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Bonfim de Goiás

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José Sêneca Lobo

Bonfim de Goiás

Minha Terra e Minha Gente


José Sêneca Lobo nasceu em Bonfim de Goiás (hoje Silvânia) aos 12 de novembro de 1907, onde foi tabelião por 22 anos e prefeito municipal (1947-1950). Diretor da Santa Casa de Goiânia, por doze anos; do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (CRISA), também por doze anos; da Companhia de Habitação de Goiás (COHAB-GO) por oito anos e consultor administrativo da Organização de Saúde de Goiás (OSEGO), em cujo cargo se aposentou.


Bonfim de Goiás

Minha Terra e Minha Gente José Sêneca Lobo


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 L78b Lobo, José Sêneca Bonfim de Goias: minha terra e minha gente / José Sêneca Lobo. – 2. ed. – Goiânia: Cânone Editorial, 2020. 260 p.

ISBN: 978-65-88321-00-3

1. Silvânia (GO) – História 2. Lobo, José Sêneca – Memória autobiográfica – Silvânia (GO) I. Título 20–2486

CDD 981.73

Índices para catálogo sistemático: 1. Silvânia (GO) – História

Esta edição mantém, na íntegra, o texto original publicado em 1983. Assim, a revisão deste volume se ateve tão somente a questões ortográficas e gramaticais. 1. edição: 2020 Copyright © 2020 José Sêneca Lobo Preparação de originais e revisão Cânone Editorial Projeto gráfico Paulo Humberto Ludovico de Almeida Capa: Fernando de Moura Lobo

Todos os direitos desta edição reservados a Cânone Editoração Ltda Rua J 2, N. 60, Qd. 3, Lt. 18, Setor Jaó. 74673-140 − Goiânia-GO − Brasil Telefone: (62) 3204 2825 www.canoneeditorial.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil


Bonfim de Goiás

Minha Terra e Minha Gente José Sêneca Lobo

2ª Edição — 2020


Sumário 9 11

Mensagem inicial Apresentação “Bonfim de Goiás — um pedaço sutil da eternidade”, por Bento A A Jayme Fleury Curado

23

Prefácio da primeira edição “Ponto de vista”, por Nelly Alves de Almeida

31 35

Introdução A tradicional cidade de Bonfim Parte 1

39 43 47

Os primeiros clarões da vida Grandes fatos da infância inexpressivos na maturidade A roda da vida comum a todos Parte 2

51 55 57 61 67 69

As tropas Viagem a Goiás O bom da vida é a própria vida Sedição a Bonfim Os paradoxos da vida A viagem do medo


Parte 3

73 77

O vai e vem das causas e efeitos determinando o futuro O regresso à casa-mãe Parte 4

81 85 89 93 97 99 101 103

Fazenda Gameleira Fazenda Buriti do Rio dos Patos Os cinemas ambulantes Fazenda Terra Vermelha Zé Calado Zé Pacote Zé Felício Sá Chiquinha Parte 5

107 113 115 119 123 127 129 133 137

A grande máquina de arroz O Lazareto Os Lavrados A escola pública A estrada de ferro O grupo escolar As folias do Divino Fazenda Campo Alegre Revoada das andorinhas Parte 6

141 147 153 155

O paulista e o cangaço oficial Goiás e Bonfim ganham um propulsor da instrução O Brasil Central Notário público vitaliciamente provido


Parte 7

161 167 171

De revolucionário ludoviquista a dissidente velasquista O CAM Fazenda Cibele Parte 8

177 181 187 191 195 197 201 205 207 211 215 219 221 223

As festas de Bela Vista O Espigão-Mestre Padre Salomão Antônio Umbelino de Sousa Filho Vicente Barbeiro Benedito da Silva Coronel Antônio Pireneus de Sousa Maximiano Tacheiro O juiz de Direito Eládio de Amorim Getúlio Vargas A minha mudança de domicílio O roteiro da vida Página sem nome Arrematando

225 227 233 239 243 249

Adenda: As Caçadas

255

Posfácio

O homem caçador Rumo ao Araguaia O mergulho da canoa Uma caçada O Rio Urucuia


Mensagem inicial

Esta é uma edição afetiva, feita com o intuito de preservar o relicário de meu pai com o necessário e merecido cuidado. A primeira edição foi feita em 1983 de forma artesanal, fruto do desejo de minha mãe em ver reunidos os escritos do marido e do esforço e boa-vontade de minha irmã Malu. Se você está recebendo este livro, significa que é amigo de meu pai, ou de minha mãe Nympha, dos meus irmãos Maria Lúcia, José Aurélio, Cristina, Ricardo, ou dos netos e bisnetos. Se ele chegou às suas mãos, e você não nos conhece, entre e faça uma viagem ao século passado, a um mundo simples e sábio, de vida gostosa, árdua e transparente, visto pelos olhos de Sêneca. A sua bênção, meu pai! Claudia Fevereiro de 2020


Casamento de José Sêneca Lobo e Nympha, Campinas, em 1936.


Apresentação

Bonfim de Goiás: Um pedaço sutil da eternidade Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado*

A Geografia, a História e a Literatura nos abrem a visão de pátria, não aquela que se nasce; que se tem por berço, mas aquela que se propõe a conhecer, respeitar e amar. Esse é o lema nativista dessas importantes áreas do conhecimento humano, ao qual o homem se debruça desde imemoriais idades. A perquirição interior e a necessidade de revivescência dos berços amados, as terras esquecidas em que se propõe despertar aos olhos alheios são molas propulsoras que elevaram os pensamentos de homens admiráveis na pesquisa sobre seus burgos e as vilas distantes onde nasceram. Assim aconteceu com o inesquecível pesquisador José Sêneca Lobo, guardião da memória afetiva, social e cultural da antiga Bonfim de Goyaz, depois Goiaz, depois Goiás e, hoje, a admirável cidade de Silvânia, na região da Estrada de Ferro. Ali ele nasceu, cresceu, lutou, amou, frutificou em trabalho e labuta, nas batalhas da vida; onde encontrou sua alma gêmea, qual fonte límpida e cristalina, a Nympha de seus sonhos. Aquela que, da nascente à foz, esteve sempre a seu lado. Assim, a obra de José Sêneca Lobo enquadra-se na Geografia, na História e na Literatura, pois tem uma produção densa, que estuda o sertão, estuda o Brasil, pois o sertão, livre da dualidade litoral/interior é a própria união. No sertão de Sêneca Lobo, o País se singulariza e sente o dever de perceber essa importância e reconstruir simbolicamente a saga sertaneja. Assim o fez com suas doces letras, na simbiose entre a realidade e a ficção.


O sertão de Sêneca Lobo está em nós, no Brasil Central, como nos evidencia a Geografia da ocupação de nosso território. Goiás possui, nos caminhos do saber geográfico, uma história lírica e telúrica, que não passa despercebida na pena magistral do ilustre filho da velha e bissecular Silvânia. Há, hoje, uma nova dimensão da abordagem geográfica, em que se vale a percepção do meio, resistências locais, cotidiano, lugar, significados e planos de memória. Pluralidade seria a definição de uma Geografia para o século XXI, em razão da multiplicidade dos fenômenos. Também, na vida goiana, tal fato não seria diferente, que se percebe com sutileza na narrativa em Bonfim de Goiás: minha terra e minha gente na forma doce com que o autor retrata o tempo. A vida alcançou tantas outras dimensões inimagináveis que a Geografia, História e Literatura se comunicaram e também tiveram que se abrir à possibilidade de expandir fronteiras. Nas narrativas focadas na categoria Lugar, os sentimentos são entrecortados de lembranças, e estas se derramam em sentidos históricos. Assim se faz no livro de Sêneca Lobo, em reviver sua linda terra, de tanta importância no cenário goiano. Nem mesmo essas ciências são mais aquelas de vinte anos passados. Há, nelas, uma pressa como há fluidez nas relações nos diferentes territórios em que vivenciamos. No mundo goiano, tão rico em paz e em sossego, há, hoje, também, uma pressa desnecessária. Para chegar aonde? A leitura do livro sobre Bonfim nos evidencia um mundo em dissolução, que nos parece inimaginável nos dias de hoje pela pouca pressa em que se vivia. É imperioso e necessário que haja uma Geografia, História e Literatura que calem a dor humana; que observem a sutileza, a capacidade de criação do homem. Há interações contínuas, visíveis e invisíveis. Assim, somos cônscios de que existe uma arquitetura universal que tudo rege e tudo constrói. Tudo que existe estabelece conexões. O espaço é ontológico. O ser do mundo se faz espacialmente. É uma dimensão da vida. Ele é o prisma em que recai o olho e a consciência teórica. Nele se fixam bases sólidas de discussões abalizadas. Como se discutir o homem goiano inserido em seu meio tão modificado? Há possibilidades, quando tudo parece esboroar? A obra de Sêneca Lobo nos abre essa perspectiva de fenda no tempo, um hiato entre o passado e o presente, num mergulho naquele universo para sempre perdido, como se a felicidade ali plasmada tivesse dissolvido e pulverizado ante as dissonâncias do descontrolado mundo de agora. 12


Região hoje é vista como resistência, como persistência, movida pela globalização e pelo capitalismo exacerbado. Ocorre a imposição de mosaicos gerados pela fragmentação e pela rede de articulações e aceleração do processo de remodelação das regiões. Há uma rapidez que foi maléfica ao processo de compreensão das transformações e uma superficialidade nas relações. O mundo de fato mudou. Há, também, agora, não mais um espaço diferenciado por suas características naturais ou administrativas, não mais uma referência exterior ao homem, mas uma socialmente elaborada. Nessa mudança de eixo, o mundo também mudou e para pior, porque aqueles alicerces tão seguros do passado foram destruídos pela fragilidade das rasas relações. O “bença pai e bença mãe” ainda resistem? O mundo familiar bonfinense, mostrado por Sêneca Lobo, onde estará? Essas especificidades legitimam o recorte da região e, nessa concepção, veem o estudo de práticas e valores que os homens conferem ao espaço. Ocorre na articulação das identidades e oposições a efetiva relação que se dará a forma. Qual é o atual paradigma da relação humana em Goiás e nesta, com seu meio? A ocupação das terras incógnitas do coração geográfico da pátria ocorreu de maneira diversa. Tal posse significou domesticação e alteração da realidade física. Era difícil dominar uma tropicalidade diversa, como esclareceu Lévi-Strauss. Era uma combinação esdrúxula entre racionalização e secularização, já que havia o endosso da religião. Foram criados fossos e fronteiras até hoje em voga. Diferenças sociais também advieram pela religião. Esse mundo fragmentado nos alcançou e nos repartiu. Tudo isso aparece indelével na leitura tão doce e afetiva do coração de José Sêneca Lobo, que se derramou em palavras sobre o papel. Ficou eternizado o instante. A ocupação do espaço ocorre como um plano, ao materializar a distinção sujeito/objeto, na possibilidade do domínio natural. Latitudes e longitudes planificaram o espaço por meio de um esquadro preso nas malhas cartográficas. Esse domínio se materializou numa transformação espacial e espiritual. Há mundos hoje. Jamais se pensaria num plural, mas existe. O singular, somos capazes de ver, derramados, no livro do imortal filho de Silvânia, que é, hoje, nome de rua e de um bairro na cidade, na merecida lembrança enternecida. 13


Também a região da Estrada de Ferro Goyaz, como se grafava, não é mais a mesma. Tudo sofreu modificações, e o que era, hoje, é mera ficção. E esse mundo do que foi, o passado, é revivido no livro publicado e lançado em 1993, conforme noticia a imprensa da época, cujos recortes, vindos até mim por meus pais, estão guardados com infinito carinho, tanto o primeiro livro, de 1983, quanto o segundo, em sequência, no ano de 1987, com bela continuidade das lembranças afetivas do autor. Para a Geografia, a História e a Literatura, existe um existir e, nesse, o uso pleno do meio. Esse meio, numa esteira do tempo, nos remete, pelo coração, ao espaço pretérito, cujas reverberações nos alcançam a sensibilidade. José Sêneca Lobo o conseguiu com maestria. O universo desses paradigmas passa a identificar os valores do desenvolvimento. Desenvolvimento esse, que passa a ser algo questionável a partir de um novo olhar. Nem sempre a máquina trouxe ao homem o benefício verdadeiro. Ela está a serviço de uma dominação e automação que gerou um fosso social. Esse automatismo criou um discurso único, de cima para baixo, retirando a oportunidade de voz ativa a outros atores presentes no cenário. Sêneca Lobo nos mostra um tempo lento, viscoso, amarrado em dias longos e pachorrentos, naquele pequeno pedaço de sertão. Há estudos de culturas e subjetividades na Geografia, História e na Literatura, ao se abrirem canais temáticos com outras linguagens e outras ciências. Vive-se, agora, a descobrir o sujeito. Há uma paixão pelo sujeito. Nessa paixão, descoberta de atitudes e valores que modificaram o meio, o espaço, o cenário de atuação da própria história. O sujeito social e cultural Sêneca Lobo precisa ser redescoberto nas vicissitudes do mundo atual, no abrandamento de tantas teorias e preceitos perdidos, sem o comprometimento com a essência daquilo que é verdadeiro. O mundo global cria alteridades. Há um homem como experimentador de si mesmo. Os principais conceitos que embasam o saber são: espaço, região, paisagem, território, territorialidade, redes e tecnologia. Mas tudo isso está longe daquele mundo invisível e pequenino que vemos no livro sobre Bonfim de Goiás, nas lembranças de coisas etéreas e anímicas, há muito perdidas. O seu principal agente é o homem, que, em razão de sua sobrevivência, lhe altera constantemente, dada a sua imensa capacidade de intervir mecanicamente. O espaço não é estanque. No seu bojo há opressão e também resis14


tência, fluxo e refluxo; jogo constante de poder que a história demonstrou no avançar das gerações. Na obra de Sêneca Lobo está visível a demonstração daquele Goiás oligárquico de outrora, na época da República Velha, com seus desmandos, injustiças e coerções muito específicas de uma época, ainda mais em cidade antiga como Bonfim, com suas tradições arraigadas. Se a Geografia, História e Literatura estudam o homem no seu mundo, eu como homem desse mundo só posso amá-las. A Geografia de Goiás, ao estudar o ser goiano, integra-me nesse estudo. Sêneca Lobo sentiu-se no dever patriótico de relembrar a velha cidade que lhe serviu de berço e imortalizá-la em sua bela produção lítero-histórico-geográfica. Aqui nas plagas de Goyaz setecentista era o fim de mundo, lonjura, oco de mundo, biboca; onde Judas perdeu as botas; calcanhar do Judas; além de outros termos pejorativos que foi recebendo ao longo das décadas como quebrada, buraco, bodega, grota, loca do inferno, buraco quente (por causa do calor da antiga capital, Cidade de Goiás) e até outras expressões de cunho fálico, infelizmente, que permaneceram mais ou menos até a época da interiorização da capital com Brasília, quando Goiás passou a ser visto com olhos diferentes, Mas, preconceito sempre houve, o que se agravou quando da tragédia do Césio 137, há 33 anos passados. Esse é o Goiás que se vê na obra de Sêneca Lobo, aquele vasto sertão. As fazendas goianas, rústicas e simples, foram o testemunho da durabilidade, da rigidez, da solidez tanto dos objetos quanto dos valores e costumes. As fazendas como lócus do trabalho e da resistência deram sentido à existência de Goyaz. O mundo era mais rural que urbano, e isso em Bonfim de Goiás não diferenciava das outras pequenas localidades goianas, como bem asseverou Nelly Alves de Almeida, ao fazer o prefácio do livro em sua primeira edição de 1983. O sertanejo, seja de qualquer região do Brasil, tem um cotidiano estafante. Bem escreveu Euclides da Cunha em seu magistral Os Sertões, que o sertanejo “é o homem permanentemente fatigado [...]. Entretanto, toda essa aparência de cansaço ilude”. É o homem das lutas e das labutas, madrugador, “garrado no sirviço”. Assim também o fez Sêneca Lobo durante toda sua laboriosa vida, desde os tempos de menino, depois nas muitas lutas que enfrentou em sua quase centenária existência. 15


Também, no preconceito que se criou no Brasil litorâneo, o caipira foi chamado de boçal, capiau, bronco, mocorongo, caipira, Jeca, cafuçu, babaquara, camponês, roceiro, tapiocano, muxuango, matuto, tabaréu, ranca-toco, habitante do interior, canhestro, tímido, sonso, desajeitado, perebento, banguelo, catarrento, cheio de lombrigas e um punhado de outras expressões ou imagens de cunho ridicularizador, mas que escondem o verdadeiro valor dessa gente ligada ao chão, que plantou os alicerces do que somos agora. Esse homem na obra de Sêneca Lobo ganha relevo e expressão, pois eram eles que movimentavam a economia da cidade na época. Nós, goianos, temos o pé na roça. Pezão rachado, macuquento, catingudo e cheio de frieiras. Mas, um “pé de boi”, no sentido de sustentar, no trabalho, a dignidade absoluta em valores extraordinários de grandeza humana a amparar gerações. Um pezão feio e disforme, que se lavava nas bacias com águas purificadas de ternuras em essências de flores, na bela noite coberta de estrelas cintilantes da roça! Estrelas que se derramavam no terreiro florido e nos currais dos bezerros apartados! Tenho orgulho de meus laços caipiras da Suçuapara, de Bonfim de Goiás, de Vila Boa, de Meia Ponte! Tenho orgulho de ser goiano ao ler uma obra da magnitude da pesquisa de Sêneca Lobo, ao recuperar, com alma e coração, os tempos de outrora. A paisagem goiana derrama-se em flores de significados, como ipês chovendo pétalas amarelas, no chão de nossa sensibilidade. Assim penso, ao ler, com ternura da produção desse magistral autor, que deixou outras obras de igual valor, como Gotejos do passado, publicado quando já tinha mais de 90 anos. É preciso uma Geografia, uma História e uma Literatura que amem o chão de Goyaz! Que encontrem o homem goiano em sua genuína gênese. Não apenas uma ciência que investigue pela ótica técnica e preconceituosa o que os viajantes e doutos homens que aqui vieram em séculos passados, caçoaram de nossa gente perdida no sertão, mas como o fez Sêneca Lobo ao recolocá-los no lugar de pertencimento, no campo do trabalho e do labor. As fazendas goianas eram verdadeiros feudos em que, na faina diária de homens, mulheres, crianças e animais, a vida seguia na força do trabalho e na luta e labuta sem tréguas. Tempo de suores e fadigas, mas tempo de construção. Fortalecia-se, assim, naquele Goyaz provinciano dos séculos XVIII e XIX a economia rural. Criança também tinha tarefa e ocupação, ao fazer valer o ditado corrente: 16


“serviço de menino é pouco, quem não aproveita é louco”. Sêneca Lobo nos mostra esses arranjos familiares em que não havia lugar para a ociosidade. Do campo, das fazendas, dos sítios, das roças, dos pedaços de terra viria força para que a Capitania e depois Província de Goyaz vencesse o marasmo ocasionado pela decadência do ouro. O ser humano iria buscar no seu trabalho de lida do campo, ao lado dos seus familiares e animais, uma maneira de continuar, de sobreviver e de persistir. Em Silvânia, terra do ouro, esse lema se fez presente quando, esgotado o ouro, a força da economia estava nas fazendas, no gado e na produção que chegava na cidade. Nesses feudos, nesses campos, cerrados, grotas, chapadões, grotões, pé de serras, planaltos, campinas, campos, cerrados, cerradões, cerradinhos, os animais de custeio e carga alavancaram o homem e se constituíram em legado importante para que, no coração do Brasil, se criasse uma gente caipira, sossegada, que tirava da própria terra o sentido da existência. Sêneca Lobo busca nas origens da cidade, por meio de Santa Cruz de Goyaz, a essência genuína da gênese de Bonfim de Goiás desde os mais perdidos tempos imemoriais. Este é o cenário de uma epopeia viva, latente e verdadeira, da origem do povo de Goyaz. Assim, sob a égide da Geografia histórica, da Literatura e da Historiografia, esses sertões perdidos vêm à tona. Essa divisão da Geografia não está aliada ao conservadorismo ou tradicionalismo obsoleto e ao gosto pelo ultrapassado; ao contrário, constitui-se uma visão do que foi extinto, com debate do presente, pois não se pode fazer uma ruptura epistemológica da Geografia com a temporalidade. Os caminhos geográficos de Goyaz, passada a febre do ouro, abriram oportunidades para outros tempos, para outras atividades, na concepção da terra como um lugar da presença, da resistência e da permanência, embora todas as adversidades fossem apresentadas. Goyaz é centro e referência e, por sua posição geográfica antiga, tinha uma forma quase triangular, que se alongava no sentido dos meridianos; que tinha o vértice voltado para cima e por essa razão proporcionava um contato com praticamente todas as outras regiões brasileiras, como destacou Horieste Gomes em sua Introdução à Geografia de Goiás, publicada há cinquenta anos. Por essa razão, nosso Estado incorporava diferentes saberes, falares, culturas e economias múltiplas. Tudo isso está presente na obra singular de José Sêneca Lobo. 17


Foram abertos caminhos para que aqueles arraiais fervilhantes do tempo do ouro passassem a se constituir, a princípio, em comunidades derrotadas. Só mesmo a força do chão, latejando sentidos e concepções de trabalho e luta, garantiria a continuidade num novo ciclo que se abria das fendas da terra goiá. Bonfim de Goiás viveu tempos de febre, delírio e depois de prostração. Passou por singularidades, fluxo e refluxo econômico, na tentativa de erguer-se altaneira ao seu destino cultural admirável, por meio de seus filhos ilustres. O caráter épico dado ao descobrimento das minas de Goyaz, explorado por muitos historiadores do passado, caracteriza uma ideologia marcada pelo gosto ao literário, principalmente na Memória escrita por Silva e Souza, ou seja, pintar, com nuances de epopeia, a saga dos primeiros caminhos abertos por aventureiros diversos nos caminhos e na “picada” para Goyaz. Não deixa de ser epopeico o livro de Sêneca Logo, em que a velha Bonfim se abre em diferentes perspectivas. Tudo aqui era um território puro, entendendo o termo como uma faixa completamente alheia do mundo ocidental, experienciada apenas pelas tribos indígenas que por esse chão parado perambulavam na busca de caça e da pesca. Com a chegada dos aventureiros de todos os recantos, de outras capitanias do Brasil e até de além-mar, instaurou-se o sentido de território hoje observado. Passou-se do mundo da contemplação e uso racional do meio, para o insólito quadro da exploração aurífera, por si só a degradar o ambiente e os costumes por sua agressividade, permissividade e desajuste febril. Assim também se fez Silvânia em seus tempos pioneiros da saga aurífera. O chão bonfinense experienciou esse momento conforme assevera Sêneca Lobo em sua bela obra histórica e social. Formava-se, assim, nos primeiros anos de exploração das minas de Goiás, uma dolorosa Geografia de exploração do meio. Picadas eram abertas quase a esmo, a partir de notícias de descobrimentos de novas possibilidades de extração do metal precioso. E só isso mesmo interessava. Eram homens rudes, consumidos pela ambição e pressa numa exaltação febril, doentia, na consciência coletiva da posse. Nada mais importava não fosse apenas o ouro. Homens imorais também afluíam como o ouro em aluviões. Arraiais pequenos, incertos, perdidos entre feras humanas e animais eram esboçados na Geografia da febre. Tudo era ouro, até os mantimentos que chegavam ao preço de ouro. Crimes horripilantes eram cometidos na turbulência 18


das paixões vis. Tudo isso com os tons épicos evidenciados pela Memória de Silva e Souza e também em Sêneca Lobo. Duros homens feros, na rusticidade dos primeiros dias da Capitania de Goyaz. Os escravos eram o segundo ouro que nas minas de Goyaz se destacavam. Eram usados até a morte no serviço brutal da febre do ouro. O metal amarelo parecia não acabar. Era o Eldorado. Nessa loucura, caminhos outros iam surgindo nas lendas que se espalhavam além dos limites ainda incertos da terra goiá, sobre o ouro eterno. Muitas lendas povoaram o universo de Bonfim de Goiás, como o poço da roda, lembrado por Sêneca Lobo e diversos autores. Nesse período de turbulência nesse território de bravos, a riqueza do homem se media por sua quantidade de escravos. Quanto mais escravos, mais rico. Na febre dos primeiros vinte anos de exploração, os mitos de ouro infinito foram criados, e estes povoaram o imaginário de gerações seguidas, chegando mesmo aos dias atuais. Sêneca Lobo nos remete ao ideário de escravidão em Bonfim em um capítulo específico, ao remeter ao tempo de outrora, com perfeita descrição. Ainda persiste o pensamento de uma glória perdida nos rincões goianos, como se aquele tempo ainda tivesse retorno. É o sebastianismo de Goyaz! Lugares míticos como Araés, Correntes, Rio Claro, Pilões e Martírios, foram imagens recorrentes nos tempos da mineração e nos outros que se seguiram. Nas cidades do ouro, depois desprestigiadas, há uma nostalgia de passado, de riqueza, de grandeza acabada. Tudo isso ainda se percebe nas sutilezas de Silvânia e que se encontra na obra de Sêneca Lobo. O ciclo do ouro, por mais permissivo que tenha sido, analisado geograficamente, identifica profundas mudanças no ciclo econômico, social e cultural do Brasil, pois foi responsável pelo deslocamento do eixo econômico do Nordeste para o Sul e Centro-Oeste da Colônia; propiciou o despovoamento contínuo da Capitania de São Paulo desse período; provocou o alargamento do espaço brasileiro, por meio do recuo do Meridiano das Tordesilhas; foi responsável pelo surgimento de diversos núcleos urbanos, hoje prósperas cidades goianas; fomentou o surgimento de uma arte religiosa e devocional; além, é claro, de incentivar diversos movimentos nativistas posteriores. O ouro, visto geograficamente, foi válido para que se vislumbrasse no Brasil litorâneo um outro vasto, fecundo e desconhecido Brasil interiorano. 19


Na Geografia febril do ouro houve delírio. Muitos caminhos, carregados de perigos e saques eram evitados. Abriam-se outros aleatoriamente. O espaço goiano foi recortado por diversas novas veias, por meio do surgimento dos veios do ouro. Eram veias que varavam serras, chapadões, campinas e planaltos na exuberância do chão goiano. Os olhos dos homens ainda estavam injetados do calor da febre e não viam a beleza da paisagem. Com maestria, Sêneca Lobo nos descortina esse universo na velha Bonfim de Goiás. Só passada a febre, seguida de prostração é que se pode abrir devagar os olhos e ver, no mundo perdido nas lonjuras, a necessidade de colocar os pés na terra e pisar o chão da espera. Não era mais o chão da pilhagem rápida e fugidia. Era o chão da permanência. Outros caminhos então se abririam em novas veias que se desprenderiam dos veios. Isso se derrama inteiro na obra de Sêneca Lobo. Seria a Geografia da prostração, do desânimo inicial. Do ser perdido num espaço infinito, bravio, indomável, de “onde tiraram o ouro e deixaram as pedras”, como disse Cora Coralina. Geografia do homem coberto de fadigas a pisar um território de medos em relação a um futuro incerto. Nos caminhos novos, o pensamento do que seria então, nos limites a serem impostos geograficamente, os cenários da terra de Goyaz! Geografia, que se derrama historicamente na Literatura de Sêneca Lobo, com maestria e perfeição, em páginas de fragmentos da memória bonfinense, espalhada em suas sutilezas. Foi-me dado o privilégio de ter os seus dois livros sobre Bonfim de Goiás autografados poucos meses antes de seu falecimento aos 99 anos, muito perto do centenário, no seu belo sobrado na Avenida Tocantins. Ao escrever, associou meu sobrenome, na última grafia “Godoy”, que não possuo, ao do meu prezado parente Clóvis Fleury de Godoy, que fora seu genro. O autor vai delineando a história bonfinense em capítulos específicos, em que rememora a fundação da cidade, com respaldo da revista Informação Goyana, de seus conterrâneos Henrique Silva e Americano do Brasil. Amarra esses mesmos fatos com a sua vida particular na infância e juventude, como testemunha desse tempo de mudanças em sua terra. Destaca o autor sobre o ciclo econômico do tropeirismo, os boiadeiros, os carreiros, vaqueiros e gente da lida com gado. Destaca fatos ocorridos 20


em Ipameri, Santa Cruz de Goiás, São Miguel do Passa-Quatro. Fala sobre a hidrografia bonfinense, o cerrado, os tipos humanos, os tipos populares, a economia, as máquinas que entravam na cidade, os automóveis, os carros de bois, o cinema, as doenças; ou seja, faz um retrato de sua época. Também, mesmo que seu texto amarre Geografia, História e Literatura, ainda concebe uma forma específica de enxergar o mundo, com a dedicação às coisas da família e da tradição. Deixa páginas literárias de encantamento, como as caçadas, os rios Araguaia e Urucuia, bem como passeios de canoa, o que repete no segundo volume, publicado quatro anos mais tarde, 1987. Quando publicou o segundo volume, sua esposa Nympha já havia falecido. Foi uma forma de sobrevivência, de eloquência, de transformar a dor em trabalho. O autor aborda a aceitação e boa crítica do primeiro livro e publicou muitos comentários dignos de nota, de admiráveis cultores da Literatura em Goiás como José Hermano Sobrinho, Antônio Baptista de Oliveira, Oscar Dias, Guarabira Neto, Belkiss Carneiro de Mendonça, Mari Baiocchi, Marieta Teles Machado, Vicente Paulo Umbelino de Souza, José Júlio Guimarães Lima, Mario Roriz, Waldir Castro Quinta, Lena Castello Branco Ferreira, Claro de Godoy, Coelho Vaz, Getúlio Lobo, além de muitos outros. Como um pedaço sutil da eternidade, o livro Bonfim de Goiás: minha terra e minha gente chega à segunda edição pelo devotamento de sua filha caçula, Claudia Lobo, a registrar a perpetuidade do talento de um notável goiano, José Sêneca Lobo, na história literária de Goiás, com seus fragmentos lítero-históricos que enriquecem o cenário de nossas letras. Goiânia, janeiro de 2020. *Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado. 49 anos. Graduado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Especialista em Literatura pela UFG. Mestre em Literatura e Linguística pela UFG. Mestre em Geografia pela UFG. Doutor em Geografia pela UFG. Pós-doutor em Geografia pela USP. Professor universitário. Funcionário público. Presidente de Honra da Academia Trindadense de Letras. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Presidente da Associação Cultural Bernardo Élis dos Povos do Cerrado. Autor de quinze livros. bentofleury@hotmail.com

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Prefácio da primeira edição

Ponto de vista Nelly Alves de Almeida*

A literatura memorialista sempre se caracterizou por um enfeixe de sentimentos que se distribuem por ângulos diversificados: o que se fala pelo coração e, assim, se impregna de saudade, de recordações e até de nostalgia e o que registra a realidade dos fatos que se desenvolveram em volta de quem a escreve. São, sem dúvida, dois polos que se identificam e se completam, mesmo porque, lado a lado, primam pelo significante e pelo significado, que, unidos, constituem um todo de real expressividade. Bonfim de Goiás é o retrato físico-social-político-econômico-intelectual de uma cidade goiana e, dentro dele, também o retrato do autor. De corpo inteiro. De alma inteira, com todas as suas emoções, com toda a sua simplicidade. Por isso, é sentimental, válido e honesto. O livro se construiu dentro de um complexo de pessoas e fatos, de vivências e lembranças, de realidade e fantasias, de sonhos e desilusões — tudo unindo, num abraço fraterno e amigo, filhos ilustres e filhos humildes, acontecimentos importantes e ocorrências simples, comuns ao cotidiano, numa atmosfera de curiosidade e encantamento. Cada homem e cada fato, dentro do que lhe foi destinado registrar, colaborou de uma forma ou de outra para a edificação da vida e da história da terra. O fato sócio-político-econômico-cultural está contido nesses dois extremos — o elemento intelectualizado e o elemento humilde, porque ambos, dentro do que lhes foi dado realizar, souberam escrever, criteriosamente, um roteiro exato, que coloca a cidade entre as melhores do Estado.


Isso não apenas por suas possibilidades em sentido amplo, mas pelas tradições estupendas que contribuíram para a efetivação de nossa história. É certo que a história de um povo se faz por parcelas que se transformam em um todo significativo, dotando-se de vida e, dentro do possível, de veracidade e coerência. O autor de Bonfim de Goiás pesa tudo na balança da justiça e, de forma equânime, dá a cada elemento e a cada fato, vistos na obra o lugar devido, a devida posição. Relembra a terra nascendo sob o arrojo que todo princípio positivo traz às coisas que se perenizam; assiste ao crescimento no anseio do progresso, revive-a no saldo positivo de conquistas que engrandecem e perpetuam. Tudo é relembrado e relembrado com saudade. O homem e sua ação comovente e segura estão presentes em todas as facetas: o juiz, o político, o professor, o intelectual, o médico, o sacerdote, o fazendeiro, o comerciante, o idealista que sonha com o progresso e realiza, hajam vistas as tentativas da instalação da máquina de arroz e do cinema. Ao lado de todos, o homem-operário, o homem simples do qual parte o trabalho, a mão de obra que edifica e constrói. Há páginas pitorescas sobre os “Lavrados”, onde a exploração aurífera se processou sob o impulso dos braços negros dos escravos. Há uma lembrança das senzalas da Rua do Bahú, constituindo, sem dúvida, uma página marcante: do Lazareto, onde a realidade de um mal repulsivo exilava, do convívio do mundo, seus pobres habitantes. Outros fatos registram acontecimentos que marcam a vida da cidade: o aparecimento dos primeiros automóveis; a descida forçada de um avião que trazia, entre sua tripulação, o então jovem Brigadeiro Eduardo Gomes; os carros de bois; os tropeiros e os cometas escrevendo sagas no campo econômico; os cinemas mudos; os ambulantes; o gramofone; os tipos de rua, como o Zé Calado — que virava lobisomem — e os que escreviam o anedotário da cidade. As festas tradicionais, dissipando a monotonia da terra, a parte folclórica rica e engrandecida pelas folias do Divino. No que se refere à política, focaliza os acontecimentos que marcam época entre situação e oposição; relembra a revolução contra Washington Luiz, os fatos que a fizeram, destacando-lhe a vitória. Cita a saga da Coluna Prestes por nossos lados, num elemento de suas andanças por vários pontos do Brasil. 24


Relembra a instrução e o consequente desenvolvimento intelectual advindo dela. Evoca, então, a presença de Dom Emanoel, o Arcebispo da Instrução; a fundação de colégios, que substitui o primitivismo das escolas públicas; a criação de uma biblioteca pelo Coronel Pirineus; o surgimento dos jornais Brasil Central e Sacatrapo. Busca os amigos da infância e da juventude e, com essa evolução, traz fatos que lhe ficaram arraigados na lembrança pelo sentimento e pela saudade. Refere-se a lugares que se destacam, então, como atrativos turísticos — Buraquinho, Poço da Roda, Poço Batatais, Poço das Moças, cada qual com sua vida e sua história. Uma página que atesta a riqueza do lugar é a que enumera e descreve as fazendas do município, fortes sob todo ponto de vista, apontando o poder no setor econômico. O autor relembra sua própria atuação na vida, da infância à juventude e desta à maturidade. Recorda suas lutas, seu esforço, suas atividades em diferentes lugares, seu aprendizado na escola da experiência. O concurso para o cartório. A eleição para prefeito da cidade, as alegrias, as mágoas, os desencantos. Ele é, também, um autêntico caçador. Amante incondicional desse esporte, ocupa-se, em muitas páginas, do assunto, dando aos relatos interessantíssimos um colorido especial. Sente-se, ao ler Bonfim de Goiás, que o autor, ocupando-se em registrar em seu “relicário”, como o denomina sempre, tudo o que o impressionou na vida de sua cidade e na sua própria vida, enche-se de ternura, de saudade, de amor e de um certo espírito de humildade. Tudo isso lhe põe à mostra o caráter reto e a sadia personalidade que fazem dele uma grande, uma respeitável pessoa humana. Goiânia, outubro de 1977. *Atuou como professora na Escola Complementar de Itaberaí e, em Goiânia, no Colégio Santo Agostinho e no Instituto de Educação de Goiás. Foi integrante da Academia Goiana de Letras e, ainda, uma das fundadoras da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Cadeira 31). Foi membro dos Conselhos Estadual e Municipal de Cultura e integrou a Academia de Filologia do Rio de Janeiro. Dentre seus vários livros publicados destacam-se Estudos sobre quatro regionalistas: Bernardo Élis, Carmo Bernardes, Hugo de Carvalho Ramos, Mário Palmério (Editora UFG, 1985), Literatura e Sentimento (Editora Oriente, 1977), Análise literária de Homens de Palha (Editora Oriente, 1973).

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Bonfim de Goiรกs

Minha Terra e Minha Gente


Joaquim Nogueira, Bonfim, 1875

“Todos têm um amor da vida Que inspira a cantar Eu só canto a minha cidade, Minha terra, meu sonho, meu lar.” (“Balada goiana”, de M. Amorim Félix de Souza)


Introdução

Quem se propõe à tarefa de escrever sobre a sua própria vida ou a de seus semelhantes, há de convir que a boa ou má qualidade do seu trabalho repousa sobretudo no grau de argúcia em aproveitar, com sutileza, a realidade de todos os fatos, desde o menor ao de maior expressão. A ficção e aqueles fatos que fogem ao comum das cousas dosadas no irrealismo, simplesmente para engrandecer o quadro, acabam por desmerecer o trabalho. Baseado nesses princípios é que estou escrevendo e descrevendo acontecimentos que comigo ocorreram, ou dos quais fui testemunha ocular, na tentativa de dar aos presentes uma ideia do passado. Faço-o, todavia, à minha maneira, que pode não ser a ideal, mas que está calcada nos princípios enunciados acima, objetivando ao máximo a verdade sincera, dentro logicamente daquela humildade do grupo humano de onde vim e dos cenários da época a que tive acesso. Daí resulta que outros acontecimentos, talvez de maior significação histórica, podem ter ocorrido na mesma época, sem o devido registro nestes escritos, porque eles se deram em grupos humanos ou cenários acima ou mesmo abaixo do meu relacionamento comunitário. É oportuno observar que, sendo estes relatos o acompanhamento dos caminhos por mim percorridos na terra-mãe, e fora dela, apareça sempre como figura central a minha própria pessoa, sem que isso represente qualquer vaidade de minha parte. Analiso a nossa passagem pelo mundo sob dois prismas principais ou duas vidas distintas. A primeira representada pelo período da infância e juventude até tornar-se adulto.


À medida que a velhice vai nos atingindo, começa nascer a segunda vida, toda ela calcada na recordação dos fatos do passado, agora vistos com o sabor doce ou amargo da saudade, por outros ângulos e facetas que nos passaram despercebidos na época. A verdade é que, a essa altura da vida, com as experiências e os conhecimentos acumulados pelo amadurecimento através dos tempos, a nossa capacidade de apreciação e análise, bastante aumentada, permite-nos descobrir imagens primorosas até naqueles pequeninos fatos tidos como insignificantes no tempo em que se deram. A natureza tem dessas cousas, ao compensar, por assim dizer, a perda gradativa das forças físicas do ser humano com o aumento do poder de raciocínio e com a avaliação de tudo aquilo que se viveu, acentuadamente dos acontecimentos da “infância querida que os anos não trazem mais”. Nos meus momentos de recolhimento, quando posso fazer uma pausa para meditação, nunca me esqueço de duas cousas que considero salutares na vida: reconhecer os meus erros e fraquezas e elevar ao Senhor as minhas graças pelos favores que Ele diariamente me concede. E quando divago sobre a vida, sobretudo quanto ao apego que a ela temos, mesmo nas condições as mais desfavoráveis, não vejo uma explicação maior. A verdade é que, apesar de muito sofrermos para pouco ou nada gozarmos da vida, mesmo assim nos apegamos a ela com todas as nossas forças, com toda nossa vontade, agarrando-nos a um fio que ainda nos reste para continuarmos vivendo. Por quê? Talvez um dos motivos seja aquele inerente à satisfação de ser uma célula deste grande mundo, que a cada momento mais se aperfeiçoa, mais cresce e mais nos atrai, aliado àquele outro ditado pela satisfação de ser úteis a alguém ou a alguma cousa, de poder servir de alguma forma aos nossos semelhantes. A vida só não teria sentido se para nada servíssemos. Se nada realizássemos, se nada representássemos perante os nossos semelhantes, aí, sim, não haveria razão de viver. Mas qual o indivíduo, o pior que seja deste mundo, que já não serviu a alguém? Se a vida é boa, se paga a pena de viver, então é válido recordar os fatos que testemunhamos, em registros escritos, para que outros saibam que vivemos e que amamos a vida. 32


Bem ou mal, é o que estou me propondo nestes registros sem maiores significações ou méritos que não os invocados. Abordo nestes escritos acontecimentos diversos que tiveram lugar paralelamente aos caminhos por mim percorridos na minha terra, e fora dela, com envolvimento de pessoas, da política e do meio social, nos quais faço apreciações com base unicamente na minha convicção pessoal e que podem não corresponder à exatidão das intenções e dos objetivos que animaram tais pessoas no envolvimento dos fatos. Reconheço as minhas limitações e posso realmente ter cometido erros e injustiças com a minha gente. Entretanto, juro que jamais torci a minha convicção íntima no sentido de prejudicar ou situar mal quem quer que seja, mesmo porque apenas uma ou duas pessoas das que entraram nestes relatos são minhas desafetas, sendo todas as demais minhas amigas, pelas quais tenho estima e admiração. Ficam, pois, de início afastadas todas as hipóteses de propósitos inconfessáveis da minha parte. Só mesmo o objetivo já expresso de recordar os fatos, vivendo o passado, animou-me neste trabalho. Tratei apenas de dar vazão a um sentimento que acomete as pessoas na idade madura ou na velhice, nascido do desejo humano e compreensível de contar aos outros que também eles viveram e tiveram participação em muitas cousas, vontade de que os outros saibam que aproveitaram a vida, participando e atuando nos acontecimentos, batendo palmas para os bons e reprovando os maus. Cabe-me ainda as desculpas pelo emaranhado de escritos, sem qualquer ordem e seguimento, uns vazios e até desnecessários e outros prolixos e enfadonhos. Não tenho a pretensão de ser escritor, mesmo porque nunca escrevi nada além de umas croniquetas e alguns artiguetes de jornais, nem pretendo no futuro voltar a rabiscar, muito embora me tenha registrado como jornalista, desde o ano de 1950, na Associação Goiana de Imprensa, mas fiquei apenas com o registro, que sempre mantive, pois jamais exerci os misteres do cargo. Os meus escritos quase sempre são feitos para mim mesmo, para o meu arquivo, como os constantes deste relicário, o que não me impede de algum dia resolver divulgá-los. 33


A tradicional cidade de Bonfim

Na extincta revista Brasil Illustrado que se editava no Rio, em 1887, escrevia o nosso director, então alumno da gloriosa Escola Militar da Praia Vermelha, as linhas que se seguem sobre a velha cidade que lhe fôra berço: — “A cidade de Bonfim, séde do município do seu nome, uma das prosperas da provincia de Goyaz, está situada sobre um risonho planalto a 1.400 metros acima do nível do mar e distante 264 kilometros da capital da provincia. O rio Vermelho e o corrego Lava-Pés banham este pitoresco local, um dos mais bellos e ferteis da provincia. Distante 16 leguas ficam as nascentes do rio Corumbá, o mais caudaloso affluente do Paranahyba, que nasce nos montes Pyrineos, no lugar chamado Curral de Pedras, a tres leguas da cidade de Meia-Ponte. A situação geographica da cidade é de 16°50’ latitude sul e 4° 7’5’’ de longitude do meridiano que passa no Pão de Assucar. Foi fundado por gentes da visinha cidade de Santa Luzia, attrahidas pela descoberta de minas auriferas e ahi fundaram uma igreja com a invocação de Nosso Senhor do Bonfim. Milliet de Saint-Adolphe, além de confundir esta cidade com Bonfim de Pilões, à margem do rio Claro, nos dá no seu Diccionario Geographico a fundação daquela localidade em 1744. Por muito tempo a sua matriz foi filial de Santa Cruz, mas o Decreto da Assembleia Geral de 29 de Abril de 1833 conferio-lhe o título de parochia, desannexando-lhe o territorio de Santa Cruz. Foi elevada a villa em 1836 e a cidade em 1843.


Além da matriz possue as igrejas do Rosário e S. Sebastião, um bello chafariz, talvez o melhor da provincia, casa da Camara, cadeia, uma bibliotheca publica, fundada pelo Sr. Henrique Silva, em 12 de dezembro em 1886, e outros edifícios importantes. A população do municipio 15.000 almas, que, comparada com a de 1872, então de 7.830 almas, indica um progresso espantoso; este progresso é devido à imigração, principalmente de mineiros, que são attrahidos pela salubridade do clima e pelas magníficas terras de lavoura. É o municipio de maior futuro da provincia; exporta mantimentos mensalmente para a capital, especialmente porcos, toucinho, café e assucar. O municipio possue tres freguezias: Campinas, Bella Vista e Santa Cruz. Campinas, o local mais formoso de toda a provincia, está a 14 leguas de Bonfim e 165 kilometros da capital, proxima ao valle do rio Meia-Ponte, numa vasta e pittoresca campina que lhe deu o nome e regada por um limpido ribeiro Cascavel. Foi fundada em 1810 por Joaquim Gomes da Silva Geraes, natural de Meia-Ponte, que ahi passou com direcção a Anicuns, onde ia em busca de uma mina de ouro recentemente descoberta. Tão magnifico pareceu-lhe o lugar, que ahi mesmo estabeleceu-se com os seus companheiros; em breve muitas familias de S. Paulo e Minas para lá transportaram os seus lares. Possue ricas minas de ferro, que foram exploradas por uma fabrica que já não existe, e uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição. A villa de Santa Cruz está situada a 17° 54’ latitude sul e 5° 35’ longitude do meridiano do Rio de Janeiro, e a 344 kilometros da capital. Foi descoberta em 1729 por Manoel Dias da Silva, que, dirigindo-se para Cuyaba, ahi descobrio uma rica mina de ouro; ahi estabeleceu-se: fincou uma cruz com a inscrição: “Viva o rei de Portugal”, e fundou a actual povoação, recebendo por esse serviço a tença annual de 800$000. É nessa villa que está o famoso morro do Clemente, onde se acha uma riquissima mina de ouro, cuja exploração foi interrompida por falta d’agua. Distante do Bonfim 9 leguas está o florescente arraial da Bella Vista, conhecido outr’ora por Suçuapara, do nome de um veado que muito abunda naquelles campos. Foi fundada pelo Sr. Antônio Amaro da Silva Canedo nas terras doadas por Joaquim Telles. Vai progredindo consideravelmente, graças ao seu illustre fundador, que é o ídolo do lugar. 36


Possue uma capella começada em 1875 por subscripção popular, com dedicação a Nossa Senhora da Piedade, e um bello chafariz com uma inscripção em memoria do benemerito comendador Francisco José da Silva. Exporta o melhor fumo da provincia, conhecido por Leme.” (Transcrito da Informação Goyana, de julho de 1926)

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Jardim da Praça do Rosário, em 1932, na administração do prefeito Mário Ferreira, em que se vê a Igreja Nossa Senhora do Rosário.

Festa de inauguração da Praça.


Parte 1

Os primeiros clarões da vida

Conheci-me por gente lá pelo meu quinto ano de vida, equivalente na escala da Era Cristã ao ano de 1912. A cidade era Bonfim, que hoje se denomina Silvânia, fundada em 1810, por Joaquim Gomes da Silva Gerais, segundo os historiadores. É verdade que, entre estes, houve alguns que confundiram a data de sua fundação com a de Bonfim dos Pilões, fundada em 1774, conforme se lê na grande obra Anais da Província de Goiás, de autoria do então seu presidente Dr. José Martins Pereira Alencastre. Baiano de nascimento, ele muito amou este Estado; e, embora tenha governado Goiás por 14 meses apenas, soube colher e registrar fatos históricos de grande valor. A nossa residência era na casa do meu avô Zeca Umbelino, na Rua Santo Antônio; para ela nos recolheu ele, após a morte prematura de meu pai. O meu avô, a minha mãe e os meus três irmãos éramos os ocupantes da casa. É verdade que havia sempre mais um ou dois parentes ou filhos de amigos que, como alunos, ficavam em nossa casa. Lembro-me dos primos Jarbas Umbelino, do seu irmão Almiro, do Joaquim e da Alice Leão e dos filhos de amigos do meu avô, Jeremias Fernandes e Cesar Augusto. Os nossos vizinhos eram a Dona Nhazinha, o Dr. Brandão e o Chico Lobo, meu tio. O farmacêutico da cidade era o Nestor Escobar. O Padre Gomes (Gomes Pereira da Silva) era o vigário da paróquia. O médico era o sobredito Dr. Brandão, e o juiz de direito era o Dr. Alfredo de Campos Curado Fleury. O mestre-escola era o Baltazar de Freitas, que, mudando-se para Jaraguá, foi substituído pelo mestre Hermelino Alcides de Melo (Sô Hermelino).


Todo mundo criava e custeava na cidade vacas, cavalos, burros, jumentos, etc., inclusive o meu avô Zeca Umbelino. Era costume nosso e da maioria dos habitantes da cidade, ao morrer da tarde, depois das labutas diárias, nos sentarmos à porta da casa, para descanso, recreação e observância dos movimentos da rua. Acontecia sempre o desfile pela nossa rua dos jumentos do tio Chico Lobo, voltando dos campos próximos, onde pastavam durante o dia. O Dr. Brandão, vizinho da frente, que não gostava do farmacêutico Nestor (é comum nas cidades do interior a desavença entre médico e farmacêutico), aproveitava-se do desfile de jumentada para ferir o adversário, que também a essa hora se deleitava com sua família à porta de sua farmácia, duas casas acima da nossa. A cada jumento que passava, dizia o Dr. Brandão, em voz bem alta para ser ouvido pelo seu desafeto: — Boa tarde, seu Nestor. Nem meu avô, nem minha mãe, tampouco, gostavam daquilo, mas nós, os meninos, morríamos de rir. O Dr. Brandão era um bebedor inveterado. Pelo menos desde quando o conheci. Mas era ótimo, como beberrão e como médico. No primeiro caso, disputávamos entre nós, irmãos, a chamada dele para lhe comprarmos o vinho do Porto, sua bebida predileta, na venda do Quinquim Bertoldo, no Largo do Rosário, bem perto da nossa casa. É que, a cada feita, ele, o Dr. Brandão, nos enchia os bolsos de gostosas bolachas, cujo delicioso sabor não mais encontrei depois de adulto. Como médico, nunca errava o diagnóstico, medicando com acerto. Contava-se que, certa vez, chamado a atender um doente e, mesmo achando-se altamente alcoolizado, fez o exame e receitou ao paciente. Este, no entanto, receoso de que o estado do médico pudesse tê-lo perturbado, voltou, no dia seguinte, para uma nova consulta, nada dizendo sobre a primeira. O Dr. Brandão o atendeu e fez novo exame, receitando-lhe exatamente os mesmos medicamentos. Só que lhe cobrou em dobro, como represália pela dúvida do cliente acerca da segurança de sua primeira receita. Uma vez, o meu avô me levou à consulta com esse grande médico. Lembro-me de que ele bateu na minha barriga e me receitou Verminol Rios, um vermífugo horroroso, cuja lembrança até hoje me repugna. 40


À casa do Nestor Escobar, o farmacêutico, gostávamos muito de ir. Ele nos dava açúcar Cande, tirado de um vidro grande da prateleira da farmácia. O seu filho Ovídio, nosso companheiro constante de brinquedos, tinha a primazia naquela rua de possuir um velocípede grande e bonito, que nós cobiçávamos. Formávamos banda de música com instrumentos de canudo de mamoeiro, nos quais era perito tocador o César, hóspede da nossa casa e mestre da banda. Na casa de Nhazinha, a vizinha da direita, era tudo misterioso para nossa mente infantil. Varandas escuras, negros e negras pelo chão semideitados, uns fumando cachimbo, outros cheirando pó e outros ainda mascando fumo, que era um costume muito generalizado entre os escravos e mesmo entre muitos brancos de boa-pinta. Não cheguei a entender muito bem a vida daquela casa. O vizinho da esquerda era o meu tio Francisco Herculano Lobo, ou Chico Lobo, como era conhecido. Sua esposa, a Mestre Constança, minha tia, era professora; mantinha escola na própria casa. Era comum ver, à tarde, as meninas descendo as escadas de pedra da casa, no término das aulas. A sua casa era de esquina, de frente para o Largo do Rosário e na lateral direita para a Rua Santo Antônio, a minha rua. Nesse lado ficavam os currais; de manhã e à tarde, a rua ficava cheia de vacas, bois e jumentos, custeados que eram todos na própria casa, costume aliás de todo mundo, inclusive do meu avô Zeca Umbelino. Este tinha uma lanterna de mão da qual tinha muito ciúme. Não gostava de emprestá-la, principalmente a nós, meninos. Numa noite escura, mandaram-me à rua dar um recado e levei a tal lanterna, não sem antes ouvir muitas recomendações para resguardá-la. Passando pelo meio das vacas deitadas no chão, na porta da casa do tio Chico Lobo, acabei caindo sobre uma delas com a lanterna e tudo. Ao levantar-se assustada, a vaca pisou sobre a lanterna, quebrando-a... Foi um Deus-nos-acuda lá em casa! Uns tempos depois, o meu tio Chico Lobo vendeu a sua casa para a Prefeitura, que ali construiu um grupo escolar sobre o qual tenho uma página na frente. Meu tio foi morar na minha rua, dois quarteirões acima da nossa casa. A sua esposa, minha tia, amiga que era da esposa do novo juiz de Direito, Airosa de Castro, me pediu, um dia, para levar uma bandeja de doces e pudins ao distinto casal. Entregou-me uma bandeja grande, dentro do qual havia pratos de fina louça e duas compoteiras de pés altos, também bonitas e caras. 41


Era tempo de chuva e, ao beirar os muros para fugir da lama da rua, caí espetacularmente com bandeja e tudo. Lá se foram pratos, compoteiras e quitutes para o meio do barro, tudo em pedaços. Corri para a minha casa aos berros, e a minha prestimosa mãe é que foi explicar e pedir desculpas...

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Grandes fatos da infância, inexpressivos na maturidade

Acontecimentos que me pareceram extraordinários quando menino, analisados hoje nada representam. Até o Rio Vermelho, o córrego principal da minha terra, que me parecia um grande rio, hoje não é mais que um rego d’água... Mas, como estou registrando fatos da minha meninice, vamos a eles. Dois, principalmente, me ficaram na memória, não sei se à força de ouvi-los dos meus antecessores ou se realmente os vivi. O primeiro se relaciona com a morte do meu pai, ocorrida em 17 de março de 1911, quando eu contava apenas três anos de idade. Ficou na minha memória ele deitado no chão e eu batendo-lhe, com o chapéu, para que se levantasse. A sua morte ocorreu repentinamente, quando fechava a porteira do pasto, onde fora conosco buscar o seu cavalo. O segundo diz respeito ao Cometa Halley, que apareceu nos céus do Brasil no ano de 1910. Lembro-me de estar no Largo do Rosário, à noitinha, próximo da igreja, na qual minha mãe assistia invariavelmente aos terços, e de ela, apontando para o céu, insistir: “Meu filho, olha para o céu e veja a estrela de rabo porque você não verá mais em sua vida”. Falava-se naquele tempo que o cometa só passava pela Terra de cem em cem anos. Existiam, na minha cidade, duas bandas de músicas, que, como de praxe, eram rivais. Os desafios, as disputas sucediam-se ora nas festas, ora nas casas, nas ruas, uma banda perto da outra, as falinhas, os insultinhos, as provocações e, sobretudo, os lançadores de lenha nas “fogueiras”. Uma noite, a banda de Benedito Cruz, depois de uma dessas disputas travadas no Largo do Rosário, na casa do Chico Cotrim, bem próxima da casa


do Felismino, chefe da outra banda, regressou à casa do maestro, que ficava na minha Rua Santo Antônio. Dentro da casa, tocavam um dobrado como despedida dessa noitada, quando, de fora, deram dois tiros de carabina, que atingiram uma janela da casa, disparados por elementos do outro grupo — despeitados naturalmente. Houve um corre-corre, salve-se quem puder, pulos pelas janelas, corridas pelas ruas... Conta-se, como fato pitoresco, que o clarinetista Miguel Paulino, de susto, engoliu a palheta do seu próprio instrumento e chegou em casa engasgado, salvando-se pelos murros que lhe deram nas costas até expelir o corpo estranho... Houve um ano de estiagem nunca vista antes, todas as cisternas secando e, pior ainda, secaram-se os dois córregos que ladeiam a cidade, o Pedrinhas e o Lava-Pés. Só ficou o Rio Vermelho, no qual os habitantes da cidade se abasteciam, usando, para isso, os mais variados processos. Uns com latas e potes nas cabeças, outros usando outras modalidades. Na nossa casa usávamos o cavalo Leiteiro, que, com as latas respectivas na garupa, ao invés de leite, conduzia água. Uma tarde, eu descia para o Rio Vermelho, cavalgando o Leiteiro, quando surgiu, de repente numa esquina, uma carroça cheia de latas vazias, fazendo, a cada bacada, um barulhão danado. O meu cavalo que, como eu, nunca tinha visto aquilo, levou um susto, arrancou-se de vez, deixando-me no chão ao lado do par de latas... O meu avô Zeca Umbelino faleceu por volta de 1914 e, de sua doença pré-morte, lembro-me apenas de um médico, Dr. Oscar, aplicando as primeiras injeções, o que, na época, era novidade e causava até pavor nas pessoas. Antes já havia presenciado o Dr. Brandão aplicar uma injeção num doente da roça, que se hospedara na casa de Nhazinha. Falavam que ele tinha dor ciática incurável. O certo é que esse doente gritou e gemeu dia e noite, até morrer. Da doença do meu avô há outro fato guardado na minha memória. As vigílias prolongaram-se por muitos dias e noites, a casa cheia de gente, filhos, noras sobrinhos, netos e amigos. Diariamente faziam-se biscoitadas, roscas, bolos, pães de ló e tantas outras quitandas — riqueza e fartura comuns a todas as famílias da época. Eu pedia sempre à minha mãe e minhas tias que me acordassem na hora das mesadas noturnas, mas nunca era atendido. 44


Numa noite, tive a sorte de estar dormindo no quarto grande, onde sem o conhecimento da meninada, eram guardadas as quitandas, dentro de uma caixa grande, de tábuas pretas, ao lado da minha cama. Acordei-me com o barulho que fizeram ao abri-lo para abastecerem as mesas. Logo que deixaram o quarto, levantei-me, pé ante pé, abri a tampa da caixa e deparei com um verdadeiro reino de guloseimas. Tratei de escolher logo o maior bolo que vi, de um quilo de peso. Levei-o para debaixo das cobertas e, gulosamente, o comi todinho... Foi uma indigestão, um tal de vomitar no outro dia, ninguém sabendo a causa, deram-me a repugnante Poaia, um pó que usavam antigamente para provocar vômitos, depois um horrível purgante de óleo de rícino e ainda um regime de fome durante o outro dia. No ano seguinte ao da morte do meu avô, aconteceu um fato memorável na minha vida: a viagem à festa do Barro Preto, a Trindade de hoje. Foi nessa ocasião que tive o prazer de cavalgar sozinho pela primeira vez. Antes, viajava sempre na garupa dos maiores, nas idas à chácara do meu avô ou ao sítio do meu tio Pedro, os locais que mais frequentávamos. A viagem ao Barro Preto, por si só, já foi uma festa. Saímos de Bonfim uns oito ou dez cavaleiros e cinco carros de bois, viajando em conjunto. A minha mãe ia a pé, cumprindo promessa. Gastamos cinco dias até a sede da romaria. Os pousos, em barracas, as violas, as novidades, a terra desconhecida, tudo era um encanto. No Rio Meia Ponte, conheci a pesca por fechamento do rio, processo a que chamavam de pari. O dono da fazenda, onde fizemos um pouso, nos levou lá no rio de manhãzinha; havia bem uma dúzia de peixes grandes na cama, dos quais nos deu alguns para o almoço. A grande comitiva iniciava sempre a viagem após o almoço, pelas oito/nove horas, em cada pouso. Andávamos em média três léguas (18 quilômetros), por dia, para chegar ao novo pouso com tempo de armar barraca, ajeitar os bois e cavalos e fazer a janta. No dia seguinte, nós levantávamos bem cedo, para a pega dos bois, selar os cavalos, arriar as tendas, fazer almoço, etc. Era uma maravilha! Chegando a Barro Preto, cidade que, comparada com Bonfim, naquele tempo, era um ratinho frente a um cão, composta que era do largo da igreja e umas pouca ruinhas, fomos armar barraca no quintal de uma casa alugada por um parente da família, o Pedrinho Umbelino, de Bela Vista. Era costume dos comerciantes de cidades vizinhas ou mesmo das distantes levarem suas lojas ou parte delas para a romaria, onde faziam rendosos negócios com os romeiros. 45


Da bagunça do povo, das festas da igreja, pouco me lembro. Não me esqueci de um presente do Pedrinho Umbelino, que era comerciante em Bela Vista e, todos os anos, vinha para a romaria: uma garruchinha de espoleta. Era a primeira na minha vida. Após uns dez dias de romaria, levantamos as barracas e nos pusemos de volta, nos mesmos moldes da ida. Só que, agora, as marchas eram mais rendosas, dado que não tínhamos gente andando a pé, cumprindo promessa. Numa noite, dentro da barraca, brincando com a garruchinha, quebrei-lhe o cão e até chorei de tristeza!

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A roda da vida comum a todos

Todos nós, quando atingimos uma certa idade, passamos a analisar a vida em termos de comparação do presente com o passado. Dessa conduta, a que ninguém foge, nasceu a afirmação de que os velhos vivem do passado. Mas, se não fossem os velhos, vivendo e rememorando o passado, como poderiam os novos escrever as histórias dos tempos? Assim pensando é que, sempre que posso, vivo um pouco o passado, escrevendo sobre fatos antigos, comigo acontecidos e que apresentem quaisquer subsídios ao conhecimento dos usos e costumes de antanho. Na minha infância, o ano de 1919 foi o que mais emoções e maiores conhecimentos me proporcionou. Logo no seu início, de passagem por Campo Formoso, antiga Capela dos Correias, hoje Orizona, em viagem a Ipameri, tive ocasião de ali presenciar e conhecer, no dia da chegada, os primeiros automóveis que transpuseram o Porto do Roncador, para uso comercial. Antes destes, um ou dois carros entraram em Goiás, para mãos e uso de particulares. Foi uma verdadeira festa popular improvisada. Todo mundo de Campo Formoso correu ao largo da igreja, em frente à loja do Sr. Pio José da Silva, dono dos carros, para contemplarem, extasiados, os dois monstros que chegavam. O que vinha na frente era um Ford provido de capota (carro de passeio), dirigido pelo José Teixeira, e o que vinha logo atrás era um veículo sem carroceria, dirigido pelo Sinhô Borges. Confesso que a emoção e o entusiasmo da minha mente menina foram muito grandes. Sobretudo as personalidades dos dois heróis motoristas,


cujos feitos, se comparados no tempo e no espaço com os astronautas de hoje, ganhariam longe. Nascia então a primeira tentativa, em nossa região, para a exploração do transporte coletivo por automóvel, uma iniciativa e responsabilidade financeira do patriótico comerciante Pio José da Silva, digno cidadão campo-formosense, de saudosa memória. Organizou-se, logo, a empresa Autoviação Roncador-Anápolis, passando pela minha cidade natal, Bonfim, uma denominação de tradição e profundidade histórica que a insensibilidade imperante na ditadura trocou pelo inexpressivo nome de Silvânia. Ali, nas oficinas daquela nova empresa, formaram-se os primeiros motoristas e mecânicos pioneiros do Estado de Goiás. De minha terra, dois moços foram logo para essa aprendizagem: Oscar Caetano e Oscar Correia. O primeiro, já falecido, foi um dos maiores mecânicos que Silvânia já teve; o segundo, motorista e mecânico, é hoje farmacêutico e político prestigioso em Vianópolis, cidade que ajudou a implantar e progredir. A minha emoção cresceu, no entanto, quando se resolveu que a nossa viagem tivesse prosseguimento de automóvel até Roncador. No dia aprazado, bem cedo, já estávamos rondando a porta da casa do José Teixeira que, na sua importância invejada, nos ensinou a tomar lugar no automóvel, amarrou as malas nos paralamas, deu fogo no bicho e lá fomos estrada afora, nas delícias do desconhecido. O auto era um fordinho, daquele tempo, alto, rodas com raios de madeira, capota presa aos faróis por duas correias e sustentada por cajados. Não havia partida automática, nem bateria. Funcionava por meio de magneto, ligando a chave da ignição primeiro para a esquerda e, depois de funcionar o motor, era virada para a direita. O motor funcionava por manivela acionada à mão. Quando não queria pegar, levantava-se uma roda traseira com o macaco, para facilitar a operação. Na direção havia dois avanços, um para a faísca e outro para a gasolina. Aos pés competia o comando de três pedais: o da esquerda, pisado até o fundo, dava a marcha primeira, e, solto, dava a segunda. Mantido no meio, desengrenava (debreava, como diziam). O pedal do centro dava marcha à ré, operação que era feita com os dois pés — o esquerdo debreando e o direito comprimindo o pedal central até o fundo. O pedal da direita era 48


o breque; havia também a alavancava do breque de mão. Às mãos, ficavam a direção, o avanço da faísca e o da gasolina, pois não havia acelerador de pé. As estradas eram simples trilhas, abertas à enxada, apenas na bitola das rodas. Em qualquer rampa, por leve que fosse, o fordinho morria, obrigando os passageiros a apearem-se e meterem os ombros na traseira, ajudando o danado a subir. Lá pelas alturas da fazenda dos Froes, distante umas duas léguas de Roncador, escureceu e a luz, produzida à dínamo, não funcionou, forçando-nos a abandonar o auto e a enfrentar a pé aquela distância. Apesar disso, não conheci viagem mais emocionante. Roncador, ponto final da Estrada de Ferro de Goiás, no Rio Corumbá, onde a ferrovia teve a sua construção parada por mais de oito anos, à espera da conclusão da ponte, era um porto de grande movimento. Mais de duzentos carros de bois e centenas de lotes de tropas ali estacionavam, naquela ocasião, à espera de carga para o interior e norte do Estado. As barcas transportavam, de um lado para o outro do Rio Corumbá, povo e cargas. Hospedamo-nos no Hotel da Estação, junto aos trilhos da estrada de ferro, no qual passei a noite quase toda sem dormir encantado com o barulho das locomotivas a vapor, em manobras. Ali conheci, também pela primeira vez, o trem de ferro. Que monstro, comparado ao fordinho! Na madrugada do dia seguinte, lá fomos no trem de passageiros, rumo a Ipameri, antigo Vaivém e Entre-Rios. Novas emoções e novos encantos. Nessa cidade, tomamos, na estação ferroviária, uma charrete puxada por um bonito cavalo, transporte também para mim desconhecido. Hospedamo-nos numa pensão, a única lá existente, creio eu, de propriedade do Sr. Espírito Santo Cardoso, um velho moreno e gordo, muito risonho e amável. Na hora do almoço, observei que, ao lado do prato, era colocado um pedaço bem grande de uma espécie de bolo branco e cheiroso. Tomei lugar à mesa e fiquei olhando os demais hóspedes, que destacavam pedacinhos daquele bolo e comiam juntamente com a refeição. Experimentei e gostei. Era o meu primeiro contato com o pão de trigo integral, feito com fermento, a maravilhosa descoberta egípcia.

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Parte 2

As tropas Eram belas, mesmo sofrendo o sufocamento da poeira intensa que levantavam; a gente ficava horas a fio completando a passagem das tropas. Vinham de Araguari, a princípio, depois de Ipameri e, ultimamente, de Roncador. Na frente, puxando a fila, vinha o cavalo “madrinha”, todo enfeitado com bonecos, guizos e cincerros. Era sempre escolhido um animal de pequeno porte, comumente chamado piquira ou pampa. Ou então um carneiro bem tratado, gordo, com a lã bem limpa, equipado com arreio em miniatura, cabeçadas e rédeas cheias de argolas e passadores de metal bem polido. As tropas constituíam a paixão da meninada. Entravam pela Rua dos Caetanos, atravessavam a Praça das Sete Esquinas, então denominada Félix de Bulhões e depois a Umbelino Filho, seguiam pelo Becão até a Rua Direita, pela qual desciam ganhando a saída para Antas, Corumbá, Pirenópolis e outras cidades. Na minha terra existiam dois ranchos destinados exclusivamente à hospedagem dos tropeiros. O mais antigo era o Rancho dos Caetanos, na entrada da cidade, pelo lado de quem chegava de Roncador. O outro rancho, bem mais novo, de Chico Cotrim, ficava do lado de quem saía para as Antas (Anápolis). Não era só o desfile das tropas que nos encantava. Também a chegada ao rancho, o desarreio, o empilhamento da carga, a cobertura com couros, a fincação das estacas, a armação das redes dentro do rancho. E a formação dos burros para a distribuição do milho? Era o máximo. O tropeiro ia gritando e dando estalo com o rebenque, que manejava com maestria, enquanto os animais iam entrando em fila, à beira da parede.


De quando em vez, um entrava em lugar errado e o tropeiro berrava o nome dele — “Conserta, Penacho!” —, e o bicho saía daquele lugar e tomava o rumo certo. É que cada um tinha o seu lugar próprio na formação para a qual eram bem adestrados. Só depois de todos os animais bem alinhados, cada qual no seu devido lugar, era distribuída a ração de milho, acondicionada em bornais de couro com alças do tamanho da cabeça de cada um, presas de tal forma que o animal ficava com a boca dentro do bornal. Além das tropas transportadoras de cargas para ganho do frete, geralmente pertencentes a um proprietário dedicado a esse ramo de negócio, haviam as dos viajantes comerciais, os “cometas” como eram conhecidos. Essas tropas eram mais selecionadas, tanto nos animais como nos arreios, cangalhas, bruacas, caixas encouradas, couro de cobertura, tudo muito bem feito, bem-acabado e sobretudo bem tratado. É que pela tropa se conhecia o cometa — quanto mais rica e bonita, mais importante a casa comercial que representava. Lembro-me bem das tropas do Luiz Astolfo, do Humberto Mendonça, do Augusto Teixeira, do José Guimarães, do Chico de Assis e outras mais, cujos viajantes não cheguei a saber-lhes os nomes. Os cometas mais importantes hospedavam-se em casas particulares, mesmo porque naquele tempo ninguém conhecia hotel ou pensão nas cidades interioranas de Goiás. O sobrado da Dona Luiza, no Largo do Rosário, era o preferido pela maioria dos viajantes para suas hospedagens. Para nós, meninos, esse era o local ideal para acompanharmos todo o desenrolar da chegada, do tratamento, da carga e descarga das tropas, praticados num ritual mais ou menos planificado para todos os viajantes. Os mostruários dos tecidos, tais como as bonitas chitas, os riscados para as calças masculinas, os morins, os brins cáqui e as sedas, eram acondicionados em pastas próprias, que viajavam em canastras de tamanho padronizado, de tal forma que cada cargueiro conduzia um par delas, adredemente feitas para perfeita adaptação às bruacas. Ainda de dobro, entre as duas canastras, o burro levava os colchões de dormir, barracas, ou mesmos utensílios como baldes, jarros ou bacias. Traziam também cozinha própria, usando para o abastecimento de água os chamados “surrões” de couro, com os quais dois tropeiros iam à fonte buscar água. 52


Para finalizar esta página de tropas, é precioso que eu revele que os meus ancestrais foram tropeiros. O meu bisavô, pai do Zeca Leão, como tropeiro, buscou cargas no Campo Santana, no Rio de Janeiro, cuja viagem de ida e volta demorava seis meses, naqueles áureos tempos. O meu avô já começou a transportá-las de Casa Branca, no Estado de São Paulo. À medida que a estrada de ferro ia progredindo no seu lento caminhar pelo Brasil adentro, mudava-se o ponto de buscar as mercadorias. Na loja do Manoelzinho Caetano, onde trabalhei de caixeiro, vi faturas antigas tiradas no Rio de Janeiro, com um ano de prazo para pagamento: “A doze meses desta data pagará V. Sa. por esta fatura, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro a quantia de [...]”. Que cousa boa era a vida naquele tempo!

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Dom Prudêncio Gomes da Silva, bispo de Goiás.

Padre Salomão e o seminarista Oswaldo Lobo em Goiás, em 1895.

Entre as alunas do Colégio Santana, em 1932, está a esposa do autor.


Viagem a Goiás

O meu irmão Oswaldo, três anos mais velho, foi estudar no Seminário Santa Cruz, em Goiás, na gestão do saudoso bispo Dom Prudêncio Gomes da Silva, falecido em Posse (GO), no cumprimento de sua grande missão apostólica. No ano de 1919, salvo engano, fui a Goiás, então capital do Estado, visitar o meu referido irmão. Saímos de Bonfim num fordinho daquela época, novo, guiado pelo Oscar Caetano, recém-preparado como mecânico e motorista nas oficinas da Empresa Pio José da Silva, de Campo Formoso. A rota era Bela Vista—Campinas—Goiabeira—Curralinho e Goiás. A primeira jornada foi de Bonfim a Bela Vista, sessenta quilômetros apenas de distância, mas que, pela precariedade da estrada e pela velocidade do automóvel, gastava-se mais da metade do dia. No dia seguinte, passamos por Campinas, visitando o então famoso Convento dos Redentoristas, onde havia de tudo: serraria, criação de gado leiteiro, frutas à vontade, hortaliças, luz elétrica própria, que iluminava, também, a pequena cidade. Lá nos serviram deliciosos vinhos de fabricação própria, de permeio com lauto lanche de deliciosas iguarias. É que o chefe da nossa caravana era o saudoso Padre Salomão Pinto Vieira, vigário da minha terra, que gozava de grande prestígio e igual conceito perante a comunidade religiosa. Seguimos no mesmo dia, atingindo Goiabeiras e, ao anoitecer, chegamos a Catingueiro Grande, hoje Itauçu. Ali nos encravamos numa subida. O fordinho não dava conta de vencer o morro. Lutamos, empurramos, mas


acabamos pedindo pousada ao grande comerciante ali pioneiro, conhecido por Sô Ernesto. Dada a quantidade de pessoas que lá pernoitavam nessa noite, sobrou-nos como cama, arrumada pelo próprio Sr. Ernesto, o balcão da sua loja, sobre o qual ele estendeu umas peças de chitas, servindo outras de travesseiros. Menino que era, sadio e estafado, dormi como um anjo a noite toda. Na manhã seguinte, vencemos o morro e continuamos a viagem, passando por Curralinho. Dessa cidade até Goiás, o Governo do Estado havia construído uma estrada larga, bonita, e foi uma satisfação entrarmos nela. Alcançamos a Serra Dourada; para transpô-la, a estrada serpenteava em subidas e curvas as mais diversas e íngremes, findas as quais já se estava chegando àqueles gostosos bairros da capital, chamados Areias e Bacalhau. Goiás me pareceu uma daquelas cidades da Arábia, que eu conhecia por leituras. Muita gente, muitas casas comerciais pegadas umas às outras, na Rua do Comércio, um mercado repleto de gente e de cousas à venda, meninos com tabuleiros de puxas na cabeça, etc. Ali vi, pela primeira vez, um burro carregando lenha rachada, circulando pelas ruas, e uma menina tentando o João Mocoíva, bobo de rua. Conheci o bispo diocesano, Dom Prudêncio, no seu palácio ao lado do mercado, servido pelo preto Simeão, que lhe dedicava cega fidelidade naquela sua bondade simples e sincera. Conheci também o Seminário Santa Cruz, onde o meu irmão estudava, os seus colegas Vezinho e Noca e um tipo meia-língua, que era servente e dizia que “santo era um homem temente a Deus, assim como o padre reitor”. Depois fomos visitar a usina elétrica da cidade, propriedade do Sr. Luiz Guedes, movida a vapor, por meio de uma enorme caldeira alimentada à lenha. Na hora de ligar e desligar a luz, a usina dava um apito, ou um ronco, semelhante ao berro de uma vaca atolada ou aprisionada por uma sucuri, conforme conta Mário Palmério no seu apreciado livro Vila dos Confins. Visitamos o Colégio das Freiras, para o qual levamos uma aluna, a minha prima Nenzita, bem como cartas para as alunas Naica e Nhazica, irmãs do Dr. Altamiro Pacheco. Chafariz, cadeia, Palácio Conde dos Arcos, Igreja da Boa Morte, ponte do Rio Vermelho, Poço do Bispo, uma série de cousas bonitas, novas e extraordinárias para a minha mente em formação. 56


O bom da vida é a própria vida

Apareceu pela minha cidade, por esse tempo que descrevo, um novo médico, chamado Dr. Tenório. Entrou na política, nas relações e também nas inimizades. Criou um problema com a família Correia, importante e numerosa na minha terra. Um belo dia, voltava eu de uma viagem a cavalo, chegando pelo lado do Lava-Pés, quando de umas vinte a trinta pessoas faziam o bota-fora do referido médico, soltando foguetes e dando tiros. É que ele não resistira às reações daqueles que ofendera e resolvera dar o fora antes que as cousas piorassem, mas levou ainda de saída aquelas manifestações de agravo que causara à cidade. Veio outro médico logo depois, o Dr. Waldemar Castelo. Este era um jogador inveterado de cartas e entrou na roda do Cel. Correia, que era uma espécie de patriarca-amador dessa prática em Bonfim, geralmente desenvolvida em sua própria casa de residência ou nas de seus parentes e amigos. Numa noite, na casa da Joaquina Correia, quando a parada ia alta e perdendo bastante, o esculápio brigou e deu um tiro na banca, tendo o projétil resvalado e atingido a cabeça de meu tio, provocando corre-corre, escândalo e exploração política. O ferimento, todavia, foi leve e tratado pelo próprio autor do disparo. Entretanto, ante a repercussão política provocada pelo acidente, o Dr. Brasil Caiado, adversário ferrenho do tio Chico, de passagem pela cidade, quis ver e examinar o paciente. Quando viu tratar-se de um raspão de bala no couro cabeludo, disse: “É, vaso ruim não quebra”. O vaso ruim era o tio Chico, que ganhava em Bonfim todas as eleições em prejuízo da facção apoiada ali pelos Caiado...


Mas, como é meu propósito seguir mais os passos de minha vida que a dos outros, devo dizer que, por esse tempo, a minha mãe, viúva e sem maiores recursos, tudo fazia para instruir os filhos. Matriculou-nos então, o Getúlio e eu, no Colégio Bonfinense, do saudoso educador Antônio Euzébio de Abreu, o Mestre Nico, como era conhecido, progenitor do poeta, escritor e político Americano do Brasil, que tantas glórias literárias carreou para o Estado de Goiás. O Mestre Nico foi o pioneiro do ensino secundário em Goiás, e são poucos os homens da minha época e antes dela que não passaram pelo seu colégio, em Bonfim, Formosa e Campinas. Na minha terra, também o Mestre Nico pagou caro pelo crime de ser simpático ao partido dos Correias. A marcante influência desse emérito educador na vida social, política, cultural e administrativa, nas cidades em que residiu, valeu-lhe em Bonfim a ira dos chefes políticos caiadistas. Exerceram toda sorte de pressões contra o seu colégio, até o ponto de considerarem crime um tiro de clavina Flaubert dado em um passarinho, no quintal da casa colegial, pelo Dr. Mur, um professor eventual que fazia estágios no colégio de quando em vez. Seriamente ameaçado de prisão, teve de fugir às pressas. Em consequência desse estado de cousas, o Mestre Nico viu-se obrigado a mudar o colégio para a cidadezinha de Campinas, lá pelos anos de 1921-1922. Nesse ínterim, o Padre Salomão, português, vigário de Bonfim, pretendeu me arranjar um emprego na capital do Estado com o empresário Luiz Guedes, seu patrício, de quem se considerava muito amigo, e onde eu poderia continuar os meus estudos bruscamente interrompidos pela mudança de nosso colégio. Deu-me uma carta de recomendação ao sobretido empresário e me levou no seu automóvel até a fazenda do Quinzim Bonifácio, onde ia celebrar o casamento de sua filha Darça com o agricultor José Vieira. Depois das festas de bodas do casal, lá fiquei na fazenda, pois deveria seguir viagem em companhia do fazendeiro Olímpio de Araújo, também presente às bodas com sua esposa Dona Santinha, então moça nova e bonita, até sua fazenda no munícipio de Bela Vista. Dali o próprio Sr. Olímpio se comprometia a mandar-me até Campinas, todas essas viagens no lombo do cavalo, pois automóveis e rodovias eram raros naquela época. Tudo se fez como programado e, chegando a Campinas, fui ser hóspede de meu antigo professor Mestre Nico, no seu colégio na Praça da Matriz. 58


Enquanto aguardava condução para Goiás, lá fiquei continuando meus estudos como interno. Nesse caráter, participava dos passeios todas as tardes com os alunos, pelos campos próximos e, de quando em vez, por uma chácara ou propriedade de amigos do professor-diretor. Dentre estas, o passeio mais cobiçado pelos alunos era no Convento dos Padres Redentoristas, pela abundância de frutas lá existentes. De uma feita, lá estando todos nós, o Mestre Nico nos recomendou que, absolutamente, não apanhássemos qualquer fruta, mas apenas aceitássemos as que os padres ou os irmãos da Ordem nos dessem. Mas, debaixo de um abacateiro carregado de frutos maduros, com os colegas me insuflando, acabei subindo na árvore, contra a expressa ordem dada, para apanhar frutos. Já havia apanhado diversos quando um colega gritou: “Lá vem o Mestre”; escorreguei pela galha do abacateiro, mas esta, madeira mole que é, quebrou-se e eu caí com tudo no chão, fazendo um barulhão! Apanhado em flagrante, não tive perdão. Levei uns 15 dias de castigo na sala de aulas, ficando sitiado no canto, longe dos demais alunos, para não contaminá-los com a minha péssima conduta no grupo. Foi assim a cousa. Um dia estávamos batendo bola na grama, bem na frente da casa do colégio, justamente na hora que o Mestre Nico recebia uma visita de um senhor de outra cidade, que usava óculos. Dei um formidável chute na boa que, ao quebrar os vidros das janelas, foi atingir a cara da visita e despedaçou seus óculos. O meu peso estava grande demais. Mas, antes dos próximos castigos, que seriam naturalmente até de expulsão, chegou a Campinas, de passagem para São Paulo, o empresário Luiz Guedes, que, visitando o colégio e posto a par do meu caso, respondeu simplesmente que não tinha emprego para mim, nem se lembrava do pedido de Padre Salomão. Juntamente com ele chegava, também a Campinas, o Padre Pitaluga, nomeado vigário de Bonfim, em substituição ao Padre Salomão, outra vítima da política partidária da minha terra, tendo de exilar-se em Campo Formoso. Dos entendimentos resultou que eu retornasse a Bonfim na caravana de Padre Pitaluga, que achou ótima uma ideia, pois necessitaria realmente de alguém conhecedor das pessoas e cousas da minha cidade, para orientá-lo na delicada missão de entrar na paróquia. Lá fui eu, a cavalo, junto com a comitiva do Padre Pitaluga de volta a Bonfim. Chegamos noite alta, passando pelos becos da periferia da cidade, até 59


alcançar o Largo da Matriz, onde ficava a Casa Paroquial, para não despertarmos qualquer reação de boas ou más vindas deste ou daquele partido político. A partir daí, há uma outra história no curso da minha vida, antes da qual, porém, devo relatar um episódio acontecido em Bonfim, que sacudiu não só o seu povo, mas também todo Estado de Goiás, com deposição do então juiz de Direito daquela Comarca, o Dr. Airosa Alves de Castro.

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Sedição em Bonfim

Lá pelo ano de 1916, não sei bem, aportou na minha cidade um moço vindo das bandas de Minas Gerais. Entrou em Goiás pelo Sudoeste, atraído pelo garimpo de Mineiros, onde residiu algum tempo, contando-se dessa sua estada ali alguns atos de valentia. Benjamin Lemes do Prado era seu nome; apresentou-se em Bonfim bem vistoso, simpático, iniciando-se nas atividades de comerciante de gêneros e bebidas, na Rua Santo Antônio, na casa que foi de Dona Nhazinha, ao lado da nossa residência. Conheceu a família do coronel Chiquinho Correia, que então residia em frente, passando a cortejar sua filha Sinhá. Durante o namoro, soube-se que o Padre Salomão, então vigário da Paróquia, zeloso pelos seus paroquianos, havia consultado sobre os antecedentes do moço, obtendo a resposta de que ele se envolvera em ilícitos de dinheiro falso no Estado de São Paulo. Mas o sacerdote guardou para si as informações, que só muitos anos depois foram conhecidas. O fato é que o Benjamin acabou se casando com a Sinhá Correia, em cerimônia festejada com muita gente, já na casa nova dos Correias. Por esse tempo, já começava a fervilhar a política partidária no Estado de Goiás, entre os Caiado e não Caiado. O partido oficial do Governo Caiado era chefiado em Bonfim pelo coronel João Pereira de Sousa e o da oposição pelo coronel Chico Correia, cuja esposa era minha tia. A oposição acusava o partido oficial de prática de absurdos, usurpações de direitos, restrições ao livre exercício do voto, ameaças e amedrontações, pressões policiais, busca dos adversários, incluindo nas acusações o então juiz


de Direito da Comarca Dr. Airosa Alves de Castro, amigo e correligionário político do chefe estadual Totó Caiado, como a cabeça pensante ou o líder intelectual dos caiadistas locais. Ora o Benjamin, como genro do Cel. Correia, começou a participar das causas e efeitos da política de seu sogro, caindo também no desagrado dos dominantes da terra. Uma bela madrugada, um soldado corcunda chamado Cambraia, terror do destacamento local, segundo dizem a mando do juiz de Direito, deu diversos tiros na porta da casa comercial e residencial do Benjamin, situada na Praça do Rosário. Acusaram também o juiz de Direito de conduzir o inquérito ou orientar a ação policial de maneira a não revelar os fatos verdadeiros. Acusavam-no ainda de indeferir habeas corpus, de preparar testemunhas e, com a sua reconhecida inteligência e conhecimentos do Direito, de ministrar instruções aos seus correligionários políticos na condução das cousas e dos processos, de tal forma que tudo acabava contra os oposicionistas. Exemplo disso foi o desfecho do inquérito sobre os tiros na porta da casa do Benjamin, apontando este como o próprio autor da façanha para provocar comoção na cidade, quando era pública e notória a autoria do Cambraia. Esses e outros fatos comuns na política de cidades do interior, como muito bem os descreve o notável escritor Mário Palmério no seu livro Vila dos Confins, acirravam cada vez mais os ânimos oposicionistas, cujo partido era maioria eleitoral expressiva na minha cidade, pois o coronel Chico Correia ganhava todas as eleições. Na concepção daquela gente, se afastada a mão orientadora dos políticos dominantes, no caso o juiz de Direito, tudo se normalizaria. Daí começou a esboçar-se um movimento generalizado entre os oposicionistas, sob a liderança do Benjamin, mas mantido em absoluto sigilo, no sentido de botar para fora da cidade o juiz de Direito. Aliás, fatos iguais acontecidos em outras cidades de Goiás e de outros Estados serviam como exemplo. Essa era a mentalidade da época. A história está cheia de casos de expulsões de padres, políticos, até médicos considerados persona non grata nos vilarejos. Favorecia ainda a ideia a divergência, então reinante na política estadual, entre o presidente do Estado, Dr. João Alves de Castro, e o senador Antônio Ramos Caiado; o primeiro apoiava o partido dos Correia e o segundo, a facção oficial sob a chefia do coronel João Pereira. O presidente do Estado era sempre 62


escolhido pelo senador Caiado, o homem forte que dominou a política goiana desde 1909 a 1930, quando caiu do poder, não por desprestígio no Estado, mas por força da revolução nacional que depôs o presidente Washington Luiz. O presidente, assim escolhido, tinha que cumprir as ordens do senador e parece que, entre este e o Dr. João Alves, houve desentendimentos. Para vingar-se, o presidente do Estado apoiava, embora veladamente, os partidos oposicionistas no Estado, entre eles, com especial atenção, o partido do Chico Correia, imbatível na terra. Esse chefe trocava constantemente correspondências com o presidente do Estado, o mais das vezes pela via telegráfica, usando a estação do telégrafo nacional de Corumbá, a mais próxima de Bonfim, para a qual seguiam semanalmente dois ou três portadores de mensagens de queixas e denúncias sobre desmandos em Bonfim. Acontecia, entretanto, que as ordens do presidente, censuradas, não chegavam a sair do Palácio Conde dos Arcos... Não conheci, porque era menino, os trabalhos e os preparos do episódio da deposição do juiz, mesmo porque eles foram tramados sob absoluto segredo, como já disse antes. O certo foi que, uma manhã, estava eu na esquina do Grupo Escolar, na Praça do Rosário, próxima de minha casa, quando vi chegando por todas as ruas que davam acesso àquela Praça, chusmas de cavaleiros, armados de carabinas, dirigindo-se para a porta da casa do magistrado, ali também situada. Ele e a família ainda dormiam. Foi acordado e ficou pasmo ante cerca de oitenta cavaleiros armados exigindo sua saída imediata da cidade. O povo, medroso como era, sumiu das ruas. Os amigos e companheiros políticos do juiz não apareceram. Após mais de uma hora de confabulações e parlamentações, ante a reação do magistrado de sair montado na égua preparada, deixava ele a cidade, acompanhado por sua família, num automóvel Ford de três pedais, modelo da época, conduzido por um chofer chamado Zé Marra que fazia corridas de Roncador a Anápolis para a Empresa Pio José da Silva e que fora requisitado ainda dormindo na pensão local. Rentes ao automóvel, até os altos da cidade, seguiram todos os cavaleiros armados, provocando corridas e arrepios nos bonfinenses que surgiam pelas casas e pelas ruas por onde passavam. Consumara-se a deposição do juiz de Direito. Pensavam os seus autores na sobrevinda de uma paz política e policial para a cidade e o município. O juiz dirigiu-se para Anápolis, de onde se comunicou com o senador Caiado, pondo-o a par do acontecido e pedindo garantias. O Caiado até que 63


não tomou de imediato medidas drásticas. Primeiramente enviou a Bonfim, como delegado especial para apurar os fatos, o então chefe de Polícia do Estado, bacharel em Direito, Dr. Claro de Godói, que se desincumbiu da missão com muito cuidado e isenção de ânimo devido ao estado geral alarmado da população e aos acirramentos políticos e familiares resultantes de toda aquela situação. O caso foi enquadrado como sedição, tendo por chefe, o Benjamin; o processo em consequência foi encaminhado ao juiz competente, que era o federal, de que era então titular o Dr. Marcelo Silva, na capital do Estado. Enquanto isso, o Caiado mandou para Bonfim uma escolta policial numerosa, sob o comando de um tal Tenente Quirino, pouco responsável e amante da bebida, fazendo retornar, devidamente garantido por essa escolta, o juiz deposto. Os ânimos continuavam extremados, e o juiz profundamente magoado, rancoroso — que era —, apoiado fortemente pelo Senador, tratou de tirar todas as desforras antigas e atuais. O pau cantou de ponta a ponta em todos os oposicionistas. Três agressões policiais, às quais assisti, nunca me saíram da memória: uma foi vítima o João Pinheiro, amigo e correligionário do coronel Chico Correia, nas proximidades da casa desse chefe, onde eu me encontrava na ocasião. Levou tapas, socos e pontapés de mais de dez praças, sendo levado para a cadeia; outra recaiu sobre um preto, camarada do Cel. Chico, na chácara de sua propriedade, bem próxima da cidade. Foi preso para dizer como e onde se preparara a turma para depor o juiz. Como não soubesse, e não quisesse revelar, levou pancadas desde a chácara até a cadeia pública, aonde chegou pondo sangue pela boca; a terceira se deu com um sírio chamado Nagib Miguel, companheiro de jogos de cartas do coronel Chico Correia, em cuja casa se hospedava periodicamente, pois tinha residência em Uberaba. Começou a falar sobre as arbitrariedades e os absurdos cometidos a título de manutenção da ordem, até que foi preso no meio da rua e levou tamanha surra a caminho da cadeia, de onde só saiu para deixar a cidade, sob ameaça. O Benjamin*, principal responsável pelo evento, já havia fugido da cidade, refugiando-se numa das fazendas de seu sogro, abandonando sua casa comercial e todos os negócios em Bonfim. Com a paralisação destes e o fechamento de sua loja, aliados às despesas de toda ordem que surgiram, ficou a zero financeiramente, mesmo porque estava praticamente começando a vida e não tinha bens acumulados. 64


Em consequência das despesas de advogados, execuções de dívidas, viagens a três por dois, tudo isso resultava na cabeça e nos bens do coronel Chico Correia. Seus haveres eram expressos em bens imóveis, fazendas e gado de criar. O sogro, lançando mãos dos mesmos, foi vendendo-os a qualquer preço e acudindo as despesas. Sua família, seus filhos, sofreram todas as consequências, inclusive na própria educação. Sob a acusação de chefe de sedição armada, o Benjamin foi preso numa madrugada na Fazenda Conceição, de propriedade de seu dito sogro. Encaminhado à capital do Estado, enquanto por lá se desenvolvia o julgamento, o juiz Airosa, receoso de uma absolvição, já mandara investigar a vida pregressa do Benjamin, em Minas e em São Paulo. Descobriu que, certa vez, em Barretos, salvo engano, fora ele portador de um pagamento a determinado boiadeiro e entre as cédulas tinham sido encontradas algumas falsas. O Benjamin assumiu a responsabilidade. Antes, pois, de sua libertação em Goiás, já era o Benjamin requisitado pela Justiça de São Paulo, para responder pelo crime de notas falsas, ainda não prescrito e já investigado pelo Padre Salomão. Em São Paulo esteve preso por um ano e tanto, sendo submetido a julgamento e condenado. A esse tempo, o juiz de Bonfim havia conseguido um segundo julgamento para o acusado, em Goiás, na intenção de condená-lo também aqui. Foi o seu grande erro. Escoltado por policiais de São Paulo até Roncador, ponto terminal da Estrada de Ferro, ali foi o Benjamin entregue à escolta goiana. No pouso em Bela Vista de Goiás, na viagem para a cidade de Goiás, ele conseguiu fugir de maneira espetacular. Sobre essa fuga há versões diversas. Uns dizem que o comandante da escolta, simpático à causa política oposicionista ao Caiado, favorecera a fuga. Outros dizem que houve mesmo perícia e habilidade do grupo do Benjamin, entre eles o Deocleciano Machado, que farreou com os policiais até alta hora da noite, deixando-os todos bêbados. O Benjamin jamais incluiu quaisquer dos seus amigos no episódio. Dizia que realmente ludibriara a escolta. Mais tarde, ficamos sabendo, por ele mesmo, que, fugindo de Bela Vista, dirigiu-se pelos matos rumo ao Passa-Quatro, chegando já tarde à fazenda do Gracianinho, que, a muito custo, lhe cedeu um cavalo sem arreios, no qual ele continuou a fuga montado em pelo. Dado o alarme, promoveram-se buscas em todos os cantos, a partir das cercanias de Bela Vista, até o município de Bonfim, onde elas foram intensas 65


e rigorosas, por mais de sessenta dias, sem nenhum resultado. O homem simplesmente desaparecera. Até nós, que éramos de dentro da casa do tio Chico, ignoramos, por algum tempo, o paradeiro do Benjamin. Passados alguns tempos, quando já amortecidos os ânimos, soubemos que ele estava na Fazenda Buriti, no município de Bonfim, próxima à divisa com o município de Corumbá. Eu já tinha estado diversas vezes nessa fazenda após a sua fuga e nunca desconfiara de sua presença ali. É que ele não ocupara a casa da sede. Quando se transferiu para ela, construiu um sistema para escapar, em caso de surpresa, por um subterrâneo de mais de cem metros pelos fundos da casa. Nunca foi preciso usá-lo, no entanto. A sua casa comercial em Bonfim, com apreciável estoque de mercadorias, tinha sido reduzida a nada. Em contrapartida, os débitos eram muitos. As firmas credoras pressionavam o coronel Chico Correia. Houve uma, cujo procurador, um advogado safado, logrou obter, por meios escusos, uma carta de responsabilidade do coronel. Para isso, usou o estratagema de datilografar duas cartas iguais na aparência, uma dizendo que não se responsabilizava pela dívida do genro e outra dizendo o contrário, isto é, assumindo inteira e total responsabilidade pelos sobreditos débitos. Na hora da assinatura, enquanto o velho colocava os óculos, o advogado trocou as cartas, colhendo a assinatura na segunda. Reconheceu a firma e executou o velho, recebendo tudo! Mesmo com esses e outros fatos, com a fortuna do velho sendo desbaratada, com as perseguições de todos os lados, ganhava ele, por larga escala, todas as eleições de Bonfim, inclusive a de Nilo Peçanha versus Artur Bernardes, em 1922. A casa de residência do tio Chico Correia, em Bonfim, era uma espécie de sede de concentração de todos os roceiros do munícipio. Todos ali aportavam, nas suas vindas à cidade, lá comiam, lá dormiam, lá colocavam seus cavalos no pasto, tomavam-lhe dinheiro emprestado; afinal ele era o patriarca de meio mundo. * Acerca dessa narrativa, convém ressaltar que, no segundo volume de Bonfim, Sêneca Lobo faz a seguinte retratação: “Sirvo-me ainda desta abertura para me penitenciar perante os descendentes de Benjamin Lemes do Prado, que se sentiram ofendidos pela publicação do episódio “Sedição em Bonfim”, do qual foi ele a figura principal cujo acontecimento abalou meio mundo dentro e fora do Estado. Naquelas memórias não fiz análises pessoais das condutas e honorabilidades particulares das pessoas envolvidas nos diversos fatos relatados. Se o tivesse feito, estaria sem dúvida o que todos os contemporâneos de Benjamin Lemes do Prado conhecem e a própria história no seu registro imparcial confirmar a sua ilibada conduta moral, comercial, social e familiar durante a sua vida em nossa terra. Idêntico atestado daria às demais figuras desse mesmo episódio, como ao juiz de Direito Airosa Alves de Castro e outros mais participantes dos acontecimentos que rememorei, todos eles de alta respeitabilidade na vida particular”. 66


Os paradoxos da vida

Em continuação aos episódios já narrados, envolvendo políticos e o juiz de Direito de Bonfim, devo acrescentar fatos posteriores que demonstram como as cousas se modificam e alteram as situações anteriores tidas como inabaláveis. O juiz de Direito, Airosa Alves de Castro, bem ou mal continuou no exercício de seu cargo, mas era sempre temido não só pelos adversários, mas também pelos próprios correligionários. Aí pelo ano de 1924, três cidadãos proeminentes de Bonfim, partidários da política oficial do Estado, mas que conheciam e viviam esses acontecimentos que praticamente paralisaram o progresso da cidade, resolveram ir até ao senador Caiado pedir a remoção do mencionado magistrado. Entre eles posso citar dois, o coronel Zeca Louza, fazendeiro influente e de grandes posses no munícipio, e o comerciante não menos prestigioso na cidade, Manoel Caetano Nascimento Sobrinho. Estes, acompanhados de um terceiro, cujo nome não identifiquei, foram os portadores da mensagem de solicitação ao senador Caiado, no sentido de mover de Bonfim o juiz em questão. O senador, político arguto e inteligente, aproveitou-se do pedido e beneficiou as duas partes. Uma lei recente, votada sob sua orientação, aumentara o número de desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado, e, então, o senador, atendendo ao pedido de seus amigos, promoveu o Dr. Airosa a uma cadeira no Tribunal, removendo-o assim da comarca e ficando todo mundo satisfeito. Os tempos passaram-se, e, vitoriosa a Revolução de 1930, o interventor federal em Goiás, Dr. Pedro Ludovico, servindo-se da lei de exceção baixada pelo novo Governo Federal, livrou-se de diversos adversários ocupantes de


cargos importantes da administração pública, entre eles os dois ou três desembargadores amigos de senador Caiado. Aposentado compulsoriamente, o Dr. Airosa não teve dúvidas, voltou para Bonfim, onde tinha casa própria, boa e confortável, ali fixando-se agora como advogado. Aliás, diga-se, a bem da verdade, que, como advogado, era respeitado dados os seus conhecimentos jurídicos. Nesse tempo, o Benjamin já circulava livremente pela cidade, sem, contudo, ter-se livrado da condenação em São Paulo. Era chefe político de Bonfim o coronel Felismino Viana, que se desentendeu com o então promotor público, Otacílio Ferreira. Num inquérito contra este, o depoimento do Benjamin foi decisório para a remoção daquele representante do Ministério Público para a Comarca de Tocantinópolis. A propósito, o Otacílio dizia: “Vou para Tocantinópolis montado no Felismino e puxando o Pedro Ludovico!”. Mas o Cel. Felismino ficou grato ao Benjamin e, sabendo de sua situação como foragido da justiça de São Paulo, encarregou o Dr. Airosa de procurar livrá-lo. Aí aconteceu o paradoxo: o próprio homem que o condenara em São Paulo passou a advogar a defesa do Benjamin. E o Dr. Airosa não se fez de rogado, inteirou-se da situação, descobriu que já havia ocorrido a prescrição da punibilidade, requereu-a e obteve o documento de reabilitação do Benjamin, entregando-o ao Cel. Felismino. Perdida a eleição do brigadeiro Eduardo Gomes, em 1945, o Dr. Airosa mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde faleceu, sem mais voltar a Bonfim.

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A viagem do medo

Ainda na efervescência da política da minha cidade natal, estava eu na Fazenda Buriti, com a família do meu tio Chico, quando participei de uma viagem à sede municipal, em busca de provimentos diversos, viagem da qual jamais me esqueci. Numa bela manhã de junho, partimos da fazenda rumo à cidade. Éramos três: o João Mulatinho, o Honorato e eu. Levávamos um burro cargueiro, transportando gêneros para a cidade e, de regresso, traríamos provimentos no mesmo cargueiro. A cidade continuava numa verdadeira praça de guerra para aqueles tempos: entradas vigiadas, policiais por todas as ruas, buscas de armas, etc. Como saímos bem cedo, conseguimos numa só marcha de doze horas atingir a cidade. Descarregamos o cargueiro e pernoitamos. Na manhã seguinte, procuramos o Waldemar, que então ocupava o cargo de subpromotor público em exercício, na ausência do titular efetivo, para nos ajudar a chegar ao Largo do Rosário, onde ficava a loja do Benjamin, fechada e vigiada. O Waldemar era a única autoridade da corrente do tio Chico, e, como subpromotor público, a polícia o respeitava. Os nossos provimentos incluíam roupas, tecidos, calçados, miudezas em geral, utensílios de copa e cozinha, etc., tudo a ser retirado da casa comercial já referida. E, o pior de tudo, devíamos levar, também, cinquenta caixas de balas de carabina da mesma loja.


O Waldemar nos acompanhou até a porta da loja onde deixamos os animais de montaria e o cargueiro sob os cuidados do Honorato; abrimos a porta de lado, nela entrando o Waldemar, o João e eu. Lá dentro, tratamos de separar todos os artigos constantes na lista que trouxemos. O grande problema eram as caixas de balas. Onde e como acondicioná-las de modo a não serem facilmente descobertas pela polícia? O Waldemar refletiu, pensou e, por fim, resolveu que iríamos colocá-las dentro das botinas. Apanhamos 25 pares de botinas mateiras, de goma elástica, dessas usadas na roça. Elas vêm dobradas, cada par amarrado com barbante, com os solados para fora. Nós desamarrávamos as botinas e metíamos uma caixa de balas dentro de cada uma, tornando a dobrá-las e amarrar. Só que ficavam muito pesadas... Vistas assim de longe, nada revelava a existência de corpo estranho nos calçados, mas, se pulsadas, via-se logo qualquer anomalia por causa do peso. Tudo pronto, passamos a carregar os volumes para o cargueiro. Levamos primeiramente os dois sacos, um com doze pares e outro com treze pares das tais botinas-balas. Eu, menino que era, apavorado com a cadeia de desordens, abusos, prisões e espancamentos que se desencadearam na minha terra desde a deposição do juiz de Direito, só faltava morrer de medo. Estava auxiliando aqueles trabalhos, quase tremendo e numa tensão nervosa muito grande. Tão grande que, até hoje, 57 anos depois, ainda me arrepio todo quando me recordo daquela viagem. Aliás, nunca dela me esqueci, prova é que estou transportando-a para o papel justamente pela importância e significação que o episódio representou na minha meninice. Depois de tudo carregado, montamos nos cavalos e saímos do Largo do Rosário, puxando o burro de carga, sob os olhos curiosos de muita gente, inclusive de soldados. Até sair da cidade, cada pessoa que eu via na rua dava-me a ideia de que viria nos fiscalizar. E, em todo trajeto de volta à fazenda, o mesmo acontecia quando eu notava qualquer cavaleiro à nossa retaguarda. Para despistar algum espião, ao invés de tomarmos o caminho certo da fazenda, resolvemos dar uma volta, saindo pelo lado da Fazenda Gameleira, do meu tio Pedro, distante três léguas. 70


Desta, tomamos o rumo da ponte de Piracanjuba, beirando o Córrego Gameleira até sua barra no Rio Vermelho e, seguindo este até o Piracanjuba, do qual é afluente. Ao escurecer, chegamos à Fazenda do Tonico Bueno, onde pousamos. O meu medo era tal que pouco ou nada dormi. Bastava os cães ladrarem, o que é muito comum à noite na roça, e eu já imaginava um batalhão de policiais em nossa perseguição! Ao amanhecer do dia seguinte, atrelamos os animais e partimos rumo ao Buriti. O medo continuava comigo pela estrada afora, sempre aumentando com qualquer encontro e, principalmente, quando algum cavaleiro nos alcançava. É que, tocando cargueiro pesado, a nossa marcha era vagarosa e sempre éramos ultrapassados por outros que seguiam a mesma estrada. Assim foi até chegarmos à fazenda, quando respirei aliviado e pude comer e dormir com menos medo. Sem medo de tudo, nunca fiquei naqueles tempos, pois a figura de soldado prendendo e batendo estava sempre em minha memória. Esta foi uma verdadeira “viagem do medo”.

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Parte 3

O vai e vem das causas e efeitos determinando o futuro

O meu tio Chico Correia, para se defender de demandas em Bonfim, recorreu, entre outros, a um advogado de Uberaba. De lá, lhe mandaram o prático provisionado Quirino Pucci, irmão do médico e político uberabense, Dr. Boulanger Pucci, atuante em Uberaba no ramo criminal. A vinda do Quirino Pucci a Bonfim, onde permaneceu por três ou quatro meses, o relacionou de perto com toda a nossa família. Conhecedor dos problemas e dificuldades que enfrentávamos para estudar, ofereceu à minha mãe para me dar casa e comida em Uberaba, onde eu poderia continuar os estudos. Lá fui eu, em 1922, para Uberaba, onde assisti o final da apuração da eleição presidencial, disputada pelo Nilo Peçanha e Artur Bernardes. Também um final de comício na Praça da Matriz, com pancadarias e correrias, inclusive dos músicos componentes da banda que abrilhantava a concentração, muitos dos quais levaram quedas e estragaram os instrumentos. Também lá a oposição acusava tremendamente o juiz de Direito, Fulano de Tal Tinoco. O jornal A Separação, órgão da oposição, trazia sempre uma coluna com o título “Tinococos e Servengonhococos”, na qual metia o pau no juiz. Lá assisti, também, à comemoração do primeiro centenário da Independência, com muita festa e muita gente. Segundo dissera o Quirino Pucci, havia então um mal-estar entre as famílias importantes de Uberaba e o Ginásio Diocesano, o que justificou a minha ida para o Colégio Uberabense, situado no Alto do Fabrício, de


propriedade particular do professor Francisco de Melo Franco, seu diretor. Nele estudavam, nesse tempo, membros das famílias Marquez, Miranda, Oliveira, Barbosa e outros filhos de importantes pessoas de Uberaba. De Goiás éramos três: Sebastião Parreira, de Jataí, Paranaíba Santana, filho do jornalista Moisés Santana, e eu. Nessa época, ocorreu o assassinato desse escritor e jornalista goiano. Uma tarde estávamos no recreio que precedia a aula vespertina, quando chamaram com urgência o colega Paranaíba. Logo que entramos na sala de aula, o professor-diretor comunicou-nos a chocante ocorrência e, como se tratava de pai de aluno, suspendeu a aula em sinal de respeito ao morto. Moisés Santana era de uma vivacidade excepcional, aliada a uma inteligência brilhante, como todos sabem, mas era ferino. Atacava pela imprensa, sem dó nem piedade, todos aqueles que lhe parecessem desvirtuados de suas obrigações na vida. Em Uberaba, colaborava nos dois jornais locais: no Lavoura e Comércio, do empresário Quintiliano Jardim, cuja redação ficava na Rua Grande, quase chegando à Praça Rui Barbosa, e no A Separação, mantido por Dr. Boulanger Pucci, Nicanor de Sousa e outros, com redação na Rua do Comércio, bem em frente à Ladeira São Domingos. Nesse último jornal, Moisés Santana publicou artigos ou sátiras ofensivas à pessoa do chefe do executivo uberabense. Dizem que, pressionado pela própria esposa, foi ele tomar satisfações com o jornalista: encontrou-o na redação do primeiro jornal, onde se deu o fatídico desfecho, perdendo Goiás e o Brasil um grande escritor e jornalista. A cidade de Uberaba, naquele tempo, era bem pequena. A Praça Rui Barbosa, com um jardim bem cuidado, a Igreja Matriz, a grande casa do Zé Caetano Borges e outras de fazendeiros ricos, o Cine Politeama, único em funcionamento, já que o outro, o São Luiz, na mesma praça, tinha sido incendiado e não fora restaurado. As casas comerciais: Casa Garraba, Casa Caldeira, Notre Dame de Paris, a Câmara Municipal, sede do Governo Municipal. A Rua Artur Machado, conhecida por Rua do Comércio, era a via mais importante da cidade, ligando a Praça da Matriz à estação da única estrada de ferro lá existente naquela época, a Estrada de Ferro Mogiana. A estação era muito movimentada nas horas de trem: às 13 horas, passava a composição vinda de Araguari rumo a Campinas de São Paulo; às 16 horas, vinha a composição inversa. O transporte de passageiros da estação para o 74


centro, bem como em qualquer sentido, era feito quase que exclusivamente por “carros de praça”, puxados por trelas de belos e bem escolhidos cavalos, bem tratados e escovados, uns até usando polainas bem engraxadas e brilhantes. O cocheiro ia lá em cima, no banco próprio, comandando os animais. Vestia-se com esmero próprio da época e empunhava um comprido e fino rebenque, com o qual fustigava os cavalos. Não havia, a bem dizer, automóveis em Uberaba, como aliás em nenhuma cidade do interior. Lembro-me de que, de aluguel, apenas três carros da marca Fiat faziam serviços na cidade... Eram daqueles antigos carros, providos de alavancas de comando externo, no paralama, pelo lado direito. Era de muito luxo e importância na época passear de automóvel, com a capota arriada, pelas ruas de Uberaba. Havia lá um rapaz que fazia, sempre, esses passeios nas tardes de domingo e cujo nome, parece-me, era Paulo Manita. Automóveis particulares, apenas as famílias ricas de Uberaba possuíam. Nas festas de Carnaval, nos chamados corsos, é que a gente via todos os automóveis juntos nas ruas, formando os belos cordões carnavalescos, ligando-se uns aos outros pelas centenas de cordões de serpentinas de todas as cores. Ao Carnaval, precedia-se o chamado Zé Pereira, com desfile de grupos fantasiados, carros alegóricos, bandas de músicas, bombos e zabumbas rufando pelas ruas, atraindo todo o povo de Uberaba que, diga-se de passagem, era bem festeiro. Para comprovar que tenho boa memória, vou lembrar, aqui, umas quadrinhas cantadas no Carnaval de 1923, em Uberaba. Havia lá um senhor, Souza Neto, que tivera a luminosa ideia de dotar a cidade de “bonde elétrico”. Como era de ver, a ideia para o tempo era maluca. Mas o seu autor lutou por ela, divulgou-a quanto pôde e convocou todos os cidadãos válidos de Uberaba a aderir à ideia. Isto lhe valeu, no Carnaval daquele ano, a quadrinha bem cantada em coro pelo bando do Zé Pereira e pelos cordões do Carnaval: Depois de muito trabalho Souza Neto inventou Um tal de bonde elétrico Que nunca funcionou. 75


O Coro: Ai... ai...ai... Não quero me machucar Deixa eu sair da frente Pro bonde poder passar. A força do comércio de Uberaba localizava-se na Rua Artur Machado que, por isso, recebeu a alcunha de Rua do Comércio. Lembro-me de Alexandre Campos e Cia., da Casa Pinhataria, da Casa Oliveira, de Bruno de Oliveira, cujo filho Omar foi meu colega; da Padaria Pucci, do Foto Zacardi, das confeitarias Taco de Ouro e El Dourado, esta última funcionava como uma espécie de cabaré; de hotéis e pensões diversas, da tal forma que toda a rua, de ambos os lados, era quase só de comerciantes. Em Uberaba, assisti à transferência do campo de futebol do Uberaba Esporte, do Largo da Misericórdia, onde era de chão, para o Alto das Mercês, ao lado do Ginásio Diocesano, com campo gramado e moderno. A inauguração foi realizada com o jogo mais importante até então acontecido no interior do Brasil, com a vinda do Paulistano, de São Paulo, na época o maior time do Brasil, integrado por Friedenreich, Formiga, Netinho e outros grandes craques nacionais, sendo o primeiro nomeado o então Pelé daquele tempo. Lembro-me de que veio uma composição inteira da Mogiana, trazendo o quadro de São Paulo, tendo sido destinado aos hóspedes um quarteirão de casas em Uberaba, que ficava ao lado esquerdo da Igreja Matriz. Assisti, também, à disputa do campeonato local, entre o Uberaba Esporte e a Associação Atlética do Triângulo — o Rede —, que apaixonou a cidade inteira, com reflexos até na política, envolvendo adultos e crianças, inclusive nosso Colégio, onde briguei muitas vezes pelo Uberaba Esporte. Mas este ganhou de tal forma que o Rede acabou! O beque Badu, preto chistoso, fez um dos gols e, por isso, ganhou um automóvel.

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O regresso à casa-mãe

No ano de 1924 deixei Uberaba, regressando a Bonfim. A Estrada de Ferro de Goiás que na minha ida, em 1922, estava em Roncador, já havia avançado até a Estação de Tapiocanga, situada pouco além de Campo Formoso, a qual alcançamos já à noitinha. No amanhecer do dia seguinte, quando me aprontava para seguir viagem, encontrei-me casualmente, no rancho-hotel onde pernoitamos, com o meu irmão Oswaldo, que ia para Mariana, no Estado de Minas, completar os estudos de ordem maior. Ficamos felizes pelo acontecido, visto que desde 1919 não nos víamos. Parti para Bonfim, de automóvel, via Campo Formoso, em carro da Autoviação Roncador—Anápolis, de propriedade de Pio José da Silva, à qual já me referi. O ponto de almoço era no lugar denominado Brejão, onde havia a pensão do Tibúrcio de Morais. Ali o meu dinheiro tinha-se acabado e, por sorte, viajava conosco um frequentador da casa do tio Chico, conhecido por Zequinha Jogador, que me emprestou cinco mil réis. Chegando a Bonfim, encontrei a nossa casa ocupada por outros e a minha mãe residindo na casa do tio Chico. Este, com a família, mudara-se para a fazenda, devido às perseguições policiais oriundas da política que, infelizmente, ainda imperavam na cidade. Não pretendendo nem podendo me dar o luxo de ficar à toa, passei a ajudar o meu tio Chico nas vaquejadas, compra e vendas de bois, que era o seu principal ramo de negócio. Transitávamos com boiadas da Fazenda Buriti, Rio dos Patos, para a Fazenda Tavares, do Chiquinho Correia Moço, onde foi


posteriormente construída a Estação Tavares da Estrada de Ferro, cujo nome mudou-se para Vianópolis, em homenagem ao coronel Felismino Viana, político e empresário influente no meio. Antes de dar sequência aos fatos que venho relatando sobre a minha vida, volto aos costumes da minha terra, naquele propósito de retratar para a juventude atual, que, por acaso, vier a me ler, a diferença imensurável dos costumes, embora não seja muito fácil uma pessoa do mundo atual entender ou assimilar, pela leitura, costumes e meios de vida de cinquenta anos atrás. Na minha infância, por exemplo, os meninos vestiam camisola até os nove ou dez anos de idade, quando podiam usar calças. As casas de residências não dispunham de quaisquer instalações de água, luz ou sanitários. As construções eram primitivas. As casas dos mais ricos eram assoalhadas, mas as da classe média abaixo eram de terra batida. Os banhos eram de bacia, em casa, durante a semana. Aos sábados, os homens iam ao córrego mais próximo “lavar o corpo”. A propósito disso, lembro-me de que a mulher do Dr. Alarico Jaime, que se mudou para Bonfim lá pelo ano de 1920 e tantos, dizia: “O povo daqui só toma banho aos sábados, assim mesmo ainda pergunta o Ico se não faz mal”. Meios de comunicação praticamente não havia, ou eram precários. O primeiro rádio que entrou na minha cidade foi trazido em 1924 ou 1925 por Dom Emanuel; era um aparelho primitivo, com fones individuais colocados no ouvido de cada ouvinte. Nas nossas casas se fazia de tudo, suprindo-se os moradores com os próprios recursos. A iluminação caseira era com velas de sebo, feitas também em casa. Cozido o sebo, enquanto derretido, era colocado nas fôrmas confeccionadas pelos funileiros. Para isso, havia uma técnica especial que bem cedo aprendi, ajudando a minha mãe. Tomava-se o novelo de linha de algodão e faziam-se os cordões no braço esquerdo, passando-se os fios pelo polegar e cotovelo, justamente o tamanho da fôrma. Colocava-se um pauzinho de lado, introduzia-se o cordão na fôrma e amarrava-se no bico com um nó-laçada. Derretido, o sebo era derramado na fôrma e colocado numa lata cheia de água fria, sobre a qual se punha uma grade para segurar as fôrmas de pé e livres de se afundarem. Essa operação era feita sempre aos sábados de cada semana, fabricando-se velas para a semana seguinte, até o outro sábado. Devidamente coagulado o sebo, retirava-se a vela da fôrma derramando-lhe água quente por fora, o que provocava o descolamento da vela. 78


A maioria da população era mista, meio urbana, meio rural. Todos ou quase todos tinham as suas lavouras de plantação fora da cidade, das quais tiravam os gêneros alimentícios de primeira necessidade. Praticamente ninguém comprava arroz, feijão, toucinho e muito menos frutas e verduras, porque todos os cultivavam. As casas de vendas daquele tempo comercializavam apenas bebidas, sal e alguma cousa enlatada, como sardinhas, cocadas, etc. Para se vestirem, plantavam o algodão, que, depois de colhido, era descaroçado em moendinhas de madeiras, adredemente preparadas, chamadas de descaroçadores, no mesmo processo de passar a cana no engenho. A seguir, o algodão era cardado, operação também que exigia técnica e prática, para ser fiado em rodas acionadas com o pé ou no fuso manual. Com os fios assim obtidos, faziam-se os novelos, tanto de algodão como de lã, os quais eram entregues a tecedeiras, mulheres que possuíam o tear, fabricado de madeira e operado com mãos e pés. Faziam-se tecidos lindos para calças e camisas de homens, cobertas de todas as cores, algumas maravilhosas no desenho e na arte. A vida nas cidades era quase a mesma do campo, da fazenda, com autossuficiência. À exceção do sal, que era buscado de longe, desde o Campo Santana, no Rio de Janeiro, até Araguari e Roncador, em tropas e carros de bois, tudo o mais era produzido nas próprias localidades. A iluminação na roça era mais atendida com azeite de mamona, feito em casa, nas antigas candeias que hoje enfeitam algumas salas de gente rica como objeto de adorno. O açúcar era produzido pelos próprios engenhos de madeira, fabricados em casa, mais tarde substituídos pelos engenhos de ferro. O mais conhecido era o da marca Stamato, e era um açúcar muito gostoso, saboroso, mesmo para se comer as pedras, como se chamavam as partes não inteiramente trituradas. Os meios de transporte, todos os tinham: o carro de bois, para as cargas pesadas; os cargueiros, para os transportes médios, e o cavalo para o transporte individual de pessoas. Por isso, quase ninguém necessitava de dinheiro em espécie. Não havia bancos; o primeiro a instalar-se no Estado de Goiás, creio eu, foi o Banco Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais, em Vianópolis, no ano de 1926, salvo engano, sendo seu gerente um goiano, Fausto Rosa, e o contador, outro goiano de coração, o Alfredinho. 79


Os folguedos, que os havia também e bons, eram com a pinga feita nos engenhos de cana, os tiros com ronqueiras, arcabuzes e clavina, alimentados com pólvora preta também de fabricação caseira. As notícias do Rio e São Paulo vinham de mês em mês, pelos jornais trazidos pelo Correio, serviço feito nas costas de burros. De Bonfim, mandava-se um cavaleiro a Corumbá de Goiás, distante mais de oitenta quilômetros, para passar um telegrama no Telégrafo Nacional. Aí pelo ano de 1925, o correio passou a ser semanal na minha terra, fato que provocou entusiasmo no povo, quando o Euclides Lobo, meu primo e ardoroso patriota, ansioso de progresso, subiu nas calçadas da Prefeitura e fez um discurso congratulando-se pelo “grande acontecimento”.

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Parte 4

Fazenda Gameleira

O meu avô Zeca Umbelino procurou encaminhar o filho Pedro no comércio. Não deu certo. A experiência foi negativa. O moço faliu no comércio e levou o pai ao pagamento de todas as dívidas. O castigo foi mandar o filho para a roça. A Fazenda Gameleira já tinha cafezais e casa rústica de morada; era bem próxima da cidade, mas nem por isso deixava de ser ainda sertão, isolamento para um solteiro habituado na cidade. O filho tinha sangue quente. Enfezou-se, foi para frente, cresceu, ficou rico, tornando-se um dos grandes fazendeiros da região. A primeira vez em que fui à fazenda, garupando no cavalo do Jarbas, que estudava no Colégio de Nico Euzébio, morador da nossa casa, achei tudo uma beleza. Encantou-me, particularmente, o complexo do engenho de cana. A casa enorme, sem esteios no meio, abrigando o engenho grande, de madeira, que cantava ou roncava bonito nas madrugadas frias daquele tempo. Logo abaixo, em plano inferior, as tachas de cobre, a bruta fornalha alimentada a lenha, o alambique, os cochos de garapa, melaço e fermentação da pinga, as pipas, as fôrmas de açúcar, o rego d’água que passava à altura de nossas cabeças. Os bois que rodavam o engenho, com os nomes escolhidos pelos próprios carreiros ou amansadores, o Suplente, o Letrado, que trabalhavam no cabeçalho. Aprendi todas as nomenclaturas daqueles sistemas primitivos. O carro de bois, por exemplo, é composto de mesa e rodas. A mesa se divide em cheda, cabeçalho, recavem, cocões, chumaços, assoalho e fueiros. O cabeçalho ainda se subdivide em pigarro e chaveia. As rodas compõem-se dos dois


rodeiros propriamente ditos e do eixo, subdividindo-se as primeiras em meãs, cambotas, ferragens e outras. No sistema de tração vêm os bois que são argolados; os ajoujos, as cangas, os tamoeiros, os canzis e as brochas; os cambões com chaveia e tiradeira. No engenho de cana, havia as moedas com os dentes de engrenagem, a mesa, sobre a qual eram introduzidas as canas para a moagem; as manjarras, que se atavam aos bois para a tração, e os picadeiros, que eram para os depósitos de canas. Do engenho saía a bica que levava a garapa ao cocho, na sala de tachas. Os períodos de moagem eram sempre na seca, na entressafra, quando o elemento humano estava desocupado das lavouras. Havia ainda na fazenda o moinho de fubá, aquele da pedra-mó, acionado a água. Era uma bica que descia das alturas, para dar impulso à água, caindo diretamente na roda dotada de conchas predispostas ao recebimento de ducha forte, fazendo-a girar em velocidade suficiente. Da roda subia um mastro que passava pelo centro da primeira pedra-mó e era fixado na segunda. Esta girava sobre a primeira e, do atrito, resultava a moagem do milho. Havia um regulador para o fubá mais grosso ou mais fino, o que se conseguia com o ajuste da distância entre as duas pedras. O processo de fabricação do açúcar, que por sinal era delicioso, obedecia mais ou menos ao seguinte: dado o ponto desejado no melaço, era este retirado da tacha e colocado na masseira, na qual era batido com pás de madeira até esfriar. Depois era transportado para a fôrma feita de tábuas, com formato afunilado. Sobre o melaço já açucarado na fôrma, era posta uma espessa camada de barro bem amassado com os pés, de modo a fazer uma cobertura da fôrma. Aí seguia o processo da cura, ou seja, da secagem, filtrando-se a parte líquida, denominada “melaço de tanque”. Deste se fazia pinga, fermentando-o com outros ingredientes, em cocho de madeira. À medida que o açúcar ia clareando, era retirado da fôrma e posto ao sol para completar a secagem e ensacamento. Sobre a parte mais escura que ficava na fôrma, era colocada uma nova camada de barro, assim se procedendo até o final. Um dia, o meu tio pôs-me a vigiar a primeira destilação da pinga que era a “água fraca”. Resolvi provar o líquido. Gostei e repeti diversas vezes. Depois, fui levar merenda na roça e, pelo caminho, fui vendo as coisas rodarem à minha 82


volta, até que não pude mais andar e deitei-me à sombra de uma árvore. Aí então, o mundo inteiro girou na minha cabeça, meu estômago enjoou e vomitei até mais não aguentar. Notada a minha demora, veio alguém à minha procura e ali me encontrou no mesmo estado. Em casa foi aquele “pito”, ameaça de castigo, de me mandarem embora antes do término das férias, etc. Eu me levantava nas madrugadas juntamente com os demais para participar das moagens. O meu fraco era tocar os bois no engenho, ao mesmo tempo em que me deliciava com o seu ronco e com a garapa fresca, quase gelada, bebida em cuia. Durante o dia, ou eu ajudava limpar o engenho carregando os bagaços das canas moídas, ou, então, ia com os carros para o canavial vigiar os bois e ajudar a carregá-los no fim da tarde. As canas eram enfeixadas, amarradas com as próprias folhas verdes; nós disputávamos entre os meninos para ser aquele que aguentava o maior feixe. Depois, voltávamos dentro dos carros, empoleirados sobre as canas, ouvindo o seu cantar sereno e mavioso, tão apreciado pelos bons carreiros, quando não éramos honrados com a guia de bois, de vara de ferrão ao ombro. Aprendi também a bater o melaço para fazer “moça de engenho”, operação que exige presteza na hora exata de dar-lhe forma, o que era conseguido virando-se o prato de boca para baixo e torcendo a massa com a pazinha de madeira. Enquanto menino e rapaz, frequentei essa fazenda que eu reputava o melhor lugar do mundo. Depois de me tornar homem, em face das obrigações, do estado civil e de outras circunstâncias da vida, fui deixando de frequentá-la. Anos depois, voltei lá com o Israel, numa caçada de perdiz, quando o meu tio era viúvo. Ainda era uma fazenda muito boa, embora bastante modificada, e me trazia ótimas recordações da infância. A vida depois me levou para longe e não voltei mais à Gameleira, senão muitos anos passados. Tive grande decepção, pois tudo estava mudado, modificado, acabado. O engenho parado há longos anos, sem aquelas gostosas moagens, sem melaço, sem açúcar, sem pinga, sem nada daquilo que eu tanto amara e de que tanto gostara. Dizem os entendidos que o mundo, ou a vida, é uma constante renovação de tudo e de todos. Eu afirmo que não é renovação, é modificação e para pior, no mais das vezes. É verdade que o mundo moderno me trouxe muitas cousas boas, maravilhas eletrônicas, viagens espaciais, facilidades de comunicação, etc., mas, em contrapartida, nos tirou a tranquilidade, a simplicidade 83


da vida, a confianรงa e amizade sincera entre as pessoas. Passamos a disputar, a ferro e fogo, um melhor lugar, sem considerar nem prezar o nosso semelhante. Essa loucura em que vivemos nos dias atuais poderรก ser chamada de boa? Vivemos, hoje, melhor do que viveram os nossos pai e avรณs?

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Fazenda Buriti do Rio dos Patos

Teve sua época e marcou presença na minha e na própria história da minha terra. Era uma das quatro fazendas do meu tio Chico Correia e ficava a dez léguas da cidade, no Bairro Rio dos Patos. Nas andanças e escaramuças da política partidária extremada daqueles tempos, foi quando a conheci. Logo após a deposição do juiz de Direito, Airosa de Castro, o Benjamin ali se refugiou com os seus, guardado por uma dezena de homens de sua confiança, entre os quais alguns baianos, como o Zé Teófilo e outros. É verdade que toda essa gente trabalhava em lavouras, lida de gado, cercas de arame, etc., mas a sua manutenção principal era para a garantia da família, uma vez que falava então a lei do bruto, principalmente dos partidários dos Caiados, os senhores absolutos do reinado goiano até a Revolução de 1930. Na fazenda estavam sempre, além do Benjamin e esposa, os seus irmãos Jasset, João e Horácio, o cunhado Deco e, de quando em vez, o irmão menor deste, o Zé Correia. Nós que, então, morávamos na casa do Tio Chico, na cidade, estávamos sempre naquele vai e vem de viagens, levando e trazendo cousas e notícias. Outras vezes lá ficávamos na ajuda para compra e transporte de boiadas. O tio Chico comprava bois na região e tocava a boiada geralmente para a fazenda do seu sobrinho, Chiquinho Correia, nos Tavares, hoje Vianópolis. Ali o gado era negociado com boiadeiros vindos de Buriti Alegre, Barretos ou Minas Gerais.


O percurso da cidade ao Buriti, ao longo das dez léguas, era feito a cavalo, passando pelo Rio Vermelho, Cuscuzeiro, Piracanjuba, Ponte Alta do Tonico Bueno e pelas fazendas Conceição e Gameleira, estas também do meu tio. De quando em vez, dava pouso numa delas ou na casa do Antônio da Fraga, na Peleja, ou na do Félix, no Vau dos Currais. Nesse último pouso, casa pobre, gente boa, o Félix e a mulher, sempre discutindo sobre suas alimentações preferenciais — ele não comia arroz e ela não comia feijão. O Félix era louco por paçoca de amendoim, e sempre levava um bornal bem cheio nas suas viagens. Dizia: “Paçoca de madubim não pula corgo”. De sua casa ao Ribeirão dos Currais, no caminho para a cidade, mediava dois quilômetros, mas, ele, o Félix já dava uma parada ali para matular a sua apreciada paçoca! O seu rancho tinha uma sala, o quarto do casal e a cozinha. Numa noite chuvosa que lá fui obrigado a pernoitar, acomodei-me sobre um caixote na sala, que comportava apenas a metade do meu corpo, coberto apenas por uma toalha de algodão numa noite fria... Outra vez pernoitei na Fazenda Gamelas e o café da manhã era completa refeição, arroz, feijão, ovo frito, etc., o que para mim era completamente estranho. Não quis comer e viajei com o café simples, no propósito de almoçar pelo caminho. Aconteceu que, sendo costume na roça almoçar bem cedo, em toda casa que eu procurava a resposta era que já tinham almoçado. Viajei o dia todo em jejum... Nunca mais recusei a comida ao amanhecer! Na chamada Revolução de São Paulo, ou melhor, no decurso dessa Revolução que se estendeu por diversos anos, chegou à minha terra um batalhão carioca formado de voluntários, chamado Batalhão Paes Leme. Não existindo quartel na cidade, ficaram abivacados no Grupo Escolar Moisés Santana, bem pertinho da minha casa. Barulhos, gritarias, brigas, cornetas tocando, soldados na porta, na esquina, atentando moças, velhos e crianças. Essa proximidade me fez conhecer o oficial-comandante. Era o ano de 1924, e a Coluna Prestes invadira o Estado de Goiás, em trânsito para o Mato Grosso e a Bolívia. Passou pelas imediações de Anápolis e seguiu o rumo do Porto Pechincha, no Corumbá, cujo caminho passava por perto da Fazenda Buriti, na qual estavam tio Chico e toda família. Essa Coluna por onde passava ia praticando toda sorte de depredações, roubos e até assassinatos. Era preciso urgentemente mandar alguém à fazenda retirar de lá a família Correia. No entanto, o comandante do batalhão queria 86


notícias certas do trajeto das forças revolucionárias. Instado pela minha família e pelo comandante, acabei resolvendo incumbir-me da missão, um tanto perigosa, pois poderia ser apanhado pela Coluna como prisioneiro, refém ou guia, conforme faziam com os que encontravam. O Benedito Garrote se prontificou a me fazer companhia e partimos da cidade ali pelas onze horas daquela noite fria. Embora viajando vestido de capa de marca Ideal, o frio me queimou o pescoço. Pelo caminho, noite de luar, só temíamos ser surpreendidos pelos revolucionários. Até que, lá pelas tantas, nas proximidades da Fazenda Conceição, cheguei a divisar, a uma curta distância, um perfeito soldado de sentinela, empunhando um fuzil. Ficamos frios e já nos considerávamos presos, mas, à medida que nós fomos nos aproximando do sentinela, pudemos verificar a ilusão de ótica fortalecida pelo medo. Era uma moita de ramos tecidos pelos fios de aranha, banhada pelo sereno da noite e refletida pela lua, no formato de uma pessoa... Ao amanhecer, chegamos ao Buriti, alertamos o povo e retornamos à cidade imediatamente. Foi duro viajar a noite inteira de ida e o dia todo de volta! A fazenda mais próxima do Buriti era a do Joaquim Rodrigues, um velho fazendeiro, de respeito e tradição, que mantinha constantemente um ritmo enorme de trabalho na sua propriedade. Quem não conhecesse os costumes dessa fazenda e lá chegasse na hora da refeição, julgaria estar ali se realizando uma festa, tal era o número de comensais. A varanda de jantar era muito grande, bem assim a mesa muito comprida, rodeada de bancos que não comportavam os trabalhadores. O canto da sala de entrada ficava abarrotado de enxadas e foices desse pessoal. Nunca menos de trinta até quarenta pessoas lá militavam cotidianamente nas diversas lidas e todos comiam na casa. Aliás, tudo era grande nessa fazenda. O engenho de cana, marca Stamato nº 8, o único desse tamanho que já vi, era movido por oito bois, quatro em cada manjarra. Geralmente moíam seis carradas de cana em cada madrugada. As tachas eram dose para gigantes. Cada uma comportava bem uma carrada de cana moída. Faziam lá um açúcar que dava gosto de comer. Muito alvo e gostoso, fabricado em fôrmas grandes, cobertas de barro, naquele processo então usado em todos os engenhos. A criação de gado e porcos era também avantajada. Os capados, na engorda, somavam sempre quarenta ou cinquenta cabeças, porque não só eram 87


consumidos na casa, um por semana, como ainda abasteciam os agregados e empreiteiros. Era uma “abundância de fartura”, se assim posso dizer, contrastando frontalmente com as misérias da vida de hoje. De uma feita tivemos que abrir uma picada no cerradão, para a retirada de uma boiada comprada por tio Chico. Com esse gado, passamos pela fazenda do Manoel Fernandes, no Poção do Rio dos Patos. Aí falhamos um dia, arrebanhando as compras do fazendeiro. O Juca Félix, companheiro de jornada, fumante inveterado, ficou sem fumo dias antes. Dormimos na sala e bem sobre as nossas cabeças estava pendurado um bornal com belo rolo de fumo. O Juca se abasteceu fartamente. O dono deu pela falta no dia seguinte e reclamou a não mais poder, mas nós nada dissemos. Quando partimos desta fazenda, um marruá do Deco, chamado Varejão, manso de carro, deu para ruim, não querendo acompanhar a boiada. Numa dessas fugas, corri em auxílio ao Deco, para recuperar o boi, mas este disparou por uma campina abaixo, no fundo da qual havia uma cerca de arame que terminava na casa do morador. O danado do boi, não achando jeito de transpor a cerca, entrou pela casa adentro, causando pânico à mulher e seus filhos, que saíram correndo pelo quintal, gritando por socorro. Foi um Deus-nos-acuda para tirar o boi de dentro da casa e voltá-lo ao rebanho. Dessa feita, levamos a boiada para a fazenda do Manoel Caixeta, próxima, também, de Vianópolis. Na apartação, um boi passou por cima do meu irmão Luiz, que ainda era pequeno mas gostava da lida. Desmaiou e foi carregado para dentro da casa, mas logo recuperou os sentidos e nada teve de grave. Era assim a vida; esses fatos corriqueiros e sem importância servem apenas para retratar os costumes e o meio em que vivíamos. Mas eu, plagiando a Cora Coralina, pergunto: os homens de hoje são mais felizes que os daqueles tempos?

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Os cinemas ambulantes

Usando os meios de transporte então existentes, o carro de bois ou as tropas, os cinemas eram carregados de uma cidade para a outra, no mesmo sistema dos circos. Por isso eram chamados de cinemas ambulantes. Passavam pela nossa cidade, uma vez por ano, quando muito. Eram compostos apenas do projetor mudo, manual, equipado com dínamo, para produzir luz, tela, panos ou lonas para a cabine, bem como para cercar a plateia, esta parte sem cobertura. Para acomodar os espectadores, eram improvisados bancos com tábuas sobre cavaletes fincados no chão. Instalavam-se na praça principal da cidade, cujos trabalhos eram acompanhados de perto pela meninada ansiosa do novo espetáculo: — Chegou o cinema de Domingos Gomes! — O Valverde trouxe cinema novo! O acontecimento era uma satisfação para a cidade, que sempre vivia monótona. As donas de casa começavam logo a preparar as roupas domingueiras e os quitutes para serem comidos durante as sessões. Era uso naquele tempo levar-se ao teatro, circos ou cinemas, doces secos, passas ou mesmo biscoitos, porque ainda não existiam os vendedores ambulantes com tabuleiros pendurados no pescoço percorrendo as bancadas. Levantando o circo, o empresário fazia a propaganda de estreia. Um quadro de pano escrito “Hoje tem cinema” era levado pelas ruas da cidade, acompanhado por toque de caixas e por um bando de meninos curiosos. Bem antes da hora já estava chegando gente, comprando ingresso por um buraco no pano, entrando e acomodando-se nos duros bancos de tábuas.


Alguns, todavia, levavam cadeiras de suas casas e nelas se acomodavam nos espaços existentes. Como o cinema era mudo, havia sempre um gramofone daqueles de pescoço e campana, com discos do tempo da Casa Edison—Rio de Janeiro— Dobrado da Banda Guarda Nacional. Pam, pam, pam... Casa cheia, começava a função. A primeira cousa a ser feita era molhar a tela, operação praticada por meio de seringas grandes, de dentro da cabine, porque o projetor ficava do lado de dentro e projetava o filme contra os espectadores. Hoje falam que isso fazia mal aos olhos. Como o cinema era mudo, o povo conversava, ria, dava palpites e de quando em vez um menino gritava “Volta, boi!”, no justo momento em que era focalizado um bovino disparado para o lado da gente. Os filmes, velhos e surrados, arrebentavam constantemente, provocando interrupções. Outras vezes a projeção ia ficando ruim, apagada, e então parava-se para molhar de novo a tela. A temporada ia de quinze a trinta dias em cada cidade, repetindo-se cada filme duas, três ou quatro vezes. Mas quase todo mundo voltava nas reprises, porque não havia outra diversão e não era sempre que se dispunha de um cinema. Quando o cinema arriava os panos e partia, ficava na gente a saudade; os comentários duravam bastante tempo. Houve um tempo em que o Valverde instalou um cinema na casa grande da Dona Luiza, explorando-a por longo período. Por aquele tempo andava também pelas cidades goianas o humorista Cornélio Pires, com os seus dois caipiras e muitas piadas, sempre apreciadíssimas. Aliás, pagava a pena ouvir os dois violeiros, peritos cantores, vozes bonitas, modas caipiras selecionadas entre as melhores. As piadas de Cornélio Pires eram de fazer a barriga doer de risos. Esse humorista, pouco divulgado, contribuiu como o pioneiro nas comunicações com o povo, através do seu gênio de humorista inato, trazendo um pouco de alegria a muita gente no sertão goiano, pelo que devia ser hoje recordado em nosso Estado. Devo lembrar que até um filho da minha cidade, Lindolfo Louza, fazendeiro, entusiasmou-se pelo cinema ambulante e instalou um no Largo do Rosário, mas não me lembro quanto tempo durou a sua empresa, nem tampouco se o levou a outras cidades, para justificar o seu caráter de ambulante. Tempos depois 90


foi construído, por Antônio Gonçalves e Laudelino Pinto, um prédio para o cinema na cidade. Mas esta será outra história, páginas adiante, entremeada na vida do popular Zé Felício, meu conterrâneo. Antes dessa construção, ainda tivemos dois bonfinenses que tentaram um cinema no prédio da Escola Pública Municipal de Bonfim, prédio esse que então já estava abandonado e que é objeto das minhas recordações em “A escola pública”, neste relicário. Foram eles o Pedro Cirilo e o Oscar Caetano.

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Fazenda Terra Vermelha

Sei lá muito bem quando a conheci. Recordo-me da cerca de arame muito comprida, em reta, beirando a estrada de automóvel, eu sentado ao lado do Oscar Caetano, que dirigia o fordinho bigode. Da segunda vez que por ali passei, já foi com o Cláudio Bertoldo, no seu automóvel particular, em compra de cereais. Era uma fazenda antiga, de tradição naquele meio. O nome de Terra Vermelha talvez se devesse à cor da terra que realmente era vermelha. A casa, meu Deus, era daquelas enormes, construção centenária, cheia de corredores altos e baixos. Assoalhada como deviam ser todas as casas dos fazendeiros. Tábuas largas, nem sempre bem justapostas, deixando fendas visíveis aqui e ali. Na sala de visitas, uma mesa grande, com um banco de pernas altas, ao lado. O quarto de hóspedes ficava à direita da sala, na entrada do corredor que levava à varanda. Esta, de proporções avantajadas, talvez para acolher o grande número de pessoas que comumente frequentavam a fazenda e ali tomavam refeições, e, como ficava em desnível com o corpo da casa, havia um degrau bem baixo para atingi-la. Da varanda, atingia-se um quarto à direita, outro à esquerda, ambos com degraus de subida, bem como a cozinha, além da porta que descia para o terreiro. A cozinha também era de tamanho desproporcional, com piso lajotado, fogão de lenha bem grande, paredes esfumaçadas, prateleiras penduradas no teto, onde se depositavam vasilhas, carnes, queijos, etc.


O rego d’água passava em bica de madeira a alguns metros da cozinha, no qual eram lavadas as panelas, pratos, bem como era apanhada a água para uso da casa. Os currais, na frente da casa, eram fechados na parte de cima por muros de pedras, altos e nos demais lados, por cercas de madeira. De certa vez em que lá estive, os muros do curral estavam sendo reformados pelo Zé do Piúna, rapaz da minha terra, que ali se refugiara após a prática de um crime na cidade. A briga se deu entre ele e um outro, chamado Paulo Martins Apóstolo, por causa de mulheres, é lógico. O certo é que o Zé espantou o Apóstolo do quarto da mulher, pela qual era caidão, e o esperou de faca na mão quando ele pulava a janela, aplicando-lhe uma peixeirada na barriga. Não fosse o pronto socorro pelo Dr. Carlos de Freitas, que nesse tempo mantinha, na cidade, a Casa de Saúde, o Apóstolo teria ido juntar-se aos seus “colegas” lá no céu... O Zé fugiu e foi fazer muros de pedra, no que era perito, lá na Terra Vermelha. A fazenda teve durante muitos anos uma intensa movimentação de lavoura e gado, gente que chegava, gente que saía. Foi uma das primeiras a ter um telefone, ligando-a à cidade, com ramais para outras duas fazendas, o que facilitava muito as comunicações nos negócios e, principalmente, nos casos de doenças, não só do pessoal da fazenda como também dos vizinhos. O filho predileto do fazendeiro comprou logo um automóvel Ramona. Sempre houve nas famílias, principalmente nos antigos fazendeiros, um filho predileto. Aquele que o pai elegia para seu sucessor, na vã esperança da continuidade da cousa a seu modo. O escolhido ia sendo preparado para a sucessão, tinha mais apoio do pai, influía nas decisões e, com o avançar da idade paterna, passava a mandar em tudo e em todos. O automóvel servia de transporte da família à cidade, às fazendas de parentes e amigos e à festa de Trindade, uma vez por ano. Mas quem melhor o aproveitava era mesmo o filho predileto, nas farras e noitadas domingueiras na cidade ou na vizinha povoação situada na ponta dos trilhos da estrada de ferro, para cujo local afluíam as mariposas. Era natural que, como amigos do dono, nós outros também nos aproveitássemos do auto, principalmente nas recreações. Tanto o telefone como o automóvel serviram-nos grandemente de certa feita. É que, voltando da fazenda do Juvenal, onde estávamos fazendo divisão judicial de suas terras, o nosso 94


fordinho, dirigido pelo chofer, apelidado de Chefuá, deu uma batida numa pedra na estrada, amassou a caixa do volante e ficou imobilizado. O recurso foi mandar o pé na estrada, noite adentro, até chegarmos à fazenda do Alonso, dali telefonar à Terra Vermelha, e, após breve espera, o auto Ramona, bom, novo, nos transportou para a cidade. Mas, falando na divisão de terras do Juvenal, devo lembrar algumas passagens que me ficaram na memória. O homem da fazenda era meio miserável, ou talvez sem maiores recursos para tratar bem uma equipe de gente composta de uns oito, vinda da cidade para os trabalhos de entrega de quinhões. Ele queixava-se constantemente da despesa da boia, da demora do serviço, do prejuízo entre os preços das cousas e os fixados pela aposentadoria, o arrependimento de ter requerido a divisão, etc. Como o café da manhã era simples, descobrimos uma plantação de mamoeiros ali perto e, às tardes, trazíamos apreciável quantidade de frutas maduras que deixávamos sobre as cercas do curral. De manhãzinha, estavam bem frias, quase geladas, e eram comidas por nós, como tira-jejum. O agrimensor Jerônimo não tinha prática da cousa e fazia lentamente o seu trabalho, prorrogando por demais o tempo de estada do pessoal no local. Solteiro, bem-posto na vida, formado, tranquilo, o Jerônimo tinha até recebido do jornalzinho da terra, O Sacatrapo, editado pelo Paranaíba e pelo Dedit, um destaque especial nas suas colunas. O jornal se referia sempre aos passeios que o jovem engenheiro fazia a pé, nas tardes silenciosas e quentes da minha terra, andando pelas ruas, vagarosa e tranquilamente, boleando nas mãos a sua correntinha de ouro presa ao relógio de bolso. E tinha mais: era surdo e não gostava muito de tomar banho, o que lhe valeu o apelido de Jerônimo Gambá. Mas, voltando ao assunto da Terra Vermelha e para finalizá-lo, devo dizer que essa fazenda, depois da morte do velho, ainda funcionou bem alguns anos. Mas, com o passar dos tempos, as novas gentes, as dificuldades e outros empecilhos, ela foi sendo esquecida e abandonada. Muito tempo depois, quando por lá passei, numa caçada de perdiz, em companhia do meu filho menor, assistimos a uma cena digna de registro. A casa estava abandonada, e o mato crescia pelos velhos currais e quintal. Com o ruído do nosso automóvel, espantou-se bem uma dezena de macacos que estavam no quintal, gozando as delícias do abandono das canas e frutas. Os bichos vinham correndo pela cerca, subiam numa árvore grande, à beira 95


do muro da frente e, desta, saltavam para uma moita de bambus do outro lado do curral, numa demonstração da grande perícia e agilidade de que são dotados esses nossos ancestrais. A altura entre a copa da árvore e o bambu era de mais de cinco metros, e a distância chegava a oito metros. Os saltos eram cadenciados e coordenados, para não haver atropelamento. Cada bicho praticava o seu pulo isoladamente. O belo da história era que o galho do bambu, fraco e flexível por natureza, quando recebia o impacto do corpo do macaco, curvava-se até próximo ao chão. Na sua volta, o bicho se aproveitava do embalo e atingia o centro da moita com outro pulo magistral. Assim nós assistimos, estáticos e admirados, aquelas belas acrobacias de onze macacos adultos. O último era o filhote; quando chegou sua vez, teve medo e demorou alguns segundos a tomar decisão de pular. Enquanto isso, a macacada, do outro lado, o incentivava com gritos e assovios; com isso, o bichinho animou-se e praticou o salto, muito mais artístico que os dos velhos chipanzés. Foi uma beleza o espetáculo e lamentamos não ter máquina de filmar ou fotográfica para registrar aquela cena, porque dificilmente veremos outra igual.

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Zé Calado

Sério, olhos grandes, querendo saltar das órbitas, um tanto empapuçado, bigodudo, daqueles que jamais cortavam nem as pontas dos cabelos, cara feia, machado no ombro, lá ia ele todos os dias, pelas ruas da cidade, à procura de lenha para rachar. Conversa era nada. Raramente se lhe ouvia a voz. O povo, já acostumado ao seu modo, quando via à porta, ia logo dizendo: “Pode entrar, lá dentro tem lenha pra rachar”. O homem entrava, trabalhava até a hora de comer. Davam-lhe um prato de comida, que ele recebia, suando que pingava pelas faces. Comia calado, sorvia um ou dois copos d’água e, sem dizer uma palavra, voltava ao machado. De quando em vez, no acerto do serviço, cujo preço nunca dava, ao recusar com um gesto o dinheiro que reputava pouco, soltava um “não” rachado, com sua voz gutural e de difícil entendimento. Na verdade, era um humilde trabalhador, que lutava pela sua subsistência. Nenhum mal podia causar a quem quer que fosse. Morava no Largo do Rancho, naquelas casas que sempre constituíram mistérios para nós, meninos. Mas, o diabo é que o Zé Calado virava lobisomem nas sextas-feiras santas! Daí o mito de respeito e pavor que inspirava na meninada do meu tempo. E também em alguns adultos! Ninguém queria graça com o Zé Calado! Diziam que todos os anos, na noite de sexta para sábado, da Semana Santa, o homem virava lobisomem e saía pelas ruas da cidade, batendo queixo, seguido, de perto, por uma extensa matilha ladrando danadamente, mas nenhum cão chegava no bicho! Quantas noites de quaresma acordei e, ao ouvir


o ladrar de cães (na minha terra havia muitos), morria de medo do Zé Calado virado lobisomem. Suava frio na cama! — Querem uma prova?, diziam. Reparem nos seus dentes no dia seguinte. Estão cheios de felpas de pano, de roupas que mascou durante a noite, como lobisomem!

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Antônio Onça

Antigamente não havia serviço de abastecimento de água em nossas cidades. Aliás, até hoje muitas delas não o tem. O povo, de um modo geral, resolvia o problema com a “lata d’água na cabeça”, na fonte mais próxima, ou por meio de poço/cisterna, furado no quintal da casa. A minha cidade não escapava a essa regra. Como fontes naturais, tínhamos a do Bahú, célebre pela gostosura de sua água, e a do Buraquinho. Mas que Buraquinho! Tinha profundidade média de 25 metros e uma extensão de quatro quilômetros de largura. Era um senhor Buraquinho! As roupas do povo da cidade eram lavadas pelas lavadeiras no Rio Vermelho. Tanto neste como nas fontes, enquanto se quarava a roupa, ou se esperava o pote encher, saíam as fofocas, o disse-que-disse, na língua ferina das domésticas ou donas de casa, que também iam, e muito, às fontes e ao ribeirão. Como mestre furador de cisternas, tínhamos o Antônio André, apelidado e conhecido por Antônio Onça. Baixo, gordo, pernas curtas, estava sempre sujo de terra, pois vivia na terra ou da terra. O seu equipamento, transportável às costas, compunha-se de sarilho, corda suja de terra vermelha, balde e enxadão de cabo curto. O maior sonho de sua esposa, Maria Onça, era ter uma casa própria, pois, na sua extrema pobreza, viviam de barraco em barraco, sofrendo as agruras do tempo, mormente nas chuvas. A filha Aurora era epilética e maluca. Dava espetáculo de quando em vez pelas ruas, mormente se provocada pela rapaziada. No período chuvoso, o Antônio André ficava sem serviço, obrigando sua mulher e filha a recorrerem à caridade local, perambulando pelas casas da cidade.


A Congregação de São Vicente de Paulo, a Prefeitura e particulares, destacadamente o comerciante Zé Ramos, consorciaram-se e fizeram uma casa para a família Onça, realizando assim o sonho da esposa Maria Onça. Era de ver como ficava brava essa mulher se alguém, por brincadeira, propunha a compra da casa! Ela batia o pé e afirmava com raiva: “Não vendo, não assino a ‘titura’!” (escritura). Alguém contava que, de certa era feita, a mulher levou o almoço ao Antônio, que furava uma cisterna. Encontrou-o no fundo do poço e o chamou para comer. Ele, acostumado a nada ter de almoço, não teve nenhuma pressa em atender ao chamado. A mulher insistia: — Vem, Tonho, cumê! — Não vou, tem nada de boia. — Tem sim, Tonho. Nove torresmo, dez com coro! Esse era o lauto almoço do furador de cisterna. Nas festas da Cruz, as comemorações dos pretos eram grandes. O Antônio Onça, zabumbeiro velho, tinha participação destacada. Fantasiava-se com roupas e chapéus alusivos ao tempo do congado e, com ares de importância, assumia o seu lugar no grupo de músicos, cantadores, bombos, caixas e zabumbas. Era uma folia de três dias e três noites ininterruptas. O bater dos bombos ficava na cabeça da gente até alta madrugada. Quando fizeram um cinema na cidade, era o Antônio Onça quem acompanhava o quadro na rua, tocando uma caixa para chamar atenção do povo ao anúncio e nome do filme ali escrito. Um dia, não havendo companheiros nem quadro, o Antônio saiu sozinho pelas ruas, tocando uma caixa gritando: — Hoje tem cinema da boa! — Hoje tem cinema da boa! — A fita é a mema de onte! A farmácia era ponto de reunião e de conversa. Numa tarde, cheia a sala de espera, entre prosadores e clientes aguardando os medicamentos, chegou a Aurora, filha de Antônio André. Alguém do grupo provocou-a e ela gritou: “Não mexe comigo! Tô visitada!”.

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Zé Pacote Açougueiro macho, peito largo, cabeludo, músculos de fazer inveja, estatura mediana, mas de físico forte, mais para gordo, talvez devido à alimentação farta de carne boa. No açougue na Rua do Campo, mas conhecido no centro e nos bairros de Bonfim, o Zé Pacote servia e atendia a todos com um largo sorriso. Era gostoso vê-lo empunhando um facão Jacaré afiado, descarnando os quartos de vaca pendurados no açougue. Ou, então, vê-lo cavalgando um amestrado animal, trazendo o boi ou a vaca, atrelado ao “carrasco” para o abate bissemanal. De quando em vez, viajava pelos lados de Bela Vista, de onde era natural, à procura de reses gordas para o consumo da cidade. Assim o conheci na meia infância. Tive, pois, um grande susto quando, três ou quatro anos depois, vejo o Zé Pacote chegando à cidade, montado num cavalo, com as mãos e os pés atados, e escoltado por dois outros cavaleiros. Fiquei sabendo, então, que ele se mudara há mais de dois anos para a zona rural e trocara a profissão de açougueiro pela de lavrador. Lá ficara louco e fora preso acorrentado, enquanto a família suportou. Agora vinha para a cadeia de Bonfim. Naquele tempo não havia hospícios nem manicômios por aquelas bandas. O negócio era acorrentar o louco e metê-lo nas grades, como um bicho. A cadeia de Bonfim, erguida no Largo da Matriz, era do tipo de alçapão. Subia-se no primeiro andar e, de lá, descia-se por uma escada removível, até o chão frio da prisão. As paredes construídas de pedra argamassada tinham a dimensão de 80 centímetros na largura. As grades das janelas eram de ferro de duas polegadas. Prisão considerada intransponível.


Acontece que, no dia seguinte ao da chegada do Zé Pacote, sendo domingo, descíamos para a missa das oito horas, na Matriz, quando demos cara a cara com ele, com duas correntes presas nos pulsos, sentado na calçada da frente da Igreja, dando gostosas gargalhadas e, de quando em vez, dançando de roda, num ritmo maluco. Ele, na madrugada, resolvera libertar-se da cadeia e derrubara a parede de 80 centímetros de largura, logo abaixo da janela gradeada! Das pessoas presentes, todas elas, meio apavoradas frente a um louco hercúleo, alguém se aventurou e convidou-o a acompanhá-lo de retorno à cadeia. O louco, mais que ligeiro, acedeu e o acompanhou rindo...rindo... No centro da sala da prisão (se aquilo pudesse ser chamado de sala), havia um tronco de aroeira onde ele ficou acorrentado, deixando-se amarrar docilmente. Quando o vimos preso, criamos coragem e nos acercamos da grade da prisão, pelo lado de fora, e tentamos falar com ele, que começou a dançar, na extensão que a corrente lhe permitia, ao redor do tronco. Dançava e falava bobagens de todos os tamanhos, arrancava a roupa e ficava nu, obrigando as mulheres a tampar o rosto, ou, quando menos, a “arriscar apenas um olho”. Ali ficou o Zé Pacote por algum tempo, tendo escapado e sido agarrado novamente por três vezes. A sua força era de um Sansão. Com o correr do tempo, a sua família, não vendo solução e apiedada com seu sofrimento, longe da casa, resolveu construir um cercado forte, de madeira de lei, na fazenda, para onde ele foi transferido. Ali ficou até morrer, cousa que não durou muito, felizmente para todos. Sua doença era incurável, e seu sofrimento, ou melhor, o sofrimento dos que o rodeavam era muito grande.

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Zé Felício

Tipo popular na minha terra, bebedor inveterado, diferia dos demais, no entanto, pela sua aprimorada inteligência. Quando o chamavam de cachaceiro, ele respondia: — Não sou cachaceiro (título que é do fabricante). Sou apenas consumidor! Tinha acentuada propensão para a mecânica, desde criança, pois nessa idade chegou a construir e a fazer funcionar uma máquina manual de costura, copiando, peça por peça na madeira, a de sua mãe, com exceção apenas da agulha, que era a comum. Zé Felício, “ô machetá, oringagá”, como cantarolava, era companheiro de todo mundo em todas as serenatas e farras. Tinha particular amizade com o Laudelino Pinto, o Laudé, apesar da diferença de posição econômico-social entre ambos. O Zé Felício era um operário-ferreiro, mecânico, ourives, uma espécie de “pau pra toda obra”, mas pessoa humilde de posses e de posição social. Ao passo que Laudelino Pinto era solteiro, comerciante, de família nobre, conceituado, bem-posto na vida, tido como dos ricos de minha terra. Mas também Laudé gostava de beber e farrear, chegando a invernar a semana inteira. Quando estava na fase da bebida, pagava para todo mundo presente, mandava abrir caixas de cerveja e distribuía a todos os circunstantes. Naquele tempo, a cerveja vinha em caixas de 72 garrafas, embaladas dentro de capas de capim costuradas e benfeitas. Prova disso era que, apesar de longos transportes, na estrada de ferro, nos carros de bois, nas tropas, raramente se quebrava uma só garrafa.


O Laudelino tinha tiradas engraçadas. Uma vez, na venda do Mané Joaquim, ele pediu café. Trouxeram-lhe uma bandeja cheia de xícaras e a cafeteira. Ele ia mandando encher as xícaras e atirava, uma a uma, no meio da rua, pela porta aberta. No outro dia, mandava nas vendas pagar todas as contas e despesas de suas bravuras. Diziam que a maioria dos vendeiros se aproveitava e cobrava-lhe muito além do real gasto. Outra vez ele, Laudelino, estava lá pela Rua do Campo, num domingo longo, em companhia do Zé Felício, com um violão, cantando modinhas. Desentenderam-se, e o Laudelino correu atrás do Zé Felício ruas abaixo; ao alcançá-lo, bateu com o violão na sua cabeça. O instrumento partiu-se, formando um colarinho no pescoço do Zé Felício, que, assim, continuou a carreira. Passando pelo Largo do Rosário, naquela tarde domingueira, cheio de gente, houve gozação geral. Quando a falta de dinheiro o apertava, o Zé Felício sumia pelo munícipio, indo fazer serviços aos fazendeiros, que pagavam bem, devido à sua habilidade. Consertava engenhos, alambiques e até talheres e ferramentas. O Zé Felício foi, também, o único a participar de um acerto de contas entre o Laudelino e o Antônio Gonçalves, cujo episódio merece um relato. O Antônio Gonçalves, casado com uma viúva herdeira de boa fazenda, vivia na cidade sem uma profissão bem definida. Ocupava, de vez em quando, as funções públicas, como delegado de polícia, arbitrador, avaliador e outras tais. Deu-lhe na cabeça fazer um cinema na cidade. Amigo chegado ao Laudelino de Pinto, tanto lhe falou do seu plano e das rendas maravilhosas do empreendimento, que o Laudelino acabou aderindo à iniciativa. O Antônio Gonçalves entrou com o terreno, ao lado de sua casa de morada, no Largo do Rosário. Como não tinha dinheiro, o Laudelino arcava com todos os gastos. Assim foi a cousa, até ficar construído o prédio e instalado o aparelho transmissor. Mas tudo na base da conversa. Não houve um contrato social, nem uma definição do percentual de capital e lucros. A intenção de Antônio Gonçalves era de participar como meeiro, mas o Laudelino, que havia dispendido todo o dinheiro, não estava por isso. E muito menos acreditava no pleno êxito na empresa. Um belo dia, o Laudelino deu um balanço nos gastos para o acerto. Acontece que o Gonçalves arrotava valentia. Como delegado, foram inúmeros os “cabras” valentes que ele desarmou 104


e meteu na cadeia, como proclamava, muito embora todo mundo soubesse que aquilo era só farofa. O Laudelino trancou-se com ele e o Zé Felício num quarto e expôs a questão a sério. O Antônio reagiu e disse que a sociedade era meio a meio, porque ele entrara com o terreno e a luminosa ideia, e o Laudelino, apenas com o dinheiro... Não combinaram, e acabou o Laudelino chegando o revólver no queixo do Gonçalves e fazendo-o assinar uma nota promissória do valor total do seu crédito. Não quis qualquer participação social. Vai daí que o Antônio Gonçalves não pagou a promissória e, por certo, pensava que o seu compadre não o executaria. Mas o Laudelino o executou e recebeu, em pagamento, uma parte das terras da fazenda da viúva, no Mato do Algodão, por sinal cultura de primeiríssima qualidade. O Zé Felício era, também, espirituoso. Dele ficaram diversos ditos na meia história da terra. Eis alguns: — Por que a Estrada de Ferro ficou lá em cima? — perguntaram-lhe. — Pra ficar perto dos trilhos... — Por que você bebe? — Sô progressista e patriota. Quero movimentar o comércio da pinga. — Por que você não trabalha? — Trabalho é ambição de ganhar, e ambição é pecado. Assim passou pela vida o Zé Felício, sempre alegre, risonho, meio biruta pela pinga, amigo de todos, sem ofender ninguém, por todos estimado. Talvez se tivesse tido uma educação adequada, boa orientação na infância, seria outro o curso de sua vida, porque inteligência, capacidade e habilidade nunca lhe faltaram.

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Sá Chiquinha

Ela morava ali, na Rua do Chico Bertoldo, abaixo da casa do Aníbal e acima da do Guilhermino Correia. Em ambas as casas vizinhas, havia cisterna, mas ela só buscava água para o seu gasto diário, na nossa casa, na Rua Santo Antônio. Carregava o pote na cabeça, protegida pela tradicional “rodia” de pano. Daqui é que veio o provérbio: “Vai buscar a rodia onde você quebrou o pote”. Falava muito, conversava demasiado, mas ofendia-se à toa. A prova era que não se dava com os seus ditos vizinhos e, mesmo na nossa casa, onde minha mãe não sabia senão tratar bem aos outros, ela se agastou. É que a minha mãe estava ralhando conosco por derramarmos água na boca da cisterna, justamente quando a Chiquinha chegava com o pote. Ela tomou a cousa para si e passou quase um ano sem voltar à nossa casa. O seu ganha-vida era fazer doces, quitandas para vender, além de hortaliças cultivadas no quintal. Era excessivamente econômica, o que lhe permitia juntar uns cobres. Só tinha confiança no Chico Bertoldo, e, por isso, somente a ele emprestava as suas economias. Ela nos contava, na sua meia-língua de analfabeta: — Sô Chiquinho me devia um cem (cem mil réis), mas agora tá me devendo dois cem. — Sabe, Dona Sinhá, o Sô Chiquinho já tá me devendo três cem. Francisco Bertoldo de Sousa, o Sô Chiquinho, era um cidadão prestante da cidade, bem ilustrado para a época, parente próximo do meu avô Zeca


Umbelino, com quem tinha estreita amizade, frequentando assiduamente a nossa casa. Como vice-presidente do Estado, assumiu o Governo pouco antes do triunfo da Revolução de 1909, chefiada por Totó Caiado. De sua gestão, contavam-se dois episódios pitorescos: o primeiro que ele já andava meio apavorado com o zum-zum da Revolução, antes de assumir o Governo. Então, quando chegou ao Palácio, pela manhã do dia seguinte à sua posse, a guarda formou-se e tocou corneta. Ele, que desconhecia essa cerimônia, assustou-se e correu para trás. Alguém o alcançou e lhe indagou: — Que aconteceu, Presidente? — Não está vendo que a guarda revoltou? — Não, presidente, essa formação é obrigatória e rotineira e é feita toda vez que o presidente chega. — Ah! Ainda bem. O segundo foi que ele teve de fugir de Goiás antes de lhe tomarem o Governo, e o fez envolvido num colchão dentro de um carro de bois. Aliás, a minha terra, naqueles tempos, deu dois presidentes ao Estado de Goiás: o Chico Bertoldo e o Aprígio José de Souza, o Aprígio Mineiro, como era conhecido. Este ocupou o Governo também no mando do Totó Caiado e deixou cômicas histórias no Palácio Conde dos Arcos. Contavam que a sua mulher, roceirona do mato, misturava-se com os soldados da guarda do Palácio, assentava-se no batente da entrada e fazia cigarros de palha, pedindo, de quando em vez, fumo, fogo e palha aos soldados. Ela frequentava a Igreja da Boa Morte, ao lado do Palácio, nas missas de domingo e levava guardanapos do Palácio para ajoelhar sobre eles. Antigamente era costume usar o lenço para forrar o assoalho, na Igreja. Eu mesmo fiz muito isso. O Aprígio Mineiro era uma dessas pessoas que aprendem a ler e escrever mais ou menos e se metem a sabidos, professores, líderes, etc. Como oficial de registro de títulos e documentos da minha terra, registrei ipsis litteris milhares de títulos de venda de terras do município, passados pelo Aprígio. Aqueles títulos “Digo eu, abaixo-assinado, que, sendo senhor e possuidor de uma parte de terras”... O danado escrevia mal, errado, confuso, mas todos os roceiros do seu tempo e da sua zona o procuravam sempre para esses documentos. 108


É forçoso reconhecer que ele foi um líder de seu tempo, em sua região. Quando voltou da Presidência do Estado, alguém, na recepção em Bonfim, o inquiriu sobre se era muito difícil ser presidente do Estado, ao que ele respondeu: — Que nada! Lá eles já trazem até a caneta molhada. É só a gente assinar na linha marcada. Com a sua morte, a gorda viúva resolveu casar-se em segundas núpcias; foi gastando tudo o que tinha e ficou a zero no fim da vida. Ao lado esquerdo da Sá Chiquinha, morava o Aníbal. Não me lembro do seu sobrenome. Mas era um barrigudão, gordo, calça caindo, de chinelos. A sua casa, não acabada, tinha a parte da frente aberta, já com esteios, baldrames e o piso da terra batida. Era cortador ou açougueiro, quase que só de suínos. Vacas raramente abatia. Parece-me que ocupou por algumas vezes o cargo de delegado de Polícia. Lembro-me do dia de sua morte, ele estendido num caixão, na varanda aberta de sua casa, de barrigão para cima, e com fogo aceso debaixo dele. Diziam que ele já estava com mau cheiro, e o fogo era para combater o odor. Do lado de baixo, morava o Guilhermino Correia, casado com a Deolinda. No quintal de sua casa tinha pé de laranja e de mexerica, que era nossa paixão. A Deolinda era “ridica pra burro” e ficava vigiando para que cada um de nós não apanhasse mais de duas ou três laranjas. Mas tínhamos os meios e as tretas de enganá-la e chupar até dez laranjas ou mais. Era um casal sem filhos, e a Deolinda gostava de luxar-se, como diziam naquele tempo. O certo é que eu gostava muito de vê-la ao espelho, aprontando-se, penteando-se, para qualquer festa ou baile na cidade. O Guilhermino, seu marido, teve vida curta. Numa viagem a Goiás, capital, onde deveria acompanhar um processo de demanda de terras, em grau de recurso no Tribunal, faleceu repentinamente em Curralinho. Ficando viúva, a Deolinda voltou para sua terra, em Patos de Minas, onde acabou se casando pela segunda vez, com um cara magro, de dedos compridos, que veio algumas vezes a Bonfim, à procura das heranças da viúva-esposa. Só que não achou nada. Na casa da frente à de Sá Chiquinha, instalou-se, certa vez, o Joaquim Leite com a sua Coletoria Federal, tendo como escrivão o Zé Lino. Este era caladão, raramente falava, enquanto o Joaquim Leite era um “matraca” 109


incorrigível. Apelidado de Joaquim Lambari, estava sempre contra, seja lá o que fosse. Como coletor federal, metia a caneta em todo contribuinte, brigava com os próprios fiscais federais, fazia denúncias contra eles ao delegado fiscal. Brigou com o Felismino Viana, chefe político local, com o qual andou às turras por muitos anos. Um dia, eu fui à sua Coletoria comprar selos, quando ali chegou, também, o comerciante Dolzane Félix, rei da economia, pois brigava com o freguês, mas não dispensava cem réis de troco. O diálogo entre eles: — Seu Joaquim, vim pedir-lhe umas instruções sobre... — Não lhas posso dar. — Mas o senhor, como coletor, não está obrigado a nos instruir? — Estou obrigado é a isto. Pegou o chapéu do Dolzane, que estava sobre a mesa, deu-lho nas mãos e disse: — Ponha-se daqui! A constante da sua vida era estar sempre brigando com alguém, discutindo, divergindo, contrariando, irritando, tudo isso para depois, sozinho, gozar dos fatos. No fundo não era mau. Não tinha coração ruim. De certa feita o Joaquim Leite resolveu montar uma olaria e fazer telhas na cidade. E fez muitas, só que o povo reclamava da qualidade. O Mané Joaquim, vendeiro e amigo de todo mundo na minha terra, chistoso como era debaixo do seu “calado”, dizia: — Aqui em Bonfim tem três cousas que não podem ver chuva: 1) a estrada de ferro (parava); 2) a luz do Felismino (apagava); 3) as telhas do Joaquim Leite (vazavam água). O Mané Joaquim, uma vez, colocou, na parede de sua confeitaria, o seguinte aviso: “Concurso de prêmios. Quem encontrar azeitona em qualquer pastel desta casa ganhará um prêmio de cem mil réis”. Os pastéis eram feitos na sua cozinha... Ali na rua da Sá Chiquinha, ainda tinha a casa do Tico Félix, comerciante; do João Damásio, armeiro, e uma que o tio Pedro comprou. No arremate da rua, as esquinas eram de dois Nicos: Nico Tavares (da esquerda) e Nico Euzébio (da direita), funcionando, nessa última casa, o famoso Colégio Bonfinense, do professor Antônio Euzébio de Abreu, pai do escritor, 110


poeta e político Americano do Brasil. Esse colégio foi pioneiro no ensino secundário naqueles difíceis tempos para a instrução em geral. Não sei se as cousas dos outros têm o mesmo sabor das minhas. Mas o fato é que gosto muito das minhas; vivendo-as e recordando-as, estou experimentando o gozo pela segunda vez. Escrever os fatos de nossa infância é vivê-los na idade madura, quando o nosso senso de crítica, a nossa capacidade de entendimento e de análise permitem-nos melhor apreciá-los e valorizá-los, e a isto chamo de “o sabor de escrever”.

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Parte 5

A grande máquina de arroz

Lá pelo ano de 1919 ou 1920, o coronel Chico Bertoldo, como elemento progressista da minha cidade, resolveu instalar uma máquina de beneficiar arroz, em Bonfim. Era novidade muito grande, pois, por ali, só se conheciam os monjolos e os pilões como meios de limpar arroz e café. Na minha casa, por exemplo, aliás a casa do meu avô, com o qual fomos criados, tínhamos monjolo na chácara e, na cidade, havia um pilão grande na cozinha. Ficava sempre debruçado servindo de banco, só sendo virado para os casos de ser ocupado. Quantas vezes a minha mãe me pôs a socar arroz ou café, serviço duro, cansativo, do qual fugíamos inventando toda sorte de desculpas, até de doenças inverídicas! Mas todo mundo ficou curioso, na expectativa da moderna máquina de arroz do Chiquinho Bertoldo. De fato, pouco tempo depois, começavam a chegar as primeiras peças da máquina. As conduções ou os meios de transporte, naqueles áureos tempos, eram o carro de bois e as tropas. Primeiramente, chegou o motor a gasolina que movimentaria a máquina, porque energia elétrica não havia e só muito tempo depois foi instalada na cidade, lá pelo ano de 1926. Acontecia, também, que na cidade ninguém entendia de motor ou de mecânica, e foi preciso importar de Catalão um mecânico mineiro que por lá se achava cuidando naturalmente de casos iguais ao nosso. Chamava-se Deco, mais tarde conhecido por Deco da Luz. Com o advento da luz do Felismino na cidade, ele voltou para os primeiros trabalhos, ali radicando-se; tornou-se um cidadão prestante, músico que era, sempre alegre, chefiava conjuntos


musicais, comandando a operação do cinema local, não só do projetor como da orquestra, porque os cinemas eram mudos. O Deco chegou e botou mãos a instalar o motor, em um cômodo especialmente construído pelo Chico Bertoldo, no quintal da sua casa, pelo lado do Beco da Intendência. Nós, a garotada, não arredávamos pé dessas novidades e acompanhávamos tudo, vendo, aprendendo e criticando à nossa maneira. Instalados motor e máquina, deu-se início à operação de benefício do arroz. Admirávamos o Deco, que pegava um saco de arroz com a sua musculatura invejosa e jogava o bicho no funilão da máquina, que ficava à altura de sua cabeça. Dali escorregavam os grãos para os trituradores ou descascadores, saindo, lá na frente, arroz limpo numa bica. A casca era projetada por um tubo de madeira para a área interna do quintal, formando lá um montão de casca. Todo mundo na cidade passava por lá para ver a máquina funcionar. Mas, passada a novidade, a cousa não pegou em termos comerciais compensatórios, porque todo mundo, como já dissemos, tinha os seus meios baratos ou gratuitos de limpar arroz e café e não optaram pelo pagamento ao novo sistema, apenas pelo luxo de comer arroz limpo na máquina. O Deco foi dispensado, e a máquina deveria continuar funcionando pelas mãos do dono ou de algum auxiliar que aprendera a manejá-la. Pouco tempo passado, no entanto, a máquina emperrou, ou melhor, o motor enguiçou. Não pegava fogo. Os recursos da terra não resolviam. Nós, a meninada sempre atenta, querendo ajudar, lembrando como o Deco fazia, etc., mas nada dava certo. Chamou-se o Deco de novo, e a coisa tornou a funcionar primorosamente! Foi-se o Deco pela segunda vez, e, de novo parou a máquina. A bolsa do Chico Bertoldo não aguentava desse jeito. Despesas muitas, gasolina importada, mecânica cara, comércio quase nulo. A coisa foi ficando parada, empoeirando-se, servindo o cômodo para outras cousas, até que tudo acabou. Não sei se o proprietário vendeu a máquina, ou se ela se diluiu por lá mesmo, até acabar. De qualquer forma, deixou saudade em nós, meninos, porque, além da novidade, era uma bela distração! Mais tarde é que avaliamos a significância daquela máquina então considerada grande. A sua capacidade era, salvo engano, limpar de dez a vinte sacos de arroz por dia!...

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O Lazareto

Conheci-o quando menino, levado por minha mãe, numa de suas visitas semanais. Ficava a noroeste da cidade e, para atingi-lo, saía-se pela Rua dos Caetanos, tomava-se à esquerda no Largo do Rancho, passava-se em frente à casa do Joaquim Teodoro, ganhava-se os Lavrados, pela estrada da ponte debaixo do Rio Vermelho. A meio percurso, ficava ali à esquerda, numa depressão dos Lavrados, o Lazareto. Ocupava uma área de mais ou menos dez mil metros quadrados, toda fechada de arame farpado, cerca com mais de vinte fios a uma altura de três metros. Lá dentro, as casas, quase padronizadas, uma para cada família, além de outras somente para doentes solteiros do mesmo sexo. Um terreiro grande sempre muito bem varrido, pelo menos nos dias de visitas, cisterna com tanque de lavar roupa e algumas plantações principalmente de bananeiras. Essa era a cidade dos hansenianos da minha terra. As cousas que a gente levava, como gêneros alimentícios, roupas, medicamentos e até dinheiro, eram dadas aos doentes através de um único guichê aberto na cerca de arame. Naquele tempo eu entendia aquilo como uma decorrência natural da vida. Era porque era; ou melhor, era o destino da pessoa. A doença era comum em todas as cidades vizinhas e, em algumas, ganhou até a alta sociedade, sem haver qualquer separação ou isolamento, motivo por que, creio eu, propagou-se o mal em maior escala. Guardo na minha lembrança algumas pessoas da minha cidade que foram alcançadas pela doença, naqueles tempos.


Entre os rapazes que eu admirava naquela época, aqueles que frequentavam os bares, bebiam cerveja nas mesinhas, fumavam, tocavam violão e, nas noites enluaradas, faziam serenatas cantando modinhas nas portas das casas das moças casadouras, dois haviam que eram companheiros constantes: o Vicente Pangaro e o Urbano Caetano. O primeiro, filho do Vicente Pangaro, velho italiano radicado na terra, tinha uma irmã chamada Pedrinha, e era um dos bonitões da época, com trânsito livre na sociedade local, frequentando os bailes e as festas familiares. Pois não é que o Vicente Pangaro, o moço, ficou morfético? Quando a notícia ganhou as ruas da cidade, houve comoção geral, mas ele não foi internado no Lazareto. Parece-me que a família lhe conseguiu um lugar em São Paulo, para onde foi e nunca mais voltou. Na casa da minha tia Missana trabalhava uma moça chamada Benedita. Dessas serviçais nem muito tolas nem muito ladinas, mas estimada por todos. Cuidava das crianças, fazia comida, dava recados, acompanhava a família nas viagens dentro e fora do Estado. Um belo dia, com problemas inflamatórios no nariz, descobriu-se que estava leprosa! Foi para Lazareto, mas a minha tia fez construir uma casinha especial para ela e a tratou o melhor que podia até morrer. O tratamento da doença propriamente não existia naquele tempo. Apenas se dava ao doente a assistência alimentar e roupas, algumas pomadas, analgésicos, até que o mal o vitimasse. Com o avanço dos recursos e conhecimentos, o mal foi sendo combatido, o Lazareto desapareceu com a morte de seu último ocupante, caindo a incidência do mal pela medicina preventiva e, algum tempo depois, era raro um caso de lepra por lá. Duas doenças desapareceram totalmente da minha terra: a lepra e o bócio. Esta última, no meu tempo de criança, tinha larga incidência em nosso meio. Era também aceito como mal natural e sem remédio, e não havia nenhuma discriminação entre papudos e não papudos. Lembro-me das mulheres buscadeiras de água potável nas fontes tradicionais da minha terra, o Bahú e o Buraquinho. Eram filas de papudas, com pote na cabeça. 116


Nos dias atuais, não se acha, no meu munícipio, um só papudo para remédio. Deveu-se, é claro, à ação do iodo adicionado ao sal, cujo descobridor louvado seja pelos séculos e séculos. Antes de encerrar as referências à lepra na minha terra, quero relatar uma apertura que passei em uma viagem ao munícipio. Ali pelo lado de Piracanjuba, umas três léguas da cidade, havia muitas famílias leprosas, e a primeira vez que por lá passei, viajando a cavalo, com bastante sede, resolvi chegar a uma casa próxima da estrada e pedir água, mal sabendo que aquela região era cheia de doentes do sangue. Dei o costumeiro “ô de casa” e me atendeu uma moça a quem pedi um copo d’água. Mas ela demorou-se em me atender, talvez por estranhar o meu desconhecimento do mal da casa; tive tempo para reparar melhor nela, notando nela, então, as feridas nos pés, as orelhas grandes, a face embaciada e crescida, as mãos brancas e grandes. Quando atinei com a cousa, fiquei apavorado! A moça, no entanto, voltou ao interior da casa para buscar o copo d’água, e eu esporei o cavalo e disparei rumo à estrada. Quando estava lá no alto, olhei para trás e vi a pobre moça com o copo na mão, na porta da casa!

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Os Lavrados

Lavrados era o nome dado aos terrenos que sofreram violenta exploração aurífera, no tempo da escravidão na minha cidade natal. Situavam-se ao redor da cidade, com maior incidência na bacia do Rio Vermelho, tida antigamente como uma região de grande reserva daquele precioso metal. Ouvi dos meus ancestrais muitas histórias dessa mineração. Era toda feita por braços de escravos, empregando-se na tarefa mais de mil negros. Estes eram alimentados com tutu de feijão, rapadura e milho cozido, servidos em couros crus de gado abertos no chão ao longo dos canteiros de obras. Os escravos comiam com as próprias mãos, pois não tinham direito de usar talheres. Na extração do ouro, eram rigorosamente fiscalizados pelos feitores, a fim de não se apropriarem do rico pó dourado e, quando algum era flagrado, apanhava de relho forte e comprido até cair desacordado, bem na frente da turma, para servir de exemplo. Em seguida, com o corpo em chagas, era levado a um banho de salmoura, aplicação que, apesar da dor, contribuía para evitar maiores infecções e inflamações pelas relhadas impiedosas. Mas, apesar desse rigor, a minha mãe me contava que era comum ver nas danças das senzalas da Rua do Bahú, núcleo dos escravos, negras enfeitadas com ouro em pó nos cabelos, dançando e requebrando para os seus “negos”. Os Lavrados, contendo escavações de mais de vinte metros de profundidade, ainda existem e podem ser vistos na minha cidade.


E para nós, meninos, constituíam esplêndidos campos de passeios aos domingos e feriados, em excursões de grupos, para escaladas de barrancos, descidas de rampas com auxílio de cordas ou da “corrente humana”. Há pontos nos Lavrados que ficaram célebres e fizeram épocas, tais como: A) o chamado Buraquinho, onde ficou de herança uma fonte de água límpida que abasteceu a cidade por muitos anos. É uma escavação de mais de quatro quilômetros de extensão, por um de largura, a uma profundida média de trinta metros. B) o Poço da Roda, tenebroso para nós, crianças! Quem nele caísse estava morto! Era perigoso até passar por perto e olhar as suas águas, porque lá havia bichos que atraíam, pelo olhar, as crianças. Ninguém conhecia a sua profundidade. A sua história era longa e vinha sendo contada de geração para geração. Trabalhavam nesse poço, que ficava bem à margem do Rio Vermelho, muitos escravos retirando dele uma grande produção de ouro. Numa tarde, quando tentavam levantar do seu fundo uma pedra no tamanho e formato de uma roda de carro de boi (daí o seu nome de Poço de Roda), toda encrustada de ouro maciço, de repente, uma tromba d’água tão violenta e volumosa surgiu debaixo da pedra que não deu tempo sequer de salvar ninguém, nem mesmo as ferramentas e os couros cheios de areia aurífera já coletada. Tudo ficou lá sepultado nas funduras do poço para todo o sempre! A sua fundura, como contava a minha avó Luiza, era equivalente à distância de sua casa, na Praça Umbelino Filho, à do meu avô Zeca Umbelino, na Rua Santo Antônio, mais de cem metros, portanto. Esse poço ficou ainda mais tenebroso porque, nele, suicidaram-se diversas pessoas, entre as quais algumas da sociedade local, fatos cujas repercussões, numa cidade pequena, eram muito grandes, imorredouras. Algumas páginas já foram escritas, por bonfinenses, sobre o Poço da Roda, inclusive uma em O Jornal, do Rio, já desaparecido, pelo meu conterrâneo e amigo Deusdedit Félix de Sousa, sob o título “A Lenda do Poço da Roda”, mas nenhum retratou tudo o que ele foi e representou na vida primitiva da terra, mesmo porque, ao tempo da sua exploração, não houve interesse algum de se registrar no papel os diversos episódios que, hoje, por certo, constituiriam um rico cabedal na história da formação dos povos. C) o Poço Batatais, situado pouco acima do Poço da Roda, de menor diâmetro, aberto no fundo da escavação, de água límpida, ao contrário do seu vizinho 120


já descrito, cuja água é vermelha e barrenta. Embora não tivesse as mesmas histórias amedrontadoras do Poço da Roda, infundia-nos respeito e um certo pavor pelo local de difícil acesso, cercado que era de barrancos altos e lodosos. Poucas vezes tive coragem de lá descer, mesmo em companhia dos mais fortes do nosso grupo. D) o Poço das Moças, que ficava do outro lado do Rio Vermelho, no prosseguimento das escavações rumo ao Córrego das Cobras, onde ficava a chácara do meu avô Zeca Umbelino. Esse, nós nos contentávamos de vê-lo cá de cima mesmo, pois, como o Batatais, ficava bem no fundo dos Lavrados, que, ali, media para mais de cinquenta metros. Além destes havia outros lugares pitorescos, uns belos, outros feios e fundos, em toda e extensão dos Lavrados, muitos dos quais não cheguei a conhecer pessoalmente. À medida que ia me tornando maior e menos medroso, o tempo de passeios e recreios já era ocupado pelo estudo e pelo trabalho e até mesmo aquele interesse de criança, curiosa e sedenta de novidades, ia desaparecendo aos poucos para, na velhice de hoje, se tornar uma saudade, aquele “doce amargo enlevo” de que falava Garret.

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Mestre Hermelino e seus alunos.


A escola pública

A Escola Primária de Bonfim ficava na Rua Direita, dirigida pelo mestre Hermelino Alcides de Melo, o Sô Hermelino, como era conhecido. Era a única escola pública existente na cidade e, por isso mesmo, com número excedente de alunos. Basta dizer que o professor não tinha auxiliar e lecionava para mais de oitenta alunos. Imperava naquele tempo o regime da palmatória, dos castigos, que iam desde ficar de joelhos na porta da rua, até o de receber uma dúzia de “bolos” ou permanecer duas horas em quarto escuro. Realmente, a casa da escola dispunha de um quarto sem janelas, onde eram trancados os rebeldes como castigo. A palmatória servia também nos argumentos semanais. Todos os sábados, havia “revista” e “argumento”. A revista era o exame que o professor fazia do estado de higiene dos alunos, verificando as unhas das mãos, dos pés, a limpeza da cabeça, etc. O argumento era a avaliação do estudo da tabuada durante a semana. Para cada semana, eram marcados determinados números de quadrinhos da tabuada. É bom lembrar que as aulas de tabuadas eram sempre cantadas pela classe toda: 2x2=4, 4x4=16, tudo cantado em voz alta e bom tom. Algum tempo, antes do meu ingresso na escola, diziam que quem não tivesse voz não podia estudar tabuada. Sobre a mesa do professor, ficava sempre uma pedra, de preferência cristal de rocha, que servia de companhia ao aluno nas suas saídas por necessidades fisiológicas. Ninguém saía da aula sem a pedra. Quando ela estava na mesa, o aluno chegava e pedia licença para sair, o professor respondia: “Aguarda a pedra”. É que o outro estava lá fora com a pedra...


Todos os dias eram designados dois alunos dos maiores para buscar água na fonte natural do Bahú, nas proximidades do Rio Vermelho. O transporte era feito em dois baldes grandes, pendurados num varal ombreados pelos dois alunos em fila indiana, colocando-se sobre a água ramos verdes para diminuir o derrame de água com o balanço dos passos. Essa missão, todavia, constituía um ótimo motivo para as fugas às aulas, e por isso era disputada entre os que não sabiam a lição... O Sô Hermelino, um dia, punindo o aluno Jorge, da Rua do Campo, com meia dúzia de bolos, teve a infelicidade de atingir-lhe a testa, provocando ferimento e sangue. O caso foi levado ao conhecimento da autoridade estadual, e o professor foi suspenso por seis meses. Para substituí-lo foi designado o Juvenal Tavares, cidadão que reunia os requisitos para lecionar. Naquele tempo, tais pessoas eram raras no interior. Mas também o Juvenal se revelou bravo e aplicava “bolos” a troco de nada. Até eu, que me considerava aluno exemplar... Um dia, ao lado do Félix França, ao trocarmos ideias sobre a lição, levei dois “bolos de parceria” com o meu colega, porque “estávamos brincando na aula”. Houve um tempo em que o Altamiro Pacheco, então farmacêutico na cidade, resolveu dar aulas particulares em sua própria casa, que ficava bem em frente à escola pública. Professor novo, inteligente, de trato fino e agradável, que lhe era peculiar, começou a ganhar fama, e alguns pais de alunos da Escola Pública transferiram os filhos para a nova escola, apelidada de Escola do Aprender. É que diziam que nela o menino aprendia tudo mais depressa e melhor. De quando em vez, o mestre Hermelino desabafava na aula, gritando bem alto para ser ouvido do outro lado a rua: “Estuda, menino. Senão o mando para a Escola do Aprender”. Mas o bom mesmo da escola pública era a cerimônia do final do ano, após os exames, que era realizada com e festividades perante as autoridades e pessoas ilustres da terra, especialmente convidadas pelo professor. Nós, os alunos, com nossos trajes domingueiros, botinas novas, até de gravata os maiores, éramos arguidos pelos examinadores. De uma feita, fui examinado pelo intendente municipal, Joaquim José da Silva, o Seu Quim, como era conhecido. O gostoso da história estava em que, depois dos exames, o mestre Hermelino dava uma mesada de biscoitos e doces no quintal de sua casa, sob as 124


sombras de grandes mangueiras. Nós, a meninada, regalávamos de comer broas, roscas, biscoitos de queijo, pipocas, etc. Diversos fatos fizeram época na escola. Recordo-me do caso do Bomba Preta. Dentre os alunos da escola havia um de cor, do grupo dos maiores, que tinha o apelido de Bomba Preta. Mas só os grandes e valentes tinham coragem de chamá-lo assim, pois ele se enfurecia e avançava na gente para valer. A princípio, eu pensava que aquele apelido era devido à sua cor e, por isso, reprovava os meus colegas que o empregavam, como termo racista ou depreciativo. Todavia, discutindo e reprovando, vim a saber a verdadeira origem do apelido, bem como a razão por que o seu titular danava e xingava todas as vezes em que o escutava. A história é que ele era aluno bem malandro e tinha uma mãe brava que o punia com rigor, sobretudo nas suas faltas às aulas, que eram frequentes. Eles moravam no Bairro São Sebastião, do outro lado da cidade, distante do centro bem uns dois quilômetros. Pelo caminho havia locais convidativos às brincadeiras, como o Córrego Lava-Pés, em cuja ponte a meninada brincava sempre, ora pulando dela no rio, ora nadando ou correndo pelas praias areentas, naqueles gostosos brinquedos de “mil rondas” “laranjinha da china”, “bolo de forno”, “roda de madeira”, etc. O Benedito, o Bomba Preta, não perdia a oportunidade de participar dos folguedos, esquecendo-se das aulas. Em casa, inventava as mais engenhosas desculpas. Tanto falhava às aulas que o professor, como castigo, o suspendeu por quinze dias, certa feita. O Benedito ficou descabreado, com medo de chegar em casa e receber aquela surra. Tanto pensou que até inventou uma treta. Apanhou uma folha de jornal velho, que falava na guerra da Alemanha (1914-1918) e chegou em casa com a notícia de que as aulas tinham sido suspensas por quinze dias devido à guerra. Sua mãe era analfabeta, mas o Benedito leu para ela naquele pedaço de jornal a notícia alarmante de “que uma bomba preta das que eram empregadas na guerra tinha caído no Rio de Janeiro, arrasando com a cidade”. Em consequência, o professor tinha suspendido as aulas por quinze dias. A mãe ficou consternada naturalmente e, apesar de não saber ler, pediu e guardou o pedaço de jornal para mostrar aos outros. Dias depois, o professor passou pelo bairro e foi abordado pela mãe do Benedito, que queria saber notícias da guerra e de quando as aulas seriam reiniciadas. O professor estranhou os fatos e respondeu que as aulas nunca tinham sido 125


suspensas, nem que o Rio de Janeiro tivesse sofrido qualquer ataque da guerra, mas pediu o jornal para conferir a notícia. Como nada do alegado havia no jornal, o Benedito foi chamado às falas e acabou confessando seu plano. Em consequência, recebeu uma surra formidável e foi levado pela mãe no outro dia à escola, cujos alunos ficaram sabendo do caso, sobrando ao Benedito o apelido de Bomba Preta! Havia, também, outros apelidos, como os irmãos Pileques. Pileque, naquele tempo, era um pedacinho de borracha, fino, com o qual a gente dava pilecadas nas orelhas, nas mãos ou nas pernas dos outros. Os três irmãos, Chiquinho, Israel e Joaquim, ganharam, não sei por que esse apelido. Ficavam furiosos quando o ouviam. Bastava a gente fazer, de longe, o gesto com as mãos, de espicha-encolhe, para eles partirem para a briga. A sala de aulas da escola era comum a todas as classes, razão por que a algazarra era medonha, obrigando o professor a dar gritos, batidas fortes na mesa e até mesmo a arremessar a régua na classe, para impor silêncio. A única classe mais privilegiada era a dos decuriões, que ficava no centro da sala e de cujos componentes me lembro do Acrísio França e do Quinquim Félix, os mais adiantados.

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A estrada de ferro

Depois de cinco anos de estacionamento dentro do munícipio, a dezoito quilômetros da sede, por fim, a estrada de ferro resolveu inaugurar a estação da minha terra, com o exótico nome de Caturama. Estação da minha terra, uma conversa. Foi plantada em plena chapada, a cinco quilômetros da cidade. Para tanto, desmontaram a metade de um morro, levantando a estação bem em frente ao paredão do corte, que mede mais de quatro metros de altura. Mal cabem duas composições entre a gare e o corte. São dessas cousas que os técnicos resolveram e que nós, leigos, não temos direito de dar palpites. Devido a essa localização, ficou sendo uma cousa morta a estação. Apenas nas horas de embarque e desembarque ali compareciam os passageiros. Fora dessas horas, ficava o agente ferroviário isolado do mundo e de todos e era difícil algum lá permanecer por mais de seis meses. Um belo dia, lá pelas tantas da tarde, o agente dormitava calmamente em sua mesa de trabalho, na sala da estação, tendo ao lado seu luluzinho peludo. Acordou de repente, sobressaltado, com medonho barulho do trem, com gritos humanos, vindo lá de fora. É que uma composição, vinda de Araguari, entrara pelo desvio da estação, devido à ausência do guarda-chaves do seu posto. Maquinista e foguista, percebendo a extensão do desastre, puseram-se a gritar e saltaram do trem. Este, desgovernado, apanhou pela frente um vagão estacionado no desvio e o colocou exatamente dentro da sala do chefe da estação, depois de derrubar as paredes.


A locomotiva também subiu na plataforma e ficou descansando atrás do vagão, do lado de fora daquela sala. A esse tempo, o agente, não se sabe como, estava lívido contemplando o quadro lá de cima do corte! O modo como galgou o paredão é dessas cousas que ficam sem explicação, pois, normalmente, ninguém o conseguiria. Ele próprio, dias depois, tentou em vão repetir o feito. O luluzinho, coitado, foi esmagado sob o vagão. A ferrovia, que sempre funcionou em ritmo de câmara lenta, gastou dois anos para reparar a estação. Mesmo para retirar o importuno hóspede da sala do chefe, gastou foi tempo! Pelo menos nessa época, a estação teve movimento! Não só gente da terra, mas também os de fora, todos queriam ver os destroços.

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O grupo escolar

Até o ano de 1919, só eram conhecidas em Bonfim e alhures as construções de casas ou sobrados com o emprego de madeiras na estrutura: esteios, baldrames, linhas traves, etc.; as paredes de pau a pique, ou mais modernamente de adobes; os pisos ou eram de assoalho ou de terra batida, e o forro ou estuque, de tábuas. Ninguém naquele tempo podia compreender outro tipo de construção. Era então intendente municipal o comerciante Francisco de Assis Morais, que foi acionado, ao que parece, pelas autoridades estaduais para construir um grupo escolar na cidade. Pretendendo fazer uma construção moderna, foi o intendente a Araguari, Minas Gerais, buscar um pedreiro, de lá trazendo o italiano Avelino, mestre em obras. A esse tempo já havia chegado à cidade um outro italiano, chamado Júlio Zanelli, que era especialista em cerâmicas e estava aproveitando o excelente barro da chácara dos Caetanos, há muito conhecido e empregado pelas “paneleiras”, que faziam dele os potes de todos os tamanhos para água, usados em todas as casas da cidade e mesmo da roça. O Avelino motivou o Júlio a usar o barro na fábrica de tijolos, para o que foi montada a primeira olaria naqueles meios. O cimento naquela época era importado e vinha acondicionado em barricas de zinco. Não sei como o intendente conseguiu, mas sei que não faltou esse material na construção. Também foi a primeira vez que se viu, na cidade, o emprego de cal virgem, queimada em canteiros da obra, sob a orientação do mestre italiano sob a


CerimĂ´nia realizada, em 1935, no Grupo Escolar MoisĂŠs Santana, dirigido pela professora Nympha Ferreira de Moraes Lobo, esposa do autor.


admiração de todos nós, vendo a “água queimar a cal”. Eu mesmo meti o meu dedo lá, para ver se era quente mesmo! Feitos os alicerces, iniciaram-se os cantos do prédio em colunas de tijolos. O povo de então não tinha muito o que fazer em casa e ficava vendo e observando as novidades da construção. E daí, quando não viram os esteios nos cantos do prédio, ficaram preocupados: — Casa sem esteios? Isso vai cair na certa! Tanto falaram que o assunto foi parar no Conselho Municipal, o órgão legislativo da municipalidade, responsável pelas leis e pelo assessoramento do intendente, composto que era de cidadãos proeminentes e de notório saber. O Conselho, após demorados debates, deslocou-se até a construção e interpelou o temerário italiano pedreiro: — Como é que o senhor está construindo um prédio público sem esteios nem baldrames? E, diante das explicações do obreiro: — O senhor ficará responsável pelo que ocorrer! E regressaram todos os membros à sala das sessões, com a consciência tranquila do dever cumprido! O prédio está lá até hoje, decorridos mais de cinquenta anos da construção, sem sequer uma trinca nas paredes ou um centímetro de desnivelamento. Essa construção era do lado esquerdo da minha casa, no local onde fora a residência do meu tio Chico Lobo, comprada pela Intendência. Então, quando o pedreiro estava arrematando as linhas externas das paredes, uma manhã eu passava por lá e dei de brincar quebrando as quinas dos revestimentos frescos. Quando me assustei, o Avelino estava no meu piso, com uma vara de marmeleiro nas mãos, gritando: “Ah! É então, hein! Pois toma lá, seu moleque!”. Mas, a esse tempo, eu já estava a mais de dez metros de distância, e fiquei muito tempo sem passar por perto da construção, com medo do Avelino. Terminado o prédio, como era natural, o intendente fez colocar no alto da parede da frente as suas iniciais: FAM. Tempos depois, numa noite de farras, o Laudelino Pinto, adversário político do intendente, fez o João Miguel subir numa escada e, de machadinha, arrancar as letras do Chico de Assis... 131


As folias do Divino

A minha terra, como todas as cidades daqueles tempos que descrevo, promovia, em quase todas as festas religiosas, as chamadas folias ou bandos que circulavam pelas zonas rurais e pelas ruas da cidade, angariando recursos para os festejos. Elas precediam às festas propriamente ditas, iniciando-se há trinta ou quarenta dias antes da data magna, compostas do folião-chefe, geralmente escolhido por sorteio, no final de cada festa, para servir no ano seguinte; dos conjuntos tocadores dos mais diversos instrumentos, como violas, violões, flautas, sanfonas, rabecas, bandolins e principalmente de bombos, zabumbas e caixas de bater; de cantores, os mais categorizados e afamados, repentistas, versejadores, dançadores de catiras e rumbas; dos grupos de atiradores, que usavam clavinotes, arcabuzes, ronqueiras e diversos outros tipos de dar tiros, usando pólvora preta e farinha de mandioca. E, por fim, do grupo dos pedintes, que usavam salvas, pratos, sacolas, sacos, etc., onde iam recolhendo os donativos, que podiam ser em dinheiro, gêneros, frutas e animais, principalmente em bezerros, bois ou cavalos. Num determinado dia da última semana que precedia à festa, era feita a entrada triunfal na cidade dos grupos de foliões das diversas zonas do munícipio, que eram recebidos pelo Imperador do Divino ou pelo festeiro da paróquia, quando se estabelecia a disputa de quem “queimava” o outro; isto é, os grupos chegantes e os da cidade, que se digladiavam num tiroteio medonho, vencendo aquele que tivesse maior número de atiradores de foguetes e de recursos em munição e gente. Dessa disputa resultavam, às vezes, desastres e ferimentos nos contendores, como vi acontecer com o Jeremias Fernandes, aquele mesmo que, quando


menino, morou em nossa casa durante os estudos primários. Bom atirador que era, entusiasta das festanças da folia, num dia em que as bebidas esquentaram mais os espíritos, disparou um tamanho tiro que a carga arrebentou o cano do clavinote e decepou a mão esquerda do Jeremias, resultando na perda total do braço, porque, quando procurou o médico, a gangrena já havia se instalado no ferimento. Doutra feita, vi um atirador atingir um seu colega, dando-lhe um formidável tiro de pólvora e farinha nas axilas, que lhe rasgou o couro e as carnes; foi, no entanto, prontamente socorrido, porque o fato se deu nas ruas da cidade. Mas o certo é que todo mundo gostava dessas festas, tanto era verdade que o povo da cidade comparecia em peso e participava de todos os passos e andanças dos festeiros. O Padre Quintiliano, quando vigário da paróquia, entusiasta que era dos tiros, mandou fabricar um tipo de ronqueira que ficou célebre na cidade, tal era o estrondo que produzia. Numa festa de Santa Terezinha, na Igreja do Rosário, cuja praça não era muito grande e toda cercada de casas, os tiros das ronqueiras do padre quebraram os vidros das janelas de muitas casas, pela violenta deslocação de ar que produziam. A propósito dessas ronqueiras, há um fato digno de registro, com referência a um dos encarregados dos tiros. Ele chamava-se Alípio Caetano, era velho e totalmente surdo, mas entendia muito bem de fabricação de pólvora caseira e coordenava o carrego das ronqueiras, ateando-lhe fogo também na hora aprazada. Essas ronqueiras eram enterradas no chão até o nível do seu bordo, ligadas umas às outras por um fio inflamável; era o “estupim”, na linguagem do povo. O Alípio apanhava um tição de fogo, incendiava o estopim, virava as costas e vinha voltando, quando as ronqueiras começavam a produzir estrondos de ensurdecer qualquer cristão, mas o Alípio virava-se para elas e dizia simplesmente: “Negô, danada”... No ano de 1926, salvo engano, o tiroteio nas festas de São Sebastião foi tão grande e intenso que o contingente das Forças Públicas Paulistanas, então estacionado em Vianópolis, disparou para Bonfim, pensando tratar-se de um combate de artilharia dos revoltosos da Coluna Prestes, que, a esse tempo, perambulava pelas terras do nosso Estado. Quando os oficiais chegaram e 134


viram do que se tratava, proibiram totalmente os folguedos em benefício da paz no Brasil... Era festeiro do Divino nesse ano o Sebastião do Cláudio, que, com o auxílio dos Caetanos, promoveu uma das últimas das festas mais esplendorosas da minha terra. Eram bailes na casa grande dos Caetanos, eram catiras, danças folclóricas, cavalhadas, teatros públicos no Largo do Tico, mesadas de doces, manjares e pudins todos os dias, leilões de prendas dessas bandejadas de leitões até ceias completas. Nessa época, as folias cantavam interessantes arranjos com este estribilho: A pombinha vai voando No bico leva uma flor Vai dizendo: Viva, viva Viva o nosso Imperador!

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Fazenda Campo Alegre

Campo Alegre não era bem uma fazenda, mas uma região do munícipio de Bonfim, distante aproximadamente trinta quilômetros da sede, abrigando diversas propriedades agrícolas, com predominância da família Arantes, bem numerosa e ali radicada há muitos anos. A região limitava-se com as fazendas denominadas Ponte Alta e Bom Jardim, também amplas e povoadas de fazendeiros e sitiantes. Quero descrever a primeira viagem que fiz à zona do Campo Alegre, na fazenda do João Arantes; em companhia do tio Chico Correia, juntamente com o Jasset Lemes do Padro, o Deco Correia e mais um ou dois outros auxiliares na lida de gado. O objetivo da viagem era, para o meu tio, a compra de gado de boiada daquele fazendeiro. Primeiramente, passamos pela fazenda do seu irmão, José Arantes, alegre, bom de conversa, mas totalmente surdo. Era preciso gritar para que ele nos entendesse. Esse fazendeiro criava abelhas Europa, raras naquele tempo em nosso meio, e lá nos ofereceu logicamente mel com farinha, prevenindo-nos: “Não comam muito, porque dá dor de barriga”. Dessa morada, fomos diretamente para a do seu mano João, aonde já chegamos à noitinha e ali pernoitamos. A casa era dessas grandes, sala assoalhada, currais de madeira, paiol cheio de milho, chiqueiro abarrotado de suínos gordos. Tinha ele unicamente um filho homem e seis filhas mulheres, para usar os nossos termos do sertão. Talvez por ser um único filho, por sinal o caçula, era ele adulado pelos pais e pelas irmãs. Não fazia nada em casa. Era já


“crescidão”, com 16 anos e passava os dias brincando com bodoque, matando passarinho, fazendo armadilhas. Era um tipo gordão, “piador grosso”, sinal de preguiçoso, fala mole e comilão. Quando chegamos à fazenda, as filhas estavam no curral apartando as vacas leiteiras, curando bezerros e praticando os afazeres comuns nas fazendas, a cargo dos homens. Estranhamos o procedimento, mas logo ficamos sabendo as razões, isto é, que só havia um filho homem e que todos os serviços de curral eram feitos pelas filhas, inclusive a ordenha, o amansamento das vacas, aqueles atos de pegar a vaca parida de novo, laçar, amarrar o bezerro e tirar o leite. A nossa surpresa foi na manhã seguinte, ao nos levantarmos: as filhas estavam realmente no curral tirando leite só que, ao invés do tradicional baldinho, elas tinham nas mãos urinóis grandes, azuis, esmaltados! O leite era tirado nessa vasilha e, depois, despejado na lata com um pano de coar, como normalmente se faz. O meu tio Chico também viu e ficou admirado. Na hora do almoço, o tio Chico entabulou com o João Arantes o seguinte diálogo: — Sô João, onde o senhor arranjou aquelas vasilhas de tirar leite? — Ah, foi o Sô Antônio Félix que me vendeu. Disse que são modernas e que lá pro São Paulo só usam delas. — Olha, Sô João, isso é uma esperteza do Antônio Félix para vender. Essas vasilhas são destinadas a outro fim muito diferente. — Ora, pra quê, Sô Chico? — É vaso noturno, pra gente verter água à noite. Chama-se penico e é colocado debaixo da cama! O João Arantes ficou encabulado e disse que, na primeira viagem à cidade, iria acertar as contas com o Antônio Félix. Mas havia outro fato na mesa do almoço. O macarrão com frango, prato de luxo que, na roça, é feito para receber visitas importantes, nos foi servido dentro de uma bacia esmaltada, dessas que servem para lavar o rosto. O tio Chico aproveitou para esclarecer ainda esse uso distorcido, feito também pelo mesmo comerciante, que se aproveitara da simplicidade do roceiro para vender seus artigos. Quero deixar bem claro que, ao descrever esse e outros fatos acontecidos naqueles tempos, não tenho a intenção de ridicularizar ninguém, muito menos a minha gente, os meus conterrâneos. Longe de mim tal propósito. 138


O meu objetivo é apenas revelar os acontecimentos, a mentalidade, os costumes, os meios de vida, a simplicidade de todo mundo e, sobretudo, mostrar que a vida daquela época era bem melhor de ser vivida. A minha vida, na mocidade, foi toda desenvolvida no meio rural, em viagens constantes às fazendas, lavrando contratos, fazendo divisões de terra, etc., razão pela qual sempre admirei o nosso roceiro, a sua sinceridade, a consideração que sempre dispensava ao hóspede da cidade. Eles nos servem do melhor que têm em suas casas, seja na comida, seja nas roupas da cama, seja nas louças e nos utensílios que colocam à nossa disposição. E são injustiçados por nós, porque, quando aparecem em nossas casas, na cidade, não retribuímos nunca aquelas gentilezas. Quando muito lhes damos um quarto na casa de despejos, não lhes franqueamos a sala de nossa casa, porque é encerada e o roceiro tem os pés sujos, etc. E se os roceiros de hoje ficaram espertos, mentirosos e treteiros, fomos nós quem os ensinamos, ou melhor, nós os obrigamos a assim proceder para se defenderem das espertezas dos homens das cidades. Por todas essas considerações, quero registrar, neste relicário, meus respeitos, minhas homenagens e, sobretudo, os meus agradecimentos a todos os roceiros da minha terra, que me proporcionaram muita alegria, muita satisfação e muita amizade.

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Revoada de andorinhas

Tardes calmas e monótonas nos dias de verão, na minha terra, de repente as andorinhas nos proporcionavam maravilhosos espetáculos com as suas revoadas. Dezenas, centenas, milhares delas, naqueles voos em curvas, em forma de redes, subindo e descendo a pique sobre o telhado da velha Igreja do Rosário. Na época, poucos davam importância à beleza das revoadas, mas, hoje, quando praticamente desapareceram as andorinhas das cidades, atacadas e destruídas pela praga dos pardais importados, sabemos quanto valiam. De minha parte, nunca deixei de admirar o maravilhoso devaneio desses pássaros. Quando menino, ficava horas e horas de queixo erguido, na porta da minha casa, próxima à igreja, contemplando esse bailado aéreo. De outras feitas, o cenário era o Rancho dos Tropeiros, na Ladeira de São Sebastião, cuja casa grande e velha, sempre fechada, era um abrigo excelente para os pássaros, ou, então, na igreja do mesmo Santo Mártir, que somente uma vez por ano era ocupada durante as festas tradicionais do mês de julho. Essa igreja ficava isolada no campo do outro lado da cidade, tendo ao seu redor milhares de moitas de gabiroba, frutinha doce e muito apreciada pela meninada e pela rapaziada. Sua busca proporcionava-lhes oportunidades de ali trazerem as suas namoradas, longe das vistas rigorosas dos pais e das falas das comadres, para as trocas de juras de amor, mãos dadas, enquanto corriam de moita em moita, à procura do melhor fruto. Sempre pensei que as andorinhas só faziam revoadas nas cidades, mas agora, depois de adulto, vi a maior concentração delas no campo e bem longe de centros urbanos.


Caçávamos perdizes nos campos do sudoeste goiano, na divisa com o Estado do Mato Grosso, na Bacia do Rio Prata, quando o Rubens Custódio e eu deparamos com uma enorme extensão de terras em cujas árvores e vegetações rasteiras superabundavam andorinhas pousadas. Só que eram de cor escura e um tanto menores do que as da cidade. Ao nos aproximarmos, elas levantaram voo, cobrindo toda a abóbada do céu ao alcance de nossas vistas. Chegou até a sombrear a área onde estávamos, extasiados, contemplando aquele maravilhoso espetáculo. Tivemos a impressão de que o número das andorinhas ia a mais de cinquenta mil. Após uns vinte minutos de voo em lindas acrobacias aéreas, voltaram a pousar, em grupos, nas árvores e ramos mais distantes de nós. No ar, ficou a pergunta de como se alimentaria esse monumental bando de pássaros, naqueles campos sem muitas frutas e nenhuma lavoura ou plantação por perto a que recorressem. Nem os residentes locais que inquirimos souberam dar uma explicação convincente, chegando alguns a afirmar que se tratava de bando em migração para outras regiões.

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Parte 6

O paulista e o cangaço oficial

Proprietário de um sítio ali para os lados de Leopoldo de Bulhões, cuja cidade não existia na época desta história, o Paulista era um homem sem maiores instruções, mas de elevada capacidade crítica e de atividades gerais, sempre com muitas ideias sobre as cousas e fatos, quer do campo, quer da cidade, principalmente as que diziam respeito à gerência administrativa, social e político-partidária. Era oposicionista inveterado e ferrenhamente combativo. Tinha um filho que se estabeleceu com uma venda de bebidas, doces e quitandas, na Cabeceira da Pindaíba, hoje cidade de Leopoldo de Bulhões, à beira da estrada para Anápolis. O Paulista requereu uma divisão judicial nas terras em um condomínio onde possuía uma parte do imóvel “indiviso”. No regime vigorante, o juiz da causa deslocava-se com todo o foro até o imóvel, onde eram instalados os serviços em audiência pública previamente convocada. Cravado o marco inicial, ponto de partida da medição do perímetro, o foro regressava à sede onde aguardava a conclusão dos trabalhados de medição, a cargo do agrimensor, para, depois, regressar ao imóvel, na casa do promovente, para a entrega dos quinhões. O promovente arcava com as despesas de hospedagem, alimentação e pousada de todo o pessoal do foro, juiz, escrivão, advogado, promotor, arbitradores, oficial de justiça, etc., e, posteriormente, apresentava a “conta da aposentadoria” ao Cartório dos Feitos, para a inclusão na conta geral das despesas e no posterior rateio entre todos os sócios.


Posto a par disto, o Paulista apresentou a conta por escrito, na sua meia-língua, entre outras cousas interessantes, a seguinte parcela: “Dois agrimensor — diversos a diversos...200$000”. — Que é isso?, perguntamos ao Paulista. — É partida dobrada, respondeu. Estava, então, surgindo, aqui em Goiás, o novo processo de escrita comercial chamado de partida dobrada. — Mas o agrimensor é um só, Seu Paulista! — É, mas na partida dobrada vira dois... Integrado na política local e nacional, o Paulista foi a Belo Horizonte, bom oposicionista que se julgava, e trouxe, de lá, uma procuração na devida forma, como delegado de Partido pela Aliança Liberal, recém-fundada pelo Antônio Carlos, para fiscalizar as eleições na minha terra. A notícia logo correu célere pela cidade: o Paulista, caboclo de peito de raça, era fiscal, e as eleições não decorreriam mais naquelas habituais fraudes de bico de pena, com pressão do governo sobre os eleitores, buscas da polícia na roceirada para estabelecer o medo no eleitor da oposição, e mais todo aquele rosário de percalços muito bem vividos e contados por Mário Palmério, no seu gostoso livro Vila dos Confins. O Alcides Barnabé, tenentão da meganha estadual, valente, prepotente, arbitrário, apoiado pelo chefão do Estado, não media consequências. Já matara friamente, lá mesmo em Bonfim, na ponte do Rio dos Bois, na estrada para Bela Vista, o ex-cabo Palmatória. Preso incomunicável, tinha sido transferido de Goiás para a cadeia da minha cidade para ser executado. O Barnabé prendeu e bateu em muita gente boa somente pelo crime de ser oposição. Contavam-se, às dezenas, os crimes que cometera por todo o Estado de Goiás, todos impunes. O Alcides foi cientificado dos propósitos do Paulista nas eleições prestes a se ferirem no Brasil, no Estado e no meu munícipio, as quais, como de costume, deveriam ser ganhas de qualquer forma pelo Partido do Governo. Procurou, pela cidade toda, até encontrar o Paulista e, em troca de nada, prendeu-o. Conduziu-o pelas ruas “debaixo de ordem”, a caminho da cadeia pública, que ficava no Largo da Matriz. Exigiu a passagem do preso pelo atalho do Buraquinho, trecho sem casas nem moradas próximas, beirando os antigos lavrados de ouro, que ligava o Larguinho do Flávio à Praça da Matriz. 144


Viram-no entrando no atalho, levando o preso, mas, ao sair na Praça da Matriz, o tenente estava só. Matara, em “legítima defesa”, na área deserta do Buraquinho, o pobre do Paulista. O exame cadavérico não pôde esconder o tiro disparado na nuca do preso, que, também, não portava qualquer arma. Era tempo de Carnaval. Quando o enterro do Paulista subia com uns poucos acompanhantes pela Rua do Campo, rumo ao cemitério, lá veio o tenente, regressando das farras em Vianópolis. Acercou-se ele do caixão do defunto e lhe atirou lança-perfume “para que o morto chegasse cheiroso no céu”, como disse o Alcidão. O inquérito? Sem dúvida foi feito e remetido à autoridade estadual competente, trazendo como resultado um automóvel zero quilômetro de presente para o Barnabé!... Mas Deus não vende fiado. O Barnabé, na Revolução de 1930, teve os seus galões violentamente arrancados, com risos e zombarias, no pátio do Quartel de 6º BC, em Goiás. Foi expulso da Polícia e teve que fugir para São Paulo, onde foi ser jagunço do Armando Sales, lá morrendo de câncer.

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Em pé, da esquerda para a direita: Totó Félix, Zequinha Louza, Padre Oswaldo e Sebastião Louza. Sentados: Inácio Loyola, Zeca Louza, arcebispo Dom Emanuel, prefeito Mário Ferreira e o diretor do Ginásio Anchieta, Padre João Pian. À frente, a garota Dorinha.

Ginásio Anchieta, durante sua construção.

Sua primeira turma de formandos.


Goiás e Bonfim ganham um propulsor da instrução

No ano de 1924, veio para Goiás o bispo capixaba Dom Emanuel Gomes de Oliveira, antes Padre Manoel, da Ordem Salesiana. Passou por Bonfim, gostou e ficou. As autoridades e o povo de Goiás, a capital, ficaram aborrecidos e contrariados. Fizeram-lhe campanhas negativas, inclusive, dizendo que ele carreava para Bonfim recursos de Goiás, de Trindade, etc. O certo é que ele deu um impulso marcante no campo da instrução em Goiás, o que ninguém jamais poderá negar. Em Bonfim, ele construiu o Ginásio Anchieta, o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e o Seminário Santa Cruz. Para ali transferiu o jornal Brasil Central, antes editado em Campinas, propriedade que era dos padres redentoristas. Tanto trabalhou em prol do ensino que ficou cognominado como Bispo da Instrução. A minha terra ainda vive, nos dias de hoje, em função das obras que esse prelado ali construiu. Teve ele papel preponderante na vida político-administrativa do Estado, tendo sido presidente da Comissão de Escolha da Nova Capital, nomeado pelo interventor Pedro Ludovico. Na disputa eleitoral entre Juca Ludovico e Coimbra Bueno, decidiu a parada com a célebre carta a Dom Abel, motivada pelo apoio comunista ao primeiro candidato. Tenho comigo a cópia original dessa carta. Dom Emanuel sempre me honrou com sua particular amizade e estima, não só quando se preocupou com a minha situação de moço como também quando me tornei homem e ocupei cargos na vida pública, inclusive o de prefeito da minha terra. Semanalmente, uma ou duas vezes, convidava-me


para jantar em sua companhia e, também, para pequenas viagens, mormente à fazenda do Zequinha Louza, lugar que frequentava assiduamente. Mas voltemos aos acontecimentos da minha vida. No ano de 1926, o Dom Emanuel, amigo íntimo do engenheiro Getúlio Lins da Nóbrega, então diretor da Estrada de Ferro de Goiás, conseguiu-me um emprego de escriturário auxiliar, na Estação de Vianópolis. Para lá viajei em companhia do Lopo Ramos, então intendente municipal, o qual me levou ao Hotel Noronha, de cujos proprietários era amigo. Ali fiquei hospedado e trabalhava na estação o dia todo. Naquele hotel, encontrei duas pessoas que muito me fizeram feliz: uma, o João Noronha, empregado do hotel, que se dizia filho do meu tio Pedro Umbelino. Ele me dedicou toda sorte de atenção e amizade, chegando até a me emprestar dinheiro nas minhas aperturas. Outro foi o Dr. Americano do Brasil, filho meu ex-professor Nico Euzébio. Ele me conhecia bem, pois não só era meu conterrâneo, como também teve ocasião de ministrar-me aulas em diversos períodos que sempre passava em casa dos pais, no colégio do seu progenitor, do qual eu era aluno. Nessa época, Americano do Brasil morava em Santa Luzia (Luziânia), mas passava temporadas em Vianópolis. Estava escrevendo ali o seu livro Nos rosais do silêncio, que não pôde concluir devido à sua morte repentina. Foi vítima dos fatídicos mexericos muito comuns em cidades do interior, sendo estupidamente assassinado, perdendo Goiás e o Brasil um de seus mais ilustres filhos. Poeta, historiador, político, destacou-se em tudo o que participou na vida. A melhor história de Goiás que se conhece até hoje foi por ele escrita, sob o título de Súmula da História de Goiás. No fim do ano de 1926, induzido por colegas da Estrada de Ferro, fui a Araraquara conseguir melhores colocações com o engenheiro Balduíno, ex-diretor da Goiás e então chefe de locomoção da Estrada de Ferro Araraquarense. Nada conseguindo, retornei a Bonfim. Fiquei contente por ter regressado à nossa casa da Rua Santo Antônio, a qual fora recuperada pela minha família durante a minha ausência. Estava mais ou menos sem ocupação e passava o tempo jogando futebol, esporte que aprendi em Uberaba e praticava mais ou menos bem, chegando a me classificar, naquele tempo, entre os melhores do Estado. Fui convidado pelo meu primo José Umbelino para auxiliá-lo na compra de arroz, no munícipio, eis que vinha de compor uma sociedade com os senhores Cláudio Bertoldo e Plácido de Campos. 148


Nesse mister, viajamos a cavalo bastantes vezes pela zona do Rio dos Patos, Piracanjuba, Buriti, etc. De automóvel, íamos à fazenda do Zé Cândido Louza, onde compramos bastante arroz. O transporte do arroz era feito em dois caminhões, um do Boanerges França (Filhinho) e o outro de Irineu de Tal. Uma noite, voltando da fazenda, no caminhão do Filhinho, o veículo voltou numa rampa, tombando. Eu e o Nenzico Umbelino, que viajávamos na boleia, ao lado do motorista, saltamos antes do tombo do veículo. Sob ele e sua carga, ficaram o motorista e seu ajudante Laudelino Batista, este em pior situação, pois viajava deitado sobre os sacos de arroz, debaixo da lona que o cobria. Fazia muito frio naquela madrugada, cerca de 1h30 da manhã. O Filhinho escapou pela porta da cabine, facilmente. Mas, quando constatou que seu ajudante ficara preso debaixo da carga, ficou alucinado e saiu pelo campo gritando que havia matado um pai de família. Milagrosamente, naquele exato momento, surgiu em sentido contrário um caminhão cheio de gente; a ação foi rápida e salvamos o Laudelino de morte certa, pois já estava asfixiado e em coma. Essa cena ficou muitos anos na minha memória e, com ela, um pavor de veículo recuar em subidas, medo que até hoje conservo... Como já estava chegando o meu tempo de prestar serviço militar, ingressei no Tiro de Guerra do Ginásio Anchieta de Bonfim. Não podendo ausentar-me da cidade pela frequência que devia às instruções militares, aceitei o convite do tabelião do 2º Ofício de Bonfim, Adolfo Almeida, para ser escrevente do seu cartório. Exerci esse cargo algum tempo e já havia praticado bastante, quando o meu parente João Siqueira, que resolvera mudar-se de Hidrolândia para Bonfim, comprou esse cartório e me levou com ele. Como não completei o tempo no Tiro de Guerra, por ter brigado com o sargento-instrutor Arlindo Cardoso, fui convocado pelo Exército e, em outubro de 1929, apresentei-me ao 6º BC, em Ipameri. De começo, resolvi “embromar”, como diziam no meio militar. Aleguei doença do coração, para ver se escapava do serviço militar, mas fui mandado para São Paulo, para exames complementares. Lá fiquei no 4º BC até o fim de fevereiro de 1930, quando, julgado apto para todo o serviço militar, regressei a Ipameri para cumprir o tempo. Aliás, esse regresso a Ipameri devo-o ao arcebispo Dom Emanuel, que, estando em São Paulo, solicitou, a meu pedido, uma audiência com o comandante da região, General Pantaleão Teles ou Nestor Sezefredo, e conseguiu a 149


minha volta. É que, se ficasse em São Paulo, iria para Aquidauana, no Mato Grosso, onde a vida era fogo. Foi uma sorte, porque escapei de ser colhido pela Revolução de 1930 como soldado no 4º BC, cujo quartel foi praticamente destruído naquele movimento. Em Ipameri, consegui um quarto de parceria com o Gilberto Santana, natural de Piracanjuba, que conheci em São Paulo; tornamo-nos amigos inseparáveis até o final do tempo militar. O quarto ficava na casa da Dona Sebastiana Barbalho, que nos fornecia também alimentação. Lá conheci o seu filho, Gerson Barbalho, craque de futebol ipamerino, que me apresentou a outros jogadores, entre eles o Alcides Vaz e o Marrul, enriquecendo-me com um novo grupo de amigos. Passei a treinar no quadro do Ipameri Futebol Clube, inclusive tomando parte nas disputas por ele enfrentadas com Catalão, Caldas Novas e outras. Em outubro de 1930, já no Comando do 6º BC o meu conterrâneo e parente coronel Antônio Pireneus de Sousa, rebentou a Revolução no Brasil contra o Governo de Washington Luiz. O batalhão entrou em rigorosa prontidão, deslocando uma companhia para guarnecer a ponte do Paranaíba, entre Anhanguera e Engenheiro Bethout. Havia rodízios nas escalas e lá fomos nós da lª Companhia substituir a 2ª. Revoltaram-se naquele local alguns sargentos, entre eles o Ferraz de Lima, os quais ficaram detidos em um vagão da Goiás até retornarem à sede do quartel em Ipameri. É preciso ressaltar que o Cel. Pireneus não combateu os revolucionários, parecendo a nós, seus comandados, que a causa deles lhe era simpática. Apenas guarneceu a ponte do Paranaíba, porque constou que a Polícia Mineira iria destruí-la para impedir a entrada, em Minas, do 6º BC. Vitoriosa a Revolução, o 6º BC deslocou-se a toda pressa para a capital do Estado, Goiás Velho, cumprindo as novas ordens. A viagem até Vianópolis, feita no trem da Goiás, foi relativamente boa. Mas, dali até Goiás, viajamos em veículos requisitados à última hora, cujo estado não era nada bom, e sofremos o diabo na viagem. Saímos de Vianópolis debaixo de um temporal e, assim, viajamos encravando aqui e ali, até Goiabeiras (Inhumas), onde já chegamos à noitinha. O batalhão ficou no largo principal da cidade, ao desabrigo, mesmo porque não havia naquela pequena cidade acomodações para 400 homens. 150


À certa hora da noite, o cabo João de Lima, de Catalão, meu companheiro de veículo, convidou-me para “desapertarmos” uma acomodação. Batemos à porta de uma casa e fomos atendidos por uma senhora que nos fez entrar, deu-nos roupas secas de seu marido, enquanto secava as nossas fardas e ainda nos forneceu jantar. Colocou dois colchões na sala e neles dormimos regaladamente até a manhã do dia seguinte, quando nos levantamos e fomos tomar leite tirado na hora, em uma chácara próxima do largo. Seja quem for, a senhora, cujo nome não guardei, nem nunca mais vi, ficam aqui nestas linhas os meus melhores agradecimentos. Que Deus lhe dê o céu! Seguimos a viagem felizes; distantes alguns quilômetros da cidade, um caminhão cheio de soldados que ia à nossa frente, ao fazer uma curva em alta velocidade, tombou, espalhando soldados por todos os lados. Ali nos estacamos prontamente, para prestar-lhes socorro, mas todos se levantaram rindo, sem nenhum ferimento, mesmo leve. Chegando a Goiás, fomos ocupar o cinema que existia no Largo do Chafariz, ao lado do Quartel da 3ª Companhia do mesmo batalhão. Entretanto, sem instalações sanitárias, nem água, a situação agravou-se e, no terceiro dia, o batalhão deslocou-se para o povoado suburbano do Bacalhau, onde ocupamos diversas casas particulares que nos foram cedidas. Ali ficamos garantindo a Junta Governativa do Estado, por mais de trinta dias, porque a Polícia do Estado fora toda dissolvida pela Revolução. Vi oficiais da polícia, antes valentões e prepotentes, como o Alcides Barnabé, o carrasco executor de presos, ser humilhado impressionantemente. O seu talabarte e seus galões foram-lhe arrancados no pátio do quartel, em meio a chacotas e risos. A Polícia do Estado passou a ser recomposta com elementos do 6º BC que a isso se dispusessem. Transferiram-se como capitães os primeiros-sargentos Ferraz, Amorim, Lindolfo e outros, como segundos-tenentes, alguns terceiros-sargentos e o cabo Levertino Leão Sobrinho. A propósito, lembro-me de que o Cel. Pireneus chamou diversos bons militares para essa transferência, como uma colaboração ao Estado de Goiás, numa hora grave de sua vida político-administrativa. Estendeu o convite ao Félix França, ao Levertino e a mim, que éramos cabos no batalhão. O Félix recusou, dizendo que preferia ser carroceiro em Pires do Rio a ser tenente da Polícia de Goiás (o conceito dela nesse tempo era o pior possível). O Levertino 151


disse que aceitava, pois, se voltasse para Catalão, iria ser mesmo carroceiro como seu pai. Quanto a mim, não tive condições de optar, porque havia comprado o Cartório do 2º Ofício de Silvânia e estava devendo sete contos de réis, que tomara emprestado do Zé Correinha, a juros de 1,25%, com o prazo de três anos. Aconteceu que o Levertino encanou a perna, ficou rico, estudou, fez carreira, dado o seu dinamismo e inteligência. O Félix França, coitado, teve fim trágico em Pires do Rio, e eu continuei o beira-chão que era. Antes tivéssemos todos os três ingressado na Polícia. Esta foi reformulada pelo tenente Anfrísio da Rocha Lima e melhorou profundamente, constituindo, hoje, uma corporação de alto conceito dentro e fora do Estado.

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O Brasil Central

Quem lê este vibrante diário, de ótima apresentação e com invejável corpo redatorial que o coloca entre os melhores da imprensa goiana, talvez não conheça como nasceu o Brasil Central. Quando assumiu a Diocese de Goiás o bispo Dom Emanuel, só havia um jornal de orientação católica, editado na antiga cidade de Campinas, nesta capital, pelos padres redentoristas, intitulado O Santuário da Trindade. Apesar de pequeno, era bem orientado, combatente e prestou assinalados serviços às letras e à religião em nosso meio. Para substituí-lo, foi criado por aquele magno pastor o Brasil Central, que iniciou os primeiros passos na minha velha Bonfim, no ano de 1931, ou mais precisamente em 12 de outubro de 1931, conforme o registro do escritor de saudosa memória, José Lobo, em seu trabalho Contribuição à História da Imprensa Goiana. Em Bonfim, na casa velha paroquial, no Largo da Matriz, numa oficina manual, com os maiores sacrifícios, saíram os primeiros números do jornal. Um grupo de moços entusiastas da imprensa, entre eles Euclides Lobo, Abel Nascimento, Padre Vítor Coelho Almeida e, depois, Joviano Ferreira, José Jaime e outros foram os pioneiros. Era uma labuta para compor um número de jornal. Tudo feito à mão, desde as composições, com a colocação de tipo por tipo nas pranchetas, até a impressão numa máquina de duas manivelas, que exigia força e suor. Nesse mister, até dois presos da Cadeia Pública, que ficava próxima à casa paroquial, auxiliaram espontaneamente por algum tempo. Mais tarde foi a oficina mudada para o sobrado da Dona Luiza, na Praça do Rosário. Foi ali que me estreei num artiguete, na gestão de Joviano Ferreira.


Sofreu o jornal, que saía quinzenal ou mensalmente, diversas interrupções, umas breves, outras longas. Transferiu-se, mais tarde, para a capital, sendo impresso nas oficinas da Tipografia Ingra, sob a direção dos jornalistas Hélio Lobo e José Augusto. Diversos foram os que prestaram a sua colaboração nesse denodado jornal que, apesar das dificuldades de toda ordem, a tudo resistiu e venceu, fazendo-se sempre presente nos lares católicos. Rejubilo-me, pois, com as famílias goianas, pelo grande jornal que hoje se apresenta belo e bem feito, todos os dias, em nossas casas. Que ele viva através dos séculos, cada vez melhor, para benefício do povo e glória de Deus! E, comigo, rejubilam-se todos os filhos de Bonfim, terra-mãe que teve a glória de ser o seu berço natal. *Nota do Autor: Ao término deste livro já não existia o jornal Brasil Central.

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Notário público vitaliciamente provido

Cumprido o serviço militar, voltei a Bonfim e imediatamente comecei a trabalhar no cartório. Acertado o modo de me habilitar para o provimento efetivo, dada a afluência de candidatos que poderiam surgir em Bonfim, fizemos, o João Siqueira e eu, a combinação pela qual eu me habilitaria pelo Primeiro Ofício de Hidrolândia, ex-distrito de Pouso Alto, que acabava de ser elevado a município. Provido nesse Ofício, permutaríamos os cargos. Em consequência, no início de fevereiro de 1931, lá fui eu para Hidrolândia, que já conhecia como Santo Antônio das Grimpas. A viagem, até Bela Vista, seria no caminhão de Boanerges França, que transportava telhas para Campininha. Saímos de Bonfim debaixo de uma chuvarada ao amanhecer. Rodamos e encravamos pela estrada precária de então até a fazenda do Gracianinho, no Passa-Quatro, onde se constatou a quebra de uma peça importante do veículo. Os transportes eram escassos e foi preciso mandar um portador a cavalo, levando a peça quebrada a Bonfim, para os reparos. A distância era de sete léguas pelos atalhos, e ficamos um dia e meio ali encravados. Reparado o veículo, voltamos à marcha, até que, ao subirmos as rampas de Piracanjuba, a uma légua de Bela Vista, o caminhão atolou as quatro rodas e nada pudemos fazer senão deixá-lo plantado no barro e prosseguir, a pé, até a cidade. Para mim, recém-saído do Exército, aquilo era café pequeno. Mas para os meus companheiros era tarefa penosa e eles a cumpriram com muitas quedas, escorregões, roupas encharcadas, calos nos pés, etc.


No dia seguinte, com a ajuda dos meus parentes Umbelino, de Bela Vista, consegui animais e um peão para vencer as seis léguas até Hidrolândia. Os primeiros dias nessa nova morada foram-me difíceis, do ponto de vista da vida de um moço com 21 anos, cheio de vigor e ilusões. O lugar era atrasado, não havia nem cigarros de papel, nem bar, nem cinema, nem nada. O negócio era levantar de manhã, trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho, jantar e dormir de novo para repetir a mesma cousa no dia seguinte. Aos poucos, fui fazendo amigos e consegui uma namorada, o que já me proporcionava algumas alegres distrações. O Jorginho, músico citado no livro do Basileu Toledo França, tocava clarineta ou trombone. Ele, o Dinorah, secretário do prefeito José Amâncio, o Zé de Siqueira, juiz municipal e farmacêutico do lugar, eram todos solteiros. Alguns casados, comerciantes, o escrivão José Virgilino, o promotor Chico Bento e o rábula Albuquerque, rei das intrigas. Este, no final do meu tempo, levou o meu escrevente Temístocles a me denunciar ao juiz de Direito da comarca porque encontrou, no cartório, após minha ida para Bonfim, canhotos do registro de imóveis (certificados no registro) que não foram entregues aos donos. Uma infantilidade, porque, naquele tempo, ninguém gostava desse certificado, satisfazendo-se com o translado da escritura devidamente averbado do registro e aquela capa com os dizeres bem grandes “Quem não registra não é dono”. O Albuquerque tinha mágoas da minha ação no cartório, que atrapalhava as suas falcatruas. Em Hidrolândia, costumávamos promover bailes familiares, ao lampião, nas casas de Dona Maria Angélica, do Antônio Euzébio. Compareciam sempre o moço Dinorah e a moça Euclides, cujos nomes me causaram “espécie”, pois, em Bonfim, era justamente ao contrário — Dinorah era a moça e Euclides, o homem... Nas manhãs, nós, os rapazes, íamos ao banho no córrego que banha a cidade, onde fazíamos um pouco de natação e ginástica. De quando em vez, um aniversário do prefeito, na sua ampla chácara, um passeio em alguma fazenda, etc. Certa vez, acertamos uma diligência do Fórum à fazenda do Joaquim Pires, para a entrega de quinhões, em processo divisório. Arrumei um cavalo emprestado e coloquei-o no pasto da Dona Maria Angélica, na tarde anterior, pois devíamos sair na madrugada. Na pega do animal, fiquei atrapalhado, 156


pois, no pasto, havia uma centena de cavalos roceiros que vieram festar na cidade. Custei muito a identificar, na semiescuridão, um animal da cor do meu, mas, por fim, encontrei aquele que me pareceu certo. Selei o bicho e pus-me na estrada com os demais companheiros, o promotor João Borges, os avaliadores, ou arbitradores, e o oficial de justiça, pois o juiz de Direito, o Dr. Lico de Abreu, titular da Comarca, viajaria diretamente de Pouso Alto para a fazenda. Ao entardecer, chegava à mesma fazenda um “próprio” vindo de Hidrolândia, em busca do meu cavalo... Não era o meu! Queria me cobrar a viagem, aluguel, etc. Rimos e agradecemos, mas sem pagar nada. Enquanto trabalhava no cartório, ia-me preparando para o concurso já requerido e marcado. Na época própria, viajei para a capital do Estado, a Vila Boa, histórica e tradicional cidade, fundada por Bartolomeu Bueno. De Hidrolândia até Campinas, fui no fordinho do Nenê Costa, agrimensor, que se encontrava em Hidrolândia, fazendo divisão de terras. A gasolina seria por minha conta, e esse combustível andava caro e escasso. Chegando a Campinas não encontrei gasolina em parte alguma, e informaram-me que o Cel. Licardino era o único que possuía estoque — particular, é lógico. Fui a ele, custei a convencê-lo a me arrumar uma lata, pela qual me cobrou cinquenta mil réis. Em Campinas, peguei o correio que era feito em outro fordinho, dirigido por um motorista novo e meio louquinho. Corremos doidamente até Trindade, onde era pernoite. Na pensão, à noite, o motorista me convidou para visitarmos umas moças bonitas da cidade, mas eu estava cansado e precisava aproveitar o tempo para recordar as matérias do concurso. Na manhã seguinte, partimos logo ao clarear do dia e chegamos a Goiás, depois das 12 horas, indo hospedar-me na Pensão do Altino Perillo, no Largo do Chafariz, ao lado da Cadeia Pública. Ali estava preso o delegado, político, arbitrário e truculento Encovard de Barros, que fez bravuras no Sudoeste antes da Revolução de 1930. Ele dava berros e gritos, de quando em vez, a título de esporte ou para impressionar. Da primeira vez que ouvi, achei que o negócio era sério e fui à cadeia meio horrorizado, mas lá verifiquei que ele dava boas gargalhadas. Conheci, também, na pensão referida, nessa época, o professor Venerando de Freitas Borges, ainda mocinho, ali morando com a sua esposa, lecionando não sei onde. O certo é que comprei um disco na loja do Alencastro Veiga, encomenda de gente de Hidrolândia. Conversando na pensão sobre o disco, 157


que era muito bonito, alguém se interessou e quis pô-lo para tocar, lembrando que ali morava um casal que tinha uma vitrola. Esse casal era, justamente, o professor Venerando e a esposa. Apresentações, vitrola, música do disco, de outros, etc. Assim, fiquei conhecendo aquele que, mais tarde, seria o primeiro prefeito de Goiânia. Levei uma carta de recomendação política do Mário Ferreira, então prefeito de Bonfim, para o Dr. José Honorato da Silva e Sousa, secretário do Interior e Justiça, e outra assinada pelos chefes políticos de Hidrolândia, prefeito José Amâncio e juiz José de Siqueira, para o Dr. Pedro Ludovico, interventor federal em Goiás. Submeti-me ao exame perante o Tribunal de Justiça do Estado, cuja banca examinadora foi constituída pelo desembargador Oliveira Godói, outro desembargador e um procurador-geral do Estado, cujos nomes nem tive a curiosidade de saber. Ora, já contava cinco anos de cartório, estudara a fundo as matérias, era inteligente, de maneira que dissequei as questões que me foram expostas de cabo a rabo, além das expectativas. O desembargador Oliveira Godói, proferindo o seu voto, disse que a maior nota do concurso era cinco, que eu bem merecia, mas essa só era dada, por princípio no Tribunal, para os bacharéis em Direito, pelo que me propunha a nota quatro, que foi unanimemente aprovada. Recebi elogios, abraços e, diante desse resultado, nem entreguei as cartas que levara, porque poderiam pensar que eu estivesse querendo passar atrás da porta para um cargo a que, na verdade, eu estava apto a exercer pelos meus próprios conhecimentos e méritos, modéstia à parte. Quando regressei a Hidrolândia, viajando a cavalo do Meia Ponte até lá, fui recebido com foguetes e abraços. O certo é que, dentro de dez meses, instalei o Cartório do 1º Ofício de Hidrolândia, prestei concurso e fui provido vitaliciamente. Trabalhei com afinco, lavrei centenas de escrituras e contratos, fiz milhares de registros de imóveis, muitas diligências às fazendas, lavrando escrituras, inventários e divisões de terras. Ganhei um bom dinheiro. Em novembro de 1931, regressei ainda a cavalo, a Bonfim, para concluir a permuta dos cartórios com o João de Siqueira, não mais voltando à Hidrolândia, de onde parti montado num burro grande do Diocleciano, mas o danado tinha só tamanho, pois era meio lerdo e manhoso. Passei por Bela 158


Vista sem me apear. No Rio Piracanjuba fiz uma parada, para descanso meu e do animal. Dali, segui rumo a Bonfim, cuja distância era de dezesseis léguas, a partir de Hidrolândia. Já na noite fechada, cheguei, com muita dificuldade, à fazenda do Quinzim Bonifácio, no Campo Alegre. Eu estava me pelando de medo de pousar naquela região, porque, nela, grassava um tremendo surto de bexiga (varíola), de caráter maligno, já tendo vitimado muitas pessoas, inclusive um negrão muito forte chamado Lázaro Baiano, amansador de cavalos. O dono da fazenda, que se levantou a meu chamado — “Ô de casa”—, tranquilizou-me, dizendo que sua casa era a única naquele meio não atingida pelo mal, isso devido aos cuidados e ao isolamento por ele esquematizado. No outro dia, com o burro descansado, mais lerdo ainda, custei a vencer aquelas cinco léguas que foram aumentadas para seis e meia, devido à volta em virtude de haver rodado a ponte do Rio dos Bois. Encontrei a minha cidade muito melhorada, com jardim em construção, na praça principal, e com banda de música composta de sessenta membros, chefiada pelo grande maestro João Piraí. Nas tardes de quinta-feira e domingo havia retretas, com movimentação de muita gente, naquele vai e vem gostoso e tão apreciado pela mocidade. A administração Mário Ferreira havia modificado o aspecto da cidade. Achei até o povo mais alegre e risonho.

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Equipe do Bonfim Esporte Clube, em 1927. Jogadores de pé, da esquerda para a direita: Augusto Siqueira, Vicente Pugliese, Zé Martins, Antônio Pugliese e Anésio Caetano. De joelhos se veem Luiz Lobo, Murilo Félix, Ubirajara Félix, F. Nogueira e Natal Caetano. À frente, deitado, encontra-se o autor deste livro.

Comício em Bonfim na década de 1940.

Casa do autor deste livro, em Bonfim, em 1940.


Parte 7

De revolucionário ludoviquista a dissidente velasquista

Como revolucionário autêntico dessa nova era política, eu seguia entusiasmado a política de Pedro Ludovico, representada, em Hidrolândia, pela dupla José Amâncio-José de Siqueira e, em Bonfim, pelo prefeito Mário da Costa Ferreira, ao qual me ligavam laços de parentesco, amizade e companheirismo de trabalho forense, eis que ele era advogado. Além do mais, foi ele quem praticamente me conduziu e induziu à compra do Cartório de Bonfim, inclusive avalizando-me no empréstimo do Zé Correia. O Mário, no entanto, derivou para a carreira de magistratura, fazendo concurso para juiz de Direito e nomeado para a comarca de Arraias. De acordo com o interventor Pedro Ludovico, substituiu-o na Prefeitura o José Edson Félix de Souza, contador, filho da terra, por todos estimado. Ocorreu, nessa época, a célebre dissidência no PSD goiano, encabeçada por Domingos Velasco, João D’Abreu, Hermógenes Coelho e João Coutinho, salvo engano. Ora, o Velasco era unha e carne com o Mário Ferreira e amigo também do Felismino Viana, ex-chefe caiadista, que andava meio afastado da política devido ao violento tombo que a Revolução de 1930 dera nessa gente. Velasco, inteligente e sagaz como era, foi a Bonfim, reuniu Mário Ferreira e Felismino Viana e convenceu a ambos de formarem com a dissidência uma frente em Bonfim. Pedro Ludovico chamou José Edson à fala, na condição de seu delegado e representante no munícipio. Mas Zé Edson respondeu firme que estava com o grupo de Mário Ferreira, indo para onde ele fosse. Em consequência, foi demitido da Prefeitura, para ela sendo nomeado Cláudio Bertoldo. Não será preciso dizer que todos nós, da grei Mário Ferreira, fomos com ele, de dobro, no negócio. Aí, minha gente, o pau começou a cantar de


novo na minha terra. Só que agora o manejador não era mais o Caiado, mas o Pedro Ludovico. O Cláudio mandou a polícia dar uma busca no Raul, meu amigo, que era então guarda-livros da Empresa de Luz, do Felismino. Eu, que ia por perto, interferi em favor do Raul e também levei uma busca em regra, acompanhada de belos insultos do sargento-comandante da escolta, por sinal um ébrio habitual. O Cláudio lançou o meu irmão Getúlio, que era seu secretário, como candidato à sua sucessão. Houve reação da família Louza, chefiada pelo Zequinha, que também era meu amigo. Tomei o partido do meu irmão e briguei com todos os Louzas, passando muito tempo sem falar com eles. Ao Cláudio sucedeu o Pedro Quintiliano, que Pedro Ludovico nos mandou de Rio Verde, como interventor municipal, pois estávamos ainda no regime revolucionário. Pedro Quintiliano até que não foi mau prefeito, mas era de sangue quente e logo criou incompatibilidade com o grupo Felismino Viana, terminando por deixar a Prefeitura e voltar à sua cidade natal. Quem sucedeu ao Pedro Quintiliano foi o Dr. Alarico Jaime, médico local, em eleição mais ou menos dirigida pelo partido dominante. Ao Alarico sucedeu o Dr. José Chaves, também médico, casado com a filha de Felismino Viana, isto já no segundo período interventorial de Pedro Ludovico. O negócio foi que, para conseguir maioria na Assembleia Estadual, para aprovação da mudança da capital de Goiás para Goiânia, Pedro Ludovico teve que chamar a adesão de Felismino Viana e do Padre Vitor, deputados que eram da oposição. O preço foi, naturalmente, a entrega da política municipal de Bonfim a Felismino que logo fez nomear o seu genro prefeito. De pitoresco desse episódio, havia a fala do Fazinho (Josafah de Moraes), que dizia: “O Pedro chamou lá em Goiás o Cláudio, raspou-o, tirou-lhe o cabresto e soltou neste mundão de Deus”. Com a morte de Felismino Viana, Pedro Ludovico deu o golpe na chefia por ele exercida, demitindo o seu genro da Prefeitura e nomeando, para a mesma, Misach Ferreira Júnior, que era funcionário da Secretaria da Fazenda. Tentei participar da política desse novo prefeito, mas a sua truculência, o seu modo de ver as cousas e administrar, me fez dele afastar cada vez mais, até passar totalmente para o lado oposto, chefiando a oposição em Bonfim. 162


Na primeira eleição presidencial ocorrida após a ditadura Vargas, quando se candidataram Dutra e Eduardo Gomes, ficamos com este e conseguimos levar bons votos a seu favor. Na eleição estadual, entre Jerônimo Coimbra Bueno e Juca Ludovico, entramos para valer. Organizamos o Diretório Municipal, lançamos candidatos a deputado, promovemos campanhas na cidade e no munícipio. No primeiro encontro que tivemos com o nosso candidato a governador, realizado na sua primeira visita ao munícipio, reinava um medo generalizado dos bonfinenses, tanto que a maioria se escondeu dentro das próprias casas. Os habitantes de Vianópolis e de Leopoldo de Bulhões, chefiados respectivamente por João Batista e por Noé Brandão, José Carlos e José Edson, deram cobertura ao comício, com gente e veículos. De qualquer forma, conseguimos uma festa política oposicionista num meio onde todo mundo baixava a cabeça quando Misach falava. Nesse dia, em conversa séria com o Jerônimo, quando este indagava das minhas pretensões políticas, eu lhe disse, na presença dos meus companheiros, que nada queria. Como tabelião antigo em Silvânia, eu pleiteava um dos Cartórios do Registro de Imóveis de Goiânia, porque era sabida a necessidade de desdobramento do Cartório do Atanagildo França. Feita a eleição, quase empatamos a parada em Bonfim, onde Juca ganhou por pouco mais de duas centenas de votos, num meio essencialmente pessedista, onde não havia liberdade de ação e sobretudo onde imperava um medo doentio do povo em relação ao interventor Misach. Partimos, depois, para o pleito municipal, agora já no Governo de Coimbra Bueno, com mais garantias e condições de trabalho e, sobretudo, já podendo falar e pregar abertamente dentro e fora da cidade. Fui o candidato a prefeito, embora contra a minha vontade, pois, nessa altura, desejava mesmo eleger um outro conterrâneo capaz, sereno, e sem estar tão extremado como eu me encontrava na política partidária local. Mas os meus companheiros fecharam a questão e não tive outra alternativa senão aceitar, disputar e ganhar essas eleições contra um amigo e parente, a quem eu muito considerava e considero, que era o Lopo Ramos, meu ex-adversário na disputa pela Prefeitura. Mas podem estar certos todos os meus amigos e conterrâneos que até hoje eu me arrependo profundamente de não ter resistido firmemente a essa 163


candidatura e, mais ainda, preferiria que nunca tivesse sido eleito prefeito de Bonfim. É que nesse cargo, procurando fazer uma administração séria e honesta, sacrificando os meus interesses, prejudicando a minha família, só encontrei incompreensões da maioria dos meus conterrâneos e de muitos dos meus próprios companheiros de partido e de administração. Governando com uma Câmara Municipal minoritária, enfrentando toda espécie de campanha negativa dos vereadores majoritários, conduzidos pela maldade do Misach, acabei mesmo nada podendo fazer na minha administração. Na eleição seguinte para Governo do Estado, entre os candidatos Altamiro Pacheco, pela UDN, e Pedro Ludovico, pelo PSD, perdemos de ponta a ponta em Bonfim. Ao lado da derrota, vieram as humilhações que foram muitas, incontáveis e de toda sorte, despejadas pela grei Misach contra mim e minha família. Até um incidente de briga entre o João Correão, cabo eleitoral do Misach, e um empregado da Prefeitura, o Zé Olímpio, foi-me imputada a autoria ou o mando da facada que o primeiro levou na barriga, tendo os seus filhos ameaçado minha esposa para que preparasse o meu caixão, caso o seu pai morresse do ferimento. Felizmente, o Dr. Jacobson, aqui de Goiânia, deu volta no barrigudo Correão, que não morreu e ainda viveu muitos anos depois. Só me restava o caminho da renúncia ao mandato de prefeito, depois de perdidas as eleições de outubro de 1950, o que fiz, condicionando-a, todavia, com o presidente da Câmara, vereador Benedito Fleury, à aprovação total das minhas contas na Prefeitura, cujos balanços de três anos estavam acumulados, empilhados na Câmara sem qualquer exame pelos vereadores. Mudei-me para Goiânia, perdendo tudo o que tinha em Bonfim, ou vendendo a troco de nada, isto em dezembro de 1950. Melhor que o tivesse feito bem antes de todos os acontecimentos já relatados, pois, nessa capital, passei a viver outra vida, como se diz vulgarmente. Admiração, consideração, conceito, ótimas amizades, tudo, enfim, que um cidadão prestante possa desejar na vida, eu tive e tenho nessa nova terra que elegi, com muita satisfação, minha terra natal. Passei quinze anos sem pôr os pés em Bonfim e só o fiz na campanha política do Otávio Lage, a pedido insistente do meu primo Zé Caixeta, que se levantara naquela cidade como líder político. 164


À minha saudosa mãe, que faleceu no auge das campanhas políticas de Bonfim, com o espírito naturalmente agoniado por mim; à minha esposa que me acompanhou em tudo, sofrendo comigo; aos meus irmãos; a todos os meus parentes e amigos sinceros, quero também consignar, nestes rabiscos da minha vida, toda a sinceridade dos meus agradecimentos. Deus os recompense!

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O CAM

Ali nos meados de 1932, recém-empossado que eu estava no Cartório que comprara do João de Siqueira, nas andanças pelas ruas da minha cidade, levando e trazendo processos, em determinado dia, pelas dez horas mais ou menos, vimos um pequeno avião sobrevoando a cidade, em constantes círculos, como que procurando lugar para descer. Naqueles tempos, poucas eram as cidades do interior nesse imenso Brasil que possuíam campo de pouso, e a nossa velha Bonfim não era uma das aquinhoadas. O espetáculo de um avião sobrevoar aquela cidade era a bem dizer inédito. O povo todo saiu às ruas, sobressaltado, nervoso, uns com medo, outros emocionados acompanhavam as evoluções da nave, até que, depois de algum tempo, ela foi baixar nos altos da cidade, por trás da Casa de Saúde do Dr. Carlos de Freitas. O povo, então, disparou em massa para aquelas bandas; rapazes, moças, homens, mulheres, crianças, velhos e velhas, mormente os da classe média que nunca tinham visto avião, algumas empregadas carregando crianças, outras portando embrulhos de compras e até carregando frangos e galinhas compradas para o almoço, todos corriam para ver o avião caído nos altos da cidade. Seis companheiros, que erámos no momento, fizemos o velho auto Ramona, do Nondas Ferreira, parar e nele nos empoleiramos com mais três outras pessoas que já vinham dentro e tocamos para o local, com o carro mal se arrastando com o excesso do peso. Lá estava, de fato, o avião pousado à margem do pequeno campo de futebol da cidade, nos limites do perímetro urbano. Em menos de meia hora,


já se reuniam ali mais de mil pessoas rodeando o avião, todas famintas de conhecimentos, querendo ver de perto, querendo pegar, querendo entrar pela cabine, uns mais afoitos empurrando os outros, alguns protestando, outros perguntando quantos morreram e ainda outros temorosos, de longe, recomendando para não chegarem perto, porque era perigoso. Três oficiais da Aeronáutica eram os ocupantes da nave; todos eles, nessa altura, apavorados ante a gana popular, pedindo aos gritos que todos se afastassem, que o avião ia levantar voo. Todavia, informaram-se dos homens presentes mais apresentáveis sobre o nome da cidade e a situação dela na carta geográfica que traziam. Depois, fizeram um rápido reconhecimento do terreno para a decolagem, concluindo ser impraticável no local. Alguém lembrou a rodovia que passava perto, rumo à cidade, bem larga e recentemente aplainada, ideia prontamente aceita pelos oficiais. O problema era o avião chegar até lá. Aí ganhou a valentia dos homens presentes que se propuseram a carregar o avião, o que realmente foi feito, sob o espanto dos militares, que receavam naturalmente algum dano ao aparelho. Mas tudo correu bem, e o avião chegou são e salvo à margem da rodovia, na qual foi ajeitado segundo as instruções do aviador, de modo a aproveitar o melhor trecho da inclinação topográfica, o que, naturalmente, favorecia a corrida para a decolagem. Tudo pronto, iniciou-se a operação de acionar o motor, no processo primitivo daquele tempo: um oficial rodou a manivela do lado externo da cabine, como se fosse um moinho de café, e, quando adquiriu certa rotação, outro oficial acionou a hélice. Operação repetida bem umas quatro vezes, até que, afinal, a máquina funcionou, fazendo um poeirão danado sobre o povo que ficara por detrás do avião, até que este se arrancou pela estrada abaixo, só conseguindo levantar-se do chão nas proximidades das primeiras casas da cidade. Deu uma volta nos ares e ganhou o rumo de Vianópolis. Nem um muito obrigado receberam os que auxiliaram no transporte do avião, mas, em contrapartida, todo o povo ficou cheio de si, considerando importante a cidade porque nela caíra um avião. Cada um queria ter visto e conhecido melhor a cousa; alguns reclamavam por não terem podido chegar bem perto, outros, por terem chegado atrasados e perdido aquela rara oportunidade. 168


Mais tarde, soubemos que, em Araguari (MG), onde o avião fez o pouso seguinte, os oficiais declararam que tiveram pavor do povo de Bonfim, ante a sua fúria canibalesca diante do aparelho. Foi quando ficamos sabendo tratar-se do primeiro voo do Correio Aéreo Militar (CAM) ao nosso Estado, já de regresso da capital, a histórica cidade de Goiás, para o Rio de Janeiro. Desviaram-se da rota de desceram em Bonfim, porque não conseguiram identificar a cidade lá de cima. E o mais importante: um dos oficiais era o tenente Eduardo Gomes, mais tarde brigadeiro do ar, comandante da Aeronáutica. Aquele, que empunhou a bandeira da União Democrática Nacional no memorável pleito de 1945 e se tornou, no Brasil, o símbolo da democracia e da liberdade, cuja defesa, como escreveu, dependeria sempre da eterna vigilância dos brasileiros.

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Fazenda Cibele

O meu sogro foi um dos primeiros goianos a adquirir em São Paulo e trazer para Goiás um automóvel. Era um carro grande para aquele tempo, de fabricação alemã, salvo engano, para sete passageiros: dois no banco da frente, três no banco de trás e dois banquinhos embutidos no encosto do banco dianteiro, só abertos quando necessário. Não me recordo ao pé da letra da marca desse automóvel, mas se pronunciava Kaze. O veículo foi usado com todas as dificuldades da época, não só no tocante à mecânica, como à falta de estradas e até de combustível. Não havia postos de gasolina e nem oficinas especializadas, tendo cada proprietário que se improvisar em borracheiro, mecânico, etc. Depois de muito rodado, ali pelo fim de 1929, o meu sogro procurou negociar o carro, mas não encontrava interessado, até que o agrimensor Manoel Cruz, de Anápolis, ofereceu umas terras que possuía no munícipio de Luziânia em troca do automóvel. Ambas as partes se interessaram pela permuta, uma vez que o carro era velho e problemático, e as terras, por sua vez, eram desvalorizadas. Conversa vai, conversa vem, o negócio foi fechado, efetivando-se em maio de 1930, quando o Cruz, através do seu irmão, outorgou a escritura das terras ao meu sogro e este lhe fez a entrega do automóvel. As terras situavam-se na Fazenda Corumbá, ou Retiro do Corumbá, e originaram-se de uma divisão judicial promovida na comarca de Santa Luzia (Luziânia), na qual o Cruz foi o agrimensor, recebendo terras em pagamento de seus honorários.


Na escritura, não sei por que o meu sogro resolveu mudar o nome para Fazenda Cibele, conforme foi transcrita no Registro de Imóveis. Comprou a fazenda e deixou-a por lá sem dela cuidar ou visitar, até o ano de 1948, quando resolveu promover uma caçada na região, tida como rica em veados, onças e perdizes. Nessa época, eu morava em Bonfim e ocupava a chefia do executivo municipal, cargo para o qual havia sido eleito em pleito ferrenho, vencendo a fortaleza do PSD. Chegou à minha casa a caravana de caçadores, procedente de Bela Vista e Campinas, composta, além do meu sogro, dos meus concunhados Edison Pacheco e Balduíno Santa Cruz, do cunhado Clodoaldo, do primo Benjamim Filho (Bejê), da Júlia, como cozinheira, e de mais três roceiros de Bela Vista, caçadores que eram e que moravam na fazenda do meu sogro. Pernoitaram todos em minha casa e, no dia seguinte, pela madrugada, rumamos para o destino. A rodovia era a antiga estrada de Anápolis—Luziânia—Formosa, única via de acesso então existente para automóveis. Após essa cidade, não as havia mais. A primeira rodovia do Estado foi a construída pelo governo, ligando Goiás, a velha capital, à Estrada de Ferro Goiás, em Roncador. Em 1922 foi construído o trecho entre Roncador e Anápolis, passando por Campo Formoso e Bonfim. Seguimos nossa viagem e, quando nos aproximamos da fazenda, fizemos uma parada na venda do Raimundo Montalvão, estabelecido à beira da rodovia, explorando o comércio de bebidas, gêneros, café, refeições, etc., como era costume rendoso na época. Ali, fomos instruídos pelo Raimundo para, logo após o Córrego Serandi, deixarmos a rodovia, procurando seguir o Córrego da Lagoa, por uns trilheiros e estradas velhas e abandonadas, o que fizemos com todas as dificuldades. Encrava aqui, atola acolá, derrapa de cá, derrapa de lá, e, por aí afora, seguimos até contornar o córrego do açude da morada, atingindo a casa velha da fazenda. A casa abandonada em ruínas, quintal aberto, cheio de éguas, rego seco, mato na frente, nos fundos e nos lados da casa. Para chegarmos até a casa, dois companheiros meteram as foices abrindo caminho. Feita uma limpeza rápida nos diversos cômodos e na cozinha, providenciamos a descarga de tudo o que levamos: camas, sacos de gêneros, utensílios, etc. 172


No outro dia, deveria chegar outro companheiro caçador, o Pedro Luiz, velho e tarimbado na caça, morador no Rio dos Patos, munícipio de Bonfim, a cujo cargo ficaram os cães veadeiros e onceiros. Esperava-se que, também com ele, viesse o José André, da mesma zona, amante do esporte, amigo do Edison, que prometera trazer para a turma um leitão preparado e temperado, prontinho para ir ao forno. Realmente, no dia seguinte, logo cedo, chegavam os dois participantes acima referidos, o primeiro trazendo os cães e um saco cheio de doces secos, o segundo cumprindo promessa, com o leitão devidamente temperado dentro de uma lata dessas que vêm com querosene. O Balduíno, vivo e mexeriqueiro, descobriu os doces do Pedro Luiz, acondicionados em pacotes de palha de milho, e deu feio neles desde a noite desse dia. Ia tirando o conteúdo do pacote, deixando apenas as palhas no saco. Quando eu descobri a coisa, passei a secundar o Balduíno; em poucos dias, tínhamos consumido o saco de doces. Mas, para todos os efeitos, o saco continuava pendurado na varanda, conservando o mesmo volume para quem o visse, sem tocá-lo. Depois, eu conto o resto. Com todas as cousas na devida forma, passamos, então, às caçadas. A minha preferência recaía sobre as perdizes. Saíamos sempre em quatro, o Bejê, o Balduíno, o Clodoaldo e eu. Na primeira caçada de perdiz, fiz um tiro espetacular sobre um bando de papagaios que voava sobre nós a uma altura considerada fora do alcance das nossas armas. Destaquei um dentre o bando, chamei a atenção dos companheiros, e “bum”, derrubei o papagaio para admiração de todos, mormente para mim, pois fiz o tiro apenas para tentar o acaso. Daí o perdigueiro percebeu um rasto novo de perdiz, seguindo-o pela encosta de uma serra, cada vez mais alta, beirando um paredão com um lado reto, de onde a ave pulou e foi atingida pelo meu tiro, indo espatifar-se lá na baixada. Nem pudemos aproveitá-lo, pois arrebentou-se toda por dentro. Mas a caçada principal, da qual todos deveriam participar, ocorreu no terceiro dia de nossa estada na fazenda. Bem cedo, o Pedro Luiz atrelou a matilha, preparou as matulas, selamos os cavalos e lá fomos para o Vale da Bucaina, à busca dos raros veados cervos lá existentes, segundo todas as notícias dos moradores locais. 173


Nas proximidades do mato, o Pedro Luiz começou a desatrelar os cães, conversando baixinho com eles. Curioso, aproximei-me e pude escutar mais ou menos isto: “Cuidado Marreco, cuidado Campeão, cuidado Malhado, não vão me deixar de cara grande perante meus amigos. Tirem mesmo os bichos do mato. Essa gente veio de longe, fazendeiros, doutores, prefeitos, etc., todos fiados na minha conversa. Portanto, não falhem”. Isso é o que ele dizia, com as suas próprias palavras. A cachorrada se espalhou pelo mato, sedenta de caça, e logo já se escutavam os ensaios, sintomas de rastos, fazendo com que os mestres de caça nos colocassem em pontos estratégicos, chamados “espera”, na linguagem do caçador. A mim e ao Balduíno coube-nos uma entrada de encosta, no local de uma estrada velha, entre os dois mourões da cancela há muito abandonados. Lá ficamos até tarde, a princípio, ouvindo aqui e ali o ladrar de algum cão. Depois, a coisa foi rareando, sumindo, até que o silêncio desceu sobre tudo. Comemos a matula, falamos de tudo e de todos, resolvemos todos os grandes problemas do mundo, mas veado mesmo foi nada. Resolvemos procurar os companheiros, mas, por mais que andássemos, não os encontrávamos. Regressamos à casa-sede, onde encontramos todos em festa, porque uma onça vermelha tinha sido abatida por um caçador quase meia légua acima do ponto onde ficamos. Aderimos aos festejos e nos regalamos com os aperitivos e o lauto almoço preparado pela Júlia, que era uma cozinheira e tanto. Para sobremesa, já se sabia, teríamos os doces do Pedro Luiz... No dia seguinte e no outro subsequente, apenas a caça de perdiz rendeu alguma cousa; a de veados e outros bichos nada deu. No último dia de nossa estada na fazenda, o Pedro Luiz, após o almoço, avisou que tinha trazido um saco de doces de leite e que ia fazer distribuição entre todos. Quase lhe caiu o queixo, quando pegou o saco e percebeu que só continha palhas vazias!... Ficou sem graça, meio vendido, e disse apenas: “É, por aqui, andou gente antes de mim”. Mas, logo depois, procurou, reservadamente, o Edison, seu compadre, e com ele entabulou o seguinte diálogo: — Compadre, esse moço aí (o Balduíno) é mesmo doutô? 174


— É, Sô Pedro, ele é advogado. — Mas doutô rouba? — Não, Sô Pedro, isso não. — Pois esse aí me roubou o saco de doce. Não sei como foi que o Pedro Luiz ficou sabendo que fora Balduíno o ladrão. O certo é que o “doutô” perdeu o cartaz com o Pedro Luiz...

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Parte 8

As festas de Bela Vista de Goiás

Bela Vista de Goiás, ex-Suçuapara nos tempos anteriores, promovia sistematicamente, com muita pompa, as festas de São Sebastião e as do Divino. Desde os primeiros dias da semana da festa, a cidade já estava repleta de gente, não só os naturais, a maioria de roceiros, como também visitantes de cidades próximas, curiosos. Havia circos de cavalinho, touradas, grupos de jogos; jogadores profissionais não perdiam essas festas. As bandas de música percorriam praças e ruas; o saudoso e memorável Adelino e seu conjunto de tocadores e cantores, vestidos a caráter, fazendo exibições bonitas. Cada ano traziam novas músicas do rico folclore goiano, magistralmente dominado por ele, versejador e repentista inato que era, naquele vai e vem de festas e de povo tão do seu agrado. De quando em vez, os padres zangavam-se com as festas mundanas que superavam as religiosas, mas ninguém dava muita bola para as repreensões, porque o povo de Bela Vista nunca foi carola e apreciava mais a “furupa” de rua. Muito embora conhecesse Bela Vista desde 1921, somente a partir de 1933 passei a assistir, anualmente, aos festejos aludidos, isto em função do meu noivado com uma filha daquela terra, a qual, coitada, acabou sendo a minha legítima esposa. Ocorreu, numa dessas festas, que o Circo de Touradas, instalado no alto da cidade, estava em dificuldades para conseguir bois, pois nenhum fazendeiro local estava querendo emprestá-los. Até que resolveu procurar o Cel. Vicentinho, abastado bela-vistense, proprietário de fazendas e bois, apelando para os seus patrióticos sentimentos,


para que ajudasse os festeiros naquele espetáculo que, no final de contas, era o mais apreciado. O Cel. Vicentinho, matreiramente, cedeu-lhe três bois carreiros, daqueles de grande porte, chifrudos e argolados. Ora, é sabido que o boi amestrado para o carro perde o medo de homem, dado o contato diário com o carreiro. Já o boi semimanso, como é o caso do novilho ou do boi de corte, tem medo e, por isso, torna-se mais fácil ao toureiro enganá-lo com os truques do pano vermelho e o jogo do corpo. Na hora da tourada, lá fomos nós para o circo, que, como de costume, era feito com um cercado de pano à sua volta. Por dentro, entre a bancada destinada aos espectadores e o picadeiro, erguia-se uma cerca de madeira branca, dessas usadas nos andaimes das construções civis, que separava e protegia o público dos animais e que servia, também, para proteção dos toureiros, que nelas subiam na hora do aperto. Tudo pronto, soltaram o primeiro boi carreiro, um dos tais cedidos pelo Cel. Vicentinho. O boi saiu calmo, no seu passo cadenciado, observando o povão ali reunido e os toureiros, com toda a naturalidade. Os toureiros começaram a pular e balançar os seus panos vermelhos na frente do boi, mas este não lhes dava a menor confiança, preferindo olhar a gentarada empoleirada nas bancadas. O povo começou a vaiar pela falta das esperadas sensações dos toureiros, a princípio uma vaia daqui, outra dali, partidas da plateia. Porém, quanto mais o tempo passava naquela pasmaceira, mais ela crescia. Foi até que, contaminado todo povo, a vaia virou um estrondo geral, uns gritando, outros pulando, outros atirando objetos dentro do picadeiro. Vai daí que os toureiros, meio desorientados, descobriram, não sei onde, umas varas de ferrão, daquelas usadas pelos carreiros, e, com elas, começaram a picar o boi na cabeça, no lombo, na anca, nas pernas, etc. O boi até que aguentou muito a provocação, mas, daí a pouco, resolveu dar o fora daquele incômodo curral e partiu como uma flecha no rumo da abertura da porta de entrada do circo e, no caminho, um toureiro pretendeu torreá-lo, com os conhecidos truques do pano vermelho e o negar do corpo. O boi, velho no trato com o homem, deixou o pano de lado e meteu os chifres pelo meio das pernas do toureiro, atirando-o pelos ares, e prosseguiu na sua corrida rumo à porta. Derrubou, como um nadinha, a bruta cerca divisória do 178


picadeiro, passando pelo meio do povo alarmado e atingindo a rua, pela qual desceu em trote majestoso e fidalgo, tinindo as argolas dos chifres, rumo ao seu conhecido pasto no final da cidade. Foi o maior e mais original espetáculo de tourada a que já assisti na minha vida, e só as risadas do povo, as piadas e as gozações em cima dos toureiros valeram pela melhor e exibição que pudessem ter apresentado!

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O Espigão-Mestre

A Fazenda Água Vermelha, do munícipio de Bonfim, na sua zona sul, teve e ainda tem destacado um papel na economia municipal, pelas suas características e boa qualidade das terras. Ali residiram e ainda residem fazendeiros com importantes ações na comunidade, pelo progresso que trouxeram à região e pelo concurso ao desenvolvimento geral do município. Entre os antigos fazendeiros, destacou-se o velho João Francisco Xavier, que ficou com o apelido de Espigão-Mestre, talvez porque fosse uma espécie de mestre daquela zona em todas as questões, principalmente sobre terras, limites, procedências, etc. O certo era que, quando a questão empacava, os contendores buscavam a decisão do velho João. As más línguas, sempre existentes em todos os setores da vida, diziam que ele se aproveitava da sua condição e da posição, em benefício próprio, não só nos negócios como nos amores também. Eu o conheci já na velhice, como sogro que era do meu parente Cândido Leão, descendente da família da minha avó materna. O Candinho Leão tinha uma fazenda boa, à beira do Ribeirão Água Vermelha, dotada de boas instalações para aquele tempo, bons currais, engenho de cana, serraria de madeiras, etc. Em sua companhia morava então o sogro que, nesse tempo, já não exercia atividades, mas apenas contava histórias do passado e criticava muita gente e muita cousa. A mim, como tabelião, ele contava sempre uma história: “O fazendeiro lutava para recolher o gado meio bravo ao curral. Uma das reses, no entanto, não


havia meio de obedecer. Chegava até a porteira, refugava, correndo para trás. Aí o fazendeiro gritou: ‘Vaca danada! Entra no curral como o escrivão entra no inferno!’. A vaca disparou rumo à porteira e entrou prontamente no curral”. Essa era a história do velho João, para maldizer da classe dos serventuários da Justiça. Mas, em retribuição, eu tinha uns casos picantes sobre sua mocidade, aos quais ele não gostava de dar ouvidos, preferindo sair da sala, porque, naturalmente, eram verdadeiros. A minha maior convivência, nessa fazenda e com aquela gente, verificou-se por ocasião da divisão amigável de suas terras, procedida pelo meu companheiro e amigo Guilherme Veloso Pereira, o Tó, como era conhecido. Esse profissional merece um registro especial de minha parte, tal a amizade, o companheirismo e os trabalhos que juntos realizamos em todo munícipio de Bonfim, em divisões, partilhas, demarcações e outros procedimentos, quer amigáveis, quer judiciais... O Tó chegou a Bonfim, ainda meio broto, trazido pelo engenheiro Álvaro Pacca, que foi da Estrada de Ferro de Goiás; ao deixar o posto, fixou residência em Bonfim, passando a exercer a sua profissão junto ao foro local nas divisões de terras. No ano de 1927, logo que fui nomeado escrevente de cartório, participei de um trabalho do Dr. Álvaro Pacca, na divisão da Fazenda Passa-Quatro, requerida por Moisés Joaquim de Carvalho. Em julho daquele ano, empreendemos a viagem da sede municipal até a fazenda, mas, para alcançá-la por automóvel, tivemos que dar uma volta por Bela Vista e, dali, pela estrada da Fazenda Arapuca, de propriedade de Aurélio Rodrigues de Morais, que, mais tarde, viria a ser meu sogro. É que não havia rodovias municipais naquele tempo, mas tão somente as de ligações entre algumas cidades aqui do sul do Estado. No norte, então, nada existia parecido com estradas de automóvel. Na Fazenda Passa-Quatro, ficamos dezoito longos dias, para concluir a entrega dos quinhões aos condôminos, dado o número elevado deles. Hospedados na casa do promovente já citado, de acomodações precárias, o juiz de Direito, o promotor de Justiça, o advogado, os arbitradores, os escrivães, o oficial de Justiça, além do agrimensor e seu auxiliar. Data daí o meu conhecimento com o Tó, que, quando chegou a Bonfim, nada trazia de bagagem, além de umas poucas calças e camisas remendadas. 182


Mas ele era um leão no trabalho, na economia e na ambição. Ficou rico e, quando o mal de Chagas, adquirido no trabalho rural, o vitimou em Curitiba, deixou para inventariar mais de seis milhões em bens e dinheiro. Tornou-se íntimo da minha casa desde os primeiros dias em que nos conhecemos. Tínhamos mútua confiança e, juntos, empreendemos muitos trabalhos de divisões de terras em todas as fazendas do munícipio. Quando efetuei a compra do cartório, estávamos numa noite em casa do então prefeito Mário Ferreira, discutindo as despesas que eu teria de fazer com a atualização de livros de registros, móveis e máquinas de escrever, porque o cartório era carente de tudo isso. O problema era o dinheiro, pois, iniciante que eu era na vida, já havia tomado, por empréstimo, sete contos de réis do Zé Correinha para pagar o cartório e não dispunha de um centavo sequer para as melhorias reclamadas e necessárias. Estando presente, o Guilherme Veloso levantou-se e me franqueou o dinheiro de que eu carecesse, sem juros e sem prazo. Esse gesto nunca se apagou da minha mente, conhecido que era o seu espírito de segurança em matéria de dinheiro, embora só lhe tenha pedido, na ocasião, duzentos mil réis emprestados, para dar entrada nas compras de móveis e máquinas, quantia que lhe devolvi antes dos sessenta dias, dado o bom movimento do cartório. A amizade que nos unia levou a mim e a minha esposa a encaminhá-lo no seu casamento com uma moça de nossas relações, com a qual viveu feliz, deixando uma filha. Faleceu relativamente moço, acometido, como já disse, dessa chaga maligna, que ataca, há muitos anos, o homem do campo, sujeito, pelas condições de vida, às picadas dos barbeiros, que têm o seu habitat preferencial nos casebres e ranchos de pau a pique muito comuns naqueles tempos, nas fazendas. Quando descobriu a doença de que era portador, o Guilherme sofreu um tremendo choque, pois tinha perfeito conhecimento da gravidade do mal. Amava a vida que, naquela altura, já lhe sorria, fagueira e tranquila, graças aos ganhos acumulados pelos trabalhos realizados. Possuía boas fazendas com criação de gado não só no munícipio de Bonfim, como nos de Pirenópolis e Goiás, além de duas indústrias de recuperação de pneus em Curitiba e Londrina. 183


E foi em uma viagem de rotina àquelas indústrias que ele faleceu no hotel, em Curitiba, tendo ao seu lado apenas a sua dedicada esposa. Esta página sobre o Espigão-Mestre da Fazenda Água Vermelha está proporcionando-me o ensejo de recordações e referências um tanto estranhas ao seu escopo principal. Mas, recordando os fatos e as pessoas, não posso fugir ao comando da minha mente que dirige a pena e o pulso para o registro de sentimentos no coração por mais de sessenta anos. Como tenho afirmado sempre, aqueles episódios são doces lembranças na minha vida. Há uma profunda diferença entre quem viveu aquele tempo e os que vivem nos dias atuais, por fatores naturais, é lógico, decorrentes do progresso da cidade, do avanço tecnológico, das grandes conquistas ultimamente alcançadas. É o que assistimos na descida da nave espacial Viking-1 na superfície do planeta Marte, realizado com absoluto sucesso, após onze meses de viagem espacial. Se antecipássemos tal acontecimento ao povo de 1927, ele, naturalmente, nos recolheria imediatamente ao hospício. Hoje, todavia, recebemos o fato como coisa comum, sem maior significação, dado o avanço do mundo no campo espacial e eletrônico. Mas, para mim, não deixa de ser qualquer coisa de magnífico o acontecido, principalmente pelo comando, aqui da Terra, das ações de um aparelho a 340 milhões de quilômetros de distância, dele recebendo fotos e análises de solo e rochas! Deixando, todavia, as divagações e voltando ao assunto da Fazenda Água Vermelha, quero recordar uma madrugada quando de lá busquei chegar à cidade até o meio-dia, para uma audiência em juízo, da qual era o escrivão. Levantei-me pela primeira hora da madrugada, tomei uma refeição ligeira preparada pela atenciosa dona da casa do Candinho Leão, selei o cavalo que ficara preso no curral e parti pela estrada acima. Esta beirava o vale do Ribeirão Água Vermelha por uma boa distância, até encontrar outra via que pendia à direita, rumo à cabeceira da Lagoinha, no Rio Preto, caminho da cidade. Aconteceu que, noite escura, o cavalo conhecedor dos caminhos queria voltar ao bom pasto da fazenda, e eu não vi a derivação da direita e, inocentemente, fui levado pelo instinto do animal sempre subindo a bacia do ribeirão. Depois de umas duas horas de viagem, comecei a perceber que estava errado. Mas onde o erro? Voltar? Seguir? 184


Preferi essa última hipótese e comecei a buscar as estradas à esquerda, no propósito de encontrar alguma morada onde me pudesse orientar. Nesse caminhar foram decorrendo as horas, até o dia começar a clarear. Então estávamos descendo uma serra, por uma longa escarpa, lugares bonitos, mas não meus conhecidos. Ao me aproximar do córrego, já divisava do outro lado uma fazenda, onde os galos cantavam, os bezerros e vacas berravam e os pássaros brindavam a natureza com seus pios variados e bonitos. Fiquei satisfeito, porque, afinal iria ter uma orientação da estrada a seguir. Atravessei o córrego, cheguei à porteira do curral, entrei e fui até a porta lateral da casa, a essa hora ainda fechada, para chamar com o tradicional “ô de casa”! Quase caí de costas quando a pessoa que me atendeu era o próprio Candinho Leão! Eu saíra a uma hora da madrugada, pela frente de sua casa, à margem esquerda do Ribeirão Água Vermelha, subira todo o seu percurso, rodeara as suas cabeceiras e voltara pelo lado oposto, chegando pelo fundo da casa, andando quatro horas e meia totalmente perdidas! O meu feito ficou falado, como gozação, por muito tempo naquelas bandas!

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Padre Salomão

Era vigário da Paróquia de Bonfim o Padre Gomes Pereira da Silva, falecido no ano de 1915, a cujo enterro compareci com aquela curiosidade de menino de oito anos de idade. O féretro saiu da Casa Paroquial, no Largo da Matriz, deu uma volta ao redor da praça e penetrou na Igreja Matriz, em cujo interior foi feito o sepultamento. Era um costume daqueles tempos enterrarem nas igrejas não só os bispos, mas também os vigários em suas paróquias. Para suceder ao Padre Gomes chegou a Bonfim o Padre Salomão Pinto Vieira, português, natural da cidade de Viseu, descendente de família de escritores, tendo ele uma irmã que se notabilizou naquele país como poetisa. Tratava-se de um padre ilustre, bem preparado e exímio orador sacro. Os costumes na Igreja de Bonfim eram então muito atrasados. Conversava-se dentro da igreja, cumprimentava-se, abraçava-se, sentava-se no chão, meninos nos braços e os grandinhos chorando, gritando... Era uma confusão durante as celebrações dos atos religiosos, mormente durante os festejos tradicionais, como a Festa do Divino, de São Sebastião, de Nossa Senhora do Rosário e outras, que atraíam grande número de roceiros. O primeiro grande trabalho, pois, do novo vigário foi pôr ordem na casa. Foi uma luta de mais de um ano ensinando, falando, passando pitos, organizando regentes e até auxiliares de limpezas internas e externas. Nesses misteres não só encontrou compreensão e ajuda de muitos, mas também esbarrou na estupidez de outros tantos. Um dia, quando


recomendava no sermão dominical que não deixassem papéis pelo chão, depois de usá-los para se ajoelharem, como era costume, um cidadão da terra, alto comerciante, rasgou, ofensivamente, em centenas de pedaços o seu papel, atirou-os ao chão e saiu pisando duro pela porta afora da Matriz! O próprio diretor do colégio local, por ter o padre chamado atenção dos alunos internos sobre o seu comportamento na igreja, retirou-se com todos eles, no meio da celebração, passando muito tempo sem frequentar a igreja. Numa segunda etapa, o padre organizou um coro musical para a Matriz, entre as moças bem entoadas da terra, e adquiriu um magnífico órgão, importado, de som mavioso e lindo. Esse coro prosseguiu e, em pouco tempo, era exemplo no Estado. Para facilitar suas viagens às cidades vizinhas, que faziam parte de sua paróquia, bem como aquelas dentro do município, adquiriu o Padre Salomão um fordinho novo, para cujo manejo fez preparar, nas oficinas de Campo Formoso, um moço da terra, que foi seu motorista muito tempo, tornando-se mais tarde, um dos melhores mecânicos de automóveis da região. Estabeleceu-se com oficina própria, com a qual prestou muitos serviços a Bonfim e cidades vizinhas. Mas o Padre Salomão, vivo e inteligente, passou também a participar da vida da cidade, tomando conhecimento dos problemas locais. Por criticar erros e desmandos de algumas autoridades, foi ganhando desafetos e, em pouco tempo, era considerado inimigo da situação política local. A verdade é que ele conseguiu impor perfeita ordem dentro das igrejas, silêncio e respeito aos atos sacros, e todos os paroquianos passaram a se comportar no acompanhamento das funções religiosas. Empolgava os assistentes com as suas orações e sermões, mormente nas grandes festas ou na Semana Santa, quando fazia os sermões do Encontro, das Sete Palavras e outros. Foi perseguido pela situação política local, não só ele, mas também os que auxiliavam, como, por exemplo, as moças que integravam o coro sacro. Até o escritor Moisés Santana, que residiu algum tempo na cidade, mal informado, escreveu versos desairosos a essas moças, dizendo que “as mocinhas do coro Bonfim, encontravam-se às escondidas com o padre no Buraquim” (os lavrados remanescentes das explorações auríferas chegavam até os fundos da Matriz). Houve representações contra esse padre, encaminhadas ao bispo Dom Prudêncio, em diversas oportunidades. 188


Nos últimos tempos de sua regência, as perseguições aumentaram até que o bispo se viu obrigado a pedir sua mudança de domicílio para Campo Formoso, que passaria, então, a ser a sede da paróquia, com prejuízo para Bonfim. Mas, pouco tempo depois dessa mudança, o Padre Salomão preferiu mudar-se de Diocese, indo para São Paulo, para “vigariar” em uma cidade do interior, por lá ficando até falecer. A sua passagem por Bonfim, entretanto, ficou marcada pela influência de sua ação nos usos e costumes locais, na educação religiosa e nos comportamentos durante os atos das igrejas. Inegavelmente, esses fatos muito contribuíram para o progresso e a melhor civilização de nossa gente, sendo justo, pois, este registro em seu favor neste meu despretensioso relicário, mesmo porque nada vi e nem li até hoje dos escritores da minha terra sobre o trabalho desse emérito sacerdote.

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Antônio Umbelino de Sousa Filho Subjetividades da alma. A saudade ou medo do desconhecido. Nas tardes quentes e morosas da minha terra, quando o dia custava mais a se acabar, principalmente porque se encerrava o trabalho cotidiano ali pelas 17 horas, jantava-se e sobrava ainda um longo morrer do dia, razão pela qual, para preencher esse vazio, costumávamos fazer passeios em duplas ou em grupos de amigos e, às vezes, até sozinhos mesmo. Subíamos por uma das ruas que davam acesso aos altos da cidade, na direção do Ginásio Anchieta e da Estação Ferroviária, andávamos bons trechos pelos campos e regressávamos por outra rua para diferenciar o caminho. Às vezes, quando havia mais tempo, fazíamos paradas sob as sombras de alguma árvore e ali conversávamos, trocávamos ideias, expandíamos os nossos pontos de vista, resolvíamos até os problemas nacionais, fazíamos nossos castelos, pois todos éramos solteiros e com as cabeças cheias de sonhos e esperanças num futuro promissor. Numa dessas tardes, em que subi com o Antônio Umbelino, este me falou logo que atingimos as campinas do alto da cidade: “Sêneca, gosto dos passeios por estes descampados calmos e serenos porque sempre me dão uma saudade de uma cousa que nunca vi”. Na verdade, todos nós temos no subconsciente uma certa saudade e um certo medo indefinidos, que sempre atormentam a nossa alma. Mas Antônio Umbelino era um moço solteiro, simpático, bem instruído, bem de vida, pois era comerciante, cuja loja, na Praça das Sete Esquinas — e que mais tarde tomou o seu nome —, liderava na época o comércio de fazendas, ferragens, armarinhos, calçados, chapéus e artigos grossos, como arame farpado, sal, querosene, etc.


Descendente de famílias tradicionais da cidade, Umbelino e Louza, tinha ele todos os requisitos para ser, como era, um moço desejado e até disputado pelas moças. O seu feitio, entretanto, era arredio a essas cousas de namoradas, apesar de ser um rapaz normal como outro qualquer; uma ou duas vezes por semana saíamos em busca de mulheres, de serenatas, piqueniques, bailes, passeios, etc. A sua posição e o seu conceito, na cidade, eram dos mais altos, tanto que, vitoriosa a Revolução de 1930, ele foi o primeiro prefeito de Silvânia, nomeado pela junta governativa instalada no Estado após a queda do Caiado. Daí por que ninguém entendeu até hoje o seu gesto, passando a navalha, com a qual se barbeava, no próprio pescoço, quase decepando-o, tendo morte instantânea! Que será que aconteceu no íntimo desse moço para tão extremo ato? O acontecimento, como era de ver, chocou a cidade toda, mas, principalmente, sua extremosa mãe, seus irmãos e parentes. Eu sempre ficava pensando naquela sua afirmação da “saudade de uma cousa que nunca vira”. Será que ele foi descobrir essa cousa? Mas o meu registro dessa pessoa neste relicário visa tão somente, como o fiz com outros bonfinenses ilustres e patriotas, prestar-lhe a minha humilde, mas sincera, homenagem por tudo quanto ele fez pela minha terra-mãe. Com o seu trabalho, com o seu amor à causa pública, com o seu proceder na sociedade e no comércio, legando-nos um exemplo dignificante do êxito da vida pelo trabalho honesto e sério, faz jus sem dúvida ao meu registro porque, como outros bonfinenses que já registrei, não mereceu, que eu saiba, reconhecimento nenhum. Pena que a sua vida tenha sido sacrificada ainda tão cedo, porque muito mais poderia ele ter realizado pela cidade e por seus concidadãos se mais tivesse vivido. De qualquer forma, Antônio Umbelino, fique sabendo onde você estiver que nós, os seus amigos e contemporâneos, temos muita admiração pelos exemplos que você nos legou. E que o seu gesto, que ninguém entendeu, em nada ofuscou aquele conceito e aquela consideração que sempre lhe dedicamos. 192


Mesmo porque todos nós sabemos que você não fugiu da vida por receio de enfrentá-la, já que a vencera galhardamente, mas por outros desígnios desse grande mistério do mundo, do além, do livre-arbítrio, da nossa origem, da razão de nosso ser e do que nos virá no outro mundo dos mortos.

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Vicente Barbeiro

Na Rua Santo Antônio, entre a casa do Felicíssimo e a do Benedito da Cruz, morava a velha Sá Zeferina. O filho Vicente, a princípio conhecido como Vicente de Sá Zeferina, depois de certo tempo, resolveu montar uma barbearia na própria casa de sua mãe. Era, então, o único profissional estabelecido com salão, pois, até aí, os que havia eram mais ou menos amadores e ambulantes, cortando cabelos esporadicamente a chamado nas casas dos conhecidos. Daí em diante, o Vicente ficou conhecido como Vicente Barbeiro. No seu salão, um cômodo de 2x3 metros, piso de terra batida, estavam a cadeira de barbeiro, um lavatório daqueles antigos, em tripé, com bacia e jarro, muito comuns em todas as casas antes do evento de água canalizada, e um cabide na parede, do qual pendia uma toalhinha quase sempre muito usada. O freguês fazia a barba e usava a bacia para tirar o sabão da cara, pois não eram conhecidos ou não existem por lá os atuais borrifadores. A água da bacia ficava de um freguês para outro, somente era trocada quando já estava grossa de sabão e vermelha de pó de terra. O Vicente era, a bem dizer, analfabeto e meio simplório. Ao fazer cabelos, quando atingia a região da nuca do freguês, invariavelmente dizia: “Enfreia!”. Enfrear era termo empregado nas montarias, quando o cavaleiro sofreava o animal, fazendo-o curvar o pescoço. Na frente da casa de Sá Zeferina, morava o Moisés Bacada, já viúvo e com quatro filhas moças, solteironas, todas elas meio simplórias também. O Vicente Barbeiro era gamado numa das filhas do vizinho, mas tinha um certo receio quanto ao comportamento das moças. Por isso, não perdia


oportunidade de comentar com os seus fregueses sobre elas, simplesmente para descobrir alguma cousa de verdade ou não, quanto ao procedimento, porventura comprometedor, das moças, principalmente da sua eleita. O Quinquim, moço da cidade, foi convocado para o Serviço Militar e, antes de viajar, foi ao salão cortar o cabelo. Ali o Vicente abordou com ele o mesmo assunto: — Andam falando mal da F......, filha do Moisés, será verdade? — Não. Não ouvi falar, mas vou investigar, porque o assunto me interessa, mesmo porque ela é bem bonitinha. Mas o Quinquim viajou no outro dia e ficou lá no Exército quase um ano. Quando voltou à terra, procurou novamente o salão do Vicente, que ainda era o único da cidade, para se barbear. Devidamente assentado na cadeira, inclinada para trás, toalhinha no pescoço, cara ensaboada, o Vicente com a navalha em punho, começaram a conversar. O Quinquim recordou-se da filha do Moisés Bacada e, interessado, indagou: — Ô Vicente, e aquela vizinha, ainda está procedendo mal? Agora eu vou dar em cima dela! — Me respeita Sô Quinquim! Eu casei com ela! O Quinquim quase sumiu nas dobras da cadeira, frente ao marido ultrajado, empunhando uma afiada navalha!!!

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Benedito da Silva Negro chistoso, boa banha, prosa amigável, pouca instrução, mas bonita caligrafia, esse era o perfil do Benedito da Silva, delegado de Polícia por muitos anos na minha terra. Antes de ocupar esse cargo, ele exercera, por algum tempo, o de escrevente juramentado do cartório do Adolfinho. Ali se processavam os executivos fiscais estaduais, sob o controle do promotor de Justiça local, o velho Francelino Franklin Ferreira. Naqueles bons tempos, ninguém conhecia máquina de escrever por lá e todo o trabalho forense, inclusive dos cartórios, era feito de próprio punho, manuscrito com as canetas e penas molhadas em tinteiros. O promotor Francelino era um velho de ótimo humor e gostava de contar piadas picantes. Quando a gente saía em caravana forense para divisões ou demarcações de terras, no município, era sempre o Francelino que cuidava de alegrar a turma com suas piadas sempre apimentadas. Logo que o Benedito da Silva assumiu o cargo de escrevente, o Francelino chegou ao cartório e lhe disse: — Benedito, faça agora uma guia de recolhimento do imposto no processo executivo do Fulano de Tal, que já vem aí para levar a guia à coletoria. O Benedito prontamente assentou-se à mesa, pegou uma folha de papel almaço pautado e bem no alto dela escreveu: “GUIA”. O Francelino olhou o papel por cima dos óculos e, por gozação, disse: — Você errou, Benedito, porque aí está escrito GUIA. — É, seu promotor, está errado mesmo — respondeu o Benedito, apanhando outra folha de papel e lançando nela a mesma palavra sem a letra “u”, “GIA”.


— Está errado outra vez, sô Benedito, disse o Francelino. Você agora escreveu “GIA”! O Benedito ficou assim pensativo, olhando um e outro nome, e por fim disse: — Olha, seu promotor, essa palavra não tem jeito de ser escrita, porque de um jeito dá “gú-i-a” e do outro dá “g-i-a”! O Benedito da Silva era solteirão e, embora mais velho do que os outros rapazes da minha turma, estava sempre conosco nas serenatas, cervejadas, passeios e, principalmente, nas mesas de jogo de baralho, pois era fanático por um poquerzinho. Não era rico e ganhava uma ninharia com o seu cargo, para o seu sustento e o de sua mãe e irmãos, mas não renunciava aos seus joguinhos, sendo freguês assíduo dos cambistas de loteria. Uma vez, o Juvenal Tavares, no meio de nossa turma, falou ao Benedito, quando este pretendia comprar um bilhete para pagar no fim do mês: — Deixa de comprar bilhetes de loteria, Benedito. Isso não dá nada e você fica jogando fora dinheiro suado que lhe faz falta. Respondeu o Benedito: — Olha, Juvenal, eu estudei essa questão por mais de dois anos e cheguei à conclusão de que é mais fácil ganhar na loteria comprando bilhete do que não comprando.... Como delegado de Polícia, o Benedito da Silva era mais um pacificador de contendas e brigas. Nunca agia autoritariamente, chegando até a humilhar-se perante a arrogância dos contendores. Determinada época, tive que me envolver num problema de um moço e uma moça que fugiram de casa, e ela refugiou-se em minha residência. O pai da moça solicitou a interferência do delegado Benedito da Silva para buscá-la na minha casa, mas o Benedito negou-se peremptoriamente a atender o pedido porque, disse ele ao reclamante, “em casa de homens ilibados como aquele não dá busca”. Mas, quando o fato chegou ao meu conhecimento, franqueei-lhe as dependências da casa para a busca reclamada, ainda assim ele se negou, dizendo que a minha palavra valia mais do que a sua investigação. Felizmente, o episódio acabou mesmo em casamento, com o consenso de todas as partes e famílias. Nas noites de serenatas e andanças dos moços pelas ruas da cidade, aberto que era o perímetro urbano, era comum a permanência de animais, 198


principalmente cavalos, pastando as gramas que sempre ficam nas beiras dos muros. Os rapazes promoviam brincadeiras com esses animais, amarrando-lhes à cauda latas vazias. Logo que soltos, estranhavam aquele badulaque barulhento e disparavam pelas ruas, caíam e, às vezes, fraturavam pernas ou mãos, com evidentes prejuízos para os seus proprietários. Numa noite em que o próprio delegado participava desses folguedos, o cavalo escolhido foi o da estimação e propriedade do Chico Teresa, peão jeitoso e meio valente, vizinho de rua do Benedito. O animal, entretanto, reagiu violentamente ao objeto sonante atado à sua cauda e correu madrugada adentro por todas as ruas, terminando por desembocar nos lavrados que rodeiam a cidade, caindo de pernas para o ar num grande buraco. O proprietário, avisado por populares, depois de verificar o estado do seu cavalo de estimação, ficou possesso de raiva e passou a procurar os responsáveis pelas ruas, ameaçando de costurá-los na faca. Deu parte ao delegado e exigiu apuração, prisão e indenização! O Benedito, fechado na “camisa de onze varas”, procurou acalmar o homem, prometendo uma rigorosa apuração, etc., etc. O Chico Teresa andou bem umas duas semanas para baixo e para cima, às altas horas da noite, para ver se encontrava rapazes nas ditas brincadeiras e tirar a desforra, mas, à medida o que o tempo passava e seu cavalo ia se recuperando dos ferimentos, a ira foi se abrandando e, por fim, esqueceu-se do episódio. Doutra feita, num fim de ano, fizemos uma despedida estrondosa, com muita gente, bebidas, comestíveis, cantadores, orquestras, etc., em Leopoldo de Bulhões. Pelas três ou quatro horas da madrugada, quando a barulhada ia no auge, no bar da cidade, chegou lá um tenente-delegado especial da zona, disposto a acabar com a farra e até prender os farristas. Mas os queixos lhe caíram quando deparou com o prefeito, o delegado municipal, vereadores, secretários e toda uma equipe da elite municipal. O tenente chamou o delegado Benedito em particular e lhe exigiu que convencesse os presentes a porem fim ao barulho, porque as famílias da redondeza estavam revoltadas. O Benedito quis retirar-se sozinho, mas todos os rapazes o acompanharam, continuando as comemorações na sede do município até sol alto. O registro que faço desses pequenos fatos da vida do Benedito é apenas para ter a oportunidade de homenageá-lo neste meu relicário, pessoa humilde 199


e boa que era, pela sua contribuição à história da minha cidade e, ainda, para retribuir o apreço e a consideração que, por diversas vezes, teve ocasião de demostrar pela minha pessoa. Obrigado, Benedito, meu delegado!

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Coronel Antônio Pireneus de Sousa

Ainda na minha meia infância, conheci o Clube Bibliotecário Bonfinense, que ficava na Praça do Rosário, na casa grande da Dona Luiza, ao lado do sobrado da mesma dama. Aos domingos, o Antônio, familiarmente conhecido por Tonho, neto da Dona Luiza, abria as portas da biblioteca para que os bonfinenses buscassem as obras de seu interesse. O sistema era controlado semanalmente; os livros levados em um domingo seriam devolvidos no próximo, senão o interessado não retiraria nova carga. Foi dessa época que comecei a tomar conhecimento do mundo das histórias, retirando, como faziam os meus amigos e colegas, obras dos célebres escritores como Alexandre Dumas, pai e filho, Camilo Castelo Branco, Émile Zola, Victor Hugo e Júlio Verne, com as encantadoras Viagens Maravilhosas. Em todos os livros do clube notava-se, na primeira página, a dedicatória: “Ao Clube Bibliotecário Bonfinense, oferece Pireneus de Sousa”. Antônio Pireneus de Sousa foi daqueles poucos bonfinenses que, em menino, deixara a terra natal para estudar no Rio de Janeiro. Ele preferiu a carreira militar, ingressando na Escola Militar, de onde saiu segundo-tenente. Ainda muito jovem, veio servir no 6º Batalhão de Caçadores, em Ipameri, neste Estado, deixando no quartel e na própria cidade marcas indeléveis de sua ação e administração. Reformou totalmente o quartel, construiu o Estádio Cascatinha para exercícios de tiro, piscinas e campos de esporte. Era dinâmico e bravo. No caminho que parte da cidade de Ipameri até a Cascatinha (seis quilômetros), há um lugar cujo solo é pelado, não nascendo capim. Dizem


que o fato decorreu de uma luta corporal travada pelo Pireneus com um outro oficial seu colega, por desentendimentos do comando, no percurso daquela via, quando levavam o batalhão para exercícios. Foi tão ferrenha a luta que o chão ficou raspado de suas gramas arrancadas com raízes e tudo... Era isso pelo menos o que nos contavam os soldados antigos do 6º BC, no qual prestei serviços militares, como sorteado, nos anos 1929-1930. Conheci pessoalmente o Cel. Pireneus, ali pelo ano de 1922, quando era ainda primeiro-tenente. Disse pessoalmente porque, por tradição, já o conhecia através de sua família e, principalmente, pela admiração que lhe dedicava através daquelas muitas obras que li e que traziam a sua dedicatória. No citado ano de 1922, eu devia ir para Uberaba e, como era neófito em viagens, a minha mãe pediu ao Tenente Pireneus “para me comboiar” nos percursos de automóvel até Roncador e de trem de ferro até Araguari— Uberaba. O Cel. Pireneus estava a passeio em Bonfim e regressaria, naqueles dias, ao Rio. Na viagem, ele foi muito cordial e gentil com o “menino do interior” que, pela primeira vez, empreendia uma viagem fora do seu estado natal. Só que, ao embarcarmos em Roncador, comprei passe de segunda classe, obediente às determinações da minha mãe, visando à nossa economia, mas o Tenente Pireneus reservou-me um lugar ao seu lado no carro de primeira classe e, ante as minhas desculpas, acabou pagando a diferença ao chefe do trem, mas levou-me ao seu lado. Quando fui convocado para o Serviço Militar, em outubro de 1929, apresentei-me em Ipameri ao 6º BC, então comandado pelo major Heitor Augusto Borges. Em meados de 1930, veio, novamente, para o comando do Batalhão, o já então tenente-coronel Antônio Pireneus de Sousa. Para o Batalhão, para o Estado de Goiás e para mim particularmente, esse novo comando foi de grande valor. Estourada a Revolução de 1930, o Cel. Pireneus controlou as ações militares de forma a não sacrificar os irmãos goianos, nem deixar que se danificassem obras como a ponte sobre o Rio Paranaíba, na divisa Goiás-Minas. Chegou a ser marcada sua dinamitação pelos revolucionários mineiros, no intuito de dificultarem a passagem do 6º BC, que era tido como unidade fiel ao governo de Washington Luiz. Mas o Cel. Pireneus, militar velho, inteligente e tarimbado, considerou a amplitude do movimento desencadeado no Brasil e aguardou os acontecimen202


tos, procurando apenas vigiar as obras de arte e resguardar os seus homens de lutas sangrentas e fraticidas. Tanto foi assim que, ao soar a vitória da Revolução, no fim de outubro de 1930, estávamos acampados na Estação de Engenheiro Bethouth, às margens do Paranaíba, guarnecendo a ponte. Dali, já sob novas ordens do Comando Revolucionário Brasileiro, nos deslocamos para a cidade de Goiás, antiga capital do Estado, onde fomos garantir a junta governativa, então empossada no Governo de Goiás. Sobre esse procedimento já relatamos os fatos páginas atrás. Pireneus foi afastado do Comando do 6º BC sob a suspeita de não colaborar com a Revolução. Mas, feitos os inquéritos e ouvidas as figuras do movimento, reconheceram-lhe a conduta patriótica, pelo que foi reposto no seu comando, onde o deixei no fim de dezembro de 1930, ao completar o meu tempo de serviço militar. Aliás foi contra a expressa vontade o Cel. Pireneus que deixei o exército. Ele queria, por força, que eu seguisse a carreira militar, comprometendo-se a ajudar-me no ingresso à Escola. Em 1947, logo que fui eleito prefeito de Bonfim, criei a Biblioteca Municipal com o remanescente do antigo Clube Bibliotecário Bonfinense e outras obras, instalando-a em sala própria, sob a gerência de uma bibliotecária. No ato inaugural, foi prestada significativa homenagem ao Cel. Pireneus, colocando uma fotografia sua ampliada na sala da biblioteca, que passou a chamar-se Biblioteca Municipal Coronel Antônio Pireneus. Entretanto, nesse tempo, a maioria dos livros do patrimônio do Clube Bibliotecário havia sido dispersada dentro e fora do Estado, apropriada por pessoas que conheciam o valor daquelas obras antigas, como, por exemplo, um original em espanhol de Dom Quixote de La Mancha e muitas outras. As que restaram do Clube foram restauradas e catalogadas devidamente, para o começo de uma boa biblioteca. Infelizmente os que me sucederam no governo municipal não continuaram a obra e, nos dias atuais, creio que nada mais lá exista daquele precioso patrimônio cultural, oriundo da inteligência e do patriotismo do grande filho da terra, que foi o coronel Antônio Pireneus de Sousa. Ele é digno das minhas homenagens neste humilde relicário.

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Maximiano Tacheiro

Homem bom estava ali. O apelido de Tacheiro devia-se à sua especialidade do trabalho, sempre e em todos os tempos cuidando das tachas nas moagens de cana para a fabricação de açúcar. Ele trabalhava para outras pessoas, mas eram constantes os seus serviços na Fazenda Gameleira, do meu tio Pedro Umbelino. Estatura entre média e alta, nem gordo, nem magro, andava sempre como que caindo para frente, pernas meio abertas, pés voltados para fora, sistematicamente calçados de alparcatas de couro cru, por ele próprio fabricados. É que os seus pés eram grandes, disformes, não tendo calçados que lhe servissem. De uma feita, resolvemos presenteá-lo com um par de botinas de mateiro, número 44. Ele gostou imensamente do presente e, no primeiro domingo subsequente, na sala da casa da fazenda, preparou-se para calçar as botinas. Nós, os circunstantes, nos postamos para ver e ajudar a operação: primeiramente, providenciamos um par de meias, porque o pé nu não entrava na botina. Mas, mesmo com as meias, não modificou a situação. Alguém sugeriu e foi aplicado sebo de velas nas botinas e nas próprias meias. Mas os pés do Maximiano eram um couro grosso. O calcanhar, com rachados grandes, cascudo, não amaciava de jeito nenhum. Ele se esforçava ao máximo, chegando a suar em bicas, mas só conseguia mesmo colocar a metade do pé dentro das botinas. Não houve jeito de calçá-las. Então guardou-as para novas tentativas futuras, muito satisfeito que estava com o presente, mas creio que nunca conseguiu usá-las. A sua fala saía assim meio aos arrancos. Quando pernoitava na cidade, madrugava para chegar à fazenda a tempo de cuidar das tachas:


— Maximiano, a que horas você saiu da cidade? — Os ga-lo-tava-ami-u-da-no. Tinha ele também uma espingarda lazarina, daquelas de carregar pela boca, bem como os ingredientes, polvorinho, porta-chumbos e espoletas. Mas só o vi dar um tiro com essa arma na chegada do Álvaro, cunhado do Jarbas, filho do tio Pedro, e o fez a pedido do meu tio, para corresponder aos disparos que o chegante fazia na ponte da gameleira, na chegada da fazenda. — Maximiano, dá um tiro com a sua espingarda, para responder a esse chegante atirador. Depois te darei um sortimento completo! — É pra já, Sô Pedro! Bum!... Era uma cabra forte de saúde, pois madrugava o mês inteirinho, sem fraquejar e, durante o dia, dava conta de quantas tachas fossem necessárias, sem auxílio de ninguém. As madrugadas, que madrugadas! Iniciavam-se às 24 horas (meia-noite) e os trabalhos de moagem iam até às sete horas da manhã, quando as turmas se preparavam. Uns ficavam no engenho limpando os bagaços, lavando as peças, etc.; outros, inclusive o Maximiano, ficavam nas tachas, no cuidado com as fôrmas de açúcar e com o alambique de fabricação de pinga, enquanto os carreiros e cortadores de canas iam com os carros para os canaviais, de onde regressavam à tarde com outra carga para o dia seguinte. Esse labor prolongava-se pelo período da seca, geralmente de maio a agosto. Era, todavia, uma azáfama gostosa, cheia de melado, moça de engenho, garapa fresca, etc.

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O juiz de Direito Eládio de Amorim

O senador Ramos Caiado, que dominou a situação política do Estado de Goiás de 1909 até 1930, era um homem duro, mas sabia ser grato aos seus amigos e correligionários. Na minha cidade natal, tinha o senador um lídimo defensor da sua política, na pessoa do juiz de Direito Airosa Alves de Castro. O senador desejava promover o dito magistrado, mas as incompatibilidades que adquirira na comarca, pela sua conduta político-partidária, acabaram por levar o juiz ao Tribunal de Justiça do Estado, como desembargador. Para substituí-lo, foi nomeado o bacharel Eládio de Amorim, que assumiu o cargo lá pelos anos de 1924-1925. Foi a melhor aquisição que a minha terra já teve: a vinda desse íntegro e competente juiz. As questões judiciárias tornaram-se sérias e justas, e o total alheamento do novo juiz à política local trouxe uma tranquilidade muito grande à vida da cidade. Homem de educação aprimorada, inteligente e arguto, de índole pacífica, incapaz de ofender ou agredir a quem quer que fosse, de diálogo agradável, adquiriu, em pouco tempo, a simpatia de toda a população local, de ambas as facções políticas e até dos apolíticos. Imprimiu ordem e seriedade nos trabalhos forenses e no funcionamento dos cartórios, exigindo o rigoroso cumprimento dos horários e das audiências públicas todas as quintas-feiras, como determinava a lei judiciária daquele tempo. Eram de ver a clareza e a correção gramatical de seus despachos e sentenças.


Há uma sentença de sua autoria proferida em uma ação de anulação de escrituras de vendas simuladas de terras, realizadas em prejuízo de determinados descendentes, que, a meu ver, representa um de seus maiores trabalhos na judicatura. Caligrafia bonita, bem talhada, perfeitamente legível, essa sentença ocupou mais de quarenta páginas manuscritas. E a sua fundamentação jurídica foi plenamente confirmada pela Corte de Justiça, em grau de apelação pela parte perdedora, que, diga-se de passagem, era mui bem representada por um competente causídico, o qual esgotou os mais expressivos argumentos jurídicos contra os fundamentos da sentença. Muitos anos convivi com esse magistrado, sempre o admirando, cada vez mais, pela sua integridade moral, simplicidade e, sobretudo, pelo seu saber jurídico e pleno equilíbrio diante das mais diversas e renhidas disputas judiciais. Os serviços forenses naquelas épocas, tais como as divisões judiciais de terras, nos colocavam todos reunidos por longos dias em fazendas-sede dos promoventes. Vivíamos juntos o dia a dia, comíamos na mesma mesa e, o mais das vezes, dormíamos no mesmo quarto; acompanhávamos as audiências públicas semanais, os interrogatórios em formações de culpas nos processos de crimes, bem como as tomadas de depoimentos de testemunhas em causas cíveis. Nesses procedimentos, o juiz da causa é muitas vezes tentado a tomar partidos ou a simpatizar-se com umas das partes contendoras; os despachos interlocutórios determinavam diligências, colhiam ou refutavam sugestões, as sentenças finais eram sempre claras, jurídicas e bem fundamentadas no Direito, tanto que todas eram confirmadas pela instância superior. Tudo isso nos dava condições de bem estudar e analisar o homem desde as suas pequenas reações momentâneas até as maiores e bem refletidas. Dessa convivência, através de mais de dez anos consecutivos, é que formei meu juízo sobre a pessoa do homem e do juiz Eládio de Amorim. Depois de longos anos de bons serviços prestados na juizança de Bonfim, esse culto magistrado foi convocado, por merecimento, para uma cadeira de desembargador no Tribunal de Justiça do Estado, sendo eleito seu presidente por diversas vezes. No período político em que foi elevado ao governo do país, o presidente do Supremo Tribunal Federal, antes da eleição do General Dutra, nomeou o desembargador Eládio de Amorim interventor federal em Goiás, cargo que 208


desempenhou com a mesma integridade de sempre, sem benefícios próprios ou a seus familiares, colocando, acima de tudo, o interesse público, como era de seu feitio. Deixou ele exemplos edificantes na judicatura goiana, embora nunca tivesse abandonado aquele seu comportamento humilde e simples de vida. A sua atuação na vida e no desenvolvimento de minha terra justifica o registro que ora lhe faço, na singeleza deste meu relicário, como um reconhecimento póstumo em nome de minha cidade, já que nenhum outro lhe fora tributado até hoje, que seja do meu conhecimento, pelos meus conterrâneos.

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Getúlio Vargas

Exercendo na minha terra-mãe, por mais de vinte anos, as funções de tabelião público, judicial e de notas e, como tal, lavrando escrituras de compras e vendas, cessões de direitos, testamentos, contratos de locação, de serviços e enfim, todas as convenções particulares celebradas entre os meus conterrâneos, principalmente do homem do campo, do roceiro, me tornei, assim sem o querer, uma espécie de secretário popular na cidade. Aliás, a função do tabelião na pequena cidade, quando exercida com honestidade, eleva o titular a uma condição de conselheiro do povo, eis todos lhe confiam as suas dúvidas, queixas, buscando conhecer os seus direitos e obrigações. Nessa condição recebi certa vez em meu cartório a visita de um roceiro do Rio dos Patos, bairro populoso do meu município, cujo nome se bem me lembro era José Peixoto e que veio acompanhado do meu amigo Dolzane Félix de Sousa, contador público da comarca. A cara do roceiro era a mais desconsolada e triste que se podia pensar, e o choro se lhe aflorava aos olhos nas primeiras palavras do seu relato. Contou-me que já estava no terceiro dia sem comer e sem dormir tal a angústia do que lhe sucedera. Era pobre e possuía apenas um pequeno sítio no bairro já citado, com quatro ou cinco alqueires de terras e uma casinha rústica de pau-a-pique, onde morava com sua mulher e cinco filhos, o menor ainda com um ano e meio. Pensando em melhorar a situação da família, mormente buscando escolas para os filhos, resolveu de comum acordo com sua esposa vender o sítio e mudar-se para a cidade. Na madrugada do dia marcado para a mudança, dinheiro no bolso, quatro contos de réis, preço da venda, foi buscar os cavalos no pastinho ao lado da


morada e voltou de lá cheio de carrapatinho no corpo e nas roupas. Chegando em casa, para livrar-se dos carrapatos, tirou a calça e sacudiu-a sobre o fogo da fornalha no chão, quando viu assustado o bolo de dinheiro caindo nas chamas e pegando fogo. Acudiu jogando as brasas para fora e apanhando o que restara das notas. Eram oito notas de quinhentos mil réis cada uma; delas restaram apenas os cantos com o valor e número, que me foram entregues em um pacotinho amarrado dentro de um lenço. — Que vou fazer, seu moço, sem meu sítio e sem dinheiro, com mulher e cinco filhos? Estou ficando louco! Me ajuda, pelo amor de Deus! Já tinha ido ao delegado de Polícia, ao juiz, ao coletor federal e todos eles lhe disseram que tudo estava mesmo perdido, mas o meu amigo Dolzane Félix lhe meteu na cabeça que eu era capaz de resolver o seu problema! Imaginem os meus leitores a minha situação. Fazer o quê? Ajudá-lo como? Nessa hora lembrei-me de que só uma pessoa neste grande Brasil poderia ajudar no caso (e aqui é que entra a pessoa cujo nome encima este relato): Getúlio Dorneles Vargas, o então presidente do Brasil e cognominado com muita justeza o “pai dos pobres”. Se bem pensei, melhor agi. Mandei buscar as certidões de seu casamento e as de nascimentos dos filhos e redigi um atestado circunstanciado que o delegado de Polícia Waldemar Ramos, também meu amigo e conhecedor do episódio, assinou prontamente, em papel oficial com firma reconhecida. Meti o papel na máquina e redigi um apelo dramático ao ilustrado e saudoso presidente Getúlio Vargas. Nem sabia se lhe chegaria às mãos tal correspondência, assim endereçada: Ao Gabinete Civil da Presidência da República — Palácio do Catete — Rio de Janeiro-DF. O coletor federal local, Joaquim Leite, riu na minha cara quando soube da providência e me disse diante de muita gente que aquilo era tapear um pobre coitado, pois jamais o presidente da República iria tomar conhecimento do caso e muito menos repor o dinheiro. O homem foi embora, os dias se passaram e ninguém mais falou no assunto, até eu me esqueci dele, pois o cartório era um poço de serviços e não me dava tempo de pensar. Dois meses e pouco após o acontecimento, chegou ao meu cartório, acompanhando do mesmo Dolzane Félix, o coletor federal Joaquim Leite, pálido, com as ventas abertas, meio engasgado, dizendo: 212


— O dinheiro chegou! — Que dinheiro, seu Joaquim? — O dinheiro queimado, olhe aqui o processo vindo do Ministério da Fazenda e a ordem para repor o José Peixoto. De fato, lá estava o meu ofício com um despacho do próprio punho do presidente: “Ao Tesouro Nacional para substituir as cédulas incineradas. G. Vargas”. É que eu havia anexado ao ofício o que sobrara das notas queimadas. O roceiro foi chamado e recebeu o seu dinheiro de volta; quando quis me pagar, mandei que ele destinasse ao Asilo São Vicente de Paulo local tal pagamento e mais tarde soube que ele ali entregara quinhentos mil réis. O registro desse acontecimento, eu faço neste meu relicário porque a personalidade de Getúlio Vargas foi muito discutida e ainda o é nos dias de hoje. Uns o consideram grande homem, outros, como Carlos Lacerda, o condenam como demagogo. De minha parte sempre o considerei um grande brasileiro.

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A minha mudança de domicílio

Neste meu relicário de memórias, tenho procurado registrar tudo aquilo que, de amor e gratidão, senti pela minha terra natal, o antigo Bonfim. Assim o digo porque, desde que a transformaram na inexpressiva Silvânia, a minha cidade começou a morrer dentro do meu coração. Sentia que, a cada dia que passava nessa nova denominação, ela perdia muito do passado, do amor e da amizade entre os seus próprios filhos, quase todos oriundos de um só tronco familiar. Eram as divergências políticas, extremadas; as mais das vezes, eram as intrigas destruidoras das amizades, eram as concorrências desleais, eram as desconfianças entre os membros das próprias famílias, era, finalmente, a maldade humana surgindo e tomando conta da minha amada Bonfim. Apesar de tudo, eu resistia com os últimos guardados de meu coração, pela terra-mãe, aos convites insistentes para a transferência de nosso domicílio familiar para a capital do Estado, onde vivia a família da minha esposa. Mas, desde que a minha mãe faleceu e todos os meus irmãos já não moravam lá também, acedi àqueles convites, mas confesso que o fiz com muito receio, com um grande medo de fracassar na luta pela vida numa cidade nova, heterogênea, onde todo mundo era naturalmente mais capaz do que eu. Vim para Goiânia com a alma magoada pelas ingratidões sofridas na minha terra e, ainda por cima, com esse receio de não conseguir me situar bem no novo domicílio. Entretanto, meus amigos, os meus leitores, se os tenho, tudo ocorreu muito ao contrário, e, pouco tempo depois, eu dizia de mim para mim: por


que não vim há mais tempo? Por que não me mudei com a minha família, inclusive com a minha saudosa mãe, para esta cidade há mais de dez anos? É que, aqui chegando, fui logo procurado pelo então coletor federal e administrador da Santa Casa, o saudoso Germano Roriz, para substituí-lo na administração daquele complexo hospitalar, convite este endossado pelo não menos saudoso bispo Dom Abel Ribeiro Camelo. Não cheguei, pois, a ficar uma semana desempregado nesta nova terra. Entretanto, o meu relacionamento social, não só o meu como o da minha esposa e filhos, era restrito aos parentes e a alguns poucos amigos e antigos conhecidos. Até o dia em que compareceram em minha casa, no Lago das Rosas, os meus amigos e parentes Hélio Lobo e Dourival Bacelar, com o convite da comissão fundadora do Lions Clube de Goiânia para nos integrarmos nesse novo clube que se organizava nesta capital. A princípio, tive um certo receio, porque, em nosso meio, essa organização internacional era pouco ou nada conhecida. Todavia, quando examinei a lista dos sócios já escolhidos e convidados, não tive dúvida em me inscrever imediatamente. Essa nossa integração ao Lions Clube de Goiânia veio complementar a minha satisfação pela transferência do meu domicílio para esta capital. Ampliaram-se, sobremaneira, os nossos relacionamentos sociais, o nosso campo de amizades, ensejando-nos também a prática e o trabalho em campanhas meritórias de auxílio a pessoas e entidades beneficentes, entre elas a própria Santa Casa de Misericórdia de Goiânia, da qual era eu o administrador. Lembro, aqui, como registro especial, o donativo do aparelho de raios X da Santa Casa, resultante de campanha do Lions, na qual se destacou o companheiro Nelson Siqueira, então deputado estadual, com uma lei de auxílio de seis milhões de cruzeiros. Eu e a minha família recebíamos desse clube, de um lado, um novo e salutar campo de relacionamento social, e, de outro, a minha própria administração da Santa Casa crescia pelo muito que o clube para ela contribuía; as domadoras cuidavam e proviam de roupas e alimentos a parte infantil do hospital, a cargo do companheiro Wilson de Carvalho. Dentro desse clube, com o relacionamento que pude fazer, não tive, graças a Deus, aquele constante receio de fracassar na nova vida nesta capital. Entendo, por isso justo, registrar, neste meu relicário, a passagem em referência, não só como uma gratidão a Goiânia, que adotei como minha terra natal desde que perdi o meu antigo e querido Bonfim, mas, também, gratidão 216


ao Lions Clube de Goiânia, o que é dizer, gratidão a todos e a cada um dos meus prezados Companheiros Leões, não só os fundadores do clube, mas, também, a todos os outros que, posteriormente, nele se filiaram. De Goiânia e do Lions Clube recebi tudo o que desejava na vida: honra, amizade, respeito e consideração. (Em dezembro de 1950)

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O roteiro da vida

A vida das pessoas, com raras exceções, segue sempre um caminho diferente daquele que desejariam ou com o qual sonharam. Quem é médico queria ser engenheiro, quem é carpinteiro desejava ser sapateiro e quem é civil queria ser militar. Quanto a mim, jamais pretendi realizar a minha vida em funções públicas. O meu primeiro desejo, de infância, foi o de ser militar e cheguei até a escrever uma carta ao General Eduardo Sócrates, que era primo da minha avó paterna, pedindo a sua ajuda. A sua resposta foi para que eu assentasse praça e, após, fizesse concurso para a Escola de Sargentos. Mas eu queria ser militar superior, da Escola Militar, o que era e continua sendo difícil de conseguir. Passei, então, a almejar o comércio ou a indústria e, enquanto não tinha as condições e nem capital para me estabelecer, busquei prática como caixeiro, primeiro em um armazém de bebidas e, posteriormente, em uma casa comercial de armarinhos e tecidos. Sob a proteção do arcebispo Dom Emanuel, fui tentar ser ferroviário, na Estrada de Ferro de Goiás. Não dando certo, fui ser comprador de cereais para uma sociedade de parentes, o que também durou pouco tempo, pois, neste ínterim recebi um convite mais vantajoso, para ser escrevente de cartório. Entrei nesse cartório no ano de 1927, no mês de maio, e, pouco tempo depois, comprava o cargo do titular, para nele permanecer por mais de 22 anos, até me mudar para Goiânia. Nesse novo domicílio, ainda pretendia praticar o comércio, mas, enquanto esperava a oportunidade, aceitei um convite para administrar a Santa Casa de Goiânia, em cujo cargo fiquei mais de doze anos.


Quando houve a intervenção federal em Goiás, aceitei compor, com o Dr. Jair Lage de Siqueira, a diretoria do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (CRISA), durante o período daquela medida de exceção. Mas lá fiquei mais de dez anos. Antes de entregar o cargo do CRISA, já aceitava outro, no governo do engenheiro Irapuan Costa Júnior, a convite do engenheiro Irineu Borges do Nascimento, para integrar, com ele, a diretoria da COHAB-GO. Por aí se vê que construí a minha vida em atividades que não eram as minhas preferidas. Não sei se devido a isso, ou se pela pouca importância com que sempre vi o futuro, em matéria de resguardo financeiro, estou chegando ao limite útil da vida (setenta anos), sem direito a uma aposentadoria ou ao amparo legal que o poder público dispensa aos que o servem, pela simples razão de não ser titular de cargo da administração centralizada. Agora, todavia, quando estou vendo abrir a porta dos meus setenta anos vividos, o assunto passou a me preocupar seriamente. Tenho apenas este final de 1976 e os dez meses do ano seguinte para encontrar um cargo da minha especialidade profissional, ou seja, de técnico de administração, em quaisquer das autarquias estaduais, para ocupá-lo sob contrato e, como contribuinte do Ipasgo, para que, com o tempo de serviço levantado, possa pleitear ao Estado a minha aposentadoria. (Em dezembro de 1976)

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Página sem nome Ao bonfinense desconhecido

Neste modesto relicário de foros domésticos, em que relato acontecimentos em torno da minha vida nos caminhos percorridos na cidade natal, tive diversas ocasiões de prestar a minha insignificante, mas sincera, homenagem a diversos bonfinenses pelo que de bom e patriótico realizaram em benefício de nossa comum mãe-terra. Se o fiz bem ou mal, será uma questão das minhas limitações. Mas centenas de outros bonfinenses que lá viveram e atuaram patrioticamente, antes do tempo que focalizo, durante esse período e mesmo após ele, a maioria dos quais colaborando modesta e anonimamente, em benefício da cidade, terão, por certo, direito ao reconhecimento dos pósteros. Não quero cometer a injustiça de ignorá-los neste meu caderno de memórias, daí por que dedico esta página não propriamente ao bonfinense desconhecido, porque todos eles são mui bem conhecidos, mas ao bonfinense que eu desconheci por qualquer motivo nestes escritos, como é o caso daqueles que não tomaram parte ativa nos acontecimentos relatados. Ao se findarem as guerras, a Pátria sempre ergue um túmulo ao soldado desconhecido, para render o preito de reconhecimento àqueles soldados anônimos que contribuíram para a sua defesa. Com base nesse princípio é que dedico esta página a todos aqueles bonfinenses que, desde os primórdios da fundação da cidade até a década de 1930, concorreram, de um modo ou de outro, para o desenvolvimento e o progresso da nossa querida Bonfim.


Entrevejo muito cidadãos prestantes da minha terra, desde o Padre Antônio da Costa Campos, Henrique Silva, Joaquim Gomes Gerais, José Honorato de Abreu, Joaquim Caetano do Nascimento, Manoel de Sousa Lobo Guimarães e sua esposa Luíza Catarina Guimarães Lobo, Aleixo Caetano do Nascimento, José de Sousa Leão, João da Costa Ferreira, Manoel Estelita Lobo, Flávio Félix de Sousa, Augusto Teixeira de Magalhães Leite, Alonso Félix de Sousa, Joaquim Félix de Sousa, Antônio Félix de Sousa, Joaquim José da Silva, Antônio Umbelino de Sousa, José Martins de Siqueira, Manoel Joaquim Ramos, Inácio de Sousa Ramos, Antônio Tavares de Sousa, Francisco Herculano Lobo e sua esposa Constança Tavares Lobo, Inácio de Loiola Costa Campos, Francisco Miguel de Siqueira, Abel Gomes Pinto, Antônio Félix do Sacramento, Pedro Serapião de Siqueira, João de Sousa Leão, Juvêncio Nogueira, Miguel Paulino Braga, Pedro Santinha, José Batista Arantes, Moisés Damázio de Sousa, João de Sousa Lobo, Francisco Cotrim, José Gomes Louza, João Pereira de Sousa, Manoel Pereira de Sousa, Moisés Brandão, Altino de Sousa Nascimento, Ozório Antônio de Abreu, Basílio Antônio de Melo, Narcizo Cotrim e muitos outros mais. Com esses nomes acima citados, estou apenas oferecendo uma amostra da grande plêiade de bonfinenses merecedores de nossa admiração, porque, além deles, muitos outros, centenas de outros, ali viveram e prestaram sua inestimável colaboração à cidade. A todos estendo esta minha singela homenagem. E pena que a minha memória não possa me fornecer os nomes de todos eles, porque os citaria com muito prazer e satisfação, mas, de qualquer forma, estão todos subentendidos nesta página. Tenho muita admiração por todos quantos, com o seu trabalho, com o seu exemplo, construíram uma cidade de foros dignos entre as mais dignas do Estado, legando-nos não só uma descendência aprimorada e boa, mas, ainda, exemplos dignificantes de patriotismo e amor à terra, inclusive os que dali partiram voluntariamente para a Guerra do Paraguai e souberam lutar e até sacrificar a própria vida no altar da Pátria.

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Arrematando

Estes escritos prolongaram-se por mais de dez anos porque não havia, de início, o desejo de reuni-los num compêndio. À medida que me assaltava o desejo de escrever, satisfazia-o esporadicamente, sobre o assunto relembrado, guardando a página. Somente a partir do corrente ano, resolvi enfeixar todas e concluir este relicário. Esse é um dos motivos por que ele se apresentou da forma como está, falho e sem uma ordem diretiva e coordenada dos assuntos tratados. É evidente que os demais motivos desses senões são decorrentes das minhas próprias limitações, conforme já adverti nas páginas iniciais. Não obstante, devo confessar que tive grande satisfação em ver concluída e apresentada a minha primeira, e única talvez, tentativa de cantar, em prosa, minha terra e minha gente. A partir do momento em que me dispus a divulgar estes escritos, estou à mercê do julgamento dos meus semelhantes. Esse julgamento me será negativo, por certo, não só do ponto de vista da obra em si, pelo seu conteúdo corriqueiro e de foro doméstico, como, também, porque a maioria das pessoas que poderia gostar das narrativas já não existe e os pósteros não entenderão, nem gostarão de fatos cujas raízes desconhecem. Não posso exigir de estranhos o mesmo amor e o carinho pelo meu torrão natal, razão pela qual aceitarei, de cabeça baixa, as críticas, mas essas e nem outras abaixarão jamais a minha ânsia de externar os meus sentimentos por tudo o que me foi caro na vida. O que posso dizer é que, se tivesse de começar tudo de novo, repetiria exatamente o que aí ficou, páginas atrás. Goiânia, dezembro de 1976 J. S. L


Adenda: As caçadas

Numa obra em que relato os fatos de que participei ou fui testemunha, no decorrer da minha vida, não poderia faltar um seguimento que exerceu muita influência no meu caráter e através do qual amealhei boas relações e ótimos amigos. Em homenagem a estes, pois, abro esta adenda no meu relicário, para descrever apenas algumas das nossas caçadas, aquelas que pude recordar com mais detalhes. Esta parte fica assim dedicada a todos os meus companheiros do esporte, alguns dos quais falecidos, eis que de todos guardo grande apreço e saudosas recordações.


O homem caçador

Não sei se por influência do meu sogro, que era um caçador inveterado ou pela quotidiana vivência com o Urbano Caetano, moço da minha terra, um tanto mais velho que eu, mas com quem tive sempre estreito contato na vida de solteiro e mesmo depois de casado, o certo é que resolvi ser caçador de perdizes ou de codornas. Do próprio Urbano, que se entusiasmou logo pela resolução, adquiri, por preço camarada, uma espingarda cartucheira, calibre 28, de fabricação espanhola, com dois canos, com o respectivo cinto-cartucheira, ambos bastante usados, mas ainda em bom estado de conservação. Como era lógico, iniciei os primeiros passos nessa vida guiado pelo Urbano. Saíamos à tarde, pelos campos ou pastos próximos da cidade, à procura da caça. O cão perdigueiro, amestrado, era também do Urbano. Nas minhas primeiras experiências, ficava muito humilhado, pois, quando a codorna levantava, eu atirava primeiro, a mando do Urbano. Errava o tiro, na certa, e então o mestre mandava brasa e matava a caça, me “passando o toco”, conforme expressão da gíria dos caçadores. Aos poucos fomos aumentando o grupo: o Dr. Eduardo, juiz de Direito; o Chico Lobo, meu primo e, mais tarde, meu ferrenho inimigo político; o Jader, também meu primo, e o Israel Guimarães, este já caçador velho e tarimbado. O Dr. Eduardo tinha também seu cão amestrado, por sinal, um ótimo animal, bem disciplinado, de bom faro. Quando o caçador mata a caça, o cão a apanha seja lá onde cair e a traz na boca, entre os dentes, sem feri-la, até o seu dono. De minha parte tratei logo de arrumar um cão. Ganhei de presente


do Jader um cachorro, filho da cadela perdigueira de sua propriedade, também ótima caçadora. Logo que o cãozinho teve idade, contratei um professor na roça e lá se foi ele para a escola. Como em pequeno chorasse muito, pusemos nele o nome de Chorão, mas, diga-se de passagem, foi o melhor dos cães que tive em toda a minha vida de caçador, dentro os trinta e muitos que já repassei. Na companhia do Jader, cacei muito pelos lados do Saco da Onça, Jurubatuba, Piracanjuba, etc., sempre fazendo ótimas caçadas. O Chorão era comilão como só ele. Certa vez, estávamos o Jader e eu caçando e pescando nas margens do Rio Vermelho, e, em dado momento, eu ouvi uma perdiz cantando no alto do campo; deixei a minha vara de pesca fincada na areia, à beira do rio, em cujo anzol tinha como isca um pedaço de carne, e subi às pressas pelo campo, seguindo os pios da perdiz, para não a perder no local. Quando a localizei bem, procurei pelo Chorão, pois, sem cão, ninguém caça perdiz. Gritei, chamei, mas nada dele. Apurei o ouvido e escutei o seu uivo lá em baixo, na beira do rio. Fiquei encabulado, o cão era louco por caça e jamais me deixaria sozinho no campo. Resolvi voltar à beira do rio e, lá chegando, encontrei o Chorão fisgado pelo anzol, correndo e pulando em volta da vara. É que, vendo a carne da isca, não suportou o desejo de devorá-la e, com isso, ficou com o anzol preso no beiço superior. Não consegui livrá-lo da fisga e chamei o Jader que, com meu auxílio, cortou o beiço do cão para retirar o anzol. Com o correr dos tempos, fui aperfeiçoando os métodos de caçador. Adquiri dois cavalos de sela, um dos quais ficou mestre na caça de perdizes, a ponto de não se assustar com os tiros e até aprendeu a acompanhar o cão, na procura da caça. Quando o cachorro tirava a perdiz, o cavalo o acompanhava com toda a atenção. O cão amarrava, e o cavalo parava instantaneamente. Eu mandava o cachorro e, de cima da sela, atirava na ave. E, para completar, apanhava-a sem me apear da montaria. Chamávamos a isso de “gauchada”. O nosso grupo foi enriquecido, mais tarde, pelos companheiros Dr. Simeão Cardoso, médico, e Leônidas Cotrim, filho da terra. Com eles, caçávamos sempre pelos lados dos Olhos D’água, Rio dos Bois, etc., para onde nos deslocávamos de bicicletas, pela facilidade das estradas. De quando em vez, íamos de “baratinha ford”, do Urbano, ou no Chevrolet Ramona, do Teófilo Chaves, meu compadre. Sempre dispensei ao Urbano uma especial consideração, porque ele, apesar do meu adversário no campo político, nunca se afastou de mim mesmo nos momentos da mais renhida campanha eleitoral, 228


quando os ânimos se exaltavam e todos passavam a se destratar. O último pleito que presidi na minha terra, perdemos por larga margem, e, com isso, os amigos se afastaram. Eu estava numa fossa danada, descrente de tudo e de todos, quando, num sábado, ali pelo meio-dia, o Urbano parou a sua baratinha na porta da minha casa, gritando-me para uma caçada... Que hora boa, nunca mais esquecida! E ele fazia isso enfrentando os seus correligionários: todos desaprovavam e criticavam as suas relações comigo. No interior era assim: adversários políticos eram inimigos ferrenhos. Cada facção tinha o seu médico, a sua farmácia, o seu açougue, etc. Na igreja, nas missas, cada grupo tinha o seu lado de ficar. As mulheres, as velhas beatas, rezavam e faziam promessas para o outro lado perder as eleições... Logo nos primeiros tempos de minha vida de caçador, fui à fazenda do meu sogro e o acompanhei a uma caçada de perdizes. Foi aí que aconteceu o meu primeiro sabor de matar uma perdiz. Até aí, havia matado apenas codornas, mesmo assim errando muitas para acertar poucas. Em perdizes também eu já havia errado bastante. Nesse dia, saímos montados em bons cavalos pelo lado do Sapecado, e lá, nas margens de uma grota, o meu cão amarrou uma perdiz. Eu não queria atirar nela perto do meu sogro, que era exímio atirador. Mas ele exigiu, pois queria conhecer o meu jeitão. Pelando de medo de errar o tiro, acompanhei o cachorro e, quando a perdiz pulou, passei-lhe um certeiro tiro, fazendo-a girar no ar e cair centro da grota... Quando fui apanhá-la, meu coração batia como louco dentro do meu peito, qual criancinha assustada! Até que enfim podia arrotar alto perante os companheiros lá da minha terra: sou caçador! Dessa feita, para melhorar meu equipamento, troquei com o meu sogro a minha espingarda espanhola, por outra do mesmo calibre, mas de melhor procedência, uma Sauer-Krupp, tipo stander. Custei, todavia, a me ajeitar com ela. Errei muitos tiros, trocando-a, mais tarde, por outra da mesma marca, mas de calibre 20. Em 1950, com a minha mudança para Campinas, bairro de Goiânia, lá ficaram os meus companheiros de caçadas, os meus cavalos, os campos, os lugares conhecidos e familiares. Aqui, na nova terra, tive que começar sozinho as caçadas. É bem verdade que, logo após a minha chegada, o Chico Pacheco e o gaúcho Clotário Mena Barreto convidaram-me para minha primeira saída ao campo, lá pelos lados 229


do Córrego Santo Antônio, hoje Country Clube, dia em que matamos seis perdizes, bem à margem da antiga estrada de Goiânia a Aparecida. Depois disso, não tive mais companheiros e caçava sempre só. O meu cunhado Edison Pacheco tinha uma ótima chácara pelos lados de Trindade, onde eu sempre ia aos sábados à tarde, lá pernoitando, para caçar durante o domingo e ainda regressar a Goiânia. Até que me habituei a caçar sozinho, fazendo ótimos tiros e trazendo sempre quatro, cinco ou seis perdizes. Conheci, com detalhes, campos, córregos, passagens, moradores, grotas e demais acidentes dos terrenos daquelas redondezas. Conheci, depois, um amigo do Edison, caçador, chamado Orozimbo, que morava na Fazenda São Domingos, no caminho para São Geraldo (hoje Goianira). Passei a caçar por aquelas bandas, orientado pelo Orozimbo. Este era caçador de bichos, principalmente, de veado, de modo que nunca me acompanhava. Continuei, portanto, caçando sozinho. De quando em vez, ia comigo o Vicente Umbelino, meu primo, que começou entusiasmado pelo esporte, mas, posteriormente, abandonou-o de uma vez, talvez por ter se mudado para o Rio, ou, quem sabe, por não ter, no sangue, o gosto pela cousa. Aliás, o Vicente andou muito tempo comigo, ou melhor, eu com ele. O automóvel era dele e as viagens também; ora exclusivamente para caçadas, ora aproveitando as destinadas viagens aos serviços, como o fizemos em Jataí e Mineiros. Depois de algum tempo morando em Campinas, descobri o Tormelindo Santos (Tomé), lá de Bulhões, e o mecânico José Amaro, com os quais fiz muitas caçadas pelos lados de Dourados, Rasga-Saia, Biscoito Duro, etc. Conheci, também, o João Cavalo, que me levou em ótimos campos que ele conhecia junto com o Olavo Teles, e neles fizemos boas caçadas, nas proximidades de Biscoito Duro. Na administração da Santa Casa, conheci um carpinteiro, o Benedito, que passou a ser o meu inseparável companheiro de caçadas. Aliás, na viagem a Mineiros, com o Vicente, ele já participava do grupo. Era pobre, humilde, mas ótimo companheiro, sempre pronto para as viagens, bom cozinheiro, cuidava muito bem dos cães, dos quais possuía ótimos exemplares. Quando escrevo estas linhas, já muitos dos meus companheiros deixaram esta vida, marcando, cada um, uma cicatriz no meu coração. Já faleceram: o Urbano, o Jader, o Edison, o Orozimbo, o Aurélio, o Clodoaldo, o Benedito Carpinteiro, bem como o seu filho, também integrado ao grupo, José Carlos. 230


Uma única vez fui ao Araguaia, tão cantado por sua beleza sem par, mas de que não gostei, por não ser meu tipo de caça predileta. Lá cacei, sob o comando do Luly Spencière, capivara e paca, bem como patos nos Lagos da Água Limpa. Entrando para o Consórcio Rodoviário, encontrei ali, entre os funcionários, os melhores companheiros de caçadas. O grupo se formou pelo Rubens, o Zózimo, o Roque, o Régis. Este último desgarrou-se do bando por ter-se demitido da empresa. Vou ver se faço uma descrição pessoal de cada componente desse último grupo: — Rubens Custódio Pereira: nascido em Uberlândia City, mas se criou e viveu em Goiás. Bom de prosa, animado nas caçadas, metido a bonitão. Boa praça, bom camarada, companheiro leal e sincero, amigo de todas as horas. Um tanto metido a atleta; sua barriga avantajada constitui um problema... Faz ginásticas nas academias permanentemente. Nas andanças a pé nas caçadas, cansa-se mais, perdendo para mim, porque nem ele nem eu gostamos de andar sozinhos pelos campos ermos e gerais... Na sua fala, não erra tiro e só faz 12 pontos na esportiva, exceto nas jogadas em que 12 pontos ganham... É alegre e expansivo, conta piadas, bebe cerveja, uísque ou conhaque. Na barraca do acampamento é sempre o mais divertido. Nota 100. — Zózimo de Paula Dias: grande companheiro, exceto no rio, na canoa, no remo, etc. Paulista da beira do Paraná, nasceu em Itararé. Por lá aprendeu a caçar; por isso mesmo, bate papo que a sua zona é o melhor lugar do mundo para a caçada de perdizes. Aceita as críticas dos companheiros, mas goza todo mundo. Fuma muito, gosta de cerveja e é ótimo companheiro nas caçadas. Na barraca fala pouco, escuta muito e ri mais ainda. De quando em vez, conta lá uma estória de São Paulo, onde tem um cunhado que, de certa vez, pescou tanto num rio que as águas baixaram mais de oitenta centímetros... Apreciador exímio de cerveja, tomando, de quando em vez, uma talagada de pinga boa. Não atira mal, mas mata pouca caça, não sei por quê. Nota 100. — Roque Antônio da Paixão: Goiano sisudo igual a mim mesmo. Gosta das cousas na hora certa. Meio estourado. Forte nas caçadas, anda muito, mata bastante, tem sorte no campo, achando sempre caça onde a gente já procurou. Companheiro para todas as horas, no campo, no rio, na 231


canoa. Meio papudo nos autoelogios. Aprecia, também, umas latas de Skol geladinhas. Conta casos de Corumbaíba, de Ipameri, onde uma cobra já o pegou. Suas piadas são contadas com cara séria... Nota 100. — Carlos Machado: filho do norte de Goiás. Não é propriamente caçador e sim pescador. Toma conta sempre do rancho, cozinha muito bem. Dócil, serviçal, incapaz de ofender a quem quer que seja. Companheiro e tanto na caçada. Meio medroso, no mato, sozinho. Sabe pegar os peixes no anzol ou na rede, como sabe ainda melhor prepará-los no fogo. É madrugador, levantando-se sempre primeiro que todos na barraca. Raramente toma uma cerveja. Pinga, uma vez bebeu e passou mal, vomitando a noite toda. Nota 100. — Anatólio Cabral França: goiano do sudoeste. É o motorista das caçadas, mas também é caçador nas horas vagas. Pescador tarimbado, sabe fisgar o peixe e conhece onde os bichos estão. Atira bem com arma curta ou longa, de bala. Trabalha comigo há mais de dez anos. É de toda confiança, leal e sincero. Falam que é valente, porque já enfrentou a polícia em Rio Verde e, uma vez, na Fundação Brasil Central, livrou o diretor Raul da Silveira de um ataque, passando fogo na mão do camarada que tentava alvejá-lo. Nota 100. Outros companheiros: de vez em quando, levamos outras pessoas amigas, parentes, como o Leoni Caiado, o José Delgado, este papudo como só ele. Um amigo do Roque, paulista, bom caçador. Também o meu filho Ricardo, apesar de estar fazendo faculdade, quando pode e tem tempo, nos acompanha nas caçadas. Atira bem, é nervosinho, mas sabe o que quer. O Rubens também já levou o seu filho Racine numa caçada, quando também foi convidado o Ivapoerê Machado, meu primo, militar de Jundiaí, companheirão na barraca.

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Rumo ao Araguaia

No âmbito do nosso Clube de Serviços, lá pelos idos de 1960, surgiu uma ideia de uma viagem de recreação dos sócios, ou de parte deles, ao Rio Araguaia, logo aceita pela maioria, mormente por aqueles que, como eu, ainda desconhecia as maravilhas desse rio. Mas, à medida que ia amadurecendo a ideia, o número de interessados ia diminuindo. No final, quando se tratou efetivamente da marca da viagem e das contribuições para a caixa de despesas, ficamos apenas em cinco: os doutores Manoel e Zé Camilo, o Siqueira e eu, do Clube, e mais o professor Vicente, que não era do Clube, mas parente-afim do sócio Manoel. A essa altura eu já havia combinado tudo com o Luly, da loja A Sertaneja, que sempre manteve excursões anualmente ao Araguaia, do qual era e é ardoroso fã. Ele possuía equipamentos completos, como barracas, barcos, motores, cozinha e também gente especializada no Araguaia. No dia combinado, disparamos em dois veículos rumo a Aruanã, cujo acesso só se fazia, nessa época, via Goiás, Itapirapuã, São João, depois de pular o Rio Vermelho, o Monjolinho e o célebre Areão, instransponível com o sol quente, porque os veículos se atolavam nas areias. No Monjolinho, fizemos uma parada para descansar e para beber água daquela fonte. Aproveitamos para dar uma volta pelas restingas próximas, à procura de caças como macucos e mutuns, abundantes da região. Dos primeiros, vimos um casal de longe, mas, como não pudemos atirar, regressamos aos carros e continuamos a viagem.


Chegamos a Aruanã à tardinha, debaixo de um calor sufocante. Eu já havia lido diversas publicações sobre Leopoldina, o antigo nome daquela localidade, referentes às primeiras tentativas do Governo de Goiás para estabelecer a navegação de médio calado no Araguaia e à odisseia da trazida do grande vapor Couto Magalhães, que acabou ficando ali mesmo, à margem do barranco da cidade, sendo consumido, aos poucos, pela erosão, pelos furtos de peças, até se acabar não totalmente, porque ainda vimos os seus restos de ferros-velhos. Lá nos esperava, gentilmente, o Luly com a sua frota de canoas, trazidas do seu acampamento, no qual iríamos nos hospedar. Levou-nos à única pensão local, em cujo interior custamos a permanecer devido ao excessivo calor. A noite, então, foi dura de roer, pois a cama parecia um forno recém-apagado. Na manhã do dia seguinte, com a fresca natural da hora, os preparativos para os embarques de bagagens e passageiros, tudo decorreu em clima de alegria e satisfação. Daí a pouco, subíamos o Rio Araguaia, em três canoas: duas com passageiros e um batelão com as cargas que não eram poucas. Levei comigo a minha Bereta, pronta para atirar em possíveis caças pelo rio acima. Duas horas de viagem, e já chegávamos ao acampamento. Este fora levantado numa ilha de areia, com uma área aproximada de 100x80 metros, uma situação privilegiada porque só se chegava ali por água. O acampamento era composto de um ranchão de folhas verdes, de palmeiras, amplo e fresco, com redes amarradas, lá dentro cozinha, despensa e um bar provido de geladeira, liquidificador, etc., tudo beneficiado por um conjunto gerador. A uns vinte metros pelo areal adentro, as barracas de lona, para dormitório, duas camas em cada uma. Os hóspedes éramos apenas nós cinco, mais o Luly, com seus empregados, barqueiros, guias e cozinheiros, em número de sete, para os quais havia acomodações ao lado da cozinha. Nesse mesmo dia, iniciamos nossas atividades; as minhas e as do Luly eram mais as de caçadores e as dos demais eram só de pescas. Subimos o Araguaia, o Luly e eu, numa potente canoa a motor de popa, dirigida por um perito barqueiro e caçador, levando dois cães amestrados. 234


Estes nadavam o rio em todas as direções; nem esperavam a canoa chegar ao barranco e já saltavam, embrenhando-se nos matos à procura de capivaras, pacas ou veados ou antas, que são as espécies mais abundantes por lá. Os bichos ribeirinhos, de ordinário, quando atacados, se refugiam no rio, onde mergulham e permanecem muito tempo submersos, graças às suas constituições orgânicas especiais, tendo ali maiores chances de escapar à perseguição de cães e caçadores. Já bem distantes do acampamento, soltamos os cães e logo eles derrubaram n’água capivaras e uma paca. A paca não conseguimos localizar no meio da garranchada da beira do rio, mas perseguimos as capivaras nas mais magistrais correrias praticadas pelo canoeiro. Quando a bicha aflorava para respirar, disparávamos os tiros, mirando-lhe a cabeça, que é a parte do corpo que fica de fora da água. Nessa correria de esconde-esconde, perdemos uma delas, que deve ter morrido em lugar inacessível, mas pegamos a segunda que vimos afundar e esperamos boiar, recolhendo-a na canoa. Quando descíamos o rio, de regresso ao acampamento, observamos, de longe, um corpo estranho rodando na margem oposta. Para lá nos dirigimos e encontramos a primeira capivara que havíamos matado e que, também, foi colocada dentro da canoa. Assim, chegamos ao acampamento com duas boas caças para o primeiro dia. Os nossos companheiros também regressaram com uma boa pesca. Uma tartaruga foi assada nessa mesma noite para uma ceia lá pelas duas da manhã, porque ninguém queria dormir. No dia seguinte fizemos uma pesca usando as chamadas “espingardas”. São disparadores feitos de pendão de buriti, no comprimento de 1,5 metros, mais ou menos, no qual se adaptam dois ou mais anzóis devidamente iscados, cujas linhas são presas a um armador de borracha que dispara ao primeiro toque do peixe na isca. São colocados no meio do rio e seguidos de perto pelas canoas. Quando o peixe é fisgado, o buriti é sugado para o fundo, voltando à tona logo em seguida; esse movimento se repete até que o peixe se exaure da sua força e, então, o aparelho é apanhado e o peixe arrastado para a canoa, ao pé da qual recebe o “lenço” (um porrete com o qual se lhe aplica uma pancada na cabeça). Com as espingardas que soltamos, recolhemos seis peixes de mais de um metro de comprimento, entre pintados e piraíbas. No terceiro dia, fomos aos 235


Lagos da Água Limpa, ligados ao rio por canais de dez quilômetros, pelos quais a gente sobe, passando por diversos lagos, grandes e belos, todos com abundância de peixes, patos, capivaras, pacas e até de onças, inclusive as pintadas. A propósito de onça, devo contar que, do lado oposto ao nosso acampamento, um quilômetro abaixo aproximadamente, ficava outra ilha, separada da terra pelos “furados”, como são chamados os canais laterais que, no período da seca, ficam vazios e, no período chuvoso, são verdadeiros braços do rio. Acontece que descobri, nesse furado, um habitat de patos selvagens, e me levantava ao clarear do dia, atravessava o rio de canoa, descia pelo furado até o local dos patos, que eu atacava de surpresa, abatendo dois, três até quatro, antes que o bando levantasse voo. Na quarta vez dessa operação, levei mais companheiros comigo, e eles encontraram pegadas frescas de onça, que, pelo tamanho, deviam ser de um animal de grande porte. Voltamos ao acampamento, apanhamos os cães e retornamos ao furado. Seguindo as pegadas, penetramos na ilha e fomos negaciando, à procura do bicho. Daí a pouco, os cães começaram a acuar para o lado esquerdo de onde estávamos. — É o bicho! Vamos lá! Com as armas engatilhadas, pé ante pé, negaciando, seguimos o Luly e eu, que erámos os caçadores, rumo aos latidos. Entramos debaixo de uma latada de cipós presos às árvores altas, esperando a cada momento divisar a onça. Quando levantei os olhos, vi, de repente, um bicho escuro bem sobre a minha cabeça, no galho da árvore. Não tive dúvidas, disparei os dois tiros de uma vez, caindo aos meus pés um bruto mutum... que era o alvo dos latidos caninos! A esse tempo, já nos chamavam os companheiros, que viram a onça atravessando o canal, rumo ao mato, espantada pelos meus tiros. Ficaram realmente admirados pelo tamanho do animal. Era uma onça-pintada das grandes. Soltamos os cães na sua trilha, mas não pudemos segui-los, porque os matos ali são fechados e trançados de cipós em todos os sentidos e, somente com uma foice ou facão grande, abrindo picadas, se consegue prosseguir na caminhada. Depois de muito rastejar, esfolando-nos em garranchos e espinhos, desistimos da caçada. Na noite do dia seguinte, desencadeou uma tempestade bem próxima do nosso acampamento, com chuvas de granizo e ventos fortes. 236


Ficamos atemorizados, porque essas tempestades, quando atingem um acampamento, carregam barracas, ranchos, móveis, etc. No sexto dia de estada, já estava farto do rio, da pesca, das caçadas e, ainda com receio das tempestades, recebi com alegria a decisão de regressarmos no dia seguinte. Realmente, voltamos a Aruanã, onde apanhamos os veículos e rumamos para Itapirapuã. No Areião, antes do Rio Vermelho, atolei a minha Rural, que estava meio pesada, e forcei-a tanto que o motor fundiu, mal dando conta de chegar a Goiânia.

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O mergulho da canoa

A viagem decorreu normalmente, a partir da cidade até à margem do Rio Verdão. Num ritmo um tanto lento, como recomendava a prudência em virtude da carga transportada, seguiam mais ou menos próximos os veículos: a Kombi Carga e a C-10, cada uma com a canoa, motor de popa, bagagens e três passageiros. Outra C-10 levava os gêneros alimentícios, cozinha e respectivos utensílios e três pessoas. E, finalmente, um auto de passeio levando cinco companheiros convidados. Passamos pela fazenda do Joaquim Messias, onde a sua C-10 com uma canoa, já referida, se incorporou à frota. Atingida a margem do rio, na fazenda do Orlando, foram as duas canoas postas n’água, para transportar rio abaixo, em duas viagens cada uma, apetrechos, barracas e pessoas. Escolhido o local do acampamento, ali se desceram as cousas e os passageiros. Mãos à obra no levantamento das barracas, instalação da cozinha, fogo nela para o primeiro café da chegada, e toda aquela azáfama gostosa e costumeira nessas ocasiões, todo mundo querendo ajudar, a maioria só atrapalhando, todo mundo alegre e satisfeito. Instalados que fomos, partimos, após forradas as barrigas, para os primeiros contatos com o rio, objetivando a pesca e a caça, cada grupo tomando o rumo que melhor lhe parecesse, rio abaixo, rio acima, ou embrenhando-se nas restingas, capoeiras e campos, à procura dos bichos nos seus habitats próprios. Ao escurecer, iam retornando os grupos, meio estafados, uns alegres pelo sucesso alcançado, outros reclamando dos companheiros que não o ouviram e, por isso, nada fizeram.


Reunidos ao pé do fogo, depois do jantar, vêm os casos pitorescos, as célebres mentiras dos caçadores (quem não sabe mentir não é bom caçador). A essa altura já se revelava, como a melhor figura da crítica, do chiste e da bebida, o nosso cozinheiro, peão do Joaquim Messias. O homem era demais! Bebia, sem parar, pinga com café, apostava com qualquer um quem capotaria primeiro, vencia a todos. Até o Rubens, papudo que não admitia a entrega dos pontos, acabou prostrado de barriga para o ar no meio do terreiro, lá pelas duas da madrugada... A safra do primeiro dia foi boa. Quase todos os pescadores fisgaram de dez a doze pirararas, das grandes. Os bicheiros, entre eles eu, erramos uma capivara e duas pacas, mas trouxemos outras tantas. No segundo dia, saímos na canoa do Arnaldo, pela Ponte de Pedras, pois o acampamento ficava exatamente na confluência do Rio Verdão. Piloto novato, o Arnaldo andou nos atirando ora no barranco, ora debaixo de latadas de galhos secos, mas, no fundo, revelava-se um perito na pilotagem da canoa de sete metros com motor de popa de 50 HP. Lá para cima, topamos com uma turma de Palmeiras, inclusive o Hélio, prefeito; eles já tinham exaurido as reservas das melhores cevas. Voltamos à barra e aí foi aquela pescaria! Piapara pra lá, piapara pra cá, um fisga de cá, o outro fisga de lá, aposto que a minha é maior, perdeu pra mim, olha só esta! E, assim, o dia vai chegando ao fim, exigindo o regresso ao acompanhamento, pois não trouxemos lanternas. À noite, as delícias das mentiras e piadas, enriquecidas com o humor do cozinheiro borracho e duro na bebida. É preciso ressaltar que, apesar da bebida, ele era asseado, responsável, dotado de perfeito equilíbrio e alta eficiência de tempero e sabor. Todo mundo comia e gostava tanto dos peixes fritos, assados ou ensopados, como das carnes de bichos ou de aves abatidas. Três dias e três noites de beira de rio, as caixas de gelo abarrotadas, a chuvarada intensa, desde segundo dia, o rio enchendo cada vez mais, resolvemos levantar o acampamento para batermos de volta. Na pressa de tudo fazer e transportar as cousas, o mais breve possível, rio acima até o ponto onde ficaram os veículos, acabamos abarrotando a canoa do Arnaldo com excesso de peso. Malas de roupas, lona de barraca, utensílios de cozinha, caixa de gelo, o cachorro perdigueiro, espingardas, eu, o Ricardo, meu filho, o Narses, meu sobrinho e afilhado, um professor de educação física 240


da Esefego e o pintor Fernando nos metemos todos dentro da canoa e, debaixo da chuva grossa, sob a pilotagem do Arnaldo, tocamos rio acima. A manhã estava fechada, visibilidade pouca, o rio metendo medo pela rápida enchente. A princípio achei aquilo gozado, pitoresco e até gostoso, com aquele cunho de aventura e destemor próprio de quem não conhece o perigo ou não dá fé do pior. Mas, à medida que avançávamos o rio, atingindo as corredeiras, a cousa ficou preta. O motor possante, a canoa com excesso de peso, as ondas mais violentas devido aos pulos que as grandes pedras do leito do rio provocavam nesses casos, tudo isso resultou que na canoa se fazia água; ela corcoveava a cada impacto de nova onda, até que vimos a vaca no brejo! Gritei para o Arnaldo que jogasse para a margem direita do rio, onde havia melhor jeito de aportarmos, embora o nível das águas, a essa altura, já tivesse atingido os galhos das árvores mais altas, o que ele fez num movimento rápido, mas, antes de atingirmos a margem, fomos colhidos pela tromba d’água de uma onda gigantesca, que afundou canoa, gente e tudo o que nela ia! Foi aquele Deus-nos-acuda, salve-se como puder; os galhos das árvores, que já projetavam a meio rio, permitiram nos agarrarmos a eles e galgá-los até o pé seco. Felizmente, entre mortos e feridos, escaparam-se todos. Lá se foi, rio abaixo, tudo o que tínhamos: bagagens, bens de uso, espingardas e artigos de pesca. Ainda vi boiando, fidalgamente subindo e descendo as ondas, o meu paletó de tergal azul, todo aberto com os ombros levantados como se estivesse num cabide anatômico, garbosamente acompanhado do meu chapéu preto novo que o seguia no mesmo ritmo cadenciado, do sobe e desce das ondas. Esse foi o tombo de canoa mais gostoso que já vi; depois de passado o medão, está visto... Por isso, registro-o nos relicários. (Em fevereiro de 1970)

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Uma caçada

Naquela madrugada, pelas duas horas, nós nos deslocamos em duas viaturas: uma camioneta Chevrolet, de propriedade do grupo, e uma Variant, pertencente a um companheiro. Éramos, ao todo, cinco pessoas viajando, duas no primeiro veículo e três no segundo. Logicamente houve o preparo prévio referente às compras de gêneros e suprimentos não só quanto à manutenção das pessoas como, também, de munições e outras que se fazem necessárias a uma boa caçada. É importante o cuidado com as cousas da cozinha (fogão, panelas, pratos, talheres, xícaras, coador, copos, etc.), para que não se repitam aqueles senões tão comuns de faltas essenciais só notadas no campo. A viagem decorreu em clima saudável, não obstante o frio um tanto forte reinante no período em descrição. Começamos a nos atrapalhar logo na saída, até que um motorista de táxi que dormia dentro do próprio carro, nas proximidades, nos ensinou a estrada. Adiante ainda caímos numa pequena estrada, mas às 7 horas estávamos na fazenda do amigo, que era o ponto de caçada. A intenção do grupo era de acampar-se à beira de um córrego, para onde se levou o equipamento constante de barraca, cozinha, etc., mas o fazendeiro, amigo e prenhe de cordialidade como era, não nos permitiu tal propósito, convencendo-nos a ficar em sua casa, sede da fazenda. Aliás, argumentou que, estando de saída, nesse mesmo dia, com sua esposa para a cidade, a casa ficaria por nossa conta, colocando-nos, assim, em inteira liberdade. Face ao exposto, acabamos por ficar lá mesmo. Como ainda era cedo, tratamos logo de iniciar a caçada, trocamos as roupas e calçados e partimos para


o campo. Ali nos distribuímos em três turmas, uma para cada lado. O meu companheiro e eu saímos pelo lado direito, a segunda turma pelo meio, e a terceira, constituída de um só companheiro, foi pela esquerda. Logo a uns quinhentos metros do ponto de saída, o nosso cão Laporte deu sinal de rastos de perdiz, amarrou e, a nosso mando, seguiu a caça. Esta levantou voo e foi certeiramente abatida pelo meu tiro de cartucheira, calibre 20, marca Bereta (italiana) chumbo sete. Como o campo era pequeno para as três turmas, resolvemos o meu companheiro e eu nos deslocar para a cabeceira do Bugre, distante uns três quilômetros, um percurso que fizemos em tempo relativamente curto, dado o desejo e a ânsia de encontrar caça, porque já estávamos sem praticar esse esporte há bem uns dois anos. Mas, para a nossa tristeza, encontramos apenas uma perdiz, levantada pelo nosso barulho e que acabou sumindo sem nos dar chance de tiro. Fomos até às margens da cabeceira já referida, a atravessamos e procuramos o outro lado, mas nada de caça. Regressamos ao ponto de partida, já decorridas três horas, cansados, com os pés cheios de calos, devido não só ao excesso de andança, mas, também, pela falta de treino. O meu companheiro, o Rubens, metido a atleta, praticante habitual de ginástica e outros exercícios físicos, ficou, coitado, com os pés em pandareco, o que o impediu de caçar no período da tarde. Chegando ao ponto de partida, lá já estavam os nossos companheiros, aos quais nos reunimos, contamos as perdizes abatidas em número de seis e, a seguir, regressamos à sede da fazenda. Atingindo a casa, fomos logo ao banho, uns no córrego, cuja água estava gelada, e outros, no chuveiro quente-frio da casa. Logo depois, foi servido o almoço, não sem antes tomarmos alguns aperitivos, entre os quais a pinguinha seleta de minha própria fabricação. Depois do almoço, todos, cansados pela noite indormida e pela andança daquela manhã, fomos ao leito em busca de um merecido repouso. Daí a pouco se escutava uma confusão de roncos; até eu mesmo devo ter começado os meus.... No período da tarde, dois companheiros tiveram que ir à cidade buscar um parente, que é médico em São Paulo e que tratara de vir caçar conosco. Quanto ao meu companheiro, como já disse, ficou impossibilitado de andar, devido ao estado de seus pés. De tudo isso resultou que apenas eu voltei 244


ao campo na parte da tarde, acompanhado do amigo Carlos, que, apesar de não ser caçador, é um grande companheiro, cuidando da gerência do rancho e do transporte do material. Depois de muito andarmos, por subidas descidas, o cão encontrou uma perdiz que, atirada, recebeu a carga de chumbo nas pernas, mas transpôs o ribeirão, fechado de mato, indo cair do outro lado e não pudemos arrecadá-la. Mais adiante, encontramos outra e abatemos com um tiro certeiro, verificando, ao apanhá-la, tratar-se de um filhotão. No final da tarde, o cão percebeu outra perdiz, mas esta, velhaca como era, nos tapeou, correu por um trilheiro e levantou voo fora do alcance de tiro. Com o fim do dia, voltamos à sede com uma peça abatida, elevando o resultado do dia para sete aves. À noite, regressavam os dois companheiros que foram à cidade, acompanhados de dois novos caçadores: o médico de São Paulo e um industrial de São Roque, este com um filho de quatorze anos. Apresentações, congratulações, papos, aperitivos, jogo de baralho, truco vale seis formaram, em pouco tempo, um ambiente de cordialidade e satisfação. Lá pelas tantas da noite, a cachorrada deu para brigar na disputa de uma cadela no cio, quando o meu cão Laporte levou a pior, sendo ferido no pescoço, junto à orelha direita, com profunda dentada que lhe seccionou a artéria, provocando uma intensa hemorragia, com risco de vida pelo esgotamento. Aí entrou em ação o companheiro médico, recém-chegado, com sua maleta de emergência, fazendo, com perícia e segurança, a sutura do vaso, salvando, assim, o perdigueiro. Nessa altura, eu já estava na cama e os demais jogavam na varanda, só me chegando a notícia depois de feita a intervenção médica. Um peão da fazenda estava, desde a manhã desse dia, agoniado com um inseto que lhe penetrara no ouvido esquerdo. Outra vez o companheiro médico ouviu as queixas, entrou em ação com instrumental apropriado, extraindo o corpo estranho e dando alívio ao homem. Este, agradecido, nos acompanhou no dia seguinte, mostrando-nos os campos melhores para a caça. Naquela manhã, já enriquecidos com mais dois companheiros, demandamos aos campos, guiados pelo homem do inseto no ouvido. No local, nos repartimos em turmas, como de costume, cabendo-me a companhia do homem-guia. Andamos pra valer e nada encontramos, a não ser uma ou duas codornas buraqueiras, nas quais, por princípio, eu não atiro. Regressamos à camioneta, para lá aguardar os demais companheiros. Dois destes, ao chegar, 245


deram com uma perdiz bem próxima do veículo, em cujo lado estávamos sentados. Antes, eu havia procurado água na cabeceira próxima, para mim e para a cadela Espadilha, que me acompanhava. Na volta do ribeiro, esta deu com um rasto fresco de perdiz e o seguiu até tirá-la, mas eu não tive sorte nos dois tiros que disparei, indo a ave pelos ares afora... Com a chegada dos dois companheiros e com o encontro, por eles, da perdiz a que me referi, fiquei mais animado e saí com o companheiro Carlos pela estrada de regresso, em cujo percurso deveríamos ser apanhados na volta do veículo. Andamos algumas centenas de metros e os cães, agora dois, Laporte e Espadilha, deram com rastos frescos e, em pouco tempo, explodi a perdiz que derrubei no primeiro tiro, fato que me reabilitou moralmente perante os companheiros. Até então eu era o único que ainda nada matara naquela manhã. Alcançados que fomos pelos companheiros, já de regresso, tomamos os veículos e voltamos à fazenda. Banhos, aperitivos, comentários sobre as perícias ou imperícias de cada um, gozações inofensivas, etc., até o almoço comido com fome canina, dados os exercícios e o adiantado da hora. Após a refeição, aquele repouso reconfortante e necessário ao restabelecimento das forças. Na tarde desse segundo dia de caçada, fomos a um campo próximo à lavoura de outro peão da fazenda, o qual nos garantiu que perdiz lá era quantas quiséssemos. Lá chegando, verificamos que os campos tinham sido queimados recentemente, com a grama recém-nascida rasteira, impróprias, pois, para o abrigo das aves. Mesmo assim, o nosso cão Laporte descobriu uma perdiz numa área não queimada e ela foi prontamente abatida pela minha Bereta. Dali fomos para o outro campo, na cabeceira do Lobo, onde ainda abatemos uma segunda perdiz. Ao entardecer, cantavam, do outro lado do mato, três perdizes, mas o adiantado da hora não nos permitiu procurá-las. Reunidos os caçadores na sede, feitas as contas, tínhamos abatido no segundo dia, mais seis perdizes. Depois dos banhos, os aperitivos, enriquecidos por um garrafão (3,6 litros) de uísque Grant’s, um litro de conhaque Macieira e um garrafão de vinho de mesa do Rio Grande do Sul, trazidos pelos companheiros de São Paulo. Tínhamos, além da minha excelente pinga, cerveja em lata, em boa quantidade na caixa de gelo. É uma delícia tomar uma cerveja gelada, após 246


uma estafante caminhada e um banho reconfortante! Veio o jantar, seguido das prosas e do infalível jogo de truco, até às 11 horas da noite, quando todos se recolheram aos leitos. Na manhã do terceiro dia e último da caçada, fomos aos campos próximos, na camioneta, pelos lados dos fundos da sede da fazenda. Logo, ao penetrarmos na macega, levantou-se uma perdiz e assentou-se próxima. Desci do veículo, municiei a espingarda, soltei o cão Dike e ia partindo para abatê-la, quando me ocorreu ser mais delicado oferecer a oportunidade a um dos caçadores paulistas, como visitantes e novatos no meio. Saltou o médico, mas exigiu a minha retaguarda como garantia do abate, porque não confiava muito no seu tiro. De fato, a perdiz foi levantada, ele atirou atingindo as pernas da ave, mas ela ia embora, não fosse o meu tiro de socorro que a prostrou a poucos metros. Dado esse episódio, achamos que a caça nesse dia seria das mais abundantes, mas isto não se confirmou. Formados os grupos, cada um seguiu o seu rumo, ficando comigo o Rubens, acompanhando-nos o cão Laporte. Mais adiante, ele percebeu rastos frescos e levantou uma perdiz na qual o Rubens atirou. Mal atingida, porém, a ave prosseguiu voo, quando tentei emendar, mas a minha arma não estava municiada e o gatilho bateu em seco. Acompanhamos o trajeto do voo da ave e fomos encontrá-la, com o auxílio imprescindível do cão, escondida numa moita de capim, porque estava com a asa atingida. Depois disto, andamos para baixo e para cima, até que, na encosta de uma serra, encontramos outra, atiramos a um só tempo, abatendo-a. E até o nosso regresso, nada mais encontramos. À tarde fomos à cabeceira do Pindaíba, mas, lá, nada encontramos; ou melhor, na única perdiz que encontramos, o Roque e eu, caçadores que se gabam de peritos, erramos os tiros, dois cada um, indo a perdiz, no seu voo muito longo, abrigar-se em local que não descobrimos. Como resolvêssemos regressar ante dos demais, fui até o veículo deles e escrevi, no pó do vidro: “Fomos para casa”. Isto deu margem a uma errônea interpretação ao condutor daquele veículo, que regressou, deixando um seu companheiro no campo, sem condução. Verificada a sua falta na fazenda, já ao anoitecer, voltaram os dois paulistas à sua procura e, depois de alguma demora angustiante para os que esperavam, regressaram com o companheiro retardatário, o Wellington Honorato. 247


Naquele entardecer, já providenciávamos o nosso regresso, que, ao final, foi seguido pelos demais, à exceção dos paulistas que ainda ficaram de pouso na fazenda, pois, de lá, regressariam diretamente para São Paulo. No caminho de volta a Goiânia, nos perdemos da camioneta, mas chegamos com a diferença apenas de uma hora, já alta madrugada.

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O Rio Urucuia

Afluente do São Francisco, nasce em Goiás, mas tem seu curso no Estado de Minas, e é famoso pela abundância de peixes nas suas águas. Daí a razão de ser conhecido e procurado desde muitos anos atrás. Nos dias atuais é facílimo atingir o rio. Antigamente, porém, não existiam praticamente rodovias. Mesmo a que nos ligava com Formosa, passando por Anápolis e Santa Luzia (Luziânia), era precaríssima. Gastava-se um, dois ou três dias de Bonfim a Formosa, principalmente nas cheias. Os veículos, por sua vez, não ajudavam muito, ainda estávamos engatinhando na engenharia automotora. Antes de Brasília, o meu irmão Oswaldo estava em Planaltina e nos convidou a tomar parte numa excursão ao Rio Urucuia, planejada por seus amigos daquela cidade. Aderimos e fomos o meu irmão Getúlio, Benedito Carpinteiro, meu companheiro de caçada, e o pai do Dr. Joffre Rezende. Viajamos no meu automóvel, um Nasch todo modificado pelas oficinas do Walmir e do Consorte, mas que era sempre um problema. Levamos o cão perdigueiro Chorão, caixa de cozinha, gêneros, barraca e roupas de cama e de uso pessoal. Por aí se pode ver como estava carregado esse automóvel. Logo adiante do Rio Meia Ponte, o carro enguiçou. O Getúlio voltou de carona a Goiânia e levou um mecânico que descobriu e trocou a bobina queimada. Seguimos a viagem pela noite afora e fomos chegar a Planaltina ali pelas quatro horas da madrugada do dia seguinte. Ali, por ser domingo, assistimos à missa celebrada pelo meu mano e nos reunimos aos demais companheiros daquela cidade, os quais viajavam de caminhão.


Vai daqui, vai dali, passamos pela cidade de Cabeceiras e entramos no Estado de Minas. Logo na frente havia uma pensão no meio do mato e nela paramos para comer e descansar. Continuamos a viagem rumo ao povoado do Buritizinho e, logo, divisamos o imenso Vale do Urucuia. É uma região em plano bem mais baixo que as terras que a circundam, formando uma bacia de largura de umas dez léguas e de maior distância no sentido do cumprimento. Pobre de vegetação, imprópria para a cultura primitiva daqueles tempos, sem meios de comunicação; era uma região atrasada. Quando começamos a descer a serra que margeia o Vale, fiquei meio apavorado. Descidas íngremes, violentas, cheias de curvas e cascalho solto. Eu só pensava na volta, porque o nosso carro não ia dar conta de subir. E era aquela a única entrada e saída do Vale. Afinal conseguimos descer, porque “pra baixo todos os santos ajudam”, e chegamos ao povoado de Buritizinho. Estacionamos no largo principal, sob as sombras de grandes mangueiras, o que atestava a antiguidade daquele núcleo de mineiros. Ali conhecemos a igrejinha e a casa do padre ao lado. Este já não existia, mas a sua fama de caçador e matador de onça era grande. Mais tarde, lendo o livro de Mário Palmério, Vila dos Confins, quero crer que o personagem padre-caçador que ele apresenta nessa obra foi inspirado nesse padre estrangeiro de Buritizinho. Isso porque a região onde viveu e militou, politicamente, o romancista foi, justamente, a de Paracatu e Unaí, sendo Buritizinho o distrito desse último município. Além disso, o título de sua obra se relaciona com o Ribeirão Confins, afluente do Urucuia, e que passa a pouca distância do povoado. Logo que chegamos, uma pessoa do lugar nos procurou agoniada com uma criança doente, em estado grave, sem medicamentos. Como se tratava de um processo febril inespecífico, aplicamos antitérmicos e antibióticos que conduzíamos, mas não vimos os resultados porque viajamos no mesmo dia. Resolvemos passar a noite à beira do Rio Urucuia, que margeia o povoado, para ficarmos mais à liberdade e termos água à mão. Entretanto à noite, duas peripécias nos aconteceram: fomos assaltados por uma avalanche de formigas-correição, nas camas, nas barracas, nos veículos e por toda parte, justamente quando começou uma chuva violenta. 250


Foi um corre-corre e nós, do automóvel, tivemos que nos refugiar dentro dele até o dia amanhecer. No outro dia prosseguimos a viagem, pois o nosso destino era a Cachoeira do Urucuia, distante umas três léguas de Buritizinho. Na transposição de um córrego, sem ponte, mais ou menos no meio dessa distância, o meu automóvel não deu conta e o jeito foi encostá-lo debaixo de uma sombra e passarmos, nós e as nossas bagagens, para o caminhão. Mas o caminhão também não estava aguentando a carga e, mais adiante, resolvemos uns seis companheiros prosseguir a pé, para diminuir o peso do caminhão. Comigo veio o meu cão Chorão, porque poderia haver alguma perdiz pelo caminho. Não foi fácil vencer aquela distância a pé, pois era uma e meia légua, sol quente, pedras e morros, trilhas tortuosas, etc. Pouco antes de atingirmos a Cachoeira, o caminhão voltava para nos apanhar, aliviando a nossa caminhada. Chegamos ao rio, abarracamo-nos convenientemente, instalamos a cozinha e foi feita a primeira refeição desse dia, pela qual já reclamávamos. Tivemos notícias de que uma caravana de pescadores, acampada logo abaixo de nós, e que viajara de volta no dia anterior, havia pescado mais de sessenta dourados grandes; ficamos animados. Nesse mesmo dia, o pessoal se espalhou pelas margens do rio com seus caniços, na ânsia de boa pesca. As águas do rio estavam muito claras e a gente via cardumes de matrinxãs, mas estas não davam confiança para os anzóis. Como éramos marinheiros de primeira viagem, não sabíamos os segredos de pesca nesse rio, pois ali se necessitava de canoa, linhas largas, iscas próprias. O meu companheiro caçador Benedito Carpinteiro, bom pescador de vara curta, pegou logo de saída duas piracanjubas na barra do Ribeirão Confins com o Urucuia. Para jantar, ele preparou-as assadas no borralho, envoltas em folhas verdes de taiobas; ficaram deliciosas. Aliás, foi esse o prato predileto durante nossa estada ali, graças à pesca de uma ou duas que, diariamente, o Benedito conseguia. Peixes grandes, porém, não conseguimos nenhum, pelas faltas já apontadas. Um morador ali de perto, que nos procurou em busca de café, alegando que, há mais de dois meses, não o bebia em sua casa, nos prometeu uma canoa de coxo, de sua propriedade, estacionada coisa de uma légua rio acima. Mas, até o dia em que lá fiquei, ele não apareceu com a embarcação. 251


Um dia, resolvi afastar-me à boa distância das margens do rio, para uma caçada de perdizes, já que, por perto, não havia nenhuma. Subi beirando o rio, uns três quilômetros, em companhia dos pescadores e, depois, tomei à esquerda sozinho, e caminhei bastante até atingir uma zona de cerrado mais ralo e alguns campos. Dali fui passando para outros campos, atravessando cabeceiras e banhados mais ou menos iguais. Ia encontrando, aqui e ali, uma ou outra codorna que abatia e pendurava no cinto. Andei muito, mas perdiz mesmo nenhuma. Quando resolvi voltar, divisei, bem distante, a serra que margeia o rio pelo lado esquerdo e fui acompanhando o rumo de longe. Depois de muito andar, não atingindo a estrada pela qual tínhamos chegado e que me orientaria pelo rasto do caminhão, resolvi chegar ao barranco do rio para me certificar e segui-lo, porque já estava se pondo o sol. A minha surpresa foi grande ao verificar que estava margeando não o Urucuia, mas um outro curso d’água pequeno. Percebi que havia me desviado muito da rota. Estava era mesmo perdido. Naquela região, as cabeceiras e os banhados se assemelham muito e confundem os novatos. Uma cousa, entretanto, eu tinha certeza, porque todos os pequenos cursos d’água dali deviam afluir para o rio maior, no caso o Urucuia. Partindo desse princípio, e não mais contando com a luz do dia para me orientar, resolvi seguir aquele pequeno ribeiro. Era difícil a caminhada, pois a beira do córrego era cheia de galhos, paus caídos, grotas, curvas, etc. Mas fui descendo, tropeçando aqui, caindo acolá, transpondo os pequenos afluentes que entravam pela margem que eu seguia. A noite foi fechando, a hora se adiantando e nada do Urucuia. De vez em quando, eu parava, escutava e nada ouvia a não ser o barulho da própria água do ribeiro e os pios de aves notívagas. Temia que esse córrego pudesse seguir paralelamente ao Urucuia, indo cair muito abaixo do nosso acampamento. Mas, sem outro recurso e não querendo passar a noite parado, prossegui na caminhada. Lá pelas dez horas da noite, comecei a ouvir o barulho de queda d’água. Podia ser da cachoeira próxima ao nosso acampamento, como, também, poderia ser do próprio córrego que eu seguia. Aí resolvi dar uns tiros com a 252


minha espingarda. Depois do terceiro, escutei outro bem longe e muito à minha esquerda. Não quis me aventurar à noite, naquele rumo, porque corria dois riscos: o de não ser do meu acampamento o tiro e o de perder-me no cerradão, nos banhados e nas cabeceiras que eram muitas. Prossegui, pois, beirando o córrego até que percebi, alegre, a sua chegada ao Urucuia. Pelo barulho da cachoeira vi que estava bem abaixo dela e consequentemente do nosso acampamento. Virei batendo o Urucuia pela margem direita, e ainda gastei mais de uma hora, andando às pressas, preocupado com os meus companheiros que poderiam estar, a essa altura, no campo à minha procura. De fato, antes de chegar, dei uns tiros, e a turma veio correndo encontrar-me, cada qual mais zangado com a minha irresponsabilidade, pois já estavam organizados e saindo para o mato, quando ouviram os meus tiros. Serenados os ânimos e chegados ao acampamento, fomos todos comer, pois ninguém havia jantado até aquela hora. Os companheiros do caminhão estavam dispostos a ficar uns quinze dias na pescaria, e, nós do automóvel, queríamos voltar no oitavo dia. Assim aconteceu, tendo o caminhão nos conduzido até o ponto onde tínhamos deixado o automóvel. Na volta, aconteceu aquilo que eu temia. O danado do Nasch não dava conta de subir a serra. E eram nada menos de quilômetro e meio essas subidas. Éramos quatro: eu na direção, e os três outros empurrando o auto. Labutamos quase o dia todo e só atingimos o topo da serra no fim da tarde. Viajamos a noite inteira de volta e chegamos a Goiânia com o dia clareando. Na descarga, o meu irmão Getúlio ainda armou uma briga feroz comigo, porque o chamei de burro quando não soube brecar o automóvel, enquanto eu tirava a bagagem do Benedito Carpinteiro, ali aguardando uma condução mensal de transporte de mercadorias, para nela seguir até Formosa, em busca de peça. Enquanto isso, os gêneros alimentícios foram-se acabando e eles passaram dias angustiosos à espera do portador. Nem por isso essa viagem deixou de ser um marco de recordações agradáveis, proporcionando-nos novidades, conhecimentos, congraçamentos e satisfações.

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Posfácio

Ricardo Lobo

No dia 13 de janeiro de 1949, assinadas pelo presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), eram criadas duas leis com contextos diametralmente opostos. Uma determinava o “isolamento compulsório dos doentes”, uma entre as normas de profilaxia da lepra. A segunda criava o Horto Florestal de Silvânia; era a Lei Federal nº 612, proposta pelo ilustre deputado goiano Galeno Paranhos. Meu pai, então prefeito de Silvânia, com a verba liberada pelo presidente comprou a Fazenda Marinho e destinou a área para a implantação do horto. A primeira lei era justificável: refletia o estágio do conhecimento da medicina à época, como é narrado em Bonfim de Goiás: minha terra e minha gente no conto “Lazareto”, um lugar cercado com mais de vinte fios de arame e três metros de altura. “Essa era a cidade dos hansenianos de minha época” escreveu meu pai rememorando sua infância. Mas a medicina teve evolução rápida, e a ciência permitiu que os doentes de lepra fossem logo acolhidos por suas famílias e curados. A segunda, que criou o Horto, se se considerassem os reclamos e o estágio do conhecimento do meio ambiente naqueles tempos, não teria muito sentido em ser criada. As matas eram fartas e plenas; nos rios e córregos corria água limpa. Quantas vezes, andando com meu pai pelos campos, bebemos dessa água! Essa lei de 1949, que criou o horto, uma unidade de conservação e pesquisa, teria então que ser medida pela métrica de homens sensíveis, diferentes, pioneiros, visionários, à frente do seu tempo. Infelizmente a história seguiu caminho inverso, e o meio ambiente foi agredido por homens


insensíveis, rasos, atrasados. A lepra que atacou e ataca o meio ambiente não teve caráter endêmico; é uma epidemia devastadora, que permanece sem cura. Hoje, setenta anos depois da criação do Horto, vem a certeza que precisamos de mais Sênecas, sendo necessário urgentemente resgatar a ética com a natureza. O Horto nasceu, cresceu, dá frutos e orgulho para o meio ambiente e aos silvanienses, a “minha gente” do livro de meu pai. O Horto Florestal de Silvânia atualmente está sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Conta, além da linda arquitetura do casario antigo, com biblioteca, estruturas de administração e lazer, alojamento para pesquisadores, viveiro de plantas nativas e natureza respeitada. Informações sobre o horto podem ser vistas em http://www.icmbio.gov.br/portal/visitacao1/unidades-abertas-a-visitacao/ 4039-floresta-de-silvania. Ricardo Lobo é graduado e mestre em geologia pela Universidade de Brasília (UnB).

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Agradecimentos A Deus sempre. A Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, pelo incentivo a essa empreitada e pela generosidade em ajudar uma “quase estranha” com a acurada “Apresentação” desta edição; a Fernando de Moura Lobo, sobrinho e afilhado, pela belíssima aquarela da capa; a Paulo Humberto Ludovico de Almeida, meu amigo de vida, pela diagramação personalizada e impecável; a meu irmão Ricardo pela pesquisa e redação do “Posfácio”, e à minha amiga e colega de infância Virgínia Castelo Branco Ferreira Costa Torres, pela indicação da editora. Essa preciosa ajuda elevou o trabalho a outro patamar. Claudia Lobo Julho de 2020


Esta obra foi composta em Adobe Garamond Pro e em Open Sans no Atêlie da Cânone Editorial; a impressão se fez sobre Papel Pólen Soft Set 80g, capa em Cartão Supremo 250 g/m².


Sócio remido da Associação Goiana de Imprensa (AGI), efetivo da União Brasileira de Escritores, seção de Goiás (UBE-GO) e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Patrono da Academia de Letras, Artes e História de Silvânia, criada em 2018. Caçador de perdizes. Casou-se em 1936 com Nympha Ferreira de Moraes, com quem teve cinco filhos, treze netos e dez bisnetos. Morreu em Goiânia, aos 7 de outubro de 2007.

Livros publicados: Bonfim de Goiás: minha terra e minha gente (dois volumes), Gravetos de goianidade, Gotejos do passado e Tópicos de um viver saudável.


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