da mesma maneira. É o que define Buber como o religioso: uma relação com o absoluto na qual se torna evidente que “o homem que se esforça para separar e decidir em sua própria alma não pode criar dele, de sua alma, uma escala absoluta de valores, porque somente a relação pessoal com o Absoluto emerge a natureza absolu-
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ta das coordenadas éticas” (pp. 118-120). No caso da cultura hebraica, isso seria evidenciado em uma aliança com Deus que nos convida a não imitar uma ordem celestial, mas propõe que criaturas humanas possam “distinguir entre o bem e o mal em sua alma” (p. 125). Como uma constituição, Buber diz, as leis divinas propõem levar o homem ao sagrado “ao âmbito onde a ética é confundida com religião” em um diálogo entre Deus e o homem que é construído em liberdade e completa independência (p. 126). Essa é a característica do povo judeu, esse elo entre o ético e o religioso. O primordial é a santidade do povo, o coletivo, o aspecto relacional entre indivíduos, num relacionamento com Deus que convida ao amor e à justiça, e não aquela do indivíduo isolado que, em sua esfera própria e individual, decide lutar por justiça para seu povo. O lugar do ser religioso como o lugar da ética, não mais como verdade absoluta, que pode ser igualado com o movimento das estrelas e que é revelada a indivíduos iluminados. O religioso como a construção compartilhada, fundada em diálogos generosos como os descritos acima. Outro entendimento para a teoria de Buber seriam os esforços de nossas comunidades com o objetivo de criar um comportamento ético. O lugar, então, do religioso não como aquele da experimentação de uma ver-
textos do iifrr dade que tem que ser comunicada, senão vê-lo no sentido de perceber o brilho do A prova divina da como uma incubadora de comportamenexistência de Deus não transcendente – a possibilidade infinita tos justos além da discussão de qualquer – em seus olhos, é ver o mandamento está na argumentação certeza metafísica. “Não Matarás”. Só nesse brilho há uma de sua existência, Durante a sua vida, Buber critica o resistência ética – não física – ao homicídiálogo com Deus que está cortado por dio que, quando percebido, desafia (pp. mas na busca e no um eclipse. Há pessoas que oram, mas 212 e 213). Nesse brilho se manifesta um encontro do Outro. elas não saem da consciência de si messer e a ética é fundada como um ato de Esse encontro implica mas. Deus é eclipsado pela “superconsser sem “impor nenhum limite, no enum relacionamento e ciência” (p. 142). Assim, até hoje estamos tanto, promovendo a minha liberdade, uma ética, baseados em um mundo de experiências, de relacriando a bondade”. Assim, abre-se cações EU-ISSO. Estamos sempre considena plena compreensão minho para os diálogo e para a razão, serando aspectos objetivos, que podem ajuguindo uma “essência ética da linguaque esse Outro dar, mas eles não podem por si só estagem”, pois “A face abre o diálogo origie Eu queremos belecer relações EU-TU (p. 144). Buber nal (...) diálogo que nos obriga a entrar persistir na vida. afirma que essas relações foram “enterrano diálogo (...) e assim funda a verdadeidas nas catacumbas” (p. 145). ra universalidade da razão” (p. 214). Nossas motivações demandam ir à busca do despertar O rosto também é a palavra: as mentiras e as sinceridacomo orar. Escapar da letargia litúrgica para ir ao encondes. Assim como os olhos brilham e expõem o Outro, as tro do Outro e reivindicar a sua realidade. Porém, é impalavras não moldam o mundo nem dão conta da “inteportante ressaltar que há outros que não estamos disposrioridade do Outro” (p. 215), mas abrem a possibilidade tos a ver e que enterramos sob as letras hebraicas de nosdo encontro. Com esse Outro autenticamente presente, o sos livros de oração. A centralidade de Deus às vezes funEu se torna “Um ser que recebe a ideia do infinito – que o ciona como uma desculpa para escapar daquilo que sentirecebe e, portanto, não pode tê-lo por si” (p. 217). Assim mos que deveria ser o nosso chamado. como Descartes tinha chegado à ideia de Deus pelo cogito, Levinas propõe encontrar a “verdade divina” (p. 217) na Emanuel Levinas, uma vida de santidade face do Outro, no brilho em seus olhos, no impronunciável e indecifrável que se esconde em suas palavras; na étiEm Totalidade e Infinito, Levinas distingue o Outro ca que descubro quando está em mim a possibilidade de presente na experiência que se torna parte da própria idenproteger ou aniquilar esse brilho. tidade. Um Outro metafísico, ou também um Outro abA prova divina da existência de Deus não está na arsoluto (p. 57). Para Levinas, a relação com o Outro não gumentação de sua existência, mas na busca e no enconimplica o desaparecimento do indivíduo no infinito (ou tro do Outro. Esse encontro implica um relacionamento no Estado), e também o indivíduo não se perde em devae uma ética, baseados na plena compreensão que esse Ouneios pelo vínculo com a outra experiência. O Outro está tro e Eu queremos persistir na vida. Nós não estamos, nopresente em uma expansão de pensamento com o intuito vamente, falando sobre leis, definições e detalhes que ao de enfrentar uma ideia de infinito. O Outro se torna um seguirmos nos são prometidos tempos significativos. Esmodo de viver a liberdade em um estado de aprendizatamos falando em proteger o brilho de um olhar. Como do e descoberta contínuos, abrindo possibilidades de penponto de partida para a construção de uma comunidade, samento onde “a ideia do infinito ocorre na oposição do o Outro e Eu somos suficientemente diferentes para ter discurso, na socialização” (p. 210). Assim, uma nova étio potencial de gerar universos de ação e reflexão de perfis ca é gerada diante do Outro e fora de si mesmo, como um marcadamente diferenciados. mero reflexo de experiências. Se Deus, por Levinas, é concebido como ausente após a Assassinar é negar o Outro de maneira absoluta. Ver Shoah é porque ele foi configurado para isso de um modo um rosto é experimentar a liberdade, verdadeiramente “um tanto primário” como sendo um “demônio obtuso”
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textos do iifrr que trata a humanidade como “crianças Hanna Arendt, a coragem do pensar Ser capaz de eternas” ao abrigo de um regime de rever o divino no Em Arendt também nos encontracompensas e punições (Difícil Liberdahomem não implica mos com um convite para entender nosde, p. 206). Assim, “um Deus adulto se necessariamente a sos vínculos sociais a partir da criatividamanifesta precisamente pelo vácuo do céu infantil” e no sofrimento Deus está humanização do divino, de. Não há ordem para ser revelada ou seguida. Arendt escreve que a realidade escondido. Os vestígios de sua compaimas sim efetivar não pode ser tão técnica e superficial. Asxão são excluídos, deixando o homem em a possibilidade de sim, ela nos propõe a pensar em busca de plena maturidade e responsabilidade por levá-lo ao nível da profundidade. suas ações e, particularmente no caso da ação e da ética. Arendt argumenta que “apenas o bem Shoah, o judeu é testemunha do caso no tem profundidade e pode ser radical” e qual o justo sofre devido à derrota da jusque o mal “é apenas extremo, e desprovido de qualquer tiça (pp. 206 e 207). profundidade e qualquer dimensão demoníaca”, de modo O importante para Levinas é que isso mostra a partique o mal é um desafio para pensamento, pois “pensar decularidade judaica, que não ama a Deus presente na termanda alcançar uma certa profundidade, ir para as raízes” ra com a qual ele está vinculado sentimentalmente, mas (Escritos Judaicos, p. 575). Se o pensamento se opõe por ama a Deus que ensinou o homem a fazer a leitura nesua profundidade à banalidade do mal, então uma ética cessária, refletir e posteriormente, agir. Um Deus que não não pode ser meramente recebida, mas necessariamente funciona como juiz, mas como professor que estimula a deve ser pensada. criação de uma ética. Como Levinas explica, o Deus liÉ deste lugar que Arendt expõe as teses que geraram teral da Torá, sem a mediação de juízes e exegetas, é um a maior controvérsia. Em relação ao Estado de Israel, Deus sangrento; o Deus universal da história é aquele que Arendt vê que “muitas pessoas de círculos sionistas tornapromove o amor enquanto humanos se matam em seu ram-se incapazes de ouvir os pontos de vista ou argumennome (p. 208). O Deus do judeu é aquele cujas palavras tos que se desviam do caminho trilhado e que não concornão são ordens, mas devem orações a serem interpretadam com a sua ideologia” (p. 574). Que “não pode haver das. É um Deus que quanto mais presente no ser humapatriotismo sem oposição e crítica permanente” (p. 571). no, mais evidente é a sua ausência no mundo. “Sua granNo mesmo sentido, Arendt sugere que o Holocausto deve deza não é o sopro do seu mistério sagrado. Sua grandeser estudado, e os líderes judeus da época também. Segunza não causa medo ou tremor, nos enche dos mais elevado a própria Arendt: “Só nos reconciliamos com o passado dos pensamentos” (p. 208). se começarmos a julgar e sermos francos sobre isso (...) O que Levinas propõe que paremos de pensar em Deus como tem que ser examinado não são tanto as pessoas, como os arAquele que queremos entender ou servir, mas como Um gumentos com os quais se justificam aos seus próprios olhos e poder que os humanos devem atualizar. É por isso que resiaos dos outros” (p. 573). de no brilho dos olhos: não porque se torne evidente, mas Para Arendt, não é através da mera reação ao horror porque se torna real como motor de ação e criação de insou ao patriotismo axiomático que o Estado de Israel e a tituições justas. Surge assim um ser humano que abandoShoá podem desempenhar um papel na formação judaica. na o Deus cheio das exigências de sua infância para abraO Estado de Israel e a Shoá devem estar presentes na reçar Seu convite para pensar e viver uma vida justa, signiflexão sobre estas questões. Isso nos convida especialmenficativa e santa. Ele é responsável por suas decisões, suas te a sermos capazes de nos questionar onde é mais difícil ações e sua vida. Diferente de um cão, que pode procurar como comunidade. Onde quer que queiramos reagir debenefício – com todo direito – nos restos da carne rasgada fensivamente, Arendt nos convoca a encorajar a reflexão, pela injustiça da guerra, nós buscamos uma vida de santicom objetivo de ver as sutilezas e os detalhes. Aprendemos, dade: recorremos à liberdade da mesma forma como um então, que não devemos nos apressar para alcançar as con“emancipado relembra sua servidão e é solidário com toclusões mais populares e aparentemente óbvias, mas prodos os submissos” (p. 218).
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por uma análise que evidencie as complexidades do que temos que enfrentar.
Gershom Scholem, sacralizando o profano Gershom Sholem argumenta que, para as tradições mais liberais, as questões de revelação e tradição, e Deus como sua base, são mais difíceis de responder do que para a ortodoxia (Há um mistério no mundo, pp. 10 e 11). Neste último caso, as tendências supranaturalistas atribuem à revelação um personagem alienígena ao uso da razão humana: estas palavras que Deus disse, que chegaram “ao ouvido” de um ser humano e que à nós (p. 16) cabe apenas obedecer. Para os mais liberais, a importância da palavra revelada reside em seu caráter como “o fundamento da liberdade em sua aplicação e interpretação” (p. 19). Enquanto isso, Deus, como realidade textual, “não pode nem mesmo ser declarado como um dever que aspira à validade” (p. 24). Assim, Sholem indica que essas ideias, nas quais a autoridade de divulgação textual é cancelada, se configuram por não estarem muito longe de uma concepção “humanista e secularizada” (p. 26) de Deus. Em outras palavras, há “uma imagem do homem em que Deus não impõe mais nada. Em seu lugar aparece agora um conceito exagerado da dignidade do homem, que põe em prática sua própria redenção” (p. 42). O medo de Sholem é uma ética judai-
ca que priva-se de Deus. Essa ética que exclui o divino não pode trazer santidade ao profano, no sentido de ser incapaz de agir em relação aos valores absolutos, porque só concebe um mundo em termos funcionais em que um esquema de valores é irrelevante (p. 46). Ser capaz de ver o divino no homem não implica necessariamente a humanização do divino, mas sim efetivar a possibilidade de levá-lo ao nível da ação e da ética. Negar uma revelação entendida como transmissão textual de um segredo milenar, para que possamos vê-lo em nosso pensamento e nas nossas relações com os outros. Não é viver em um mundo que precisa de valores, mas, muito ao contrário, nos distancia, de fato, daquilo que Sholem teme quando nos recusamos a transformar a técnica da exegese no mecanismo pelo qual definimos nossos valores. Procuramos, em vez disso, preencher o mundo que nos cerca de significado, para então poder ouvir com um coração sensível e abrir ouvidos aos nossos textos. Essas palavras de Sholem nos impelem a continuar bisbilhotando em nossa biblioteca para encontrar as palavras certas que revelam, nos termos de nossa tradição, aquilo que brilha aos olhos dos outros.
III O gaúcho argentino não bebe, se a música e os versos não o excitam. [Domingo Faustino Sarmiento]
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textos do iifrr O que eles vão pensar? Eles nos pernossos textos com criatividade para contiPodemos caminhar guntam. Se respondermos preocupados nuar escrevendo-os. Abrir, como o rabino até nossa tradição e com a mesma pergunta, com medo do Eleazar ben Azaria, as portas da casa de esusar nossos textos que eles pensarão de nós, provavelmentudo (Talmud Bavli, Berachot 27b-28a) e com criatividade te não pensamos em nada. Se, ao contráaproveitar as contribuições de todos. rio, nos encorajamos a ler a nossa tradipara continuar Bibliografia ção, sem dogmatismo, com vontade criaescrevendo-os. tiva e criatividade que encontramos em Arendt, Hannah, et al. Escritos judíos. Paidós, 2009. Arendt, Hannah, et al. The Correspondence of Hannah Arendt and Gernossos textos e história, então talvez possamos encontrar shom Scholem. University of Chicago Press. novos horizontes e caminhos que dão sentido às práticas Borges, Jorge Luis. Ficciones. Emecé, 1972. judaicas onde muitos não encontram. Buber, Martin. Eclipse De Dios: Estudios Sobre Las Relaciones Entre reliTalvez nós devêssemos ser questionados por Arendt gión y filosofía. Sígueme, 2014. para questionar o que nunca ousamos questionar, para deiBuber, Martin, and Paul R. Mendes-Flohr. Una Tierra Para Dos Puexar de lado os discursos já armados, aceitos apenas por clablos: Escritos políticos sobre la cuestión Judeo-árabe. Sígueme, 2009. Buber, Martin, and Crespo Horacio Gutiérrez. Yo y tú. Nueva Visión, mor ou insistência. Encontrar novas respostas, lendo as an1984. teriores. Junto com Scholem e Levinas, deixar de santificar Kamenetz, Rodger. The Jew in the Lotus: a Poet’s Rediscovery of Jewish técnicas de dedução de nossa tradição, suas permissões e Identity in Buddhist India. HarperOne, 2007. proibições, para assim tomar decisões que levem em conta Levinas, Emmanuel. Totalidad e Infinito: Ensayo Sobre La Exterioridad. uma nova inspiração ativa. Evitar ser o que Buber aponSígueme, 2006. tou, para se concentrar nas verdades que cada um enconLevinas Emmanuel, and Manuel Mauer. Difícil Libertad y Otros Ensayos Sobre Judaísmo. Lilmod, 2008. tra e nas lutas que nos convidam a sair em busca de novas Márquez, Gabriel García. El Coronel No Tiene Quien Le Escriba. Ed. verdades compartilhadas. Para que haja um Deus para nós, Era, 1963. reformistas, temos que investir na continuidade da interSarmiento, Domingo Faustino. Facundo. Mestas Ediciones, 2001. pretação compartilhada, e não nas conclusões. Um Deus Scholem, Gershom. Hay Un Misterio En El Mundo: Tradición y Seculaque é um símbolo de possibilidade e um convite permarización: Una Conferencia y Un Diálogo. Trotta, 2006. nente para ouvir novas ideias e motivações, e que não é Hernán Rustein mora em Buenos Aires e é estudante rabínico do representado como um ser satisfeito por causa dos limiInstituto Ibero-Americano de Formação Rabínica Reformista tes que colocamos em questionar e converter declarações. Em resumo, podemos caminhar até nossa tradição e usar Traduzido do espanhol por Rodrigo Baumworcel.
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COEXISTÊNCIA E COLONIALISMO
N
o mês de outubro passado a Universidade Al-Azhar do Cairo, a maior instituição religiosa muçulmana sunita do mundo, promoveu o Simpósio Internacional “O Islã e o Ocidente: Diversidade e Integração”. O site do governo egípcio “State Information Service” (sis.gov.eg) definiu o objetivo do encontro como sendo “o de retificar a imagem do Islã e dos muçulmanos que é retratada erroneamente no Ocidente e integrar de forma positiva os muçulmanos às comunidades onde vivem”. Em sua participação, o Grande Imam da Al-Azhar, Sheik Ahmed el Tayyeb, indicou o período do Al-Andalus (o estado Islâmico construído entre os séculos 8 e 13 na Península Ibérica) como um modelo de coexistência pacífica entre o Islã, o
Cristianismo e o Judaísmo. Mesmo se esquecermos os períodos em que a coexistência não foi nada pacífica, a escolha do exemplo é muito curiosa. O Al-Andalus não é um exemplo de cooperação e sim de colonização! A Península Ibérica foi conquistada militarmente em 711 pelo general Tariq ibn Ziyad e colonizada por membros da tribo Quraysh, original da Península Arábica (onde hoje fica a Arábia Saudita), que é a tribo do Profeta Maomé. Templos cristãos, como a catedral San Vicente, em Córdoba, foram convertidas em mesquitas, uma taxa especial foi imposta aos cristãos e aos judeus e as posições mais proeminentes na condução do Estado eram reservadas exclusivamente aos muçulmanos.
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O Al-Andalus não foi o único caso de colonização islâmica na Europa. Os Turcos Otomanos conquistaram e colonizaram vastos territórios europeus, que se espalham por Bulgária, Sérvia, Macedonia, Croácia, Kosovo, Hungria, Albânia, Georgia e Balcãs. Em campanhas militares parcialmente bem-sucedidas, os muçulmanos chegaram às portas de Viena e por pouco não entraram em Paris. Claro que tudo isto está no passado, assim como está no passado a muito mais curta colonização europeia no Norte da África e no Oriente Médio. Contudo, o mundo ficaria mais tranquilo se o modelo de coexistência pacífica proposto pelo Islã não tomasse como exemplo a sua colonização da Europa. ü
A GLORIFICAÇÃO DE UM ANTISSEMITA
“O
judeu pertence a uma raça que não tem uma civilização para chamar de sua, não tem uma religião inspiradora, e nenhuma grande realização em nenhuma área.”1 “Não há nenhuma outra raça ou nacionalidade que tenha desenvolvido esse tipo de pessoa.” “Não é que há alguns judeus entre os controladores financeiros internacionais, é que esses controladores mundiais são exclusivamente judeus.”2 Quem publicou os pensamentos
Lobro78/istockphoto.com
1 No original: “The Jew is a race that has no civilization to point to, no aspiring religion, no great achievement in any realm”. Publicado pelo jornal “Deadline Detroit” em 24 de janeiro, em artigo assinado por Bill Mc Graw. 2 No original: “There is no other racial or national type which puts forth this kind of person”. “It is not merely that there are a few Jews among international financial controllers – it is that these world controllers are exclusively Jews”. Mesma referência da nota acima.
acima? Não foi Adolf Hitler e sim uma pessoa cuja foto adornava o escritório de Hitler em 1931 (dois anos antes de ele tomar o poder) e que o nazista considerava ser sua inspiração. Esta pessoa é Henry Ford um norte-americano, fundador da Ford Motor Company, que até hoje opera com sucesso em todo o mundo. E que em janeiro deste ano, por ocasião do 100o aniversário de nascimento, teve o legado celebrado em prosa e verso por sua cidade natal, Dearborn, no estado de Michigan. A mesma cidade tem ruas e prédios com seu nome e abriga um museu dedicado à celebração das conquistas de Henry Ford, sem nenhuma menção ao seu antissemitismo. Diz Alan Dershowitz: “Henry Ford dedicou sua vida a duas paixões: fabricar carros e demonizar judeus. Quando Hitler disse: ‘Eu considero
Henry Ford como o meu inspirador’, ele não estava se referindo à sua habilidade industrial e sim à sua ideologia antissemita que, mais tarde, levou ao genocídio de seis milhões de judeus”.3 Cumpre notar que os herdeiros de Henry Ford se colocaram radicalmente contra a ideologia antissemita do pai e fundador e consistentemente apoiaram e apoiam instituições judaicas. Estas pessoas devem ser louvadas. Mas o antissemitismo de Henry Ford não deve desaparecer numa retrospectiva de sua vida, como aconteceu nas homenagens pelo centenário de seu nascimento. ü 3 No original: “Henry Ford devoted his life to two passions: making cars and demonizing Jews. When Hitler said, ‘I regard Henry Ford as my inspiration,’ he wasn’t referring to his car manufacturing. He was referring to Ford’s anti-Semitic ideology that eventuated in the genocide of six million Jews”. Publicado pelo Gatestone Institute em 6 de fevereiro.
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O ANTISSEMITISMO NA EUROPA
E
europeu é predominantemente muçulmano; 30% dos que responderam ter experimentado alguma forma de assédio antissemita nos últimos cinco anos disse que o perpetrador era muçulmano. Ao mesmo tempo, a segunda maior fonte de antissemitismo surpreende: ela é atribuída a perpetradores com visão esquerdista (21%), número bem maior que o percentual de perpetradores com visão de direita (13%). A descoberta mais impressionante da pesquisa é que um terço dos entrevistados considerou emigrar da Europa porque não se sente mais seguro. Um número semelhante diz
• O antissemitismo permeia a vida cotidiana. • O antissemitismo prejudica o sentimento de segurança dos judeus. • O assédio antissemita é tão comum que se normalizou. • Uma grande maioria (77%) de casos de discriminação antissemita não é reportada. A pesquisa também mostra o que todos já sabiam: o antissemitismo 1 https://fra.europa.eu/en/publication/2018/2ndsurvey-discrimination-hate-crime-against-jews 2 Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Itália, Lituânia, Holanda, Hungria, Polônia, Reino Unido e Suécia.
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que “pelo menos ocasionalmente evita participar de eventos judaicos” por receios com a segurança. Esse problema é particularmente agudo na França, lar da maior população judaica (e muçulmana) da Europa, onde um êxodo em câmera lenta está em andamento desde o mortal ataque islâmico de 2012 contra uma escola judaica em Toulouse. Para os interessados no assunto, a leitura do muito bem apresentado relatório é uma quase obrigação. A partir do link da nota 1 deste texto é possível baixar tanto o questionário como as respostas e as conclusões. ü Werbeantrieb/istockphoto.com
m dezembro passado a Agência da União Europeia para Direitos Fundamentais publicou sua segunda pesquisa sobre a “Experiência e a Percepção de Antissemitismo”1, um estudo conduzido em 13 países2, no qual 16.395 pessoas foram entrevistadas. Esta é a segunda edição do estudo, cinco anos depois da primeira, que incluiu sete países. Os participantes da pesquisa tinham mais de 16 anos e se consideravam judeus, por quaisquer motivos: religião, cultura, educação, etnicidade e outros. Eles foram questionados sobre o antissemitismo como um problema em sua vida cotidiana; experiências pessoais de incidentes antissemitas e as preocupações quanto a se tornar vítima de um ataque antissemita. O objetivo da pesquisa é permitir que os legisladores da União Europeia formulem políticas para a prevenção de ataques antissemitas. Foi identificado que a situação não melhorou de 2013 para 2018. Os mesmos quatro pontos centrais continuam a atormentar os judeus da Europa:
Lenalir/istockphoto.com
PARTICIPE DA HISTÓRIA
O
Centro de História e Cultura Judaica – CHCJ – lançará a versão em português do livro Fleeing from the Fuhrer: a postal history of refugees from the nazis, uma extraordinária história contada a partir de cartões postais e cartas trocadas por refugiados da Alemanha nazista em busca da família ou amigos nas décadas de 1930/40, que oferece uma visão singular sobre como os refugiados mantiveram sua cultura e comunidades vivas em todo o mundo.
Publicado na Inglaterra em 2011, o livro conta a história de mais de 100 envelopes que correram meio mundo para encontrar seus destinatários e a surpreendente trajetória e os obstáculos percorridos, através da leitura dos carimbos, selos e endereços de cada um. Complementarmente será lançado um volume anexo com a história de algumas famílias que imigraram para o Brasil da Europa no mesmo período e também de países árabes na década
de 1950. Este volume complementar também contará a história através da análise dos selos postais das correspondências. Se você possui algum envelope, telegrama ou cartão postal com essas características, da família ou de conhecidos, entre em contato conosco para saber mais. Por WhatsApp (021 999476625) ou por e-mail (rosmandebora@gmail. com) ü
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Efesenko/istockphoto.com
CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MAIS…
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srael é louvado em prosa e verso por seus feitos nos campos da bioengenharia, da alta tecnologia (inclusive na área aeroespacial, com a nave Bereshit que está chegando na Lua enquanto escrevemos esta nota), e em tantas outras áreas associadas com os confortos e maravilhas da vida moderna. Mas o que poucos no Brasil sabem é que Israel também se destaca na culinária. Segundo a Bloomberg, “Israel tem um dos mais excitantes cenários da culinária mundial e está sendo cada vez mais procurado como um destino gastronômico, tal como Nova York ou Londres. Donos de restaurantes em Israel dizem que mais de 30% de seus clientes são visitantes estrangeiros, liderados por norte-americanos, ingleses e franceses”. Um dos mais famosos chefs
israelenses é Yotam Ottolenghi, que tem cinco restaurantes em Londres e é autor de maravilhosos livros de culinária. “A cozinha moderna de Israel é interessante e animadora, e sua história é maior do que apenas a culinária, ela também nos conta sobre a interação com a cozinha árabe palestina e as tradições culinárias que os judeus trouxeram de todos os cantos do mundo”, diz ele. O site “La Liste” classifica os mil melhores restaurantes do mundo segundo um software que avalia dezenas de milhões de avaliações de clientes e profissionais. Israel tem 13 restaurantes nesta lista, estando em 21o lugar entre os países. Estes números podem não parecer muito impressionantes, mas há que considerar o tamanho do país. Os EUA têm uma população quase 40
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vezes maior que a de Israel, 20 vezes mais turistas estrangeiros e seu número de restaurantes entre os mil melhores é apenas cinco vezes maior do que Israel. O turismo cresceu 14% em Israel entre 2017 e 2018. Quando se compara com 2016 este número pula para 42%. E 2019 não está dando sinais de desaquecimento, muito ao contrário. Mais de 4 milhões de turistas visitaram Israel em 2018, o que garantiu uma receita de quase 6 bilhões de dólares. Pela multimilenar aventura do povo judeu, Israel é um destino turístico muito popular nos circuitos histórico e religioso. Mas agora ele está entrando com força também no mercado do turismo de quem procura ambientes sofisticados. Mais uma interessante evolução deste pequeno país de apenas 70 anos. ü
OLHANDO PARA A ONU
E
m meados de março, debaixo de um céu cinzento e de uma intermitente chuva fina e gelada, mais de mil pessoas se reuniram na frente do belo prédio da Organização das Nações Unidas em Genebra, Suíça, para protestar contra o tratamento diferenciado que a ONU dispensa a Israel na questão dos direitos humanos. O encontro foi denominado “Manifestação em prol de Direitos Iguais nas Nações Unidas”. A manifestação foi longa, durou três horas, mas a poderosa lista de oradores justificou plenamente o tempo do evento. Diplomatas, políticos, militares, dirigentes comunitários se sucederam no microfone denunciando a forma enviesada como o Conselho de Direitos Humanos da ONU enxerga o mundo. Para eles, o único país a ser condenado é Israel, um país que protege suas minorias e garante igualdade às mulheres e à comunidade LGBT. Não é preciso fazer grandes pesquisas para identificar esta verdade. Os 20% árabe (muçulmanos e cristãos) da população de Israel não pensa em deixar o país, mesmo tendo recebido uma boa educação e não enfrentando nenhuma barreira para sua saída. Parafraseando o que disse (em outro contexto) o Rabino A. J. Heschel, as pessoas “votam com os seus pés”. Ou seja, basta olhar os movimentos migratórios do mundo para entender como os países tratam os seus cidadãos. Os milhares de litros de tinta gastos nos relatórios que pintam Israel como o pior violador dos direitos humanos não conseguem esconder esta singela verdade. A manifestação de Genebra foi organizada pela ONG UN Watch. Conforme diz seu website unwatch. org, ela é “uma organização não governamental cujo mandato é
monitorar o desempenho das Nações Unidas pelo critério de sua própria Carta”. Seu diretor-geral, Hilel Neuer, é uma pessoa extremamente bem informada que trabalha incansavelmente, com uma equipe muito pequena para monitorar a ONU. E suas críticas são contundentes e muito significativas. Dentre muitas outras coisas, ele lembrou na manifestação que os criadores da Comissão de Direitos Humanos da ONU, Eleanor Roosevelt e Henry Cassin, foram grandes apoiadores e defensores de Israel, advogando pelo seu direito de existir e depois pelo seu direito de se
defender. “Estes são os verdadeiros promotores dos direitos humanos e não Arábia Saudita, Cuba e Rússia, que sentam hoje no conselho”, disse Neuer. Ele lembrou também de Henry Dunant, o fundador da Cruz Vermelha, que em meados do século 19, trinta anos antes de Herzl ter fundado o movimento sionista, já escrevia sobre a justiça e a necessidade dos judeus terem o seu país. Realmente é uma lástima que a única coisa bonita que restou na ONU seja a arquitetura de seus prédios. O mundo precisa acordar para isto e a UN Watch faz de tudo para que isto aconteça. ü
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cócegas no raciocínio
SHLOSHIM – AMÓS OZ: TRAIDOR OU TRAÍDO? J
á se escreveu bastante sobre Amós Oz, o escritor. Sobre Amós Oz, o ativista político. Textos de críticos literários, de colegas escritores, de militantes pró e contra seus pensamentos e suas causas já foram publicados, ao longo de sua vida e neste mês que o shloshim encerra. A partir de agora, o texto mais eloquente sobre Oz, o único a ser considerado, o único inequivocamente autêntico, será o dele, não só sobre si mesmo, mas principalmente sobre sua visão de um mundo e uma época em que ele esteve sempre fora da curva, arauto ou invocador de uma realidade possível, mas cada vez mais distante, em que coexistem todas as diferenças, e todas as diferenças contribuem para um futuro compartilhado. Neste número de Devarim procurou-se fazer ressoar a voz de Oz, para que não se cale nem seja esquecida. Para que conquiste corações e mentes numa jornada de contestação e de esperança, quando se mata em Utrecht, em Pittsburgh, em Ariel, na Nova Zelândia, em Suzano, Estrasburgo, Paris, Londres, Boston, Oslo, Cairo, Madrid, Barcelona, Buenos Aires, e onde não, como fato consumado, como perigo e como ameaça? Por que e para quê? Quando o Irã instala bases militares na Síria, o Hezbollah anuncia a futura destruição de Tel Aviv e de Haifa, o Hamas lança foguetes contra civis no sul de Israel e em Tel Aviv, balões incendiários contra plantações e florestas. Por que e para quê? Quando a ideia de que Israel – sionista e democrático – seria ao mesmo tempo o Estado nacional do povo judeu e também o Estado de todos os seus cidadãos é poluída pelo conceito de que só judeus podem se orgu-
lhar de sua pátria e se sentirem cidadãos plenos. Quando o ideal maior de um mundo formado por miríades de identidades que se entrelaçam, se sobrepõem e se completam para o bem comum – e também para preservar o futuro de um planeta que é o lar de todos, ricos e pobres, poderosos e vulneráveis – é sufocado pelo aqui e agora de um desenvolvimentismo não sustentável, de chauvinismos excludentes, movidos mais por ganância de acúmulos e reservas de mercado do que pela ideia de liberdade, fraternidade e igualdade, como retrato da vida real e não como lemas demagógicos. Quando a reivindicação dos palestinos de um Estado nacional – mais um entre os muitos Estados árabes e as dezenas de Estados islâmicos – baseiase na negação à existência de um só e minúsculo estado judeu no único lugar no mundo em que pode existir. Quando o islamismo radical alega que aquela terra só é, e só pode ser, islâmica. Quando mais de 3.000 anos de história judaica são ignorados ou descartados. É quando tudo isso acontece que a voz de Amós Oz tem de ser ouvida, cada vez mais forte. Ele, sionista declarado e patriota convicto, que muitos consideram um traidor da causa sionista por vê-la como um projeto de mútuas concessões com causas e anseios alheios, o que é o fundamento mesmo de qualquer projeto para um futuro de paz e de convivência, em nível individual, familiar, cultural, comunitário, nacional e planetário. Oz tampouco se iludiu com a ideia de que isso seria possível quando a ideia não é recíproca na maior parte do mundo árabe e islâmico, nos antisse-
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Paulo Geiger
Dreamcreation/ istockphoto.com
mitas, antissionistas e anti-israelenses crônicos, numa esquerda retrógrada e engessada em lemas antigos, numa direita cada vez mais chauvinista, fascista e neonazista. Não era um pacifista iludido com miragens. Sabia que teria de mudar ‘o outro lado’ também, e que isso está muito mais distante do que o senso de justiça que suas palavras inspiram. Oz sabia, e escreveu sobre isso, que às vezes o ‘traidor’ é o verdadeiro visionário, aquele que vê uma possibilidade melhor que a maioria ainda não enxerga, quem pensa no total e não na parcela, no resultado final e não na etapa transitória. Na verdade, ao ser considerado um traidor, ele estava sendo traído. Traído por quem não leu o que escreveu, ou leu com a mente fechada nas idiossincrasias e nos radicalismos e fanatismos que Oz tanto combateu. No shloshim de Oz, tihie nafsho (udvaro) tsrurá betsror hachaim. Que sua alma (e sua palavra) se enfeixem no feixe da vida.
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