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Revista Propágulo 2

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Percebendo os diversos abismos que limitam o jovem artista de Pernambuco - afastando-o do seu público e do meio artístico já estabelecido -, surgiu o projeto da Propágulo. O nosso compromisso é construir uma plataforma de reconhecimento mútuo, além de promover discussões pertinentes ao universo artístico, compreendendo que a arte acontece, inclusive, no processo de criação. Com o formato estruturado em entrevistas, textos de opinião e galeria, a revista Propágulo reflete, portanto, a intenção de proporcionar uma conversa entre as inúmeras vozes que compõem a diversidade presente nas artes visuais.


Equipe Bruna Lira: redação e revisão Débora Rodrigues: redação (convidada) Guilherme Moraes: idealização, curadoria e revisão Heitor Moreira: projeto gráfico Manuella Valença: redação (convidada) Nathália Sonatti: redação Rodrigo Souza Leão: produção de eventos e social media Thaysa Aussuba: mediação cultural

Colaboradores Aline Mariz Ane Lima Annaline Curado Biarritzzz Bell Puã Cecília Gallindo Coletivo Bartira Daniel de Andrade Lima Eduardo Azerêdo Flora Negri

/Propagulo @propagulo propagulo@gmail.com

Filipe Gondim Heitor Dutra Humberto Reis Iuri Brainer Lana Pinho Laura Pascoal Luíza Lira Luma Torres Manu Ferrao Natália Corrêa

Olga Wanderley Pepapuke Rafael Vascon Renata Caldas Thiago das Mercês Victor Jucá Vivi Villanova Xadai Rudá


Olá. Acredito que, se você está aqui, algumas considerações iniciais devem ser feitas. Antes de qualquer coisa, a Propágulo busca ser uma revista semestral e independente. E esses dois adjetivos competem entre si. Dessa disputa, que envolve os mais variáveis fatores - orçamentos impossíveis, eleições em um país medroso e antidemocrático, demandas acadêmicas, devaneios em conjunto e, acredite, a copa do mundo -, surge a nossa segunda edição. Aqui estamos. Confesso que não em apenas seis meses e não sem uma ajudinha (é com muita felicidade que realizamos esta edição com apoio da Companhia Editora de Pernambuco). Mas firmes em nosso compromisso: preencher um pouco da lacuna na rede de publicações sobre arte em Pernambuco. Há uma responsabilidade diferente em lançar a segunda edição de uma revista. Agora, é impossível pensar sua curadoria sem levar em conta a nossa primeira edição. Lançar a Propágulo nº 2 quer dizer tocar nas expectativas de quem uma vez já nos leu. Significa assumir riscos, continuar experimentando e agregar outros a uma dinâmica anterior. Não esquecendo a importância educativa da revista, ela apresenta, sobretudo, uma vontade de provocar um novo olhar em quem entra em contato com este próximo passo do nosso mapeamento. Nesse contexto, o que delimita o perímetro deste novo universo que estamos propondo? Talvez a melhor maneira de responder tal pergunta seja retornar a ela mesma. O que delimita o perímetro deste novo universo que estamos propondo? Parece-me que esta revista está interessada em falar de fronteiras. Parece-me também que, mais que isso, o nosso interesse esteve nesses processos que tentam demarcar ou limitar algo. Não, talvez ainda mais que isso: em estabelecer um quadro como aqueles que os investigadores fazem em filmes de detetive, com fotos dos envolvidos e uns barbantes entre eles. Só que, no final das contas, o próprio barbante também está na berlinda. Até onde o nosso recorte da arte visual jovem de/em Pernambuco pode ser coerente? O que justifica cada um dos que aqui se encontram? Para onde nos levam os universos de referências de cada artista diante do protagonismo narrativo de quem lê? Quantos diálogos possíveis existem em um apanhado de textos e imagens que abordam apropriação, acaso, corpo e presença? Por fim, em que posições se encontra o outro? Esta edição é um convite a você. Nós te desafiamos a perceber os espaços de intercâmbios e a construir pontes entre cada limiar que, por mais sutil que seja, possa aparecer. É muito bom estar de volta. Guilherme Moraes


Sumário

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Xadai Rudá

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Biarritzzz

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Soluço

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Vivieuvi

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Cecília Gallindo

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UM Coletivo

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Somar horizontes

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Galeria


Com título, 2017, colagem, 31 × 26 cm

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Xadai Rudá Entrevista e texto: Bruna Lira

Tentar escrever sobre Xadai Rudá e, principalmente, sobre o seu processo artístico é como se esforçar para desvendar um mistério. Nas informações que ele me mandou por e-mail e mesmo durante a entrevista, poucas respostas foram entregues. Isso porque, quando confrontado com uma pergunta, Xadai nos lança outro ponto de interrogação. Desconfio que essa postura psicanalítica seja uma forma de garantir liberdade à experiência estética que teremos diante de suas obras. Ou talvez seja só uma forma dadaísta de ser. Seja como for, aproveito esse momento para advertir o/a leitor/a que o presente texto não passa de uma investigação, um esforço, uma hipótese, uma reconstrução acerca do processo criativo do artista, com base em algumas evidências e um pouco de pesquisa. Tudo está permanentemente aberto a novas interpretações.

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Revelarei inicialmente algumas informações básicas, em sua maioria de domínio público. Xadai Rudá, cujo nome significa respectivamente todo poderoso e deus do amor, nasceu em Olinda e começou a produzir fotocolagens entre 2012 e 2013. Atualmente cursa Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e é estagiário na área de saúde mental. Em 2017, atuou como bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), cuja vivência foi realizada no Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) no curso técnico em Artes Visuais. A sua prática profissional se insere, assim, na intersecção entre as artes visuais e a arte-educação. Como qualquer investigação, preciso começar por algum lugar. As primeiras pistas às quais tenho acesso são as palavras, e por isso inicio meditando sobre a escolha de certos termos durante a entrevista. Por exemplo, enquanto descrevia a sua prática artística, Xadai repetiu invariavelmente que a criação de uma fotocolagem é um “processo alquímico”. Alquímico. Para além da névoa positivista que obscurece todo o conhecimento ancestral, sabe-se que a alquimia tem como um de seus principais objetivos a transmutação de outros metais em ouro. Nesse sentido, muito foi especulado acerca da existência da desejada pedra filosofal, capaz de catalisar tal transformação química, possibilitando para quem a encontrasse riqueza e vida eternas.

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O que alguns estudiosos nos revelam, entretanto, é que essa operação só é possível no nível simbólico, de forma que o verdadeiro objetivo da alquimia seria a evolução do ser humano, ou seja, a progressão de um estado interno em que predomina a matéria para um estado espiritual (ouro). Sendo assim, como e de que forma os conhecimentos alquímicos permeiam o trabalho de Xadai Rudá? Primeiramente falemos sobre a fotocolagem. Dentre o número excessivo de imagens que consumimos diariamente, a maioria nos atravessa sem maiores impactos. Mas acontece, por vezes, como descreve Xadai, um estalo: é quando alguma imagem - ou som, ou frase, ou cheiro - nos escolhe. No momento em que esse estímulo deixa de ser indiferente, ele se combina com as nossas experiências passadas e com nosso imaginário para obter algum significado. É justamente a partir desta vivência com e nas imagens que acontecem as obras de Xadai. Ao selecionar, recortar e juntar figuras cotidianas de maneira cirúrgica, ele cria um novo universo na fotocolagem. O artista se reconhece, assim, como alguém que saqueia imagens alheias através do processo de apropriação, que, para além de um problema sociológico, é a maneira que ele encontrou de transmutá-las em arte. Na poética de Rudá, destaca-se também a escolha pela colagem manual - toda a sua matéria-prima vem exclusivamente de


Intempestivamente sagrado, 2017 Colagem, 17 × 27 cm

revistas e livros. Ao revelar a influência da técnica manual dos dadaístas no seu trabalho (basta lembrar as instruções de Tristan Tzara para fazer um poema), o artista nos dá uma pista acerca da importância do acaso no seu processo criativo. Sobre a fotomontagem digital, ele diferencia “Eu desconfio de uma facilidade, no sentido de que eu posso imaginar um corpo e eu posso pesquisar em um banco de imagens e vários corpos irão surgir a mim, e daí eu posso imprimir essa imagem e

posso compor uma fotomontagem a partir dessa ordem, desse pensamento. Só que na fotocolagem é muito diferente, pois você não sabe o que pode encontrar quando abre um livro, quando abre uma revista”. Para Xadai, existe o intuito de uma busca para o encontro, ainda que, a princípio, ele não saiba exatamente com o que irá se deparar. O mundo ao seu redor se transforma, assim, em um gigantesco laboratório.

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Sem título, 2017, colagem, 32 × 17 cm


LSD, 2017 Colagem, 31 × 24 cm

A fonte diversa de referências utilizadas pelo artista confere à sua obra um caráter multidisciplinar Adentrando mais a fundo em sua poética, evidencia-se a variedade e complexidade de elementos que se misturam ao seu processo criativo. A fonte diversa de referências utilizadas pelo artista confere à sua obra um caráter multidisciplinar. John Frusciante, da música; Carl Jung, da psicologia analítica; Nicolas Bourriaud, da crítica de arte; Milan Kundera, da literatura; além de Marcel Duchamp e Hannah Höch das artes visuais. Ainda que venham de campos de conhecimento completamente diferentes, todas essas produções povoam o imaginário de Xadai pois, segundo ele, suas “identificações são processo de um ser e, por mais que elas se confiram em unidades, elas estão muito conectadas”. A interação com outros universos criativos se expande também

para o seu cotidiano e para a sua prática enquanto arte-educador, acerca do que conclui: “eu fico me perguntando o que minha arte, enquanto processo de linguagem, que é a fotocolagem, pode se articular com as outras áreas do conhecimento. Porque eu acredito que isso é expandir não só a compreensão do processo criativo em si, mas também das relações humanas.” O contato com o outro parece ser, portanto, essencial para a sua atuação profissional. Enquanto arte-educador, Xadai transparece seu interesse por um ensino que não condicione os sentidos do estudante, pois a arte só se torna verdadeira na medida em que existe liberdade de criação. Se opondo à educação

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Sem título, 2017 Colagem, 31 × 26 cm

semiótica, ele argumenta que “o imaginário é um dos terrenos onde você consegue criar, é um terreno de fertilidade, e você deve mostrar que um sujeito, em seu lugar, ele também tem seu espaço criativo, a partir do momento em que ele se identifica com a imagem”. A fotocolagem e a sala de aula estão em contínua conversa pois, para Xadai, é impossível dissociar sua prática artística da sua prática docente. O poder alquímico da arte se estende, portanto, para a sua vida e transforma profundamente as suas percepções, sobre o que comenta “foi a partir da fotocolagem que eu comecei a ter um processo de escuta muito mais aguçado com o Outro na minha prática pedagógica.”

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Entretanto, apesar das análises construídas ao longo desta breve conversa, o cerne da obra de Xadai reside no mistério. Ao trabalhar com as imagens singulares do seu próprio imaginário, o artista reconhece que os interlocutores de suas fotocolagens podem vivenciá-las de maneiras diversas. Ainda que muito possa ser dito sobre o processo criativo do artista, portanto, Xadai Rudá demonstra que há sempre um abismo entre nós e a intenção original do momento de criação. Assim, tudo permanece aberto a novas interpretações.

@xaads


Soluço

(Thaysa Aussuba) Es e recorte é s bre a asf xia da pal vras. Escrevejo imag ns e, por is o, tenho enco trado silênc os de pre ncher vazios sibilantes. Tenho hab tado o esqueleto da palavra m smo quando ela, confusa, torna-se dormente no eu-mult dão. Ou quando, navalha, cava inc sões entre superfíc es.

Acordo. Abro os olhos. Enxergo com minhas membranas de fundo do mar. Tenho um corpo que inunda superfícies e chora pela epiderme. Nas profundezas, não é muito fácil me defender com escamas e nadadeiras, mas faço o que posso. A correnteza não se engana. Faço dela minha oração e agradeço ao me perder em redemoinhos. Dia desses, no índigo da noite, um anzol atravessou minhas certezas. Fui puxada à superfície asfixiante de um paladar apressado e machucado pela fome que nada espera. A terra tem homens a voar sobre o vazio. Homens que voam para dentro de si, e asas para eles são outra coisa, são coisa de dentro. Dentro de si, demarcam os territórios, plantam suas fomes e perdem-se da terra quando estão no mar. Para eles, o mar é um afundamento do continente, da firmeza que orienta os pés. E sob seus pés, deslizo em minha massa de pulso lunar, onde jogam suas ferrugens em iscas abandonadas. Desta vez, antes de ser pescada, acreditei mirar o amor na superfície de uma ilha estreita, numa terra, para ter um céu além do meu. Sonhei que o tempo poderia deslizar num véu prateado sobre minha cabeça. Ao encontrar a isca, mordi como quem agarra um outro de si pela boca e não o deixa escapar. Mas, imediatamente, percebi não ter olhos para alcançar outras gravidades, talvez me falte pálpebras de navalha separando as imagens do medo. Do outro lado da isca, dedos calejados puxavam meu corpo elétrico, nu, arremessando-o na escama de outros antigos corpos. Senti o gosto da ferrugem neste meu pedaço seco de boca enquanto fui guardada numa cesta de amontoados restos de mar. E a ferrugem me dizia do tempo de espera do anzol. Tempo de uma agonia ou suspiro. Eu estava à beira de ser colhida de dentro de mim, e meus poucos miúdos metidos num saco para que comessem. Assustada, pulsei todos os pulsos. No esforço de manter-me viva, reagi em meio aos corpos cobertos com a insuficiência do tempo. Talvez eu devesse pedir perdão, com toda a minha cegueira nessa terra abatida entranhada de mar, por ter sonhado céus quando nem tenho olhos para vê-los. Não posso, cega de minhas navalhas, apaixonar-me pela isca. Por uma isca tão pequena que mal alimenta uma vida inteira. E me leva às minhas memórias de criança, em que as estreitas terras estrangeiras guardavam tesouros. Mas agora me assustam com murros à mão fechada, acertando-me em cheio, um soluço baixinho vindo dos minutos de sonhar. Ainda asfixiada, não me cansei e abri o corpo inteiro em mais um soluço. Perdi e recobrei o ar. A terra imóvel dos homens que voam para dentro de si assistiu ao meu salto escorregadio. Ouvi dizer que tenho contornos impróprios, dentes amargurados, olhos mais fundos que o comprimento dos homens e, por fim, voltei às minhas profundezas. Ainda os ouço, bêbados e perdidos a entoar: “a-mar”. Por um momento quase deixei de ser mar para ser ideia alguma. Mas tenho ainda aqui meu soluço que recobra o ar. Afio em minhas nadadeiras meu porte de asas. Guardo com elas a mesma potência para turbulências e abraços. Renovo, não esqueço o que passa, adormeço.

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Monóculo grátis. Contém corpos nus, 2017 Performance

Foto: Lana Pinho


Cecília Gallindo

Não contavam nem cinco minutos de conversa da chamada de vídeo que ligava Recife a Lisboa, inspiquando perguntamos sobre os artistas que inspi ram Cecília. “Eu sou péssima de nome pra ser sincera. Vou começar bem local mesmo. Minha pergunta é: com quem você quer viajar?” “Falamos apenas dos artistas que a motivam e ela já nos lança uma pergunta dessas”, pensei na hora, "coisa de filósofa". Enquanto eu ainda estava com a mente ecoando a frase, ela respondeu: ''Viagem palano sentido metafórico e no sentido real da pala vra. Eu tenho bons parceiros de viagem que me inspiram muito, que são meus amigos". A escolha pelos artistas mais próximos acaba dizendo bastante sobre a obra da recifense de 25 anos. Através da performance e da instalação, Cecília Gallindo Cornélio vem trabalhado com uma temática cada vez mais delicada e singular nas relações urbanas: corpo e afeto.

Entrevista e texto: Manuella Valença

Atualmente, ela está morando em Portugal, fazendo seu mestrado em arte multimédia na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. A artista, que se formou em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 2017 e que já tem seu diploma de Filosofia da Universidade Católica de Pernambuco desde 2015, acabou caindo em uma turma de estudantes de audiovisual em seu mestrado - mas ela diz estar tudo bem e até nos arranjou um tempinho para falar sobre seu trabalho. 15


A passageira Conhecer as suas obras é também desenhar alguns traços da sua personalidade. O jeito meigo de Cecília foi logo denunciando: “sou muito romântica”. Foi em 2014 que realizou sua primeira instalação: A(fé)to. Com seu amigo e parceiro de viagens Rafael Vascon, Cecília participou da Oitava Deriva, evento realizado anualmente na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - onde cursava um ano de mobilidade estudantil. Foram 300 metros de barbante dispostos em uma sala para sustentar 500 cartas de amor. Músicas românticas, cenas da cidade projetadas nas cartas e paredes da sala, lápis no chão. Era nessa atmosfera que os visitantes eram convidados a pegar cartas e também deixar ali as suas próprias declarações de amor. "Apesar de falar sobre amor e a fé que temos nisso tudo, a gente não acreditava que uma pessoa pudesse deixar algo realmente de coração. Mas as cartas que as pessoas deixaram foram lindas!". Foram mais de 200 trocas realizadas na instalação. Durante os cinco dias de montagem da obra na galeria, a ideia inicial da dupla foi crescendo. Entre as idas e vindas com furadeira e materiais para a instalação - e algumas dores de coluna -, Cecília conta que veio a vontade de gerar dali uma performance. "A gente levou umas 500 cartas pra rua, em uma avenida muito movimentada. Ficamos 'atrapalhando' o caminho das pessoas na faixa de pedestre, e elas eram meio que obrigadas a passar por essas cartas, sabe? Carta de amor, ‘Te amo’, essas coisas". Essa troca com o público também é outro ponto central nas obras de Cecília. Foi durante o estudo na fenomenologia, linha de pensamento filosófico, que ela achou uma ponte para iniciar seus trabalhos artísticos. Um livro em especial a encantou: Fenomenologia da Percepção, do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. " 'O corpo é nosso meio geral de ter um mundo'. Pode parecer uma frase solta e sem contexto, mas, pra mim, vem muito da forma como se apreende e se relaciona com o mundo, é sobre comunicação, linguagem", nos explica Cecília. Nessa lógica de pensamento, a subjetividade reside na experiência, logo, a obra só ganha seu significado a partir do momento em que é experimentada por outra pessoa. "Talvez por isso, caminho hoje na direção da rua, que vejo como a grande praça sofística para o afeto e o manifesto", comentou a artista. 16


A(fé)to

Instalação, 2014

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Conhecendo a cidade Em 27 de março de 2016, uma dupla vestida de vermelho mudava o cotidiano de uma movimentada área da Zona Norte do Recife. Os dois pontinhos rubros na Praça da Encruzilhada eram Cecília e o artista Daniel de Andrade Lima, que, dividindo apenas uma agulha durante 5 horas, transformavam os macacões que vestiam em um casulo, costurando-se um ao outro dos pés à cabeça. A ideia para a performance Corpo urbano: pele surgiu numa aula de filosofia de Cecília - mas o caminho até chegar à rua ainda durou alguns meses. Os artistas passaram por um processo de naturalização do macacão vermelho, para que o sentissem quase como uma pele. “Eu saí algumas vezes com a roupa. Cheguei numa pizzaria, em muitos lugares e já era um choque. Era uma roupa que não era habitual, vermelha, chamando super atenção. Fui parada na blitz, inclusive, tava dirigindo com a roupa, e o guarda me parou e achava que eu tinha bebido!”, contava Cecília rindo. Após a adaptação à roupa, restava a escolha do local. A opção de ser realizada em um lugar fechado já era

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descartada, assim como no Centro do Recife, no Marco Zero e no Sítio Histórico de Olinda. “As performances que acontecem aqui geralmente acontecem nesses locais. A gente queria um lugar que realmente fosse da cidade, o Largo ali da Encruzilhada, por exemplo. Não é muito turístico, é um lugar das pessoas daquele bairro, que vão fazer feira ali, beber uma cerveja, é uma coisa muito daquele local”. E a escolha acabou trazendo, para a artista, o melhor da performance: o diálogo com as pessoas que já estavam ali trabalhando e acabaram vendo a dupla. O trabalho impactou o público transeunte tanto através dos olhos desacostumados com performances, quanto na sua relação com a cidade. “Eu acredito que, quando eu faço uma performance em um espaço específico, eu gero uma memória naquele lugar, pra quem viu aquilo, e eles podem talvez acessar aquela memória. Então agregar memória ao espaço urbano é uma reflexão que eu gosto muito de fazer”. Quem viu e passou novamente pela Encruzilhada, de fato, não deve ter esquecido os dois pontinhos vermelhos.


Corpo urbano: pele, 2016 Performance Foto: Iuri Brainer


O movimento de estar na rua também é um movimento de acreditar numa arte que é livre

O alcance de sua arte é também um aspecto muito pensado no processo de idealização do trabalho de Cecília. A escolha entre realizar uma performance nas ruas, com esse público voluntário, ou uma em espaços fechados, galerias, traz também outros significados à obra. E, para ela, que não vê a arte dissociada de política, performar na rua também significa uma forma de resistência. “Ninguém é obrigado a ir pra galeria, né? E quando você vai pra uma, sabe que vai encontrar alguma coisa, seja

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um quadro, seja uma performance. O público da rua, não. É um público estranho, transeunte, que se depara com aquilo que está acontecendo naquele momento. Eu gosto de galeria, mas geralmente quando você está lá, ou você tem que receber um convite, ou se inscreve em um edital... O movimento de estar na rua também é um movimento de acreditar numa arte que é livre, sabe? Livre, autônoma, possível de acontecer independente de qualquer instituição”, nos contou Cecília.


(Im)previstos de viagem Mas como a artista fez questão de afirmar uns segundos depois na entrevista, galeria também é local de fazer política. Em Liberdade: atributo humano indispensável (2015), Cecília e Rafael Vascon usavam um cinto de castidade trancado por um cadeado. Durante vinte minutos, os performers procuravam uma chave que abrisse o cinto entre mil outras que estavam pelo chão. Mas não achariam, a chave não existia. Paralelamente à agoniada busca, ouviam-se sons de orgasmos que ecoavam em toda a Galeria Janete Costa, em Boa Viagem, no Recife. A inspiração surgiu quando, em um ateliê de escultura do qual Rafael participou junto à artista Joana Liberal, houve a produção de esculturas de ferro, que foram, então, apropriadas para outros fins na performance na Janete Costa. "Então a gente tinha um cinto. Pensamos 'Em que lugar a gente coloca esse cinto?', se a gente colocava num lugar de prisão ou num lugar de liberdade. E optamos pela contradição dessa liberdade e prisão. O sentimento de estar preso por não poder mostrar isso [a sexualidade], tentando inutilmente abrir aquilo". Ao final da performance, Cecília percebeu que continuava aprisionada - a chave

guardada, que correspondia à fechadura, ficou emperrada, impedindo a retirada. "Comecei a ficar louca, desesperada, era domingo de noite. Aí eu pronto, vou pra um chaveiro 24h, pelada, vou levantar assim 'moço, eu tô presa num cinto de castidade' [risos]". Novamente, o pensamento sobre a galeria como um local mais protegido vinha à tona. A ideia de ir a um chaveiro naquela situação a deixava muito angustiada. “Por que aquilo me causava grande agonia se, pra mim, a performance era algo mais fácil, no sentido de expressão?”, se perguntava. O espaço da galeria pode ser o palco mais receptivo para um trabalho como esse, mas muitas obras ainda não são imunes a determinadas censuras. Alguns dias após a performance, Cecília descobriu que seu trabalho incomodou. "Soubemos que algumas pessoas não gostaram nem um pouco. Parece que falaram ao pessoal da Janete Costa que a performance não era adequada, referindo-se a ela como um ato obsceno, pornográfico, atentado ao pudor. Quando se trata de corpo, de espaço, de nudez, a coisa é bem complicada".

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Liberdade: atributo humano indispensável

Performance, 2015

Foto: Lana Pinho

Mas Cecília não parou por aí e, depois da performance, trabalhou o tema da nudez em mais outros dois trabalhos. No VI Continuum Festival de Arte e Tecnologia do Recife, estava presente a instalação Que Seja em Segredo, pensada por Cecília a partir do tema do festival: Privacidade. O título vem de um livro de Ana Miranda, publicado pela primeira vez em 1998, que trata de freiras que escreviam poemas

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eróticos em conventos brasileiros e portugueses nos séculos XVII e XVIII. Com 300 monóculos fotográficos pendurados no teto, Cecília expôs fotos com diversas partes nuas do corpo - peitos, barrigas, bundas, olhos, orelhas, pênis, vaginas. "O monóculo é como um buraco na fechadura, sabe? Aquilo tá tudo exposto, agora só algumas pessoas querem olhar, porque tá tudo ali."


Foto: Victor Jucá Que Seja em Segredo, 2016 Instalação

Foto: Rafael Vascon Monóculo gratis. Contém corpos nus, 2017 Performance

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Souvenirs

No ano seguinte, a artista levou os monóculos para a Ponte da Boa Vista, no Recife, a fim de entregar a quem quisesse levar. Monóculo grátis. Contém corpos nus durou trinta minutos - foi o tempo necessário para que eles encontrassem seus donos. O título da intervenção artística ficou escrito em uma placa junto a uma bandeja com os presentes. "Eu achei que as pessoas iriam reagir de forma diferente, mas elas amaram, elas amaram se chocando, sabe? Eu ouvia 'Meu deus, o que é isso?!' e mostravam pras crianças. Tenho um vídeo muito interessante: duas senhoras conversando. Uma pega o monóculo, olha pra dentro e faz 'Nossa Maria, isso é um rio!', aí a outra diz: 'Um rio? Isso não é um rio não! Isso é um pau!'. Era uma foto de um pênis que a senhora achou que era um rio. Maravilhoso!", contou Cecília rindo. As trocas com o público também adquirem esse sentido mais literal da lembrança física (os monóculos). “Apesar de acreditar que existe também uma troca além da material - por exemplo a sensorial e sentimental - eu gosto de gerar esse material físico, gosto de pegar em coisas e trocar”

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No ano anterior, o câmbio de Cecília com os interlocutores de sua obra já havia acontecido através de fotos. 3000 cópias, para ser mais específica. Era parte da instalação Válida por 12 meses (2017), realizada no VIII ÚNICO Salão de Arte Contemporânea do Sesc que teve como tema Identidade. A artista trabalha com a passagem do tempo, abordando o quanto um instante pode ser descartável. Em um suporte de madeira, foram dispostas 177 fotos polaroids e, entre elas, 3 carteiras de identidades de Cecília já vencidas. Por possuir uma falha nas suas digitais, ela precisa renovar o documento de tempos em tempos, história que deu título à obra. Abaixo desse suporte, os visitantes se deparavam com as várias xerox da imagem de seu rosto para serem carimbadas com a sentença de “Válida por 12 meses” e levadas pelo público. “Pra mim esse material físico ainda é muito importante. Talvez seja uma coisa até careta da minha parte, mas eu não sei, é um caminho que eu tô gostando”.


Válida por 12 meses

Instalação, 2017

Foto: Olga Wanderley

Foto: Olga Wanderley

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A viagem de volta O atual vai e vem diário em Lisboa tem trazido novas ideias para a artista. Percebendo seu lugar na cidade colonizadora, o atual rumo de seu mestrado pisa no terreno do corpo estrangeiro: "Ainda está em aberto, mas quero ver como a cidade interfere nesse corpo, que não é o corpo dali, é o corpo de outro lugar". Mas os amores de se fazer arte na cidade-natal não vão deixá-la longe por muito tempo - para Cecília, estar e produzir em Recife não é só encantador, como também necessário. "Pode parecer uma contradição, porque eu não tô, mas acho muito importante estar no Brasil fazendo arte agora, é um movimento completamente político". Mesmo de longe, a artista ainda destaca dois projetos em terras brasileiras que são marcantes na sua trajetória. Cecília é uma das idealizadoras da editora de publicações independentes Chuvisco, com Gabriela L'amour e Manuela Sobral, parceria não só de produções, mas também de incentivo a artistas locais. Outra ponte é o coletivo de arte ONIA, com o artista e parceiro de viagem carioca Zé Azul - ele que está com as passagens compradas para Lisboa, para, como disse Cecília, "mais uma loucura performática”.

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Seguindo a rota planejada, o translado de Cecília de volta ao país pode gerar mais uma produção para sua cronologia artística. "Eu quero voltar pro Brasil de navio de carga, quero fazer uma travessia, sabe? É meu único plano realmente concreto, que eu já comecei a ver e a pesquisar, fazer esse percurso no mar". É grande a ânsia de saber mais do futuro trabalho, mas esperemos que a obra chegue e se aprochegue em nós. Afinal, é como disse Cecília, em tom de confissão e dica: "tenho medo de falar muito sobre o que faço e acabar dando um significado muito meu pra algo que é do mundo".

@ceciliagallindocornelio


Somar horizontes Annaline Curado Já quis ser marinheira, curandeira, cartógrafa, carteira, fotógrafa, jardineira, geógrafa, cantadeira, escritora, etc. Como artista-educadora, é de tudo isso um pouco. No mais, está como professora colaboradora da Licenciatura em Artes Visuais da UFPE e integrante do Xingó (grupo de dança-teatro, pesquisa de linguagens e investigação de poéticas).

Pretexto: horizontes me ampliam. Entre o mar e o cerrado, estive me construindo, fui e voltei diversas vezes, e ainda volto e vou. Aprendi a brincar de encaixar horizonte feito quebra-cabeça, entender que é tudo um todo. Alfabetos que nos escrevem. Do T ao P Trinta horas de estrada. Tava aqui pensando em T... Trancada no túnel. Trânsito pesado. Tempestade-ventania. Tempo de espera. Tentando achar a posição perfeita. Tinha esquecido o quanto o ar condiciona[do me asfixia. Torres gêmeas? Túnel do tempo? Terríveis especulações imobiliárias. Tô pertinho ainda, Camboriú. Tem gente que dorme a viagem inteira! Tem uma montanha toda recortada em [frente ao shopping. Tão recortando montanhas pra construir [shoppings e torres gêmeas.

Tá na moda por aqui. Terminal rodoviário. Treze minutos de ar novo entrando pela [porta. Tem gente que desce, gente que sobe. Tem um judeu com a camisa do Vitória da [Bahia que fala uma língua estranha. Tá brabo! O moço de camisa rosa disse que o trânsito tá feio! A vestibulanda telefonou pros pais. Tá tudo atrasado! Mas té que tranquilizou a tempestade... Tem gente que escuta música a viagem [inteira. Intermináveis baterias! Tá anoitecendo. Tensos relampejos. Tentar dormir é bom pra enganar a fome? [Escrever em trânsito me deixa tonta. Toalhas de algodão. Terra de tecelagens, porto, contêineres, Itajaí. Tomara que a gente pare pra jantar por aqui! Triste ilusão.... Mais um terminal. A rodoviária aqui parece o [shopping de lá. Torres gêmeas separadas por alguns [quilômetros.


Devem vir daquela mesma montanha [recortada. Ih, tô perdendo o T. Talvez seja a fome! Tive que usar o toalete. Tem mais ar puro lá do que aqui, atrás dessa [janela embaçada. Tem gente que conversa a viagem inteira. 30km/h Té tartaruga tá andando mais rápido. [O moço de camisa rosa disse que [tá tudo parado! A vestibulanda tá trocando mensagem pelo celular. Toalhas e mais toalhas. O trânsito fluiu. Finalmente! Paisagem-nômade. Tremendo clarão no céu. Trovão-mudo. A tia lá da frente tá contando história. Fome intermitente. Tensão estomacal. A tia atendeu o telefone. Fala alto, disse que tamo chegando em Joinville. Tudo tão escuro lá fora. Tem gente que tosse a viagem inteira! [O baiano judeu trocou de poltrona. Ainda tá brabo! Tem uma senhora atrás dele me olhando [com cara de esquecimento. Tipo olhos de Alzheimer. Traz lembranças de longe. Me toca. Trinta minutos parados. Não tô mais entendendo nada. Tá todo mundo ansioso. Atravessamos a [fronteira: terras paranaenses. Tempo pra janta: 30 min. Tudo que eu queria! 28

Todos alimentados, tranquilidade toma conta. Tento dormir, mas a turbulência me desperta a todo momento. Teimoso motorista! Tranca todos pra dentro. Não conta o que tá acontecendo. Tem gente que se irrita, gente que dorme. A vestibulanda desceu em Curitiba. Tem um menino com traços guaranis sentado ao lado do judeu [baiano. Tá amanhecendo. Típica vegetação paranaense. Fecho os olhos [e entro pra turma dos que sonham. Tão quente aqui dentro, calor familiar. [Me desperto e, de repente o olhar [me traz um cheiro de soja. Tem uma carreta tombada no chão. Tudo ali fora agora é latifúndio. Terra recortada feito as montanhas de lá. Percebo a contaminação do P em meus [pensamentos. Pastos, pastos, pastos. Pobre cerrado perdido. Progresso perverso. Profundos horizontes. Potente produção! Pra quem? Percorro caminhos longínquos da minha [memória. Passo pelo verde-soja, pelo vermelho-terra, [por esse azul-horizonte, partes [da minha paleta. Primeiros passos na paisagem. Posso estar enganada mas parece que entramos no Mato Grosso do Sul. Pronto.


BIARRITZZZ BIARRITZZZ BIARRITZZZ BIARRITZZZ BIARRITZZZ ;)

Entrevista e texto: Débora Rodrigues


Abra um navegador da internet, e a obra de Bia estará lá. Vá em uma festa e você poderá se deparar com o trabalho dela projetado na parede. Há muito tempo, o lugar da arte vem sendo questionado, resultando em espaços além dos institucionalizados. As rupturas existem, e o que Biarritzzz faz abre ainda mais essas brechas. Ao produzir e exibir imagens em movimento em plataformas diversas, a artista de novas mídias questiona os formatos da arte habitual. Além de sites e festivais de linguagens eletrônicas, Bia atua como Video Jockey (VJ) em shows, compondo peças visuais de acordo com o ritmo da música e o ambiente. Nesse contexto, as outras pessoas presentes naquele momento não são apenas espectadores, mas também participantes que influenciam o seu processo artístico. Contudo, para entender a totalidade da obra de Bia é preciso ir além e enxergar o seu processo, que não segue um manual e que começa, antes de tudo, nas vivências que teve. Beatriz Rodrigues nasceu no Ceará em 1994, na geração da internet. Biarritzzz surgiu uns anos depois, talvez na oitava série. O apelido com nome de praia francesa foi ideia de uma professora. “BIARRITZ!”, ela gritava no meio da chamada na aula, e a identificação foi criada. Os “zzz” vieram depois, são uma interferência na comunicação, uma faísca que traz os traços da criança nerd que teve sua socialização marcada pelo computador. Beatriz é uma artista negra, nordestina, brasileira; Biarritzzz é um remix, o alter ego das vontades da artista, uma menina que vive na grande cidade de Tóquio com todas as luzes e encantamentos do mundo digital. E é justamente quando Bia se posiciona no virtual que ela assume a identidade de Biarritzzz, comportando-se como um avatarônimo. “Biarritzzz é a mistura desses dois jeitos de definir alter ego, um jeito meio Fernando Pessoa [o heterônimo], e esse outro jeito que usamos no nosso tempo, a criação de personagens através dos avatares. Foi uma fusão aí dessa loucura.”


Essa curiosidade aguçada e a vontade de criar cresceram com Bia, e o desenvolvimento próximo ao computador fez com que ela recorresse à programação de imagem, edição de vídeo, publicidade, à arte. 1

Foi Cássio Bonfim, idealizador da ACRE , o primeiro a chamá-la de artista. A partir desse contato, passaram a desenvolver colaborações - dentre elas, a parceria na coleção SALVE EXU MOTOBOY!, na qual Bia atuou na concepção dos acessórios em acrílico, na estamparia e na comunicação visual. Além de Cássio, a performer Isabelle Gusmão e o pintor Flávio Emanuel são fortes inspirações locais que auxiliaram na formação da artista. É possível ver um pouco de cada um no trabalho dela: a ligação com a ACRE é constante, as performances também, e os quadros cheios de sobreposições de tintas que ela guarda em casa revelam a força de Flávio na sua trajetória. Biarritzzz percebe pontos em comum em áreas aparentemente alheias umas às outras. Ela possui referências que, plasticamente, não se assemelham ao seu trabalho. Ao mesmo tempo, dialoga com poéticas de artistas internacionais de novas mídias, como a sul-africana Tabita Rezaire e a venezuelana Miyö Van Stenis. É no processo de construção de seu espaço virtual que Bia edita sua própria realidade. Aproveitando-se das fissuras presentes nas linguagens das quais se apropria, ela gera as conexões que resultam na diversidade do seu trabalho.

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Marca de roupas/experiências/residencia artistica/casa/ateliê


Use o QR Code para acessar o site da artista


Enquanto VJ, Biarritzzz cria as suas composições de GIFs em uma festa através do computador ligado a um projetor. Poucas horas depois, o momento do VJing VJing pode ser publicado em forma de vídeo no seu Instagram para aqueles que não puderam presenciar o ato. Às vezes, um novo GIF, resultado da produção em algum evento, é adicionado ao seu site. “A internet legitima a si mesma. Se tem uma coisa circulando é porque aquela coisa faz sentido para aquelas pessoas e foda-se quem fez.”

O espaço da galeria foi subvertido. E quando a obra - ou o seu registro - é transmitida nas redes sociais, já não há o limite de espaço, interação e intervenção. Muitas vezes, inclusive, as colagens de GIFs que Biarritzzz produz são construídas em tempo real e selecionadas a partir de uma simples busca no Google, passando pela sua releitura.

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Por esse motivo, artistas de novas mídias podem ser questionados sobre o conceito de direito autoral. Porém, ao mesmo tempo em que não atribuem tanto valor aos créditos de outros artistas, ao divulgar seus trabalhos na internet, enfrentam o mesmo problema. Diante dessa questão, Bia discute o conceito de posse na nossa sociedade como fruto direto da colonização e da neocolonização, o que a faz questionar se há mesmo uma obra que fale por si só, uma vez que o processo todo de criação está repleto de influências e inserido no contexto maior de movimentos políticos e estéticos.


“Como é que eu posso afirmar que eu inventei aquele GIF? Eu fiz aquele GIF, mas eu não fiz ele sozinha. Existe todo um movimento estético, de criar aquelas frases que se mexem assim; existe um programa só pra fazer isso. Então acho que nenhuma obra fala por si só nesse sentido. Tem todo um contexto ao redor dela que faz ela ser o que é ou não.” Dessa forma, Biarritzzz é uma artista dentro de linguagens coletivas. Inserida na pós-modernidade, ela chama atenção para uma forma de fazer arte diferente do que está institucionalizado e que faz parte desse novo momento histórico. Um período formado por indivíduos que, com auxílio da internet, constroem linguagens alternativas, pensamentos e identidades, dando vozes a si mesmos e se tornando parte do grupo diverso que nega o conceito reducionista do colonizador.

“Eu acho acho que que aa gente gente tem tem “Eu “Eu acho que a gente gente tem “Eu acho que a tem que tá sempre procurando que tásempre sempre procurando “Eu acho que a gente tem que tá procurando “Eu acho que a gente tem que tá sempre procurando quebrar barreiras. A arte arte quebrar barreiras. Aarte que tá sempre procurando quebrar barreiras. A que tá sempre procurando quebrar barreiras. AAaarte arte como instituição, instituição, a arte como arte quebrar barreiras. como instituição, aarte arte quebrar barreiras. A como instituição, a arte como mercado, não me abrancomo mercado,não não meabranabrancomo instituição, a me arte como mercado, como instituição, arte como mercado, nãoame me abrange, não me me representa. representa. Ela ge, não Ela como mercado, não abrange, não me representa. representa. Ela como mercado, não me abrange, não me Ela não representa os discursos não representa osdiscursos discursos ge, não me representa. Ela não representa os ge, não me representa. Ela não representa os discursos que eu acredito que deveque eu acredito que devenão representa os discursos que eu acredito que devenão representa os discursos que eu acredito acredito que deve-seja riam estar ali. ali. Talvez seja riam estar Talvez que eu que deveriam estar ali. Talvez seja que eu acredito que deveriam estar ali. Talvez seja uma mudança de paradigma umaestar mudança deTalvez paradigma riam ali. seja uma mudança de paradigma riam estar ali. Talvez seja uma mudança de paradigma mesmo.” mesmo.” uma mudança de paradigma mesmo.” uma mudança de paradigma mesmo.” mesmo.” @biarritzzz mesmo.”


Vivieuvi Vivi Villanova Youtuber

Existe um lugar certo para falar sobre arte? Se o sonho da resposta absoluta é inalcançável, ponderar a gente pode. Ponderar a gente deve. Os museus, galerias e escolas de arte garantiram seu lugar ao sol há uns bons séculos. Templos de encontro entre passado, presente e futuro, eles escreveram ideias e fermentaram cabeças. Um pouco menos sagrados, mas ainda presentes na história da arte, estão os cafés e bares. Sim, cafés e bares. Cigarro, absinto, Paris... Provavelmente datados pela febre modernista, em mim, eles seguem vivos e românticos. E sem nunca esquecer da solidez dos livros, revistas, panfletos, manifestos, eu admito que preencher uma página com palavras impressas recheia meu ego de autoprestígio. Besteira minha. Jornada minha. Enquanto os artistas buscam caminhos alternativos às instituições, precisamos nós também arejar os rumos das nossas conversas. Amantes das artes, uni-vos! Agucem sua rebeldia. Quando tomei coragem de questionar as certezas, eu não

tinha museu, escola, nem café nas mãos, mas um celular. Adoráveis millennials, fadados à conexão wi-fi. Seria heresia falar de arte na internet? Sem audácia de enfrentar essa sozinha, criei uma nova persona, um avatar descolado que esconde os medos do meu eu carne-osso. E, vestida com essa capa, saí à procura de aliados. Antes de seguir minha novela heroica, um adendo realista: o Youtube pertence ao Google, maior empresa de mídia do mundo. Falamos de milhões em dinheiro e dados, e todas as teorias conspiratórias que quiser imaginar. Então não, eu não fui rebelde quando postei um vídeo no Youtube. O que fiz foi abrir um estabelecimento, e o aroma do café trouxe pessoas para conversar comigo. A internet é a maior sala de visitas do mundo, e tenha certeza que ali você vai encontrar seus iguais. Na internet, um pensamento reverbera e cresce. A voz de um ecoa no coletivo. E na nossa comunidade de artes é assim. Tem quem goste de renascimento, gótico, land art,

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performance. Tem quem pense e repense o feminino na pintura. Ideias florescem sem barreiras físicas.

físicos. Não tem inércia, nem certo e errado. Somos agentes atentos, ativos. Queremos perceber com consciência.

Ao mesmo tempo em que o diálogo ganha força, a blasfêmia se faz presente e, às vezes, transborda. Nesse lugar de violência, minha capa fende. O lugar onde o “eu” se depara com o “outro”, e as diferenças são sentidas na pele. É quando meu avatar se segura nas bordas tentando lembrar que é no diferente que mora a evolução da espécie. Dolorido. Mas entre dores e delícias, fico com as delícias.

Jornada minha, que eu sigo com a mesma incerteza do começo, mas agora rodeada de amigos que vibram. Se você chamar “vivieuvi” na rua e eu responder, é porque o avatar se apossou de mim, viramos um. E juntos seguiremos falando de arte e ponderando. Sempre.

A internet tem uma fluidez tão criativa, quanto assustadora. E essa qualidade impregna, mas não determina todos os discursos.Tem quem entre de mansinho e construa com cuidado, apesar da velocidade adversa. A arte contemporânea combina com a infinidade de interpretações que surgem nesse contexto. Um dos meus momentos preferidos é quando a conversa que começa nas redes abraça os livros e se estende para o museu. É tudo junto e misturado. Somos virtuais e físicos. E meta-

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UM Coletivo Entrevista e Texto: Nathália Sonatti Foto: Flora Negri

Natalie Revorêdo

Mirela Lucena

Bell Puã

Heitor Dutra

Luíza Nóbrega

Kassio Almeida

(educador musical)

Aline Mariz

(fotógrafa e videomaker )

Rhayan Gomes

Letícia Barbosa

Andre Moraes

Klarissa Faye

Iuri Brainer

Marina de Andrade Lima

Daniel de Andrade Lima

Luíza Lira

Sofia Galvão

(iluminadora e performer )

(psicóloga e museóloga em formação, fotógrafa) ( performer, artista visual, fotógrafa amadora)

(figurinista, bióloga em formação, feminista e bailarina)

(produtora e artista)

(artista visual)

(artista, comunicador, pesquisador e dançarino)

(poeta e performer )

(dançarina e performer )

(artista visual e arteterapeuta em formação)

(artista visual)

(artista circense)

(produtor musical e fotógrafo)

(pesquisadora das artes e das tecnologias)


“Claro que o corpo não é feito só para sofrer, mas para sofrer e gozar. Na inocência do sofrimento assim como na inocência do gozo o corpo se realiza, vulnerável e solene.” 1

Ninguém lembra, provavelmente, de quando nasceu, de todo o processo excruciante que traz a esta realidade um novo corpo, um novo ser. Contudo, é justamente nesse momento, quando um corpo transita por entre outro, que se inicia oficialmente a construção das percepções do indivíduo acerca do existir, e, assim, camadas vão sendo adicionadas ao eu, criando as diversas nuances que nos compõem enquanto seres humanos. Nosso corpo passa a ser engolido, digerido, invadido e tomado o tempo inteiro pelos atravessamentos da vida. E é a partir do compartilhamento destas questões, que nos perpassam constantemente, que o UM Coletivo se movimenta. Centrado, a princípio, na dança, o grupo tentou repensar a maneira como seus corpos estavam acostumados a transitar dentro desta, ou seja, buscou construir um espaço que trabalhasse a consciência corporal, que não estivesse focado apenas em reproduzir uma técnica dura, pré-definida. Dessa forma, em diálogo com as inquietações da dança contemporânea, a individualidade nos ensaios do UM se torna central na medida em que coloca cada ser como um intérprete-criador. Assim, "pensar fora de uma técnica que moldasse o corpo e começar a pensar neste, que já era moldado pela vida” passou a ser um gesto norteador das produções do coletivo, ressalta Daniel de Andrade Lima, integrante do grupo. Nesse sentido, o coletivo é construído através do estado constante de diálogo entre as diversas formações profissionais e identitárias de seus membros: dança, engenharia, fotografia, música, história, pintura e jornalismo. Na busca de um percurso em comum, o que cada um desses corpos tem a oferecer?

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1 Trecho do poema Missão do Corpo (1996) de Carlos Drummond de Andrade, lido por Bell Puã, integrante do coletivo, durante a entrevista.


"Salve, meu corpo, minha estrutura de viver e de cumprir os ritos do existir! Amo tuas imperfeições e maravilhas, amo-as com gratidão, pena e raiva intercadente. Em ti me sinto dividido, campo de batalha sem vitória para nenhum lado e sofro e sou feliz na medida do que acaso me ofereças."

Na tentativa de subverter a hierarquia existente entre música e dança, na qual tradicionalmente o som rege a coreografia, nasceu o primeiro espetáculo do grupo ainda em 2014, ano de sua formação. Intitulado Concerto para Corpos Variáveis, ele foi apresentado duas vezes: primeiro em sua vernissage, no ateliê Arte da Terra, local de ensaio do coletivo na época, e a segunda, no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE, espaço para o qual havia sido pensado. Dessa maneira, surge, entre desejos e dificuldades, um trabalho onde esses corpos que vinham de diferentes contextos teriam que reger uma mesma melodia, provocando e tensionando, assim, os limiares entre a materialidade dos movimentos e dos sons. Sobre isso, Bell Puã sintetiza: “lembro até de uma analogia que Heitor faz, como se a dança fosse uma ilustração pequenininha da partitura, e a gente tentava inverter isso, fazendo o corpo ser bem mais influente”. A partir desse mote, o grupo foi desenvolvendo uma pesquisa mais aprofundada para o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), que teve como um de seus desdobramentos a formulação de um dossiê disponível online2. Sobre esse processo, Heitor comenta “nós somos o nosso próprio nutriente, o que faz a gente começar, continuar e produzir, e isso é muita riqueza”. Assim, por meio das referências que cada integrante traz para as construções do grupo, dentre recortes, imagens, poesias, é possível entender um pouco mais dos universos que formam esse eu coletivo construído pelo UM.

2 https://issuu.com/umcoletivo/docs/dossi___5d5f97c9bb0b8c.

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"Será mesmo acaso, será lei divina ou dragonária que me parte e reparte em pedacinhos? Meu corpo, minha dor, Meu prazer e transcendência És afinal meu ser inteiro e único”

Em 2016, marcando a trajetória do grupo, surge o espetáculo Estou farto de semideuses, exibido em quatro noites movimentadas no Edifício Texas. Cada uma das seis pessoas em cena elabora sua própria narrativa dentro do espaço, no qual o tempo desprendido na repetição dos gestos acaba por construir um corpo através do condicionamento. O movimento cíclico nas produções do UM Coletivo nos faz refletir sutilmente - mas sem ternura - sobre as controvérsias da performance cotidiana, revelando que nós também nos movemos diariamente no compasso de uma dança exaustiva já interiorizada e naturalizada por nossos corpos. Numa parceria com o duo musical Pachka e a iluminadora Natalie Revorêdo, surge Onze, apresentado em março de 2017 no Teatro Marco Camarotti. O espetáculo adentra nos labirintos do sensível ao abordar a relação do indivíduo com a passagem e a percepção do tempo. Aline Mariz descreve a experiência como um estado de dormência, em que os corpos estão tomados pela sensação de estarem simultaneamente suspensos e conscientes. Assim, passeando pelas luzes e sons, os corpos em Onze evocam os diversos ciclos infindáveis que perpassam nossas vidas, tanto em relação aos nossos conflitos e afetos internos, como aos contextos externos em que estamos inseridos. Em conjunto com a instalação Arrodeio que, inaugurada no Museu Murillo La Greca, resgatou imagens e memórias sonoras criadas ao longo da pesquisa incentivada pelo Funcultura, Onze representou o encerramento deste ciclo, marcando o início de novas inquietações para grupo.

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Onze, 2017 Fotos: Luma Torres

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Estou Farto de Semideuses, 2016 Foto: Flora Negri


No mesmo ano, acontece Três Catástrofes sobre o Prazer. Por ter sido estruturado em quatro solos, os contextos individuais estão mais escancarados nesse momento. A partir de uma pesquisa conjunta, cada participante, Daniel, Heitor Dutra, Luíza Lira e Sofia Galvão, desenvolveu seu próprio solo de maneira praticamente independente, com pouca interferência direta de um na produção do outro. Este processo se distancia das formas anteriores de diálogo entre as individualidades dos integrantes do grupo, mas mostra que a tendência é sempre adentrar em diferentes espectros de criação. Além dos dançarinos, a produção contou com Iuri Brainer na concepção da trilha sonora e com a parceria junto a Ricardo Scholz, cientista da computação que realiza uma pesquisa com o Kinect do Xbox, relacionando dispositivo e captura de imagem. Sem um número fixo de integrantes, os participantes do UM vão variando de acordo com as produções do grupo. Dependendo do período, o coletivo assume posições diferentes dentro de suas vidas, pois, apesar de estarem reunidos por conta da dança, todos desenvolvem projetos individuais em suas ocupações. Lidar com esse estado de troca é uma tarefa difícil, que acaba por nos introduzir em lugares inesperados. Cada olhar, um universo; cada abrir de boca, uma nova bifurcação. E, dentro desse compasso plural, onde as subjetividades se misturam, vamos percebendo que a relação com o outro deixa marcas, pois, como coloca Luíza, “o processo criativo é assim: uma trança entre o que eu sou e o que é o coletivo”. /coletivoumcoletivo/ Três Catástrofes sobre o Prazer, 2017 Fotos: Humberto Reis

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GALERIA Este é um espaço para contato inicial entre público e artista através da Propágulo. Estamos sempre à procura de novos artistas. Envie seus trabalhos para: propagulo@gmail.com

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Sem tĂ­tulo AcrĂ­lica e esmalte de unha sobre tela Laura Pascoal @lauradpascoal

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Viagens pelo Maps Arte conceitual Thiago das MercĂŞs @thiagomerces5

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Durante à viagem feita para explorar o território antårtico chileno, eu e os outros tripulantes do barco Nanaiara que navegava entre Navarino e Bertrand, sofremos um naufrågio. Alguma coisa, misteriosamente virou nossa embarcação e nos fez parar no litoral sul de Navarino. Outros tripulantes não sobreviveram ao frio daquelas åguas. As florestas subpolares de Magalhães, o que tinham de exuberantes, tinham de assustadoras diante daquela situação. Por sorte, lå nos deparamos com um grande casarão abandonado. E lå ficamos durante alguns dias, atÊ outra embarcação nos encontrar. Aqueles tempos jamais serão esquecidos. E outros virão. Ilha Navarino, Cabo de Hornos. Chile

Andando de bike com Vinicius, no dia de nosso aniversĂĄrio. HP 9HUNKQ\D\D 6DOGD Ç?Ç˛Ç˝Č‚ÇşČŒČŒ ǞǭǸǹǭ SUy[LPR j %DODNLQR ǎǭǸǭǡǾǺǝ 5XVVLD


Sem tĂ­tulo Litogravura Ane Lima e Eduardo AzerĂŞdo @ane_clima / @azeredocomr

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Sem tĂ­tulo Modelagem 3D Pepapuke @pepapuke

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Esquina Lambe-lambe Filipe Gondim @f.gondim_

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Sem tĂ­tulo Performance Coletivo Bartira @coletivobartira

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Foto: Natália Corrêa

Foto: Manu Ferrao


2º edição [2018] 600 exemplares Esta revista foi impressa com apoio da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), com miolo em papel offset 120g e capa em triplex 250g


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