NOVEMBRO
2017
Nยบ 01
PROPร GULO
Percebendo os diversos abismos que limitam o jovem artista pernambucano - afastando ele do seu público e do meio artístico já estabelecido -, surgiu o projeto da Propágulo. O nosso compromisso é construir uma plataforma de reconhecimento mútuo, além de promover discussões pertinentes ao universo artístico, compreendendo que a arte acontece, inclusive, no processo de criação. Com o formato estruturado em entrevistas, textos de opinião e galeria, a revista Propágulo reflete, portanto, a intenção de proporcionar uma conversa entre as inúmeras vozes que compõem a diversidade presente nas artes visuais.
Equipe Bruna Pires: redação e revisão Guilherme Moraes: idealização, curadoria, redação e revisão Heitor Moreira: projeto gráfico Nathália Sonatti: redação Rodrigo Souza Leão: planejamento e social media
Colaboradores Abraão Sednanref Auro Bruna Rafaella Ferrer Cátia Ono Débora Rodrigues Demétrio Albuquerque Fernando Cabral Flora Negri George Teles Guilhermina Velicastelo Heitor Dutra
JE AN Johny Cavalcanti Kátia Fujita Lara Valença Leandro Lage Letícia Maciel Linda DeMorrir Luciana Pinheiro Lucie Salgado Luiza Branco Luíza Lira
/Propagulo
@propagulo propagulo@gmail.com Revista semestral, Recife - PE, ISSN 2596-2213
Magris Marcela Dias Maria Clara Dantas Mário Bros Nathê Ferreira Nino Bomp Pedro Granja Sofia Carvalho TheFurmiga Valeria Rey Soto Vi Brasil
Se a arte por si só pode parecer intimidadora, imagine produzir textos sobre ela e, como se não bastasse tal façanha, costurá-los dentro de uma revista. Agora, imagine conceber a identidade visual de um projeto que busca, na materialidade do papel, uma maneira de legitimação. Mentalize, então, que além do conteúdo e da forma física, é fundamental pôr isso na rede, com o intuito de que o público possa conhecer a proposta desenvolvida. Em seguida, pense que quem se propõe a essa atividade não passa de um grupo de universitários. Como elaborar uma revista de qualidade, engajada e lúcida, sendo nós tão jovens? Seria impensável não assumir o medo de parecermos ingênuos ou precipitados durante esse percurso. De fato, abordar processos criativos exige muito, mas muito mais do que imaginávamos ter que empregar de nós quando, em abril, decidimos colocar o projeto para frente. De lá para cá, percebemo-nos em situações-limites, das quais nunca sairíamos sem pesquisa, leitura e debate. Figurativos humanos. As diferentes formas de menção ao corpo serviram de mote para a curadoria realizada em nossa primeira edição. A narrativa proposta se dá através do cruzamento entre vivências e processos dos artistas que, de forma colaborativa, fizeram a revista acontecer. A Propágulo é fruto de uma busca por uma percepção consciente da realidade e da pluralidade a ela inerente. Entendemos nosso projeto, assim, como uma forma de resistência. Percebemos que, de maneira metalinguística ao enfoque proposto, o processo criativo permeia todas as camadas do trabalho por nós aqui desempenhado. Assim, esperamos que o prazer e a dor que sentimos na concepção dos mínimos detalhes deste impresso possam ser amplamente divididos com quem nos lê. Obrigado pelo apoio. Bem-vindos à Propágulo. Guilherme Moraes
Sumário
06
Auro
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Mário Bros
12
A aura do fragmento
31
Mas cadê as minas?
14
Luiza Branco
34
Risco! grupo experimental de desenho
20
Barreiras na afirmação do “eu” feminino
43
Galeria
M AURO A
Entrevista e texto: Nathália Sonatti
Dava para escutar o vento balançar as árvores pela janela do quarto de Mauro enquanto ele era amarrado, pintado e vestido em uma nova casca. Esse processo, entretanto, não era totalmente novo, pois o costume de mexer com sua aparência já fazia parte de quem ele era desde o início de sua adolescência. A novidade era sair assim na rua, onde as pessoas veriam de forma concreta um espectro dos seus muitos ‘eus’, que até então habitavam apenas um mundinho dividido com Mauro, sua mãe e sua irmã em um sítio no bairro da Várzea. Foi assim que nasceu Aura, a qual já havia tentado ser abortada várias vezes pelo medo que o dominava, medo não relacionado a como as pessoas a veriam, mas sim ao enfrentamento oficial entre as diferentes partes dele. Motivado pela necessidade de ver a performance de uma amiga, em mais uma das tantas festas que agitam a noite recifense e, sem dinheiro para tal, ele foi pego tendo que utilizar o último recurso que lhe restava: ir como drag queen, pois assim teria sua entrada free garantida. O que era para ter sido algo pontual, entretanto, acabou se tornando o início de uma série de trabalhos que agora movem a existência de Auro (nome meio-termo entre artista e obra, pelo qual também atende).
“EU ATÉ ESTRANHAVA FICAR ENTRANDO NAS FESTAS DE GRAÇA SEM SER DRAG” 07 FOTO: JE AN
FOTO: Lara Valença
Desde que começou a trazer seus trabalhos para a esfera pública, porém, Mauro foi percebendo que o que fazia se distanciava do ser drag e por isso era estranho para ele continuar entrando nos eventos de graça. Um olhar distraído pode acabar tendo a impressão de que a vida de festas e performances é fácil ou mesmo rentável, quando, na verdade, não é garantido nem transporte até os locais nos quais atua. Aura se apresenta sem ganhar nada em troca, movida apenas pela pura vontade de compartilhar suas sensações com as outras pessoas. Diante disso, o apoio — inclusive financeiro — da família tem um papel fundamental na sua vida. Com os vinte reais que sua mãe lhe deu no bolso, Auro sai à procura de materiais para continuar o trabalho de parto de sua próxima casca. As ideias ainda estão confusas. Nem a maquiagem nem o setlist foram 08
completamente definidos. “Mas o processo de concepção das ideias é sempre assim”, diz ele, “bagunçado”. O trabalho vai fluindo e se materializando aos poucos, quase que de maneira instintiva, sendo um reflexo de boa parte de sua vida, sobre a qual comenta: “não entendia muito o que eu era, o que vivia… só vivia”. Desde o final do ensino médio, Mauro teve uma série de crises, pois não desejava e nem conseguia se ver em uma faculdade. Esse período coincidiu com o momento em que Aura surgiu em sua vida, um direcionamento de sentidos para ele, o que possibilitou manter sua mente sã. O sol já raiou faz tempo e Auro está perambulando pelo quintal com as mãos cheias de folhas secas. Perto da porta de sua casa já tem uma cesta repleta de cipós, galhos e até alguns insetos mortos, que mais tarde possivelmente farão parte de algum trabalho seu. Normalmente o processo todo dura alguns
FOTO: JE FOTO: JE AN AN
FOTO: JE AN
“NÃO ENTENDIA MUITO O QUE EU ERA, O QUE EU VIVIA... SÓ VIVIA.”
FOTO: Fernando Cabral
minutos, mas, às vezes, chega a horas ou mesmo dias, estando sempre dependente dos sentimentos que o movem em direção à necessidade de realizar mais uma performance. É fácil entender sua fascinação pela natureza enquanto ele vai falando sobre sua relação com os elementos dela, tornando inevitável imaginar cenas em que eu o observo se mover entre as plantas, o pé sentindo a areia e o olhar distante, porém focado, como se estivesse em um universo paralelo, no qual a chave de entrada é a sensibilidade dos sentidos. Movido pela pretensão do belo, o performer encontra a sua sublimação a partir do universo em que vive. Penso que é partir do ‘outro’ que passamos a nos enxergar como indivíduos. Sendo um olhar de alteridade o que guia nossas atitudes, é por meio de terceiros que teremos legitimada a imagem que buscamos passar dentro da sociedade. Em contramão, a busca
de Auro se distancia disso na medida em que esses outros que o legitimam como indivíduo são os diferentes “eus” que o constituem, os quais o obedecem em um ciclo onde seus vários espectros estão intercalados e, por vezes, reaparecem em novas versões de si mesmos. Dessa forma, Auro enxerga seu trabalho como uma maximização dele, sendo o espaço onde pode atingir seu momento de maior satisfação existencial. É durante suas performances que se torna possível, segundo o artista, enxergar o mais próximo do que ele é, já que são nesses momentos que sente que tudo no seu corpo está do jeito que precisa estar: natureza sendo beleza, beleza sendo natureza.
@aoruaura
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A aura do fragmento Guilhermina Velicastelo Artista e mestranda em artes visuais
Dentro do que entendemos como pós-modernidade, que se refere a um mundo cheio de incertezas, onde o "pós" significa literalmente nossa incapacidade de definir um mundo ainda em transformação, nos defrontamos com avanços tecnológicos absurdos e teorias que cada vez mais destroem os sólidos cristais da sociedade. Vivemos um período de embate entre o que nós somos, o singular, e esses cristais intransponíveis da história, testemunhados pelo tempo e construídos pouco a pouco por cada gesto de cada um de nós. Tudo o que somos se deve à contemplação desses cristais, à imitação do que conseguimos enxergar neles. Aprendemos o que é um garfo por conta de uma acumulação histórica de significados que decodificamos na eterna contemplação desses cristais. Somos atravessados todos os dias por uma quantidade absurda de imagens. Poucas delas têm o poder de causar em nós alguma coisa maior que indiferença. E, mesmo quando essa imagem transpõe a barreira da indiferença, existem vários níveis de engajamento com determinada imagem. Ou seja, poucas coisas realmente impressionam. Todos têm seu universo particular de afetação, de coisas que lhes são caras. Todavia 12
todos têm dentro de si, independente desse universo singular, a capacidade de estranhar-se com o novo. O que cada pessoa fará com esse estranhamento, entretanto, é uma questão particular. Todos têm a capacidade de reconhecer o que é estranho, indeterminado, o que está dentro de uma penumbra. Pouco visível no tempo. Me refiro especificamente a tudo o que é novo. Os artistas têm essa capacidade de olhar através de uma névoa densa, que é o futuro. Eles são uma espécie de feiticeiros e, em sua clarividência, são capazes de não só prever o futuro, mas também de criá-lo. Nesse contexto, um dos grandes embates é o dos indivíduos cansados de contemplar os dois grandes cristais que dividem as pessoas em homem e mulher. Um cristal azul e um rosa. Um positivo e um negativo. Um deles, razão, e o outro, emoção. Pólos binários que se completam. Ao redor desses grandes cristais, existem outros de menor escala que desestabilizam esses dois grandes pólos. Isso sempre existiu. O que é diferente agora é que cristais muito menores, fragmentos, procuram refletir seu brilho para o outro lado, rompendo com esse conceito binário de gênero.
Esses fragmentos estão se multiplicando, pois cada vez que um grande cristal é destruído, ele gera fragmentos, cada um com sua singularidade. Um desses fragmentos é um artista que, ao mesmo tempo, é conjunto. Conjunto de vários eus que refletem o que cada um tem de mais íntimo dentro de si. Medo e desejo, paradoxalmente unidos em estranhamento. M AURA O é uma dessas crianças plutônicas, inconformadas. Sua existência está mais para o nível do estar momentâneo do que o ser permanente. Sua feitiçaria é se dividir em vários eus, ser esse conjunto que se relaciona com o outro e principalmente com a natureza. Essa criatura não é o ser humano que decidiu se colocar num lugar de dominância. Ela faz parte da natureza, ela é dela cria e criadora. O ato de se fotografar, de se referenciar é resistência de singularidade diante de um mundo e uma cultura cada vez mais massificadora. A sua originalidade está no que os seus diferentes eus causam às pessoas: estranhamento. A sua feitiçaria confronta as pessoas com o que elas têm de estranho dentro delas, com o que elas têm de mais oculto, de mais feio e de mais belo ao mesmo tempo. Ninguém fica indiferente à
sua figura. Outra força dessa criatura é estar no cristal mais fragmentado possível, que é a internet, onde o acesso ao artista é expandido a nível global. Ou seja, ela está e não está ao mesmo tempo, visto que paradoxalmente, mesmo num alcance global, mesmo sendo vários eus, ainda consegue ser um só. M AURA O é muitas coisas. Seria mais fácil dizer que o que ela não é. Não é homem, nem mulher, não é caricatura, não é drag, não é trans, e a lista continua. Só ele pode definir-se. Esse é o mote da singularidade, da pós-modernidade. O definir-se é devir, e o que essa criatura está fazendo é um contínuo que dá significado a esses fragmentos, que talvez se unam novamente em grandes cristais.
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LUIZA BRANCO A permanência dos contrastes na trajetória da artista Entrevista: Nathália Sonatti Texto: Guilherme Moraes, Nathália Sonatti e Bruna Lira
Depois da série Sombria, com mais de 200 trabalhos relacionados ao corpo feminino, a recifense Luiza Branco deixou a arte figurativa de lado e partiu para se aventurar em outro mundo, o abstrato. A mudança coincidiu com sua ida para São Paulo, onde mora e estuda hoje. Lá ela encontrou o fim de um ciclo e esbarrou com o começo de outro nas paredes e ruas da capital paulista, que se tornaram as principais fontes de inspiração para a nova fase de seu trabalho. Assim como muitas outras crianças, Luiza tinha o hábito de desenhar durante a infância. O desenho sempre esteve presente em sua vida, tanto que admite não recordar de um período no qual não produzisse. Quando menor, ela costumava dividir esses momentos com sua mãe, também artista, e ao ser questionada sobre como levou a arte para a instância de trabalho ela conta “a maioria das crianças sempre desenha, né? A gente sempre tem essa facilidade para criar quando é criança, mas a gente simplesmente para um dia. A diferença principal acho que foi que eu não parei”. Na adolescência, incomodada com as expectativas em relação à sua carreira e com as imposições sociais que sofria por ser mulher, ela sentia crescer em si a necessidade de gritar. Para a sua primeira série, buscou inspiração nos corpos e histórias de mulheres 14
que a cercavam. Partindo de fotos que tirava das suas amigas e de seu próprio imaginário, ela traduziu, através de materiais como carvão, tinta e papel, a angústia que permeia a existência feminina, ansiando a libertação. Luiza não estava mais calada. A partir da vivência artística, atravessada pelo seu aprofundamento em estudos sobre feminismo, Luiza percebeu um amadurecimento extremo na sua forma de ser. O maior objetivo da artista em Sombria era o de explicitar o sentimento da mulher perante uma sociedade que impõe uma padronização violenta do corpo, o que confere à sua obra um caráter político. Sobre isso, Branco defende que “a arte não é só um pedaço de papel, uma tela ou uma fotografia: tem toda uma reflexão por trás”. Através de um traço próprio, desconstruiu a representação óbvia da figura feminina. Foi retratando cabeças carecas, ventres cortados e diversas formas de torsos, que a pintora provocou uma identificação subjetiva entre ela mesma, suas modelos e todas as demais interlocutoras da obra. É reconhecendo a riqueza dessa experiência que a artista afirma,“Essa série é e sempre será a mais importante da minha vida. Foi com ela que eu amadureci, eu cresci não só como mulher, mas como artista, como pessoa”.
Sem tĂtulo, 2016 CarvĂŁo, grafite e colagem sobre papel 29.7 X 42 cm
Sem título, 2016 Carvão e pastel seco sobre papel 40 X 50 cm
Ainda que tenha conseguido abordar de forma visceral a temática sobre a qual se debruçou, a produção inicial de Luiza aconteceu no que ela admitiu ter sido sua zona de conforto. Isso se deu principalmente por conta das limitações atreladas ao contexto em que vivia na época, pois seu espaço de trabalho ficava reduzido ao seu quarto, na casa onde morava com sua família, em Recife. Dessa forma, o tamanho de suas figuras de aspectos picassianos também foi condicionado às limitações físicas do ambiente. No início de 2017, diversas mudanças aconteceram na vida de Luiza com sua ida para São Paulo. A partir do momento em que resolveu se arriscar pessoal e profissionalmente ao deixar sua cidade natal, a artista questionou diversas de suas verdades, mergulhando em uma nova fase de pesquisas em sua carreira. Sobre Sombria, conclui “no momento em que eu consegui começar a me desprender desse caminho, eu olhei e falei: nossa, realmente… acho que a figura feminina que eu sempre, sempre trabalho… Esse ciclo foi fechado. Foi bonito”. Branco deixa para trás o seu quarto, o seu nicho profissional e o figurativo. Em contrapartida, traz novas referências ao seu processo criativo. “Hoje em dia eu tô fazen-
do um estudo muito profundo do Expressionismo Abstrato dos anos 50 […] porque mudou tudo agora. Mudou meu estilo, mudou várias coisas. Eu tô estudando, tô abrindo livro mesmo, para cada vez achar mais influências sobre esse novo trabalho”. A mudança de ambiente traz novas possibilidades a serem exploradas pela artista que, usando um dos cômodos de sua nova casa como ateliê, pensa em criar obras megalomaníacas (sic.), como painéis de 3 a 5 metros. “O processo criativo que eu tô fazendo hoje não começa em casa. Eu tô fazendo uma série em que eu pego referências cotidianas na rua, nas calçadas, nas paredes e pego texturas que me interessam” diz a pintora sobre sua fase abstrata, à qual se refere como Recortes Urbanos. Evidenciando um aspecto essencial no seu fazer artístico, a experimentação, ela comenta “Têm resultados que eu simplesmente detesto, eu passo uma tinta branca por cima e finjo que nada aconteceu, sabe? E têm resultados que eu simplesmente fico apaixonada”. Luiza Branco, dessa forma, se mostra como uma artista que aceita, assume e aproveita seu constante estado de busca.
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Estudo final de têmpera de ovos II, Têmpera de ovos sobre tela 40 X 50 cm, 2017
Apesar de já ter se arriscado em trabalhos coloridos, esse aspecto não é o forte de Luiza, que diz sobre o preto e branco: “me emociona a junção dessas duas cores e eu acho que a dramaticidade delas é muito maior e eu gosto dessa melancolia que meu trabalho tem, que preto e branco dá”. Essa 18
Estudo final de têmpera de ovos I, Têmpera de ovos sobre tela 80 X 100 cm, 2017
dicotomia contida em seu trabalho é um dos aspectos mais constantes e importantes para a apreensão de sua poética, que embora se apresente de forma aparentemente dual, tem justamente nesse contraste plástico o seu elo. @luizabranc
Barreiras na afirmação do “eu” feminino Marcela Dias Artista e estudante de artes visuais
Muitas vezes durante a minha vida, eu senti vontade de compartilhar minhas ideias com outras pessoas em determinados espaços (salas de aula, reuniões de família, rodas de conversas, etc.), mas só de pensar na possibilidade de falar algo que eu acredito para outras pessoas fico tão nervosa que, por fim, acabo por me retrair e guardar aquilo dentro de mim. E, se por acaso, termino compartilhando, fico pensando detalhadamente no que eu disse e em como foi desnecessário abrir a minha boca naquele momento. “Daqui pra frente eu vou falar só quando for extremamente necessário”, é o que costumo pensar quando compartilho algo. Junto a essa falta de autoestima intelectual, anda comigo a grande dificuldade de me enxergar como artista e perceber valor naquilo que eu produzo, daí mais uma vez eu venho e tento me conter e me esconder o máximo possível. Afinal, eu ainda “posso melhorar” e também “ainda não cheguei lá”.
sando com algumas amigas, percebi que esse era um estado muito comum e que, coincidentemente, era partilhado por algumas mulheres do meu meio social. Paralelamente a essa percepção, eu observava como era fácil para os homens que fazem parte do meu cotidiano explanar suas ideias sem aquele grande peso do “medo de errar” ou, na prática artística, a grande odisseia do “eu ainda posso melhorar”, seguido do ato de guardar o seu trabalho. Trabalho esse que você passou um tempão vivenciando o processo de construção e que foi tão rico… mas que merece ficar ali jogado na sua mesa, guardado na sua pasta ou, até mesmo, rasgado e posto fora. É claro que a frustração e a angústia, muitas vezes, fazem parte desse processo, mas é preciso analisar as questões que existem por trás dessa relação de autorrejeição. Às vezes basta uma frase negativa pra que a gente fique pensando se aquilo tudo realmente vale a pena.
Eu achava que esse era um sentimento particular e que eu me sentia assim porque era uma questão minha como indivíduo, até que, analisando algumas situações e conver-
Dentre essas inquietações como mulher, perguntei para amigas algumas frases que foram ditas por homens durante a vida de cada uma e que, de alguma forma, as fizeram
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se sentir diminuídas. Dentre essas frases, algumas são: “tenha pudor”, “você é muito problemática”, “ninguém nunca vai te amar como eu”, “ninguém vai te querer se você continuar pensando assim”, “falta força no seu trabalho”. Algumas dessas frases se repetiram várias vezes por mulheres diferentes e eu achei muito curioso como a vida da gente se torna semelhante quando a questão envolve homens e toda a complexidade que está presente nessas relações, que já são estruturalmente desiguais. Também fiquei inquieta com o fato de que essas frases (dentre tantas situações que compõem esse mundo que parece não gostar muito das mulheres) fazem com que nós nos limitemos e nos fazem pensar que a gente não vai conseguir seguir a vida de forma independente. E esse sentimento, é claro, transborda pra o nosso fazer artístico. Colocando-me como espectadora de uma obra, eu sempre me sinto mais próxima daquela que é produzida por uma mulher (por conta da representatividade mesmo) e me anima quando eu percebo que as minhas amigas artistas ganham forças e produzem
algo de que elas se orgulham. Mas esse processo de artista que produz até a exposição dessa obra é árduo, dói. E quando se é mulher dói muito mais porque a gente está acostumada a não mostrar, a não fazer, a não estar. Como a gente constrói esse caminho de dedicação a nós mesmas? Como começar e como perder as inseguranças inscritas em nós por essa sociedade machista? Eu ainda não sei as respostas dessas perguntas, mas quanto mais eu tenho feito esse exercício de olhar para essas características minhas de podagem, que se repetem entre tantas, mais eu entendo o quanto é importante me colocar como artista e mulher, porque no momento em que eu me retraio eu dou vez a todas aquelas vozes masculinas que, no decorrer da minha história, me diminuíram e fizeram com que eu não me sentisse capaz. Esse texto é um convite para a gente tentar responder essas perguntas e cada vez mais nos colocarmos, produzirmos e mostrarmos (sim!) os nossos trabalhos. Assim como eu me sinto mais forte ao contemplar a obra de uma mulher, outras também podem se sentir mais fortes vendo a sua produção.
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Entrevista: Nathália Sonatti Texto: Nathália Sonatti, Bruna Lira e Guilherme Moraes
Fascinado pelas diferentes formas de expressão artística, Mário Miranda (Bros), 23 anos, é um grafiteiro, ilustrador e tatuador, nascido no bairro do Derby, que atualmente mora em Camaragibe. Ele é um artista plural, pois explora múltiplas linguagens ao longo de sua produção, buscando suas referências em movimentos artísticos como graffiti, poesia, música, performance, instalação, e até dança e teatro. Mário surpreende com relatos de suas vivências e do mundo que o cerca, através de obras vorazes, cheias de assimetria e traços cortantes, que contrastam com sua personalidade afetuosa. Desde muito novo, Bros já costumava desenhar, tendo participado, inclusive, de alguns concursos de desenho quando criança. Entretanto, durante grande parte de sua vida, estudou no Colégio da Polícia Militar e foi apenas quando saiu para outra instituição do Ensino Público que começou a ver a carreira artística como uma possibilidade, inspirado pelos seus professores de literatura. Em 2011, iniciou suas práticas enquanto artista urbano, após conhecer o graffiti. Mário atualmente é formado como ilustrador profissional pelo SENAC-PE, tendo atuado em diversos espaços do estado, inclusive no Festival Internacional de Graffiti (RECIFUSION). Além disso, está no processo de formação de um coletivo, o Cola Rato, que reúne trabalhos de diversos artistas visuais recifenses em um resultado único e sólido. Sem título Colagem digital, 2017
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ÂMAGO - A parte mais íntima do ser Ilustração/ Colagem digital, 2017
P - Ao longo do tempo, você foi tendo contato com diferentes técnicas e plataformas, que foram sendo incorporadas em seu trabalho. Como isso se dá? MB - Essa linha do tempo não é uma
coisa que é muito nítida. Quando comecei, eu não tinha técnica nenhuma, né? Eu fico pensando que era um lance muito tosco, um bagulho que tipo assim “como é que alguém gostava disso?”. Gente, era horrível! Ou a pessoa tinha mal gosto, ou ela estava mentindo, mesmo (risos). Com o passar do tempo, vou estudando técnicas e adquirindo outras coisas. Eu sempre gostei dessa questão da multiplicidade artística, envolver várias linguagens em uma produção só. Esse aspecto de juntar várias linguagens é muito forte pois eu sempre gostei de misturar meu graffiti com minha poesia. Então de qualquer forma era muito minha vida ali, porque a poesia falava sobre mim, meu desenho sobre a poesia e o graffiti na rua era a retratação do que eu tinha desenhado. Essa coisa de misturar uma coisa com a outra, na verdade, não acredito muito que seja uma mistura, sabe? Mais recentemente, comecei a estudar colagem, que quero levar para o graffiti também, mas tô tendo certa dificuldade. Esse negócio de adquirir linguagens diferentes se dá de forma muito natural, como eu sendo a pessoa que consome e a que produz.
P - Como foi levar sua arte para a instância da tatuagem também?
MB - Muito da minha vontade de tatuar
foi pelas pessoas me incentivarem a isso, só depois eu começo a entender ela como outra forma de me expressar artisticamente. A tatuagem tem particularidades que nenhuma outra expressão artística tem, e acho que, por necessitar de um processo, ela me atrai. Hoje em dia, minha tatuagem é autoral, então quando recebo uma proposta, eu vou pesquisar sobre tudo o que engloba aquilo. Isso que me atrai, você ter que procurar, pesquisar.
P - Diante desta diversa gama de modos de realizar seu fazer artístico, existe algum deles com o qual você se identifique mais, em que se sinta mais confortável produzindo? MB - Hoje, colagem é um processo artís-
tico em que eu me encontrei. Sempre gostei de colagem, e tinha um cara aqui em Recife que era o único que fazia colagem, Xadai [Rudá]. Daí eu fui falar com ele “pô, eu gosto muito do teu trabalho”, e Xadai, muito simples como ele sempre é: “meu irmão, qualquer pessoa pode fazer colagem, é só você cortar e colar as coisas”, e eu “que massa isso!”. Mas eu não gostei do processo de colagem manual, daí começo a pensar que eu poderia fazer colagem digital. Hoje em dia, é uma coisa que eu gosto bastante e até deixei umas áreas escanteadas para fazer ela, é a coisa que gosto mais.
P - Na multiplicidade de meios com a qual você trabalha, é perceptível para você algo que permeia todos eles? 25
Afro tropical Afro tropical Colagem digital, 2017 Colagem digital, 2017
Morremos todo dia, colab Lucas Faustino, Graffiti, 2016
MB - A poesia. Ela é a forma com que eu
Como que eu ia desenhar essas pessoas? No começo foi uma espécie de processo de colagem também, porque eu pegava uma forma de desenhar aquilo, tipo, sei lá, um preenchimento de uma boca, por exemplo. Toda vez quando alguém vem me perguntar como consegui ter um traço definido é porque quando vê meu desenho, reconhece ele.
P - Como foi o processo de encontrar seu próprio traço?
Não posso simplesmente replicar algo que alguém fez, porque não seria eu. Então, conseguir um traço autoral é justamente esse exercício, é preciso definir, transformar quem você é em desenho e isso aí exige estudo, exige técnica. É preciso aprender como se desenha isso, como se desenha aquilo, mas sem anular quem você é.
transformo o que eu consumo em arte, seja até mesmo uma música. Tudo que me inspira vira, dentro de mim, poesia e não necessariamente de forma escrita. Minha tattoo, meu graffiti, minha tag, minha ilustração, todas essas linguagens em que eu atuo como artista, sempre faço pela poesia (pausa pequena), sempre.
MB - Esse lance do traço foi realmente um exercício. Estava definindo o que seria meu grafite, e já tinha certo que não seria wildstyle, não seria meu nome, não seria nada relacionado a letra. Então, decidi que seriam personagens, porque era uma coisa que eu gostava de desenhar. Eu gostava de retratar pessoas, só que...
P - O que você diria que mais mudou ao longo desse processo? 27
ONĂ?RICO SER Colagem digital, 2017
MB - Eu acho que o que mais muda é a
questão da técnica, porque o conceito é sempre o mesmo, sabe? Vai ser sempre eu falando sobre mim, o que não significa que eu fale apenas sobre as minhas vivências, falo sobre tudo que está ao redor de mim - pode até ser sobre outra pessoa, mas sou eu olhando e retratando ela, transformando-a em um graffiti, em um lambe... Enfim, o que mudou foi a técnica, o conceito permaneceu.
P - Por que ser e continuar sendo artista em Recife? MB - Essa pergunta é interessante porque eu não sou daqui, né? Eu sou de Camaragibe, mas atuo como artista em Recife. Recife me abraça, ela é uma cidade artística. Todas as experimentações, cursos, foram sempre em Recife. Lembro de assistir quando muito pequeno, alguns vídeos e ver uma galera usando uma Posca, que eu não sabia o que era, mas era o fascínio da minha vida, meu sonho de consumo. Um amigo que já fazia graffiti me falou que tinha um cara, no Centro, que vendia Posca, esse cara era Johny¹. Eu ficava pensando “quando vai ser um dia que eu vou ter uma?”. Enfim, o engraçado é que hoje estou aqui, no lugar que eu imaginava que vendia. Então eu já me sinto pertencente a este ambiente. Aqui foi minha escola, mas eu luto ainda para atuar mais em Camaragibe, pois a minha pretensão é atuar nos dois.
P - Como se dá o diálogo entre espiritualidade e o seu trabalho? ¹ Johny Cavalcanti, escritor de graffiti, artista visual, produtor cultural responsável pela Recifusion e empreendedor da 33ink Graffiti Shopping.
MB - Eu venho de uma família evangélica, e,
de certa forma, tudo que eu faço perpassa por minha vivência no cristianismo, isso não se perde no caminho e está comigo até hoje. Algumas pessoas se impressionam, pois não costumo colocar a minha posição religiosa. Mas é isso, eu sou cristão, sou praticante. Não tem como isso não fazer parte do meu fazer arte, e não necessariamente vai ter um versículo ou, sei lá, “Jesus te ama”. Eu acredito em Deus como ser artístico maior e quando estou atuando com aquilo que eu sou verdadeiramente, eu acho que isso é a plenitude do que a sua pergunta me questiona, de quanto a espiritualidade está presente. Enfim, eu sou isso e quando não me podo, quando eu não me deslegitimo, estou agindo de uma forma muito sincera comigo mesmo, e aí é quando as desigualdades, os processos sociais se englobam e acontecem no meu fazer artístico.
P - Você já sofreu alguma represália por trabalhar com arte de rua? ² MB - Quando eu era da escola, geral-
mente os caras que querem ser grafiteiros, e as minas, vieram de um histórico de “pixar no caderno, já fazer uns bomb… A minha vivência não foi essa. Eu venho de uma família religiosa, então tudo isso era muito marginalizado, né? E isso tudo se mistura com a minha realidade como pessoa negra. Eu não vivi a periferia em que eu morei, então quando eu chego no graffiti já é de uma outra forma, a apreciação pelas cores, pelas formas e tal. E daí, o meu graffiti, quando visto de fora, é menos marginalizado do que o de quem já tem uma vivência mais da periferia, da pessoa negra que
² Pergunta feita por Débora Rodrigues, estudante de Jornalismo.
veio do pixo. Então assim, eu nunca vivi essa represália. Por que alguém encaixado em um mesmo recorte social sofre enquanto o outro não sofre? Talvez seja porque eu tenho mais privilégios, né? Eu tenho mais privilégios do que algumas outras pessoas e isso é doido, né? Porque, de qualquer forma, sou uma pessoa negra na rua. Então assim, eu nunca sofri justamente porque o meu graffiti é considerado arte para as pessoas. Aí a gente volta para aquela discussão milenar, né? Do processo de curadoria do olho, assim “quem é o artista e quem é o baderneiro?”, então isso vai muito socialmente, a roupa que a pessoa está usando, de onde ela vem, o que ela fala, qual forma de ela falar, se ela usa gíria ou não, tá ligado?
MB - Então, eu acho que o meu processo criativo é o meu trabalho. Posso dizer que, dentre tudo que falei, o que é mais verdadeiro é isso que eu estou falando agora. Tem uma frase de um artista plástico, que eu não lembro o nome agora, que falou assim “como eu não bato ponto, eu estou sempre trabalhando”, então é isso. A minha vida é o meu processo artístico. Nem sempre estou consumando coisas, nem sempre a ilustração que fiz durante o dia vai se tornar uma tela que vou vender. Mas não considero trabalho tudo aquilo que consigo vender, eu entendo como trabalho tudo aquilo que requer esforço meu.
P - Qual a maior dificuldade que você enfrenta em seu trabalho? MB - A limitação de recursos, além também da questão do conhecimento. Por um momento da minha vida, me forcei a acreditar que o que me legitimaria como artista era estar na universidade, passar por esse processo de entender, de teorizar e, no final das contas, receber um diploma. Daí eu entro na universidade, não como estudante, mas como artista em alguns momentos, como palestrante e em rodas de diálogo em outros, vou vendo as problemáticas e isso vai perdendo o sentido cada vez mais. O que me faz ser artista é quando eu estou sendo, não quando alguém diz que eu sou. P - Qual a importância do processo criativo dentro de seu trabalho? 30
@omariobros_
Sem título Colagem digital, 2017
O graffiti e o movimento Hip Hop fortalecem sim. Mas cadê as minas? Nathê Ferreira Grafiteira e estudante de artes visuais
Fazendo um salve geral, o Hip Hop surge dentro dos guetos afro-americanos e de imigrantes latinos e aterrissa nos subúrbios e quebradas brasileiras, populações que mais sofrem com as discriminações sociais e étnico-raciais. O movimento é caracterizado como manifestação político-cultural que denuncia as dificuldades enfrentadas em contexto de pobreza, violência e racismo e é alinhado com a missão de “união, paz e diversão”, levantados por Afrika Bambaata. Ele se divide em quatro elementos artísticos: o rap, o DJ, o break dance e o graffiti, como instrumentos de denúncia, de protesto, de “passar a mensagem”. E ainda, não menos importante, pode-se falar de um quinto que intersecta todos os outros: a informação como geradora de conhecimento.
Além de diversão e entretenimento, o Hip Hop denuncia todas as dificuldades que a periferia tem que conviver dia após dia. O graffiti, em especial, proporciona a expressão artística e política através dos muros, transformando-os, quando quase não são observados, por estarem nas ruas. Normalmente, as pessoas apenas as usam para transitar e não para parar e observar atenciosamente uma arte, sendo esse o diferencial interessante do graffiti: usar a rua, um local efêmero, que contém perigos, como forma de ressignificá-la e torná-la ponto principal e não coadjuvante. No entanto, como toda história das artes no Brasil, as mulheres dentro dessa manifestação são invisibilizadas. Elas são sempre “homenageadas” pelo homem mas quase nunca aparecem como produtoras e protagonistas dos 31
seus rolês. Enquanto grafiteira, observei várias situações de fortalecimento dentro do movimento, mas também de exclusão. Entrei no Hip Hop através de mulheres, mas sempre via a exclusão delas dentro do movimento. Era nítido pra mim, observando shows e mutirões de graffiti, que havia uma tímida participação das minas. Normalmente ou elas estão acompanhadas de namorados e parentes homens, ou ficam na produção e distribuição da comida, espaço que já é destinado a nós - a cozinha. Essas histórias são bem comuns, infelizmente chega a ser natural que quando o relacionamento com os caras termina, também termine a participação dessas jovens na cultura Hip Hop. Tem mulher, inclusive, que fica conhecida como “a namorada de fulano”, como se não tivesse identidade própria e como se não tivesse nenhum vínculo com o movimento, apenas com o companheiro. Pegando a visão sobre os movimentos sociais no geral, de certa forma existe um ocultamento da presença feminina quando estes são movimentos mistos, pois a mulher é sempre posta em segundo lugar e em posição de subordinação. Até o próprio movimento feminista não escapa, porque ele foi construído por mulheres brancas de classe mais abastada, o que dificultava essa ligação com mulheres negras e pobres, que eram, e ainda são, minoria nesses meios. Rola uma genera32
lização do conceito do que é ser mulher, não sendo feita uma distinção de situação social e, principalmente, de raça-etnia. O feminismo não está isento de reproduzir outras opressões, como racismo. A luta por uma igualdade de gênero, raça e classe também é uma luta pelo reconhecimento das diferenças dentro dessa igualdade. Dentro das igualdades surgem diversas identidades, que podem ser reafirmadas como processos políticos e sociais. As opressões que essas mulheres passam dentro do movimento Hip Hop são muitas. A maioria delas, de desistentes a sobreviventes, já passou por assédios, foi inferiorizada ao ter seu trabalho comparado ao de outro cara, foi tratada com desrespeito quando estava sozinha, teve maior “padrão de qualidade” para trabalho em relação aos caras, teve um graffiti “queimado” (quando outra pessoa grafita por cima de um graffiti já existente, entendido como provocação e falta de respeito) por grafiteiros e teve seu trabalho posto à prova por acharem que mulher não tem capacidade de pintar grandes muros. Gato, pintamos mais de 500 metros de muro em dois dias, passa lá no bairro do Totó pra te provar! Outro motivo de afastamento é quando essas mulheres têm filhos. Esse e outros papéis ditos femininos também impedem que elas continuem na caminhada, o que é bem diferente quando acontece de um grafiteiro tornar-se pai. Os espaços públicos são limita-
dos para a mulher, e o principal argumento para isso é de que existem obrigações que ela deve cumprir, como ser mãe e dona de casa. Além disso, não ter idade e porte físico suficientes para desempenhar determinadas atividades também são justificativas utilizadas pelo senso comum, dentro da ótica do Hip Hop, para esse espaço ser inadequado para a mulher. Diante disso tudo, a melhor forma encontrada para continuar a quebrarem todas essas estatísticas de afastamento é se unirem em grupos. A partir daí mulheres rappers, bgirls e grafiteiras sentiram a necessidade de se unir, para se fortalecerem e reivindicarem seus direitos para a sociedade. Ao fazerem denúncias através dos elementos do Hip Hop acerca do machismo e das outras opressões que sofrem diariamente, trazem uma nova proposta no âmbito da cidade, com o objetivo de se fortalecerem, produzindo ações para reunir mulheres em um espaço coletivo que busque combater o preconceito contra o trabalho e a arte feminina. Todas afirmam que se sentem mais confortáveis quando estão grafitando só com as meninas do que quando estão com os meninos. Os depoimentos encontram eco e fortalecem a necessidade de eventos e crews exclusivo de mulheres, como as nordestinas Cores Femininas, Do Laço Crew, Poder Feminino Crew, Donas do Rolê, Pixe Girls, Arteiras, Flores Crew, e outras pelo país como Efemmeras (SP) e Minas de Minas (MG).
A forma delas de lidarem com a cidade também muda. Ao participarem dessa cultura, elas passam a conhecer a sua própria cidade, ir em bairros e em comunidades que sequer imaginavam que existiam, andar à noite, embaixo de pontes, em cima dos prédios. Seus graffitis normalmente falam das suas experiências pessoais, quem são, onde vivem, revelando como se vêem, como constroem suas identidades. Elas exercem em sua fala o direito de expressar suas próprias experiências, fortalecendo-se enquanto seres coletivos e femininos. Fica aí como moral da história que, embora esse e outros movimentos sociais tenham presentes em suas pautas questões como união, liberdade e respeito, encontramos pontos que demonstram ambiguidades, sendo passíveis de reflexões. Faz-se necessário, então, que nossos gritos estremeçam as barreiras do silenciamento e abram portas para a liberdade e resgate da nossa humanidade. A tentativa de reverter este quadro está presente diariamente nos nossos discursos porque reivindicamos representações e falas próprias. Elas se unem e apontam, portanto, que no graffiti as mulheres podem tudo. Respeita as minas!
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Sento. Não nego a inquietude e o caos, eles estão agarrados às pontuações que separam meus gestos. Foi. Suspiro, agora meus braços também tocam o chão, os minutos passam e as raízes vão crescendo por entre meus pêlos, me contendo de um ataque à presa interior. Na minha cabeça, grito até calar a música que toca a pele, enquanto giro para a sala ficar estática em um borrão tal qual minhas sensações. A consciência dos olhares das pessoas me faz flutuar para longe e é apenas o peso dos riscos sobre as minhas linhas que trazem meu eu de volta. Foi. Me retraio toda dessa vez, virando um nó enovelado, na esperança desesperada de que saiam puxando todos os meus fios até não sobrar nem mesmo um fiapo de minha existência. Tento não pensar, mas me perco nas escadas das angústias e receios sem sucesso em achar a saída de emergência. Foi. Levanto abruptamente como se estivesse decidida a correr e ir embora. Fico, 5 minutos. Minhas orelhas encostam em minha mão. Engasgo com o pensamento de ter que pronunciar minha voz outra vez quando tudo passar. Permaneço parada enquanto transito pelas folhas, guiada pelos movimentos de mãos que tentam me alcançar. Quero fugir rápido o suficiente para me transformar em um ponto fora da reta de seus olhares. Foi. Sento-me, a cabeça pende para baixo como se cansada de aguentar o volume das vozes, apesar da música ser o único som que enche a sala. Meus braços se esticam por cima de minha perna na tentativa de tocar meu pé, conectando um extremo a outro, vejo tudo cada vez mais preso dentro de mim, em um ciclo de pele e dor. Foi. Apoiada em uma perna, alongo a outra para me lembrar que o equilíbrio não é feito de partes iguais. Sinto meu corpo reclamar e eu quero que continue, que berre comigo, que tente me fazer escutá-lo, pois sua voz é quase inaudível em meio a rotina do concreto e da razão. Foi. Volto a me sentar, agora, com o tronco inclinado para trás. Encaro uma luz da sala, ela parece ficar mais forte a cada minuto que passa. Não desvio, quero que ela tome conta de mim até sermos uma só, que cegue cada instante de angústia, me confundindo sonho e realidade. Seguro o choro. Foi. Levanto.
Relato de Nathália Sonatti após posar para o Risco! Grupo Experimental de Desenho
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5,6&2 *5832 (;3(5,0(17$/ '( '(6(1+2 Entrevista: Bruna Lira e Nathรกlia Sonatti Texto: Bruna Lira, Nathรกlia Sonatti e Guilherme Moraes
FOTO: Nino Bomp MODELO: Linda DeMorrir
À primeira vista, não parece haver espaço para as subjetividades divergentes em meio à sufocante vida urbana. Entretanto, percebendo as fissuras presentes na realidade cotidiana, Michel Foucault desenvolve a ideia de heterotopia. Este conceito compreende espaços físicos que invertem a lógica usual de funcionamento de uma determinada cultura. O comportamento das pessoas, uma vez nesses locais, diverge da forma como elas agem no lado de fora, seja por coerção ou por escolha. As heterotopias, dessa maneira, podem atuar tanto no condicionamento dos indivíduos tidos como desajustados sociais, atra-
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vés da disciplina e do controle, como é o caso do manicômio e da prisão, quanto como uma salvação para os que precisam fugir das normas convencionais. Acreditamos, nesse sentido, no potencial da arte de possibilitar o alargamento da vida humana. E é justamente por conta da teimosia de grupos artísticos que insistem em existir, que no Sexto Andar do Edifício Pernambuco, às 19h, nas segundas-feiras, acontece o Risco! Grupo Experimental de Desenho. Após um desses encontros, a Propágulo propôs uma roda de diálogo com as pessoas presentes, a partir da qual foi construída esta reportagem.
BRUNA RAFAELLA FERRER E A TRAJETÓRIA DO RISCO! "É a minha primeira sessão e eu nem desenho tanto. Até brinquei com Heitor dizendo assim 'Eu só vou desenhar boneco de palito lá!'. Mas eu achei bem interessante porque pela primeira vez eu comecei a reparar que o corpo tem linhas!" (Luíza Lira, artista) A fim de ampliar as atividades que estavam sendo ofertadas na grade curricular do curso de Artes Visuais da AESO (Faculdades Integradas Barros Melo - Olinda), o Risco! surgiu em 2012, tendo como idealizadores alguns professores da instituição à época, dentre os quais estava Bruna Rafaella Ferrer, assim como André Aquino, coordenador do curso, e Eduardo Souza, que era professor da disciplina de Desenho. Todavia, desde o início, o Risco! atuou como um grupo aberto, não possuindo membros fixos nem regras fechadas, e rapidamente se desvinculou de um circuito acadêmico, de forma que, até hoje, qualquer um que esteja interessado pode participar das sessões. A ideia do coletivo, segundo Bruna, é ser “um lugar de encontro para pessoas experimentarem desenho ou performance, considerando o gesto criativo da performance do modelo vivo”. Nesse sentido, o Risco! tem sido um espaço de laboratório dos modelos, que testam desde poses mais tradicionais até proposição de fronteiras com a dança, o
teatro, e outras linguagens. Com a intenção de ser um local acessível para o público, o grupo de estudo se construiu ao longo de vários espaços culturais, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) e no Sexto Andar do Edifício Pernambuco. Além disso, embora atualmente se mantenha constante no Edifício, o Risco! promove sessões itinerantes e colaborativas pela cidade, tendo participado de projetos na Galeria Janete Costa e no Instituto Ricardo Brennand. O coletivo sempre funcionou de maneira horizontal. Dentro dessa dinâmica, Bruna foi se identificando com o papel de gestora, acerca do qual afirma "Gosto de otimizar projetos e pensar situações, e esse é o lugar onde tenho a oportunidade de experimentar isso, juntando pessoas, que é outra coisa que gosto de fazer”. Para além da gestão, entretanto, existem inúmeras posições de atuação dentro do Risco!, que não pertencem unicamente a uma pessoa, mas que se encontram em constante intercâmbio. “Tem muita gente que vem desenhar e acaba posando, sendo propositor de uma sessão orientada. Como tem gente que chega como modelo e depois vem como desenhista”, explica a artista, antes de concluir “Não somos mais só um grupo de desenho, somos um grupo de múltiplas experimentações”.
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FOTO: Cรกtia Ono PERFORMER: Luciana Pinheiro
HEITOR E AS POTENCIALIDADES DO COLETIVO
"É que no dia-a-dia, falando isso como pessoa que vem pela primeira vez aqui, você não tem muito espaço pra se expressar com o corpo - o corpo fica um tanto contraído o tempo inteiro. E aí essa possibilidade, mesmo que num instante, de você se abrir mais... Cria espaço para um tipo especial de conexão." (Leandro Lage, estudante de Psicologia e entusiasta de arte) A multiplicidade de papéis assumidos pelo artista visual Heitor Dutra é um excelente exemplo de como a atuação no Risco! se dá de maneiras diversas. Frequentador assíduo, ele já modelou e também foi o inaugurador da sessão orientada, na qual um artista atua como propositor de um material ou tema específico, sobre o qual todos os outros desenhistas presentes irão se debruçar naquele momento. No seu caso, apresentou o pastel oleoso, bastante utilizado em suas obras. Sobre isso, disse “É bonito isso de todo mundo estar afinado, todo mundo fazer o que quer, cada um ter a sua pesquisa, mas todo mundo usar o mesmo material. Então existem limitações e potencialidades que todos estão dividindo ali”. Assim que soube da existência do Risco!, Heitor se interessou imediatamente em participar daquele espaço, uma vez que trabalha com desenho. De forma parecida,
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foi a sua vivência com dança e performance que o impulsionou para a experiência de modelo vivo, acerca da qual brinca “eu sou uma pessoa bem… Eu não saio tirando a roupa por aí (risos). E foi muito legal!”. Ir ao Risco!, portanto, é estar aberto a propor e a receber proposições, é estar aberto a trocas. Da mesma maneira que o pastel impôs uma limitação aos participantes - à qual eles rebatem igualmente com a especificidade de seus traços - o modelo provoca e é provocado pelos desenhistas.
VI BRASIL E AS CONEXÕES DA MODELAGEM “Eu estudei Belas Artes em uma faculdade bem tradicional na Espanha e tinha um modelo para 100 pessoas desenhando. O modelo tá lá em cima e acabou, vai embora. Não tem esse vínculo, o que é muito diferente em um grupo pequeno." (Valeria Rey Soto, artista plástica) O processo curatorial dos modelos vivos foi se modificando ao longo dos anos, pois enquanto antes era preciso ir atrás de pessoas dispostas a posar no Risco!, atualmente a
dificuldade é dar conta da grande demanda de interessados no trabalho. Vi Brasil, artista visual, cênica, escritora…, é a principal colaboradora na organização das participações dos modelos. De acordo com ela, há uma preocupação do coletivo em "tentar diversificar os corpos, assim… as anatomias, as estéticas, as identidades de gênero”, além da pluralidade de propostas, uma vez que até famílias e grupos de dança já posaram. Logo, qualquer pessoa pode se apresentar como modelo, pois faz parte dos objetivos do grupo mesclar antigos e novos propositores. Acontece durante a sessão, segundo Vi, uma conversa corporal silenciosa entre modelo e desenhista. O espaço experimental possibilita, assim, o desenvolvimento de uma conexão muito singular entre ambos, que ela identifica em sua relação com Valeria e Demétrio, por exemplo. “Eu sei que ela [Valeria] adora quando meu rosto tá virado pra ela! Eu sei do que Demétrio gosta também, gosta de umas torções, ele se empolga pra desenhar e ele nunca precisou me explicar isso”, pontua a artista, completando “eles acompanharam fases da minha vida, do meu corpo, gravidez, alterações, e eu percebo essas alterações nos desenhos deles, é muito incrível! Eles sabem que tem poses que eu faço pra eles”. Apesar de remeter a uma prática associada às Belas Artes, o Risco! se diferencia
da tradição europeia das sessões de modelo vivo, justamente por proporcionar vínculos muito profundos, ainda que possam se restringir àquela atmosfera intermitente. Uma das peculiaridades do grupo é ser heterotopia, então, no que diz respeito às diferentes camadas de contato humano estabelecido durante os encontros.
DEMÉTRIO E A FIGURA HUMANA NA ARTE "Eu senti muito isso, é como se algo tivesse se desligado, me senti meio regida pela modelo e, ao mesmo tempo, não, como se houvesse uma conexão. Porque você realmente se sente muito conectado! E você mergulha de um jeito que quando acabou eu fiquei, tipo, 'voou, né?'" (Letícia Maciel, rabisca para passar o tempo - e a vontade) Em relação à prática de desenho, existem também peculiaridades do processo criativo que se desenrolam no ambiente experimental. Nas palavras de Demétrio Albuquerque, artista plástico, “você capturar exatamente a expressão do modelo se torna uma caligrafia, né? E muitas vezes quando
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FOTO: Kátia Fujita
eu chego em casa e tento repetir, sai frio. Não sai a mesma coisa, então eu desisto. É melhor desse jeito mesmo, tem imperfeições mas… tá bom!”. O desenho rápido, nesse contexto, se diferencia do esboço porque caracteriza a expressão de um instante e não tem necessariamente a pretensão de alcançar, no final, um formato pré-concebido pelo criador. A produção que acontece durante o Risco! vai além do estudo de forma, luz e sombra, pois, segundo o artista, “é mais do que o corpo anatômico pra ser capturado, já é a busca da expressão do que o corpo pode dar”. Mesmo no primeiro contato com o coletivo, já é possível perceber a lógica singular a partir da qual se processam as sessões de modelo vivo. Quando eles promoveram uma sessão com interação com as esculturas do artista em exposição na Galeria Janete Costa, localizada no Parque Dona Lindu, por exemplo, Demétrio conta que estavam
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receosos de que houvesse a desvirtuação do momento de desenho, por conta de um público que poderia não estar preparado para a nudez. A reação das pessoas, no entanto, foi de encantamento, provando que a arte não precisa ficar restrita ao universo erudito. A atmosfera criada pelo Risco! transcende o espaço físico e os tabus cotidianos, conferindo-lhe o caráter de heterotopia urbana: uma vez iniciada a sessão, as regras são outras. Sendo assim, ao pensar no figurativo humano, o desenhista percebe na performance o que diz ser “a última fronteira do artista: o próprio corpo”. É tensionando os limites entre uma matéria da formação clássica de Belas Artes e a arte contemporânea, portanto, que o grupo de estudos provoca a reflexão acerca dos limiares que envolvem a figura humana nas artes visuais. @riscoexperimental
GALERIA Este é um espaço para contato inicial entre público e artista através da Propágulo. Estamos sempre à procura de novos artistas. Envie seus trabalhos para:
propagulo@gmail.com
B010 Linoleogravura AbraĂŁo Sednanref @zoutro 44
The Goat Nanquim e digital Sofia Carvalho @sofiacrvo 46
Mother Earth, the storyteller Grafite sobre papel Lucie Salgado @luciesalgado 48
Descendentes de sunRa TĂŠcnica mista TheFurmiga @furmig 50
Pretty boi TĂŠcnica mista Magris @mmagriss 52
Sem tĂtulo Pintura digital George Teles @george.teles
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2º edição [2019] 600 exemplares Esta revista foi impressa pela Companhia Editora de Pernambuco, com miolo em papel offset 120g e capa em triplex 250g com laminação fosca