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Revista Correio dos Sertões

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Pintura retratando Canudos

O pequeno povoado desfruta de uma posição privilegiada. Localizado à margem do Vaza-Barris, numa região onde corre alguns afluentes do citado rio. Por lá passam algumas estradas, tendo caminhos abertos à penetração do rio São Francisco. Dada a manutenção dos contatos econômicos e sociais com vilas e cidades da região, o arraial foi criado em uma área que possibilita o acesso dos simpatizantes do Conselheiro. Devido ao número de seguidores, o peregrino encontra um local

próximo a uma fonte de água e que tem uma razoável base econômica inicial, permitindo atender às necessidades mais imediatas. Logo ao se instalar às margens do Vaza-Barris, em meados de junho de 1893 Antônio Conselheiro alterou a denominação do local, passando a chamálo de Belo Monte. Lá encontrou um pequeno núcleo com cinquenta casebres. O centro do arraial é formado pela igreja velha e pela igreja nova – cuja construção começou em 1894,

sendo conselheiro o responsável pela construção de ambas – e nas proximidades de um conjunto de casas que formam o centro comercial. As casas, em sua maioria, são construídas na forma tradicional do sertão, usando barro e madeira entrelaçada. Há umas duas ou três casas de melhores condições. Do morro da Favela, quem observa tem a impressão inesperada de achar-se antes uma cidade extensa, dividida em cinco bairros distintos e grandes. Não há propriamente ruas,


Belo Monte O lar dos Conselheiristas “Que horizonte mais errante Que crendice mais descrente Que descrença mais distante Que distância mais presente Que distância mais presente Desgoverno governante Quanta gente confiante Em Antônio penitente” (Edu Lobo) Igreja velha de Santo Antonio

que tal nome não se pode dar às vielas tortuosas, cruzandose num labirinto intransitável. A maior parte dos que migram para o arraial veio das áreas já percorridas pelo Conselheiro, mas também há aqueles provenientes de regiões mais distantes, atraídos pela lenda do “santo sertanejo”.

foto: Percurso


Situação social Quem são os seguidores do “Mito” Conselheiro?

O tamanho da população é incerto. Eram mais ou menos cinco mil e duzentas. Aceitando-se uma média de cinco pessoas por morada, o que julgamos razoável para famílias sertanejas, temos cerca de vinte e seis mil habitantes. Tal população é superior a qualquer outra do estado, com exceção da capital brasileira, Salvador. O cálculo é evidentemente irreal. Não temos como calcular o crescimento

demográfico de Canudos nos últimos anos. Todos os números disponíveis até hoje se baseiam em dados fornecidos por Euclides da Cunha, jornalista que acompanha o caso, e indicam uma progressão verdadeiramente geométrica na população do arraial. Segundo sua versão, 1250 sertanejos, 5000 em 1895 e chega aos 25000 em 1897. Os municípios vizinhos da freguesia do Cumbe contavam,

em 1892, com populações que variavam de 4.504 habitantes a 17995. A freguesia onde o Conselheiro reuniu seu pessoal só em 1899 foi elevada à categoria de vila. Torna-se quase impossível supor que o arraial

conta com um número maior de habitantes que os de um município. Parece difícil imaginar que o governo local não se mantenha atento para a impressionante concentração populacional que o


ANtônio Conselheiro

“Humilhado e abatido Procura abrigo no sertão Iniciando assim A sua jornada de peregrinação.” (Paulo Vinício)

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu na vila de Quixeramobim, província do Ceará, em 1828. Filho de um comerciante remediado, estudou português, francês e latim e assumiu os negócios falidos do pai depois da sua morte. Casou-se em 1857 e, liquidada a casa comercial paterna, chegou a lecionar português, aritmética e geografia, mas acabou se tornando caixeiro viajante. Sua vida seria, porém, completamente alterada pela vergonha sofrida com a fuga da mulher, amasiada com um militar. A partir desse momento, teria passado a vagar pelo sertão em busca dos traidores para vingar a desonra, dando início à vida errante. Logo as primeiras notícias sobre um estranho personagem que, no interior de Sergipe, dava conselhos, restaurava igrejas e era chamado de Antônio dos Mares. Preso em 1877, acusado de matar a mulher e a mãe, foi solto por falta de provas. Depois de 1889 (Proclamação da República), Antônio

Conselheiro continuou a percorrer cidades, vilas e arraiais, reformando igrejas e cemitérios, sendo cada vez mais ouvido pelos sertanejos e consolidando a sua liderança religiosa. O conselheiro prega aos seus fiéis. nos “dias de conselho”. Conhecedor da bíblia, fala sobre os mandamentos, condena os pecados, aconselha para o bem, citando, não raro, frases em latim. Depois da Proclamação da República, porém, as questões políticas foram entrando no desenvolvimento de suas falações. O Conselheiro diz não reconhecer o governo, impede o pagamento de impostos e faz questão de esbravejar “Não me representa”. Verbera contra o casamento civil, a separação da Igreja do Estado, a secularização dos cemitérios. Nem o fisco nem a polícia conseguem chegar a Belo Monte. Pergunt amos a ele se a posição e construção de Canudos foi pensada de forma a impedir a ocupação das unidades de pacificação do Exército Brasileiro. Sua resposta foi:

“Isso é uma Fake News difundida por essa imprensa golpista, defensora dessa república! Querem me derrubar a todo custo” Perguntamos também, o motivo da população ser fortemente armada:

“Por que eu estou armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! (...) Eu quero todo mundo armado! Que povo armado jamais será escravizado. Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro…”


“governo paralelo” e com isso enviaram 3 esquadrões militares ao local, a fim de dispersar a população. Porém, todos falharam. Segundo nosso correspondente de Salvador (DF), o Presidente Prudente de Morais diz estar preocupado com o crescimento de Canudos e a dificuldade de adentrar no local:

Prudente de Morais Presidente da república

O governo federal considera inadmissível que um grupo de cidadãos brasileiros ergam um

Oficiais do 28º Batalhão de Infantaria

Outros militares alegam que há barbárie em ambos os lados.

Divisão de Artilharia Canet posando para foto na cidade de Monte Santo, base das operações do exército brasileiro na Guerra de Canudos. Na foto está a temida “matadeira”, apelido dado ao canhão Withworth 32, utilizado na última expedição militar enviada a Canudos.

momento em que a necessidade de afirmação da República é extremamente importante, um líder religioso e defensor do antigo império se torna inimigo do Estado” Sobre as dificuldades de ataque militar ao local, o presidente inteira que:

“As ideias de Conselheiro espalham e sua influência se estende para todo sertão, contrariando a nova república e, até mesmo se recusando a pagar impostos. Neste

“ Te m o s que concordar que Conselheiro escolheu a região pensando na possibilidade de um ataque governamental e daí buscou um local distante, de difícil acesso, pensando em transformá-lo em uma fortaleza

Essa tese foi d e f e n d i d a principalmente pelos militares, que dizem estar preparados para um 4ª ataque ao local. Uma expedição sob o comando do general Arthur Oscar, constituída de 8 mil homens e dotada

de equipamento moderno se dirige ao local. “Para os nossos oficiais positivistas e os políticos republicanos, esta é uma luta da civilização contra a barbárie.” Diz o general Arthur Oscar


O messias Dos colaboradores religiosos do Conselheiro e da liderança dos combatentes pouco se sabe. Entre os negociantes é que se encontram os “conselheiristas” de mais alta posição social. Antônio da Mota, dedicava-se ao comércio de couro e tinha uma loja no centro do arraial. Antônio Vilanova era o mais famoso comerciante do arraial, acusado de ter enriquecido em Canudos, tem ampla rede de amizades na região. Há, entre os integrantes da “guarda católica”, responsável pela defesa do arraial e de Conselheiro, um pequeno grupo mais importante. Chamados de os “12 apóstolos”. O comandante da guarda é João Abade, que juntamente com Antônio Vilanova forma a dupla de poder decisório na sociedade de Belo Monte. No entanto, o Conselheiro ainda tem a palavra final. Um jovem garoto de 14 anos, questionado sobre o que o Conselheiro prometia aos seus fiéis quando eles fossem morrer, foi simples ao responder: “Salvar a alma.”


Editoria Capa: Lucas Maximiano Concepção Editorial: Lucas Maximiano Rodolfo Silva Edição: Lucas Maximiano

Fotografias: Flávio de Barros Reportagem: Lucas Maximiano Rodolfo Silva Euclides da Cunha

ATENÇãO

Esta é uma obra ficcional inspirada em fatos reais. Alguns diálogos e falas são apenas ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


Indice: Belo Monte- O lar dos conselheristas----------01 Situação Social------------------------------------03 Antônio Conselheiro------------------------------04 Presidente Prudente e General Arthur Oscar--05 O Messias------------------------------------------06 Editoria---------------------------------------------07


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