DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI
Ano 13, n° 35, abril de 2018
Justiça social e movimento reformista David Barak-Gorodetsky
Fazemos qualquer coisa? Rabino Damián Karo
O crime de ser vítima Paulo Geiger
As serpentes Rabino Sérgio R. Margulies
Bund: um partido radicalmente socialista e profundamente judaico Michel Gherman
A literatura perde Aharon Appelfeld
Quem escreveu a Torá? Rabino Dario Bialer
A parcialidade da Unesco Renata Trief Roitman
Os EUA no Oriente Médio: Entrevista com Dennis Ross
Berta Waldman e Saul Kirschbaum
Felipe Kaufman Gorodovits
A Banalidade do Mal e o Inferno de Dante
Os judeus na Amazônia
Ruth Kelson
Elias Salgado
A biblioteca que virou país “Existe realmente uma nação judaica, mas ela se distingue de muitas outras nações pelo fato que o percurso de sua vida não se pontua pelos seus genes nem por vitórias no campo de batalha, e sim por livros.”
A
meu ver, este trecho do livro Mais de uma luz, de Amós Oz1, responde com perfeição à indagação que nos persegue desde sempre: Quem somos? É uma indagação universal, mas que, entre nós, causa grande dissonância. Contudo, há 70 anos – um quase nada numa caminhada de 4 mil anos – o Estado de Israel introduziu uma perturbação neste cenário. Nos obrigamos voluntariamente a deixar de ser uma nação definida apenas por ideias e nos empenhamos em fazê-las migrar da biblioteca para a rua, coisa que não acontecia há pelo menos 2 milênios. Este processo envolve escolhas entre as várias abstrações que convivem na biblioteca e, depois disso, em sua adequação para o tangível. É um processo doloroso, pois no fim da linha há sempre uma comprovação concreta, que aniquila muito do que nasceu como bela, se bem que irrealizável, teoria. Até aqui este processo é amplamente vitorioso. Israel abriga uma sociedade que está na 11a colocação no “World Hap piness Report” da ONU, com níveis de pobreza real (não relativa) dentre os menores do mundo e num nível europeu de qualidade de vida. Tudo isto num país em estado de guerra desde sua independência, encravado numa região onde a turbulência é a regra. Politicamente, Israel é a mais bem-sucedida criação do século passado (no mínimo). A imensa sabedoria de nossa tradição afirma que apenas Deus é perfeito. Assim, o Estado de Israel, fruto de mãos humanas, não obstante seu sucesso, tem falhas. E, por incrível que pareça, as mais graves se situam em duas situações onde nossa literatura é abundante e onde a sensibilidade histórica não deveria deixá-las acontecer. A primeira é a ocupação da Cisjordânia e o consequente imperativo de governar sobre uma população que não deseja ser parte de Israel. Pressionados por uma insensata (quantos
1 Companhia das Letras, 2017, traduzido por Paulo Geiger.
EDITORIAL falsos messias já tivemos!) religiosidade messiânica, insistimos em dar espaço a pessoas que dizem interpretar com fé cega e fanática a vontade de Deus e causam a brutalização do exército e uma situação de difícil sustentação a médio-longo prazo. A segunda é ainda mais incompreensível. Depois de tantos séculos sofrendo discriminação religiosa, os judeus de Israel, a cada eleição, cedem às demandas dos que impõem uma única forma de expressão religiosa à população judia do Estado. Sabemos que foi uma vital necessidade política que inventou este esquema. Entendemos os motivos e aplaudimos a decisão da época. Mas, depois de 70 anos, ainda invocar a manutenção de um ultrapassado status quo é, ao mesmo tempo, um erro trágico e uma acomodação covarde. Com a mesma intensidade que a desocupação da Cisjordânia, o maior desafio de Israel em seus próximos anos é reconhecer que, da mesma forma como as forças voluntárias do mercado fizeram avançar Israel econômica e socialmente, a religião sem coação vai fazer Israel e o judaísmo avançarem espiritualmente. O Estado não pode interferir na religião, que é uma questão de foro íntimo. Seguidores de uma corrente religiosa não podem ter nenhum tipo de privilégio. A opressão da Rabanut desvaloriza a mulher, estigmatiza os homoafetivos, afasta os judeus de sua cultura e cria um sistema corrupto que envenena a sociedade israelense. Mas com certeza Israel será vitorioso também nestas duas lutas, pois a opressão é insustentável. Contudo, ela não acaba por si só, conforme acabamos de relembrar em Pessach. Pela benção de Israel ser uma democracia, estas situações podem ser revertidas pelos votos dos eleitores. E nós, os judeus da Dispersão que concordamos com a análise acima, podemos apoiar a mudança dos rumos políticos ao deixar clara, sempre que possível, nossa rejeição tanto ao messianismo quanto à coerção religiosa. Festejamos intensamente os 70 anos de Israel. Com a mesma intensidade devemos lutar, cada um dentro de sua capacidade, pela igualdade e pela desocupação. Raul Cesar Gottlieb – Diretor de Devarim
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Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 13, nº 35, abril de 2018 PRESIDENTE DA ARI
Flávio Kosminsky RABINOS DA ARI
Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA
devARIm [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ari, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.
Raul Cesar Gottlieb CONSELHO EDITORIAL
Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO
Roney Cytrynowicz / Editora Narrativa Um EDIÇÃO DE ARTE
Ricardo Assis (Negrito Produção Editorial) Tainá Nunes Costa REVISÃO DE TEXTOS
Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA
Doomko/iStockphoto Colaboraram neste número: Berta Waldman, Rabino Damián Karo, Rabino Dario E. Bialer, David Barak-Gorodetsky, Elias Salgado, Felipe Kaufman Gorodovits, Michel Gherman, Paulo Geiger, Renata Trief Roitman, Ruth Kelson, Saul Kirschbaum e Rabino Sérgio R. Margulies. Tradução: Daniel Kovarsky, Raul Cesar Gottlieb Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br (www.devarim.com.br) Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Telefone: 21 2156-0444 A contracapa de Devarim é uma criação baseada no slogan do Movimento Reformista de Israel – IMPJ. A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.
SUMÁRIO As serpentes Rabino Sérgio R. Margulies..................................................................... 3 Quem escreveu a Torá? Rabino Dario Bialer................................................................................ 9 Justiça social e movimento reformista: reavaliando o século 20 David Barak-Gorodetsky....................................................................... 17 100 anos do Bund: um partido radicalmente socialista e profundamente judaico Michel Gherman................................................................................... 23 Os EUA no Oriente Médio: entre a retórica e a realidade Entrevista exclusiva: Dennis Ross Felipe Kaufman Gorodovits.................................................................. 33 Parcialidade da Unesco: a saída dos Estados Unidos e de Israel Renata Trief Roitman............................................................................ 41 Fazemos qualquer coisa? Transformar para continuar Rabino Damián Karo............................................................................ 49 A literatura hebraica que tematiza a Shoá perdeu seu mais destacado autor Berta Waldman e Saul Kirschbaum....................................................... 55 Aonde situar a banalidade do mal no inferno de Dante Alighieri? Ruth Kelson.......................................................................................... 61 Os Judeus na Amazônia: História e memória de um judaísmo singular Elias Salgado......................................................................................... 69 Resenhas de Livros........................................................................... 74 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger.......................................................................................... 76
AS SERPENTES Rabino Sérgio R. Margulies P R I M E I R O C A P Í TU L O
E
Cena 1: Esguias, entram de modo sorrateiro nos ambientes. Espreitam a vítima. Em fração de segundo alvejam seu alvo com seu veneno. São as serpentes, assustadoras pela sua astúcia e pela sua capacidade de infligir o mal. ‒ “Vejam elas rastejam e derrubam os que caminham – nós.” ‒ “Nós? Como nós? Eu não! Não estou numa selva na qual as serpentes habitam, tampouco estou em alguma caverna e nem em algum deserto pelo qual as serpentes rastejam pelas areias.” ‒ “Nós sim, porque estamos na selva da desavença e na cizânia da discórdia. Nós, porque estamos na obscuridade dos lugares em que a luz da harmo-
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a serpente era astuta – mais do que qualquer animal do campo feito pelo Eterno Deus – e disse à mulher: Acaso Deus disse ‘Não comereis de toda árvore do jardim’? E disse a mulher à serpente: Do fruto da árvore do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim – disse Deus – não comereis dele, nem tocareis nele, para não morrerdes. E disse a serpente: não morrereis! [...] E o Eterno Deus chamou ao homem e lhe disse: [...] por acaso comeste da árvore da qual te ordenei não comer? E o homem disse: a mulher que deste para mim, ela me deu da árvore e comi. E o Eterno Deus disse à mulher: ‘Que fizeste?’ e a mulher respondeu: A serpente me enganou e comi. (Torá, Bereshit/Gênesis 3:1-13).
Quando nos tornamos presas das serpentes, ainda continuamos a nos sentir imunes, então apontamos os dedos. Ao invés de assumirmos a responsabilidade, criamos um culpado.
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nia foi extinta. Nós, porque estamos na aridez dos lugares que ceifam o florescer das bênçãos do entendimento. Sinto muito, mas todos nós somos potenciais alvos das serpentes. Não se culpe, pois o lugar não importa. Lá uma serpente pode se manifestar. Até mesmo no Éden.” – “Se é Éden, portanto um estado de paraíso, não pode haver o mal. A pureza imaculada prevalece. Ou será que nos deixamos enganar, que nos iludimos?”
Cena 2: O Éden não é um palco cujo cenário vemos ou imaginamos. Adam [Adão] e Chava [Eva] não são personagens que observamos ou cremos. O Éden é a própria vida. Adam sou eu, e você. Chava sou eu, e você. ‒ “A ilusão está em esquecermos nossa vulnerabilidade e acreditarmos que certos males não vão nos atingir. Nos enganamos ao julgarmos que estamos imunes às serpentes.” ‒ “De fato, quando nos tornamos presas das serpentes ainda continuamos a nos considerar imunes, então apontamos os dedos. Assim, ao invés de assumirmos a responsabilidade, criamos um culpado. Tal como Adam e Chava, apontamos o dedo. Traímos quem deveríamos confiar. Ao veneno da serpente soma-se o veneno da acusação.”
Cena 3: Adam e Chava. Luzes se apagam. Sons embrutecidos. Vozes raivosas. A serpente some. Ao fundo, a árvore do saber, do fruto proibido.
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‒ “Foi ela, a serpente!” ‒ “Ela, quem? Não vejo a serpente, foi você.” ‒ “Você!” De longe, em riso maligno e regozijo perverso, sem ser vista, a serpente. A serpente some, seu efeito dura. Seu veneno destila nas acusações mútuas. A faísca da discórdia provoca o incêndio que queima os vínculos. ‒ “Não preciso de você. Não preciso te ouvir. Comi o fruto da árvore do saber. Tenho o saber.” Sorrateira, a serpente continua sem ser vista: está alojada nos espíritos atordoados pela prepotência e arrogância.
Cena 4: Nascem Cain e Abel.
Cena 5: Cain mata Abel. O fruto da arrogância traz a semente da arrogância. Arrogância, prepotência e discórdia matam.
S E G U N D O C A P ÍTU L O Então Moisés respondeu, dizendo: mas eles não acreditarão em mim nem ouvirão a minha voz, pois dirão: ‘O Eterno não apareceu a ti!’ – e o Eterno disse para ele: “Que é isso em tua mão?” E disse: Uma vara. E disse: “Jogue-a ao chão” – e jogou-a ao chão e virou uma serpente, e Moisés fugiu de sua face. E o Eterno disse a Moisés: “Estende a tua mão e pega a sua cauda”. Estendeu a sua mão e pegou nela, e virou uma vara na sua palma. (Torá, Shemot/Êxodo 4:1-4)
Cena 1:
Moshé está na confiança de quem não se submete à perversidade da serpente, que não se deixa levar pela ânsia de controlar e fazer dos outros seus fantoches.
‒ “Eu sou...” ‒ “Sinto muito... não estou interessado.” ‒ “Eu sou...” ‒ “Outro dia...” ‒ “Eu sou...” Silêncio. ‒ “Eu tenho uma ideia...” ‒ “Caia na real...” ‒ “Eu tenho um pedido...” ‒ “Volte depois...” ‒ “Fui eu quem fiz...” ‒ “Ah, não acredito...” Pegue seu cajado e jogue no chão. O cajado vira serpente. A serpente: símbolo do poder que precisa ser ostentado para que sejamos escutados. A ordem divina a Moshé [Moisés]: Pegue de volta a serpente que tornou-se novamente cajado. A mensagem é: não se submeta aos falsos símbolos da ostentação.
Cena 2:
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O povo não crê em Moshé. O desafia em desconfiança. O cajado, símbolo da razão honesta e do cuidado pastoral que apregoam a liberdade através de uma jornada conjunta, é desprezado.
Cena 3: Moshé desaparece. O palco se mescla com a plateia. ‒ “Cadê Moshé?” ‒ “Aqui, aqui, não vês?” ‒ “Não!” Ao fundo, a serpente sorrateira ri pelos que não enxergam a razão e o cuidado mútuo. ‒ “Aqui está Moshé, não vês?” ‒ “Não!”
Cena 4: As luzes se apagam. Foco na plateia. ‒ “Aqui está Moshé, não vês?” ‒ “Agora sim.” Moshé está em cada um que é ciente de seu potencial. Em cada um que pode ter a serpente na mão, mas que compreende o quão nefasto é o exercício arbitrário da submissão alheia. Moshé está na confiança de quem não se submete à perversidade da serpente, que não se deixa levar pela ânsia de controlar e fazer dos outros seus fantoches. Moshé está nas mãos do cajado que guia e assume responsabilidade e não nas mãos que agem com falsidade.
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TE R C E I R O C A P Í TU L O
Isentar-se e transferir a responsabilidade para uma pessoa, um objeto e até a Deus é idolatria. Esta idolatria anula nosso potencial de realização e permite culpar o outro.
E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizeste subir do Egito para morrer no deserto, onde não há pão nem água, e nossa alma tem fastio desse pão tão leve? E o Eterno enviou para o povo as serpentes abrasadoras, que picaram o povo; e morreu muita gente de Israel. E o povo veio a Moisés, e disse: pecamos, pois falamos contra o Eterno e contra ti! Ora ao Eterno para que tire de sobre nós a serpente – e Moisés orou pelo povo, e o Eterno disse a Moisés: “Faze para ti uma serpente abrasadora e põe-na sobre um poste; e acontecerá que todo aquele que for picado, olha para ela, viverá.” (Torá, Bamidbar/Números 21: 5-8)
Cena 1: Coro: – “Agora! Já! Quero agora!” – “Viu, eles reclamam, você errou. Você falhou.” – “Sim, eles reclamam, afinal são imediatistas. Não olham a jornada. Não apreciam o percurso. Nem enxergam o caminho já realizado ou o destino vislumbrado.” O coro prossegue: – “Agora! Já! Agora!” Ao fundo, a serpente que se julgava sem força, fica novamente atiçada. É sua chance de voltar a atacar.
Cena 2: Coro: – “Errei. Perdão.” – “Eu também erro. Aceito o perdão.” As serpentes encontram terreno fértil nos pântanos da rigidez e se fortalecem na desolação do isolamento. Diante da flexibilidade do perdão que aproxima, as serpentes enfraquecem.
Cena 3: – “Moshé, por que as novas serpentes? Pedimos sua ajuda, não sua vingança.” – “Cada um pode agir com vingança, se aproveitando da fraqueza alheia. Não é a serpente que tem a força de envenenar. Somos nós que permitimos que elas tenham força, seja de envenenar, seja de curar.” Não se trata da serpente. Trata-se da atitude. De como agimos. De como procedemos e como decidimos ser nossa atitude para com a vida, para com os outros e para conosco próprio.
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Q U A RTO C A P ÍTU L O Começou a reinar Hizkiá [Ezequias] ben Ahaz, o rei de Judá... E ele fez o que era reto aos olhos do Eterno... e triturou a serpente de cobre que Moisés fizera, porque até aqueles dias os filhos de Israel lhe queimavam incenso. [Tanach/Bíblia, 2 Reis 18:1- 4]
Cena 1:
– “Faz por mim.” – “Assume tua responsabilidade e fazemos juntos.” – “Eu não sei. Faz por mim.” – “Busquemos alguém que possa lhe auxiliar no aprendizado.” Isentar-se e transferir a responsabilidade para uma pessoa, um objeto, um animal e até a Deus é idolatria. Esta idolatria anula nosso potencial de realização e joga a culpa no outro. Voltamos às acusações de Adam e Chava.
Última cena: Adam, Chava, Moshé e o rei Hizkiá aparecem juntos. E cada um de nós ao lado deles. Todos riem. Risos de felicidade. Não se trata da serpente. Nem das que picam e matam, nem das quais é atribuída a cura. Igualmente não se trata de culpar o outro ou de ostentar salvaguardas do poder. Trata-se do que transmitimos e fazemos e da serpente que cultivamos em nós. Lendo a Torá podemos ousadamente perguntar: Quem são estes personagens? Os personagens são quem escolhemos ser. Os personagens são quem somos, quem queremos deixar de ser ou almejamos nos tornar. Inclusive, as serpentes. Os textos bíblicos são traduções extraídas da Bíblia Hebraica, David Gorodovits e Jairo Fridlin, Editora Sefer, 2006, Brasil. Em dois versos a tradução foi modificada de cobra para serpente a fim de manter a uniformidade da palavra hebraica “nachash”, não essencial na tradução mas sim para a unidade temática do artigo que expõe livremente conceitos interpretativos a partir dos textos bíblicos citados. Sérgio Roberto Margulies é rabino e serve à ARI-Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro.
Eles deixaram um Legado
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QUEM ESCREVEU A TORÁ? Rabino Dario Bialer No judaísmo, a palavra de Deus e também a palavra dos homens são mitsvot, imperativos para que o ser humano alcance uma vida plena.
Na página anterior Estátua de Moisés, de Michelangelo, em Roma.
U
ma pergunta tão fechada como a do título deste artigo pode dar a impressão que não há muito o que falar. Que o tema pode ser resumido numa única linha: A Torá foi escrita pelo dedo de Deus e entregue a Moisés no Sinai. Fim do assunto. Mas uma leitura atenta da própria Torá abre outras possibilidades e desvenda um mundo apaixonante de revelações surpreendentes que nos ajudam a entender a razão pela qual tantas pessoas ao redor do mundo e durante vinte séculos escolhem aceitar a autoridade do que chamamos Torá. Adquiriram mais cópias dela do que qualquer outro livro. Ela é citada (às vezes deturpada) mais do que qualquer outro livro. Ela também foi mais traduzida (às vezes erroneamente) do que os demais livros. Não é, então, esquisito que nós nunca soubemos com certeza quem produziu o livro que tem um papel tão central em nossa civilização?1 O que, de fato, garante sua autoridade sobre nós? Sua antiguidade? A comunidade que a transmitiu através dos séculos? Ou a noção de que, de algum modo, ela registra ou reflete a vontade “revelada” de Deus? Se for a última opção, então como a vontade de Deus se incorporou num livro ou num conjunto de livros?2
1 Richard Elliot Friedman, Who wrote the Bible?, editado por Harper Collins, New York, 1987. 2 Gillman, Neil, Fragmentos Sagrados: recuperando la teologia para el judio moderno, editado por Lilmod, Buenos Aires, 2008.
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Comecemos nossa leitura pelo versíAs mitsvot na tradição o povo obedeceria a palavra de Deus, coculo 12 do capítulo 24 do livro de Shemeçam os preparativos para a entrega da judaica se articulam mot / Êxodo, que parece confirmar com Torá. entre as que são precisão a crença de que a Torá foi escriMoisés guiou o povo para fora do camoriginais na Torá e ta por Deus e entregue a Moisés no Sinai: po em direção a Deus, e eles se puseram O Eterno disse então a Moisés: “Suba aos pés do monte. E o Monte Sinai estaas que foram criadas até Mim no monte e esteja lá; e Eu lhe dava todo esfumaçado, pois o Eterno descepelos rabinos. 3 rei as placas de pedra e os mandamentos e ra sobre ele em [forma de] fogo; a fumaça os ensinamentos que nelas gravei para os instruir”. subia como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte treMas esta passagem coloca em cheque a sequência do mia violentamente. E o toque do shofar se tornava mais e relato da Torá.4 Veja que antes do capítulo 24 – nos capímais alto (...) e o Eterno chamou Moisés ao cume do montulos 19 e 20 – a Torá já tinha sido entregue a Moisés no te, e Moisés subiu. monte Sinai! O capítulo 20 é o famoso capítulo que conAo chegar em cima do monte pela segunda vez, Moitém os dez mandamentos, o emblema da base ético/moral sés recebe uma instrução surpreendente: ele subiu apenas da cultura judaico-cristã, que começa assim: para ser informado que tem que descer de novo e avisar ao Então Deus falou todas estas palavras, dizendo: povo que ninguém pode subir ao monte! Eu sou o Eterno, seu Deus, que o tirou da terra do Egito, O Eterno então lhe disse: “Desça e retorne junto com a casa da servidão. Aarão; mas não deixe os sacerdotes e o povo avançarem Você não terá outros deuses além de Mim. para vir ao Eterno, para que [Deus] não se lance sobre Não fará para você imagens e esculturas (…) eles.” Moisés desceu até o povo e conversou com eles. [seguem os demais mandamentos]. Logo depois deste “conversou com eles” vem a frase No capítulo anterior – 19 – temos a descrição do enque abre os dez mandamentos: “Então Deus falou estas contro sublime em cima da montanha, onde se dá sua repalavras, dizendo”. velação por Deus a Moisés. Veja alguns trechos: A crença muito enraizada de Moisés descendo do “(...) e Moisés subiu até Deus. O Eterno o chamou do Monte Sinai com as placas de pedra em suas mãos paremonte [Sinai], dizendo: “Assim você falará à casa de Jacó ce se desfazer na leitura dos capítulos 19 e 20: as placas de e afirmará aos filhos de Israel: (…) se vocês fielmente oupedra estão ausentes do relato; os dez mandamentos não virem minha voz e mantiverem Meu pacto, serão Minha foram gravados em pedra e sim ditados por Deus (ou seja, posse preciosa entre todos os povos.” faz sentido o termo em hebraico para os dez mandamenDeus chama Moisés e ele sobe ao Sinai, onde recebe tos: “Asseret hadibrot” / Dez declarações). instruções sobre o que falar para os israelitas. Em seguiOs três próximos capítulos – 21, 22 e 23 – contêm da Moisés desce do monte e repete o que escutou a resuma série de leis que versam sobre assuntos variados: espeito do pacto: cravidão, punição para os assassinos, punição para o desE veio Moisés e chamou os anciãos do povo e expôs respeito aos pais, etc. diante deles tudo o que o Eterno lhe ordenara. Todos ali Abruptamente, o capítulo 24 retoma a narrativa da enreunidos responderam em uníssono, dizendo: “Tudo o que trega da Torá no Sinai como se nada do anteriormente deso Eterno disse, nós faremos.” crito tivesse acontecido. Tendo recebido a garantia dos anciãos (líderes) de que Então [Deus] disse a Moisés: “Suba até o Eterno, com Aarão, Nadab e Abihu, e setenta anciãos de Israel, e curvem-se mantendo a distância. Moisés se aproximará sozi3 É comum em português referir às “Tábuas da Lei”. Contudo, segundo todos os dicionários que consultei, “tábua” remete primeiramente a madeira e a Torá fala nho do Eterno; os demais não se aproximarão, nem o povo especificamente em pedra. Assim que optei por usar “placa”, que é fiel ao original subirá com ele”. “luchot” em hebraico, mesmo sabendo que não é o usual. 4 Há um princípio judaico que diz: “Não há antes nem depois na Torá” (ou seja, a Moisés sobe de novo e, ao descer do monte pela terceisequência do relato não demonstra a cronologia dos acontecimentos). Mas é lícira vez, repete todas as leis que ouviu do Eterno e o povo to não acatá-lo e é isto que eu faço neste artigo, por motivos que ficarão claros no reafirma o pacto. desenvolvimento do texto.
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Nesta página e na p. 12, ilustrações da Grande Bíblia Ilustrada. Antigo Testamento (Editora Verbo Juvenil, 1968).
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Moisés voltou e repetiu para o povo todas as leis e todos os ordenamentos do Eterno; e o povo respondeu em uníssono, dizendo: “Tudo o que Eterno ordenou, nós faremos”. Então Moisés escreveu todos os ordenamentos do Eterno. Como assim “Moisés escreveu”? A Torá não foi escrita pelo dedo de Deus? Onde Moisés escreveu? Em placas? Num livro? Não sabemos. A Torá não esclarece. Mas para não deixar dúvidas sobre a escrita de Moisés, a Torá segue dizendo que, depois de escrever, ele leu o texto para todos: Então tomou o registro da aliança e o leu em voz alta para o povo. E eles disseram: “Tudo o que o Eterno ordenou nós faremos e obedeceremos”. O pacto é reafirmado pela terceira vez, desta vez de forma ainda mais peremptória: não apenas “faremos”, como
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também “obedeceremos”. Daí, Moisés, que estava embaixo falando com o povo, sobe de novo no monte (não perca a conta, é a quarta vez) junto com seu irmão, os filhos dele e os líderes e algo formidável acontece: todos viram o Deus de Israel: Então Moisés e Aarão, Nadab e Abihu e setenta anciãos de Israel subiram [o monte]; e viram o Deus de Israel − sob cujos pés parecia haver um piso de safira, com a luminosidade do próprio céu. [Deus] não estendeu sua mão sobre os chefes dos filhos de Israel; eles contemplaram Deus, e comeram e beberam. Em seguida a Torá diz que Deus manda Moisés subir mais uma vez ao monte e o leitor atento fica perplexo, pois não é que na frase anterior Moisés já estava em cima do monte? Desta vez Deus promete a entrega das placas
de pedra no versículo 12 do capítulo 24, trução e uso do Tabernáculo. O capítulo A Torá fala por meio que citamos no início deste texto. 31 contém o final destas leis, seguido pede diferentes vozes, O Eterno disse então a Moisés: “Suba las leis de descanso no Shabat e em seu úlfrequentemente até Mim no monte e espere; e Eu lhe darei timo versículo, 31:18, é que pela primeicontraditórias. O que as placas de pedra com os mandamentos ra vez as placas de pedra são – finalmene os ensinamentos que nelas gravei para foi revelado: a própria te! – entregues: os instruir.” E [Deus] deu a Moisés, quando acapresença de Deus? Sua Observe que Deus ainda não entrebou de falar com ele no Monte Sinai, as vontade? E como? Em duas tábuas do testemunho, placas de pegou as placas a Moisés, Ele apenas disse um livro? Na natureza? dra, escritas pelo dedo de Deus. que ia entregar. Em seguida há uma reaOu em acontecimentos firmação da ordem para Moisés ir ao enPor que tantas incertezas e inconsiscontro de Deus, mas dessa vez com um tências? Por que o relato não é mais clahistóricos? novo acompanhante. ro? Afinal de contas este é um dos pontos Então Moisés e seu assistente Josué se ergueram e subialtos da Torá. É o momento onde é descrita a sua origem. ram o monte de Deus. Ele disse aos anciãos: “Esperem aqui Minha percepção para esta perplexidade parte do prinaté retornarmos. Aarão e Hur ficarão com vocês; deixem cípio de que o encontro de Deus com o homem é uma que quem tiver questões de lei se aproxime deles”. das facetas centrais na fé judaica. E esta ideia fundacional E assim se completa esta parte do relato da entrega da é tão grandiosa que uma descrição muito precisa diminuiTorá no Monte Sinai: ria muito sua grandiosidade, podendo até mesmo reduzíE a Presença do Eterno permaneceu sobre o Monte Si-la ao nível da banalidade. nai, e a nuvem o encobriu por seis dias. No sétimo dia, A descrição é confusa porque este encontro é comple[Deus] chamou Moisés do meio da nuvem. Então a Prexo. Cada um de nossos corações abriga uma imagem e sença do Eterno se manifestou aos olhos dos filhos de Isuma percepção de Deus, um Deus que não tem descrição rael como um fogo abrasador no cume do monte. Moipossível – por isso a proibição nos 10 mandamentos de resés entrou no meio da nuvem e subiu ao [cume do] monproduzir a Sua imagem. Logo, este encontro é forçosamente; e Moisés permaneceu no monte por quarenta dias e te diferente para cada um de nós. quarenta noites. E talvez esse seja um dos principais aportes do judaísNão se assunte se você achou o relato confuso e conmo ao mundo. traditório. Ele é mesmo. Moisés sobe cinco vezes ao Sinai, A noção de que existe um Deus vivo que se revela, mas algumas vezes sozinho, outras acompanhado por pessoas que não exige de nós obediência aos interesses Dele – ou diferentes e não há registro da descida correspondente deseja, que não nos criou para servirmos a seus desejos e a seu pois de cada subida. bem-estar (como os deuses gregos, egípcios e babilônicos), E o mais importante: até agora a Torá descreve inúmee sim para a obediência a uma série de preceitos que apriros encontros entre Deus e Moisés, mas não existe referênmoram e buscam tornar justa a convivência dos homens cia alguma a Deus escrevendo nem entregando tábuas de em suas vidas cotidianas. pedra ou qualquer outro objeto físico. Assim, as mitsvot na tradição judaica se articulam enO que vimos é que as referências claras e contundentes tre as que são originais na Torá e as que foram criadas da origem da Torá não existem. Elas são múltiplas e conpelos rabinos. Podemos discutir a origem da Bíblia, mas traditórias. não podemos discutir a origem do Talmude. No judaísNesses capítulos vimos três formas diferentes de entremo, a palavra de Deus e também a palavra dos homens ga da Torá: primeiramente (20:1) ela é ditada por Deus, são mitsvot, imperativos para que o ser humano alcanmais adiante (24:4) é Moisés quem a escreveu. A imagem ce uma vida plena. consagrada das placas escritas pelo dedo de Deus é promeA Torá fala por meio de diferentes vozes, frequentida em 24:12, mas efetivamente nada é entregue. Os catemente contraditórias. O que foi revelado: a própria pítulos seguintes – 25 a 30 – são dedicados às leis de conspresença de Deus? Sua vontade? E como? Em um li-
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vro? Na natureza? Ou em acontecimenIsrael, que o tirou da terra do Egito5”, se Se Moisés quebra tos históricos? apontaria para as placas. as placas é porque Neil Gillman diz que é impossível liDiz Heschel: “O genuinamente preelas não poderiam dar com todas essas perguntas simultacioso se encontra no reino do tempo e existir. Sua existência neamente, mas também que é certo que não do espaço. Os monumentos vivem o modo pelo qual lidamos com qualquer acarretaria na simples graças à memória de quem contempla uma delas afetará nossa discussão quansua forma, enquanto que os momentos substituição do to às restantes. da alma perduram mesmo quando relebezerro de ouro pelas Para alguns pensadores existencialisgados às profundezas da mente. Os senplacas sagradas. tas, como Martin Buber, o revelado foi o timentos e os pensamentos são nossos, próprio Deus, num relacionamento íntienquanto as posses são alheias e muitas mo com a comunidade. Buber ensina: a revelação aconvezes nos traem. Ser é mais importante que ter. Apesar tece quando o homem e Deus se encontram e não quande nos preocuparmos com as coisas, vivemos nas ações. do as palavras são formuladas depois deste encontro. A (…) A pedra [das placas] está quebrada, mas as palavras entrega da Torá (a revelação) acontece no encontro, ou estão vivas e continuam a nos chamar como se pedissem seja, antes do ditado dos dez mandamentos. No momenpara serem gravadas em cada coração.” to em que a Torá coloca a frase: “Eu sou o Eterno, seu A quebra das placas, as idas e vindas do relato e a amDeus, que o tirou da terra do Egito, a casa da servidão”, biguidade sobre quem escreveu a Torá garantem que o a revelação já aconteceu. Estas palavras são a representajudaísmo se mantenha fiel à centralidade do encontro ção em termos humanos – e falíveis – do nosso encontro do Deus Eterno e Infalível com o homem finito e facom Deus. E esta falibilidade estaria demonstrada pelas lível. Qualquer materialidade neste encontro destrói o incongruências do relato. judaísmo. Para outros pensadores, só é possível aceitar que a vonAmós Oz o descreve lindamente quando diz que a tade de Deus foi registrada em um livro que Ele escreveu transmissão da Torá não é uma simples passagem do oral ou ditou (como destacam muitos pensadores, entre eles o para o escrito, mas um saber falado, transformado desde alemão do século XIX e fundador da ortodoxia, Samson muito tempo em textos escritos, que foram substancialRaphael Hirsch). mente expandidos, editados e finalmente santificados, ato Existem outras abordagens à pergunta sobre a escrique abriu uma nova era de conversação criativa, registrada ta da Torá, interpretando o episódio da quebra das placas sucessivamente em novos livros. quando Moisés desce do Monte Sinai, depois de sua estaA cultura judaica tornou-se altamente adepta tanto do dia de 40 dias e 40 noites, e vê o povo adorando o bezerestudo falado como do escrito. Mas a tensão embutida enro de ouro. tre o inovador e o sacrossanto – atravessando igualmente o Abraham J. Heschel nota que estas placas são a únioral e o escrito – sobrevive até hoje.6 Então, talvez a resposta ao título deste artigo, “Quem ca instância na qual um objeto material foi entregue por escreveu a Torá?”, poderia ser: “Que necessidade tenho de Deus aos homens. Como tal, elas são os objetos mais presaber?” ciosos em todo o universo. E quando Moisés as quebra ele E você, o que pensa? não o faz com raiva. Deus já havia falado a Moisés ao final dos 40 dias sobre o bezerro de ouro. Moisés teve temDario Ezequiel Bialer é rabino e serve à ARI-Associação Religiosa po na descida do monte de digerir a notícia e de agir sem Israelita do Rio de Janeiro. impulsividade. Se Moisés quebra as placas é porque elas não poderiam existir. Sua existência acarretaria na simples substituição do bezerro de ouro pelas placas sagradas. Em vez de apon5 Shemot / Êxodo 32:4 tar para o bezerro de ouro ao exclamar “Este é seu deus, ó 6 Oz, Amós e Oz-Salzberger, Fania, Os judeus e as palavras, editado por Companhia das Letras, São Paulo, 2015.
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JUSTIÇA SOCIAL E MOVIMENTO REFORMISTA Reavaliando o século 20
David Barak-Gorodetsky
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m 1918, o Comitê de Justiça Social do CCAR (Comitê Central dos Rabinos Americanos, o braço rabínico do movimento reformista nos Estados Unidos) publicou uma plataforma de 14 itens, que foi o ponto culminante das deliberações construídas durante um período no qual o mundo sofreu grande agitação. A Grande Guerra, mais tarde conhecida como a Primeira Guerra Mundial, que causou estragos e devastações sem precedentes na Europa, estava lentamente chegando ao fim. A Revolução Russa de 1917, alimentada por décadas de crescente desigualdade social na sequência da Revolução Industrial, causou o surgimento do regime bolchevique, que acabaria por espalhar o terror em toda a Rússia. Nos Estados Unidos, após a entrada dos EUA na guerra, em abril de 1917, o partido socialista, que era uma força política emergente impulsionada em grande parte por socialistas judeus que organizaram as massas de imigrantes da “Goldeneh Medineh”1, estava praticamente proscrito. Foi neste conturbado contexto que o Movimento Reformista se empenhou para posicionar-se em relação à questão da justiça social. A orientação inicial do movimento para as questões da justiça social derivava de dois elementos ideológicos fundamentais: o Judaísmo Profético e a Teo-
Os rabinos reformistas que serviram às ricas congregações na América dourada e doente tiveram que equilibrar sua, muitas vezes, autêntica paixão pela justiça social com a composição socioeconômica de seus rebanhos.
1 Goldeneh Medineh, o país de ouro, era como os EUA eram conhecidos em ídiche no tempo da grande imigração judaica do final do século 19, início do século 20. (NT)
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logia da Missão. O judaísmo reformista é O surgimento do termo tidade significativa de capitalistas bemprofundamente influenciado pelos ensitikun olam no discurso -sucedidos, de origem alemã, que não esnamentos dos profetas bíblicos e foi rotavam interessados em políticas de redisjudaico-americano, tulado tanto por seus líderes quanto petribuição de riqueza. Eles percebiam que nas décadas de 1960 a discussão séria das questões sociais era los estudiosos como “judaísmo profético”. Para a liderança reformista e para seu uma ameaça à sua predominância econôe 1970, tendeu a corpo rabínico, os profetas foram, e ainmica e política e criticavam as massas de se concentrar na da são, os defensores da justiça moral nas socialistas judeus cuja atuação dificultaquestão dos direitos esferas pública e política. va seus esforços de integração à sociedacivis e depois na Já a Teologia da Missão é a ideia de que de americana. política econômica em os judeus não estavam dispersos na diásO rabino Judah Leib Magnes, então pora por causa de seus pecados, mas sim servindo na prestigiosa congregação Temgeral, mas ele nunca porque têm uma missão ao mundo, qual ple Emanuel, de Nova York, cujos assentos ofereceu um desafio seja, espalhar a mensagem do monoteíseram frequentados por imigrantes judeus real ao modelo de mo ético. Juntamente com o preceito do tais como os Warburg e os Guggenheims, distribuição de riqueza judaísmo profético, a teologia da missão escreve em seu diário de 23 de novembro trouxe à ideologia reformista um compode 1906: “Eles dificilmente admitirão que nos Estados Unidos. nente ativo, impulsionando o movimento temos problemas enquanto judeus; ou se para o envolvimento com os assuntos públicos e de Estado. admitem esses problemas, pensam que podem superá-los Outra influência importante para o interesse do mocom um donativo de US$ 500.000 aqui e ali... Às vezes, vimento reformista em direção a assuntos sociais foi o aué de doer o coração servi-los, ser pago por eles e apoiá-los mento, na época, da proeminência do movimento evannos vários assuntos menores da vida congregacional... Em gélico social nos círculos protestantes. O evangelho social certos momentos eu gostaria de dizer palavras de fogo sosurgiu em resposta ao aumento da pobreza após os probre seus pecados, mas caminho pelos labirintos com cuicessos de urbanização que levaram ao desenvolvimento de dado e devo ser cauteloso”. bairros, como a “Hell’s Kitchen” (Cozinha do Inferno) na Os rabinos reformistas que serviram as ricas congregacidade de Nova York, em que as condições de vida eram ções na América dourada e doente tiveram que equilibrar miseráveis e a perspectiva de mobilidade social, sombria. sua, muitas vezes, autêntica paixão pela justiça social com O movimento do evangelho social enfatizou os aspeca composição socioeconômica de seus rebanhos. tos sociais dos ensinamentos de Cristo no “Sermão da Isso acarretou a que a plataforma de 14 pontos aciMontanha” e em outros. Em vez de se concentrar no pema mencionada fosse bastante diluída, concentrando-se cado pessoal e na redenção, enfatizou os pecados de orprincipalmente nas preocupações imediatas dos direitos dem social, assentando as bases para algumas das ideias dos trabalhadores e na organização. Embora importanque mais tarde ressurgiriam na América do Sul, no movites, esses pontos não abordaram as questões mais profunmento “Teologia da Libertação” da década de 1960. das da desigualdade social na sociedade norte-americana. O movimento reformista estava em sintonia com moviO primeiro ponto da declaração de princípios é bastanmentos similares nos círculos protestantes. O livro do ano te profundo quando exige “uma distribuição mais equido CCAR de 1918 apresentou curto elogio a Washing tativa dos lucros da indústria”. No entanto, esse apelo foi ton Gladden, um dos líderes do movimento Evangelho apenas uma declaração, sem recomendações concretas soSocial, que faleceu naquele ano. Os principais rabinos libre sua implementação. berais, como o carismático Stephen Wise em Manhattan Nos comentários ao relatório, publicados no livro bem como Emil Hirsch em Chicago, eram os campeões anual da CCAR de 1918, o rabino Schulman, um memda causa da justiça social. bro do comitê, afirmou: “Perdemos o momento psicológiNo entanto, havia outro aspecto mais pragmático em co, há alguns anos, para nos colocar na história com uma questão. Entre os seguidores da Reforma havia uma quandeclaração sucinta e clara sobre a questão social”; o rabi-
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no Rauch acrescentou: “Num momento em que a maioria dos direitos aqui declarados já estão consagrados, parece estranho que nós, que deveríamos olhar para a frente, estejamos a discutir assuntos que já são a lei do país”. A resposta do movimento reformista às candentes questões de desigualdade social e financeira, apesar das preocupações genuínas de muitos rabinos, foi, portanto, tardia e silenciada pelos interesses financeiros dos principais congregantes e pela necessidade de se posicionar contra a ameaça percebida do socialismo na Europa. Na verdade, isso equivale mais a tsedaká (caridade) do que a tsedek (justiça). Nesse sentido, é simbólico que o Joint Distribution Committee, provavelmente a organização judaica de caridade mais significativa dos Estados Unidos, e quiçá do mundo, tenha sido fundado naquele tempo, em 1914.
Tradição judaica entre justiça e caridade Existem dois aspectos principais a serem derivados dessa observação histórica. O primeiro relaciona-se à ambiguidade da tradição judaica, que não oferece um posicionamento claro no embate entre capitalismo e socialismo. O segundo se refere ao fato de que os pontos de vista judaicos, especialmente em relação às questões de justiça social e distribuição de recursos, são altamente dependentes da cultura econômica prevalente onde são produzidos. Indicativo desse segundo aspecto é a incorporação do termo tikun olam ao movimento reformista judaico-americano. O surgimento deste termo no discurso judaico-americano, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, tendeu a se concentrar na questão dos direitos civis e, posterior-
mente, na política econômica em geral, mas ele nunca ofereceu um desafio real ao modelo de distribuição de riqueza nos Estados Unidos. Além disso, ao abordar a questão de qual sistema econômico está mais em sintonia com os preceitos judaicos, dois outros fatores devem ser levados em consideração. O primeiro deles é a falta de uma tradição política que tenha sido posta em prática nos últimos 2000 anos, até o estabelecimento do Estado de Israel. Ou seja, o judaísmo evoluiu num contexto onde não existia a soberania judaica, o que acarreta que a tradição jurídica judaica não apresente halachá2 abordando as funções de um Estado. As questões socioeconômicas na tradição judaica diziam respeito, principalmente, ao nível de comunidade. O segundo fator é o risco de anacronismo na leitura dos termos judaicos com os olhos modernos. O melhor exemplo talvez seja justamente tsedek (justiça), que no contexto bíblico se refere principalmente ao formato legal de justiça a partir da lei e do julgamento, e não à questão da distribuição social. Ao tentar avaliar se os textos e as fontes judaicas tendem a apoiar um modelo de organização econômica mais “socialista” ou mais “capitalista”, seguirei aqui a análise do pesquisador israelense Yossi Londin. Londin aponta os seguintes elementos da tradição judaica como suporte ao socialismo: Respeito aos pobres e proibição de sua humilhação; Prevenção da exploração, com as notórias 36 vezes em que a Torá se posiciona claramente contra a exploração dos fragilizados, simbolizados pelo estrangeiro, pela viú2 Halachá é a lei religiosa judaica. (NT)
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va e pelo órfão (guer, yatom ve-almaná); orientadas para o socialismo. No entanO Movimento Condições de trabalho, como a obrigação to, os leigos nas comunidades são na sua Reformista em de pagar os salários pontualmente ao final maioria membros da classe média origiIsrael, especialmente do dia de trabalho e o descanso de todos nalmente secular, que tendem a não adeem termos de sua os trabalhadores no Shabat; Supervisão de rir a agendas socialistas mais radicais, e preços prevista em certas situações; Limia apoiar uma forma do que poderia ser liderança rabínica, tações da livre iniciativa; Proibição de emchamado de “capitalismo com compaitende a posicionar-se préstimos a juros; Shmitá e Yovel – mecaxão”. Isso resulta em um alto nível de à esquerda do centro nismos sociais de cancelamento de dívienvolvimento em causas de caridade ase a apoiar políticas das a cada sete anos, e, num nível mais sociadas a tikun olam, em vez de exigir mais orientadas profundo, a cada 50 anos; Obrigação de a uma revolução econômica e a redistrifazer caridade (tsedaká) [que pode ser enbuição da riqueza. para o socialismo. tendida também em sentido contrário, Em suma: o judaísmo sempre foi uma como sendo a regulação da pobreza numa sociedade capitradição interpretativa, dando-se várias interpretações a talista]; Regulamentação compulsória de serviços sociais uma variedade de questões éticas e sociais. A ênfase do dispor parte da comunidade. curso da reforma contemporânea em justiça social e tikun Por outro lado, os seguintes argumentos são apresentaolam é uma reflexão, por um lado, do potencial desses terdos a favor de uma compreensão capitalista da organização mos para a motivação na identificação judaica e no engasocial: O trabalho, que é uma parte essencial da teoria cajamento dos judeus e, por outro lado, indicação da des-rapitalista, é percebido como uma necessidade positiva uma dicalização e moderação na crítica religiosa da ordem sovirtude; A legitimação da acumulação de riqueza, simbocial e da distribuição da riqueza nas bem-sucedidas comulizada pela riqueza de figuras talmúdicas expoentes como nidades judaicas da América do Norte. Judah ha-Nasi; A importância dos direitos de propriedaFaltando uma alternativa viável socialista ou social-dede, demonstrada, por exemplo, pela proibição no décimo mocrata na paisagem política dos Estados Unidos (pelo mandamento de até mesmo pensar em se apropriar da promenos até o surgimento de Berny Sanders na recente campriedade de outras pessoas. panha presidencial), o discurso judaico-americano sobre Nos últimos anos, surgiu nos círculos religiosos sionisjustiça social evoluiu da questão dos direitos civis da décatas em Israel um debate entre os proponentes desses dois da de 1960 para ser reformulado como uma agenda abranargumentos assim como outras propostas de meio-termo. gente sobre políticas identitárias e causas das minorias. O sionismo religioso em Israel estava tradicionalmente asAtualmente, os desafios do século 21 – incluindo a crisociado a visões mais socialistas, que estavam em sintonia se da imigração em massa, o desenvolvimento da robóticom a natureza socialista do sionismo antes do Estado de ca e inteligência artificial, que ameaçam inúmeros empreIsrael e nas primeiras décadas de sua independência. Piogos, e a discussão de modelos de Renda Básica Universal neiros desta linha de pensamento, como Moshe Unna, vie– exigem uma reformulação do pensamento judaico sobre ram do movimento religioso kibutsiano. Nos últimos anos, a questão da justiça social, levando em consideração quesimpulsionados pelo envolvimento de organizações ameritões de ordem moral e de ordem pragmática. canas e também assumindo o papel das chamadas “novas O Dr. David Barak-Gorodetsky é estudante de rabinato no HUCelites” em Israel, pensadores e líderes sionistas religiosos coJIR de Jerusalém e membro do Conselho Rabínico de Ramat Hanemeçaram a identificar o pensamento judaico com causas gev, em Israel. Ele é postdoctoral fellow no Instituto Ben-Gurion para neoliberais, defendendo, por exemplo, que a tradição jua pesquisa de Sionismo e Israel. Seu livro, Jeremias em Tsion: A redaica deixe a regulamentação da riqueza para a caridade em ligião e a política de Judah Leib Magnes, será publicado (em junho nível comunitário e não em nível de intervenção do Estado. de 2018) em hebraico pela Ben-Gurion University Press. O Movimento Reformista em Israel, especialmente em termos de sua liderança rabínica, tende a posiTraduzido do inglês por Daniel Kovarsky. cionar-se à esquerda do centro e a apoiar políticas mais
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100 ANOS DO BUND Um partido radicalmente socialista e profundamente judaico
Michel Gherman O Bund imaginava um mundo sem fronteiras, mas com identidades, sem racismos, mas com grupos étnicos claramente definidos. O Bund era internacional e internacionalista.
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magino que muitos dos leitores não devam ter escutado falar sobre a “União Geral dos Trabalhadores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia”, o partido Bund. Eu mesmo sou incapaz de dizer se tive algum contato com o tema na escola (judaica) que estudei. Acredito que escutei sobre o Bund em casa, nos jantares da casa dos meus pais. De vez em quando meu pai, professor da escola Eliezer Steinbarg e amante da cultura ídiche, soltava alguma coisa sobre o Bund e o Bundismo. Quase posso assegurar que a grande maioria das conversas na casa dos meus pais eram relacionadas com judaísmo, Israel e sionismo. Falávamos muito de religião (meu pai é radicalmente secular e os outros integrantes da família eram mais tradicionalistas), falávamos muito de Israel (dos conflitos e dos acordos de paz) e discutíamos sobre sionismo (sionismo socialista ou jabostinkiano, sionismo religioso ou secular etc.), enfim, a mesa do jantar era quase uma mesa de yeshivá, uma yeshivá de um judaísmo cultural e plural mas, com certeza, uma yeshivá . Nesse contexto, me recordo de termos falado algumas vezes do Bund e dos bundistas. Sim, minha memória sobre o partido é de casa e não da escola ou do movimento juvenil (eu fazia parte do Movimento Sionista Religioso Bnei Akiva). Talvez por isso eu tenha uma memória mista sobre o tema: de um lado, é algo caseiro e próximo, de outro lado, tinha muitas dúvidas, afinal não entendia direito de que diabos meu pai falava quando citava “judeus bundistas”.
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Sim, vocês podem imaginar que na cabeça de um menino de 12, 13, 14 anos pode soar estranho ouvir que, por exemplo, “o professor Genes não era bundista, mas que o Lerech Tabak, sim, era”. Já tinha, em casa, na escola e na tnuá, aprendido que havia judeus de esquerda e de direita, já tinha entendido que havia judeus sionistas e não sionistas, já tinha até me conformado de haver judeus crentes e até judeus ateus (isso havia sido extremamente doloroso para mim), mas judeus bundistas? Como pode o diretor do Eliezer ser adepto de uma religião do Extremo Oriente? Que sentido isso faz? Acho que essa introdução pode ajudar a compreender que o tema “Bund” representa uma quebra geracional importante. Se para judeus ashkenazitas da geração de meu pai era natural falar sobre o Bund, para minha geração o Bund era um fenômeno quase que completamente desconhecido. Se para gente das gerações anteriores o Bundismo era uma opção cabível no cardápio de posicionamentos políticos e ideológicos do judaísmo, para nós, escutar que alguém era bundista nos levava a imaginar que se tratava de alguma forma especial (para judeus talvez?) de Budismo. É interessante notar, e esse é meu primeiro ponto, que as agendas principais do Bund, antinacionalismo, anticlericarismo e autonomismo cultural judaico, haviam, de al-
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guma maneira, perdido o sentido para gente da minha idade. Não havíamos escutado falar do Bund na escola (na minha pelo menos), no movimento juvenil (no meu pelo menos) e nas notícias. Eu escutava falar do tal partido na “yeshivá caseira” porque tive o mérito de nascer e crescer em uma família fortemente judaica, mas mesmo assim não entendia exatamente a que isso se referia. O Bund não passava para mim (e acho que para toda a minha geração) de um mistério a ser decifrado. E assim ele continuou nos próximos anos. Na verdade, quando fui fazer Shnat Hachshará (o curso de formação de um ano em Israel), me lembro ter tido uma primeira aula sobre o tal partido durante um curso sobre correntes modernas judaicas. Mostrei interesse, mas o professor foi reativo e disse que o Bund era “periférico e pouco importante”, ele disse que o partido não havia entendido os “dilemas da questão judaica” e “por isso havia desaparecido, quase sem deixar marcas”. Não quis continuar a fazer perguntas, mas sabia que uma das marcas que o partido havia deixado estavam nas conversas de jantar na minha casa, o que não significava pouco. Afinal de contas, se era tão pouco importante o que o Bund fazia em conversas familiares no Rio de Janeiro?
Meu primeiro encontro, com Bund e com Medem:
de Ben Gurion, Jabotinsky e Herzl, mas não adianta também procurar em Jerusalém ou Haifa, você não achará nenhuma rua, praça ou hospital chamado Vladimir Medem em nenhuma cidade de Israel (havia um hospital Medem em Varsóvia). Mas é fácil entender o motivo. Medem foi um dos mais importantes ideólogos da social-democracia judaica. Por ser radicalmente antiterritorialista e anticlerical, o Bund denunciava o sionismo e a religião como projetos inviáveis e contrários aos interesses do povo judeu. Os líderes do União da Social-Democracia judaica acusavam os dirigentes sionistas e os rabinos de estarem mancomunados, respectivamente, com a burguesia e com o czarismo. Assim, Israel e o sionismo estavam além dos radares do partido socialista judeu. Não fazia sentido, portanto, que o Estado de Israel homenageasse, com ruas ou hospitais, um dos maiores ideólogos de um partido antissionista e antinacionalista.
O Bund percebia a luta contra o antissemitismo como parte da luta dos trabalhadores e encarava o nacionalismo judaico como seu adversário na construção de um projeto de solução para a chamada questão judaica europeia.
Bom, a partir de então posso dizer que minha relação com o Bund se deu por meio de encontros potentes e de alguns desencontros importantes. Considero que meu primeiro encontro efetivo com o partido se deu em Tel Aviv, mais especificamente nas ruas do bairro de Nahalat Binyamin. Ao caminhar pelo sul da cidade avistei um prédio com frisas vermelhas e com uma descrição em hebraico “Beit Bund” (casa do Bund). Não pensei duas vezes, toquei a campainha. Eram tempos estranhos em Israel, corria o ano de 1994, hoje sabemos que estávamos nas vésperas do assassinato do primeiro-ministro, mas já se sentia um estranho clima de discórdia e ódio nas ruas das cidades israelenses. Nesse contexto, o senhor que abriu a porta parecera se assustar ao ver um rapaz de kipá, barba (estávamos em sfirat haomer, quando não se pode fazer a barba) e tsitsit na porta do prédio do Bund. “No que posso ser útil?” ele quis saber com ar bastante preocupado; perguntei se ali era a sede do partido Bund. Ao que ele responde: “Não, aqui é apenas uma organização cultural do Bund”, e com ar irônico: “Vocês não precisam se preocupar”. Para aquele homem, eu era a contradição em pessoa em relação ao Bund. O partido era secular e eu era religioso, o Bund era antinacionalista e minhas roupas apontavam para afiliação a grupos nacionalistas religiosos, o Bund era socialista e sinais externos davam a entender meus vínculos com a oposição de direita ao governo Rabin. Ainda assim, pude contar a ele de meu interesse em estudar sobre o partido. Não muito convencido, aquele senhor (que depois descobri ser Yitzhak Luden, editor do Jornal Lebns Fragn – Questões Sobre a Vida –, órgão oficial do partido em Israel) disse que eles tinham uma excelente biblioteca e que eu estava convidado a pesquisar quando quisesse. Por fim, vi uma foto na parede e perguntei de quem se tratava, o senhor respondeu: “Esse? Esse é Vladimir Medem. Pode procurar, você não vai encontrar nenhuma rua com o nome dele em Tel Aviv”. De fato, não há ruas homenageando Medem em Tel Aviv. Há nas cidades israelenses vias e avenidas com nomes
O Bund e a imaginação política do Bundismo O Bund imaginava um mundo sem fronteiras, mas com identidades, sem racismos, mas com grupos étnicos claramente definidos. O Bund era internacional e internacionalista. Percebia a luta contra o antissemitismo como parte da luta dos trabalhadores, encarava o nacionalismo judaico como seu adversário na construção de um projeto de solução para a chamada questão judaica europeia. Se o sionismo tinha uma estrutura internacional (a Organização Sionista Mundial), o Bund também estava presente onde havia judeus. Se o sionismo investia no renascimento de um idioma virtualmente morto, o Bund cantava, discursava, escrevia na língua judaica viva e pungente do leste da Europa, o ídiche. Eram esses discursos que seduziam e mobilizavam corações e mentes dos miseráveis judeus dos shtetlelach (aldeias judaicas da Europa oriental) e das cidades europeias. Operários, desempregados, homens e mulheres, jovens e velhos passavam a sonhar, em ídiche, com a revolução tanto universalista como judaica. Judeus da Rússia, Polônia, Lituânia e da Letônia, imigrantes judeus na Europa ocidental e do centro da Europa, gente que pensava em ídi-
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che, que amava em ídiche, que odiava em ídiche, passava a aprender que era possível lutar em ídiche. Textos e panfletos que falavam de revolução, que pregavam a destruição do velho mundo, eram lidos na língua falada em casa. Esses judeus e essas judias não dominavam outro idioma. Suas dores e suas esperanças eram expressas em ídiche. Isso que o Bund trouxe para a cansada e desesperada massa de judeus europeus. Eles vão formar a massa de militantes em ação na Europa Oriental, podemos caracterizá-la a partir do depoimento pessoal presente no artigo de Isaac Deutscher, com o sugestivo título Quem é judeu? escrito por ele em 1963: “[Eu] Escrevia em ídiche e em ídiche me dirigi aos trabalhadores em grandes comícios – nem sempre políticos. Ainda vejo diante de mim aquela massa de jovens e velhos, trabalhadores, artesãos e pedintes, que se reuniam à noite para escutar leituras de poesias e dramas. (...). Aí algo como uma nova cultura se formava e isso se fazia através de um brusco rompimento com a consciência religiosa. Daí em diante empreguei os meus melhores anos de atividade política entre os trabalhadores judeus. Escrevia em polonês e ídiche e sentia minha identidade se fundir com o movimento operário em geral e da Polônia em particular. Nós, como marxistas, tentávamos, teoricamente, negar que o movimento possuísse caráter específico. Mas ele possuía. (...) Da classe operária da Europa oriental veio o florescimento da cultura ídiche, aquela língua vigorosa rica renovando-se enriquecendo-se constantemente tornar-se-ia da noite para o dia uma língua morta. Poetas e escritores judeus se apoiaram naquele movimento operário que vimos afundar no nada, como Atlântida. (...) No distrito Muranov, de Varsóvia, (...) todos tinham suas identidades estampadas nos rostos, nos olhos, nas mãos cansadas pelo trabalho. Nós intelectuais que nos preocupávamos com sua sorte, seu desenvolvimento e educação, aspirações e desejos, também tínhamos nossa identidade definida sem nunca tê- la procurado. (...).”1 Esse partido, que revoluciona a condição judaica europeia, constitui-se em um partido radicalmente socialista e profundamente judaico. A matéria-prima de sua ideologia era justamente a literatura e a língua dos operários. O 1 Deutscher, Isaac. O judeu não-judeu e outros ensaios. R.J., Civilização Brasileira, 1970, pp. 41-55.
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marxismo tradicional entrava nas veias de militantes que tinham uma identidade tão definida que não conseguiam pensar em outro idioma, em outra estrutura cultural, eram judeus e socialistas, socialistas e judeus. O Bund nasce dos famosos círculos de leitura judaicos. Judeus do leste da Europa formam, nos destinos de imigração mais diversos, grupos de estudo e debate. Esses judeus traduzem literatura revolucionária para o ídiche e acabam por se converter em participantes do pungente processo revolucionário no leste da Europa.
O surgimento do Bund Surgido em 1897 na cidade de Vilna, o Bund se caracteriza por ser uma representação judaica do movimento social-democrata russo. Na situação pré-revolucionária, o partido tinha como interesse estabelecer-se entre os trabalhadores judeus para fomentar a participação destes na revolução que estava a caminho. Nesse contexto, para transformar os judeus em militantes sociais-democratas, era preciso construir pontes e caminhos que possibilitassem o florescimento dessa militância. As pontes e os caminhos eram o ídiche. A tradução de textos revolucionários para a língua judaica pretendia fazer com que trabalhadores judeus se incorporassem na luta universalista dos trabalhadores russos. Não foi isso que aconteceu. Ou ao menos não foi apenas isso. Para os judeus da zona de residência judaica do Império Russo, o ídiche não era apenas uma língua de comunicação. Era muito mais que isso. O ídiche era uma língua de resistência, de formação identitária, e era, esse é o ponto principal, profundamente internacionalista e judaica ao mesmo tempo. Dessa forma os sociais-democratas russos olhavam para os judeus bundistas com certa desconfiança. Percebiam que a identidade judaica era poderosa demais para um partido socialista. A dimensão identitária era forte demais para um movimento universalista. O ídiche, a cultura idishista, era determinante demais para um grupo que sonhava com a irmandade proletária. Nesse cenário de incertezas e dúvidas, o Bund, dirigido então por Alexander Kremer, entra e sai do partido social-democrata russo. O Bund é judaico demais para ser apenas socialista e socialista demais para ser apenas judaico. Os dramas dos judeus do Império Russo fortalecem a identidade particularista do bundismo.
Nenhum grupo, por exemplo, é mais ativo na autodefesa judaica contra os pogroms do que a social-democracia judaica. E, justamente, a partir daí, o Bund começa a receber o respeito e o carinho das massas judaicas nas aldeias e na cidade. Não são apenas os judeus de esquerda que se aproximam do Bund. Na memória das massas judaicas, o partido passa a ser sinônimo de resistência, bravura e esperanças. Nos primeiros anos do século XX o Bund se fortalece como alternativa concreta para as massas judaicas europeias. No leste europeu, há mais de 35 mil militantes do partido, divididos em 380 sedes. O Bund é um fenômeno de militância e atuação revolucionárias. Após a Revolução Russa, entretanto, a situação muda completamente. Contraditoriamente, os revolucionários bundistas passam por uma crise identitária sem precedentes. Após a vitória bolchevique, os espaços para atuação particularista judaica diminuem muito e os judeus passam a ingressar diretamente nas estruturas do partido comunista. A burocracia soviética incorpora o Bund, que passa a
sofrer uma metamorfose. Para além de mudanças ideológicas, há gradual afastamento entre os judeus russos e os companheiros do resto do leste da Europa. O centro do judaísmo europeu de esquerda se desloca em direção à recém-ressurgida Polônia. É a Polônia, com sua enorme população judaica, que se transforma efetivamente no centro idichista da Europa. É na Polônia que o Bund ressurge com força total.
Medem e o Novo Bundismo Se há um Bund forte na Polônia, muito pode ser posto na conta de Vladimir Medem. Ideólogo do Partido no país. Em vários sentidos, Medem pode ser considerado uma espécie de Theodor Herzl do socialismo judaico. Nascido na Letônia, o ideólogo do Bund era membro de uma família judaica extremamente assimilada. De fato, o pai de Vladimir, David Medem, oficial do exército russo, havia se convertido ao cristianismo tendo, inclusive, batizado seu filho na Igreja ortodoxa russa.
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Medem, que surge no cenário polítiSe o sionismo investia torna dramática, a repressão stalinista não co europeu em paralelo a Herzl, é extreno renascimento de um tolera traços “particularistas e cosmopolimamente carismático e vem, tal qual o tas” e acaba promovendo expurgos vioidioma virtualmente jornalista austríaco, de uma família exlentos que afetam em cheio alguns nomes morto, o Bund cantava, importantes da estrutura bundista, como tremamente afastada do judaísmo. Tal qual Herzl, na idade adulta, Medem se foi o caso de Esther Frumkin, presa por discursava, escrevia aproxima do judaísmo a partir da perrevisionismo e deportada para a Sibéria. na língua judaica viva cepção do antissemitismo e com a idenO governo de Stalin acaba por destruir o e pungente do leste tificação em relação ao sofrimento das que restou do Bund nos antigos territóda Europa, o ídiche. massas judias. Interessante notar que, rios do império russo que permaneceram coincidentemente, justamente no messob domínio soviético. mo ano que o primeiro congresso sionista era realizado Esse, provavelmente, teria sido o destino de Vladimir na Basileia, em 1897, o Bund organizava sua reunião de Medem se tivesse permanecido em território soviético. fundação em Vilna. Longe de imaginar a identidade judaica a partir de uma A partir de 1903, Medem se destaca, durante o condimensão meramente funcional, Medem acreditava que o gresso da social-democracia russa, como líder do socialisjudaísmo (laico e antinacionalista) seria a alma e a razão de mo judaico. Forte opositor do bolchevismo e do leninisexistência do Bund. Sob o governo de uma Polônia demomo, Medem defende a ideia de autonomia nacional das crática liderada por Józef Piłsudsk, recém-liberto, Medem minorias russas. Preso em Varsóvia, Medem é libertado se estabelece em Varsóvia. Se em sua juventude Medem era em 1918, e se transforma na grande liderança bundista no antinacionalista ferrenho e acreditava em uma gradual aspaís. A partir de então, o Bund crescerá e se transformará similação dos operários judeus, o período na prisão havia em uma das maiores forças judaicas da Europa. O Bund transformado sua posição. que conhecemos é, em certo sentido, o Bund de Medem. Medem havia desenvolvido a teoria da autonomia culO Bund soviético acaba por desaparecer no horizonte tural em um Estado de nacionalidades. Nessa nova posida revolução. A política interna do bolchevismo e as quesção, o direito à cultura judaica e a identidade do povo jutões específicas do novo regime acabaram por engolir toda deu seriam fundamentais para garantir os direitos sociais a criatividade de um partido que pensava e refletia a alma da classe operária judaica. Medem imaginava um nacionado operariado russo. Ademais, dentro do Bund russo (ou lismo cultural e antiterritorialista, que lutava por um sodo soviético), havia uma disputa encarniçada entre aquecialismo que garantisse direitos sociais e culturais para as les que percebiam o partido desde a lógica constitutiva juminorias nacionais. daica e aqueles que percebiam o judaísmo do Bund a parAssim, o Bund polonês se tornava uma alternativa contir de uma lógica funcionalista. creta para os judeus da Polônia. Rivalizando com o sionisEm outras palavras, me refiro àqueles que percebiam mo e com tendências assimilacionistas, o Bund avançaa identidade judaica como elemento primordial e fundava de forma clara. Na Polônia se desenvolviam atividades mental no partido e outro grupo que percebia o Bund do partido. Havia membros eleitos no Parlamento, sucessomente como organizador do operariado judeu dentro so nas eleições internas da comunidade judaica e o desenda social-democracia judaica. Está claro que a revolução volvimento de uma rede de escolas com pedagogia e prode 1917 fortalece o segundo grupo. Muitos militantes do grama próprio do Bund. A Organização Central Judaica Bund acabam se deslocando para estruturas da antiga sode Escolas (CYSHO), passa a competir com outras escocial-democracia e foram se vincular diretamente ao Parlas judaicas na Polônia, disputando com instituiçõs relitido Comunista, geralmente na Evsekstiia, o Setor Judeu giosas (de diversas correntes) e sionistas (principalmente a do Partido. rede Tarbut). Em 1923 havia quase 200 escolas do Bund Se há na década de 1920 um enfraquecimento da vitaem território polonês. lidade do Bund russo, que se divide e se isola como partiEm 1926, Medem emigra para os Estados Unidos endo do operariado judeu, a situação na década de 1930 se quanto o Bund continuamente crescia na Polônia. Em
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1935 (mesmo depois do golpe de Józef “No princípio, antes de vir para cá Vladimir Medem havia Piłsudski, que quase se transformara em [Brasil] eu comecei a trabalhar (...). desenvolvido a teoria um ditador) cerca de 15 mil alunos são Quando tinha, mais ou menos, 14, 15 da autonomia cultural atendidos em todo o país e em 1939 o anos, meu pai disse que não podia mais em um Estado de Bund ganha as eleições do Conselho Geme sustentar, então me botaram como alral dos Judeus da Polônia. nacionalidades. O direito faiate para aprender o ofício, minha proAs escolas do Bund, a imprensa e a fissão até aqui. à cultura judaica e a militância do Partido crescem também Então, lá, eu pertencia ao Bund, identidade do povo judeu porque na escola éramos 62 alunos, no para países onde as ondas migratórias juseriam fundamentais daicas se deslocavam, em Buenos Aires, último ano, 7o ano. Dos 5 garotos ‘ídiem Nova Iorque, e até no Rio de Janeiro para garantir os direitos ches’, os outros quatro eram filhos de mais ou menos bem de vida, o quin(Escola Beer Borochov, 1923). sociais da classe to era eu. Me botaram pra ser alfaiate, São essas as reminiscências do Bund operária judaica. eles acharam que a profissão era muito que pude encontrar durante minhas cavil para que eles se dessem comigo, me minhadas. Sim, porque a ideologia bunabandonaram. Os outros garotos, os alfaiates mesmo didista não fora desafiada somente pelos sionistas ou pelos ziam ‘vai com os ricos’. religiosos (me refiro aos ortodoxos, adversários constanEu fui para cidade de Lemberg-Lvov e comecei a trates na realidade plural polonesa); quem derrotou o Bund balhar como alfaiate, ajudante, porque não é fácil aprender foi o nazismo. o ofício, e eu queria ser um bom profissional. Perspectivas culturalistas, não territorialistas, não puO único meio que eu tinha era o de entrar no Bund. E deram sobreviver à besta nazista que assaltou toda a Europosso dizer que só saí quando cheguei aqui.” pa. A ideia de um particularismo universalista e não terO segundo foi o encontro com Abraão Bornsztein, avô ritorial fora derrotada definitivamente pela Shoá. Aliás, de um amigo meu. Sr. Abraão era militante histórico do hoje, na Polônia (ou pelo menos antes das absurdas deciHerut e revisionista de carterinha (mesmo, era filiado ao sões do atual governo), o que sobrou do Bund foi o culto Likud). Conversávamos na mesa de shabat e Seu Bornszà memória de Marek Edelman, militante bundista e uma tein descia a lenha na esquerda israelense. Aproveitei a deidas lideranças da Revolta do Gueto de Varsóvia e da Rexa e perguntei o que ele pensava sobre o Bund. Nesse mobelião de Varsóvia. Edelman, morto em 2009, tem (ou timento os olhos dele brilharam: “o Bund? O Bund era dinha, tempos difíceis esses nossos) status de herói nacioferente. Eles eram sérios. Não facilitavam para aqueles sunal no país. jeitos. O Bund é outra história”. Encontros com o Bund O comunista e o revisionista me ajudaram, em encontros da vida, a entender as conversas que tinha na casa de Aproveito aqui para homenagear duas figuras que promeus pais. A partir dessas conversas, entendi que o Bund moveram no Brasil encontros com o Bund de Medem, era diferente. E me alegro em saber que aos pouco ele volAvraham Jose Schneider e Abraão Bornsztein, nenhum deta a ser estudado. les bundista quando os encontrei. Atropelado pela história, o Bund deve ficar vivo na meO primeiro, Seu Schneider, era um antigo militante comória. munista no Brasil. Certo dia, ao entrevistá-lo, perguntei se Michel Gherman é membro da coordenação excutiva do Núcleo ele tinha sido comunista desde sempre. “Na Polônia?”, ele Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Feperguntou com a mão no meu ombro; respondi que sim, deral do Rio de Janeiro (NIEJ-UFRJ). Possui graduação em História que queria saber se antes de chegar ao Brasil ele já era cocom licenciatura em Educação pela UFRJ e é mestre em Antropomunista. Seus olhos brilharam, ele respondeu que não e, logia e Sociologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém e douolhando para a janela de seu apartamento em Copacabator pelo Programa de Pós-graduação em História Social da UFRJ. na, ele respondeu com forte sotaque:
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Paisagem urbana com o Rio Nilo no Cairo, Egito.
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OS EUA NO ORIENTE MÉDIO: ENTRE A RETÓRICA E A REALIDADE Entrevista exclusiva: Dennis Ross
Felipe Kaufman Gorodovits
O
professor, diplomata e autor norte-americano Dennis Ross mantém o foco principal de sua atividade no Oriente Médio. Em sua atuação como enviado especial para a região, durante o governo de Bill Clinton, Ross mediou importantes negociações entre israelenses e palestinos, adquirindo conhecimento aprofundado das intrincadas questões deste conflito, sendo que seu livro, The Missing Peace, publicado em 2004 e ainda sem tradução para o português, é uma importante leitura para a compreensão do assunto. Seu profissionalismo e conhecimento ultrapassam as barreiras partidárias, tendo trabalhado sob todos os governos norte-americanos desde o de Jimmy Carter até o de Barack Obama. Neste momento ele exerce exclusivamente atividade acadêmica. Fui aluno de Dennis Ross no curso “History of Peacemaking: in the Middle East” durante o segundo semestre de 2017 na Georgetown University em Washington e ele foi extremamente gentil ao me conceder a entrevista a seguir, exclusiva para Devarim. Gostaria de começar pedindo para você fazer uma análise comparativa entre as políticas externas dos governos Trump e Obama: como a mudança de governo nos EUA afeta o mundo, o Oriente Médio e Israel? É complicado comparar, porque os dois governos não têm muito em comum. O Trump parece estar determinado a ser o “anti-Obama” em todas as
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Outdoors no Irã mostram os líderes supremos do país, Khamenei e Khomeini.
áreas. E, para ser justo, quando Obama assumiu o governo ele também estava determinado a ser o “anti-Bush”. Porém, quanto ao Oriente Médio, neste momento está difícil avaliar o que vai acontecer. Pois, estranhamente, a política do Trump para o Oriente Médio, de forma geral, parece ser uma continuação do que o Obama fez, com uma retórica diferente. Por exemplo, não há mudança com relação ao acordo com o Irã, que o Trump não está abandonando, apesar de dizer que vai fazer isso. Com relação a Israel, a retórica a favor dos israelenses melhorou muito, mas em termos práticos não é claro que algo tenha mudado. A administração Obama, em seu último ano, assinou um memorando comprometendo US$ 38 bilhões em dez anos para Israel. O governo Obama respondeu muito bem às preocupações de segurança de Israel. Já o de Trump, ainda não abordou este assunto. Não porque ele não tenha preocupação com Israel, mas porque o que ele herdou já cobre os próximos dez anos, então não há porque focar neste aspecto. Contudo, a região está consideravelmente pior. Israel agora enfrenta a presença do Irã em sua fronteira, o que não acontecia antes. Os israelenses temem que o Irã abra um segundo front na Síria. A postura retórica do governo Trump é de estar disposto a obstaculizar as ações iranianas na Síria, mas até este momento não se vê um esforço concreto nesta direção. Até parece que o governo Trump está
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disposto a entregar a Síria para a Rússia. Talvez este não seja o caso, mas é o que parece. Então a administração Trump está mais “vocal” a respeito das atividades desestabilizadoras do Irã, mas, além de dizer que vai denunciar o JCPOA1, não se vê muita mudança. Concluindo, apenas a retórica é diferente. Há muitas críticas quanto às posturas da administração Obama, mas a abordagem não está sendo muito diferente. Contudo, talvez isto ainda venha a mudar. Talvez uma nova política ainda esteja sendo elaborada. Mas eu não espero que haja uma grande mudança. O discurso com relação a Israel continuará a ser mais amistoso do que o do Obama, mas em termos de coisas práticas não dá para saber ainda. Há rumores de uma grande venda de armas para os países árabes. O governo Obama, em qualquer venda de armas para os árabes, fazia questão de manter a superioridade militar de Israel. O governo Trump vai manter esta política? Ainda não sabemos. Nos últimos anos, desde a “Primavera Árabe” e a guerra civil na Síria até o surgimento do ISIS, muitas mudan1 JCPOA – Joint Comprehensive Plan of Action – é o nome do acordo internacional firmado entre o Irã de um lado e os EUA, a China, a Grã Bretanha, a França, a Rússia, a Alemanha e a União Europeia de outro para regular a atividade nuclear do Irã.
ças aconteceram no Oriente Médio. O que aconteceu foi vantajoso ou prejudicial para Israel? Como a maioria das coisas no Oriente Médio, a situação é complicada. Por um lado, a essência da luta no Oriente Médio hoje é sobre identidade, quem define identidade. Entre o islamismo radical e o não islamismo. Importante entender que “Islã” é uma religião e “islamismo” é uma ideologia política que usa a religião para a obtenção e manutenção de poder. Os sunitas radicais e os xiitas radicais lutam contra os sunitas e xiitas que eles percebem não estarem adotando a sua visão e ideologia. Além desta luta identitária entre islamistas radicais e não islamistas, também temos um conflito entre xiitas e sunitas que permeia a região, num conflito sectário. E também há o conflito saudita-iraniano, que se manifesta em dois cenários terríveis. O conflito na Síria com 500 mil mortos e 11,5 milhões de deslocados, uma inteira geração de crianças que provavelmente vai sofrer por anos de transtorno de estresse pós-traumático. E no que diz respeito a Israel há o perigo dos radicais islâmicos que estão lá, mas você também tem os iranianos infiltrando-se no país em números crescentes, aliados ao Hizbollah e outras milícias xiitas. No Iêmen também há um conflito entre iranianos e sauditas, que lutam através de terceiros. Os iranianos
atuam em todos os lugares onde veem a oportunidade de enfraquecer os sauditas. Hoje mesmo a manchete principal de um jornal iraniano muito próximo ao líder supremo era que eles lançaram um míssil ontem contra o aeroporto de Riad e que o próximo alvo será Abu Dabi. O Irã não está criando estes conflitos, mas ele os explora para expandir sua influência e tentar dominar a região. A respeito do Irã, você pensa que eles têm uma estratégia de dominação da região ou estão apenas reagindo às oportunidades que surgem? Há uma estratégia. Mas faz parte da estratégia aproveitar as oportunidades que se apresentam. A guerra na Síria emergiu a partir de uma revolta contra o regime de Assad e da guerra que Assad deflagrou contra o seu próprio público. Eles [o Irã] resolveram manter o Assad no poder e à medida que o exército do Assad foi diminuindo, os iranianos trouxeram milícias de locais tão distantes como o Afeganistão e o Paquistão. Para eles era crítico manter o Assad no poder porque ele [Assad] era o habilitador das irmandades islâmicas, que são os únicos grupos para os quais o Irã conseguiu exportar sua revolução com sucesso. Agora o Irã tem penetração estratégica importante no Líbano, na Síria e no Iraque. O que quer dizer que eles vão ficar lá, porque estas são
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Cidade de Aleppo, Síria.
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Cidade de Amã, Jordânia.
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posições avançadas para eles. O desejo de conseguir predominância na região tem elementos ofensivos e defensivos. Ofensivamente os iranianos acham que têm o direito de dominar a região porque eles acreditam ter civilização e cultura superiores. Defensivamente, eles se veem cercados de inimigos. O resultado é que existem estes conflitos identitários e por terceiros, que criaram uma interessante convergência de interesses entre os israelenses e os líderes árabes sunitas, especialmente os dos países do Golfo, Egito e Jordânia. Todos estes enxergam as mesmas ameaças. O governo do Obama tinha a percepção que deveria se retirar da região, ou por conta de repúdio ao envolvimento em guerras ou por conta da percepção que o dinamismo econômico está na Ásia e que tudo o que o Oriente Médio tem são conflitos. O presidente Obama falou da necessidade de focar na Ásia e de não ser envolvido nos conflitos do Oriente Médio, que são custosos e não produzem benefícios. O resultado disso é que os sauditas e outros perceberam que não mais podiam contar com os EUA para a manutenção de sua segurança. Então, com quem eles podiam contar? Eles não podiam contar com a Rússia, pois ela já havia se alinhado com o Irã. Não consideraram contar com a Europa, pois eles não teriam a habilidade militar para defendê-los. Não podiam contar com os chineses, pois estes estariam mais preocupados em ampliar sua influência econômica do que a militar. Então, o que sobrou? Eles olharam ao redor e viram que Israel percebe as mesmas ameaças que eles enxergam e que eles [os israelenses] efetivamente fazem alguma coisa a respeito, eles não apenas falam sobre as ameaças, eles reagem ativamente. Por isso foi criada uma cooperação silenciosa, abaixo do alcance do radar. Ela é silenciosa e invisível por conta da questão palestina, que ainda cria uma ressonância considerável no mundo árabe a respeito da percepção do que é justo e do que é injusto. Já os israelenses veem a expansão do Irã, cuja hostilidade contra Israel não arrefeceu nada, mas também enxergam o potencial de terem aliados árabes, o que cria possibilidades interessantes. Já que você citou os palestinos, podemos entrar mais a fundo nesta questão? Se passaram 22 anos do assassinato de Rabin. Você pensa que os Acordos de Oslo ainda
têm alguma influência na região ou é algo que já ficou para trás? Certamente ainda há alguma influência, pois veja que, mesmo com a ala direita dentro do governo de Israel querendo anexar parte da Cisjordância (West Bank)2, o primeiro-ministro não está fazendo isso. Não está mudando a área A3, não está mudando a área B, não está mudando a área C, ele não está anexando territórios para Israel. Ele não está mexendo nem mesmo nos territórios que em qualquer acordo de paz farão parte de Israel. No ano 2000 nós estabelecemos um conceito de blocos de assentamentos e de trocas de terra. A ideia era que se você anexar a Israel cerca de 4% ou 5% dos territórios próximos à linha verde4, você vai incluir em Israel 80% a 85% da população dos colonos. Então, a fronteira seria deslocada um pouco, os colonos passariam a morar dentro da fronteira de Israel e em paralelo seria feita uma troca de território, onde uma parte de Israel dentro da linha verde passaria a ser parte do Estado Palestino. Ou haveria outra forma de compensação entre os 4% a 5% do território que abriga 80% a 85% dos colonos. E o interessante é que o governo de Israel não tomou nenhuma atitude mesmo nessas áreas. E por que isso? Bem, porque os Acordos de Oslo criaram uma nova realidade. Uma nova realidade política. E o preço de anexar mesmo aquela área perto da fronteira seria muito alto, haveria uma reação muito forte pela comunidade internacional e então ele não fez isto. Mas, ao mesmo tempo, Israel continua a construir. Principalmente dentro dessas áreas próximas à fronteira, mas não apenas nessas áreas. Este é um governo que tem um grande número de partidos de direita, o que dificulta os entendimentos com os palestinos, mas eu não penso que os palestinos possam negociar qualquer coisa agora. Penso que eles estão muito fracos e divididos. Houve um recente acordo de reconciliação entre a AP e o Hamas que parece indicar que as diferenças entre os palestinos possam ser superadas. 2 A Cisjordânia (West Bank como é chamada comumente) é a área ocupada pela Jordânia após a guerra de independência de 1948-49. Presume-se que esta área venha a ser parte de um futuro Estado Palestino. 3 Os acordos de Oslo dividiram o West Bank nas áreas A (administrada exclusivamente pela Autoridade Nacional Palestina), B (de administração conjunta pela ANP e por Israel) e C(administrada exclusivamente por Israel). 4 A linha de demarcação do armistício entre Israel e seus vizinhos na guerra de independência de 1948-49 se chama de “linha verde”. Entre 1949 e 1967 esta linha serviu “de facto” como fronteira.
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Mas o que vimos é o Hamas começando a transferir partes da responsabilidade do governo em Gaza à Autoridade Palestina, mas, ao mesmo tempo o Hamas continua a manter as suas armas e operações militares. Talvez as coisas tenham que avançar passo a passo, contudo, enquanto o Hamas fazia um acordo com a Autoridade Palestina, dizendo que iriam seguir as diretrizes diplomáticas da AP, eles estavam cavando túneis para atacar Israel. Então, do lado palestino é muito difícil avançar com qualquer coisa. Por isso talvez os países árabes sejam tão importantes na solução do conflito. Talvez eles possam avançar alguma coisa. Qual a mais provável consequência do entendimento entre a OLP e o Hamas: a ala mais moderada da OLP ficar de mãos amarradas ou a ala mais radical do Hamas ficar isolada? Ou seja, quem perde, os moderados ou os radicais? Penso que, a curto prazo, o Hamas entende o quão popular é, perante o público da Cisjordânia e de Gaza, a ideia de terminar com a divisão entre eles e a OLP. A atual liderança do Hamas, Yahya Sinwar, é de Gaza, então ele conhece bem as dificuldades da população de lá. O Hamas quer se livrar das responsabilidades de governar, o que é muito difícil e eles não têm tido sucesso nisso, e sabem que não têm muita chance de ter sucesso. Então eles preferem que a AP tenha a responsabilidade de prover os serviços e isto vai sustentar o acordo por um tempo. A pergunta é: o que vai acontecer a mais longo prazo. A curto prazo isto reduz a chance de um conflito com os israelenses, o que é uma coisa boa. Mas, a mais longo prazo eu acho que eles querem assumir o controle da OLP. Quanto mais tempo este processo durar, maiores as chances de eles tomarem conta da OLP. Será que eles [o Hamas] estão preparados para mudar o que são? Eu tenho muitas dúvidas, mas isto é algo que se deve avaliar passo a passo. É interessante avaliar o envolvimento do Egito nesse processo: o presidente Sissi foi o responsável por esta reconciliação e muito provavelmente ele manteve os israelenses informados sobre o que estava acontecendo. E o acordo foi bem cauteloso no que diz respeito aos israelenses. Israel diz que não participa de negociações com um governo palestino onde o Hamas faça parte, mas o acordo não faz do Hamas parte do governo palestino, então pare-
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ce que o acordo mantém abertas as portas para a negociação dos palestinos com Israel. Vamos observar como isto se desenvolve. Eu não tenho grandes expectativas porque a OLP e o Hamas são dois movimentos muito diferentes, com conceitos e visões muito diferentes no que diz respeito ao futuro dos palestinos e nenhum dos dois lados quer desistir de sua visão e de seus conceitos. Mas nenhum dos dois quer ser visto pelo público palestino como sendo eles que fizeram esta reconciliação. Talvez com o tempo isto crie algo positivo, mas também pode ser que não. Eu voltei há pouco da região. Estive na Cisjordânia e perguntei a alguns palestinos em posição de destaque na AP como eles esperam influenciar o Hamas e eles disseram que precisam de uma abordagem coletiva com os EUA, com o Egito, a Jordânia, a Arábia Saudita e sim, também com Israel. Então talvez algo se desenvolva positivamente no futuro. A última pergunta: Como você vê o futuro. Há algum espaço para o otimismo? Há alguma chance de um Estado Palestino existir, há alguma chance de coexistência pacífica entre Israel e os vizinhos? Sim, eu penso que há uma chance para a coexistência. Há muita cooperação velada entre Israel e os Estados árabes neste momento. Uma pesquisa recente mostrou que de 25% a 30% dos árabes em diferentes Estados são favoráveis à cooperação com Israel, independentemente de um acordo com os palestinos. Nunca tivemos isto antes. 25% a 30% ainda é uma minoria, mas no passado este número era imperceptível na pesquisa. Então, algumas coisas estão mudando e existe potencial para um acordo. Mas é complicado! Há um legado de hostilidades e é muito difícil derrubar este legado. Imagino que tenha que haver um esforço continuado para criar entendimento entre Israel, os palestinos e os demais árabes, a fim de romper o atual impasse e aproveitar esta convergência de interesses que Israel tem com os países árabes. Muito obrigado, em meu nome, em nome da revista Devarim e em nome da ARI. Foi um prazer. Felipe Kaufman Gorodovits é diretor pedagógico nacional do movimento juvenil Habonim Dror no Brasil, estudante de Economia na PUC-RJ e atualmente trabalha com educação.
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PARCIALIDADE DA UNESCO A saída dos Estados Unidos e de Israel
Renata Trief Roitman Netanyahu, em discurso na Assembleia Geral da ONU, destacou que, em 2015, 20 resoluções contrárias a Israel foram aprovadas, enquanto apenas três foram aprovadas contra outros países. Isso demonstra um forte viés contra Israel.
Na página anterior, entrada para o sítio arqueológico no Parque Nacional de Beit Shearim na cidade Kiriyat Tivon, Israel.
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m 12 de outubro de 2017, Estados Unidos e Israel anunciaram suas saídas da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura). O principal motivo da decisão foi o viés fortemente anti-Israel da organização, que repetidamente tem votado decisões contra o país, muitas vezes negando vínculos históricos e religiosos com a região, que é sagrada para as três maiores religiões monoteístas do mundo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. A Unesco foi criada em 16 de novembro de 1945, após a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de fomentar a paz por meio da cooperação entre os países. Ela atua nas áreas de Educação, Ciências Naturais, Ciências Humanas e Sociais, Cultura e Comunicação e Informação. Faz parcerias com a iniciativa privada e governos nas esferas municipais, estaduais e federais, incentivando ações como a abertura de escolas, formação de professores e preservação de patrimônios históricos e naturais, entre muitas outras ações. Um exemplo de decisão parcial contra Israel foi o reconhecimento da cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, como patrimônio da Palestina, além da inclusão da cidade na lista de locais que correm risco, que tem como objetivo permitir a assistência imediata do Fundo do Patrimônio Mundial e destina-se a alertar a comunidade internacional para locais em perigo de desaparecer por degradação, conflitos ou falta de preservação. A decisão foi tomada em julho deste ano.
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A cidade, com mais de 3.000 anos, no fundo do Monte do Templo, o lugar É interessante notar passou pelo controle de romanos, judeus, mais sagrado do judaísmo. Perto dali está que Israel é a única cruzados e mamelucos. Ela é sagrada para a Mesquita do Domo da Rocha e a Mesdemocracia do Oriente judeus, muçulmanos e cristãos, pois nela quita Al-Aq’a, o terceiro local mais sagraMédio, um país que estão localizados o Túmulo dos Patriarcas, do para o islã. O documento foi aprovaque acredita-se seja o local onde Abraão, do por 24 países da Unesco, incluindo o resgata e protege Isaac, Jacó e suas esposas estão enterrados Brasil, enquanto seis votaram contra e 26 a memória e o e a mesquita Ibrahimi, também conhecise abstiveram. patrimônio de outros da como Santuário de Abraão, construíA situação se agravou quando Donald povos (incluindo dos da no século XIV. Colonos judeus vivem Trump, no final de 2017, anunciou a demuçulmanos...). Não na cidade, sob forte proteção militar iscisão de transferir a embaixada americana raelense. Este tipo de decisão coloca as liera isso que a Unesco para Jerusalém, um passo que reconhece gações judaicas com locais sagrados em a cidade como capital de Israel e que endeveria defender? segundo plano, dando maior peso para a fureceu o mundo árabe. Com isso, a Asligação muçulmana, além de dizer que o sembleia Geral da ONU aprovou uma sélocal deveria estar sob controle palestino e não de Israel. rie de seis resoluções anti-Israel. Isso acirrou os ânimos e Na ocasião, Netanyahu criticou a decisão e reiterou a deu espaço para que mais resoluções contra o país sejam posição de Israel: “[O país] Continuará a proteger o Túaprovadas não apenas na Unesco, mas em todos os órgãos mulo dos Patriarcas, para assegurar a liberdade religiosa da ONU. para todos e... proteger a verdade”. “Desta vez eles deciEstes são apenas alguns exemplos de resoluções contrádiram que o Túmulo dos Patriarcas, em Hebron, é um lorias a Israel, tomadas em 2016 e 2017. Em anos anteriocal palestino, o que significa não judeu, e que está em peres, a situação foi a mesma. Netanyahu, em discurso na Asrigo. Não é um espaço judaico? Quem está enterrado lá – sembleia Geral da ONU, em 22 de setembro de 2016, em Avraham, Yitzhak e Yaa’kov. Sarah, Rivka e Leah. Nossos Nova York, destacou que, em 2015, 20 resoluções contrápais e mães. E o local está em perigo? Somente onde Isrias a Israel foram aprovadas, enquanto apenas três foram rael governa, como Hebron, a liberdade de religião é gaaprovadas contra outros países. Isso demonstra um forte rantida para todos.” viés contra Israel. O país ocupa em torno de 0,01% da área Outra decisão deste tipo foi tomada em maio de 2017. ocupada do planeta. Existem cerca de 14,5 milhões de juA Unesco ratificou uma resolução negando a ligação isdeus no mundo (dos quais 43% vivem em Israel), de uma raelense com Jerusalém. No Dia da Independência de Ispopulação mundial de 7,6 bilhões de pessoas. Ou seja, os rael, Argélia, Egito, Líbano, Marrocos, Omã, Qatar e Sujudeus representam apenas 0,2% da população mundial. dão apresentaram ao Conselho Executivo da Unesco uma Faz sentido tantas resoluções contrárias a uma população resolução sobre a “Palestina ocupada”, referindo-se a Ise a um país tão pequenos? rael como o “poder de ocupação” em sua capital, indicanEste viés acontece em grande parte devido à Organizado que não tem direito legal ou laços históricos com qualção de Cooperação Islâmica (OIC), que é formada por 57 quer parte da cidade. E, por mais absurdo que seja, o texpaíses de maioria muçulmana, além de 9 países observato foi aprovado com 22 votos a favor, 23 abstenções, 10 dores. É a segunda maior organização intergovernamenem oposição. tal depois da ONU, tendo delegações permanentes denEssa votação sobre Jerusalém veio após outra semelhantro do órgão. Assim, não é de se estranhar que votem junte, de outubro de 2016, em que a Unesco nega a ligação tos (aprovando ou se abstendo) nas decisões da Unesco, judaica ao Monte do Templo e ao Muro das Lamentações, que é parte da ONU. além de se referir ao local apenas pelos nomes muçulmaO grupo, aliado às poucas ações dos outros Estados nos. O Muro das Lamentações é o muro de contenção exmembros para controlar estas decisões, garantem espaço terior do Segundo Templo judaico, sendo o local mais sapara resultados absurdos, como a negação da ligação dos grado onde os judeus hoje podem orar e está localizado judeus com o Muro das Lamentações. Basta notar a enor-
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Ruínas na Sinagoga de Cafarnaum, na Galileia.
me quantidade de países que se abstêm nas votações, como a França. É interessante notar que Israel é a única democracia do Oriente Médio, um país que resgata e protege a memória e o patrimônio de outros povos (incluindo dos muçulmanos...). Não era isso que a Unesco deveria defender? Israel não é o país perfeito e, sim, comete muitos erros. Mas a Unesco nasceu como um órgão para defender a educação, a ciência, a cultura e a preservação do patrimônio histórico e cultural do mundo, para assim fomentar a paz. Mas estes tipos de resoluções, ao contrário, fomenta os conflitos. A Arábia Saudita destruiu locais relacionados à história do próprio Islã para expandir mesquitas e os palestinos ilegalmente retiraram toneladas de terra carregada de artefatos arqueológicos de dentro do Monte do Templo, burlando as regras de Israel para preservação, jogando fora objetos da história de diversas culturas, não apenas do cristianismo e do judaísmo, mas também do próprio Islã. Que sanções ou medidas foram tomadas em casos como esses? Nenhuma. Essa é a posição de um órgão que deveria proteger a cultura de todos os países do mundo? As resoluções criticam a Autoridade de Antiguidades de Israel, chamando-a de invasora e arbitrária, quando a
função deste órgão de governo é preservar a memória e a história de todos os povos que viveram na região e evitar que feitos como a retirada da terra do Monte do Templo ocorram. Esta função inclui a entrada de funcionários em locais sagrados, mas apenas para preservação. Além disso, o Waqf (órgão muçulmano que controla o Monte do Templo) não permite que sejam feitas escavações na área, que poderiam esclarecer ainda mais a história do Oriente Médio. Sendo assim, a Autoridade de Antiguidades de Israel não realiza escavações no Monte do Templo. A memória e a história são assim prejudicados e a Unesco nada faz contra isso, ao contrário, critica o órgão que procura realizar esta função de preservação. Na prática, a Unesco se tornou um órgão ineficiente e parcial, que dá excessivo espaço para ditaduras e países islâmicos. Assim, o mundo perde com a parcialidade do órgão, que desperdiça tempo com medidas injustas, enquanto deveria se concentrar em proteger e procurar garantir que a história e a cultura de todos os países seja preservada, o que acaba não acontecendo. A Unesco toma medidas importantes como colaborar para a formação de professores e contribuir para a construção de escolas e à doação de equipamento necessário para
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Ruínas na Sinagoga de Cafarnaum.
o seu funcionamento, além de promover o fomento à leitura. Porém, tais iniciativas empalidecem em meio a resoluções absurdas, que cada dia prejudicam mais a imagem de um órgão que perde a credibilidade, fazendo com que a Unesco seja vista como uma piada ou uma entidade ineficiente e desnecessária. Além da perda de credibilidade, a Unesco também perde de outra forma: financeiramente. Cada vez que estas resoluções contrárias a Israel são tomadas, o país corta parte do financiamento que dá para a ONU, o que culminou na saída definitiva da Unesco. Depois que o Conselho de Segurança aprovou uma resolução condenando os assentamentos judaicos na Cisjordânia, Netanyahu ordenou cortes de US$ 6 milhões do pagamento de Israel para a ONU. Em março, depois que o Conselho dos Direitos Humanos aprovou cinco resoluções anti-Israel, Benjamin Netanyahu cortou mais US$ 2 milhões. Após a resolução relativa a Hebron ter sido aprovada na Unesco, Netanyahu anunciou que Israel cortaria mais US$ 1 milhão de seus pagamentos para a ONU, totalizando US$ 9 milhões de cortes totais na verba repassada à Organização das Nações Unidas desde dezembro de 2016. Além de Israel, os Estados Unidos cortaram os repasses de dinheiro para a ONU em 2011, ferindo bem mais as finanças da instituição. Isso aconteceu quando a Palestina foi aceita como membro efetivo do órgão.
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Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos deixam a Unesco. Eles também deixaram de ser membros em 1984, durante o governo de Ronald Regan, republicano. A justificativa foi que a organização conduziria uma política externa fora de suas atribuições e seria hostil às instituições de base de uma sociedade livre, como a imprensa, mercado e os direitos do indivíduo. Teria sido uma resposta ao Relatório McBride, assinado pelo Nobel da Paz Seán MacBride em 1980, que criticava a concentração da mídia global e acesso desigual à informação e comunicação. Antes disso, porém, em 1974, os EUA suspenderam os repasses à ONU, devido ao reconhecimento da Organização para a Libertação da Palestina e pelas resoluções que repreendiam Israel. Após a saída da Unesco em 1984, o país só retornaria ao órgão em 2003, depois do fortalecimento do radicalismo e do terrorismo, pois a educação e a cultura são fundamentais para combater esses males no mundo, já que a falta de acesso à educação, a ignorância e a miséria são terrenos férteis para que grupos radicais se implantem na população e conquistem seguidores. Conforme disse a socióloga francesa Divina Frau- Meigs, em entrevista à BBC Brasil, “a agência aparece então como um dos lugares estratégicos para combater a intolerância e o terrorismo”. Porém, ao aprovar estas resoluções absurdas contrárias a Israel, não é o contrário que a Unesco faz? Estas de-
cisões aprovam visões radicais contra Isde Audrey Azoulay) significar uma muA Unesco toma rael e os judeus, além de dar a entender dança na política do órgão, então certamedidas importantes que o Islã é superior a todas as outras relimente Israel pode reconsiderar”. como colaborar para a giões, concordando com extremistas e raNo entanto, o ministro Katz tem dicais islâmicos. É uma pena que um ór- formação de professores razão de ter dúvidas. A atual chefe da gão, que poderia fazer uma enorme difeUnesco, Irina Bukova, faz duras críticas a e contribuir para a rença na educação e preservação da culconstrução de escolas. algumas das resoluções anti-Israel de sua tura do mundo, se porte dessa maneira. organização. Sua postura não foi capaz Porém, tais iniciativas de mudar as decisões do órgão que ainGraças a uma divisão dos países áraempalidecem em meio da conta com um forte grupo de países bes, a judia francesa Audrey Azoulay foi a resoluções absurdas. árabes que acabam por moldar as dispoeleita presidente da Unesco. Egito e Qatar apresentaram candidatos diferentes e, sições da Unesco. É muito provável que após seis turnos de votação, Azoulay venceu. O Egito faz isso se mantenha sob a liderança de Audrey Azoulay. parte de uma coalisão liderada pela Arábia Saudita, que Caso o viés anti-Israel da Unesco não mude, é pouco vem boicotando o Qatar, devido ao suposto apoio a radiprovável que Estados Unidos e Israel retomem seus assencais islâmicos e vínculos com o Irã. Assim, os votos ficaram tos no órgão. E este afastamento pode ter consequências divididos entre o candidato egípcio, Moushira Khattab, e desastrosas, como defende o professor Steven Shankman, o qatariano Hamad bin Abdulaziz Al-Kawari que também da Universidade do Oregon, titular da cátedra da Unesco é acusado de antissemitismo, pois permaneceu em silêncio em Estudos Transculturais, Diálogo Inter-religioso e Paz. quanto à presença de livros antissemitas em uma feira em Para ele, o anti-israelismo foi apenas um pretexto e os paíDoha, quando era ministro da Cultura do país. ses deixariam o órgão de qualquer jeito. Em entrevista ao Embora a eleição de uma judia, com parentes em Isportal Yahoo, ele afirmou: “Mesmo que essas organizações rael, seja uma boa notícia para o país, isso não significa que internacionais sejam imperfeitas, não há outra compromehaverá mudanças imediatas na postura do órgão. tida com educação, cultura e ciência a nível global além Azulay foi ministra da Cultura da França, além de da Unesco. Ela passará a não refletir a realidade geopolítiuma das líderes do Centro Nacional de Cinema da Franca do mundo. Quando você não tem um dos maiores atoça. Como ministra, ela aumentou o orçamento da Cultures do mundo fazendo parte, a questão sobre a viabilidade ra, atingindo o maior valor prometido para as artes na hisda própria instituição será levantada”. tória do país. Também durante o mandato dela, foi aproA própria Audrey criticou a saída dos Estados Unidos vada uma lei de “criação e herança”, destinada a garantir do órgão. Em entrevista à Associated Press, ela afirmou: a liberdade artística e a proteger a miríade de locais histó“Obviamente, lamento a partida deles... mas esta “política ricos da França. de cadeira vazia” não é sustentável porque os Estados UniAudrey é de uma família de judeus marroquinos, dos também são afetados por tudo o que a Unesco faz”. sendo filha de André Azoulay, atual conselheiro do rei A saída para o impasse seria trabalhar por mudanMohammed VI do Marrocos. Ela tem mestrado em ças dentro do órgão. “Você fica e luta pelo que é certo e Ciências de Gestão pela Paris Dauphine University e em verdadeiro. A direção da Unesco tem sido muito sensaAdministração de Empresas pela Lancaster University. ta. Não foi sequestrada por um grupo extremista”, disse Ela também estudou na Sciences Po e na École NationaShankman. Para ele, a ausência de outros países agravale d’Administration. rá o problema. “Se ainda há alguma credibilidade restante O ministro da Inteligência de Israel, Yisrael Katz, em da Unesco, elementos extremistas e tendenciosos serão os entrevista ao Canal 2, foi questionado se a eleição de Azouúnicos a ficar. Não teremos capacidade de resistir ao prolay poderia significar uma reconsideração de Israel na decesso de pura politização da entidade”, afirmou. cisão de sair da Unesco. Ele declarou: “Não espere que a Shankman participou de uma reunião de 15 cátedras Unesco de repente se transforme em uma organização sioda Unesco (estudiosos afiliados à organização) em Israel, nista”. Mas, após refletir um pouco, disse “se isso (a eleição em protesto às resoluções relacionadas a lugares sagrados.
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As cátedras fizeram um abaixo-assinado gradualmente perca importância. Quem A Unesco é um órgão que sugere uma nova metodologia para sabe com a eleição de Azoulay e medidas importantíssimo, que a tomada de decisões. As resoluções secomo o abaixo-assinado as coisas não mufaz e pode fazer ainda riam escritas após a consulta a especiadem. Só resta aguardar para ver. mais pela educação e listas, historiadores e estudioso afiliados à Unesco, assim elas não seriam deixa- cultura no mundo. Alguns Fontes https://www.theguardian.com/world/2017/jul/07/ das nas mãos de burocratas ou represenpaíses acabaram com unesco-recognises-hebron-as-palestinian-worldtantes de países. Shankman refletiu so-heritage-site um poder excessivo nas bre o desejo de mudanças. “Queremos https://www.timesofisrael.com/unesco-ratifiesque as resoluções da Unesco reflitam o mãos e, assim, dominam contentious-resolution-denying-israeli-links-tojerusalem/ a instituição, dando a verdadeiro significado dos locais sagrados para as várias comunidades da reela um caráter político https://www.timesofisrael.com/unesco-backs-resolution-ignoring-jewish-link-to-temple-mount/ gião. Recomendamos certos passos para e parcial indevidos. https://nacoesunidas.org/agencia/unesco/ evitar que essas coisas ocorram, no futuhttps://en.wikipedia.org/wiki/Destruction_of_ ro. Que sejam aprovadas resoluções mais early_Islamic_heritage_sites_in_Saudi_Arabia https://www.quora.com/What-percentage-of-the-worlds-occupiedclaras, com precisão histórica.” -land-is-Israel A Unesco é um órgão importantíssimo, que faz e pode https://www.timesofisrael.com/welcomed-in-israel-new-french-jewishfazer ainda mais pela educação e cultura no mundo. Al-head-of-unesco-wont-mean-immediate-change/ guns países acabaram com um poder excessivo nas mãos e, assim, dominam a instituição, dando a ela um caráter Renata Trief Roitman é jornalista. Morou em Israel onde trabalhou político e parcial indevidos, atrapalhando em decisões rena comunicação do projeto de arqueologia Temple Mount Sifting levantes, prejudicando as boas ações do órgão. Caso essa Project. Atualmente mora em São Paulo e atua em assessoria de postura não mude, a tendência é que a Unesco se apague e imprensa. Ruínas em Massada, Israel.
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Ter ideias e mostrar a eficiência na prática. Para Flavio Pripas, diretor do Cubo, este é o caminho do sucesso, junto com a educação. Em meio ao mar de startups que surgem no mercado atualmente, pesquisas apontam que até 90% fracassam. Nesta entrevista, Flavio conta um pouco da sua história dentro e fora da comunidade judaica e dá dicas para quem quer entrar na trilha do empreendedorismo. Arymax: Fale pra gente um pouco da sua carreira até chegar ao Cubo. Flavio Pripas: Estudei no Colégio I.L. Peretz. Entrei na USP e depois me formei em Ciências da Computação na PUC-SP. Sempre trabalhei com tecnologia. Comecei numa empresa pequena, da família, como programador. Fui para o JP Morgan do Brasil, depois para o Credit Suisse-Hedging Griffo. Montei junto com um amigo e as nossas esposas uma plataforma que virou o maior site de moda do Brasil entre 2009 e 2013. Vendi essa empresa, entrei no mercado de bitcoins e, então, fui convidado para liderar a iniciativa do Cubo. Arymax: O que é o Cubo e como ele funciona? FP: Nós não somos uma aceleradora e nem um coworking. Somos o maior centro de empreendedorismo da América Latina. O Itaú precisava se aproximar de startups, mas não sabia como. O fundo de capital Redpoint eventures deu uma ideia: implantar aqui uma iniciativa que tinha na China e no Japão. Era a criação de um polo de densidade: um espaço físico onde as pessoas vão todos os dias para falar sobre inovação, empreendedorismo, tecnologia, novos modelos de negócios, novas formas de trabalhar. Isso é o Cubo. A proposta foi mudar o mercado brasileiro de patamar e dar ao banco o que ele precisava: a proximidade do executivo com a startup. Arymax: E deu certo, afinal vocês
estão quadruplicando a capacidade neste ano. FP: Em dois anos e meio, a gente conquistou muita coisa e gerou resultados palpáveis. O Itaú fez projetos com startups que deram muito retorno. Arymax: Qual o conceito de startup pra vocês? Quais os critérios para ser um residente do Cubo? FP: Uma startup é uma empresa que resolve um problema real, do mundo real e cria uma solução com potencial de escala. Essa palavra escala é o que diferencia uma startup de outra empresa. Ela significa que o valor que você gera é desproporcional à sua estrutura. Então você tem que atender muitos clientes, atacar um mercado grande, gerar muito caixa sem crescer a estrutura na mesma proporção. Um bom exemplo é o Whatsapp. Ele atendia milhões de clientes, foi vendido por US$ 19 bilhões para o Facebook e tinha 40 e poucos funcionários. Uma empresa pra ser residente do Cubo tem que ter o produto desenvolvido, o modelo de negócio a ser testado e já ter cliente. Arymax: Como você vê a comunidade judaica inserida no processo de empreendedorismo? FP: Existem muitos empreendedores da comunidade judaica no Cubo e muitos investidores também. Quem é educado dentro da comunidade judaica, pode ser no Brasil ou no exterior, tem valores muito parecidos que criam uma identificação. A comunidade está inserida no meio do empreendedorismo e as pessoas podem se ajudar simplesmente por se identificarem e pertencerem ao mesmo grupo. Arymax: E como o conceito inovador de startups pode ajudar no trabalho das entidades judaicas? FP: Talvez um dos ensinamentos que o Cubo trouxe que a gente poderia pensar
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pra comunidade seria criar essa densidade. O processo de consolidação das escolas judaicas, por exemplo, eu enxergo com bons olhos porque você está criando mais densidade, mais união. Num mesmo lugar, você aumenta os pontos de contato e a possibilidade de gerar novos amigos, novas parcerias. Consegue até concentrar investimentos. A segunda questão é o foco. Esse é um dos critérios que fazem ou não os empreendedores terem sucesso. Quando você tem foco, entrega resultados. Quando a comunidade fizer um projeto, é importante ter um foco muito claro, saber quem quer atingir. Arymax: Como criar uma cultura de empreendedorismo no Brasil? FP: Tudo começa na escola. Quando eu estudei, não fui ensinado a desenvolver projetos, defender ideias. Muitas vezes, eu decorava livros, regras de gramática. Acho que isso está mudando. Eu vejo um esforço para expor nossos filhos a resolverem problemas, apresentarem soluções. É esse o primeiro passo: educar a criança pra que ela tenha responsabilidade, faça e gere valor com seu próprio esforço, coisa que eu só fui aprender de adulto. Se a gente fizer isso bem feito, provavelmente vai estar num outro patamar daqui a alguns anos. Arymax: Qual conselho você daria para os jovens que querem começar a empreender? FP: A dica que eu dou é: ideia não tem valor. O que tem valor é a capacidade de execução. Tem uma ideia? Então, tente desenvolver uma primeira versão do produto e colocar na mão das pessoas. A partir do momento que você concretiza aquela ideia, ela melhora, ganha fluidez. Hoje em dia não tem desculpa. É muito barato, rápido e fácil executar virtualmente qualquer ideia. É simplesmente arregaçar as mangas e fazer.
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FAZER QUALQUER COISA? Transformar para continuar
Rabino Damián Karo
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uem não ouviu, às vezes, que tais ou tais judeus fazem qualquer coisa? Geralmente com um sentido acusatório, supondo conotações pejorativas. Para pensar sobre essa questão de forma integral, vamos refletir primeiro sobre outra questão, também amplamente mencionada. Como é possível que a cultura judaica tenha sobrevivido por milênios até hoje? O sociólogo Bernardo Sorj afirma: “O judaísmo sobreviveu pela capacidade constante de se renovar e adaptar-se a novas circunstâncias”.1 O modelo judeu é o de renovação e adaptação. É assim que o judaísmo conseguiu fazer transições de uma época para outra; do Primeiro Templo à do Exílio; da restauração do Estado judaico e período do Segundo Templo à do judaísmo rabínico; do rabínico ao medieval; do medieval à emancipação, para citar apenas alguns. Em cada transformação, o judeu foi redescoberto e redefinido. Uma característica judaica é a capacidade de compreender a transformação humana. O que nos há interessado, motivado, ensinado, contra o que nos identificamos hoje, e talvez, não mais. Por esse motivo, o judaísmo ainda é válido. Porque ele tem o talento para se recriar e assim continuar sendo significativo, sendo o mesmo e diferente ao mesmo tempo. Como é possível mudar e não mudar ao mesmo tempo? O sistema deve assumir que o que precede já incluiu a inovação. Um exemplo: uma vez que os
O judaísmo tem o talento para se recriar e assim continuar sendo significativo, sendo o mesmo e diferente ao mesmo tempo.
1 No livro Judaísmo para todos (Editora Civilização Brasileira, 2010).
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judeus tiveram a Torá, eles a consideraram um texto sagrado, mas isto não impediu que ao lado dela escrevessem outros textos, como os dos profetas, e travassem a discussão: esses novos livros devem ou não ser adicionados ao corpus sagrado? Como sabemos, eles foram incluídos. Mas quando encontraram um texto que eles queriam incorporar e contrariava a Torá, o que fizeram? Explica o Talmud: “Rabi Yehudah disse em nome de Rav: Devemos nos lembrar de Chanina, filho de Chizkiá, para sempre. Porque se não fosse por ele, teriam enterrado o livro de Ezequiel, já que suas palavras contradiziam as da Torá. O que fez ele? Juntou trezentos vasos de óleo, sentou-se no sótão e os interpretou”.2 Em outras palavras, o livro de Ezequiel, mais tarde um livro da Bíblia, às vezes contradiz a Torá. Chanina se isolou num sótão com alimento suficiente para um longo tempo de imersão e escreveu uma interpretação que faria coincidir ambas as obras. Os textos serem considerados sagrados implica que não os descartamos ou os modificamos, porém que, de acordo com nosso interesse, escrevemos um novo texto que os interpretem. O sistema resulta em que o novo não seja iné2 Tratado Shabat 13 B
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dito e sim que seja o que os textos já diziam, mas que não era ainda entendido. Não é assim? Nós fazemos ser assim, através da interpretação. O Talmud interpreta, ou acomoda, a Torá e faz com que ela diga o que agrada aos sábios do Talmud. O truque está em expressar de forma diferente. Encontramos no Talmud3 a respeito: “E o Eterno me entregou as duas placas de pedra gravadas pelo dedo do Eterno, e sobre elas todas as palavras que o Eterno, do fogo, dirigiu a vocês na montanha, no dia do encontro”.4 Rabi Yoshua, filho de Levi, disse: “Sobre elas e sobre elas; todas e todas; palavras e palavras; (todas essas palavras que poderiam ter sido evitadas e o texto continuaria a ser compreensível estão lá para nos ensinar que elas também foram dadas) a Torá, a Mishná, o estudo lógico e os relatos. Inclusive aquilo que um bom aluno ensinará no futuro, evoluindo sobre o que lhe foi ensinado por seu professor, já foi informado a Moisés no Sinai. Qual é o motivo?” “Existe algo que pode ser dito: olha, isso é novo?”5 O companheiro responde: “Já existiu nos séculos que 3 Ierushalmi, Tratado Peá 2:4 4 Devarim / Deuteronômio 9:10 5 Kohelet / Eclesiastes 1:10 princípio
nos precederam”.6 Rabi Yoshua explica os ao ser questionado por um aluno, Akiva Os livros de halachá versículos bíblicos para fazê-los declarar nomeia a Moisés no Sinai como a origem são o registro das que tudo o que foi interpretado e, além de seus ensinamentos. Ou seja, o que não interpretações e dos disso, tudo o que ainda será interpretado, muda é nomear os antepassados, os textos usos e costumes. Longe que precederam. O sistema consiste em já foi dito a Moisés no Sinai. E então surgem as perguntas: qual é de serem mandatórios, anexar novos elos à cadeia e declarar que o limite? O que não podemos mudar? eles nos dão ferramentas eles sempre fizeram parte dela, que os noPor que se tudo pode ser mudado, se não vos elos são apenas o desenvolvimento da para fazer e registrar houver limites, estaremos construindo mesma cadeia. nossas práticas. algo diferente e devemos chamá-lo de forSe a Torá é sagrada, central e fundama diferente, pois é outra entidade. dora, se não pudermos mudá-la, como é O próprio Talmud7 responde o quanto as coisas popossível mudar? Através da interpretação, um sistema em dem mudar. “Rabi Yehuda disse em nome de Rav: Quanque o anterior é explicado através de uma nova visão. A do Moisés subiu ao céu, encontrou Deus sentado e colonova visão, escrita nas margens, será central, se tornará texcando coroas nas letras. Ele expressou diante dEle: Mestre to, legado para as futuras gerações. Aquilo que, num cerdo Universo, o que te impede (de entregar a Torá como to momento, é novo e controvertido, ao passar dos sécuestá, sem as coroas)?” los será sagrado e parte integrante do corpus. Ele respondeu: “Há um homem que virá em mais muiPor exemplo, o estudioso israelense de origem polotas gerações, Akiva filho de Yossef é o nome dele, e ele nesa Yacov Even-Chen, em sua obra O Rambam, dediinterpretará no futuro cada um dos pontos (das coroas) ca o último capítulo à queima dos livros do Rambam. montes e montanhas de halachot (plural de halachá)”. Ele Em resumo: na primeira metade do século XIII, um grupediu: “Mestre do Universo, mostre-me”. Ele indicou: po de rabinos na França decretou a excomunhão de al“Vire para trás”. Moisés se viu sentado no final das oito figumas obras de Rambam, inclusive o seu Guia dos Perleiras (dos alunos do rabino Akiva na casa dos estudos), e plexos. Denunciaram os textos à Inquisição como herétinão entendeu nada do que estavam falando e ficou chateacos, por meio de algumas falsificações. Isso acarretou na do. Ao chegarem a outro tópico, os discípulos perguntaqueima pública dessas obras na cidade de Montpellier e ram (à luz do que disse Rabi Akiva): “Rabino (nosso promais tarde também em Paris, quando também o Talmud fessor), de onde você sabe isso (que você nos ensina; qual foi adicionado à fogueira. a sua fonte?)”. Akiva a eles: “É uma halachá que foi enOs textos que foram adicionados como as camadas sinada a Moisés no Sinai”. Moisés se acalmou, voltou, se de uma cebola, ao longo dos séculos, são a maior riqueapresentou diante de Deus e perguntou: “Mestre do Uniza judaica. Mas, lembre-se, cada era gerou suas próprias verso, tendo um homem assim, por que você está dando a perspectivas e práticas transformadas em textos. Suas inTorá através de mim?” Deus ordenou-lhe: “Cala-te, é asterpretações dos textos anteriores permitiram que fossem sim que eu decidi”. incluídos neles. O rabino Yehuda ensinou na segunda metade do sécuVejamos como exemplo uma das grandes transfiguralo III e conta essa lenda em nome de um dos seus profesções dos judeus. Coloquemo-nos no primeiro século de sores, Rav, que o instruiu na primeira metade desse século. nossa era, Roma destrói Jerusalém e os judeus perdem o Na narrativa, Moisés viajou no tempo por quinze séculos e Templo e a soberania. Não há mais lugar para o culto, nem estudou por um tempo na academia do rabino Akiva, eno Sinédrio, que era ao mesmo tempo o corpo legislativo e tre o final do século I e início do segundo. Moisés não enjudicial. Toda a vida judaica mudou completamente: autotende uma única palavra e fica deprimido. Tanto mudou ridade, adoração, rituais, leis, tudo. A Torá era lida de uma no judaísmo que Moisés o achou incompreensível! Mas forma que não tinha mais lugar na nova realidade. Os fariseus, que já antes haviam aprendido a viver um judaísmo para além do Templo, tratavam com perfeição o sistema 6 Kohelet / Eclesiastes 1:10 final de leitura interpretativa. Raban Iochanan, filho de Zakai, 7 Tratado de Menachot 29 B
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estabelece um novo centro em Iavne e dá Uma vez que começou a era do judaísPrestemos atenção na origem ao judaísmo rabínico. É o início mudança das práticas mo rabínico, a era da interpretação, nem do tempo de interpretação, já não é immesmo o próprio Deus tem o direito de também porque mudaram portante o que o texto diz, mas como o explicar a Torá. Se faz como os sábios enos valores. Os conceitos tendem que deve ser feito. A tradição juinterpretamos. Até que ponto a interpretação pode que temos hoje de amor, daica lê a Bíblia com as lentes dos professer feita? O Talmud8 relata uma discussores e essa é uma das origens da maioria liberdade, cidadão, são entre o rabino Eliezer e outros estudas práticas. Inclusive as práticas consimulher, não são os diosos de seu tempo, no que diz respeito deradas como sendo ditadas diretamente mesmos que foram ao caso de um forno que é desmontado e pela Torá são, geralmente, interpretações pensados há séculos. cuja areia se derrama por suas diferentes rabínicas. A maioria das práticas que reseções. O rabino Eliezer afirma que o forconhecemos como judaicas não figuram no continua a ser puro, mas os demais sábios dizem que na Torá. A cada época se adicionam detalhes, de modo não. “Naquele dia Rabi Eliezer apresentou todos os arguque, por exemplo, “Não cozinhar o cabrito no leite de sua mentos possíveis, mas eles não os aceitaram. Rabi Eliezer mãe”11 passou a exigir uma seção da cozinha para produtos lácteos e outra para as carnes. disse-lhes: ‘Se a halachá é como eu digo, essa alfarrobeiAs diferenças não são apenas intergeneracionais. O méra [uma árvore] irá mostrar isso’. A alfarrobeira moveu-se todo interpretativo, que é claramente subjetivo, dá oricem côvados [medida de distância], alguns dizem quatrogem à machloket, um sistema de discussões sobre os dicentos côvados. Eles disseram a ele: ‘Nenhuma evidência ferentes usos do texto. O Talmud é a obra que contém é fornecida por meio de uma árvore’. Ele manifestou-se as discussões, algumas das quais não resolvidas, permanenovamente: ‘Se a halachá é como eu digo, a corrente descem abertas. Se a tradição e as práticas judaicas não são da te riacho irá mostrar.’ Naquele instante as águas do riacho Torá, mas do Talmud, devemos aprender a partir do mémudaram de direção. Eles disseram: ‘Nenhuma evidência todo Talmúdico. é fornecida pela água de um riacho’. Ele insistiu: ‘Se a haNós estudamos textos que mencionam a palavra halalachá é como eu digo, os muros desta academia irão provar chá. Um setor inteiro da biblioteca judaica tem este nome. isso’. Então as paredes começaram a inclinar-se para cair. Como eles são textos legais, alguns o traduziram, erradaAo que gritou [para as paredes] o rabino Yehoshua: ‘O que mente, como lei. Antes de mais nada, lembre-se que em vocês têm a ver com as discussões dos sábios?’ As paredes todas as épocas, em cada local e de acordo com os costunão caíram, por respeito ao rabino Yehoshua, nem voltames mais diversos, diferentes academias e professores esram ao seu lugar, por respeito ao rabino Eliezer, elas estão crevem uma ampla gama de textos haláchicos. O que para inclinadas até hoje. Ele anunciou novamente: ‘Se a halaalguns é legal para outros não é. Além disso, halichá é anchá é como eu digo, os céus vão mostrar.’ Uma voz trovedar, a halachá é a caminhada, são os usos e os costumes. jou do céu dizendo: ‘O que vocês têm contra Rabi ElieOs livros de halachá são o registro das interpretações e dos zer? A halachá é como ele diz!’ Rabi Yehoshua levantou-se usos e costumes. Longe de serem mandatórios, eles nos e exclamou: ‘Não está no céu’9. O que significa ‘não está no céu’? Disse Rabi Irmiahu: ‘Desde o momento em que a dão ferramentas para fazer e registrar nossas práticas. Torá foi entregue no Monte Sinai, ignoramos qualquer voz Prestemos atenção na mudança das práticas também celestial, desde que Você escreveu, no Sinai, na Torá, ‘incliporque mudaram os valores. Os conceitos que temos hoje, nem-se pela maioria’10.” Rabi Nathan conheceu Eliahu [o por exemplo, de amor, liberdade, cidadão, mulher, não são profeta] e perguntou-lhe: ‘O que o Santo, abençoado seja, os mesmos que foram pensados há séculos. O que fazer se disse naquele momento?’ Ele respondeu: ‘Ele riu e disse: os valores mudaram e queremos mudar as práticas para Meus filhos me derrotaram, meus filhos me derrotaram!’” que continuem a ser significativas? Reinterpretar os textos e os costumes e práticas que nos precederam, para que ex-
8 Tratado de Baba Metzia 59 B 9 Devarim / Deuteronômio 30 : 12 10 Shemot / Êxodo 23:2
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11 Shemot / Êxodo 23:19, 34:26 e Devarim / Deuteronômio 14:21
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pressem o que precisamos hoje. Por exemplo, vejamos um caso12. “Se um homem tem um filho rebelde e libertino, que não quer ouvir a voz de seu pai ou de sua mãe, e, apesar de castigá-lo, ele não os escuta, o pai e a mãe irão levá-lo e trazê-lo diante dos anciãos na porta da cidade, e eles dirão aos anciãos: ‘Este nosso filho é libertino e rebelde, ele não escuta nossa voz, ele é glutão e bêbado’. E todos os homens da cidade o apedrejarão até morrer; então você removerá o mal de entre vocês, e todo o Israel ouvirá e temerá.” O que devemos fazer para não matar nossos filhos? O Talmud interpreta: “Rabi Yehuda diz: se a mãe e o pai não se assemelham na voz, na aparência e na altura, o filho não recebe a categoria de libertino e rebelde. Por qual motivo? Por que o texto diz: ‘Ele não ouve nossa voz’, e do fato de que a Torá diz que eles devem ter a mesma voz, deduzimos que eles também devem ter a mesma aparência e altura. O filho libertino e rebelde nunca existiu e nunca existirá, e se é assim, por que ele está descrito na Torá? para que você a interprete e receba sua recompensa.” Façamos como os mestres do Talmud, que primeiro atiram a flecha e depois desenham os círculos do alvo ao redor. Conhecendo nossos valores, sabendo a quais práticas eles refletem, é que somos chamados a reinterpretar os
textos, sempre respeitando as outras opiniões que nos validam. Como os mestres da halachá, escrevamos nossos usos e costumes para a posteridade. Continuar com a tradição judaica implica em redescobri-la. O núcleo do judeu é a unidade na diversidade, a mudança e o estudo comprometido. Sempre foi “fazer qualquer coisa”, ou expressado de outra forma, adicionar à cadeia milenar novas interpretações através de um método. Ou, melhor ainda, o judeu é um método, o do estudo interpretativo de textos e realidades e de práticas sempre significativas. O judeu é uma identidade coletiva, uma experiência emocional comprometida em constante redefinição. Assumamos o desafio de nos apropriar do judaico. Definamos nossa judaidade como uma identidade dentro de uma cultura. Revisemos nossa história de constantes transformações. Releiamos os textos e ressignifiquemos as práticas. Sejamos protagonistas de nossa vida judaica inclusiva, com orgulho, plenitude e significado.
12 Devarim / Deuteronômio 21:18-21
Traduzido do espanhol por Raul Cesar Gottlieb.
O Rabino Damián Karo serve ao Templo Libertad, em Buenos Aires. É o decano do Instituto Iberoamericano de Formación Rabínica Reformista e o autor de Vivir sin etiquetas (preguntas despiertas para un mundo dormido). É militante de Direitos Humanos.
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A LITERATURA HEBRAICA QUE TEMATIZA A SHOÁ PERDEU SEU MAIS DESTACADO AUTOR Berta Waldman e Saul Kirschbaum O que move um sobrevivente da Shoá a representar o vivido ficcionalmente? As respostas são certamente múltiplas.
Nas fotografias deste artigo, o Memorial ao Holocausto em Budapeste, Hungria.
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haron Appelfeld nasceu em Tchernovits, província de Bucovina, Romênia, em 1932. Aos oito anos de idade, ele e seus pais foram capturados pelas tropas nazistas. Sua mãe logo foi morta e Aharon e seu pai enviados para o campo de trabalho de Transniestria. Appelfeld acabou por fugir, e durante dois anos vagou pela Ucrânia rural. Em 1944 foi acolhido pelo exército soviético e trabalhou em suas cozinhas de campanha. Imigrou para a então Palestina em 1947 com a “Aliat Hanoar” – a Imigração Juvenil ‒, ingressando em um instituto educacional agrícola, e serviu dois anos no exército israelense, época em que retomou sua educação formal, que tinha sido interrompida após o primeiro grau. Posteriormente, estudou filosofia na Universidade Hebraica de Jerusalém e ensinou literatura hebraica em universidades israelenses. A ficção de Appelfeld se concentra em torno de duas grandes correntes temáticas: o passado traumático das comunidades judaicas da Europa central antes da Shoá, em especial da comunidade judaica de Bucovina, onde viveu sua primeira infância, e a própria Shoá. Sua dedicação a esses temas e à memória das vítimas é muito bem expressa no comentário incluído em sua autobiografia, Histoire d’une vie: “Aquele que fala a língua dos supliciados não apenas lhes assegura a lembrança neste mundo, mas ergue uma muralha contra o mal
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e transmite a chama de sua fé de geração No romance Badenheim, pode descrever acontecimentos, mas não em geração” (Appelfeld, 2004, p. 97, tradotá-los de autonomia e liberdade de uma 1939, Appelfeld dução nossa). ficção complexa; ela permanece cativa de apresenta um judaísmo Aharon Appelfeld faleceu em 4 de jaseu material bruto, e talvez isto deva mesassimilado, que se neiro de 2018. mo parecer uma obrigação moral” (CaA respeito da dificuldade de tematidernos de Língua e Literatura Hebraica, encontra à beira da zar a Shoá, vale destacar suas próprias panum. 2, 1999, p. 25). catástrofe que todos lavras: “O desejo de manter o silêncio e O que move um sobrevivente da Shoá ignoram, apesar de o desejo de falar tornaram-se mais proa representar o vivido ficcionalmente? As a pressentirem. fundos, e apenas a expressão artística, que respostas são certamente múltiplas. apareceu anos depois, poderia tentar ligar Foi difícil para o Estado de Israel, reaquelas duas necessidades imperiosas e difíceis” (Cadercém-fundado, se haver com o horror da Shoá e com o exnos de Língua e Literatura Hebraica, num. 2, 1999, p. 88). termínio dos judeus da Europa Oriental. O sionismo, por Ao contrário das obras de ficção em que o final surquestões pragmáticas, para poder oferecer um projeto de preende o leitor, isso não ocorre na literatura que tematiheroísmo, integrou vários estereótipos negativos judaicos za a Shoá, salvo poucas exceções. Como dar um toque de promulgados por não judeus, e adaptou-os a seus propóliberdade ao destino das personagens quando elas camisitos. A ideia do judeu sem raízes, fisicamente fraco, avesnham inexoravelmente para os fornos crematórios? so ao prazer, contrário ao trabalho físico, alienado da naIrving Howe, em seu ensaio “A escrita e o Holocausto”, tureza, etc., fazia parte do repertório da época, embora esconsidera que “diante desta realidade, a imaginação paresas ideias estivessem pouco fundamentadas na realidade. ce estar intimidada, desamparada e oprimida. Ela pode Assim, à medida que se aproxima a data de fundação do relatar detalhadamente, mas nunca aumentar ou escapar; Estado de Israel, o antigo judeu da diáspora vai sendo su-
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plantado por um modelo de herói hebreu, corajoso, pioneiro, orgulhoso, ligado ao trabalho da terra, ligado à natureza, nativo, enraizado, em oposição direta ao paradigma do judeu diaspórico. É esse tipo de herói nacional, de extração romântica, que habita a literatura da época. É esse o quadro que Aharon Appelfeld encontra, e contra o qual, vindo de outra experiência, vai se posicionar. Em entrevista, Appelfeld testemunha a dificuldade de o estado fundado e armado a partir de uma ideologia definida, integrar a Shoá e o empenho em apagar essa história: “Ben Gurion, quando falou sobre os sobreviventes, falou sobre o pó humano, ou seja, que aqui chegavam meias pessoas e um quarto de pessoas. É preciso modificar tudo, é preciso transformá-las. Havia uma sensação muito forte, nos anos 1940-1950, com relação àqueles que vinham do Holocausto; era preciso modificá-los, era preciso tirar deles o que eles tinham trazido. (...) Havia em Israel uma espécie de grande heroísmo. Nós somos os fortes, nós somos os bons e os que vêm de lá são cortados, não sabem o que querem. E, naturalmente, houve aquele lema extremamente ofensivo ‘como o rebanho para o abate’, aqui não somos como rebanho para o abate, os judeus é que eram” (a entrevista foi concedida a Nancy Rozenchan, e está em Cadernos de Língua e Literatura Hebraica num. 2, 1999, p. 133). Para Claude Lanzmann, “a destruição dos judeus europeus não pode ser logicamente deduzida de qualquer sistema de pressuposições. Entre as condições que permitiram o extermínio e o extermínio em si – o fato do extermínio –, há um rompimento na continuidade, uma interrupção, um abismo”. Se é verdade que esse abismo é a essência da Shoá, o horror nazista mantido em elipse, no texto de Appelfeld presentifica-se pelos efeitos que deflagra. Assim, os sentidos do texto têm de ser buscados nas relações entre o que se diz e o que se cala, entre a palavra e o silêncio. O que está implícito pressiona a linguagem, anunciando que algo latente não foi simbolizado, mas tem de ser levado em conta para não se falsearem as significações possíveis do texto. Esse enfoque oblíquo do autor traduz a impossibilidade de olhar de frente o horror e representá-lo. É preciso usar, como Perseu usa o escudo para matar a Medusa, a face espelhada da palavra em seu potencial alusivo. Para ilustrar a obra de Appelfeld, comentamos brevemente dois de seus textos mais relevantes, com tradução em português.
No romance Badenheim, 1939, Appelfeld apresenta um judaísmo assimilado, que se encontra à beira da catástrofe que todos ignoram, apesar de a pressentirem. A data no título informa o tempo da ação – o limiar do nazismo –, sincronizando a leitura do texto, que passa a ser significada a partir desse dado. É por meio de uma perspectiva distante e irônica que o relato se desdobra, o que impede qualquer sentimento de nostalgia por um mundo perdido. Esse olhar voltado ao passado, a partir da consciência do que ocorreu nos anos 1940, tinge a ironia de desilusão. Badenheim, o idílico lugar de veraneio na Áustria, é apresentado como contendo uma bomba dentro de si, e os sinais da catástrofe vão sendo plantados ao longo da narrativa. O que caracteriza a novela Tsili, também de Appelfeld, é o movimento; a personagem está em constante trânsito. A protagonista, cujo nome significa “minha sombra”,
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é apresentada como limítrofe, “judia de sua linguagem, deslocando-o da diminuiAutor de mais de 40 cabeça fraca”, e a família envergonha-se ção e do anonimato, do número inscrito livros, a ficção de dela. Uma versão feminina do tam, pera que foi reduzido, para a forma humana Appelfeld sobre a Shoá sonagem do folclore ídiche, de inteligênque lhe foi roubada. Esse é o empenho cia limitada, que está sempre em desvan- recebeu reconhecimento do autor, e esse é o alcance da literatura. tagem numa comunidade que releva, aciAutor de mais de 40 livros, a ficção internacional e foi ma de tudo, o estudo. No seu caso, ao de Appelfeld sobre a Shoá recebeu recopublicada em mais ocupar a posição de refugo da família e nhecimento internacional e foi publicade 25 idiomas da comunidade, ela acaba expondo a sinda em mais de 25 idiomas. Em portugularidade de uma experiência que lança guês, lamentavelmente, apenas Baden sombra sobre o quadro histórico do nazismo e sobre seu heim, 1939 e Tsili, tradução de Rifka Berezin e Nora modo de operar, mas, pelo avesso, ilumina esse mesmo Rosenfeld (São Paulo, Summus, 1986), Expedição ao Inmecanismo. Quando se inicia a deportação dos judeus, verno, tradução de Luis Krausz (São Paulo, Perspectiva, a menina é abandonada, segue sozinha para a floresta, e 2011) e o infanto-juvenil Volto ao Anoitecer, tradução de acaba aprendendo a sobreviver na natureza, resultando ser Paulo Geiger (São Paulo, FTD, 2017). Entre seus muia única sobrevivente de toda a família. Passa por não jutos prêmios: Prêmio Primeiro-Ministro (1969), Prêmio dia, trabalha em casa de camponeses, de prostitutas, cresBrenner (1975), Prêmio Bialik (1979), National Jewish ce, amadurece, conhece um homem, engravida, torna-se Book Award (EUA, 1979), Prêmio Israel (1983), Prêuma mulher. Em meio aos refugiados ouve a palavra Pamio Medicis Etranger (França, 2004), Prêmio Nelly Salestina e lembra-se de já tê-la ouvido em sua casa. A nochs (Alemanha, 2005), Prêmio Grinzane Cavour (Itávela termina de forma nada apoteótica, com mais um deslia, 2008) e o Prêmio Independent Foreing Fiction (UK, locamento de Tsili no navio que a conduziria à Palestina, 2012). Foi também condecorado como Officier de l’Orsem redimir, no entanto, o desastre na Europa por meio dre et des Lettres (França, 2016). do renascimento na nova pátria. Berta Waldman é professora aposentada do Departamento de TeoSe a arte exige certa intensificação, esse pressuposto não ria Literária da Unicamp e professora aposentada de Literatura Hefunciona na representação da Shoá, cuja história parece braica e Judaica da USP. completamente irreal, “como se não pertencesse à experiência de nossa geração e, sim, à mitologia”, conforme as Saul Kirschbaum é Doutor em Língua Hebraica, Literatura e Cultupalavras de Appelfeld (cf. Cadernos de Língua e Literatura ra Judaicas pela USP, pós-doutorado na Unicamp sobre Poesia HeHebraica num.2, 1999, p.91). Trazer essa história para a braica na Península Ibérica Medieval. realidade é fazer o ocorrido falar por meio do homem e de ProjectB/istockphoto.com
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Estátua de Dante Alighieri em Florença, Itália.
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AONDE SITUAR A BANALIDADE DO MAL NO INFERNO DE DANTE ALIGHIERI? Ruth Kelson
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Divina Comédia, obra escrita no século XIV pelo poeta fiorentino Dante Alighieri, narra sua viagem através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Nas primeiras estrofes de seu poema Dante nos diz que no meio do caminho de sua vida se encontrou numa selva escura, selvagem, dura e áspera, pois havia perdido a via reta, ou seja, perdera o caminho do Bem e sofria por isto. Desde o Paraíso a sua amada Beatriz, vendo-o nesta deplorável condição, veio resgatá-lo, e pediu ao poeta romano Virgílio, nascido no século I a.C., que acompanhasse Dante ao Inferno e ao Purgatório numa viagem de conhecimento e purificação dos seus pecados, sendo que a própria Beatriz o acompanharia no Paraíso. Na sua volta, Dante estaria incumbido de relatar aos homens o que viu e aprendeu para assim poder afastá-los do mal e guiá-los para o bem. Do princípio ao fim, todo o poema foi escrito numa linguagem metafórica, figurada, poética, visando um sentido moral. Ele descreve o estado das almas depois da morte, quando o homem, submetido pelos méritos e deméritos de seu livre-arbítrio, recebe o justo prêmio ou o justo castigo por suas condutas.
Do princípio ao fim, a Divina Comédia foi escrita numa linguagem metafórica, figurada, poética, visando um sentido moral. Ele descreve o estado das almas depois da morte, quando o homem, submetido pelos méritos e deméritos de seu livre-arbítrio, recebe o justo prêmio ou o justo castigo por suas condutas.
Um Modelo Cristão de Universo O modelo do universo de Dante era cristão e se baseava no sistema de Ptolomeu. No centro, exaltada por ser o local de nascimento de Jesus Cristo, estava
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Pintura de Dante Alighieri com a Divina Comédia na Basílica Central de Florença.
a Terra, rodeada de nove esferas concêntricas e luminosas. Na 1ª esfera situava-se a Lua, na 2ª, Mercúrio, na 3ª, Vênus, na 4ª, o Sol, na 5ª, Marte, na 6ª, Júpiter, na 7ª, Saturno, na 8ª, as Estrelas Fixas, na 9ª, o Primeiro Móvel. Acima delas, o Empíreo com os nove círculos de hierarquias angélicas e Deus. O Paraíso corresponde às nove esferas enquanto o Inferno e o Purgatório localizam-se na Terra. A complexa estrutura arquitetônica da Comédia foi elaborada por Dante para permitir-lhe situar as almas em diferentes níveis hierárquicos, segundo seus crimes e pecados ou suas virtudes e graus de santidade. No Inferno há graus em direção a um Mal cada vez maior, até o fundo mais baixo, onde está o próprio demônio. O inverso se dá no Paraíso, onde a direção conduz a um Bem cada vez mais sutil e para a perfeição absoluta, Deus. O Purgatório representa um estágio intermediário, onde as almas devem ficar por um tempo para se purificarem, antes de poder ingressar no Paraíso. O Inferno tem a forma de um cone invertido provocado pela queda do anjo Lúcifer. É composto por um vestíbulo e nove círculos concêntricos de tamanho decrescente e se situa sob a cidade de Jerusalém em direção ao centro da Terra.
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Dante localizou as almas dos pecadores tendo por base o credo cristão dos sete pecados capitais. Os castigos que irão corresponder a cada tipo de pecado tem uma forma literária criada por Dante, que ele chamou de contrapasso1, e ilustram de forma metafórica a abominação do pecado que ali está sendo punido. Por exemplo, os aduladores afundam numa lagoa de excremento, os assassinos ficam imersos num rio de sangue fervente, etc. No Inferno não há esperança de redenção e o dístico na porta do Inferno diz justamente isto: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” – (Abandone toda a esperança, vós que entrais). O castigo aí é eterno e irreparável.
A Estrutura do Inferno Assim ele situou no Inferno os pecadores: No vestíbulo ficam os indiferentes, os egoístas, cujas identidades é impossível discernir, os que pecaram por omissão e “viveram sem infâmia e sem louvor”. “Nem o céu, para não tornar-se menos belo, nem o Inferno os re1 Contrapasso, do Latim: “sofrer o oposto”, refere-se ao castigo das almas no Inferno de Dante, por um processo que ou se parece ou contrasta com o próprio pecado.
cebem”. Seu castigo é serem cruelmente três tipos de violentos: os violentos contra A complexa estrutura mordidos por moscas e vespas que figuarquitetônica da Comédia Deus, deitados; os violentos contra a naram a consciência, que agora os pica, mas tureza, os sodomitas, correndo sem nunca foi elaborada por Dante que antes eles silenciavam. parar; e os violentos contra a arte, os usupara permitir-lhe situar rários, encolhidos como vermes. No 1º círculo, no Limbo, estão as almas dos que morreram sem batismo e dos O 8º círculo é dividido em 10 fossas as almas em diferentes justos que viveram antes da vinda de Jesus onde são punidos 10 tipos de fraudes. Na níveis hierárquicos, Cristo. Eles não serão salvos, mas também primeira fossa, rufiões e sedutores são chisegundo seus crimes e coteados por demônios. Na segunda, esnão podem ser punidos da mesma forma que aqueles que se situam profundamen- pecados ou suas virtudes tão os aduladores imersos em excremene graus de santidade. te no Inferno. Eles não sofrem tortura fítos. Na terceira, é punida a simonia, a sica, porém, a angústia de saber que não venda de favores divinos, bênçãos, cargos puderam conhecer o amor de Deus. eclesiásticos, coisas sagradas. Estes pecadores estão fincaO Inferno propriamente começa a partir do 2º círcudos em buracos de cabeça para baixo, tendo as plantas dos lo. Os pecados da incontinência que resultam da incapapés envoltas em chamas. Na quarta fossa estão os imposcidade de controlar os desejos mais baixos são punidos do tores: bruxos, adivinhos e os falsos astrólogos. Eles têm o 2º até o 5º círculo. rosto voltado para as costas e andam para trás por não conNo círculo 2 estão os luxuriosos, cujo castigo é ficarem seguirem ver o que está diante deles. Na quinta fossa esrodopiando eternamente, arrebatados por uma incessante tão os traficantes, os corruptos, os que abusam de empretempestade de vento como uma metáfora da sujeição dos gos públicos para acumular fortuna. Estão submersos num amantes aos ventos incontrolados das paixões. lago de piche fervente. No 3º círculo estão os glutões, guardados pelo demôNa sexta fossa são punidos os hipócritas. Vestem canio Cérbero, que late por três bocas e os morde, devora, arpas pesadíssimas que por fora têm o aspecto do ouro e por ranha, esfola e esquarteja. São expostos a uma chuva eterdentro são de chumbo. Na sétima fossa estão grandes lana, fria e pútrida. drões, aqueles sagazes cobertos de honra, ricos e nobres. No 4º círculo estão tanto os avaros como os pródigos. Têm as mãos amarradas às costas, entrelaçados a serpenAmbos empurram com o peito cargas pesadas, que figutes que os mordem e incendeiam. A oitava fossa é dos poram o peso dos bens materiais aos quais deram tamanha líticos, reis e ministros fraudulentos, envoltos em chamas importância enquanto vivos. Eles se insultam uns aos ouque os ocultam. Na nona fossa estão os semeadores de cistros, como se quisessem marcar uma diferença entre eles, mas, discórdias e guerras. São de quatro espécies: os que que, no entanto, só existe na aparência, pois todos somencausam divisões religiosas, os que provocam discórdias cite acreditaram na matéria e não nos bens espirituais. vis, os que fomentam inimizades entre as pessoas e os que No 5º círculo estão os coléricos, os iracundos, e eles o fazem entre parentes. São retalhados pela espada de um chafurdam na lama, se mordem e se laceram. demônio. Na décima fossa estão os falsificadores: alquimisNo 6º círculo ficam os heréticos. São punidos em setas, moedeiros, os que falsificam sua identidade, os perjupulcros e sarcófagos incendiados. ros, os caluniadores e os que falsificam mercadorias, títulos A violência é punida no 7º círculo. Os violentos contra honoríficos, etc. e seus castigos irão variar de acordo com o próximo ficam imersos em sangue fervente. São os assasa natureza de seus pecados. sinos e os tiranos que, com crueldade, pilharam o sangue e O 9º círculo é um lago de gelo onde são punidos quaos bens alheios. Os violentos contra si mesmos são de dois tro tipos de traidores: os que traem os parentes; os que tipos: os suicidas, transformados em árvores, sobre as quais traem a pátria; os que traem os hóspedes e os amigos; e os fazem ninho harpias asquerosas que se nutrem de suas foque traem os benfeitores e a Deus. Dante considera a trailhas causando-lhes grande dor, e os que dilapidaram seus ção o maior grau de mal, e o demonstra colocando-os em bens e são mordidos por cadelas furiosas. contato direto com o demônio. É um Mal frio, sem paiNum areal inflamado por chuva de fogo estão outros xão, não tem a calidez que é própria ao coração.
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No fundo, envolto em gelo, encontrase Lúcifer.
Eichmann em Jerusalém
Descreveu o tipo de mal praticado por Eichmann como um mal sem raízes, sem profundidade. Numa carta à Gershom Scholem ela e o descreveu como um “fungo na superfície”. “... minha opinião agora é que o Mal nunca é radical, é apenas extremo e não possui nem profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície. Ele desafia o pensamento, como eu disse, porque o pensamento tenta alcançar a profundidade, chegar às raízes, e no momento em que se ocupa do mal, ele se frustra, porque não há nada. Essa é a sua banalidade. Apenas o Bem tem profundidade e pode ser radical”.2 Susan Neiman, em seu livro O Mal no Pensamento Moderno (Editora Difel, 2003), estuda as mudanças ao longo do tempo na compreensão do que seja o Mal. Segundo ela, Iago, em Otelo, é pequeno e opaco demais para o grau de destruição que foi capaz de causar. Para Sade, porém, Deus era seu oponente, e seus criminosos, movidos pelo desejo de atingir o prazer físico, eram o retrato do mal em si. Na literatura são encontrados poucos exemplos desta forma de mal, pois mesmo o diabo quando aparece em pessoa é decepcionante. Na sua representação em Goethe ou em Dostoievski, eles exalam um ar de miséria. Não representam impulsos maliciosos, mas sim mesquinhos. Mefistófeles, por exemplo, que Fausto chama de pobre-diabo, manca, reclama, conta piadas vulgares. Revela muito mais impotência do que poder. Ele destrói o que os outros criam. O diabo é a própria soma das fraquezas humanas, a expressão de anseios reles e não desafiadores. Ele zomba de Ivan em Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky: “Você não sabe que vivemos num mundo desencantado?” Neiman conclui: “Somos ameaçados mais comumente por quem tem intenções indiferentes ou mal direcionadas do que por quem tem intenções malévolas; até mesmo formas deliberadas de malícia são com frequência assombrosamente insignificantes”. Parece ser o caso de Eichmann, que havia abdicado de
Para Arendt, apesar da monstruosidade de seus atos, de Eichmann não se podia extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca. Os executores do Holocausto foram basicamente eficientes burocratas da matança a mando de um Estado.
A questão que desejo tratar diz respeito ao que a filósofa judia alemã Hannah Arendt denominou de “Banalidade do Mal”. Em 1961, em Jerusalém, ela assistiu ao julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, acusado de ser o responsável por coordenar o transporte de milhões de judeus de toda a Europa ocupada para os campos de concentração para serem exterminados. Sequestrado pelo serviço secreto israelense na Argentina, aonde havia se refugiado após a guerra, foi levado para Israel e aí foi julgado e condenado a forca. Em sua defesa, Eichmann alegou que não era culpado, pois unicamente cumprira o seu dever. Para o sistema legal nazista, nada fizera de errado e por isso não se arrependia de nada. Não podia ser responsabilizado por seus atos, pois apenas executara da melhor maneira possível as ordens de Hitler, para quem os soldados eram obrigados a jurar exercer a obediência de um cadáver. Não se arrependia de nada e tinha sua consciência tranquila. Após o julgamento, Arendt escreveu o livro Eichmann em Jerusalém com o subtítulo Um Relato Sobre a Banalidade do Mal. Nele, buscou compreender as implicações históricas, morais e legais de toda esta questão. Ela diferenciou dois tipos de Mal. O primeiro, chamado por Kant de Mal Radical, aquele cometido por alguém que ativamente “torna-se um vilão”, tal como Ricardo III de Shakespeare. Este é o mal dos sádicos, dos perversos e dos psicopatas, dos que cedem, segundo Kant, à propensão natural do homem à crueldade e outras formas de vilania. E ela o diferencia de um segundo tipo que seria um Mal Banal, sem raízes, a Banalidade do Mal, cometido por alguém que não pensa por si próprio e não se responsabiliza por seus atos. Que abdica da liberdade de seu próprio julgamento, abdica de sua autonomia, ainda segundo o conceito de Kant, em favor da obediência ao comando de um outro. Eichmann foi um caso típico em que a disciplina, o dever e as pequenas ambições substituíram a responsabilidade moral.
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2 Elizabeth Young-Bruehl, Hannah Arendt, For Love of the World, p. 369 (tradução minha)
MarinGhita/istockphoto.com
Vagão de trem no antigo campo de extermínio de Birkenau, atual Museu de Auschwitz, Polônia.
seu próprio julgamento moral e se anulado como pessoa ao exercer a atitude puramente burocrática e corriqueira de uma irrestrita obediência, na base de pequenas ambições carreiristas, oportunismo e indiferença moral. No regime nazista não havia nenhuma consideração moral a ser levada em conta por seus “funcionários”. Era-lhes exigido apenas que cumprissem bem o seu dever: no caso, exterminar todo um povo. Burocratas, tais como Eichmann o fora, compunham memorandos, redigiam planos, participavam de conferências, buscavam acima de tudo desempenhar um “trabalho” com eficiência. As ligações causais entre as suas ações e o assassinato em massa de milhões de seres humanos se esmaeciam nessas atitudes rotineiras. Para Arendt, apesar da monstruosidade de seus atos, de Eichmann não se podia extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca. Ele não era nem pervertido, nem sádico, nem insano, mas terrível e assustadoramente normal, na medida em que não era uma exceção dentro do regime nazista. Os executores do Holocausto foram basicamente eficientes burocratas da matança a mando de um Estado. Na época, a reação de grande parte dos judeus contra ela e contra este livro foi muito violenta. Em Israel vi-
viam ainda sobreviventes do Holocausto, traumatizados pela crueldade infinita do regime nazista. Soava-lhes ofensivo, perante sua imensa tristeza e luto, ouvir uma judia dizer que Eichmann não fora um monstro, mas um burocrata, um carreirista, alguém que não pensava, um Ninguém, um homem banal. Isto lhes parecia em si mesmo uma monstruosidade. Mas ela, profundamente tocada pelo horror do nazismo, que vivera de perto, buscava unicamente compreender, movida por um profundo sentido de responsabilidade moral, o que afinal havia ocorrido, o que pode incitar um homem comum a tornar-se um assassino. E esta é uma questão crucial para os nossos tempos. Durante o Julgamento de Nuremberg, todos nazistas ali julgados alegaram em sua defesa que foram apenas engrenagens obedientes de uma máquina. Se eximiram de qualquer responsabilidade pessoal, que, ao final, só poderia ser imputada a Hitler. Porém, para Arendt, ao serem julgados perante um tribunal, a justiça exige que estas engrenagens voltem a ser imediatamente transformadas em perpetradores, isto é, em seres humanos, convocados a novamente assumir a responsabilidade por seus atos. A corte
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Trilhos de trem no antigo campo de extermínio de Auschwitz, atual Museu de Auschwitz, Polônia.
concluiu que ordens manifestamente cri- Como educar os homens to além de qualquer possibilidade humaminosas não devem ser obedecidas. na. Porém, é possível conjecturar dois lupara a autonomia, para Após o término da 2ª Guerra Mungares para ele. a liberdade? Como dial, o julgamento de Eichmann e dos O primeiro seria o 7º círculo, onde deve a lei internacional principais chefes nazistas em Nuremberg ficaria imerso em sangue fervente junto tornou-se um desafio em termos das leis aos violentos contra o próximo. Pois ele julgar os genocídios? internacionais. A partir de então houve a foi um assassino frio e seus atos tiveram Como deve intervir? necessidade de tipificar qual o tipo de rescomo consequência a morte de milhões ponsabilidade daqueles que cometem atos de pessoas. Neste caso, ele teria cometicriminosos em um Estado em que o crime é a legalidade, do principalmente um Mal com caráter radical. Mas ele como foi o caso no nazismo. poderia também estar no vestíbulo, onde a sua consciência, que manteve convenientemente adormecida enquanOs Nazistas na Divina Comédia to colaborava na matança de milhões de seres humanos, haveria para sempre de persegui-lo e picá-lo cruelmente. Quando se trata de localizar Eichmann no Inferno, Disse Arendt: “... não são apenas os bons que são incomoaonde situá-lo? Pois a morada infernal também tem muidados pela má consciência, que é rara entre os criminotos quartos. No Inferno, Eichmann não poderia mais tensos reais?” A má consciência é uma benção enquanto estar se esquivar sob o argumento de haver apenas cumpritamos vivos, pois é ela que nos permite corrigir os nossos do ordens. Pois a implacável justiça divina simplesmente erros. Essa mesma consciência que lhe falhou totalmente não aceita argumentos hipócritas ou covardes. E diria pela em vida, esta que deveria tê-lo alertado e guiado em seus boca de Hannah Arendt: “... exigimos que os seres humaatos, seria agora, na forma destes insetos, o seu grande tornos sejam capazes de diferenciar o certo do errado, mesmo mento. Neste caso ele estaria sendo punido por sua omisquando tudo o que têm para guiá-los seja apenas seu prósão, por um Mal que tem o caráter da Banalidade do Mal. prio juízo, que, além do mais, pode estar em conflito com Hannah Arendt busca alertar contra este Mal tão tipia opinião unânime de todos em sua volta”. camente moderno. Tantas questões cruciais precisam ser Não é esta a grande questão do livre-arbítrio, tão essencolocadas agora: a partir de quais valores morais devemos cial às religiões abrâmicas? invocar sua condenação? Como educar os homens para a Quando na cruz, Jesus pediu ao Pai que perdoasse autonomia, para a liberdade? Como deve a lei internacio“aqueles que não sabem o que fazem”. No entanto, a Igrenal julgar os genocídios? Como deve intervir? ja, menos benevolente do que Jesus, colocou os que alegaEla não deu respostas. Subentende-se do seu livro que vam não saber o que faziam no Inferno. O não saber não neste momento é importante debater, pensar, mobilizaré permitido pela religião como desculpa. Para situar Ei-se em favor do Bem e do humano, assim como ela o fez. chmann no Inferno, o castigo por seus crimes teria que Ruth Kelson, médica, fez mestrado em Ciências da Religião na equivaler, segundo Dante, ao mesmo nível em que eles PUC-SP em 2011 com o tema da Banalidade do Mal de Hannah se deram. Julgar em que porção do Inferno é possível suArendt. por que ele habite eternamente implicaria um saber mui-
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OS JUDEUS NA AMAZÔNIA História e memória de um judaísmo singular
Elias Salgado Tais histórias compõem o mosaico da memória, individual, familiar e coletiva, que configura a história de uma imigração singular no contexto da história dos judeus na Diáspora, em particular a brasileira.
Na página anterior, acima: interior da sinagoga Essel Avraham, a mais antiga do país em funcionamento ininterrupto, em Belém; abaixo: fachada atual da sinagoga em Manaus.
“
T
udo começou com o meu tataravô. Conta a tradição familiar que, em meados do século XIX, ele era proprietário de vários canaviais na Ilha de Marajó. Logo ele, nascido em Tanger, tido como um homem fino e educado, virou senhor de escravos no Pará. Já teria vindo casado e com três filhos: Samuel, José e Belizia, a quem só se chamava vida, ‘Mãe Vida’, como me lembro das histórias de minha avó. Mãe Vida, apesar de vinda do Marrocos, só falava português. Dizia que era brasileira. “Pois bem: Belizia Levy não só era marroquina, como de boa cepa: descendente do Chacham Haim Pinto, casou-se com David Benoliel, também ‘nobre’, sobrinho do rabino Shemtob. A filha do casal, Esther, casou-se com o também Levy Eliezer – descendente do Reb Eliezer Dabela, a quem eram atribuídos vários milagres, entre eles o de parar uma enchente. Até hoje há quem faça fila em Casablanca para reverenciar seu bastão. A união aconteceu em Cametá, no Pará, no dia 21 de março de 1900. “Cresci ouvindo essas histórias. Achava engraçado pensar que meus bisavós podiam ser imigrantes, descendentes de imigrantes, e ao mesmo tempo viver na Amazônia. Imaginava-os casando em cima de uma gigantesca vitória-régia, cercados de índios.
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“Olho retrospectivamente, acho interessante que eu pudesse supor que o Brasil fosse um lugar pitoresco para meus antepassados, quando os estranhos, aos olhos dos brasileiros, eram eles. Ou pelo menos daqueles brasileiros que haviam chegado antes...” (Trecho retirado da apresentação da historiadora Keila Grinberg ao livro Os judeus no Brasil, por ela organizado. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2005). Narrativas como estas não são raras entre os judeus que imigraram para a Amazônia a partir dos primeiros anos do século XIX. Elas são comuns às centenas de famílias – na verdade, segundos estudos mais recentes (Jeffrey Lesser), cerca de duas mil famílias, que imigraram ao longo de um século, oriundas em sua absoluta maioria do Marrocos. Aqui não estão contabilizados aqueles judeus de outras origens que não a magrebina. Dessas famílias, mil delas delas permaneceram na região e outras mil se naturalizaram brasileiras, porém volta-
ram ao Marrocos e, de posse de sua nova cidadania, apresentavam demandas diversas junto às representações diplomáticas brasileiras. Vasta documentação sobre tais demandas podem ser encontradas nos arquivos do Itamaraty. Tais histórias compõem o mosaico da memória, individual, familiar e coletiva, que configura a história de uma imigração singular no contexto da história dos judeus na Diáspora, em particular a brasileira. O caso dos judeus oriundos do Marrocos que migraram para a Amazônia se insere no contexto das grandes migrações do século XIX, ocasionadas por transformações sócioeconômicas relacionadas ao advento da industrialização e o surgimento do capitalismo na Europa, e de problemas específicos enfrentados pelos judeus no Marrocos, tais como perseguições e massacres e empobrecimento da população dos melahs, os bairros judeus. A história desta imigração tão singular, as diversas fases do seu estabelecimento na Amazônia brasileira, a adaptação, aculturação e assimilação destes judeus, bem como
LINHA DO TEMPO DA PRESENÇA JUDAICA NA AMAZÔNIA 1890 – Em Belém do Pará é inauguda a
1808 – Chegada da Família Real ao Brasil
1842 – Inauguração em Belém do primeiro
escoltada pela Real Marinha Britânica.
cemitério israelita do País no período
“Sociedade Guemilut Hassadim Shel
imperial.
Ribi Shimon Bar Yochai”, entidade
1810 – Firmados entre o Brasil e a Grã-Bretanha os tratados de Comércio
1850 – Tem início o Ciclo da Borracha,
e Navegação e Aliança e Amizade.
que atraiu um grande número de
Tem início a imigração judaica para a
imigrantes judeus marroquinos para a
Amazônia.
região amazônica.
1821 – Extinção da Inquisição em todo
1866 – D. Pedro II decreta a abertura
o Reino Unido de Portugal, Brasil e
do Rio Amazonas e seus afluentes à
Algarve.
navegação mercante para todas as
pioneira na organização da comunidade israelita do Pará. 1909 – Nasce em Cametá, Pará, o Rebi Abraham Hamu, primeiro rabino brasileiro e orientador espiritual da comunidade judaica do Pará por mais de 40 anos.
nações – a Linha Booth foi inaugurada
1917 – O Major Eliezer Levy liderou
requer sua naturalização e licença para
ligando os portos de Manaus e Belém
a comunidade de Belém no apoio
comerciar. Estabelece seu comércio na
com a Europa.
à Declaração Balfour em passeata
1823 – O judeu-marroquino José Benjó
1889 – Fundação da segunda sinagoga
pública. Fundou o jornal Kol Israel,
da Amazônia, também em Belém do
primeiro jornal judaico-sionista da
1824 – Inauguração da primeira sinagoga
Pará – Sinagoga Shaar Hashamaim
Amazônia, que circulou por mais de
no Brasil Império – “Eshel Abraham” –
–, por Leão Israel. É Proclamada a
15 anos. Foi duas vezes prefeito de
em Belém do Pará, por Abraham Acris.
República dos Estados Unidos do Brasil
Rua do Pelourinho, atual 7 de Setembro, em Belém do Pará.
1838 – Marechal Francisco D’Andrea concede licença para comerciar a diversas firmas de judeus marroquinos.
em 15 de novembro. 1890 a 1910 – O boom do Ciclo da Borracha e da imigração marroquina para a Amazônia.
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Macapá. 1918 – Fundado o Comitê Israelita do Pará que absorveu o órgão antecessor, “Sociedade Guemilut Hassadim”, e que
sua evolução e contribuição para a socieOs judeus marroquinos aquele momento. E o que os atraiu tamdade, a cultura e a economia da região bém, e facilitou sua vinda, foi a Carta Réestabeleceram-se ao amazônica, já vem sendo estudada desgia e o Decreto de 1814, que inseriram o longo de toda a calha do de os anos 1980 pelos pesquisadores do Brasil no comércio internacional, pondo tema, a exemplo de Samuel Benchimol, Rio Amazonas, chegando fim a três séculos de monopólio da meAvraham Ramiro Bentes, Nachman Falaté o Perú, a partir de trópole portuguesa, fato esse que se fez bel, Maria Liberman, Eva A. Blay, W. refletir imediatamente nos países da Eu1909, onde também Lins Bentes, A. Bemerguy, R. Heller e ropa, principalmente Inglaterra e França, criaram uma comunidade em Gibraltar e Marrocos, onde a presenElias Salgado, sem, é claro, que se haja na cidade de Iquitos. esgotado o tema. ça judaica era significativa desde o século No caso dos imigrantes, judeus e não XV com a expulsão dos judeus de Espajudeus, que escolheram a Amazônia como destino, a ranha e Portugal (Salgado, E. apud Benchimol, S.). zão de atração que justificou tal escolha, em grande mediOs judeus que chegaram à Amazônia nesse período inida, foi o Ciclo da Borracha (1879-1912). cial, o qual Benchimol intitula Primeira Geração, se viram Os judeus, em particular, puderam chegar ao Brasil, a atraídos pelo Ciclo das Drogas do Sertão – extração e expartir da vinda da Família Real Portuguesa (1810), da inportação de produtos naturais típicos da região, como cadependência, e das mudanças nas leis restritivas impostas cau, cravo, canela, anil, banha de tartaruga, entre outros. no Período Colonial pela Inquisição, que impediam a preA borracha nesse período ainda possuía uma demanda insença dos judeus em terras de Portugal e suas colônias até ternacional muito pequena.
depois torna-se Centro Israelita do Pará até a atualidade. 1926 – Isaac José Perez é eleito prefeito de Itacoatiara, no Amazonas. 1928 – Inauguração do Cemitério Israelita de Manaus. 1929 – Inauguração do Comitê Israelita do Amazonas em Manaus, sendo seu primeiro presidente Raphael Benoliel. 1940 – Inauguração do Templo atual da Sinagoga Shaar Hashamaim em Belém,
“Beit Yacov – Rebi Meyr”, resultado da fusão das duas sinagogas ali existentes. 1966 – É fundada em Petrópolis (RJ) a
2002 – David Salgado lança, em Belém, o jornal Amazônia Judaica. 2004 – O Documentário “Eretz Amazônia
primeira Yeshivá do Brasil pelo Rabino
– Os Judeus na Amazônia”, baseado na
Chaim Biniamini. Cerca de 150 jovens
obra homônima do Professor Samuel
da Amazônia frequentaram a Yeshivá
Benchimol z’l, produzido por David
nos últimos 40 anos.
Salgado, dirigido por Alan Rodrigues e
1969 – Fundado em Belém o Grupo Kadima, atualmente filiado ao Movimento
com roteiro de Wagner Bentes, ganha o 1º lugar no I DOC TV – Pará e é exibido em Rede Nacional pela TV Educativa.
Juvenil Bnei Akiva. 1974 – Rabino israelense marroquino
2010 – Comemoração dos 200 anos
orgulho do judaísmo da Amazônia,
Yosef Ohana inaugura e dirige uma
da presença judaica na Amazônia. Os
sendo presidente Jacob Benzecry e
Yeshivá para jovens judeus da região, é
irmãos David e Elias Salgado lançam o
a segunda do País.
Portal Amazônia Judaica com o apoio
Shaliach Tzibur Marcos Alves. 1948 – O jornalista David Joseph Elias
1985 – Fundado em Belém o Beith
das comunidades da Amazônia (Belém,
Israel publica o primeiro número do
Chabad, que se constitui na terceira
Manaus, Porto Velho e Macapá), da
quinzenário Folha Israelita que, por mais
sinagoga da comunidade.
sinagoga Shel Guemilut Hassadim do
de uma década, serviu à comunidade amazonense. 1962 – É inaugurado o Templo da Sinagoga atual de Manaus denominada
1998 – Samuel Benchimol z’l, Professor
Rio de Janeiro, formada em grande parte
Emérito da UFA, lança a obra literária
por judeus marroquinos e por diversos
Eretz Amazônia – Os Judeus na
empresários e ativistas comunitários.
Amazônia.
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Chegaram à região pelo porto de Benetrar e comerciavam com os seringueiAtualmente, passados lém e naquela cidade criaram a primeiros diretamente. O forte da atividade era mais de 200 anos da ra comunidade judaica da Amazônia e a troca de borracha por bens de consumo chegada daqueles judeus as duas mais antigas sinagogas em fun(alimentos básicos, ferramentas, roupas à selva amazônica, é cionamento ininterrupto no país, a Essel etc.). E a borracha era vendida às granAvraham (1824) e a Shaar Hashamaim possível afirmar que o des empresas. (1889). Na chamada Segunda Geração Os judeus marroquinos estabelecejudaísmo que aqueles chegaram os que vieram fazer fortuna no ram-se ao longo de toda a calha do Rio judeus trouxeram e Ciclo da Borracha. Nessa fase não chegaAmazonas, chegando até o Perú, a partir praticaram na região ram apenas judeus de origem marroquide 1909, onde também criaram uma coainda sobrevive e de na. Se estabeleceram na Amazônia ainmunidade na cidade de Iquitos. Os judeus da uns poucos judeus de origem europeia que ali se estabeleceram passaram por um forma vibrante. ocidental e, claro, não judeus, também. processo de aculturação e assimilação. Entravam na região através de Belém e logo em seguiSeus descendentes, que iniciaram um processo de retorda se dirigiam ao interior da selva, aviados por empresas no ao judaísmo, fizeram aliá em grupo na década passada. da capital, para trabalhar nos seringais e também como A época áurea da borracha foi efêmera (1879 a 1912). regatões – pequenos comerciantes fluviais – que ousaCom a crise, tanto judeus como não judeus, principalvam atravessar os grandes “coronéis de barranco”, adenmente os europeus, que haviam falido, deixaram para trando pelas centenas de igarapés e igapós, onde os bartrás seus negócios e abandonaram a região, voltando aos cos das grandes empresas aviadoras não conseguiam peseus países de origem. Permaneceram na Amazônia os juFamília de Isaac Benchimol.
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À esquerda: cemitério judaico em Manaus; à direita: interior da sinagoga Rebi Meyr, em Manaus.
deus marroquinos, os árabes e os portugueses, principalmente. Foram eles que, apesar dos contratempos da crise econômica, com suas iniciativas empreendedoras, deram continuidade à formação da economia regional, atuando principalmente no comércio local e na exportação de produtos regionais. A crise da borracha teve como consequência, também o abandono dos seringais no interior da selva e um deslocamento em massa para as capitais Belém e Manaus. É nesse momento que é criada, formalmente, a comunidade de Manaus, quando em 1928 Isaac Perez, à época prefeito da cidade de Itacoatiara, adquire e doa um terreno ao lado do Cemitério Municipal de Manaus, para ali ser criado o cemitério judaico. Perez teve a infelicidade de ver inaugurar-se o cemitério com o enterro de seu filho no dia 12 de setembro de 1928. “Foi o primeiro kadish pronunciado em minian em uma Meará (cemitério em haquitia, o dialeto dos judeus marroquinos de origem ibérica) em Manaus. Pois anteriormente os judeus eram enterrados no cemitério católico, ao lado” (Benchimol, Eretz Amazônia: Judeus na Amazônia). Atualmente, passados mais de 200 anos da chegada daqueles judeus à selva amazônica, é possível afirmar que o judaísmo que aqueles judeus trouxeram e praticaram na região ainda sobrevive e de forma vibrante. Sim, ocorreu um grande processo de assimilação. Porém, vários elementos da sua cultura, religião e tradição ancestral milenar passaram por um processo de aculturação e adaptação sem, porém, perder sua essência e identi-
dade com suas origens. A resultante deste processo histórico e sociológico é um judaísmo único, singular. A vida judaica na Amazônia, em nossos dias, é formada principalmente, pelas comunidades de Belém (com cerca de 700 famílias) e de Manaus (250 famílias); e algumas dezenas de judeus em Rondônia e no Amapá. Além destes, há um contingente de judeus caboclos – os “hebraicos” (ver Zalis S. e Weltman, H., Os hebraicos da Amazônia – Beit Hatefutzot, 1983), descendentes de relacionamentos exogâmicos, que Benchimol afirma que certos cálculos apontam serem cerca de mais de 250 mil, e outros, mais cautelosos, apontam para 60 mil pessoas. Vários membros daquelas comunidades migraram para o sudeste do País (Rio de Janeiro, principalmente, onde passaram a fazer parte da Sinagoga Shel Guemilut Hassadim, fundada por judeus marroquinos que, na primeira metade do século XIX, chegaram à cidade de São Paulo, em menor quantidade). Uma pequena parcela dirigiu-se ao Hemisfério Norte (principalmente EUA), e mais recentemente, nas últimas décadas, fizeram aliá e compõe na atualidade, em Israel, uma comunidade de mais de 300 pessoas. Elias Salgado é historiador, produtor cultural e escritor, com pós-graduação pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É pesquisador especializado em judeus da Amazônia. Pesquisador Associado do Niej-Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos do IFCS-UFRJ. É diretor executivo da editora, do portal e do arquivo histórico digital Amazônia Judaica. (www.amazoniajudaica.org)
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resenhas de livros
RESENHAS LIVROS MAIS DE UMA LUZ
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screve Amós Oz na introdução de seu livro Mais de uma luz, fanatismo, fé e convivência no século XXI (Companhia das Letras, São Paulo, 2017, tradução do hebraico por Paulo Geiger): “Três artigos que não foram escritos por um pesquisador, nem por um especialista, mas por um homem engajado cujos sentimentos às vezes também se envolvem. “A conexão entre os artigos é meu desejo de lançar um olhar pessoal em temas que, entre nós israelenses, estão mergulhados em grande polêmica, alguns dos quais, para mim, são questão de vida ou morte. “Estes artigos não têm a pretensão de abordar todas as facetas de cada controvérsia, de explorar todos os seus componentes, e certamente não pretendem der a palavra final, mas buscam, sim, principalmente a atenção daqueles cujas ideias são diferentes das minhas.” O primeiro dos três artigos disseca o pensamento e o comportamento dos fanáticos. Das pessoas que “só sabem contar até 1”, conforme a genial definição de Amós Oz. E alerta para o perigo que espreita os que lutam contra ele: “O fanatismo é uma doença contagiosa. Pode-se contraí-la quando se luta para curar outras pessoas que a pegaram”. O segundo contém poderosas ideias sobre o judaísmo como cultura. E alerta contra o indesejado caminho de fossilização da nossa cultura trilhado por algumas vertentes religiosas. Segundo Amós Oz, “quando um menino em seu bar mitsvá sobe para a Torá não lhe pedem que declame repetindo o que ouviu dos professores. Pelo contrário, exigem que diga alguma coisa nova”. Contudo, denuncia ele, “surgiram na cultura de Israel grandes bolsões de obediência cega por parte de quem considerava o judaísmo apenas uma religião e não uma cultura. Para mim, a obediência cega é um desvio da tradição, mesmo quando se arvora na própria encarnação da tradição”. O terceiro elenca os “sonhos de que Israel tem que se livrar rapidamente”, as questões que o autor considera vitais
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para a sobrevivência do país que ele “ama mesmo quando não consegue suportá-lo.” Mais de uma luz é um pequeno livro, de leitura muito fácil, tendo em vista a imensa habilidade literária de Amós Oz (um escritor que desmoraliza o Nobel de Literatura pelo fato de ainda não tê-lo ganho), mas com mensagens nada fáceis, muitas vezes perturbadoras, e sempre apaixonantes.
resenhas de livros V O LT O A O A N O I TE C E R
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omo fazer literatura infanto-juvenil sobre a Shoá no atual entorno cultural onde pontificam cenários, heróis e vilões cada vez mais distantes da realidade, nos quais a morte é um mero incidente sem maior relevância na tela de um jogo? Um grupo de nazistas exterminando a tiros todos os habitantes de um vilarejo não chega a ser uma cena mais horrorosa do que as explosões que aniquilam instantaneamente mundos e planetas e que podem ser vistas todos os dias, a qualquer hora, nas telas dos nossos computadores. O recém-falecido escritor israelense Aharon Appelfeld (vejam artigo na página 55 desta edição de Devarim) tem a receita. E ela é muito bem sucedida. O foco de Volto ao Anoitecer (Editora FTD, 2016, traduzido do hebraico por Paulo Geiger e ilustrado por Guazzelli) se concentra em dois meninos judeus de personalidades muito diferentes e complementares, colegas de classe, separadamente deixados na floresta por suas mães, para que não caíssem nas mãos dos nazistas, e que são furtivamente ajudados quando se encontram no auge da luta pela sobrevivência por uma terceira pessoa, uma menina judia, igualmente colega de classe, e igualmente escondida pela família na floresta, na casa de camponeses que a escravizam. O nazismo e seus horrores é sentido apenas no pano de fundo distante. A perseguição racista é a causa de tudo o que acontece no livro, mas ela não aparece frontalmente em momento algum. O leitor entende a luta e a aflição dos sobreviventes, mas jamais se depara com uma cena de horror explícito. O horror fica confinado à imaginação de cada um. A história de ficção tem claros traços autobiográficos, pois Aharon Appelfeld é um sobrevivente da Shoá que, após presenciar o assassinato da mãe e ser separado do pai, foi internado em um campo de concentração, de onde fugiu, tendo vivido os três últimos anos do domínio nazista escondido em florestas, encontrando lá todo tipo de gente. Volto ao Anoitecer é uma pequena raridade. Um livro delicado que ressalta como a amizade, a compaixão e a obstinação atuam para salvar o mundo (dentro do contexto judaico de que quem salva uma vida salva o mundo).
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cócegas no raciocínio
O CRIME DE SER VÍTIMA e repente, na Polônia, três milhões de judeus desapareceram de suas casas, das ruas, do trabalho, das sinagogas e das instituições judaicas. Seus vizinhos poloneses, seus colegas de trabalho, seus clientes ou patrões ou fornecedores não perceberam nada, nem tinham feito nada. Não tiveram a culpa da ação nem a culpa da omissão. Ocuparam as casas dos judeus e as saquearam, saquearam lojas, destruíram sua memória, como se eles nunca tivessem estado lá. Mas são inocentes, inocentes de tudo. Esta é a nova versão da história que o governo polonês está tentando escrever. Mais do que isso. Não é apenas uma nova narrativa da história que o governo polonês conta para quem quiser acreditar. O governo polonês estabelece que é crime dizer o contrário. Só pode haver uma versão, sob pena de prisão. Ou seja, na Polônia dizer uma determinada coisa pode levar à prisão. Só uma determinada coisa: que os poloneses não são de todo inocentes do que aconteceu na Polônia durante a ocupação nazista, nas barbas dos poloneses, na casa vizinha, na rua em frente, no trabalho, no campo de concentração ao lado da aldeia, de onde todo dia sai fumaça da chaminé, onde todo dia chegam trens poloneses cheios de poloneses judeus e o lugar nunca fica lotado. Mas ninguém tem a menor culpa, e imaginar tal coisa é um absurdo tão grande que quem o comete merece ir para a cadeia. Existe um lado positivo nisso. Esta ansiedade, este paroxismo de criminalizar um conceito, uma
afirmação, uma visão da história indica que os autores da lei atribuem ao fato – que pretendem denegar por lei – um caráter tão nefasto e bárbaro que não suportam arcar com a ideia de que têm algum grau de responsabilidade por ele. Ou seja, esta lei polonesa significa que o governo polonês reconhece que a culpa pelo Holocausto, mesmo parcial, é carga tão intolerável que ele precisa eliminá-la por decreto. O governo polonês, portanto, tem uma visão do Holocausto diferente dos que minimizam seu significado, banalizam a tragédia, como, por exemplo, os que dizem, “afinal, foram seis milhões de judeus, mas morreram vinte milhões de russos”. Hanna Arendt escreveu sobre isso. O governo polonês alega que se houve alguns poloneses colaboracionistas, houve judeus também. Como se isso coonestasse qualquer colaboração com os nazistas. Mas alguns foram muito além. Teorizam sobre uma tendência judaica a exacerbar a tragédia para auferir simpatia e, também, algum lucro, por que não? Assim, aos negacionistas – como os aiatolás do Irã, o Pamiat da Rússia pós-soviética, como o inglês David Irving, que processou quem o acusou de negacionista e foi derrotado – somaram-se os que dizem ter havido uma sinistra trama judaica para capitalizar o Holocausto. Entre eles, Norman Finkelstein, judeu filho (trágica e ironicamente) de sobreviventes do Holocausto, que menciona explicitamente uma ‘indústria do Holocausto’ criada pelos judeus, e pelo Estado de Israel, como método planejado e pensado de
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Paulo Geiger
Fachada do Museu de História dos Judeus Poloneses em Varsóvia, Polônia.
granjear apoio e dinheiro. O substrato ideológico dessas afirmações é gravíssimo. Significa que, se o Holocausto, mesmo quando não negado, é um mero incidente trágico entre tantos outros que marcaram as décadas de 1930 e 1940 e uma guerra mundial, então o fundamento conceitual que o sustentou é incidental também. E o antissemitismo (que ressurge de suas brasas sempre acesas), a demonização dos judeus e de Israel, são incidentais, questão de opinião, justificada ou não. Os nazistas cobraram dos judeus os prejuízos causados na Kristalnacht. Para Goebbels, os judeus foram os culpados pelos ataques que sofreram. É o que, de certa forma, alegam hoje os que negam a importância do Holocausto e a legitimidade de Israel. Os nazistas não tiveram culpa. Nem a têm os poloneses. Nem o Irã, o Hezbollah e o Hamas. Nem os antissemitas. Talvez alguém crie uma lei criminalizando quem defende o direito à vida dos judeus e a existência do Estado de Israel.