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Quack 2

Page 1

Quack 2 verão d e 2 0 2 0

Edição solo


b e m m a i s q u e o t e m p o q u e n ó s p e r d e m o s f i c o u p r a t r á s t a m b é m o q u e n o s j u n t o u

you are the reason, my mis

ii n nc cu u rr a ab b ll e e h h yy s s tt e e rr ii c ca a ll SO SAVEI’ M ME WAITIN G I HE NEED IT A R ME PLE ADIN G

n n n n n

o o o o o

b b b b b

ちょっ と だけ ロ ン I t h o u g h t A

I T S

I’m just a bit lonely

what about my way, makes you doubt all these words from my mouth?

a

l o n g

I’m gonna give you what you want, babe

Y OAND U WII LWL ODURLIDF TMAI W N DAY

ll e es ss s i

W E

W O R L D

C R A Z Y

l o v e

y o u

now that I know you

ww oo uu ll dd

yy oo uu

hope you find your

PARADISE

mm aa kk ee

mm ee

dd ii

andyouwillbeonedayexa


ン リ ー y o u d i e d L I V I N G

E ' R E

I N

another season; of the same old feelings

stareatthetvscreen y o u ’ r e

f o r e v e r

c r u e l

a l o n e t i m e a g o

l o n g

p i c t u r e s c a m e a n d b r o k e yo u r h e a r t

m a k e

anotherlonelynight

o f

y y y y y

m a d e

d d d d d

a r e

o o o o o

a r g u m e n t s

e e p pa a rr a an no o ii a ac c d de ep p rr e es ss s ii o on n

o u t s

ssion, my lover, my complaint.

ネバーランドに連れてって 一切合切奪ってよ take me away to neverland

ee

ii nn

yy oo uu rr

steal away everything I have

hh aa nn dd ss ??

actlywhatyouare

newyou2019, ato II


Conteúdo Editorial 4 Uma poesia em dingbats, pra você não ler 8 sem título 1

10

Futuro título de um futuro texto

12

Contos que eu nunca escrevi

16

Dezoito ou vinte e duas horas

20

You will never know why – Crystal Clear edition

22


fourteen q u i e t

t h e s e

h o u r s

i n w h i t e

s a n d

c a n

i t ’ s

j u s t

y o u r

a

o f i

s l e p t

p l a c e

a n d

s e n s e h o w

d a y s

a

v a g u e

y o u t h

g e t

t h r o u g h

v i o l e n t

t r u t h

s i xt e e n fif t e e n t h a t

I ’ m

l i k e

l o n e l y

n o

b u t

o r

o f

y o u

s t i l l

c r o s s e s i t ’ s

h o u r s

s u n

d r e a m s

f a r

t r a c e d a

t h a t

d e p t h a l l

f r o m i n

v i o l e n t I ’ m

y o u

l i k e

a l o n e

r e a c h

w h i t e t r u t h y o u

s a n d


Editorial Há pessoas assim. Conhecemo-las através da História Universal. São, ao que parece, poucas em cada época, mas não as esquecemos porque são uma totalidade que nos ultrapassa, que nos espanta. Encontram-se no Renascimento, onde o pensamento e a ação se levantavam da procura, investigação e curiosidade, e nessa pesquisa tudo se juntava, tudo urgia. Os clássicos não respondiam ao tempo que era urbano, mas era outro. Tudo era ensaio e suplantação.

**** ** ***** absorveu na juventude, através de um grupo excepcional de amigos, o espírito crítico por meio das artes que, entre os dois Grandes RPGs, se distribuiu em “laits” diversos. Integrouse num grupo de TCG para a criação de um Cubo de 460 cartas. Pelo que se sabe desse seu primeiro período de TCG, o espírito de formatos antigos, de 2004, RS-PK e Better Expanded. Já era criador de arte no design, entrelaçando trabalhos autorais entre suas tarefas de faculdade e os primeiros estágios. Apenas não figurativa, a sua produção sujeitava-se a um estilo próprio, que se desliga do international style e convenções do design gráfico. Deste ficam, por vezes, os trabalhos chatos que precisam ser terminados em prazo curto.

Quando penso em **** ** ***** penso em seu primo mais velho, que o ensinou a combinação ideal de botões para emulação. X é A, C é B, A é frameskip, assim consegue-se zerar qualquer jogo de Pokémon em tempo recorde. Hoje, a especialização é o resultado de um saber universal que se guarda virtualmente e, naturalmente, não se pode abarcar.

Este conjunto de imagens aponta para a sua falta de diversidade de expressão e de suportes. É um mundo contemporâneo devolvido de maneira mais simples possível. Seja qual for o suporte (pois sempre é o mesmo), é um mundo muito seu, que não se difere de outros mundos muito outros. É difícil, hoje, averiguar sua influência em qualquer ser humano, pois não há ninguém que se importe. Mas sabe-se bem em dois campos o seu papel. (Nota do editor: Não sabe-se bem em dois campos o seu papel.) **** ** ***** têm fraqueza a fogo, resistência a água e dois de custo para recuar.


My fav o r i t e s o n g Rem i n d s m e o f t h e f irst time I went to space A n d t h e n y o u took every thing from me I t w as s u c h a l o n g j o urney I w a s l e f t h e r e , a shell of my self I t took h o u r s , d a y s , years I w a s l e f t h e r e to pick up the piece s But wh e n i t w a s o v e r... A n d e v e r y p i e ce was... Oh, it t a kes m e b a c k Lo v e , g i v e m e love T hat t akes m e b a c k to the first time T h a t ’ s w h e n y ou saved me I st ep p e d i n t o s p a c e A t th e l a s t p o s sible moment Yo u we r e t h e r e Yo u b r o u g h t your big hand out Yo u we r e t h e r e w i t h a ll my best friends A n d s c o o p e d up my ship I reme m b e r A n d t o o k m e h ome I reme m b e r t h e l o o k on your face T h a t d a y y o u gave a new faith T he wa y y o u s a i d , w i th your eyes In h o w p e o p l e can save one anoth er Yo u sa i d In s t e a d o f a l ways putting out their hands A nd t h en I s l i p p e d o u t of the Sun’s sphere of inf To c r u s h Nothi n g w a s h a p p e n i ng I t w as s o d i z z y i n g


Uma poesia em dingbats, pra vocĂŞ nĂŁo ler


eu disse que estava feliz o mais feliz que ja estive olhava o ceu azul a trilha de fumaca deixada pelos avioes e trens azuis musica do carrefour we never have enough time to show our love

the sun will blind my eyes

era dezembro

eu nao estava feliz

lista das que eu mais gostava

agora eram as proibidas

pois me lembravam do azul

trilhas e trilhos

que eu joguei pela janela

e quase pulei para recuperar

de bicicleta amarela

chuva acida

e cheiro de sangue

i love you anyway

era junho

era abril eu disse que ja fui feliz e nunca mais poderia ser olhava o ceu azul trilha de vapor que voce deixou tive que pegar para mim mesmo tive que ir ouvir ao vivo balancar meus longos cabelos e prometer a mim mesmo a mudanca nao tenho registros apenas memorias de oculos abafados e guitarra colorida


sem título 1 s o b r e a c h u v a de primavera e a r u a t rê s r i os

[Nota do editor: Esse texto foi escrito em dezembro de 2018. Na época, estava em meu estado mais quebrado, dissociado e vulnerável. Um ano é muito tempo, e a diferença é muito visíviel, mas vale a pena olhar para o passado.]


g a r r a fa d ’ á g u a d e 1 l i t r o , o s o n h o d e u m a v i d a f i t n e s s e a t é a s u s p e i t a d a p r é d i a b e t e s m e f i ze r a m u m a p e s s o a m u i t o h i d r a t a d a , e , p o r c o n s e q u ê n c i a , m i j o n a . O prédio tem cinco andares e um banheiro por andar, exceto pelo quarto, onde coincidentemente eu me encontro. Desço as escadas e encontro o banheiro vazio — um alívio, já que atende dois andares. Ele não têm nada de especial, três cabines, três pias (a terceira espirra água na sua calça), um grande espelho vertical e outro horizontal. Minha parte favorita é a janela, a vista para a Rua Três Rios não é bela, mas aprendi a apreciar seus prédios e árvores centenárias dividindo o espaço dos carros, bicicletas e mendigos do Bom Retiro. Nessa janela, eu praticava um pequeno ritual: matar trabalho e olhar a vida acontecer. Era uma fria sexta de outubro, as copas das árvores ainda dividiam diferentes tons de verde enquanto não abriam suas flores. Chovia de leve, milhões de gotas rápidas e silenciosas esbranquiçaram a paisagem urbana. Primeiro pensei na neve. Nunca saí do país, será que teria a mesma visão? A neve caia tão rápido assim? O pensamento de viagens internacionais ainda machuca. Guardo para depois. Pe n s e i n o f i m d o m u n d o , a s s u n t o m u i t o m a i s c o n f o r t á v e l . S e r i a c h e i o d e f e i x e s brancos caindo do céu? Efrim Menuck descreveu a beleza dos céus enquanto incendiados, lavados numa névoa laranja. Muito mais poético. Dan Barrett tenta se i m p o r t a r a o v e r a s e s t r e l a s q u e i m a n d o . Q u a l é a d e s s a o b s e s s ã o c o m o f o g o ? Ta l v e z a chuva não seja o fim do mundo. O vento mudava de direção, jogando a chuva contra mim. Não liguei muito, até apreciei. Sim, eram milhões de gotas por segundo, mas era necessário muito mais do que isso para molhar ou fazer peso no meu cabelo. Um meio-topete, meio-afro que segura os mais fortes ventos, e ri na cara dessa chuvinha meia-bomba. N u n c a e n t e n d i p o r q u e g o s t a v a t a n t o d a c h u v a , o u p o r q u e a s p e s s o a s fa l a m d e l a c o m tamanho desprezo. “Essa é sua primeira enchente?”, pensei. Isso não é uma enchente, q u e e x a g e r o . Ta l v e z p a s s a r p o r u m a m u d a r i a m i n h a p e r c e p ç ã o . Num dia desses, achei que as pessoas ficariam com mais vontade de ir ao banheiro, mas já passaram uns 5 minutos e nenhum homem no terceiro ou quarto andar veio aqui. Um recorde, já que não posso nem lavar minhas mãos sem ter que cruzar com alguém muito mais altoastral do que eu, ou um diretor fazendo cara feia (aquela cara feia que os diretores fazem). Uma sexta-feira milagrosa. Dependeria da minha própria consciência para subir de volta ao quarto andar (risos). Após perder a noção do tempo, escuto a porta abrindo. No susto, me viro e vou em direção a ela, cruzando com um diretor e sua cara feia de diretor. Uma rápida olhada n o e s p e l h o e v e j o m i n h a c a m i s a x a d r e z v e r m e l h a e m e u c a b e l o p r e t o r ef l e t i n d o a l u z que o diretor acabou de acender. Milhões de gotas que pesaram no meu cabelo e m o l h a r a m m i n h a r o u p a . To u c h é . N ã o a s s e c o . Foi a última vez que consegui refletir um bom tempo sobre o fim do mundo e o vazio do banheiro mais cheio da empresa (talvez o do segundo andar seja mais cheio ainda?). Normalmente penso sobre os problemas do trabalho e da minha vida pessoal. Finalmente achei que estava me curando. Não estava.


Futuro tĂ­tulo de um futuro texto


exto escrito direto no Indesign. Escrever por escrever. Ninguém quer ver uma diagramação feita em lorem ipsum, então preciso escrever. Já tentei me apoiar em escritores diversas vezes na vida, todas falharam, e as vezes que consegui publicar alguma coisa (meu TCC) tive que escrever tudo mesmo. Então é isso. Texto de Indesign. Texto de designer. Designer não deveria escrever, muda palavra e tira conteúdo pra conseguir caber coluna na coluna, linha na linha. Sem revisor e sem word, corretor automático, não vou saber onde coloco os acentos corretos, ou uso a palavra certa. Assim como sempre. Já que falei de tempo, vamos falar de tempo: não temperatura, não estação, falei dessas também, já significou mais no passado. Tempo como tempo, passagem, passado e futuro, horas e minutos. Esses tempos decidi parar de usar relógio e parar de olhar as horas, eram uma ferramenta muito forte para minha ansiedade, e percebi que não importa. Não importa muito que horas eu chego, quanto tempo faço de almoço, que horas vou embora, vou dormir, vou acordar. Quando importar, uso o celular. E quando importar, volto a ficar ansioso, sempre sou o primeiro a chegar, sempre fui atrasado, não serei mais atrasado, mas não quero ser mais adiantado, esperar quinze minutos. Digo que é muita coisa, os quinze minutos. Sempre digo que um ano é muita coisa e as pessoas me contrariam, o tempo passa muito rápido, as pessoas crescem, parece que estava ontem na escola. Talvez pra você, eu sinto cada segundo, cada minuto, cada batida, estou preso, chronolock. Uma noite sem dormir não é uma noite, ainda mais pra quem dorme cedo, no meio da minha crise descubro que ainda são dez da noite e ainda preciso sentir cada segundo até o sono vir, que deve ser lá pra uma da manhã. Dez mil e oitocentos segundos. Todos repetindo o mesmo sentimento. Em um ano, já fui três pessoas diferentes.

Só que de noite não funciona assim. Em viagem, certa vez fui dormir as 18h, era pra ser um cochilo, que se (extendeu? estendeu?) até 2h30, onde eu senti cada segundo enquanto ouvia Sonic Youth, Dinosaur Jr. e My Bloody Valentine. Esse dia, abri todas as portas e vi o nascer do sol de Lindóia enquanto ouvia as três primeiras de Cosodorokitsune, meu álbum favorito, assim como aquele outro dia que ouvi as três últimas assistindo a lua cheia crescendo no horizonte. Batida por batida, segundo por segundo, Kamome tem nove minutos, sentidos um a um.

I bought a Ferrari. I bought a Ferrari.

I’m just joking!

Ye a h ! ( y e a h ! ) Ye a h ! ( y e a h ! ) Ye a h ! ( y e a h ! ) Ye a h Ye a h Ye a h ! A música que eu mais gosto agora tem só dois minutos e nove segundos. Esses passam voando, sinto as notas e, de maneira milagrosa, acabou assim que começou. Quando ando na rua, parece que pulei dois minutos e nove segundos da vida, que ficaram para trás junto com as pessoas estranhando o balançar da minha cabeça e minha voz falando consigo mesma.

Vê o problema do texto do designer? Quando a página acaba, ele acaba junto.


Sunday comes alo perfect day for a q you - you will set i new morning roun Everybody says it / And now - now it See the magic in y it come as no surp - you turn your ey you - you turn it al


one again / A quiet friend / And it free / I see nd your face / ts another phase ts come to me / your eyes / I see prise / And you yes away / Yeah ll away / I guess Esta é a página correta. Não que a outra esteja errada, mas como já foi dito, a outra era a quebra da norma, esta seria apenas a própria. Talvez uma verdade, ou a mensagem. No caso, não tenho nenhuma mensagem que quero passar, por isso desejo alguém que tivesse algo relevante, bonito ou apenas melhor.

(É só o texto da página da esquerda) De preferência ele encheria a página, possivelmente em duas colunas, mas eu não tenho conteúdo o bastante ou não consigo encher muita linguiça, por isso você está lendo isso agora (ainda precisei colocar diversas palavras dentro de dois parenteses para conseguir o efeito desejado).


Contos que eu nunca escrevi


acordo com o meu Google Agenda, foi no dia [Nota do editor: ele deixou o dia pra achar depois e não achou. Meio de 2019?]. Não fui trabalhar, dificilmente falto ao trabalho, não me lembro se estava deprimido e decidi tirar uma folga para minha cabeça, ou só se havia acordado muito tarde e a preguiça tomou a decisão por mim. Precisava fazer um exame, o marquei para o período da tarde. Fiz, fui a uma loja de bolos pegar um de coco (muito ruim, aliás) e peguei um Grin hackeado que não me cobrou nada por muito tempo de uso. Parei na frente de uma escola de inglês, próximo a casa de umas amigas, onde ficava o ponto do ônibus. Não sei se ela era uma aluna ou professora, estava usando uma saia preta, meia-calça escura, uma camisa de botão apertada, fumando um cigarro enquanto olhava alguma rede social. Deixei o Grin hackeado ali, esperando por meu ônibus. Não queria ficar olhando para ela como se fosse pervertido, mas eu gostei dela, trocamos um ou dois olhares. Um carro queria estacionar, cada um foi para um lado, percebi que devia estar sendo estranho e deixei ela pra lá. Meu ônibus chegou, subi e parti para casa. Essas trocas de olhares costumam acontecer, durante momentos de tranquilidade num vagão-não-tão-cheio ou um restaurante no horário do rush, mas depois de bastante convivência com amigas de trabalho, descobri que elas costumam ser acidentais e estranhas, incomodam bastante. Algumas poucas me inspiram, já que a vida é ordinária e sem graça, transforme o que dá num romance e tente fazer da sua vida alguma coisa colorida e significativa. Pequena pausa para um pensamento: será que eu já fui o muso de alguém? Cabelo despenteado, camiseta do Jigglypuff e óculos escuros, inspirou alguém a fazer alguma coisa diferente? Romance? Nah. Me retirei: um protagonista precisa ser uma pessoa legal e interessante, coisas que não sou. Ele provavelmente andaria de moto, muito mais rápido do que um Grin hackeado, e muito mais legal. Se ele tem uma moto, têm cara de delinquente, aqueles pós-reforma (ou pós-fim-do-ensino-médio) que ainda estão se achando na vida. Aliás, isso é a parte mais importante: gente interessante não é gente bem arrumada, certinha, com um caminho traçado e bem de vida. Têm que ter os buracos na estrada. Provavelmente ela era professora, ensinava inglês não como sua profissão, mais porque era boa nisso. Se sabia inglês durante a infância e adolescência, era de família rica? Era. Estava fumando, também era delinquente, mas diferente da pós-reforma, essa era a pessoa correta, crescida dentro dum vaso de porcelana que a rebeldia da adolescência quebrou em dez mil pedaços. O famoso adolescente tardio, os dois no buraco. Caralho, quanta projeção.


Pera, que buraco? Ah é, eu me retirei do protagonismo, preciso de um buraco novo. Ele tem uma moto, comprou do vizinho que iria se mudar para a Europa, conseguiu um descontão, uma Harley velha que passou de pai para filho, não estava muito bem cuidada e não era muito usada, mas funcionava bem. Consumia mais do que uma Bis, mas era bem maneira. A moto mudou o jeito que via sua vida: sua família era totalmente quebrada, os pais brigavam mas não se divorciaram, era filho único então levava as brigas de seus pais como se fosse culpa sua. Saiu de casa aos 18, foi morar numa pensão e trabalhar como atendente de uma loja de autopeças, quando chamou a atenção do dono com sua Harley. Assim, conseguia pagar a pensão e a loja dava um bom desconto com a manutenção da moto, diminuindo muito os gastos. Fazia entregas no tempo livre, uma das pizzarias onde trabalhou colocava no panfleto: “Sua pizza chega de Harley”. Passaram-se alguns anos, juntou dinheiro o suficiente para alugar um pequeno apartamento, comprar os eletrodomésticos essenciais e morar sozinho. Fez umas tatuagens, se envolveu em algumas brigas, perdeu totalmente o contato com sua família, terminou um relacionamento. Assim, os vinte e muitos anos chegam com tudo. Porque eles querem ficar juntos? Já temos o nosso protagonista, a história vem toda da visão dele. Mas e ela? Ela vê o que quer dentro dele, quer se tatuar, fumar sem ouvir o seu pai encher o saco, andar de moto e sair de casa. Está fazendo cursinho para tentar convencer a família de que não vai virar advogada, não se vê trabalhando como isso, como nada. Queria fazer alguma arte, ou seguir no ramo da música, que tanto gosta mas nunca conseguiu aprender. Até mesmo virar professora de inglês não parece uma má ideia, mas o pai já disse que isso não é profissão, profissão é médico, advogado e engenheiro. Têm quase certeza que vai fazer administração, é o caminho menos sofrido, o que os dois lados irão aceitar, porém com muita dor e briga.

Como que os dois se conhecem? Provavelmente por causa do cigarro. Uma ótima desculpa pra um desses diálogos de início de romance. (Eu não sei qual é a minha com o cigarro, sou um quase fumante, penso nisso toda hora, vai ser uma coisa que não me fará nenhum bem, irá me deixar mais pobre, mais insuportável.) Ela é rica, têm uma marca melhor, que não se acha em qualquer padaria ou banca de jornal da cidade, só na tabacaria do shopping da outra cidade, mas o pai dela prefere esse. Discutir gosto de cigarro. Discutir o por que de fumar. Só discutir. Provavelmente uma projeção. Um encontro onde as duas partes sabem que não vai acontecer novamente, então precisam fazer uma força para que aconteça. ...só. Eu não sei o que acontece depois. Primeiro por não viver uma história dessas, e depois por simplesmente perder o tesão de escrever ou até pensar sobre isso. A narrativa pode ter centenas de caminhos ou finais, mas não sei qual quero seguir, otimismo ou pessimismo, final feliz ou final real, ou até a falta de um final. Que foi o que decidi. Falta de final e de meio, só começo. Engraçado.


you l o o k g o o d

s i l hou e t t e d i n t h e

bur ned o n t o m y

the gr e a t e s t t h i n g

w it h blue sky behind

bright sunshine

ret ina screen

I ’ve ever seen


Dezoito ou vinte e duas horas


How would you know it?

Era constante. Não de um jeito irritante, devagar, que te enche os olhos de raiva, era mais como uma bicicleta,

You’re the same when you’re living numa descida e segurando o freio. O vento as vezes

desarrumava o cabelo, outras sentia sua falta. Um dia

I don’t know it

trazia cheiro de almoço, noutro de pão e café. Daquela vez era um perfume doce, da adolescência, o que você

It won’t be this

jura que não vai esquecer, mas só lembra da outra vez que sente. As pernas tremiam, joelhos batendo, canelas

Just want to know, how far to live on d e f o r a , m e i a p r e t a c o m d u a s l i s t r a s b r a n c a s . Te n t a v a identificar todos os instrumentos, mas era cacofonia,

Just want to know, how far to I’ve on já estava acostumado a não entender, então pra quê se frustrava? Haviam momentos de calma, claro. Dava pra

All of the time you wait, there’s someone out there ver a silhueta de cada um, os movimentos mentirosos de

quem já ensaiou. Não identificava pela forma física, mas

And no one can find all the red

pelas pintas do pescoço, as cicatrizes no braço, o ódio Navio desembarcava pelo que se mostrava nos cabelos, um tinha uma barba, outra leste–ou era oeste?–e sempre usava o mesmo relógio. Tirou de letra. Deu um levava consigo aquelas aconchego, o ouvido acostumado identificou todos depois imagens boas com gosto que a música acabou. de sal e barulho de serra. O piano fechava, tinha aquele ruído que deve ter no disco de vinil, grilo e conversa boa. Sempre achou o instrumental a melhor parte.


You will never know why – Crystal Clear edition [Nota do editor: Esse texto foi escrito para a edição #2 da Quack, que sairia em algum momento entre novembro de 2019/ março de 2020. Talvez ele tivesse um final, ou fosse bem mais desenvolvido. Porém, ele não foi.]


okémon Crystal Clear é uma transformação. Contendo um criador de personagens, escolha entre começar o jogo em Kanto ou Johto, 30 iniciais diferentes, um mundo quase totalmente aberto, novas localizações e novos tipos de desafio, Crystal Clear me cativou como nenhum título de Pokémon cativava a muitos anos. Jogado num emulador de celular na Linha 5 Lilás e acompanhado por Sweet Trip - You Will Never Know Why, os dois se misturam com minhas memórias de jogar o Crystal original 20 anos atrás.

Supertramp: A última escolha de minha equipe, entrou após eu me frustrar muito tentando capturar um Sneasel (1% de chance, e apenas de noite). Achado nos fundos do National Park, ali aonde têm o Dig, sabe? Foi uma pequena euforia. Acabou sendo um dos meus Pokémons mais fortes, levando grande parte da Elite 4 sozinho.

Cuiaba: Junto de Operator, escolhido depois de jogar muito tempo com Quagsires no Pokémon TCG. Acabou funcionando como o meu botão de pânico pela maior parte do jogo, já que evolui cedo e sua movepool é abrangente. Matador de Dragonites. (Não faço ideia o porquê do nome.)

Soramame: É o nome de uma música/EP da Shojoskip, que mais tarde viraria “Faba Bean Thought To Be Abstract”, uma música bem melhor do que Soramame original, um épico de Post-Rock de 9 minutos; e o fechamento do melhor álbum de todos os tempos. Também é um Exeggutor muito forte. RPM: Meu inicial, um Hitmonchan que tinha High Jump Kick. O plano era de um Hitmontop, por isso o nome, porém você não tem muito controle na hora de evoluir um Tyrogue no começo de jogo. Só dava ataques de luta, e as vezes um Counter ou outro.

Operator: Fiquei em muita dúvida se seria Criminal ou Operator, mas ele têm um rosto sereno e trabalhador (contexto: existe um Magcargo no TCG com a habilidade Smooth Over, referência a Sade e Michael Jackson).

Milk: A música do Sweet Trip, desse álbum mesmo. Lenta e bem triste [Nota do editor: também foi a minha música mais ouvida de 2019]. Adoro Togetics, e foi uma das primeiras escolhas. Fui obrigado a usá-lo como Stall, dado que ele é lento e sua movepool é bem triste. Ainda o adoro.


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